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Restauração? O que é isto?

Por Igor Miguel

A proposta deste texto é explicar o uso bíblico do termo “restauração”, afinal, ele vem

sendo usado de forma indiscriminada e irresponsável, o que acaba comprometendo seu sentido bíblico e original. Sem mencionar que diversas "seitas" e "denominações" emergem da distorção deste conceito.

Começaremos este texto fazendo a seguinte afirmação:

Biblicamente, o termo “restauração” não tem nada haver com:

restaurar a Igreja como ela era no I século;

restaurar a Igreja apostólica ou primitiva;

restaurar as raízes bíblicas ou judaicas (hebraicas) do cristianismo;

avivar a Igreja;

conduzir a Igreja a sua condição original;

voltar para a Igreja de Atos;

deixar “Roma” e voltar para “Jerusalém”;

o cristianismo abandonar o paganismo;

“voltar ao primeiro amor”.

Comumente, a palavra “restauração” se conecta a ideia de “restauração da Igreja”, alega-se que este seria um “chamado bíblico” ou “profético” o que é um equívoco, que pode ser constatado simplesmente analisando a principal ocorrência do termo na Bíblia:

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade. (Atos 3:19-21).

No Brasil o termo “restauração” é comumente contraposto à “reforma”, valendo-se quase de forma infantil da analogia da “construção”, alegando-se que “restaurar” é melhor que “reformar”, pois um “traz a coisa ao original” e a outra dá “outra forma”. Claro que a fraqueza deste argumento faz muito sentido para mentes ingênuas, mas precisamente por isto dispensa maiores refutações.

A questão é que há uma apropriação indevida de um termo que nada tem haver com

“restaurar a Igreja”, mas com a “restauração de todas as coisas”, ou seja, Pedro anuncia uma mensagem contida nos vários textos proféticos do Antigo Testamento, em que Deus promete “renovar” e “restaurar” sua criação, dignificando-a.

O texto de Pedro não tem qualquer implicação eclesiológica, em outras palavras, “restauração” no texto de Pedro não envolve a “restauração” ou o "retorno" da Igreja à sua “originalidade” ou “primitividade”, como se supõe. Pedro não anuncia a “restauração da Igreja”, o que seria uma contradição histórica, afinal, o apóstolo fala de dentro da primeira comunidade messiânica, ou seja, que tinha Cristo como centro, logo

cristã. Não havia o que “restaurar” em termos de Igreja na mensagem de Pedro, pois ele é a Igreja primitiva, ou do I século.

Como dito, o termo “restauração” vem sendo deturbado e descontextualizado de seu sentido original. A palavra grega aí traduzida por “restauração” é apokatastaseos [αποκαταστασεως], que além deste sentido, evoca algumas possibilidades tradutórias, como será demonstrado a seguir.

O uso do radical grego apokatastasis é usado na Bíblia (Novo Testamento Grego e na

Septuaginta – Antigo Testamento Grego) com os seguintes sentidos:

A “cura” ou “restauração” da pele de Moisés quando do sinal, em que Deus lhe feriu

com lepra e imediatamente ficou curado (Ex 4:7). Nos profetas aparece associado à restauração dos exilados de Israel, o retorno à terra, a restituição dos territórios e o restabelecimento da justiça (Jr 16:15; Os 11:11; Am 5:15). Já no Novo Testamento, o verbo “restaurar” ocorre nas palavras de Jesus associando o ministério de João Batista ao de Elias como aquele que primeiro vem para “restaurar todas as coisas” (Mc 9:12).

E finalmente, no monte das oliveiras, os discípulos perguntam, às vésperas da ascensão

de Jesus, se naquele momento ele “restauraria” o Reino a Israel (At 1:6).

Se reunidas as poucas ocorrências do termo, como substantivo ou verbo, na maioria dos casos ele aparece associado à “restauração” da nação de Israel ou da retomada da ordem

na criação. Pedro evoca esta expectativa judaica, derivada de outros textos dos profetas, onde o termo "restauração" não aparece diretamente citado, mas o tema é diretamente tratado.

Ao menos, pelo contexto de Atos 3:19-21 Pedro conecta sua ideia de “restauração” ao que fora “dito pela boca dos profetas”. Ao ouvido de seus ouvintes judeus, a conexão do termo “restauração” com “retorno do exílio” e “restauração da criação” seria inevitável.

Enfim, o uso do termo “restauração” como se fosse uma expressão bíblica associada à restauração da Igreja a seu formato original é puramente especulativa ou uma apropriação desonesta. "Restauração" biblicamente envolve a “renovação da criação” e a “restauração das promessas abraâmicas” dirigidas ao retorno dos filhos de Israel do exílio.

Movimentos “restauracionistas” em geral, desde seus primórdios no movimento de Thomas Campbell (1763-1854) que deu origem a várias seitas e denominações “primitivistas”, até aos atuais movimentos restauracionistas, como “Igreja Local”, “Igreja de Cristo” (Church of Christ), “Israelitas da Nova Aliança”, “Igreja de Deus”, “Testemunhas de Jeová”, movimentos apostólicos e o “Ministério Internacional da Restauração” do pseudo-apóstolo René Terra Nova, as doutrinas da "apóstola" Valnice Milhomens e os menos expressivos, como o “Ensinando de Sião” e similares, valem-se desta apropriação desonesta do termo “restauração”, dirigindo-o à Igreja, como se este fosse um “mandato profético”. Sem mencionar obras como “Cristianismo Pagão” de Frank Viola e similares, que retomam a velha falácia primitivista.

Não há qualquer texto no Novo Testamento que afirme que deveríamos permanecer ou retornar à “Igreja Primitiva” ou do “I Século”. Simplesmente as orientações apostólicas orbitam em geral ao redor de permanecer em Cristo, na graça, na fé, na Palavra, no amor, nas boas obras (ações de graça) e no Espírito Santo. Pois estes são princípios

atemporais e universais, não sendo uma exclusividade da comunidade cristã do I século, ao contrário, são virtudes universalmente encontradas em verdadeiros cristãos em diversos lugares do mundo. Estes elementos “universais” da fé cristã podem ser encontrados em forma de credos, como aquele conhecido como “Credo Apostólico” (~ II séc. d.C.), que seria um resumo da fé cristã:

1. Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;

2. e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,

3. que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;

4. padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

5. desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;

6. subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,

7. de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

8. Creio no Espírito Santo,

9. na Santa Igreja Católica (Igreja Universal), na comunhão dos Santos,

10. na remissão dos pecados,

11. na ressurreição da carne,

12. na vida eterna.

Amém.

A questão não é se inspirar no que os discípulos fizeram na Igreja Primitiva, simplesmente por ser ela “primitiva”, mas por ser ela “Igreja”, em sua expressividade apostólica e cristocêntrica. Expressividade encontrada não só no I século, mas em comunidades cristãs entre os II-VI séculos, na igreja medieval, durante a reforma no século XVI e ao longo dos avivamentos do século XVIII e XIX.

O problema de restauracionistas e primitivistas é que criam, cada um, sua versão

“pessoal” e “subjetiva” de “igreja primitiva” ou do “I século”. Algumas até se apropriam de expressões litúrgicas judaicas medievais e tardias, batizando-as como se fossem do “I século” e todos embarcam ingenuamente. Todo tipo de esquisitices emergem de tais práticas, como poderia ser constatado em casos extremos em países da América Latina.

Por analogia, pode-se dizer que a proposta de Cristo nunca foi que a Igreja permanecesse na condição de “semente” ou “broto”, mas que crescesse e tornasse uma grande árvore, sendo enriquecida com a “glória das nações”, mas sempre se renovando internamente (reforma) tendo em vista retomar a doutrina apostólica e os valores universais da fé.

Por outro lado, claro que a reforma não deu todas as respostas. Glória a Deus por não

ter confiado todos os tesouros da fé apenas a uma confissão cristã. Coerente e honesto

seria se localizar comunitariamente a uma confissão de fé, sem cair no denominacionalismo, considerando a catolicidade (a fé universal e comum de todos os cristão) da Igreja.

Não se duvida que os tesouros do Reino estão por aí na visão sacramental anglicana, na dedicação metodista, no fervor carismático-pentecostal e na doutrina da salvação reformada. Quanto a exaltar a primeira Igreja, reafirmo, o faça por ser Igreja, mas não por ser a primeira. Que seja celebrada por ser primícias, mas não por ser o

propósito último da Igreja, pois sua vocação é tornar-se maior e mais complexa ao longo do tempo.

Obviamente, a Igreja Primitiva precisa ser imitada e admirada não porque simplesmente é “primitiva”, mas porque é “Igreja”, o que torna a(s) Igreja(s) em outros tempos e lugares igualmente digna(s) de admiração. A questão não é apenas imitar o que os apóstolos viveram naquela época, mas pensar como viveriam ante os desafios do presente tempo. E penso, que neste aspecto, se precisa da Bíblia como ela é, mas lida comunitariamente, junto com a Igreja de Cristo que está além do tempo e do espaço. Assim, evita-se o subjetivismo teológico travestido de primitivismo, típico de todas as seitas, em todos os tempos.

Logo, que Deus toque corações em crise e os livre da rebeldia de se opor à vocação da Igreja, afinal, como foi dito:

“Tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel.” (Hb 12:22-24)

Soli Deo Gloria