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Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER, duas formas em concorrência

Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

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Título: Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER Autor: Maria Lúcia Pinheiro Sampaio Editora: CopyMarket.com, 2000 ISBN:

Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER, duas formas em concorrência

Índice

Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

Prefácio

02

Primeira Parte: Do Latim Clássico às Línguas Românicas

03

Segunda Parte: Do Português Arcaico ao Português Moderno

07

1. Século XIII

07

2. Século XIV

08

3. Século XV

14

4. Século XVI

17

5. Século XVII

22

6. Século XVIII

23

7. Século XIX

24

8. Século XX

27

Conclusão

31

Bibliografia

33

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Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER, duas formas em concorrência

Prefácio

Lendo escritores brasileiros modernos como Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, constatamos que a construção da oração impessoal com o verbo ter, tão empregada na linguagem falada já começava a ser largamente usada na língua escrita.

Como as nossas gramáticas seguem uma orientação muito tradicional, não encontramos nem explicações, nem estudos que explicassem satisfatoriamente esta curiosa construção que alguns gramáticos ainda relutam em aceitar.

Em vista disto, resolvemos fazer uma pesquisa que elucidasse esta construção. Desde o início, percebemos a impossibilidade de se estudar verbo ter separado de haver, pois desde o latim clássico eram afins em muitos empregos. No português, eles sempre tiveram empregos paralelos e à medida que o verbo haver se foi desgastando e esvaziando semanticamente, foi sendo substituído por ter. Eram portanto, formas em concorrência, até que uma acabou por superar definitivamente a outra.

O nosso trabalho que abrangeu o português do

século XIII ao século XX, se propôs estudar os verbos ter e haver nos seus diversos empregos, procurando elucidar as causas do desgaste de haver e de sua substituição por ter. Fizemos um estudo sincrônico dos verbos ter e haver em cada século, procurando estabelecer a proporção em que eram usados e estudando os seus vários empregos.

Só depois de termos feito estudos sincrônicos dos

verbos ter e haver em vários séculos é que pudemos ter uma visão diacrônica da trajetória dos mesmos. Com o estudo destas sincronias sucessivas,

Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

chegamos ao que Bernard Pottier chama de “diacronia das sincronias”. 1

Com o nosso estudo, tentamos demonstrar a legitimidade da oração existencial com o verbo ter e elucidar questões que tem suscitado controvérsias, como o emprego dos verbos ter e haver, indicando posse, como auxiliares da conjugação composta e

em perífrases herdadas diretamente do latim.

Partindo de um problema sincrônico suscitado pela realidade lingüística do século XX, fizemos um retrospecto e estudamos a sintaxe dos verbos “ter e haver”, desde o latim clássico até o português atual. Como diz Bernard Pottier “é utópico crer que se pode estabelecer uma estrutura unicamente sincrônica. Uma sincronia somente tem existência dentro de uma diacronia geral.” 2

O estudo destes dois verbos que sempre tiveram

empregos paralelos, era uma necessidade que o grande filólogo português, Manuel de Paiva Boleo, já havia sentido. 3

1 Bernard Pottier – Linguística Moderna y filologia Hispánica pág.12: “Urge, no terreno descritivo, estabelecer numerosos sistemas sincrônicos ao largo dos séculos, para as épocas que se suspeitem mais reveladoras. Com estas sincronias sucessivas será possível pensar no estudo de sua evolução, chegando assim à disciplina ideal dos lingüistas, “A DIACRONIA DAS SINCRONIAS”; vários filólogos estão

agora de acordo com esta visão do estudo lingüístico”.

2 Bernard Pottier - op. cit. pg. 13. 3 Manuel de Paiva Boleo - O Perfeito e o Pretérito em Português - pg. 24: “Não é possível, por enquanto, traçar com rigor a sucessão dos fenômenos, visto nos faltarem por completo estudos parcelares, designadamente uma “pequena sintaxe do português arcaico” e um trabalho pormenorizado sobre ter e haver como auxiliares, nas fases mas remotas da língua.”

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Primeira Parte Do Latim Clássico às Línguas Românicas

Desde o latim clássico, os verbos habere e tenere tinham empregos paralelos, exprimindo os seus étimos claramente a idéia de posse. Eles foram usados para indicar a posse de coisas materiais e também para relacionar o sujeito a seu complemento, o que deve ser considerado uma posse espiritual.

Nos exemplos abaixo relacionados, o verbo habere foi usado para indicar a posse de coisas materiais, como “riquezas” e “ouro”:

“Tantas divitias habet: nescit quid faciat auro.” (Sic. Plauto, Bacch. 2.3.99) 4

“Haec si habeat aurum, quod illi renumeret, faciat lubens” (cf. Plaut. Bacch.1.1.12) 5

Neste outro exemplo podemos observar que o verbo habere relaciona o sujeito com seu complemento, indicando a posse do sentimento “medo”:

“vulneribus didicit miles habere metum” (Sic. Propert. 3.11.6) 6

O verbo tenere, por sua vez igualmente indica a posse de coisas materiais e espirituais.

tenere

auctoritatem

in

suos.”

Cic. 7

“Te tenet.” Tib. 8

 

4 In Aegidio Forcellini – Lexicon Totius Latinitatis

5 id. ibid

6 in fr. Dos Santos Saraida – Novíssimo Dicionário Latino-

Português

7 id. ibid

8 id. ibid

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O verbo habere era empregado também como

auxiliar na conjugação perifrástica, dando à perífrase

um aspecto de dever, obrigação:

“Qui in sanctis habet jurare, hoc

cap.61) 9

jejunus faciat

(Lib. l, Capitular.

“Ipse enim, quia aegrotat, habeo eum visitare” (Rupertus Abb. in Vita S. Heriberti Archiep. Colon, n.26) 10

No próprio latim clássico, a verbo habere foi usado, se bem que restritamente, na formação de

uma perífrase que veio suprir a lacuna deixada pelo aoristo indo-europeu, que os latinos não possuíam.

O aoristo, indicando o resultado obtido de uma

ação passada e a manutenção e continuidade deste estado no presente, exprimia aspectos da ação verbal que nenhum dos tempos latinos conseguia traduzir. Como o latim não tivesse morfemas para este aspecto, recorreu-se à citada perífrase.

Antes do aparecimento da perífrase, o pretérito perfeito latino acumulava as noções de tempo passado e de aspecto privativo do aoristo. De acordo com a hipótese levantada pelo prof. Maurer Jr. 11 foi esta reunião de tempo e aspecto numa só forma verbal que acabou por ocasionar o aparecimento da perífrase com habere, que exprimia a posse da ação concluída e a continuidade deste estado até o presente. Assim o particípio perfeito ficou indicando somente o tempo passado.

9 in Glossarium Domino di Cange
10

11 Th. Henrique Maurer Jr.: Gramática do latim vulgar. pg. 124

id.ibid

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3

Segundo Thielmann 12 , no início, o verbo habere formava uma certa unidade expressiva com particípios como “exercitum, neglectum, iratum” e adjetivos como “carum, tristem”. Alfred Ernout e Thomas François citam-nos os seguintes exemplos em que o verbo habere aparece unido a estes particípios:

“quam (fidem) habent spectatam

iam et cognitam.” (Cie. Diu. Caec.

II)

“quem

(equitatum)

ex

omni

prouincia coactum habebat.”

(Cés. B. G. I, 15, I) 13

Posteriormente, o uso da perífrase generaliza-se e a idáia de posse contida no verbo habere se esvazia e

o centro semântico da perífrase passa para o

particípio, que contém a idéia de passado. No inicio, como vimos, o centro semântico da perífrase estava

no verbo habere e a ação ficava em segundo plano.

Esta mudança da perífrase só é possivel,quando o verbo habere se esvazia de seu sentido possessivo e se transforma num auxiliar devido ao desgaste semântico sofrido por seu uso generalizado. De acordo com Vendryes 14 , o início da transformação

da perífrase já se observa em Plauto:

“uir

despicatum modis” (Cas. 189)

me

habet

pessumis

“res omnis relictas habeo” (Stich.

362)

Segundo o mesmo Vendryes, quando Gregório de Tours escreveu “episcopum inuitatum habes” a transformação da perífrase em um passado composto já se tinha completado no francês. A perífrase transformada em passado composto, quando formada com verbo habere no presente, continua, no francês como o antigo pretérito perfeito latino, a exprimir o passado, mantendo alguns de seus aspectos anteriores.

No português, a perífrase formada com habere mais particípio pode ser encontrada no português

12 José Roca Pons: Estudios sobre perifrases verbales del

español. pg.97

13 Alfred Ernout e Thomas François: Sintaxe Latine. pg. 223 14 Vendryes, J.: Choix d’Études linguistiques et celtiques. pg.

103

arcaico em seus dois estágios: equivalente ao aoristo indo-europeu e transformada em passado:

, ou hás o sem perdido ou és

encantada, que és donzela de grã

(A demanda do Santo Graal.

157)

guisa

A posição do particípio, separado do verbo, mostra

que a perífrase indica o estado de posse, a

manutenção de uma ação.

“Ora hei pavor que a havemos perdida.” (A demanda do Santo Graal pg.168)

A perífrase está reduzida a um mero pretérito.

A perífrase formada com habere no imperfeito

evoluiu para um mero passado, equivalente ao

pretérito mais-que-perfeito simples:

“E por êsto lhe semelhava que o

Santo Graal - v.I, pg. 39)

havia perdudo

(A demanda do

A perífrase formada com habere no perfeito não

chegou até o português atual, podendo, entretanto ser encontrada no português do século XIV, como atesta o seguinte exemplo:

“Depois que êsto houve feito, non houve tam grã força que pudesse ”

sobir no cavalo

(id. pg.116)

A perífrase formada com o verbo haver ou ter mais

o particípio é panromânica e as línguas neo-latinas preferiram ora o verbo habere ora o verbo tenere. Na Ibéria, encontra-se cedo tenere substituindo habere como auxiliar, como atesta o seguinte

exemplo:

“Galli

Romam

captam

incensamque hist, 3, I, I) 15

tenuerunt”

(Oros,

a

perífrase com os dois auxiliares. No séc. XIII,

O

português

arcaico

e

o

moderno

registram

15 Édouard Bourciez: Élements de Linguistique Romane. pg.

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4

encontramos no IV livro da Linhagens, os seguintes

exemplos:

“E Alboazar Alboçadam jurou-lhe par sa ley de Mafomede que lha nom daria por todo o rreyno que elle avia, ca a tijnha esposada com rrey de Marrocos.” (Dom Ramiro ou a Lenda de Gaia, apud J. Joaquim Nunes: Crestomatia Arcaica.

Pg.22)

“E elle meteo húu camafeu na boca, e aquelle camafeu avia

24)

(id. pg.

partido com sa molher

Este tipo de perífrase contribuiu para o aparecimento de um novo sistema verbal nas línguas românicas formado pela conjugação composta que subsiste lado a lado com a conjugação simples e em alguns casos a ameaça, como é o caso do “passé composé” francês que na linguagem popular é mais usado que o passado simples. O aparecimento da conjugação composta corresponde à tendência das línguas românicas ao analitismo.

Prova desta ameaça é que, segundo Meillet 16 , o pretérito simples do francês desapareceu inteiramente da linguagem falada. O Atlas lingüistico de Gilliéron e Edmont mostra que no francês propriamente dito, o pretérito simples é uma forma morta. Segundo o mesmo Meillet, o pretérito simples tende também a desaparecer no alemão.

A história da perífrase formada com os verbos haver e ter mostra bem o princípio de Saussure de que a língua é um sistema e todos os elementos que fazem parte do sistema são solidários entre si. Qualquer modificação de um dos elementos atinge

o sistema que reage, modificando-se e criando um

novo sistema. Este modifica-se totalmente, porque

a língua generaliza a mudança através da analogia,

reorganizando a ordem abalada. Vimos que com base no modelo da “habeo mais particípio”, a língua por analogia cria as perífrase “habebam mais particípio” e “habunt mais particípio”, formando um novo sistema para as línguas românicas.

16 A, Meillet: Linguistique Historique et Linguistique Génerale. pg. 148

Deixando de lado o emprego de habere nesta perífrase vejamos um curioso emprego de habere

no latim vulgar: habere impessoal, usado na oração existencial.

O verbo habere no latim clássico, como já vimos,

era pessoal e significava “ter, possuir”. Entretanto, encontramos passagens em documentos do latim da decadência e no latim vulgar, em que o verbo habere aparece com sentido existencial:

habebat autem de eo loco ad montem Dei forsitam quattuor milia” (Perigrin. Aeth. 1,2, apud Bassols de Climent: Sintaxis Histórica de 1 a lengua latina)

Bassols de Climent 17 levanta uma hipótese muito convincente para explicar a passagem de habere pessoal para impessoal. A uma frase como “dominus habet multum vinum” (o senhor tem muito vinho) em que está presente a noção de posse, correspondia uma outra de estrutura idêntica:

“Domus habet multum vinum” (a casa tem muito vinho). Na segunda frase, o sujeito (domus) é inanimado e por isso não pode logicamente possuir alguma coisa como o sujeito da primeira frase que é um pessoa (dominus); a frase fica muito próxima de uma outra construção que exprime existência e não posse: “domi est multum vinum” (em casa há muito vinho). Dada a semelhança entre as duas frases, a frase “domus habet multum vinum” adaptou-se à construção de “domi est multum vinum” (em casa há muito vinho). Tivemos então a construção “domi habet multum vinum” em que “domus”

passou a ser visualizada como locativo, isto é, ponto

de referência.

A frase “domi habet multum vinum” não tem

sujeito gramatical; “domi” pode ser considerado o sujeito psicológico, isto é, o ponto de referência. Houve primeiro uma mudança de formulação mental que resultou em uma mudança de construção. Esta construção, herdaram-na as línguas

românicas.

O emprego de habere como impessoal é antigo,

podendo ser encontrados exemplos em Flávio Volpisco e São Jerônimo.

17 Bassols de Climent: Sintaxis Histórica de I a lengua latina, pg. 82, tomo II

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5

“Esta construção se encontra já

insertum

habebat

qualiter

donuerat

casas,

uel

generalizada nos mais antigos monumentos das línguas românicas, ainda que nestes seu emprego não haja tomado ainda o incremento que adquiria posteriormente. Assim no “el Cid” ao lado de 1215 “quantos que alli ha” aparece também 3037,3100 “quantos que i son”; tão pouco na literatura catalã do século XIII o uso impessoal de habere adquiriu pleno desenvolvimento.

hortos.” 18

Talvez o exemplo mais antigo da construção impessoal de habere em Espanha, é o que se encontra no fragmento geográfico publicado por J. Leclerco, Hispania Sacra, II, 1949, pág. 97. Este fragmento está contido no célebre manuscrito de Roda e foi redatado, sem dúvida antes do século IX: “Et de omnia que noceuit non abet in Spania.”

Nos documentos 39 e 40 de Marca Hispânica, ano 879 aparece também várias vezes o verbo habere

construído impessoalmente. É curioso observar que nestes documentos a construção pessoal alterna com a impessoal em frases de idêntico valor semântico; trata-se, com efeito, de reconstruir mediante testemunhos fidedignos o conteúdo de outras escrituras perdidas. Na fórmula empregada para este fim o verbo habere é usado com freqüência, tendo como sujeito nomes de coisas, como scriptura, donatio, emptio; assim, 39, 66:

“et habebat in datarum ipsa emptio

anno

XXXIII regnante Karulo Rege”; 40, 86: “et habebat ipsa scriptura emptionis insertam omnem illorum hereditatem.” Nestas frases o sujeito vem representado por um nominativo, mas ao lado delas, e com o mesmo valor semântico, aparece a construção impessoal com o sujeito lógico expresso em locativo; assim, 39, 54: “et habebat in ipsa

commutatione in datarum anno XXXIII, regnante Karulo Rege”; 40, 115: “Et alia scriptura et habebat insertum in ipsam donationem qualiter donauerunt ad dicto abbate omnem illorum hereditatem”; 40,

94: “Et alia carta donationes quod fecit Bellus

ubi

18 Juan Bastardas Parera: Particularidades sintáticas del Latim Medieval. V. XII, pág. 109

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Segunda Parte Do Português Arcaico ao Português Moderno

Estudaremos a seguir, os diversos empregos dos verbos ter e haver, desde o século XIII até a época atual.

1. Século XIII

1.1. Para expressar a posse, aparecem tanto haver como ter:

No português arcaico do século XIII haver e ter são usados para expressar a posse; nota-se, entretanto a acentuada preferência da língua pelo verbo haver. Ex.:

“Eu Elvira Sanchez offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram, e offeyro co’no meu corpo todo o herdamento que eu ey en

Vasconcelos: Textos Arcaicos, pág.

14)

Centegaũs

(apud José Leite de

“Item mandamos e outorgamos que se molher ferir outra molher, que lh’o correga per dinheiro, se os ouuer: e se non ouuer dinheiros, per varas” (apud Leite de Vasconcelos, op. cit., pág. 36)

“E esta dona era mui fermosa salvando que avia um pee

Ribeiro:

forcado

Seleta Clássica, pág. 30)

(apud

João

que tiinha op. Cit. pág. 31)

e ela Meteu ũu freo ao cavalo ”

(apud João Ribeiro:

Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

O verbo ter e haver são sinônimos de possuir e

indicam a posse de coisas materiais como “herdamento, dinheiros, pee forcado e cavalo”.

1.2. Haver ou Ter Mais Particípio Passado:

Como vimos no capítulo do latim medieval e vulgar, a perífrase com “haver mais particípio” evoluiu para um simples perfeito composto dentro do baixo latim. O português arcaico do século XIII herdou o perfeito composto, mas conservou a perífrase com todos os seus matizes expressivos.

Subsistem pois, no português do século XIII, a

perífrase com haver ou ter mais particípio nos dois estágios de sua evolução: indicando a posse de uma ação concluída e já transformada em passado.

Exemplos:

“E outrossi mando das decimas dasluitosas e das armas e doutras decimas que eu tenho apartadas em tesouros por meu reino, que eles as departiam, assi como virem por direito” (“Testamento, de D. Affonso II” (ano 1214) apud Otoniel Mota, O meu idioma. pág. 93, 1.27)

O verbo ter nesta perífrase conserva o seu sentido

original de “manter”. A perífrase indica a posse e manutenção da ação expressa pelo particípio (apartadas).

“E Alboazar Alboçadam jurou-lhe par sa ley de Mafomede que lha nom daria por todo o rreyno que elle avia, ca a tijnha esposada com rrey de Marrocos”. (no IV Livro das Linhagens “Dom Ramiro ou a

Lenda de Gaia” apud José Joaquim Nunes: Crestomatia Arcaica. pág. 22)

O

verbo

ter

conserva,

ainda

que

um

pouco

atenuado

seu

sentido

original

de “manter”,

“conservar”.

“E elle meteo hũu camafeu na boca, e aquelle camafeu avia

partido com sa molher

(id. pág.

24)

O verbo haver foi usado como auxiliar para formar

o mais-que-perfeito composto.

, razõ, fora se aquel com que se casou era enmijgo de seus yrmãos ou lhys avia feyta algũa onta ” (nas Ordenação de D. Affonso II - apud José Joaquim Nunes. op. cit. pág. 12)

nõ na possa desherdar per tal

O verbo haver está transformado em auxiliar do

mais-que-perfeito.

2. Século XIV

2.1. Haver e Ter como expressões da posse:

No século XIV, o verbo haver continua gozando

de mais preferência que ter, para expressar a posse.

Na Bíblia Medieval Portuguesa, obra de inestimável valor para o conhecimento da nossa antiga linguagem, encontramos o verbo haver como expressão de posse, na proporção de 99%. O verbo ter aparece raríssimas vezes. Vamos citar alguns, dentre os inumeráveis exemplos que colhemos:

“E disse-lhe Lot: eu hei duas filhas, que ainda nom conhecerom

barom, tomade-as, e usade delas a vossa voontade, e non façades mal

a estes

“Como Lot recebeu por hospedes

os Angeos, que lhe disseram do

sovertimento de Sodoma.”, pág.

XIV

homēes

(Cap.

39).

“E quando as gentes de Olofernes

virom a fremosura de Judit, dysserom: quem desprezará o poboo do judeus que tam

fremosas molheres ham?” (Cap.

II “Como Olofernes cercou a

cydade, e como a Santa Judit sahiu

da cidade” pág. 367).

No Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Colocci Brancuti), vol. V, encontramos o verbo haver empregado com exclusividade (na mesma proporção de 99%). Na pág. 108, numa estrofe da poesia de Juião Bolsseyro:

“Ouu en tal coyta, qual uos eu direy,

O dia, que meu fui de uos partir,

Que, sse cuydei desse dia sayr, Deus mj tolha este corpo e quant ey,”

Em

A

demanda

do

Santo

Graal,

constatamos

a

predominância

de

haver

para

indicar

a

posse.

Exemplos:

 
 

nunca rei cristaaõ houve tantos

 

cavaleiros, nem tantos homeēs bõos aa sua mesa, como hoje eu hei, nem haverá jamais.” (pág. 68)

“E se o vos nom poderdes levar,

eu o levarei, se poder, ca eu non hei escudo.” (pág. 92)

“Mas com todo êsto eu hei uũ filho cavaleiro andante.” (pág. 122)

Nestes exemplos, o verbo relaciona o sujeito com coisas materiais que a ele pertencem.

Nos exemplos abaixo enumerados, o verbo relaciona o sujeito com coisas imateriais: os fatos de nossa vida mental em geral. É uma posse atenuada, uma espécie de posse espiritual. O verbo perde bastante de seu sentido etimológico para servir de liame entre o sujeito e seu complemento.

Dos poetas do Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Colocci Brancuti) vol. V, tiramos os seguintes exemplos:

Em Roy Martijz D Ulueyra:

“E ora ia dizen mi d el que ven,

E mal grad aia nha madre por en.”

(pág. 12 (954))

“Queixos andades, amigo, d Amor

E de mj, que vos non posso fazer

ben, ca non ey sen meu dan em poder.”

(pág. 14 (956))

Sabor auedes, ao uosso dizer,

De me servir e, amigu, e pero non

Leixades d ir al Rey por tal razon,

Non podedes el Rey e mj aver,”

(pág. 17 (958))

“Ben sabedes como falamos nos

E

me uos rogastes o que m eu sei,

E

non o fix, mays, com pauor que ey

(pág. 22 (962))

“Aue la edes per muy mayor,

Ca de longi mj uos faran catar”

(pág. 23 (963))

“Vedes, amigo, ond ey gram pesar.”

(pág. 37 (972))

“Mays, eu perca bon parecer que ey,

Se nunc lh el Rey tanto ben fezer

Quanto lh eu farei, quando mj quyser”

(pág. 43 (977))

“Ir uos queredes, e non ey poder,

Par Deus, amigo, de uos en tolher.”

(pág. 54 (984))

Em Martim Peres Aluym:

“Mays desaguysadamente mj uen mal

De quantos Deus no mundo fez nacer.

Todos am ben per oyr e ueer,

E por entendimento e per falar.”

(pág. 58 (987))

Em Pero de Veer:

“Mha senhor fremosa, por Deus,

E por amor que uos eu ey,

Oyd un pouqu e direy

O por que eu anti uos uim,”

(pág. 70 (994))

“Non sey eu tenpo quand eu nulha ren

D Amor ouuesse ond ouuesse sabor.”

(pág. 72 (995))

Em Pedr Amigo de Seuilha:

“Non auedes d al cuydado”

(pág.319 (1159))

Em Martin Padrozelos:

“Se de mi queixum auedes,

Por Deus, que o melhoredes.”

Na Bíblia Medieval Portuguesa

“e entom eram ambos nuus, e nom aviam vergonça” (cap. XII “Como Deus criou a primeira molher” pág.

25)

“Caym ouve emveja a seu Irmão, e

levantou-se ele e matou-o, “Caym matou Abel” pág. 27)

(cap. XIX

“E tornou-se Agar, e pariu seu filho, e

poselhe

nome Ismael, e entom avia Abbraã

oytenta

e seis anos.” (Do que aveo a Sarra

com Agar sua Conbooça” pág. 37)

“Aquela cidade, em que morava Abraam, avia nome Geraris” (cap. XLVIII “Como Elrey de Geraris tomou a molher a Abraam, e como lha tornou” .pág. 41)

“Respondeu Jacob, e disse: ouve temor de

(cap.

LXVI “Como Jacob fugiu com suas

molheres, e com seus filhos pera sua terra, e

me tomares tuas filhas per força,

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do que lhe avēo com seu sogro, que foy em

se

acha no início da oração para ressaltar o estado

pós dele” pág. 56)

em

que ela se encontra e permanecerá.

2.2. Haver e Ter em Perífrases com Particípios:

No século XIV, ainda podemos encontrar as

perífrases formadas com os verbos ter e haver em

seu sentido original. Nelas os verbos ter e haver conservam seu sentido original de “possuir e manter” e o particípio tem urna relativa independência.

ora douscavaleiros e ũa donzela, que

mortos

“Eu

achei

tiinha a cabeça cortada, demanda do Santo Graal, 116).

(A

O particípio se encontra longe do verbo ter e a

perífrase indica a posse de um estado.

encantada, que és donzela de Grã

guisa

ou hás o sem perdido, ou és

,

(id. pág. 157)

O verbo

manutenção de um estado. A donzela devia ter perdido, no passado o “sem” e este estado se mantém até hoje.

particípio indica a

haver

com

o

“- Ai, meu senhor Ivam, meu amigo e meu irmaão como hei

hoje grão perda ganhada e confonderon a mim os que vos

matarom,

Graal. pág. 180).

(A demanda do Santo

O verbo haver com o particípio indica a posse e a

manutenção de uma ação já realizada.

“e

britado des hoje manhaã,

pág. 61)

saibas

que

hás

teu

nome

(id.

O verbo haver com o particípio “britado” indica o

resultado presente de uma ação passada.

“- Ai, Lançalot; Morta me havedes, que leixades a casa del- rei, por irdes aas terras estranhas, que jamais nom tornaredes, se nom por maravilha.” (id.pág. 83)

A rainha diz a Lançalot que ele é culpado por

reduzi-la ao estado em que se encontra. O particípio

“Depois que houverom seus elmos laçados, encomendarom-se

a Deus

(id. pág. 84)

A

perífrase indica que num determinado momento

do

passado, eles ficaram de posse do resultado

presente de uma ação passada.

“- Ai, disse ei-rei, morto me ham.” (A demanda do Santo Graal. pág.

161).

Note-se o efeito estilístico do particípio destacado.

O autor ressalta o estado em que ficou e

permanecerá el-rei, depois que recebeu a noticia de

que iria começar A demanda do Santo Graal.

2.3. Haver e Ter, usados como auxiliares da conjugação composta:

Como vimos, dentro do próprio latim vulgar, a perífrase formada com os verbos haver e ter e o particípio evoluiu para um mero passado.

Os verbos haver e ter, sofrendo um processo de

gramaticalização, se esvaziaram de seu sentido possessivo e se fundiram com o particípio, formando a conjugação composta. O particípio continua, por inércia, a se flexionar em gênero e número como acontecia na antiga perífrase.

2.3.1. O pretérito mais-que-perfeito composto:

Os verbos haver ou ter no imperfeito do indicativo, formam com o particípio o pretérito mais-que- perfeito, que indica uma ação passada anterior a outra já passada. Vejamos os seguintes exemplos:

“mas ela me disse que o nom faria, porque eu lhe havia feitas tantas ”

enjúrias

(Boosco Deleitoso pág. 11)

A moça em questão justifica a sua recusa, alegando

injúrias recebidas há muito tempo. O passado expressa pelo mais-que-perfeito “havia feitas” é anterior ao passado expresso pelo pretérito perfeito “disse”.

“E quando el-rei viu que todo

haviam feita promessa, houve grã

pág. 67)

pesar

(A demanda do Santo Graal.

A ação expressa pelo mais-que-perfeito “haviam

feita” se verificou antes das ações expressas pelos

perfeitos: “viu e houve”.

que havia feitos taaes dous golpes,

(id. pág.

nom no quis atender

127)

mal el, quando o viu vĩir e viu

,

“E Boorz, que mui grã golpe havia

dado

cima do elmo, que el-rei ficou

estorgido

feriu-o tam feramente per

(id. pág. 164)

“Para gratificação da qual mercê,

que tinha recebida de Deus, escreveu a todas as cidades e vidas notavéis do reino, notificando-lhe a chegada de dom Vasco da Gama, e os grandes trabalhos que tinha

(João de Barros:

passado, Décadas. pág. 99)

2.3.2. O pretérito Perfeito Composto:

Quando estão no presente do indicativo, os

auxiliares ter e haber formam com o particípio o pretérito perfeito composto. Ao contrário do pretérito perfeito simples que indica uma ação passada totalmente concluída num determinado momento do passado, o pretérito perfeito composto expressa uma ação passada cujos efeitos

se prolongam no presente. No português arcaico, o

pretérito perfeito composto podia ser encontrado tanto como o auxiliar ter como haver. No português moderno, o pretérito perfeito composto formado com o auxiliar haver desapareceu,

subsistindo só o pretérito com o auxiliar ter. Deve

ter contribuído para o desaparecimento do pretérito

perfeito composto, formado como o auxiliar haver, o fato de em muitas frases ele equivaler ao pretérito perfeito simples: Exemplos:

“Vós havedes jurada a demanda do Santo Graal” (A demanda do Santo Graal. pág. 75)

O perfeito composto “havedes jurada” indica uma

ação passada cujos efeitos se prolongam até o presente. Aproxima-se do sentido da perífrase que indica a manutenção de um estado. Difere do perfeito simples, pois neste a ação começou e terminou no passado.

“Galvam, vós me havedes morto

e escarnido,

Graal. pág.193)

(A demanda do Santo

O pretérito perfeito composto “havedes morto”

indica uma ação que começou no passado e se

prolonga até o presente.

“Esto

desonra,

hei

feito

por

(id. pág. 227)

vossa

“Hei feito” equivale ao pretérito perfeito simples, indicando uma ação passada totalmente concluída.

“- Ai, mezquinho, que dano e que perda hoje hei recebuda!” (id. pág.

129)

O perfeito composto “hei recebuda” indica uma

ação passada recentemente.

“ ora hei pavor que a havemos perdida” (id. pág. 168)

O pretérito perfeito composto “havemos perdida”

equivale ao pretérito perfeito simples.

todo “

cobrar

recebida

o mundo nom me poderia

hei

milhores

(A

a

perda

de

uũ

do

que

hoje

dos

mundo

cabraleiros

Demanda do Santo Graal. pág. 183)

O pretérito perfeito composto indica uma ação

passada e terminada recentemente.

2.3.3. O antepretérito: o verbo haver no pretérito perfeito, forma com o particípio um tempo que alguns gramáticos chamam de “antepretérito”. No português e no espanhol modernos ele desapareceu; subsiste ainda no francês sob o nome de “passé

anterieur”. Vejamos o que diz dele Samuel Gili y Gaya, em seu Curso Superior de Sintaxes Espanõla.

“Antepretérito: Es un tiempo relativo que expresa una acción pasada anterior a otra también pasada: “Apenas hubo terminado se levantó; cuando hubieron comido emprendieron el viaje.” Los dos pretéritos se suceden inmediatamente, a diferencia del carácter mediato de la anterioridade expresada por el pluscuamperfecto. Es rarísimo en nuestros dias el uso de este tiempo fuera del lenguaje literario. Además va siempre acompañado de algún adverbio de tiempo: apenas, luego que, encuanto, en seguida que, no bien, después que, etc. Opina Bello con razón que en “luego que amaneció salí,” la sucesión inmediata la expresa el adverbio, y porconsiguiente es un pleonasmo decir “luego que hubo amanecido salí”, puesto que nada añade al antepretérito. Esto explica el desuso progressivo del antepretérito en espanol, puesto que con otro pretérito perfecto (y especialemente con el pluscuamperfecto) acompañado del adverbio de tiempo, se expresa la inmediata anterioridad sen necesidade de usar para ello un tiempo especial del verbo. En la época preliteraria tenía significación de pretérito perfecto y de ello encontramos ejemplos en castellano medieval: “yo vos daría buen cavallo e buenas armas et una espada a que dicen Jovosa, que me ovo dado en donas aquel Bramante.” (Cron. General, 32la, 1.34)”. (pág. 136)

Estudaremos, a seguir, alguns exemplos do antepretérito em português:

“E Galaaz, quando êste golpe houve feito, disse:” (A demanda do santo Graal. pág. 137)

A ação expressa pelo antepretérito “houve feito” é anterior à ação expressa pelo pretérito perfeito “disse”; mas ambos os pretéritos se sucedem

imediatamente, ao contrário da ação expressa pelo mais-que-perfeito que tem um caráter mediato. Podemos observar que imediatamente depois que Galaaz deu o golpe, ele fala; são pois duas ações simultâneas.

O antepretérito, como poderemos constatar nos

exemplos abaixo relacionados, vem sempre seguido

de expressões, denotando sucessão imediata da ação. Foram estas expressões que contribuíram para

o desaparecimento do antepretérito, pois elas

sozinhas já davam os aspectos de simultaneidade, característicos deste tempo.

Pois Galaaz êsto houve feito,

catou mais nem lhe disse

mais nada, Graal. pág. 136)

(A demanda do Santo

nom no

“- Nom daríamos rem disserom êles, polo que rei Artur nos faria, por tal que houvessemos feito alguũ mal ao linhagem de rei

Lac,

(id. pág. 180)

Pois que houverom feito o

juramento

elmos em suas cabeças

(id. pág.

seus

er

poserom

83)

2.4. Haver Impessoal:

O

português herdou do latim vulgar a construção

do

verbo habere impessoal e durante muito tempo

conservou a marca de passagem da construção pessoal para a impessoal, como podemos verificar pela presença do advérbio “y”, que fora sujeito gramatical da construção pessoal e agora é sujeito psicológico, isto é, ponto de referência da ação

verbal.

O emprego do verbo haver na oração existencial é

bastante freqüente e não oferece dúvidas; por isso

julgamos desnecessário citar muitos exemplos.

chamou Galaaz, porque o

tiinha por milhor cavaleiro de

Santo Graal, v.I pág. 79)

quantos i havia

(A demanda do

el-rey “

“- Ai! disse Galvam, como aqui maas novas!” (id. pág. 199, v.I)

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Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER - Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

12

“E na altura dos montes de Judea avia hũu monte pequeno mais alto

“Ia

m eu queria leixar de cuydar,

que os outros, que avia nome

E

d andar trist e perder o dormir,

monte Maria;” (Bíblia Medieval

E

d Amor, que sempre seruj,

Portuguesa - cap. II, pág. 43)

seruir.

2.5. Haver e Ter e seus Diversos Sentidos:

No século XIV os verbos haver e ter tinham grande vitalidade, pois além de serem usados no seu sentido próprio, que é o possessivo, tinham outros sentidos, sendo sinônimos de “obter, acontecer., segurar, reter, etc.” Ex.:

“E ela foi logo aa cabeça e filhou-a

e disse: - Ora hei o que queria;” (A

demanda do Santo Graal - pág. 377, v.

I)

O verbo haver, trazendo implícita a idéia de posse,

aqui significa obter, conseguir.

Aparece com o mesmo sentido na pág. 172 do mesmo livro:

“E porque pedi a donzela, deu-ma,

e

disse-me

E

depois que houve a donzela,

O

parti-me mui ledo da corte e vivi com aquela donzela doze anos e houve dela doze filhos, ”

vos dusse acá tam

longe de gente porque quero

haver-vos ante que vos haja outro;

e se o nom queredes fazer, farei- vos tanto como fiz a vosso meestre.” (id. pág. 402, v. I)

;

e porém

verbo haver aparece com o sentido de “possuir”.

“E aveo assi que cozeu hũu dia Jacob poentas de lentilhas pera comer, e Esau veo cansado do agro, e disse a Jacob: pois vende- me tu o direito, que has da nacença porque naceste primeiro;” (Bíblia Medieval Portuguesa - pág. 47)

O

“acontecer”, “suceder”.

verbo haver foi empregado com o sentido de

De tod êsto m eu queria leixar,

se me leixass a que me faz auer

Aquestas coytas, ond ey a moirer.” (Martim Peres Aluym - Cancioneiro

Biblioteca Nacional - Colotti

Brancuti, v. I, pág. 63 - 990)

da

O verbo haver é sinônimo de “sofrer, padecer”.

O verbo ter significa “segurar, reter, suster ou deter” nos seguintes paços do Graal:

“E

disse-lhes que fôsse desarmar, e

fêz

tolher o elmo a Galaaz e deuo a

Boora de Gaunes, que lho tivesse,

ca aquêle era o em, que ele havia

fiúza mui grande, que sempre fôra

em sua honra e em sua ajuda.” (pág. 62, v. I)

“- Bem dissesses, disse Tristam; e

nom cuidades que desta prison seja eu livre tanto que quiser?

E

ele o teve todavia” (pág. 60, v.

II)

“Mais sa defensa nom lhes valera rem que a-cima que nom fôssem mortos ou presos, ca se nom poderiam ter longamente contra tanta gente, se nom fôsse a ventura que trouxe pori aaquela hora o mais ca bõo cavaleiro Galaaz.” (id. pág. 62, V. II)

“Quando nós êsto ouvimos, posemos logo tal custume que tôda donzela que per aqui passasse nos desse ũa escudela de sangue de seu braço, e posemos guardas aas portas por terem quantas por aqui passassem por haver delas o

sangue

(id. pág. 120, v. II)

foi atam estranha e tam

esquiva, que nom houve i tal de nós que se podesse teer em sela, e caemos todos em terra esmoricidos.” (id. pág. 172, v. I)

“A voz

Como pudemos observar, haver e ter, como verbos independentes, tinham empregos diversos e não

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Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER - Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

13

eram usados indiferentemente, um pelo outro como acontecia quando expressavam a posse.

2.6. Haver usado como Auxiliar em Perífrase de Infinitivo:

“E ao tempo do parto, quando

Tomar ouve de parir, aparecera

dous eno ventre

Portuguesa cap. LXXV pág. 62)

(Bíblia Medieval

O

necessidade.

verbo

haver

indica

aqui

um

aspecto

de

“Pois comendo-vos a Deus, disse Lançalot ca m quero eu ir na Côrte, ca, hora de terça, hei i de seer. (A demanda do Santo Graal - pág. 42)

O verbo haver indica uma ação futura com aspecto

de compromisso.

“Ora, sabede que per esta espada sera conhocido o milhor cavaleiro do mundo, ca esta é a prova per que se há-se saber.” (id. pág. 48)

O verbo haver indica uma ação futura que se

realizará profeticamente.

“E bem seja veúdo o cavaleiro, ca êste é o que ha-de dar cima aas venturas do Santo Graal.” (A demanda do Santo Graal - pág. 57)

O verbo haver indica também aqui, um futuro

profético, isto é, que se cumprirá evidentemente, no entender de quem fala.

“E pero, pois que eu de manhaã hei-de morrer, nom per te quero coitar minha morte.” (id. pág. 88)

Indica

indubitavelmente.

uma

ação

futura

que

se

fará

presente

“ nunca tanto desejei rem como

veer o boõ cavaleiro que deste

escudo haveria de seer senhor.” (id. pág. 95)

Podemos ver pelo contexto que este futuro indica uma ação cujo destino será realizar-se, pois assim diziam as profecias.

O verbo haver usado nessas perífrases empresta a ação futura uma gama expressiva que o futuro simples não traduz.

No século XIV, o verbo haver predomina sobre o verbo ter embora estivesse perdendo a sua força expressiva. Contribuiu para isso o seu emprego como auxiliar na conjugação composta, o seu emprego na perífrase do futuro e como liame entre o verbo e seu complemento.

3. Século XV

3.1. O verbo Ter e Haver como símbolos da posse

No português do século XV, para a expressão da posse, o verbo ter predomina sobre o verbo haver. Isto se verificou em conseqüência do enfraquecimento de sentido do verbo haver no século anterior.

Na Crônica dos Feitos de Guiné de Gomes Eanes de Zurara, na Crônica da Tomada de Ceuta do mesmo autor e no Leal Conselheiro de D. Duarte, constatamos o aparecimento do verbo ter, indicando posse, numa proporção de 80%.

“E por que elles já teem a fortelleza e e atrevimento, Stam em boo tempo de os ensinar de todollas outras cousas que o bom cavalgador deve aver”. (D. Duarte, Leal Conselheiro - pág. 92)

“ o muy nobre Rey Dom Joham

dissera como tinha grande vontade de fazer seus filhos cavaleiros o mais honrradamente que se bem podesse fazer.” (Gomes Eanes de Zurara, Crônica da Tomada de Ceuta -

pág. 12)

Como o emprego do verbo ter, indicando posse, no século XV, é ponto pacifico entre os filólogos, não

nos deteremos em citar mais exemplos que são facilmente encontrados nos textos da época.

Estudaremos com mais cuidado os exemplos do verbo haver, indicando posse, para não deixarmos dúvidas a respeito desse emprego que é contestado sem razão por Said Ali.

“Deixando a oração existencial de parte, ainda assim falharão os esforços para descobrir no seio da nossa língua a noção de posse perfeitamente identificada como o verbo haver. Algumas passagens dos antigos textos como que querem satisfazer à expectativa; mas eles se fundam, como todas a linguagem escrita, no estilo de chancelaria dos documentos medievais, escritos parte em português, e partes em latim bárbaro. Haver, respondendo a habere, daria então ao texto luso um aspecto mais solene, mais erudito.” 1

Os exemplos que colhemos mostram que a afirmação do prof. Said Ali é improcedente, pois em pleno século XV ainda se empregava o verbo haver para expressar a posse. Ressaltamos com mais ênfase o emprego do verbo haver possessivo no século XV, pois nesta época a linguagem já estava bem distante do estilo de chancelaria a que alude Said Ali.

“Nem ainda das feições corporaaes nom entendo fazer gram processo, porque muitos ouverom em êste mundo bem proporcionadas

(Gomes Eanes de

feições,

Zurara - Crônica dos Feitos de Guiné -

pág. 28)

“Non ham pescado alguũu, nem

o comem os desta ilha,

Eanes de Zurara – Crônica dos Feitos de Guiné apud José Leite de Vasconcelos - Textos Arcaicos - Pág.

(Gomes

85)

“E partia grandemente o que auia, assi com seus parentes, como outros muytos, que o nom eram.” (Fernão Lopes - Crônicas do

1 Said Ali - Dificuldades da língua portuguesa - p. 119

Condestabre

Vasconcelos, op. cit. pág. 82)

apud

J.

Leite

de

“E assi que, tornando a meu propósito digo que êste nobre

príncipe ouve a estatura do corpo

em boa grandeza,

avia algum tanto alevantada;” (Gomes Eanes Zurara - Crônica dos

Feitos de Guiné - pág. 29)

a cabelladeira

“(o infante dom Henrique) Avia o geesto assessegado, e a palavra mansa.” (id. pág.31)

Vimos que no século XIV o verbo haver era empregado nas construções em que a coisa possuída era imaterial. Agora no século XV já começa a ser empregado o verbo ter para indicar a posse de coisas espirituais.

omuy “

dissera como tinha grande vontade de fazer seus filhos cavaleiros o mais horradamente que se podesse fazer”. (Zurara - Crônica da Tomada de Ceuta - pág.

nobre Rey Dom Joaham

12)

“Bem he verdade rrespondeo a Rainha, que eu vos tenho assy amor que quallquer madre per obrigaçam naturall deve teer a seus filhos.” (Zurara - id. pág. 45)

“E assi teem alguũs tam grande vergonha ou empacho de fazer algũas cousas, que ante si poriam a sofrer algũu grande perigo que as fazerem em lugar de praça, por

receo de prasmo das gentes,

(D.

Duarte - Leal Conselheiro - pág. 89)

O verbo haver é também empregado para indicar a posse espiritual. Exemplos:

“E o avorrecimento avemos d’algũas pessoas que desamamos

ou de que avemos inveja

Duarte - Leal Conselheiro - pág. 55)

(D.

“Se algũas pessoa, per meu serviço e mandado, de min se partee della sento saudade, certo he que de tal partida nom ei sanha, nojo,

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15

pesar,

Conselheiro - pág. 56)

(D.

Duarte

-

Leal

“Todo esto entendo que lhes vem per mingua de voontade que dellas

ham,

(id. pág. 95)

“Grande amor ouve sempre aa cousa pública dêstes regnos, ” (Zurara - Crônica dos Feitos de Guiné - pág. 32)

3.2. Ter ou Haver mais particípio

Nota-se no português do século XV, uma preferência acentuada pelo verbo ter na perífrase com o particípio. Nos exemplos que transcreveremos, os verbos ter e haver formam com o particípio uma certa unidade expressiva, exprimindo aspectos que eram privativos do “aoristo”.

cousas foçom huũs, ou travaram arroidos e comtemdas antre ssy, como sse lee que fezerom os Romaãos depoes que teverom suas

(Zurara -

guerras acabadas,

Crônica da Tomada de Ceuta - pág.

40)

he necessario que de duas

,

A perífrase marca a posse do fim atingido, do

estado a que se chegou.

“O segundo empacho he o comdestabre, o qual sabees que assy por sua my boa vida como pollos gramdes e bem aventurados aqueecimentos que ouve, tem assy as gentes do rregno chegadas a

sua amizade,

(Zurara - Crônica da

Tomada de Ceuta - pág. 42)

O verbo ter conserva seu sentido de “manter”.

filhos

por quamto aquello de meus he

ja

pera

rrequerem

homrra

gaanhararem

que

vós

teemdes

gaanhada,

(id.

pág.

49)

A perífrase indica a manutenção de um estado

obtido. O rei há havia ganho honra e continuava de posse dela.

“Ora sabee que depois que el Rey

de todo teve seus feitos aviados

pera pertir,

hordenar suas departições per tal

começou el Rey de

guisa

(id. pág. 62)

O verbo ter e o particípio indicam o estado obtido,

a posse do resultado de uma ação.

“E assy sahiram todos cada huũ como milhor podia, ataa que el Rey chegou aa porta da cidade, homde fez sua deteença, assy por rrezam da perna que tijnha ferida, ” (Zurara - Crônica da Tomada de Ceuta - pág. 84)

O verbo ter conserva sua força possessiva e junto

com o particípio indica a permanência de um estado. O rei ferira anteriormente a perna e como

esse ferimento se mantivesse, teve que parar.

A perífrase não indica uma ação passada, mas o

resultado no presente de um acontecimento passado.

“E por tentarem os da terra, e averem delles alguũ mais certo conhecimento poserom aquelle alarve fora, e hũa daquelas mouras que tijnham prêsas que fossem dizer aos outros, que se quisessem viir a elles fallar sôbre resgate daqui daquelles que tijnham presos, que o poderiam fazer.” (Zurara - Crônica dos Feitos de Guiné - pág. 57)

O verbo ter conserva o seu sentido originário de

“manter”. A perífrase indica a manutenção de um estado.

“E Antam Gonçalvez porque tiinha já seu navio carregado,

(Zurara

- Crônica da Tomada de Ceuta - pág.

58)

tornou-se pera Portugal,

O verbo ter, formando com o particípio uma certa

unidade expressiva, indica a posse de uma ação, o estado alcançado.

ou conjugação composta:

3.3.

Ter

Haver

como

auxiliares

da

Os verbos ter ou haver formam com o particípio uma unidade que corresponde a um mero passado composto, perdendo nesta construção o seu sentido possessivo para transformar-se em mero auxiliar. O verbo ter predomina sobre haver como auxiliar da conjugação composta.

3.3.1. Pretérito mais-que-perfeito composto: os verbos ter ou haver formam com o particípio o mais-que-perfeito do indicativo.

“E porem dezia Alexandre ho gram rrey de Macedonia, que elle seria bem contente de trocar a prosperidade que lhe os deoses

Crônica da Tomada de Ceuta - pág.

tijnham aparelhada,

(Zurara -

61)

“E o Iffante D. Henrique, tanto que foy naquela mêzquita, por causa do grande trabalho que tijnha passado. Lançousse allgũu

Crônica da Tomada de Ceuta - pág.

pouco a rrepousar,

(Zurara -

92)

,

ouvia seus aqueecinentos

fazendo-lhe aquellas mercees que tijnha acostumado de fazer aos que o bem serviam.” (id. pág. 46)

“E antre as razoões que ouvi dizer que o Iffante dissera a aquelle seu

foi que lhe encomendava

que se nembrasse da Ordem de Cavallaria que tijnha recebida, ” (id. pág. 61)

filho,

“E irá também naquella capitania, Alvaro de Freitas, comendador d’Aljazar, que he da ordem de Santiago, também homem fidalgo, e que tiinha feitas mui grandes

prêsas

(id. pág. 63)

“Era ainda hi, Pallenço, que era hũu homem que tiinha feita mui

(id.

grande guerra aos Mouros, pág. 63)

“Muito prezada e amada Rainha, Senhora: vós me requerestes que juntamente vos mandasse screver algũas cousas que avia scriptas per

nossas

conciencias e voontades.” (D. Duarte - Leal Conselheiro - pág. 31)

boo

regimento

de

3.3.2. Pretérito perfeito composto: o verbo ter forma no presente como o particípio o perfeito composto que indica uma ação que começou no passado e continua no presente. Esta construção no português moderno, substituiu a construção com o verbo haver.

“Empero ante que o iffante, dom Henrique assi partisse de Lagos, leixou por principal capitam de todos aqueles navios, Lançarote aquelle cavalleiro de que já teemos falado,” (Zurara - Crônica dos Feitos de Guiné - pág. 61)

Podemos observar que o particípio sempre aparece flexionado, concordando com o objeto direto, mesmo quando se trata da conjugação composta.

Encontramos, entretanto, na Crônica dos Feitos de Guiné, um exemplo de perífrase formada com o verbo haver em que o particípio aparece invariável.

“E estas auguas em quanto vaão assi departidas chamam-se per estes nomes que avemos dicto, ” (pág. 84)

O verbo haver forma com o particípio uma unidade

com valor de mero passado.

Vemos que já começa a haver um ajustamento entre a forma externa da língua com a forma interna. O particípio aparece sem flexão, pois perdeu sua autonomia na frase.

A adaptação total entre a forma externa e a forma

interna da língua só se concretizará no século seguinte (XVI). O reajuste foi bastante demorado, porque a língua escrita não consegue seguir no mesmo ritmo as mudanças que se verificam na língua falada.

4. Século XVI

4.1. Ter indicando posse:

O verbo haver começou a esvaziar-se de seu sentido possessivo; de início na posse de coisas materiais, limitando-se a estabelecer uma relação entre o sujeito e seu complemento. O verbo ter é que vai indicar a posse de coisas materiais.

Vejamos

alguns

exemplos

do

verbos

haver

indicando

a

relação

entre

o

sujeito

e

seu

complemento:

não “

nossos” (João de Barros - Décadas - v. I, pág. 132)

haviam inveja ás joias dos

(Antonio

Bristo

não

hei

medo

-

à

Monólogo

fortuna.”

de

Seleta

Ferreira

pág.

117,

- Clássica) Bem como do verbo ter, indicando a posse de coisas materiais:

apud

“Para serviço dos que querem negociar suas cousas por mar, & com mais brevidade, tem a cidade

onze mil barcas,

(Pantaleão de

Aveiro - Itinerário da Terra Santa - pág. 2)

4.2. Ter e Haver e seus diversos sentidos:

No século XVI, o verbo haver era empregado em vários sentidos, como se pode ver pelos exemplos que seguem:

“e eu me houve com elles de maneira que começaram a chorar.” (Pantaleão de Aveiro - Na Terra Santa - pág. 185 apud Seleta Clássica de João Ribeiro)

Haver tem o sentido de “comportar-se”.

“Isto em nenhum modo querem consentir os Japões, nem conceder, por haverem os chins por muito inferiores a êles.” (Diogo do Couto - Décadas - v. I, pág. 33)

Haver é sinônimo de “considerar”.

“Porém de quanto gádo vacum traziam, nunca poderam haver

deles uma só cabeça,

Barros - Décadas - v. I, pág. 19)

(João de

O verbo haver tem o sentido de obter, conseguir.

era chegado,

havia já seis ou sete dias que

(id, pág. 32)

O verbo haver é impessoal e indica circunstância de

tempo, sendo sinônimo de fazer.

O verbo haver era usado na expressão “haver

nome”, hoje desatualizada e substituída pelo verbo

“chamar-se”.

“Finalmente

ele

foi

baptizado

e

houve

nome

Gaspar.”

(id.

pág.

888)

O verbo ter apresentava a mesma variedade de

sentidos, mas diversificava um pouco.

“É logo sem razão, e elle tem que lhe sois contraria, e não vol-o merece, que eu sei que deseja muito vossa amizade.” (Antonio Ferreira - Comedia Aulegrafia - apud João Ribeiro - Seleta Clássica - pág.

133)

Ter aparece com o sentido de “achar”.

“porque aos taes pobre têem os turcos e mouros por grandes sentos e despresadores do mundo,” (Pantaleão de Aveiro - Na Terra Santa - pág. 184)

Ter aparece com o sentido de “considerar”.

“Aqui foi ter com êle uma galiota. da sua companhia, que havia dias que se tinha desgarrado com

tempo,

(Diogo do Couto -

Décadas - v. I, pág. 9)

O verbo ter significa “encontrar-se”.

4.3.

compostos:

e

Ter

Haver

na

formação

dos

tempos

Na formação dos tempos compostos o verbo ter predomina sobre haver.

Invariável, o particípio forma tanto com ter como com haver, o perfeito e o mais-que-perfeito compostos. Muito raramente o particípio aparece com flexão.

O verbo ter no presente com o particípio forma o

perfeito composto do indicativo. Indica uma ação que começou no passado e continua no presente. O passado e o presente se interpenetram.

“Esta cidade do Pequim, de que prometti dar mais alguma informação da que tenho dado, é tão magnífica e taes são todas as coisas d’ella, que quasi me arrependo do que tenho promettido, porque realmente não sei por onde comece minha promessa;” (Mendes Pinto - O Pekin - apud Seleta Clássica de João Ribeiro, pág. 90)

O verbo ter no imperfeito do indicativo forma com

particípio o mais-que-perfeito composto que indica uma ação passada anterior a outra já passada.

no fim dos quais vindo alli ter

um

homem

do

lugar

de

Suazoangané,

vindo,

donde

tinhamos

disse á gente da terra

que

não

eramos

quaes

elles

cuidavam,

mas

que

eramos

estrangeiros perdidos nas agoas do mar, e que tinham cometido um

grande

peccado

em

no

prenderem,

(id. pág. 95)

“Aqui foi ter com êles uma galiota da sua companhia, que havia dias que se tinha desgarrado com

(Diogo do Couto -

Décadas - pág. 9)

tempo,

Embora no século XVI a participo apareça na maioria dos casos sem flexão, ainda podemos encontrar exemplos em que o particípio aparece flexionado.

em seu

entendimento estava uma figura de formosura perfeitissima, a qual elle

contemplando, e tendo nela fitos

“A idéia segundo Platão:

os olhos de sua mente, a sua semelhança dirigia a mão.” (Heitor Pinto, apud Seleta Clássica de João Ribeiro)

A

perífrase indica a permanência de um estado.

“E matizou uma imagem tam excellente, e tam viva ao aparecer, que parece que gastou nella todo seu artifício, mas ainda não chegou áquella traça e figura, em que tinha pregados os olhos no

entendimento,

(id. pág. 141-142)

A

perífrase indica a manutenção de um estado.

não vai homem algum áquella

Provincia, que não venha d’ella rico, sem se haver na terra ainda descuberto minas de ouro, nem de prata, nem outras riquezas e perolas, que nosso descuido tem sepultado nellas. E se os thesouros, que a natureza alli tem encerrados, foram já abertos, então não foram maravilha enriquecerem os homens em tão pouco tempo, como a muitos vemos.” (Pedro de Mariz - Terra de Santa Cruz apud Seleta Clássica de João Ribeiro pág. 154)

O

particípio concorda com o objeto (thesouros) e a

perífrase indica a manutenção de um estado.

“e

cada

vez

que

querem dêles

alguma

cousa,

os

chamam

com

uma bozina, e tem com êles feito

Décadas - v. I, pág. 36)

pacto

-

(Diogo

do

Couto

A

perífrase indica a manutenção de um estado e não

o

tempo passado.

“Tantas vezes puxáram por El Rei nesta matéria, que semaro a mandar fazer aquela jornada, porque estava pobre pelas muitas despezas que se tinham feitas nas grandes Armadas, que á India tinha mandado de socorro.” (id. pág. 93)

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Estudo diacrônico dos verbos TER e HAVER - Maria Lúcia Pinheiro Sampaio

19

O particípio aparece flexionado, mas forma com o

imperfeito de ter o mais-que-perfeito do indicativo.

A flexão do particípio não altera o sentido do mais-

que-perfeito, que indica uma ação passa da anterior a outra passada.

“Que mandava Mealecan pera Cananor, porque tinha escrito a El Rei de Portugual sôbre os contratos que tinham feitos, ” (Diogo do Couto - Décadas - pág.

126)

Estamos diante do mais-que-perfeito composto e o particípio está flexionado por conservadorismo da língua escrita que evoluiu mais devagar que a língua falada.

“Subião pera os palos radiantes E de metais ornados reluzentes, Mandados da Rainha, que abundantes Mesas de altos manjares excellentes lhe tinha aparelhada, que a fraqueza Restaurem da cansada natureza.” (Lusíadas, Canto X, est. 2 pág. 307) “E porque, como vistes, tem passados Na viagem tão asperos perigos, Tantos climas e caos exp’rimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejão, determino, agasalhados, Nesta Costa Africana como amigos, E tendo guarnecida a lassa frota Tornarão a seguir sua longa rota.” (Lusíadas, canto I, est. 29, pág. 19)

Camões flexiona estes particípios para efeito estilístico, para dar realce ao objeto direto. Com o particípio flexionado é o objeto direto e não o sujeito que surge em primeiro plano à mente do leitor. Nestes exemplos o verbo ter e o particípio indicam tempo e não aspecto.

“Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus annos colhendo doce fruito Naquele engano da alma ledo e cego Que a fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuito, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escripto tinhas.” (Lus. canto III, est. 120, pág. 127)

A perífrase “escripto tinhas” indica a posse de uma

ação e a manutenção deste estado. Inês possuía o

nome do príncipe, inscrito em seu coração e assim o conservaria. Ela tinha e manteria escrito no coração, aquele nome. A perífrase nos diz que o amor de Inês era duradouro. Ela o amara, amava e amaria.

Podemos observar que no século XVI as perífrases formadas com ter ou haver e particípio e que indicavam, não o tempo mas o aspecto, começam a diminuir, dando lugar às perífrase que exprimem o tempo e formam a chamada conjugação composta.

Para não dar margem a dúvidas, queremos esclarecer que entendemos por “perífrase” a união dos verbos ter ou haver com o particípio, formando uma certa unidade de sentido. É esta dependência semântica entre os verbos ter ou haver com o particípio que constitui a perífrase. Ela nada mais é que uma unidade sintagmática formada por dois verbos. Quando os verbos ter e haver não haviam sofrido um processo de gramaticalização e conservavam seu sentido possessivo, eles tinham mais independência em relação ao particípio; nestas circunstâncias, a perífrase indicava não um tempo, mas o aspecto de posse e manutenção de um estado obtido. Quando ter e haver se tornam auxiliares, esvaziando-se semanticamente, perdem sua independência e se fundem ao particípio. A perífrase vai indicar não mais o aspecto, mas a noção de tempo.

4.4. Ter invade a esfera da oração existencial:

No século XVI, como vimos, o verbo haver tinha perdido muito do seu sentido possessivo, sendo substituído por ter para indicar a posse de coisas materiais. A língua também preferiu o verbo ter para formar os tempos compostos; são cada vez mais raras as perífrases formadas com ter e particípio, indicando a posse e permanência de um estado.

O processo de esvaziamento semântico de haver

que se completou no século XVI, criou condições para que o verbo ter invadisse a esfera da oração existencial, que era privativa de haver.

Entretanto, a parcimônia com que o verbo ter era

empregado na oração existencial nos faz supor que

se tratava mais de um fenômeno da língua falada

que da escrita. A língua falada que evolui mais depressa que a escrita sentiu a necessidade de substituir totalmente haver por ter, pois o verbo haver, por ter-se esvaziado semanticamente,

dificultava a comunicação. O verbo haver, de fato, confunde-se foneticamente no presente do indicativo com o artigo a e no perfeito com o verbo “ouvir”. Através dos exemplos coletados, analisaremos mais pormenorizadamente a substituição de haver por ter.

Na Perigrinaçam de Fernam Mendez Pinto, se bem que o verbo haver predomine na oração existencial, o verbo ter já aparece algumas vezes, como poderemos ver pelos exemplos abaixo relacionados:

“Na frontaria deste patio, onde estava a escada por onde subião para cima,

(v.

II, pág. 45)

tinha hum grande arco lavrado

“Aquy nos mostrou hũ oratorio em que

(v.

tinha hũa Cruz de pão dourada, III, pág. 82)

“Caminhando este Rey Bata por suas jornadas ordinarias de cinco legoas por dia chegou a hum rio que se dizia Quelem, onde por algũas espias do Achem que ahy se tomarão soube que

o Rey o esperava em Tõdacur, duas

legoas da cidade, para ahy se ver no

campo com elle, & que tinha muyta

gente forasteyra,

“Todos os caminhos & servintias das cidades, villas, lugares, aldeas, & castellos, são de calçadas muyto largas feitas de muyto boa pedraria, com colunas & arcos nos cabos dellas de muyto rico feitio, com letreiros de

letras douradas, em que estão escritos grãdes louvores dos que as mandarão fazer, & de hũa banda & da outra tem poyais de muyto custo para descansarem os caminhantes & gête pobre, & tē muytos chafarizes & fontes dagoa muyto boa, & em lugares esteriles & pouco povoados tem molheres solteyras, q de graça dem entrada à gente pobre que não tem ”

dinheiro

(v. III, pág. 126)

(v. I, pág. 57)

“Por fora desta grande cerca, a qual, como digo, corre por fora de toda a cidade, está em distancia de tres legoas de largo, & sete de comprido vinte & quatro mil jazigos de Mandarins, q são huas capellas pequenas cozidas todas em ouro, as quais tem todas adros fechados em roda com grades de ferro & de latão feitas ao torno, & as

entradas que tem são huns arcos de muyto custo & riqueza. Junto a estas capellas tem aposentos muyto grandes com jardins & bosques espessos de grande arvoredo, & muytas invençoens de tanques, & fontes & bicas dagoa. E as paredes das cercas são forradas por dentro de azulejos de porcelana muyto fina, & por cima pelos espigões tem muytos leões cõ bandeiras douradas, & nos cãtos das quadras curucheos muyto altos de diversas pinturas. Tem mais quinhentos aposentos muyto grandes q ”

(v.

se chamão casas do filho do Sol, III, pág. 157)

“As ruas ordenarias desta cidade são todas muyto compridas & largas & de casaria muyto nobre de hũ até dous sobrados, fechadas todas de hũa banda & da outra com grades de ferro, & de latão, com suas entradas para os becos que nellas entestestão & nos cabos de cada hũa desta ruas estão arcos com portas muyto ricas que se fechão de noite, & no mais alto destes arcos tem sinos de vigia.” (v. III, pág. 169)

“Mas deixando agora êsto para se tratar a seu tempo, esta cidade, segundo o que se escreve della, assi no Aquesendoo de que já fiz menção, como em todas as chronicas dos Reys da China, tē em rodatrinta legoas, a fora os edidicios da outra cerca de fora, de que já tenho dito hum pouco, & bem pouco em comparação do muyto que me ficou por dizer: & he (como já disse outra vez) toda fechada cõ duas cercas de muros muyto fortes, & de muyto boa cantaria, onde tem trezentas & sessentas portas, a cada hũa das quais está hum castelo roqueyro de duas torres muyto altas, & todos com suas casas, & pontes levadiças nellas.” (Fernam Mendes Pinto - Perigrinaçam - v. III, pág. 168)

“Tem esta prisão, ou deposito, das cercas para dentro tres povoações, como grandes villas, todas de casas terreas, & ruas muito compridas sem becos nenhũs, & nas entradas dellas tem portas muyto fortes com seus

173)

(id, v. III, pág.

sinos de vigia encima,

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21

No Itinerário da Terra Santa de Fr. Pantaleão Aveiro, encontramos exemplos mais numerosos:

“Vai pelo meyo da cidade hun canal muy largo, que a divide em duas partes, no meio do que tem hũa muy fermosa põte, toda de muytas tendas occupada, cheyas de preciosas, & ricas mercadorias.” (Fr. Pantaleão Aveiro Itinerário da Terra Santa, pág. 2)

“Todas estas gondolas estão de contino prõptas, & prestes, affim de dia, como de noyte, para quem se quer servir dellas, & com muy grande barato: & tem tal ordem na passagem q todas

ordinariamente ganhão,

(id. pág. 3)

“Dentro na cidade, & arrabaldes tem vinte conventos de Religiosos & vinte & quatro de Religiosas.” (id. pág. 4)

“Dentro na cidade tem hũ almazem, (id. pág. 4)

; “

que trabalhão,

tina

& em cada casa aonde ha officiaes,

tem no meyo hũa

(id. pág. 6)

“Dentro do castello não tem armas ” (id. pág. 109) Podemos observar que esta construção com o verbo ter impessoal reflete uma mudança de formulação mental. O sujeito da oração pessoal é agora visualizado como locativo e o verbo ter torna-se impessoal. Esta construção evidentemente surgiu por analogia à construção com o verbo haver impessoal.

Verificou-se o mesmo fenômeno que se dera em latim vulgar com o verbo habere pessoal, que se transformara em impessoal por analogia com a construção do verbo “esse”.

No Itinerário da Terra Santa encontramos a construção pessoal e a impessoal. Exemplo:

Tem a Cidade outras muytas

(Fr. Pantaleão Aveiro

Itinerário da Terra Santa - pág. 7)

riquezas,

“Dentro na Cidade

(id. pág. 4)

almazem,

tem

hũ

primeira construção (pessoal) o sujeito é

“Cidade” e exerce a função de possuidor das “ muytas riquezas”.

Na segunda construção (impessoal) a “Cidade”, conceito inanimado, é visualizado como o lugar onde “existe” “hũ almazem”. O verbo ter significa

“existir”. A construção tem o mesmo espírito desta

outra:

Na

Ha dētro na Cidade hũ Mesteyro

de Caleiros Gregos,

(id. pág. 16)

Os exemplos que coletamos demostram que o ver ter era usado com sentido existencial no português

do século XVI.

Embora o emprego do verbo ter na oração existencial que era domínio exclusivo do verbo haver, pareça inusitado, não o é, se considerarmos a vida paralela que esses dois verbos sempre tiveram.

Se sincronicamente a substituição de haver por ter,

na oração existencial, cause estranheza, diacronicamente o fato é natural e perfeitamente explicável.

O verbo haver foi-se desgastando e perdendo sua

força expressiva até se transformar num “outil” gramatical, como diz Meillet; e à medida que se ia desgastando foi perdendo terreno e sendo substituído por ter.

A semelhança semântica entre os dois verbos e o

desgaste de haver criou condições para o aparecimento da oração existencial com o verbo ter.

Já que ter era equivalente a haver e o tinha substituído em muitas funções, por analogia com a construção da oração existencial com haver, a língua criou a oração existencial com o verbo ter. A nova construção assimilou a mesma estrutura sintática da construção original, que lhe serviu de modelo.

Com a nova criação da língua surgiram duas construções que entraram em concorrência. A oração existencial com o verbo ter veio preencher um “déficit” da língua, cuja clareza de comunicação estava ameaçada pelo desgaste e conseqüente inexpressividade do verbo haver.

5. Século XVII

5.1. O verbo ter indicando posse:

O verbo haver, tendo-se esvaziado de seu sentido

possessivo é substituído pelo verbo ter que indica a

posse de coisas materiais e imateriais.

“Começa da parte direita em uma ponta, a qual, por razão de uma igreja e fortaleza dedicada a Santo Antônio, tem o nome do mesmo santo.” (Antonio Vieira - Obras Escolhidas - v. I, pág. 1)

“ Os Macedónios venciam tudo,

porque nada tinham;” (id, pág. 13)

5.2. Haver e Ter usados na oração existencial:

O verbo ter é pouco usado na oração existencial,

predominando a oração com o verbo haver.

“Apenas tem quinhentos homens n’aquella fortaleza, os mais d’elles soldados de presidio, que sempre costumam ser os pobres ou os inuteis;” (Jacinto Freire - Discurso de Coge Çofar aos Turcos apud João Ribeiro - Selecta Clássica - pág. 280)

“Além destes soldados e capitães havia outros, no recôncavo da

cidade,

(Vieira, op. cit., pág. 21)

tempos

compostos:

O verbo ter continua predominando sobre haver

na formação dos tempos compostos. Vejamos alguns exemplos:

5.3.

haver

e

ter

na

formação

dos

quase

todo

o

mês

passado

tinha andado na barra, op. cit., pág. 3)

(Vieira,