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TERRA

92792_Japão_G402_Cleber
66
100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

VIDAS

16/5/08, 13:24
PASSAGEIRAS
O passado, o presente e o futuro da imigração japonesa
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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

VIDAS

16/5/08, 13:24
PASSAGEIRAS
O passado, o presente e o futuro da imigração japonesa
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em Assaí, no Paraná, a cidade mais oriental do Brasil POR LEO NISHIHATA, de Assaí
FOTOS DE MAURICIO DE PAIVA
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Lanternas enfeitam a praça


na festa de aniversário da
cidade paranaense. O velho
taxista tem saudade
dos tempos em que havia
muito mais movimento

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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

ishihata wa, kawateru miyoji?”


Assaí surgiu em 1932, quando
“N Sabia que isso iria acontecer. A primeira coisa que
os idosos de origem japonesa perguntam para al-
guém da mesma etnia é pelo sobrenome, emen-
dando na seqüência um rápido teste de proficiên-
cia no idioma. Olho desesperado para o filho do meu inter-
os primeiros imigrantes
já tinham dinheiro suficiente
locutor, que traduz: “Nishihata, sobrenome diferente, né?”.
Realmente, meu sobrenome é raro, único entre 1,2 milhão para comprar terras
de descendentes no Brasil. Em Assaí, cidade do norte do
Paraná onde 14% dos 20 mil habitantes possuem ascen- grantes, quando os navios desembarcavam trabalhadores
dência japonesa, nunca houve nenhum Nishihata. Mais que direto para as fazendas de café e algodão.
isso: quase não há descendentes com a minha idade, ape- A cidade surgiu em 1932, quando as levas vindas do Ja-
nas um enorme vácuo entre crianças e velhos. Para piorar, pão desde 1908 já haviam acumulado economias suficien-
não falo uma palavra de japonês. A sensação de estranheza tes para adquirir terras. Nos arredores da cidade de Jataí, a
é total, sinto-me como o mais fajuto de todos os sanseis. 40 quilômetros de Londrina, o solo era coberto por perobas
Mas eis que, como mágica, o monge budista Takanori Imai que hoje só são encontradas nas casas de madeira erguidas
diz em português razoável, cheio de sotaque: “Já conheci em regime de mutirão, com encaixes que dispensam pre-
um Nishihata em Tupã, muito tempo atrás”. A ficha cai: é gos. A parte mais acidentada da região foi escolhida como
meu avô, só pode ser meu avô, o falecido Bunji Nishihata, sede da colônia, chamada Assahi (“Sol Nascente” em japo-
comerciante nessa cidade do noroeste paulista nos distan- nês), depois abrasileirada para Assaí. Sem dominar o por-
tes anos 1950. Explodo de entusiasmo, descrevo em ritmo tuguês e com nenhuma infra-estrutura pública, os japone-
vertiginoso a história da minha família, enquanto o monge ses implantaram uma organização independente, que di-
me ouve tranqüilo, calado, com um sorriso que parecia di- vidiu as terras cultiváveis em 12 seções batizadas com no-
zer “calma, rapaz, eu sei que você é um dos nossos”. mes de madeiras, cada uma com seu líder, seu núcleo de
Assaí é assim. Um resquício do passado distante, um famílias, sua escola e seu kaikan, a sede social.
tanto hermético, mas que surpreende e emociona ao dia- “Peroba” foi a primeira delas, e a família Yaoki, uma das
logar com o presente. Uma experiência muito mais intensa pioneiras. Na época uma criança, Shimizu Yaoki ainda vive
do que passear pelas ruas da Liberdade, em São Paulo, por no mesmo local. De lá observamos o kaikan da seção, anti-
exemplo. Pois se o famoso bairro oriental da capital paulista go palco de festas, reuniões e eleições que definiam o re-
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marca a presença japonesa nas grandes cidades, Assaí res- presentante de “Peroba” perante a Laca (Liga das Asso-
gata uma época anterior, comum a todas as famílias de imi- ciações Culturais), o centro nervoso da comunidade. A pró-
pria Assaí só foi reconhecida como
município 11 anos depois da cria-
ção desse sistema, em 1943. Das
70 famílias japonesas que viviam
na seção restam nove, mas a orga-
nização continua a mesma: qual-
quer comunicado da Laca é trans-
mitido para os líderes locais, e
estes divulgam a informação para
o restante do pessoal.
Cairo Kogushi, de 64 anos, um
sorridente e comunicativo filho de
japoneses, é o atual presidente da
Laca. Cairo-san (todos em Assaí
adicionam o sufixo san ao nome
dos amigos) conversa com Shimi-
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zu-san a respeito das comemora-


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ções pelos 76 anos de Assaí. A


temática da festa será os 100 anos
Nos arredores da cidade, cafezais plantados com precisão milimétrica mais parecem jardins de imigração japonesa. Em frente

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O PIONEIRO
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radicionalmente, o filho caçula das famílias japonesas está destinado a estudar, enquanto o primogênito dá

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continuidade aos negócios do pai. Shimizu Yaoki, hoje com 78 anos, abriu mão do privilégio, pois o irmão mais
velho sofria com problemas de saúde. O jovem Shimizu preferiu ficar em Assaí, adquiriu o primeiro trator da
seção rural “Peroba”, em 1951, acompanhou as mudanças de culturas da região (café, algodão, soja, milho e
frutas) e somente cinco décadas mais tarde conseguiria um diploma de proficiência em japonês, que lhe daria
o direito de se tornar universitário no Japão. Shimizu, porém, já decidiu: vai viver em suas terras até o fim.
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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

ponesa no Peru, sabe que o es-


vaziamento é inevitável. “É um
fenômeno natural, poucos jovens
se interessam. Além disso, qua-
se todo mundo só pensa em ir
para o Japão trabalhar”, lamenta.
“Não tenho nem mais passagei-
ro para levar ao aeroporto de
Londrina”, confirma João Ono,
taxista na cidade desde 1960.
Dos milhares de assaienses
que foram ao Japão atrás de es-
tabilidade financeira, dois aca-
baram de voltar após 17 anos
vivendo como dekasseguis. São o
casal Alice e Massakatu Konda.
“Aqui a cidade é uma família, o
Aula de canto para senhoras: afinando a tradição que já não empolga os jovens céu fica mais perto da gente, dá
para ver as estrelas”, explica Ali-
ce, num belo final de tarde. Seu
ao kaikan desativado, hoje habitado por um par de coru- marido, Massakatu, mais conhecido como Candinho, já foi
jas-brancas, os dois lembram de quando a grande diversão um dos melhores rebatedores de beisebol do Brasil. O bei-
da comunidade eram as exibições itinerantes de cinema ja- sebol (que entre os descendentes é chamado de yakyu) deu
ponês, feitas por um operador de projetor e um benshi (in- a Assaí um time respeitável, capaz de rivalizar e bater cida-
térprete) que se encarregava de dublar todas as vozes dos des muito maiores, como Maringá, Londrina, Bastos, Mogi
filmes (homens, mulheres e crianças) em tempo real – não das Cruzes e até São Paulo. Ex-jogador da seleção brasilei-
por acaso, os benshis eram considerados os grandes artis- ra e ex-treinador do time da cidade, Massakatu não se con-
tas da época. Feito de madeira, o kaikan será todo desmon- sidera um saudosista. Porém, quando nos acompanhou até
tado e transferido para a cidade, onde poderá preservar uma o campo de beisebol local, praticamente abandonado, com
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parte da história prestes a ser esquecida pelos mais jovens. arquibancadas desabando, placar em ruínas e nenhuma
marcação, seu corpo paralisou. Há 17 anos ele não entra-
O silêncio do rebatedor va no local. Seus olhos fitaram todo o cenário demorada-
O senhor Shimizu possui o rosto vincado e escuro, típico mente, num silêncio profundo, só interrompido por Cló-
de quem passou a vida trabalhando na terra, debaixo do vis Yohara, seu antigo jogador. “Acabou Candinho, aca-
sol forte. Aparenta cada um dos seus 78 anos, mas seu vigor bou”, consolou Clóvis.
é invejável: no final de semana seguinte, estará participan- O beisebol em Assaí terminou por falta de praticantes
do da 69ª edição do Campeonato Assaiense de Atletismo. – algo inacreditável para as lembranças de Massakatu, mas
Especializado em arremesso de peso, ele é capaz de lançar compreensível dentro de um processo de esvaziamento do
um martelo de 5 quilos a 32 metros de distância. Seu con- qual ele mesmo participou. Logo surgem memórias do tí-
corrente na categoria de veteranos, porém, é o atleta mais tulo brasileiro de 1962, conquistado em São Paulo. “Na
vitorioso da cidade: Mário Hurakuri, 59 anos, invejável volta, desfilamos a pé pela avenida, com os uniformes ain-
físico de garoto e mais de 250 medalhas e troféus conquis- da sujos. O comércio fechou”, rememora Massakatu, que
tadas em 42 anos de competição.
Tudo em Assaí remete à longevidade – inclusive os re-
cordes. Mário, especialista no plantio de abacates, tem a Nos bons tempos havia até
melhor marca intercolonial dos 800 metros rasos desde
1971. No campeonato da cidade, o recorde dos 5 mil metros filmes dublados ao vivo em
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não é batido desde 1947! O torneio, uma seletiva para os


japonês. Hoje a tradição só
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jogos paranaenses, reunia mais de mil atletas locais em seu


auge. Hoje, o número caiu para menos de 300. Mário
Hurakuri, que já disputou pan-americanos da colônia ja- sobrevive entre os idosos
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O INTELECTUAL
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eitor voraz de livros sobre a política e os índices socioeconômicos do Japão, Teruhiko Kumata nasceu em
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L Hiroshima, em 1930, mas sua família veio para o Brasil bem antes que a bomba atômica mudasse para
sempre a história da cidade. Naturalizado brasileiro, o diretor de educação da Laca acaba de ler
a Bíblia e se converteu ao catolicismo. Razão: seus filhos e netos já foram batizados. “É mais fácil eu
e minha esposa mudarmos do que todos eles se tornarem budistas, não é?”
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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

Jogo de sinuca cantado em japonês com o sotaque rural do norte do Paraná: só mesmo em Assaí
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conheceu sua esposa na mesma época, quando Alice foi


eleita a Miss Yakyu da cidade. Finalmente, o veterano joga-
dor treina – e acerta – algumas rebatidas lançadas por Cló-
Em 300 metros de avenida
vis. Enquanto isso, sua mulher assiste a tudo, sentada na
mesma arquibancada que freqüentou por anos, com a
há 21 lojas com nome japonês.
expressão de quem está vendo a vida inteira passar ali, na
sua frente. “Isto aqui ficava lotado de gente, até no barran-
O assaiense pode passar a
co. Ele era um ídolo, todas as meninas queriam namorá-
lo”, diz Alice, feliz com a lembrança.
vida sem falar português
O auge do atletismo e do beisebol em Assaí coincide mercado Sato, cortar as madeixas na Midori Cabeleireira,
com o esplendor financeiro da cidade, na década de 1960, trocar os óculos na Ótica Toda, consertar o carro no Auto-
quando ficou conhecida como a capital brasileira do algo- elétrico Maedinha e até encomendar o caixão na Funerária
dão. Levas de nordestinos chegaram na época em cami- Fukugawa. Mesmo nos estabelecimentos aparentemente
nhões paus-de-arara para trabalhar nas plantações, elevan- ocidentais, como o Bar Nossa Senhora de Aparecida, nota-
do a população para um pico de 50 mil habitantes nos anos se que a mulher servindo pinga é japonesa, os jogadores de
1970, mais que o dobro do número atual. Desde então, Assaí sinuca conversam em japonês e até o apostador do jogo de
nunca mais foi tão japonesa. bicho tem olhos puxados.
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Ainda assim, bastam alguns minutos de caminhada para Papeando nesse bar, chama a atenção Carlos José da Sil-
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encontrar 21 estabelecimentos com nomes japoneses nos va, o alegre Carlão, um pernambucano com botas de cou-
300 metros da única avenida da cidade. O assaiense pode ro, chapéu de vaqueiro e vistosa camiseta azul da seleção
tranqüilamente passar a vida fazendo compras no Super- japonesa de futebol. “Fui o primeiro negro a casar com uma

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O ATLETA
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S
uas mãos calejadas são idênticas às de quem, assim como ele, passou a vida trabalhando no campo.
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O físico de Mário Hurakuri, 59 anos, porém, sempre foi um diferencial, e motivo de orgulho da colônia. Nas
décadas de 1960 e 1970, Mário tornou-se o fundista a ser batido no Paraná – somente nos campeonatos
intercoloniais brasileiros havia adversários à altura. Atleta mais conhecido da história de Assaí, o atual
diretor de atletismo da Laca tem como maior orgulho a pupila Maria Shigeoka Rostirolla, recordista sul-america-
na de salto triplo na categoria acima dos 45 anos.
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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

vontade própria. Não chegam a


ser rebeldes, mas não admitem
imposições dos mais velhos”,
constata a professora Maria
Antônia Ayako Izo.

O velho kamikaze
A poucos quilômetros dali, na se-
ção rural “Palmital”, vive o exem-
plo mais radical da educação ja-
ponesa: o produtor de frutas
Kikuo Furuta. Nascido em 1930
em Wakaiama, no Japão, ele fez
parte da geração que, em plena
Segunda Guerra Mundial, foi
doutrinada nos moldes da
tokkotai – a juventude cujo lema
era dar a vida ao país e ao impe-
rador, e que forneceu o grosso dos
Ao ouvir Hiroíto negar seu caráter divino, Furuta vagou dez anos pelo mundo até chegar ao Brasil aspirantes a kamikazes. Furuta,
cujo sorriso fácil e rugas enormes
raramente o permitem ficar de
japonesa aqui na cidade, em 1975”, explica ele. Se na época olhos abertos, só consegue reavivar suas lembranças quando
a simples mistura com ocidentais ainda era polêmica, o re- fala em japonês. “Tudo na nossa sociedade nos levava a entrar
lacionamento de uma japonesa com um negro atiçou as para a tokkotai. Minha cidade foi atacada e quase toda destruída
más linguas de Assaí. “Diziam que com negro não podia. por bombardeiros. Via mortos empilhados no meio da roça.”
Pois fugi com ela para Londrina, casamos no cartório e No dia 15 de agosto de 1945, quando Hiroíto fez o primeiro
estamos juntos até hoje”, conta Carlão, corretor de imó- pronunciamento público de um imperador japonês na histó-
veis, pai de quatro filhos mestiços, três deles trabalhando ria, declarando a rendição do Japão e negando o seu caráter
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no Japão. “Meu sonho é ir pra lá também, viu?”, confessa. divino, o impacto no adolescente Furuta foi tão devastador que
Assim como Carlão e a maioria dos pais de Assaí, a dona ele passou os próximos dez anos vagando sem rumo, até que
do bar, Aparecida Tanagawa, tem sete filhos dekasseguis. um tio lhe sugerisse viajar para o Brasil. Hoje, ele enaltece a
A ausência de jovens é flagrante entre os voluntários liberdade do modo de vida brasileiro, e a oportunidade de
encarregados de montar o aparato para a festa do aniver- ter passado sua vida trabalhando no campo – algo quase
sário da cidade. Veteranos diretores da Laca assumem o impossível de se conseguir no minúsculo território japonês.
trabalho braçal e vão distribuíndo as faixas, barracas, pa- É no entorno de Assaí, nos caminhos para as seções ru-
lanques e luminárias. Nas escolas de língua japonesa rais, que se encontram as grandes belezas da região. Rara-
(nihongô), boa parte dos alunos é de adultos prestes a em- mente vemos pasto – em vez disso, plantações de trigo pa-
barcar para o trabalho no Japão. recidas com campos de futebol ondulados e cafezais
Por tudo isso, a atividade comunitária do agricultor milimetricamente organizados contrastam com o branco
Teruhiko Kumata, 78 anos, é talvez a mais desafiadora, hon- límpido dos campos de algodão e a estrutura suspensa dos
rada – e melancólica. Diretor de educação da Laca, sua mis- pés de uva sem sementes. “Depois de tanto tempo, conti-
são é preservar a língua japonesa e toda uma cultura edu-
cacional para os mais jovens. “Fomos ensinados a traba-
lhar não para nós mesmos, mas para os outros, para o Quase todas as famílias têm
mundo”, explica o japonês que veio ao Brasil com 6 anos de
idade. Na época, as professoras de Kumata tinham de bri- filhos no Japão. Não fossem
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gar para que os alunos não falassem japonês durante a aula.


os veteranos, não haveria
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Nos últimos dez anos, porém, o número de alunos de uma


das escolas de nihongô caiu de 100 para apenas 19. “Os fi-
lhos de descendentes mudaram bastante, hoje possuem como organizar as festas
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O LÍDER
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C
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om simpatia e conhecimento da região, o presidente da Laca é o guia perfeito para conhecer as sutilezas
de Assaí. Junto com a esposa, dona Yoko, Cairo Kogushi vive na seção “Palmital”, cultiva hábitos tipica-
mente japoneses (como o ofurô, a banheira de água quente em estilo japonês), mas é brasileiro de espíri-
to. Quando perguntamos se ele iria vestir uma roupa de samurai na festa de aniversário da cidade, onde
içou a bandeira japonesa, respondeu na lata: “Vou com um terno verde-amarelo”.
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100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA

A maioria, porém, segue para Londrina,


Curitiba, São Paulo ou mesmo para o Japão logo
após completar 18 anos. As associações de
moços, tão importantes em décadas passadas,
hoje não existem mais. As únicas ações capa-
zes de reunir e entusiasmar a juventude são a
banda de rock Hikari (formada por descen-
dentes, não foge à regra local de ter um coor-
denador) e o taikô, a música japonesa tradicio-
nal tocada com tambores de diversos tamanhos.
Quando a festa pelos 76 anos da cidade come-
ça, jovens vestidos de quimono fixam os pés no
chão, erguem os braços e iniciam o batuque
ritmado do taikô. “É o som do coração”, exulta
Vanessa Yoshida, uma das organizadoras. Logo
as mulheres e homens da região, todos vesti-
dos a caráter, organizam-se para a dança do
bon odori, uma seqüência rígida de passos con-
tidos, singelos e repetitivos, que se desenrola
em círculos ao redor dos tambores. A progres-
são é lenta: para cada três passos adiante, se-
guem-se dois para trás, acompanhados por
movimentos suaves de mãos e braços.
As batidas em alto volume mexem com o
corpo e atraem pessoas de todas as cores e na-
cionalidades. Até adolescentes com camisetas
pretas da banda Iron Maiden entram na roda.
Os movimentos são sutis, mas surpreenden-
temente catárticos, e quando percebemos o ri-
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tual já dura mais de duas horas, sem parar.


O agito no aniversário da cidade: japoneses ainda dão o tom É quando os mais velhos retiram-se para des-
cansar, e as batidas tornam-se mais rápidas e
ousadas, no estilo chamado de matsuri dance
nuo me emocionando, principalmente nas noites de lua – uma legítima invenção do norte do Paraná. Agora, os
cheia”, diz Cairo Kogushi, o presidente da Laca, morador jovens na faixa dos 13 aos 18 anos dominam não apenas
de “Palmital”. Sua esposa, dona Yoko, nos prepara um ver- os tambores, mas a roda de dança. Celulares com câmeras
dadeiro banquete com delícias locais: salada fresquinha, disparam a todo momento, e logo surgem as primeiras
cozido de legumes orientais, tofu (queijo de soja) caseiro, palmas da mão, giros de corpo, mãozinhas no joelho, li-
uma seleção de vegetais e frutas para o preparo de temakis geiras reboladas de cintura, dedinhos para cima, reque-
(sushis em forma de cone) e um delicioso missoshiru (sopa brando os quadris. Um desavisado poderia jurar que se
de soja), finalizado por laranjas e caquis colhidos na hora. trata de um funk, mas não – é apenas a história ditando
o seu ritmo inevitável.
Funk japonês
Um dos filhos do casal, Lídio, é dos raríssimos jovens
assaienses que escolheram como destino continuar o tra- A música é a grande diversão
balho dos pais no campo. Formado em agronomia e com
estágio em fazendas da Califórnia, nos EUA, Lídio explica dos jovens. Mas nem a banda
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que seu trabalho é fruto da esperança. “Nós lidamos com a


de rock local escapa à regra
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natureza, e cada ano é uma história diferente. Quando plan-


tamos, torcemos para dar certo. E se tudo vai bem e a co-
lheita rende, a sensação é maravilhosa.” de ter um coordenador
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CARTA DE NAVEGAÇÃO+CARTA DE

Plantação de soja: a economia local depende totalmente do campo

COMO CHEGAR
É possível ir de avião até Londrina, para depois encarar um trecho
rápido da PR-090 (46 km). Quem for de carro segue no sentido oeste
(vindo de São Paulo) pela Rodovia Castelo Branco até a cidade de
Ourinhos, e de lá vira para o sul na direção de Londrina pela BR-269.
Antes de chegar a Londrina, deve-se pegar a rodovia PR-090. Todas elas
estão em perfeitas condições de tráfego.

QUANDO IR
Além do aniversário da cidade, em 1º de maio, o grande evento de
Assaí ocorre no mês de junho: é a Exposição Agrícola de Assaí,
a mais antiga do gênero no Brasil, ocasião perfeita para conhecer os
produtos, as frutas e a cultura da região (ambos intimamente ligados
à imigração japonesa).
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ONDE FICAR
A única opção de hospedagem da região é o Hotel Sol Nascente, na Rua
Manoel Ribas, 744, tel. (43) 3262-1562. Apesar do nome, o proprietário é
um descendente de italianos. Todos os quartos possuem ar-condicionado,
frigobar e internet wi-fi, mas não há restaurante no local.

DICA DO AUTOR

“Não se deixe intimidar pelo primeiro


contato quase sempre frio e
desconfiado dos descendentes de
japoneses de Assaí. Isso não é grosseria,
mas apenas timidez. Uma vez
Assaí SP quebrado o gelo, as conversas com
PR os locais serão muito ricas e saborosas.
SC O entorno da
cidade e suas
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seções rurais são


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a parte mais
Assaí fica no norte do Paraná, a 46 km cativante da
de Londrina. Calcula-se que pelo região: não deixe
menos um em cada sete habitantes de visitá-las
locais seja descendente de japoneses demoradamente.“

Leo Nishihata

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