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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

NIVALDO NASCIMENTO DOS ANJOS

FUNCIONALIDADE DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL E A VIOLÊNCIA SOCIAL:

Um Estudo

Rio de Janeiro

2011

NIVALDO NASCIMENTO DOS ANJOS

FUNCIONALIDADE DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL E A VIOLÊNCIA SOCIAL:

Um Estudo

Trabalho de Conclusão de Curso Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.

Orientador:

Rio de Janeiro

2011

Prof. Antônio Carlos Alonso Del Negro.

C2011 ESG

Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG

Biblioteca General Cordeiro de Farias

Anjos, Nivaldo Nascimento dos. Funcionalidade do sistema de segurança pública no Brasil e a violência social: um estudo / Coronel PM BA Nivaldo Nascimento dos Anjos. Rio de Janeiro: ESG, 2011.

60 f.: il.

Orientador: Prof. Antônio Carlos Alonso Del Negro Trabalho de Conclusão de Curso Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011.

1- Segurança Pública. 2- Violência Social e Criminalidade. 3. Sistema de Segurança Pública. I. Funcionalidade do Sistema de Segurança Pública- um estudo.

Primeiramente, a DEUS pela minha vida e me manter com saúde; à minha esposa Nêidia Angélica e meus filhos Luciano, Lorena e Nilson pela paciência e compreensão durante o tempo em que estive na ESG participando do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), fora da minha terra natal, o que me proporcionou a tranquilidade suficiente para prover os estudos e elaboração dos trabalhos necessários para a conclusão do curso.

AGRADECIMENTOS

Ao Comando da ESG, ao Diretor do CAEPE, aos Palestrantes e a todo Corpo Permanente, por ter me acolhido e passado os ensinamentos e experiências inesquecíveis, principalmente, quanto ao Método de Planejamento, as viagens de estudo e visitas, me tornando habilitado para as importantes atividades que exercerei durante as minhas próximas funções.

Ao Sr Cel PM Nilton Régis Mascarenhas, ex-Comandante Geral da Polícia Militar da Bahia, pela minha indicação para realizar o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE) na Escola Superior de Guerra (ESG), aumentando meu cabedal de conhecimentos.

Ao Professor Antônio Carlos Alonso DEL NEGRO, Orientador, pela paciência e orientações passadas, muito importantes para nortear as atividades do TCC.

Ao meu irmão, Maj PMBA RR Alberto NASCIMENTO dos Anjos, pelo auxílio prestado durante a execução do TCC.

Aos colegas da Turma Segurança e Desenvolvimento, amigos que permanecerão para toda vida, os quais proporcionaram um ambiente saudável e harmonioso durante todo o desenrolar do curso.

RESUMO Este trabalho tem por objetivo mostrar à sociedade brasileira que, no Brasil, não se pode pensar em segurança pública, apenas como de responsabilidade de uma ou algumas organizações; não pode ser apenas dos estados, dos municípios ou do Governo Federal. O Brasil possui um Sistema de Segurança Pública, estabelecido na Constituição Federal, onde se define as missões e o nível de responsabilidade de cada órgão integrante desse Sistema, tendo por finalidade a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. Compõe-se dos subsistemas preventivo, investigativo, judiciário e penitenciário, envolvendo a União, os Estados, os Municípios e a sociedade como um todo. Existe, também, um conjunto de Leis que regem a conduta social, de forma a fazer com que as pessoas sejam impelidas a não cometerem atos de violência, consequentemente, de infracionais penais. A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 05 de outubro de 1988, instituiu, através do Título IV, Capítulos III e IV e seus artigos, bem como, do Título V, Capítulo II, Art 142 e 144, o Sistema de Segurança Pública Brasileiro. Concluídos os estudos, foi verificado que este sistema tem problemas na sua funcionalidade, pois não consegue cumprir adequadamente a função principal, que é

a

promoção completa da segurança pública, haja visto a onda de violência que assola

o

País. Esta Monografia está formatada em seis seções, nos quais são analisados os

problemas que envolvem a segurança pública, principalmente, suas causas, tendo como pontos de partida os fatos históricos: a forma como o Brasil foi colonizado. Dos estudos realizados, foi verificado que as causas dos problemas de segurança no país advêm do período colonial. Desde sua descoberta que este País sofre com essa problemática, em virtude de ter iniciado o seu povoamento com grande diferenciação social, estabelecendo o confronto entre as classes, gerando o justo inconformismo, e, consequentemente, os atos de violência e os crimes.

Palavras Chave: Sistema de Segurança, Violência Social e criminalidade.

ABSTRACT

This work aims to show to Brazilian society that, in Brazil, one cannot think of public safety as the responsibility of only one or a few organizations, it cannot be just the states, municipalities or the Federal Government. Brazil has a System of Public Security, established in the Constitution, which defines missions and the level of responsibility of each organ of this system, having as purpose the preservation of public order and the safety of persons and property. It consists of subsystems preventive, investigative, judicial and penal system, involving the Union, States, Municipalities and society as a whole. There is also a set of laws governing the social conduct, in order to cause people are not driven to commit acts of violence, therefore, of criminal infractions. The Constitution of the Federative Republic of Brazil, promulgated on October 5, 1988, instituted, by the Title IV, Chapters III and IV and its articles, as well as Title V, Chapter II, Art 142 and 144, the Security System Brazilian public. Completed studies, they found that this system has problems in its functionality because it cannot adequately fulfill the main function, which is the full promotion of public safety, given the wave of violence plaguing the country. This monograph is formatted into six sections, in which discusses the problems that involve public safety, especially its causes, taking as starting points the historical facts: the way Brazil was colonized. Of the studies, it was found that the causes of security problems in the country stem from the colonial period. Since its discovery that this country suffers from this problem, because it had begun its settlement with great social differentiation, establishing the clash between classes, generating just nonconformity, consequently, the acts of violence and crime.

Keywords: Security System, Social Violence and criminality.

LISTAS DE ABREVIATURAS E SIGLAS.

CONASP Conselho Nacional de Segurança Pública; PRONASCI Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania; IGPM Inspetoria Geral das Polícia Militares; ESG Escola Superior de Guerra;

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura; FARC Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia; FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo; IPEA Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas; PIB Produto Interno Bruto;

IGP

Índice Geral de Preços;

FGV

Fundação Getúlio Vargas;

SUS

Sistema Único de Saude;

SUSP Sistema Único de Segurança Pública; PNAD Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios; IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; INFOSEG Informações de Segurança; SENASP Secretaria Nacional de Segurança Pública; PNSP Plano Nacional de Segurança Pública; ENASP Estratégia Nacional de Segurança Pública; DST Doenças Sexualmente transmissíveis; GGI Gabinete de Gestão Integrada; SINESJC Sistema Integrado Nacional de Estatística de Segurança Pública e Justiça Criminal.

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

10

2

CONCEITOS E HISTÓRICO

13

2.1

ORDEM PÚBLICA E SEGURANÇA PÚBLICA

13

2.2

HISTÓRICO DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

14

2.3

O SISTEMA ATUAL DE SEGURANÇA PÚBLICA BRASILEIRO

20

3

A VIOLÊNCIA SOCIAL E CRIMINALIDADE

25

3.1

ESTATÍSTICAS DE VIOLÊNCIA SOCIAL E CRIMINALIDADE NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS

26

3.2

3.3

O CRIME E A SEGURANÇA NACIONAL

CUSTOS DA VIOLÊNCIA SOCIAL NO BRASIL

37

40

4

A FUNCIONALIDADE DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA BRASILEIRO

43

5

POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA

50

5.1

O PLANO NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

52

5.2

A ESTRATÉGIA NACIONAL DE JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA

53

5.3

INVESTIMENTOS EM SEGURANÇA PÚBLICA

54

6

CONCLUSÃO

58

REFERÊNCIAS

60

10

1 INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objetivo mostrar como funciona a Segurança Pública no Brasil, sua evolução histórica, assim com a definição e a funcionalidade do Sistema de Segurança Pública Brasileiro e a Violência Social. Infelizmente, o Brasil já nasceu sob o estigma da violência, quando os seus descobridores promoveram uma colonização exploratória, tentando, inicialmente, escravizar os nativos que neste país viviam. Como não conseguiram, trouxeram nativos da África para a execução dos serviços de extração de madeira e trabalho no campo, transformando-os em escravos. Os escravos eram tratados como animais, não tinham direito à cidadania e sofriam severos castigos físicos. Foi sob esse clima de início de convivência social que o Brasil se desenvolveu, onde os seus reflexos são sentidos até o presente momento, em pleno Século XXI. Atualmente, a situação em relação à Segurança Pública se tornou tão crítica, que a maioria dos brasileiros só se sente segura se estiver com um policial ostensivo dentro do raio de sua visão. Os males do comportamento vêm sendo ampliados em virtude da violência social, principalmente, por causa da impunidade, que se tornou uma espécie de incentivo aos atos contrários à boa convivência entre as pessoas. O ser marginal não se preocupa com sua ficha criminal, ou seja, não apresenta qualquer preocupação com os processos que está respondendo; o que ele não quer é estar em uma prisão, pois isto lhe tolhe a liberdade para praticar outros crimes. Por muito tempo, e até nos dias atuais, o conceito de Segurança Pública vem sendo deturpado, ou seja, a maioria da população tem a idéia de que, simplesmente, as Polícias são as principais responsáveis por todos os atos de combate e controle da violência social, quando, na verdade, o conceito de segurança é muito mais amplo, mesmo porque a polícia é o instrumento que afere o grau de civilização de um povo, e que acompanha a sua evolução. Conceitualmente, podemos dizer que a Segurança Pública tem dois aspectos:

o formal, que é restrito e limitado; e o amplo, no qual a educação é o ponto fundamental.

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No aspecto formal, a Segurança Pública abriga um conjunto de órgãos constituídos legalmente, formando um sistema, que deveria funcionar de forma harmônica e totalmente integrado, exercendo as atividades em um ciclo completo. O Sistema de Segurança Pública, formalmente constituído, é composto dos seguintes órgãos:

- Polícias Ostensivas (Preventivas);

- Polícias Investigativas;

- Ministério Público;

- Poder Judiciário; e

- Órgãos Recuperatórios (Penitenciárias, Casas de Detenção e Casas de Acolhimento).

Embora cada um tenha o seu papel específico, as ações deveriam ser sequenciadas e as soluções oferecidas com celeridade, de forma a transmitir à população a sensação de que o crime e as más ações não compensam. No entanto, observa-se que cada órgão cumpre o seu papel de forma praticamente individualizada, o que leva o sistema a funcionar de forma precária. Seria utopia imaginar-se uma segurança perfeita para um povo, pois os conflitos sempre existirão, é um fenômeno natural da convivência humana. Neste caso, pode-se afirmar que, na face da terra, nenhum povo conseguiu essa perfeição. Porém, o que não se pode admitir, é a situação em que o Brasil está submetido atualmente. Então, o que seria o ideal para que um povo tenha a sua segurança preservada e tenha a sensação de que está em um ambiente sempre saudável? A solução é simples, passa pela associação da educação e o bom funcionamento do sistema formal de Segurança Pública. Para isso, a participação do povo é fundamental. O Governo, por si só, não tem condições de produzir tudo que é necessário para prover uma segurança perfeita. A começar pela família, que a própria população se encarregou de destruir em seu conceito. Uma criança má formada em sua família, não conseguirá prosseguir bem na escola. A escola, por sua vez, dá prosseguimento à educação de berço, associando o aprendizado e a convivência em grandes grupos.

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Portanto, não há como se ter segurança em um país, sem que o seu povo tenha educação suficiente para promovê-la adequadamente. Se o Sistema de Segurança Pública estiver funcionando com perfeição, e falhar a educação, a segurança estará comprometida. A droga, por exemplo, só sobrevive por que encontra pessoas prontas para consumi-la. Assim, pode-se afirmar que o crime deve ser combatido pelo Sistema de Segurança Pública legalmente constituído para tal, porém, a violência social, além do sistema formal, depende, também, da educação do povo.

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2 CONCEITOS E HISTÓRICO

2.1 ORDEM PÚBLICA E SEGURANÇA PÚBLICA

Segundo Aurélio Buarque de Holanda, ordem significa, disposição metódica; boa disposição; arrumação. De onde derivaram vários termos, como: ordem civil, conjunto de leis e princípios que regem os interesses privados; ordem política, conjunto de instituições que harmonizam as funções e relações internas e externas de um Estado; ordem social, a sociedade estruturada econômica e politicamente, como objeto de tutela policial e penal; ordem pública, conjunto de instituições e preceitos coagentes destinados a manter o bom funcionamento dos serviços públicos, a segurança e a moralidade das relações entre particulares, e cuja aplicação não pode, em princípio, ser objeto de acordo ou convenção. Já segurança significa ato ou efeito de segurar; estado, qualidade ou condição de seguro; condição daquele ou daquilo em que se pode confiar; garantia; seguro; assegurar. Os estudiosos e doutrinadores, como Álvaro Lazzarini, Victoria-Amália de Barros Carvalho G. De Sulocki revelam a enorme dificuldade em definir ordem pública, dizendo que os doutrinadores apresentam várias definições. Porém estará sempre em torno da ideia de moral, segurança de bens e pessoas ou, ainda, ausência de desordem. A Escola Superior de Guerra define ordem pública como:

a situação de tranquilidade e normalidade cuja preservação cabe ao Estado, às instituições e aos membros da sociedade, consoante as normas jurídicas legalmente estabelecidas. (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2011, V. I).

Assim, podemos definir que ordem pública é a segurança do bom funcionamento dos órgãos públicos e privados, a certeza da aplicação das leis, a tranquilidade pública, a manutenção da liberdade de expressão, do direito de ir e vir, da garantia dos direitos individuais e coletivos, o livre exercício de culto religioso, a aplicação do direito. Portanto, é a garantia da boa ordem, da segurança e da salubridade públicas. Assim como ordem pública, vários autores definem segurança pública, porém, todos voltados para o sentido de conjunto de processos, política, ações e estratégias, destinados à garantida da ordem pública.

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A Escola Superior de Guerra assim define a segurança pública:

a garantia da manutenção da ordem, mediante aplicação do Poder de Polícia, prerrogativa do Estado. (ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, 2011, V. I).

A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece a diferença entre

segurança pública e ordem pública, quando, no seu Art. 144, define: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio”. Assim, segurança pública e ordem pública são conceitualmente diferentes. A primeira se refere à aplicação do Poder de Polícia que tem o Estado, para a preservação do segundo, que se traduz como a tranquilidade pública, a garantia de que a população tenha condições de viver em um clima de paz. Portanto, como estabelecido na Constituição Federal, o Brasil vive em ordem:

ordem econômica, ordem jurídica, ordem política, ordem social, ordem legal, etc, e a segurança pública existe exatamente para preservar essa ordem.

A Constituição Brasileira, ainda, prevê em seu Art 142, a convocação das

Forças Armadas para garantir a Lei e a ordem.

2.2 HISTÓRICO DO SISTEMA DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

Não se pode estudar a origem do Sistema de Segurança Pública no Brasil, sem que haja análise histórica do surgimento da violência social neste País, como fato provocador do comportamento atual da sua população e dos agentes responsáveis pelo provimento da segurança pública.

O Brasil é um País que já nasceu sob o estigma da violência, a começar pela

colonização, a qual se deu por Portugal, com o puro interesse de explorar as riquezas da nova terra, tendo por finalidade aumentar ainda mais o poderio econômico daquele País. Por mais de 300 anos, o Brasil sobreviveu nessa condição, sendo, exclusivamente, explorado em todas as suas riquezas, tanto minerais como extração de madeira, sem qualquer interesse em formar uma organização estatal ou uma nação. O Brasil se tornou independente em 07 de setembro de 1822, portanto, 189 anos, quando o seu povo passou a se conscientizar como nação livre. O Brasil

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tem menos tempo como País independente, do que passou como colônia de Portugal. Durante o período colonial, os portugueses tentaram escravizar os nativos que aqui viviam. Como não conseguiram, trouxeram da África milhares de negros, a fim serem empregados na extração de minérios, madeiras e nos campos, na produção agropastoril. Desde então, a violência passou a fazer parte do cotidiano do Brasil, iniciando-se pelo extermínio de milhares de nativos. Em seguida, escravizando os povos africanos, submetendo-os aos mais desumanos castigos, além da humilhação da trabalhar sem qualquer direito, minimamente, à alimentação. Eram desclassificados, marginalizados, numa total exclusão social. Por outro lado, para povoar a nova terra, os portugueses, também, trouxeram para cá pessoas da mais baixa qualificação, elementos marginalizados em Portugal, como prostitutas e outros.

Durante a colonização, foram criadas as capitanias hereditárias. Seus titulares, os Donatários, tinham poderes quase que absolutos, exercendo seu jugo com jurisdição cível e criminal. Assim, o poder político e administrativo da colônia foi fragmentado pelos donos das terras, ou seja, em mãos privadas, completamente disperso. A segurança era propiciada por grupos de pessoas contratadas pelos Donatários, portanto, por mercenários, armados pelos senhores das terras, que só conheciam como limites as ordens dos patrões, que tinham o poder de vida ou morte em seus domínios. Em 1888, a 13 de maio, ocorreu a abolição da escravatura, completando em 2011, 123 anos de liberdade. Imagina-se que, após a abolição, os negros se tornaram livres, fato que, na prática, não ocorreu, pois eles não tinham para onde ir, não tinham terra para produzir, não tinham moradia, nem alimento para consumir. Consequentemente, muitos continuaram nos engenhos na mesma condição anterior. Outros abandonaram os seus senhores e foram viver em guetos, formando grandes bolsões de miséria, dai a atual formação social, onde existem poucos com tudo ou quase tudo e muitos com pouco ou quase nada. As oportunidades para os negros e índios sempre foram reduzidas, escolas, trabalho, alimento, terras, moradia, vestuário, etc, tornando esses grupos excluídos sociais.

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Com o passar dos tempos, os grandes centros urbanos, devido à industrialização e às melhores condições de vida, atraíram milhares de pessoas das regiões menos favorecidas, esvaziando os campos e provocando o inchaço nas cidades, aumentando ainda mais os bolsões de miséria, pois os centros urbanos não tinham capacidade para absorver esse número de pessoas que, na verdade, não possuíam estudo ou qualquer qualificação, apenas, a maioria, com capacidade para o trabalho braçal. Como consequência, surgem os problemas de saúde, educação, desemprego em massa, moradia, saneamento básico, corrupção, falta de alimentos para todos: a favelização. O desequilíbrio social traz consigo um componente perturbador, destruidor e desesperador: a violência social. Como revela Victoria- Amálio de Barros Carvalho G. de Sulocki:

é importante entendermos esse processo específico da estruturação do Estado brasileiro, pois que essa formação colonial nos legou traços fundamentais presentes até hoje nas práticas sociais, econômicas e políticas do país. Na dispersão do poder político durante a colônia e na formação de centros efetivos de poder locais, se encontram os fatores reais do poder, que darão a característica básica da organização política do Brasil: a formação coronelística oligárquica. A violência inerente às relações escravistas e à dominação colonial, agregava-se a violência oficial da atuação das autoridades públicas. (VICTORIA, Amália de Barros G. de Sulocki, 2007, p.59).

Em 1808, com a vinda de D. João VI para o Brasil, a colônia passa a viver uma situação totalmente diferenciada. Mudanças estruturais e administrativas, são, imediatamente, adotadas, como fixar uma determinada ordem jurídica, instalar diferentes órgãos públicos, de forma que a Corte pudesse se instalar com uma mínima organização possível. Um dos serviços que surgiram com a vinda do Rei de Portugal para o Brasil foi a organização policial da cidade do Rio de Janeiro, tendo como modelo o existente em Portugal. Assim, em abril de 1808, foi criada a Intendência Geral da Polícia da Corte e do Estado do Brasil. Em 1809, especificamente, no dia 13 de maio, surge a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia, organização regular, uniformizada, estruturada com base na hierarquia e disciplina, dando origem à Polícia Militar dos Estados, como vemos na atualidade. Essa organização tinha como encargo prover a segurança e a tranquilidade pública da cidade. Desta forma, nasce o primeiro órgão encarregado pela segurança pública do Brasil.

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Em 1815, o Brasil é elevado à condição de Reino Unido de Portugal, porém, as relações entre os colonizadores e colonizados permaneceram os mesmas. Os escravos não eram reconhecidos como habitantes do mesmo espaço social, eram

totalmente excluídos, a repressão brutal era a praxe contra os negros; sendo a polícia formada nesse contexto social.

A primeira Constituição do Brasil, outorgada em 1824, não tem qualquer

capítulo ou artigo referente à segurança pública, porém, outorga ao Imperador a condição de prover a tudo que for concernente à segurança interna e externa do Estado. Portanto, eram concentrados nas mãos do Imperador os poderes militar e o policial. Nesse período foi criado o Código Criminal do Império, o Código de Processo

Criminal de Primeira Instância. Os crimes foram divididos em três categorias, ou tipificações: crimes públicos, que estavam na esfera da segurança nacional e da ordem pública; os crimes particulares, praticados contra a pessoa e o patrimônio privado; e os crimes policiais, relacionados à ofensa moral e aos bons costumes. Com a Proclamação da República, surge a primeira Constituição Republicana, onde se define a nova forma de Governo, a Federativa, onde os Estados eram autônomos, porém, eram mantidos em união indissolúvel. A Constituição de 1891 remete para os Estados a responsabilidade pela manutenção da ordem e da segurança públicas, defesa e garantia da liberdade e dos direitos dos cidadãos, quer nacionais quer estrangeiros.

Já previa a Constituição de 1891, a intervenção federal em caso de faltarem a

qualquer Governo Estadual os meios para reprimir as desordens e a capacidade de assegurar a paz. Estabeleceu, também, esta Constituição, que os Estados poderiam

decretar a organização de uma guarda cívica destinada ao policiamento do território local. Com isso, os Governos dos Estados passaram a ter forças policiais. Em virtude dos problemas advindos do descrédito da república, os problemas

se agravaram, dando surgimento a vários movimentos sociais. Nesse período nasce

a Constituição de 1934, quando é criado o Conselho Superior de Segurança

Nacional, órgão responsável pelos estudos e coordenação das questões relativas à segurança nacional. Essa Constituição passou para a União a competência privativa de legislar sobre a organização, instrução, justiça e garantias das forças policiais dos

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Estados; passou às Polícias Militares a condição de reserva do Exército, em caso de serem mobilizadas ou estiverem a serviço da União. As Polícias Militares tinham como competência: a vigilância e garantia da ordem pública; garantir o cumprimento da lei, a segurança das instituições e o exercício dos poderes constituídos; atender a convocação do Governo Federal em caso de guerra externa ou grave comoção intestina. Em 1937, é outorgada uma nova Constituição. Nesta Carta Magna manteve- se, praticamente, a mesma coisa da anterior: permaneceu a condição do Governo Federal de intervir nos Estados para restabelecer a ordem gravemente alterada; manteve a situação de somente o Governo Federal legislar sobre a organização, instrução, justiça e garantias das forças policiais dos Estados. Pela primeira vez, especifica-se numa Constituição a divisão das organizações policiais, quando estabelecia que todos os Decretos que dispusessem sobre o bem estar, a ordem, a tranquilidade e a segurança pública, bem como a fixação do efetivo, armamento, despesa e organização da Força Policial (ai se entenda como Polícia Militar), Corpo de Bombeiro, Guarda civil e Corporações de natureza semelhante deveriam ser aprovados pelo Presidente da República. A Constituição de 1946 trás avanços quanto à proteção da liberdade e das garantias individuais. Abandonou a nomenclatura forças policiais, só se referindo às polícias militares, tanto é que, no seu Art. 5º define:

Compete à União:

XV legislar sobre:

a) organização, instrução, justiça e garantias das polícias militares e condições gerais de sua utilização, pelo Governo Federal nos casos de mobilização ou guerra.

Em 1967, é promulgada uma nova Constituição. Assim como as anteriores, a preocupação maior não foi criar organizações voltadas para a solução dos problemas de segurança pública, tanto é que não havia citações das Polícias Civis. Manter o controle das Polícias Militares era o ponto central do Governo Federal. A Constituição de 1967, no seu Art 8º, tinha o seguinte dispositivo:

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Art 8º - Compete à União:

XVII Legislar sobre:

v) organização, efetivos, instrução e garantia das polícias militares e condições gerais de sua convocação, inclusive, mobilização.

Já no Art 13,parágrafo 4º, estabelecia:

As polícias militares, instituídas para a manutenção e segurança interna nos Estados, nos Territórios e no Distrito Federal, e os corpos de bombeiros militares, são considerados forças auxiliares e reservas do Exército, não podendo os respectivos integrantes perceber retribuição superior à fixada para o correspondente posto ou graduação do Exército, absorvidas, por ocasião dos futuros aumentos, as diferenças a mais, caso existentes.

Ampliando o controle das Polícias Militares pela União, foi criada a Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM), integrante da estrutura do Exército, que tinha por objetivo assegurar que essas organizações estavam seguindo a doutrina estabelecida pela Força Federal. Na verdade, o comando das Polícias Militares não era dos Governadores dos Estados e, sim, do Governo Federal, através do Exército Brasileiro. Desta forma, as Polícias Militares seguiram rigorosamente o modelo militar, doutrina, emprego, ensino e instrução, etc. A doutrina voltada para a segurança pública era irrelevante.

A Constituição Federal atual, promulgada em 05 de outubro de 1988, resultou

de uma mudança total da maneira do constituinte enxergar a segurança pública no Brasil. Como especificado no ítem 2.3 deste trabalho, a Carta Magna de 1988, no

seu Artigo 144, combinado com os Artigos referentes ao Poder Judiciário, criou um verdadeiro sistema de segurança pública.

A Constituição divide entre o Governo Federal, os Governos Estaduais e do

Distrito Federal a responsabilidade pela segurança pública, explicitando claramente as missões de cada órgão, como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal, Polícias Civis, Polícias Militares e Corpos de Bombeiros

Militares; bem como, do Poder Judiciário; além de estender para as Prefeituras as responsabilidades pelo patrimônio próprio e criação de Guardas Municipais. Como se verifica nesse pequeno levantamento histórico, a segurança pública no Brasil só veio a ser direcionada adequadamente para o seu sentido próprio a partir de 1988. Antes, tinha o seu sentido misto, ora voltado para a defesa do Estado, ora voltado para o combate à violência.

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2.3 O SISTEMA ATUAL DE SEGURANÇA PÚBLICA BRASILEIRO.

Segundo Aurélio Buarque de Holanda, a palavra sistema vem do grego systema”, que significa reunião, grupo. Das diversas definições que ele apresenta, todas voltadas para o mesmo sentido de reunião ou grupos, a que melhor satisfaz o propósito deste trabalho é: “disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada”. Desta forma, o Sistema de Segurança Pública é o conjunto de órgãos, dispostos ordenadamente, que tem por objetivo preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio. A Constituição Brasileira, no Título V, DA DEFESA DO ESTADO E DAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS, Capítulo III, Art.144, estabelece que a segurança pública é exercida através dos seguintes órgãos:

- Polícia Federal, a quem cabe apurar as infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesse da União e de suas entidades e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme; prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins; exercer as funções de polícia marítima, aérea e de fronteiras; exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária; - Polícia Rodoviária Federal, a quem cabe o patrulhamento ostensivo das rodovias federais;

- Polícia Ferroviária Federal, a quem cabe o patrulhamento ostensivo das ferrovias federais;

- Polícias Civis, que têm as funções de polícia judiciária e a apuração das infrações penais;

- Polícias Militares, a quem cabe a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; - e Corpos de Bombeiros Militares, a quem incumbe a execução de atividades de defesa civil.

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Incluiu, também, a Constituição Federal, na esfera da segurança pública, os Municípios, os quais poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção dos seus bens, serviços e instalações. Verifica-se, assim, que, embora haja um grupo de órgãos voltado para um fim específico, a segurança pública, por si só, não forma um sistema completo de segurança pública, pois, a Constituinte não lançou no Capítulo V da Carta Magna o subsistema judiciário e o subsistema penitenciário. Assim, o Art. 144 apresenta, na verdade, uma parte do sistema. Um Sistema de Segurança Pública para assim ser chamado, deve ser composto dos seguintes subsistemas:

a) Subsistema Preventivo, composto pelos órgãos encarregados de evitar a ocorrência delituosa (Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal, Polícias Militares, Corpos de Bombeiros Militares, Guardas Municipais e Órgãos de Controle de Trânsito Urbano); b) Subsistema Investigativo, composto pelos órgãos encarregados de investigar e esclarecer os fatos criminosos, bem como, identificar o autor ou autores (Polícia Federal e Polícias Civis); c) Subsistema Judiciário é composto pelos órgãos encarregados da denúncia e da fiscalização da aplicação correta das leis (Ministério Público), e pelos órgãos encarregados do julgamento das pessoas que cometem o ilícito penal (Justiça-Juizes e Tribunais); d) Subsistema Recuperatório (Sistema Penitenciário), composto pelos órgãos encarregados da recuperação dos condenados, reinserção à sociedade das pessoas condenadas e acompanhamento dos egressos. No Título IV, DA ORGANIZAÇÃO DOS PODERES, Capítulo III, Do Poder Judiciário, e Capítulo IV, Das Funções Essenciais à Justiça, a Constituição Federal estabelece as missões da Justiça, dentre elas: processar e julgar (Justiça); promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei (Ministério Público). Assim, como se pode verificar, para efeito de segurança pública, o subsistema judiciário está definido na Constituição de 1988. No entanto, não estão previstas as cominações legais e a forma de aplicá-las, ou seja, as penas que devem ser aplicadas aos infratores das leis. Neste caso, esta previsão está no Código Penal Comum, no Código Penal Militar, na Lei de Execução Penal e em outras Leis.

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Portanto, o Sistema de Segurança Pública se torna completo, pois, desde a prevenção criminal até a aplicação das penas para aqueles que cometem infração penal, está prescrito na legislação brasileira.

Na Carta Magna está prescrita, ainda, a participação das Forças Armadas, quando, no Art. 142, define que estas deverão garantir a Lei e a Ordem, em caso de convocação por um dos três Poderes da República. Para os deveres da segurança pública, a Constituição não excluiu nem o povo, quando firma o conceito de que a segurança pública é direito e responsabilidade de todos. A inserção das Prefeituras, também, foi prevista no Art. 144, parágrafo 8º, ao autorizar a criação de Guardas Municipais com o fim de promover a proteção dos bens, serviços e instalações municipais.

A responsabilidade pelo controle do trânsito urbano foi transferida para os

Municípios, o que remete definitivamente as prefeituras para a segurança pública, pois, sabe-se que o trânsito (movimento de veículos e pedestres nas vias públicas) é um dos grandes problemas atuais da sociedade brasileira. O Código Brasileiro de Trânsito, inclusive, define os crimes de trânsito. Portanto, as prefeituras, também, são responsáveis por um segmento da segurança pública.

Para complementar o Sistema de Segurança Pública, o Governo Federal criou o Conselho Nacional de Segurança Pública (CONASP), desde 1990, através

do Decreto nº 98.938, que foi sofrendo alterações através de outros Decretos, chegando ao Decreto de nº 7.413, de 30 de dezembro de 2010.

O CONASP integra a estrutura básica do Ministério da Justiça, tendo por

finalidade formular e propor diretrizes para as políticas públicas voltadas à promoção

da segurança pública, prevenção e repressão à violência e à criminalidade, e atuar na sua articulação e controle democrático.

O Governo Federal, em suas ações voltadas para a segurança pública,

através do Ministério da Justiça, desenvolveu o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania PRONASCI. Este programa foi instituído pela Lei 11.530, de 24 de outubro de 2007, que foi alterada pela Lei 11.707, de 19 de junho de 2008. Conforme a Lei, o PRONASCI destina-se a articular as ações de segurança pública para a prevenção, controle e repressão da criminalidade, estabelecendo políticas sociais e ações de proteção às vítimas. São diretrizes do PRONASCI:

23

- promoção dos direitos humanos, intensificando uma cultura de paz, de apoio ao desarmamento e de combate sistemático aos preconceitos de gênero, étnico, racial, geracional, de orientação sexual e de diversidade cultural;

- criação e fortalecimento de redes sociais e comunitárias;

- fortalecimentos dos conselhos tutelares;

- promoção da segurança e da convivência pacífica;

- modernização das instituições de segurança pública e do sistema prisional;

- valorização

dos

penitenciários;

profissionais

de

segurança

pública

e

dos

agentes

- ressocialização dos indivíduos que cumprem penas privativas de liberdade e egressos do sistema prisional, mediante implementação de projetos educativos, esportivos e profissionalizantes;

- intensificação e ampliação das medidas de enfrentamento do crime organizado e da corrupção policial;

- garantia de acesso à justiça, especialmente nos territórios vulneráveis;

- garantia, por meio de medidas de urbanização, da recuperação dos espaços públicos;

- observância dos princípios e diretrizes do sistema de gestão descentralizados e participativos das políticas sociais e das resoluções dos conselhos de políticas sociais e de defesa de direitos afetos ao Pro nasci;

- participação e inclusão em programas capazes de responder, de modo consistente e permanente, às demandas das vítimas da criminalidade por intermédio de apoio psicológico, jurídico e social;

- participação de jovens e adolescentes em situação de moradores de rua em programas educativos e profissionalizantes com vistas na ressocialização e reintegração à família;

24

- promoção de estudos, pesquisas e indicadores sobre a violência que considerem as dimensões de gênero, étnicas, raciais, geracionais e de orientação sexual; e

- garantia da participação da sociedade civil.

O Manual Básico da ESG, volume I Elementos Fundamentais, p. 61, é muito claro quando, referindo-se a segurança pública, esclarece:

2.3 Segurança e Defesa Públicas

2.3.1.Conceitos

Abrangendo a segurança do homem como ser individual e como ser social, os níveis individual e comunitário conformam a Segurança Pública.

Portanto, este é o conceito reinante, atualmente, no Brasil. Mais do que nunca, a segurança pública deve ser voltada para o cidadão como ser individual e ser social. A convivência saudável em comunidade é o foco para onde devem ser dirigidos os esforços dos governantes em relação à segurança. Todos os princípios já estão instituídos na Constituição Federal; necessitando, consequentemente, de políticas públicas para o desencadeamento das ações visando o atendimento dessa necessidade da população brasileira. Atualmente, pode-se observar algumas mudanças importantes na aplicação da legislação penal. Muitas pessoas de classes mais ricas têm sido condenadas, porém, devido a pressões populares, da mídia e da liberdade que tem o Ministério Público para agir. Isto ocorreu, principalmente, a partir da Constituição Federal de 1988; porém, ainda falta muito para que o Sistema de Segurança Pública Brasileiro seja considerado justo, principalmente, em relação ao Subsistema penitenciário, que não tem cumprido sua função de recuperar a pessoa que comete crime.

25

3 VIOLÊNCIA SOCIAL E CRIMINALIDADE.

No Brasil os termos violência social e criminalidade, praticamente, têm o mesmo sentido, porém, existem diferenças não consideradas por aqueles que confundem o significado de cada um. Nem sempre a violência social é crime, porém, crime é sempre uma violência social. A violência social é resultado dos atos sociais que afetam a convivência entre as pessoas de uma mesma sociedade, que podem gerar desagregações, crimes, sofrimentos, depressão, pobreza, destruição, etc. Exemplo: acidente de trânsito; as discussões entre pessoas que não cheguem a gerar desforço corporal; a falta de condições de alguns hospitais para atendimento de pessoas que precisam de socorro imediato; escolas que permitem que alunos assistam aulas sem carteiras, ficando em pé ou sentados no chão; as filas gigantes nos bancos de pessoas que querem receber seus salários depois de um mês de trabalho intenso; a fome; a falta de opção de algumas pessoas que são obrigadas a buscar seus sustentos no lixo; a exposição às doenças graves, como dengue, febre amarela, doenças sexualmente transmissíveis (dst); o homicídio; o suicídio; o estupro; o roubo; o contrabando; o tráfico de drogas; o tráfico de armas; o tráfico de mulheres; o tráfico de crianças; os grandes bolsões de miséria; a falta de moradias; a mendicância; o abandono de crianças, que hoje está muito falado na mídia; os jogos de azar; a embriaguez; a discriminação de todo tipo; o atraso injustificado de pagamento de salário; a invasão de domicílio; etc. Tudo isso revela a violência social que existe no Brasil. A criminalidade é resultante de atos claros de violação da lei penal brasileira. Não há crime sem lei anterior que o defina. Portanto, para ser considerado crime, o ato tem que estar tipificado em lei. O arcabouço penal brasileiro define todos os crimes e as penas a serem aplicadas a quem os comete. Exemplos de crimes: o homicídio, o roubo, o furto, o tráfico de drogas, o tráfico de seres humanos, a falsificação de documentos, a corrupção, o contrabando, o descaminho, o tráfico de armas, a lesão corporal, a receptação, a falsificação de dinheiro, o estupro, a sedução, a invasão de domicílio, etc.

26

3.1

ESTATÍSTICAS ÚLTIMOS ANOS

DE

VIOLÊNCIA

SOCIAL

E

CRIMINALIDADE

NOS

Para apresentar as estatísticas referentes à violência social e criminalidade no

Brasil, serão usados os dados oficiais apresentados pelo Ministério da Justiça, como

abaixo se pode observar:

No período que compreende os anos de 1998 a 2008, o número total de homicídios registrados pelo Ministério da Justiça em todo o Brasil passou de 41.950 para 50.113, o que representa um incremento de 17,8%, levemente superior ao incremento populacional do período que, segundo estimativas oficiais, foi de 17,2%. (WAISELFISZ, 2011, p.7).

Entre 1998 a 2008, o número de homicídios no Brasil variou da seguinte forma:

Tabela 1: Evolução do Número de Homicídios. Brasil, 1998/2008

 

Número de

ANO

Homicídios

1998

41.950

1999

42.914

2000

45.360

2001

47.943

2002

49.695

2003

51.043

2004

48.374

2005

47.578

2006

49.145

2007

47.707

2008

50.113

Fonte: Mapa da Violência 2011 - Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

Observa-se que, entre os anos de 1998 e 2008, houve um acréscimo em

números absolutos de 8.163 homicídios.

Analisando, individualmente, os Estados da Federação, incluindo o Distrito

Federal, verifica-se que houve uma alternância bastante significativa em relação ao

crescimento e redução das taxas de homicídios; em alguns, as taxas cresceram e

em outros houve redução, como se pode analisar logo abaixo:

27

Tabela 2: Taxa de homicídios por grupo de 100 mil hab

UF

 

1998

 

2008

TAXA

POSIÇÃO

TAXA

POSIÇÃO

Alagoas

21,8

11º

60,3

Espírito Santo

58,4

56,4

Pernambuco

58,9

50,7

Pará

13,3

19º

39,2

Amapá

38,7

34,4

Distrito Federal

37,4

34,1

Rio de Janeiro

55,3

34,0

Bahia

9,7

22º

32,9

Paraná

17,6

14º

32,6

Rondônia

38,3

32,1

10º

Mato Grosso

36,3

31,8

11º

Goiás

13,4

18º

30,0

12º

MatoGrosso/Sul

33,5

10º

29,5

13º

Sergipe

10,4

21º

28,7

14º

Paraíba

13,5

16º

27,3

15º

Roraima

50,6

25,4

16º

Amazonas

21,3

12º

24,8

17º

Ceará

13,4

17º

24,0

18º

R Grande/Norte

8,5

24º

23,2

19º

Rio Grande/Sul

15,3

15º

21,8

20º

Maranhão

5,0

27º

19,7

21º

Acre

21,2

13º

19,6

22º

Minas Gerais

8,6

23º

19,5

23º

Tocantins

12,3

20º

18,1

24º

São Paulo

39,7

14,9

25º

Santa Catarina

7,9

25º

13,0

26º

Piauí

5,2

26º

12,4

27º

Fonte: Mapa da Violência 2011- Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

A tabela acima apresenta o ordenamento das UF por taxas de homicídios, ou seja, o número de homicídios por grupo de 100 mil habitantes, na população total em 1998 e 2008. Da análise feita, observa-se que, embora em alguns Estados, como Alagoas, Paraná, Pará, Bahia, Goiás, Paraíba, Amazonas, Ceará, Rio Grande do Sul, Sergipe, Rio Grande do Norte, Maranhão, Minas Gerais, Santa Catarina, Piauí e Tocantins, as taxas tenham crescido e ostentando boa posição na tabela, não significa que estejam bem. Pelo contrário, estão muito desconfortáveis, pois, permitiram que a violência tivesse crescimento geométrico. Em consequência, outros Estados, como Espírito Santo, Pernambuco, Amapá, Distrito Federal, Rio de Janeiro,

28

Rondônia, Mato Grosso, Roraima, Acre e São Paulo, principalmente, Roraima, São Paulo e Rio de Janeiro, conseguiram reduções expressivas, o que significa melhoria nas condições de vida das populações locais. Resta analisar as razões que levaram, em alguns Estados, as taxas terem crescido, e em outros, terem reduzido. No Brasil como um todo, ocorreu um fato interessante, para um período de 10 anos. Houve um acréscimo de 1,9% na taxa de homicídios por 100 mil habitantes. No entanto, no somatório das capitais e das Regiões Metropolitanas, essa taxa foi reduzida, enquanto que, no somatório das regiões do interior, houve crescimento. Isto significa que o interior, antes tido em todo País como região mais tranquila, hoje não representa mais essa situação, como se pode verificar na tabela abaixo:

Tabela 3: Taxa de homicídios do Brasil, nas Capitais, RM e Interior dos Estados (1998x2008).

ÁREA

1998

2008

PERCENTUAL

BRASIL

25,9

26,4

+1,9%

CAPITAIS

45,3

37,3

-17,7%

RM

49,1

37,0

-24,6%

INTERIOR

14,0

19,4

+38,6%

Fonte: Mapa da Violência 2011 - Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

Em relação às Capitais dos Estados, ocorreu fato semelhante aos Estados. Enquanto em algumas capitais a taxa de homicídios foi reduzida, em outras, a taxa cresceu. Em alguns casos, o aumento foi mais que o dobro, como Maceió, Salvador, Curitiba, São Luís, Aracaju, Florianópolis. Em outros, a redução ocorreu de forma bastante acentuada, como, Rio de Janeiro, Boa Vista, São Paulo, como se pode observar na tabela abaixo:

29

Tabela 4: Ordenamento das Capitais por Taxas de Homicídios (em 100 Mil) na População total,

1998/2008.

CAPITAL

1998

 

2008

 
 

TAXA

POSIÇÃO

TAXA

POSIÇÃO

Maceió

33,3

14º

107,1

Recife

114,0

85,2

Vitória

106,6

73,9

Salvador

15,4

25º

60,1

João Pessoa

38,4

11º

60,0

Curitiba

22,7

18º

56,5

Belém

29,1

16º

47,0

Porto Velho

70,3

46,9

Porto Alegre

31,4

15º

46,8

Goiânia

22,6

19º

44,3

10º

São Luís

16,5

23º

43,4

11º

Cuiabá

76,0

42,8

12º

Macapá

51,0

42,1

13º

Belo Horizonte

25,0

17º

41,9

14º

Aracaju

16,8

22º

40,8

15º

Manaus

40,7

38,4

16º

Fortaleza

20,3

20º

35,9

17º

Brasília

37,4

12º

34,1

18º

Natal

16,2

24º

31,1

19º

Rio de Janeiro

62,6

31,0

20º

Rio Branco

38,4

10º

28,9

21º

Teresina

17,6

21º

27,0

22º

Campo Grande

36,4

13º

25,6

23º

Boa Vista

51,5

24,9

24º

Florianópolis

9,3

27º

22,6

25º

Palmas

12,7

26º

18,5

26º

São Paulo

61,1

14,8

27º

Fonte: Mapa da violência2011 - Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

Analisando a tabela abaixo, verifica-se que há uma progressão dos homicídios, em relação ao crescimento das idades, ou seja, na medida em que a pessoa vai aumentando a idade, os homicídios também vão crescendo, atingindo o máximo na faixa etária entre 20 a 24 anos. Porém, a partir da próxima faixa etária, dos 25 em diante, o número de homicídios vai decrescendo. Assim, quanto maior a idade, menor é o número de homicídios. Portanto, é nos jovens que se concentram os homicídios. Se estendermos mais um pouco, vamos verificar que, entre os 15 a 29 anos, se concentram os números mais alarmantes de homicídios. Desta forma, se tem a conclusão que os adolescentes e adultos jovens são as maiores vítimas dos homicídios no Brasil

30

Tabela 5: Número e Taxas de Homicídio por Idades Simples e Faixas Etárias.

Brasil,2008

 

Idade

Homicídios

 
 

Faixa Etária

Numero

Taxa

0

a 4 anos

164

1,0

5

a 9 anos

111

0,7

10

a 14 anos

615

3,7

10

anos

35

1,1

11

anos

44

1,3

12

anos

70

2,1

13

anos

136

4,1

14

anos

330

10,0

15

a 19 anos

7.543

44,5

15

anos

705

21,2

16

anos

1.202

35,9

17

anos

1.586

46,9

18

anos

1.891

55,2

19

anos

2.159

62,5

20

a 24 anos

11.053

62,5

20

anos

2.304

66,1

21

anos

2.207

62,8

22

anos

2.212

62,5

23

anos

2.200

61,7

24

anos

2.130

59,2

25

a 29 anos

9.146

52,6

30

a 34 anos

6.241

41,1

35

a 39 anos

4.382

32,9

40

a 44 anos

3.266

26,0

45

a 49 anos

2.299

20,3

50

a 59 anos

2.684

15,8

60

a 69 anos

1.102

10,7

70

e mais anos

662

7,8

Fonte: Mapa da Violência2011 - Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

A tabela abaixo apresenta a taxa de homicídios por raça. Verifica-se que as pessoas negras têm sofrido mais com os homicídios no Brasil. Apenas na Região Sul a relação entre os negros e brancos é menor. Dentre todos os Estados analisados, o Paraná é o que tem uma taxa de homicídios onde o branco morre mais que o negro.

31

Tabela 6: Taxas de Homicídio por grupo de 100 mil hab, por raça no Brasil

UF/REGIÃO

Brancos

   

Negros

   
 

2002

2005

2008

2002

2005

2008

Acre

40,5

15,7

13,3

35,3

16,3

13,9

Amazonas

8,3

8,7

4,3

27,4

20,2

29,5

Amapá

12,8

16,0

4,5

45,6

37,6

38,4

Pará

11,2

10,8

13,4

31,5

31,6

44,9

Rondônia

55,2

28,0

24,5

60,7

40,9

33,6

Roraima

43,7

13,8

16,1

41,0

24,5

23,2

Tocantins

13,4

13,7

13,3

14,8

16,5

18,9

NORTE

17,8

13,6

12,9

32,1

27,9

36,1

Alagoas

11,9

6,7

5,3

32,7

38,9

70,1

Bahia

4,5

5,7

10,8

12,5

20,7

35,7

Ceará

5,0

5,2

6,8

13,9

14,3

24,6

Maranhão

6,0

7,6

8,6

10,7

16,1

22,9

Paraíba

3,3

3,3

3,3

16,3

25,7

39,1

Pernambuco

16,9

13,9

12,7

71,4

64,9

72,2

Piauí

5,9

6,9

7,2

10,7

13,3

13,4

Rio Grande do Norte

5,3

6,3

8,6

13,2

14,0

28,5

Sergipe

14,3

13,2

12,3

27,2

25,1

30,1

NORDESTE

8,2

7,7

9,0

23,4

26,3

37,8

Espírito Santo

19,2

18,6

17,5

47,5

49,9

64,7

Minas Gerais

9,4

12,5

11,6

21,4

27,2

24,4

Rio de Janeiro

31,5

28,5

20,1

66,0

63,8

47,7

São Paulo

30,3

18,6

13,6

56,0

29,8

17,0

SUDESTE

26,0

19,2

14,6

50,5

37,7

28,6

Paraná

23,9

30,3

35,0

17,5

24,1

24,4

Rio Grande do Sul

17,4

17,6

21,1

22,3

24,5

23,3

Santa Catarina

8,7

8,9

12,5

14,4

13,5

13,8

SUL

17,7

19,9

23,9

18,7

22,8

22,6

Distrito Federal

10,8

9,8

10,2

53,1

48,2

52,1

Goiás

16,9

15,6

17,0

22,1

29,8

37,2

Mato Grosso do Sul

26,6

19,9

21,9

33,6

31,4

30,5

Mato Grosso

31,2

25,1

20,1

39,7

36,0

38,8

CENTR O-OESTE

20,6

17,2

17,4

33,7

34,8

39,3

BRASIL

20,6

17,1

15,9

30,0

31,0

33,6

Fonte: Mapa da Violência 2011 - Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

Se comparar a relação da tabela das taxas de homicídios por idade com a tabela das taxas de homicídios por raças, verificar-se-á que os jovens negros são as grandes vítimas dos homicídios no Brasil. Esta situação é bastante lógica, uma vez que os homicídios ocorrem em maior quantidade nos bairros pobres, como a maioria dos menos favorecidos é de cor negra, em virtude da própria história, estes tem sofrido mais.

32

A tabela seguinte apresenta o número de homicídios por sexo e a diferença em percentual entre o masculino e o feminino. O sexo masculino é a grande vítima. A diferença de homicídios entre homens e mulheres é muito grande em todos os Estados da Federação; o percentual de homicídios contra pessoas do sexo masculino, em quase todos os Estados, ultrapassa a faixa dos noventa por cento.

Tabela 7: Homicídios na população Brasileira por sexo/ 2008

 

Numero

 

%

 

UF/REGIÃO

Masc.

Fem.

Masc.

Fem.

Acre

119

14

89,5

10,5

Amazonas

764

63

92,4

7,6

Amapá

197

13

93,8

6,2

Pará

2.700

164

94,3

5,7

Rondônia

440

39

91,9

8,1

Roraima

90

15

85,7

14,3

Tocantins

211

21

90,9

9,1

NORTE

4.521

329

93,2

6,8

Alagoas

1.804

83

95,6

4,4

Bahia

4.438

308

93,5

6,5

Ceará

1.913

118

94,2

5,8

Maranhão

1.162

81

93,5

6,5

Paraíba

936

85

91,7

8,3

Pernambuco

4.125

298

93,3

6,7

Piauí

347

40

89,7

10,3

Rio Grande do Norte

660

60

91,7

8,3

Sergipe

539

35

93,9

6,1

NORDESTE

15.924

1.108

93,5

6,5

Espírito Santo

1.756

191

90,2

9,8

Minas Gerais

3.496

372

90,4

9,6

Rio de Janeiro

5.008

372

93,1

6,9

São Paulo

5.447

666

89,1

10,9

SUDESTE

15.707

1.601

90,7

9,3

Paraná

3.139

307

91,1

8,9

Rio Grande do Sul

2.151

216

90,9

9,1

Santa Catarina

702

86

89,1

10,9

SUL

5.992

609

90,8

9,2

Distrito Federal

801

72

91,8

8,2

Goiás

1.590

161

90,8

9,2

Mato Grosso do Sul

631

59

91,4

8,6

Mato Grosso

858

84

91,1

8,9

CENTR O-OESTE

3.880

376

91,2

8,8

BRASIL

46.024

4.023

92,0

8,0

Fonte: Mapa da Violência2011 -Ministério da Justiça/Instituto Sangari.

33

Analisando todas as tabelas, conclui-se que as pessoas do sexo masculino, na fase da adolescência, são as grandes vítimas dos homicídios no Brasil. Esta análise é um dado importante para o planejamento dos Governos Estaduais, bem como do Governo Federal, quando da tomada de decisão em relação aos homicídios. Como resolver um problema tão grave que atinge a população brasileira. É certo que a maioria da população dos Estados é constituída pela classe mais pobre, a qual não tem uma escolaridade adequada, pouco saneamento básico, desemprego, saúde precária. Tudo isso facilita o envolvimento dos jovens com o crime, começando pelas drogas. A criança pobre, em sua maioria, já nasce em um ambiente de grandes dificuldades, sem que os pais tenham condições de lhes oferecer uma educação efetiva, pois, estes, também, não tiveram a oportunidade de uma educação melhor. Essas crianças são vítimas fáceis dos traficantes e dos aliciadores para a prostituição e os abusos. Consequentemente, se tornam as maiores vítimas dos homicídios quando chegam à adolescência.

Violência no Trânsito.

quando chegam à adolescência. Violência no Trânsito. Gráfico 1: Mortos em acidentes de trânsito, de 1996

Gráfico 1: Mortos em acidentes de trânsito, de 1996 a 2006. Fonte: Ministério da Saúde (cópia).

34

34 Gráfico 2: Mortos em acidentes de trânsito por faixa etária, de 1996 a 2006 Fonte:

Gráfico 2: Mortos em acidentes de trânsito por faixa etária, de 1996 a 2006 Fonte: Ministério da Saúde (cópia).

de 1996 a 2006 Fonte: Ministério da Saúde (cópia). Gráfico 3: Internações por acidentes de trânsito,

Gráfico 3: Internações por acidentes de trânsito, 1998 a 2007. Fonte: Ministério da Saúde (cópia).

Os Gráficos acima revelam o tamanho da violência no trânsito que atinge o

Brasil:

-

no primeiro, os acidentes fatais, embora tenham reduzido no período de 1997 a 2000, voltaram a crescer no período da 2ª parte de 2000 a 2006,

35

último ano analisado na pesquisa. Verifica-se que foram mortos no trânsito brasileiro, em 2006, aproximadamente, 36.000 pessoas;

- no segundo, referente ao número de mortes por faixa etária resultantes dos acidentes de trânsito, verifica-se que a maioria das vítimas está entre os jovens de 20 a 34 anos;

- no terceiro quadro, referente às internações de vítimas por causa dos acidentes de trânsito, revela que, em 2006, foram internadas mais de 120.000 pessoas, indicando, naturalmente, um alto custo para o Estado Brasileiro, embora este último dado não esteja revelado explicitamente . Portanto, o custo social e econômico que tem origem nos acidentes de trânsito é bastante elevado para o povo brasileiro.

Violência contra as Crianças e nas Escolas Dentre todos os mapas de violência estudados neste trabalho, os mais graves são o das crianças, o das mulheres e o das escolas, pois atingem o que há de mais primordial para um estudo de redução da criminalidade e violência social, a família e a criança. Em todo Brasil, seja nas Capitais ou nos interiores, em qualquer região, a violência nas escolas se tornou um tema de difícil solução. O principal problema atual das escolas, por incrível que pareça, é o tráfico de drogas. Os traficantes encontraram nas crianças e adolescentes um meio mais fácil de, não só vender o seu produto de crime, mas, também, conseguir mais viciados. Um outro problema grave, é a precocidade sexual; a cada dia que se passa, o sexo se torna mais banal, não encontrando qualquer fronteira. A cada período escolar de um ano, a iniciação sexual atinge crianças com idades menores; hoje, inicia-se o sexo com 13 anos, e até com 11, 10 e nove anos, em alguns casos.

O sexo tem facilidade de se associar às drogas e os dois encontram

facilidades em pessoas integrantes dos grupos de adolescentes e crianças. Além da violência das drogas e da sexual, outros tipos podem ser observados: o bullying (agressão física ou verbal), atualmente, muito divulgado pela imprensa nacional; a discriminação racial velada, mas, perceptível por quem a sofre; a discriminação da pobreza, os mais abastados têm condições de pagar escolas

36

melhores, enquanto que escolas com maiores problemas, geralmente, as públicas, ficam para os mais pobres.

A Violência no Sistema Carcerário Brasileiro

Situação no Sistema Carcerário Brasileiro, divulgado em dezembro de 2010 pelo Ministério da Justiça. Os dados se referem às prisões de homens e mulheres, incluindo os presos provisórios.

Tabela 8: População no Sistema Carcerário x número de vagas disponíveis dez/2010.

ESTADOS

Nº DE PRESOS

VAGAS NO SISTEMA

DEFICIT

ACRE

3765

1774

1991

ALAGOAS

3094

1333

1761

AMAZONAS

4451

2508

1943

AMAPÁ

1822

830

992

BAHIA

8887

6993

1894

CEARÁ

15201

10205

4996

DISTRITO FEDERAL

8924

6482

2442

ESPÍRITO SANTO

9754

7642

2117

GOIÁS

10996

6734

4262

MARANHÃO

3808

2736

1072

MINAS GERAIS

37315

25901

11414

MATO GROSSO SUL

9524

6071

3667

MATO GROSSO

11445

5760

5685

PARÁ

8405

6375

2030

PARAIBA

8052

NF

NF

PERNAMBUCO

23925

10135

13790

PIAUI

2714

2105

609

PARANÁ

19760

14449

5311

RIO DE JANEIRO

25514

24019

1495

RIO G. DO NORTE

4305

3296

1229

RODÔNIA

7426

3673

3753

RORAIMA

1695

966

729

RIO G. DO SUL

31383

21077

10306

SANTA CATARINA

14541

7749

6792

SERGIPE

3437

2068

1369

SÃO PAULO

163676

98995

64681

TOCANTINS

1886

1644

242

TOTAL

445705

281520

164624

Fonte: Ministério da Justiça.

Analisando a tabela acima, verifica-se que existem 445.705 presos para 281.520 vagas disponíveis, formando um déficit de 164.624 vagas, isto sem contar

37

com as prisões nas delegacias em todos os Estados Brasileiros, onde existem 50.546 presos, entre homens e mulheres. Essa situação das prisões brasileiras vem gerando violência nas cadeias; onde os custodiados não têm onde dormir, com alimentação precária, falta de higiene, com graves problemas de promiscuidade. É uma violência promovida pelo Estado. O Sistema Carcerário Brasileiro faz parte do mapa da violência social do Brasil, não há como se desejar a recuperação de um preso se a situação permanecer do jeito em que se encontra. Outros fatos existem em relação à violência nas prisões brasileiras, como, por exemplo, entrada de drogas, armas, celulares e outros objetos não permitidos nas celas, gerando o pânico e outros sentimentos entre os custodiados.

Violência no Campo.

Tabela 9: Violência no Campo

 

2005

2006

2007

2008

2009

2010

Conflitos de Terra*

           

Ocorrências

777

761

615

459

528

638

Ocupações

437

384

364

252

290

180

Acampamentos

90

67

48

40

36

35

Total Conflitos Terra

1.304

1.212

1.027

751

854

853

Assassinatos

38

35

25

27

*25

30

Pessoas Envolvidas

803.850

703.250

612.000

354.225

415.290

351.935

Hectares

11.487.072

5.051.348

8.420.083

6.568.755

15.116.590

13.312.343

Fonte: Relatório da CPT (Comissão Pastoral da Terra) ano 2010.

A violência no campo não está apenas restrita aos conflitos da terra, nem somente na questão ambiental. Os conflitos fazem parte de um todo da violência. Hoje, outros tipos de crime, como os furtos, os roubos, os sequestros, etc, se estenderam para a zona rural, que eram quase que, exclusivamente, das grandes cidades, principalmente, das Capitais.

3.2 O CRIME E A SEGURANÇA NACIONAL

De que forma o crime pode afetar a segurança nacional? A partir do momento em que começa a colocar em dúvida a capacidade dos poderes constituídos em combatê-lo, fazendo com que o povo passe a desacreditar em uma solução através do cumprimento das leis vigentes.

38

No caso específico do Brasil, no Estado do Rio de Janeiro, o Governo, colocando em dúvida a sua capacidade como ente federativo responsável pelo combate a criminalidade, solicitou Forças Federais para auxiliar no combate aos traficantes em alguns morros da Capital. Essa atitude, embora não esteja sendo discutida, demonstrou limitação do Estado carioca naquele tipo de combate. Por outro lado, existem determinadas práticas criminais que, de tão difícil ser o seu combate, põem em dúvida a capacidade do País em promover ações de controle e sua extirpação do meio social, com o fim de tranquilizar a população, de forma geral. É o caso dos crimes transnacionais, os quais, de tão intenso que estão atualmente, chegam a perturbar toda a nação, afetando um dos Objetivos Nacionais Fundamentais, a paz social. Atualmente, os crimes que mais perturbam a tranquilidade do povo brasileiro são, verdadeiramente, aqueles conhecidos como transnacionais, sendo o principal deles o narcotráfico, de onde se originam diversos outros crimes, como o homicídio, roubos, furtos e outros. Dentre os crimes transnacionais, podemos citar os que mais têm causado transtornos para o Brasil, além do narcotráfico: o tráfico de armas, o contrabando, a

lavagem de dinheiro, o tráfico de seres humanos, a prostituição internacional, falsificação de produtos, além da corrupção, que tanto tem afetado o povo brasileiro.

O narcotráfico está, praticamente, em todas as nações do planeta. A

comercialização de drogas tem se constituído numa atividade econômica muito rentável para aqueles que cometem esse tipo de crime. A movimentação financeira no mundo, com o narcotráfico, gira em torno de U$$ 500 bilhões (quinhentos bilhões de dólares); Isso é mais do que o PIB de mais da metade dos países do planeta. No caso específico do Brasil, as drogas vem causando, não só prejuízos

financeiros, mas, principalmente, psicológicos, intrafamiliar (destruição de muitas famílias), doenças psicóticas, e outras.

Os órgãos do Sistema de Segurança do Brasil tem demonstrado dificuldade

no combate aos crimes transnacionais, principalmente, os que ocorrem nas fronteiras, acentuadamente, na Região Norte, devido à extensão territorial. O Brasil está inserido no contexto mundial como rota internacional de tráfico. Podemos citar, como exemplo, o caminho que percorrem as drogas. Após o processo de cultivo e refino, é feita a distribuição e, como se trata de uma atividade

39

ilegal, faz-se necessário obter uma infinidade de rotas e caminhos. O Brasil é uma dessas rotas. Uma grande parte das drogas entra no país pela floresta amazônica. Como as fronteiras são pouco monitoradas, não existem grandes impedimentos; depois disso, seguem para os portos, aeroportos e pistas de pouso clandestinas espalhadas pelo território e, daí, são enviadas para os grandes centros, em diferentes continentes. Quando as drogas chegam aos seus destinos, os grandes traficantes realizam

a distribuição. O grande volume de dinheiro gerado pelo tráfico deve ser transformado em recursos legais, sendo esse processo chamado de lavagem de

dinheiro, que ocorre através do investimento do recurso financeiro em ações, obras

de arte, jogos, restaurantes, hotéis e muitas outras atividades. No entanto, uma boa

parcela fica reservada para dar continuidade às atividades ilícitas, como o próprio tráfico, a prostituição, a corrupção, e suspeitas do seu emprego para financiar grupos guerrilheiros como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias). A lavagem de dinheiro, em termos simples, se constitui no ato de fazer o dinheiro que sai da origem “A” parecer que vem da origem “B”, ou seja, o criminoso tenta camuflar a fonte ilegal do dinheiro. Os criminosos que mais necessitam lavar dinheiro são os traficantes, estelionatários, corruptos, membros de quadrilhas, terroristas, golpistas, e outros. O tráfico de armas é outro crime transnacional que vem causando grandes problemas para o Brasil. O Ministério da Justiça divulgou pesquisa sobre o mapa do tráfico de armas no Brasil, e, de acordo com os dados levantados, quase metade das armas que circulam no Brasil é ilegal, ou seja, 7,6 milhões de um total de 16 milhões de armas. As pesquisas revelam que o Brasil é campeão mundial em números absolutos de mortes causadas por armas de fogo, com, aproximadamente, 34.300 homicídios por ano. Outra revelação da pesquisa é que, de cada dez armas apreendidas no País, oito são de fabricação nacional. Das armas de fora, 59,2% vem dos Estados Unidos, 16,7% da Argentina, 6,9% da Espanha, 6.4% da Alemanha, e 4.1% da Bélgica. Se o brasileiro fizer uma análise detalhada da situação da criminalidade no Brasil, vai verificar que a paz social tem sido atingida, pois os crimes, principalmente, os homicídios e o tráfico de drogas, afetam diretamente o núcleo das famílias, causando, em certos casos, terror. Isto sem contar com o emperramento do

40

progresso nacional, pois, através da corrupção, do contrabando, da falsificação de produtos nacionais e estrangeiros, são desviados e consumidos recursos públicos de toda natureza, chegando a cifras gigantescas, que poderiam ser empregadas na saúde, na educação, na assistência social, etc. Por tudo isso, chega-se à conclusão que determinados tipos criminais, quando estão avançando de forma exagerada, como é o caso atual no Brasil, atingem a Segurança Nacional, exigindo do Governo Central medidas abrangentes e planejamento que envolva toda a nação, além dos órgãos que compõem o Sistema de Segurança Pública.

3.3 CUSTOS DA VIOLÊNCIA SOCIAL NO BRASIL.

O Brasil tem tido prejuízos enormes com a violência social. Não só prejuízos

financeiros, como na saúde do seu povo, destruição de famílias inteiras, no

saneamento básico, na construção de escolas, na construção de habitações, etc.

A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em 2010,

lançou um relatório sobre a corrupção no Brasil onde, dentre outros, relata os prejuízos econômicos que o País tem com esse tipo de crime.

O relatório revela que o custo médio anual da corrupção no Brasil é de R$

41,5 bilhões a R$ 69.1 bilhões. Isso representa 1.38% a 2.3% do PIB.

FONTE: RELATÓRIO CORRUPÇÃO: Custos Econômicos e Propostas de Combate. FIESP 2010.

Abaixo, seguem algumas tabelas e gráficos que demonstram alguns custos que o Brasil tem com a violência social. Foram lançados, também, alguns custos que a população tem com a promoção da segurança privada. No caso dos seguros, as empresas obtêm lucros consideráveis, trazendo prejuízos para quem os contrata.

41

Tabela 10: Brasil - estimativas dos custos do sistema penitenciário (1995 a 2005)

Ano

Custo Total (R$ Milhão)**

Relação Custo / PIB

Custo Per Capita (R$1,00)**

1995

1.723

0,10%

11

1996

1.926

0,10%

12,09

1997

2.215

0,11%

13,68

1998

2.994

0,15%

18,19

1999

2.010

0,11%

12,01

2000

2.264

0,12%

13,31

2001

3.224

0,17%

18,7

2002

2.148

0,13%

12,3

2003

2.272

0,13%

12,85

2004

2.814

0,16%

15,71

2005

2.814

0,15%

15,52

Média

2.400

0,13%

14,12

Fonte: (i) balanços anuais da violência nas unidades federativas;

(ii)

informações do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça;

(iii)

Grupo de Estudos da violência do IPEA.

Tabela 11: Brasil - estimativas dos custos com segurança privada no Brasil 2000 a 2005

   

Setor

Setor

Relação

Custo/PIB

Custo

per

Ano

Custo Total

(R$ Milhão)

Formal

(R$ Milhão)

informal

(R$ Milhão)

capita

(R$ 1,00)

2000

14.690

8.900

5.790

0,78%

 

86,34

2001

14.223

8.742

5.480

0,77%

 

82,50

2002

12.387

7.633

4.754

0,76%

 

70,93

2003

13.611

8.212

5.398

0,77%

 

76,95

2004

14.317

8.685

5.632

0,80%

 

79,94

2005

17.209

10.650

6.559

0,89%

 

94,90

Média

14.406

8.804

5.602

0,79%

 

81,93

Fonte: IBGE - Censo Demográfico de 2000 e estimativas populacionais de 2001 a 2005; Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Pnad; Contas Nacionais; e Pesquisa Anual de Serviços (dados brutos); Ipea - Grupo de Estudos de Violência (Cálculos e estimações).

42

Tabela 12: Estimativas dos custos com seguros privados no Brasil 1995 a 2005

Ano

Custo com Seguros (em R$ milhão)

Custo/PIB(%)

Custo Per Capita (em R$ 1,00)

1995

12.679

0,73%

80,90

1996

11.655

0,61%

73,16

1997

13.703

0,69%

84,62

1998

15.350

0,75%

93,24

1999

12.239

0,67%

73,13

2000

12.958

0,69%

76,16

2001

12.752

0,69%

73,97

2002

10.262

0,63%

58,76

2003

12.210

0,69%

69,03

2004

12.709

0,71%

70,96

2005

14.561

0,75%

80,30

Média

12.825

0,6%

75,84

Fonte: (i) Ministério da Fazenda - Superintendência de Seguros Privados - Susep/Decon/Geest (dados brutos); (ii) Grupo de Estudos de Violência do Ipea (cálculos e derivações). Nota: 1 valores a preços constantes de 2005, deflacionados pelo IGP-DI da FGV.

Enganam-se os que pensam que os custos da violência são relacionados

somente aos gastos com os sistemas de segurança público e privado. Os gastos do

Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, com internações por agressão, em

2006, foram de R$ 40 milhões; a despesa com as internações das vítimas de

acidentes de carro no mesmo ano foi de aproximadamente, R$ 117 milhões; os

custos totais com a violência no trânsito foram da ordem de R$ 28 bilhões em 2008,

segundo o Ministério da Saúde.

As consequências da violência e da criminalidade não se limitam aos custos

tangíveis para a sociedade. Existem os custos não computados, gerados, por

exemplo, para familiares de vítimas de homicídios: insônia, depressão, lembranças

de fatos passados vinculados ao crime, estresse - todas estas reações se impõem à

vida das pessoas que, de certa maneira, foram afetadas por crimes. Os custos

nesses casos também são altos, com interrupções nas tarefas do trabalho e da

educação, dificuldades de convivência, problemas na estrutura familiar e

desequilíbrio financeiro, entre outros.

Conforme se verifica nas tabelas acima, alguns dados são surpreendentes.

Em 2005 os gastos com segurança privada atingiram R$ 17,209 bilhões,

representando 0,89% do Produto Interno Bruto (PIB) e custo per capita de R$ 94,90.

Já os gastos com seguros atingiram R$ 14,561 bilhões, ou 0,75% do PIB e custo per

capita de R$ 80,30. Isto considerando que há uma imensa subnotificação da

violência social. Ou seja, provavelmente os gastos são maiores.

43

4

A

BRASILEIRO

FUNCIONALIDADE

DO

SISTEMA

DE

SEGURANÇA

PÚBLICA

No Capítulo 2, foi estudado o sistema atual de segurança pública brasileiro,

quando foi feita uma análise através do tempo, citando como estava disposto nas

Constituições Brasileiras, até a atualidade.

Como está sobejamente comprovado, o Brasil possui um Sistema de

Segurança Pública, complementado por diversas Leis Federais e Constituições

Estaduais. Resta saber se esse Sistema vem funcionando adequadamente como

previsto na legislação e se a população brasileira se sente segura ou confia no

Sistema que possui.

No Capítulo 3, foram expostas diversas tabelas e gráficos referentes à

violência social e à criminalidade no Brasil, onde o crime e os atos violentos não

param de crescer.

Se for observado com cuidado, será verificado que, em determinado momento

histórico, alguns tipos criminais ou violência sofrem redução, mas, em seguida,

voltam a crescer. Atualmente, em alguns Estados está havendo redução do número

de homicídios, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito

Santo, enquanto que, em alguns outros, está havendo um crescimento, a exemplo

da Maranhão, Alagoas, Goiás e Paraná.

Para saber se o Sistema de Segurança Pública está funcionando, é

necessário responder às seguintes perguntas:

a) Os órgãos do Sistema funcionam de forma coesa, há sequência de

procedimentos?

b) A Polícia Federal consegue policiar as fronteiras brasileiras, a ponto de

evitar o narcotráfico e o contrabando de armas?

c) As Polícias Militares de cada Estado conseguem prover a tranquilidade

necessária, de forma que a população se sinta realmente segura?

d) A Polícia Federal e as Polícias Civis conseguem desvendar a maioria dos

crimes cometidos, de forma a levar o Poder Judiciário promover um

julgamento justo daquele que cometeu o ilícito penal?

44

e) As penitenciárias brasileiras estão cumprindo o seu papel social, ou seja, recuperando e ressocializando o indivíduo que cometeu algum ato criminoso?

f) Os Juízes e Tribunais tem feito os julgamentos no menor prazo possível, de forma a fazer justiça no tempo adequado, para que a população sinta que a justiça fora feita?

g) O tráfico de drogas está sendo reduzido no Brasil?

h) Você se sente seguro andar, a pé, pelas ruas de sua cidade, após a meia noite?

i) As pessoas que estão cumprindo pena nas penitenciárias brasileiras estão sendo tratadas de acordo com o prescrito no Art. 5º da Constituição Federal? Todos são tratados em obediência aos direitos fundamentais da pessoa humana?

j) O Brasil consegue punir exemplarmente as pessoas que cometem atos de corrupção, reavendo os recursos que foram tirados do povo? Como as Polícias e a Justiça costumam agir nesses casos? Esses órgãos tem apresentado solução para o problema corrupção, que vem causando prejuízo à Nação Brasileira?

Se nós brasileiros não estamos conseguindo responder SIM às perguntas acima formuladas, pelo menos a um terço delas, alguma coisa está errada com o Sistema de Segurança Pública. O Sistema de Segurança Pública Brasileiro tem funcionado adequadamente? Ou não funciona? O ideal seria que:

- as Polícias Militares conseguissem fazer a prevenção das ocorrências criminais em cada Estado Federado, que é o seu papel fundamental;

- as Polícias Civis desvendassem os crimes que ocorrem em cada Estado Federado, pelo menos a maioria, o que não ocorre;

- a Polícia Federal conseguisse reduzir a entrada de drogas e armas pelas fronteiras Brasileiras através de um policiamento intensivo;

45

-

o

Poder Judiciário conseguisse julgar as pessoas que cometessem os

crimes em tempo adequado, de forma a fazer realmente justiça no tempo certo;

-

as penitenciárias brasileiras cumprissem o seu papel, qual seja, de ressocializar o custodiado; e

-

as nossas estradas oferecessem segurança adequada para os viajantes e

Polícia Rodoviária conseguisse efetuar o policiamento de forma a levar tranquilidade para aqueles que se deslocam de carro de um ponto para outro.

a

Diante das assertivas acima, chega-se à conclusão que o Sistema de Segurança Pública Brasileiro não funciona em sua plenitude. O povo brasileiro demonstra grande insatisfação com a questão segurança pública no País. No entanto, por não entender o funcionamento do Sistema, ou por ser mal informado, credita todas as mazelas da segurança às Polícias Civis e Militares, como se estas fossem as responsáveis únicas pelo que vem ocorrendo no Brasil. Uma das causas desse errado entendimento é o fato dessas organizações estarem na ponta do Sistema. Como se fosse uma doença, onde as causas não são combatidas, começa-se a aplicar remédios apenas para sanar as dores, porém, depois de determinado momento de alívio, as dores retornam e tudo volta ao sofrimento anterior e, às vezes, pior, pois se as origens estão intactas. Não é diferente com a segurança pública, onde as causas são por demais conhecidas, porém de difícil combate. Vamos fazer uma pequena análise da funcionalidade do Sistema de Segurança Pública Brasileiro, se possível, analisando subsistema por subsistema. Como a segurança começa com o Subsistema Preventivo, as primeiras análises vão para as Polícias Militares e para a Polícia Federal.

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POLÍCIA MILITAR A atuação presentiva é de grande importância, pois, a presença do policial militar de forma ostensiva constitui fator de desestímulo à prática de ilícitos penais e garante a preservação da ordem pública, influenciando de forma concreta no comportamento dos indivíduos. Caracteriza-se, nesta situação, como policia preventiva. Quando ocorre o fato delituoso, cabe à Polícia Militar fazer a repressão imediata, adotando as providencias que forem cabíveis. Tem por obrigação encaminhar as partes, juntamente com provas que possam existir, ao delegado da circunscricional competente para dar prosseguimento ao caso. Quando o policial militar exerce a repressão imediata, o mesmo está restaurando a ordem que foi violada e, para tanto, exerce uma típica ação de polícia repressiva. As Polícias Militares, em todo o Brasil, passam por graves problemas, principalmente, quando se refere a efetivos e equipamentos. A quantidade de crimes cresceu de tal forma, que não existe efetivo capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, pois, a presença do homem policial é fundamental para se evitar o ato criminoso. Os equipamentos utilizados pelas organizações policiais para a execução de suas atividades se tornaram um problema, não pela sua eficiência, mas por causa de sua escassez em uma boa parte das Polícias Militares. Sem equipamentos ou com equipamentos em quantidade insuficiente, ou obsoletos, se torna difícil a atividade preventiva. Como os crimes e os atos de violência social se tornaram muito elevados, tanto em sua quantidade como no seu alto grau de agressividade, as Polícias Militares não estão conseguindo manter o controle dessa violência, não por incompetência, mas, por falta de efetivo suficiente para manter uma vigilância eficiente em todos os pontos possíveis de ocorrência de fatos delituosos. Um exemplo é o Rio de Janeiro, que tem mais de 500 comunidades carentes. Se forem colocadas Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em apenas 200 comunidades, em torno de 200 Policiais em cada uma, seria necessário um efetivo adicional de, aproximadamente, 40.000 Policiais Militares.

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POLÍCIA FEDERAL Deveria fazer o ciclo completo de policiamento, porém, tem dificuldade para executar as ações preventivas, principalmente, relativas a: tráfico de drogas, de armas, de mulheres, de crianças, contrabando, descaminho e outros crimes de sua competência. O Brasil não produz cocaína, no entanto, esta droga está espalhada por todo o território nacional, além do Brasil fazer parte de umas das rotas internacionais do tráfico de drogas. Devido às suas ações quase que totalmente voltadas para o setor investigativo, uma boa parte da população desconhece o lado preventivo da Polícia Federal. Enquanto as Polícias Militares são responsáveis apenas pela prevenção e as Polícias Civis pelas investigações, a Polícia Federal é responsável pela prevenção e pelas investigações dos crimes de sua competência. Mas seu efetivo é muito pequeno, um pouco mais de 11.000 homens em todo Brasil, o que a torna incapaz de suprir as necessidades inerentes às duas funções. Por isso, a dificuldade em combater o tráfico, tanto de armas como de drogas nas fronteiras brasileiras, que são muito extensas. Mesmo se fosse possível acrescentar o efetivo necessário, o que seria um sonho utópico, ainda assim não garantiria a suficiência da prevenção e da investigação, em virtude da quantidade de crimes que se comete no país.

POLÍCIA CIVIL A essência da atribuição da Policia Civil é a atividade de Policia Judiciária. Tem por finalidade investigar os delitos que não puderam ser evitados pela ação preventiva. As atribuições da Policia Civil correspondem ao desenvolvimento das investigações, consubstanciando e formalizando os atos no auto de prisão em flagrante ou no inquérito policial. Com a ação da Policia Civil em sequência às ações da Policia Militar, completa- se o ciclo da polícia e concomitantemente se desenvolve o ciclo da persecução criminal, pois a fase investigatória antecede à fase processual. A Polícia Civil não demonstra reunir todas as condições de absorver e apurar o grande volume de registro de delitos que lhes são encaminhados, pois apresenta carências de várias ordens, tais como a falta de pessoal qualificado e escassez de recursos materiais. Não consegue desvendar mais que 15% dos crimes ocorridos no

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País. Alguns Estados alcançam índices maiores, outros menores, porém, há uma sensação de pouca produção. Por outro lado, em todos os Estados brasileiros, as Delegacias se transformaram em depósito de presos. Para se ter uma idéia da gravidade do problema, em 2010, o Ministério da Justiça publicou em seus dados estatísticos que nas delegacias brasileiras existiam 50.546 presos, sendo 43.927 homens e 6.619 mulheres, no entanto, só existem vagas para 16.753, sendo 15.652 para homens e 1.103 para mulheres. Isto significa que nas celas das Polícias Civis existe um excedente de presos na ordem de 33.791 pessoas, significando que essas pessoas estão amontoadas, em desobediência total aos direitos fundamentais do homem. Os Policiais Civis deixam de cumprir o seu papel principal, que é de investigar os crimes, para cumprir o papel de carcereiros, num total flagrante de desvio de função. Os presos pertencem às Secretarias de Justiça dos Estados e não às Polícias

Civis.

PODER JUDICIÁRIO No Brasil, cada Juiz tem sob sua responsabilidade milhares de processos criminais para solucionar, a cada dia que passa, o volume vai aumentando, tornando impossível promover o julgamento em um tempo adequado. Existem crimes que não chegam ao julgamento, pois, devido ao atraso durante o período processual, chegam a prescrever, tornando impune o elemento que o cometeu. Isso dá às vítimas e aos familiares uma grande sensação de impunidade e incompetência do Poder Judiciário, ou seja, a incapacidade do Estado em prover a justiça. No Brasil, diversos crimes passam impunes pelo Poder Judiciário. Na verdade, quando se analisa o homicídio, pior de todos os crimes, a quantidade de punições é uma, porém, não se pode avaliar a capacidade da Justiça apenas por esse crime. Ao se fazer uma avaliação mais minuciosa, há que se considerar todas as tipificações criminais e é ai que se observa a grande falha dos julgamentos. Levando-se em consideração o somatório de todos os crimes, a Justiça não chega a 50% de julgamento no tempo adequado. É frustrante saber que o nosso Poder Judiciário encontra-se com capacidade reduzida para atender à demanda de processos que por lá chegam. Existe no sistema Penitenciário Brasileiro um número

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grande de pessoas presas sem o devido julgamento, o que torna, em certos casos, as prisões ilegais. Por isso, os Advogados conseguem a libertação dos seus clientes com certa facilidade, gerando frustração para o povo.

SUBSISTEMA PENITENCIÁRIO Embora fosse constatado que existem falhas em todo o Sistema de Segurança Pública, o Penitenciário é o que se apresenta da forma mais cruel. No Subsistema Penitenciário Brasileiro, praticamente, todos os princípios de direitos humanos são quebrados. A começar pela quantidade de presos em relação ao número de vagas, existem 496.251 presos no Brasil (Penitenciárias + Delegacias de Polícia), tendo apenas 298.275 vagas, redundando em um déficit de 197.976. Fazendo uma rápida análise, verifica-se que os presos estão amontoados nas diversas prisões pelo Brasil, pois existem muito mais pessoas encarceradas do que a capacidade instalada. Diversos são os noticiários por toda a mídia, onde relata que o Sistema Penitenciário é alvo constante de investidas criminosas, como por exemplo: armas e drogas dentro das celas; bandidos que comandam outros meliantes de dentro das celas para o cometimento de diversos crimes. Um sistema que não é capaz de manter um preso dissociado do ambiente criminal. A Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984, que institui a Lei de Execução Penal e Legislação correlata, estabelece que a construção e administração dos presídios são da responsabilidade do Governo Federal, dos Governos Estaduais e do Distrito Federal. Assim estabelece a Lei:

a execução penal tem por objetivo efetivar as disposições da sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado;

os condenados serão classificados, segundo os seus antecedentes e personalidade, para orientar e individualização da execução penal; e

a assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando

prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade, devendo

a assistência ser estendida ao egresso, e será material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa.

Estabelece, ainda, a Lei que o condenado à pena privativa de liberdade está obrigado ao trabalho na medida de suas aptidões e capacidade.

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5 POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA

Embora algumas pessoas entendam que Segurança Pública seja função

única dos Estados Federados, a Constituição Federal de 05 de outubro de 1988, Art 144, subdivide a responsabilidade entre o governo federal, os governos estaduais e municipais, cada qual com seu nível de responsabilidade. Ela estabelece as responsabilidades dos órgãos federais, como a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Ferroviária Federal, e também, dos órgãos estaduais, como as Polícias Militares e as Polícia Civis. Acrescenta, ainda, determinadas funções para as prefeituras municipais. O Governo Federal, entendendo que a segurança pública necessita de uma gestão mais centralizada, sem interferir na missão de cada Estado, resolveu implantar uma política nacional de segurança pública e convidou os Estados a aderirem, o que ocorreu. Assim, o Governo Federal criou o Conselho Nacional de Segurança Pública (CONASP), órgão colegiado que tem por finalidade:

- atuar na formulação de diretrizes e no controle da execução da Política Nacional de Segurança Pública;

- estimular a modernização institucional para o desenvolvimento e a promoção intersetorial das políticas de segurança pública;

- desenvolver estudos e ações visando ao aumento da eficiência na execução da Política Nacional de Segurança Pública;

- Propor diretrizes para as ações de Política Nacional de Segurança Pública e acompanhar a destinação e aplicação dos recursos a ela vinculados;

- Articular e apoiar, sistematicamente, os Conselhos de Segurança Pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, com vistas à formulação de diretrizes básicas comuns, e à potencialização do exercício das suas atribuições legais e regulamentares;

- estudar, analisar e sugerir alterações na legislação pertinente;

- promover a integração entre órgãos de segurança pública federais, estaduais, do Distrito Federal e municipais;

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-

propor a convocação e auxiliar na coordenação das Conferências Nacionais de Segurança Pública, e outros processos de participação social, e acompanhar o cumprimento das suas deliberações.

O

CONASP tem apresentado uma atuação muito tímida. Para se ter uma

idéia, somente após cinco anos de criado, é que foi elaborado o seu Regimento interno. Em 1998, o Governo Federal criou a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), que tem por finalidade assessorar o Ministro da Justiça na definição e implementação da Política Nacional de Segurança Pública, e em todo território nacional, acompanhar as atividades dos órgãos responsáveis pela segurança pública, por meio das seguintes ações:

- desenvolver e apoiar projetos de modernização das instituições policiais no País;

- manter e ampliar o Sistema Nacional de Informações de Justiça e Segurança Pública (INFOSEG);

- efetivar o intercâmbio de experiências técnicas e operacionais entre os serviços policiais;

- estimular a capacitação dos profissionais da área de segurança pública; e

- realizar estudos, pesquisas e consolidar estatísticas nacionais de crimes.

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), é responsável por

promover a qualificação, padronização e integração das ações executadas pelas instituições policiais de todo o país, em um contexto caracterizado pela autonomia destas organizações.

A SENASP vem obtendo bons resultados desde a sua criação. Em 2003, o Governo Federal, ao verificar a problemática da segurança pública no Brasil, criou o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), quando a SENASP se consolidou como órgão central de planejamento e execução das ações de segurança pública em todo o País. Os Gestores das organizações de segurança pública, em todas as unidades da federação, passaram a se reunir regularmente para planejar e executar as ações por meio dos Gabinetes de Gestão Integrada (GGI).

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A gestão das ações de segurança pública no país passou a contar com o apoio de uma série histórica de informações estatísticas coletadas pelo Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública e Justiça Criminal (SINESPJC). SUSP é um sistema criado para articular as ações federais, estaduais e municipais na área de segurança pública e da justiça criminal. Essa articulação não fere a autonomia dos Estados ou das Polícias Militares e Civis. Não se trata de unificação, mas de integração prática. O novo estilo de conduzir a segurança pública, pretende evitar que as ações sejam pautadas apenas por tragédias, sem planejamento nem tempo para pensar medidas estratégicas. O objetivo do SUSP é prevenir, criar meios para que seja possível analisar a realidade de cada episódio, planejar estratégias, identificar quais os métodos e os mecanismos que serão usados. O Governo de cada Estado não é obrigado a participar, porém, quando aceita, o que ocorre com, praticamente, todos, o Governador assina um protocolo de intenções com o Ministério da Justiça; dai então, é criado no Estado um Comitê de Gestão Integrada, do qual fazem parte o Secretário Estadual de Segurança Pública, como Coordenador, e mais os representantes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Polícia Militar, da Polícia Civil e das Prefeituras Municipais.

5.1 O PLANO NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

Entre o período de 2000 a 2003, os índices de criminalidade dispararam, principalmente, no eixo Rio x São Paulo, notadamente por causa do narcotráfico, que causava, na época, uma série de homicídios. Diante dessa situação, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de

Segurança Pública (PNSP), que foi idealizado com base em alguns princípios gerais que nortearam o estabelecimento de oito objetivos principais:

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