Vous êtes sur la page 1sur 15
Como, onde e quando? Resgate histórico e epistemológico do pensamento Humanista, Fenomenológico e Existencial Parte 2
Como, onde e quando? Resgate histórico e
epistemológico do pensamento Humanista,
Fenomenológico e Existencial
Parte 2
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ARARAQUARA – UNIARA NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – NEAD Reitor Prof. Dr.
CENTRO UNIVERSITÁRIO DE ARARAQUARA – UNIARA
NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA – NEAD
Reitor
Prof. Dr. Luiz Felipe Cabral Mauro
Pró-Reitor Acadêmico
Prof. Flávio Módolo
Pró-Reitor Administrativo
Prof. Esp. Fernando Soares Mauro
Coordenação do NEAD
Prof. Dr. Edmundo Alves de Oliveira
Coordenação da Secretaria Geral
Prof. Ms. Ricardo Arruda Mauro
Coordenadora de Produção de Material
Profª. Ms. Eduarda Escila Ferreira Lopes
Coordenador Pedagógico
Profª. Dra.Luciene Cerdas
Este material foi produzido pelo Centro Universitário de
Araraquara - UNIARA e está disponível ao aluno regularmente
matriculado no Núcleo de Ensino a Distância – NEAD.
Contato – Secretaria NEAD
secnead@uniara.com.br
Unidade I: Como, onde e quando? Resgate histórico e epistemológico do pensamento Humanista, Fenomenológico e Existencial
Unidade I: Como, onde e quando? Resgate histórico e epistemológico do
pensamento Humanista, Fenomenológico e Existencial
Parte 2
Raízes históricas da Fenomenologia: contextualizando o seu surgimento
O pensamento fenomenológico tem como locus de origem o contexto
filosófico europeu do final do século XIX e início do século XX, pelas publicações
de Edmund Husserl, matemático e filósofo alemão (1859-1938). Qualquer leitor
que pretenda compreender os alcances da proposta filosófica de Husserl não
poderá prescindir de vincular o seu projeto fenomenológico ao contexto histórico
em que foi originado, sob pena de empreender uma leitura fragmentada e
desprovida de sentido, o que culminaria no empobrecimento e na banalização
reducionista das contribuições deste filósofo no âmbito das teorias do
conhecimento vigentes da época, ante as quais representou contraponto.
Assim, as ideias de Husserl tiveram como solo de emergência um contexto
histórico notadamente marcado pela desestabilização dos grandes sistemas
filosóficos previamente legitimados que, por sua vez, tiveram que responder aos
questionamentos que lhes foram dirigidos no que diz respeito à validade das
teorias do conhecimento que sustentavam. Os sistemas filosóficos da época
demarcavam o terreno a ser explorado pelas ciências em geral, já que ofereciam
ao cientista o fundamento epistemológico no qual este poderia se apoiar para
buscar conhecer o seu objeto de estudo.
Husserl abnegava os sistemas filosóficos existentes e denunciava a sua
insuficiência para responder ao fundamento máximo e apriorístico de todo saber
humano: o que suscita o pensar? A esse respeito, Amatuzzi (2009) esclarece que:
Diante da ciência, Husserl percebeu que, apesar de todo seu
sucesso no desvendamento prático do funcionamento das
coisas, ela deixava a desejar porque não trazia por si mesma
uma resposta que satisfizesse a toda necessidade de saber
do ser humano. A ciência ficava limitada ao âmbito permitido
1
por seu método, o âmbito do empírico, do positivo, do imediatamente verificável. A questão do significado
por seu método, o âmbito
do
empírico, do positivo, do
imediatamente verificável. A questão do significado da
realidade ou do sentido do mundo ficava fora do método
científico. Desvendar o mundo medindo suas extensões:
essa é a linguagem e esse é o limite da ciência que Husserl
tinha diante de si (p. 94).
Assim, Husserl parecia assistir a uma coleção de sistemas filosóficos
excludentes entre si, que fracassavam na tarefa primeira da Filosofia, a saber, a
de compreender o sentido da realidade, ao invés de fundamentar a enunciação
científica de explicações a seu respeito. Desta feita, os sistemas filosóficos
desenvolvidos até o início do século XX acederam à armadilha de fragmentar a
verdade em perspectivas distintas e divergentes, distanciando cada vez mais a
Filosofia do senso integrador e totalizador que, em primeira instância, esta deveria
perseguir. Os filósofos da época acreditavam, portanto, que contribuíam para
defender o estatuto da Filosofia sem, contudo, reconhecerem explicitamente que,
perseguindo a intenção que anima a Filosofia, deixavam de fazê-la perdendo-se
em seus próprios passos.
Visando a alcançar o entendimento acerca da armadilha da Filosofia, tal
como esta se sustentou ao longo de sua evolução histórica, é premente revisitar
detalhadamente os desafios epistemológicos que se apresentaram a Husserl, na
ocasião em que perseguia o propósito de fundar um posicionamento
fenomenológico.
Para Valentini (1984), a Fenomenologia assumiu como desafio a tarefa de
combater a estagnação das coisas em teorias, passando a considerar relativa à
validade incontestável dos sistemas de compreensão da realidade. Questionava-
se o caráter incontestável da verdade, tal como assumida pelas teorias, o que
culminou no entendimento de que as teorias seriam apenas perspectivas ou
pontos de vista sobre as coisas.
No final do século XIX, predominavam duas vertentes teóricas na Filosofia
acerca da origem do conhecimento – o Empirismo e o Racionalismo – ante as
2
quais a Fenomenologia se posicionou contrária. Faz-se necessário compreendê- las em separado para, posteriormente, articulá-las na
quais a Fenomenologia se posicionou contrária. Faz-se necessário compreendê-
las em separado para, posteriormente, articulá-las na crítica husserliana.
O Empirismo, teoria do conhecimento cujo principal representante foi o
filósofo britânico John Locke (1632-1704), está amparado na concepção de que o
ato de conhecimento se fundamenta na experiência do mundo, considerando a
percepção sensorial como o único meio de conhecer as coisas dispostas na
realidade. Dentro desta perspectiva, a verdade está localizada na realidade
sensível, podendo ser observada e evidenciada por meio do método experimental
e traduzida em ideias pelo raciocínio analítico-indutivo. Mediante a
experimentação, o cientista que se apoia na perspectiva empirista pode realizar a
testagem e a verificação de suas hipóteses e teorias, para então conferir a elas a
legitimidade científica.
Já o Racionalismo, teoria do conhecimento originada na França no século
XVII, por seu fundador René Descartes (1596-1650), filósofo e matemático,
enaltece o valor da razão como fundamento máximo de todo ato de conhecimento.
Com a célebre sentença “penso, logo existo”, Descartes põe em evidência a
precedência da racionalidade sobre a existência, concebendo-a como uma
condição inata, ressaltando que, por seu intermédio, ao homem é possível
compreender certas verdades universais, a partir das quais, por dedução, outros
conhecimentos podem ser inteligíveis ao homem, independentemente de sua
demonstração factual e experimental. A busca da verdade se sustenta por um
conhecimento apriorístico não fundamentado na experiência sensível, mas sim e
exclusivamente pela razão.
Conforme assegura Bruns (2003), a corrente racionalista cartesiana
demarca a posição do sujeito pensante, ao conceber o intelecto como o método
por excelência para alcançar o conhecimento, já que por seu intermédio, os
fenômenos naturais e humanos poderiam ser devidamente explicados em sua
causalidade.
3
Desta breve descrição depreende-se que o Empirismo e o Racionalismo se opõem radicalmente, na medida em
Desta breve descrição depreende-se que o Empirismo e o Racionalismo se
opõem radicalmente, na medida em que, para buscar a verdade, a primeira
corrente privilegia a primazia da experiência sobre a razão, enquanto a segunda
defende a autoridade da razão sobre a demonstração experimental sensível. É
notório que ambas as teorias concordam na tarefa de perpetuar a dicotomia entre
sujeito cognoscente e objeto, entre homem e realidade, entre ideia e experiência,
destacando a predominância e a sobreposição excludente de um elemento em
relação ao outro destes binômios.
A crítica husserliana às referidas teorias do conhecimento atendem ao
propósito conciliatório entre sujeito e objeto, superando a dicotomia entre homem
e realidade no ato de conhecimento. Desta maneira, “a fenomenologia não prioriza
nem sujeito e nem objeto, mas, sim, a indissocialização de um aspecto e outro na
própria estrutura da vivência da experiência intencional” (BRUNS, 2003, p. 68).
Ainda segunda a autora supracitada, contrariando tanto a perspectiva
racionalista quanto a empirista, Husserl assevera a inexistência de uma
consciência pura desvinculada de um objeto a ser percebido, assim como nega a
presença de um objeto em si, independente de uma consciência que o perceba. A
esse respeito, esclarece Dartigues (1992) que:
A consciência não é mais, consequentemente, uma parte do
mundo, mas o lugar de seu desdobramento no campo
original da intencionalidade. Isso significa que o mundo não
é em primeiro lugar e em si mesmo o que explicam as
filosofias especulativas ou as ciências da natureza, já que
essas explicações são posteriores à abertura do campo
primordial, mas sim que ele é em primeiro lugar o que
aparece à consciência e a ela se dá na evidência irrecusável
de sua vivência. O mundo não é assim nada mais que o que
ele é para a consciência (p.21).
Conferindo legitimidade à incontornável reciprocidade entre consciência e
objeto que se consolida no próprio ato de conhecimento, Husserl pretendia
reposicionar a questão das ciências em geral. Husserl denunciou o esquecimento
4
da intenção primária que anina a ciência e, a partir disso, procurou resgatá-la por meio da
da intenção primária que anina a ciência e, a partir disso, procurou resgatá-la por
meio da reconciliação da verdade a sua origem fundante, ou seja, o modo de visar
da consciência, fundamentalmente intencional em direção aos fenômenos que
percebe, doando-lhes sentido. Assim, a Fenomenologia contrapõe o intento
científico de contemplar a realidade como a-histórica e provida de essências
generalizáveis, estáticas e acabadas, para dedicar atenção à análise do
dinamismo humano de atribuir sentido aos objetos visados no mundo
(DARTIGUES, 1992).
Especialmente no que tange às teorias do conhecimento, observa-se que
Husserl não pretendia, então, criar um novo sistema filosófico para chamar de
“seu”, capaz de denunciar a falência dos sistemas anteriores, já que tal intento o
faria sucumbir justamente à lógica que tanto pretendia refutar, a saber, a de
defender um sistema específico de compreensão da realidade. Nesta direção,
evidencia-se que Husserl abnegava a perspectiva perpetuada pelos filósofos da
época que, quando inauguravam seus sistemas, cuidavam de denunciar as
inconsistências de seus antecessores, enaltecendo a visibilidade de suas próprias
teses.
Desse modo, preocupou-se Husserl em tomar distância do fato do
conhecimento, para sobre ele debruçar seus esforços em busca de seu sentido
primário. Ao invés de dizer o que as coisas são, pretendia Husserl questionar
sobre o sentido do ser das coisas, ou seja, indagar sobre como é possível que as
coisas sejam o que são. Assim, a Fenomenologia afasta-se da realidade em si, tão
investida pelos propósitos científicos da época, para perguntar pelo sentido da
ciência, o fundamento que a anima.
Orientando-se por tal propósito, Husserl não fundou um novo sistema
filosófico, mas inaugurou uma nova forma de fazer Filosofia, o que, segundo
Amatuzzi (2009), engendraria mais uma transição de paradigma do que
propriamente a constituição de uma corrente filosófica, já que traduzia um modo
de pensar e de compreender o ato do conhecimento.
5
Assim, antes de enunciar assertivas a respeito do que se conhece, Husserl revisita o questionamento sobre
Assim, antes de enunciar assertivas a respeito do que se conhece, Husserl
revisita o questionamento sobre como se pode conhecer a realidade,
considerando como o sujeito conhece e como as coisas se dão a conhecer. Em
busca desta elucidação, Husserl criticou tanto a filosofia positivista do século XIX
que fundamentou a tradição científica experimental, quanto o naturalismo que
permeou a Filosofia e a Psicologia.
Em relação à filosofia positivista, Husserl criticou a ênfase atribuída por ela
à viabilidade de um conhecimento exato, objetivo e neutro por meio do método
experimental, eleito o único caminho válido para a investigação da verdade.
Já em relação ao naturalismo presente na Filosofia e na Psicologia,
considerou inviável a tentativa de assemelhar os fenômenos psíquicos aos
fenômenos naturais, submetendo os primeiros à observação controlável, já que
para Husserl, quando o objeto de estudo é o homem, sendo este dotado de
subjetividade e de um psiquismo essencialmente plástico, não é possível
evidenciá-lo exclusivamente pelos fatos observáveis, pois a experiência vivida
pelo homem nem sempre se põe a conhecer pela observação (BRUNS, 2003).
Ainda a respeito da crítica husserliana ao naturalismo presente nas ciências
cujo objeto de estudo era o psiquismo, Corrêa (1997) elucida que
desconsiderando a especificidade de seu objeto, as ciências naturais acabavam
por tratar o homem como um objeto físico, cometendo um equívoco ao
compreender os fatos observáveis e as manifestações exteriores humanas como a
expressão exata da natureza própria deste fenômeno. Em outras palavras, a
essência do homem estava fadada a ser reduzida às manifestações concretas e
passíveis de observação e verificação pela experiência sensível do pesquisador.
Assim, nota-se que a proposta husserliana contrapõe a perspectiva
mecanicista que perdura nas ciências naturais e, como o próprio Husserl
denunciou, invadiu também o âmbito das ciências humanas. Por preconizar a
padronização do ato do conhecimento visando à busca da legítima verdade
científica, as ciências empreenderam a anulação da subjetividade do pesquisador
6
(sujeito cognoscente) em prol da objetividade inquestionável da ciência em ato. Husserl, em contraponto, resgata o
(sujeito cognoscente) em prol da objetividade inquestionável da ciência em ato.
Husserl, em contraponto, resgata o papel da subjetividade do ato do
conhecimento, já que a realidade sempre aparece para a consciência de alguém,
que não é anônimo e participa daquilo que vê se apresentar diante de seus olhos.
Sobre essa divergência, Silva (2009) esclarece que a ciência clássica
negligencia a relação que se estabelece entre o homem e o mundo, partindo do
pressuposto de que, para que a objetividade se torne possível, é preciso negar a
subjetividade do pesquisador. Já para a fenomenologia, a possibilidade do
conhecimento está fundada na apropriação da essência das coisas, o que só é
possível a partir da atribuição de sentido por uma consciência, o que pressupõe o
reconhecimento de uma subjetividade.
Embora
ambas
as
perspectivas
busquem
a
evidência
e
o
rigor
na
apreensão dos fenômenos estudados, deflagra-se uma divergência fundamental
na forma como a ciência positivista e a fenomenologia compreendem a
legitimidade e o rigor de um dado conhecimento. Conforme afirma Silva (2009):
O rigor na perspectiva da ciência é a condição “sine qua non”
no método científico, para a validação do conhecimento. Por
outro lado, a descrição rigorosa dos modos como os
fenômenos se apresentam à consciência, sem a emissão de
quaisquer juízos sobre os mesmos, constitui a exigência
maior da fenomenologia. A evidência, por outro lado,
“autoriza” a emergência do status de objeto científico a um
dado fenômeno. A falta de evidência implica a possibilidade
da sua inexistência, de questionamentos, de uma explicação
racional (p. 140).
Martins, Boemer e Ferraz (1990) esclarecem que a Fenomenologia não se
ocupa de explicar o fenômeno estudado buscando algum nexo causal, mas se
preocupa em descrevê-lo. Assim, a Fenomenologia mostra ao invés de
demonstrar, e é justamente pela sua fidelidade à evidência mesma do fenômeno
tal como se manifesta para a consciência de alguém que constitui o seu rigor
enquanto potencial fundamento para o exercício científico.
7
Os mesmos autores referem ainda que a Fenomenologia reorienta o alvo do conhecimento do fato para
Os mesmos autores referem ainda que a Fenomenologia reorienta o alvo
do conhecimento do fato para o fenômeno. O fato, sendo passível de controle,
enraíza seus fundamentos na lógica e no positivismo clássico que, por sua vez,
concebem o fato como um objeto que pode ser mensurado, objetivado, definido e
explicado por associações causais. Em contraponto, quando a ciência pretende
compreender fenômenos, não é viável ao pesquisador se apoiar em princípios
explicativos, teorias ou qualquer indicações anteriores que possam definir
aprioristicamente o fenômeno em estudo, não havendo qualquer ideia que
influencie o seu movimento de interrogar aquilo que se deseja compreender.
Dentro desta lógica, pode-se observar que, na tentativa de reconciliar a
subjetividade do sujeito cognoscente à objetividade do fenômeno a ser conhecido,
Husserl apresenta o seu projeto fenomenológico como o fundamento radical de
todo saber humano e, consequentemente, da ciência. Para a fenomenologia, não
é possível ao homem conhecer a verdade irredutível de um objeto exterior, distinto
dele, mas pode compreendê-lo na forma como este objeto se revela ante a sua
consciência. Da mesma forma, não é possível ao homem conceber a si próprio
como objeto sem que seja considerada a sua forma singular de compreender e
significar sua existência como ente. Desta forma, sendo o seu objeto natural ou
humano, o pesquisador, sendo homem, não poderá estabelecer com ele uma
relação neutra e distante, já que ele só conseguirá enunciar alguma elucidação a
respeito daquilo que percebeu pessoalmente e ao qual atribuiu um sentido. A esse
respeito, Merleau-Ponty (1999) afirma que:
Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a
partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo
sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada.
Todo o universo da ciência é construído sobre o mundo
vivido, e se queremos pensar a própria ciência com rigor,
apreciar exatamente seu sentido e seu alcance, precisamos
primeiramente despertar essa experiência do mundo da qual
ela é a expressão segunda. A ciência não tem e não terá
jamais o mesmo sentido de ser que o mundo percebido
...
(p.
3).
8
Husserl denomina de atitude natural a ingenuidade da ciência tradicional em perpetuar a separação radical entre
Husserl denomina de atitude natural a ingenuidade da ciência tradicional
em perpetuar a separação radical entre o mundo dos objetos e os homens, de
modo que o objeto possa existir independentemente da presença de alguém que o
perceba. “Enquanto as ciências positivas consideram os objetos como indepen-
dentes do observador, a fenomenologia tematiza o sujeito, o eu transcendental,
que “coloca” os objetos” (ZILLES, 2007, p. 218), o que equivale a afirmar a
inexistência de um sujeito cognoscente em si, isolado de seu objeto. Assim,
Husserl inaugura uma nova atitude para se conhecer as coisas em sua evidência
fundamental, a atitude fenomenológica, que consiste em suspender a atitude
natural, ou seja, renunciar à crença de que as coisas existem sem que nós
participemos delas como espectadores e doadores de sentido, para então deixar
florescer a revelação genuína dos fenômenos à consciência, para descrevê-los
vivencialmente em sua pureza e possibilidade, sem a interferência de concepções
pré-fabricadas e generalizadas.
Nessa direção, conforme elucida Martins, Boemer e Ferraz (1990):
A fenomenologia proposta por Husserl é uma volta ao mundo
da experiência, pois este é o fundamento de todas as
ciências. Essa volta ao mundo vivido, termo introduzido por
Husserl, rompe definitivamente com a pretensão de uma
epistemologia das ciências humanas fundada a partir do
modelo das ciências naturais: antes da realidade objetiva há
um sujeito conhecedor, antes da objetividade há o horizonte
do mundo e antes do sujeito da teoria do conhecimento, há
uma vida “operante” (p. 141).
Sobre a citação anterior, cabe um esclarecimento. Ao se referirem à
experiência como fundamento de todas as ciências, os autores não pretendem
assemelhar a Fenomenologia ao Empirismo, considerando assimétrica a relação
do pesquisador com seu objeto, na medida em que o pesquisador é uma tábula
rasa na qual serão registradas as evidências provindas da percepção sensível da
realidade. A Fenomenologia considera o caráter vivencial da experiência, na
medida em que o sujeito cognoscente se relaciona com o objeto a ser conhecido
de forma bidirecional, sendo que sua consciência se faz presente no ato do
9
conhecimento. Assim, a leitura fenomenológica da experiência contrapõe severamente a anulação da subjetividade do conhecedor no
conhecimento. Assim, a leitura fenomenológica da experiência contrapõe
severamente a anulação da subjetividade do conhecedor no ato do conhecimento,
estratégia que se revela tão predominante na perspectiva empirista em seu intento
de alcançar a verdade.
Em conformidade com o entendimento dos autores, pode-se afirmar que a
Fenomenologia torna relativo o valor das teorias já legitimadas no âmbito das
ciências humanas, pois elas nada poderão esclarecer acerca da experiência vivida
imediata do sujeito em direção ao seu objeto visado, uma vez que o ato de
conhecimento é inédito e marcadamente singular, assim como a atribuição de
significados e sentidos que dele derivam.
Com o intento de finalizar a pauta aqui empreendida, a saber, a de resgatar
as raízes históricas e epistemológicas do pensamento fenomenológico,
considerando-se os principais fundamentos que culminaram na gênese das obras
de Edmund Husserl no campo da Filosofia, convém introduzir a compreensão do
termo essência.
Para Moreira (2002), a Fenomenologia consiste em uma ciência que parte
“do zero”, prescindindo de pressuposições preliminares e quaisquer teorias
científicas ou filosóficas acerca do fenômeno estudado, tomando como ponto de
partida apenas a experiência diretamente dada. Assim, o conhecedor que se apoia
na Fenomenologia se guia pelo “princípio dos princípios, segundo o qual o
conhecimento dado originalmente pela intuição é conhecimento verdadeiro e deve
ser aceito como se apresenta” (p. 83). O autor esclarece que, para Husserl, é
possível alcançar às características essenciais de todo e qualquer fenômeno que
se manifeste à consciência, sendo eles factuais ou não, considerando-se a
essência como o sentido ideal ou verdadeiro de alguma coisa, ou seja, é a
unidade básica que permite a qualquer fenômeno ser entendido, “aquilo sem o
que o próprio fenômeno não pode ser pensado” (p.84).
Ocorre que, se refletirmos sobre a tentativa da ciência de substancializar a
essência dos fatos estudados, veremos que ora a essência se localiza no objeto
10
outrora a essência se localiza na ideia ou na representação sobre o fato, acedendo respectivamente ao
outrora a essência se localiza na ideia ou na representação sobre o fato,
acedendo respectivamente ao empirismo e ao racionalismo. De toda maneira, a
essência da qual fala o positivismo obscurece a natureza própria do objeto de
estudo das ciências humanas, enquanto que a essência da qual versa a
Fenomenologia se vê reconciliada à subjetividade do sujeito cognoscente. Assim,
evidencia-se que, ainda que se associe a essência ao modo de revelação de um
fenômeno, sua emergência enquanto tal não prescindirá de seu solo subjetivo, já
que algo somente se mostra a alguém.
Sendo assim, a Fenomenologia não pretendeu se tornar um método
alternativo aos já legitimados no âmbito científico, mas se apresentou ante ao seu
contexto histórico e epistemológico como uma nova ontologia, distinta da tradição
ocidental metafísica vigente (modo tradicional do pensamento ocidental, cujas
manifestações modernas são a ciência e a tecnologia). Para Critelli (2007), as
contribuições desta nova ontologia permitiram o vislumbre de novos significados
para homem, mundo, pensamento, ser, verdade, tempo e espaço e, em
decorrência desta reorientação da questão da Filosofia e da ciência, recoloca-se
em evidência o problema da perspectiva, ponto de tensão entre a tradição
metafísica ocidental e a fenomenologia. Nesta direção, o desafio epistemológico
imposto pela fenomenologia à metafísica ocidental refere-se ao reconhecimento
de Husserl do caráter provisório, mutável e relativo da verdade, desestabilizando
as bases científicas clássicas, que tanto enaltecem o valor da verdade uma,
estável e absoluta. Assim, nas palavras da autora: “um ponto de vista é apenas
um ponto de vista; uma perspectiva é apenas uma perspectiva entre outras. E é
como uma perspectiva relativa e provisória que a fenomenologia mesma se
autocompreende” (p. 12).
Encerra-se essa breve exposição com as palavras do próprio fundador da
Fenomenologia, pelas quais se torna notório que as suas obras também
mereciam, aos olhos dele, o estatuto de provisoriedade e inacabamento. E foi em
meio a esta atmosfera de fluidez e devir que Husserl revisitou sua jornada como
filósofo:
11
Se por um lado o autor precisou praticamente rebaixar o ideal de suas aspirações filosóficas, ao
Se por um lado o autor precisou praticamente rebaixar o
ideal de suas aspirações filosóficas, ao de um simples
principiante, por outro lado chegou, com a idade, à plena
certeza de poder chamar-se um efetivo principiante
...
estendida diante de si a terra infinitamente aberta da
verdadeira Filosofia, a „terra prometida‟ que ele mesmo já
não verá plenamente cultivada (HUSSERL, 1913, tradução
publicada em 1986, p. 304).
12
Referências AMATUZZI, M. M. Psicologia fenomenológica: uma aproximação teórica humanista. Estudos de Psicologia, Campinas, 26(1), janeiro-março,
Referências
AMATUZZI, M. M. Psicologia fenomenológica: uma aproximação teórica
humanista. Estudos de Psicologia, Campinas, 26(1), janeiro-março, 2009: 93-
100.
BRUNS, M. A. T. A redução fenomenológica em Husserl e a possibilidade de
superar impasses da dicotomia subjetividade - objetividade. In: BRUNS, M. A. T.
&.
HOLANDA, A. F. (Org.) Psicologia e fenomenologia: reflexões e perspectivas.
Campinas-SP: Editora Alínea, 2003, p. 65-75.
CORRÊA, A. K. Fenomenologia: uma alternativa para a pesquisa em enfermagem.
Revista Latino-americana de Enfermagem – Ribeirão Preto, 5(1), janeiro, 1997:
83-88.
CRITELLI, D. M. Analítica do sentido: uma aproximação e interpretação do real
de orientação fenomenológica. 2. ed. SP: Brasiliense, 2007.
DARTIGUES, A. O que é a fenomenologia? São Paulo: Moraes, 1992.
HUSSERL, E. Ideas relativas a uma Fenomenologia Pura y uma Filosofia
Fenomenológica. México: Fondo de Cultura Econômica, 1986.
MARTINS, J.; BOEMER, M. R.; FERRAZ, C. A. A fenomenologia como alternativa
metodológica para pesquisa: algumas considerações. Revista da Escola de
Enfermagem da USP, São Paulo, 24(1), abril, 1990: 139-147.
MERLEAU-PONTY,
Fontes, 1999.
M.
Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins
MOREIRA, D. A. O método fenomenológico na pesquisa. SP: Pioneira
Thomson Learning, 2002.
SILVA, F. A. N. Fenomenologia e Psicologia: uma relação epistemológica.
Psicologia em foco, 2(1), jan./jun., 2009: 139-142.
VALENTINI, L. Fenomenologia e dialética. In: MARTINS, J.; DICHTCHEKENIAN,
M.F.S.F.B. (Org.) Temas fundamentais de Fenomenologia. São Paulo: Moraes,
1984, p. 35-54.
ZILLES, U. Fenomenologia e teoria do conhecimento em Husserl. Revista da
abordagem Gestáltica – XIII(2), jul-dez, 2007: 216-221.
13