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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL ANP10 Direito e sociedade Prof.: Claudia Fonseca Aluno: Paulo Ricardo Müller 30 de abril de 2012

Um ensaio sobre tecnologias de identificação: antropologia e história.

A reflexão sobre a identificação como tecnologia de governo aponta para uma

desnaturalização da necessariedade com que associamos noções de self e de

representação social contemporaneamente. A noção que separa a pergunta “quem é esta

pessoa?” da pergunta “que tipo de pessoa é esta?” (Caplan & Torpey, 2001, p. 3),

fomentadora do campo de debates e desenvolvimento de tecnologias de identificação

individual, é a mesma que permite a antropólogos do final do século XIX e início do

século XX produzirem generalizações a respeito de “tipos sociais” como manifestações

de uma essência fundamentalmente humana encoberta por “usos e costumes” ou

“hábitos culturais” adquiridos e esteticamente diversificados em função dos diferentes

ambientes dos quais se retiravam os recursos para a produção material da vida social

dos diferentes grupos humanos abordados desde o olhar científico e objetivista da

“ciência do homem” (Asad, 1986).

As etnografias clássicas dirigiam apenas a segunda pergunta, e apenas no plural, para as

sociedades que tomavam como objeto de pesquisa. A tarefa da antropologia, em grande

parte fomentada pela demanda colonialista, foi a de saber quem eram aqueles nativos

com os quais as potências civilizadas se deparavam em sua marcha exploratória e como

quais linguagens e valores utilizar domina-los (Asad, 1979). Se o método

etnográfico desde cedo se pautou pelo indutivismo operar a partir de informantes

individuais para chegar a um conhecimento mais amplo sobre uma determinada

sociedade , as monografias resultantes destas pesquisas se prestavam ao processo

contrário por parte de seus leitores: podia-se deduzir que os indivíduos nativos eram,

necessariamente, aquilo que a sociedade à qual pertenciam era.

A literatura histórica que analisa o surgimento das tecnologias de identificação mostra o

papel da antropologia no sentido oposto ao que normalmente se apresenta como as

origens da antropologia: não somente o conhecimento produzido a respeito de

alteridades distantes do contexto europeu elucidavam as lógicas sociais correntes nas

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sociedades nacionais europeias como também os conflitos e preocupações concernentes

à vida social europeia determinavam os temas que antropólogos e agentes coloniais

buscavam conhecer entre nativos. A este respeito Cole (2001, p. 65) sugere que os métodos antropométricos, já uma decorrência da difusão da antropologia criminal lombrosiana aplicada entre cidadãos europeus, serviram não somente para identificar o mesmo “tipo de pessoa” – ou seja, criminosos mas qualquer tipo de pessoa na Índia colonial.

O que corresponde a uma inovação do campo da antropologia da época a

possibilidade de extrapolação do método de identificação criminal para a identificação

civil teve como um de seus condicionantes sociais justamente uma preconcepção evolucionista a respeito do estatuto dos diferentes grupos humanos conhecidos no processo evolutivo da humanidade como um todo: a de que as sociedades nativas das colônias ultramarinas eram menos complexas e diferenciadas do que as sociedades metropolitanas europeias. Dito de outra forma, a identificação civil com os métodos da antropologia criminal aparece, de certa forma, não somente como uma ferramenta administrativa da mão-de-obra nativa nos empreendimentos coloniais na Índia, mas também como um mecanismo de aceleração da marcha evolutiva da sociedade indiana rumo a um tipo de organização regido pela solidariedade orgânica de Durkheim.

Como se entrevê no caso narrado por Cole, a antropologia não se constituía necessariamente como um saber específico a respeito da humanidade, mas como um campo através do qual fluíam diferentes saberes e concepções a respeito de alteridades, sejam as caracterizadas como desviantes (criminosos, loucos, vagabundos) porque inseridas nos mesmos contextos sociais daqueles que os analisavam e julgavam, sejam

as exóticas (nativos, selvagens, primitivos), porque diferentes e opacas para estes

mesmos olhares. Esta configuração é especialmente perceptível no Brasil do início do

século XX quando, formados a partir de uma matriz positivista, antropólogos davam vazão às ideias absorvidas simultaneamente da sociologia científica de Durkheim, do

evolucionismo adaptativo de Darwin, e do determinismo ambiental de Spencer como uma síntese possível das duas primeiras. Neste sentido, não se tratava de entender como

a estrutura biológica influenciava o desenvolvimento sociocultural de diferentes grupos humanos, mas de pensar a ambos como planos de observação e manifestação de uma mesma natureza discricionária destes grupos.

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Enquanto a sociologia se constituía como “ciência da sociedade” eram as ciências naturais, especialmente a biologia e suas aplicações médicas, que se apresentavam como “ciência do homem” em sua universalidade (Wallerstein, 1996). É na medida em que este conhecimento sobre o funcionamento humano (como condição) passa a ser agenciado como explicação para o comportamento humano (como expressão) que a antropologia passa a se posicionar como interface entre saberes naturalistas e culturalistas. A análise da trajetória e da obra do médico-antropólogo brasileiro Nina Rodrigues e a constituição de uma escola de discípulos de suas ideias é exemplar para pensarmos o papel da antropologia como campo de enunciação de teorias que escapam ao escopo específico tanto de um quanto de outro campo mais propriamente científico (Correa, 1998).

Não é por acaso que os discursos racialistas emergem e se consolidam entre antropólogos. Seja como expressão de uma curiosidade científica genuína, seja como estratégia de posicionamento no campo acadêmico, a pergunta que motivava os antropólogos naquele momento sobre a relação entre a estrutura física e o comportamento social dos indivíduos tomavam como parciais as explicações dadas pela biologia e pela sociologia. Ou seja, a antropologia passou a se posicionar como detentora de uma expertise que faltava aos demais saberes científicos, posição que foi reproduzida por sujeitos responsáveis pela operacionalização de tecnologias de identificação que estavam expostos, de alguma forma, aos desenvolvimentos do campo da antropologia.

De acordo com Cole (2001), Alphonse Bertillon, inventor do método para visualização e codificação de combinações de caracteres físicos de criminosos que ficou conhecida como bertillonage, era filho de um antropólogo (Cole, 2001, pp. 33-34). Edward Henry, responsável pela implementação do sistema de identificação civil na Índia, conheceu o método antropométrico em um curso dado por um etnólogo do Museu Indiano de Calcutá contratado pela polícia para este fim (Idem, p. 70). Nestes casos, a antropologia operava como substrato científico que tornava legítimas as questões que motivavam o desenvolvimento destes métodos. O fato de a antropologia lidar com a ideia de raça em termos substancialistas como estrutura física que determina o comportamento humano, ainda que sem as provas finais para suas teses permitia que estes sujeitos acionassem a ideia de raça para falar de tipos, grupos, categorias de sujeitos a serem interpelados pelo Estado. A antropologia, que buscava seu lugar no campo científico,

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conquistou relevância social ao fornecer ferramentas que suscitaram, a seu próprio exemplo, o surgimento de especialidades que articulavam saberes oriundos das formações acadêmicas mais bem estabelecidas naquele momento, especialmente a medicina e o direito.

O fato de as tecnologias de identificação terem tido seu maior impulso a partir do

contexto francês, com as ideias de Paul Broca chegando até Bertillon, também é sugestivo da compreensão de como se inter-relacionam estes saberes na constituição do

campo de debates acerca da identificação criminal, e principalmente como tornar este conhecimento sistemático o suficiente para se constituir como um raciocínio automático

e

simples que permitisse a identificação de criminosos a priori. Ou seja, em que medida

o

conhecimento produzido pela antropometria e pelos métodos de identificação (a

posteriori em relação aos crimes cometidos) de criminosos poderia fornecer categorias de entendimento internalizáveis por policiais de modo que reconhecessem (identificassem) potenciais criminosos antes que perpetrassem seus crimes? Tal questionamento encerra em si ao mesmo tempo os pressupostos da tradição racionalista do iluminismo francês que se fez presente nas teorias de Estado, e do funcionalismo

organicista que regeu a distribuição das especialidades médicas de acordo com o tipo de autoridade exercida por determinados sujeitos a respeito de determinados saberes sobre

o corpo humano (Foucault, 1993; 2004; 2005).

É quase redundante adicionar o papel da antropologia feita na França no início do

século XX, marcada tanto pelas ideias racionalistas quanto funcionalistas, na consolidação da lógica analítica nomeada por Guinzburg (1990) como paradigma indiciário. Ou seja, tratava-se de um campo de atuação profissional que buscava propor métodos que permitissem a resolução de problemas práticos (prevenção de crimes) dinamizando as ideias científicas em voga em seu tempo, entre elas aquelas oferecidas pela antropologia, mais convenientes para fundamentar a aplicação de seus métodos. Neste sentido, não podemos olhar para o campo da identificação individual (criminal) divorciada da produção da própria ciência. Se, por um lado, policiais utilizavam o discurso científico como fonte de legitimidade para suas interpretações das pistas deixadas por criminosos em cenas de crime, por outro, é justamente porque a repercussão das ideias científicas as investia deste sentido prático e de relevância social é que as mesmas continuavam válidas. Dito de outra forma, é porque policiais se permitiam reconstruir através de operações intelectuais, a partir de indícios, as ações e

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as características de criminosos que diferentes campos de produção científica se constituíam em processos de disputa pela autoria e originalidade dos “saberes” que fundamentavam (e fundamentam) este raciocínio.

Referências

Asad, Talal. Anthropology and the colonial encounterin Huizer, G. & Mannheim, B. The politics of anthropology: from colonialism and sexism toward a view from below. The Hague: Mouton Publishers, 1979.

The concept of cultural translation in British social anthropologyin Clifford, J. & Marcus, G (eds.). Writing culture: the poetics and politics of ethnography. Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1986.

Caplan, Jane e Torpey, John (eds.). Introductionin Documenting Individual identity:

the development of state practices in the modern world. Princeton: Princeton University Press, 2001.

Cole, Simon. Suspect identities: a history of fingerprinting and criminal identification. Massachusets/London: Harvard University Press, 2001.

CORREA, Mariza. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. Bragança: EDUSF, 1998.

Foucault, Michel. História da sexualidade: vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal,

1993.

O nascimento da clínica. Rio de. Janeiro: Forense Universitária, 2004.

A verdade e as formas jurídicas. Rio de. Janeiro: Nau, 2005

Guinzburg, Carlo. “Sinais: raízes de um paradigma indiciário” in Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Wallerstein, Immanuel. Para abrir as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 1996,

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