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Sociologia

 

Max Weber

2

A

Ordem Social como Dominação Legítima

2

Perda de Sentido e de Liberdade

9

 

Karl Marx

17

A

Ordem Social como Dominação Ideológica

18

O

Fetichismo da Mercadoria

24

Jessé Souza

33

Dilemas da Ordem Social Brasileira I

34

Roberto Schwatz

43

Dilemas da Ordem Social Brasileira II

43

Marcelo Neves

46

A

Desdiferenciação Funcional

49

Michel Foucault

54

A

Arte de Governar Neoliberal

55

Caderno de Introdução à Sociologia Professor Laurindo

2 o Semestre de 2012


 S OCIOLOGIA
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 Viana 
 
 
 

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Max Weber

O Problma

da Ordem

Social:

diagnóstico

weberiano

a) Projeto Sociológico;

b) Tipo ideal;

c) Ação social;

d) Dominação Legítima;

A ORDEM SOCIAL COMO DOMINAÇÃO LEGÍTIMA

A) PROJETO SOCIOLÓGICO;

Como costurar a ampla obra de Weber? Apesar de tal amplitude, há sim uma espécie de unidade metodológica. A Introdução, que normalmente vem acoplada à “Ética Protestante”, dá-nos algumas pistas:

História Universal da Cultura
História Universal da Cultura

Compreender os aspectos que tornam a modernização ocidental peculiar - Weber tenta não fazer juízo valorativo mas reconfere que a cultura ocidental tende à universalização.*

Método comparativo e histórico;**

Como os campos de estudo (direito, artes, ciência) tornam-se o que eles são no Ocidente?

Como se chaga ao capitalismo de sobriedade burguesa?

O problema é o racionalismo peculiar e específico da civilização ocidental.

* “Qual o conjunto de valores a que se pode atribuir o fato de na Civilização Ocidental, e somente na civilização Ocidental, haverem aparecido fenômenos culturais dotados de um desenvolvimento universal em seu valor e significado” 1

Da última premissa, surgem questões adjacentes: como a religião, o direito, a arte e o próprio capitalismo se “racionalizam”?

** “Se não, por que não fizeram o mesmo os interesses capitalistas na China ou na Índia? Por que lá não alcançou o desenvolvimento científico, artístico, político ou econômico, o mesmo grau de racionalização que é peculiar ao Ocidente?

) (

dos tipos mais diferentes. (

Racionalizações têm existido em todas as culturas, nos mais diversos setores e

)

Por isso, surge novamente o problema de

reconhecer a peculiaridade específica do racionalismo ocidental, e, dentro desse moderno racionalismo ocidental, o de esclarecer a sua origem.” 2

1 M. WEBER, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo, Pioneira, 1987, p. 1. 2 Ibidem, p. 11.


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A racionalidade é a matriz do pensamento weberiano, e se desdobra na sistematização

(exemplo: o Direito Romano é considerado o mais importante justamente por sua forma, por sua constituição sistemática) e na matematização da experiência humana (manifestada na busca pela previsibilidade, calculabilidade).

Havia, na Alemanha de Weber, um debate a respeito da contraposição entre ciências sociais e ciências da natureza:

Ciências  Sociais
Ciências
Sociais

Cultura

Valores, atribuição de sentido

Ciências  Naturais
Ciências
Naturais

Natureza;

Leis cegas e mecânicas;

Reino da causalidade;

“Em sua Introdução às ciências do homem, publicada em 1883, Dilthey efetua uma distinção entre os métodos das ciências da natureza e os métodos das "ciências do espírito". O que propriamente distingue as ciências humanas das ciências naturais é o fato de se confrontarem com seres dotados de consciência que agem em função de valores, de crenças, de representações, de cálculos racionais e não se limitam a reagir aos estímulos do meio ambiente.” 3

INDIVIDUALISMO METODOLÓGICO

O ponto de partida da sociologia weberiana é indivíduo, que confere sentido às suas

condutas através de escolhas. Em vez de causa-efeitos, há relações meio-fim e previsão

[Sujeito – ação – meio-fim – previsão].

Sociologia compreensiva, interpretativa, afinal, tenta entender como os sujeitos atribuem sentido às suas ações (hermenêutica).

“Como ciência das atividades sociais, a sociologia é, segundo os cânones da epistemologia weberiana, uma ciência compreensiva e explicativa. Compete-lhe compreender e explicar a ação dos seres humanos assim como os valores pelos quais estes se pauta. 'Compreender por interpretação a atividade social'” 4

Ademais, sua sociologia é também histórica, comparativa e empírica. Weber usa da causalidade quando investiga o que provocou determinados fenômenos no Ocidente, no entanto, não identifica um fator como preponderante (Marx, por exemplo, identifica a economia como tal fator) no desenvolvimento dos seus objetos de estudo. Weber, dessa

3 M. LALLEMENT, História das ideias sociológicas, v. I, 4 a ed., Petrópolis, Vozes, 2008, pp. 263-264 4 Ibidem, p. 263


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forma, admite uma multicausalidade.

OBS: Marx, por exemplo, diferentemente de Weber identifica na economia o fator preponderante. Todavia, Weber não é um anti-Marx! Ele reconhece a importância da economia, porém não ignora a correlação oposta.

Afinidades eletivas: pode ser que o desenvolvimento interno de uma esfera convirja com o de outra, não acha, por exemplo, que a economia influencie de fora as outras esferas.

A)
A)

TIPO IDEAL;

Exemplos: o “Capitalismo”, a “Ética Protestante”, a burocracia, etc.

CARÁTER INSTRUMENTAL

O tipo ideal é uma ferramenta para o pesquisador, que o auxilia a formular hipóteses.

CARICATURA

O tipo ideal nunca é encontrado na sua forma pura na realidade, é, antes, uma

caricatura. “O investigador carrega nas tintas propositalmente”, acentuando

unilateralmente um ou vários pontos de vista.

É essa representação extrema da realidade que permite medi-la: quão próxima ou

distante está uma determinada comunidade desses tipos? Em suma, é uma Utópia Gnosiológica.

“Por outro lado, ele não é uma exposição do real, mas se propõe a dotar a exposição de meios de expressão unívocos. É, portanto, a "ideia" da organização moderna, historicamente dada, da sociedade em uma economia de troca ( Obtém-se um tipo ideal acentuando unilateralmente um ou diversos pontos de vista e concatenando uma multidão de fenômenos dados isoladamente, difusos e discretos, que se encontra ora em grande número ora em pequeno número, e em certos lugares de modo algum, que se ordena segundo os precedentes pontos de vista colhidos unilateralmente para formar um quadro de pensamento homogêneo (einheitlich). Não se há de encontrar em parte alguma empiricamente um tal quadro na sua pureza conceitual: é uma utópia" 5

5 M. WEBER, Ensaios sobre a teoria da ciência, Paris, Plon, 1965, p. 179-181


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REDUÇÃO

Toda análise sociológica é, afinal, uma redução da complexidade da realidade:

investigador seleciona. Assim, Weber só está explicando os seus critérios.

C)
C)

AÇÃO SOCIAL (TIPO IDEAL)

A sociedade é um conjunto de ações sociais interagindo, portanto esse é um mapa da sociologia weberiana.

valorativas 1 Racionais finalistas 2 AÇÕES afetivas 3 Irracionais tradicionais 4
valorativas
1
Racionais
finalistas
2
AÇÕES
afetivas
3
Irracionais
tradicionais
4

O tipo de ação racional é o que prevalece no Ocidente.

3)
3)

O

indivíduo age pelo afeto inconsequentemente, é guiada pelas paixões.

4)
4)

o

indivíduo age pela força do hábito, do costume, quase por reflexo (quase no lime do

conceito, pois a ação social pressupõe atribuição de sentido);

1)
1)

O indivíduo leva os valores até as últimas consequências, grau ético máximo, luta por um

valor que tem valor em si próprio.

2)
2)

O indivíduo tenta atingir da melhor forma possível (cálculo) um determinado fim

(relação meio-fim), ação instrumental, tende a tornar-se preponderante na sociedade moderna -> Nietzstche, esvaziamento ético.

D)
D)

DOMINAÇÃO LEGÍTIMA (TIPO IDEAL)

Assimetria entre quem manda e quem obedece. Qual a justificação para uma dominação?


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Carismática 1 DOMINAÇÃO Tradicional 2 LEGÍTIMA Legal- 3 racional
Carismática
1
DOMINAÇÃO
Tradicional
2
LEGÍTIMA
Legal-
3
racional

Justificada pela CRENÇA, pelo carisma do líder (tido como uma personalidade), terrenoDOMINAÇÃO Tradicional 2 LEGÍTIMA Legal- 3 racional do mágico. É o tipo mais instável: problema da

do mágico. É o tipo mais instável: problema da sucessão, tende a rotinizar-se nos outros dois tipo de dominação. Por outro lado, é também o tipo que permite maior inovação, pois não está atrelada ao código de usos e costumes nem aos estatutos de ordem legal.

“Dominação carismática em virtude de devoção afetiva à pessoa do senhor e a seus dotes sobrenaturais (carisma) e, particularmente: a faculdades mágicas, revelações ou heroísmo, poder intelectual ou se oratória. Obedece-se exclusivamente à pessoa do líder por suas qualidades excepcionais e não em virtude de sua posição estatuída ou se sua dignidade tradicional.” 6

Falta aqui o conceito racional de “competência” (a orientação não é dada por regras) assim como o estamental de “privilígio” Quem manda é o “líder”, os que obedecem são os “apóstolos”. Tal obediência é puramente pessoal e se sustenta apenas enquanto subsiste o “carisma”. Um grande problema que aparece, dada o caráter extremamente pessoal da dominação, é o da sucessão.

Justificada pelo poder da tradição, pelo código dos usos e costumes; muito importanteextremamente pessoal da dominação, é o da sucessão. e para patrimonialismo. entender o Brasil, onde encontram-se

e

para

patrimonialismo.

entender

o

Brasil,

onde

encontram-se

os

dois

subtipos:

patriarcalismo

Dominação tradicional em virtude da crença na santidade das ordenações e dos poderes senhoriais de há muito existentes. Seu tipo mais putro é o da dominação patriarcal. Obedece-se a pessoa em virtude de sua dignidade própria, santificada pela tradição: por fidelidade. O conteúdo das ordens está fixado pela tradição, cuja violaçãoo desconsiderada por parte do senhor poria em perigo a legitimidade do seu próprio domínio, que repousa exclusivamente na santidade delas.” 7 (pags.

131)

Quem domina é o “senhor”, os que obedecem são os súditos, e o quadro

6 M. WEBER, Weber, Org. G. Cohn, São Paulo, Ática, pp. 136. 7 Idem, p. 131.


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administrativo é formado por “servidores”. Esse quadro é composto por pessoas que tenham vínculos pessoais ou de fidelidade com o senhor, e nele falta o conceito burocrático de “competência” como esfera jurídica objetivamente delimitada. Além da estrutura patriarcal, Weber aponta como tipo dessa dominação a estrutura estamental, marcada por privilégios e na qual falta a categoria de “disciplina”.

3)
3)

Justificada pelas regras gerais, impessoais e abstratas, afim ao Estado de Direito,

articulada ao quadro BUROCRACIA (eficiência máxima dos recursos humanos e materiais). Foi fundamental para a emergência do capitalismo moderno.

“Seu tipo mais puro é a dominação burocrática. Sua ideia básica é: qualquer direito pode ser criado e modificado mediante um estatuto sancionado corretamente quanto à forma. ( ) Obedece-se não à pessoa em virtude de seu direito próprio, mas à regra estatuída, que estabelece ao mesmo tempo a quem e em que medida se deve obedecer.” 8

Assim, aquele que manda é o “superior”, e sua legitimidade vem da crença dos súditos na legalidade da “regra estatuída” que lhe confere poder de mando, no âmbito de uma “competência concreta”. O funcionário é o “profissional” assalariado, cujas condições de trabalho estão expressas em um “contrato” e são marcadas pela hierarquia e disciplina. São exemplos desse tipo de dominação: a estrutura moderna do Estado, as relações dentro da empresa capitalista privada, quadros administrativos quando predominantemente burocráticos, todas as modalidades de corpos colegiados de governo e administração, etc.

RACIONALIDADE JURÍDICA

Critério interno/externo:

1)
1)

Formal: meios e procedimentos que dão consequências jurídicas

2)
2)

Material: fins, teleológica, sistema é instrumental para algo. -> ponto de vista externo ao

sistema – legitimidade substantiva.

8 M. Weber, Weber cit., pp. 128-129.


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Weber usa um método comparativo e histórico, que busca identificar a especificidade da civilização ocidental;
Weber usa um método comparativo e histórico, que busca identificar a
especificidade da civilização ocidental;
Individualismo metodológico: parte do indivíduo e de como ele confere
sentido às suas ações (hermenêutica) através de previsões e das relações de
meio-fim;
Tipos ideais: são ferramentas teóricas, representações caricaturais da realidade
que permitem medi-la ao reduzir sua complexidade;
O tipo de ação racional finalista, meramente instrumental, é a que prevalesce
no Ocidente;
A dominação pode ser justificada pelo carisma (ex: Dalai Lama), pela tradição
(ex: estrutura patriarcal) e pela racionalidade (ex: Estado de Direito).
PONTOS IMPORTANTES

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PERDA DE SENTIDO E DE LIBERDADE

O

Diagnóstico

Weberiano

II

a) Premissas;

b) Desencantamento do mundo;

c) Ética Protestante;

d) Perda de sentido e liberdade;

e) Saídas?

OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS

OBRA DICOTÔMICA

As influencias românticas e nitzschiana em parte de sua obra levou a um caráter

"trágico" da mesma, em contraste a seu lado entusiasta e reformista.

A leitura da sociologia weberiana marca profundamente a sociologia jurídica

brasileira, que a vê como um “mapa para a mina da modernização” e que frequentemente deixa de lado os aspectos mais críticos e sombrios do diagnostico weberiano.

O DIAGNÓSTICO WEBERIANO

Esse diagnostico nunca foi elaborado de forma sistemática, aparecendo de forma muito fragmentada, através de trechos presentes em obras dispersas.

Habermas: faz uma reconstrução do que seria esse diagnostico weberiano negativo da modernidade, através de duas teses:

Com o avanço da racionalização observamos uma perda gradual de sentido no perda gradual de sentido no

mundo e nas relações sociais das quais fazem parte os sujeitos, e com isso há uma perda também de liberdade. Há um aumento progressivo da dificuldade de atribuir sentido, explicar o porque de suas ações.

de atribuir sentido , explicar o porque de suas ações. Racionalização Sentido e liberdade Nesse contexto,

Racionalização

, explicar o porque de suas ações. Racionalização Sentido e liberdade Nesse contexto, o indivíduo passa

Sentido e liberdade

Nesse contexto, o indivíduo passa a ser coagido a adotar certos cursos de ação,da dificuldade de atribuir sentido , explicar o porque de suas ações. Racionalização Sentido e liberdade


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diminuindo-se sua margem de opções, seu espaço de autonomia e de exercício da liberdade individual. Passa a agir por fins que não fazem sentido objetivo mas que tem que aderir se quiser sucesso no mundo econômico e social.

Weber é precursor da dialética do esclarecimento, da razão: modo de analise social que antecipa um tema por excelência da sociologia do séc. XX.

A)
A)

PREMISSAS;

Premissas gerais da sociologia weberiana, que são mobilizadas para a elaboração desse diagnostico.

OBS: As fontes mais ricas nessa elaboração aparecem na sua sociologia da religião.

Weber crê na existência de um conflito permanente para a apropriação de recursos recursos

escassos, da ordem material e simbólica. Esse conflito, no âmbito público, é expresso na burocratização das relações políticas. A burocracia é uma máquina impessoal, sem ira, sem paixão e sem referência a pessoas, voltada para a eficiência na alocação de recursos políticos. Essa característica da “não referência a pessoas” representa, por um lado, um ganho frente ao particularismo, e por outro, uma perda relacionada à conexão entre racionalidade e desumanidade.

OBS: Para Marx, ao contrário da concepção weberiana, havia uma abundância de recursos, que esbarrava na distribuição da propriedade privada e na forma de produção.

2.
2.

Há um conflito permanente entre valores últimos, que torna a sociedade moderna uma

sociedade caracterizada por um novo politeísmo. Essa premissa se articula à tese da perda de sentido. À medida em que a sociedade se racionaliza, a razão se fragmenta, ocorre uma fragmentação dos valores, que até a modernidade ganhavam um mínimo de coerência nas grandes cosmovisões religiosas (deus é o bom, o belo e o justo). Esses valores se desacoplam, se desarticulam e cada um deles passa a funcionar de maneira independente, autônoma em relação aos outros, o que gera frequentes conflitos entre eles.


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Valores Coerentes: "Deus é o verdadeiro, o belo e o justo."
Valores
Coerentes:
"Deus é o
verdadeiro, o
belo e o justo."
"Deus é o verdadeiro, o belo e o justo." Valores desarticulados e independentes Cosmovisões

Valores

desarticulados e

independentes

belo e o justo." Valores desarticulados e independentes Cosmovisões religiosas pré- modernidade  " Novo
belo e o justo." Valores desarticulados e independentes Cosmovisões religiosas pré- modernidade  " Novo
belo e o justo." Valores desarticulados e independentes Cosmovisões religiosas pré- modernidade  " Novo
belo e o justo." Valores desarticulados e independentes Cosmovisões religiosas pré- modernidade  " Novo

Cosmovisões

religiosas pré-

modernidade

"Novo Politeísmo" da Modernidade

Forma-se uma esfera de valor em que predomina uma racionalidade cognitivo- experimental, que se volta à busca da verdade, permeada pelo confronto permanente das hipóteses. Esse confronto gera grande incerteza. Esse é o tipo de conhecimento cientifico (o verdadeiro) tipicamente moderno, conhecimento esse que se produz alheio às preocupações de ordem moral (o bom, o justo), e às questões de natureza estética (o belo). A ciência portanto não tem mais relação com a ética, tem apenas um compromisso com a verdade, sendo portanto uma pratica deseticizada.

Analogia: tendência da razão jurídica se desconectar cada vez mais da razão moral, enfatizando, concomitantemente, a forma, o procedimento.

“Se há uma coisa que atualmente não mais ignoramos é que uma coisa pode ser santa não apenas sem ser bela, mas porque e na medida em que não é bela. Semelhantemente, uma coisa pode ser bela não apenas sem ser boa, mas precisamente por aquilo que não a faz boa. A sabedoria popular nos ensina, enfim, que uma coisa pode ser verdadeira, conquanto não seja bela nem santa nem boa. Esses, porém, não passam dos casos mais elementares da luta que opõe os deuses das diferentes ordens e dos diferentes valores. Ignoro como poderia encontrar base para decidir ‘cientificamente’ o problema do valor da cultura francesa face à cultura alemã; aí, também diferentes deuses se combatem e, sem dúvida, por todo sempre tudo se passa, portanto, exatamente como se passava no mundo antigo, que se encontrava sob o encanto dos deuses e demônios, mas assume sentido diverso. Os gregos ofereciam sacrifícios a Afrodite, depois a Apolo e sobretudo, a cada qual dos deuses da cidade; nós continuamos a proceder de maneira semelhante, embora nosso comportamento haja rompido o encanto e haja despojado do mito que ainda vive em nós. É o destino que governa os deuses e não a ciência, seja qual for” 9

Apesar dos “ganhos” trazidos pela ciência, como a desilusão, a perda de pseudoexplicações mágicas para os eventos da vida, o mundo moderno não conseguiu

9 M. WEBER, A Ciência como Vocação, São Paulo, Cultrix, 2005. pp. 41-42.


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colocar no lugar das velhas visões religiosas uma nova cosmovisão que conseguisse integrar minimamente os diferentes valores.

Weber recusa uma ontologia social . Ou seja, a ideia de que a realidade possui um ontologia social. Ou seja, a ideia de que a realidade possui um

sentido imanente, intrínseco, e que caberia ao conhecimento sociológico desvendá-lo. Para

Weber não há uma essência significativa pré-existente

construção subjetiva dos autores, que atribuem sentido, valores, etc às suas relações sociais.

o sentido é sempre uma

Defesa do individualismo metodológico: o objetivo do conhecimento sociológico é analisar como os indivíduos conectam meios e fins, como justificam suas ações, como atribuem valor a realidade.

Para Weber, há dois tipos de ações racionais:

Ação Valorativa: orientada por valores últimos, de ordem ética, estética ou religiosa, em que o que importa é a convicção do agente sobre esses valores. (ex: o aristocrata que bate em duelo pela sua honra);

Ação Finalista: ação de curso forcado em caráter instrumental, também racional, mas voltada para um fim utilitário, que visa a máxima eficiência e eficácia na conjugação de meios e fins e no atingimento de metas. (ex: a empresa capitalista que gere seus bens tendo em vista o máximo lucro);

Perda de sentido AÇÃO FINALISTA AÇÃO VALORATIVA Voltada para o atingimento de metas. Valoziza a
Perda de sentido
AÇÃO FINALISTA
AÇÃO VALORATIVA
Voltada para o
atingimento de
metas.
Valoziza a eficácia
na conjugação de
meios e fins.
Orientada por
valores últimos.
Valoriza a
convicção do
agente.
Avanço da Racionalização

PERDA DE SENTIDO E LIBERDADE ; ERDA DE SENTIDO E LIBERDADE;

INVERSÃO DE MEIOS E FINS

Na sociedade moderna, há um primado da ação finalista, considerada por uma determinada esfera social a mais eficiente, tanto econômica quanto politicamente. Há cada vez mais espaço para ações que não fazem sentido, em termos de valores últimos, e cujo único sentido é serem eficientes. O avanço de racionalização, por essa perspectiva, é


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identificado por Weber como a inversão de meios e fins. Por exemplo, o trabalho, que deveria estar conectado a grandes ideais, a um sentido ético de vocação, é desencantado e o que deveria ser meio - ganhar dinheiro - torna-se seu fim.

“The persuit of riches is fully stripped os all pleasurable, and surely all hedonistic aspects. Accordingly, this striving becomes understood completely as an end in itself (…) Here, people are oriented to acquisition as the purpose of life:

acquisition is no longer viwed as a means to the end of satisfying the substantive needs of life.” 10 “Renders obvious the irrationality, from the viewpoint of one’s personal happiness, of this way of organizing life: people live for their business rather than the reverse.” 11

Essa inversão de meios e fins é assim definida por Karl Lowith:

“Means

‘meaning’ or purpose, that is, the lose their original purposive rationality

original

as

ends

make

themselves

independent

and

the

lose

their

oriented to man and his needs.” 12

Lowy salienta que, apesar da irracionalidade acima identificada, o sistema capitalista possui uma racionalidade própria, donde surge um conflito de 2 formas de racionalidade: a puramente formal e instrumental, que visa ao “dinheiro pelo dinheiro” (ação finalista) e outra mais substancial, correspondente a uma sociedade pré-capitalista, e que se refere a valores como a busca pela felicidade e a satisfação de necessidades (ação valorativa).

Tratando da perda da consequente perda da liberdade, Lowy assim a descreve:

“The submission to an all powerfull mechanism, the imprisionment in a system which oneself has created. This issue (…) emprasizes the loss of freedom, the decline of individual autonomy.” 13

OBS: Há uma semelhança forte com o diagnostico marxista, no qual essa questão da inversão de meios e fins também aparece de maneira contundente.

A modernidade define os caminhos que devem ser seguidos para o sucesso. Esse caminho parece absurdo, externo, algo que não faz sentido para o autor, que se encontra numa ordem social como "jaula de ferro" metafórica. Assim, os indivíduos vêem cada vez menos sentido nas relações sociais nas quais fazem parte.

10 M. WEBER, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism, Los Angeles, Blackwell, 2002, p. 17.

11 Ibidem, p. 31.

12 K. LOWITH, Max Weber and Karl Marx, London: Georg Allen & Unwin, 1982, pp. 47-48

13 M. LOWY, Max and Weber: critics of capitalism, in New Politics, XI, 2, 2007, p. 8.


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Ademais, o triunfo do moderno espírito capitalista requer a renúncia da universalidade faustiana de Hegel. Com efeito, o conhecimento é cada vez mais fragmentado concomitantemente à intensificação da especialização, e, para se adequar à sociedade, o indivíduo tem que reduzir cada vez mais seu espectro de conhecimentos.

C)
C)

ÉTICA PROTESTANTE;

Em “A Ética Protestante”, Weber faz uma análise da racionalização das visões religiosas do mundo. Essa racionalização fica evidente sobretudo quando examinamos como cada grande religião define o caminho para a salvação, que é constituído por um conjunto de regras de caráter ético. Esse caminho é geralmente o da renuncia ao mundo. A nova visão protestantista, por outro lado, conecta a salvação a uma ética intramundana, que visa não à simples rejeição das coisas profanas, mas ao trabalho.

Dessa forma, Lutero e os calvinistas teriam aberto o caminho para uma ética que conecta o reino do divino ao do cotidiano, que vai se enraizando cada vez mais no dia-à- dia.

todos, sem exceção, recebem uma vocação da Providência Divina, vocaçãoo

que deve ser por todos reconhecida e exercida. Essa vocação não é, como no luteranismo, um destino ao qual cada um se deva submeter, mas um mandamento de Deus a todos, para que trabalhem na Sua glorificação.” 14

“(

)

Esse livro é uma teoria empírica, que mostra como um impulso que vem da religião se converter cada vez mais numa ética econômica (1 o passo, que determinava trabalhar, acumular de maneira metódica, levar uma vida frugal) que fundamentava a acumulação capitalista. Essa ética se torna conduta automática e deseticizada (2 o passo, não precisa mais dos valores protestantes originários para se auto-legitimar, o processo econômico não depende mais da ética).

Ética econômica: Impulso religioso protestante valorização do trabalho, da acumulação e da vida frugal Conduta
Ética econômica:
Impulso religioso
protestante
valorização do trabalho,
da acumulação e da vida
frugal
Conduta econômica
automática, que se
desvincula de religião e
ética.

14 M. WEBER, A Ética Protestante cit., p. 114


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“A ênfase do significado ascético de uma vocação fixa propiciou uma justificação ética para a moderna divisão do trabalho. Da mesma fora, a interpretação providencial da probabilidade de lucros propiciou-a para os homens de negócios.” 15

A religião protestante ajuda a racionalizar o mundo, e paradoxalmente abriu espaço

para a sua própria superação, ao abrir o caminho para um mundo onde a religião conta cada vez menos para o processo de desenvolvimento do capitalismo.

"A religião protestante faz as vezes de um mediador evanescente."

FREDRIC JAMESON

“Temo que, toda vez que a riqueza aumenta, a religião diminui na mesma medida. Não vejo, daí, como é possível, na natureza das coisas, conservar durante muito tempo qualquer revivência da verdadeira religião. Porque a religião deve necessariamente produzir tanto a operosidade (industry) quanto o senso de economia (frugality), e essas só podem produzir riqueza.” 16

JOHN ISTO

O protestantismo se evanesce a partir de um processo que ele mesma desencadeou.

Ele tornou possível a emergência do capitalismo, que, uma vez consolidado, acelera o desparecimento da religião protestante, pois favorece o processo de secularização. O capitalismo se torna pura máquina de acumulação desvinculada de qualquer tipo de apreciação de valores últimos. Por esses motivos, o protestantismo seria a ultima grande religião.

O puritano queria tornar-se um profissional, e todos tiveram que segui-lo.

Pois quando o ascetismo foi levado para fora dos mosteiros e transferido para a vida profissional, passando a influenciar a moralidade secular, fê-lo

contribuindo poderosamente para a formação da moderna ordem econômica e técnica ligada à produção em série através da máquina, que atualmente

determina de maneira violenta o estilo de vida de todo indivíduo nascido sob esse sistema, e não apenas daqueles diretamente atingidos pela aquisição econômica,

e, quem sabe, o determinará até que a última tonelada de combustível tiver sido

gasta. De acordo com a opinião de Baxter, preocupações pelos bens materiais somente poderiam vestir os ombros do santo ‘como um tênue manto, do qual a toda hora se pudesse despir’. O destino iria fazer com que o manto se transformasse numa prisão de ferro.” 17

15 M. WEBER, A Ética Protestante cit., p. 117 16 Ibidem, p. 126 17 Ibidem, pp. 130-131.


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B)
B)

DESENCANTAMENTO DO MUNDO

A auto-imagem ocidental de modernidade enfatiza suas características universalistas:

a ciência da educação, por exemplo, se trataria da emancipação do ser humano e de seu desenvolvimento intelectual; o direito se trataria da justiça; a política apontaria para a possibilidade racional de se articular interesses conflitantes. Weber procura demonstrar que todos esses valores supostamente encarecidos pela modernidade possuem seus lados sombrios. A política, por exemplo, ganha o caráter de mero exercício do poder. Weber articula essas pontas complementares do desenvolvimento racional do ocidente.

No mundo do Direito, Kafka foi o primeiro a colocar uma luz sobre o problema da falta de sentido e de liberdade no mundo ocidental moderno. A racionalidade jurídica as vezes assume uma forma de sofisticada elaboração técnica, uma razão formal em detrimento de uma razão material. Mas afinal, fica em aberta a pergunta: quais são os fins dessa sofisticação? Kafka, segundo Gunter Anders,

“manipula essa aparência louca como algo totalmente normal e, com isso, descreve até mesmo o fato louco de que o mundo louco é considerado normal.” 18

Existencia permanente de conflitos para a apropriação de recursos escassos da ordem material e simbólica
Existencia permanente de conflitos para a apropriação de recursos escassos da
ordem material e simbólica
Novo politeísmo: conflito permanente entre valores últimos, que se
desarticularam na ausencia de cosmovisões religiosas
Avanço da racionalização > Primado da ação finalista: perda gradual de sentido
Recusa de ontologia social: o valor é atribuido pelo sujeito
Imposição de cursos de ação pré-definidos pela sociedade moderna, e que não
fazem sentido para o sujeito: "jaula de ferro" > perda de autonomia
A ética econômica advinda do protestantismo desencadeou o desenvolvimento de
uma conduta capitalista automática, que se desvinculou de suas raízes religiosas e
éticas.
PONTOS IMPORTANTES

18 G. ANDERS, Kafka: pró e contra – os autos do processo, São Paulo, Persapectiva, 1993, p. 20.


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Karl Marx

OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS

TEOR POLÍTICO

A dialética pressupõe movimento permanente de negações, pressupõe que o presente possua em si mesmo as possibilidades para a sua própria superação, sua própria mudança. Por isso, costuma-se relacionar ao marxismo uma alta carga política. Porém, não se pode perder de vista o caráter sui gênesis, heterodoxo, de sua obra, afinal nesta não há inexorabilidade histórica, não há uma afirmação categórica de que o um sistema necessariamente possui em si mesmo o germen de sua própria superação, tudo depende das situações concretas.

MÉTODO

Marx é visto como um pai da ciência sociológica, pois apresenta um método singular para a análise das sociedades. Esse método apresenta uma determinada concepção de história, que emprega a dialética (ideia central de contradição), a qual trabalha com uma certa visão da relação entre teoria e pratica (saber teórico e mudança social) que apresenta uma visão materialista do processo de desenvolvimento histórico, e que, por fim, tem uma estratégia analítica de fazer a crítica contra a ideologia (critica à igreja, ao estado, à tradição filosófica alemã, etc).

Esse método apresenta também o chamado discurso do método: aversão à ideia de que se possa separar forma e conteúdo na analise metodológica. Em vez de apresentar princípios metodológicos abstratos, o autor frequentemente preferiu fazer pequenas observações de caráter metodológico juntamente com aplicações em ato, que procurassem articular forma e conteúdo.

FORMA CONTEÚDO Método Objeto Teoria Prática Especulações Realidade abstratas concreta
FORMA
CONTEÚDO
Método
Objeto
Teoria
Prática
Especulações
Realidade
abstratas
concreta

VARIEDADE DE FONTES

Marx realizou uma espécie de síntese de três principais fontes teóricas:


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1.
1.

Economia política britânica (Adam Smith, David Ricardo, etc), com base na qual

desenvolve uma teoria do valor trabalho.

2.
2.

Tradição alemã (filosofia idealista de Hegel)

3.
3.

Tradição francesa socialista, tanto na vertente utópica (Fourier, Proudhon, etc -

produziram o primeiro diagnóstico crítico da sociedade capitalista; acreditavam ser possível dar um salto para outro tipo de organização social por uma via gradual e pacífica. Essa via seria a conscientização: através de uma pregação moral cívica contra o caráter altamente desigual da economia capitalista, os próprios detentores dos meios de produção perceberiam os males do sistema e escolheriam mudar) quanto na revolucionaria (pregavam que uma pequena elite assumisse a liderança do processo revolucionário, agindo em nome de todo o povo).

Economia política Filosofia britânica idealista alemã Tradição socialista francesa
Economia
política
Filosofia
britânica
idealista
alemã
Tradição
socialista
francesa

Marx!

OBS: Marx rompe com essa ideia de liderança elitista da vertente socialista revolucionária para ele, é a classe operaria que deve tomar consciência de sua situação e levar adiante o processo revolucionário.

A ORDEM SOCIAL COMO DOMINAÇÃO IDEOLÓGICA

Método do

materialismo

histórico

a) História;

b) Dialética;

c) Praxis;

d) Materialismo;

e) Crítica.


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A)
A)

CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA;

Na abertura do manifesto comunista, Marx apresenta sua noção de história:

"A história de toda sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes." 19 Karl Marx

Marx rompe com toda a tradição idealista que vê a história como uma marcha progressiva da razão, da melhora, oferecendo por sua vez uma visão negativa da história:

uma luta feroz entre oprimidos e opressores, é uma história de conflitos, de violência, em que os segmentos dominantes fazem valer a força da sua dominação sobre os setores mais desfavorecidos. Essa oposição é constante, sendo as vezes explicita e outras vezes oculta.

“Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro, levada a efeito numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminu, cada vez, ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito” 20

Lembrando que Marx não tem uma visão categórica desse processo, e não desconsidera as especificidades para diferentes momentos históricos e estruturas sociais. Com efeito, ele apenas identifica algumas peculiaridades que tendem a tornar possível um evento revolucionário, na época moderna.

Do ponto de vista subjetivo, pensa nos autores que teriam a possibilidade de conduzir a revolução: no caso do capitalismo, seria a classe dos trabalhadores urbanos

industriais. Do ponto de vista objetivo, começa a fazer uma anatomia do funcionamento do capitalismo, onde encontra diversas contradições: a sua própria lógica inerente de funcionamento ocasiona crises, não pode funcionar, portanto, sem colocar a si mesmo em xeque.

“A burguesia, porém, não forjou apenas as armas que representam sua morte; produziu também os homens que manejarão essas armas.” 21

Essas crises cíclicas remetem em última instância à contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e relações sociais de produção (que engessam esse desenvolvimento).

“As forças produtivas disponíveis já não mais favorecem as condições da propriedade burguesa; ao contrário, tornaram-se poderosas demais para essas

19 K. MARX, Manifesto Comunista, in Marx-Engels (História), Org. F. Fernandes, São Paulo, Ática, p. 25.

20 Ibidem, p. 26

21 Ibidem, p. 32.


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condições que as entravam; e, quando superam esses entraves, desorganizam toda a sociedade, ameaçando a existência da propriedade burguesa. A sociedade burguesa é muito estreita para conter as suas próprias riquezas.” 22

Relações sociais de produção
Relações sociais de
produção

Desenvolvimento das forças produtivas

de produção Desenvolvimento das forças produtivas propriedade privada e distribuição desigual da mesma, o

propriedade privada e

distribuição desigual da mesma, o que

engessa o desenvolvimento das forças produtivas.

Leis da

Força de trabalho, instrumentos de trabalho, tipo de conhecimento humano agregado as atividades produtivas - a tendência é se desenvolverem cada vez mais.

Marx, com efeito, vê no sistema capitalista algo inédito na história: a possibilidade, devido a essa grande tendência ao incremento das forças produtivas, que geram enorme abundância, de se atender às necessidades básicas de toda a humanidade. O limite para isso não esta na abundância, portanto, pois há plena possibilidade técnica. O problema é a forma como a produção esta organizada: no capitalismo, a produção e distribuição da riqueza obedecem às leis da propriedade privada. Isso cria uma contradição: a produção é social, mas a propriedade é privada!

“E como a burguesia vence essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade das forças produtivas; do outro, pela conquista de novos mercados e pela intensa exploração dos antigos. Portanto, prepara crises mais extensas e mais destrutivas, diminuindo os meio de evita-la.” 23

A dominação burguesa é sustentada pela violência e pela ideologia. A dominação

ideológica consiste na representação daquilo que é "bom para uma classe", como sendo

aquilo que é "bom para todos".

B)
B)

DIALÉTICA;

A importância da dialética esta em ver as coisas sob uma perspectiva relacional. A

dialética foi herdada do Hegel, mas sofre, na obra de Marx, uma inflexão materialista: as contradições que impelem a realidade para a transformação não estão dadas em primeiro

elas existem, são reais, objetivas! E é

lugar no âmbito das ideias ou no âmbito da lógica

tarefa do teórico e do crítico identifica-las e analisá-las, perguntando-se se elas tem ou não

potencial para desencadear uma mudança de realidade.

22 K. MARX, Manifesto cit., p. 31.

23 Ibidem, p. 31.


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"Marx não deixou uma Lógica, deixou a lógica de O capital” 24

VLADIMIR LENIN

Ou seja, para Lenin, Marx não legou uma lógica própria, Marx explicou o funcionamento, a lógica dO Capital. Há, portanto, uma aproximação marxista entre teoria e objeto. O movimento das contradições é perseguido por Marx na trama concreta da organização social. Sua análise não tem um estatuto apenas lógico, mas um estatuto de realidade, de objetividade.

Ademais, é importante salientar que, ao contrário do que frequentemente se pensa, Marx não trata do futuro, de como se deveria organizar a sociedade socialista uma vez que alcançada. A obra é muito mais um diagnóstico do que existe e das possibilidades de transformação daquilo que já existe.

A dialética de Marx é expressa na tríade: tese, antítese (primeira negação) e síntese

(segunda negação - nega e conserva ao mesmo tempo elementos da tese e da antítese)

TESE A, B, C, D (ex: feudalismo) SÍNTESE A, Z, D, X (ex: socialismo) ANTÍTESE
TESE
A, B, C, D
(ex:
feudalismo)
SÍNTESE
A, Z, D, X
(ex:
socialismo)
ANTÍTESE
W, X, Y, Z
(ex:
capitalismo)

OBS: Esse processo não ocorre sempre! Há apenas a possibilidade, que depende do cenário histórico e social. Considerar que o capitalismo contém as possibilidades de sua própria superação não significa afirmar que ele será necessariamente superado. Marx não nos dá uma lei inflexível da história, apenas identifica tendências.

C)
C)

PRAXIS;

A prática tem tanto mais condições de ser bem sucedida quanto for orientada

teoricamente

abstrata. Defendia a ideia de interdependência entre teoria e pratica. Portanto, se volta à construção de um novo sistema filosófico: a tarefa da nova filosofia é auxiliar na

Marx se incomodava com a tradição filosófica excessivamente especulativa e

24 V. LENIN, Obras escolhidas em seis tomos, t. 6, Lisboa-Moscou, Avante!-Progresso, 1989, p. 284.


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transformação do mundo.

D)
D)

MATERIALISMO;

Marx faz uma distinção entre a infraestrutura e a superestrutura que compõe a sociedade.

Infraestrutura: relações materiais.

Superestrutura: é composta por, não apenas crenças, ideias, valores, ideologias (nível simbólico, da representação) mas também por formas jurídicas como o Estado e o Direito, ou (nível institucional).

“Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade essas relações de produção forma a estrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.” 25

A análise da sociedade procura levar em conta como essas relações materiais determinam a consciência dos homens e a forma política e jurídica de organização.

“Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais

transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material

e as formas ideológicas pelas quais os

homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim. Assim como não se julga o que um indivíduo é a partir do julgamento que ele faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode julgar uma época de transformação a partir de sua própria consciência: ao contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito entre as forças produtivas sociais e as relações de produção” 26

das condições econômicas de produção (

)

OBS: Marx não apresenta uma visão rígida dessa divisão, admitindo também que a superestrutura pode chegar a influenciar e modificar a infraestrutura.

25 K. Marx, Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, São Paulo, Ática, p. 25. 26 Ibidem, pp. 25-26.


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IDEOLOGIA IDEIAS ESTADO RELAÇÕES MATERIAIS DIREITO VALORES CRENÇAS
IDEOLOGIA
IDEIAS
ESTADO
RELAÇÕES
MATERIAIS
DIREITO
VALORES
CRENÇAS
E)
E)

CRÍTICA;

Critica pressupõe mostrar como as pretensões de autonomia por parte do Estado e do Direito, que se auto-representam como autores independentes das relações econômicas, não são possíveis. Afinal, tanto a ideologia quanto esses aparelhos ideológicos estão

enraizados nas relações de produção.

Visão negativa de HISTÓRIA: constante e violenta luta de classes Marx busca identificar peculiaridades na
Visão negativa de HISTÓRIA: constante e violenta luta de classes
Marx busca identificar peculiaridades na realidade concreta que tendem a tornar
possível uma revolução
As crises cíclicas se originam da contradição, inerente ao capitalismo, entre o
incremento das forças produtivas e as relações sociais de produção.
Dialética: expressa na tríade -> tese, antítese e síntese.
Práxis: interdependencia entre teoria e prática.
Materialismo: a superestrutura (Estado, Direito, cultura, etc) está enraizada na
infraestrutura (relações materiais).
PONTOS IMPORTANTES

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O FETICHISMO DA MERCADORIA

O

a) Procedimento científico;

Diagnóstico

 

Marxista da

b) Especificidade do

Modernidade

capitalismo;

A)
A)

PROCEDIMENTO CIENTÍFICO

c) Patologias:

1. Alienação

2. Fetichismo (reificação)

d) Aproximação a Max Weber;

O objetivo nesse ponto é identificar os “passos” seguidos por Marx na elaboração e desenvolvimento do diagnóstico, o modo como o autor procede na sua análise. Uma peça- chave que percorre a obra de Marx é o tipo de procedimento crítico que emprega. Se por um lado, em sua juventude, o autor é mais voltado pra crítica das ideias, das representações coletivas, da religião, das representações políticas burguesas próprias do mundo capitalista, por outro, em sua maior maturidade, vai se direcionando para a crítica da economia política. Nessa trajetória toda há uma espécie de expediente comum que consiste em contrapor essência e aparência, ou seja, na busca de saber o que está por trás das aparências, que por sua vez determinam os nosso modo de pensar, de agir e os nossos padrões de organização social.

JOGO DA ESSÊNCIA VERSUS APARÊNCIA

Dessa forma, seja ao criticar a ideologia, seja ao tratar da alienação e do fetichismo, há uma centralidade conferida pelo autor ao jogo aparência-essência na construção de suas análises.

Isto fica claro por exemplo em sua definição do fenômeno da alienação:

conceitualmente é um processo pelo qual o sujeito expressa uma dependência em relação a um ente que lhe é aparentemente externo, mas esse ente, no entanto provém originariamente de uma construção do próprio sujeito, sendo portanto interno. Um exemplo desse fenômeno é a questão religiosa: a divindade constitui um produto da elaboração humana, que ao ser externalizado ganha uma autonomia própria, como se tivesse uma existência desvinculada de seu criador, e passa assim a exercer um controle sobre o próprio sujeito que a criou – é portanto uma manifestação do fenômeno da alienação, e o sujeito alienado desenvolve uma sensação de estranhamento, um “sentir-se estrangeiro em sua própria casa”, um ”não se reconhecer nas suas próprias criações”. É a tal inversão entre criador e criatura, que nos remete à metáfora do Frankestein.


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A divindade

desvincula-se

do sujeito


 
 
 
 A divindade desvincula-se do sujeito O sujeito cria a divindade 1 1

O sujeito

cria a

divindade

1 1
1
1
2 2 DIVINDADE
2 2
DIVINDADE
11 3
11 3

Ela passa a controla-lo!

SUJEITO
SUJEITO

ESPECIFICIDADE DO C APITALISMO SPECIFICIDADE DO CAPITALISMO

A IDEOLOGIA

Se a aparência e a essência coincidissem não haveria necessidade de elaboração

científica. A mercadoria, por exemplo, parece um objeto muito trivial mas não é! É por que

o valor não vem explícito que há o trabalho de olhar o que há por traz das coisas, por trás das aparências. É esse esforço de desvendamento que está por trás do procedimento crítico marxista.

A ideologia, muito aparentada ao fenômeno da alienação, pode ser tratada pelo conceito marxista como uma "aparência socialmente necessária". Ou, ainda, uma "ilusão objetiva". Desprende-se dessas definições que a ideologia não se trata de quaisquer conjuntos de ideias e valores “soltos no ar”. Com efeito, se trata de ideias e representações simbólicas que, não obstante serem aparentes, possuem um fundamento social, uma “razão de ser” objetiva.

Portanto:

Um determinado fenômeno constitui uma ideologia porque é uma aparência, porque constitui uma pseudo-objetividade, não sendo portanto a essência.


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Afirmar que a aparência é socialmente objetiva revela que esses fenômenos possuírem a aparência de realidade é em si um fato socialmente construído e explicado.

Esse modo de pensar a ideologia leva Marx a constatar os próprios limites da crítica:

por mais que um pensamento critico seja lúcido, que desvende as aparências sociais, que esmiúce o modo de organização da sociedade, esse trabalho critico não tem em si mesmo o poder de transformar a sociedade. Afinal, é necessária uma alteração das ESTRUTURAS da sociedade, para a qual o simples trabalho da reflexão não é suficiente. Essa constatação nos remete novamente à ideia marxista de práxis: a ação efetiva do sujeito e a reorganização da estrutura social são absolutamente necessárias.

A ideologia produz portanto uma falsa consciência. Isso acontece sobretudo de algumas maneiras:

Generalização indevida do que é específico Naturalização do que é histórico ou contingente Defesa de
Generalização
indevida do
que é específico
Naturalização
do que é
histórico ou
contingente
Defesa de uma
falsa
autonomia em
relação à
infraestrutura
Baralhamento
dos campos da
faticidade e da
normatividade

Generalização indevida daquilo que é específico: consiste em apresentar como gerais interesses que são específicos a uma determinada classe social. As classes dominantes revestem seus interesses específicos de classe com a aparência de interesses gerais, comuns a todas as classes.

Naturalização daquilo que é histórico ou contingente: tudo que é específico ao modo de produção capitalista ideologicamente aparece como algo natural.

“As ideias da classe dominante são em cada época as ideias dominantes.”

KARL MARX


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Como exemplo da segunda maneira, Adam Smith ao teorizar sobre uma suposta propensão inerentemente humana à troca estaria criando, sob a perspectiva marxista, mera ideologia. Ademais, a doutrina da separação dos poderes pode ser vista como a perenização de uma situação histórica específica (divisão da dominação entre a aristocracia e a burguesia) mas que é vendida como algo absolutamente natural, como uma lei eterna.

Pseudo-autonomia em relação à base material: além de generalizar o específico e naturalizar o contingente, e por causa disso, a ideologia promove uma espécie de defesa da autonomia das ideias em relação às bases materiais de existência e aos conflitos de classes. Em outras palavras, a ideologia nos leva a crer que os princípios políticos, econômicos e de organização social não tem nada a ver com a forma que a sociedade organiza sua produção. Há uma espécie de autonomização indevida de fenômenos que são essencialmente heterônimos, determinados, condicionados socialmente.

Isso fica evidente na separação das esferas pública e privada, pela qual o Estado é representado como um ente neutro e autônomo, distante dos conflitos particulares e não influenciável por eles. Em sua essência, porém, o Estado é um verdadeiro instrumento da própria luta de classes.

Por conta desses efeitos que as ideologias produzem, engendrando a falsa consciência, ela opera frequentemente pelo baralhamento dos campos do FATO e da NORMA, da facticidade e da normatividade. Apresentam o que são meras promessas, ideais, como promessas já cumpridas. O “dever ser”, e até o “poder ser” ganham a aparência de fatos consumados, de realizações concretas.

Por exemplo, o discurso de que "o regime de trabalho instaurou a esfera da liberdade no regime da troca" é mero “dever ser” em uma sociedade onde de fato se instaurou uma “escravidão disfarçada”.

O PROBLEMA DA IDEOLOGIA

Essa questão do embaralhamento é decisiva pois permite distinguir um "marxismo vulgar" de um mais sofisticado. Enquanto o primeiro desqualifica a própria norma, a própria promessa que habita a ideologia (de igualdade, de liberdade) e não leva a sério o conteúdo dessas promessas (diz-se que estes são valores meramente burgueses), o outro leva a sério e não vê na ideologia apenas falsidade, mas também um momento de verdade, pois ela aponta pra uma possível melhora. Procura também mostrar os limites, à luz das características específicas da estrutura social, da possibilidade de realização plena dessas promessas.

Hoje a ideologia, a aparência socialmente necessária, é a própria

sociedade real (

o procedimento imanente é o mais essencialmente

)


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dialético. Leva a sério o princípio de que o não verdadeiro não é a ideologia em si, mas a sua pretensão de coincidir com a realidade efetiva. 27

Adorno

Em outras palavras, o procedimento crítico não pode olvidar-se do fato de que a falsidade não está na ideologia em si (normas, “dever ser”), mas em sua pretensão de coincidir com a realidade concreta (fatos, “ser”), e é isso que deve ser criticado.

PATOLOGIAS ATOLOGIAS

Essa forma de proceder criticamente contrapondo aparência e essência permite a Marx tratar tanto do fenômeno da alienação quanto do fetichismo.

ALIENAÇÃOtanto do fenômeno da alienação quanto do fetichismo. Consiste na sensação de estranhamento articulada na

Consiste na sensação de estranhamento articulada na inversão entre criador e criatura. O fenômeno da alienação recebe tratamento mais meticuloso na obra "Os manuscritos Econômico-filosóficos". Nesse livro, Marx procede à rotação da alienação já identificada no fenômeno religioso para outro tipo de alienação que será identificada nas relações de trabalho capitalista. O autor procura mostrar os fundamentos objetivos do fenômeno da alienação moderna: a visão distorcida da realidade é produzida pelo modo como o trabalho está organizado.

Força de $ $ Meios de Trabalho Produção Produtos do CAPITALI$TA trabalho
Força de
$ $
Meios de
Trabalho
Produção
Produtos do
CAPITALI$TA
trabalho

27 T. ADORNO, Wiesengrund – Gesammelte Schriften, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1997, pp. 23-27.


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Podemos detectar a presença da alienação no que diz respeito à expropriação dos

meios de produção e subsistência, própria da passagem para o modo de produção capitalista. Neste, o trabalhador é convertido a detentor única e exclusivamente de sua força de trabalho, que deve ser vendida para garantir subsistência. Há uma separação entre

a atividade de trabalho e as suas pré-condições, ou seja, o produtor direto não tem mais

como controlar minimamente as pré-condições do seu trabalho nem tampouco da sua própria subsistência, não tem como escolher se vai ou não jogar esse "jogo", afinal é a sua única forma de sobreviver.

Além disso os próprios produtos do trabalho passam a ser objetos de apropriação privada e fogem ao controle de seus produtores. Marx diz ainda que a alienação também

aparece no próprio processo de trabalho: a natureza do trabalho na sua forma hegemônica fabril no capitalismo moderno é estéril, árdua. O trabalhador não se realiza no trabalho, mas nele exaure a sua humanidade. Longe de muitas das representações de senso-comum,

o trabalho capitalista não leva ao enobrecimento, mas à coisificação e à alienação. O que o trabalhador está alienando, em última instância, é a sua própria humanidade.

2.
2.

FETICHISMO

OBS: Fetiche é uma palavra de origem portuguesa que vem de “feitiço”, e aparece na expansão ultramarina. Aquilo que os europeus modernos condenavam como primitivismo religioso retorna na obra de Marx como o centro da organização do capitalismo.

Aparece como a culminação, tanto das análises anteriores sobre a alienação, quanto das sobre ideologia. Esses dois fenômenos estão articuladas no fetichismo: o estranhamento e a aparência socialmente necessária. O fetichismo não esta relacionado a qualquer ordem psicológica, ou aos ímpetos consumistas pessoais, nem tem a ver

diretamente com a montagem de uma indústria que influencia comportamentos dos consumidores. Grosso modo, pode ser visto como uma situação social muito sui generis, até

mesmo esdrúxula

trata-se de uma relação social.

As relações sociais capitalistas assumem uma forma invertida: há inversão entre homens e coisas. Enquanto os primeiros aparecem como coisas (coisificação), estas aparecem dotadas de propriedades humanas (fetichismo).

O que é próprio do homem e da sociedade fica oculto na coisa, ou seja, o seu valor esta escondido nela e isso requer o trabalho do pensamento, do desvendamento. Esse trabalho é necessário pois as pessoas frequentemente acreditam que o valor da coisa está em seus atributos intrínsecos.

As coisas se comportam como instrumentos de dominação dos próprios homens que as produziram, donde percebe-se um forte parentesco do fetichismo com a alienação, mas no universo das relações de produção. O fetichismo instaura na modernidade o governo das coisas em detrimento dos homens e das leis.


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Como é possível essa inversão?

O capitalismo converteu o próprio trabalho humano em mercadoria, que pode ser

comprada e vendida no mercado, e sofre as influências de leis de oferta e procura, como qualquer outra mercadoria. Essa mercantilização só foi possível por causa do trabalho prévio de acumulação primitiva.

1.
1.

O capitalismo só se instaura plenamente quando supera a lógica de funcionamento

do sistema anterior, ou seja, só se consolida quando substitui o esquema simples de M-D- M pelo D-M-D' próprio do sistema capitalista. Esse esquema significa que o capital é valor que se autovaloriza no próprio processo de produção de valor. O ponto de partida da acumulação de riqueza no capitalismo não é a produção da mercadoria (M), é o investimento adiantado pelo empresário (D). O que é decisivo no capitalismo é esse processo de descasamento entre geração de riqueza e atendimento a necessidades: o capital pode ou não vir a atender necessidades, a qual não é o seu primeiro compromisso, este é a sua autovalorização.

2.
2.
CAPITAL
CAPITAL
compromisso, este é a sua autovalorização. 2. CAPITAL Comércio Investimento Produção MERCADO- DINHEIRO RIAS

Comércio

Investimento
Investimento

Produção

MERCADO- DINHEIRO RIAS
MERCADO-
DINHEIRO
RIAS

As características aparentes das coisas dizem se elas tem menor ou maior utilidade, mas qual o fundamento real da produção do valor? Se a riqueza do capitalismo aparece na forma de uma imensa quantidade e variedade de mercadorias, qual a essência do valor dessas coisas? Se é o trabalho, que tipo de trabalho? Como as coisas adquirem o seu valor, se não se trata de suas propriedades físicas imediatas, de seus atributos intrínsecos?

O valor tem um fundamento social: a exploração do trabalho assalariado. Este consiste no trabalho convertido em uma mercadoria que, apesar de tratada como as demais, tem uma peculiaridade determinante, uma propriedade que lhe é única. O trabalho é diferente de todas as outras mercadorias pois é capaz de se autovalorizar no seu próprio consumo. Ao se utilizar dessa mercadoria (o trabalho), ela cria mais valor do que originalmente eu pagou-se por ela. Não se trata de trabalho concreto, mas abstrato, comum a todo o universo de mercadorias, esse é o fundamento último de produção de valor no capitalismo.


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Explica-se:

Um trabalhador, para garantir sua subsistência precisa de uma quantidade X de trabalho. Mas no consumo de sua força de trabalho produz mais que isso, produz um plus, uma mais valia que corresponde a um período de trabalho excedente, e é esse o fundamento do valor das mercadorias.

Trabalho X necessário à subsistência (trabalho pago)
Trabalho X
necessário à
subsistência
(trabalho
pago)
Consumo
Consumo
Trabalho X + Trabalho Y excedente (não pago)
Trabalho X
+
Trabalho Y
excedente (não
pago)

Como o fundamento da coisa não aparece no nível consciente de reflexão humana?

Isso não aparece pois no próprio processo de produção da riqueza o capital vai ocultando esse fundamento último de extração da mais-valia, pois o capital trabalha com abstrações de tal modo que cria uma série de aparências socialmente verossímeis (por exemplo, de que o capitalismo só funciona porque atende a necessidades reais, ou de que o dinheiro tem valor próprio). Na análise do capital e na identificação do fetichismo, Marx procura mostrar o que está escondido, o fundamento real, e como ele é ocultado no âmbito do próprio processo produtivo em razão das abstrações que o caracterizam.

Apesar das semelhanças entre os conceitos de ideologia e fetichismo, é importante observar que ao pensarmos em ideologia via de regra pensamos em distorção na percepção de realidade de um sujeito. Fetichismo não se trata disso! As próprias relações sociais realizam abstrações, a própria realidade que se organiza dessa forma invertida, que produz as razoes de sua não apreensão. Não se trata portanto de uma mera percepção distorcida da realidade.

D)
D)

APROXIMAÇÃO A MAX WEBER

Apesar das várias diferenças entre os diagnósticos marxista e weberiano da modernidade, há certas convergências de suma importância:

Inversão entre meios e fins;

Relação entre o qualitativo e o quantitativo;

O princípio da impessoalidade que reside no cerne da burocracia, da justiça formal, etc, funciona pela desconsideração de tudo aquilo que é específico, que é particular ao sujeito (Weber aponta essa característica como uma causadora da desumanização própria da modernidade)


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Marx, por sua vez, identifica essa questão na lógica capitalista de produção de mercadorias: o valor trabalho se constrói pela desconsideração de trabalhos concretos individuais (?), cuja noção é substituída pela de trabalho abstrato. Observa-se no capitalismo também uma quantificação das coisas, dos valores, através da desconsideração do que é qualitativamente próprio da coisas. Como resultado, atribui-se a tudo um preço, e para isso trabalha-se com uma espécie de abstração quantitativa equivalente de todas as coisas, um nivelamento de todas as coisas.

"O dinheiro se refere unicamente ao que é comum a tudo: ele pergunta pelo valor de troca, reduz toda qualidade e individualidade a uma questão: quanto?” 28

GEORG SIMMEL

O sociólogo alemão Simmel vê no dinheiro a culminação do estranhamento entre sujeito e objeto. O dinheiro é um nivelador universal que pinta tudo de cinza. Na passagem acima, sintetiza o primado do abstrato sobre o particular, do quantitativo sobre o qualitativo.

Alienação: processo pelo qual o sujeito expressa uma dependencia em relação a um ente criado
Alienação: processo pelo qual o sujeito expressa uma dependencia em relação
a um ente criado por ele mesmo, mas que lhe é aparentemente externo, o que
causa uma sensação de estranhamento.
A alienação moderna aparece na expropriação dos meios de produção e
subsistencia, além da apropriação do produto do trabalho proletário pelos
capitalistas
A ideologia é uma aparencia que possui um fundamento social objetivo,
funciona pela generalização do específico, pela naturalização do contingente,
e pelo discurso da pseudo-autonomia em relação à base material.
Baralhamento dos campos do fato e da noma: a falsidade não está na
ideologia em si, mas na sua pretensão de coincidir com a realidade
Fetichismo: inversão entre homens (reificação) e coisas (aparecem dotadas de
propriedades humanas, dominando seus próprios criadores).
O fundamento social do valor das mercadorias é a exploração do trabalho
assalariado.
PONTOS IMPORTANTES

28 GEORG SIMMEL, A Metrópole e a Vida Mental, In: Guilherme Velho, O Fenômeno Urbano, Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1976.


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 Jessé Souza OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS 

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Jessé Souza
OBSERVAÇÕES INTRODUTÓRIAS

O objetivo do texto é mostrar como grandes pensadores brasileiros se apropriam de

diferentes perspectivas teóricas, para assim determinar a natureza do processo de

modernização tal como ele ocorre no país.

IDEIAS IMPORTADAS VERSUS REALIDADE NACIONAL

O cerne das principais investigações sociológicas a respeito dessa modernização é

contraste entre a importação de padrões e normas de países centrais e a realidade nacional.

Em outras palavras, a questão da distância entre essas formas importadas e certas características nacionais específicas, entre o nosso processo de modernização e o processo daqueles países que nos servem de exemplo. Por exemplo, em que medida podemos observar na sociedade brasileira o desenvolvimento de uma solidariedade orgânica?

A MODERNIZAÇÃO BRASILEIRA

Dada essa distância, esse contraste, há um esforço entre os autores brasileiros em

fazer uma sondagem das nossas diferenças, do que seriam as nossas peculiaridades no nosso processo de modernização.

Uma expressão recorrente é a que o Brasil teria uma "modernização incompleta". Seria assim um "país de sobrevivências arcaicas", que precisa ainda avançar aos próximos estágios de modernização. Essa é uma maneira típica de pensar as singularidades do nosso processo de modernização.

País dos contrastes, da modernização versus atraso, dos dualismos estruturais, país que ingressa em um sistema econômico capitalista global (pautado pelo liberalismo e baseado na mão-de-obra assalariada) mas não adota a forma de trabalho inerente a esse

sistema (ingressa com o trabalho escravo). Isso coloca um mote recorrente central: das

ideias fora do lugar, ou seja, da existência de uma radical distância entre ideia importada, proveniente de outros contextos e outras realidades, e o funcionamento concreto da nossa sociedade. Assim, alguns dos grandes princípios do direito moderno (liberalismo, separação entre o publico e o privado, democracia, etc) frequentemente aparecem para nós como "ideias fora do lugar".

De um lado, tráfico negreiro, latifúndio, escravidão e mandonismo, um complexo de relações com regra própria, firmado durante a Colônia e ao qual

o universalismo da civilização burguesa não chegava; de outro, sendo posto em xeque pelo primeiro, mas pondo-o em xeque também, a Lei (igual para todos),

a separação entre o público e o privado, as liberdades civis, o parlamento, o


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patriotismo romântico, etc.” 29

OBS: Marx fez a crítica do capitalismo, atacando algumas ideologias modernas, porque elas de fato pareciam corresponder à realidade, porque a ideologia tinha verossimilhança empírica, e era necessário "rasgar" esse véu ideológico que a encobria a realidade. Era preciso um esforço para se ver o que havia atrás da aparência. No caso do Brasil, esse esforço não era necessário pois essa discrepância entre aparência e realidade era explícita! Era óbvia a contradição entre, por exemplo, o ingresso no sistema capitalista moderno e o uso de trabalho escravo. Esse é o maior problema do funcionamento das ideologias entre nós.

DILEMAS DA ORDEM SOCIAL BRASILEIRA I

Modernidade

a)

Verdeamarelismo e

e Identidade

modernismo

Nacional

A)
A)

b) Pensamento social

brasileiro

c) Sociologia da

inaltenticidade

VERDEAMARELISMO E MODERNISMO X

B)
B)

PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO

O pensamento social brasileiro é considerado formalmente inaugurado nos anos 30,

quando surgem os chamados demiurgos da sociologia nacional: nessa década são publicadas obras como "Casa grande e senzala" (Gilberto Freyre, 1933), "Raízes do Brasil" (Sérgio Buarque de Holanda, 1936), e "Formação do Brasil contemporâneo" (Caio Prado Júrnior, 1942).

O cenário era de industrialização acelerada, da política do café com leite, do início do

desenvolvimentismo nacional, da industrialização por substituição de importações. Esse boom de modernização permite uma leitura retrospectiva do nosso longo passado e suas singularidades, e a relação entre suas heranças e o presente. Importava muito discutir, por exemplo, as possibilidades e limites da diminuição das desigualdades, e para isso era necessário antes analisar suas raízes.

29 R. SCHUARZ, Que horas são?, São Paulo, Cia das Letras, 1987.


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Tradição verdeamarelista  •  Visão romântica;  •  Marcada pelo ufanismo;  •  Enaltecimento do
Tradição
verdeamarelista
•  Visão romântica;
 Marcada pelo
ufanismo;
 Enaltecimento do
Brasil;
•  Postula um destino
grandioso.

RUPTURAS

Pensamento social brasileiro  •  Visão crítica;  •  Marcado pela análise sociológica;  •
Pensamento social
brasileiro
•  Visão crítica;
•  Marcado pela análise
sociológica;
•  Traz a problemática da
identidade nacional;
•  Aponta o nosso
passado como barreira
à modernização.

Essa vertente sociológica representou uma ruptura muito significativa com o que havia antes, em termos de auto-representação dos brasileiros, de identidade nacional qual será um problema central no pensamento brasileiro.

a

O que existia antes (com exceção de Joaquim Nabuco em sua obra "O Abolicionista",

precursor do pensamento social brasileiro) era uma certa tradição verdeamarelista, muito ingênua na construção da nossa imagem. Um certo ufanismo, que caracteriza muito frequentemente um senso comum dos brasileiros sobre si mesmo, e que deixa marcas até hoje: a ideia de que o Brasil é um pais novo, abençoado por deus e bonito por sua natureza, prenhe de potenciais realizações, de recursos naturais materiais extremamente abundantes, e que possui um povo ordeiro, pacifico e com vocação para trabalhar (uma obra emblemática dessa visão é a "Porque me ufano do meu pais?", de Afonso Celso, que afirma, por exemplo, que a abundância permite a distribuição natural das riquezas de maneira justa conforme as leis do mercado). O verdeamarelismo, portanto, é uma forma de representação do país que o exalta, enaltece, postulando normativamente para ele um destino grandioso.

O pensamento social brasileiro rompe com esse tipo romântico de representação e

traz uma visão mais crítica, pondo o nosso atraso à luz de uma visão mais negativa: nosso

passado é um fardo à nossa modernização. Não há possibilidade de modernização plena se não liquidarmos nossas raízes históricas, segundo Sérgio Buarque de Holanda.

Essa tradição também rompe com a maneira como se mobilizavam os fatores de explicação. Antes usavam-se argumentos de origem biológica, com viés muito preconceituoso e aristocratizado (o Brasil só poderá se desenvolver com a miscigenação, partindo do pressuposto da inferioridade negra e indígena). Coloca-se pela primeira vez no centro da reflexão o povo, especialmente o brasileiro comum, passando a uma visão sociológica (ex: Antônio de Cândido, na obra "Os Parceiros do Rio Bonito")


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O pensamento social coloca, assim, a questão da identidade nacional de forma

PROBLEMÁTICA: somos um pais satélite, um pais de importação. O que importamos não é adequado á nossa realidade.

MOVIMENTO MODERNISTA BRASILEIRO

"Tupi or not tupi, that is the question" 30

OSWALDO DE ANDRADE

Baseia-se na constatação de que o Brasil não consegue construir uma identidade social forte pois usa categorias que não permitem nos definir, não permitem que reconheçamos nelas quem realmente somos.

"A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro." 31

PAULO E. S. GOMES

Essa constatação vai sensibilizando uma parcela considerável dos pensadores brasileiros para a questão: até que ponto a modernização entre nos é um fenômenos autêntico? Será ela meramente epidérmica, superficial, "para inglês ver"?

“O tema clássico do ‘para inglês ver’, ou seja, da autolegitimação de uma baixa estima nacional pelo disfarce, pelo embuste, pensado de modo a garantir uma transitória aprovação dos outros povos, portanto de fora para dentro, completa o quadro da modernização inautêntica e epidérmica como nosso traço mais característico.” 32

A interpretação

de

muitos

desses

autores

modernidade postiça, artificial, inaltêntica.

se

caracteriza

pela

noção

de

uma

O modernismo imediatamente anterior a emergência desse pensamento social

brasileiro forneceu-lhe algumas ferramentas:

Entre os modernistas, sobretudo, havia uma espécie de utopia. Havia um radical compromisso com os "de baixo", juntamente com uma severa crítica dos aspectos burgueses da sociedade brasileira. Oswald acreditava que a sociedade seria capaz de saltar

do pré-capitalismo para o pós-capitalismo, retendo a tecnologia e utilizando-a de forma mais igualitária, por exemplo. É característico dos modernistas, ademais, uma louvação do popular, o sonho do "índio tecnicizado" (muito presente nos ensaios tecnológicos imediatamente pré-anos 1930).

30 O. DE ANDRADE, Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.

31 P. E. S. GOMES, Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento, São Paulo, Paz e Terra, 1996.

32 J. SOUZA, A modernização seletiva, Brasília, Unb, 2002, p. 167.


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SOCIOLOGIA DA I NALTENTICIDADE OCIOLOGIA DA INALTENTICIDADE

Jessé escolhe, para fazer sua análise, três grandes autores emblemáticos da sociologia da modernidade: Sergio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, e Roberto DaMatta. Apesar dos textos de tais autores serem muito diferentes, há um fundo comum: afirmam que a modernização Brasileira é inaltêntica pois possui alguns males de origem que sobrevivem ao processo de modernização. Esses males de origem são localizados pelos três autores numa mesma fonte: a influência do iberismo que colonizou a América Latina, especialmente a influência portuguesa sobre a formação e desenvolvimento da sociedade brasileira. Herdamos de Portugal uma determinada visão de mundo, um determinado arranjo institucional, um padrão de relações sociais, um mal de nascença que vai resistindo impermeável a todos os esforços de modernização nacional. Donde surge a problemática do eterno retorno do mesmo: enquanto a modernização corresponde a um fenômeno superficial, à nossa mera aparência, o mal de origem corresponde à nossa essência, ao nosso DNA, ao qual sempre retornaremos independentemente de alterações epidérmicas.

A modernização brasileira é inaltência! Sérgio Buarque e a questão das "raízes ibéricas" A culpa
A modernização
brasileira é
inaltência!
Sérgio Buarque e a
questão das "raízes
ibéricas"
A culpa é da
influência ibérica,
de Portugal.
Raimundo Faoro e
o conceito de
"patrimonialismo"
Roberto DaMatta e
a vertente
"culturalista"
O mal de
origem está na
essência do
Brasil

Os três autores tentam responder à questão: quais seriam esses males de origem ibérica?

ANÁLISE DE S ERGIO B UARQUE DE H OLANDA ; NÁLISE DE SERGIO BUARQUE DE HOLANDA;

“O ponto zero da constituição da sociedade brasileira para Buarque é marcado pela circunstância de termos recebido nossa herança europeia de uma nação ibérica.” 33

33 J. SOUZA, A modernização cit., p. 161.


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A tentativa de implantação da cultura europeia em um território de natureza estranha a essa cultura faz com que sejamos "os desterrados em nossa própria terra".

Qual a principal característica da relações sociais da sociedade brasileira?

Algo que herdamos de Portugal: o personalismo ibérico. A ideia de que no centro da nossa organização social, da nossa forma de pensar o mundo e relacionarmos com o outro, vem sempre a pessoa em primeiro lugar, o nível afetivo, da cordialidade. A sociedade é feita de "homens cordiais" e incapazes de estabelecer laços com bases em critérios impessoais, como o dinheiro, a lei, etc, que são instituições próprias da modernidade. Isso constitui a essência da sociedade portuguesa e brasileira.

“Buarque escolhe o mote do personalismo, ou melhor, da cultura da

personalidade, como o traço mais característico e decisivo da cultura ibérica que

O alfa e o ômega da ideia de personalismo em Sérgio

Buarque aponta para uma constelação de interesses e valores que encontram no próprio indivíduo sua razão de ser e seu norte. ( ) Por conta disso é que a vinculação com sentimentos e afetos é que irá conferir substância a esse tipo de personalidade. Daí também a fragilidade relativa das elações sociais baseada em interesses racionais numa sociedade personalista. Ainda como decorrência do mesmo fato temos a ausência da perspectiva dos acordos e compromissos racionais entre iguais.” 34

se implantou entre nós. (

)

Sérgio procura mostrar exemplos desse personalismo na nossa vida cotidiana e no âmbito das nossas ideias, e exemplos da distancia entre aquilo que é importado e o brasil real.

Visão de mundo Religião Negócios "PESSOA" Relações Institui- sociais ções
Visão de
mundo
Religião
Negócios
"PESSOA"
Relações
Institui-
sociais
ções

34 J. SOUZA, A modernização cit., pp. 162-163.


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  Como o personalismo constitui um
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Como o personalismo constitui um obstáculo à construção de solidariedade entre nós?

A carência da moral e da ética do trabalho entre nós se ajusta à nossa reduzida capacidade de organização social, e sua falta resulta em uma fraca coesão e solidariedade. Por conta do culto à pessoa, que bloqueia os laços de interdependência necessários à solidariedade, falta uma noção de todo, de conjunto.

“Será a institucionalização da cultura da personalidade que impedirá a solidariedade, formas de organização e de ordenamento horizontais no nosso país: ‘em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável’. Essa falta de coesão social teria marcado toda a nossa história tanto hoje como no passado.” 35

Daí, temos “a preponderância de uma ética aventureira em relação a uma ética do trabalho ou a subordinação do elemento cooperativo e racional ao processo afetivo” 36

Outro ponto decisivo é constituição da família rural em base oligárquica e um

certo primado do rural sobre o urbano. Cada latifúndio era um "micro- universo", o que também impedia um desenvolvimento de laços de intedependência.

Ademais, há o primado do privado sobre o público. A mentalidade ruralista continua viva mesmo no interior urbanizado, onde aflora o primado do personalismo à racionalidade do interesse geral. Nesse meio, o personalismo ganha uma feição institucional. O nosso próprio estado se constrói à imagem da grande família patriarcal.

Essa faceta do personalismo é percebida “nas associações de caráter político,

por exemplo, quando a solidariedade grupal é construída a partir de sentimentos e deveres de amizade e compadrio, e nunca pela força intrínseca de interesses objetivos e ideias impessoais.” 37

“O patrimonialismo desenvolve-se diretamente do personalismo, impedindo o desenvolvimento de um Estado racional democrático. O Estado permanece como uma mera generalização do princípio de sociabilidade familiar baseada na preferencia particularista dos afetos, alfa e ômega do personalismo enquanto concepção de mundo.” Por conseguinte, a burocracia racional não pôde se desenvolver nesse quadro como elemento autônomo. 38

35 J. SOUZA, A modernização cit., pp. 162-163.

36 Ibidem, p. 164.

37 Ibidem, p. 164-165.

38 Ibidem, p. 166.


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“Tanto num como noutro caso, a causa comum é o personalismo gerado no ambiente familiar, impedindo a formação de instituições não baseadas em vínculos sentimentais particularistas e privilégios. Desse modo, até a instituição do mercado, o qual vive da impessoalidade e da distância afetiva de modo a permitir a eficácia específica do mecanismo de concorrência, é invadida pelo personalismo, impedindo o desenvolvimento de todas as potencialidade da maior produtividade do capitalismo maduro.” 39

O problema de Portugal é que tudo gira em torno do culto à pessoa, pode até haver mobilidade social, trocas, etc, mas prevalece uma aversão às regras gerais. Paradoxalmente, há em Portugal uma certa valorização do mérito e ao mesmo tempo há o particularismo.

Para Buarque, foi essa mentalidade do reconhecimento social pelo mérito e responsabilidade individual que se tornou o maior impedimento para a constituição de um espírito de auto-organização horizontal (entre iguais,

portanto) e espontânea tão próprio dos calvinistas. (

sentido, vincula responsabilidade individual e respeito ao mérito individual

Personalismo, nesse

)

enquanto aspectos subordinados à própria personalidade. Os fins e objetivos perseguidos por essa personalidade fidalga jamais são extrapessoais ou impessoais.” 40

Esse problema foi herdado por nós: o personalismo está entranhado nas nossas relações sociais, nos negócios, na religião, determinando uma maneira própria de lidar com instituições, ritos, normas, regras, caracterizada pela tendência a driblar regras gerais.

A incorporação da democracia

"Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei."

GETÚLIO VARGAS

O autor tece uma critica à maneira como o ideal moderno de democracia foi incorporado pelos brasileiros. Importamos um sistema complexo e acabado de preceitos (a democracia), sem saber até que ponto se adequavam à realidade brasileira e quais limites concretos esta impõe. Na prática, vemos uma aristocracia rural que importou o ideal de democracia e o acomodou aos seus interesses, tornando-o instrumento para sua manutenção e continuidade de seus privilégios. O ideal democrático não esta relacionado no Brasil, portanto, a um processo de mudança revolucionaria.

39 J. SOUZA, A modernização cit., pp. 166. 40 Idem, p. 163.


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ANÁLISE DE R OBERTO D A M ATTA ; NÁLISE DE ROBERTO DAMATTA;

A sociedade brasileira é marcada pela tensão entre o moderno e o arcaico, que se

reflete na contraposição entre indivíduo e pessoa (universo particular, afetivo).

MODERNO ARCAICO "indivíduo" "pessoa"
MODERNO
ARCAICO
"indivíduo"
"pessoa"

O Direito no Brasil, via de regra, só vale para os desvalidos, para aqueles que não

possuem capital, conexões, laços políticos etc. DaMatta também se vale da comparação entre o Brasil e os EUA, na qual percebe-se certa idealização do último, país que serve de modelo.

ANÁLISE DE R AIMUNDO F AORO ; NÁLISE DE RAIMUNDO FAORO;

“sua tarefa é demonstrar o caráter patrimonialista do Estado brasileiro. Esse caráter patrimonialista responderia, em última instância, pela substância intrinsecamente não-democrática, particularista e baseada em privilégios que

O Brasil herda

sempre teria marcado o exercício do poder político no Brasil.( a forma de exercício do poder político de Portugal.” 41

)

Na análise de Faoro, algumas ênfazes se invertem: o autor considera que o problema do Brasil é o primado do Estado, que sufoca o florescimento de uma sociedade autônoma livre. O problema portanto é o excesso de centralismo, é um estado "todo poderoso", uma estrutura estatal fortíssima (que impede o florescimento do livre mercado, por exemplo). Esse quadro é herança da primeira monarquia central europeia: Portugal.

Faoro vê um capitalismo politicamente orientado e uma máquina governamental altamente permeável a interesses da elite. Um modelo estatal de estamentos burocráticos que se constitui primeiro em Portugal, e depois é transplantado na colônia, onde se solidifica e resiste a todas as tentativas de mudança.

Esse Estado é patrimonialista (conceito weberiano), e nele não há classes, mas estamentos marcados pelo prestígio social e pela honra. Dessa forma, o Estado fica ensimesmado, "tem dono", e os interesses particulares são reproduzidos em detrimento dos interesses públicos. A sociedade civil acaba por tornar-se uma "presa" desse "super- Estado".

41 J. SOUZA, A modernização cit., pp. 168.

 

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Qual é o problema com a sociologia da inaltenticidade?

Quais são os limites dessa forma de pensar a nossa modernização como postiça? Isso é um problema contemporâneo, que pressupõe um grande recuo histórico.

Esse tipo de analise (sociologia da inaltenticidade) deixa de lado o quanto a forma que a trajetória de modernização assumiu entre nós é a verdadeira geradora dessa serie de imperfeições.

Nosso problema está em sermos modernos, e não em não sermos modernos. A desigualdade estrutural é algo que também favorece o desenvolvimento, e não apenas o obstaculiza. Existe um questionamento mais recente que suscita essa reflexão: quem disse que o moderno não pode ele mesmo gerar formas bárbaras de organização social, problemas sociais, etc? Por que costumamos associar o moderno ao que é bom?

"Ideias fora do lugar": distância entre padrões importados de países modernos e a realidade concreta
"Ideias fora do lugar": distância entre padrões importados de países modernos e
a realidade concreta nacional;
Pensamento social brasileiro: vertente sociológia crítica que rompe com a
tradição verdeamarelista ufanista;
Modernismo: essas categorias importadas não permitem a construção de uma
identidade nacional pois não refletem o que NÓS somos;
Sociologia da inaltenticidade: males de origem que remontam à influência
ibérica
Sérgio Buarque: o personalismo ibérico bloqueia nossa capacidade de
organização social, coesão e solidariedade.
DaMatta: sociedade brasileira é marcada pela tensão entre o moderno e o
arcaico.
Faoro: o Estado é patrimonialista, super-centralizado, estamental, e reproduz
interesses particulares, sufocando o desenvolvimento do país.
Lacunas: a desigualdade estrutural também gera desenvolvimento, o moderno
nem sempre é "bom".
PONTOS IMPORTANTES

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Roberto Schwatz

* A aula sobre os textos do Schwartz foi em formato de perguntas e posterior discussão. Seguem abaixo as perguntas, com as respectivas considerações do Laurindo, além de alguns trechos pertinentes.

DILEMAS DA ORDEM SOCIAL BRASILEIRA II

Em que consiste, segundo o autor, o mal estar na cultura brasileira?pertinentes. D ILEMAS DA O RDEM S OCIAL B RASILEIRA II O mal estar na cultura

O mal estar na cultura brasileira consiste nas chamadas “ideias fora do lugar”. “Ideias” refere-se a todo o conjunto de valores, hábitos, modas, leis, instituições, etc, que o Brasil desde sempre importou de países como a Inglaterra, França, os EUA, ou seja, de países que nos tem servido de modelo. Tais ideias estão “fora do lugar” pois há uma distância muito grande entre a realidade desses países, que condicionou a criação de tais “ideias”, e a nossa própria realidade, e isso gera um mal estar.

Em termos marxistas, temos uma superestrutura que não espelha minimamente a nossa infraestrutura, o que a torna inaltêntica, e que é postiça, pois foi construída por outros países.

Tal mal estar aparece principalmente entre os setores da elite: frequentemente entre os brasileiros educados surge o drama de ter que falar do próprio país utilizando-se de categorias que não correspondem minimamente à nossa realidade. Ademais, essa questão emerge de forma mais contunde desde a independência, quando surge a ideia de “nação”.

“Em síntese, desde o século passado existe entre as pessoas educadas do Brasil – o que é uma categoria social, mais do que um elogio – o sentimento de viverem entre instituições e ideias que são copiadas do estrangeiro e não refletem a realidade local. Contudo, não basta renunciar ao empréstimo para pensar e viver de modo mais autêntico. Aliás, essa renúncia não é pensável.” 42

Qual o limite das propostas do titulo 'nacional por subtração?'Aliás, essa renúncia não é pensável.” 4 2 Em face desse mal-estar, muitos pensadores chegaram à

Em face desse mal-estar, muitos pensadores chegaram à conclusão de que se o problema está na importação, a solução seria uma operação básica na qual se tiraria tudo que é importado, e o que restaria seria a verdadeira essência nacional.

Brasil
Brasil
Portugal?! "Essência Estrangei- nacional" rismos ? Brasil colonial???
Portugal?!
"Essência
Estrangei-
nacional"
rismos
?
Brasil
colonial???

42 R. SCHUARZ, Que horas são?, São Paulo, Cia das Letras, 1987, pp. 38-39.


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Essa postura nacionalista é vista como muito ingênua pelo autor, afinal, eliminando- se os estrangeirismo cairíamos no Brasil colonial, que por sua vez foi totalmente moldado por Portugal.

O autor, ainda, levanta a questão: existe um original tão “quimicamente puro” em algum lugar do mundo que justificaria essa contraposição entre “original” e “cópia”? Não! E querer demarcar isso é uma ilusão, uma ingenuidade.

Outro problema relacionado a essa questão: muitos pensadores chegaram à conclusão de que se o problema está na cópia, para resolve-lo a elite deveria ser educada para parar

ele está

de copiar. Todavia, segundo o autor, o problema não é tão simples assim

ancorado na nossa estrutura social, na natureza das relações sociais no Brasil pós-moderno, e não está meramente em uma “mania de cópia” que pode ser mudada.

Qual é o fundamento social do estereótipo 'ideias fora do lugar'?meramente em uma “mania de cópia” que pode ser mudada. Roberto recusa a ideia "psicologizante" de

Roberto recusa a ideia "psicologizante" de cópia: não entra na discussão sobre se o brasileiro tem esse traço característico. Tenta, de fato, olhar o problema analisando a estrutura social do Brasil.

“a estrutura econômica social criada pela exploração colonial continuava intacta, agora em benefício das classes dominantes locais. Diante dessa persistência, era inevitável que as formas modernas de civilização, vindas na esteira da emancipação política e implicando liberdade e cidadania, parecessem estrangeiras( )”

43

no Brasil há uma coexistência entre

burguesia capitalista e escravismo, coexistência entre coisas que a priori seriam incompatíveis: formas modernas articuladas com forma "arcaicas", que não são mero resíduo, são com efeito algo aproveitado pelo nosso processo de modernização.

Não é uma questão de “complexo de vira-lata”

Tese sobre a natureza atrasada do progresso brasileiro: Schuarz utiliza e reforça o que seria “atrasado”. A escravidão tem um sentido moderno no Brasil, muito diferente da escravidão clássica. A burguesia brasileira se alimenta do "atraso" que persiste no Brasil.

Os aspectos sociológicos devem muito aos estudos dessa fração, que marcam uma diferença enorme em relação à sociologia da inaltenticidade. Veem o atraso brasileiro como produzido pela própria modernização capitalista entre nós.

Em que sentido a tese da cópia constitui uma ideologia em termos marxistas? pág 45 pág 45

Algumas características levantadas: questão da naturalização do que é histórico:

"desde sempre as ideias estiveram fora do lugar"; baralhamento dos campos da norma e do fato; generalização do específico:

“O que é um mal-estar de classe dominante, ligado à dificuldade de conciliar moralmente as vantagens do progresso e do escravismo ou sucedâneos, aparece como feição nacional.” 44

43 R. SCHUARZ, Que horas 44 Ibidem, p. 47.

cit., pp. 42-43.


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Ideologia para Marx, é uma ilusão bem fundada nas aparências. As ideias estão fora do lugar? Em última instância, não, mas o fato delas parecerem estar tem um enorme

não é por mero acaso. Roberto não defende o estereótipo,

ele identifica as ‘razões de ser’ objetivas dessa aparência na nossa realidade.

potencial de verossimilhança

“Assim, a tese da cópia cultural é ideologia na acepção marxista do termo, quer dizer, uma ilusão bem fundada nas aparências: a coexistência entre princípios burgueses e do antigo regime, fato muito notório e glosado, é explicada segundo um esquema plausível, de alcance abrangente e fundamento individualista, em que efeitos e salsas estão trocados em toda linha.” 45

Somos modernos, somos parte da modernização capitalista mundial, há sim uma circulação de ideias próprias. Mas aqui, surpreendentemente, a modernização se dá justamente pela manutenção daquilo mesmo que seria incompatível com ela, ou seja, tudo que parece herança do período colonial. Quem diz que há uma enorme discrepância entre “ideia e lugar” não está errado, há sim tais diferenças e elas são de fato significativas. Mas isso se deve não a sermos “atrasados”, mas à marcha específica e particular que a modernização capitalista assumiu entre nós. Tais defensores da tese “ideias fora do lugar” estão errados em não reconhecer o caráter moderno da convivência contraditória entre aspectos burgueses e a herança colonial.

5.
5.

Afinal de contas, as ideias estão ou não estão fora do lugar entre nós?

O autor critica quem diz que estão fora do lugar. Talvez a formulação mais apropriada à questão seja "estão E NÃO estão" (gato de schrodinger?): as coisas podem ser elas mesmas e ser o contrário. Elas estão no lugar porque o Brasil é efetivamente moderno, mas não estão porque essa modernidade é muito sui generis.

45 R. SCHUARZ, Que horas

cit., pp. 47.


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 Marcelo Neves MODELO LUHMANNIANO
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Marcelo Neves
MODELO LUHMANNIANO

Marcelo Neves estudou o Luhmann, autor de uma nova teoria dos sistemas. Marcelo, entretanto, utiliza a estratégia de tomar distancia em relação ao modelo, não o aplicando diretamente. É dessa forma que Marcelo dialoga com a tradição anterior do pensamento social brasileiro.

NOVA TEORIA DOS SISTEMAS SOCIAIS

Luhmann constrói, grosso modo, uma nova teoria da sociedade que, do ponto de vista do problema fundamental, trata de responder o que é a sociedade moderna. É a mesma pergunta por trás das obras de Marx, Weber, e Durkhein.

Em sua teoria, o autor empresta termos da biologia, da neurociência, dentre outras disciplinas muito distantes do universo corriqueiro das ciências sociais. Ademais, ao elaborar sua descrição da sociedade moderna, faz uma serie de rupturas, o que compõe o caráter ao mesmo tempo sofisticado e subversivo de sua obra.

A tradição humanista europeia vê a sociedade como um conjunto de relações

intersubjetivas. Por outro lado, o indivíduo concebido por uma perspectiva sistêmica luhmanniana está fora da sociedade, constituindo na verdade ambiente da sociedade. A sociedade humanista, concebida como um conjunto de seres humanos, poderia ser, na visão de Luhmann, uma mera combinação entre dois sistemas que não são sociedade: o biológico (nosso material orgânico) e o psíquico (que se organiza com base em tudo aquilo que está na nossa consciência mas que não se materializa, não se externaliza na forma de comunicação). Destarte, o indivíduo como sistema meramente orgânico e psíquico não forma sociedade: é externo ao social.

Essa construção procura nos levar a compreender a especificidade do sistema social:

para Luhmann, sociedade é comunicação. Comunicação, por sua vez, é o conjunto de todas as comunicações que existem. Assim, percebe-se na teoria do autor uma tentativa de tornar mais especifica a concepção de sociedade, pois a tradição humanista, para Luhmann, é muito genérica.

O autor trabalha com muitas dicotomias. Inclusive, parte de uma que é nova no

campo das ciências humanas. Com efeito, recusa como caracterização própria da modernidade a dicotomia centro-periferia, e trabalha com a dicotomia sistema-ambiente. Separa, assim, aquilo que pertence ao sistema e aquilo que constitui o seu entorno, o seu exterior. É uma oposição, em outras palavras, entre interno (comunicação) e externo (consciência e matéria orgânica).


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OS SUBSISTEMAS

Em suma, a sociedade moderna é feita de comunicação. Entretanto, na modernidade temos uma sociedade plural muito diversificada nos seus padrões comunicativos, que

coexistem no interior social. Consequentemente, vão surgindo subsistemas altamente

especializados no tratamento de determinadas comunicações. Como exemplo, podemos

citar a comunicação jurídica

econômico, político, religioso, artístico, etc.

o que a torna singular? Há também os subsistemas

Cria-se, dessa forma, uma nova oposição sistema-ambiente, mas dessa vez dentro da própria sociedade.

Como opera essa oposição sistema-ambiente no âmbito interno da sociedade?

Tudo

que

não

for

comunicação

jurídica,

por

exemplo,

dentro

do

sistema

de

comunicações, é ambiente do direito, e assim reciprocamente:

Subsistema Sistema Economia Psíquico Ambiente do Ambiente do Subsistema Subsistema Subsistema sistema social
Subsistema
Sistema
Economia
Psíquico
Ambiente do
Ambiente do
Subsistema
Subsistema
Subsistema
sistema social
subsistema
Política
Direito
Arte
jurídico
Sistema
Subsistema
Religião
Biológico
sociedade

CONSTRUTIVISMO

Luhmann, nesse sentido, adota uma perspectiva radicalmente construtivista. A rigor,

nessa sociedade especializada e altamente diferenciada, não existe uma única realidade,

não há apenas um mundo, na medida em que cada um desses subsistemas especializados

constrói a realidade através de uma perspectiva diferente. Dessa forma, o Direito contrói a si mesmo e a seu ambiente a partir de lentes jurídicas. Há, portanto, um modo de ver jurídico das coisas, do mundo, e da realidade, que não pode ser igual ao modo que os outros subsistemas constroem suas respectivas realidades.


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Nesse aspecto Luhmann se aproxima das teorias pós-modernas que dizem que a sociedade hoje é uma pluralidade de jogos de linguagem, uma “Babel” em que o próprio real se fragmenta e não tem um fundamento único de verdade. Daí a ideia de um construtivismo radical subjacente ao modelo teórico de Luhmann.

CRITÉRIO DE DIFERENCIAÇÃO

Ao longo da história podemos identificar diferentes padrões de diferenciação social, desde centro-periferia a nobreza-plebe e outros. O que muda quando passamos à sociedade moderna é o critério de diferenciação, que não é mais preponderantemente geográfico ou hierárquico, mas funcional: o Direito, por exemplo, desempenha uma função específica, infungível, que só ele pode desempenhar, assim como o subsistema ciência, economia, política, etc. Tal situação é nova, em termos históricos, de uma sociedade que passa a se organizar por critérios meramente funcionais.

Se a sociedade moderna se organiza dessa forma, por definição não pode haver hierarquia entre os diferentes sistemas. A sociedade é, portanto, policêntrica, não podendo ser mais representada pela pirâmide verticalizada feudal. Com efeito, cada subsistema é um centro de referência importante.

“De acordo com o modelo sistêmico luhmanniano, a sociedade moderna caracteriza-se pela hipercomplexidade, indissociavelmente vinculada à diferenciação funcional, que se realiza plenamente com a emergência de subsistemas autopoiéticos” 46 (237)

Como se caracteriza cada um desses subsistemas?

Os subsistemas são autopoiéticos, autorreferenciais, assim como a própria sociedade. Isso significa que produz os próprios elementos de que ele é feito, e se reproduz com base nesses mesmos elementos. A sociedade produz comunicação e se reproduz com base em comunicação. Analogamente, o direito produz comunicação jurídica e se reproduz com base em comunicação jurídica e nada mais. O mesmo vale para todos os demais subsistemas.

Desse ponto de vista, ao afirmar essa autopoiese, Luhmann acaba apresentando um modelo sociológico cuja ênfase está no interno, na autonomia de cada sistema ou subsistema: busca responder questões como qual o específico da comunicação artística? O que torna o direito, direito? Esse é o grande diferencial do modelo de Luhmann.

O problema está justamente quando não se respeitam devidamente os limites dos sistemas, ou quando um subsistema ganha tal autonomia que passa a influenciar os demais, impedindo uma filtragem interna de cada um desses sistemas invadidos.

46


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SOCIOLOGIA
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CÓDIGO E FUNÇÃO

Cada sistema se organiza com base em um código binário de comunicação. Por exemplo, o subsistema jurídico se organiza com base no código lícito-ilícito, o econômico com base no ter-não ter ou propriedade-não propriedade, o político com base no governo- oposição ou amigo-inimigo, etc. Esses códigos são únicos e exclusivos dos seus respectivos sistemas jurídicos. Ademais, cada um desses sistemas tem uma função específica: a do direito é garantir expectativas normativas, a da economia é administrar no tempo o problema da escassez; o da política é criar condições para a tomada de decisões coletivas que influenciem o todo social, etc.

Enfim, a função e o código dão a identidade do sistema, seu fechamento operativo, sua autonomia. Esse fechamento caracteriza os sistemas e dá um caráter circular à sua organização. Simultaneamente, o sistema é aberto no nível cognitivo: é capaz de filtrar influencias, irritações do ambiente. Exemplo: aconteceu um cataclisma econômico – o direito é capaz de se ajustar a partir disso se puder traduzir tal situação externa em termos que façam sentido para seu código e sua função.

A DESDIFERENCIAÇÃO FUNCIONAL

Como

Marcelo

brasileiro?

se

apropria

desse

modelo

luhmanniano

para

fazer

uma

análise

do

caso

Não podemos supor empiricamente que as relações sociais no Brasil correspondam a esse modelo. É preciso um esforço teórico para responder a questão: existem subsistemas autorreferenciais na sociedade brasileira?

ARGUMENTO FUNDAMENTAL

Essa construção teórica pode parecer eventualmente descrever de modo mais verossímel a realidade dos países centrais, mas não descreve de maneira adequada a realidade dos países periféricos.

O que a modernidade periférica tem de singular, que a diferencia da central, e impede que esse modelo analítico possa ser utilizado?

Os sistemas na periferia são fracos. Sobretudo o direito e a política, são sistemas

são alopoiéticos, ou seja, se

que não se configuram como plenamente autônomos

reproduzem com base em outros sistemas. É um problema de heterorreferência.


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“As relações entre as esferas de comunicação assumem formas autodestrutivas e heterodestrutivas, com consequências desastrosas para a integração sistêmica e inclusão social.” 47

O direito, com efeito, se reproduz por critérios econômicos, e não por seus próprios critérios como seria de se esperar. Vemos assim o funcionamento desigual da justiça em virtude do critério ter-não ter, da preocupação com a posição socio-econômica. Da mesma forma, na política, vemos a corrupção, a compra de votos, etc, enfim, uma corrupção sistêmica* que compromete o fechamento do sistema político.

A partir da sociedade envolvente, os sistemas jurídico e político são bloqueados generalizadamente na sua autoprodução consistente por injunções heterônomas de outros códigos e critérios sistêmicos, assim como pelos particularismos difusos que persistem na ausência de uma esfera pública pluralista. No interior do Estado, por sua vez, verificam-se intrusões destrutivas do poder na esfera do

direito. (

Isso significa que não estão definidas claramente as fronteiras de

)

uma esfera de juridicidade.” 48

Do ponto de vista sistêmico, abertura cognitiva pressupõe o fechamento operacional ou normativo. Portanto, antes se trata de quebra do fechamento operacional, por força da qual se diluem as fronteiras entre o “campo jurídico” e outras esferas da comunicação. Disso resulta que o direito encontra-se

permanentemente em crises de identidade (

)”

49

“São importantes aqui as invasões dos procedimentos eleitorais e legislativos pelo

não se trata da abertura

cognitiva do sistema político para as exigências da economia e para os valores, as expectativas e os interesses presentes na esfera pública, mas antes de quebra do fechamento operacional da política, pressuposto sistêmico para a abordagem

Não há, então, uma filtragem

simétrica das influencias reciprocas entre política e direito. A concretização constitucional é deturpada sistematicamente pela pressão de conformações particulares de poder” 50

código econômico e por particularismos relacionais. (

)

em face de um ambiente social supercomplexo.(

)

Por que no Brasil não se observa a concretização de uma sociedade plenamente diferenciada em sistemas autopoiéticos?

“A experiência brasileira enquadra-se como um caso típico de modernidade periférica, desde que a crescente complexidade e o desaparecimento do moralismo tradicional não têm sido acompanhados de maneira satisfatória pela

47 M. NEVES, Entre Têmis e Leviatã, Martins Fontes, 2006, p. 238

48 Ibidem, p. 239.

49 Ibidem, p. 240.

50 Ibidem, p. 242-243.


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diferenciação funcional e pelo surgimento de uma esfera pública fundada institucionalmente na universalização da cidadania.” 51

Este problema não se refere a uma questão antropológico-cultural que seria “própria”

não é, portanto, uma questão concernente à nossa formação, como

acreditam as teorias das raízes ibéricas (Sérgio Buarque, Faoro, DaMatta, etc). Então, onde está o fundamento? Por que o sistema jurídico e político não conseguem consolidar a sua identidade autônoma no Brasil? Como a sociedade consegue fazer injunções diretas sem passar pelo filtro, pelas mediações internas de cada um dos sistemas?

dos países periféricos

“Não se trata aqui de um problema estritamente antropológico-cultural do Brasil. Ele é indissociável do próprio tipo de relações sociais em que se encontra envolvido o Estado na modernidade periférica em geral, ultrapassando os limites de “antropologias nacionais” e correspondentes singularidades culturais.” 52

A raiz dessa situação é a estrutura social desigual, as relações sociais destrutivas. Isso impede a consolidação desse fechamento sistêmico. Com efeito, há no Brasil uma clara

diferença entre os sobre-cidadãos e os sub-cidadãos, cuja relação de acesso e dependência em relação ao direito é desigual.

Obrigações Direitos e e DIREITO Garantias Responsabi- lidades Têm acesso a Integração Incidem sobre Sobre-
Obrigações
Direitos e
e
DIREITO
Garantias
Responsabi-
lidades
Têm acesso a
Integração
Incidem sobre
Sobre-
positiva, por
cidadãos
alto
Integração
negativa, por
baixo
Sub-cidadãos

“Um dos obstáculos que mais dificultam a realização do Estado Democrático de Direito na modernidade periférica destacadamente no Brasil, é a generalização

51 M. NEVES, Entre Têmis 52 Ibidem, pp. 247-248.

cit., p. 244.


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de relações de subintegração e sobreintegração. Definida a inclusão como acesso e dependência aos sistemas sociais, falta nesse caso uma das duas dimensões do

há ausência de direitos e deveres partilhados reciprocamente. Isso

significa inexistência de cidadania como mecanismo de integração jurídico- política igualitária da população na sociedade.” 53

conceito. (

)

Se por um lado os sub-cidadãos (subintegrados) não tem acesso ao sistema jurídico no tocante aos direitos, às garantias fundamentais, por outro estão incluídos no sistema no aspecto negativo: têm obrigações, são devedores, réus, etc. Em outras palavras, eles não têm acesso aos benefícios do ordenamento jurídico estatal, mas dependem de suas prescrições impositivas.

“Embora lhes faltem as condições reais de exercer os direitos fundamentais constitucionalmente declarados, não estão liberados dos deveres e responsabilidades impostas pelo aparelho coercitivo estatal, submetendo-se

São integrados ao sistema

punitivas.

radicalmente

jurídico, em regra, como devedores, indiciados, denunciados, réus, condenados

às

suas

estruturas

(

)

etc., não como detentores de direitos, credores ou autores” 54

O sub cidadão fica aquém do direito no em relação ao acesso, e fica super- dependente em relação à responsabilidade, se integram ao direito, assim, em termos negativos, por baixo.

Já o sobre-cidadão tem acesso aos instrumentos e garantias fundamentais, além de possuírem as condições para fazer valer esses direitos, mas por outro lado, e muito frequentemente, não tem que arcar com deveres e responsabilidades instituídos pelo próprio sistema, se integra ao sistema jurídico, portanto, de forma positiva, por cima.

“A sobreintegração se refere à prática de grupos privilegiados que, principalmente com o apoio da burocracia estatal, desenvolvem sua ações bloqueantes da reprodução do direito. Os sobreintegrados, em princípio, são titulares de direitos, competências, poderes e prerrogativas, mas não se subordinam regularmente à atividade punitiva do Estado no que se refere aos deveres e responsabilidades. Sua postura em relação à ordem jurídica é eminentemente instrumental: usam, desusam ou abusam-na conforme as constelações concretas e particularistas dos seus interesses.” 55

Isso também estaria por trás do paradoxo constitutivo do direito no brasil: a convivência entre legalismo estrito, máximo de rigor legal, formalismo exacerbado, e, por outro lado, a impunidade.

53 M. NEVES, Entre Têmis

54 Ibidem, pp. 248-249.

55 Ibidem, p. 250.

cit., p. 248.


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Em regra, o rigor se aplica justamente ao sub-cidadão. Fetichismo legal: sistema completamente cego nas possíveis relações sociais em que está imerso e em nas suas consequências. (sobre fetichismo legal, vide pág. 254)

Daí o autor extrai uma tese: o Estado Democrático de Direito ainda hoje não se realizou no Brasil completamente. Só teria se realizado se houvesse um mínimo de autonomia no funcionamento do sistema jurídico, como por exemplo o tratamento igualitário diante da lei. Por isso mesmo que os obstáculos ao Estado Democrático de Direito no Brasil não se resolvem por simples reforma institucional ou jurídico- administrativa: o problema esta mais embaixo.

Localização do indivíduo no exterior da sociedade: os aspectos biológicos e psíquicos inerente aos humanos
Localização do indivíduo no exterior da sociedade: os aspectos biológicos e
psíquicos inerente aos humanos são mero ambiente do sistema social.
Demarcação interna dentro da prépria socidade entre seus subsistemas e seus
respectivos ambientes, que correspondem aos outros subsistemas;
A sociedade e os subsistemas são autopoiéticos: produzem os próprios
elementos de que são feitos, e se reproduzem apenas com base nesses elementos;
O sistema é caracterizado por um fechamento operativo, e uma abertura
cognitiva: sofre influências do ambiente, mas as traduz em seus termos
prórpios e específicos;
Na modernidade periférica não há uma delimitação nítida desses subsistemas,
que são heterorreferenciais e heterodestrutivos;
No Brasil a cidadania não é plenamente desenvolvida pois as diferenças sociais
repercutem indevidamente na integração ao sistema jurídico, há
sobrecidadãos e subcidadãos.
PONTOS IMPORTANTES

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Michel Foucault

Foucault tem uma concepção muito específica de relações de poder, pensado de uma maneira indissociável do saber: poder é saber, enquanto houver relações de poder, há relações de saber, e vice versa. Da mesma forma que as relações sociais, os processos de conhecimento dependem invariavelmente do estabelecimento de técnicas e relações de poder. Um exemplo disso é a forma de conhecimento criminológico, ou a própria ideologia penal positiva, que são intrinsecamente associados à prisão como forma de punição: há o estabelecimento de uma relação de poder entre o vigilante e o vigiado, entre alguém que pune e alguém que é punido.

DISPOSITIVOS DE PODER/SABER

Poder disciplinar: se volta para o corpo e para a subjetividade dos indivíduos. É uma técnica de poder individualizante. Visa à maior disciplina e docilidade, e consequentemente maior produtividade. São técnicas de exame e classificação de desempenhos, performances, condutas, e portanto se focam em alvos específicos. Exemplos: escola, hospitais, exército, monastério, prisão. O conceito de disciplina para Foucault, portanto, está relacionado a “Vigiar e Punir”. Ademais, segundo o autor o poder não é algo que está apenas no Estado e nas instituições, o poder é algo que se exerce entre as pessoas (microfísica do poder), no nível interindividual.

Governamentabilidade: (é um neologismo, não se relaciona a governabilidade) Se trata, de fato, de outra tecnologia de poder-saber com outros objetivos: visa o conjunto da população, o ser humano enquanto espécie, como um agregado de indivíduos atravessados por uma série de processos naturais com certos padrões de comportamento coletivo. São técnicas de mensuração estatística, como taxas, índices, etc (ex: taxas de natalidade, de migração). Essas ferramentas vão sendo forjadas no século XVIII e permitem o planejamento de programas de planejamento, de incentivos, de fomentação do desenvolvimento, etc. O objetivo dessas técnicas é promover a vida da população.

Nessa discussão sobre governamentabilidade insere-se a discussão que Foucault faz sobre o neoliberalismo. Esta é bastante oscilatória, pois ele nunca escreveu um livro a respeito que sistematizasse seu discurso, e a discussão é, consequentemente é ainda muito fecunda. Foucault nos forneceu ferramentas, e não conceitos canônicos sobre o tema.

Num primeiro momento, pesquisa o governo na Idade Média, quando não existia um

o rei reinava mas não governava. O exercício de governo se

dava pelas autoridades no interior das comunidades religiosas. Nelas há uma gestão de uma coletividade ao mesmo tempo atenta aos indivíduos que se desgarram do grupo, e atenta à coletividade em si (ideia do rebanho).

governo propriamente dito


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Já no período do mercantilismo há o estabelecimento do Estado-nação e da economia mercantilista. Assim, há o começo das grande trocas globais, e nasce uma preocupação com o desenvolvimento de técnicas governamentais. Todavia, ainda faltavam instrumentos para entender plenamente os processos de governamentabilidade. O Estado então preocupava- se mais em disciplinar a sociedade do que governar. Exemplo: estabelecimento de preços definidos, de controles de pesos e medidas, o Estado assume nesse caso o dever de estabelecer como se “mensuram as coisas”. Em suma, é um momento de aproximação entre técnicas governamentais e o aparelho do Estado.

Em um terceiro momento, o autor trata do liberalismo. O conjunto da população e muitos dos seus processos naturais já podem ser medidos em aparelhos, técnicas, formas ainda muito rudimentares mas que já permitem que o soberano desenvolva estratégias de intervenção no território, na economia. Já não são aquelas de caráter mais disciplinar. É o momento em que se consolidam as técnicas governamentais.

É um contexto em que a classe burguesa assume cada vez mais a posição de poder. A

preocupação desses economistas políticos liberais que estão desenvolvendo essas técnicas governamentais naquele momento é limitar o poder de intervenção do soberano na economia, essa é a problemática central dos liberais. A questão então é: como desenvolver uma teoria em que se mostre por “A + B” que o rei deve se retirar de governar certas questões que outrora eram a eles sujeitas? Chegam à conclusão de que o soberano deve primar pela liberdade de mercado, que é auto-regulável.

A ARTE DE GOVERNAR NEOLIBERAL

Qual diferença entre o liberalismo do século XVIII e neoliberalismo do século XX?

É importante a distinção que Foucault faz entre liberalismo e neoliberalismo.

antes, tratemos de algumas questões preliminares:

Mas

Quais questões emergem atualmente com a palavra neoliberalismo? Relaciona-se à desvantagem do Estado a partir de uma série de reformas administrativas, da desregulação dos mercados, das privatizações, da globalização da produção, etc. É esse o senso comum do conceituário neoliberal, que desestruturaliza os Estados de bem-estar social.

OBS: Foucault discute o neoliberalismo antes mesmo do advento do tatcherismo e da política econômica do Reagan, o que confere à suas teorias um caráter quase profético, de perceber que algo muito importante estava acontecendo antes que as coisas explodissem.

Foucault procura estudar o neoliberalismo alemão, mostrando que a sua origem está mais relacionada com o pós-guerra e a Alemanha do que à Inglaterra e aos Estados Unidos dos anos 1980.


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ORDOLIBERALISMO

Tratando do pós-guerra na Alemanha, surge o tema do ordoliberalismo: é uma corrente de pensamento econômico minoritária da escola de Friburgo, mas muito importante pois seus intelectuais serão de grande relevância na reestruturação da Alemanha no pós-guerra.

Os ordoliberais formulam a economia em oposição à economia nacional socialista (de guerra e de mobilização total). São, assim, os convidados pelos aliados para compor o Conselho que desenharia os primeiros esboços da Nova Alemanha. Esse neoliberalismo se estabelece como um programa governamental quando o problema era refundar um Estado a partir de atividades econômicas que já estavam se estabelecendo. Em outras palavras, buscam a solução: dado que existe uma atividade e uma circulação econômica se definindo, como é possível fundar, erigir, construir um novo Estado a partir disso? Não é mais uma questão de restringir o poder do Estado, o que os diferencia dos liberais do século XVIII.

Antes

de

apontarmos

as

principais

requalificações

inerentes

à

passagem

do

liberalismo ao neoliberalismo, é importante salientar algumas características comuns.

Traço fundamental: a oposição que estrutura a experiência histórica do século XX não é

é a diferença entre

liberalismo e estatismo. Assim, todas essas vertentes políticas como o New Deal americano, o trabalhismo na Inglaterra, a economia planificada na URSS, todas tinham uma invariante antiliberal, o denominador comum do estatismo. Para os neoliberais, essa característica nunca é proveitosa, porém acabou por dominar o cenário econômico na segunda metade do século XX.

entre socialismo e capitalismo, entre uma ideologia e outra

“O verdadeiro problema era entre uma política liberal e qualquer outra forma de intervencionismo econômico, quer ele adquira a forma relativamente suave do keynesianismo, quer adote a forma drástica de um plano autárquico como o da Alemanha. Temos portanto certa invariante antiliberal, que tem sua lógica própria e sua necessidade interna.” 56

1)
1)

O ESTADO

Para os liberais clássicos, o elemento fundamental da economia era a troca de bens equivalentes, que tem que se desenvolver livremente segundo os interesses particulares, cabendo ao Estado apenas garantir essa liberdade ao garantir a propriedade privada. Por outro lado, no ordoliberalismo, o elemento fundamental da economia é a concorrência entre desiguais. Esta não é um dado natural, é algo que deve ser ativamente promovido, incentivado pelo Estado, que com efeito tem que criar mercado. Percebe-se assim uma clara contraposição entre as concepções liberal e ordoliberal do papel do Estado: por um

56 M. FOUCAULT, Nascimento da biopolítica, São Paulo, Martins Fontes, 228, p. 151.


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lado, um fobia do Estado, um antiestatismo exarcebado, e por outro, coloca-se o mercado no centro da produção. É esse cruzamento que demarca o lugar do estado no programa de governo neoliberal: a concorrência é um esforço governamental. Assim, por um lado a concorrência tem que se organizar a partir do princípio de funcionamento do Estado, e por outro o próprio Estado tem que se apoiar no mercado para se estruturar, e tem que garantir a liberdade do mercado para promover mais mercado: em suma, o mercado é simultaneamente condição de existência e objeto político do Estado.

Assim, no neoliberalismo o Estado não é descartado, mas é requalificado nas suas condições de existência e funcionamento. Esse é o ponto que Foucault desenvolve na aula.

Discutindo

a

versão

mais

contemporânea

do

neoliberalismo,

o

americano,

percebemos algumas outras características importantes:

ASPECTO EXISTENCIAL SPECTO EXISTENCIAL

Relaciona-se à racionalidade mercantil. A lógica de mercado vai invadindo uma série de outros campos da existência que antes não eram regulados em termos de relações mercantis. Em outras palavras, transforma todas as esferas sociais em termos econômicos. Foucault via esse extravazamento da economia em diversos campos da existência nos EUA dos anos 1970.

A FIGURA DO T RABALHADOR FIGURA DO TRABALHADOR

Na teoria econômica marxista, na liberal e na clássica, o trabalhador era visto como força de trabalho, como uma mercadoria específica com a propriedade de produzir valor. Apesar dessa especificidade, o trabalho é ao mesmo tempo uma mercadoria abstrata pois é desprovida de qualidade, se mede quantitativamente por horas.

Já no neoliberalismo aparece um duplo movimento de requalificação dessa figura: o trabalhador se converte em uma máquina como qualquer outra que compõe uma cadeia produtiva. Essa concepção está no cerne do conceito de “capital humano”. O trabalhador, destarte, se torna fator de capital e o salário se converte em uma certa renda desse capital sendo aplicado. Por um lado, percebemos nisso um caráter grotesco, afinal o que está sendo qualificado como máquina é o próprio corpo: o que define seu valor e grau de rentabilidade e produtividade são características inatas (preocupação com a genética) e adquiridas (preocupação com a educação, com a qualificação profissional). Por outro, o trabalhador nessa requalificação transforma-se em empresário de si mesmo: faz investimentos no seu capital, no seu próprio corpo, através por exemplo de cursos, educação, etc. Esses investimentos são incessantes e tais pessoas buscam promover a si mesmas como mercadorias. O trabalhador é desumanizado.

Essas mudanças não são apenas mudanças no modo de “se conceber”, não são

Essas mudanças lógicas, pragmáticas na forma de

restritas ao campo da ideologia


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conceber o trabalho, o salário, etc, tem implicações práticas: se não fosse isso, todo o processo de terceirização seria impensável.

4)
4)

O GOVERNO DO CRIME

Na concepção clássica, o crime relaciona-se a uma violação do Contrato Social que deve ser punida, combatida. Assim, o processo de punição tem o caráter de reconstituir o contrato social com aqueles que o romperam. Já para o neoliberalismo, o crime é visto como um fenômeno social normal, restando ao Estado governar suas taxas de incidência, podem ser minoradas, por uma série de técnicas, para um ‘nível ótimo’, mas nunca totalmente extintas.

Ademais, nessa linha o “criminoso” é visto como um ser racional atuando num mercado criminal: faz um arranjo mais ou menos racionalmente auferindo uma rentabilidade do seu investimento (o risco de ser pego é compensado pelo lucro de um determinado crime?”). Dessa forma, retira-se do programa punitivo todo o caráter reabilitador, pois o criminoso é um homem de negócios como qualquer outro, devendo-se apenas retirá-lo do mercado criminal.

OBS: essa concepção é questionável no contexto brasileiro.

Dessa forma, não se pensa mais em diminuir o crime prendendo e realizando na prisão programas de reabilitação. O modo de reduzir a criminalidade passa a ser ambiental, ou seja, através de ferramentas e instrumentos técnicos que, conforme o ambiente em que as pessoas circulam, reduzem a rentabilidade de um crime praticado ali (ex: câmeras de vigilância).

O poder é indissociável do saber, podendo ser exercido pelas formas da disciplina (individualizante, ex:
O poder é indissociável do saber, podendo ser exercido pelas formas da
disciplina (individualizante, ex: escola) e da governamentabilidade;
Governamentabilidade: se dá pelo levantamento de dados a respeito do
conjunto da população (estatísticas, taxas) para o planejamento de políticas
públicas (ex: incentivos à economia);
Para o liberalismo, o elemento fundamental da economia era a troca, enquanto
no neoliberalismo é a concorrência, que deve ser fomentada pelo Estado;
Há no neoliberalismo uma requalificação do trabalhador, que passa a ser visto
como parte do capital da cadeia produtiva e como empresário de si mesmo;
A punição perde seu caráter de reabilitação do contrato social, pois o criminoso
passa a ser visto como um agente econômico como qualquer outro.
PONTOS IMPORTANTES

Fim!