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Editado em outubro de 2005

Organização Carlos A. Afonso


Coordenação editorial Graciela Selaimen
Capa, projeto gráfico e diagramação Renata Monteiro
Ilustrações Mateu Velasco
Traduções Ricardo Silveira e Carlos A. Afonso
Revisão Fausto Rego e Juliana Radler
Versão digitalizada disponível no Observatório de Políticas Públicas de Infoinclusão
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30

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permissão do autor.
20
governança da internet - contexto, impasses e caminhos
30
Índice
Introdução...................................6
Capítulo 1.....................................8
Governança da Internet: uma análise no
contexto do processo da CMSI
Carlos A. Afonso

Capítulo 2....................................37
Um fórum global para a governança da Internet:
a ótica do Brasil
Carlos A. Afonso

Capítulo 3....................................45
Supervisão política da ICANN:
uma contribuição para a CMSI
Internet Governance Project

Capítulo 4....................................58
A governança da Internet:
o controle do namespace no ciberespaço
Marcelo Sávio, Henrique Luiz Cukierman e
Ivan da Costa Marques

Apêndice 1...................................80
A estrutura brasileira de governança da Internet

Apêndice 2...................................84
Glossário

Apêndice 3..................................96
Referências na Web
6 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

coordenação e administração de nomes


de domínio e números IP hoje realiza
Introdução das pela ICANN): a real globalização da
ICANN, deixando, portanto, de estar
subordinada a um só governo, está fora

D
epois que alguns dos capítulos de questão.
deste livro já estavam prontos, em Isto consolida uma polarização entre
outubro de 2005, várias iniciativas os EUA e alguns de seus aliados, por um
de parlamentares dos EUA demonstraram lado, e a União Européia e alguns outros
o apoio do Congresso à posição dos EUA países (entre os quais o Brasil), por outro,
sobre o controle do sistema mundial de na discussão da governança global da
nomes de domínio da Internet. No dia Internet que deve culminar na segunda
18 de outubro, uma das propostas de Cúpula Mundial sobre a Sociedade da
resolução conjunta (Senado e Câmara Informação (CMSI), em Túnis, de 16 a 18
dos Representantes) estabelece: de novembro de 2005. De fato, a União
“(1) É da incumbência dos Estados Uni- Européia tem alertado que essa polariza-
dos e outros governos responsáveis o envio de ção pode levar a uma quebra do paradigma
sinais claros ao mercado que a atual estru- atual centralizado de administração da
tura de supervisão e administração do serviço infra-estrutura lógica.
de nomes de domínio e endereçamento da In- Tecnicamente é possível estabelecer
ternet funciona, e continuará a oferecer bene- várias “Internets” operando de modo in-
fícios tangíveis a usuários da Internet em todo dependente, e que se relacionam através
o mundo no futuro; e (2) portanto, o servidor de “pontes lógicas” – é até mesmo pos-
de zona raiz autorizativo deveria permanecer sível fazer isso sem que o usuário final
fisicamente localizado nos Estados Unidos perceba qualquer inconveniente, exceto
e o Secretário de Comércio deveria man- talvez por uma inesperada abundância de
ter supervisão sobre a ICANN de modo que a novos nomes de domínio globais. Afinal,
ICANN possa continuar a administrar bem o mais importante é que todas as redes
a operação cotidiana do sistema de nomes (e lembremos que a Internet sempre foi
de domínio e endereçamento da Internet, uma rede de redes) usem a mesma lógica
permanecer à disposição de todos os interes- de endereçamento por números IP.
sados da Internet mundialmente, e ademais Politicamente, no entanto, isso seria
cumprir sua missão técnica central.”1 um desastre, porque colocaria em risco
Uma resolução, mesmo aprovada a vitoriosa combinação de um sistema de
formalmente, não tem força de lei, mas rede em que, se o endereçamento é co-
caracteriza uma posição comum do Con- ordenado centralmente, há uma propa-
gresso e do governo dos EUA a respeito do gação mundial livre, horizontal e sem
futuro da governança global da infra-es- barreiras causadas por essa coordenação
trutura lógica da Internet (as funções de central. Preservar essas características

1 - O texto completo da resolução está em http://www.lextext.com/HR268.htm.


7
em um cenário de gover- O impasse está es-
nança global, transparente, tabelecido.
democrática e pluralista é o A sociedade civil organizada
grande desafio da CMSI. que tem participado intensamente
A posição de efetivamente globalizar a desse debate procura posicionar-se de-
ICANN e criar uma estrutura internacio- fendendo a criação de um mecanismo
nal de governança que contemple também global que seja, sobretudo, democrático,
vários outros temas que afetam a Internet transparente e pluralista – características
(que vão do spam e do phishing aos termos que não correspondem no seu conjunto
de custeio da conexão entre países, do à prática das agências da ONU – e de al-
e-comércio à liberdade de conhecimen- gum modo trate de todos os componentes
to) foi reforçada pelo relatório do Grupo que requerem governança, não apenas de
de Trabalho sobre Governança da Inter- nomes e números.
net (GTGI), entregue a Kofi Annan em Este livro procura oferecer uma
julho de 2005. referência histórica e analítica para o
Entre outras preocupações, todo o acompanhamento desse debate, que cer-
sistema de endereçamento está baseado tamente não terminará em Túnis. Além
em um conjunto de 13 servidores2, dez de uma excelente revisão histórica do
dos quais em território americano (in- processo de governança que resultou na
clusive o servidor mestre, onde reside o ICANN (Marcelo Sávio, Henrique Luiz
único arquivo de dados de domínios de Cukierman e Ivan da Costa Marques),
primeiro nível globais e de países que trata em detalhe das discussões da gover-
pode ser modificado). A administração do nança no contexto da CMSI (Carlos Afon-
sistema é feita por uma entidade civil sem so) e apresenta uma proposta de transição
fins de lucro estabelecida na Califórnia, para a governança mundial da infra-estru-
autorizada pelo Departamento de Co- tura lógica (Internet Governance Project).
mércio, em conjunto com uma empresa Apresenta ainda uma descrição do siste-
privada – a Verisign –, e portanto sujeita ma brasileiro de governança da Internet
às leis deste estado e às leis federais dos e uma descrição da proposta brasileira
EUA. O relatório do GTGI recomenda en- que será discutida em Túnis de 16 a 18 de
faticamente que um mecanismo global de novembro de 2005.
governança da rede não pode estar subor- A Rits agradece a colaboração dos au-
dinado a nenhum governo em particular, tores para esta publicação inaugural de
mas sim a uma estrutura internacional de seu novo Núcleo de Pesquisa, Estudos e
aconselhamento e supervisão com par- Formação (NUPEF).
ticipação de todos os governos e outros Carlos A. Afonso
grupos de interesses. rio de janeiro, 11 de novembro de 2005
2 - A tecnologia DNS atual impõe esse limite no número de servidores. No entanto, uma tecnologia paralela conhecida
como „Anycast‰ permite que vários espelhos possam ser vinculados a qualquer dos 13 servidores. Com essa tecnologia,
muitos países mantém em seus territórios servidores-espelho „Anycast‰, eliminando assim a necessidade de com-
putadores do país terem de consultar qualquer dos 13 servidores centrais para o referenciamento de nomes e números.
20
1
Governança
I - Introdução
Como as leis naturais da física, a ar-
quitetura da Internet determina os
espaços onde se podem elaborar e exe-
cutar políticas públicas. Entretanto,
se as leis da física não são feitas pelo
da Internet: homem, a arquitetura do ciberespaço

uma análise é construída por pessoas físicas e ju-


rídicas. Por conseguinte, temos dois
no contexto problemas distintos, mas interliga-
do processo dos: 1. Como políticas públicas se en-
da CMSI 3
quadram na arquitetura global da
Internet? e 2. Como é projetada a ar-
Carlos A. Afonso4
quitetura técnica mesma da Internet?

wolfgang kleinwächter5

N
o recente processo de discussão
sobre a governança da Internet,
estimulado desde a reunião da
Cúpula Mundial sobre a Sociedade da In-
formação (CMSI)6 realizada em Genebra
a partir da criação do Grupo de Trabalho
sobre Governança da Internet (GTGI)7 ,
as visões de como deve ser a governança
da infra-estrutura lógica da rede das re-
des8 têm oscilado entre duas posições
extremas: por um lado, os icannianos9
insistem em dizer que, se há algo a ser
consertado, assim o será dentro da atual
estrutura, que eles gostam de caracterizar
c a p 1 - g ov e r na n ç a da i n t e r n e t: u m a a n á l i s e n o c o n t e x t o d o p r o c e s s o da c m s i 9
como uma estrutura baseada na iniciativa com remetente falso) phishing (métodos
privada. de obtenção fraudulenta de dados pes-
soais e senhas via e-mail) e outras formas
No outro extremo, há representantes de crimes ou ações causadoras de danos
de alguns países (não necessariamente sociais através da Internet; patentes,
membros do GTGI) que defendem um re- direitos autorais e marcas registradas
passe de todas as funções da Corporação (no jargão da OMPI10, “direitos de pro-
Internet para Nomes e Números (ICANN) priedade intelectual”, ou DPI); proteção
para a União Internacional de Telecomu- da privacidade e de dados pessoais ou
nicações (UIT). Esta última visão se re- institucionais, e muitas outras, con-
força com o fato de que a UIT patrocinou forme descrito mais adiante, na análise
o GTGI e manteve observadores partici- do relatório do GTGI.
pando permanentemente com voz ativa
tanto nos encontros presenciais quanto O GTGI precisou levar em conta que a in-
nas reuniões que o grupo realizou online, fra-estrutura lógica abrangente da Inter-
sem falar das intervenções iniciais, bas- net tem sérias conseqüências muito além
tante explícitas, em defesa dessa ótica nas dela mesma, ao envolver aspectos sociais,
reuniões do GTGI feitas pelo secretário econômicos, políticos e culturais e ao ser
geral da UIT, Yoshio Utsumi. de vários modos indiferente às fronteiras
geopolíticas. As opções de governança,
Entre essas óticas polarizadas estão mui- portanto, precisam ser analisadas e con-
tas propostas, geralmente voltadas para sideradas tendo em vista uma extensa
cobrir uma ampla variedade de temas lista de fatores que afetam e são afetados
relacionados a um sistema de governança pela rede.
global da Internet no futuro, muito além
dos “nomes, números e protocolos” esta- Por exemplo, em resposta à grave situa-
belecidos dentro do sistema ICANN. Tais ção do spam e phishing, para não falar da
óticas buscam tratar de questões como vulnerabilidade da atual tecnologia do
custos de conexões entre países; ciber- Sistema de Nomes de Domínio (DNS), a
segurança e cibercrime, que inclui spam Força-Tarefa de Engenharia da Internet
(mala direta via e-mail não solicitada e (IETF) tem buscado definir os padrões
3 - Este texto é uma versão atualizada de um documento originalmente preparado para o Instituto del Tercer
Mundo (ITeM, http://www.item.org.uy) em julho de 2005.
4 - Diretor de Planejamento e Estratégias da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor
5 - Wolfgang Kleinwächter, “Internet Co-Governance -- Towards a Multilayer Multiplayer Mechanism of
Consultation, Coordination and Cooperation (M3C3)”, artigo apresentado na Consulta Informal do Grupo de
Trabalho sobre a Governança da Internet (GTGI), v.2.0, Genebra: 20 e 21 de setembro de 2004.
6 - Um glossário de siglas encontra-se em apêndice deste livro.
7 - As informações de referência sobre o GTGI, bem como o relatório final nos seis idiomas da ONU, estão
disponiveis em http://www.wgig.org ou através do sítio da CMSI, http://www.wsis.org. Por questões de espaço,
estes documentos não estão incluidos neste livro.
8 - A governança da infra-estrutura lógica compreende funções relativas à distribuição mundial de endereços IP,
à delegação e à administração de nomes de domínio de primeiro nível, bem como à supervisão do transporte de
dados e protocolos de roteamento.
9 - O termo é usado pelo autor para se referir às pessoas envolvidas profissional ou politicamente com o sistema ICANN.
10 - Organização Mundial da Propriedade Intelectual.
10 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

para estabelecer, digamos, uma “tranca” como sistema ICANN). Faz também uma
– no caso, um sistema seguro de auten- revisão das perspectivas acerca da gover-
ticação de envio de e-mail a ser adotado nança da Internet a partir do ponto de
como padrão por todas as operadoras vista de grupos organizados da sociedade
de servidores de e-mail do mundo. Por civil que estão envolvidos nas discussões
melhor que seja uma tranca, os ladrões correspondentes tanto interna como ex-
sempre podem achar uma maneira de ternamente ao GTGI.
invadir minha casa. É de se esperar por-
tanto que a tranca venha acompanhada de O texto se baseia em inúmeras contri-
uma série de outras medidas de proteção buições feitas nas reuniões da sociedade
à minha comunidade. Assim, a IETF en- civil sobre governança, em informações
tende que a prescrição de medidas legais acumuladas durante o trabalho do GTGI
e outras contra os crimes relacionados e em diversos artigos escritos por espe-
à Internet vai além de sua capacidade cialistas em um ou mais campos relacio-
técnica ou de seu mandato. nados com o tema principal. Trata-se de
uma quantidade de contribuições grande
Por outro lado, é quase impossível uma demais para uma listagem neste espaço,
pessoa dominar conhecimento suficiente nenhuma das quais é responsável pelas
para lidar com todos os temas relacio- opiniões aqui emitidas.
nados à governança da Internet. O GTGI
listou mais de 40 desses temas e, apesar
de algumas impressões em contrário, o II - Equívocos
grupo não é constituido de especialistas
em todos eles. Os membros trouxeram Agora, tentaremos responder a per-
suas experiências específicas em cer- gunta: há necessidade de um ar-
tos campos afins, bem como sua visão e
conhecimento a partir de óticas distintas, ranjo ou órgão adicional? Dizemos
para tentar montar um relatório útil – e
idealmente imparcial – que corresponda que sim, precisamos de arranjos,
ao mandato recebido da ONU conforme mas não precisamos de outro órgão
o Plano de Ação aprovado pela CMSI em
dezembro de 2003. ou de um novo fórum. Por quê?
Este texto procura descrever os atuais Porque acreditamos que as organiza-
processos de transição na governança da ções especializadas [da ONU] – UIT,
Internet, discutindo algumas das abor-
dagens submetidas à discussão pública, UNESCO e OMPI – consigam cobrir
e analisa o relatório final do GTGI. Apre-
senta também um breve histórico e infor- todas as questões que tratamos hoje.
mações de referência sobre o atual siste-
ma de governança global especificamente representante do governo sírio na consulta
criado para a Internet (aqui mencionado aberta do gtgi
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 11
genebra, 14 de junho de 2005, trecho citado a Quando o MoU entre o Departamento de
partir da transcrição. Comércio dos EUA e a ICANN expirar, em
setembro de 2006, não se sabe ao certo o
que o governo daquele país vai fazer, mas

O
acalorado debate sobre a gover- o fato claro é que ele pode fazer qualquer
nança da Internet traz visões ten- coisa quanto à governança da infra-es-
denciosas ou mal embasadas acer- trutura lógica (o conjunto de funções
ca das questões e processos, pois muitos de governança sob a alçada da ICANN).
grupos de interesse se sentem desafiados De fato, um dos principais argumentos
pela idéia de que o sistema existente tem para discutir a governança da Internet
falhas ou é insuficiente11. Há os que ten- em âmbito mundial é estabelecer uma
tam apresentar o GTGI como um grupo organização verdadeiramente global que
totalmente controlado pela UIT. Isso não tenha autonomia com relação a qualquer
é verdade, embora a UIT tenha tentado governo, inclusive o dos EUA – e esse
muito influenciá-lo (como também fez a interesse é amplamente compartilhado
ICANN e outras partes interessadas – um por países que vão muito além das Na-
membro do Conselho da ICANN e alguns ções Unidas.
outros membros do sistema ICANN tam-
bém integram o GTGI). Conforme mencionado, a UIT tem um
interesse muito forte em conseguir ao
Os equívocos de alguns participantes do menos um quinhão da governança. Paro-
debate global vão desde acreditar que o diando Marx e Engels no Manifesto Co-
tráfego de conteúdo passa pelo sistema munista: “Um espectro ronda o mundo
de servidores-raiz até pensar que as fun- das telecomunicações – o espectro da
ções de governança da Internet como um convergência.” Na verdade, convergência
todo deveriam estar sob a alçada da UIT. significa basicamente a migração de toda
A ICANN também costuma ser apresen- a camada de informação (conteúdo) dos
tada como uma organização global, o que é serviços de telecomunicações e teledi-
verdade apenas numa pequena parte e, em fusão para a Internet – o que a UIT gosta
termos legais, não o é de forma alguma. A de vender como NGN (sigla em inglês
ICANN está sujeita às leis federais dos Es- para Rede de Nova Geração).
tados Unidos e às leis do estado da Califór-
nia, e o seu poder de governança da Internet Trata-se de uma das maiores preocupa-
está limitado por vários contratos e por um ções da UIT (por ser uma preocupação das
Memorando de Entendimento (ou MoU, na grandes empresas de telecomunicações
sigla em inglês) envolvendo o governo dos e teledifusão), de modo que ela vai lutar
EUA, a ICANN e a principal operadora do por um lugar ao sol à medida que a con-
sistema global de nomes de domínio, uma vergência inevitavelmente avança.
empresa privada chamada Verisign. A estrutura de poder da UIT hoje inclui
11- Como exemplo de visão surpreendentemente errônea (por ter sido escrita por um conhecido e experiente
empresário de serviços Internet bastante envolvido com a ICANN), ver Elliot Noss, “A battle for the soul of the
Internet“, ZDNet News, 3 de junho de 2005 (http://news.zdnet.com/2100-9588_22-5730589.html). Vários dos
equívocos aqui descritos se encontram nesse texto.
12 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

mais de 180 governos e cerca de 650 em- dade da participação no sistema ICANN. É
presas de telecomunicações e organiza- verdade que o sistema ONU não se carac-
ções associadas – não se pode conceber teriza por transparência e processos plu-
que elas ficarão simplesmente aguardan- ralistas, sendo o GTGI uma exceção que se
do os acontecimentos. Entretanto, como espera que se repita em outros contextos
já foi claramente demonstrado pelos re- dentro da própria ONU.
sultados de seu trabalho, é errado apre-
sentar o GTGI como um fantoche da UIT. Entretanto os processos ditos “de baixo
para cima” na ICANN vêm de uma base
Há quem acredite que a presença de bastante estreita e a indicação de cargos
membros de governos “não democráti- é manipulada nos procedimentos de no-
cos” nos processos do GTGI e da CMSI meação, já que os membros do Comitê
represente uma ameaça, pois eles po- de Nomeações se envolvem na busca e
dem ter a oportunidade de liderar uma até mesmo recomendação de candida-
estrutura global de governança caso ela tos. Mas o GTGI convergiu para a visão de
esteja de alguma forma ligada à ONU. As que se faz necessário um novo tipo de or-
preocupações giram em torno de cen- ganização global (que seria, no mínimo,
sura, impostos e uma maior regulação um fórum global), que estaria acima do
por parte dos governos. A bem da ver- atual sistema ICANN baseado nos EUA
dade, praticamente todos os governos do (abarcando vários outros componentes
mundo desenvolvido têm comparecido de governança, além de coordenar a in-
às discussões, exercendo pelo menos fra-estrutura lógica) e que seria muito
tanta influência quanto os países do Sul mais transparente e representativo do
ou regimes autoritários. que qualquer outra agência do sistema
ONU atual.
Será que a ICANN manteria fora do pro-
cesso de tomada de decisões os países Em geral, a oposição mais forte a uma
considerados pelos EUA como não reformulação da governança que possa
democráticos? Não deveria ser assim. A afetar a operação da infra-estrutura lógi-
Internet deve ser aberta a todos, incluindo ca vem de poderosos interesses envolvi-
os processos de tomada de decisões que a dos no mercado mundial de nomes de
mantêm evoluindo. Cuba é participante domínio e das oportunidades de negócios
do Registro Regional de Números IP para daí derivadas. De fato, a publicação online
América Latina e Caribe (LACNIC), por investors.com é uma das poucas que re-
exemplo, em pé de igualdade com outros agiram com agressividade ao relatório do
países, e os latino-americanos e cari- GTGI e a qualquer possibilidade de en-
benhos se orgulham dessa lição de aber- volvimento da ONU (ou de qualquer outra
tura – numa região onde os EUA excluem organização global) na governança da In-
ou procuram excluir Cuba de quase todas ternet, com base no “sucesso de mercado”
as outras organizações regionais. de que desfrutaria o atual modelo.12
Os argumentos a favor de “não mexer em O fato é que o processo original de gover-
nada” costumam citar o nível e a quali- nança da Internet, que levou à criação da
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 13
ICANN, resultou na transformação em cializam domínios. Este é outro as-
mercadoria de um bem que deveria ser de pecto de suas operações que prejudica
domínio público13, o conjunto de nomes sua autonomia, conforme explicita-
de domínio globais (conhecidos pela si- mente reconhecido pelos seus princi-
gla em inglês gTLDs). Esta abordagem foi pais financiadores (as distribuidoras
infelizmente seguida por vários países franqueadas de nomes de domínio,
com relação aos seus nomes de domínio ou “registrars”, que pagam uma taxa
de primeiro nível de código de país (os à ICANN por domínio comercializado
ccTLDs, que caracterizam ou deveriam através das franquias corresponden-
representar a identidade de um país na tes, as “registries”) – em pronuncia-
Internet). Às vezes, um ccTLD está nas mentos feitos na reunião da ICANN
mãos de uma empresa particular fora do em Luxemburgo, em julho de 200515.
país ao qual ele pertence (como é o caso
do “.tv”, de Tuvalu, do “.st”, de São Tomé
e Príncipe, e vários outros).

Este mercado criado artifcialmente pelo


III - O processo do
governo dos EUA cresceu tanto que hoje
GTGI: uma análise
a ICANN é refém do mesmo, ou pouco À medida que a Internet vai se tor-
mais que uma agenciadora do mercado de
nomes de domínio, emaranhada em suas nando cada vez mais importante
controvérsias e seus processos decisórios
(como as dúvidas suscitadas no recente para as pessoas do mundo inteiro,
processo de redelegação do gTLD “.net”).
Nas palavras de Karl Auerbach, ex-mem-
vem surgindo uma pergunta crítica:
bro do Conselho da ICANN eleito pelos como pode a voz de uma comunidade
usuários da América do Norte: “A ICANN
realmente nada mais faz do que regular de interessados em constante cresci-
as práticas de negócios da indústria de
nomes de domínio14.” mento ser apropriadamente incluída

A ICANN é também dependente desse


nos novos mecanismos para a coor-
mercado, ao cobrir a quase totalidade denação ou “governança” de funções
de seu orçamento anual com as con-
tribuições das empresas que comer- técnicas fundamentais da Internet?
12- O artigo começa com a seguinte afirmativa: “Uma burocracia notoriamente ineficiente e corrupta quer regular a
indústria que mais rapidamente cresce no mundo. Alerta para as empresas da Internet: comecem a se preocupar.”
“Hands Off the Net”, investors.com, 18 de julho de 2005.
13- “Público”, neste texto (“commons”, no original em inglês), é usado segundo os conceitos desenvolvidos por David
Bollier em Roubo Silencioso – O Saque Privado de Nossa Riqueza Comum, New York, Routledge, 2003, referindo-se a
bens comuns para o benefício de todos que deveriam ser mantidos fora do alcance do cerco de empresas privadas.
14- Em resposta a artigo na revista online ZDNet em http://www.zdnet.co.uk/talkback ?PROCESS=show&ID=2005034
5&AT=39232718-39020369t-10000023c
15- Ver transcrição do fórum público para a Reunião da ICANN em Luxemburgo, em julho de 2005
(http://www.icann.org).
14 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

A pergunta é feita hoje num desses O segundo tema trata da governança


global da Internet – como criar, melhorar
órgãos de coordenação, a Corpora- ou adaptar mecanismos globais para lidar
ção Internet para Nomes e Números com os temas centrais oriundos da pre-
sença cada vez mais decisiva da Internet
(ICANN), que se incumbe de geren- na economia, na sociedade, na política e
ciar os aspectos do sistema de nomes na cultura de todos os países. Questões
como critérios de distribuição de nomes
na Internet e outras funções técnicas de domínio e endereços IP, divisão de
custos de conexão de dados entre países,
críticas. direito de acesso à infra-estrutura (aces-
relatório do nais, agosto de 200116 . so universal) e à informação, liberdade
de expressão, garantias de privacidade,
segurança e uso adequado ou legal etc.
Contexto
Em consequência, a ONU criou um Grupo

A
primeira fase da CMSI, que de Trabalho sobre a Governança da In-
se encerrou com a Cúpula de ternet (GTGI), composto de 40 membros
Genebra, em dezembro de 2003, de diversos países e grupos de interesse
deixou dois temas em aberto para serem (governos, empresas, mundo acadêmico,
mais aprofundados. O primeiro deles sociedade civil organizada). O GTGI di-
trata de formas de financiar a alavan- vulgou seu relatório no dia 15 de julho de
cagem das Tecnologias de Informação 2005. Ambos os relatórios servem de in-
e Comunicação (TICs) para o desen- sumo e como referência para os debates
volvimento, especialmente nos países no processo de preparação para a segunda
menos desenvolvidos. Isso envolve, em reunião da CMSI, em Túnis, em novem-
todos eles, financiamento das estraté- bro de 2005.
gias de inclusão digital e, nos países em
desenvolvimento, alavancagem da in- Algumas iniciativas de análise e formu-
fra-estrutura, desenvolvimento de ca- lação de propostas sobre a governança da
pacidades e sustentabilidade, além da Internet já existiam quando se decidiu
própria inclusão digital. A Força-Tarefa criar o GTGI. Conforme será descrito
sobre Mecanismos de Financiamento mais adiante, o Caucus da Sociedade Civil
(FTMF), especialmente criada pelo de Governança já havia encaminhado uma
Secretariado Geral das Nações Unidas proposta de criação de um grupo de tra-
para rever alternativas de financiamen- balho (ou um conjunto de forças-tarefas
to, divulgou esse relatório17 em janeiro com temas específicos) muito antes, du-
de 2005. rante a PrepCom II da CMSI em fevereiro

16-Relatório NGO and Academic ICANN Study (NAIS) da ICANN, “Legitimacy, and the Public Voice: Making Global
Participation and Representation Work”, Sumário Executivo, agosto de 2001, p.1
(http://www.naisproject.org).
17-Disponível em http://www.itu.int/wsis/documents/doc_multi.asp?lang=en&id=1372|1376|1425|1377.
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 15
discussão geral e nas proposições sobre
governança das TICs no relatório Louder
Voices entregue à DOT Force em junho de
200219. Finalmente, uma contribuição
relevante para o debate também foi feita
pelo Fórum Global da Força-Tarefa de
TICs da ONU sobre Governança da Inter-
net, em março de 200420.

As Resoluções da
CMSI e o GTGI

A
de 2003. Esse Caucus funciona como um quilo que hoje se chama “gover-
grupo de trabalho sobre governança das nança da Internet” remonta a
TICs (incluindo a governança da Inter- tempos anteriores ao mandato
net) desde, pelo menos, março de 2003. da entidade criada em 1998 para coorde-
nar a infra-estrutura lógica global da rede.
O Caucus foi precedido de um outro gru- A ICANN levou algum tempo para re-
po de trabalho sobre governança, orga- conhecer que o escopo da governança da
nizado em 2001, com o apoio da Funda- Internet precisava ser estendido, incorpo-
ção Markle e do registro de ccTLD da rando questões mais amplas de importân-
Alemanha, DENIC – o NGO and Academic cia crucial para o futuro da Internet.
ICANN Study (NAIS) –, que se concen-
trou na formulação de uma proposta para De fato, a ICANN e a Sociedade Internet
fazer da ICANN uma organização mais (Internet Society, ISOC), que se relacio-
global, democrática e pluralista. nam estreitamente, resistiram ao uso do
conceito de governança até bem pouco
Um grupo de pesquisadores universi- tempo atrás, preferindo enfatizar a idéia
tários, liderado pelos professores Milton de “coordenação” entre diferentes en-
Mueller e Hans Klein, montou o Projeto tidades da iniciativa privada. Um folheto
de Governança da Internet, que vem apre- da ISOC distribuído durante a CMSI em
sentando análises críticas da governança Genebra, em dezembro de 2003, trazia
da Internet desde pelo menos 200218. o título: “Desenvolvendo o Potencial da
Além disso, encontram-se componentes Internet através de Coordenação, não de
da governança da Internet contidos na Governança”21.
18- http://www.internetgovernance.org.
19-Don MacLean et al., “Louder Voices: Strengthening Developing Country Participation in International ICT
Decision-Making”, Organização da Comunidade das Nações para as Telecomunicações e Instituto Panos, junho de 2002.
20-Don MacLean (ed.), “Internet Governance: a Grand Collaboration”, Força Tarefa de TICs da ONU, Nova York,
setembro de 2004 (http://www.unicttf.org).
21- O boletim da ISOC está disponível em http://www.isoc.org/news/7.shtml.
16 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

2. Identificar as questões relativas


Entretanto o consenso alcançado durante
a CMSI em Genebra foi que a “coordena- a políticas públicas pertinentes à
ção” ou governança da Internet deveria
ter um caráter mais abrangente. O Plano governança da Internet;
de Ação da CMSI ligado à Declaração 3. Desenvolver uma compreensão
de Princípios estabelece quatro objeti-
vos principais para o grupo de trabalho. comum dos papéis e responsabi-
Como parte do “ambiente habilitador”, o
Plano declara: lidades dos governos, das orga-
Solicitamos ao secretário geral das nizações intergovernamentais e
Nações Unidas a formação de um internacionais que existem e outros
grupo de trabalho sobre governança fóruns, bem como da iniciativa
da Internet, num processo aberto e in- privada e da sociedade civil tanto
clusivo que assegure um mecanismo dos países em desenvolvimento
para a participação plena e ativa de quanto dos desenvolvidos;
governos, da iniciativa privada e da 4. Preparar um relatório sobre os
sociedade civil tanto dos países em de- resultados dessa atividade, a ser
senvolvimento quanto dos desenvolvi- apresentado para consideração e
dos, envolvendo organizações e fóruns providências cabíveis para a se-
intergovernamentais e internacionais gunda fase da CMSI, em Túnis,
pertinentes, para investigar e fazer em 200522.
propostas de ação sobre a governança
da Internet, conforme julguem ade- Formação do GTGI

O
quado, até o ano de 2005. Entre outras GTGI foi constituido em outubro
de 2004 pelo Secretário Geral
coisas, o grupo deve: da ONU. Os membros foram es-
1. Desenvolver uma definição fun- colhidos a partir de uma lista de nomes
compilada por governos, entidades civis,
cional de governança da Internet; iniciativa privada e agências internacio-

22-Plano de Ação da CMSI, ref WSIS-03/GENEVA/DOC/0005, http://www.itu.int/wsis/documents/doc_multi.


asp?lang=en&id=1161|1160.
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 17
nais e multilaterais, ficando a cargo da como observadores de organizações mul-
ONU a decisão final sobre quem deveria tilaterais (particularmente a UIT).
participar.
A reunião foi aberta com uma palestra
O grupo é presidido por Nitin Desai, sub- objetiva do secretário geral da UIT, Yo-
secretário geral da ONU para Assuntos shio Utsumi. Para resumir sua fala, o en-
Sociais e Econômicos e assessor especial foque do trabalho do grupo deveria ser a
do secretário geral para a CMSI. O coor- gestão dos nomes, endereços e protocolos
denador executivo é Markus Kummer, – o resto, segundo Utsumi, era ilusório.
cujo papel é “gerir o processo de produção Noutras palavras, o grupo deveria se con-
do grupo”. centrar na discussão de propostas para a
gestão mundial da infra-estrutura lógica
Desai buscou caracterizar o GTGI como da Internet.
um grupo de “especialistas”, não de repre-
sentantes de governos ou de quaisquer É importante levar em conta que a moti-
outras partes interessadas. No entanto, vação para as propostas em favor da UIT
essa dissociação é difícil, especialmente vem do fato que a “oligarquia” das teleco-
para representantes governamentais. municações (as empresas tradicionais de
Por outro lado, há pessoas escolhidas telecomunicações) sente tanto medo da
por outros grupos de interesse (inicia- convergência digital (telefonia via Inter-
tiva privada, entidades da sociedade civil, net, ou voz sobre IP, o rápido progresso
mundo acadêmico) que estão em contato de alternativas de conexão através de rá-
com seus pares e, sempre que possível, dio digital etc., todas as formas de teledi-
tentarão expressar opiniões coincidentes fusão interativa de áudio e vídeo através
com as destes (ou, pelo menos, não con- da Internet etc.) quanto a Associação da
flitantes). Para estimular essa interação, o Indústria Fonográfica dos EUA (RIAA) e
livre fluxo de informações entre os mem- a Associação Cinematográfica dos EUA
bros do GTGI e seus grupos de interesse (MPAA) se desesperam ante o progresso
foi fundamental. inexorável e rápido da troca de informa-
ções através de redes do tipo peer-to-peer.
O grupo foi razoavelmente equilibrado
com relação a vários grupos de interesse A estratégia pró-UIT parece ser a de juntar
não-governamentais, mas seriamente pelo menos duas das principais camadas
desequilibrado em termos de gênero (so- de serviços da Internet (a infra-estrutura
mente 10% eram mulheres). lógica incluindo a camada de transporte de
dados, ou seja, conexão, endereçamento e
transmissão de dados) sob o controle da
Posição da UIT UIT. Endereçamento significa endereços
IP, nomes de domínio (DNS) e protocolos

O
trabalho do GTGI começou em 23 para troca de dados – exatamente o con-
de novembro de 2004. Ao todo, junto de responsabilidades para as quais
compareceram 38 membros, bem a ICANN foi criada.
18 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Uma “definição fun- o GTGI teve que agrupá-las em um con-


junto menor de componentes, levando
cional” da Internet em conta as inevitáveis relações entre os
mesmos. Em cima de consultas públicas e

A
pós intenso debate, que levou discussões internas, escolheu-se um con-
grande parte do tempo de duas junto de 25 componentes que foram agru-
sessões presenciais, em busca de pados em 12 temas centrais (considerados
uma definição que pudesse servir como como “assuntos claramente relativos à
fundamento conceitual para a formação governança da Internet e que necessita-
de um mecanismo de governança global e vam de ação imediata e urgente”)23 como
fosse “adequada, generalizável, descritiva, base para configurar quatro conjuntos
concisa e orientada a processos,” foi esta- temáticos. Esses temas centrais (com os
belecida a seguinte “definição funcional”: problemas principais identificados entre
parênteses) são:
“A governança da Internet é o desenvolvi-
mento e aplicação, por governos, iniciativa 1. Supervisão unilateral do arquivo
privada e sociedade civil, em seus respec- de zona raiz (controle unilateral exer-
tivos papéis, de princípios, normas, re- cido pelo governo dos EUA, falta de
gras, procedimentos de tomada de decisão transparência) – inclui as questões
e programas compartilhados que dêem diretamente relacionadas com a gover-
forma à evolução e ao uso da Internet.” nança da infra-estrutura lógica.

O esforço, na verdade, foi elaborar uma 2. Custos de interconexão (distri-


definição razoavelmente “utilizável” que buição desigual do custeio das conexões
fosse genérica o suficiente para ser con- de dados entre países) – refere-se a
senso no grupo e contivesse, ao mesmo compartilhamento injusto de custos
tempo, uma referência aos procedi- de enlaces Internet entre países mais e
mentos e atividades cruciais comuns a menos desenvolvidos.
qualquer sistema de governança pública
e democrática. E também serviu como a 3. Cibercrime e cibersegurança (dife-
base sobre a qual o GTGI construiu sua renças entre as leis de cada país; falta de
análise ampla. capacidade no sistema judicial; baixo
nível de cooperação internacional).

Metodologia 4. Spam (não há uma abordagem co-


ordenada; não há um procedimento
funcional ou um organismo global).

D
iante de uma lista de temas que
praticamente abrangia todo o de- 5. Desenvolvimento e construção
bate da CMSI, por razões práticas de capacidade (baixa prioridade para

23- Documento para discussão interna do GTGI, 17 de junho de 2005.


cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 19
investimentos; pouco conteúdo local e gerenciamento de recursos críti-
e multilíngüe; falta de treinamento; cos da Internet: inclui todas as fun-
capacidade institucional nacional in- ções básicas executadas pelo sistema
suficiente). ICANN (administração do DNS e
dos endereços IP, administração do
6. Participação na formulação global sistema de servidor-raiz), bem como
de políticas (falta de participação dos padrões técnicos, peering e conexão
países em desenvolvimento e da socie- entre redes, infra-estrutura de tele-
dade civil). comunicações, incluindo tecnologias
inovadoras e convergentes, e multi-
7. Alocação de nomes de domínio lingualização. As questões do conjun-
(falta de critérios e de procedimen- to 1 são vistas pelo GTGI em boa parte
tos bem definidos para novos gTLDs como “assuntos de relevância direta
e sTLD; critérios pouco transparentes para a governança da Internet sob a
para criação/delegação/redelegação de responsabilidade de organizações já
nomes de domínio globais). existentes com responsabilidade por
tais assuntos.” Em outras palavras,
8. Endereçamento IP (lenta transição boa parte destes componentes está
para IPv6; distribuição de endereços contemplada no sistema ICANN.
IP historicamente desigual).
Conjunto 2 – Uso da Internet: inclui
9. Direitos de propriedade intelec- spam, segurança da rede e cibercrime.
tual (falta de processos participativos e Embora enxergue esses componen-
abertos; visões antagônicas quanto aos tes como “diretamente relacionados
propósitos dos chamados “direitos de à governança da Internet,” o GTGI
propriedade intelectual”; importância sugere que “a natureza da cooperação
crucial da liberdade de conhecimento global que se faz necessária não está
e software livre). bem definida.”

10. Liberdade de expressão (censura). Conjunto 3 – Questões cujo impacto


vai muito além da Internet: incluem
11. Proteção de dados pessoais (di- componentes como patentes, direi-
reito à privacidade). tos autorais e marcas registradas (os
chamados “direitos de propriedade
12. Proteção ao consumidor (falta de intelectual”), bem como o comércio
padrões globais). internacional. Para estas questões,
o GTGI considera já existirem orga-
Os quatro conjuntos temáticos, aos quais nizações de governança e “começou a
o relatório se referiu como “áreas funda- examinar até que ponto esses assun-
mentais de políticas públicas”, são: tos estão sendo tratados em coerência
com a Declaração de Princípios [da
Conjunto 1 – Infra-estrutura lógica CMSI].”
20 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Conjunto 4 – Aspectos de desenvolvi- em qualquer fórum não basta assegurar


mento da governança da Internet: in- ampla participação nos processos de
cluem uma longa lista de componentes tomada de decisões. Por outro lado, as
relacionados ao desenvolvimento huma- funções das políticas públicas perten-
no, com enfoque nos países em desen- cem ao âmbito de tomada de decisões
volvimento, a maioria dos quais inter- dos governos.
relacionados e para os quais, em geral,
não existem mecanismos de governança, Quanto aos possíveis mecanismos para
tais como: inclusão e dimensões sociais; a governança global da Internet, o grupo
acesso universal a baixo custo; acessibili- resolveu separar, com propósitos analíti-
dade de conteúdo (direito à informação), cos, o que chamou de “função fórum”
diversidade cultural e lingüística, educa- (um espaço global onde todas as partes
ção, capacitação humana, software livre interessadas poderiam discutir qualquer
de código-fonte aberto, custos de acesso questão relativa à Internet com vistas a
nos pontos limítrofes da rede, desenvolvi- assessorar a formulação de políticas,
mento de infra-estrutura nacional e assim fazer recomendações ou propiciar uma
por diante. O relatório se refere explici- compreensão comum para providências
tamente apenas à geração de capacidades conjuntas), de uma “função supervisão”
neste conjunto. – uma categoria muito mais complexa.

Assim, o grupo organizou a coleção de De fato, supervisão (“oversight”) é o cerne


temas que lhe foram trazidos a partir da governança global e inevitavelmente
do entendimento de que há uma certa engloba a atual estrutura de governança
sobreposição entre os conjuntos, já que em torno do sistema ICANN – e tem sido,
diversas questões de um precisam ser portanto, o mais difícil de tratar em ter-
analisadas conforme seu relacionamento mos políticos. Uma supervisão requer a
com tópicos de outros (como seria, para definição de uma política pública global
citar um exemplo óbvio, o acesso uni- (baseada em algum tipo de convenção in-
versal e a preços módicos, por um lado, e ternacional), bem como a implantação de
custos de largura de banda entre países, uma forma de coordenação institucional
por outro). nos níveis global, regional e nacional. O
consenso que foi apresentado no relatório
Além disso, seguindo o consenso de que final diz:
qualquer governança global deveria ser
pluralista, o grupo incluiu uma tenta- “O GTGI reconheceu que qualquer
tiva de desenvolver “uma compreensão forma organizacional para a função de
comum dos papéis e responsabilidades governança/supervisão deveria acatar
respectivos de todas as partes interessa- os seguintes princípios:
das tanto nos países desenvolvidos como
naqueles em desenvolvimento”. As razões • nenhum governo deverá ter um pa-
são que, por um lado, para estabelecer a pel de destaque na governança inter-
presença de todas as partes interessadas nacional da Internet;
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 21
para lidar com todas as questões relativas
• a forma organizacional para a fun- à governança. Segundo, nenhuma agência
ção de governança será multilateral, da ONU (ou mesmo a própria ONU como
transparente e democrática, com o um todo) pode ser caracterizada pela
total envolvimento dos governos, da transparência, pelo pluralismo e pela de-
iniciativa privada, da sociedade civil mocracia na tomada de decisões – crité-
e de organizações internacionais; rios fundamentais, segundo o GTGI, para
um mecanismo de governança global.
• a forma organizacional para a fun-
ção de governança envolverá todas Embora não tenha sido uma parte explíci-
as partes interessadas e as orga- ta do seu mandato, o GTGI acabou formu-
nizações intergovernamentais e in- lando quatro modelos estruturais para a
ternacionais pertinentes dentro de governança global a serem usados como
seus respectivos papéis.24” referência ou exemplos nas discussões
subseqüentes do processo preparatório

A
lgumas propostas para um me- para a CMSI de Túnis. Fez-se um esforço
canismo global têm sugerido a para incluir nos modelos algumas formas
criação de um fórum global sepa- de relacionamento com o sistema ONU,
rado de uma estrutura de supervisão, en- que são discutidos a seguir, juntamente
quanto outras consideram viável e muito com outras propostas recentes.
mais simples (pelo menos por razões de
estrutura e eficácia) ter os componentes
de supervisão como parte de um fórum IV - Modelos de
global – de forma que supervisão, nor-
matização, assessoria, resolução de dis-
governança da
putas e várias outras funções estariam Internet: uma análise
dentro de um único marco institucional

A
global por consenso mundial através de lém dos modelos para governança
uma convenção internacional. A proposta global apresentados no relatório
brasileira é um exemplo desta visão. do GTGI, há várias outras pro-
postas elaboradas durante o período de
Também houve vigorosa discussão em tor- atuação do mesmo, por membros do gru-
no do relacionamento com organizações po ou outros, que merecem uma revisão
intergovernamentais existentes. Há diver- e comparação com os modelos sugeridos
sos argumentos pertinentes contra con- pelo GTGI.
siderar que uma das agências já existentes
da ONU (como a UIT), ou mesmo uma nova Um importante preâmbulo: até o mo-
similar às outras 16 existentes, assuma a mento, não existe uma proposta detalhada
governança da Internet. Primeiro, não cobrindo todos os componentes de uma
existe uma sequer que esteja qualificada governança global da Internet, ou mesmo

24- Relatório Final do GTGI, parágrafo 48.


22 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

uma formulação detalhada dos aspectos mente curto para um grupo voluntário dar
centrais que sirva de base para a imple- conta de uma tarefa tão complexa, mas
mentação concreta. O relatório do GTGI também, em parte, a certas pressões para
não é exceção. Os quatro “modelos” apre- propiciar um equilíbrio restritivo às de-
sentados no relatório são muito genéri- mandas que a sociedade civil faz para par-
cos, incompletos em muitos aspectos; a ticipar plenamente em todos os aspectos
bem da verdade, não existe nada além de de um sistema de governança global no
uma “itemização” de certos aspectos da futuro.
governança que seriam enfatizados em
cada uma das quatro opções. Em várias A ONU não tem tradição de participação
instâncias, eles poderiam confundir ain- ampla em seus processos decisórios, e
da mais, em lugar de esclarecer questões para se admitir no relatório do GTGI que o
cruciais. Por exemplo, qual é exatamente pluralismo, a democracia e a transparên-
o significado de um “Conselho Global cia são pré-condições essenciais para uma
[de Governança] da Internet ancorado nova organização ou sistema global foi
na ONU”, conforme sugeriu o Modelo 1, preciso enfrentar a resistência de alguns
ou uma “ICANN internacionalizada co- dos países membros. Assim, os modelos
nectada à ONU”, conforme proposto no (excetuando-se o Modelo 2, que assume,
Modelo 3? de uma forma questionável, que o atual
sistema ICANN já apresenta uma partici-
Entretanto, todos os modelos do GTGI pação pluralista) acabam oferecendo esse
têm algo em comum de relevância para equilíbrio aparentemente contraditório
todos que buscam uma forma pluralista entre as expressões genéricas de com-
de governança global: organizações da prometimento com o pluralismo, por um
sociedade civil, a iniciativa privada e lado, e a expectativa de que a supervisão
a comunidade acadêmica ficam todos global acabe de alguma forma nas mãos
relegados, na melhor das hipóteses, a de um organismo relacionado à ONU (ou
um papel de observador. Isso é curioso a esta subordinado) sob o controle dos
pois, em outras passagens, o relatório governos, por outro lado.
defende formas de assessoria global,

O
coordenação e supervisão envolvendo utro aspecto importante dos
várias partes interessadas. modelos propostos é o seu en-
foque sobre mudanças no atual
Na verdade, existe um aspecto do pro- sistema de governança da infra-estrutura
cesso do GTGI que precisa ser levado em lógica. É como se o GTGI decidisse que,
conta para que se entenda esse paradoxo antes de qualquer coisa, é preciso que se
– a decisão de inserir exemplos específi- faça algo com relação ao sistema ICANN
cos de modelos de governança foi tomada (mesmo que quase nada exceto a criação
pouco antes da rodada final das reuniões de um fórum global de aconselhamento,
presenciais, e não houve oportunidade conforme propõe o Modelo 2), e se hou-
para um adequado refino dos conceitos. vesse algo a requerer detalhamento, certa-
Isso se deve, em parte, ao tempo relativa- mente não seria liberdade de informação,
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 23
acertos de custos para enlaces de dados
entre países, cibersegurança, privacidade
e assim por diante. O que realmente pa-
rece importar é a coordenação global do
sistema de nomes e números. Se há algum
detalhamento nos modelos, ele se dedica
primordialmente às disputas em torno
de quem irá coordenar a infra-estrutura
lógica.

Uma tabela simples é apresentada abaixo


para tentar resumir algumas das carac-
terísticas dos modelos. O(a) leitor(a)
deve consultar a descrição de cada modelo
no relatório do GTGI.
Resumo dos quatro modelos do GTGI

modelo papel de papel de estrutura de papel papel papel


supervisão assessoria supervisão da icann da onu da sc/ip
Conselho Intergoverna-
1 Global da Nenhum mental Subordinado “Ancorado a” Assessoria
Internet (CGI)

Fórum
2 Nenhum Pluralista Privada Não muda Nenhum Assessoria

Conselho
Internacional Nenhum Intergoverna- Subordinado Não especifi- Assessoria
3 da Internet mental cado
(CII)
Conselho Fórum Global
Global de para a Gover-
4 Políticas para nança da Intergoverna- Subordinado “Ligado a” Assessoria
a Internet Internet mental
(CGPI) (FGGI)

Na tabela acima, a coluna dois lista os varia conforme cada modelo. A coluna
novos organismos globais de supervisão seis descreve como o organismo de super-
a serem criados. A coluna três inclui os visão se relaciona com a ONU (o relatório
fóruns globais propostos. A coluna quatro não apresenta definição para os termos
se refere à natureza da estrutura de su- “ancorado a” e “ligado a”). A coluna sete
pervisão. A coluna cinco descreve como mostra o papel previsto nos organismos
a ICANN se relaciona com o organismo de supervisão para a sociedade civil (SC)
de supervisão – o tipo de “subordinação” e a iniciativa privada (IP).
24 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

C
om relação às formulações fei- ração de políticas que possam ser im-
tas durante o processo do GTGI, pactadas pela Internet”.
Vittorio Bertola apresentou a pro-

A
posta mais detalhada para um mecanis- proposta de Bertola, em alguns
mo de fórum global pluralista, aberto e aspectos, tem como referên-
transparente – que ele chama de Grupo cia a estrutura operacional e de
de Direcionamento/Coordenação da In- representação pluralista do GTGI. O GDI
ternet (GDI, ou ISG na sigla em inglês)25 de Bertola teria cerca de 3O membros
– que seria “baseado primordialmente igualmente distribuídos entre governos,
no ‘poder brando’,” ou seja, teria legitimi- sociedade civil e iniciativa privada. Esses
dade reconhecida (“authoritative”) em membros serviriam como indivíduos,
lugar de autoridade (“authority”). O funcionando como pares, e escolheriam
fórum não teria funções formais de su- os integrantes da diretoria executiva, in-
pervisão mas legitimidade suficiente para clusive o presidente, entre suas próprias
ser aceito como referência de fato para as fileiras. O GDI aprovaria suas próprias
políticas globais de governança da Inter- regras internas de funcionamento e os
net. Seu mandato seria referenciado pelos membros iniciais seriam escolhidos de
critérios e princípios da CMSI, bem como forma bastante semelhante ao GTGI,
pelas Metas de Desenvolvimento para o pelo secretário geral da ONU, após roda-
Milênio (MDM) da ONU, e, entre outras, das de consultas públicas abertas a todas
incluiria as seguintes funções: as representações interessadas. Orga-
nizações relacionadas com a governança
— identificar questões relativas à In- da Internet indicariam observadores
ternet que requeiram governança para participar das discussões do grupo,
global, verificando a existência de es- tanto online quanto em reuniões presen-
truturas de governança para lidar com ciais, que também funcionariam como
tais questões ou propondo novas; elementos de conexão entre o GDI e suas
— servir como organismo de resolução instituições.
de controvérsias relativas a instituições,
processos e políticas de governança Assim, Bertola está contribuindo para
da Internet; uma possível implementação do fórum
— estabelecer mecanismos para moni- global no Modelo 2 do GTGI.
torar processos de elaboração de
políticas; Wolfgang Kleinwächter encaminha uma
— promover mecanismos para a par- proposta que separa a governança
ticipação pública organizada em todas global da Internet em duas instâncias:
as discussões e todos os processos de- uma de supervisão, que seria um me-
cisórios; canismo com vários participantes em
— fornecer “conhecimento espe- diversas camadas, chamada Multilayer
cializado em Internet para outras Multiplayer Mechanism (M3), e uma
instituições de governança que pos- que seria uma camada fórum chamada
sam necessitar de apoio para a elabo- de Communication, Coordination and
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 25
Cooperation (C3)26 , onde cada compo- — Cooperation” (ou “cooperação”)
nente teria o seguinte significado: significa que, se a coordenação indicar
que está havendo uma sobreposição
— “Multilayer” (ou “múltiplas cama- de atividades dos diferentes membros
das”) significa fazer uma diferen- do mecanismo ou que algumas delas
ciação entre as camadas e encontrar estão em conflito, deverão ser assi-
modelos de governança adequados nados memorandos de entendimento
para cada uma delas; formais (MoUs) entre os membros do
— “Multiplayer” (ou “diversos partici- mecanismo que estejam sendo afeta-
pantes”) significa identificar para cada dos e/ou se mostrem preocupados.
camada os principais participantes

A
(governamentais e não governamen- mbas as instâncias atuariam nos
tais) que precisam estar envolvidos dois níveis de coordenação/su-
para haver soluções eficazes e funcio- pervisão que Kleinwächter cha-
nais; ma de Nível Básico de Governança da
— “Mechanism” (ou“mecanismo”) sig- Internet (a infra-estrutura lógica hoje
nifica a não existência de uma organiza- no âmbito da ICANN) e Nível Aprimo-
ção central hierárquica mas sim uma rado de Governança da Internet (todas as
rede de diferentes instituições gover- questões relativas às camadas superiores
namentais e não governamentais. ou de conteúdo da Internet, tais como,
— “Communication” (ou “comunica- conforme diz Kleinwächter, “e-comér-
ção”) significa que cada membro do cio, e-conteúdo, e-governo, cibercrime,
mecanismo deve estabelecer canais spam, direitos de propriedade intelectual,
permanentes de comunicação com privacidade” e assim por diante).
os demais, de forma que todos sejam
informados do que está acontecendo A proposta de Kleinwächter aborda o
dentro de cada uma das outras orga- Modelo 4, exceto pelo aspecto do en-
nizações; volvimento das várias partes não gover-
— “Coordination” (ou“coordenação”) namentais interessadas, que em todos os
significa que, se uma comunicação modelos do GTGI ficam relegadas a uma
indicar que dois membros do me- condição de assessoramento.
canismo, ou mais, estão fazendo coi-
sas semelhantes (com prioridades Uma proposta apresentada pelo Projeto
diferentes), eles devem se consultar de Governança da Internet (PGI) enfoca
e, quando necessário, coordenar suas mudanças de governança na infra-estru-
atividades. Isso poderia ser feito, onde tura lógica27. São propostas as seguintes
for necessário, através de “adidos”; iniciativas:
25- Vittorio Bertola, “Internet Steering-Coordination Group”, GTGI, abril de 2005. Disponível no repositório
de propostas do Projeto de Governança da Internet (http://www.internetgovernance.org).
26- Wolfgang Kleinwächter, “Internet Co-Governance - Towards a Multilayer Multiplayer Mechanism of
Consultation, Coordination and Cooperation (M3C3)”, GTGI, documento interno, setembro de 2004.
27- Hans Klein e Milton Mueller, “What to do About ICANN: A Proposal for Structural Reform”, Projeto de
Governança da Internet, abril de 2005. Disponível no repositório de propostas do Projeto de Governança da
Internet (http://www.internetgovernance.org).
26 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

— Limites para o poder e supervisão ICANN a distribuição global dos números


internacionalizada: um acordo in- de endereços IP e os nomes de domínio
ternacional com força de lei definindo de primeiro nível.
estreitamente os poderes da ICANN e
substituindo a supervisão do governo Enquanto a primeira tem um sério
dos EUA por uma supervisão interna- problema de prazo (as convenções glo-
cionalizada possibilitaria a abolição bais levam muitos anos para serem for-
do Comitê Governamental de Asses- malizadas e ainda mais tempo para serem
soria da ICANN (ou GAC, na sua sigla aceitas por uma quantidade significativa
em inglês); de países), a segunda levanta o problema
de deixar parte da administração dos
— Democratização: reinstauração e componentes da infra-estrutura lógica
fortalecimento da filiação em um colé- a cargo de uma agência da ONU que já
gio amplo (“At Large Membership”) existe e, por si, não é caracterizada pela
– um colégio mundial de usuários in- transparência, pelo pluralismo ou por um
dividuais da Internet – à ICANN, es- processo democrático de tomada de de-
pecialmente uma volta à eleição dos cisões. A proposta compartilha parcial-
membros da diretoria pelo colégio am- mente da idéia de internacionalização da
plo (“At Large Board”) e a concessão ICANN formulada no Modelo 4.
do direito a voto na Organização de
Suporte a Nomes Genéricos (GNSO) Outra proposta, que faz parte de uma
da ICANN para os representantes do análise excelente das implicações das
colégio amplo (“At Large Representa- mudanças na atual governança da infra-
tives”); estrutura lógica é encaminhada por Raul
Echeberría28 e, em termos gerais, con-
— Competição: partilha coordenada corda com o Modelo 2 do GTGI.
de responsabilidades entre a ICANN e
a UIT, de forma a permitir aos geren- Finalmente, a proposta de um único or-
tes de ccTLD e usuários de endereços ganismo que inclua as funções tanto de
IP uma opção alternativa de arranjos supervisão geral quanto de fórum numa
de governança. estrutura pluralista, transparente e
democrática foi apresentada pelo autor29.

A
s características diferenciadoras Como a proposta do PGI, ela requer uma
desta proposta são: (1) a gover- internacionalização verdadeira do sistema
nança global deve ser estabeleci- ICANN, mas propõe também uma reestru-
da a partir de uma convenção interna- turação do atual guarda-chuva da ICANN,
cional; (2) a UIT compartilharia com os desmembrando-o em três instâncias,
registros regionais de Internet (RIRs) e a que passariam a ser organizações globais
28- Raul Echeberría, “Possible Changes to the Internet Governance Systems: Root Servers, IP Addresses and
Domain Names” (Working Document), GTGI, maio de 2005. Disponível no repositório de propostas do Projeto de
Governança da Internet (http://www.internetgovernance.org).
29- Carlos A. Afonso, “Scenario for a New Internet Governance”, versão 6, GTGI, maio de 2005. Disponível no
repositório de propostas do Projeto de Governança da Internet (http://www.internetgovernance.org).
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 27
pluralistas, com autonomia garantida por proposta conjunta da sociedade civil.
acordos de sede com os países em que es- Todas podem servir como estímulo ou
tariam localizadas: referência para os debates preparatórios
e a própria cúpula de Túnis.
— uma ICANN global, com todas as
suas atribuições atuais, exceto a ad-
ministração dos ccTLDs e a distri-
buição de números IP; V - Sociedade civil
— uma organização global de apoio aos e governança
nomes de domínio primário de códi- da Internet
gos de países (ccNSO), encarregada
da coordenação global da distribuição Nossa participação nesse processo
dos ccTLDs;
— uma nova Organização de Recursos
da CMSI tem sido intensa, em ter-
de Números IP (NRO), coordenando- mos tanto humanos quanto finan-
se globalmente com os Registros Re-
gionais de distribuição de números IP ceiros, e muita gente, claro, não tem
(os RIRs).
conseguido participar, especialmente

O
utras organizações (existentes ou dos países mais pobres. Apesar dessas
a serem criadas ou adaptadas)
cuidariam dos componentes adi- restrições, a sociedade civil tem pro-
cionais de supervisão ou coordenação da
governança da Internet, mas todas elas,
duzido muitas contribuições para este
inclusive as três mencionadas acima, encontro. Nós oferecemos recomenda-
fariam parte de um fórum global, pluralis-
ta, transparente e democrático de super- ções variadas e práticas. Já falamos
visão, coordenação e assessoria chamado
Conselho Internacional para Avaliação e
de nossas sugestões com vocês, mas
Coordenação da Internet (IICEC). Seria ficamos com a impressão de não ter-
estabelecida uma convenção internacio-
nal em paralelo com a construção desse mos sido ouvidos, ou mesmo escuta-
organismo, que iria assumindo grada-
tivamente mais atribuições conforme o
dos. Nossa legitimidade não é como
avanço dos acordos internacionais cor- a sua [governos] e não pretendemos
respondentes, começando por um fórum
global de coordenação bastante alinhado ser representativos [de toda a socie-
com o que propõe Vittorio Bertola.
dade civil]. Nossa legitimidade está
Esta é uma listagem parcial das propos- arraigada em nosso conhecimento de
tas – várias outras foram encaminhadas
e estão sendo preparadas, inclusive uma causa, nossa experiência de campo e
28 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

na defesa de uma visão que tem o in- mos de Internet. Ele foi concebido em
1983, quando não havia recursos téc-
teresse público no seu cerne. Não nos nicos suficientes, tais como memória,
parece que isso tenha sido reconhe- capacidade de processamento, software
de roteamento avançado e largura de
cido ou levado em conta até agora. banda, e quando as questões de segu-
rança não haviam sido levadas em conta
reunião sobre direitos humanos na sociedade de maneira adequada. Altamente vul-
nerável a ataques, o atual sistema DNS
da Informação, Paris, julho de 2003.30 precisa ser substituído por outro mais
avançado e seguro (DNSSec) que, ainda
que preso ao paradigma piramidal, deve

A
o contrário de muitas outras pro- ter sérias implicações sobre o direito de
postas (que tentam se concentrar privacidade dos detentores de nomes
em disputas quanto ao mercado de domínio, conforme observou Paul
dos nomes de domínio e supervisão ou Vixie.31
administração da zona raiz), as formula-
ções de organizações da sociedade civil Essa estrutura piramidal para a tradução
buscam lidar com as questões de gover- de nomes em números, que contradiz os
nança da Internet como um todo, que é a fundamentos conceituais da Internet –
recomendação do Plano de Ação de Gene- uma rede das redes, afinal de contas –, é
bra da CMSI. a base para a perpetuação de um negócio
quase-monopolista que cria e distribui
Algumas premissas importantes do atual nomes de domínio de primeiro nível, na
sistema de governança devem estar em qual a ICANN é vítima, por um lado (ela
ordem, sendo em geral relegadas pelas não só depende muito da renda oriun-
organizações da sociedade civil no calor da dos registros de nomes de domínio
das discussões. Como exemplo relativo para sobreviver como também consome
à governança da infra-estrutura lógica, grande parte de sua energia na correta-
o DNS hierárquico de hoje está velho – a gem desse negócio), e, por outro, um
bem da verdade, bastante velho em ter- parceiro de negócios.
30- Caucus para os Direitos Humanos na Sociedade da Informação (HRIS), Declaração em nome da Plenária da
Sociedade Civil, Discurso para a reunião intersessional da CMSI de 15 a 18 de julho de 2003, Paris, França, 18 de
julho de 2003 (http://www.iris.sgdg.org/actions/smsi/hr-wsis/hris-cs-180703.html).
31- Paul Vixie, “Some Comments on Working Group on Internet Governance (WGIG)” 19 de julho de 2005
(http://fm.vix.com/internet/governance/wgig-report-july05.html). Vixie diz: “O relatório do GTGI destaca
uma gafe da IETF, que foi a padronização de uma solução de DNS seguro completamente inviável para qualquer
número dos ccTLDs por causa das leis nacionais de privacidade e outras considerações mais ou menos relacio-
nadas com a soberania. Aparentemente, a IETF deveria designar protocolos de Internet para um público mais
amplo do que “qualquer um que aparecesse na reunião”. Isso parece um absurdo, mas é verdade. Portanto,
qualquer zona que implantar o DNSSEC conforme especificado abre mão de qualquer privacidade de nome de
subdomínio que achasse ter porque o DNSSEC expõe toda a informação necessária para provar a não existência
de nomes não existentes e essa informação destaca indiretamente todos os nomes existentes. Embora essa falta
de privacidade para nomeação seja comercialmente desconfortável para alguns gTLDs, quando combinada com
dados WHOIS, trata-se de uma violação de fato da lei para alguns ccTLDs. Será interessante ver como a CMSI
propõe que a designação de protocolo da Internet saia da torre de marfim”.
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 29
É bem provável que esses procedimentos plo em cima da governança das TICs. Na
venham a se basear num modelo de rede verdade, o conjunto de questões sugeridas
no futuro, um sistema descentralizado no pela sociedade civil ao GTGI está prati-
qual muitos sistemas que traduzem uma camente igual à lista geral de questões de
combinação de letras (em qualquer idio- governança das TICs, indo desde a infra-
ma e códigos de caracteres) em números estrutura da rede até liberdade de conhe-
IP poderiam ser criados e mantidos au- cimento e software de fonte livre e aberta.
tonomamente, sob a coordenação de al-
gum fórum global onde seriam formados Não é surpresa alguma coexistirem visões
padrões para a fusão apropriada dessas divergentes nas discussões de muitas
redes. dessas questões. Por exemplo, o papel
das organizações intergovernamentais,
Essa hipótese deveria significar muito como deve se dar efetivamente o plu-
mais liberdade para rotular domínios, ralismo nos processos de tomada de de-
enquanto o tráfego vai continuar tran- cisões, formas de organizações globais,
qüilo com a preservação do sistema de alcance dos mandatos dessas organiza-
numeração IP. Mas negócios do tipo Veri- ções, até que ponto políticas específicas
sign provavelmente iriam sucumbir e a de software livre devem ser impostas ou
ICANN teria de se aprumar e se transfor- aparecer como parte de políticas gover-
mar numa organização global de verdade. namentais, e assim por diante.

Esta linha de raciocínio é apresentada Fazer um resumo adequado de toda a dis-


neste preâmbulo como exemplo do que cussão sobre governança nos encontros
se espera das organizações da sociedade da sociedade civil desde o início do pro-
civil – de forma a pensarmos com ousadia cesso da CMSI é uma tarefa desanimado-
para além das fronteiras restritivas dos ra. Esta análise tenta lidar com algumas
paradigmas atuais em lugar de ficarmos das questões relevantes, tratadas como tal
aprisionados dentro deles. Entretanto, pelo GTGI.
no GTGI, os membros da sociedade civil
tiveram de trabalhar num grupo pluralista
com óticas bastante diversas, onde não
era fácil atingir consenso e muito me-
O caucus para a
nos propostas capazes de interromper governança e o
qualquer coisa. processo da CMSI

A
s organizações da sociedade civil
Contexto interessadas na governança da
Internet deram início a um pro-

A
incidência de organizações da cesso de discussões por ocasião da se-
sociedade civil em torno das gunda reunião preparatória para a Fase 1
questões de governança da In- da CMSI, em fevereiro de 2003. Elas bus-
ternet faz parte de seu trabalho mais am- caram centralizar seu debate através de
30 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

uma lista de correspondência eletrônica e idéias que levam à formulação da longa


formada por iniciativa de Y. J. Park em lista de questões a serem consideradas na
março de 200332. governança da Internet – na verdade, na
governança das TICs como um todo, pois
Os termos de referência originais para o a lista abarcava praticamente todos os
debate, conforme colocados na mensa- temas da própria CMSI.
gem de abertura da lista, se concentravam
nos seguintes tópicos principais: O caucus também tirou a idéia de um
grupo de trabalho para diversos aspectos
— uma abordagem pluralista para a da governança da Internet, apresentando
governança (várias partes interessadas, comentários de observadores sobre o es-
ou multistakeholder); boço do plano de ação durante a PrepCom
— comunidades lingüísticas e nomes II.33
de domínios em várias línguas;
— ICANN, estabilidade e segurança da Entretanto, durante o ano de 2003 o
infra-estrutura lógica da Internet. caucus ficou tão preocupado que a UIT
pudesse assumir facilmente as funções
As metas iniciais foram enunciadas da atualmente executadas pela ICANN e en-
seguinte forma: tregá-las ao controle intergovernamental
(relegando o fato de que a ICANN como
— ajudar a garantir que não apenas um todo está sob a supervisão de um úni-
organizações, mas também indivíduos co governo desde a sua concepção) que
participem do processo da CMSI; resolveu tirar da sua declaração oficial na
— ajudar a formar comunidades Reunião Intersessional Preparatória de
lingüísticas e deixá-las se conectar às Paris, em junho de 2003, a seguinte fra-
partes relevantes em termos de recursos se: “...o atual gerenciamento de nomes e
disponíveis num nível global; números e outros mecanismos relativos
— monitorar de maneira crítica os con- à Internet deveria ser reexaminado com
tratos, processos e atividades da ICANN. a plena participação de todas as partes
interessadas, de forma a atender os in-
Desde então, grande parte desse terreno teresses públicos e se compatibilizar com
novo foi coberta num debate muito mais os padrões dos direitos humanos...”
sofisticado. De fato, o debate dos en-
contros (caucus) sobre governança tem Conforme era de se esperar, isso trouxe
sido uma fonte primordial de conceitos à baila vigorosas discussões, e a visão
32- https://ssl.cpsr.org/mailman/listinfo/governance.
33-Adam Peake, mensagem para a lista de governance em 17 de abril de 2003 (https://ssl.cpsr.org/pipermail/
governance/2003-April/000007.html). Adam Peake cita a proposta de um caucus da sociedade civil: “Para ampliar a
participação de todas as partes interessadas nos processos de formulação de políticas e tomadas de
decisões de baixo para cima, poderiam ser compostas Forças Tarefas para tratar das questões técnicas e de políticas
públicas (Servidor Raiz, Nomes de Domínio Multilíngües, Segurança na Internet, Ipv6, ENUM, Disputas entre Nomes
de Domínio etc.). Essas Forças Tarefas para a Governança da Internet deveriam promover a conscientização, disseminar
o conhecimento e produzir relatórios que ajudassem às partes interessadas a conseguir uma melhor compreensão das
questões e a cooperar com os organismos pertinentes como ICANN, IETF, RIRs, ccTLDs e outros.”
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 31
oposta foi claramente veiculada por lingüística que recebeu prioridade no es-
Meryem Marzouki na Reunião Interses- boço da Declaração da CMSI.”
sional de Paris: “Discordo totalmente do
seu pedido para tirar [a frase acima] do Durante a PrepCom III da primeira fase,
esboço do documento da sociedade civil. em setembro de 2003, o caucus propôs
Eu gostaria de lembrar, aqui e a todos, um nome melhor para si, “ICT gover-
que na situação vigente o controle dos re- nance caucus” (ou “caucus para a gover-
cursos da Internet se encontra em mãos nança das TICs”), pois assim estenderia
do governo dos EUA, através do Departa- o âmbito das discussões para muito além
mento de Comércio disfarçado de ICANN. dos componentes apresentados em julho
É isso que nós queremos? Certamente – detonando uma discussão que ainda
não. E mais: os protocolos e a definição não se resolveu desde então (e acabou
dos padrões se encontram em mãos de sendo abandonada) sobre uma questão
grandes empresas. É isso também que claramente secundária. Nesse momento,
nós queremos? Novamente, é certo que a lista de questões começava a abordar
não.” Esta última visão acerca da ICANN dúzias de temas e serviu de base para a ex-
acabou prevalecendo somente durante o tensa lista de temas tidos como questões
processo da CMSI. de governança da Internet pelo processo
do GTGI.
A visão geral do caucus na ocasião foi
resumida numa apresentação feita por Foi também durante o processo da Prep-
Y. J. Park na reunião de Paris, no dia 18 Com III que o caucus adotou o conceito de
de julho de 2003. Na época, os gover- “multistakeholder” para expressar uma
nos presentes propuseram a formação visão pluralista de participação, na toma-
de um grupo de trabalho governamental da de decisões, de todos os grupos de in-
para os fins específicos de governança teresse na sociedade, além dos governos,
da Internet. A apresentação destacava a propondo que tal formulação substituísse
importância da colaboração mútua entre a palavra “multilateral” (que tem o sig-
todas as partes interessadas e criticou a nificado usual de “intergovernamental”).
reforma da ICANN pós-2001, que reduzia
drasticamente a participação de usuários
individuais da Internet nos seus proces-
sos decisórios. Enfatizou também a rele-
vância de adotar nomes de domínios in-
ternacionalizados (IDNs): “...existe uma
necessidade premente de dar andamento
à implementação e ao desenvolvimento de
domínios de primeiro nível multilíngües
porque [eles] poderiam ser o começo de
uma habilitação local de comunicações e
acesso ao conteúdo da Internet em lín-
guas nativas e refletiria a diversidade
32 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

U
ma dificuldade temporária den- Internet (GTGI). Acaloradas discussões
tro do caucus que ficou mais do caucus buscaram definir uma lista de
aparente durante a reunião de candidatos da sociedade civil a serem es-
cúpula de Genebra (dezembro de 2003) colhidos pelo Secretariado Geral da ONU
foi o relacionamento entre as estrutu- para formar o grupo de trabalho.
ras da sociedade civil existentes den-
tro do sistema ICANN (a Assembléia de Em setembro de 2004, a ALAC entregou
Usuários Não-Comerciais, NCUC, e a uma proposta detalhada para a maneira
Assembléia At-Large, ALAC) e o caucus como o GTGI deveria ser formado e como
da sociedade civil como um todo. Alguns ele deveria funcionar e encaminhou
membros do caucus achavam que a NCUC sugestões avançadas sobre a governança
e a ALAC sofriam influência demais do que acabaram sendo levadas em conta nas
debate interno da ICANN, ao ponto de hipóteses ou nos “modelos” propostos no
poder introduzir um viés no debate mais relatório final do GTGI. Só para exempli-
amplo sobre a governança. ficar, o pronunciamento de abertura da
ALAC diz: “...o resultado a longo prazo mais
É relevante observar que os membros importante deste processo deveria ser a
da NCUC recentemente propuseram um criação de um mesa permanente de várias
debate dentro da ICANN para buscar ma- partes interessadas onde cada qual possa
neiras de formar um caucus da sociedade levantar questões relativas à Internet con-
civil dentro da estrutura da ICANN, que forme necessário e discutir se precisam de
absorveria tanto a NCUC quanto a ALAC. governança e em que nível, ou se a estru-
A idéia é estabelecer maneiras mais efi- tura atual de governança para tais questões
cazes de monitorar os desdobramentos é satisfatório. E mais: essa mesa deveria
e processos da ICANN como um todo de definir modelos-padrão para inclusão e
forma crítica. Hoje, a NCUC está formal- consulta de todas as partes interessadas
mente restrita a um papel de assessoria que possam ser usados como molde para a
dentro da organização de apoio ao gTLD, governança de qualquer nova questão que
a GNSO, enquanto a ALAC não está con- venha a surgir no futuro.”34 Várias outras
seguindo passar suas bases de usuários sugestões encaminhadas pela ALAC coin-
individuais para uma estrutura de as- cidiam com o formato final decidido pela
sociações de usuários montada dentro ONU para o GTGI.
de uma configuração regional, o que a

D
torna ineficaz para um acompanhamento urante a apresentação do relatório
adequado dos processos da ICANN. oficial do GTGI, o caucus da socie-
dade civil para governança elo-
Durante 2004, a maioria das discussões se giou a qualidade do relatório como sendo
concentrava na formação e nos métodos “o resultado tanto da colaboração das
do Grupo de Trabalho sobre Governaça da múltiplas partes interessadas quanto da

34- Divulgado por Vittorio Bertola em nome da ALAC na lista de governance em 14 de setembro de 2004.
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 33
consulta aberta e inclusiva da comunidade
mais ampla da CMSI,” e apresentou uma Governança global e
lista dos aspectos positivos do relatório: a comunidade

A
— a ampla definição funcional de s organizações da sociedade civil
governança da Internet; que participam do caucus para a
— a natureza abrangente das questões governança têm dado duro para
destacadas para providências prioritárias monitorar os eventos e participar das
no relatório final; discussões do GTGI e da CMSI. Muito
— a ênfase sobre valores fundamen- trabalho tem sido dedicado às questões
tais para a sociedade civil, inclusive a diretamente ligadas aos direitos huma-
liberdade de expressão, proteção de nos, tais como liberdade de expressão,
dados e dos direitos de privacidade, di- privacidade, acesso universal, direito à
reitos do consumidor, multilingualismo, comunicação, construção de capacidade e
construção de capacidade e uma par- assim por diante. Essas e outras questões
ticipação significativa nos processos de têm sido tratadas, normalmente, num
governança da Internet; contexto genérico, acertadamente bus-
— a meta abrangente de aprimorar a cando formular propostas de uma na-
legitimidade dos acertos para a governan- tureza global.
ça da Internet que se encontram subja-
centes a muitas das recomendações para Mas assim o enfoque tem sido desviado dos
políticas públicas; desafios bastante concretos no nível local
— o reconhecimento de que a cons- – nos vilarejos rurais, cidades pequenas,
trução de uma capacidade nas áreas em bairros pobres das grandes cidades. Na
desenvolvimento e a participação efetiva América Latina e no Caribe, por exem-
e significativa de todas as partes interes- plo, são pouquíssimos (em média, menos
sadas no mundo inteiro são os passos de 6% da população) os que têm acesso
mais essenciais para atingir essa meta. regular (ou qualquer forma de acesso)
à Internet. São, em geral, aqueles que
O caucus também chamou a atenção para moram nos principais centros urbanos e
as barreiras que continuam a existir con- pertencem, em sua maioria, aos extratos
tra uma plena participação pluralista nos sociais que podem arcar com os custos de
mecanismos de governança e recomen- uma linha telefônica e serviços de acesso,
dou que as organizações globais e inter- além de serem proprietários ou terem
governamentais “tomassem providências acesso livre a um computador em seus
para permitir uma participação efetiva lares ou escritórios. Trata-se das pessoas
dos países em desenvolvimento e da so- que se encontram no lado privilegiado do
ciedade civil.” 35 abismo digital.

35- Caucus da CMSI sobre Governança da Internet, declaração verbal feita por Jeanette Hoffmann na apresenta-
ção pública do relatório do GTGI, Genebra, 18 de julho de 2005.
34 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

P
or que essas questões são impor- operadoras desses serviços pressionam
tantes na discussão da governança os governos local, regional e nacional a
global? Não apenas porque quan- elaborar políticas que não deixem essas
do se atingem melhores acertos de custos comunidades tomarem nas próprias mãos
em conectividade, por exemplo, os preços o seu futuro com a Internet. Nos países
caem na chamada “last mile” (a extremi- onde as redes comunitárias ainda não se
dade menos seleta na “cadeia alimentar” difundiram ou não ameaçam de forma
da Internet comercial) – pois eles propi- significativa o potencial de lucros das
ciam a motivação relevante para muitas concessionárias desses serviços, como
das questões centrais – como também o Brasil, floresceram diversos projetos
porque certas decisões na formulação de desses sem que se observasse oposição
políticas podem causar impactos diretos alguma.
sobre a liberdade que as comunidades

M
poderiam ter para implementar suas as, nos EUA, muitas cidades, de
próprias soluções criativas de forma a su- pequeno porte ou não, partiram
plantar o abismo digital. em busca de alternativas ao que
as grandes operadoras ou suas teles locais
Por exemplo, se um modelo de governança têm a oferecer. Muitas redes comuni-
global resolver desprezar como princípio tárias foram construídas, tanto cobrindo
o fato de que toda a infra-estrutura física as necessidades do governo local quanto
e os serviços de rede são serviços de tele- cumprindo as metas de inclusão digital,
comunicações (que poderia ser uma for- conectando escolas e bibliotecas públi-
ma de estabelecer acertos de custo justos cas, telecentros e por aí vai. No estado da
no uso de largura de banda para a Inter- Pensilvânia, por exemplo, o governador
net entre países), isso poderia estimular sucumbiu à pressão das teles e proibiu as
os governos dos países a determinar que prefeituras de montarem suas próprias re-
somente as empresas de telecomunica- des. Mas ele precisou abrir uma exceção, e
ções têm o direito de oferecer os serviços das grandes: a cidade da Filadélfia já opera
no nível das comunidades – condenando uma rede comunitária bastante espalhada
assim a maioria das comunidades ao es- e seria politicamente inconveniente para
quecimento por não serem comercial- o governador mandar desmontá-la.
mente atraentes para as operadoras de
telecomunicações. As diversas experiências na montagem
e manutenção de redes comunitárias
De fato, esta luta já vem sendo travada levaram a uma visão geral do que elas
em várias cidades do mundo inteiro. Por podem significar para as comunidades,
um lado, as comunidades, pressionadas quais são suas metas e as soluções cria-
pela necessidade urgente de encontrar tivas que foram encontradas para fazer
uma solução eficaz para o seu quase isola- com que valessem a pena. Entre as car-
mento da Internet ou pelos elevados cus- acterísticas de uma rede comunitária
tos dos fornecedores comerciais, criam encontram-se muitos dos aspectos re-
suas próprias redes. Por outro, as grandes sumidos abaixo:
cap 1 - governança da internet: uma análise no contexto do processo da cmsi 35
• Trata-se de um patrimônio dos ci- tre outras ações), outros usuários pagam
dadãos comuns que cobre um bairro, uma um preço competitivo para usar uma rede
aldeia, uma cidade ou até mesmo um país. de alta eficiência e velocidade; a própria
• É gerenciada pela comunidade de prefeitura economiza bastante unificando
forma transparente, democrática, plu- todos os seus serviços de Internet e tele-
ralista e sem fins lucrativos, envolvendo fonia e ainda pode devolver parte dessa
todas as bases locais interessadas (gover- economia para manter a rede e ainda con-
no local, iniciativa privada, organizações tinuar a desenvolvê-la.
da sociedade civil, comunidades de edu- • Ela usa uma combinação de tecnologias
cação e pesquisa). comprovadas para montar sua própria
• É totalmente apoiada por políticas infra-estrutura maximizando a relação
públicas locais, regionais, estaduais e/ou custo-benefício (fibra, rádio digital etc.)
federais. O governo municipal, acima de • O governo municipal pode exercer nor-
tudo, desempenha o papel crucial de to- malmente o seu direito legal de deitar ca-
mar a iniciativa de convocar a comuni- bos pelos bairros.
dade para participar do projeto coopera- • Ela usa uma única conexão para back-
tivo e criar facilidades e incentivos para bone da Internet de alta capacidade, re-
o desenvolvimento da rede, mas esse duzindo assim de maneira radical o custo
papel também pode ser desempenhado por Mbps para cada ponto de acesso.
pela comunidade acadêmica, pelas orga- • Ela garante a liberdade de colocação e
nizações da sociedade civil ou por em- distribuição de pontos de acesso, com
preendedores locais. seus próprios critérios de apreçamento.
• Ela otimiza seus recursos para a ad- • A manutenção técnica e administrativa
ministração local e para a inclusão digital de um sistema bem projetado é relativa-
(escolas e bibliotecas públicas, telecen- mente simples e tem boa relação custo-
tros comunitários) – atualmente, usan- benefício – já existe todo um acervo de
do um único link de alta velocidade com boas práticas no mundo inteiro.
o backbone e oferecendo serviços como • Ela pode ser implantada de forma modu-
telefonia de voz sobre IP, essas redes po- lar – começando por um bairro, por
dem propiciar um retorno pleno do in- exemplo, ou cobrindo apenas as áreas
vestimento inicial em poucos meses de com necessidade mais urgente numa
operação. primeira fase.
• Ela pode se auto-sustentar: enquanto as • Ela pode oferecer serviços adicionais
comunidades pobres pagam apenas um sem fins lucrativos, lançando mão mui-
preço simbólico, quando pagam, para tas vezes de trabalho voluntário para
usar os seus serviços (esses projetos de recondicionamento de computadores,
rede costumam buscar a democratização programas de treinamento em escolas e
do acesso através de telecentros comuni- assim por diante.
tários de uso gratuito e também oferecem • Ela pode oferecer treinamento técnico
serviços de recondicionamento de com- para operadores bem como usuários e fu-
putadores a serem distribuídos a custos turos instrutores, alavancando assim as
baixíssimos nas áreas mais pobres, den- iniciativas locais relativas a TICs.
36 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

• Ela pode oferecer acesso, hospedagem As organizações da sociedade civil bus-


e outros serviços para indivíduos e insti- caram identificar esses componentes, e
tuições que possam pagar, ou então pode outros mais, num processo de militância
apoiar serviços locais de Internet com em prol de resgatá-los de enclaves priva-
custos mais baixos de acesso ao backbone, dos. Incluem-se aí os esforços em prol da
estimulando ainda mais a disseminação liberdade de informação e do conheci-
do uso da tecnologia da Internet na área. mento, envolvendo software de fonte livre
e aberta, conteúdo no domínio público,
Esta lista, por si só, já contém uma propos- alternativas aos enclaves vigentes de PCT
ta de programa para políticas de inclusão (patentes, direitos autorais e marcas reg-
digital no nível local. É essencial que as istradas) ou “direitos da propriedade in-
discussões sobre as questões de governan- telectual” e assim por diante.
ça global da Internet levem em conta ma-
neiras de positivamente influenciar ações Esses elementos se encontram no cerne
como essas, ou pelo menos deixar de criar das “questões centrais” de governança na
dificuldades contra tais possibilidades. Internet listadas pelo GTGI ao construir
um mecanismo global de governança, e
deve ser sempre considerada a “aborda-
Governança global e gem cidadã” a qualquer convênio inter-
nacional ou acordo institucional.
o cidadão comum

T
al qual uma rede comunitária
dessas acima, outros componen-
tes da Internet devem ser tidos
como patrimônio do cidadão comum.
Um exemplo seria o próprio sistema de
nomes de domínio. A decisão original do
governo dos EUA em converter nomes de
domínio em commodities logo após a cria-
ção da ICANN criou um mercado mundial
dominado por uma empresa apenas (a
Verisign) e levou muitas operadoras de
ccTLD a fazerem o mesmo.

Assim, muitos países simplesmente abri-


ram mão de suas identidades nacionais na
Internet (seus ccTLDs), na maioria dos
casos sem consulta às suas bases nacio-
nais, em troca de ganhar dinheiro (cujos
principais beneficiários, em muitos ca-
sos, são empresas estrangeiras).
37
2 Introdução

O
processo que leva à segunda fase
da Cúpula Mundial sobre a Socie-
dade da Informação (CMSI) de-
terminou como uma das suas prioridades
a formulação de um mecanismo global de
governança da Internet. Entre os países
em desenvolvimento, o Brasil tem sido
Um fórum um dos que mais se pronunciam a res-
peito da necessidade de um debate mun-
global para a dial sobre o futuro dessa governança, e foi
um dos países que lideraram a proposta
governança da que resultou na formação do Grupo de
Trabalho sobre a Governança da Internet
Internet: (GTGI).

O governo brasileiro continua trabalhan-


a visão do do em uma proposta nacional de consenso
para a governança mundial da rede. E isso
Brasil faz parte de uma iniciativa mais ampla
envolvendo vários atores para estabelecer
posições consensuais acerca dos prin-
Carlos A. Afonso cipais temas da CMSI. Naturalmente o
Brasil tenta formular sua proposta global
a partir de políticas nacionais que deram
origem à política nacional de governança,
conduzida pelo Comitê Gestor da Internet
no Brasil (CGIbr).36

Com esse propósito, foi formado um Gru-


po Interministerial para a Sociedade da
Informação (GISI), composto de vários
representantes de ministérios, empre-
sas privadas, organizações da sociedade
civil e entidades acadêmicas, sob a coor-
denação do Ministério de Relações Exte-
riores. Um subgrupo do GISI voltado para
a governança da Internet, trabalhando
36- Uma breve descrição do modelo de governança
brasileiro encontra-se no Apêndice 1.
38 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

em conjunto com o Subcomitê do CGIbr de interesse. Uma estrutura assim seria


para a Governança da Internet, produziu pluralista, transparente, democrática e
o que já está sendo aceito como a posição multilateral.
oficial do governo brasileiro acerca desta
questão. Com base na experiência do seu próprio
modelo interno de governança da Inter-
Este texto apresenta, extra-oficialmente, net, o Brasil prevê que quatro grupos de
o consenso já alcançado, procurando ser- interesse deveriam participar do me-
vir de referência para a continuidade do canismo global:
debate sobre a governança no Brasil.
• Governos nacionais;
Os três textos básicos para esta análise são: • Associações empresariais;
• Organizações sem fins lucrativos,
• O Relatório do GTGI37; não empresariais;
• O “Documento-base para a posição • Comunidade acadêmica / técnica.
brasileira” do GISI (não publicado);
• A Resposta do Caucus da Sociedade Os dois últimos setores deveriam ser
Civil para a Governança da Internet representados por organizações ou as-
(CSIGC) ao Relatório do GTGI38. sociações da sociedade civil. Manter estes
dois setores em separado serve para as-
segurar que sempre haja no fórum repre-
As premissas para a sentantes da comunidade acadêmica e
técnica39 bem como das organizações sem
proposta brasileira fins lucrativos e não empresariais, inde-
pendentemente do mecanismo de eleição

N
o processo da CMSI, o Brasil foi ou seleção estabelecido para a escolha dos
um dos primeiros países a in- representantes.
sistir na importância de con-
siderar uma quantidade de temas que O Caucus da Sociedade Civil sobre Gover-
vão muito além do mandato da ICANN nança da Internet (CSCGI) não conseguiu,
em um futuro arranjo para a governan- até o momento, estabelecer uma visão
ça global da Internet. A visão brasileira consensual para a a estrutura de represen-
envolve a necessidade de se criar uma tação. Embora a maioria concorde, como
estrutura internacional e multi-institu- o Brasil, que as associações acadêmicas
cional abrangendo assessoria, resolução sejam parte da sociedade civil, ainda há
de conflitos e supervisão para uma ampla divergências quanto à forma de sua repre-
gama de temas da governança, com repre- sentação específica no fórum global.
sentação “adequada” de todos os grupos

37- O relatório pode ser obtido em http://www.wgig.org.


38- Documento disponível em http://wsispapers.choike.org/wsis_igcaucus_wgig_final.pdf.
39- Embora possam ser vistos como parte do universo das organizações da sociedade civil sem fins lucrativos.
cap 2 - um fórum global para a governança da internet: a visão do brasil 39
O
Brasil também concorda com o intergovernamental. O Brasil concorda
GTGI quanto a propor um fórum com a necessidade de se estabelecer um
global para a governança da In- elo formal com a ONU de forma tal que
ternet. Contudo, embora nos quatro não prejudique os quatro princípios a
modelos de mecanismo global propostos serem seguidos para o processo e a par-
pelo GTGI se contemple um fórum plural- ticipação: multilateralidade, democracia,
ista, este fica relegado a um papel consul- transparência e pluralismo.
tivo apenas. A proposta brasileira expande
o âmbito do fórum de maneira a nele in- Segundo o Brasil, algumas das premissas
cluir funções de coordenação ou super- básicas para a criação do FCGGI são:
visão, resultando assim na proposição de
um único organismo pluralista para todas • As instituições existentes que este-
as funções da governança. jam envolvidas com a governança da
Internet devem se adaptar aos quatro
Na hipótese do Brasil, a ICANN, reorga- princípios acima.
nizada como um verdadeiro organismo • A agenda de funcionamento do fórum
global, independente de qualquer país deve ser ampla e não pode deixar de
e mantendo suas funções lógicas de incluir todos os aspectos da gover-
governança da infra-estrutura, bem nança da Internet.
como qualquer outro mecanismo que • A estrutura do fórum deve incluir
venha a existir para a governança global uma instância intergovernamental de
da Internet, ficaria sob a supervisão do tomada de decisão para lidar com os
fórum global. aspectos da governança da Internet
que tenham impacto sobre as políticas
A tendência do caucus é posicionar-se nacionais.
a favor de um fórum consultivo como • A implementação do fórum deve ser
ponto de partida, oriundo do modelo 2 realizada de forma a assegurar estabi-
de governança apresentado no relatório lidade para a Internet e o seu desen-
do GTGI. Esse fórum evoluiria até tor- volvimento contínuo.
nar-se uma referência global reconhe- • O modelo de governança adotado no
cida como legítima para a governança Brasil poderia servir de referência
da Internet. Assim, a proposta do caucus para o FCGGI, bem como para esta-
pode ser considerada como um subcon- belecer a cooperação e a troca de ex-
junto da proposta brasileira, conforme periências na estruturação de mode-
será descrito abaixo. los de governança nacional, de forma
a facilitar a participação de comuni-
O Brasil já detalhou vários aspectos de sua dades nacionais no fórum global.
versão do fórum global (chamado Fórum
de Coordenação da Governança Global Esta última premissa se refere ao pará-
da Internet (FCGGI). Este fórum deveria grafo 73(b) do Relatório do GTGI, que
ser autônomo e independente quanto a recomenda textualmente que “seja estabe-
qualquer organização governamental ou lecida coordenação entre todos os grupos de
40 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

interesse a nível nacional e que se forme um co- O fórum aqui é visto como um formula-
mitê gestor nacional pluralista ou organismo dor de políticas, desempenhando papéis
semelhante para a governança da Internet.” de consultoria, resolução, coordenação,
O GTGI não chega a recomendar explici- supervisão e arbitragem. Ele deve apoiar-
tamente a adoção do mecanismo de gover- se em agências e organizações técnicas,
nança adotado no Brasil, o que entraria em reguladoras e consultivas que já exis-
conflito com as políticas nacionais adota- tam, sendo visto por tais entidades como
das em diversos países,40 mas sugere que instância de resolução para as questões
sejam dados passos nessa direção. relativas à Internet pertinentes ao campo
de atividade de cada uma delas.

Características da Este item mostra que há muito trabalho


a ser feito para a determinação precisa
proposta do Brasil desses papéis e mecanismos específi-
cos (inclusive em relação à delegação de

C
onforme já foi mencionado, o Bra- funções para organizações já existentes
sil é contrário aos modelos apre- ou ainda por criar) em diferentes níveis
sentados no Relatório do GTGI e e instâncias quanto a supervisão, regula-
sugere que se crie um único organismo ção, arbitragem e assim por diante.
com múltiplas funções, organismo este
que deverá ser, no todo, pluralista (en-
volvendo múltiplos atores), democrático,
transparente e multilateral – o signifi- 2. O FCGGI deve coordenar um amplo
cado dessas características coincide ba- espectro de temas da governança.
sicamente com a visão do GTGI. Embora
ainda estejam em discussão os detalhes da
posição brasileira, já se está chegando a Destaca-se este item para enfatizar a im-
um consenso quanto a uma proposta para portância de um mecanismo geral para
o FCGGI constando de 14 itens, a saber: suprir a falta de uma instância de gover-
nança que consolide todas as questões
1. O FCGGI deverá ser um espaço relativas à Internet.
global para a coordenação e dis-
cussão de todas as questões de gover-
nança, bem como deverá apoiar a 3. O FCGGI deve ser pluralista (múlti-
formulação de políticas globais para plos grupos de interesse de todos os

a Internet. setores).

40- Alguns dos quais simplesmente contrataram uma empresa titular comercial para vender seus domínios de
primeiro nível de código de país (ccTLDs) no mercado mundial.
cap 2 - um fórum global para a governança da internet: a visão do brasil 41
A visão brasileira aqui é semelhante à Tem relevância prática o fato que o Brasil
adotada para o seu organismo nacional de não vê a instância intergovernamental
governança (ver Apêndice 1) e a maneira do fórum discutindo e deliberando sobre
como ela prevê a participação de governos todas as questões como um organismo
nacionais está descrita no próximo item. separado. O que o país prevê é um con-
junto de representantes da instância
intergovernamental participando dos
processos gerais do fórum, que irá reme-
4. O FCGGI deve incluir um mecanis- ter àquela instância apenas as questões
mo intergovernamental através do relativas às políticas nacionais.

qual os governos exerçam suas respon-


sabilidades pertinentes aos aspectos 5. O FCGGI, bem como qualquer
das políticas públicas no âmbito da instância global de governança, não
Internet. deve ficar sob a jurisdição de um país
Este tópico é um dos mais relevantes na específico.
proposta brasileira e, dependendo da
maneira como é apresentado, pode cau- Esta posição coincide com a do parágrafo
sar polêmica – especialmente pelos que 48 do Relatório do GTGI, que diz:
desejam estender o modelo da ICANN a
todos os aspectos da governança global. “O GTGI reconhece que qualquer for-
O Brasil quer um fórum que conte com ma organizacional para a função de
a plena participação de todos os setores
na formulação das recomendações e governança ou de supervisão deverá
definições de políticas e acordos inter- acatar os seguintes princípios:
nacionais. Entretanto, as recomenda-
ções ou regulamentações que os gover-
nos considerem que têm implicações Nenhum Governo terá papel prepon-
nas políticas públicas nacionais devem
ser avaliadas pela instância intergover- derante com relação à governança in-
namental do fórum antes de qualquer ternacional da Internet.
aprovação, seguindo um procedimento
claramente estabelecido. Ao contrário de A forma organizacional para a fun-
certas declarações ou interpretações, não
há qualquer menção à UIT ou qualquer ção de governança será multilateral,
outro organismo existente como possível transparente e democrática, contando
substituto para a ICANN na governança
da infra-estrutura lógica. com o envolvimento pleno de Gover-
42 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

nos, da iniciativa privada, da socie- 7. O FCGGI deve respeitar os critérios


dade civil e de organizações interna- de transparência, democracia e mul-
cionais. tilateralismo.
A forma organizacional a ser Estes aspectos já estão expressos nas
adotada para a função de gover- resoluções de Genebra da CMSI.41

nança envolverá todos os atores e


organizações intergovernamentais 8. Cada um dos representantes dos
e internacionais pertinentes den- quatro grupos de interesse (governos,
tro de seus respectivos papéis.” associações empresariais, organiza-
Além disso, o Brasil enxerga o fórum ções sem fins lucrativos e não empre-
global como um organismo internacional, sariais, e associações acadêmicas e
formalmente reconhecido pelas Nações
Unidas e legitimado por um tratado in- técnicas) deve estabelecer regras claras
ternacional específico. O caucus também
contempla um relacionamento formal de prestação de contas a suas bases.
com a ONU (de preferência, diretamente
com o Secretariado Geral), cujos termos O Brasil enfatiza aí duas questões em par-
precisam ser definidos. ticular: como escolher e assegurar uma
forma global de prestação de contas para
os representantes não governamentais; e
6. O FCGGI deve trabalhar em prol como assegurar a participação qualificada
de setores não governamentais dos países
do interesse público global. em desenvolvimento. Esta também é uma
preocupação explícita do caucus.
Isso levanta questões particulares de arbi-
tragem (como prevenir ou evitar impasses
resultantes de conflitos de interesse nos 9. Quanto às organizações globais
níveis nacionais que possam bloquear existentes que lidam com questões
processos) e de participação equilibrada
(como assegurar a representação iguali- específicas do âmbito da Internet, a
tária de países em desenvolvimento e
desenvolvidos, dos interesses públicos e
função do FCGGI deve ser a de coor-
privados, comerciais e não comerciais). dená-las e não substituí-las.

41- http://www.itu.int/wsis/documents/doc_multi.asp?lang=en&id=1161|1160.
cap 2 - um fórum global para a governança da internet: a visão do brasil 43
Esta proposição é significativa, onde a Isto enfatiza novas questões que passam
abordagem deve ser a de aproveitar o pelo emprego de tecnologias avança-
know-how e as organizações existentes, das, pelas conseqüências da rápida con-
e consolidar a governança global de vergência de diferentes mídias e sistemas
forma coordenada com estas organiza- de comunicação, e assim por diante. Es-
ções para as funções que elas possam ses desdobramentos, por sua vez, podem
desempenhar ou continuar desempen- exigir uma evolução correspondente de
hando, bem como ajudar a construir os certas funções, regras, padrões e reco-
novos mecanismos que se façam ne- mendações do fórum, e este tem que estar
cessários para componentes ainda não preparado para atuar com eficácia acom-
cobertos adequadamente. Isto significa panhando o avanço técnico da rede.
levar em conta não apenas a ICANN mas
também várias agências da ONU e de
outros organismos técnicos já existentes.
12. O FCGGI deve ser capaz de agir
como uma câmara de compensação
10. O FCGGI deve operar com eficácia eficiente para acolher as necessidades
e praticidade para assegurar proces- de diferentes grupos de interesse e en-
sos decisórios rápidos, em conformi- caminhá-las (ou encaminhar suas
dade com a dinâmica de expansão e resoluções sobre essas necessidades)
evolução da Internet. às organizações pertinentes.
O Brasil sugere mecanismos de repre- O Brasil destaca que, neste particular, o
sentação nos quais o fórum global seja fórum deve fazer uso intenso das mais
constituído por um número reduzido de recentes tecnologias online de gestão do
representantes que expressem legitima- conhecimento, acelerando a transparên-
mente os interesses de todos os setores. cia, os procedimentos democráticos e as
Isso requer procedimentos e mecanismo próprias funções de resolução de con-
globais adequados para assegurar proces- flitos, além de empregar uma combina-
sos de eleição e escolha democráticos e ção eficaz de reuniões abertas, online e
transparentes em cada país e região. presenciais.

11. O FCGGI deve ser flexível e adap-


tável de forma a ajustar sua agenda 13. O FCGGI deve ter a autoridade
e seus processos à rápida evolução da para resolver conflitos e coordenar o
Internet. trabalho de diferentes organizações.
44 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

O Brasil vê esta capacidade estabelecida


por um tratado ou convenção internacio-
nal, bem como por contratos específicos e
memorandos de entendimento.

14. O FCGGI deve ser auto-sustentável.

O fórum deve ser apoiado em uma in-


fra-estrutura técnica e administrativa
eficiente e enxuta. Suas reuniões devem
ser realizadas, tanto quanto possível, via
Internet, utilizando os melhores recursos
multimídia em rede. Muitas atividades
serão realizadas por grupos de trabalho
especializados ou had hoc, normalmente
formados por voluntários recebendo
cobertura para as suas despesas de via-
gem e diárias para dar conta dos gastos
envolvidos sempre que necessário. Tais
métodos ajudam a diminuir o orçamento
operacional.

A receita do FCGGI deve advir de todos


os setores participantes conforme suas
capacidades. Devem ser estabelecidos
tetos para contribuições específicas de
modo a evitar tanto barreiras à entrada
quanto posições hegemônicas. A ICANN
é o anti-exemplo para esta proposta, já
que sua receita advém em sua maior parte
das empresas concessionárias de registro
de domínios globais de primeiro nível
(gTLDs).
45
3 N
o momento em que a CMSI chega
a sua reunião final, a supervisão
política da governança da Inter-
net tornou-se o assunto mais importante.
Este tema provou ser também um assunto
politicamente tenso e divisivo, tornando
impossível um acordo sobre o mesmo du-
rante a reunião preparatória Prepcom 3.

Neste documento tentamos oferecer um


Supervisão esclarecimento conceitual sobre assun-
tos relacionados à supervisão política. Em
política da primeiro lugar, definimos a supervisão
política e fazemos uma breve avaliação de
ICANN: sua necessidade para a governança inter-
nacional da Internet. Em seguida, fazemos
uma distinção importante entre super-
uma visão estrita (da ICANN) e supervisão am-
pla (de todos os temas de políticas públi-
contribuição cas relativos à Internet), e explicamos
como a CMSI precisa separar a discussão
para a CMSI desses dois tipos de supervisão.

Em seguida examinamos em detalhe os


Internet Governance Project42 mecanismos existentes de supervisão
política sobre a ICANN. Notamos que a
supervisão unilateral dos Estados Uni-
dos cria problemas e precisa ser muda-
da. Mas há duas maneiras distintas de se
fazer isso. Um caminho é envolver mais
governos no processo de supervisão.
Outro caminho é retirar dos EUA essa
supervisão. Em outras palavras, pode-
se desnacionalizar a ICANN e encontrar
meios de controle sobre a mesma que não
requeiram uma supervisão intergover-
namental tradicional.
42- O original em inglês foi publicado em 1 de novem-
bro de 2005 em http://www.internetgovernance.org.
Este texto foi escrito por Milton Mueller com partici-
pação de Hans Klein, Jeanette Hofmann, Lee McKnight
e Derrick L. Cogburn. Traduzido para o português por
Carlos A. Afonso.
46 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

O documento conclui que a desnacio- global e as nações são territoriais. A In-


nalização é provavelmente uma op- ternet criou uma arena para comunicação
ção melhor que a internacionalização. e intercâmbio abertos transfronteiras.
Ademais, os mecanismos de supervisão Particionar esse espaço global em 200
pelos EUA existentes podem ser modi- territórios “soberanos”, cada um com
ficados para conduzir à desnacionaliza- suas próprias leis e regulamentos, é ao
ção sem ameaçar a operação efetiva ou as mesmo tempo difícil na prática e poten-
liberdades da Internet. cialmente prejudicial à própria liberdade
de inovar globalmente que tornou a In-
ternet um grande êxito.
Supervisão política
O segundo problema, e mais fundamen-
e política pública tal, é que um consenso de governos na-
cionais não representa bem o interesse

A
supervisão política refere-se ao público global. No plano internacional,
poder de governos nacionais para todos os mecanismos institucionais que
determinar algum tipo de controle permitem aos políticos servir a um in-
sobre a Internet global. Para a maioria dos teresse público mais amplo, tais como o
governos, isso significa colocar a Internet voto, sistemas legais de freios e contrape-
em conformidade com as políticas públi- sos, ações de lobby e reportagens críticas,
cas por eles estabelecidas. As discussões da são fracos ou não existentes. Na política
CMSI têm insistido que governos deveriam internacional os estados estão mais in-
estar encarregados da formação de políti- teressados em proteger e estender seus
cas públicas para a Internet.43 próprios poderes como estados que em
promover um interesse público global.
Há muito de verdade nessa afirmação. Na
elaboração de políticas públicas nacionais, O terceiro problema é que, a menos que a
os governos estabeleceram instituições sociedade civil transnacional e as comu-
que determinam o interesse público para nidades técnicas e de negócios estejam
o conjunto da comunidade nacional. Isso na mesa de negociações, decisões gover-
faz dos governos os agentes mais impor- namentais serão na melhor das hipóteses
tantes na realização da regulação social. mal informadas e, na pior das hipíoteses,
Por que deveria a Internet ser diferente? seguramente danosas. Um conclave de
funcionários de relações exteriores não é
Mas há três problemas fatais em ter os capaz de entender, e menos ainda deci-
governos nacionais como veículos únicos dir, todos os assuntos de política pública
de formação de política pública para a relacionados à Internet. Eles precisam dos
Internet. O primeiro é que a Internet é insumos e participação de outros setores.

43- O relatório do GTGI, por exemplo, refletiu essa hipótese em sua discussão dos “papéis e responsabilidades”
dos diferentes agentes. O parágrafo 30 (página 8) do relatório lista “formação de políticas públicas e coordenação e
implementação, conforme apropriado, a nível nacional, e desenvolvimento e coordenação de políticas nos níveis
regional e internacional” como o primeiro “papel e responsabilidade” dos governos.
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 47
Por todas essas razões, estados nacionais e negociações de longo prazo. A super-
não deveriam reivindicar um papel ex- visão política sobre a ICANN, por outro
clusivo na definição de políticas públicas lado, é um tema menos complexo e pre-
para um meio global como a Internet. Os cisa ser tratado a curto prazo. Combinar
governos não podem ser ignorados ou ex- a discussão da supervisão sobre a ICANN
cluidos, mas por outro lado não deveriam com os debates sobre governança de
ser proeminentes. Tal como o surgimento todos os temas internacionais relacio-
das ferrovias elevou a capacidade regu- nados à Internet torna intratáveis ambos
latória dos governos do âmbito municipal problemas. Cada um precisa ser trabal-
para o provincial e o nacional, o surgi- hado em seu próprio âmbito, e cada um
mento da Internet requer uma aborda- pode ser objeto de políticas específicas.
gem global. E, dado que os governos por Separar os debates sobre os temas es-
natureza não são globais, novos arranjos pecíficos da ICANN dos assuntos mais
precisam ser estabelecidos. amplos de política pública internacional
para a Internet é um passo prático para
quebrar o impasse da Prepcom 3.
Supervisão
O resto deste texto concentra-se nos as-
estrita e ampla suntos da supervisão estrita sobre a ICANN.
Um texto subsequente discutirá os passos

O
s debates da CMSI juntam nas para tratar dos temas mais amplos.
discussões dois tipos de super-
visão política: estrita e ampla. A
supervisão estrita refere-se à supervisão Os atuais mecanismos
sobre a ICANN e sua administração dos
identificadores Internet. A supervisão
de supervisão para
ampla refere-se à autoridade para definir a ICANN
políticas públicas globais para a Internet

U
em uma extensa gama de temas, da pro- m dos mitos mais destrutivos que
priedade intelectual ao spam, interconexão envolvem o atual diálogo é que
e privacidade, que incluem mas vão além hoje não há supervisão política
de nomes e números Internet. sobre a Internet. Em muitos países, mas
especialmente nos EUA, o debate sobre
Ambos tipos de supervisão política são supervisão está enquadrado como um
importantes. Manter uma distinção clara confronto entre uma Internet livre de
entre os dois, no entanto, pode ajudar no governos e uma Internet que é “gerencia-
avanço das negociações na CMSI. Hoje da pela ONU”. Esta é uma dicotomia falsa
não há mecanismos formais para super- por duas razões. Em primeiro lugar, ela
visão ampla da governança da Internet. confunde a governança estrita da Internet
Criar e implementar novas instituições (supervisionar a ICANN) com a super-
para esse fim, supondo que isso seja de- visão ampla (“gerenciar a Internet”). Em
sejável, exigiria mudanças significativas segundo lugar, existe supervisão política
48 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

sobre a ICANN, mas é unilateral – um execução de politicas que a ICANN deve


único governo (dos EUA) supervisiona realizar, e fixa prioridades, marcos ou
ativamente a ICANN. realizações específicas para a entidade.
Atualmente, o conteúdo do MoU reflete
A supervisão política sobre a ICANN é as prioridades de políticas dos EUA. Ele
realizada através de três instrumentos: segue o posicionamento dos EUA sobre
novos domínios de primeiro nível, priva-
• o Memorando de Entendimento da cidade na base de dados Whois, política de
ICANN; competição, bem como relacionamento
• o contrato com a IANA; com os administradores de domínios de
• o Acordo de Cooperação dos EUA primeiro nível de países (ccTLDs). Com
com a Verisign, Inc. períodos de renovação de um a três anos
desde 1998, o DoC mantém a ICANN
Estes contratos são relacionados por um com rédeas curtas. Os que afirmam que
quarto elemento: os EUA têm uma política de laissez-faire
em relação à Internet provavelmente
• uma ampla afirmação de autoridade nunca leram o MoU. Em 2006, o Depar-
de políticas dos EUA sobre a raiz do tamento de Comércio poderá permitir
DNS. que o MoU expire, livrando a ICANN de
sua supervisão, ou poderá renovar o MoU
Qualquer discussão da supervisão políti- por outro período. Se o MoU continuar,
ca sobre a ICANN precisa ser baseada no os EUA poderiam, através de negocia-
conhecimento desses mecanismos espe- ções com a ICANN, inserir novas tarefas
cíficos. Estes são discutidos em detalhe a ou condições. O MoU é frequentemente
seguir. confundido com a autoridade dos EUA de
políticas sobre a raiz do DNS (ver o item
1. o memorando de 3, a seguir). O fato é que ele é inteira-
entendimento da icann44 mente diferente. A expiração do MoU
não significa necessariamente o fim da
O Departamento de Comércio dos EUA autoridade dos EUA sobre a raiz. A elimi-
(DoC) firmou um Memorando de En- nação da autoridade dos EUA sobre a raiz
tendimento (MoU) com a ICANN, vá- não necessariamente terminaria o MoU.
lido de 16 de setembro de 2003 a 30 de
setembro de 2006. Esta é a sexta versão 2. o contrato com a iana45
do MoU desde 1998. O MoU é o prin-
cipal documento de supervisão usado Um contrato sem custos e sem concor-
para controlar ou regular a conduta da rência entre a ICANN e o governo dos
ICANN. Ele provê uma lista de tarefas de EUA autoriza a ICANN a realizar as fun-
44- http://www.ntia.doc.gov/ntiahome/domainname/icann.htm
45- A última versão disponível na Internet está em http://www.icann.org/general/iana-contract-21mar01.htm.
Para uma excelente discussão da natureza deste contrato em relação à legislação administrativa dos EUA,
ver Michael Froomkin, “Bring on the IANA competitors,” ICANN Watch, 3 de fevereiro de 2003,
http://www.icannwatch.org/article.pl?sid=03/02/03/2251256&mode=thread
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 49
ções técnicas da Autoridade de Números Os EUA assumiram o controle da raiz para
IP Designados da Internet (IANA). Isso facilitar a criação da ICANN e para esta-
envolve atividades administrativas tais belecer um mercado mais competitivo
como a distribuição de blocos de números para registros DNS. Durante a criação da
IP, alteração do arquivo da zona raiz e co- ICANN os EUA indicaram repetidamente
ordenação da designação de números de que abdicariam de sua autoridade sobre a
protocolos únicos. O contrato da IANA não raiz. Mais tarde, e mais precisamente com
autoriza o contratante a alterar as políticas a “Declaração da Princípios” da Adminis-
estabelecidas que orientam o desem- tração Nacional de Telecomunicações e
penho das funções da IANA. A IANA tem Informação (NTIA, sigla em inglês), em
que recorrer a processos da ICANN para 3O de junho de 2005, os EUA reafirma-
definir e alterar políticas (por exemplo, ram seu direito de manter o controle da
criar um procedimento para acrescentar raiz para sempre.47 Isso significa que o
nomes de domínio de primeiro nível à raiz). governo dos EUA reserva para si a auto-
ridade de aprovar qualquer mudança no
3. “autoridade de políticas” arquivo de zona raiz do sistema de nomes
sobre a raiz do dns de domínio. Efetivamente, significa que
os EUA são donos da raiz. Os EUA exer-
O DoC definiu o que chama de “autoridade cem esse poder não por meio da ICANN
de políticas” sobre toda e qualquer modi- em si, mas através de seu contrato com a
ficação do arquivo de zona raiz do DNS Verisign (ver o item 4, abaixo).
desde outubro de 1998.46 Quando os EUA
estaleceu essa autoridade pela primeira 4. o acordo de cooperação
vez, a razão não foi proteger a “segurança com a verisign
e estabilidade” da Internet, e sim esta-
belecer uma política de competição. De A VeriSign, operadora dos domínios
1991 a 1998 o arquivo de zona raiz era .com e .net e a maior empresa regis-
controlado informalmente por Jon Postel tradora de nomes de domínio do mun-
e sua implementação era controlada pela do, tem um acordo de cooperação com
NSI (precursora da Verisign). A NSI pas- o DoC. O acordo, que existe desde os
sou a monopolizar os registros de nomes primórdios da Internet pública, autoriza
de domínio genéricos (gTLDs). a empresa a operar o servidor mestre
46- A afirmação de autoridade de políticas foi estabelecida na Emenda 11 do acordo de cooperação com a
Network Solutions, Inc, da seguinte forma: enquanto a NSI continua a operar o servidor raiz primário, ela deverá
requerer autorização por escrito de um funcionário autorizado do governo dos EUA antes de realizar ou rejeitar
qualquer modificação, inclusão ou eliminação no arquivo de zona raiz.
47- http://www.ntia.doc.gov/ntiahome/domainname/USDNSprinciples_06302005.htm
48- “A NSI concorda em continuar a funcionar como a administradora para o servidor raiz primário do sistema
de servidores raiz e como administradora da zona raiz até quando o governo dos EUA instrua a NSI por escrito a
transferir uma ou ambas dessas funções para a NewCo ou uma entidade alternativa específica.” Emenda 11, Acordo
de Cooperação DoC-NSI, 16 de outubro de 1998.
49- Sob a Emenda 11 desse acordo (outubro de 1998), a Verisign concordou em não alterar o arquivo de zona raiz
sem a aprovação do governo dos EUA. O governo dos EUA não tinha qualquer autoridade formal sobre o conteúdo
do arquivo de zona raiz até que essa emenda foi aceita pela VeriSign (na época chamada Network Solutions, Inc.).
A VeriSign foi pressionada a abdicar dessa autoridade para proteger-se de uma ação legal antitruste da empresa
Name.Space Inc, que tentava inserir novos domínios de primeiro nível na raiz.
50 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

oculto que publica o arquivo de zona raiz siva por um único governo, portanto, não
oficial para os servidores raiz da Internet. tem legitimidade e cria um contínuo con-
A Verisign também opera o servidor raiz flito político, bem como riscos de frag-
primário “A” sob este mesmo acordo.48 mentação.
O acordo é importante por duas razões:
1) foi o instrumento pelo qual o governo Os EUA são inconsistentes quando aler-
dos EUA obteve e continua a exercer sua tam sobre “intervenção governamental”
autoridade no controle da raiz;49 e 2) na Internet enquanto reservam para seu
compeliu a Verisign a ater-se aos regula- governo poderes especiais e exclusivos.
mentos do regime da ICANN sobre regis- O papel dos EUA é uma provocação para
tradoras (“registries”) e revendedoras de outros governos, encorajando-os a bus-
domínios (“registrars”). car direitos soberanos iguais na super-
visão sobre a ICANN. Esta tensão entre
governos causa instabilidade. Já pro-
Uma breve crítica duziu ao longo de todos esses anos uma
politização crescente da ICANN e de suas
do unilateralismo funções. Sistemas raiz alternativos tais
dos EUA como o ORSN na Europa já são formados
para contrapor-se à autoridade dos EUA

A
s descrições acima revelam uma sobre a zona raiz.
extensa gama de funções de
supervisão sobre os nomes e É um mito que a supervisão dos EUA é
números da Internet nas mãos exclusi- completamente neutra e intrinsecametne
vamente do governo dos EUA. Não é sur- inofensiva. A supervisão dos EUA nada
presa que essa situação tenha criado con- acrescenta à segurança técnica do sistema
trovérsia. e ainda apresenta oportunidades signifi-
cativas para uso indevido. O poder dessa
Os argumentos contra a perpetuação do supervisão não é transparente. Negocia-
atual sistema de controle unilateral são ções com a ICANN e a Verisign relaciona-
abundantes. A Internet é global, não na- das a seus acordos respectivos são feitas
cional. Seu valor é criado pela partici- em privado. As decisões do DoC sobre al-
pação e cooperação das pessoas em todo terar qualquer coisa no MoU não seguem
o mundo. O controle da raiz pelos EUA um processo predefinido e não têm ne-
existe há apenas sete anos, metade do nhum limite exceto os objetivos políticos
período em que se deu o crescimento pú- do poder executivo dos EUA no momento.
blico e a comercialização da Internet. En-
quanto os cientistas de computação dos Não nos enganemos: o conteúdo do MoU
EUA inventaram os protocolos TCP/IP há reflete os objetivos de política dos EUA
muito tempo, o uso e administração dos sobre assuntos críticos como privacidade,
mesmos tornou-se global, e os usuários competição e propriedade intelectual. Os
dos EUA são agora uma minoria. A posse EUA até se envolveram em regulamenta-
de uma autoridade de supervisão exclu- ção de conteúdo. Pressionado pelo lobby
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 51
de grupos domésticos religiosos próximos concordem em acrescentar itens no MoU
à administração Bush, o DoC interveio na que reflitam um consenso de política
ICANN para postergar a autorização para internacional. Ou ele poderia dar pas-
criar o domínio de primeiro nível .xxx, sos para regularizar e internacionalizar
relacionado a conteúdo para adultos. So- o processo do MoU, por exemplo solici-
bre questões como segurança e vigilância, tando um Pedido de Comentário (RFC)
qualquer alegação de neutralidade dos internacional, aceitando respostas de
EUA não tem credibilidade, porque seria governos, setor privado e sociedade civ-
impossível para os EUA não levarem em il, e então modificando o MoU com base
conta seus interesses especiais. em um consenso básico e talvez consid-
erações políticas. Este RFC poderia ser
Finalmente, o regime da ICANN clara- acompanhado por um processo de diálogo
mente favorece os interesses econômi- global para coletar opiniões e idéias sobre
cos baseados nos EUA. A redelegação do o MoU.
domínio .org à Internet Society (ISOC)
e a redelegação do domínio .net à Veri- Outra possibilidade é que o governo dos
sign são os exemplos mais óbvios. A EUA possa simplesmente deixar o MoU
ICANN tende a mover-se muito devagar expirar quando certas condições forem
em quaisquer mudanças que abririam o alcançadas. Isto poderia permitir que a
DNS a novos entrantes não ocidentais, tal ICANN operasse com menor supervisão
como no caso dos domínios de primeiro externa. Os EUA ainda manteriam autori-
nível multilingues. dade sobre as modificações do arquivo de
zona raiz, mas prioridades de políticas e
resultados seriam mais coordenados pelos
É possível a próprios procedimentos de auto-gover-
nança da ICANN. Privatização e interna-
mudança? cionalização da administração do DNS
eram as metas originais da política dos

R
evisemos agora cada um dos me- EUA. O Departamento de Comércio dos
canismos atuais de supervisão e EUA (DoC) declarou que deixaria o MoU
discutamos as possibilidades de expirar quando concluisse que a ICANN
mudança. chegou à maturidade como organização e
com um registro adequado de resultados.
Alteração do MoU A própria ICANN apoiaria essa mudança.
A expiração do MoU poderia reforçar a
da ICANN legitimidade internacional da ICANN e

S eria relativamente fácil para os EUA


alterar o MoU da ICANN. De fato, o
conteúdo do MoU foi modificado substan-
removeria uma forma de supervisão que
dificulta sua atuação. A VeriSign pode-
ria não gostar dessa mudança mas teria
cialmente sempre que foi renovado – seis dificuldade em arregimentar apoio políti-
vezes no total. É possível, com base em co para sua posição nos EUA se o DoC e a
acordos oriundos da CMSI, que os EUA ICANN concordassem com a expiração.
52 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Mudança no Alteração da autoridade


contrato da IANA de políticas dos EUA sobre
a raiz
E m termos práticos, é perfeitamente
viável separar da ICANN as funções
da IANA. De fato, ao longo dos anos mui-
tos grupos de interesse vêm reclamando
da ineficiência da ICANN em realizar
O governo dos EUA deixou claro que
não quer abandonar sua autoridade de
políticas sobre a raiz do DNS. Isso foi feito
as funções da IANA e têm encorajado os apesar de que o relatório do GTGI identi-
EUA a contratar outra entidade. Mas sem ficou essa situação como um problema e
o controle direto das funções da IANA, muitos outros governos, incluindo a União
a ICANN perdeira ou enfraqueceria seu Européia, indicaram que estão em desa-
status como o espaço onde os processos cordo com essa situação. OS EUA afirmam
de formação de políticas sobre nomes e que sua posição é requerida para proteger
números são realizados. a “estabilidade e segurança da Internet.”
Mas isso é claramente retórica política,
Se as funções da IANA fossem transfe- já que todos querem manter a “estabili-
ridas a outra organização, esta teria que dade” da Internet. A supervisão dos EUA
concordar em aceitar e implementar pas- em nada contribui para a segurança e es-
sivamente todas as decisões da ICANN, tabilidade técnica do DNS; a segurança
ou o papel de execução de politicas da real advém da natureza distribuída do
ICANN perderia o sentido. Sem um tal DNS, da independência e expertise técnica
acordo, a maioria dos participantes aban- dos operadores dos servidores raiz, e de
donaria a ICANN, deixando-a sem poder implementações de padrões técnicos tais
e sem financiamento. Mesmo se uma nova como o DNSSec. No entanto, a adminis-
IANA concordasse em implementar todas tração Bush recentemente obteve cartas
as políticas da ICANN, a influência desta de apoio das duas casas do Congresso para
seria indireta e seu poder sobre a Internet sua posição.
seria reduzido. Como o principal apoiador
da ICANN, o governo dos EUA não quer Entre os interesses de negócios oci-
separar as funções da ICANN e da IANA. dentais, há uma percepção que entregar
É por isso que o governo dos EUA flexi- o controle unilateral pode criar riscos
biliza suas próprias regras para oferecer políticos ao ceder o controle a processos
o contrato da IANA como não competi- políticos internacionais imprevisíveis.
tivo. Mas não se descarta que os EUA abra A mudança na autoridade dos EUA pode
o contrato da IANA à competição desde envolver problemas legais e políticos. O
que retenha o controle sobre a função da poder executivo pode ser impedido de
IANA. Nenhuma declaração de política ceder essa autoridade sem aprovação do
dos EUA impede isso. Congresso. Essa aprovação pelo Con-

50- http://www.icann.org/tlds/agreements/verisign/proposed-agreements.htm
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 53
gresso teria que ser resultado de um pro- ecução da autoridade de política dos EUA
cesso político intenso sujeito ao lobby de sobre a raiz (governo dos EUA, ICANN e
interesses especiais. A opinião de grupos Verisign) reforçam os controles mútuos.
de interesse internacionais não estaria De fato, sua propensão a trabalhar juntos
representada nesse processo, somente foi provavelmente reforçada pela ameaça
interesses dos EUA. É de se esperar que da CMSI. Se mudanças ocorrerem nesse
a Verisign também se oporia a qualquer arranjo, dificilmente serão motivadas por
mudança neste caso, porque ela é muito pressões externas.
mais influente no contexto da política
dos EUA do que no âmbito global, e sua Em resumo, três dos quatro instrumen-
proeminência na indústria de nomes de tos – a afirmação dos EUA como auto-
domínio ficaria mais vulnerável se a su- ridade de políticas, o contrato da IANA
pervisão fosse internacionalizada. Esta e o acordo de Cooperação com a Verisign
combinação de forças políticas e legais – constituem um conjunto de arranjos
torna muito difícil qualquer mudança contratuais precisos e inderdependentes,
imediata neste campo. difíceis de remover sem mudanças sig-
nificativas nas forças políticas. O MoU,
Alteração do Acordo de por outro lado, é um documento flexível e
facilmente alterável, e poderia ser deixado
Cooperação com a Verisign como está até expirar.

O acordo de cooperação com a Veri-


sign pode também ser alterado, e
já o foi várias vezes. No entanto, como
O caminho para avançar
um contrato de governo entre os EUA e
uma empresa privada baseada nos EUA,
ele pode e provavelmente deve refletir a
política doméstica e cálculos de interesse
A análise acima mostrou que, se de-
vem haver mudanças imediatas, es-
tas devem passar pelo MoU da ICANN.
doméstico bastante estreitos. Tem sido O processo de formulação e alteração do
sempre um objetivo de política dos EUA MoU oferece o melhor ponto focal para
realizar a transição das funções chaves de mudar o status quo. Se nos concentrar-
coordenação do negócio privado domi- mos no MoU, apresentam-se duas op-
nante que já controlou a raiz (Verisign) ções básicas:
para a ICANN, sua entidade escolhida
como a autoridade de governança. O 1. conduzir o MoU da ICANN para um
acordo recente (24 de outubro de 2005) processo mais internacionalizado; ou
entre a ICANN e a Verisign começa a 2. preparar o fim do MoU para reduzir
mover a administração da zona raiz nessa a supervisão unilateral dos EUA.
direção, como uma compensação por en-
tregar à Verisign a concessão perpétua dos Estas duas opções são frequentemente
domínios .net e .com.50 Isto revela como chamadas de “status quo mais” (1) e “sta-
os principais interesses envolvidos na ex- tus quo menos” (2).
54 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

das aos EUA como recomendações. Outra


Internacionalização do MoU possibilidade menos desejável é modi-
ficar o MoU para que a própria ICANN

J á que não há mecanismos viáveis


atualmente para a supervisão in-
ternacionalizada da ICANN, a supervisão
tenha a obrigação de iniciar um processo
determinando um método para interna-
cionalizar ou privatizar a autoridade de
política sobre a ICANN precisa estar con- políticas sobre a raiz, tal como o MoU de
templada no MoU. O MoU poderia incor- 2003 requeria que a ICANN desenvolves-
porar contribuições internacionais, em se uma estratégia e política para criar no-
vários níveis. Em um extremo, seu con- vos nomes de domínio de primeiro nível.
teúdo poderia tornar-se a base de nego-
ciação entre múltiplos governos. No outro Expiração do MoU: confiar
extremo, poderia ser formalizado um pro-
cesso pelo qual os grupos de interesse in-
em uma governança
ternacionais, não só governos mas tam- pluralista da ICANN
bém a sociedade civil e o setor privado,
ofereçam recomendações aos EUA sobre
como alterar o MoU. Em qualquer caso,
a atenção internacional deveria estar
O utra maneira de lidar com o problema
da supervisão unilateral dos EUA é
eliminar tanto quanto possível o papel es-
concentrada na expiração do MoU atual pecial deste país. Esta abordagem desafia
em setembro de 2006, e esses grupos a necessidade de supervisão política por
deveriam iniciar a formulação de reco- parte dos governos, afirmando que uma
mendações sobre como o MoU deveria ICANN adequadamente implementada,
ser modificado. incorporando contribuições de todos os
grupos de interesse como iguais, é sufi-
O relatório do GTGI propôs a criação de ciente para a administração dos identifi-
um novo fórum pluralista para a discussão cadores da Internet, incluindo funções de
de políticas globais. Este seria um fórum políticas públicas.
desburocratizado de discussão com par-
ticipação igualitária de todos os grupos Esta alternativa também oferece uma
e setores interessados em assuntos de gama de opções de implementação. A
política global sobre a Internet. Vários mais simples e mais extrema seria que
críticos têm argumentado de maneira os EUA deixasse o MoU expirar em 2006,
convincente que, sem objetivos mais declarasse a ICANN “pronta” e sair de
precisos, o fórum proposto pode ser per- cena. Praticamente ninguém, talvez com
cebido como irrelevante e não conseguir exceção dos executivos da ICANN, quer
atrair participação e apoio. que isso aconteça. Há muitos vícios e
irregularidades na maneira em que a
Um propósito imediato para esse novo ICANN está organizada. E os EUA ainda
fórum poderia ser desenvolver orienta- reteriam autoridade de políticas sobre
ções de políticas a serem incorporadas ao as alterações no arquivo de zona raiz e os
novo MoU, as quais poderiam ser ofereci- contratos da IANA.
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 55
Um caminho mais inteligente para avan- acordo de país-sede, têm que obedecer
çar é que o governo dos EUA, em consulta a requerimentos de políticas públicas
ativa com todos os grupos de interesse negociados por tratados internacio-
internacionais, insira um conjunto de nais em relação a, entre outros, trata-
condições no MoU da ICANN que a pre- dos de direitos humanos, direitos de
pararia para livrar-se da supervisão dos privacidade, acordos sobre gênero e
EUA. Assim que as condições do MoU fos- regras de comércio.
sem satisfeitas, este poderia expirar e não
seria substituido por nenhuma organiza- A expiração do MoU sob essas condições
ção governamental específica de super- não eliminaria a autoridade de política
visão. A responsabilidade da ICANN em dos EUA sobre a raiz. Nossas objeções à
vez disso seria perante as leis aplicáveis autoridade dos EUA permanecem. Mas as
e em relação a compromissos com as mudanças recomendadas acima desna-
melhoras no processo e na ampliação da cionalizariam a parte mais “política” da
representação pluralista na entidade. supervisão dos EUA. Se não estiver com-
binada com o poder de guiar e dirigir as
Esta posição corresponde aproximada- políticas e administração da ICANN, a
mente ao modelo 2 do relatório do GTGI. autoridade dos EUA sobre a raiz poderia
Um desenvolvimento mais elaborado e tornar-se menos importante.
cuidadosamente estudado dessa idéia foi
apresentado pelo Caucus da Sociedade
Civil sobre Governança da Internet (CGI), Análise das opções
como condição para a expiração do MoU:
opção 1: o mou é internacio-
• A ICANN precisa assegurar partici- nalizado (status quo mais)
pação pluralista plena e igualitária em
seu Conselho. Os benefícios e riscos desta opção depen-
• A ICANN precisa assegurar que esta- dem dos métodos específicos usados para
belece regras e procedimentos claros, introduzir contribuições internacionais
transparentes e previsíveis para seu no MoU. Como já notamos, acordos entre
processo administrativo de tomada de grupos de governos nacionais não neces-
decisões. sariamente refletem o interesse público
• A ICANN precisa ser sujeita a audito- global. Alterações no MoU por vários
ria independente de suas finanças. governos com interesses conflitantes
• É necessário criar um processo de aumenta o risco que a administração de
apelação extraordinário das decisões nomes e números da Internet acabe so-
da ICANN. brecarregada por determinações políticas
• A ICANN precisa negociar um acordo intrusivas, contraditórias e ineficientes.
de país-sede apropriado que a torne Muitos dos governos estão interessados
livre de políticas nacionais inadequa- em promover a soberania nacional, o que
das dos EUA via de regra se traduz em mais controle e
• As decisões da ICANN, e qualquer regulação sobre a Internet global.
56 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Por outro lado, se a internacionalização do torções da ICANN poderiam tornar-se


MoU fosse baseada no novo fórum plu- permanentes. Se mecanismos de con-
ralista proposto pelo relatório do GTGI trole apropriados não existirem, as taxas
para desenvolver recomendações, isso e autoridade regulatória da ICANN sobre
poderia evitar muitos dos riscos de uma a indústria de nomes de domínio pode-
regulamentação governamental excessi- riam resultar em abusos. Tentativas ante-
va. Mas o pluralismo pode facilmente não riores de submeter a ICANN a processos
chegar a consensos, e pode gerar dificul- autodefinidos de revisão independentes
dades adicionais para implementar de- acabaram sendo desastrosos. E, seja qual
mandas. E no longo prazo, esta opção for a transição, alguns governos poderão
ainda teria que recorrer ao governo dos nunca aceitar uma ICANN privatizada
EUA para implementar e supervisionar como legítima. Estas preocupações têm
diretamente o MoU. que ser levadas a sério.

Opção 2: o MoU expira


(status quo menos) Conclusão

N
A opção 2 minimiza a ameaça de um con- enhuma das duas opções é per-
trole centralizado governamental sobre a feita. Mas não podemos dar-nos
Internet; de todas as opções, é a que mais ao luxo de começar do zero. No
provavelmente evitará que a administra- geral, a opção 2 parece ser o caminho
ção de nomes e números seja afetada por mais desejável e factível politicamente,
uma destrutiva política governamental. A desde que sejam feitas sérias reformas
opção 2 é provavelmente a mais aceitável na ICANN. Isso requer em particular um
politicamente para o governo dos EUA e acordo de país-sede, reforma do processo
os interesses privados por essa razão. Se a de nomeação de membros do Conselho
ICANN fosse adequadamente reformada da ICANN, dos mecanismos de auditoria
antes de ser liberada do MoU – ênfase no e apelação e dos métodos de trabalho. Em
“se”–, esta opção preservaria e enfatizaria qualquer das opções, é fundamental apro-
o pluralismo na governança dos identifi- fundar o uso de tecnologias de informação
cadores da Internet. e comunicação, bem como de ferramentas
de trabalho colaborativo à distância, para
Há, no entanto, aspectos ou riscos negati- facilitar a participação geograficamente
vos nesta proposta. De vez que ela requer distribuida nos processos deliberativos e
melhoras nos próprios processos inter- de tomada de decisões.
nos e procedimentos de representação
como contrapartida, esta opção seria dis- A maioria das objeções às mudanças
cutível. Quem monitoraria e fiscalizaria inspiradas pelo relatório do GTGI têm
essas regras? Quem decidiria quando as sido baseadas no receio do envolvimento
condições foram satisfeitas? Se isso não pesado de governos nas políticas relativas
é bem feito, o processo poderia levar a aos identificadores da Internet, ou em
um resultado ruim. Os atuais vícios e dis- preocupações sobre a natureza lenta e
cap 3 - supervisão política da icann: uma contribuição para a cmsi 57
restritiva dos processos governamentais.
Os próprios governos em geral concor-
dam que não deveriam envolver-se na
operação técnica cotidiana da adminis-
tração da Internet. Já que é difícil extrair
uma política pública a partir dos detalhes
técnicos da administração de nomes de
domínio e números IP, é melhor deixar a
política de identificadores para um pro-
cesso pluralista que capture a expertise e
o envolvimento direto do setor privado,
da comunidade técnica e da sociedade
civil. É importante lembrar que a meta
de supervisão política estrita é a respon-
sabilidade perante a comunidade global
de usuários e provedores Internet, não
a sujeição a governos em si. Melhorar a
ICANN e eliminar a supervisão unilateral
é portanto o caminho mais lógico para a
reforma da supervisão política que o en-
volvimento multilateral de governos.
4 Introdução 52

“Ó, Governos do Mundo Industrial,


esgotados gigantes de carne e aço, eu
venho do ciberespaço, a nova morada
da mente. Em nome do futuro, eu peço
a vocês do passado que nos deixem
A governança em paz. Vocês não são bem-vindos

da Internet: entre nós. Vocês não têm soberania


onde nos reunimos.” [...] ”Declaro

O controle do que o espaço social global que es-


tamos construindo é naturalmente
namespace no independente das tiranias que vocês
ciberespaço querem nos impor. Vocês não têm o
direito moral de nos impingir regras
nem possuem quaisquer métodos para
Marcelo Sávio, Henrique Luiz
Cukierman e Ivan da Costa fazê-las valer de modo que tenhamos
Marques51
razões verdadeiras para temer estes
métodos.” [...] ”Governos derivam
seus verdadeiros poderes a partir do
consentimento dos governados. Vocês

51- Marcelo Sávio é mestrando do Programa de


Engenharia de Sistemas e Computação da COPPE/UFRJ;
Henrique Luiz Cukierman é Professor Adjunto do
Programa de Engenharia de Sistemas e Computação
da COPPE/UFRJ; Ivan da Costa Marques é Professor
Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Informática
do NCE - Núcleo de Computação Eletrônica/DCC/IM
- Departamento de Ciência da Computação
do Instituto de Matemática da UFRJ.
52- Este estudo acompanha a construção da
governança da Internet até dezembro de 2004.
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 59
nunca solicitaram nem receberam aumentaríamos nossa liberdade como ci-
dadãos e consumidores.
nosso consentimento. Nós não con-
vidamos vocês. Vocês não nos conhe- LESSIG (1999) refuta54 esta visão como
“tão ingênua quanto incompleta” sob o
cem, nem conhecem o nosso mundo. argumento de que, nas descrições do ar-
cabouço político e legal do ciberespaço,
O ciberespaço não se situa dentro de devemos analisar a importância e o pa-
suas fronteiras. Não pensem que po- pel do “código”, formado por todos os
elementos de hardware e software usados
dem construí-lo como se fosse um pro- na construção da realidade virtual do ci-
berespaço, pois é ali que se restringirá e
jeto de construção pública. Vocês não moldará o comportamento dos usuários
podem. É um ato da natureza e cresce da Internet, muito mais do que as leis que
governos possam criar. As leis são criadas
através de nossas ações coletivas.” e promulgadas pelos legislativos das nos-
sas sociedades, enquanto o código que
restringe nosso comportamento embute
os ideais, valores e filosofias dos seus cri-

A
manifestação acima, que faz parte adores ou, mais provavelmente, dos em-
da “Declaração de Independên- pregadores destes (STANTON, 2002).
cia do Ciberespaço53 (BARLOW,
1996), representou (e talvez ainda repre- A Internet sempre teve lei porque sempre
sente) o pensamento predominante, entre teve códigos embutidos em sua arquite-
os usuários da Internet, acerca das limita- tura de hardware e software. Isso talvez
ções do alcance governamental sobre este tenha passado despercebido pela maioria
bravo mundo novo. Há um sentimento en- de nós durante a maior parte do tempo
tre esses usuários de que não seria apro- porque, no fundo, a rede pouco nos afeta-
priada a interferência no funcionamento va como cidadãos. À medida que essa rede
da Internet por parte de nenhum governo, tornou-se importante para a sociedade e
que a própria arquitetura do ciberespaço sua utilização cada vez mais dominada
seria politicamente neutra e dificultaria pelo comércio eletrônico (com o supor-
a sua manipulação por interesses especí- te dos governos), uma nova arquitetura
ficos e que, com a expansão do comércio construiu-se sobre a anterior, não apenas
eletrônico e a transferência para a Internet tornando esse ciberespaço menos livre
de boa parte do nosso discurso público, como também criando condições para
53- Proclamada em Davos, Suíça, e publicada na revista Wired em fevereiro de 1996, esta declaração foi uma res-
posta à promulgação da Lei de Reforma das Telecomunicações nos EUA (Telecom Reform Act). Foi criada por John
Perry Barlow, ativista norte- americano de ciberdireitos, co-fundador da EFF (Electronic Frontier Foundation),
professor da Harvard Law School’s Berkman Center for Internet and Society e ex-letrista da banda de rock Grateful
Dead. Veja uma tradução da declaração completa em http://www.dhnet.org.br/ciber/textos/barlow.htm
54- Barlow respondeu, em entrevista à revista Wired (24/08/1998), dizendo: “No final das contas, Larry [Lessig]
quer criar um ciberespaço seguro para a lei. Eu quero manter a lei fora do ciberespaço” – www.wired.com/news/
politics/0,1283,14589,00.html
60 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

que a vida de seus “cibercidadãos” fosse Não existe uma definição consensual do
passível de regulação e controles jamais que seja “Governança da Internet”56,
vistos anteriormente. ainda que esta possa ser entendida
como uma ação coletiva de governos e
O ciberespaço vem sendo construído de entidades privadas com o objetivo de
forma inseparável de seu contexto. “Sua na- estabelecer acordos sobre regras, pro-
tureza não é dada. Sua natureza é o seu código, cedimentos, padrões, sanções e políticas
e seu código está mudando de uma posição que aplicáveis a todas as atividades globais
desabilitava o controle para uma outra que per- que afetem ou sejam afetadas pela In-
mitirá um tipo extraordinário de controle. É o ternet. A rigor, a governança envolve di-
comércio que está fazendo com que isso ocorra; versos assuntos, como segurança, priva-
e o governo irá ajudar. Antes que isso aconteça, cidade, controle de conteúdo, liberdade
deveríamos decidir se é assim que queremos que de expressão, tributação, direito autoral,
sejam as coisas” (LESSIG, 1999). propriedade intelectual, regulamentação
de telecomunicações, políticas de com-
A arquitetura (em transformação) do ci- petição, inclusão digital, universalização
berespaço delimitará poderes, segundo de acesso e a coordenação e padronização
valores implícitos, sejam eles de controle técnica da Internet.
ou de liberdade. Tudo vai depender das
decisões políticas que estabelecerão sua Certamente nenhum desses assuntos é
arquitetura, assim como acontece com novo, ainda que a questão da governança,
a elaboração de constituição do mundo em si, seja um fenômeno recente e em
real, que “pode ser entendida como uma busca de definição, passando obrigatoria-
arquitetura que estrutura e delimita o poder mente por uma discussão carregada de
social e legal, protegendo os valores funda- aspectos legais e técnicos que, no fundo,
mentais” (LESSIG, 1999). se misturam como um tecido inconsútil.
Tomemos como exemplo apenas um
dos assuntos da governança da Inter-
Uma questão net, aquele relativo à sua coordenação e
padronização técnica e, mais especifi-
de governança camente, àquilo que diz respeito a sua
“A tarefa de governar a Internet pode forma de endereçamento ou, mais pre-
cisamente, ao mapeamento que acontece
ser comparada à de conduzir um re- entre nomes e endereços numéricos de
todas as entidades da rede. Para que a
banho de gatos.” Internet seja uma rede global, seu código
Thom Stark55, jornalista exige a existência de um espaço público
55- www.starkrealities.com/iahc.html
56- Este termo também é freqüentemente usado no mundo dos negócios (“governança corporativa”), abrangen-
do os assuntos relativos ao poder de controle e direção de uma empresa, bem como as diferentes formas e esferas
de seu exercício - www.ibgc.org.br. Como isso se aplica a uma unidade mais simples, uma empresa ou corporação,
e a Internet se refere mais propriamente a milhares de organizações interconectadas, essa definição não deve ser
aqui aplicada.
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 61
e exclusivo para os nomes, ou seja, um de comunicação, baseado no protocolo
namespace único. TCP/IP57, é que faz parte do conhecimen-
to geral das pessoas sobre a Internet, e
A construção e o controle do namespace, dele partem os argumentos acerca de sua
descritos a seguir, mostrará que as mu- “ingovernabilidade” (KLEIN, 2002)
danças tecnológicas são escolhas técni-
cas vinculadas às escolhas políticas e aos De forma contrastante, o sistema de
valores socialmente constituídos, em que endereçamento é centralizado. Toda a
a tecnologia suporta (e é suportada por) Internet depende de um único sistema. A
discursos e passa a ser representada como opção dita “técnica” foi por uma arquite-
um produto de interações complexas en- tura tal que o sistema de endereçamento
tre cientistas e engenheiros, agências depende de uma espécie de lista telefôni-
de financiamento, políticas de governo, ca, a qual qualquer computador precisa
ideologias e enquadramentos culturais consultar antes de enviar dados e na qual
(EDWARDS, 1996). qualquer computador precisa constar,
se quiser receber dados de outros. Esse
sistema chama-se Domain Name System
A arquitetura (DNS) e é o responsável pela tradução
do namespace de nomes em endereços numéricos (e
vice-versa). No coração do DNS está o
namespace, em cujos registros existem
“Primeiro nós moldamos nossas es- milhões de entradas. A remoção de uma
entrada nessa lista significa a expulsão de
truturas, depois elas nos moldam.” um computador da Internet.
sir. winston churchill (1874-1965)
O controle sobre o banco de dados do
namespace significa efetivamente o con-
A Internet, de maneira simplificada, con- trole sobre a Internet. Segundo a maneira
siste em dois sistemas: um para comu- como foi projetado, o namespace obedece
nicação e outro para endereçamento. A a alguns princípios, como o da unici-
comunicação é a própria Internet como a dade e da administração centralizada em
conhecemos, ou seja, uma rede altamente uma única entidade. Só pode existir um
descentralizada – tanto que não chega se- banco de dados que constitua a lista de-
quer a ser um “sistema”, mas um conjun- finitiva dos computadores da Internet.
to de protocolos de comunicação através Cópias podem existir, mas namespaces
dos quais inúmeras redes independen- independentes, não. Na teoria, todos os
tes de computadores enviam e recebem pares “número-nome“ poderiam residir
pacotes de dados entre si, por múltiplos em um único banco de dados, mas este
caminhos. Esse modelo descentralizado seria imediatamente (e irremediavel-

57- Na verdade, TCP/IP é um conjunto de protocolos de comunicação da Internet cuja sigla representa os dois
mais importantes: Transmission Control Protocol e Internet Protocol
62 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

mente) sobrecarregado com miríades de No sistema DNS, cada subpirâmide (ou


consultas simultâneas por segundo. Na subárvore) dentro da estrutura principal
prática, o namespace é um banco de da- é chamada de domínio e é composta de
dos distribuído que funciona através de uma zona e todas as suas zonas hierar-
vários servidores ligados em rede, admi- quicamente inferiores. Os domínios são
nistrados de forma independente, porém referenciados conforme seus níveis. Por
vinculados a uma estrutura hierárquica exemplo, os do nível imediatamente in-
comum. O namespace é uma coleção de ferior à zona raiz são chamados Domínios
bancos de dados parciais, chamados de Primeiro Nível, ou Top-Level Domains
“zonas”, que funcionam em computa- (TLDs). Os do segundo nível são chama-
dores separados e espalhados na rede. dos de Second Level Domains (SLDs),
Cada zona está associada a um servidor e assim sucessivamente, sendo que o
de nomes (name server, um software para domínio da zona raiz constitui o próprio
resolução de nomes) e a um computador namespace.
hospedeiro (host computer, que hospeda a
zona e seu servidor de nomes). Existem dois tipos de TLDs: os genéricos
(generic TLDs ou gTLDs), que possuem
Como acontece em qualquer banco de três ou mais letras (.com, .org, .edu, .gov,
dados distribuído, as relações entre as .name, .museum, .coop etc. ) e os de có-
partes devem ser cuidadosamente estru- digos de países (country code TLDs ou
turadas. No caso do endereçamento da ccTLDs), que possuem sempre duas le-
Internet, as diferentes zonas são ligadas tras relativas a cada país (.br, .us,.fr, .ca,.
umas às outras através de uma estrutura uk, etc.).
hierárquica piramidal (ou de uma árvore
invertida), onde no topo está apenas uma A hierarquia distribuída define uma rela-
zona, chamada zona raiz, que está ligada ção de controle top-down em que qualquer
simultaneamente a múltiplas zonas do zona pode ser alterada em relação às de-
primeiro nível (aquele que fica imediata- mais zonas inferiores. Por exemplo, se a
mente abaixo da raiz). Cada uma destas ligação de uma zona inferior for desligada
zonas do primeiro nível, por sua vez, está pela superior, os computadores listados
ligada a outras zonas no segundo nível, e debaixo da zona desligada desaparecerão
assim sucessivamente. Cada zona pode se do namespace. Esse é o poder da vida e
ligar a múltiplas zonas inferiores, mas so- morte no ciberespaço. Cada domínio
mente poderá se ligar a uma zona superior possui sua própria administração, o que
– ou seja: direta ou indiretamente, todas caracteriza o DNS como um sistema de
as zonas se ligam a uma única zona raiz. hierarquia multiorganizacional em cujo
Essa forma tecnológica de construção da topo está o administrador da zona raiz.
unicidade da Internet é que sustenta a Cada administrador exerce o monopólio
centralização do DNS, que apesar de ser do controle sobre sua zona e tem auto-
apenas uma opção dita “técnica” provoca ridade sobre todos os domínios debaixo
enormes conseqüências políticas, sociais dela. Por exemplo, quando o administra-
e econômicas, como veremos adiante. dor de um domínio quiser registrar um
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 63
computador em um nível inferior, basta Como cada um dos níveis percorridos
delegar sua autoridade ao administra- nesse processo é referenciado como um
dor desse nível, que por sua vez exerce o domínio, o nome completo de cada má-
monopólio do controle sobre essa zona. quina específica é chamado “nome de
A autoridade flui pela estrutura, desde o domínio” e vem separado por pontos
administrador da zona raiz, responsável referentes a cada domínio percorrido
por todo namespace, até um computador – por exemplo, www.cos.ufrj.br .
individual na zona mais inferior. Cada
administrador está sujeito às políticas da
entidade do nível superior ao seu e, em A construção do DNS
última instância, às políticas da zona raiz
que, desta forma, se aplicam direta ou in- “No início, não havia motivação
diretamente a todos os administradores
do DNS. comercial…”

D
omínios como, por exemplo, o dr. david mills, pioneiro da internet
ufrj.br têm autoridade sobre todos
os subdomínios inferiores, como,

J
por exemplo, o cos.ufrj.br, as chamadas á foi observado que a evolução do
zonas. A autoridade existe sempre no nível DNS tem sido marcada pela atu-
das zonas. A delegação é o processo no ação de técnicos, empresários e
qual alguém ganha autoridade sobre uma políticos e pelo fato de que cada um desses
determinada zona. A UFRJ, por exemplo, atores comumente desempenhou papéis
delega a autoridade sobre zona .cos (in- dos outros, recíproca e simultaneamente
dicando COppe Sistemas) ao Programa (ABBATE, 2000).
de Engenharia de Sistemas e Computação
(PESC) da COPPE. Quando a ARPANET, precursora da In-
ternet, começou a funcionar, no final de
root zone 1969, o centro de informações da rede
– ARPA Network Information Center (AR-
tdls PANIC) – funcionava no Stanford Re-
search Institute (SRI), sob a coordenação
br fr ... com org edu de Douglas Engelbart58. O DNS ainda não
existia e a rede era pequena o suficiente
para que todos os usuários conhecessem
Figura 1 os endereços numéricos de todas as má-
com ufrj Estrutura dos
nomes de domínio quinas, o que permitia a interação direta,
dos servidores COS. sem a necessidade de uma estrutura de
cos diretório global.

mail www À medida que a rede começou a se expan-


dir, tornou-se aparente que um serviço
64 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

desse tipo seria importante, mas em 1971 do em distribuição de arquivos, tenha


uma outra idéia mais simples foi adota- problemas em relação à escala, foi ele
da: a utilização de nomes mnemônicos, que perdurou por quase quinze anos61.
chamados hostnames, para referenciar os Observe-se que o ARPANIC era um “cen-
endereços numéricos das máquinas. Esta tro” mas não tinha uma relação forte de
idéia foi proposta inicialmente, através poder centralizado com a periferia, a
da RFC59 206, por Jim White, da Universi- ponto de excluir instantaneamente, exe-
ty of California at Santa Barbara (UCSB), e cutar de forma imediata e efetiva a expul-
posteriormente, de forma mais completa, são de um computador da Internet, pois
através da RFC 226, por Peggy Karp, do em diversos pontos podiam ser mantidas
MITRE60, até que finalmente, através da cópias das listas antigas da ARPANIC.
RFC 236, Jonathan Postel, estudante de

E
graduação da University of California at m 1981, David Mills, então en-
Los Angeles (UCLA), modificou a tabela de genheiro da COMSAT62 publicou,
Karp e propôs uma padronização no pro- na RFC 799, o DNS (Domain Name
cesso de atribuição de hostnames através System), um novo sistema de nomes
do ARPANIC. de domínio para a Internet, que per-
mitia acompanhar, de forma dinâmi-
A idéia básica consistia em manter um ca, o crescimento da rede e facilitar o
arquivo, em forma de texto simples, que endereçamento de milhares de máqui-
mapeasse todos os recursos disponíveis na nas. No ano seguinte, a RFC 819 foi es-
rede através de uma tabela de hostnames e crita por Zaw-Sing Su (Stanford Research
seus respectivos endereços numéricos. Institute) e Jonathan Postel, agora no In-
Esse arquivo, chamado de HOSTS.TXT, formation Sciences Institute (ISI) da Uni-
era carregado pelos operadores em cada versity of Southern California (USC). Essa
uma das máquinas e, conforme novas má- nova RFC, baseada no trabalho original
quinas entrassem na rede ou mudassem de de Mills, definiu a arquitetura geral do
nome ou endereço, o ARPANIC deveria DNS. Em 1983, Paul Mockapetris (ISI/
ser avisado para que uma nova versão do USC), escreveu as RFCs 882 e 883, que
arquivo pudesse ser colocada à disposição definiram o sistema DNS e, mais im-
de todos. Ainda que este modelo, basea- portante, introduziram os conceitos de
58- Engelbart foi um dos principais pioneiros nos estudos de interface homem-computador. Mais informação sobre
seu trabalho pode ser encontrada em http://www.bootstrap.org/chronicle/chronicle.html
59- Request for Comments, ou “chamada para comentários”. São a base da documentação técnica da Internet, desde
os primórdios. Foram criadas por Steve Crocker, do Network Working Group (NWG), primeiro grupo de trabalho que
posteriormente deu origem ao Internet Engineering Task Force (IETF). As RFCs tornaram-se um padrão global no auxílio
ao desenvolvimento de softwares e protocolos da Internet: www.rfc-editor.org
60- MITRE Corporation foi criada em 1958, com o objetivo de criar tecnologia para o Departamento de Defesa dos
EUA, principalmente na área de Informática, como foi o caso do projeto SAGE (Semi-Automated Ground Environment).
Seus membros foram todos oriundos do Lincoln Laboratories do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
61- Até hoje, muitos computadores ainda possuem um arquivo HOSTS.TXT como forma alternativa ao uso do DNS.
62- A COMSAT Corporation foi criada pelo Communications Satellite Act, de 1962, por iniciativa do governo norte-
americano, e tornou-se uma companhia comercial pública em 1963. Sua missão era dar impulso ao desenvolvimento da
Intelsat, organização mundial responsável pela rede de satélites que hoje congrega 143 países membros. Em setembro
de 1999, foi adquirida pela Lockheed Martin Corporation e atualmente pertence majoritariamente à CIH (COMSAT
International Holdings LLC), antes chamada de World Data Consortium, com sede em Washington D.C.
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 65
autoridade e delegação sobre nomes de escolheu o SRI para gerenciar todos os
domínio. registros de domínios no DNS e escolheu
o ISI/USC para gerenciar e operar a raiz do
Em 1984, Jonathan Postel e Joyce Reynolds, sistema, através da recém criada Internet
ambos do ISI/USC, escreveram a RFC Assigned Numbers Authority (IANA65),
920, onde definiram os TLDs do DNS, coordenada por Jonathan Postel. No que
a saber: “.com”, “.net”, “.org”, “.edu”, tange à operação da Internet, embora
“.gov”, “.mil” e “.arpa”. O documento esta opção “técnica” reconfigurasse as
também planejou a criação dos ccTLDs relações de poder, a tomada de decisão
usando as duas letras definidas pelo então não foi estruturada como uma escolha
recente padrão ISO-3166 da ISO63 (In- “política”. Temos aqui um episódio de
ternational Organization for Standardiza- exemplar clareza mostrando que tanto o
tion). Os TLDs também estavam planeja- que entendemos como “técnico” quanto o
dos para as “multiorganizações” - grupos que chamamos de “político” se misturam
grandes que fossem compostos de outras indissociavelmente e são, portanto, pro-
organizações e que não pudessem ser priamente o que no campo dos Estudos
facilmente identificados como uma das de Ciência e Tecnologia é denominado
opções disponíveis. O conceito de TLD “sociotécnico”. A separação entre o
multiorganizacional hoje está presente no “técnico” e o “político” presta hoje um
TLD “.int” (instituição internacional). desserviço àqueles que procuram en-
tender como uma determinada forma,
As indicações são de que a implantação do uma ordem, adquire densidade e obdura
DNS na ARPANET, a partir de 1984, fez na Internet.
com que a Defense Communications Agency
(DCA64) tivesse a percepção dos efeitos Em 1991, entretanto, um novo contrato
ditos “políticos” da opção dita “técnica” entre uma nova empresa, a Government
de programar (implantar um código para) Systems Inc. (GSI66), e a DISA (a nova
um ponto de controle centralizado para denominação da Defense Communication
gerenciar a raiz do sistema (root), assim Agency) mudou o rumo da história do
como para delegar autoridades aos regis- DNS. Pelo novo contrato, a GSI passou
tradores nessa raiz. Tanto que, em 1987, a ser responsável pela administração e
63- Com exceção das duas letras referentes ao Reino Unido, que no padrão ISO são “.gb” e na RFC ficaram
definidas como “.uk”
64- A DCA foi criada em 1960, com a missão gerenciar o Defense Communications System (DCS), uma consolidação
dos sistemas de comunicação do exército, da marinha e da aeronáutica dos EUA, então independentes. Em 1975 o
controle da ARPANET foi passado para o DCA, que em 1983 a dividiu em duas partes: ARPANET (uma rede de 45
instituições civis) e MILNET (uma rede de 68 instituições militares), que por sua vez integrou-se à Defense Data
Network (DDN). Em 1991, a DCA passou a se chamar Defense Information Systems Agency (DISA) – www.disa.mil
65- www.iana.org
66- A GSI é uma organização que, embora formalmente seja constituída como uma empresa privada, está imbricada
pela prestação de serviços nos círculos íntimos (secretos) do governo dos EUA e entidades internacionais como a
OTAN, ligada à segurança militar dos americanos e seus aliados mais confiáveis. “GSI delivers international telecom-
munications, management information systems, ADP, and network-related services to the U.S. Government and
international organizations. With headquarters in Chantilly, Virginia, GSI has personnel and facilities in satellite
offices in Stuttgart, Germany; Oahu, Hawaii, and 24 other locations around the world. GSI offers NATO Top Secret
level access cleared offices, storage facilities, and personnel ready to perform classified work”. http://boa.nc3a.nato.
int/boa/7915/gsi_exha.pdf
66 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

manutenção dos registros de domínios e Até 1995, a política acadêmica que ainda
pela operação da raiz do sistema, mesmo regia o espaço de definição dos nomes
que a IANA ainda tivesse mantido a au- na Internet permitia que qualquer um
toridade para definir as políticas de uso pudesse solicitar ao InterNIC69 (operado
do sistema. A GSI, por sua vez, terceirizou pela NSI) que registrasse, gratuitamente,
essas operações para uma outra empre- qualquer nome disponível. Com o au-
sa, a Network Solutions Inc. (NSI)67. No mento da percepção geral de que estar no
ano seguinte, a NSI ganhou ainda mais ciberespaço era algo importante para as
importância ao assumir o contrato de empresas e pessoas, o número de pedidos
operação do InterNIC, o centro de opera- de registros de nomes aumentou con-
ções da consolidação das redes, que então sideravelmente, levando a NSI a cobrar
passou a ser chamada de Internet, sob o US$ 50 por esse serviço, o que gerou uma
patrocínio da National Science Founda- enorme reação por parte da comunidade
tion (NSF), que, com o término do apoio de usuários da Internet. Como tentativa
financeiro da DCA, assumiu a ARPANET de minimizar essas reações, parte deste
e integrou-a à sua rede NFSNET, cuja valor foi revertida em forma de taxa
operação do backbone estava a cargo da federal para manutenção da infra-es-
Merit Networks68. trutura da rede, o que, por sua vez, ger-
ou um embate legal, visto que qualquer
Esse pode ser considerado um momento taxa federal teria que ser previamente
marcante na história da Internet. A par- aprovada pelo Congresso. Complicando
tir de então, os primeiros acadêmicos e ainda mais, milhares de dólares advindos
cientistas que criaram o DNS estavam de outros países, ou seja, fora da jurisdição
fora do processo. Além disto, o “sistema norte-americana, entravam na conta da
nervoso central” da Internet estava to- NSI (RONY, 1998).
talmente nas mãos do governo ameri-
cano, mesmo que através de organiza- Esse conturbado período ficou conhe-
ções formais de direito privado. Essa cido como o das “batalhas do DNS”, cu-
nova fase coincidiu com o surgimento e jas frentes diziam respeito ao controle
a disseminação da World Wide Web, que sobre os serviços de registros de nomes
fez a Internet ganhar o mundo e ter uma e endereços, assim como outros elemen-
importância cada vez maior fora do meio tos de governança do ciberespaço. Todos
acadêmico. A Internet passou a ser co- os combatentes, fossem eles hackers da
mercial e seus usuários se transforma- “velha guarda”, empresas (monopolistas
ram em consumidores. ou não), políticos, juristas ou ativistas de
67- Em 1995, a NSI – www.nsi.com - foi vendida para a Science Applications International Corporation (SAIC)
– www.saic.com, tradicional fornecedora do Departamento de Defesa dos EUA, que posteriormente, em 2000,
a revendeu para a Verisign – www.verisign.com.
68- Michigan Educational Research Information Triad (MERIT) – www.merit.edu – organização criada em 1966,
formada pelas seguintes instituições: Michigan State University (MSU), University of Michigan (UM) e Wayne State
Univerisity (WSU). Em 1990, a MERIT se juntou à IBM e à MCI, formando o consórcio Advanced Network and Ser-
vices (ANS), que passou a ser o responsável pelo backbone da Internet. Em 1994, a ANS foi vendida para a América
On-Line (AOL) - www.advanced.org
69- www.internic.net
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 67
ciberdireitos, tinham posições e argu- iTLDs adicionais” (ISOC, 1996). Além
mentos variados e consistentes, ainda que da IANA e da ISOC, fizeram parte deste
não fosse possível identificar facilmente a comitê as seguintes instituições: Interna-
que grupo cada um pertencia exatamente, tional Telecommunications Union (ITU73),
pois os papéis eram circunstanciais e World Intellectual Property Organization
normalmente misturavam-se entre si. (WIPO74) e International Trademark
Association (INTA75). Entre os resul-
Uma posição comum para a maioria, tados apresentados, foram criados sete
entretanto, passava pela questão do novos TLDs — “.firm”,“.store”,“.web”,
monopólio da NSI sobre o sistema DNS, “.arts”,“.rec”,“.info” e “.nom” — e foi
sobre o qual estabelecia unilateralmente dada a largada para a criação do Council
regras de propriedade intelectual para of Registrars (CORE76), uma entidade que
a aprovação de domínios e resolução de congregaria todos os futuros registra-
disputas e ainda definia arbitrariamente dores de nomes de domínio.
preços de registro e manutenção de

O
domínios. plano — conhecido como Generic
Top-Level Domain Memorandum
A questão polemizou ainda mais quando of Understanding (gTLD-MoU77)
em 1996, Jonathan Postel (IANA) publi- — foi publicado em 1997 e expandiu os
cou a primeira70 versão do international conceitos originais de Postel. Os serviços
Top-Level Domains (iTLDs), na qual propôs de registro seriam efetuados pelo CORE,
uma competição aberta para o serviço de a disputa por nomes de domínio seria re-
registro de domínios, além de dar à sua solvida pela WIPO e todas as atividades
organização, a IANA, o arcabouço legal seriam suportadas pela ITU.
e financeiro necessários para suportar a
empreitada. Em seguida, a Internet Soci- Muitos perceberam o gTLD-MoU como
ety (ISOC71) aceitou a proposta de Postel uma proposta complexa e inviável. Outros
e, reconhecendo que ainda faltava muito criticaram o passo em direção a um novo
trabalho a ser feito, instituiu um co- modelo de governança com a participa-
mitê chamado Internet Ad Hoc Committee ção de organismos internacionais antigos
(IAHC72), com o objetivo de “investigar, e burocráticos. Uma outra opção surgiu
definir e resolver as questões relativas em 1997, com a criação do enhanced DNS
ao debate internacional sobre a proposta (eDNS), uma proposta alternativa78, sus-
de estabelecer registradores globais e tentada por alguns membros da “velha
70- Postel baseou-se nos trabalhos de outros pioneiros, entre eles Lawrence Landwebber (University of Wiscosin),
Randy Bush (IETF), Karl Denninger (MCSNET) e Brian Carpenter (CERN).
71- www.isoc.org
72-www.iahc.org
73-www.itu.int
74-www.wipo.int
75-www.inta.org
76-www.corenic.org
77-www.gtld-mou.org
78-De fato, várias alternativas ao DNS surgiram naquela época (uDNS, Name.Space, AusSRC etc). Algumas ainda
existem sob a forma de uma organização chamada Open Root Server Confederation (ORSC) – http://www.open-rsc.org
68 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

guarda”, e que chegou a ter sucesso por


algumas horas, quando um de seus fun- A secretaria iniciou os trabalhos imediata-
dadores, Eugene Kashpureff, em forma mente através de um pedido de Solicitação
de protesto, conseguiu alterar o sistema de Comentários (Request for Comments)
DNS do InterNIC e redirecionar todo o para “recolher informações do público em
tráfego de DNS da Internet para o seu relação às questões relativas ao modelo
sistema alternativo, o então recém criado atual de DNS, à criação de novos TLDs, à
AlterNIC. Por esta atitude, Kashpureff foi política para os registradores de domínios e
julgado e condenado à prisão79. à questão das marcas registradas” (RADER,
2001). Esse passo foi reconhecido como
Logo em seguida ao protesto de Kashpureff, importante por ter sido a primeira vez
em 17 julho de 1997, erros no software segui- que o governo dos EUA mostrara que es-
dos de erros no tratamento da situação por tava a par do problema do DNS e o que ele
parte dos profissionais da NSI provocaram representava para a Internet. Outro fato
uma falha80 nos arquivos mestres das zonas marcante foi o deslocamento do assunto
dos domínios “.com”, “.net” e “.org”, o que da área acadêmica (NSF) para o poder
deixou a Internet instável por mais de quatro executivo (Casa Branca e Departamento
horas, em todo o planeta. de Comércio).

Ambos os casos foram manchete de re-


vistas e jornais em todo o mundo, quase De volta ao discurso
todas questionando a fragilidade do pro-
cesso e o monopólio da NSI. O mundo fi-
do “mundo fechado”
cou sabendo que a Internet não era mais
infalível, contrariando o mito da rede “What I advocate is that we defend
criada para resistir a guerras e qualquer every place.”
tipo de falha que pudesse ocorrer em um
ponto central. Foi quando o então presi- gen. douglas McArthur, 1950
dente dos EUA, Bill Clinton, ordenou à
Secretaria de Comércio que entrasse em

O
ação e “cuidasse da privatização definitiva, trabalho anterior do IAHC, ou seja,
com aumento de competitividade, e que pro- o modelo gTLD-MoU, havia pro-
movesse a participação internacional no gredido muito pouco até esse mo-
sistema DNS” (RADER, 2001), como parte mento e terminou por enfraquecer-se,
da política de governo para o comércio pois a Câmara dos Deputados do Congres-
eletrônico global81. so dos EUA, que até então não se mani-

79-“AlterNIC founder arrested”, http://news.com.com/AlterNIC+founder+arrested/2100-1023_3-204904.html


80-“Partial failure of Internet root nameservers”, http://catless.ncl.ac.uk/Risks/19.25.html
81- “A Framework for Global Electronic Commerce”, julho de 97 – http://www.technology.gov/digeconomy/
framewrk.htm
82-www.cix.org
83-www.itaa.org
84-www.interactivehq.org
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 69
festara sobre questões de DNS, instaurou vos. Essa futura entidade, que assumiria
diversas audiências sobre o assunto, que grande parte das atividades da NSI e da
permitiram aos opositores do modelo pro- IANA, deveria ser criada e mantida dentro
posto pelo IAHC ganharem força, princi- do território dos EUA, em confronto direto
palmente após os depoimentos dos repre- com a proposta da internacionalização da
sentantes de instituições como Commercial governança da Internet. Este documento
Internet Exchange (CIX82), Information Tech- obteve mais de 650 comentários, críticas e
nology Association of America (ITAA83) e As- sugestões, das mais variadas fontes, prin-
sociation for Interactive Marketing (AIM84). cipalmente internacionais.
Alguns dos argumentos mais críticos ao
gTLD-MoU foram constituídos em meio
a um discurso de segurança nacional e
traição, em função da componente inter- Código é poder
nacional do plano, que atenderia, de for-
ma igual, aos países com os quais os EUA “Nós rejeitamos reis, presidentes e
não possuíam relações amistosas (Líbia, votações. Acreditamos em um con-
Iraque, Cuba, Coréia do Norte etc.), tra-
zendo o foco para discussão acerca do senso impreciso e em um código fun-
deslocamento de poder que a Internet
representaria para os EUA em relação aos cionando.86”
outros países. (RADER, 2001).
dr. david clark (mit), pioneiro da internet
O governo norte-americano deu novo
rumo à questão quando, no início de

J
1998, Ira Magaziner, então conselheiro onathan Postel (IANA) era um dos
do presidente Clinton para assuntos maiores insatisfeitos com o Green
de Internet, liberou um documento do Paper. Em fevereiro de 1998, con-
National Telecommunications and Infor- seguiu reconfigurar diversos servidores-
mation Administration (NTIA85), que fi- raiz secundários de forma que deixassem
cou conhecido como “The Green Paper” de reconhecer o servidor-raiz principal
(MAGAZINER, 1998), que, apesar de re- (Root Server “A”, operado pela NSI), e pas-
duzir o poder da NSI, não fez nenhuma sassem a fazê-lo em relação ao servidor
menção ao trabalho anterior do IAHC. O “B” operado por ele próprio, na IANA,
documento sinalizava as pretensões do nas instalações da ISI/USC.
governo norte-americano de manter in- Para realizar tal façanha, Postel sim-
ternamente o controle sobre a Internet, plesmente enviou um e-mail aos de-
pelo menos em curto prazo, até quando mais operadores de servidores-raiz
pudesse ser feita a transição para uma secundários conclamando-os a alterar
nova entidade, privada e sem fins lucrati- o endereço do servidor principal.

85-www.ntia.doc.gov . O NTIA é uma agência do Departamento de Comércio dos EUA, http://www.doc.gov


86-“We reject kings, presidents, and voting: we believe in rough consensus and a running code.” Trecho da ent-
revista concedida a J. Zittrain, disponível em http://cyber.law.harvard.edu/jzfallsem//trans/clark
70 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

“... Na medida em que a Internet se desen- tribuição dos endereços numéricos pre-
volve, existem transições em seu gerencia- cisava seguir adiante, pois, ao contrário
mento. Chegou a hora de darmos um pequeno dos nomes, os endereços IP são finitos
passo em relação a uma dessas transições. (por limitação de código), eram gratuitos
Em algum momento no futuro será apropri- e poderiam ter um controle à parte, fora
ado, para a administração do raiz, que esse da questão do DNS:
possa ser editado e publicado diretamente
pela IANA...87”
“As discussões acerca da competição
Quando o governo dos EUA ordenou que nos registros de DNS chegaram a tal
tudo voltasse à situação anterior, Postel
alegou que estava apenas “fazendo um pro- ponto de hostilidade que a última coisa
cedimento de teste para ver o quão fácil seria
a transição, quando o governo decidisse de- que qualquer um gostaria de ver seriam
sistir de controlar o DNS, conforme descreve- os registros dos endereços IP metidos
ra em seu Green Paper” (MUELLER, 2004).
Apesar de o governo não ter aprovado a nesse atoleiro político que virou o DNS
idéia do teste sem aviso prévio, o assunto
foi encerrado sem maiores prejuízos para (...). Existe o consenso de que ainda que
Postel, que, além de conseguir mostrar seja possível fazer do registro de DNS
seu descontentamento, mostrou também
como na regulamentação da Internet o uma função financeiramente com-
código se justapõe à lei na delimitação dos
espaços de possibilidades de ações. Pos- petitiva, o mesmo não se pode dizer do
tel provou claramente que ele ainda pos- registro de endereços. Por várias razões
suía um espaço para agir sobre o sistema
que ajudou a construir, não importando técnicas, não é viável para as empre-
quem fosse a atual empresa fornecedora
prestadora do serviço. sas competir em uma base monetária
pela alocação de números IP”. (rader,
A questão dos 2001)88 [ grifo nosso]
números
“Os números governam o mundo”.

P
or conta deste consenso, no final de
platão (427 a.c. - 347 a.c.) 1997, o InterNIC passou a delegação
e o controle do banco de dados de

A
inda que os registros dos nomes endereços IP e dos números de Autonomous
de domínio e a operação do siste- Systems89 (AS) para a American Registry for
ma raiz do DNS ainda estivessem Internet Numbers (ARIN90), uma insti-
envoltos em polêmicas, a questão da dis- tuição sem fins lucrativos estabelecida
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 71
com o objetivo de administrar e registrar O usuário comum, em geral o mais
os números dos endereços IP nas Améri- afetado por tudo isso, tem pouca ou
cas (Central, Norte e Sul), no Caribe e
na África Subsaariana. Os endereços da nenhuma oportunidade de participar
Europa já estavam aos cuidados, desde
1992, do Réseaux IP Européens Network no processo.” (rader, 2001)
- Coordination Centre (RIPE-NCC91) e os
da Ásia, desde 1993, aos cuidados da Asia
Pacific Network Information Centre (AP-

E
NIC92). Hoje o ARIN somente cuida da m junho de 1998, Ira Maga-
América do Norte, pois a partir de 2001 ziner liberou uma nova versão do
os endereços de América Latina e Caribe documento oficial do governo,
ficaram a cargo do Latin American and Ca- novamente em nome do NTIA, que fi-
ribbean Internet Addresses Registry (LAC- cou conhecido como “The White Paper”
NIC93) e está em fase final de formação (NTIA, 1998). Esse documento incluiu
o African Network Information Center (Af- diversas sugestões recebidas, principal-
riNIC94). Todas estas entidades de regis- mente em relação às questões sobre a
tros regionais, hoje, fazem parte de uma competitividade do mercado de registro
entidade chamada Number Resource Orga- de domínios, e conclamou a comunidade
nization (NRO95), criada em 2003. da Internet para que se organizasse e dis-
cutisse os tópicos ali apresentados em
busca de consensos para a nova entidade
A instituição que seria criada (nos EUA) para assumir
a governança dos nomes e endereços da
da governança Internet.
“...A história do DNS é 10% técnica
Um dos principais grupos de discussão
e 90% política. E como geralmente sobre o assunto foi o International Forum
for the White Paper (IFWP96), um grupo
acontece, ninguém percebe isso até aberto, autodefinido como “uma coalizão
ad-hoc de profissionais, empresas e insti-
quando fica muito tarde para mudar. tuições de ensino, representantes de uma

87- Transcrição do e-mail original em www.postel.org/pipermail/internet-history/2002-November/000376.html


88- Não tivemos condições de explorar aqui as configurações e os efeitos ditos “políticos” imbricados nestas ditas
“razões técnicas”. Um possível ponto de partida pode ser encontrado em http://www.byte.org/one-history-of-dns.pdf
89- São números associados a blocos de endereços IP que permitem a construção de tabelas de roteamento
hierárquico entre os equipamentos roteadores de tráfego na Internet.
90- www.arin.net
91- www.ripe.net
92- www.apnic.net
93- www.lacnic.net
94- www.afrinic.net
95- www.nro.org
96- www.ifwp.org
72 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

diversidade de grupos influenciadores na o movimento se enfraqueceu por desen-


Internet” (RADER, 2001). O IFWP, de tendimentos entre a IANA e outros par-
fato, funcionou como um catalisador ticipantes, ficando impossível concluir
das idéias do “White Paper”. Através de os trabalhos e produzir um documento
diversos workshops internacionais (EUA, próprio que contivesse todas as con-
Suíça, Cingapura e Argentina), o IFWP clusões e reivindicações (LESSIG, 1998).
conseguiu grande credibilidade devido à
sua representatividade, uma vez que era O governo dos EUA, no entanto, apa-
formado pela IANA e por outros membros rentemente “cansou de esperar”97 por
do IAHC, seus antigos opositores, alguns um consenso e, prometendo implantar a
novos atores e até a própria NSI. maioria das questões que vinham sendo
discutidas, partiu para a ação unilateral
Visando demonstrar de maneira em- em outubro de 1998, com o anúncio por
blemática a posição do governo dos EUA parte da NTIA de uma nova organização,
frente às discussões da comunidade da chamada Internet Corporation for Assigned
Internet no IFWP, Ira Magaziner voou Names and Numbers (ICANN98), com sede
para a reunião de Genebra (Suíça) em jul- na Califórnia (EUA), que seria a respon-
ho de 1998, somente para fazer a abertura sável pela governança da Internet no que
do evento e voltar, quando disse: se referia à distribuição de endereços
IP, ao controle do sistema de nomes de
“Estou aqui apenas para dar-lhes as domínios de primeiro nível com códigos
boas vindas e me despedir. Não para genéricos (gTLD) e de países (ccTLD) e às
funções de coordenação da administração
insultá-los com a ausência de minha central dos servidores-raiz. Esses ser-
viços, que eram originalmente prestados,
atenção, mas para simbolizar exata- mediante contrato com o governo dos
mente como o governo dos EUA en- EUA, pela NSI e, em parte, pela IANA99 ,
seriam transferidos para a nova organiza-
tende este processo. Nosso trabalho é ção (FROOMKIN, 1999).
começar as discussões e, em seguida,
sair da sala”.(lessig, 1998).

S
uas palavras foram coroadas com
um forte aplauso, após o qual, de
fato, levantou-se e saiu em direção
ao aeroporto para voar de volta aos EUA.
As reuniões do IFWP, de uma forma geral,
conseguiram consenso para a maioria dos
tópicos discutidos. Entretanto, no final,
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 73
Em seguida, o Departamento de Comércio cial Domain Name Holders Constituency
estendeu o acordo de cooperação com a (NCDNHC102), com representantes
NSI, permitindo-lhe que ainda continu- de entidades detentoras de nomes de
asse operando o servidor-raiz principal domínio não-comerciais – em par-
(root server A), porém teria de dividir sua ticular, do domínio “.org” – que par-
linha de negócios em duas partes: uma de ticipam dos debates no Conselho da
registro de domínios no DNS (chamada ICANN;
registry) – onde manteria a exclusividade • Country-Code Names Supporting Orga-
sobre a lucrativa função de registro dos nization (ccNSO103), Organização de
domínios “.com”, “.net” e “.org”100– e Apoio a Nomes de Domínio de Código
outra de revenda de domínios “regis- de País.
tráveis” no mercado (chamada registrar), •Address Supporting Organization
onde teria de competir com outras em- (ASO104), que controla a distribuição
presas que seriam criadas. de blocos de números IP e funciona
em estreita cooperação com organis-
No final do ano de 2000, a ICANN intro- mos regionais de administração da in-
duziu novos TLDs, como “.aero”, “.biz”, fra-estrutura da NRO.
“.coop”, “.info”, “.museum”, “.name” e
”.pro”, que ficaram sob a guarda de outros O processo de eleição dos representantes
registradores. da ICANN foi motivo de muita discussão e
confusão (AFONSO, 2002) e hoje é coor-
A estrutura da ICANN funciona basica- denado por um comitê interno chamado
mente com o apoio de três organizações At-Large Membership Study Committee
internas, cada uma cuidando de serviços (ALSC105).
específicos:
A ICANN também coordena, através do
• Generic Name Supporting Organi- DNS Root Server System Advisory Committee
zation (GNSO101), Organização de (RSSAC106), as organizações que operam
Apoio a Nomes de Domínio Genéri- os atuais treze107 servidores-raiz do DNS,
cos (gTLDs) e Sponsored (sTLDs). O que estão localizados nos EUA, na Ingla-
GNSO mantém o fórum Non-Commer- terra, na Suécia e no Japão e possuem có-

97- Há indicações de que isso gerou uma “sensação de traição” nos que estavam se dedicando a ajudar a construir
a tal nova organização “com muitas mãos”.
98- www.icann.org
99- Jonathan Postel, criador do IANA, veio a falecer poucos dias antes do anúncio oficial da ICANN -
http://www.postel.org/postel.html
100- No início de 2003, foi retirado da NSI o gTLD “.org”, que ficou a cargo de uma entidade sem fins lucrativos,
subsidiária da ISOC, denominada Public Internet Registry (PIR) – http://www.pir.org
101- www.gnso.icann.org
102- www.ncdnhc.org
103- www.ccnso.icann.org
104- www.aso.icann.org
105- www.atlargestudy.org
106- http://www.icann.org/committees/dns-root
74 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

A
pias espalhadas por alguns outros países internacionalização efetiva da
mundo.108 ICANN vem sendo cobrada em
Ainda que a ICANN tenha reduzido a diversos fóruns. Em abril de
“batalha do DNS”, muito trabalho ainda 2000, por exemplo, a Comissão Européia
precisa ser feito e muito se questiona publicou um relatório113 confirmando
acerca da necessidade de sua internacio- às autoridades norte-americanas que os
nalização, do impacto do sistema privado poderes remanescentes de seu Departa-
na administração dos principais bancos mento de Comércio em relação à ICANN
de dados do namespace109 e na operação deveriam cessar. O Parlamento Europeu,
dos servidores-raiz, entre tantas outras em resolução referente a esse relatório114,
questões relacionadas à governança da In- criticou a falta de uma solução verdadei-
ternet. A ICANN, na verdade, passou a ser ramente internacional para a questão da
o centro das discussões e controvérsias e governança da Internet.
algumas entidades foram criadas para (ou
passaram a) acompanhar os trabalhos da As críticas internacionais (FROOMKIN,
ICANN e divulgá-los de forma mais trans- 1999) revelam que, na verdade, o governo
parente para toda a comunidade Internet. dos EUA fez uma “quase-privatização” da
Entre essas estão o Center for Democracy governança da Internet, de maneira que
and Technology110 , o ICANN-Watch111 e o conseguiu se desvencilhar das respon-
Internet Democracy Project112. sabilidades advindas do dia-a-dia das
atividades (de seus agentes e/ou delega-
dos), ao mesmo tempo em que manteve a
A internacionalização última palavra no que diz respeito à auto-
ridade e controle sobre a raiz do sistema.
e a representativi-
dade da ICANN Defendendo-se de acusações de que sem-
pre procurou ignorar o TCP/IP em favor
“O modelo de governança atual é um do OSI quando a questão é governança da
exemplo de neocolonialismo.” Internet, a International Telecommunica-
tion Union (ITU), agência da Organização
robert mugabe, presidente do zimbábue, du- das Nações Unidas (ONU) para telecomu-
rante o fórum mundial das nações unidas nicações, assumiu recentemente (KLEIN,
para a sociedade da informação (wsis), em 2003) para si a missão de promover a in-
dezembro de 2003. ternacionalização da governança da In-
ternet por conta daquilo que considera

107- Treze é o número máximo de unidades que podem operar simultaneamente como servidores-raiz, de acordo
com a versão atual do protocolo DNS. Esses servidores são máquinas de grande porte, com sistema operacional
UNIX, e utilizam o BIND (Berkeley Internet Name Domain), software (aberto) para gerenciamento de DNS criado por
Paul Vixie e mantido pela Internet Systems Consortium (ISC) – http://www.isc.org
108- A lista completa dos servidores e suas cópias pode ser consultada em http://www.root-servers.org
109- A Verisign (que é a controladora NSI) lançou, em setembro de 2003, um polêmico serviço chamado SiteFinder,
que redirecionava automaticamente para suas páginas Web qualquer requisição de consulta a domínios que não
existissem, em vez de retornar mensagens de erro para os usuários da Internet - http://ssrn.com/abstract=475281
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 75
uma decorrência legítima de sua auto- “A”. Acreditamos que suposição de
ridade, a qual já teria sido demonstrada
por sua contribuição ao desenvolvimento controle sobre este ativo por qualquer
da Internet, como no caso dos protoco-
los H.248, H.323, X.509 (em parceria entidade externa seria contrária aos
com o IETF) e, mais recentemente, do interesses econômicos e de seguran-
ENUM115. As críticas116 em relação à ITU,
além da burocracia e da lentidão, ressal- ça nacional dos Estados Unidos da
tam que esta agência sequer reconhecia o
protocolo da Internet (TCP/IP) até o final América.117”
da década de 90, quando então promovia
exclusivamente o modelo OSI (CUKIER, A internacionalização também passa por
1999). uma série de outras questões propria-
mente sociotécnicas (onde a fronteira
A objeção norte-americana à internacio- entre política e técnica é problemática),
nalização passa novamente pelo discurso como o reconhecimento de soberania
do mundo fechado (EDWARDS, 1996), dos países (Palestina, Hong Kong, Taiwan
conforme se pôde perceber no posiciona- etc.), o equilíbrio na distribuição geográ-
mento assumido por alguns membros do fica de endereços IP, a alocação física de
Congresso dos EUA frente ao seu secre- servidores-raiz principais em países fora
tário do Departamento de Comércio: do primeiro mundo, a possibilidade de
uso de caracteres (além daqueles per-
“...Finalmente, queremos fortemente mitidos na língua inglesa) na criação de
reiterar nosso apoio à continuidade nomes de domínio etc.
Outra questão controversa diz respeito ao
do controle do Departamento de Co- atendimento a um pedido de registro de
domínio. Historicamente, isso sempre
mércio sobre o chamado servidor-raiz foi baseado no conceito de “o primeiro a

110- www.cdt.org/dns/icann, criada em 1995


111- http://www.icannwatch.org, criado em 1999 pelos professores David Post, Michael Froomkin e David J. Farber.
112- www.internetdemocracyproject.org, criado por três entidades: American Civil Liberties Union (ACLU –
www.aclu.org), Computer Professionals for Social Responsibility (CPSR – http://www.cpsr.org) e Electronic Privacy
Information Center (EPIC – http://www.epic.org)
113- “Communication from the Commission to the Council and the European Parliament: The Organisation and
Management of the Internet – International and European Policy Issues 1998 – 2000” http://europa.eu.int/ISPO/
eif/InternetPoliciesSite/Organisation/COM(2000)202.doc
114-“European Parliament Resolution on the Commission Communication to the Council and the European
Parliament on The Organisation and Management of the Internet – International and European Policy Issues 1998-
2000 -- http://europa.eu.int/ISPO/eif/InternetPoliciesSite/InternetGovernance/EPResolution15March2001.html
115-TElephone NUmber Mapping - protocolo que permite o mapeamento de números de telefone em nomes
Internet - http://www.itu.int/osg/spu/enum
116-Na verdade, talvez o Departamento de Estado dos EUA não tenha permitido à ITU reconhecer o protocolo
TCP/IP, pois sua entidade criadora e mantenedora, o IETF, nunca foi um órgão oficial de padronização nos EUA e,
por conseguinte, nunca teve representatividade na ITU.
117-Carta dos representantes do Congresso norte-americano ao Secretario de Comércio, em 13 de março de 2002
-http://www.politechbot.com/p-03268.html
76 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

chegar será o primeiro a ser atendido”, o consenso com verdade.”


que sempre gerou problemas associados
ao registro, na Internet, de marcas previa- Brian Reid, pioneiro da Internet.
mente registradas fora dela, problemas
quase todos resolvidos nas esferas judi-
ciais de cada país. A partir da entrada da “A Internet não é uma coisa, é um
ICANN nesse cenário, passou a ser adotada acordo.”
uma nova regra, conhecida como Uniform
Dispute Resolution Policy (UDRP 118), doc searls e david weinberger
baseada na proposta da World Intellec-
tual Property Organization (WIPO119). Esta (in world of ends121)
nova regra passou a favorecer claramente
os detentores internacionais de marcas

A
registradas em detrimento dos usuários Internet funciona muito bem,
da Internet, não mais importando se esses obrigado. Em todo o planeta,
tivessem chegado antes ao ciberespaço mais de 750 milhões de usuários
(MUELLER, 2002). realizam, diariamente, cerca de 18 bilhões
de consultas ao sistema DNS, hoje com
“A ICANN foi criada sob o discurso mais de 55 milhões de domínios registra-
da auto-regulação, da representa- dos. São números122 realmente impres-
sionantes de um sistema eficiente que,
tividade legítima e do consenso en- a despeito de toda essa eficiência, não
está imune às críticas nem, muito me-
tre as bases. Em vez disso, se tornou nos, pode ser considerado neutro. Todo
um exemplo de raposa cuidando do código é político. As arquiteturas que es-
tabelecem o ciberespaço têm significação
galinheiro, um verdadeiro conluio normativa e escolhas podem ser feitas
sobre os valores que essa arquitetura em-
entre governo e grandes empresas, bute. Se o código é político e constitui o
para salvaguardar interesses mútuos ciberespaço, deveria ser uma escolha dos
cidadãos, não mais uma tarefa somente
e bloquear os novos e menores partici- de engenheiros e programadores (LES-
SIG, 1997-2).
pantes” (cook, 2003)120.
O debate sobre a questão do namespace é
único sob diversos aspectos, mas serve de
Os códigos precursor sobre os futuros debates acerca
de padrões e tecnologias que, implemen-
governarão o mundo tados em forma de arquitetura, regularão
“A Internet tem a ver com consenso, nossas vidas no ciberespaço (e também
no chamado espaço “real”). Nossa inten-
não com verdade. Nunca confunda ção específica neste artigo é, em primeiro
cap 4 - a governança da internet: o controle do namespace no ciberespaço 77
lugar, contribuir para o entendimento das por um “falso consenso”, de atores que
imbricações entre leis e códigos (pro- poderiam participar do processo desde
gramas em computadores, ou máquinas o seu início. Como diz LESSIG (1997),
de programa armazenado, ou máquinas de “[d]e muitas maneiras, a Internet é fenômeno
von Neuman), mesmo que elas tenham, excepcional, mas é importante ter em mente
talvez, permanecido difíceis de perceber. precisamente que maneiras são essas”.
Um cuidado especial deve ser tomado em
relação à importação, para outras áreas, Neste rojão queremos também, em se-
do modelo dominante para o estabeleci- gundo lugar, instigar nossos leitores, afir-
mento de padrões na Internet à medida mando que queremos contribuir para que
que ela está cada vez mais presente no as imbricações e as fronteiras entre leis
Brasil (propriedade intelectual, direito e códigos sejam exploradas/negociadas/
autoral, crime eletrônico, liberdade de construídas/renegociadas por um núme-
expressão etc.). A adoção impensada de ro cada vez maior de actantes, palavra que
um modelo de padronização sem um en- Latour (1997:138) tomou emprestado da
tendimento detalhado de suas implica- semiótica para nomear “qualquer pessoa
ções pode resultar na exclusão, suportada e qualquer coisa que seja representada”.

118- www.icann.org/udrp/udrp.htm
119- www.wipo.int
120- Pode ser encontrado em http://www.lessig.org/content/archives/march2003cookrep.pdf
121- www.worldofends.com
122- www.apc.org/apps/img_upload/ 6972616672696361646f63756d656e74/ANN_1030.ppt
78 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

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78
20
5
Apêndice I O Comitê Gestor da Internet no Brasil
(CGI.br) foi criado pela Portaria In-
terministerial nº 147, de 31 de maio
A estrutura de 1995 e alterada pelo Decreto Presi-
brasileira de dencial nº 4.829, de 3 de setembro de

governança da 2003, para coordenar e integrar todas


as iniciativas de serviços Internet no
Internet país, promovendo a qualidade técni-
ca, a inovação e a disseminação dos
serviços ofertados. Também é respon-
sável por assegurar a justa e livre com-
petição entre os provedores e garantir
a manutenção de adequados padrões
de conduta de usuários e provedores.
Composto por membros do governo, do
setor empresarial, do terceiro setor e da
comunidade acadêmica, o CGI.br rep-
resenta um modelo de governança na
Internet pioneiro no que diz res
apêndice i - a estrutura brasileira de governança da internet 81
O Comitê Gestor da Internet no Brasil representantes da sociedade civil para
(CGI.br) foi criado pela Portaria In- participar das deliberações e debater
terministerial nº 147, de 31 de maio prioridades para a internet, junto com
de 1995 e alterada pelo Decreto Presi- o governo.
dencial nº 4.829, de 3 de setembro de
descrição na página web do cgibr (www.cgi.br)
2003, para coordenar e integrar todas
as iniciativas de serviços Internet no

O
Brasil foi pioneiro na formulação
país, promovendo a qualidade técni- e realização de uma abordagem
particular para a governança da
ca, a inovação e a disseminação dos Internet, por conta de um intenso lobby
serviços ofertados. Também é respon- realizado pela comunidade acadêmica e
pelas organizações da sociedade civil em
sável por assegurar a justa e livre com- 1994-1995. Em maio de 1995, os minis-
tros das Comunicações e da Ciência e
petição entre os provedores e garantir Tecnologia formaram o Comitê Gestor
a manutenção de adequados padrões da Internet no Brasil (CGIbr), um grupo
composto por cerca de 12 voluntários
de conduta de usuários e provedores. formado por representantes do governo
federal, operadoras de telecomunica-
Composto por membros do governo, do ções, provedores de acesso, comunidade
setor empresarial, do terceiro setor e acadêmica e representante dos usuários.

da comunidade acadêmica, o CGI.br A missão do CGIbr, desde então, tem sido


a de resolver a coordenação e integração
representa um modelo de governança de todas as iniciativas relacionadas à In-
na Internet pioneiro no que diz res- ternet no Brasil bem como a de gerenciar
o registro de nomes de domínio e a distri-
peito à efetivação da participação da buição de endereços IP. O CGIbr criou um
organismo subordinado, chamado Reg-
sociedade nas decisões envolvendo a istro.br, que é a entidade registradora de
implantação, administração e uso domínios .br no país e que, desde 2003,
opera o primeiro servidor-espelho lati-
da rede. Com base nos princípios de no-americano de um dos servidores-raiz
da Internet.
multilateralidade, transparência e
democracia, desde julho de 2004 o Desde a sua formação, o CGIbr formulou
uma política de governança que define o
CGI.br elege democraticamente seus ccTLD .br como um patrimônio da comu-
82 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

nidade e como a identidade do Brasil na adequada para redes e serviços;


Internet. Assim, a função de registro de • coordenar ações ligadas à formula-
domínio é um serviço sem fins lucrativos ção de normas e procedimentos para
no qual todos os nomes de domínio cus- a regulação de atividades relacionadas
tam a mesma coisa (atualmente R$30 por com a Internet;
ano, ou cerca de 13 dólares dos EUA). A • participar de fóruns técnicos de âm-
cobrança existe apenas para cobrir os cus- bito nacional e internacional relativos
tos anuais de operação e desenvolvimento à Internet;
do sistema de governança. Portanto, uma • adotar os procedimentos administra-
pessoa ou entidade que deseja registrar tivos e operacionais necessários para
um domínio sob o .br precisa apresen- que a governança da Internet no Brasil
tar comprovante de status legal no país seja realizada conforme padrões inter-
(identificado por seu número de registro nacionais aceitos pelos organismos de
na Receita Federal – CPF ou CNPJ) – e governança globais, para os quais pode
documentação demonstrando que tem um assinar convênios, contratos e instru-
endereço físico no país. mentos semelhantes.

A A
s funções do sistema brasileiro té agora, as funções administra-
de governança encabeçado pelo tivas relacionadas à operação do
CGIbr são: sistema DNS brasileiro e à ar-
recadação das anuidades de nomes de
• estabelecer diretivas estratégicas domínio (o CGIbr não cobra pela dis-
relacionadas com o uso e o desen- tribuição de números IP) tem ficado a
volvimento da Internet no Brasil; cargo da Fundação de Amparo à Pesquisa
• estabelecer diretivas para a organiza- do Estado de São Paulo (FAPESP), já que
ção do relacionamento entre o gover- o Comitê Gestor não tinha uma estrutura
no e a sociedade na administração do institucional que permitisse executar es-
registro de nomes de domínio, distri- sas funções.
buição de números IP e administração
do ccTLD .br em prol dos interesses do Assim, até a data de publicação deste livro,
desenvolvimento da Internet no país; as operações do CGIbr seguem sendo um
• propor programas de pesquisa e de- projeto da FAPESP, incluindo adminis-
senvolvimento relativos à Internet em tração financeira das verbas obtidas com
conformidade com elevados padrões e a distribuição dos domínios, hoje acu-
inovações técnicas, bem como estimu- muladas em mais de R$ 100 milhões. Le-
lar a disseminação da Internet por galmente, a FAPESP pode resolver o que
todo o Brasil, buscando oportunidades fazer com o dinheiro e, inclusive, bloquear
para agregar valor aos bens e serviços qualquer proposta de gastos que não siga
relativos à rede; as suas regras internas, que a rigor podem
• promover estudos e recomendar pro- determinar que os recursos sejam gastos
cedimentos, normas e padrões técnicos apenas no Estado de São Paulo.
e operacionais relativos à segurança
apêndice i - a estrutura brasileira de governança da internet 83
E
ssa dependência histórica da governamentais fossem escolhidos por
FAPESP ainda causou outra situa- seus respectivos grupos de interesse.
ção de desconforto, quando, em
2002, o maior Ponto de Troca de Tráfego Entre 2003 e 2004, ocorreu um desdo-
(PTT) da Internet no Brasil (interligando bramento significativo. O governo federal
as principais espinhas dorsais do país), determinou que o número de membros do
que ficava hospedado nas instalações conselho subisse para 21, onze dos quais
na FAPESP, foi vendido para a empresa oriundos de organizações ou associações
norte-americana Terremark, que passou a não governamentais eleitos para manda-
explorá-lo comercialmente, com o nome tos de três anos por suas próprias bases.
de Network Access Point (NAP) Brasil, após Nessa nova estrutura de representação,
mudá-lo fisicamente para as instalações já estabelecida desde a primeira eleição
da Hewlett-Packard, em São Paulo. Assim, online de conselheiros em 2004, a distri-
um serviço público sem fins de lucro pas- buição de conselheiros é a seguinte:
sou a ser um empreendimento comercial,
e o principal ponto de trânsito de dados • o governo federal escolhe oito con-
nacional passou a ser controlado por uma selheiros;
empresa dos EUA. • as secretarias estaduais de Ciência e
Tecnologia escolhem um conselheiro;
Em 2004 O CGIbr respondeu a essa ini- • entidades civis não empresariais es-
ciativa com a implantação do projeto PTT colhem quatro conselheiros;
Metropolitano (PTT-Metro) que visa • associações empresarias (provedores
promover como serviço público a criação de acesso e conteúdo da Internet; pro-
de infra-estrutura necessária para man- vedores de infra-estrutura de tele-
ter diversos pontos de troca de tráfego comunicações; indústria de bens de
nas grandes cidades brasileiras, visando informática, de bens de telecomuni-
a interconexão direta entre as redes que cações e de software; setor empresarial
compõem a Internet no país. usuário) escolhem quatro conselhei-
ros;
A representatividade no CGIbr já foi uma • as associações acadêmicas escolhem
questão bastante debatida – desde a sua três conselheiros;
criação os conselheiros eram indicados • por fim, um conselheiro considerado
exclusivamente pelo governo federal. De- de notório saber no campo das tecno-
pois da mudança de governo no final de logias de informação e comunicação é
2002, instaurou-se uma processo de mu- escolhido por consenso.
dança a partir de sugestões apresentadas
ao novo governo em fevereiro de 2003 pela Em 2004 o CGIbr definiu que fosse for-
comunidade acadêmica e entidades civis. malizada uma organização não governa-
Essencialmente a proposta buscava, por mental (chamada NIC.br), sob a super-
um lado, que a representação tivesse uma visão do CGIbr, especialmente criada para
maioria de membros não governamentais, assumir funções administrativas, inclu-
e por outro, que todos os conselheiros não sive registro, distribuição de números IP,
84 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Apêndice II
Este glossário inclui as siglas e expressões
internacionais utilizadas neste livro e é
Glossário também uma combinação de alguns outros
glossários disponíveis na Internet, inclu-
sive o que é apresentado como apêndice ao
Relatório do GTGI.

ADB Asian Development Bank Banco Asiático de Desenvolvimento

AFDB African Development Bank Banco Africano de Desenvolvimento

AfriNIC Africa Network Information Centre Centro de Informação de Rede na África


– o Registro Regional de números IP da
Internet para a África

AIM Association for Interactive Marketing Associação para o Marketing Interativo

ALAC At-Large Advisory Committee Comitê Consultivo Amplo (de usuários


individuais da Internet). Responsável
por considerar as atividades da ICANN
e prestar assessoria no que elas estejam
relacionadas com os interesses de usuários
individuais da Internet (a comunidade
“ampla”)

AlterNIC Alternative Network Information Center Sistema de servidores-raiz DNS alterna-


tivo criado por Eugene Kashpureff

Anycast A network addressing and routing scheme Esquema de endereçamento e roteamento


in which data is routed to the “nearest” or no qual os dados são roteados para o
“best” destination as viewed by the routing destino “mais próximo” ou “melhor”, con-
topology. forme a visão da topologia de roteamento
– é utilizado para replicar servidores DNS

APC Association for Progressive Associação para o Progresso


Communications das Comunicações

APEC Asia-Pacific Economic Cooperation Cooperação Econômica Ásia-Pacífico


apêndice ii - glossário 85
APNIC Asia Pacific Network Information Centre Centro de Informação da Rede na região
Ásia-Pacífico – o Registro Regional de
números IP da Internet para a Ásia e
regiões do Pacífico

APT Asia-Pacific Telecommunity Telecomunidade Ásia-Pacífico

ARIN American Registry for Internet Numbers Registro Americano para Números Inter-
net – o Registro Regional de números IP da
Internet para a América do Norte

ASEAN Association of Southeast Asian Nations Associação de Nações do Sudeste Asiático

ASO Address Supporting Organization Organização de Apoio de Endereços IP


– seu objetivo é estudar e elaborar reco-
mendações sobre as políticas de endereços
IP e assessorar o Conselho da ICANN

ASTA Anti-Spam Technical Alliance Aliança Técnica Anti-Spam

ccNSO Country Code Domain Name Supporting Organização de Apoio aos Nomes de
Organization Domínio de Código de País – organismo de
apoio para a formulação de políticas sobre
ccTLDs na estrutura da ICANN

ccTLD Country-code Top-Level Domain Nome de domínio de primeiro nível de


país, como .br (Brasil), .iq (Iraque), .tv
(Tuvalu), .st (São Tomé e Príncipe) etc.

CENTR Conference of European National Top Conferência dos Registros Nacionais de


Level Domain Registries Primeiro Domínio Europeus

CEPT European Conference of Postal and Tele- Conferência Européia de Administrações


communications Administrations de Correios e Telecomunicações

CERT Computer Emergency Response Team Equipe de Atendimento a Emergências


Computacionais

CERT/CC CERT Coordination Center at Centro de Coordenação CERT na


Carnegie-Mellon University Universidade de Carnegie-Mellon

CIS Center for Internet Security Centro para Segurança na Internet


86 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

CIX Commercial Internet Exchange [Centro de] Intercâmbio [de Tráfego]


Internet Comercial

CITEL Inter-American Telecommunication Comissão Interamericana de Teleco-


Commission (Organization of American municações (Organização dos Estados
States) Americanos)

COE Council of Europe Conselho da Europa

CORE Council of Registrars Conselho de Revendedores de Domínios

CompTIA Computing Technology Industry Associação da Indústria de Tecnologia


Association Computacional

CRIS Communication Rights in the Direito à Comunicação na


Information Society Sociedade da Informação

DISA Data Interchange Standards Association Associação de Padrões para Intercâmbio


de Dados

DNS Domain Name System Sistema de nomes de domínio - relaciona


nomes de domínio a endereços IP

EDIFICE European B2B Forum for the Electronic Fórum B2B Europeu para a Indústria
Industry Eletrônica

eDNS Enhanced DNS Proposta de um sistema DNS alternativo


formulada por Eugene Kashpureff e outros

ENISA European Network and Information Agência Européia para Segurança


Security Agency de Rede e da Informação

ETNO European Telecommunications Network Associação Européia de Operadoras de


Operators’ Association Redes de Telecomunicações

ETSI European Telecommunications Instituto Europeu de Padronização das


Standardization Institute Telecomunicações

EU European Union União Européia

FIRST Forum of Incident Response Fórum de Equipes de Atendimento


and Security Teams a Incidentes e Segurança
apêndice ii - glossário 87
GAC Governmental Advisory Committee Comitê Consultivo Governamental – o
papel fundamental do GAC é assessorar a
ICANN nas questões que envolvem
Internet e políticas públicas

GBDe Global Business Dialogue on Diálogo Global de Empresas para o


Electronic Commerce Comércio Eletrônico

GNSO Generic [Domain] Names Organização de Apoio a Nomes [de


Supporting Organization Domínio] Genéricos – organismo de
apoio para a formulação de políticas sobre
nomes de domínios globais na estrutura
da ICANN

gTLD Generic (or global) Top-Level Domain Domínio genérico (ou global) de primeiro
nível, como .com, .int, .net, .org, .info etc

HRIS Human Rights in the Information Society Direitos Humanos na Sociedade


da Informação

IAB Internet Architecture Board Conselho de Arquitetura da Internet

IADB Inter-American Development Bank Banco Interamericano de


Desenvolvimento

IAHC Internet International Ad-Hoc Committee Comitê Ad-Hoc Internacional da Internet


– “coalizão de participantes da comuni-
dade Internet como um todo, trabalhando
para satisfazer a necessidade de melhoras
no sistema global de nomes de domínio da
Internet (DNS).” Dissolvido em 1997.

IANA Internet Assigned Numbers Authority Autoridade de Números IP Designados


da Internet

ICANN Internet Corporation for Assigned Corporação Internet para Nomes e


Names and Numbers Números Designados

ICANN Watch ICANN Watch Project Projeto ICANN Watch

ICC International Chamber of Commerce Câmara de Comércio Internacional


88 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

ICPEN International Consumer Protection and Rede Internacional de Fiscalização


Enforcement Network e Proteção ao Consumidor

ICRA Internet Content Rating Association Associação de Classificação de


Conteúdo na Internet

ICT Information and Communication TIC - tecnologia de informação


Technology e comunicação

ICT4D Information and Communication Tecnologia de informação e comunicação


Technology for Development para o desenvolvimento

IDN Internationalized Domain Name Nome de domínio internacionalizado


– nome de endereço de serviço Internet
com caracteres internacionalizados

IEEE Institute of Electrical and Instituto de Engenheiros


Electronics Engineers Elétricos e Eletrônicos

IETF Internet Engineering Task Force Força-Tarefa de Engenharia da Internet


– a principal organização que define os
padrões técnicos para o desenvolvimento
da Internet

IFWP International Forum for the White Paper Fórum Internacional para o Livro Branco
- “uma coalizão ad-hoc de profissionais,
empresas e instituições de ensino, repre-
sentantes de uma diversidade de grupos
influenciadores na Internet,” o IFWP
participou das discussões que acabaram
resultando na criação da ICANN.

IGP Internet Governance Project Projeto de Governança da Internet

IGO Intergovernmental organization Organização intergovernamental

ILETS International Law Enforcement Seminário Internacional de


Telecommunications Seminar Telecomunicações para Fiscalização da Lei

INTA International Trademark Association Associação Internacional de


Marcas de Comércio
IP Internet Protocol Protocolo Internet
apêndice ii - glossário 89
IP Address Internet Protocol Address Endereço de Protocolo Internet (endereço
IP) – identificador numérico exclusivo que
corresponde a cada computador ou diposi-
tivo em uma rede IP. Atualmente, há dois
tipos de endereços IP em uso: IP versão 4
(IPv4) e IP versão 6 (IPv6). O IPv4 (que
usa números de 32 bits) está em uso desde
1983 e é ainda é a versão mais usada. A
implantação do protocolo IPv6 teve início
em 1999. Os endereços IPv6 são números
de 128 bits

IPR Intellectual Property Right Direito de propriedade intelectual

IPv4 Version 4 of the Internet Protocol Versão 4 do Protocolo Internet

IPv6 Version 6 of the Internet Protocol. Versão 6 do Protocolo Internet

ISC2 International Systems Security Consórcio Internacional de Certificação de


Certification Consortium, Inc. Segurança de Sistemas

ISI Information Sciences Institute Instituto de Ciências da Informação da


Universidade da California – um dos
principais centros mundiais de pesquisa
em ciências da computação e tecnologia
da informação. Sediou a IANA na época de
Jon Postel.

ISO International Organization Organização Internacional


for Standardization para Padronização

ISOC Internet Society Sociedade Internet – uma das organizações


de apoio à governança da infra-estrutura
lógica da rede, patrocina a IETF e outras
iniciativas

ISSA Information Systems Security Association Associação de Segurança de


Sistemas de Informação

ITAA Information Technology Association Associação de Tecnologia da


of America Informação dos EUA
90 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

ITU International Telecommunication Union União Internacional de Telecomunicações

IXP Internet Exchange Point Ponto de Troca de Tráfego da Internet (PTT)

LACNIC Latin American and Caribbean Internet Registro de Endereçamento da Internet


Addresses Registry – the Regional para América Latina e Caribe – o registro
Internet Registry for Latin America regional de números IP da Internet para
and the Caribbean América Latina e Caribe

LACTLD Latin American and Caribbean Organização de ccTLDs Latino-America-


ccTLDs Organization nos e do Caribe – organização sem fins de
lucro que busca agrupar os administra-
dores de ccTLDs da região

MDGs United Nations Millennium Metas de Desenvolvimento para o Milênio


Development Goals definidas pelas Nações Unidas

MINC Multilingual Domain Names Consortium Consórcio de Nomes de Domínio


Multilíngües

MPAA Motion Picture Association of America Associação de Cinema da América

NAFTA North American Free Trade Agreement Tratado de Livre Comércio da América do
Norte (TLCAN)

NAIS NGO and Academic ICANN Study Um projeto internacional para avaliar
a natureza da representação pública na
ICANN. Esse grupo de voluntários de
várias especialidades e países começou em
novembro de 2000 com um trabalho de
avaliação das eleições para representantes
de usuários para o Conselho da ICANN,
buscando responder questões sobre a
importância da representação pública nas
atividades da entidade. O trabalho ter-
minou em agosto de 2001 com a entrega
de um relatório extenso e detalhado de
significativa importância para o estudo da
governança da Internet em geral

NAP Network Access Point Ponto de Acesso da Rede


apêndice ii - glossário 91
NATLD North America Top-Level Organização de [Nomes de] Domínio de
Domain Organization Primeiro Nível da América do Norte

NCDNHC Non-Commercial Domain Name Holders Assembléia de Detentores de Nomes de


Constituency Domínio Não Comerciais – este grupo
transformou-se na NCUC

NCUC Non-Commercial Users Constituency Assembléia de Usuários Não-Comerciais


– assembléia da ICANN de organizações
sem fins lucrativos que assessora a GNSO

NGN Next Generation Network Rede de Próxima Geração – conceito


criado pela UIT para representar a
migração dos diversos sistemas analógi-
cos de transmissão de informação para
sistemas digitais, em especial a migração
dos sistemas tradicionais de comunica-
ção (telefone, rádio, televisão)
para a Internet

NGO Non-Governmental Organization Organização não-governamental (ONG)

NIC Network Information Center Centro de Informações da Rede

NIR National Internet Registry Registro Nacional [de Números IP] da


Internet

NRO Number Resource Organization Organização de Recursos Numéricos


– um consórcio dos registros regionais de
números IP da Internet (RIRs)

NTIA National Telecommunications Administração Nacional de


and Information Administration Telecomunicações e Informaçãs [dos EUA]

NSF National Science Foundation Fundação Nacional da Ciência [dos EUA]

NSI Network Solutions, Inc. Primeira empresa contratada pelo governo


dos EUA para a distribuição comercial de
nomes de domínio globais

OAS Organization of American States Organização de Estados Americanos


92 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

OASIS Organization for the Advancement of Organização para o Avanço de Padrões de


Structured Information Standards Informação Estruturados

OECD Organization for Economic Cooperation Organização para a Cooperação e o


and Development Desenvolvimento Econômico

ORDIG Open Regional Dialogue on Diálogo Regional Aberto sobre a Gover-


Internet Governance nança da Internet – iniciativa lançada pelo
Programa da Informação para o Desenvolvi-
mento da Ásia-Pacífico (APDIP) do PNUD

OSI Open Systems Interconnection Padrão de conexão entre redes formulado


pela ISO (Organização Internacional para
Padronização) mais complexo que o TCP/
IP mas com funcionalidade básica similar

PCTs Patents, Copyrights and Trademarks Patentes, direitos autorais e marcas


registradas

Phishing The act of using the Internet, usually O ato de usar a Internet, usualmente
through a website and e-mail messages, através de um sítio Web e por mensagens
to fraudulently attempt to obtain sensitive de e-mail, para obter de modo fraudu-
personal information such as passwords, lento informações pessoais como senhas,
personal identification numbers etc números pessoais de identificação etc

PIR Public Interest Registry Registro de Interesse Público – organiza-


ção sem fins lucrativos que administra o
gTLD .org em nome da ISOC

PKI Public Key Infrastructure Infra-estrutura de chave pública

PPP Private-Public Partnership Parceria público-privada

Registrar A body approved (“accredited”) by a Registrador – uma empresa aprovada


registry to sell/register domain names on (“credenciada”) por um registro para
its behalf vender/registrar nomes de domínio em
nome do registro

Registry A company or organization which Registro - empresa ou organização que


maintains a centralized registry database mantém um banco de dados centralizado
for the TLDs or for IP address blocks de registro para os TLDs ou para os blocos
(e.g. the RIRs) de endereços IP (por exemplo, os RIRs).
apêndice ii - glossário 93
Regulatel Latin-American Forum of Fórum Latino-Americano de Entes
Telecommunication Regulators Reguladores de Telecomunicações

RFC Request for Comments Solicitação de Comentários – nome da


metodologia criada pela IETF para a
criação e formalização de padrões técnicos
da Internet

RIAA Recording Industry Association Associação das Gravadoras da América


of America

RIPE/NCC Réseaux IP Européens/Network Redes IP Européias/Centro de Coorde-


Coordination Center nação de Rede – o Registro Regional de
números IP da Internet para a Europa

RIRs Regional Internet Registries Registros Internet Regionais – organiza-


ções sem fins de lucro responsáveis pela
distribuição de números iP a provedores
de serviços e registros nacionais. Os RIRs
atuais são AfriNIC, APNIC, ARIN, LAC-
NIC, e RIPE/NCC

Root server Server which contains pointers to the Servidor raiz – computador central
authoritative name servers for all top contendo endereços de encaminhamento
level domains para todos os servidores DNS de nomes de
domínio de primeiro nível. Para a Internet
como um todo, além dos 13 servidores
originais (um mestre e 12 espelhos) sob
a coordenação da ICANN, há dezenas de
outros espelhos em vários países utili-
zando uma tecnologia de sincronização
chamada “anycast”

Root zone file Master file containing pointers to name Arquivo mestre contendo endereços de
servers for all TLDs encaminhamento para os servidores raiz
de todos os domínios de primeiro nível

RSSAC Root Server System Advisory Committee Comitê Assessor do Sistema do Servidor
Raiz – criado pela ICANN para auxiliar na
coordenação operacional do sistema raiz

sTLD Sponsored Top-Level Domain Nome de domínio global patrocinado


94 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

– usualmente um nome de domínio global


de primeiro nível concedido pela ICANN
a uma associação ou grupo de interesse
específico (.museum, .aero etc)

TLD Top-Level Domain Nome de domínio de primeiro nível – ver


também ccTLD, gTLD, e sTLD

UDRP Universal Domain Name Dispute Política Universal de Resolução de Disputas


Resolution Policy sobre Nomes de Domínio – inicialmente
aplicada pela OMPI e implementada pela
ICANN para resolução de disputas em torno
do direito de uso de nomes de domínio

UNCTAD United Nations Conference on Conferência das Nações Unidas sobne


Trade and Development Comércio e Desenvolvimento

UNDP United Nations Development Programme Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD)

UNESCO United Nations Educational, Scientific and Organização das Nações Unidas para a
Cultural Organisation Educação, Ciência e Cultura

Unicode Standard intended to provide a unique Padrão que estabelece um número único
number for every character, indepen- para qualquer caractere, independente da
dent of computing platform, program, or plataforma computacional, programa ou
language idioma

UNICTTF United Nations Information and Commu- Força-Tarefa de Tecnologias de Informa-


nication Technologies Task Force ção e Comunicação das Nações Unidas

UUCP Unix-to-Unix Copy Protocol Protocolo de Cópia Unix-a-Unix

VoIP Voice over IP Voz sobre IP – telefonia utilizando a rede


Internet como meio de transporte

W3C World Wide Web Consortium Consórcio WWW

WAI W3C Web Accessibility Initative Iniciativa de Acessibilidade Web

WGIG Working Group on Internet Governance Grupo de Trabalho sobre Governança da


Internet (GTGI)
apêndice ii - glossário 95
WHOIS Transaction oriented query/response pro- Protocolo de consulta e resposta ori-
tocol widely used to provide information entado a transações usado amplamente
services to Internet users para fornecer serviços de informação a
usuários Internet –é usado pela maioria
dos registros e registradores para fornecer
dados de detentores de nomes de domínio
e de blocos de números IP

Wi-Fi Wireless Fidelity Protocolo de interconexão e transporte de


dados por rádio digital permitindo altas
velocidades de conexão a baixo custo em
distâncias relativamente curtas (alguns
quilômetros)

Wi-Max Wireless Max Protocolo de interconexão e transporte de


dados por rádio digital permitindo altas
velocidades de conexão a baixo custo em
longa distância (dezenas de quilômetros)

WIPO World Intellectual Property Organization Organização Mundial da Propriedade


Intelectual (OMPI)

WITSA World Information Technology Aliança Mundial de Serviços de


Services Alliance Tecnologias de Informação

WSIS World Summit on the Information Society Cúpula Mundial sobre a Sociedade da
Informação

WTO World Trade Organization Organização Mundial do Comércio (OMC)


96 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

Apêndice III

Referências na web

AfriNIC Africa Network Information Centre http://www.afrinic.net


ALAC At-Large Advisory Committee http://alac.icann.org
Anatel Agência Nacional de Telecomunicações (Brasil) http://www.anatel.gov.br
APC Association for Progressive Communications http://www.apc.org
APNIC Asia Pacific Network Information Centre http://www.apnic.net
ARIN American Registry for Internet Numbers http://www.arin.net
ASO Address Supporting Organization http://aso.icann.org
ccNSO Country Code Domain Name Supporting Organization http://ccnso.icann.org
CENTR Conference of European National Top Level
Domain Registries http://www.centr.org
CERT.br Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de
Incidentes de Segurança no Brasil http://www.cert.br
CERT/CC CERT Coordination Center at Carnegie-Mellon
University http://www.cert.org
CGIbr Comitê Gestor da Internet no Brasil http://www.cgi.br
CIS Center for Internet Security http://www.cisecurity.org
CITEL Inter-American Telecommunication Commission
(Organization of American States) http://www.citel.oas.org
COE Council of Europe http://www.coe.int
CORE Council of Registrars http://www.corenic.org
CompTIA Computing Technology Industry Association http://www.comptia.org
CRIS Communication Rights in the Information Society http://www.crisinfo.org
CRIS Brasil Direito à Comunicação na Sociedade da Informação http://www.crisbrasil.org.br
DISA Data Interchange Standards Association http://www.disa.org
EDIFICE European B2B Forum for the Electronic Industry http://www.edifice.org
ENISA European Network and Information Security Agency http://www.enisa.eu.int
ETNO European Telecommunications Network Operators’
Association http://www.etno.be
ETSI European Telecommunications Standardization
Institute http://www.etsi.org
EU European Union http://europa.eu.int
FAPESP Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo http://www.fapesp.br
apêndice iii - referências na web 97
FIRST Forum of Incident Response and Security Teams http://www.first.org
GAC Governmental Advisory Committee http://gac.icann.org
GBDe Global Business Dialogue on Electronic Commerce http://www.gbde.org
GNSO Generic [Domain] Names Supporting Organization http://gnso.icann.org
IAB Internet Architecture Board http://www.iab.org
IADB Inter-American Development Bank http://www.iadb.org
IAHC Internet International Ad-Hoc Committee http://www.iahc.org
IANA Internet Assigned Numbers Authority http://www.iana.org
ICANN Internet Corporation for Assigned Names
and Numbers http://www.icann.org
ICANN Watch ICANN Watch Project http://www.icannwatch.org
ICC International Chamber of Commerce http://www.iccwbo.org
ICPEN International Consumer Protection and
Enforcement Network http://www.icpen.org
ICRA Internet Content Rating Association http://www.icra.org
IEEE Institute of Electrical and Electronics Engineers http://www.ieee.org
IETF Internet Engineering Task Force http://www.ietf.org
IFWP International Forum for the White Paper http://www.ifwp.org
IGP Internet Governance Project http://www.internetgovernance.org
INTA International Trademark Association http://www.inta.org
ISC2 International Systems Security Certification
Consortium, Inc. http://www.isc2.org
ISI Information Sciences Institute http://www.isi.edu
ISO International Organization for Standardization http://www.iso.org
ISOC Internet Society http://www.isoc.org
ISSA Information Systems Security Association http://www.issa.org
ITAA Information Technology Association of America http://www.itaa.org
ITU International Telecommunication Union http://www.itu.int
LACNIC Latin American and Caribbean Internet Addresses
Registry – the Regional Internet Registry for Latin
America and the Caribbean http://www.lacnic.net
LACTLD Latin American and Caribbean ccTLDs Organization http://www.lactld.org
MINC Multilingual Domain Names Consortium http://www.minc.org
MPAA Motion Picture Association of America http://www.mpaa.org
NAIS NGO and Academic ICANN Study http://www.naisproject.org
NATLD North America Top-Level Domain Organization http://www.natld.org
NCUC Non-Commercial Users Constituency http://www.ncdnhc.org
NIC.br Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto br http://www.nic.br
NRO Number Resource Organization http://www.nro.org
NTIA National Telecommunications and Information
Administration http://www.ntia.doc.gov
NSF National Science Foundation http://www.nsf.gov
98 governança da internet - contexto, impasses e caminhos

NSI Network Solutions, Inc. http://www.networksolutions.com


OAS Organization of American States http://www.oas.org
OASIS Organization for the Advancement of Structured
Information Standards http://www.oasis-open.org
OECD Organization for Economic Cooperation
and Development http://www.oecd.org
OPPI Observatório de Políticas Públicas de Infoinclusão http://infoinclusão.org.br
ORDIG Open Regional Dialogue on Internet Governance http://igov.apdip.net
PIR Public Interest Registry http://www.pir.org
PTT.br Pontos de Troca de Tráfego CGIbr/RNP http://www.ptt.br
Registro.br Registro de Domínios para a Internet no Brasil http://registro.br
Regulatel Latin-American Forum of Telecommunication
Regulators http://www.regulatel.org
RIAA Recording Industry Association of America http://www.riaa.org
RIPE/NCC Réseaux IP Européens/Network Coordination Center http://www.ripe.net
RNP Rede Nacional de Ensino e Pesquisa http://www.rnp.br
RSSAC Root Server System Advisory Committee www.icann.org/committees/dns-root
UNCTAD United Nations Conference on Trade and Development http://www.unctad.org
UNDP United Nations Development Programme http://www.undp.org
UNESCO United Nations Educational, Scientific and
Cultural Organisation http://www.unesco.org
UNICTTF United Nations Information and Communication
Technologies Task Force http://www.unicttf.org
W3C World Wide Web Consortium http://www.w3c.org
WAI W3C Web Accessibility Initative http://www.w3.org/WAI
WGIG Working Group on Internet Governance http://www.wgig.org
WIPO World Intellectual Property Organization http://www.wipo.org
WITSA World Information Technology Services Alliance http://www.witsa.org
WSIS World Summit on the Information Society http://www.wsis.org
WTO World Trade Organization http://www.wto.org