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O LADRÃO DESCUIDADO

JOHN DICKSON CARR

(1906-1977 - Estados Unidos)

Dois convidados, que não iam passar a noite em


Cranlegh Court, despediram-se pouco depois das onze
horas. Marcus Hunt acompanhou-os até a porta e
depois voltou à sala de jantar, onde as fichas de pôquer
estavam então empilhadas em montes brancos,
vermelhos e azuis.
- Outra partida? - sugeriu Rolfe.
- Não vale a pena - respondeu Derek Henderson.
Seu tom, como sempre, era de tédio. - Somos só três.
O dono da casa parou próximo ao bufê e ficou
observando-os. O prédio todo, dando para a região de
Kent, se achava tão silencioso que as vozes de ambos
se elevaram num tom acima da média. A ampla sala de
jantar era iluminada suavemente por velas elétricas
presas à parede, o que destacava as cores sombrias do
quartos. Não é com freqüência que se vêem na sala
comum de uma casa de campo dois quadros pintados
por Rembrandt e um de Van Dyck. Havia uma espécie
de desafio naqueles quadros.
Para Arthur Rolfe, o vendedor de antigüidades, os
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quadros representavam dinheiro suficiente para deixá-lo


inquieto. Para Derek Henderson, o crítico de arte, eles
eram um problema. O que as obras representavam para
Marcus Hunt era dificil de dizer.
Hunt continuou parado ao lado do bufê, os punhos
apoiando as ancas, a sorrir. Era um homem atarracado,
do tipo mediano, rosto cheio e pele clara. Se alguém o
enfeitasse com um par de costeletas, ele lembraria um
holandês ideal para um pincel holandês. A frente de sua
camisa se enfunava, mal-ajambrada. Ficou observando
a cena com irônica alegria enquanto Henderson pegava
um baralho; com as pontas dos dedos muito longos,
separava-o em dois montes e embaralhava-os com um
movimento rápido do polegar, fazendo as cartas
entrarem uma dentro da outra, como um truque de
prestidigitador.
Henderson bocejou.
- Você me surpreende, meu rapaz - disse Hunt.
- Pois é essa mesmo a minha intenção - respondeu
Henderson, sempre entediado.
Levantou os olhos. - Mas qual o motivo desta sua
observação?
Henderson era jovem, alto, magro e sempre de
aparência limpa; também usava barba. Uma barba
ruiva que despertava a gozação de alguns. Mas ele a
usava com absoluta naturalidade.
- Fico surpreso - continuou Hunt - por gostar de
uma coisa tão burguesa, tão ... plebéia quanto o
pôquer.
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- Gosto de descobrir o caráter das pessoas - disse


Henderson - e o pôquer é o melhor meio de se fazer
isso, como deve saber.
Os olhos de Hunt se apertaram.
- Ah, sim? E pode descrever o meu caráter, por
exemplo?
- Com prazer - respondeu Henderson. Ar distraído,
serviu-se de uma mão de cartas, todas viradas para
cima. Tinha um par de cinco e a última carta era um ás
de espadas. Henderson fixou os olhos nela durante
alguns segundos.
- Consigo perceber - prosseguiu - que você é que
me surpreende. Posso ser franco? Sempre o tive na
conta de um colosso dos negócios; o sujeito de alta
visão, o arrojado, o que joga em grande escala. Mas
você não é nada disso.
Marcus Hunt deu uma risada, mas Henderson
continuou imperturbável.
- Você é sabido, porém muito cauteloso. Duvido que
tenha corrido um risco sério em toda a sua vida. Outra
surpresa - serviu-se de mais um lote de cartas - é o Sr.
Rolfe, aí presente. Ele é o homem que, dentro das
devidas circunstâncias, é capaz de arriscar tudo.
Arthur Rolfe ficou pensando sobre o que acabara de
escutar. Parecia um tanto surpreendido, mas bastante
lisonjeado. Embora em tipo físico se assemelhasse a
Hunt, nada havia de descuidado em sua figura. Tinha
um rosto moreno e quadrado, usava óculos e trazia a
testa quase sempre vincada.
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- Duvido - declarou, muito sério. Depois sorriu. -


Uma pessoa que corresse grandes riscos num negócio
como o meu em pouco tempo estaria na miséria -
lançou um olhar pela sala. - Pelo menos, seria
precavido demais para ter três telas que representam
mais de cinqüenta mil libras penduradas numa sala
desprotegida, com janelas francesas dando para um
terraço. - Um tom um pouco mais alto lhe foi notado na
voz: - Meu Deus! Suponhamos que um ladrão ...
- Mas que diabo! - exclamou Henderson,
inesperadamente. Até Hunt se mexeu.
Desde o final do jogo uma atmosfera de inquietação
ia se infiltrando entre eles.
Hunt apanhara uma maçã de uma fruteira em cima
do bufê. E começava a descascar a fruta com uma faca
de lâmina fininha e aguçada que brilhava à luz das
lâmpadas da parede. - Você quase me fez decepar o
polegar - exclamou ele, largando a faca. - Que foi que
aconteceu?
- É o ás de espadas - respondeu Henderson no
mesmo tom lânguido de sempre. É a segunda vez que
me aparece nos últimos cinco minutos.
- Sim, e dai? - Arthur Rolfe foi meio brusco.
- Acho que seu jovem amigo está saindo do sério -
observou Hunt, novamente de posse de seu bom
humor. - Afinal de contas vai descrever caracteres ou
ler a sorte da gente?
Henderson hesitou. Seus olhos se voltaram para
Hunt e depois passaram para a parede em cima do bufê
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onde "A velha de touca" de Rembrandt o encarava com


a imobilidade e o colorido de uma pele-vermelha.
Depois Henderson olhou para as janelas francesas que
davam para o terraço.
- Não é da minha conta - murmurou, dando de
ombros. - A casa é sua e suas são também a coleção e
a responsabilidade. Mas o que acha de Cutler? O que
sabe a seu respeito?
Marcus Hunt pareceu se divertir.
- Cutler? É um amigo da minha sobrinha. Harriet
conheceu-o em Londres e pediu que eu o convidasse a
vir aqui. Bobagem! Cutler é uma pessoa direita. O que é
que você anda imaginando, afinal de contas?
- Escutem só! - murmurou Rolfe, com a mão
erguida.

***

O barulho que ouviam vinha do terraço, porém não


se repetiu. E não se repetiu porque a pessoa que o
provocou, uma agitada e inquieta criaturinha, correu
para o fundo do terraço, onde se debruçou no muro.
Lew Cutler hesitou antes de sair atrás dela. O luar
estava tão claro que se podia ver a argamassa que
ligava as lajotas que pavimentavam o terraço e traçar
um desenho das urnas de pedra, ao longo do muro.
Harriet Davis vestia um vestido de noite todo branco.
Saias longas e transparentes que arrastavam-se pelo
chão enquanto ela corria.
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Depois, ela lhe fez um sinal.


Estava meio sentada meio inclinada no corrimão.
Seus braços muitos brancos estendidos, os dedos
agarrados à pedra. Os cabelos e os olhos escuros
tornaram-se ainda mais vivos à luz do luar. Ele
vislumbrava o arfar dos seios dela; podia até mesmo
acompanhar a sombra dos seus cílios.
- De qualquer maneira, o que ele disse foi uma
mentira - falou ela.
- Ele quem?
- O tio Marcus, o que ele disse. Você escutou. - Os
dedos de Harriet Davis se apertavam ainda mais na
balaustrada. Mas ela sacudiu a cabeça com veemência.
- Que eu o conhecia e que o convidei a vir aqui. Eu
nunca o tinha visto na vida antes deste fim de semana.
Ou o tio Marcus perdeu o juizo ou então ... Concorda
em responder a uma só pergunta?
- Se puder.
- Pois bem. Você por acaso é um escroque?
Ela lhe falou com a simplicidade de que se serviria
para lhe perguntar se era médico ou advogado. Lew
Cutler não era bobo para rir. Ela se encontrava naquele
estado de espírito em que, para qualquer mulher, uma
risada é o mesmo que sal numa ferida aberta; com toda
a probabilidade, o teria esbofeteado.
- Para ser absolutamente franco, não. Quer me dizer
por que a pergunta?
- Esta casa - respondeu Harriet, voltando os olhos
para a lua - costumava ser protegida por alarmes
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contra ladrões. Bastava tocar numa vidraça para que a


casa toda badalasse como um Corpo de Bombeiros. Até
semana passada - ela tirou a mão da amurada e
apertou-as uma contra a outra - os quadros costuma-
vam ficar lá em cima, num quarto trancado, ao lado dos
aposentos dele. Agora ele mandou-os colocar aqui
embaixo... Dá a impressão de que meu tio está
querendo que sua casa seja roubada.
Cutler percebeu que precisava usar o máximo de
cautela.
- Talvez queira mesmo - e ia levantar os olhos para
ela, mas não fez nenhum comentário. - Por exemplo,
suponhamos que um dos Rembrandt não passe de uma
imitação. Seria um alívio não ter de expô-lo aos olhos
experientes dos seus amigos, ótimos conhecedores de
arte.
- A moça sacudiu a cabeça. - Não, todos os quadros
são autênticos. Também tinha me ocorrido essa idéia.
Ali estava a ocasião para pegá-lo numa armadilha.
Para Lew Cutler, na sua inocência, não parecia haver
nenhum problema especial. Tirou sua cigarreira do
bolso e a abriu. - Escute, miss Davis, creio que não vai
gostar do que eu vou dizer, mas acredite que muita
gente desejaria ver esta propriedade roubada. Se um
quadro está segurado acima do seu valor, e é
misteriosamente "roubado" certa noite ...
- Esta teoria também seria aceitável - retrucou
Harriet, muito calma -, mas acontece que nenhum dos
quadros está no seguro.
A cigarreira de metal polido escapou dos dedos de
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Cutler e foi bater na lajota do chão. Os cigarros se


espalharam, tal como havia acontecido com suas
confusas teorias. Ao se curvar para apanhá-los, ouviu o
relógio de uma torre na vizinhança marcar a badalada
das onze e meía.
- Tem certeza disso?
- Certeza absoluta. Ele jamais segurou nenhum dos
seus quadros por um só tostão que fosse. Considera
seguro um desperdício de dinheiro. - Mas ...
- Ah, eu sei! O que não sei é por que estou aqui
falando com você destas coisas. O senhor é um
estranho, não é? - ela cruzou os braços e encolheu os
ombros como se sentisse frio. A incerteza, o medo e um
toque de nervos lhe adejavam nas pálpebras. Mas
acontece que tio Marcus também é um estranho. Sabe
o que eu penso? ... Que ele caminha a passos lentos
para a loucura ...
- Ah, não chega a tanto assim ...
- Sim, é fácil dizer isso. Mas o senhor não o observa
quando seus olhos parecem ir diminuindo e todo aquele
ar divertido e bonachão vai desaparecendo do seu
rosto. Ele não está fingindo. Detesta falsidades e sai do
seu caminho para desmascará-las onde as encontra.
Mas se não é verdade que esteja ficando louco, o que
então estará planejando?

***

No final de mais ou menos três horas, eles


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acabaram descobrindo isso.


O ladrão só assaltou a casa lá pelas duas e meia da
madrugada. Primeiro, fumou vários cigarros próximo
aos arbustos ao pé da terraço. Quando ouviu o relógio
da torre dar as horas, esperou mais alguns minutos,
subindo logo em seguida os degraus que levavam às
janelas francesas da sala de jantar.
Um vento frio soprava naquela hora. Hora dos
suicídios e dos pesadelos, sacudindo a grama e a copa
das árvores com um leve sussurrar. Quando o homem
olhou por cima do ombro, um raio de lua lhe iluminou o
rosto, deixando à mostra menos uma face do que o
pano negro de uma máscara sob a aba descida de um
boné que o cobria até as orelhas.
Pôs-se então a trabalhar na janela central, com um
conjunto de ferramentas um pouco menor do que
aquele usado por motoristas. Colou dois pedacinhos de
esparadrapo no vidro, bem junto do trinco. Depois, com
uma ponta de diamante, cortou um semicírculo dentro
do adesivo.
A operação não aconteceu sem ruído: a ponta
arranhava como uma broca de dentista num dente, e o
homem parou para escutar à sua volta. Não percebeu o
menor ruído em resposta. Nenhum cão latiu. Com o
esparadrapo segurando o vidro, e impedindo assim que
caísse e se estilhaçasse, enfiou a mão com luva pela
abertura e torceu a maçaneta. O peso de seu corpo
amorteceu o estalar da porta quando a empurrou e a
abriu.
Sabia exatamente o que estava querendo. Guardou
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as ferramentas no bolso e dali tirou uma lanterna. O


facho de luz correu para o bufê tocando na prataria
brilhante, numa bandeja com frutas e numa faquinha
perigosa enterrada numa maçã, como se fosse no corpo
de alguém; finalmente subiu pela parede, chegando ao
rosto da velha do retrato.
Não era um quadro muito grande e o ladrão soltou-
o da parede com facilidade.
Tirou fora a moldura e o vidro. Ao tentar enrolar a
tela com todo o cuidado, a tinta quebradiça ia largando
pedaços minúsculos que feriam o rosto do modelo. O
ladrão, tão absorvido pela operação, nem percebeu a
presença de outra pessoa na sala.
Era um ladrão descuidado: faltava-lhe o sexto
sentido para preveni-lo do assassinato.

***

Lá em cima, no segundo andar, Lew Cutler acordou


com um ruído abafado, produzido pela queda de um
objeto de metal. Não chegara a dormir profundamente.
Sabia perfeitamente o que devia estar acontecendo,
embora não tivesse a menor idéia do porquê, nem do
como, nem de quem.
Cutler saltou da cama e enfiou os chinelos assim
que ouviu o primeiro barulho lá em baixo. Seu roupão,
como sempre que tinha pressa, estava enrolado como
um guarda-chuva, desafiando todas as tentativas para
encontrar as mangas. Mas a lanterna estava a postos
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num dos bolsos.


O tal barulho não parecia ter despertado mais
ninguém. Com certas possibilidades em mente, jamais
em sua vida se movera com tamanha rapidez, assim
que saiu do quarto. Sem usar a luz, desceu
rapidamente os dois lances de escada coberta de
espessos tapetes.
No hall de baixo, sentiu uma corrente de ar que
indicava que uma janela ou uma porta fora aberta em
alguma parte. Dirigiu-se logo para a sala de jantar.
Chegou, no entanto, tarde demais.
Depois de rodear o aposento com a lanterna acesa,
torceu a chave de luz. O ladrão continuava ali, nenhuma
dúvida. Mas estava estendido completamente imóvel na
frente do bufê. E a julgar pela quantidade de sangue
que lhe empapava o suéter e as calças, jamais voltaria
a se mover.
- Bem ... Aconteceu - observou Cutler em voz baixa.
Um serviço de prata, incluindo o bule de chá, fora
derrubado em cima do bufê. Onde caíra o prato de
frutas, a vítima jazia de costas, rodeada de laranjas,
maçãs e um amassado cacho de uvas. A máscara ainda
lhe cobria o rosto; seu boné ensebado estava mais
enterrado nas orelhas e tinha as mãos enluvadas bem
abertas.
À sua volta, viam-se fragmentos de vidro, juntos
com a moldura vazia, e o quadro de Rembrandt estava
meio amassado debaixo do corpo. Pela posição das
manchas de sangue mais em evidência, Cutler concluiu
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que o intruso fora apunhalado no peito com a faquinha


de fruta manchada que estava ao lado dele.
- O que aconteceu? - perguntou uma voz bem
perto.
Ele não teria ficado mais assustado se a faquinha de
fruta lhe tivesse tocado nas costelas. Não vira ninguém
acender as luzes do hall nem escutara a chegada de
Harriet Davis. Ela estava bem atrás dele, enrolada num
quimono japonês, com o cabelo bem escuro a lhe
rodear os ombros. Mas quando ele lhe explicou o que
acontecera, ela não quis olhar para a sala de jantar;
recuou sacudindo a cabeça com violência, como uma
criança pronta para fugir.
- É melhor ir lá em cima e acordar o seu tio - falou
Cutler com energia, revelando uma confiança que não
existia. - E os criados. Preciso usar o telefone - depois
encarou-a bem dentro dos olhos. - Sim, você tem
razão. Acho que você já tinha adivinhado. Sou da
polícia.
Ela concordou com um gesto de cabeça.
- Sim, adivinhei. Quem é você? Seu nome é Cutler
mesmo?
- Sou sargento do Departamento de Investigação
Criminal. E o meu nome é mesmo Cutler. Foi o seu tio
quem me trouxe para este fim de semana. - Por quê?
- Não sei. Não quis me falar tudo.
A inteligência da moça, embora embotada pelo
medo, era direta e desconsertante. - Mas se ele se
negou a dizer por que precisava da presença de um
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representante da polícia, como foi que o mandaram? Ele


tinha de lhes dizer a verdade, não é mesmo?
- Preciso falar com o seu tio - Cutler mudou de
assunto. - Quer ir lá em cima e acordá-lo, por favor ?
- Não posso - respondeu Harriet. - Bati na porta do
tio Marcus quando desci e ele não estava lá.
Cutler galgou a escada de dois em dois degraus.
Harriet acendera todas as luzes ao descer, porém nada
se mexia nos corredores superdecorados.
O quarto de Marcus Hunt estava vazio. Sua dinner-
jacket estava dobrada e colocada cuidadosamente no
encosto da cadeira, a camisa estendida no assento com
o colarinho e a gravata em cima dela. O relógio de Hunt
tiquetaqueava audivelmente na mesinha de cabeceira.
Seu dinheiro e suas chaves também lá estavam. Mas
ele não chegara a se deitar, pois as cobertas da cama
estavam incólumes.
A suspeita que se levantou na cabeça de Lew Cutler,
ali parado ouvindo o tiquetaque do relógio àquela hora
mágica, pouco antes do amanhecer, era tão fantástica
que ele mal podia lhe dar crédito.
Desceu de novo a escada e no caminho esbarrou em
Arthur Rolfe, que saía de seu quarto no fundo do hall. O
negociante de antigüidades vestia o corpo atarracado
com um roupão de flanela. Não usava os óculos, o que
dava ao rosto um aspecto turvo e embaciado. Pôs-se à
frente de Cutler e recusou-se a se afastar dali.
- Sim - murmurou Cutler -, nem é preciso pergun-
tar. É um ladrão.
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- Eu sabia - retrucou Rolk calmamente. - Levou


alguma coisa?
- Não. Foi assassinado.
Por um instante Rolfe nada disse, mas levou a mão
ao peito do roupão como se sentisse uma dor repentina.
- Assassinado? O senhor está querendo dizer que o
ladrão foi assassinado?
- Sim.
- Mas por quê? Por um cúmplice, é o que quer
insinuar? Quem é o ladrão?
- É exatamente isso que eu pretendo descobrir.
No hall de baixo encontrou Harriet Davis, agora
parada à porta da sala de jantar olhando fixamente
para a vítima. Embora sem mover um só músculo do
rosto, seus olhos estavam rasos d'água.
Pisando com cuidado para evitar as frutas e os
cacos de vidro pelo chão, Cutler inclinou-se para o
morto. Empurrou a ponta do boné sujo e levantou a
máscara preta segura por uma tira de elástico,
encontrando assim o que esperava encontrar.
O ladrão era Marcus Hunt, apunhalado no coração
quando tentava roubar sua própria casa.

***
- Como o senhor está vendo - explicou Cutler ao Dr.
Gideon Fell na tarde seguinte -, aí é que mora a
dificuldade. Por qualquer lado que se encare, esse caso
simplesmente não faz sentido.
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Mais uma vez ele repassou os fatos.


- Por que razão o homem assaltaria a sua própria
casa, roubando coisas que lhe pertenciam? Cada um
dos quadros tem um grande valor e nenhum deles tinha
seguro. Conseqüentemente, por quê? O homem seria
um lunático, simplesmente? O que imaginava estar ele
fazendo?
***

A vila de Sutton Valence, espalhada como uma


branca cidadezinha italiana no ponto mais alto de
Weald, estava aquecida e iluminada pelo sol. No pomar
das macieiras, atrás da estalagem muito branca, o Dr.
Gideon Fell sentou-se numa das mesinhas do jardim,
com um canecão ao lado do cotovelo. O corpanzil do Dr.
Fell estava vestido de linho branco. O seu rosto
avermelhado fumegava de calor e a preocupação que
lhe causavam as vespas dava-lhe uma aparência
estrábica enquanto meditava.
- O superintendente Hadley sugeriu que eu desse
uma olhada por lá - disse ele. A polícia local está
tratando do caso, não é?
- Sim. Fiquei de mero espectador.
- As palavras exatas de Hadley foram: "O caso é tão
maluco que só o senhor mesmo poderá resolvê-lo."
Lisonjeador demais, acredito eu - o Dr. Fell franziu o
cenho. Me diga, não reparou em nada de especial nesta
história?
- Ora, muito simples: por que motivo alguém iria
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roubar a sua própria casa?


- Não, não! - grunhiu o Dr. Fell. - Você está se
deixando obcecar por este ponto. Vai acabar
hipnotizado por ele. Por exemplo, a moça parece ter
levantado uma questão bastante interessante. Se
Marcus Hunt se negava a dizer por qual motivo
desejava a presença de um detetive em sua casa, como
é que o Departamento consentiu em mandá-lo para lá?
Cutler deu de ombros.
- Porque o inspetor-chefe Ames pensou que Hunt
estivesse planejando algum golpe e queria ver se
conseguia impedi-lo.
- Que espécie de golpe?
- Um suposto roubo que lhe desse direito ao
dinheiro do seguro dos quadros. É um velho truque
recorrer antes à polícia a fim de desviar as suspeitas.
Em outras palavras, senhor, exatamente o que parecia
ser, até eu ficar sabendo, e hoje deixar provado, que
nenhuma destas malditas telas foi segurada por
dinheiro algum - Cutler hesitou. Mas logo prosseguiu: -
Não pode ter sido uma simples brincadeira. Olhe para
os cuidados que tomou em relação a tudo. Hunt vestiu
roupas velhas das quais todas as marcas de fábrica ou
de lavanderia foram removidas. Vestiu luvas e máscara.
Carregava uma lanterna e um moderno conjunto de
peças que fariam a alegria de um ladrão. Saiu da casa
pela porta dos fundos, que encontramos aberta. Fumou
vários cigarros ao lado dos arbustos junto ao terraço -
encontramos suas pegadas na terra. Cortou um pedaço
de vidro ... mas já lhe contei tudo isso.
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- E aí - concluiu o Dr. Fell - alguém o matou.


- Sim, esse é o último e o pior dos "porquês". Por
que motivo alguém o mataria?
- Hum ... algum indício?
- Indícios negativos - Cutler tirou a caderneta do
bolso. - De acordo com o cirurgião da polícia, ele
morreu de uma punhalada direta no coração feita por
uma lâmina tão fina que foi difícil encontrar o
ferimento, provavelmente provocado pela tal faquinha
de frutas. Havia uma série de impressões digitais, todas
dele e de mais ninguém. Encontramos ainda alguma
coisa bem esquisita. Peças do serviço de chá que
estavam em cima do bufê estavam arranhadas, como
se, ao invés de serem atíradas ao chão na hora da luta,
elas tivessem sido empilhadas umas sobre as outras
como uma torre e depois empurradas ...
Cutler fez uma pausa, pois o Dr. Fell sacudia a
cabeça com uma expressão clownesca de lástima.
- Bem, bem, bem - murmurou ele. - Bem, bem,
bem. E o senhor chama isso de prova negativa?
- E não é? Não explica por que motivo um homem
vai roubar a sua própria casa.
- Escute - falou o Dr. Fell com suavidade. - Gostaria
de lhe fazer apenas uma pergunta. Qual é o ponto mais
importante desta história? Um momento! Não disse um
dos mais importantes, e sim o mais importante de
todos. Sem dúvida nenhuma é o fato de um homem ter
sido assassinado.
- Sim, naturalmente.
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- Menciono isso - o doutor parecia contrito - porque


me parece um tanto esquecido. Mal lhe despertou a
atenção, por exemplo. O senhor se preocupa apenas
com a tola encenação de Hunt. Pouco se lhe dá que
uma garganta tenha sido cortada; o que não admite é
que lhe preguem uma peça. Por que motivo não
experimenta a outra face do problema e pergunta logo
quem matou Hunt?
Cutler ficou em silêncio durante algum tempo.
- Os criados estão excluídos - respondeu finalmente.
- Dormem numa outra ala, no último andar. E por
alguma razão alguém os trancou à chave na noite
passada. Foi preciso rebentar a porta quando a casa
entrou em polvorosa. Mas, é claro, o assassino pode ser
um estranho.
- O senhor sabe que isso não é verdade - falou Dr.
Fell. - Quer fazer o favor de me levar até Cranlegh
Court?

***

Saíram para o terraço na hora mais quente da


tarde.
O Dr. Fell sentou-se numa cadeira de vime, a
abatida Harriet ao seu lado. Derek Henderson, de
flanela branca, apoiava o corpo comprido no muro
baixo. Só Arthur Rolfe vestia um terno escuro e parecia
deslocado ali. Porque as terras da propriedade, em tons
verde e marrom, os quais raramente tomavam um
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colorido mais intenso, agora ardiam abrasadas pelo sol.


Não soprava nenhuma brisa, nenhuma folha se movia
naquele brilhante e concentrado calor. E lá embaixo no
jardim, à esquerda deles, a água da piscina cintilava
sob a luz do sol. Cutler sentia tudo aquilo como um
peso nas pálpebras.
A barba de Derek Henderson parecia ao mesmo
tempo lânguida e agressiva, quando ele falou:
- Não adianta estar aí a me perguntar por que
motivo Hunt pensaria em roubar a própria casa. Mas
talvez possa lhe dar uma sugestão.
- Qual? - indagou Dr. Fell.
- Qualquer que tenha sido a razão dele, foi uma boa
razão. Hunt era esperto e cauteloso demais para fazer
alguma coisa sem uma boa razão a sustentá-la. Foi o
que eu lhe disse ontem à noite.
- Cauteloso? Por que afirma isso? - observou Dr.
Fell, vivamente.
- Ora, veja só: peço três cartas numa rodada. Hunt
pede uma. Eu pago para ver as cartas, ele me observa
e aumenta a aposta. Cubro o seu lance e aposto mais
ainda. Hunt desiste. Em outras palavras, é mais do que
certo que ele estava com a mão cheia, mas não tem
certeza se tenho mais do que um par. E mesmo assim
entrega os pontos. Ganho de um straíght no blefe, com
meus três setes. Ele jogou várias rodadas assim ontem
à noite.
Henderson pôs-se a rir. Mas ao perceber a
expressão triste de Harriet, controlou-se e tornou-se
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solene.
- A verdade é que ele tinha muitas outras coisas na
cabeça ontem, quando estava jogando - acrescentou
Henderson, todos percebendo sua mudança de tom.
- Sim, e o que tinha ele na cabeça?
- Desmascarar alguém em quem ele sempre
confiara - respondeu Henderson, num tom frio. - Foi por
isso que não me agradou virar o ás de espadas tantas
vezes durante o jogo.
- É melhor o senhor explicar isso - disse Harriet,
após uma pausa. - Não sei o que é que o senhor está
insinuando. Ele lhe falou que tinha a intenção de
desmascarar alguém em quem sempre confiara?
- Não. Tal como eu, apenas sugeriu ...
Foi o impassível Rolfe quem entrou na conversa
para valer nessa hora. Tinha o ar de alguém resolvido a
se ater apenas à lógica, mas com dificuldades de
consegui-lo.
- Escutem - exclamou ele -, sempre ouvi falar a
respeito da satisfação com que Hunt desmascarava este
ou aquele. Muito bem! Mas em nome da sanidade
mental, onde vamos chegar com isso? Ele desejava
arrancar a máscara de alguém. E para fazê-lo, enfia
umas roupas velhas e se fantasia de ladrão. Isso por
acaso é sensato? Para mim, o homem estava louco. Não
existe outra explicação.
- Existem outras cinco explicações - retrucou o Dr.
Fell.
Derek Henderson levantou-se lentamente do muro
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baixo, mas voltou a sentar-se ante um gesto meio


brusco de Rolfe.
- Mas não pretendo tomar o tempo de vocês citando
as quatro explicações restantes - continuou o Dr. Fell. -
A nós interessa apenas uma explicação: a verdadeira.
- E o senhor conhece essa explicação? E desde
quando? - perguntou Henderson, meio exaltado.
- Creio que sim. Desde que tive a oportunidade de
ver todos vocês - respondeu o Dr. Fell.
Recostou-se com todo o seu peso na cadeira de
vime, fazendo com que ela estalasse como a carcaça de
um navio em mar tempestuoso. Seu vasto queixo
avançou e ele sacudiu a cabeça como se acentuasse um
detalhe qualquer que tinha muito claro na cabeça.
- Já que troquei duas palavras com o inspetor local -
prosseguiu de repente -, sei que ele deve chegar aqui
dentro de alguns instantes. E seguindo uma sugestão
minha, fará um pedido a cada um dos senhores. Espero
que ninguém se recuse a atendê-lo.
- Pedido? - disse Henderson. - Que tipo de pedido?
- Hoje está muito quente - disse o Dr. Fell, piscando
os olhos, ao apontá-los para a piscina. - Ele vai sugerir
que vocês nadem um pouco.
Harriet, impaciente, parecia apelar com os olhos
para Lew Cutler.
- Isso será o meio mais delicado - prosseguiu Dr.
Fell - de concentrarmos a atenção no assassino. Mas,
no momento, permitam que eu chame a atenção de
vocês para um ponto nas provas que parece ter sido
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completamente ignorado. Sr. Henderson, o senhor sabe


alguma coisa a respeito de ferimentos no coração feitos
por uma lâmina fina como um fio?
- Como no ferimento de Hunt? Não.
- Praticamente não houve hemorragia externa -
respondeu o Dr. Fell.
- Mas... - ia dizer Harriet, quando Cutler a
interrompeu.
- Na verdade, o médico da polícia se referiu à
particularidade do ferimento, "tão difícil de se
encontrar”: A vítima morre quase que imediatamente e
os entornos da ferida se comprimem.
- Mas nesse caso - insistiu Henderson - como é que
Hunt tinha tanto sangue no suéter e manchas
espalhadas nas calças?
- É simples - respondeu o Dr. Fell, com toda a
calma. - O sangue do Sr. Hunt lhe empapou as roupas.
- Não agüento mais - e Harriet levantou-se de um
pulo. - Desculpe, mas o senhor acha que todos nós
somos um bando de malucos? Por acaso não vimos
todos nós o corpo caído, ao lado do bufê, coberto de
sangue?
- Sim, claro que viram.
- Nesse caso, podem deixar eu delirar à vontade -
exclamou um pálido Derek Henderson.
- Eis aí um bom ponto de vista - disse o Dr. Fell. -
Mas com isso fica respondida a sua pergunta, quanto ao
motivo de o homem eminentemente sensato que foi o
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Sr. Hunt ter pensado em se disfarçar de ladrão. E a


resposta é curta e simples: não foi isso o que ele fez.

***

- Deve ser mais do que claro para todos vocês -


continuou o Dr. Fell, arregalando os olhos - que o Sr.
Hunt estava armando uma cilada para alguém, isto é,
para o verdadeiro ladrão. Acreditava que uma certa
pessoa tentaria lhe roubar um ou mais dos seus
quadros. Provavelmente, sabia que essa pessoa já
tentara a mesma coisa outras vezes antes, em outras
casas de campo; isto é, um trabalho feito dentro da
casa que deixasse a impressão de ter sido realizado por
alguém de fora. Por isso, procurou facilitar as coisas
para esse ladrão a fim de apanhá-lo com um
representante da polícia dentro de casa.
"O ladrão, pobre coitado, caiu na esparrela. Na
qualidade de convidado, esperou até às duas e tanto da
madrugada. Depois vestiu as roupas velhas, máscara e
luvas e saiu pela porta dos fundos. Percorreu todo o
itinerário que erroneamente atribuímos a Marcus Hunt.
Mas aí a armadilha funcionou. No momento em que
enrolava a tela de Rembrandt, ele escutou um barulho.
Passou a luz da lanterna em volta e deu com Marcus
Hunt de pijama e roupão a encará-lo.
"Sim, houve luta. Hunt atirou-se em cima dele. O
ladrão conseguiu se apossar de uma faquinha de frutas
e lutou para defender a sua pele. Durante a luta,
Marcus Hunt dobrou o braço do ladrão, segurando-o
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com força. A faca raspou no peito do ladrão infligindo-


lhe um ferimento superficial mas que sangrou em
profusão. Isso levou o assaltante à beira da loucura.
Apertou o pulso de Marcus Hunt e conseguiu tirar-lhe a
faca e o apunhalou no coração.
"Depois, no silêncio da casa que dormia, à luz da
lanterna em cima do bufê, o assassino percebe algo que
o levará à forca. O sangue do seu ferimento superficial
lhe empapara a roupa. Como se livrar dela? Não tinha
tempo para destruí-la nem de levá-la para longe da
casa. É claro que o prédio seria revistado e não
deixariam de encontrá-la. Sem as manchas, passariam
por velharias penduradas num guarda-roupa. Mas assim
...
Só havia uma saída para ele ... "
Harriet Davis, parada atrás da cadeira de vime e
protegendo os olhos contra a luz excessiva do sol, não
se conteve e falou:
- E aí ele trocou de roupa com meu tio.
- Isso mesmo! - grunhiu Dr. Fell. - Eis aí a triste
história. O assassino vestiu a vítima com suas próprias
roupas, fazendo um corte no suéter, na camisa e na
camiseta. Depois enfiou o pijama do Sr. Hunt e o
roupão, que, num momento de aperto, poderia dizer
que eram seus. O ferimento de Hunt sangrara apenas
de leve. Seu roupão provavelmente se abrira durante a
luta, de modo que tudo o que poderia preocupar o
ladrão eram apenas uns pingos no casaco do pijama.
"Mas tendo conseguido isso, era preciso fazer crer a
todos que não houvera tempo para uma troca de roupa.
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Era preciso fazê-los acreditar que a luta se dera naquele


preciso momento. Portanto, o remédio era acordar a
casa toda. Fez barulho, atirando no chão uma pilha de
objetos de prata, correndo para cima logo em seguida."
Dr. Fell fez uma pausa. Depois, acrescentou:
- O ladrão jamais poderia ter sido Marcus Hunt.
Encontraram as impressões de Hunt por toda a parte, e
no entanto a vítima usava luvas.
Ouviu-se um arrastar de pés lá embaixo e logo um
par de pesadas botas começaram a subir os degraus de
pedra para o terraço. O inspetor da policia local,
abotoado até o pescoço e suando em bicas dentro do
uniforme, vinha seguido de dois guardas.
- Ah! - disse o Dr. Fell, satisfeito. - Vieram para a
brincadeira da piscina, com certeza. É fácil estancar um
ferimento superficial com algodão e esparadrapo ou
pano. Mas a coisa fica bastante visível numa pessoa de
calção de banho, não é mesmo?
- Mas não é possível que ... - os olhos de Harriet
correram em volta e seus dedos se apertaram no braço
de Lew Cutler, num gesto instintivo, que mais tarde ele
iria recordar quando a conhecesse melhor.
- Sim - concordou Dr. Fell -, não pode ter sido um
sujeito alto e magro como o Sr. Henderson. Tampouco
uma moça baixa e esbelta como a senhora. Só existe
uma pessoa, segundo sabemos, que regula com Marcus
Hunt, podendo assim ter enfiado suas roupas sem
despertar suspeitas. É a mesma pessoa que, embora
tenha conseguido tratar o ferimento que traz no peito,
leva constantemente a mão ao bolso interno do casaco
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a fim de se certificar de que a atadura continua no


lugar. Assim como o Sr. Rolfe acabou de fazer agora.
Arthur Rolfe estava imóvel na cadeira, com a mão
enfiada no interior do casaco.
Tinha o rosto afogueado pelo calor e pela situação,
mas os olhos por detrás das lentes dos óculos
continuavam imperceptíveis. E Rolfe, apesar dos lábios
muito secos, falou apenas uma vez:
- Eu devia ter escutado o que me disse o jovem
Henderson. Foi ele quem me disse que eu iria me jogar
numa empreitada arriscada.

Tradução de Alves Moreira