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Beckett, “cada vez menos sim”

Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga

A obra de Samuel Beckett foi inúmeras vezes comparada à de Franz Kafka. No entanto, o próprio Beckett, numa famosa entrevista de 1956, reparava as diferenças. Em primeiro lugar, os anti-herois kafkaianos seriam coerentes em seus objetivos, razão pela qual, embora em geral se encontrem perdidos, não são em geral espiritualmente precários, o que contrasta com as personagens beckettianas – um "povo" caindo aos pedaços e quase sem nada, encarnando cruamente, em forma não imediatamente realista, o que a sociedade da mercadoria efetivamente faz dos indivíduos. Semi-sujeitos inaptos a uma qualquer experiência enriquecedora do mundo, vale dizer, a uma experiência digna de ser contada, suas ações não são norteadas por nenhuma finalidade consistente e de longa dura. Donde a impressão geral de ausência de sentido, que levou alguns críticos a verem em sua obra uma estilização do Absurdo existencialista, quase degradado em nonsense – juízo que se mostraria um tanto precipitado: o estilo de Beckett é muito mais sensível que metafísico; menos voltado à especulação abstrata sobre alguma "condição humana" ou essência do “ser-aí", que sobre o nível imediato do corpo, suas urgências, sua sobrevivência difícil em meio às injunções sociais, da família ao trabalho, das instituições à própria linguagem discursiva –, fazendo cair em irrisão os temas imponentes do existencialismo. Por isso, nenhuma estética normativa, seja "clássica", "realista" ou "existencialista", pode dar conta da validade do experimentalismo formal beckettiano. Como salienta Adorno em ensaio fundamental sobre o autor de Fin de partie, sua perspectiva histórica é a da catástrofe social do pós-guerra, a incerteza do que se poderia chamar "vida" depois do fim do mundo. Se depois de Auschwitz e Hiroshima a falta de sentido tornou-se esmagadoramente real, o sentido de sua obra será determinar, com máxima precisão, o que resta e ainda se suporta nesse limiar entre vida e morte, saúde e doença, consciência e inconsciência, sanidade e loucura. É isso que abala e transtorna a forma em Beckett. Assim, em Kafka, ainda segundo Beckett, nota-se uma forma de escrita serena ameaçando implodir o tempo todo, mas que flui naturalmente aparando os choques, como um “rolo compressor”. Em Beckett, ao contrário, a desintegração é desde o início completa, e o terror da existência histórica se instala radicalmente agora na própria forma.

www.sinaldemenos.org

v.1, nº1, 2009

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No texto que traduzimos, o quarto dos treze que compõem os Textes pour rien, datados de 1950, o autor restringe deliberadamente vocabulário e sintaxe. A opção beckettiana pelo francês já é por si mesma a escolha pelo empobrecimento, como meio de dar forma exata à vivência de penúria, ignorância e impotência dos sujeitos desse tempo de guerra e estranhamento social. Os mecanismos tradicionais da narrativa, que foram pulverizados ao longo de sua trilogia de romances (Molloy, Malone meurt, L´Innommable), chegam, aqui, a um limite: ausência de título, personagens anônimos e móveis, enredo incerto, descontinuidade e embaralhamento das partes, linguagem desmoronada, em que soçobra uma fala compulsiva, penetrada pelo silêncio, em trabalho de tentar denominar um inominável, sem saída à vista. Uma escrita áspera, elíptica, invariavelmente torta, e com um vocabulário escasso. Não obstante, condensa em poucas linhas um quadro de "luta de morte" entre um senhor e um escravo, embora esta, ao contrário daquela de Hegel na Fenomenologia, não seja travada mais em vista de reconhecimento, mas antes pela pura supressão do outro, por um lado; por outro lado, uma luta por uma espécie de "desreconhecimento" – separação de um outro, do qual nunca se consegue desvencilhar. Mais que a imagem do mestre e do escravo, talvez trate-se de um sujeito em unidade cindida, com uma face diurna e uma outra inconsciente noturna. Ou ainda um eu e seu duplo, uma figura bifronte, viva e morta, ambas mortas-vivas, presentes-ausentes, uma na guerra e na errância, outra em "vida" estacionária em terra, mas difusa, sem lastro de atividade autônoma, afastada da faina, mas em liberdade que não existe senão em palavras tênues e opacas, pois sempre alienada na vida e no discurso de seu outro. A história contada é insuportável ao narrador, que a recusa e não se reconhece na própria voz, que é igualmente a voz do outro que o aliena uma vez mais, e por isso se reconhece apenas na solidão e no silêncio, na ausência de práxis, que por isso mesmo é o retorno da desgraça do sempre-igual. A poesia de Beckett, sem desviar, olha-a nos olhos.

“Respiração” (Breathe), na sequência, é de 1969. Nesta micro-peça, que tem duração de apenas 35 segundos, os atores são literalmente um monte de lixo, totalmente esparramado no chão, de modo horizontal. Predomínio absoluto do espaço inorgânico e penumbroso sobre o tempo e a subjetividade – possível representação do ciclo moderno da vida e da morte, num tempo e num espaço propositalmente abreviados.

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v.1, nº1, 2009

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