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A HISTÓRIA DE UMA CARREIRA

Quando deixei a profissão, estava tão revoltada que só queria pensar


noutras coisas. Mas, o que fui observando na Escola, quando a visitava, o
desespero e o excesso de trabalho que vi nos colegas que como eu não
puderam desistir, o caos em que as escolas se transformaram, levaram-me a
escrever estas linhas. Quero divulgar a história de alguém que, como muitos
outros, depois de uma vida de trabalho empenhado e com a consciência de
ter cumprido o seu dever, se sentiu obrigada a abandonar tudo, quase
expulsa, devido ao rumo que as coisas tomaram.

Sempre sonhei ser professora, desde o tempo em que dava aulas às


minhas bonecas ou em que ensinava as primeiras letras aos meus primos mais
novos. Gostaria de ter ingressado no Magistério Primário, mas os meus pais
desejavam que tirasse um curso superior e optei por seguir a área das
Ciências, acabando por me licenciar em Geologia. Iniciei a minha actividade
profissional em Novembro de 1972, no 2º ciclo do Ensino Básico.

Estreei-me, com uma turma de alunos repescados para a escolaridade


obrigatória. Eram crianças que rejeitavam a Escola e com as quais era difícil
trabalhar. Sem qualquer preparação pedagógica, o caminho foi difícil, mas foi
um início determinante no meu percurso profissional.

No ano seguinte, ao ser escolhida para delegada de disciplina, tive a


possibilidade de participar em várias sessões de formação sobre o Ensino
Experimental das Ciências. Estas sessões e as reflexões sobre elas, com os
colegas do grupo disciplinar, muito me ensinaram. Na época, não havia horas
obrigatórias, para além das lectivas, mas trabalhava-se muito mais em grupo,
nas escolas.

Em 75/76 realizei o estágio clássico. A avaliação era realizada a partir


de aulas assistidas pela orientadora. Percebi logo de início, que o mais
importante não era o que os alunos aprendiam, mas o espectáculo que o
professor dava durante a aula. Como a avaliação final era importante, tentei
aprender a lição e segui-la nas aulas assistidas, procurando conseguir uma
avaliação decente.

Após o estágio, continuei uma eterna procura do método mais


adequado para a aprendizagem dos alunos. Em 81/ 82, iniciou-se a
profissionalização em serviço, época dourada na Educação em Portugal, pela
dinâmica que se gerou nas Escolas e pelo trabalho em equipa que foi
realizado. Como delegada de disciplina, tive de acompanhar três formandos
em profissionalização. Considero ter realizado, na época, um novo estágio
pedagógico. O trabalho em equipa foi fundamental. Como a partilha é a
verdadeira formação, após dez anos de serviço, rejuvenesci para a profissão.
Parti à procura de outras respostas, conhecendo, o que chamo a «fada
madrinha» da minha evolução profissional, o Movimento da Escola Moderna
(MEM). Só aí, aprendi o que era um modelo pedagógico e tive formação que
me ajudou a aplicá-lo nas minhas aulas. Participei em sábados pedagógicos,
em congressos, partilhei e reflecti com outros, sobre as práticas de cada um
com objectivo de as melhorar.

As reduções da componente lectiva, de que, entretanto, por força da


idade e do tempo de serviço, comecei a usufruir, não serviram para
descansar, mas para investir numa melhor qualidade do meu trabalho,
preparar mais e melhores materiais para os meus alunos trabalharem e
participar em mais acções de formação.

Durante seis anos trabalhei no ensino recorrente. Vivi a experiência do


trabalho conjunto na sala de aula com outros docentes. Construímos uma
verdadeira equipa educativa, realizamos a articulação horizontal,
trabalhamos os conteúdos de forma transversal, com estreita ligação ao meio
e fazendo uma gestão flexível do tempo, promovemos o crescimento
profissional de todos os envolvidos.

Em 93/ 94 integrei a Comissão Instaladora duma nova Escola. Outra


experiência que, apesar de algum trabalho burocrático, que não era o que
mais me agradava, ainda me permitiu realizar, com a turma que leccionava,
um trabalho interdisciplinar a nível da Área Escola, que me viria a incentivar,
mais tarde, para uma grande aposta na leccionação das novas áreas
curriculares não disciplinares. Passados os dois anos da comissão de serviço,
regressei à minha escola, pois interessava-me mais o trabalho directo com os
alunos.

Voltei a ser eleita Delegada de Disciplina e mais tarde Coordenadora


do Departamento. Em 1999, completei 50 anos de idade. Pensei que chegara
a altura de largar o poder e dar lugar aos mais novos. Eles são, muitas vezes,
uma mais - valia. Por decisão própria pus o cargo à disposição. Continuei, no
entanto, a participar nas várias actividades e a intervir, nas reuniões, com as
minhas opiniões. O grande interesse pelo trabalho em equipa e interdisciplinar
levou-me a apostar nas novas áreas curriculares, de que fui coordenadora.
Mais liberta de cargos pedagógicos, apostei na minha formação e no
melhoramento da minha prática lectiva. Muita dessa formação foi por mim
custeada. Além dessa, realizei um curso de formação especializada na ESE do
Porto e outras acções no Centro de Formação da Escola, tantas, que consegui
mais 20 créditos do que aqueles que eram necessários para progredir e
chegar ao topo da carreira.

Completei 33 anos de serviço, sentia-me realizada na minha profissão.


Continuei a adquirir formação para melhorar a minha prática lectiva e a
intervir nas actividades da Escola e do Departamento. Dei formação
creditada a outros professores da Escola. Tinha a sensação do dever cumprido
e regozijava-me com os progressos conseguidos.
Mas, depois da bonança, veio a tempestade. O PS ganhou as eleições
e o ME passou a ser dirigido pela equipa da Doutora Maria de Lurdes
Rodrigues. De repente, um «lobo mau» surgiu na minha carreira. As afrontas
aos professores começaram. Passamos a ser considerados uns mandriões que
trabalhavam poucas horas. Ninguém nos perguntou o que fazíamos nas horas
«não lectivas». Marcou-se esta componente no horário, sem qualquer critério,
o que, para quem trabalhava a sério, veio roubar muitas das horas que
podiam ser dedicadas à formação, ao trabalho em equipa e à preparação
de aulas. Como queria continuar a ser uma boa profissional, não esmoreci,
passei a trabalhar até altas horas, para preparar e organizar,
convenientemente, a prática lectiva. Seguiu-se o concurso para professores
titulares, a grande «bofetada» no meu esforço de todos os anos de trabalho.
Vinte e oito anos da minha carreira foram «deitados ao lixo», pois só contaram
os últimos sete. Precisamente aqueles em que decidira deixar os cargos, para
investir nas áreas curriculares não disciplinares, na minha formação e continuar
a aperfeiçoar a prática lectiva. Fui penalizada por ter «objectivos individuais»
antes da senhora ministra os exigir. Vi colegas, com metade do tempo de
serviço, terem uma pontuação muito acima da minha e, se não fora ter feito a
formação especializada e a escola ter vagas suficientes, não conseguiria
chegar a professora titular. Não que me interessasse muito chegar a titular, não
concordo com professores de primeira e de segunda, mas o que aconteceria
a quem não o conseguisse, não era claro e tinha medo de vir a ser penalizada
na aposentação.

Achei uma injustiça, mas continuei a cumprir os meus deveres


profissionais. Fiz parte da equipa que elaborou o projecto do Plano de Acção
da Matemática (PAM) da Escola e orientei uma Oficina de Formação para 14
formandos, no âmbito deste projecto, sem qualquer remuneração, apenas a
troco de um bloco de 90 minutos, semanal, na componente não lectiva. Em
cada semana as horas de trabalho cresciam. Com o novo modelo de
avaliação do desempenho, veio uma sobrecarga de reuniões e fichas para
fazer que não tinham fim e o ambiente da escola deteriorou-se. Não se
trabalhava mais em grupo, não se discutiam questões pedagógicas, só a
avaliação era o tema do dia. O Centro de Formação ia fechar e teve de se
acelerar todo o processo da Oficina. Comecei a apontar as horas semanais
que trabalhava para a Escola: quarenta, quarenta e duas, numa semana
chegaram a ser cinquenta e duas! Impossível! Não conseguia conciliar vida
profissional e pessoal. Quase já nem conseguia dormir! Ou deixava de
preparar as aulas e de as dar em condições ou ia parar ao manicómio! Optei
por pedir a aposentação antecipada. Perdi dinheiro, abandonei a profissão
da minha vida, mas tive que dizer: «Basta!»

Por estranho que pareça, a «via-sacra» continuou. Pedi a aposentação


em Maio e esperei até Outubro. O que significou voltar a pegar nas turmas do
ano anterior, para as deixar passado mês e meio. Foi muito penoso, tanto para
mim como para os alunos. O tempo de serviço só contou até Maio. Trabalhei
um mês inteiro, depois de receber a carta da aposentação, e recebi já pela
pensão transitória. Descontaram-me contribuições que dizem não ter feito em
1972 e 73, ao valor monetário actual. Passei a receber, continuamente, e-mails
da DGRHE que me mandavam entregar os objectivos individuais, concorrer ao
concurso para professores titulares, etc. Cada vez que os recebia, recordava o
que se tinha passado e entrei em depressão.

Para me distrair e sentir útil, passei, inocentemente, a ir à Escola, ajudar


um aluno com dificuldades e participar nas reuniões e nos trabalhos do PAM,
projecto em que muito me empenhara. Quando conheci as intenções do ME
em instituir o trabalho voluntário, para os professores aposentados, decidi não
ir mais. O meu trabalho tinha a intenção de ajudar a Escola, colegas e alunos
que o mereciam. Continuar a fazê-lo, seria pactuar com uma instituição que,
pelas suas atitudes, foi a causadora de eu ter abandonado a profissão. Não
podia trabalhar, gratuitamente, para essas pessoas. Se precisam de
professores que contratem os muitos que há, por aí, desempregados.

Gratuitamente, só trabalharei para aqueles a quem devo e o merecem.


Ao MEM e aos meus alunos devo tudo aquilo que progredi e aprendi. Aos
vários Conselhos Executivos e colegas com quem trabalhei devo o respeito e a
consideração que sempre tiveram pelo meu trabalho. À minha família, as
horas de atenção que lhes roubei para dedicar à profissão. Ao Ministério da
educação não devo nada. São eles que me devem!

MARIA CLOTILDE LOBO