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INOVAÇÃO, UNIVERSIDADE

E RELAÇÃO COM A SOCIEDADE:


BOAS PRÁTICAS NA PUCRS
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Chanceler:
Dom Dadeus Grings

Reitor:
Joaquim Clotet

Vice-Reitor:
Evilázio Teixeira

Conselho Editorial:
Antônio Carlos Hohlfeldt
Elaine Turk Faria
Gilberto Keller de Andrade
Helenita Rosa Franco
Jaderson Costa da Costa
Jane Rita Caetano da Silveira
Jerônimo Carlos Santos Braga
Jorge Campos da Costa
Jorge Luis Nicolas Audy (Presidente)
José Antônio Poli de Figueiredo
Jussara Maria Rosa Mendes
Lauro Kopper Filho
Maria Eunice Moreira
Maria Lúcia Tiellet Nunes
Marília Costa Morosini
Ney Laert Vilar Calazans
René Ernaini Gertz
Ricardo Timm de Souza
Ruth Maria Chittó Gauer

EDIPUCRS:
Jerônimo Carlos Santos Braga – Diretor
Jorge Campos da Costa – Editor-chefe
Jorge Luis Nicolas Audy
Marília Costa Morosini
(Orgs.)

INOVAÇÃO, UNIVERSIDADE
E RELAÇÃO COM A SOCIEDADE:
BOAS PRÁTICAS NA PUCRS

PORTO ALEGRE
2009
© EDIPUCRS, 2009
Capa: Vinícius Xavier
Diagramação: Gabriela Viale Pereira
Revisão: dos autores

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

I58 Inovação, universidade e relação com a sociedade [recurso


eletrônico] : boas práticas na PUCRS / Jorge Luis Nicolas
Audy, Marília Costa Morosini (Orgs.). – Dados eletrônicos. –
Porto Alegre : EDIPUCRS, 2009.
324 p.

Sistema requerido: Adobe Acrobat Reader


Modo de acesso: World Wide Web:
http://www.pucrs.br/orgaos/edipucrs/
ISBN 978-85-7430-872-2 (on-line)

1. Ensino Superior. 2. Universidade – Aspectos Sociais. 3.


Universidade e Sociedade. 4. Responsabilidade Social. 5.
PUCRS – Ação Social. I. Audy, Jorge Luis Nicolas. II.
Morosini, Marília Costa.

CDD 378.155.

Ficha Catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS

Av. Ipiranga, 6681 - Prédio 33


Caixa Postal 1429
90619-900 Porto Alegre, RS - BRASIL
Fone/Fax: (51) 3320-3711
E-mail: edipucrs@pucrs.br
http://www.pucrs.br/edipucrs
SUMÁRIO

Apresentação .........................................................................................................9
Joaquim Clotet

Prefácio ................................................................................................................12
Gabriela Cardozo Ferreira

BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS HUMANAS

Um pacto pela Terra: a colaboração da Teologia na formação da consciência


ecológica .............................................................................................................14
Leomar Antônio Brustolin
Renato Ferreira Machado

I Olimpíada de Filosofia do RS.............................................................................35


Sérgio Augusto Sardi

Muita Prosa e Muito Verso: idosos e a literatura ..................................................45


Maria Tereza Amodeo

Intervenção na Comunidade por meio dos Contos de Fadas ..............................56


Nadia Maria Marques
Leanira Carrasco
Mônica Kother Macedo

“Formação de Jovens e Adultos Leitores na comunidade do Morro da Cruz”......67


Maria Conceição Pillon Christofoli
Maria Inês Côrte Vitória
Jussara Margareth de Paula Loch

BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Saúde e trabalho no Mercosul: a experiência do Centro Colaborador e suas


estratégias............................................................................................................78
Jussara Maria Rosa Mendes

SET Universitário: 21 anos comunicando-se com a sociedade............................86


Vitor Necchi
Fábian Chelkanoff Thier
Neka Machado

Por uma teoria dos direitos e deveres socioambientais: aproximações sociais e


jurídicas a partir do exemplo da judicialização do direito fundamental à saúde ..95
Ingo Wolfgang Sarlet
Carlos Alberto Molinaro
Laboratório de Mercado de Capitais – A Universidade capacitando gratuitamente
a sociedade ........................................................................................................107
Letícia Braga de Andrade
Leandro Antonio de Lemos

BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS BIOMÉDICAS

Integrando ensino, pesquisa e extensão para resolver um problema de


conservação ambiental e saúde pública ............................................................119
Júlio César Bicca Marques

Banco de Dados em Saúde Bucal: uma forma inovadora da descoberta do


conhecimento na odontologia.............................................................................131
Eduardo Gonçalves Mota
José Antônio Poli de Figueiredo
Duncan Dubugras Ruiz
Luciano Costa Blomberg

A formação de uma rede de pesquisa científica através da criação de uma “Liga


da Pesquisa Cirúrgica” .......................................................................................139
Jefferson Braga Silva
Lucas Colomé
Alessandra Sebben
Martina Lichtenfels
Marcelo Rabello

Análise do salto horizontal em contexto inclusivo ..............................................145


Daniela Boccardi Goerl

A oferta de medicamentos de qualidade para a sociedade................................157


Ana Lígia Bender
Cristina Maria Moriguchi Jeckel
Flavia Valladão Thiesen
José Aparício Brittes Funck

Efeito da modificação do estilo de vida sobre os fatores de risco cardiovascular


que compõem os critérios de diagnóstico da Síndrome Metabólica, marcadores
inflamatórios e balanço autonômico: um estudo randomizado...........................161
Ana Maria Pandolfo Feoli
Fabrício Edler Macagnan
Virgínia Schmitt
Márcia Koja Bregeiron
Maria Terezinha Antunes

BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS EXATAS

Prática de ensino em ambientes não-formais de educação: um projeto social que


envolve docência e pesquisa .............................................................................173
Monica Bertoni dos Santos
Ensino de Física para inclusão: o reconhecimento da diversidade e a superação
das dificuldades de aprendizagem .....................................................................183
João Bernardes da Rocha Filho
Valderez Maria do Rosário Lima
Nara Regina de Souza Basso

Desafio de Robôs: Integrando a Sociedade no Mundo da Robótica ..................194


Rubem Dutra Ribeiro Fagundes
André Luiz Tietböhl Ramos

ENADE Comentado-Computação: Compartilhando Contribuições para a


Avaliação de Cursos ..........................................................................................203
Flávio M. Oliveira
Carlos A. Prolo
Avelino F. Zorzo
Gilberto K. Andrade

Porto Alegre Acessível: estratégias inovadoras para a política de acessibilidade e


Inclusão Social ...................................................................................................213
Mario S. Ferreira
Ana R.S. Cé
José C. B. Campos
João F.D. Moraes
Suzana C. Barboza
Paulo H. Regal

Nova abordagem Safety na segurança de cabine..............................................224


Ubirajara Kneipp
Andréa Kneipp Dal Bosco

Inovação na formação de professores de Química: a integração ensino-pesquisa-


extensão.............................................................................................................235
Maurivan Güntzel Ramos
Concetta Schifino Ferraro
Rejane Rolim Azambuja

BOAS PRÁTICAS NOS INSTITUTOS ESPECIAIS

Gestão Ambiental na Universidade e a busca de uma sociedade sustentável ..250


Jorge Alberto Villwock
Betina Blochtein

Atividade auto-instrutiva em Bioética: a educação à distância como ferramenta de


aprendizagem para profissionais de nível técnico na assistência a pessoas
vivendo com HIV/AIDS .......................................................................................258
Anamaria G. S. Feijó
Mauro C. Ramos
Paulo R. Wagner
Gerontoarquitetura - O Despertar da Consciência de uma Nova Regulamentação
Arquitetônica ......................................................................................................269
Fabiane Azevedo de Souza
Antonio Carlos Araújo Souza
Mario dos Santos Ferreira
Irenio Gomes

Determinação de malondialdeído em amostras biológicas por cromatografia


líquida de alta eficiência .....................................................................................282
Carlos Eduardo Leite
Guilherme Oliveira Petersen
Mariel Raquel Borges Betto
Maria Martha Campos

Planejamento Estratégico na Fundação Irmão José Otão .................................290


Álvaro Gehlen de Leão
Ana Lúcia Suárez Maciel
André Hartmann Duhá

Educação online: uma educação inovadora?.....................................................304


Lucia Maria Martins Giraffa
Elaine Turk Faria

O Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS: mediação entre conhecimento e


sociedade. ..........................................................................................................318
Melissa G. Simões Pires
Luiz Marcos Scolar
Emílio A. Jeckel-Neto
APRESENTAÇÃO

Inovação, universidade e relação com a sociedade são conceitos


instigantes que ocupam e desafiam instituições internacionais como a UNESCO e
a OCDE, bem como as autoridades nacionais, seus respectivos conselhos e os
envolvidos com a Educação Superior. Inovação e relação com a sociedade
constituem-se em imperativos da universidade do século XXI.
A PUCRS, como universidade comunitária, confessional católica e
integrante da quase bicentenária tradição educativa marista, vem se dedicando à
reflexão e ao planejamento, alicerçada nesses temas. Prova disso são os
seminários anuais dedicados a esses tópicos e que congregam um bom número
dos nossos docentes, pesquisadores e membros da administração superior, bem
como outras relevantes iniciativas tais como os cursos de atualização docente e
os dedicados aos gestores.
Refletindo mais uma vez sobre a missão que nos é própria e sobre a
realidade da Educação Superior em nosso país, para além das fronteiras e do
continente, constatamos uma série de variantes que condicionam e desafiam o
nosso compromisso com a Instituição de qualidade quer no âmbito nacional, quer
no âmbito internacional. Considero relevante destacar as seguintes:
- a mudança do perfil cognitivo, social e relacional dos nossos atuais
alunos em relação aos acadêmicos das últimas décadas;
- os diferentes métodos e instrumentos de ensino, de pesquisa e de
aprendizagem devidos às novas possibilidades oferecidas pelas
tecnologias da informação e da comunicação;
- a progressiva mobilidade acadêmica de pesquisadores, de professores e
de alunos e a correspondente internacionalização dos nossos curricula,
cursos e instituições;
- as contínuas e exigentes demandas de novos cursos e especializações
para atender às exigências e às competências próprias do mundo do
trabalho.
Isso tudo abre a porta da inovação na Educação Superior para responder
às mudanças e às exigências apresentadas, que tornam-se inexoráveis, quais
sejam:
10 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

- o esforço inquestionável pela qualidade;


- o melhor alinhamento entre as inovações introduzidas no processo
ensino-aprendizagem e na pesquisa;
- a maior flexibilidade dos projetos pedagógicos à luz das diretrizes
curriculares;
- o incentivo dado aos estudos e às pesquisas multidisciplinares e
transdisciplinares;
- o incremento da educação continuada ou formação permanente (life long
learning);
- a pertinência da pesquisa e da inovação com as necessidades regionais.
Além disso, resulta imprescindível considerar as exigências éticas ou de
boa conduta, vinculadas também à inovação na Educação Superior. Cabe
mencionar entre elas:
- o respeito aos direitos humanos;
- a educação para todos;
- a responsabilidade social;
- a erradicação da violência;
- a promoção da paz;
- a eliminação da pobreza;
- a sensibilidade ecológica;
- o surgimento de economias mais integradoras, equitativas e
sustentáveis.
Os meus sinceros agradecimentos aos destacados professores de
reconhecidas universidades da Espanha, dos Estados Unidos da América, de
Israel, do México, de Portugal e do nosso querido país, que contribuíram com seu
legado intelectual para a reflexão sobre esses importantes temas.
Da mesma forma, manifesto minha gratidão aos representantes de
agências e entidades nacionais e internacionais da Educação Superior por
possibilitarem indubitável conexão entre seu ideário e o fazer próprio da
academia.
Aos distintos professores da nossa estimada Universidade a minha
admiração e o meu reconhecimento por diferentes formas de participação na
busca da inovação na Educação Superior.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 11

Merecem uma menção especial o Prof. Jorge Audy, Pró-Reitor de


Pesquisa e Pós-Graduação, e a Professora Marília Costa Morosini, Diretora da
Faculdade de Educação da PUCRS, pelo seu denodado esforço na realização do
evento e na organização da presente publicação. Aos tradutores, revisores e
demais colaboradores os meus sinceros cumprimentos pelo trabalho realizado.
Tenho certeza de que inovação e relação com a sociedade ficarão como
referência e como prioridade para todos os participantes deste seminário na hora
de planejar e de dialogar sobre a Educação Superior no momento atual.

Joaquim Clotet
Reitor da PUCRS
PREFÁCIO

No contexto da Sociedade do Conhecimento emerge um novo papel para a


Universidade, expandindo seu foco tradicional na formação e capacitação (ensino
e pesquisa), e agregando à sua missão a atuação direta no processo de
desenvolvimento social, econômico e cultural da sociedade. Neste sentido, a
relação com a sociedade é, sem dúvida, uma questão central na atuação da
universidade. Para a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul -
PUCRS, a relação com a sociedade é também um dos seus eixos de gestão,
pautada ainda pela inovação e empreendedorismo.
Como parte integrante do IV Seminário de Inovação, Universidade e
Relação com a Sociedade, a Mostra de Boas Práticas reúne uma seleção de
práticas inovadoras da PUCRS na interação com a sociedade. De variadas
formas a universidade demonstra sua interação com o entorno por meio da
relevância de suas pesquisas e ações. Este volume apresenta na forma de textos
o que foi apresentado durante o seminário na forma de exposição.
Obrigada a todos os Diretores, Agentes de Inovação e participantes por
tornarem possível esta Mostra.

Gabriela Cardozo Ferreira


Coordenadora de Inovação – PRPPG/PUCRS
BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS HUMANAS
UM PACTO PELA TERRA:
A COLABORAÇÃO DA TEOLOGIA NA FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
ECOLÓGICA

Unidade Acadêmica: Faculdade de Teologia


Responsáveis: Prof. Dr. Leomar Antônio Brustolin (leomar.brustolin@pucrs.br)
Ms. Renato Ferreira Machado (gaulkemachado@terra.com.br)

Resumo: Através de Palestras e oficinas realizadas em escolas, igrejas, rádios e


centros culturais, analisam-se os valores e paradigmas de plenitude da
modernidade e suas conseqüências para o planeta. Criticam-se os modelos de
pessoa, ciência e sociedade desenvolvidos a partir da modernidade. Propõe-se a
superação do individualismo por uma identidade humana relacional e a superação
da ciência instrumental pelo saber participativo.

Palavras-chave: Ecologia, Pós – Modernidade, Teologia .

Abstract: Through lectures and workshops in schools, churches, radio stations


and cultural centers, it examines the values and paradigms of fullness of
modernity and its consequences for the planet. Criticism is the model person,
science and society developed from modernity. It is proposed to overcome the
individualism of a human identity and relationship of science overrun by
instrumental know participatory.

Keywords: Ecology, Post Modernity, Theology.

Introdução

A luta pela preservação ambiental atingiu o mesmo nível de importância da


busca pela paz mundial. Ao conceder o Prêmio Nobel da Paz ao ex-vice-
presidente dos EUA, Al Gore e ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC, órgão das Nações Unidas que reúne cientistas do mundo
inteiro), o comitê norueguês deu uma amostra de que o problema do aquecimento
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 15

global passou a ser o epicentro da preocupação e das disputas políticas


internacionais.
Por estes motivos, o problema interpela também o fazer teológico. 1
Faz-se necessário que cada pessoa lance um olhar de cuidado e
reparação à vida que se encontra ao seu redor, vida que já estava lá antes do
homo sapiens fazer seus primeiros ensaios sociais e antropológicos. A maior
contribuição da Teologia, por isso, virá no nível da interpretação dos significados
que perpassam esta situação e sua relação com as grandes questões de fundo
que incidem na relação trinômica “pessoa-ambiente-sagrado”. Junto a isso devem
vir propostas concretas de uma prática que contribua com respostas a estes
problemas a partir da dimensão transcendente humana, embasadas na fé
professada pelas tradições judaica e cristã. 2 Tendo estas questões presentes,
pergunta-se: de que forma a Tradição Cristã (nas suas várias confissões e em
conjunto com a Tradição Judaica) interpreta a história, o tempo, o papel do ser
humano e sua relação com aquilo que se revela como criação de Deus? Que
olhar pode ser lançado sobre a chamada “Pós-Modernidade” e seus elementos a
partir disso, ou seja, em que ponto da História da Salvação a humanidade está
inserida? Aliás, a humanidade (de maneira especial o ocidente cristão) ainda se
vê como participante de uma história de salvação? Neste sentido, a crise
ambiental talvez se torne o mais forte sinal surgido neste tempo: sinal de que o
ser humano pós-moderno, com toda a sua autonomia e liberdade, ainda precisa
ser salvo e talvez dele mesmo.
Este itinerário, que foi desenvolvido como pesquisa em nível de Mestrado
Acadêmico no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Teologia, tem
recebido uma grande demanda de pedidos de divulgação e partilha. Assim, desde
a defesa da dissertação, em dezembro de 2008, a temática foi trabalhada em
cursos de extensão na área da Teologia e do Ensino Religioso e ganhou espaço
na programação da Semana Teológica de Farroupilha e de Caxias do Sul. Além
disso, já foi tema de entrevista para a Rádio Mírian (1160 AM, de Caxias do Sul) e
ganhou publicação, como artigo, na revista Teocomunicação e nos anais da

1
Cf. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática, p. 20.
2
É necessário colocar o Islamismo junto a estas tradições. Para que não se amplie demais,
porém, a temática que se deseja abordar, por hora, não se fará referência a ele.
16 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Semana Teológica de Caxias do Sul, revelando a urgência de abordagem do


tema e o quanto o prisma teológico tem a contribuir para ele.

Objetivos

Objetivo Geral

Analisar a crise ambiental à luz da Teologia, buscando a possibilidade de


novos paradigmas de coexistência, que ressignifiquem o agir humano no cosmos
a partir de sua condição de criatura à espera do cumprimento da promessa de
seu criador.

Objetivos Específicos

• Caracterizar o ser humano e a pós-modernidade a partir dos paradigmas


e rompimentos antropoteológicos assumidos neste tempo.
• Identificar a crise ambiental em suas causas teológicas.
• Propor uma pedagogia de bases teológicas que possibilite um pacto pela
vida no planeta para a agenda teológico-ecológica do Século XXI.

Descrição do Processo

A crise ambiental como crise dos valores estabelecidos na modernidade

De certa forma, o que caracteriza uma mudança de época é a transição de


paradigmas socialmente aceitos dentro de certa normalidade para novos
paradigmas, que abrirão novos horizontes, delinearão novos perfis e inspirarão
novos ideais.

O gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua


história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se
progressivamente ao universo inteiro. Elas são provocadas pela
inteligência do homem e por sua atividade criadora e atingem o
próprio homem, seus desejos individuais e coletivos, seu modo de
pensar e agir tanto em relação às coisas quanto em relação aos
homens. Já podemos falar então de uma verdadeira
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 17

transformação social e cultural, que repercute na própria vida


religiosa.3

Ao lançar-se no esforço de descrever o zeitgeist que perpassava os


meados da década de sessenta do Século XX, a Igreja Católica Apostólica
Romana, reunida no Concílio Vaticano II intuía não apenas uma época de
mudanças, mas uma mudança de época, com radicais rupturas ao status quo de
então. Na Constituição Pastoral Gaudium et Spes pode se ler, no número 212 que
“a própria história acelera-se tão rapidamente que os homens conseguem segui-
la com dificuldade” e que tal fenômeno dá a luz um “complexo novo de
problemas, que provoca novas análises e sínteses”, tudo isso sem que,
necessariamente os “velhos problemas” tenham sido resolvidos. O fato de
constatarem-se novas problemáticas significa que se colocou em andamento
processos que não foram mantidos “sob controle” e avançaram para além daquilo
que se esperava ou que seria aceitável. A Gaudim et Spes, porém, não fala
apenas em “novos problemas”, mas em um “complexo de novos problemas”: ou
seja, há uma conjuntura nova e problemática vivida pela humanidade e que não
poderá ser resolvida com soluções de tempos passados, pois esta mesma
conjuntura pode ter se erguido como superação da anterior.

(...)no limiar da era moderna fomos emancipados da crença no


ato da criação, da revelação e da condenação eterna. Com essas
crenças fora do caminho, nós, humanos, nos encontramos “por
nossa própria conta” – o que significa que, desde então, não
conhecemos mais limites ao aperfeiçoamento além das limitações
de nossos próprios dons herdados ou adquiridos, de nossos
recursos, coragem, vontade e determinação. E o que o homem
faz, o homem pode desfazer.4

Na afirmação de Bauman é possível encontrar uma primeira característica


marcante deste tempo, ou melhor, das pessoas deste tempo: vive-se a época da
“autonomia do ser humano” ou de sua emancipação, como o mesmo autor se
refere a este fenômeno. Há de se perguntar, então, do que este ser se emancipou
e ao que ele vivia “atrelado” antes. Jürgen Moltmann faz, sobre esta questão, uma
classificação simples e profunda: diz ele que na sociedade de tipo “tradicional” a
existência de uma pessoa era predeterminada e regulada, por inteiro, pela

3
Gaudium et Spes 206
4
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida, p. 36 - 37
18 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

pertença a certa família, casta, extrato social ou população, havendo pouco


espaço para decisões individuais. Completa ele, dizendo que o nome de uma
pessoa, sozinho, valia pouco. 5 Constata ele, na mesma obra, que o mundo
moderno nasce no momento em que a cultura humana se livra de sua
dependência para com a natureza e da própria harmonia com a terra. 6 Encontra-
se aqui, portanto, a síntese da emancipação que embasa a modernidade e a pós-
modernidade: não há tradição que determine o futuro, nem natureza que impeça
os projetos do presente. Que pessoa e que mundo nascem desta situação?
Este é o ideário que, de certa forma, transforma a história humana em uma
“linha” de fatos que se sucedem e sinalizam a passagem do tempo: o progresso.
É com esta idéia fixa que se começa, no mundo moderno, a distinguir o que já
passou daquilo que se vive e a projetar possíveis futuros para a humanidade.
Futuros estendidos ad infinitum e alicerçados naquilo que a imaginação humana
pensar em fazer com os recursos da terra. 7 Uma idéia fascinante e sedutora, mas
que apresenta conseqüências difíceis de administrar: conseqüências que formam
o “complexo de novos problemas” do qual falava a Gaudium et Spes.
No Judaísmo e no Cristianismo, o tempo é lugar de encontro com o Criador
que alenta no presente e orienta para o futuro. Na teologia de Moltmann, a
criação é possibilidade do Espírito Criador de Deus, imanente a ela, em uma
dinâmica constante de possibilidades e realidades. O problema, assim, passa a
ser não apenas orientar-se para um futuro linear de salvação, mas para que
possibilidade de futuro orientar-se. Enquanto a experiência das tradições
históricas busca um futuro guiado por uma promessa de plenitude e para a
glorificação (que pode ser entendida aqui como vida plena) de tudo que existe, a
“civilização emancipada” tem, muitas vezes, orientado seu futuro a um vazio
hedonista, em nome de um progresso que, ao invés do “sonho da vida”, traz
“sonhos de consumo” e acaba consumindo a própria vida. Neste contexto, pode-

5
“Nelle societá di tipo tradizionale l‟intera esistenza delle persone veniva predeterminata e
regolata dalla culla allá tomba, condizionata dall‟appartenenza ad una certa famiglia, casta, ceto
ociale,popolazione,disponendo di bene scarso margine di manovra per le decisioni e gli sviluppi
individuali. Il nome della persona singola valeva poco.” MOLTMANN, Jürgen. Dio nel Progetto del
Mondo Moderno – Contributi per una rilevanza pubblica della teologia. p. 84
6
“(...) il mondo moderno nasce nel momento in cui la cultura umana si scrolla di dosso lê
dependenze dalla natura della terra e le consonanze com essa” idem, p. 75
7
Ver, também, SUSIN, Luis Carlos. A Criação de Deus.p. 12
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 19

se concluir que tal projeto leva todos os viventes a existirem sob o tempo de
Chronos, o titã da mitologia grega que devora seus filhos e não sob o Kayrós do
Deus da Revelação, que torna eterno cada momento e promete novos céus e
nova terra.
Segundo Leonardo Boff, no livro Ética e Moral: a busca dos fundamentos,
o ocidente sempre teve a obsessão persistente de levar sua cultura e visão de
mundo a todos os povos da terra. O autor enumera esta constatação em vários
fatos históricos, iniciando por Alexandre Magno, na Grécia, passando pelo
Império Romano, pelo cristianismo e, finalmente, pelo imperialismo ocidental
secularizado, o que “significou impor, por bem ou por mal, os valores e as
instituições ocidentais a todos os povos submetidos.” 8 Se atualmente não se fala
tanto em imperialismo como processo de expansão, o termo globalização tem,
muitas vezes, feito este papel, sendo identificado como uma infiltração da
economia ocidental em vários âmbitos socioculturais por novos meios e com
novos fins. O momento que se vive atualmente parece pedir uma prestação de
contas dos valores pregados por este Ocidente expansionista, que tem se
mostrado como “senhor da verdade” e detentor de uma salvação movida à
esperteza, oportunismo e individualismo. Sobre isso, Edgar Morin lembra que,
“desde Maquiavel, a ética e a política acham-se oficialmente separadas, visto que
o príncipe (governante) deve obedecer à lógica da eficácia, não à moral.” 9 , ou
seja: caminha-se sob a égide do pragmatismo, que nem sempre abre espaços
para que a vida seja contemplada em seu valor mais profundo. Tal realidade é
constatada no segundo capítulo do Documento de Aparecida, ao se referir à
situação sócio-cultural da América Latina, mais precisamente no item de número
46.

Verifica-se, em nível intenso, uma espécie de nova colonização


cultural pela imposição de culturas artificiais, desprezando as
culturas locais e com tendência a impor uma cultura
homogeneizada em todos os setores. Esta cultura se caracteriza
pela auto-referência do indivíduo, que conduz à indiferença pelo
outro, de quem não necessita e por quem não se sente
responsável. Prefere-se viver o dia a dia, sem programas a longo
prazo nem apegos pessoais, familiares e comunitários. As

8
Cf. BOFF, Leonardo. Ética e Moral: a busca dos fundamentos .p. 75
9
Cf. MORIN, Edgar. O Método6: Ética, p. 25
20 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

relações humanas estão sendo consideradas objetos de


consumo, conduzindo a relações afetivas sem compromisso
responsável e definitivo. 10

Assim, é preciso perguntar: se esta civilização chegou a certo patamar de


desenvolvimento e progresso com seus próprios esforços, por que ela estaria
errada? Afinal, não seria a vontade do próprio Deus criador que sua criatura
desenvolvesse suas potencialidades ao máximo e transformasse em realidade
tudo aquilo com que sempre sonhou? Sem dúvida que não se trata, aqui, de
demonizar todos os avanços tecnológicos desenvolvidos pelo ser humano, mas
de afirmar que há, sim, um desvio de caminho, teologicamente falando. Este
desvio é apontado muito claramente por um fator que grita aos ouvidos da pós-
modernidade: o clamor das vítimas deste processo, incluindo aí a natureza. Se a
história iniciada com a migração de Abraão é a História da Salvação, certamente
não é salvadora a história escrita pela civilização moderna, industrial e pós-
industrial, pois na primeira não pode haver exclusões ou vitimações de qualquer
espécie.
Na presença deste paradigma desenvolvem-se algumas características
predominantes no sistema de pensamento pós-industrial: o individualismo,
preconceitos de diversas espécies, hedonismo e um grande silêncio sobre a
morte. Produz-se, neste contexto, um ser humano em eterna busca de
compensações para as decepções que a vida lhe coloca no caminho e que vive a
lógica do mérito e do prazer: ou seja, o acesso à qualidade de vida é algo a ser
conquistado e, uma vez conquistado, deve ser extremamente usufruído. Tal
visão, no pensamento de Bauman, traz à sociedade um padrão de
“acampamento”, aonde os “hóspedes” vêm e vão, preocupados apenas com o
espaço que seu trailer ou barraca irá ocupar, com a garantia de um bom
funcionamento do lugar (que deve ser providenciado por quem o administra) e
com o quanto os vizinhos irão ou não incomodá-los. 11
Surge, assim, um ser humano que, tentando estar em todos os lugares ao
mesmo tempo, acaba não estando em lugar nenhum, nunca; procurando uma

10
CELAM, V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe, disponível em
<http://redelatina.marista.edu.br/VConfer%C3%AAnciaCELAM/Portugu%C3%AAs/DocumentoVer
s%C3%A3oAparecida/tabid/248/Default.aspx> Acesso em: 07 de abril de 2008.
11
Cf. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. p. 31
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 21

hiperconexão, se desvincula das realidades palpáveis e mergulha em tempos e


realidades virtuais. Como, mesmo assim, ainda é impossível frear o tempo, os
grandes vazios existenciais decorrentes da rejeição das ações deste são
preenchidos com botox (congelando rostos em uma juventude forçada), cartões
de crédito (que pagam, aparentemente, qualquer coisa – de alimentos ao corpo
alheio, alugado para o prazer de quem paga) e a própria busca do paraíso bíblico.
É interessante notar como são cada vez mais freqüentes as propagandas
imobiliárias oferecendo residências “junto à natureza”, em lugares calmos e
seguros, onde se possa respirar ar puro: ou seja, em sua “autoexpansão”, o
pretenso semideus pós-moderno compra o seu próprio Éden e coloca em seus
portais querubins de alguma empresa de segurança, para impedir que demônios
de classes sociais diferentes da sua cometam o pecado de invadir sua
privacidade. Na contramão destas tendências, a Tradição Cristã afirma sua
crença em um Deus que se revela exatamente com atitudes contrárias a estas.
Na criação, é um Deus que se “autocontrai”, permitindo que os seres criados
tenham a vida da qual necessitam. Na encarnação, vive o esvaziamento kenótico
desde o nascimento até a cruz, entregando o próprio espírito em sua última
expiração humana. No Pentecostes, preenche os vazios de medo e insegurança
da primeira comunidade com um sopro de vida, coragem e entendimento. É um
Deus que não acumula, mas doa e, principalmente, expande-se em relações
profundas e complexas, onde não há dominação, mas fraternidade.

Ressignificando alguns paradigmas teológico-culturais do ocidente

Logicamente, não se pode pensar em um ser humano passivo diante de


seu ambiente e que, repentinamente, passa a dominá-lo e utilizá-lo: pelo
contrário, ao não se identificar como semelhante a nenhuma espécie que o
cercava e dar-se conta de que não havia nenhum nicho ecológico especialmente
preparado para ele, o ser humano passou a adaptar o ambiente para sua própria
sobrevivência. Nisto percebe-se o nomadismo característico dos primeiros
grupamentos hominídeos e a posterior sedentariedade através da agricultura. No
primeiro caso, a fuga de uma natureza que lhe colocava em perigo e, no segundo,
a descoberta de certa maleabilidade desta para produzir os alimentos que não
obtinha de forma espontânea no lugar onde se encontrava. Para esta situação
22 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

aponta a narrativa da criação, no livro do Gênesis, quando trata da saída do


primeiro casal do Jardim do Éden: Ao homem, ele disse: “Porque escutaste a voz
de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo
por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele
produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás as ervas dos campos. Com o suor
de teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois
tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3, 17-19).
Ao amaldiçoar o solo por causa do homem, o narrador bíblico,
provavelmente, deseja indicar a condição deste ao se afastar de um Deus que é
criador dele e da natureza e não colocar o ambiente como inimigo da pessoa. O
texto quer indicar, de dentro da tradição judaico-cristã que a realidade poderia ser
diferente (menos sofrida), se o homem honrasse a fidelidade com seu criador e,
ao mesmo tempo, diferenciar-se de culturas circuncidantes, que divinizavam a
natureza 12 e colocavam o ser humano como parte dela. 13 O importante aqui,
porém, é detectar as raízes desta suposta “superação da natureza” idealizada no
seio do mundo moderno, visto que o texto bíblico não supõe que a continuidade
do “estado de paraíso” pelo gênero humano eliminaria a necessidade do trabalho
e do esforço no seio da criação. O que se aponta é que a relação, que seria de
cuidado, reciprocidade e partilha, em um bio-irmanamento a partir da presença do
próprio Deus Criador, passa a ser relação de sobrevivência e hostilidade.
No seguimento da caminhada teológica iniciada em Abraão e Sara, que se
tornam peregrinos de uma promessa, a civilização que daí decorre cometeu o
equívoco de pensar esta caminhada como conquista e de entender a promessa
de Deus como mérito. O mito de um reino eterno de paz, alimentado nos
primeiros tempos do cristianismo vai ganhar aportes no nascedouro da civilização
industrial ocidental, anunciada como último estágio da história, onde todos os
problemas se resolveriam pela distribuição dos bens e pela boa administração
econômica. 14 Ao mesmo tempo, esta civilização entregará a natureza ao ritmo das
máquinas inanimadas, “fazendo dos bosques um monte de madeira utilizável, de

12
Cf. MOLTMANN, Jürgen. Dio nel Proggeto Del Mondo Moderno. p. 75
13
Cf. Ibidem, p. 78
14
Cf. MOLTMANN, Jürgen. El Hombre. p. 50
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 23

modo que depois se faz necessário criar parques naturais protegidos.” 15 Para que
tais idéias se tornassem realidade no mundo, alguns paradigmas precisaram ser
adotados por esta civilização. Entre eles está a objetivação da natureza pelo ser
humano, que a reprime e viola, esgotando as possibilidades de parceria amistosa
com ela e o antropocentrismo cósmico, que se apodera de uma interpretação
equivocada da teologia da criação e coloca toda a natureza a serviço do
homem, 16 ao entender que, por ter sido feito à imagem e semelhança do criador,
o ser humano possuiria autoridade semelhante a de Deus quanto à criação. A
questão, assim, talvez não comece pela visão que o ser humano tem daquilo que
o cerca, mas de sua visão sobre ele mesmo. Neste sentido, percebe-se na
história da Tradição Cristã uma tendência de deslocar as questões soteriológicas
da criação como um todo para a alma humana individual 17 : tal ideário
acompanhará a civilização cristã ocidental e formará uma estrutura de
pensamento onde o corpo será subestimado e até mesmo desprezado.
Assim, não haveria na crise ambiental de coisificação da natureza uma
crise do próprio cristianismo ocidental? Não seria correto afirmar que a Tradição
Cristã, por muito tempo, apregoando uma espiritualidade subjetiva e uma
salvação individual da pessoa, preparou o terreno e a justificativa para uma
dicotomia pessoa/natureza? É claro que respostas para estas perguntas não são
simples e diretas, pois exigem uma escuta histórica extensa e atenta, porém, é
possível que se aponte alguns sinais desta realidade em duas atitudes
largamente adotadas na pós-modernidade: a busca obsessiva de uma
transcendência solitária, conectada à rede mundial de computadores e o
enaltecimento de tradições religiosas orientais (e anômalas ao cristianismo) como
salvaguarda da relação entre humanidade e natureza.

Do conhecimento à ciência, da ciência à sabedoria

Se há um fator determinante da virada hermenêutica dada pela


modernidade sobre as eras anteriores da história humana, este se encontra na

15
Ibidem, p. 52
16
Cf. SUSIN, Luiz Carlos. A Criação de Deus. p. 13
17
Cf. MOLTMANN, Jürgen. El Hombre. p. 49
24 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

concepção e prática das ciências sobre o mundo. Se a palavra “ciência” tem sua
origem no termo “saber”, o sentido de saber toma rumos diversos de uma
“sabedoria”, indo ao encontro da conquista de poder por parte do ser humano: tal
é o princípio do qual parte Francis Bacon, em sua Instauratio Magna, onde afirma
que esta ciência deve estabelecer o imperium hominis, visto que saber é possuir.
A ciência da modernidade explora a natureza para que ela dê retorno aos
seus investimentos em pesquisa, que por sua vez se dão, na maioria dos casos,
para que haja mais lucratividade em determinada área do mercado: a floresta vira
um estoque de madeira, os rios viram hidrelétricas e espaços como a Amazônia
são desmatados para se tornarem pasto, onde se criará animais que servirão
para o abate. Leonardo Boff refere-se a isto em sua obra Princípio de Compaixão
e Cuidado, ao lembrar que a cultura ocidental se caracteriza pelo logocentrismo,
ou seja, pela soberania da razão (de modo especial, a razão instrumental) sobre a
realidade. Esta, porém, por ela mesma se faz irracional por ser produtivista e não
levar em conta as outras tantas dimensões que dinamizam a vida. 18
Por isso mesmo, é só a partir de outros paradigmas, que não sejam
logocêntricos, que se pode fazer teologia sobre a questão ecológica, visto que
não há nenhuma ligação clara e lógica entre a fé judaico-cristã e o meio-
ambiente, ou melhor, pode-se até encontrar justificativas para esta utilização da
natureza nesta mesma fé. Apesar dos recentes esforços da Igreja para reler a
passagem da criação, a cultura ocidental absorveu muito bem a idéia de que a
natureza não existe em si, mas passa a ter sentido a partir da humanidade,
servindo-lhe como cenário e sustentáculo em sua história da salvação. A questão
chave para a tradição cristã seria, então, perguntar-se hoje, diante de um planeta
ameaçado: quem é o meu próximo? 19
Tornar a natureza e a própria vida “útil” é atentar contra ambas. A vida só
pode se fazer útil quando ofertada livremente, como dom e não quando uma
utilidade alheia lhe é imposta. Por isso, a natureza se deixa verdadeiramente
utilizar apenas naquilo que oferece livremente em seus ciclos vitais. Avançar para
além disso é explorá-la.

18
Cf. BOFF, Leonardo. Princípio de Compaixão e Cuidado. p. 10-11
19
Cf. SOFFIATI, Arthur. Ecologia: reflexões para debate.p.127-128
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 25

Uma criação explorada à espera de seu shabbat

Todas as idéias de chegada a um estágio ideal de vida para a


humanidade, com possibilidades e recursos infinitos, remetem ao conceito do
shabbat, no contexto da teologia da criação. Em si, é uma tentativa ontológica de
reestabelecer ligações com um estado de vida que parece ter se perdido em
algum ponto da história e livrar-se das maldições adquiridas pelas escolhas
equivocadas do ser humano. Semanticamente, portanto, esta busca é religiosa,
no sentido de religação e, por isso mesmo, tem sido feita de forma parcial e
equivocada. A busca de uma religação precisa passar por uma releitura e por
uma reeleição de prioridades e valores, visto serem, estes dois últimos termos,
também tradutores do termos “religião”. Por falta de releitura, estes esforços vêm
sendo empreendidos antropocentricamente, sem levar em consideração a
situação igualmente decaída e sofredora da criação como um todo. Sem isso,
obviamente, não se chega a uma reeleição. A releitura, por isso, precisa
recomeçar no momento imediatamente anterior ao afastamento do ser humano
de seu criador: no shabbat do sétimo dia, quando a criação havia sido concluída e
abençoada. O Deus da Bíblia não é somente o inquieto “Deus da História”. Ele é
também, na mesma medida, o Deus do repouso sabático, aquele que interrompe
a história e o tempo. (...) É um Deus que sai de si mesmo criando e que retorna
novamente a si mesmo repousando, concluindo sua obra do mesmo jeito que um
artista leva a cumprimento aquilo que de fato lhe estava retraído e o põe em
liberdade. 20
A imagem de um Deus que contempla sua obra deveria corresponder à de
um músico que escuta sua composição ou de um pintor que contempla seu
quadro e não simplesmente a de alguém que terminou uma tarefa e precisa repor
suas forças. Desta forma, uma primeira releitura da narrativa da criação deve
remeter à concepção de uma obra de arte, onde a força do trabalho é movida por
paixão e sensibilidade, em busca de uma estética criadora que dê sentido ao

20
“Il Dio della Bibbia non è soltanto l'inquieto 'Dio della storia'. Egli è anche, in pari misura, il Dio
del riposo sabbatico, colui che interrompe la storia e il tempo. È un Dio che esce da se stesso
creando e che ritorna nuovamente in se stesso riposando, prendendo congedo dalle sue opere
allo stesso modo dell'artista che porta a comprimento ciò che há fatto ritraendosene e lansciandolo
in libertà.” MOLTMANN, Jürgen. Dio nel Progetto del mondo moderno. p. 77
26 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

caos. Sendo tempo de contemplação do criado, o sábado convida a atitudes


diferenciadas daquelas que se fazem necessárias no período de labor criativo. O
sétimo dia acontece nas relações de gratuidade, onde todas as criaturas
convivem face a face pelo simples prazer do encontro. Não há vez, neste
ambiente, para a contagem cronológica dos dias que passam e nem para as
exigências de produção: tudo é reconciliação e fraternidade. Tudo é
escatológico. 21 Nesta dinâmica, obviamente, não é apenas o humano que
vivencia esta qualidade de relações. Pelo contrário, como imagem e semelhança
do criador, é este o ser responsável pela descoberta e confirmação desta
reconciliação criacional em toda a biodiversidade. O tempo sabático é aquele em
que a natureza toda é ela mesma e a terra descansa em sua fecundidade,
deixando de ser objeto de posse de quem quer que seja. Desta forma, pode-se
identificar no Sábado da Criação, a mais profunda e verdadeira vocação
ecológica humana da criação.
A partir da tradição judaica, a teologia do sábado torna-se uma verdadeira
política ambiental divina. Sempre com o horizonte de “coroamento da criação”, a
observação sabática trará, por exemplo a prática do “ano sabático”: de sete em
sete anos, deve-se viver um ano inteiro da mesma forma que no sábado, com
repouso absoluto da terra (Lv 25, 4). Tal prática traz uma ligação intrínseca entre
o ecológico e o social, visto que, além da preservação do ambiente, sem
interferências neste, há também o perdão das dívidas e a restauração da
dignidade dos excluídos, devolvendo-lhes o que lhes fora destituído no ano do
jubileu (de cinqüenta em cinqüenta anos, cf. Lv 25, 8-17).93 Como resultado, o
Povo da Aliança faz, a partir da observância destes preceitos, a experiência de
um novo tempo e um novo espaço, aproximando-se, assim, do kayrós original da
criação. Teologicamente falando, portanto, a atual crise ambiental vem a revelar
uma criação que aguarda o seu shabbat, ou seja, uma natureza que espera pelo
tempo de ser ela mesma e uma terra que clama por descanso.
A experiência de fé, realizada no âmbito das Tradições Religiosas, apesar
de se constituir em ato público, resguarda uma atitude pessoal, a partir da qual se
opta ou não por determinada doutrina. Assim, não é possível considerar uma ou

21
Cf. SUSIN, Luiz Carlos. A Criação de Deus. p. 80-83 92Iibidem, p. 82
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 27

outra visão de vida, humanidade ou natureza como sendo a mais adequada para
todas as pessoas do planeta, sem que se entre em um conflito doutrinário e
dogmático sobre qual tradição seria guardiã da verdade e quais estariam
equivocadas. De certa forma, pode-se dizer que aquilo que as diversas Tradições
Religiosas possuem em comum são os seres humanos que as constituem e, por
isso, as noções recorrentes de humanidade e do valor desta, vêm, sim, destes
conjuntos de crenças.
À medida em que, historicamente, definia-se a idéia de ser humano, foram-
se definindo os direitos inerentes a ele. Mais precisamente, no contexto do
iluminismo ocidental e do nascimento das constituições norte-americanas e
européias, que traziam a noção de um “novo Estado”, formula-se a idéia de
“homem universal”, detentor de “direitos universais”. Nesse sentido, a novidade
que esta proposta trazia era a de que a humanidade das pessoas vinha antes de
suas nacionalidades, crenças, etnias e gêneros. Atualmente, pode-se dizer que a
afirmação destes direitos reforçam a perspectiva de legitimação de uma “política
humana” no planeta, unindo a comunidade humana frente a grandes ameaças
comuns, como a própria crise ambiental. É preciso constatar, porém, que o
momento que se vive hoje pede uma evolução no conceito destes direitos: além
do esforço para que sejam, de fato, cumpridos em todo o planeta, suplantando
interesses particulares de países, grupos, religiões e culturas, faz-se necessário
ampliar sua formulação e conceituação. O cenário hodierno pede que os direitos
humanos evoluam para “direitos da humanidade” e, daí, para os “direitos da
Terra”, para se chegar aos “direitos de todos os viventes”.22
Um código de direitos da pessoa originado no seio do Iluminismo,
certamente traz, em si, muito de antropocentrismo. Há de se pensar, por exemplo,
qual a justa medida entre o direito que todos possuem à autonomia e
desenvolvimento no âmbito de sustentabilidade e a própria sustentabilidade do
ambiente no qual estas mesmas pessoas vivem. Há, de certa forma, uma
confusão de liberdade com poder de consumo, em um quadro alimentado pelos
interesses de grandes empresas e corporações, que colocam no mercado mais
produtos do que aquilo que seria possível adquirir e utilizar por um tempo

22
102Cf. MOLTMANN, Jürgen. Dio nel progetto del mondo moderno. p. 115-116
28 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

razoável, sem necessidade de substituição. Aliado a isso, há uma ansiedade


coletiva por um reconhecimento que vem daquilo que se pode comprar e ostentar,
sustentado por uma falácia desenvolvimentista que enxerga apenas o âmbito
econômico. 23 Desta forma, faz-se importante perguntar: é possível pensar em
dignidade humana sem pensar em um ambiente digno para que as pessoas
vivam? É possível ser digno como pessoa ou sociedade sem reconhecer a
dignidade intrínseca aos biossistemas onde se vive?
Ao se falar em direitos da pessoa, normalmente se faz referência ao
esforço pela garantia da dignidade do ser humano frente às ameaças que esta
sofre atualmente, em vários cenários do planeta. Em sua concepção, porém, este
estatuto carrega a idéia de transformar realidades que põem em risco a vida para
que esta não volte a correr perigo no futuro. Assim, lutar pelos direitos das
pessoas significa dar continuidade a um pacto que a humanidade vem fazendo
com as gerações futuras, para que estas não sofram o que as gerações passadas
sofreram e nem o que as atuais sofrem e para que certos quadros, onde direitos
fundamentais foram assegurados não revertam ao que eram antes. Por esta
razão é preciso que, neste momento, se faça a pergunta pelo futuro do planeta e
da humanidade que nele habita: o que se faz necessário realizar hoje para que as
próximas gerações tenham sua sobrevivência e dignidade garantidas?
Ora, ao longo da história as demandas pelo futuro da humanidade foram
se modificando de acordo com as circunstâncias históricas e as necessidades de
cada época. Pode-se enumerar uma evolução na idéia de direitos fundamentais
que resguardam a pessoa em sua dignidade: uma primeira geração se encontra
na Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. Lá,
defende-se a idéia de liberdade diante de um Estado que não deveria intervir na
vida de seus cidadãos, mas deixar-lhes espaço para o desenvolvimento. Uma
segunda geração virá no final do Século XIX e primeira metade do Século XX,
onde se fala em Direitos Fundamentais Sociais: é o momento em que o Estado
deve intervir, praticando uma justiça distributiva para equilibrar desigualdades e
garantir o direito ao trabalho, à justa remuneração e à previdência social, por

23
103Cf. SUNG, Jung Mo. Sustentabilidade e Ecologia in MOURA, Marlene Castro Ossami de
(org.). Ecologia e Espiritualidade: os gritos da Mãe-Terra. p. 61-71
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 29

exemplo. A terceira geração pode ser entendida como os Direitos de


Solidariedade, onde figuram os direitos à paz, ao desenvolvimento, à
autodeterminação dos povos e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. 24

Desafios

Uma lenta e progressiva transformação de paradigmas

Ao se fazer a constatação das características do cenário onde a crise


ambiental surge e se desdobra, nas assessorias que temos prestado, nos
preocupamos em apontar possibilidades de reversão deste quadro a partir de
seus aspectos teológicos. Estas possibilidades, porém, não pretendem ser
soluções imediatas para um problema que se encontra enraizado em nossas
crenças: a proposta é de uma longa e árdua caminhada de esperança por uma
nova rota, a ser construída passo a passo. 25 Esta rota terá de passar pela
concepção que o ser humano tem dele mesmo a partir do sagrado onde deposita
sua fé, bem como por seu conceito de conhecimento, ciência e sabedoria e,
principalmente por sua ética de convivência, abrindo mão, talvez, daquilo que
considere seguro. Chega-se, desta forma, aos três principais paradigmas
indicados na teologia de Moltmann como chave de mudança para a vida neste
planeta: o paradigma de superação do indivíduo pelo humano, que só se
compreende na ressonância de suas relações; o paradigma de superação da
ciência-dominação pela ciência-participação, que aponta para a vivência da
sabedoria como entendimento da vida; finalmente, o paradigma de superação da
sociedade estratificada em grupos analógicos pela sociedade do amor ao inimigo,
onde a responsabilidade mútua de todos os viventes poderá levar a um pacto
pela terra.
Por adentrar o campo dos significados últimos da existência, o evento
ambiental se torna teológico e a problemática com a natureza se torna pergunta
pela criação, uma vez que esta mesma cultura que ameaça o planeta foi gestada
no seio da Tradição Cristã do ocidente. O pensamento de Moltmann alerta para o

24
Cf. AZEVEDO, Plauto Faraco de. Ecocivilização – Ambiente e Direito no limiar da vida.
p.47-48
25
Cf. SERRES, Michel. O Contrato Natural. p.54
30 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

perigo de nos imaginarmos na época da consumação de todas as potencialidades


humanas devido às mudanças e avanços ocorridos nas últimas décadas. O sinal
de que não se chegou à plenitude são as vítimas destes processos e o próprio
fato de que as pessoas cada vez mais têm se compreendido a partir de uma
individualidade fechada. Reler a pós-modernidade à luz da História da Salvação,
por isso, significa perguntar-se pelas possibilidades de abertura ou fechamento ao
vir-a-ser proporcionado pelo Espírito da Vida, que respira em cada ser criado.
Para tanto, é preciso passar do tempo-quantidade (cronos) para o tempo-
qualidade-eternidade (kayrós) e isto só é possível no espaço do encontro das
essências criaturais.
Qualquer que seja o tempo desta história da esperança que a criação vive,
ele sempre apontará para a escatologia sabática, que é o tempo da convivência
do Criador com suas criaturas. O shabbat revela o valor de cada vida, levando-as
ao encontro fraterno de convívio, onde cada ser vale pelo que é e não pelo que
produz. A possibilidade de se viver isso encontra-se na hermenêutica trinitária do
Deus Criador, que cria em aliança e para a aliança. Uma vez que o ser humano é
imagem deste mesmo Deus, então, sua vocação é ser espelho de relações
comunitárias abertas e favoráveis à vida, ao invés de arremedo de uma divindade
onipotente e escravizadora de seu ambiente. Se, ao saber-se livre o ser humano
chegou ao individualismo para afirmar identidades individuais, chegou o momento
de usufruir da liberdade para além das relações de poder (entre os seres
humanos e destes para com a natureza). Para tanto, Moltmann aponta mais duas
dimensões do ser livre que precisam ser contempladas: a dimensão da liberdade
como qualidade de convivência e a dimensão da liberdade como possibilidade
criativa de futuro e esperança. É no equilíbrio destas três dimensões que se
encontraria a possibilidade de abertura para o porvir de relações com o planeta.
Junto a isso, a capacidade humana de conhecer e criar conhecimento precisaria
ser revista em função dos paradigmas assumidos como ciência: Moltmann
assume que a ciência guiada pela razão instrumental esgotou-se e igualmente
está esgotando as possibilidades de vida na Terra. Se a vida se dá na abertura
para as relações e para o futuro, conhecer teria muito mais a ver com participar
dos sistemas a serem conhecidos do que com uma exploração de utilidades do
que se quer conhecer. Ciência teria de ser uma relação entre sujeitos e não entre
sujeito e objeto. Neste nível, o conhecimento pode se tornar sapiencial,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 31

renovando a essência das relações e questionando a validade de algumas formas


de viver consagradas culturalmente na civilização ocidental e eurocêntrica. É por
isso que a chave para um pacto pela Terra reside na sociedade do amor ao
inimigo, que acolhe a diversidade em conflito e rompe os ciclos de violência,
dominação e exploração entre os seres humanos e destes com o planeta. O
segredo deste pacto está exatamente na livre decisão de irmanamento possível
com as criaturas, principalmente com aquelas escolhidas para não serem
“próximas”, por causarem temor ou desestabilizarem a maneira como se está
acostumado a viver.
O conflito que se instaura frente à crise ambiental e às medidas
necessárias para sua reversão não passam mais apenas pelos cálculos
econômicos que precisam ser feitos ao se pensar em redução da emissão de
gases na atmosfera. O conflito é de crenças a respeito do futuro: enquanto se
acreditar que o problema ambiental é apenas um percalço a ser superado para se
manter o modus vivendi globalizado pelo ocidente neoliberal, que se mostra
consumista e individualista, mais se agravarão os quadros preocupantes da
saúde do Planeta Terra. A esperança, por isso, pode encontrar renovação no
exercício de um silêncio de cumplicidade com a criação, onde o ser humano
sinta-se novamente integrado e saiba do que abrir mão para ser essencialmente o
que foi criado para ser.

Atores Envolvidos

As assessorias prestadas sobre a questão têm tido variados interlocutores.


Em Caxias do Sul, trabalhamos, ao longo de um mês, com alunos do Curso em
Extensão de Teologia, grupo formado por adultos oriundos de diferentes
atividades profissionais e sociais (empresários, médicos, advogados, educadores,
etc.). Quadro semelhante foi encontrado na 8ª Semana Teológica de Farroupilha.
Já no curso de Extensão em Ensino Religioso, em Porto Alegre, a grande maioria
dos atores eram professores de Ensino Religioso da capital e região
metropolitana. Na 16ª. Semana Teológica de Caxias do Sul a temática será
tratada na interface com a Bioética
32 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Resultados Alcançados

A natureza da pesquisa e sua proposta de reflexão sobre paradigmas


talvez não permitam vislumbrar resultados imediatos. O que tem se percebido,
nas assessorias, pronunciamentos e palestras é uma certa surpresa pelo prisma
de abordagem da questão ambiental e a possibilidade de retomada de algumas
idéias no dia a dia. A expectativa é de que a uma nova ótica sobre a questão
permita uma nova ética ecológica. Neste sentido, talvez seja interessante
descrever os processos de divulgação da temática a partir do que cada grupo
atingido buscava.
No Curso em Extensão de Teologia, no contato com atores sociais em
busca de formação complementar às suas áreas de atuação profissional e
pastoral, havia a curiosidade sobre a como a Teologia poderia dialogar com a
questão ecológica. Neste sentido, buscou-se uma abordagem a partir de uma
releitura das narrativas da criação, em perspectiva pastoral. Enfatizou-se a busca
por uma sensibilidade maior nas relações interbiológicas, referendando-se em
uma hermenêutica de aliança, presente na teologia da criação. Da mesma forma
conduziu-se nossa participação na 8ª Semana Teológica de Farroupilha, sendo
que, no momento de debate com o público, emergiram de forma clara as crises
entre práticas buscadas para “solucionar” a crise ambiental e a necessidade de
uma gradual mudança de mentalidade, que resultará em novas ações. Na mesma
oportunidade, em entrevista à Rádio Mírian, buscamos propor caminhos mais
reflexivos para a questão ambiental, enfatizando que ações isoladas e paliativas
não levarão a uma reversão deste quadro.
No Curso em Extensão de Ensino Religioso, a busca maior era por uma
aplicabilidade da questão na sala de aula e possíveis interfaces interdisciplinares.
Nossa proposta, junto aos educadores foi a de releitura do simbólico e do
teológico que perpassam a cultura ocidental, buscando novas significações para o
fator ambiental. Da mesma forma, havia uma certa expectativa pela apresentação
de dinâmicas e trabalhos “práticos” a serem desenvolvidos com os educandos,
apontando para ações como separação e reciclagem de lixo e promoção de
campanhas temáticas. Novamente, propomos uma reflexão mais aprofundada,
compreendendo que a possibilidade de atuações como as supracitadas devem
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 33

ser conseqüência da renovação das mentalidades e relações interpessoais e


ecológicas.
Enfatizamos, ainda, como parte da metodologia adotada, a inserção de
videoclipes, peças publicitárias, trechos e trailers de filmes que enfatizam as
questões abordadas. Ao fazermos isto, não estamos buscando meras ilustrações
mas indicando que, um dos caminhos possíveis para a reversão de alguns
paradigmas está na busca da sabedoria contida na arte, que sintetiza o
conhecimento de forma lúdica e contundente. Assim, nos utilizamos dos clipes
musicais “Do the Evolution”, da banda norte americana Pearl Jam, “Original of the
Species”, da banda Irlandesa U2 e “Vilarejo” da cantora brasileira Marisa Monte;
dos trailers cinematográficos de “Ensaio sobre a Cegueira” (Blindness), de Vítor
Meirelles e de “Batman, o Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight), de
Christopher Nolam e também da peça publicitária “Sustente-se” da Grendene.

Referências Bibliográficas

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I OLIMPÍADA DE FILOSOFIA DO RS

Prof. Dr. Sérgio Augusto Sardi


Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
filosofia@pucrs.br

Resumo. A I Olimpíada de Filosofia do RS promoveu a realização de atividades


de cunho filosófico. Seu tema foi: “É possível uma sociedade justa?”. As
atividades consistiram em: a) diálogos em grupo em torno do tema, seguidos ou
não de b) produção de textos e/ou obras artísticas relacionadas ao tema. A
Olimpíada destinou-se a alunos do Ensino Infantil, Fundamental e Médio,
representando suas respectivas instituições de ensino. As Atividades Pré-
Olímpicas foram coordenadas pelos respectivos educadores das turmas/grupos
participantes. No dia 22 de novembro de 2008, no prédio 5 do Campus Central da
PUCRS foi realizado o encontro Regional da Olimpíada. Nesse dia as atividades
foram promovidas e coordenadas pela Coordenação das Olimpíadas de Filosofia.

Abstract. The I Olympic Games of Philosophy promotes activities regarding


philosophical matters. Its subject was: “Is it possible a fair society?” The activities
consisted in: a) group dialog refered to the subject, followed or not by b) artistical
works related to the subject. The Olympics was destined to students of all grades,
representing their respective educational institutes. The Pre-Olympics activities
were coordinated by the respective educators of the participant classes/groups.
On 22th November 2008, Central Campus of PUCRS, building 5, occurred the
Olympic Regional Meeting. On such day, the activities were coordinated by the
Coordenation of the Olympic Games of Philosophy.

Introdução

Em termos mundiais, o movimento olímpico em Filosofia já tem mais de


uma década. Em 1995, a Unesco, no marco do programa “Filosofia e Democracia
no Mundo”, recomendou promover as Olimpíadas de Filosofia, tanto em nível
nacional como internacional, a fim de estimular o interesse dos jovens por essa
disciplina. Na América Latina realizam-se Olimpíadas de Filosofia em diversos
36 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

países, como na Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Peru e Colômbia.


Periodicamente, organizam-se também Olimpíadas do Rio de La Plata, entre
Argentina e Uruguai, e existe o projeto de organizar Olimpíadas do Mercosul.
As Olimpíadas de Filosofia nasceram da convicção de que as questões
filosóficas aparecem na vida de todas as pessoas e em todas as idades. Assim,
elas precisam de um cuidado e um estímulo especial para não serem erradicadas
violentamente do nosso cotidiano ou tratadas superficialmente. Com um espírito
de acolhimento das diferenças, as Olimpíadas pretendem convocar alunos para
um exercício de investigação solidária, num clima que pretende ser não de
competição, mas de colaboração e de estímulo para o pensamento. A idéia é de
que a partir da proposta, processos filosóficos criativos sejam construídos através
da interlocução, interação e participação autônoma dos ‘jogadores’. Com a
obrigatoriedade da Filosofia no Ensino Médio no Brasil, as Olimpíadas podem se
constituir em um pólo agregador de interesses de alunos e professores,
fortalecendo e contribuindo com os objetivos pelos quais o Ministério de
Educação introduziu a Filosofia no Ensino Médio.
A Olimpíada de Filosofia do RS é um evento educacional incentivado e
assessorado pela Associação de Cursos de Filosofia do Sul do Brasil (Fórum Sul
de Filosofia) e pelos Cursos de Filosofia do RS.
A iniciativa propõe a realização de atividades didáticas de Filosofia,
desenvolvidas nas escolas de Ensino Infantil, Fundamental e Médio do Rio
Grande do Sul, versando sobre um tema geral. É sugerido que os estudantes
participem de atividades de diálogo em forma de Comunidade de Investigação ou
outro processo que promova a solidariedade investigativa, assim como de
atividades de produção textual e de apresentação de trabalhos artístico-filosóficos
durante todas as etapas das Atividades Olímpicas.

Objetivos

• Subsidiar uma efetiva contribuição da Filosofia à formação dos


participantes;
• Fomentar o espírito crítico e dialógico entre os estudantes;
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 37

• Desenvolver nos jovens cidadãos o aprimoramento das habilidades de ler


e escrever textos filosóficos, bem como de realizar diálogo filosófico em
solidariedade investigativa;
• Promover a interface entre a Filosofia e outras áreas do conhecimento;
• Promover a integração entre as escolas, os estudantes e os professores
participantes.

Descrição do Processo de Inovação Desenvolvida e Resultados Obtidos

Atividades

Foram realizadas, nas Instituições de Ensino Infantil, Fundamental e Médio


do Estado do Rio Grande do Sul devidamente inscritas, atividades curriculares e
extracurriculares, protagonizadas pelos estudantes e seus professores, sobre a
temática da Olimpíada. Incluem-se aí atividades de diálogo em forma de
Comunidade de Investigação (ou outros processos que promovam a
solidariedade investigativa), bem como oficinas, teatro, poesia, desenhos,
exposições e outras atividades pedagógicas e artístico-filosóficas. Desde o início
foi proposto que as ações relativas às Atividades Pré-Olímpicas da I Olimpíada
de Filosofia do Rio Grande do Sul, tanto do ponto de vista da organização como
dos métodos, fossem autônomas e que realizassem um intercâmbio de
experiências.
As Atividades Pré-Olímpicas foram realizadas entre maio e setembro de
2008, em caráter experimental. Durante este processo as escolas e professores
participantes realizaram a seleção dos trabalhos artístico-filosóficos a serem
apresentados e dos estudantes a serem inscritos nos Encontros Regionais da I
Olimpíada de Filosofia do RS, realizados em novembro de 2008. Tais alunos e
professores participaram do Encontro Estadual, realizado no prédio 5 do Campus
Central da PUCRS.
Foram selecionados três estudantes por turma nas quais as Atividades
Pré-Olímpicas tenham sido realizadas para a participação na modalidade
Debates e produção textual.
38 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Também foi selecionado um trabalho artístico-filosófico por turma onde


as Atividades Pré-Olímpicas tenham sido realizadas para a participação na
modalidade Apresentação de obra artístico-filosófica.

Atividades Olímpicas – Encontro Regional e Encontro Estadual

Os Encontros Regionais(opcionais) reuniram os estudantes selecionados


pelas escolas inscritas e que participaram das Atividades Pré-Olímpicas
realizadas em todo o Estado.
Do Encontro Estadual da I Olimpíada de Filosofia do RS participaram os
trabalhos e estudantes selecionados nos Encontros Regionais.
As modalidades das atividades realizadas nos Encontros Regionais e no
Encontro Estadual são as mesmas propostas para a etapa Pré-Olímpica.
As atividades foram realizadas com base no Tema Geral proposto para a I
Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul: “É possível uma sociedade justa?”.

Figura 01 – Abertura do evento. Esquerda para direita: Prof. Me. Adão Clóvis dos
Santos(PUCRS), Prof. Dr. Draiton Gonzaga de Souza(PUCRS), alunos participantes(ao centro);
Prof. Dr. Sérgio Augusto Sardi(PUCRS).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 39

Figura 02 – Apresentação artística sob a forma de peça de teatro, feita pelos alunos do Colégio
Kennedy.

Modalidades

As modalidades de inscrição para apresentação de trabalhos consistiram


nas seguintes:
• Debates e produção textual: 1. Realização, durante o evento, de
diálogo filosófico em forma de Comunidade de Investigação (ou outros
processos que promovam a solidariedade investigativa), com base no
tema geral da Olimpíada. 2. Produção de texto individual, pelos
estudantes, com base na ação precedente e sobre o tema geral da
Olimpíada, no decorrer das Atividades Olímpicas. A Comissão
Organizadora poderá avaliar a necessidade de propor textos base para o
debate e a produção textual, respeitando os níveis estabelecidos no item
2.
• Apresentação de obra artístico-filosófica: Apresentação, durante o
evento, de peças teatrais, poesia, desenhos, vídeos, exposições, música,
dentre outras formas de expressão artística. Os trabalhos apresentados
devem incidir sobre o tema geral da Olimpíada e poderão ser objeto de
diálogo filosófico em forma de Comunidade de Investigação pelos
participantes e público presente em cada atividade.
40 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

As escolas foram responsáveis pela seleção dos estudantes que a


representaram na modalidade Debates e produção textual, bem como dos
trabalhos a apresentados na modalidade Apresentação de obra artístico-filosófica.
Os mesmos estudantes selecionados para representar as escolas puderam
participar das duas modalidades, ficando esta definição a critério das escolas. À
elas também foi possível se fazer representar por estudantes distintos para as
duas modalidades ou, ainda, optar por participar de apenas uma das modalidades
descritas acima.
As escolas inscritas ficaram responsáveis pela seleção dos professores
que acompanhar seus estudantes durante todo o processo das Atividades
Olímpicas.

Apoio Institucional e Interação Docente

Em apoio à realização e articulação das Atividades Pré-Olímpicas e das


Atividades Olímpicas, bem como em vista da promoção do intercâmbio de
experiências entre os professores de Ensino Infantil, Fundamental e Médio
inscritos na I olimpíada de Filosofia do RS foi previsto desde o início:
• Elaboração e manutenção de um site oficial da Olimpíada, construído
durante o segundo semestre de 2008, que continua ativo.
• Divulgação, no site, de relatos de atividades dos professores
participantes;
• Divulgação, no site, de referências bibliográficas, textos de apoio, por
parte da coordenação do evento;
• Realização, pelos cursos de Filosofia, dentro de plano a ser elaborado e
a partir das demandas de cada região, de conferências, seminários e/ou
oficinas para professores e estudantes, relacionados com o tema da
Olimpíada.
Foi solicitado aos professores, desde o princípio do processo, o envio de
materiais sobre atividades realizadas para divulgação no site da Olimpíada de
Filosofia do RS com a finalidade de realização de intercâmbio de experiências
entre os docentes. Estes materiais foram enviados por meio eletrônico para
contato@olimpiadadefilosofia.org. Informações sobre conferências, seminários e
oficinas oferecidas pelas Instituições de Ensino Superior, relacionadas com a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 41

Olimpíada de Filosofia do RS, foram enviadas por meio eletrônico para as escolas
inscritas no evento.

Figura 03 – Atividades de diálogo em grupo, realizadas em torno do tema, sob a forma de


pergunta provocativa: “É possível uma sociedade justa?”.

Critérios e Sistema de Avaliação

A seleção dos trabalhos para representação das escolas nas Atividades


Olímpicas(Encontro Regional) da I Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul
(2009) foi realizada pelos professores das escolas participantes durante as
Atividades Pré-Olímpicas.
Para a seleção dos trabalhos nas escolas foi sugerida a seguinte estrutura
de avaliação, a qual coincidiu com a estrutura de avaliação a ser praticada na
Atividades Olímpicas da I Olimpíada de Filosofia do RS:
• Quanto à modalidade 1 – Debates e produção textual – foram
avaliados: a pertinência do desenvolvimento do tema em relação ao tema
central da Olimpíada; a coerência interna do discurso, não só do
42 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

individual, mas também do que circula e se constrói no seio do grupo; a


capacidade de síntese, de análise, de dar exemplos, de relacionar e
comparar; a criatividade; a construção e formulação de problemas e
conceitos filosóficos.
• Quanto à modalidade 2 – Apresentação de obra artístico-filosófica –
foram avaliados: a pertinência do desenvolvimento do tema em relação
ao problema central da Olimpíada, a potencialidade de cada obra
apresentada em estimular o debate coletivo em vista do seu conteúdo, na
medida em incida sobre a produção de conceitos e problemas filosóficos,
bem como sua criatividade estética na medida em que contribua para as
finalidades acima descritas.
No trabalho seletivo, em cada escola ou turma, sugeriu-se considerar as
seguintes perguntas orientadoras:
- Quais estudantes e/ou obra artístico-filosófica melhor representam o
grupo?
- Qual trabalho artístico-filosófico apresentado mais estimulou o trabalho
de investigação filosófica coletiva?
Evita-se, com isso, o aspecto de uma competição onde um seja o vencedor
e, outros, os perdedores, ressaltando a dimensão de representação do trabalho e
dos estudantes escolhidos, sendo que, deste modo, estima-se que toda a turma
poderá se sentir incluída turma nesta seleção.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 43

Figura 04 – Acima: Atividades de produção textual, realizadas após os diálogos em grupo. Abaixo:
encerramento do evento.

Premiação

No evento das Atividades Olímpicas da I Olimpíada de Filosofia do RS, os


participantes foram premiados com medalhas e/ou livros de filosofia e com a
publicação de seus trabalhos no site oficial da Olimpíada:
1. Os estudantes selecionados na modalidade Debates e produção
textual, tanto em função dos textos elaborados como de suas
participações nas atividades de diálogo em forma de Comunidade de
Investigação;
2. Os estudantes responsáveis pelos trabalhos selecionados na
modalidade Apresentação de obra artístico-filosófica.
A seleção dos estudantes e dos trabalhos apresentados durante as
Atividades Olímpicas em suas duas etapas – Encontros Regionais e Encontro
Estadual - foi realizada por Comissões Julgadoras compostas por professores
universitários, estudantes de Graduação e de Pós-graduação em Filosofia, bem
44 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

como professores de Filosofia do Ensino Médio, Infantil e Fundamental


designados pelas Instituições de Ensino Superior responsáveis pelos eventos.
Nas Atividades Olímpicas foi respeitada a divisão dos níveis estabelecidos
quanto ao público-alvo para todos os atos de premiação. O número de trabalhos
que serão selecionados pela Comissão Julgadora foi determinado pela Comissão
Organizadora da I Olimpíada de Filosofia antes da realização das Atividades
Olímpicas. Os estudantes premiados foram incentivados a participar da segunda
edição da Olimpíada, a ser realizada em 2009.

Considerações finais

Desde sua gênese até sua realização efetiva, a proposta da Olimpíada de


Filosofia calcou-se na convicção de que os questionamentos filosóficos, enquanto
comuns à todos os seres humanos, possuem um papel importante na formação
do espírito crítico. Dado este princípio, antes de fomentar a competição, a
Olimpíada de Filosofia pretende provocar os participantes a pensar, seja
individualmente, seja em conjunto, acerca das questões fundamentais que, de
forma direta ou indireta, concernem a todos enquanto humanos. Nesse sentido,
obteve-se êxito em tal empreitada, visto que a recepção por parte dos
participantes quanto à estrutura de organização das atividades, bem como sua
dinâmica foi a melhor possível. Inúmeros trabalhos foram publicados no site
www.olimpiadadefilosofia.org e estão disponíveis a todos aqueles interessados.
Relatos dos professores que coordenaram as atividades Pré-Olímpicas em suas
respectivas Instituições do Ensino, provenientes de todo o Estado do RS também
encontram-se disponíveis no site da Olimpíada. As preparações para a II
Olimpíada de Filosofia do RS, a ser realizada em 2009, já estão em andamento.
Seu tema será “A humanidade tem fome de quê? O que de fato precisamos para
viver...”.

Referências bibliográficas

BECKER, Marceli Andresa; BITTENCOURT, Juliano Mernak de; PARES, André;


SANTOS, Dayanne Ferreira dos; SARDI, Sérgio Augusto. Projeto da I Olimpíada
de Filosofia do RS, In http://olimpiadadefilosofia.org acesso em 22.05.2009.
MUITA PROSA E MUITO VERSO: IDOSOS E A LITERATURA

AMODEO, Maria Tereza; PhD; FALE - PUCRS


mtamodeo@pucrs.br

Resumo

A ação apresentada visa à promoção da autonomia, integração e


participação mais efetiva na sociedade de indivíduos idosos por meio de
encontros semanais organizados a partir da leitura e da análise de textos
literários, da narração de histórias/recitação de poemas e da produção de textos
em prosa e em verso. A partir da Teoria da Estética da Recepção e dos Estudos
Culturais, estimula-se a leitura da literatura como prazer estético e fonte de
reflexão sobre a vida e o mundo, com vistas a ampliar os horizontes de
expectativas das pessoas engajadas espontaneamente ao grupo. Os resultados
obtidos motivam os pesquisadores a investirem nesse caminho que, de forma
muito particular, associa ensino, pesquisa e extensão. Nos encontros gratuitos
oferecidos aos idosos, alunos da graduação em Letras acompanham a
intervenção teoricamente fundamentada da coordenadora e também participam
na orientação de atividades de leitura, análise e produção de textos. Realiza-se,
dessa forma, uma prática inovadora, que alia Teoria da Literatura a
conhecimentos acerca das condições biopsicossociais e indivíduos idosos,
revelando-se como fértil campo de pesquisa. Focaliza-se a inserção do idoso à
sociedade por meio de uma ação que busca resgatar a auto-estima, estimulando
a expressão oral e escrita, ampliando os referentes culturais e, assim, também as
capacidades cognitivas.

Palavras-chave: literatura, idosos, integração.

Os Novos Alunos da Letras

O homem nunca é velho enquanto estiver buscando alguma coisa.


Jean Rostand
46 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

A aproximação entre idosos e literatura implementada pela Faculdade de


Letras da PUCRS tem favorecido, continuadamente, o surgimento de novas
possibilidades de pesquisa e de integração social. A proposta, que investe nos
vínculos que os leitores podem estabelecer com o texto literário, tem respondido à
predisposição desse público para o novo - o que reiteradamente surpreende e
estimula os pesquisadores e estudantes envolvidos no processo.
Os vínculos possíveis de serem estabelecidos pelo ato da leitura da
literatura são tantos quantos permitir o grau de polissemia do texto. Assim,
diferentes leitores relacionam-se de formas diferentes com os textos, ao
acionarem seus referenciais linguísticos, culturais, cognitivos, afetivos, dentre
outros.
Nesse sentido, a ação configura-se como uma possibilidade ímpar de
promover um redimensionamento da existência desses indivíduos, que passam a
refletir sobre suas próprias experiências, a rever seus conflitos de ordem interna
por meio de projeções (inconscientes ou não) realizadas a partir da palavra
literária. Ampliam-se, assim, suas capacidades expressivas e também as
cognitivas.
O procedimento ganha importância na medida em que é dirigido a um
público cuja imagem é geralmente associada à ociosidade, à improdutividade,
exatamente por se encontrar fora do circuito de produção de capital ou de
serviços. No entanto, são pessoas que efetivamente realizaram atividades
importantes nos seus grupos sociais e/ou familiares e que vêm à universidade em
busca de novas perspectivas para as suas vidas - o que leva ao entendimento de
que ainda podem, se bem orientadas e estimuladas, atuar de forma competente
na sociedade, realizando ações ligadas ou, pelo menos, motivadas pelo trabalho
com a linguagem literária.
Nessa medida, promovem-se a leitura e a análise de textos escolhidos
segundo o critério temático (considerando-se os interesses demonstrados pelos
integrantes) e de qualidade estética, a narração de histórias/recitação de poemas
e a produção, tanto em prosa como em verso, de acordo com as preferências e
aptidões pessoais. Enfim, conforme o próprio título da ação sugere, nos encontros
com os idosos que se estendem por cerca de duas horas, ocorre “muita prosa”, o
que corresponde a análise, conversa, debate e discussão em torno das idéias e
imagens sugeridas pelos textos literários. E, ainda, nesses encontros, há “muito
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 47

verso”, no sentido da criação, o que equivale a dizer que a expressão oral e


escrita são também vitalizadas.
As abordagens dos textos literários são organizadas em termos de desafio
intelectual, sem, entretanto, estimular a competição, mas focalizadas na reflexão
e na expressão, através de atividades lúdicas de socialização, potencialmente
sistematizadas para canalizar o desejo de saber e aprender, sempre manifestado
pelas pessoas engajadas à proposta.

Cultivando Palavras

Uma simples e tímida participação em evento da universidade deu origem


às várias modalidades desenvolvidas em torno do Muita Prosa e Muito Verso e
que hoje, inclusive, se expande para além da FALE. Na Semana de Solidariedade
de 2001, o Grupo de Contadores de Histórias do CELIN - Centro de Referência
para o Desenvolvimento da Linguagem1, a convite da Universidade da Totalidade
da PUCRS, contou algumas histórias a um grupo de idosos. Associando a técnica
de narração desenvolvida junto a grupos de crianças a uma criteriosa seleção de
textos, tendo em vista o público em questão, estabeleceu-se uma conexão que
surpreendeu a equipe encarregada do evento e o grupo que implementou a ação
– professora e estudantes de Letras.
O procedimento estimulou o grupo a organizar, no ano seguinte, encontros
quinzenais que passaram a ser oferecidos a idosos da comunidade interessados
em ler, ouvir, analisar e produzir textos literários. As atividades do grupo
passaram a ser divulgadas na imprensa escrita local, numa iniciativa da Pró-
Reitoria de Assuntos Comunitários da PUCRS (PRAC), o que ampliou de forma
substancial o público.
Tendo em vista as características desse grupo que se formava
espontaneamente e evidenciava suas necessidades, expectativas e recepção às
propostas desenvolvidas, constatou-se que a aproximação entre literatura e
idosos estava potencialmente articulada para se orientar para uma investigação
acerca das condições biopsicossociais dos indivíduos dessa faixa etária.
Transformando-se, no ano seguinte, em projeto de pesquisa, com o apoio da Pró-
Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG), o MPMV passa a oferecer
48 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

encontros semanais planejados cuidadosamente a partir dos objetivos


estabelecidos.
Firma-se, assim, uma indissociável e frutífera relação entre pesquisa,
ensino e extensão. Através da ação da PRAC, que divulga o projeto dentro e fora
da PUCRS, desenvolve-se a pesquisa, que envolve alunos graduação e
professora/pesquisadora do curso de Letras. Os encontros com idosos em torno
da literatura, ao mesmo tempo em que estimulam a interação social desse
público, constituem-se em profícuo campo de pesquisa.
Sintonizado com as emergências da contemporaneidade, o Muita Prosa e
Muito Verso (MPMV) vem trilhando um caminho muito particular, dinâmico e
plural, transitando, inicialmente, por veredas que aliam práticas pedagógicas de
abordagem do texto literário - geralmente dirigidas a estudantes de Literatura - ao
conhecimento sobre o indivíduo idoso - área que, cada vez mais, se expande,
exigindo o estreitamento das relações com outros campos do saber.

Um Novo Caminho para as Letras

Sabe-se que os avanços da Medicina e de áreas afins provocam o


crescimento da população idosa mundial. Entretanto, o aumento da média de vida
atual deve corresponder à melhoria da qualidade dessa sobrevida; sob pena de
se considerar inútil tanto avanço nas pesquisas na área da saúde. Estimular, pois,
uma experiência cultural significativa, como a proposta pelo MPMV, efetivamente
permite que as pessoas revisitem suas próprias potencialidades, muitas vezes
pouco trabalhadas durante a vida dita produtiva. Muitas pessoas, inseridas na
automatização do mundo capitalista, nunca chegam a desenvolver suas
capacidades, seus talentos, por estarem envolvidas nas atividades cotidianas na
busca da própria sobrevivência e a da família.
Na Terceira Idade, na Melhor Idade, na Velhice - seja o termo que se
escolher para denominar a fase em que se encontram as pessoas já afastadas do
circuito de produção capitalista - surge a oportunidade de viver, de forma plena,
todos os desejos, anseios, gostos pessoais, muitas vezes sufocados pelas
anteriores imposições cotidianas. Contudo, nessa fase, muitas pessoas já
perderam o vínculo com a sociedade, pois seus amigos, por várias razões, já se
dispersaram, assim como alguns de seus familiares. Alijados de seus referentes,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 49

podem ficar também sem projetos de vida, o que, na maioria dos casos, acelera o
processo de envelhecimento2.
Impõe-se, portanto, o incentivo à organização de grupos que reúnam
pessoas dessa faixa etária, que tenham a oportunidade de refletir sobre a vida,
mas com a possibilidade de compartilhar suas experiências, encontrar novos
objetivos e construir novos projetos. É nesse sentido que o texto literário, como
promotor de sensações, análises, etc. pode contribuir para sensibilizar tais
pessoas a estabelecerem outros vínculos com seus pares. A literatura, dadas as
suas especificidades, é potencialmente promotora da liberdade, da criatividade e
da capacidade de refletir sobre a vida.
Procurando valorizar as características de cada indivíduo, as atividades
desenvolvidas no MPMV estimulam as trocas entres os participantes, assim como
com a equipe de trabalho constituída por graduandos da Faculdade de Letras,
sob a orientação da coordenadora. Estabelece-se, assim, um diálogo respeitoso
entre as gerações. A partir dos temas e imagens sugeridos pelos textos literários,
os idosos trazem suas experiências, reflexões, elucubrações e informações -
resultantes da vida profissional, acadêmica, familiar, etc. Os graduandos, por
outro lado, têm a oportunidade de compartilhar uma rica experiência docente,
que, naturalmente, alia teoria e prática – o que, definitivamente, qualifica a
formação dos futuros professores/pesquisadores, engajados a uma abordagem
humanista do conhecimento.
Segundo Jéssica Colvara Chacon, ex-bolsista do projeto,

a turma do MPMV é muito singular.São alunos sedentos por


literatura. Eles têm uma experiência de vida muito maior que a
minha. Tive de aprender a lidar com a diversidade das suas
contribuições e, ao mesmo tempo, dar conta do planejamento. Foi
ali que aprendi a dar aula - uma aula realmente planejada com
base teórica. Este tipo de qualidade de aula ficou sendo o meu
padrão, o meu modelo. 3

Aprendem os idosos, aprendem também os futuros professores. Assim,


conforme recomendam especialistas das áreas da Gerontologia e da Geriatria,
ações semelhantes às desenvolvidas no MPMV, promovem um verdadeiro
convívio com o mundo real, em que pessoas de diferentes idades podem conviver
e interagir, anulando o prejuízo decorrente da segregação dos idosos em grupos
específicos - tal com ocorre em asilos com modelos tradicionais. O caminho
50 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

percorrido em termos de procedimentos e estratégias eleitas e os resultados


obtidos até o presente momento devem ser recuperados no sentido de oferecer
um panorama da proposta da FALE.

Leitores em Interação

A obra literária é um evento linguístico que projeta o mundo


ficcional que inclui falantes, atores, acontecimentos e um público
implícito (um público que toma forma através das decisões da
obra sobre o que deve ser explicado e o que se supõe que o
público saiba). (...) A ficcionalidade da literatura separa a
linguagem de outros contextos nos quais ela poderia ser usada e
deixa a relação da obra com o mundo aberta à interpretação.4

A literatura efetivamente nos leva para outras paragens e nos faz voltar e
pensar no nosso lugar no mundo. É o trabalho artístico com a linguagem que
move o leitor para esse “mundo de papel” e, ao mesmo tempo, para o seu próprio
mundo interior. A literatura constrói universos ficcionais autônomos de forte
sentido imaginativo e apelo estético, captando o leitor para outras realidades que
representam simbolicamente o mundo em que está inserido.
A partir dessa premissa, organizam-se as atividades de aproximação entre
idosos e a literatura em torno de três modalidades, descritas a seguir, que são
desenvolvidas em grupos separados ou oferecidas a todos simultaneamente. A
opção por um ou outro caminho depende sempre das preferências do grupo.

1. Leituras Orientadas de Crônicas, Contos, Poemas, Novelas e Romances

O objetivo desta abordagem é ampliar as possibilidades de leitura e de


reflexão do texto literário, através da análise dos efeitos provocados pelo
tratamento artístico da linguagem, ao mesmo tempo promovendo uma leitura da
realidade, marcada por um olhar desautomatizado, que surge do estranhamento
provocado pelo próprio texto literário, estimulando os leitores a se posicionarem
criticamente diante da realidade textual e extra-textual. Dessa forma, em torno
dos textos cuidadosamente selecionados, são propostas atividades de análise
com vistas à compreensão dos elementos constitutivos das narrativas literárias ou
dos poemas, à interpretação e à leitura crítica.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 51

2. Capacitação de Contadores de Histórias

Com o objetivo de estimular a integração de idosos na comunidade, a


modalidade se organiza no sentido de capacitá-los para se tornarem contadores
de histórias. São oferecidas aos integrantes do grupo todas as etapas da
capacitação tradicionalmente realizada no CELIN para professores e outros
interessados na formação de leitores. O procedimento constitui-se numa
possibilidade concreta de interação social para os idosos, que passam a ter a
opção de contar histórias em escolas, instituições de saúde ou beneficentes,
associações comunitárias e na própria família. Ao recuperarem aquela
experiência primordial que acompanha o homem de todos os tempos, ao
reviverem aquele impulso atávico de inventar, contar e conhecer histórias,
estabelecem laços afetivos com os outros – familiares ou não.

3. Produção de Textos

O interesse em escrever contos e poemas é compartilhado por um número


muito expressivo de participantes do grupo. Estes efetivamente têm aspirações
mais ousadas: querem ser escritores. Alguns inclusive têm contos e poemas
publicados em antologias. Nesse sentido, propostas de produção de textos são
apresentadas a partir da análise de textos literários. Estimula-se a criação por
meio da expressão individual e da utilização dos recursos da linguagem literária,
trabalhados de forma sistemática através da análise dos textos e de exercícios.
Os textos produzidos pelos integrantes são socializados com o grande grupo.

Resultados Sempre Parciais

A partir dos dados coletados junto ao grupo pelos estudantes de Letras,


que registram as suas observações durante as sessões semanais, pelas
manifestações espontâneas e pelas avaliações individuais dos integrantes,
propostas sistematicamente pela equipe responsável pelo projeto, é possível
afirmar que os idosos vinculados ao programa:
a) mostram disposição para aprender e valorizam o aprendizado;
b) sentem, em relação às atividades propostas, vontade de participar,
incentivados pela busca de respostas às questões propostas;
52 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

c) esforçam-se para apresentarem um bom desempenho;


d) admitem, durante as atividades, que apresentam dificuldades como
falta de memória e/ou conhecimento;
e) consideram que são estimulados a vencer as dificuldades;
f) valorizam a troca de experiências entre as coordenadoras e a equipe e
os participantes;
g) valorizam o que aprendem por meio da intervenção dos próprios
colegas;
h) demonstram que aprendem novos conceitos e fazem novas
associações;
i) passam a ler mais fora do âmbito da PUCRS;
j) passam a escrever mais;
k) envolvem-se em atividades culturais com maior frequência.
Assim, percebe-se que a possibilidade inerente à literatura de provocar
sensações e reflexões, desacomodar, repensar, questionar assume contornos
muito específicos, sendo o interlocutor o indivíduo idoso que busca novas
alternativas para a sua vida.
As reflexões que se estabelecem em torno dos textos literários evidenciam
que os idosos vinculados ao grupo efetivamente revisitam suas próprias
experiências, recuperam lembranças, associam fatos, põem em dúvida crenças e
verdades que trazem desde a infância e a adolescência, enfim reavaliam sua
função na sociedade. O olhar sensível, inquisidor e crítico da literatura os motiva
a ampliarem os seus horizontes de expectativas, por meio da reflexão, da criação
e da ação efetiva no mundo real.
Alguns dos idosos vinculados ao grupo têm efetivamente atuado como
contadores de histórias em centros comunitários, creches ou outras instituições
(inclusive no Hospital São Lucas, nos setores de Pediatria e Oncologia). A
produção de textos realizada durante as sessões os estimula a participarem de
concursos literários e de coletâneas publicadas de forma independente. A
qualidade literária dos textos de alguns participantes motivou a coordenação do
projeto a organizar uma publicação a ser ultimada ainda em 2009.
A adesão contínua de novos integrantes, já que a proposta se caracteriza
por essa abertura (que surgem por convite de amigos/parentes, por terem sido
informados pela imprensa, ou convidados pela coordenação), e a frequência
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 53

expressiva de um grupo fiel, que participa desde os primeiros encontros,


evidenciam que o trabalho desenvolvido realmente tem atendido às expectativas
de uma parcela da sociedade que, fora do mercado de trabalho, ainda possui
potencialidades para reflexão e ação - o que é corroborado pelos integrantes do
grupo, que, reiteradamente manifestam seu contentamento por se sentirem
valorizados e respeitados como indivíduos.

Uma Nova Parceria

O caminho percorrido tem assumido, efetivamente, diferentes formatos,


que surgem conforme os resultados obtidos. O Projeto Muita Prosa e Muito
Verso apresenta dados coletados a partir de atitudes, respostas, ações,
manifestações e produções de textos orais e escritos. Entretanto, processos
internos dos indivíduos, que ocorrem a partir da leitura da literatura, em termos de
processamentos cognitivos, não podem ser avaliados no campo das Letras.
Portanto, abrindo um outro flanco de pesquisa, a FALE se associa à Faculdade
de Psicologia, num novo projeto interdisciplinar, também apoiado pela PRPPG
(EDITAL PRAIAS) 5.
Por intermédio da parceria firmada com a FAPSI6, os subsídios teóricos e
os procedimentos metodológicos da Psicologia Cognitiva e da Neuropsicologia
foram eleitos para examinar a forma como indivíduos idosos processam funções
neuropsicológicas comunicativas e cognitivas antes e após sua participação em
um programa cultural com base na literatura, no contexto da contemporaneidade.
O mundo atual, marcado por tantas idiossincrasias, apresenta-se como um
desafio para os indivíduos, especialmente aqueles que não acompanharam o
advento da tecnologia da informação, que rompe com os conceitos tradicionais
em todos os campos. Para os idosos, compreender esse processo constitui-se
uma dificuldade e, ao mesmo tempo, um desafio.
A promoção de programas de intervenção cultural envolvendo a população
idosa configura-se como uma necessidade nos dias de hoje, frente o rápido
crescimento da população de idosos em todo o mundo, incluindo o Brasil, onde os
prognósticos estimam para 2050, um aumento de 18% da população idosa, muito
longe dos 5% do ano 20007 - o que pode provocar transtornos neuropsicológicos
importantes, que devem ser prevenidos.
54 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Nesse sentido, o projeto busca avaliar a forma como especificamente os


idosos reagem a estímulos culturais, verificando como processam a informação e
como adquirem conhecimento num contexto tão controverso, plural, rico e
multifacetado como o atual. A partir dos dados obtidos em relação à aproximação
entre idosos e literatura já descrita, o espaço dessa modalidade artística deve ser
analisado no que se refere ao contexto contemporâneo, que a coloca em
constante interação com outras áreas e modalidades culturais, influenciando-a e
definindo novos padrões estéticos.
A pesquisa em desenvolvimento na FALE associa um rico, variado e
atualizado programa cultural, com base na literatura, oferecido ao novo grupo de
idosos, sendo subsidiada pela análise comparativa pré e pós-intervenção,
norteada por um processo de avaliação neuropsicológica.

Uma História sem Fim

A nova pesquisa reúne grupos de idosos selecionados especialmente para


esta investigação, seguindo critérios bem definidos de inclusão para garantir o
seu caráter científico. O programa cultural oferecido, de uma forma análoga,
reedita a ação desenvolvida com o grupo original do MPMV, utilizando-se dos
equipamentos e materiais agora disponíveis. A literatura, entretanto, define os
rumos da ação.

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando


estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais
próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer
compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela
seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma;
porém, revelação de mundo, ela pode também, em seu percurso,
nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. 8

As novas iniciativas que surgem na esteira do Muita Prosa e Muito Verso


vêm confirmar a força da palavra literária exatamente como revelação,
especialmente para os integrantes do grupo original que continuam,
invariavelmente, se encontrando nas tardes de quartas-feiras nas dependências
da FALE, aceitando, sempre, novos adeptos. Circulando entre os jovens
estudantes de Letras, lendo os textos que eles lêem e tendo “aulas” como eles,
estes senhores e senhoras sentem que a vida vale a pena. Integrados à
comunidade acadêmica, estimulados pela potencialidade da arte literária, não
sabem que, mais do que serem acolhidos pela PUCRS, estão contribuindo para
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 55

uma pesquisa que diz respeito a todos nós – crianças, jovens, adultos – os idosos
do século XXI.

Notas

1 O Centro de Referência para o Desenvolvimento da Linguagem tem por objetivo


levar as pesquisas desenvolvidas na Universidade em torno da linguagem e da
literatura para além dos limites da academia.
2 CANÔAS, Cilene Swain. A condição humana do velho. São Paulo: Cortez,
1983.
3 Jessica vinculou-se ao MPMV como bolsista, do já projeto de pesquisa. Hoje é
professora da rede pública de ensino do município de Guaíba, RS. Este
depoimento foi dado ao ser questionada pela coordenadora sobre a relação entre
a sua experiência como bolsista do projeto e a sua atuação profissional.
4 CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999.
5 Potencializando Habilidades Neuropsicológicas de Indivíduos Idosos: a
intervenção da literatura em programa cultural sintonizado com a
contemporaneidade.
6 A partir da orientação da professora Dr. Rochele Paz Fonseca.
7 BGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeção da população,
Expectativa de vida 2004. Disponível
em:<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/30082004projecaopopulac
aoshtm>. Acesso em: 08 nov. 2007
8 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
p.76

Referências

CANÔAS, Cilene Swain. A condição humana do velho. São Paulo: Cortez, 1983.
CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999.
BGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeção da população,
Expectativa de vida 2004.
Disponível
em:<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/30082004projecaopopulac
aoshtm>. Acesso em: 08 nov. 2007.
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
INTERVENÇÃO NA COMUNIDADE POR MEIO DOS CONTOS DE FADAS

Marques, Nadia Maria; Ms, Faculdade de Psicologia – PUCRS


nmarques@pucrs.br
Carrasco, Leanira; Dra, Faculdade de Psicologia
carrasco@pucrs.br
Macedo, Mônica Kother; Dra; Faculdade de Psicologia – PUCRS
monicakm@pucrs.br

Resumo

A prática de interação com a sociedade, desenvolvida pela clínica-escola


da Faculdade de Psicologia, o Serviço de Atendimento e Pesquisa em Psicologia
(SAPP) ocorre desde 1994, consistindo em uma intervenção clínica junto a
crianças em situação de vulnerabilidade social, que freqüentam em turno integral
uma creche da comunidade de Porto Alegre. Este trabalho de prevenção primária,
baseado no referencial psicanalítico, objetiva favorecer o desenvolvimento
psicológico, cognitivo e social da referida população infantil de forma saudável.
Como instrumentos mediadores são utilizados os Contos de Fadas, visando
desenvolver a capacidade simbólica das crianças, incentivando a atividade lúdica
como forma de expressão da criatividade, da espontaneidade, da elaboração de
experiências traumáticas, da socialização e da aprendizagem. A possibilidade de
criar um mundo de ilusão saudável contribui para a organização da
personalidade, para o desenvolvimento da linguagem e para a construção de uma
imagem valorizada de si mesmo, promovendo recursos mais eficazes de
enfrentamento das adversidades da vida e incrementando a capacidade de
resiliência. Com esta prática abre-se a possibilidade de considerar o contexto
social como constitutivo do sujeito assim como se oportuniza o contato dos
estagiários com a realidade social brasileira.

Palavras-chave: intervenção psicológica, infância, contos de fadas.


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 57

Contando nossa História

O SAPP, clínica-escola da Faculdade de Psicologia, busca viabilizar aos


estudantes de graduação em Psicologia, um campo de experiências que lhes
ofereça condições de aprimoramento e qualificação em sua formação. Neste
sentido, a clínica-escola é um lugar privilegiado para a continuidade do processo
de ensino e aprendizagem no contexto universitário. A atividade de intervenção
com os Contos de Fadas realizada na comunidade se constitui em uma
ampliação do campo de estágio e também de promoção do contato dos alunos
com as condições socioeconômicas da população. Por meio desta intervenção o
estagiário é inserido na comunidade demonstrando a amplitude do fazer em
Psicologia.
Iniciamos nosso trabalho, em 1994, realizando uma avaliação das
necessidades e características da população de uma creche da comunidade a fim
de definirmos os marcos norteadores de nosso fazer. Tendo como base esse
estudo inicial, elaboramos um projeto que contemplasse a demanda advinda das
diversas faixas etárias das crianças.
Essas crianças, residentes em uma vila da periferia de Porto Alegre,
possuem um padrão sócio-econômico bastante precário que as coloca em uma
situação de vulnerabilidade social. Observamos que esta realidade menos
favorecida, determinada por um estado de múltiplas carências, dificultava o
estabelecimento de uma relação estável e produtiva entre as crianças, entre elas
e suas educadoras, refletindo-se, também, na relação com nossa equipe da
Psicologia. Identificamos famílias sobrecarregadas na luta pela sobrevivência
diária, assim como cuidadores que, por suas próprias faltas e traumas, nem
sempre estavam suficientemente disponíveis para facilitar o desenvolvimento
físico e emocional saudável de seus filhos. Como afirma Albornoz (2006), a
comunicação limitada e o apoio restrito, características típicas de populações de
risco, dificultam o entendimento e a apropriada expressão das experiências
emocionais. A criança não consegue conhecer e lidar com suas intensas
emoções, aparecendo seqüelas no desenvolvimento da cognição, da linguagem e
dos aspectos sócio emocionais.
Um bebê não existe sozinho e um início de vida mal vivido prejudica o
futuro de sua história, lembra Gutfreind (2005). Reforçando esta proposição
58 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Albornoz (2006), por meio de sua pesquisa com crianças negligenciadas e


abandonadas, verificou que a falta destes cuidados determina privações que
deixarão marcas na construção da subjetividade de cada sujeito e que se
refletirão na sociedade. O não-aprender, decorrente desta situação, pode
significar que a criança evita pensar para não conhecer conteúdos dolorosos e
insuportáveis relacionados a sua história de vida. As crianças que não podem
pensar sobre sua história encontrarão impedimentos e conflitos em investigar as
verdades da vida que poderão causar rupturas no processo histórico e tornar a
vida sem sentido. Esta situação tende a dificultar a adaptação pessoal, escolar,
institucional, social e familiar dessa população infantil, determinando vivências de
rejeição e exclusão.
Frente a estas constatações, passamos a nos perguntar: como as crianças
da Creche em questão, pertencentes a uma população de risco, poderiam
sonhar? Como reconstruiriam as histórias não contadas em suas brincadeiras?
Como poderiam aprender sobre suas próprias vidas e se construírem como
sujeitos psicossociais?
As conseqüências desta realidade podem determinar situações como as
que constatamos na expressiva incidência de crianças que apresentavam
quadros psicossomáticos, depressões, estados de ansiedade e comportamentos
diruptivos. Verificamos que, em parte, estas manifestações associavam-se as
precárias possibilidades destas crianças de expressarem, através de meios de
comunicação mais eficazes, suas necessidades, sentimentos, desejos e
sofrimentos. Visualizamos, a partir desta avaliação inicial, riscos de ocorrerem as
chamadas síndromes do vazio nas quais predominam a pobreza da vida
imaginativa, o pensamento e o funcionamento concreto; transtornos no
estabelecimento de vínculos significativos; quadros de delinqüência e atuações
sexuais precoces. Estas manifestações podem inibir ou bloquear o
desenvolvimento emocional saudável e impedir o adequado ajuste do sujeito à
sociedade.
Nosso principal objetivo foi interagir com as crianças, das diversas faixas
etárias, oferecendo a elas um modelo de relação baseado no respeito, no afeto e
na continência. O trabalho foi centrado na possibilidade de auxiliar as crianças a
pensarem o impensável para que pudessem significar suas angústias,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 59

sentimentos e necessidades nomeando-os. Organizamos encontros semanais, de


uma hora de duração, com cada uma das turmas durante um ano letivo.
Os jogos, o brinquedo, os desenhos, a dramatização e, particularmente, os
contos de fadas têm sido utilizados como instrumentos mediadores através dos
quais as crianças podem fantasiar, criando um mundo de ilusão saudável.
Pensamos que desta maneira poderemos, também, contribuir para desenvolver a
capacidade de resiliência, favorecendo com que a criança, submetida a uma
realidade de risco, encontre esperanças e recursos mais satisfatórios para
enfrentar as dificuldades que surgirem em suas vidas.

Integração com a Faculdade de Psicologia

Entendemos que a Psicologia deve se fazer presente nas instituições que


tenham vínculo com a saúde, com a educação e com a comunidade. Atendendo a
este objetivo o SAPP, afinado com as diretrizes curriculares, oportuniza aos
estagiários de Psicologia Clínica realizar um trabalho supervisionado de
intervenção clínica na comunidade. Esta prática se integra à Faculdade de
Psicologia através de seu Departamento de Clínica que, representado pela
Coordenadora Professora Leanira Carrasco, vem, nos últimos dois anos,
organizando e estimulando a participação do corpo docente, discente e de
funcionários numa ação solidária que acontece na época do Natal. A partir da
indicação dos nomes das crianças e suas respectivas idades, cada professor,
aluno ou funcionário responsabiliza-se por uma ou mais dessas crianças
adquirindo um presente adequado com a mesma. Em prévia combinação com a
Creche, os estagiários do SAPP e os supervisores realizam a festa de Natal para
a entrega desses presentes. É o momento no qual se encerram as atividades dos
estagiários junto às crianças, proporcionando a todos os envolvidos um espaço
de confraternização. No ano de 2008, além dos presentes, nasceu a idéia de
organizar uma biblioteca infantil com o objetivo de incentivar as crianças a buscar
nos livros repostas, resoluções, sentidos, inspirações que façam pensar e
significar a realidade que elas enfrentam.
60 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Trabalhando com grupos de crianças pré-escolares

Um grupo se constitui em agente terapêutico, um meio ativo e econômico


no sentido de influir sobre seus participantes. Com a ajuda dos membros do
grupo e a dos coordenadores, a criança pode ter a oportunidade de se conhecer
melhor, perceber como são suas atitudes para com os outros, qual a origem de
seus conflitos e buscar saídas mais sadias para resolver os seus problemas,
assim como aqueles que emergem no grupo (Zimerman, 1997). A interação entre
os companheiros do grupo auxilia na aprendizagem e na internalização de limites
que os tornam mais autônomos e organizados. Gutfreind (2003) acrescenta a
idéia de um aparelho psíquico grupal que oferece a oportunidade da criança
empobrecida emocionalmente de utilizar recursos psíquicos que pertencem à
outra criança e ao grupo. Tomando estes pressupostos teórico-técnicos como
fundamentais para nossa prática clínica, os adaptamos a demanda e a realidade
de nossos grupos de crianças pertencentes as turmas do Maternal, Jardim A e
Jardim B.

O lugar dos contos de fadas no desenvolvimento infantil

Os contos de fadas por serem relatados de maneira breve e lúdica, são


acessíveis à criança e suas estruturas correspondem às necessidades infantis.
Em uma linguagem simples elas mostram questões e enigmas que a criança
vivencia, mas ainda não tem condições de verbalizar de forma consciente. Os
contos se apresentam como cenário para seus sonhos, aguçando a imaginação e
favorecendo o seu processo de simbolização, tão necessário a sua inserção em
um mundo cultural. Assim os contos “dão rosto aos desejos” de forma que a
criança possa vivenciá-los sem culpa e sem temor (FERRO, 1995).
Os contos, ao serem introduzidos com a expressão: era uma vez há muitos
e muitos anos atrás, permitem com que a criança se identifique com um dos
personagens, tendo a oportunidade de deparar-se com seus desejos e
necessidades mais secretas e explicitá-las de forma simbólica, através do
deslocamento para outro espaço e outro tempo longe de sua realidade. Então,
sentimentos como medo, raiva, inveja, alegrias e curiosidades a respeito da
sexualidade, entre outros, que já estão inscritos dentro da criança, encontram a
possibilidade de expressão distanciada do aqui-agora que pode ser vivida de
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 61

forma compartilhada com os personagens e com o grupo de iguais. Esta


experiência alivia as ansiedades e o sofrimento, contribuindo para a organização
mental.
O final feliz dos contos de fadas, ao contrário de transmitir uma visão irreal
do mundo e da vida, transmite a segurança de que existe a possibilidade da
criança resolver suas dificuldades e angústias de forma a amadurecer e se tornar
independente. Apresentados de forma simbólica os contos possibilitam uma
melhor assimilação dos conflitos da criança de acordo com o seu estágio de
desenvolvimento intelectual e emocional. Esse é o seu final feliz.
A preciosidade dos contos reside na sua “insaturabilidade”, isto é, na
possibilidade da criança preencher qualquer conto, em momentos diferentes de
seu estado emocional ou de seu crescimento, com significados diferentes. Esta
possibilidade explica, em parte, porque as crianças pedem para que um mesmo
conto seja narrado por diversas vezes.
Além dessas possibilidades, os contos de fadas se constituem em
relevante técnica pedagógica, porque transmitem uma linguagem simbólica
necessária para a inserção da criança em um mundo letrado, além de ativar a
memória, o vocabulário, a capacidade de abstração, a criatividade, a aquisição do
pensamento conceitual, a compreensão e assimilação da realidade, e o
alargamento de seu domínio lingüístico (RADINO, 2003).
Resta destacar que nos contos de fadas a presença afetiva e o olhar do
outro são indispensáveis para que estas situações tenham um sentido
transformador para a criança. A transmissão oral de um conto exige trabalho
artístico e artesanal, uma vez que cada fato precisa ser metabolizado pelo
contador para poder ser contado.

Conta outra vez.....

Tínhamos o desafio de trabalhar com grupos de quinze a vinte crianças


pré-escolares e, para isso, precisávamos criar um ambiente suficientemente
estruturado para que construíssemos o cenário necessário para a atividade de
ouvir e contar histórias. As educadoras da creche foram convidadas a estabelecer
uma parceria com nossa equipe, pois o convívio diário com as crianças favorecia
a formação de um vínculo de confiança com as mesmas o qual, além de ser
62 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

facilitador para a organização e estruturação do grupo, também dava suporte para


as reações desencadeadas pelos contos que pudessem permanecer presentes
ao longo da semana.
Em cada uma das salas, correspondentes aos níveis do Maternal, Jardim A
e do Jardim B, foi escolhido um local específico denominado o “cantinho do conto”
que pudesse ser investido simbolicamente. Este recanto era formado por cadeiras
dispostas de maneira a favorecer o contato visual de todas as crianças com o
contador, recriando o clima nutridor encontrado na relação mãe-bebê.
No primeiro momento, dedicado à conversa e a interação entre as
crianças, as estagiárias realizavam a chamadinha, nomeando cada uma das
crianças, como uma forma de demarcar as diferenças entre o espaço dos contos
e o espaço das demais atividades pedagógicas. Abria-se um tempo para que as
crianças pudessem se manifestar livremente através da palavra, contando
acontecimentos de sua vida diária, trazendo suas queixas ou falando de seus
desejos.
No segundo momento, após a acomodação das crianças em seus
respectivos lugares, seguia-se a narração do conto escolhido a partir de um
consenso estabelecido entre as estagiárias, as educadoras e as crianças. As
ansiedades, sentimentos, pensamentos e desejos mobilizados pela escuta dos
contos foram trabalhados na terceira etapa, logo após a sua narração, através de
meios lúdicos, como: desenhos, modelagens com argila, colagens, brincadeiras,
músicas, teatro de fantoches e dramatizações. Ao final de cada encontro, as
estagiárias, sempre buscando a participação e colaboração das crianças,
realizavam um fechamento da atividade comentando a respeito do que tinham
conhecido e aprendido do grupo naquele dia.
O desenrolar desta atividade ocorreu de forma diferenciada em cada
turma. A partir do conto escolhido, foram consideradas as singularidades de cada
grupo, suas necessidades nos encontros anteriores e as percepções dos
estagiários e das educadoras. Assim, cada trajetória tornou-se única e
imprevisível, pois ocorreu a partir da interação do movimento do grupo e dos
olhares e escutas daqueles com os quais seus participantes interagiam. A
flexibilidade do setting foi um fator importante, para que pudéssemos adequar o
trabalho às manifestações e aos diferentes movimentos das crianças que
emergiam a cada encontro.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 63

Na turma do Jardim A, por exemplo, constituída por crianças de três e


quatro anos, foi escolhido o conto do Pinóquio, próprio para tal faixa etária. A
escolha do conto foi feita a partir de uma sugestão da educadora, que se justificou
dizendo que as crianças estavam muito “mentirosas” e que, ao escutarem essa
história, talvez aprendessem que é “feio mentir”. Durante um semestre letivo,
respeitando o princípio da insaturabilidade, a história do Pinóquio foi contada em
quatorze encontros. Nesses encontros, buscamos respeitar o tempo de cada
criança para internalizar o conteúdo narrado e, assim, permitir a sua expressão
através do simbólico e da palavra. Observamos, através das nossas conversas
com as crianças, realizadas no primeiro tempo do encontro, que elas abordavam
assuntos pessoais, e que estes estavam relacionados com a história do Pinóquio.
Contaram que ganharam de seus pais mochilas, bicicletas e piscinas. Através da
educadora, verificamos que o que as crianças contavam não correspondia à
realidade de suas possibilidades. Mas será que podemos chamar isso de
mentira? Devemos relembrar que as crianças das quais estamos falando fazem
parte de uma população carente que, na maioria das vezes, não têm a
oportunidade de desejar e de sonhar. Cabe aqui comentar que o sonho, o desejo
e a idealização são componentes fundamentais no desenvolvimento normal do
ego. A criança necessita poder idealizar, a fim de aliviar suas ansiedades e
angústias. Nesse espaço, ela encontra uma zona de refúgio, onde se sente
segura para explicitar seus desejos e fantasias, sendo, assim, capaz de suportar
uma situação real que não pode modificar (ALVAREZ, 1994).
Constatamos, ao longo dos encontros, a expressão do processo de
identificação das crianças com o personagem Pinóquio. Da mesma maneira que
ele, elas buscavam lidar com sentimentos de perda e de falta, através de recursos
idealizados compensatórios. A mentira pode ser a marca entre a separação do
pensamento do adulto e a subjetividade da criança (Corso & Corso, 2006). O
nariz comprido do Pinóquio parece estar relacionado com um desejo que não se
realizou e que encontrou na mentira uma forma de expressão.
Sabemos que para uma criança de três anos, não existe distinção entre a
verdade, a mentira ou a fantasia. A mentira se apresenta no desenvolvimento
como uma expressão do mundo interno repleto de sonhos e fantasias. Porém,
Freud (1913/1976) não deixou de alertar que as mentiras se acham vinculadas às
forças motivadoras poderosas nas mentes das crianças e podem anunciar
64 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

disposições que levarão a dificuldades posteriores em suas vidas ou a futuros


padecimentos psíquicos.
É preciso entender que as supostas mentiras de caráter compensatório
que esses menores contavam encobriam as falhas e ausências ocorridas em seu
desenvolvimento. Esclarecemos às crianças que, assim como o Pinóquio, elas
também queriam coisas novas, introduzindo, desta maneira, o tema da mentira
em nossos encontros. Mostramos a elas que, muitas vezes, quando as coisas
não acontecem como as crianças querem, elas podem imaginar, sonhar e contar
da forma como gostariam que as mesmas se realizassem. Procuramos, então,
nomear os sentimentos e as angústias do grupo, propondo um movimento de
reflexão que auxiliasse seus membros a pensar sobre sentimentos e
necessidades.
A repetição desta história oportunizou aos membros do grupo compartilhar
entre si as sensações de falta, reforçando sua auto-imagem e seus mecanismos
de enfrentamento. As crianças mostravam-se muito atentas e concentradas na
narração e, com a evolução do trabalho, passaram a ter uma maior participação
na hora do conto. Os membros do grupo substituíram a posição de observadores
passivos por outra de maior participação, antecipando frases, imitando os gestos
do narrador e incluindo novos elementos ao conto.
No terceiro tempo utilizamos, num primeiro momento, recursos como o
desenho para que as crianças pudessem expressar o que sentiram e pensaram
durante a narração do conto. Os primeiros desenhos evidenciavam que o
conteúdo da história fora associado com temas relacionados a aniversários,
bolos, presentes e brinquedos. Pensamos que este conteúdo manifesto encobria
o desejo das crianças de construírem um espaço mágico, de ilusão onde
pudessem suprir suas carências, fortificando-se para crescerem. A dramatização
do conto surgiu como uma iniciativa das crianças que, mais criativas e
espontâneas, não queriam apenas dramatizar o conto do Pinóquio, mas também
mostrar seus talentos. A turma propôs apresentar um “show” de música e dança,
onde algumas canções eram conhecidas, outras inventadas e sempre
acompanhadas de coreografias. As crianças que participavam como platéia
permaneciam atentas ao trabalho dos colegas com exclamações como: “nosso
show é fantástico”.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 65

Constatou-se que, através do aspecto lúdico proporcionado por este conto


de fadas, os alunos do Jardim A desenvolveram a imaginação, a capacidade de
fantasiar, descobrindo que possuíam recursos próprios capazes de levá-los a
criarem a sua própria produção. Pensamos que os sentimentos iniciais de
desvalorização e de falta, expressos através das mentiras, deram lugar para
sentimentos de maior auto confiança e produtividade.

Considerações Finais

Acompanhamos e avaliamos o desenvolvimento e o aproveitamento do


trabalho realizado, com as diferentes turmas das crianças desta Creche, através
da observação da evolução dos grupos; dos desenhos; das dramatizações; da
capacidade de expressão verbal; do desenvolvimento da socialização; da
possibilidade de ouvir, olhar, prestar atenção, criar e fantasiar.
Nos primeiros encontros, nos deparamos com grupos regressivos e
desorganizados. Ansiosas as crianças falavam ao mesmo tempo, se queixavam
de dores físicas, se agrediam, não se centravam na tarefa, disputavam por
materiais e pela atenção dos estagiários. Os desenhos eram pobres e escuros. A
possibilidade de aproveitamento foi se revelando através da diminuição da
ansiedade e, consequentemente, comportamentos mais maduros surgiram. As
crianças, imersas nas histórias, enriqueciam o conteúdo das mesmas com novos
detalhes, antecipando falas e transportando elementos para suas experiências de
vida. Vimos que, de forma lúdica, podiam compartilhar com os personagens, com
os colegas e conosco algumas situação difíceis de seu cotidiano. Assim, as
crianças ampliavam sua capacidade de pensar sobre suas histórias de vida e
crescia a possibilidade de investigar as verdades de si mesmas, diminuindo os
riscos de rupturas no processo histórico que compromete a necessidade de
significar a própria existência. Observamos que as crianças necessitavam de
experiências que possibilitassem o aprimoramento de sua criatividade, e de
atividades que favorecessem a sensação de alegria e de liberdade de expressão.
As histórias criadas, a música, a dança e a encenação assumiram esse papel,
estimulando a vida imaginativa e a fantasia. Os desenhos tornaram-se mais
estruturados e coloridos. Desenvolveu-se, também, um censo de grupo mais
integrado, as crianças mostravam-se mais colaborativas entre si, demonstravam
maior tolerância à frustração e conseguiam compartilhar brinquedos e material
66 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

escolar. A possibilidade de expressão verbal tornou-se mais eficaz o que


contribuiu para o estabelecimento de uma comunicação mais efetiva entre os
membros do grupo.
Trabalhamos com crianças que possuem múltiplas carências e, por isso,
temos presente que não atingiremos de igual maneira a todas. Encontramos
crianças que por meio de suas distintas expressões revelam a dor de traumas
que se repetem e que necessitam de abordagens individuais, além das possíveis
no trabalho com o grupo. A elas dedicamos, em muitos momentos, atenção e
manejo específicos durante o trabalho com os contos. Incluímos, também, em
nosso programa a possibilidades destas crianças, mais prejudicadas em seu
desenvolvimento, serem encaminhadas para avaliação psicológica no SAPP,
onde se realiza uma intervenção terapêutica e posterior orientação de acordo com
suas singulares necessidades e as demandas de suas famílias.

Referências

ALBORNOZ, AC. Psicoterapia com crianças e adolescentes institucionalizados.


São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.
ALVAREZ,A. Companhia viva: psicoterapia psicanalítica com crianças autistas,
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FERRO, A. A técnica na psicanálise infantil. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

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LEWIS, M. Tratado de psiquiatria da infância e adolescência. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1995.
RADINO,G. Contos de fadas e realidade psíquica: a importância da fantasia no
desenvolvimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
ZIMERMAN,D.E.; OSÓRIO, L.C. Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1997.
“FORMAÇÃO DE JOVENS
E ADULTOS LEITORES NA COMUNIDADE DO MORRO DA CRUZ”

2008/2009
Projeto elaborado pelo Núcleo de Educação de Jovens e
Adultos/NEJA/FACED/PUCRS
neja@pucrs.br
Responsáveis pelo projeto:
Coordenação: Profª. Dr. Maria Conceição Pillon Christofoli
maria.christofoli@pucrs.br
Profª. Dr. Maria Inês Côrte Vitória
mvitoria@pucrs.br
Profª. MS.: Jussara Margareth de Paula Loch
jussara.margareth@pucrs.br

Resumo

O Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – NEJA - da Faculdade de


Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) é
fruto de um grupo de estudos da Universidade, constituído desde julho de 1997,
com a proposição de ser um ambiente de estudo, pesquisa, formação, discussão
e debates direcionados para a Educação de Jovens e Adultos. Nesse sentido, o
presente projeto se insere na necessidade e responsabilidade social assumida
pela Faculdade de Educação – PUCRS – em promover no cenário da Educação
Brasileira a qualificação na formação de professores e, em especial, a formação
de educadores e professores de EJA. Para tanto, se estabelece como objetivo
geral deste projeto: Fomentar uma cultura de leitura entre jovens e adultos na
comunidade do Morro da Cruz. Dessa forma, se pretende que alunos de EJA e
dos anos finais do Ensino Fundamental, atuem como mediadores de leitura, junto
às bibliotecas escolares do Morro da Cruz, transformando os espaços das
mesmas (em sua maioria, mal utilizadas), em bibliotecas escolares atuantes e
abertas à comunidade.

Palavras-chave: formação de leitores, bibliotecas populares, Educação de


Jovens e Adultos.
68 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Justificativa

A história do NEJA está vinculada aos movimentos de alfabetização: no


âmbito Federal, à Organização Não-Governamental AlfaSol 1 , parceria através da
qual já promovemos cursos de Formação de Alfabetizadores para
aproximadamente 1000 educadores-alfabetizadores, alcançando um total de
20000 jovens e adultos do interior, especialmente em comunidades rurais dos
seguintes estados brasileiros: Bahia, Rio Grande do Norte, Paraíba e Tocantins.
Nesses estados se evidenciam os mais altos índices de analfabetismo. Pela
mesma parceria (AlfaSol) atuamos, ainda na formação de educadores de jovens e
adultos, na África, em São Tomé e Príncipe. No âmbito municipal, atuamos junto
ao MOVA (Movimento de Alfabetização de Porto Alegre/RS), realizando cursos de
formação de educadores de jovens e adultos na cidade de Porto Alegre e região
metropolitana. Destaca-se que se manteve na PUCRS, ao longo de dez anos,
turma de Educação de Jovens e Adultos, em parceria da SMED/Porto Alegre com
o NEJA/FACED/PUCRS.
O presente projeto se insere na necessidade e responsabilidade social
assumida pela Faculdade de Educação – PUCRS – em promover no cenário da
Educação Brasileira a qualificação na formação de professores e, em especial,
com relação ao Núcleo de Educação de Jovens e Adultos em que atuamos, a
formação de educadores e professores de EJA. Ressalta-se que a questão da
expansão do atendimento na EJA, no Brasil contemporâneo, não envolve apenas
as pessoas que frequentaram a escola, mas as que não realizaram
aprendizagens suficientes para participar plenamente da cultura letrada do país,
utilizando os conhecimentos construídos em seu cotidiano. Superando-se a
questão dicotômica entre alfabetizado e não-alfabetizado, busca-se compreender
as habilidades de leitura e de escrita, que caracterizam o indivíduo capaz de
inserir-se de forma adequada no contexto social, respondendo adequadamente

1
Alfabetização Solidária (AlfaSol) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos e de
utilidade pública, que adota um modelo simples de alfabetização inicial, inovador e de baixo custo,
baseado no sistema de parcerias com os diversos setores da sociedade. A Organização trabalha
desde janeiro 1997 pela redução dos altos índices de analfabetismo no país (da ordem de 13,6 %
segundo o censo de 2000 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo
fortalecimento da oferta pública de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil.
www.alfasol.org.br
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 69

às competências exigidas profissionalmente. O acesso à língua materna, sua


apropriação, sua utilização, sua (re) significação são construtos sobre os quais
deveriam se assentar os direitos de todos os pertencentes de comunidades
usuárias da leitura e da escrita.
Além disso, a aprovação do FUNDEB (Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação Básica do Ministério da Educação do Brasil) no
ano de 2007, descortinou possibilidades de ampliação do atendimento a EJA,
pois pela primeira vez no país há garantia de financiamento para esse segmento
da população. Considerando também a existência de inúmeros Programas de
Alfabetização de Jovens e Adultos e a conseqüente demanda na continuidade de
Estudos de Jovens e Adultos não escolarizados, coloca-se como uma
necessidade fundamental a formação de educadores e professores para atuarem
de forma qualificada no Ensino Fundamental e Médio. Atualmente uma das ações
importantes desenvolvidas pelo NEJA/FACED/PUCRS, ocorre em convênio com
o ILEM, Instituto Leonardo Murialdo. O Instituto Leonardo Murialdo está presente
na comunidade do Morro da Cruz há 44 anos e atua no âmbito da assistência
social e educação de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias. São quatro
casas cobrindo a área de atendimento do bairro contemplando, além da Biblioteca
Ilê Ará, um Centro Infantil (que atende crianças de 0 a 6 anos), Centro Infanto-
Juvenil (atende crianças de 7 a 14 anos), Centro de Formação Profissional
(adolescentes a partir de 13 anos, jovens e adultos) e uma pré incubadora para
empreendimentos populares de geração de trabalho e renda. A propósito disso,
nos parece importante apresentar de que contexto estamos falando.
A comunidade do Morro da Cruz está situada no Bairro Partenon, Zona
Leste de Porto Alegre. Segundo dados coletados pelo Instituto Leonardo
Murialdo, o Partenon colabora hoje com 8,88% da população de Porto Alegre,
sendo a segunda região mais populosa da cidade, com cerca de 129.100
habitantes, dos quais 8,27% são jovens entre 15 e 19 anos. Há cerca de 36.252
chefes de família na região, com renda média de 4,45 salários mínimos, sendo
que 37,8% destes percebem renda de até dois salários mínimos por mês. Destes
36.252 chefes de família, cerca de 10.544, 29,8%, são mulheres, das quais 1.131,
ou seja, 10,73%, são analfabetas. O analfabetismo em Porto Alegre atinge 3,3%
da população, enquanto no bairro Partenon este índice sobe para 4,1%.
70 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Cabe ainda salientar que a FASC (Fundação de Assistência Social e


Cidadania), através do Programa Educação Social de Rua no Centro da Cidade,
abordou já seiscentos meninos e meninas em situação de rua. Segundo
levantamento realizado, o Partenon fica em 3º lugar na lista dos bairros com o
maior número de jovens em situação de rua na cidade. A grande maioria iniciou
sua vida nas ruas através da mendicância e do trabalho infantil na própria região.
Vários deixam a mendicância como segundo plano em favor do ingresso no
mundo das drogas e da prostituição. Em 1952, o Morro da Guampa, como era
chamado então, começou a ser ocupado, quando a área foi desapropriada para
fins de habitação. Durante um bom tempo, tal ocupação se deu muito
timidamente, de maneira a reproduzir os modos de vida e os modelos sociais de
comunidades rurais, de onde era oriunda a grande maioria dos primeiros
moradores. Outra parcela era formada por trabalhadores das docas, em sua
grande maioria afro-descendentes. A água era proveniente de fontes abundantes,
o que facilitava o plantio de milho, cana, batata doce, aipim e abóbora, além da
criação de porcos.
A partir de 1960, o Morro da Guampa passa a se chamar Morro da Cruz,
em função dos eventos religiosos da sexta-feira santa, quando as procissão que
começaram a subir o Morro com uma cruz todos os anos, deram à comunidade
essa identidade. Nos anos 70, o processo de ocupação do Morro da Cruz se
acelera. Fugindo do aluguel, muitas pessoas passam a ocupar áreas, construindo
pequenas casinhas de madeira. a fazer parte da rotina do Morro da Cruz, que
passam a exercer lideranças na comunidade. O Morro da Cruz é reconhecido em
toda a cidade por realizar, desde os anos sessenta, sempre às sextas-feiras
santas, a encenação da Paixão de Cristo, que mobiliza a comunidade e leva
centenas de pessoas para o Morro. Além disto, o Morro é também o berço de um
famoso grupo de senhoras que produz roupas que levam a marca do Morro da
Cruz, a partir da reciclagem de matérias têxteis.
Como conseqüência desta experiência de sucesso, inúmeros
investimentos em projetos alinhados com os preceitos da chamada “Economia
Solidária” vêm sendo levados a cabo na região, com resultados ora positivos, ora
nem tanto. Para fomentar estas iniciativas, o Instituto Leonardo Murialdo
transformou o galpão situado ao lado da creche, no topo do Morro, em uma
incubadora de projetos sociais. Dessa forma, a parceria entre NEJA/FACED e
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 71

ILEM se faz por meio de um trabalho de educação popular na comunidade do


Morro da Cruz, envolvendo desde alfabetização de jovens e adultos, assessoria
em projetos de educação e trabalho com jovens até a realização de cursos para
pessoas jovens e adultas, preparando-as para atuar como mediadores de leitura,
especialmente junto à Biblioteca Comunitária Ilê Ará.
Nesse sentido, através do Curso de Mediadores de Leitura percebeu-se a
necessidade de expandir para a comunidade do Morro da Cruz as ações
desenvolvidas pela Biblioteca Ilê Ará, quais sejam: contação de histórias;
empréstimo de livros; sacolas de leitura itinerante; sarau literário; visitas às casas,
escolas e associações comunitárias; levantamento de preferência de leitura;
rodas de leitura; círculos de cultura. A partir destas ações observou-se um
expressivo aumento nos empréstimos de livros (os primeiros registros dão conta
de aproximadamente 50 livros emprestados, enquanto que ao final do projeto
registraram-se uma média de 800 empréstimos mensais).
Há no Morro da Cruz 22 instituições escolares, mas lamentavelmente,
muitas das bibliotecas existentes nestas escolas atuam de forma restrita. Isso
significa que algumas estão fechadas, outras são utilizadas como depósito de
livro, outras ainda funcionam como laboratório de informática, raras são as que
funcionam à noite para as turmas de EJA e nenhuma é aberta para a
comunidade, além de contarem com acervo precário. Para . FREIRE( 1983, p..38)
a biblioteca popular,como centro cultural e não como depósito de livros,é vista
como fator fundamental para o aperfeiçoamento e a intensificação de uma forma
correta de ler o ler o texto em relação com o contexto.
O presente projeto pretende atuar junto às bibliotecas existentes nas
instituições escolares do Morro da Cruz no sentido de aproveitar as
ações/experiências desenvolvidas na Biblioteca Ilê Ará, expandido-as para as
demais bibliotecas da comunidade do Morro da Cruz. Com isso, o que se
pretende é que, além de cumprirem o seu papel dentro da escola, as bibliotecas
transformem-se também em espaços abertos à comunidade. Dessa forma, a
comunidade do Morro da Cruz será beneficiada com as ações das bibliotecas, o
que contribuirá expressivamente para a criação, formação e ampliação de uma
comunidade de leitura, fomentando uma cultura de leitura na comunidade do
Morro da Cruz, potencializando a ação das bibliotecas escolares e bibliotecas
comunitárias. Para tanto, iremos selecionar alunos de EJA, futuros mediadores de
72 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

leitura, para atuar junto às bibliotecas escolares do Morro da Cruz;


instrumentalizar jovens, adultos e idosos para atuar como “contadores de
histórias” junto a seus grupos de idade e junto às crianças e adolescentes;
incentivar os jovens, adultos e idosos a reiniciar ou continuar seus estudos a partir
do gosto pela leitura.

Pressupostos teóricos

A questão da expansão do atendimento na EJA, no Brasil


contemporâneo, não envolve apenas as pessoas que freqüentaram a escola,
mas as que não realizaram aprendizagens suficientes para participar
plenamente da cultura letrada do país, utilizando os conhecimentos
construídos em seu cotidiano. Já não se pode mais banalizar a questão da
leitura, contentando-se com alfabetizados funcionais, pois que o mero caráter
utilitário do ato de ler retira dos sujeitos a possibilidade de perceber na cultura
letrada formas de ser e estar no mundo. A expansão da alfabetização
possibilita, igualmente, a expansão das categorias de leitores: crianças,
mulheres, trabalhadores. Se, por um lado, a entrada na cultura escrita parece
ser democratizada, por outro, a imposição de normas escolares, que tendem a
definir um modelo único de leitura/leitor, convivem com práticas extremamente
diversas, próprias das práticas de cada grupo de leitores. As diferenças entre
as práticas de leitura acentuam-se, dependendo dos usos sociais que
determinados grupos fazem da escrita.
Os séculos XIX e XX trazem o acentuar-se dessas diferenças. Observa-
se, em países mais desenvolvidos, baixos índices de analfabetismo. A
repercussão dessa Revolução na história das práticas de leitura e escrita é
inegável, e só é superada por outra revolução nessas práticas: a transmissão
eletrônica dos textos e as maneiras de ler que ela impõe (Cavallo e Chartier,
1998). A distância que separava o autor/leitor é quebrada pela cibernética. Se
antes o leitor possuía pouco espaço para interagir na obra impressa (apenas
anotações nas margens do texto), hoje ele pode realizar várias operações:
copiar, recompor, recortar, deslocar. O leitor, junto à tela, torna-se também um
autor, ele pode modificar e reescrever os textos, torná-los seus. As
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 73

intervenções do leitor, que eram limitadas no livro, passam a ser expressivas.


E é inegável que esse recurso tecnológico irá influenciar as práticas escolares.
Outra questão importante que deve ser referida e trazida para ser
repensada, trata da formação dos leitores nas classes populares. De nada
adianta criarmos programas de alfabetização se não possibilitarmos que esses
sujeitos se tornem usuários da língua escrita,se não criarmos bibliotecas.
Freire(1983)ao falar das bibliotecas populares fala da importância de constituir um
acervo e em comunidades onde não há livros e outros materiais que se possa
criar um acervo registrando e escrevendo as histórias da comunidade.
Finalmente, e não menos importante, destacamos o fato de que o
referencial teórico por nós utilizado se sustenta fortemente nas questões de
escrita e leitura por acreditarmos na profunda relação existente entre ambas as
habilidades cognitivas. Assim, se já temos ações concretas referentes à
alfabetização no Morro da Cruz, nos parece que ações concretas referentes à
ampliação da leitura/escrita neste mesmo contexto poderia representar a
possibilidade de oferecer um trabalho pedagógico mais abrangente do ponto de
vista educativo, além de se configurar como um projeto com chances expressivas
de sustentabilidade. Por isso mesmo, acreditamos que os jovens e adultos teriam
a oportunidade de ler e ler melhor e, além disso, divulgar em seus grupos de
convivência, família, clubes, trabalho...a literatura, o gosto pelo estudo, além da
capacidade de organização e participação comunitária.

Ações previstas

O presente projeto se ampara nos princípios da pesquisa qualitativa,


adotando como diretriz metodológica a pesquisa-ação, que é uma pesquisa
eminentemente pedagógica, dentro da perspectiva de ser o exercício pedagógico,
configurado como uma ação que cientificisa a prática educativa, a partir de
princípios éticos que visualizam a contínua formação e emancipação de todos os
sujeitos da prática. Segundo Thiollent (2003)a pesquisa-ação é um tipo de
pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita
associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual
os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema
estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Muitos partidários
74 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

restringem a concepção e o uso da pesquisa-ação a uma orientação de ação


emancipatória e a grupos sociais que pertencem às classes populares ou
dominadas.
A pesquisa não se limita a uma forma de ação: pretende-se aumentar o
conhecimento dos pesquisadores e o conhecimento das pessoas e grupos
considerados. Dessa forma, as ações previstas para a realização do projeto são
as seguintes:
• Convidar escolas/bibilotecas para participar do projeto – a primeira ação
prevista para o projeto dá conta de visitas realizadas às
escolas/bibliotecas com o objetivo de sensibilizar/apresentar os
propósitos do projeto. Este primeiro momento nos parece fundamental
para que a inserção das escolas se dê de maneira consciente e
informada sobre os processos que se pretende desencadear não
apenas na escola, mas de uma maneira mais geral também na
comunidade.
• Identificar jovens e adultos, alunos de EJA e também jovens alunos dos
Anos Finais do Ensino Fundamental, que tenham disponibilidade em
algum turno: manhã, tarde ou noite, para atuar como mediadores –
após a identificação dos jovens e adultos interessados em participar e
que tenham disponibilidade em algum turno, serão feitas entrevistas
para que se possa conhecer um pouco mais o perfil destes jovens e
adultos. Com isso, se pretende detalhar as funções, atribuições e papel
destes sujeitos na composição do projeto, assim como observar os que
mais se aproximam das expectativas previstas para este projeto.
• Organizar grupos de estudo, em cada turno, com a finalidade de
instrumentalização para a ação – parte-se da idéia de que não há como
realizar pesquisa-ação sem uma rigorosa sistematização de estudos e
discussão. Por isso mesmo, os grupos de estudo se configuram como
suporte sobre o qual se sustentarão as ações, os (re)encaminhamentos,
o desenvolvimento do projeto propriamente dito. A cada final de sessão
de estudos, serão encaminhados os textos da próxima reunião, aliando
permanentemente a práxis desenvolvida com as teorias pertinentes às
ações empreendidas.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 75

• Levantamento do acervo já existente em cada instituição escolar


pertencente ao projeto – o acervo das bibliotecas deverá ser
contabilizado, registrado e analisado. Somente a partir destes
levantamentos se poderá prever/planejar as necessidades mais
urgentes das bibliotecas, organizando/estabelecendo as prioridades de
acervo para cada espaço.
• Ativação do acervo – estas ações fazem parte do processo de
qualificação dos acervos das bibliotecas e também do processo de
colocar em marcha as sacolas de livros itinerantes, que perpassarão as
casas da comunidade, provavelmente ficando em cada residência
aproximadamente uma semana. O controle das sacolas itinerantes será
feito por monitores do projeto, sob supervisão dos professores
envolvidos no projeto.
Espera-se dessa forma, colocar em movimento as ações previstas neste
projeto, como forma de implementar/expandir/solidicar as práticas de leitura da
comunidade em questão. O acompanhamento de tais ações será realizado
através de reuniões sistemáticas (de estudo e encaminhamentos de ordem geral);
de registro de observações; de entrevistas realizadas junto à população do Morro
da Cruz; de cursos de formação permanente; de cursos de capacitação aos
mediadores de leitura. Os índices de empréstimo de livros serão antes, ao longo e
ao final do projeto serão mensurados através dos princípios da pesquisa
quantitativa e submetidos a percentuais e estatísticas.

Ações consolidadas

A primeira etapa do presente projeto, “Formação de Jovens e Adultos


Leitores na Comunidade do Morro da Cruz”, tem trazido resultados bastante
significativos no sentido de qualificar a atuação dos educadores populares. Nesse
sentido, ressaltam-se aspectos ligados ao aprimoramento na escolha do acervo; à
qualificação da mediação pedagógica na hora do conto; à seleção de textos para
leitura; à forma de apresentar o texto para os leitores; à organização dos
empréstimos das sacolas de leitura itinerantes; à relação dos mediadores de
leitura com a comunidade. Assim sendo, o trabalho realizado na primeira etapa
nos levou a ampliar a ação para as demais bibliotecas escolares do Morro da
76 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Cruz, bibliotecas estas que, em algumas escolas, estão desativadas por falta de
recursos humanos. Pela atuação tão qualificada dos educadores populares é que
se pensou em aproveitar também os alunos dos Anos Finais e alunos de EJA
para participarem do Curso de Formação, na qualidade de mediadores de leitura,
e também acompanhá-los na tarefa de formar novos jovens e adultos leitores.

Referências

BARBIER, Barbier. A pesquisa-ação na instituição educativa. trad. Estela dos


Santos Abreu com a colaboração de Maria Wanda Maul de Andrade. – Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1985.

CHARTIER, Roger. Y CAVALLO, G. História da leitura no mundo ocidental. São


Paulo: Ática, 1998.

DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico. São Paulo: Cortez, 1999.

FERREIRO, Emília. O passado e o presente dos verbos ler e escrever. São


Paulo: Cortez, 2002.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez,1983.

GIARDINELLI, Mempo. Volver a leer. Buenos Aires: EDHASA, 2007.

SOARES, Magda. Letramento. Belo Horizonte: Autêntica,1998.

TFOUNI, Leda Verdiane. Adultos não Alfabetizados: Avesso do avesso. São


Paulo: Cortez,1988.

THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2003.


BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
SAÚDE E TRABALHO NO MERCOSUL: A EXPERIÊNCIA DO CENTRO
COLABORADOR E SUAS ESTRATÉGIAS

Jussara Maria Rosa Mendes


Assistente Social, Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, Faculdade de Serviço Social da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, mjussara@pucrs.br

Resumo: O presente artigo apresenta a experiência do Centro Colaborador em


Saúde do trabalhador no MERCOSUL - COLSAT, sediado no Núcleo de Estudos
e Pesquisa em Saúde e Trabalho (NEST), da Faculdade de Serviço
Social/PUCRS, o qual se constitui numa cooperação técnico-científica
desenvolvida entre a universidade e o Ministério da Saúde. Demonstra como vêm
se dando o processo de inovação de metodologias que articulam o tripé ensino,
pesquisa e extensão. Evidencia as estratégias realizadas para contribuir com a
efetivação do direito a saúde no âmbito dos países membros do MERCOSUL,
potencializada através de diferentes diretrizes e ações, com destaque para o
trabalho em rede que vem dinamizando e integrando competências.

Palavras-chave: Saúde do trabalhador, Centro Colaborador, Mercosul.

Introdução

Este artigo tem por finalidade apresentar a estratégia de fortalecimento de


uma rede interativa através do trabalho de cooperação técnico-científica em
Saúde do Trabalhador, efetivada pelo Centro Colaborador em Saúde do
Trabalhador no Contexto do Mercosul (COLSAT-Mercosul), criado em 2006, a
partir de uma parceria com o Ministério da Saúde do Brasil, e sediado no Núcleo
de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho (NEST), da Faculdade de Serviço
Social/PUCRS.
O COLSAT-Mercosul tem como foco o fortalecimento de uma gestão
compartilhada entre os órgãos de gestão pública, a fim de incrementar a política
de Saúde do Trabalhador. Têm como uma das suas principais estratégias a
constituição da Rede de Saúde do Trabalhador para o desenvolvimento da
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 79

informação, formação e ações de promoção à saúde da população trabalhadora


na região, além disso, está orientado por uma metodologia que visa como um dos
seus produtos o trabalho em rede e o espaço para a integração regional e
internacional, na perspectiva de incluir o direito à saúde na agenda política do
referido bloco

Objetivos

A implantação do COLSAT-Mercosul cumpre um papel estratégico de


fortalecimento da política de Saúde do Trabalhador no Contexto do Mercosul e a
sua implementação parte da apreensão desse contexto, das suas formas de
organização social e da identificação das assimetrias entre os Estados-membros.
Tem como objetivo geral estabelecer cooperação técnico-científica com a
Coordenação de Saúde do Trabalhador - COSAT - do Ministério da Saúde do
Brasil a fim de subsidiar ações em Saúde do Trabalhador no Contexto do
Mercosul. Esta cooperação ocorre por meio da articulação do tripé ensino,
pesquisa e extensão, e através de parcerias com instituições governamentais e
não-governamentais, de ensino e/ou ações voltadas para esta área.
Para efetivar esse papel, o COLSAT-Mercosul propõe-se a:
Estabelecer trabalho em rede e espaço sistemático para a integração
regional;
Desenvolver intercâmbio internacional por meio de Missões Regionais
nos Estados-membros do Mercosul: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai
e Venezuela;
Realizar diagnóstico situacional em cidades-gêmeas;
Estabelecer uma agenda de trabalho conjunta que contemple as
demandas oriundas da análise situacional, pós diagnóstico;
Promover e desenvolver estudos multicêntricos e interdisciplinares sobre
metodologias de intervenção no campo da Saúde do Trabalhador nos
Estados-membros do Mercosul;
Disseminar informações e conhecimentos técnico-científicos sobre Saúde
do Trabalhador no contexto do Mercosul;
80 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Realizar projetos e assessorar o desenvolvimento local de ações de


formação continuada de profissionais, gestores e movimentos sociais
responsáveis pelas ações de Saúde do Trabalhador;
Subsidiar a construção de políticas sociais que instrumentalizem uma
intervenção prática na situação de saúde e trabalho dos Estados-
membros do Mercosul (MENDES ET al., 2006).

O processo de inovação desenvolvida e resultados obtidos

A implementação do COLSAT-Mercosul representa o fortalecimento e a


ampliação das ações no campo da Saúde do Trabalhador centrado em cinco
diretrizes: 1) formação e pesquisa, 2) interdisciplinaridade, 3)
interinstitucionalidade, 4) trabalho em rede e 5) de gestão compartilhada
mediante cooperação entre poder público e a universidade para o cumprimento
dos respectivos papéis em prol do desenvolvimento social e da saúde do
trabalhador no contexto do Mercosul (MENDES et al, 2006).
Destaca-se que a diretriz referente ao trabalho em rede, a partir da
experiência do COLSAT-Mercosul, tem contribuído para a efetivação das demais
diretrizes, pois se tem como suposto a organização e a mobilização permanente
dessa rede. O centro colaborador 1 tem se constituído em importante estratégia
para o estudo e produção de conhecimento de uma determinada área, sendo,
portanto, uma instituição que é designada por órgão nacional ou internacional
para participar de uma rede colaborativa, realizando atividades de apoio aos
programas desse órgão e contribuindo para o aumento da cooperação técnica
com e entre países, fornecendo-lhes informações, serviços e consultoria, além de
estimular e apoiar processos de formação, pesquisa e produção de
conhecimentos (MENDES et all, 1993).

1
“Antes da criação da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Liga das Nações já tinha
vivenciado a experiência de trabalhar com laboratórios por ela designados como Centro de
Referência para padronização de produtos biológicos. Esta mesma filosofia foi aderida pela OMS,
que em 1947 designou seu primeiro centro de Referência, direcionado para a investigação
epidemiológica com abrangência mundial. Desde então, visualizou-se a necessidade de
aproveitamento dos recursos de instituições já reconhecidas, as quais poderiam vir a tornar-se
Centro de Referência da OMS, já que não cabia a este Organismo criar ou subsidiar instituições
de pesquisa internacional que atendessem aos objetivos de seus programas” (Mendes et all,
1993, p. 56).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 81

No caso dos Centros Colaboradores vinculados às universidades destaca-


se a sua capacidade científica e profissional, aliada à estrutura de apoio que as
instituições de ensino costumam possuir e, no caso do COLSAT-Mercosul, a sua
localização no estado do Rio Grande do Sul, portanto, na região de fronteira com
os países que compõem o bloco em questão, tornam favorável e oportuna a sua
constituição e possibilidade de êxito naquilo que se propõe a atuar.
O trabalho desenvolvido pelo centro colaborador tem como cenário o
Mercosul, cujo território apresenta um conjunto de assimetrias econômicas,
políticas, culturais e sociais, nela incluída os aspectos da Saúde do Trabalhador
que necessitam investimentos públicos e estudos que, ao considerar as
expressivas diferenças, possam estimular o desenvolvimento de forma mais
equânime no campo da formação, pesquisa e proteção ao meio ambiente do
trabalho.
Desta forma, a constituição do trabalho em rede, representa esta
perspectiva e como proposta metodológica impõe como desafio à interlocução
sistemática entre estas instituições a fim de criar condições para o
desenvolvimento de atividades de investigação e intervenção com diferentes
sujeitos favorecendo a sinergia necessária para garantir um papel contributivo na
defesa das políticas públicas e, em especial, dos direitos à saúde e ao trabalho.
Entende-se que o processo de construção desta rede exige reconhecer e
identificar os interesses, nesta área e buscar os pontos comuns entre os países,
definindo uma agenda que contemple as diversidades de cada Estado-nação.
No COLSAT-Mercosul, foram empreendidas várias estratégias que visam a
materialização dessa rede, com destaque para as seguintes:
a) Inclusão da temática da Saúde do Trabalhador no Mercosul, a partir de
uma Oficina Pré-Congresso da ABRASCO em julho de 2007 (MENDES et all,
2007) que culminou com a construção de uma agenda que aponta para a
necessidade de aprofundar o debate sobre o modelo de desenvolvimento social
presente no bloco, a consolidação da rede de Saúde do Trabalhador no Mercosul
e mais um conjunto de proposições voltadas ao desenvolvimento de ações para a
área nos países-membros;
b) Criação e manutenção permanente de um site (www.colsatmercosul.org)
que vem se constituindo como um importante espaço de disseminação da
informação acerca da saúde do trabalhador no âmbito do Mercosul.
82 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

c) Realização de um Simpósio sobre Saúde do Trabalhador e Proteção


Social em abril de 2008 (MENDES et all, 2008a) que teve como objetivo central
discutir a proteção social da saúde dos trabalhadores no âmbito do Mercosul com
a finalidade de potencializar os estudos, investigações e ações na região. O
evento expressou o compromisso do COLSAT-Mercosul com a articulação da
rede de pesquisadores e profissionais dos países membros e o Grupo do Direito à
Saúde no Mercosul, reunindo, aproximadamente, duzentos participantes,
constituindo-se num espaço privilegiado de discussão, cujas reflexões
contribuíram para a construção de uma agenda social tecida através da
proposição de políticas de proteção social centradas nos marcos de um projeto
societário.
d) Organização e publicação do livro: “Mercosul em Múltiplas Perspectivas:
Fronteiras, Direitos e Proteção Social” (Mendes, et all, 2008b), condensando as
principais reflexões de pesquisadores da área da proteção social no contexto do
Mercosul.
e) Articulação das funções precípuas da universidade, ou seja, ensino,
pesquisa e extensão, desenvolvidas no Núcleo e na Faculdade responsável pelo
Centro Colaborador, para favorecer a sinergia entre essas funções e as diretrizes
do Centro, materializando-se em: projetos de pesquisa de docentes e de alunos
de graduação e pós-graduação sobre a temática da proteção social, da saúde do
trabalhador e do Mercosul; oferta do Curso de Especialização em Saúde do
Trabalhador, entre outras ações. Destaca-se, a realização da pesquisa “A saúde
do trabalhador no Mercosul: um estudo do sistema de proteção social nos
cenários fronteiriços” , a qual vem sendo realizada em parceria com diversas
universidades e com os Centros de referência em Saúde do Trabalhador-
CEREST, localizados nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná
e Matogrosso do Sul.
O conjunto dessas estratégias tem resultado em importantes avanços no
campo da saúde e do trabalho no Mercosul, destacando-se a constituição dessa
rede, hoje composta por inúmeras organizações, profissionais e representantes
da academia e dos movimentos sociais, assim como a construção de uma
agenda comum entre os países para que se efetive o direito à saúde no bloco.
A discussão da saúde do trabalhador deve ser pautada na perspectiva da
discussão sobre proteção social que, por sua vez, se constitui num sistema
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 83

mediado por um conjunto de relações entre os Estados e a sociedade, que


articula os patamares de cidadania e direitos sociais. (MENDES, CORRÊA e
WÜNSCH, 2008).
A constituição sócio-histórica da proteção social expressa um modelo
pendular marcado pelo viés securitário e universal. Portanto, o principal desafio
para o centro colaborador está em compreendê-la no cenário do MERCOSUL,
que vem se constituindo num espaço sócio-político que apresenta características
distintas, mas também, simétricas que têm instigado à construção do
conhecimento científico no sentido de contribuir para a apreensão dos elementos
constitutivos desta realidade.
Trabalha-se na perspectiva da construção de novas mediações que
possam responder a realidade, que se expressa nas desigualdades sociais que
conformam a questão social contemporânea, em tempos de novas formas de
acumulação e organização da sociedade capitalista. Uma das formas de
organização do capital está na sua mundialização que ultrapassa as fronteiras
entre as nações por meio das novas tecnologias da informação e pela
constituição de blocos regionais. Ao compreendermos essa nova dinâmica do
capital, identificamos que a estratégia da informação e da constituição de redes
que extrapolem as nações pode ser potencializada para fomentar a garantia dos
direitos e a proteção social, utilizando-se, para tanto, das mesmas estratégias que
o capital vem utilizando para internacionalizar-se cada vez mais, em uma
perspectiva que tem como horizonte o desenvolvimento social, como um todo.
Neste sentido, a construção de uma agenda organizada de forma a
estabelecer novos padrões de discussão que permitam avançar na concepção de
proteção social, por meio de políticas sociais de caráter universal, torna-se central
no fortalecimento dessa rede. Pressupõe, desta forma, uma nova correlação de
forças, a criação de um tecido social em torno de uma problemática capaz de
inseri-la no debate político, ou seja, estabelecer novas mediações entre o Estado
e a sociedade (FLEURY, 1994).
Tem-se na efetivação da Saúde do trabalhador, uma política transversal, a
potencialidade de estabelecer uma interação entre o conjunto de necessidades
sociais dos trabalhadores, independente de sua inserção no mercado produtivo. A
transformação destas necessidades em uma pauta política significa incorporar
princípios fundamentais do direito à saúde e do trabalho, no controle sobre as
84 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

condições e os ambientes de trabalho enquanto estratégia de ação para a uma


nova agenda política comprometida com uma nova ordem societária.
O Colsat-Mercosul vem enfrentando os desafios de construir coletivamente
novas formas de contra-poderes na consolidação dessa agenda de proteção
social no MERCOSUL, através da mobilização da rede de pesquisadores e
trabalhadores, com o intuito de mobilizar os sujeitos sociais na afirmação da
equidade ao conjunto da população trabalhadora, ou seja, atingindo os excluídos
do mercado formal de trabalho e os desprotegidos do sistema de proteção social
na direção de luta pela universalidade dos direitos.
Em meio ao contexto onde ocorre a flexibilização e a redução do emprego,
que atingem as condições objetivas e subjetivas da classe trabalhadora, se tem
os elementos que determinam a possibilidade de fortalecimento dos movimentos
sociais na constituição de forças propulsoras ao estabelecimento de novos
padrões de seguridade social que atendam às demandas sociais de forma
universal, o que implica, por sua vez, na reflexão de outro modelo de
desenvolvimento que integre o econômico e o social.

Considerações finais

O conjunto de elementos abordados no decorrer deste artigo nos permite


concluir que o Colsat-Mercosul vem contribuindo para a Saúde do Trabalhador, a
partir da inserção das demandas pelo direito à saúde e à proteção social na
agenda política do MERCOSUL, bem como na conformação de um espaço - a
rede - que possa ser referência acadêmica e social para os inúmeros sujeitos
sociais que se encontram implicados e desafiados por essas demandas.
O Colsat-Mercosul, por ser uma estrutura acadêmica e de cooperação
técnico-científica, articula o tripé ensino, pesquisa e extensão, constituindo-se,
também, em um importante espaço de formação profissional na área de Serviço
Social. Desta forma, concomitantemente, favorece a interdisciplinaridade na área
da saúde e possibilita a consolidação da profissão em meio às diferentes áreas
do saber, ampliando o seu espaço de atuação e formação.
A cooperação internacional, nas suas múltiplas iniciativas, é uma estratégia
de integração de competências entre diferentes países e organizações para o
avanço multinacional de conhecimento e fortalecimento institucional para a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 85

promoção da atenção em Saúde do Trabalhador. O trabalho do Colsat-Mercosul


emerge dessa estratégia e busca dinamizar as relações internacionais, por meio
de suas estruturas consultivas, das suas ações e da intervenção dos sujeitos
sociais que atuam na área de Saúde do Trabalhador nos Estados-membros, a
partir da integração e de mecanismos que congreguem parceiros institucionais
identificados com a construção de práticas e teorias críticas no âmbito da região
do Cone Sul.
Por fim, contexto atual de globalização que intensifica o fenômeno da
produção fragmentada e multifacetada em diversas regiões, num processo de
exploração global da classe trabalhadora vem produzindo um impacto direto e
indireto que se expressa na forma de viver, trabalhar e morrer do conjunto da
população latino-americana. Este fenômeno, interconectado de variáveis sociais
determinadas no processo histórico exige avanços no trabalho em rede e
interdisciplinar, em metodologias inovadoras de investigação e intervenção. É
nessa direção que o Colsat-Mercosul tem caminhado e pretende avançar.

Referências Bibliográficas

COLSAT-MERCOSUL, site: www.colsatmercosul.org


FLEURY, Sônia. Estado sem Cidadãos. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1994.
MENDES, J. M. R. O verso e o anverso de uma história: o acidente e a morte no
trabalho. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
______ et all. Projeto: Centro Colaborador em Saúde do Trabalhador no
MERCOSUL. Porto Alegre: NEST/PUCRS, 2006.
______. Relatório da Oficina Pré-Congresso da ABRASCO. Salvador, 2007.
______. ANAIS do Simpósio Saúde do trabalhador e Proteção Social. Porto
Alegre: PUCRS, 2008a.
______. MERCOSUL em Múltiplas Perspectivas: Fronteiras, Direitos e Proteção
Social. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008b. (CONFERIR ESTA REFERÊNCIA)
MENDES, CORREA E WÜNSCH. Proteção social e Saúde do trabalhador: a
mediação para a construção da agenda política no MERCOSUL. IN: Anais do
Simpósio Saúde do trabalhador e Proteção Social. Porto Alegre: PUCRS, 2008a.
Mendes, Isabel Amélia Costa et all. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo: Centro Colaborador da Organização Mundial da
Saúde. Revista Latino-Americana de Enfermagem - Ribeirão Preto - V. 1 - N.
Especial - P. 53- 68 - Dez. 1993. www.scielo.br. Acesso Em 22.04.08.
SET UNIVERSITÁRIO: 21 ANOS COMUNICANDO-SE COM A SOCIEDADE

SET UNIVERSITÁRIO: 21 YEARS TALKING WITH SOCIETY

Necchi, Vitor. Ms. FAMECOS - PUCRS


vitor.necchi@pucrs.br
Thier, Fábian Chelkanoff. Ms. FAMECOS - PUCRS
fabian.chelkanoff@pucrs.br
Machado, Neka. Dr. FAMECOS - PUCRS
nekamachado@pucrs.br

Resumo

Evento promovido pela Faculdade de Comunicação Social da PUCRS


(FAMECOS) desde 1988, o Set Universitário está entre os mais importantes
encontros de universitários da área de Comunicação no Brasil. Ao mixar uma
mostra competitiva com intensa programação de palestras e oficinas, o Set
encontrou uma identidade própria, que atrai estudantes e profissionais de vários
estados brasileiros e vem sendo aprimorada ao longo dos anos.

Palavras-chave: comunicação, festival, integração.

Abstract

Event promoted by the Faculdade de Comunicação Social da PUCRS


(FAMECOS) from 1988, the Set Universitário is one of the most important
meetings of students and teachers of the area of Communication in Brazil. While
mixing a display competiiva with intense planning of conversations and
workshops, the Set found an own identity, which attracts students and
professionals of several Brazilian states and is perfected along the years.

Keywords: communication, festival, integration.


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 87

Introdução

Poucos – ou talvez nenhum outro – evento voltado para alunos de


Comunicação e de Cinema do Brasil seja tão longevo e tradicional quanto o SET
Universitário, promovido pela Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Desde 1988, o
campus central da universidade, em Porto Alegre, recebe milhares de estudantes
provenientes de diversos municípios gaúchos e de outros Estados que têm a
oportunidade de trocar experiências com professores, pesquisadores e
profissionais que atuam fora da academia. Em 2008, participaram também
universitários da Argentina, do Uruguai e de Portugal. Todos buscam sintonia com
as tendências da área, além de aprofundar as possibilidades de reflexão e de
experimentação. A cada edição, ocorrem palestras, oficinas e a Mostra
Competitiva – concurso que premia os alunos autores dos melhores trabalhos
desenvolvidos em atividades acadêmicas e os professores orientadores.
Em mais de duas décadas, o SET tornou-se referência para estudantes e
profissionais de todo o país. A edição de 2007 consagrou esta trajetória de
consolidação e provou a força que o evento detém. A de 2008, ampliou as
perspectivas. O caminho natural, portanto, só pode ser um: ir além. Para 2009, a
ideia é ousar mais, fazer mais, acolher mais, experimentar mais. Mais do que
manter a tradição, o que se pretende é ampliar as possibilidades, de forma que se
extraia a potencialidade máxima de uma iniciativa vocacionada ao sucesso.

Objetivos

Geral:

Integrar a comunidade acadêmica (alunos, professores e pesquisadores)


de cursos superiores do Brasil, da América do Sul e da Península Ibérica com
instituições e profissionais das diversas áreas da comunicação por meio de um
intercâmbio sociocultural.

Específicos:

Divulgar a produção acadêmica dos alunos de cursos superiores.


Propiciar aos alunos aproximação com profissionais do mercado.
88 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Promover intercâmbio entre a academia e o mercado de trabalho.

Descrição do processo de inovação

A primeira edição do SET Universitário ocorreu em 1988. Desde o


princípio, o planejamento e a execução são desenvolvidos por alunos e
professores da Famecos, na medida em que o próprio evento se constitui um
espaço de aprendizagem.
Nas palestras e oficinas, sempre houve presença de renomados
profissionais do Estado e do país, entre eles Analisa de Medeiros Brum, Bruno
Wainer, Caíque Severo, Carlos Kober, Carlos Saul Duque, Cassiano Elek
Machado, Clóvis Dariano, Cyro Silveira Martins Filho, Dado Schneider, David
Coimbra, Diogo Mainardi, Edson Erdmann, Eduardo Axelrud, Eduardo Peñuela,
Eliane Ferreira, Erh Ray, Fabian Gloeden, Felipe Anghinoni, Fernando Pires,
Gisele Lorenzetti, José Alberto Andrade, Klester Cavalcanti, Leandro Sarmatz,
Luli Radfahrer, Marcello Dantas, Marcelo Pires, Marcelo Rech, Márcio Callage,
Marco Antônio Lage, Margarida Kunsch, Maria Rita Kehl, Marta Machado, Moacyr
Scliar, Nilson Lage, Núbia Silveira, Otto Guerra, Paulo Totti, Rafael Bohrer,
Ricardo Noblat, Roberto Philomena, Ruy Carlos Ostermann, Telmo Flor, Tiago
Mattos, Valpirio Gianni Monteiro, e do Exterior, como Bill Jonhson, Carl Botan
(Estados Unidos) e Maria Tereza Tellez (Bolívia).

Figura 1: Debate no Set Universitário de 2008


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 89

Edição 2008 – o ano da inovação

Entre 22 e 24 de setembro de 2008, o 21º SET Universitário transformou a


Famecos. Quem chegasse ao saguão da faculdade – um amplo vão de circulação
e convivência para o qual convergem alunos de diversos cursos – já percebia, de
imediato, o porte do evento. O ambiente virou um imenso lounge, equipado com
mobiliário e tapetes para a integração dos participantes. A iluminação especial e o
palco montado pela Opinião Produtora criaram em pleno espaço universitário uma
estrutura similar à de um show. Durante os intervalos das oficinas e das palestras,
o local se consagrou como ponto de encontro dos participantes. Se a Famecos é,
de certa forma, a “casa” dos seus alunos, com o SET, essa característica se
ampliou.
Na organização do evento, trabalharam três professores, que contaram
com a atuação de 23 colegas e 60 alunos, além dos funcionários da secretaria e
dos laboratórios da Famecos.

Figura 2: Logo do Set Universitário 2008

Site

Em 2007, o site do evento (www.pucrs.br/famecos/set) foi reformulado,


passando a disponibilizar informações (programação, notícias, regulamento etc.)
e o sistema de inscrição de trabalhos para a Mostra Competitiva. Nas duas
últimas edições, o público pode assistir à transmissão ao vivo das palestras. Esse
material segue disponível.
Em setembro de 2008 – mês de realização do SET –, o site teve 12.812
acessos (em 2007, foram 7.924), com um pico de 1,3 mil nos dias do evento, e
45.975 pageviews (em 2007, pico de 700 e 25,7 mil pageviews). Os acessos
90 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

foram provenientes também do Exterior (Argentina, Canadá, Colômbia, Estados


Unidos, Espanha, Chile, Portugal, Reino Unido e Peru). O tempo médio de
permanência dos brasileiros ficou em 4,32 minutos.

Mostra Competitiva

Desde a criação do SET Universitário, a Mostra Competitiva constitui-se


um dos principais propósitos da iniciativa, com o objetivo de valorizar a produção,
o empenho e o talento dos alunos. O concurso é voltado para discentes de cursos
superiores de Comunicação e de Cinema/Audiovisual que tenham desenvolvido
suas obras em alguma atividade acadêmica (disciplinas, laboratórios, estágios
etc.) nos dois semestres anteriores ao da realização do evento.
Na edição de 2008, as categorias da mostra eram (a) Jornalismo, (b)
Produção Audiovisual, Cinema e Vídeo, (c) Publicidade e Propaganda e (d)
Relações Públicas, todas divididas em subcategorias. Os alunos vencedores e os
professores orientadores ganharam certificados na cerimônia de encerramento. O
júri foi composto por 90 profissionais do mercado que não lecionam em cursos
superiores.
Houve 531 trabalhos inscritos provenientes de cinco Estados (Minas
Gerais, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina e São Paulo) e de 12 municípios
gaúchos (Canoas, Caxias do Sul, Frederico Westphalen, Ijuí, Novo Hamburgo,
Passo Fundo, Pelotas, Porto Alegre, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, São
Leopoldo e Taquara).

Figura 3: Palco onde aconteceu a cerimônia de premiação em 2008


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 91

Palestras e oficinas

Um time de 20 especialistas atuou nas 12 palestras, realizadas em quatro


espaços da universidade (Auditório da Famecos, Auditório do Prédio 9, Teatro do
Prédio 40 e Centro de Eventos). Quase 5 mil pessoas debateram temas das
áreas de comunicação, jornalismo, publicidade e propaganda, relações públicas e
cinema. Não havia necessidade de inscrição prévia, e o acesso aos auditórios
obedeceu à capacidade dos espaços. As atividades se concentraram nos turnos
da manhã e da noite e eram gratuitas.
No turno da tarde, 545 alunos participaram de 17 oficinas, ministradas por
28 profissionais, que tiveram suas vagas esgotadas em menos de uma semana
de inscrição.

Figura 4: Oficina durante o Set 2008

Cerimônia de encerramento/premiação/festa

O SET Universitário tradicionalmente é encerrado com a divulgação dos


vencedores da Mostra Competitiva, momento em que ocorre a entrega dos
certificados aos autores dos trabalhos.
Em 2007, antes da cerimônia de premiação ocorreu uma edição especial
do Sarau Elétrico, um dos programas culturais de maior destaque do Rio Grande
do Sul. Trata-se de uma reunião informal em que conversas, entrevistas, leituras
e música formam o meio pelo qual se coloca a literatura acessível ao público.
Participaram a radialista Katia Suman, o professor Luís Augusto Fischer e a
92 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

escritora Cláudia Tajes. O auditório da Famecos ficou completamente lotado para


a leitura dos textos.

Figura 5: Programa "Camarote" no Set Universitário

Não menos lotado o espaço ficou em 2008, quando o jornalista Carlos


Kober, da Rede Globo, comandou um talk-show. A comemoração prosseguiu até
altas horas na festa de encerramento realizada no Bar Opinião, quando milhares
de universitários assistiram ao show das bandas “Os Efervescentes”, “Os
Horácios”, “Motel Flamingo” e “Dama e os Valetes Doidos”. A seleção dos grupos
coube ao produtor Rei Magro e ao radialista Cristian dos Santos, o Pancho, da
rádio Ipanema. No total, 20 bandas se inscreveram para disputar uma das vagas.
Pelo menos um dos integrantes precisava ser aluno da Famecos.

Projeto para 2009

O SET Universitário ocorrerá de 28 a 30 de setembro (de segunda a


quarta-feira), mas, além dessas datas, haverá o +SET, que são edições
concentradas do evento ao longo do primeiro semestre, pois a consolidação da
marca e a maturidade da proposta permitem que se criem subprodutos vinculados
a ela.
Em cada mês que antecede o evento, a partir de maio, será realizada uma
atividade pautada pelo conceito do SET. Pode ser uma palestra, um debate, uma
exibição, uma oficina... Como o SET é múltiplo, as possibilidades de replicá-lo
durante o ano são, igualmente, múltiplas. O SET propriamente dito é dividido em
palestras (manhãs e noites) e oficinas (tardes).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 93

Saguão da Famecos

A experiência de transformar o saguão da Famecos em um lounge teve um


resultado altamente positivo. Durante os três turnos de cada dia, alunos da
PUCRS – em particular os da Famecos – e de outras instituições ocuparam todos
os espaços de convivência disponíveis. Em 2009, a ideia é expandir a área
reservada ao evento até os jardins da Famecos e à via localizada entre o prédio
da faculdade e o prédio 8. DJs farão apresentações antes do início das palestras
e nos intervalos das aulas.

Figura 6: O "Lounge" do Set 2008

Resultados Obtidos

A mídia, de uma maneira geral, dedica espaços expressivos para


publicação e veiculação de conteúdo relativo ao SET Universitário. Todos os
marcos do evento (lançamento, abertura das inscrições para Mostra Competitiva,
divulgação de palestras e oficinas, abertura de inscrições para oficinas,
divulgação do número de inscritos, início e desenvolvimento do evento,
divulgação dos vencedores, balanço do evento, informações em geral) ganham
espaço nos principais veículos e emissoras de Porto Alegre, além de revistas,
jornais e sites especializados.
Em 2008, a divulgação do evento foi potencializada com a cobertura
desenvolvida por 12 alunos de Jornalismo, que alimentaram o site com 48
notícias, centenas de fotografias e ainda criaram um blog que teve 4.234 acessos.
Do interior do Rio Grande do Sul e de estados mais próximos, anualmente
provêm caravanas de alunos. Nas últimas edições, universitários de Santa Maria,
Pelotas e Passo Fundo formam os grupos mais numerosos.
94 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Uma situação que permite dimensionar a importância do SET é o valor


atribuído pelos alunos vencedores da Mostra Competitiva à distinção recebida.
Vários profissionais de grande expressão destacam em seus currículos e
entrevistas o fato de, em seu tempo de estudante, terem conquistado o 1º lugar
no concurso. É o caso da jornalista Eliane Brum, renomada por sua atuação em
Zero Hora e, nos últimos anos, na revista Época. Eliane, que venceu o prêmio
Jabuti de 2007 na categoria livro reportagem com a obra A vida que ninguém vê,
arrebatou o 1º lugar em “redação jornalística” na primeira edição do SET
Universitário com uma reportagem intitulada Esperando na fila da existência. A
vitória rendeu um estágio de um mês no jornal Zero Hora, onde permaneceu por
11 anos e, conforme ela mesma diz, descobriu que “ser repórter é a melhor
profissão do mundo”.

Considerações Finais

O sucesso de um evento como o Set Universitário depende de vários


fatores. Neste texto, destacamos dois deles: a construção de uma identidade
forte, que só pode ser obtida ao longo dos anos, pela insistência com práticas e
modelos que sejam absorvidos pelos participantes e proporcionem uma
fidelização cada vez maior; e a inovação, capaz de trazer sempre aspectos
originais a cada edição. Em 2008, após detectar onde o Set estava sendo
repetitivo e pouco atraente, a equipe de realização foi capaz de apresentar aos
participantes um ambiente diferenciado e novas atividades, com excelente
repercussão.
POR UMA TEORIA DOS DIREITOS E DEVERES SOCIOAMBIENTAIS:
APROXIMAÇÕES SOCIAIS E JURÍDICAS A PARTIR DO EXEMPLO DA
JUDICIALIZAÇÃO DO DIREITO FUNDAMENTAL À SAÚDE

Ingo Wolfgang Sarlet – Doutor e Pós-Doutor em Direito pela Ludwig-


Maximillians- Universität-München; Professor Titular da Faculdade de Direito –
PUCRS. Coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito, do
NEADF-Núcleo de Altos Estudos e Pesquisas em Direitos Fundamentais e do
Centro de Pesquisas da Faculdade de Direito da PUCRS.
e-mail: ingo.sarlet@pucrs.br
Carlos Alberto Molinaro – Doutor em Direito pela Universidad Pablo de Olavide,
Sevilha; Professor Adjunto da Faculdade de Direito e Vice-Diretor da Faculdade
de Direito da PUCRS. Professor do Doutorado em Direitos Humanos da
Universidade Pablo de Olavide, Sevilha.
e-mail: carlos.molinaro@pucrs.br

Resumo

Boa parcela dos projetos de investigação em desenvolvimento no âmbito


da Pós-Graduação em Direito da PUCRS, nomeadamente os vinculados à linha
de pesquisa Eficácia e Efetividade da Constituição e dos Direitos Fundamentais
no Direito Público e no Direito Privado, dirigem-se ao estudo dos direitos
fundamentais, com especial atenção à eficácia e à efetividade do direito
fundamental à saúde, tendo como norte orientador o estudo transdiciplinar e o
impacto na realidade social e ambiental, pensando-se até na estrutura de um
Estado socioambiental e democrático de direito. Nesta perspectiva, pretende-se,
em linhas gerais, desenhar uma deontologia destes direitos com o estudo dos
denominados deveres fundamentais, sejam eles correlativos aos direitos ou
autônomos. Desta forma, privilegia-se o estudo dos deveres do Estado e dos
particulares (eficácia entre terceiros) para a efetiva concretização dos direitos
fundamentais, forte no princípio da dignidade emprestada ao humano e suas
extensões, tendo sempre como ênfase os deveres de solidariedade, precaução e
proteção. O Direito (e dever) fundamental à saúde, especialmente sob o enfoque
concreto da produção jurisprudencial, tem importância central no trabalho
96 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

desenvolvido, de modo a verificar os critérios e medidas adotadas pelo Poder


Judiciário (no Brasil e em perspectiva do Direito Comparado) na
concessão/negativa de prestações na área da saúde, o que não pode estar,
excessiva ou deficientemente, dissociado dos parâmetros constitucionais.

Palavras-chave: Estado Socioambiental, Direitos e Deveres Fundamentais,


Direito à Saúde.

Introdução

A gravidade dos problemas cotidianamente postos – envolvendo entre


outras as questões políticas, sociais, econômicas, ambientais, morais e jurídicas –
exige respostas rápidas e adequadas. Para os cultores das ciências,
especialmente aqueles dedicados às ciências sociais aplicadas, em particular as
jurídicas, impende a tarefa de construir uma perspectiva de conformação do
direito ajustado a esses novos tempos. Não basta, apenas, pensá-lo como
instrumento de pacificação dos conflitos sociais, ou como sistema ou
ordenamento de normas jurídicas que objetivam assegurar direitos e exigir o
cumprimento dos deveres ou, ainda, constituir garantias de qualquer tipo, bem
como atribuir e repartir competências e formatar o Estado; exige-se pensar o
Direito como um processo cultural de regulação e garantia das conquistas sociais
obtidas mediante os indispensáveis processos emancipatórios intercorrentes nas
sociedades, gestados no ambiente sociopolítico onde se processam as relações
inter-humanas que tem por objetivo a busca dos bens necessários para a
satisfação das necessidades. É precisamente neste percurso, da busca dos bens
indispensáveis para a satisfação das necessidades, que vamos encontrar
também a possibilidade de convergência de interesses imediatamente vinculados
às presentes e futuras gerações.
Neste cenário mostra-se de especial relevo a discussão acerca do espaço
socioambiental como ponto de partida para a construção de uma teoria tanto dos
direitos (já amplamente desenvolvida, mas igualmente carente de ajustes) quanto
dos deveres fundamentais deste modelo de Estado, isto é, um Estado
Socioambiental e Democrático de Direito que faça as necessárias conformações
entre direitos e deveres (ou, se preferirmos, entre direitos, deveres, pretensões,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 97

obrigações, ações e exceções, de acordo com a classificação de Pontes de


Miranda). Se a matriz socioambiental, também um produto cultural, intenta
construir um diálogo permanente entre necessidades sociais, exigências
ambientais, crescimento ou desenvolvimento econômico sustentável, parece
evidente a necessidade de lançar novas luzes ao tratamento jurídico do direito à
saúde, um direito umbilicalmente amarrado a uma ambiência construída e
constituída pelo entorno físico, social e político.
Nesta perspectiva o direito à saúde, isto é, a concretização preceptiva dos
mínimos constitucionais e legais estabelecidos se revela como um importante
fator de redução dos impactos ambientais decorrentes da insalubridade dos
meios, da deficiente proteção ambiental e humana relativamente ao déficit dos
mecanismos de saneamento, da agrupação de parcelas da população, e da
deficiente ou inadequada prestação das redes de promoção de saúde pública e,
mesmo, de educação para a saúde, elementos indispensáveis para a construção
de uma cidadania saudável e vigilante de uma ambiência em tudo favorável as
práticas da sustentabilidade socioambiental. Neste viés, indispensável pensar a
efetivação do direito, não exclusivamente pela atuação dos Poderes-funções
Legislativo e Executivo (encharcados dos resultados legitimados pelo sufrágio),
mas sim e, especialmente, pelo Judiciário, cujas decisões – se pode dizer –
completam o processo legislativo.
A partir daí, a juridificação e a sindicabilidade crescente das mais diversas
demandas, notadamente no que diz com a concretização do direito [fundamental
social] à saúde, assim como dos deveres conexos e autônomos que lhe são
correlatos, vem cobrando uma ação cada vez mais arrojada por parte dos
aplicadores do Direito, em especial do Estado-Juiz, que freqüentemente é
provocado a manifestar-se sobre questões antes menos comuns, como a
alocação de recursos públicos, o controle das ações (comissivas e omissivas) da
Administração na esfera dos direitos fundamentais sociais, e até mesmo a
garantia da proteção de direitos (e deveres) fundamentais sociais na esfera das
relações entre particulares.
Não é à toa, portanto, que também tem crescido o número dos que se
dedicam à discussão da legitimidade da intervenção judicial nesta seara, o que,
no seu conjunto e considerando o amplo acesso às redes de informação, tem
levado a uma sofisticação do debate e a uma evolução significativa tanto no que
98 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

diz com a quantidade, quanto no respeitante à qualidade (ainda que não linear)
da produção doutrinária e jurisprudencial. Por outro lado, verifica-se que a maioria
das questões postas em causa na esfera pública segue em aberto, assim como
segue quase que desenfreada a busca por critérios seguros (?) que possam
garantir a construção de um processo decisório (também, mas não
exclusivamente na esfera jurisdicional) constitucionalmente adequado, mas acima
de tudo, condizente com a mais legítima expressão do “justo”.

Objetivos

O telos do trabalho desenvolvido está no lançar as bases para a


formulação de uma teoria do deveres fundamentais socioambientais, com a
preocupação de desenhar um Estatuto Deontológico dos Direitos e Deveres
Fundamentais Socioambientais, amparado, entre outros aspectos, na eficácia e
efetividade do direito fundamental à saúde. É conhecido que a expressão
deontologia no étimo significa ciência do dever, está em δέον –οντός, ou aquilo
que é devido, preciso ou necessário, particípio presente neutro de δέω 1 , logo,
vamos entender a expressão como aquilo que é necessário, conveniente.
Contudo, não é de esquecer que a criação do termo remonta a Benthan
(Deontology or the science of morality, 1834), e depois foi empregado pelos
utilitaristas para designar o estudo empírico que se necessita fazer em uma
situação determinada. Com o passar do tempo o uso do termo foi apropriado
pelas associações profissionais para construir um catálogo de deveres vinculados
à práxis profissional. A origem da necessária apropriação foi a dissimetria
ocasionada por alguns detentores do conhecimento e da técnica que lhes
outorgou um grande poder, e o usuário deste saber e técnica ficou reduzido a
uma dependência intelectual e econômica. Logo os códigos intentaram superar
essa dissimetria com regras formais cuja transgressão é passível de sanção.
O intento de formular uma teoria dos deveres fundamentais,
socioambientais por certo levando em conta que o binômio direito-dever ou o
direito e o dever isoladamente considerados sempre vai ocorrer em uma
ambiência identificada, está intimamente vinculado ao desenho de uma

1
Que é obrigar, mas, antes, ter falta ou estar necessitado de algo, também desejar, pretender
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 99

Deontologia Socioambiental, e por conseqüência, não pode afastar-se do


indispensável estudo da Moral, esta contudo, na perspectiva de uma Moral
Pública. Neste sentido a deontologia possui um viés moral. Os deveres morais
freqüentemente denominam-se deontológicos. Há uma deontologia moral sem
dúvida, assim como há uma deontologia jurídica em sentido estrito, parcialmente
construída. O que interessa ao projeto é a deontologia jurídica, onde estão
contidos deveres jurídicos correlativos aos direitos ou àqueles a que não
corresponde qualquer direito. Atente-se que mesmo nos códigos de ética
profissional, a parte dispositiva sobre os deveres é jurídica, pois os atos de
coerção previstos não são unicamente aprovados pela consciência, mas são atos
coercitivos socialmente organizados que têm efeitos no próprio grupo profissional,
levando inclusive a interdição da profissão e com efeitos na ordem jurídica
estabelecida. Com maior razão, a construção de uma deontologia socioambiental,
inspirada na moralidade pública, mas com forte densidade jurídica é uma
exigência para a maior eficácia dos direitos fundamentais socioambientais que
todos, Estado e cidadãos, devem privilegiar. Portanto, a deontologia que o projeto
intenta desenhar é uma deontologia socioambiental que constrói e identifica os
deveres fundamentais socioambientais distintos das obrigações socioambientais.
Daí o fato da pesquisa enfocar a necessária distinção entre deveres, obrigações,
ônus e encargos socioambientais, privilegiando sempre a fundamentalidade dos
deveres e das responsabilidades inerentes ao próprio conceito dos Direitos e
Deveres Fundamentais. Neste sentido, foi feliz a Declaração de Responsabilidade
e Deveres Humanos de Valença de 1999, pois os deveres estão na base da
efetiva validez dos direitos humanos e fundamentais.
Ademais, um dos ambientes mais frágeis que reclamam a juridiciadade da
saúde e a conseqüente prestação dos serviços necessários a seu efetivo
exercício é nodal na perspectiva da socioambientalidade, neste sentido a
pesquisa intenta desenvolver, especificamente no que se refere ao direito
fundamental à saúde, elementos nucleares para sua eficácia e efetivação como,
por exemplo, a categoria jurídica da (reserva) (da) reserva do possível, do mínimo
100 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

existencial e da isonomia, dialogando, num estudo transdiciplinar 2 , com o acervo


principiológico da ética e da Justiça distributiva na análise das demandas judiciais
referentes ao direito à saúde. Nesta perspectiva, mediante recurso também ao
direito comparado e um mapeamento das demandas judiciais no Brasil e em
outros países, será efetuada uma análise também dos principais aspectos que
têm sido discutidos na esfera judicial, seja no que diz com os critérios para o
atendimento e negação dos pleitos levados ao Judiciário, seja no que diz com a
definição do objeto e dos sujeitos do direito à saúde, além, entre outros pontos, a
definição dos deveres correspondentes e seu controle.

Descrição do Processo de Inovação Desenvolvido e Resultados Obtidos

O trabalho desenvolvido sobre direitos fundamentais socioambientais,


especialmente na área da concretização do direito fundamental à saúde, conta,
de forma inovadora e seminal, com a participação efetiva e integrada de alunos
de graduação, mestrado e doutorado em diversos projetos de pesquisa,
financiados pelas principais agências de fomento do Brasil e do exterior,
interligados pelo Núcleo de Estudos Avançados em Direitos Fundamentais
(NEADF/CNPq), resultando em diversas publicações e na realização de inúmeros
seminários e congressos internacionais sobre a temática.
No que se refere à área da transdisciplinariedade, a Faculdade de Direito,
juntamente com a Faculdade de Filosofia, vem desenvolvendo um projeto de
pesquisa que, em síntese, objetiva analisar as decisões judiciais envolvendo as
demandas por prestações materiais para a efetivação do direito à saúde sob a
perspectiva da Filosofia, notadamente na Ética, no intuito de estabelecer
parâmetros mais claros, ou esclarecedores, que auxiliem a tomada de decisões
por parte do Judiciário, de modo a aperfeiçoar, além do debate teórico, a própria
prática jurisdicional. Além deste projeto, realizaram-se parcerias entre as
Faculdades de Direito e Medicina, cujo objetivo principal centrou-se na análise do

2
Aqui o significado de transdiciplinar, se revela como o desvelamento da consciência que
persegue o conhecimento com o objetivo de integração e inserção do outro, especialmente do
sujeito plural conformado na sociedade, na interioridade da natureza e na ambiência das práticas
sociais, seja na ciência, seja no convívio, todas moderadas pelo respeito, pelo esforço cooperativo
e, notadamente pela solidariedade. Aliás, o próprio prefixo trans- dá a nota de além de, através
de, e mais precisamente, transferência, transformação, trânsito.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 101

transtorno da identidade e de gênero, a partir da perspectiva jurídico-


constitucional, inserindo-se também neste projeto amplo relativo ao Direito à
saúde. Neste sentido, incluem-se diversos outros projetos que perpassam um
amplo espectro da ciência jurídica, desde a perspectiva da Teoria do Direito até
aspectos estritos da dogmática dos Direitos Fundamentais, como, por exemplo, a
análise crítica da jurisprudência referente ao direito à saúde, e a utilização, se
possível, de aportes filosóficos, especificamente a ética, da teoria da cultura, da
sociologia, da política, Justiça Distributiva e a isonomia, nas decisões judiciais.
Estes e outros estudos, pela relevância da matéria e pela importância dos artigos
e demais trabalhos publicados, resultaram na participação do coordenador do
NEADF na Audiência Pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o
qual pode contribuir diretamente com a mais alta corte de Justiça do país para
uma análise constitucionalmente adequada em matéria de Direito à saúde.
Em termos de metas mais específicas, além da integração de diversos
projetos, discentes e docentes, está prevista a realização, em parceria com o
Departamento de Antropologia da Universidade de Princeton (o coordenador do
NEADF participou de evento sobre o direito à saúde na Universidade de
Princeton, em abril de 2009) e o Centro de Estudos do Poder Judiciário da
AJURIS, de um seminário sobre o direito à saúde (agosto de 2009) e, em
setembro de 2009, do VIII Seminário Internacional de Direitos Fundamentais, com
ênfase nos direitos e deveres socioambientais, designadamente, na esfera da
saúde, reunindo painelistas do Brasil e do exterior (EUA, México, Alemanha,
Portugal). Além disso, já iniciaram os trabalhos no sentido da criação e
estruturação, junto ao NEADF, de um observatório em matéria de judicialização
dos direitos e deveres socioambientais, igualmente, na primeira fase, com
destaque para o direito à saúde.

Considerações Finais

A questão socioambiental é o atual foco das preocupações políticas e


sociais e, felizmente, de pesquisas tanto na área das ciências biológicas como na
área das ciências sociais aplicadas, crescente o papel desempenhado pelo
Direito. As pesquisas propostas tratam da conexão entre a regulação ambiental e
o direito constitucional, com foco nítido no direito fundamental à saúde, lançando
102 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

mão de um estudo não apenas transdisciplinar, mas também orientado na prática


social e jurídica, impondo-se não só a necessária imbricação de conceitos
metajurídicos, como no caso da formatação do Estado Socioambiental, mas
também pela importância do tema.
Em matéria de regulação ambiental, e focando a análise para os aspectos
atinentes ao direito à saúde, a correlação entre direitos e deveres fundamentais é
estreita, o que por si, já justifica a importância de uma pesquisa sobre a temática.
Contudo, acrescenta-se o fato de que a matéria “deveres fundamentais” ainda
não está suficientemente explorada pela doutrina nacional, e mesmo estrangeira,
sendo pouquíssimos os trabalhos monográficos a ela dedicados, especialmente
no tocante aos identificados como deveres fundamentais autônomos. Mais
ineditismo ainda se reveste a presente pesquisa quando o projeto de uma teoria
dos deveres fundamentais se associa à vinculação dos particulares aos direitos e
deveres fundamentais em geral. Desta forma, a investigação destina-se não
somente a abordar uma teoria dos deveres fundamentais no Estado
Socioambiental, mas vai além e explora com base nos mais renomados autores
nacionais e estrangeiros, a vinculação da cidadania, trazendo-os para o contexto
da realidade brasileira.
Destarte, o programa de Pós-Graduação em Direito da PUCRS,
priorizando por uma atuação inovadora e imersa na realidade social da
coletividade, vem atuando no campo da pesquisa científica voltada à dogmática
dos direitos e deveres fundamentais, sem descurar, no entanto, de aportes
transdisciplinares, e do diálogo permanente entre a Academia, Tribunais e demais
setores da sociedade civil.

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LABORATÓRIO DE MERCADO DE CAPITAIS –
A UNIVERSIDADE CAPACITANDO GRATUITAMENTE A SOCIEDADE

Andrade, Letícia Braga de; Ms.; Faculdade de Administração, Contabilidade e


Economia - PUCRS
leticia.andrade@pucrs.br
Lemos, Leandro Antonio de; Dr.; Faculdade de Administração, Contabilidade e
Economia - PUCRS
leandrodelemos@pucrs.br

Resumo

O Laboratório de Mercado de Capitais (LABMEC) é resultado de uma


parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, por sua
Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia, Departamento de
Economia e a XP Investimentos, que é uma corretora de valores. Projeto pioneiro
no Brasil, o laboratório foi inaugurado em agosto de 2006 com o objetivo de
disseminar o conhecimento sobre o mercado de capitais gerando distinção na
formação de competências e habilidades dos investidores. Tendo como missão
“desenvolver a cultura financeira oferecendo oportunidades para formação de
competências e habilidades de alunos, cidadãos e empresas”; e visão “até 2010,
ser referência nacional em educação financeira por sua efetiva contribuição ao
desenvolvimento da cultura financeira das famílias e empresas”, o laboratório já
efetuou cerca de 3 milhões de horas de capacitação em pouco mais de 2 anos de
existência. Considerado exemplo nacional e servindo como benchmark para
várias universidades do País, se consolidou como espaço de aprendizagem
inovador e tem a perspectiva da ampliação de interações entre educação-
mercado-governo para o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil.

Palavras-chave: interação universidade-empresa, relação universidade-


sociedade, capacitação gratuita.
108 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Abstract

The Stock Market Lab (LABMEC) is the result of a partnership between the
University – Pontificia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, College of
Administration, Accounting and Economics and XP Investimentos. It is a
pioneering project in Brazil; the laboratory was opened in August 2006 with the
aim of disseminating the knowledge on stock market creating distinction in the
training of investors’ skills and abilities. Since the mission “to develop the financial
culture offering opportunities for training in skills and abilities of students, citizens
and businesses”; and the vision “by 2010, will be the national reference in financial
education for their effective contribution to the development of financial culture of
families and businesses, the laboratory has already made 3 million hours of
training in just over 2 years old. It is considered national example and benchmark
by several universities in the country, as a space for leaning and innovation and
the prospect of expansion of interactions between education, market and
government to develop the stock market in Brazil.

Keywords: university-business interaction, university-society relationship, free


training.

Introdução

Atualmente, o papel das Universidades vai além do ensino, envolve


também a produção de pesquisa e constituição de novas competências de modo
a colaborar para o desenvolvimento da competitividade sistêmica. Neste sentido,
as universidades são vistas como fonte principal de inovações e mudança
tecnológica, sendo referência na busca científica e tecnológica para o aumento da
produtividade e, consequentemente, da competitividade das empresas.
O Laboratório de Mercado de Capitais (LABMEC) é resultado de uma
parceria entre a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
por sua Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia (FACE),
Departamento de Economia e a XP Investimentos. Projeto pioneiro no Brasil, o
laboratório foi inaugurado em agosto de 2006 como uma rede de alianças
estratégicas entre Agência Estado, BM&FBovespa, Gerdau, Intra Corretora, Lojas
Renner, Petrobrás e Zee Design Digital.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 109

Tendo por fim a educação financeira, o LABMEC é aberto ao público e


serve como locus de interação entre a legitimidade do conhecimento teórico
oferecido pela universidade e a velocidade do conhecimento prático viabilizado
pela XP Investimentos.
O objetivo principal da XP Investimentos com o laboratório é se diferenciar
das demais corretoras oferecendo a seus clientes-investidores e operadores uma
capacitação cada vez mais especializada. Para tanto, identificou no laboratório
um centro de estudos que oferece jogos, simulações de investimento, cursos,
palestras, apresentações de empresas, debates e boletins diários sobre
macroeconomia.
Para a FACE, o laboratório constitui uma oportunidade de unir teoria e
prática na formação de competências e habilidades dos seus alunos. Além dessa,
o LABMEC corrobora diretamente com a formulação estratégica da PUCRS no
que diz respeito à busca por diferenciação pela atualização e inovação,
integração entre o ensino, pesquisa, extensão e o exercício de ações solidárias.

Objetivos

Este trabalho tem por objetivo principal identificar a contribuição que a


FACE oferece à sociedade por meio do Laboratório de Mercado de Capitais.
Exemplo de inovação a partir da interação universidade-empresa, o laboratório é
referência nacional no País sendo copiado por universidades como a Nacional de
Brasília e as federais de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Neste sentido, entre os objetivos específicos estão (i) realizar uma revisão
bibliográfica sobre a relação universidade-empresa; (ii) conhecer a estrutura de
gestão e administração do laboratório; e (iii) identificar as formas de contribuição
da Universidade à sociedade através do LABMEC.

Descrição do processo de inovação

Atualmente, o papel das Universidades vai além do ensino, envolve


também a produção e divulgação de resultados de pesquisa básica e aplicada de
modo a colaborar para o desenvolvimento da competitividade sistêmica. Neste
sentido, as universidades são vistas como fonte principal de inovações e
mudança tecnológica, sendo referência na busca científica e tecnológica para o
110 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

aumento da produtividade e, consequentemente, da competitividade das


empresas.
Um argumento que tem tido destaque é o “argumento da Hélice Tripla”
(HT). Assumindo a hipótese de que estaria ocorrendo um crescente virtuosismo
na relação Universidade-Empresa (U-E), o HT apresenta-se como resultado da
combinação de duas correntes de pensamento relacionadas ao tema, e da
proposição de um instrumento específico de promoção dessa relação (DAGNINO,
2003).
A primeira corrente trata especificamente da relação U-E. A abordagem
identificou a existência de um crescente número de contratos entre empresas e
universidades com vistas ao desenvolvimento de atividades conjuntas. Tais
atividades resultariam em transformações e ampliações quantitativas e
qualitativas, de modo que a universidade teria a função de participar ativamente
do processo de desenvolvimento econômico.
A segunda corrente atribui importância fundamental ao processo inovativo
que ocorre na empresa e às relações que ela estabelece com seu entorno. Isto
porque a competitividade da empresa passa a ser entendido como resultado de
sua capacidade de gerar internamente um processo de aprendizado contínuo
mediante a combinação dos insumos do ambiente externo com aquilo que só ela
pode realizar - o contato direto entre produção e mercado (DOSI & SOETE,
1988). Assim sendo, embora não considere a universidade como
desencadeadora de inovação, percebe-a como um agente privilegiado desse
entorno à medida que forma o egresso demandado pela empresa.
De modo geral, a universidade é entendida como um elemento privilegiado
do ambiente inovativo, ou melhor, como significativo fator de competitividade
sistêmica atuando direta e/ou indiretamente no processo de geração de inovação.
Segundo Webster & Etzkowitz (1991, apud DAGNINO, 2003), algumas das
razões que explicariam o interesse das empresas na ampliação das relações U-E
são:
• custo crescente da pesquisa voltada ao desenvolvimento de produtos e
serviços que assegurem posições vantajosas num mercado cada vez
mais competitivo;
• necessidade de compartilhar custos e riscos de pesquisas;
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 111

• elevado ritmo de introdução de inovações bem como redução do


intervalo de tempo necessário para a obtenção dos primeiros resultados;
• decréscimo dos recursos governamentais para pesquisa.
Do lado da universidade, as principais motivações seriam:
• dificuldade crescente para obtenção de recursos públicos para a
pesquisa universitária;
• interesse da comunidade acadêmica em legitimar seu trabalho junto à
sociedade;
• a universidade estaria vivendo um período caracterizado por forte
sinergismo entre instituições acadêmicas e empresas (“Segunda
Revolução Acadêmica”).
Nos anos 1980, as interpretações latino-americanas sobre a relação U-E
assumiram duas abordagens distintas. De um lado, estavam aqueles que
enfatizavam os obstáculos de caráter estrutural e histórico resultantes da inserção
subordinada dos países latino-americanos na divisão internacional do trabalho
bem como decorrentes dos modelos de desenvolvimento (primeiro agrário-
exportador e depois de substituição de importações) adotados na região. Para
estes, as diferenças de cultura institucional dos dois atores, quais sejam, o
“imediatismo” do lado da empresa e o “diletantismo” do lado da universidade,
determinariam, em última instância, a impossibilidade da interação.
Do outro lado, estavam aqueles que, por preferências políticas,
experiências profissionais ou enfoques interdisciplinares, acreditavam que a
ampliação da relação U-E era mais uma questão de adequar sua forma de
gestão. Para estes, o problema se concentrava numa perspectiva micro,
conjuntural, incremental e pontual (enfoque disciplinar de Administração de
Empresas), de modo que as recomendações visavam à otimização do plano da
gestão da relação U-E (DAGNINO, 2003).
Contudo, a literatura aponta que a inovação é facilitada quando resultante
de um processo de construção social que abrange diferentes atores, como
universidades, empresas, governos, associações e centros de pesquisa.
Entretanto, dão que o espaço econômico não é homogêneo, as especificidades
locais precisam ser respeitadas. Neste sentido, abre-se espaço para busca de um
112 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

entendimento mais adequado a respeito de como os conhecimentos são gerados,


internalizados, usados e difundidos.
A “economia do aprendizado”, definida como sistema no qual a
“capacidade de aprender é crucial para o sucesso econômico de indivíduos,
firmas, regiões e economias nacionais” (LASTRES; CASSIOLATO E ARROIO,
2005, p.86), é concebida por duas situações diferentes: a oportunidade de
aprender e a oportunidade de aplicar criativamente o que foi aprendido. Assim, os
autores destacam que políticas educacionais não são suficientes se a mão-de-
obra não tiver onde aplicar de forma criativa os seus conhecimentos
desenvolvendo capacidades para a inovação e dando origem à mudanças
qualitativas.
Neste contexto, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS), por sua Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia
(FACE), Departamento de Economia e a empresa XP Investimentos constituíram
o Laboratório de Mercado de Capitais (LABMEC). Projeto pioneiro no Brasil, o
laboratório foi inaugurado em agosto de 2006 com o apoio de empresas como
Agência Estado, BM&FBovespa, Gerdau, Intra Corretora, Lojas Renner,
Petrobrás e Zee Design Digital.
Tendo como objetivo a disseminação do conhecimento sobre o mercado
de capitais, o LABMEC é aberto ao público e serve como locus de interação entre
a legitimidade do conhecimento teórico oferecido pela Universidade e a
velocidade do conhecimento prático viabilizado pela XP Investimentos.
O LABMEC tem como missão “desenvolver a cultura financeira oferecendo
oportunidades para formação de competências e habilidades de alunos, cidadãos
e empresas”; como visão “até 2010, ser referência nacional em educação
financeira por sua efetiva contribuição ao desenvolvimento da cultura financeira
das famílias e empresas.” Para tanto, os valores assumidos são Inovação,
Excelência técnica, Relacionamento pró-ativo, Interatividade, Fraternidade e
Transparência.
Na PUCRS, o laboratório está vinculado a Pró-Reitora de Extensão (PROEX)
como um projeto de extensão universitária, devendo atender à alunos, seus
familiares e sociedade em geral. Na XP o LABMEC está lotado no departamento
de educação (XP Educação). A estrutura de gestão do laboratório é composta
pela seguinte linha de subordinação:
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 113

I. Departamento de Ciências Econômicas – PUCRS/FACE;


II. Comitê Executivo: constituído por um representante do Departamento
de Ciências Econômicas, outro da FACE, um da XP Investimentos e
outro da XP Educação;
III. Coordenação do LABMEC: executada por um professor do
Departamento de Ciências Econômicas;
IV. Pessoal operacional: 2 estagiários alunos da Universidade contratados
pela XP Educação.
Em termos de estrutura física, o laboratório funciona numa sala com
2
120m , localizada no 7º andar do prédio 50 da PUCRS. Neste prédio está
instalada a Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia que atende
cerca de 4.500 alunos.
Sob regime de comodato, a XP Investimentos mantém 08 computadores,
02 aparelhos de televisão com canal especializado e internet à disposição da
sociedade nos horários de funcionamento do LABMEC. A PUCRS é encarregada
de prover serviços gerais, materiais de escritório e energia elétrica.
Contudo, a atual crise financeira mundial descortinou sérios problemas
econômicos estruturais, em especial a necessidade de uma melhor educação
financeira tanto dos cidadãos como das empresas. É neste contexto que o
LABMEC ampliou sua área de atuação para além do mercado de capitais
oferecendo semanalmente eventos gratuitos que abordam a (Re)educação
financeira, entre os quais estão:
Palestras:
• Como administrar suas finanças pessoais – Ministrante: Operador XP
Investimentos
• Seu Dinheiro – Ministrante: Prof. Dr. Alfredo Meneghetti Neto (PUCRS)
• Como investir em ações seguindo os passos de Warren Buffet –
Ministrante: Operador XP Investimentos
• Como e onde investir em 2009 – Ministrante: Operador XP Investimentos
• A psicologia do investidor – Ministrante: Prof. Ms. Bernardo Fonseca
Nunes (PUCRS)
• A crise financeira e suas repercussões – Ministrante: Prof. Ms. André
Scherer (PUCRS)
114 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

• Instrumentos de análise de conjuntura – Ministrante: Profa. Ms. Cecília


Hoff (PUCRS)
Momento “A FACE do aluno”: apresentação de trabalhos desenvolvidos
pelos alunos durante o curso de graduação. Temas já abordados: “Marketing
multinível” e “O modelo dos três círculos na administração da empresa familiar”.
Parcerias com outras instituições de ensino superior: ofereceu 3
palestras sobre Mercado de Capitais durante a Jornada Acadêmica da Faculdade
Dom Bosco de Porto Alegre/RS.
Parcerias com outros organismos: Instituto Brasileiro de Direito
Empresarial (IBRADEMP) - palestra ministrada pelo Sr. Walter Jansen Neto,
entitulada “Construção de governança corporativa dentro de empresas familiares”.
Ademais os eventos gratuitos, o LABMEC ainda oferece os cursos de
extensão tais como Análise de Conjuntura, Finanças pessoais: segredo de
sucesso, Personal trainer em finanças pessoais, Finanças comportamentais,
Bolsa de Valores: aprenda a investir, Análise fundamentalista para tomada de
decisão, HP12C aplicada à administração financeira, entre outros. Tais cursos
têm diferentes cargas horárias assim como diferentes custos, porém em todos, a
comunidade PUCRS (alunos, diplomados, funcionários e professores) tem 50%
de desconto, já estudantes de outras instituições de ensino e pessoas com mais
de 60 anos têm 25%. As inscrições nos eventos promovidos pelo LABMEC
ocorrem pelo seu site (www.labmec.com.br) mas contam com o apoio
organizacional de toda estrutura da Universidade.
Considerando a importância da ampla e irrestrita disseminação do
conhecimento, assume singular importância a forma de divulgação dos eventos
do laboratório. Nesta questão, conta-se com o apoio da Assessoria de
Comunicação da Universidade, dos jornais de circulação estadual Zero Hora e
Correio do Povo, sites da PUCRS, do LABMEC e XP Investimentos, além do
cadastro de e-mails da PUCRS, da emrpresa parceira e do próprio laboratório.

Resultados

O sucesso da relação PUCRS-XP Investimentos expressa-se nas 1.326


horas de capacitação oferecidas pelo LABMEC em eventos como palestras
gratuitas e cursos de extensão. Em seus 2 anos e meio de existência, a visitação
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 115

ao laboratório pela sociedade com a finalidade de realizar pesquisas, troca de


informações e simulações somou aproximadamente 16 mil acessos. O público
total que de alguma forma foi qualificada através do LABMEC fica em torno de
27,4 mil pessoas (Quadro 01).

Quadro 01 – Relatório de atividades do LABMEC


Atividades promovidas Eventos Carga horária Inscrições
2009*
Cursos de extensão 6 56 106
Palestras XP Investimentos 14 14 452
Outros eventos 6 7 153
Acessos ao Laboratório - - 430
Total de 2009 26 430 1.141
2008
Cursos de extensão 34 448 793
Palestras XP Investimentos 38 56 1.785
Outros eventos 15 134 2.867
Acessos ao Laboratório - - 5.496
Total de 2008 87 430 10.941
2007
Cursos de extensão 37 360 1.015
Palestras XP Investimentos 26 27 1.945
Outros eventos 27 97 928
Acessos ao Laboratório - - 7.696
Total de 2007 90 484 11.584
2006**
Cursos de extensão 8 72 142
Palestras XP Investimentos 12 12 311
Outros eventos 24 43 1.056
Acessos ao Laboratório - - 2.317
Total de 2006 44 127 3.826
Total geral 247 1.471 27.492
* Inclui os meses de Janeiro a Abril.
** Inclui os meses de Agosto a Dezembro.
Fonte: elaboração da autora a partir dos relatórios de atividades do LABMEC.

Analisando especificamente os eventos gratuitos, quais sejam, palestras e


apresentações de trabalhos acadêmicos, o Quadro 02 mostra crescente aumento
no número de pessoas participantes. Comparando os anos de 2006 e 2007, ainda
que o primeiro envolva apenas os seis últimos meses, observa-se um aumento
significativo de participantes equivalente a 148%. De 2007 para 2008, cujos
números estão totalizados no ano, observa-se um acréscimo de 51%. Para o ano
de 2009, as informações envolvem apenas os quatro primeiros meses, de modo
que o número perde um pouco de sua significância para comparações. No geral,
teve-se participação média por evento de 59 pessoas.
116 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Quadro 02 – Oferta, carga horária e participantes nos eventos gratuitos


Quantidade de Carga horária
Ano Participantes
eventos (h)
2009* 20 21 605
2008 51 154 4.347
2007 53 124 2.873
2006** 29 37 1.157
Total 153 336 8.982
Somatório de carga horária por participante 3.017.952
Média de presenças por evento 59
* Inclui os meses de Janeiro a Abril.
** Inclui os meses de Agosto a Dezembro.
Fonte: elaboração da autora a partir dos relatórios de atividades do LABMEC.

Merece destaque especial o número de carga horária oferecida por


participante. A partir da interação U-E, foram promovidas mais de 3 milhões de
horas de capacitação gratuita e disponíveis à sociedade.

Considerações finais

Os tempos atuais conduzem à busca contínua por maior competitividade


sistêmica. Neste sentido, destoa a importância das Universidades não apenas
como formadora de mão-de-obra qualificada, mas, também, por sua capacidade
de produção científica e tecnológica. Assim, as universidades passaram a ser
vistas como fonte principal de inovações.
Neste contexto, o argumento da “Hélice Tripla” tem ganhado espaço nas
discussões sobre a relação Universidade-Empresa. De acordo com esta
abordagem, percebe-se um crescente número de contratos entre empresas e
universidades com vistas ao desenvolvimento econômico. De outra forma, a
competitividade da empresa passa a ser entendida como resultado de sua
capacidade de aprendizado. Assim sendo, a universidade passa a ser percebida
como um agente privilegiado desse entorno à medida que age em duas frentes:
formando o egresso demandado pela empresa e interagindo com essas no
processo de geração de inovação.
Dado este cenário, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS), por sua Faculdade de Administração, Contabilidade e Economia firmou
uma parceria com a empresa XP Investimentos constituindo o Laboratório de
Mercado de Capitais (LABMEC). Tendo como objetivo inicial a disseminação do
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 117

conhecimento sobre o mercado de capitais, o LABMEC é aberto ao público


servindo como locus de interação entre a legitimidade do conhecimento teórico
oferecido pela Universidade e a velocidade do conhecimento prático viabilizado
pela XP Investimentos.
Com pouco mais de dois anos de existência, o LABMEC já promoveu
cerca de 3 milhões de horas de capacitação gratuita disponíveis à toda
sociedade. Servindo como local de interação para pessoas interessadas no tema,
registrou aproximadamente 16 mil visitas. Em 2009, adaptando-se às exigências
do mercado diante da crise econômica mundial, PUCRS e XP Investimentos
identificaram a necessidade de ampliar a atuação do laboratório focando suas
ações no tema (Re)educação financeira. Com isto, o LABMEC promoveu, entre
palestras gratuitas e cursos de extensão, 1.326 horas de capacitação, atendendo
um total de cerca de 27,4 mil pessoas.
O desafio que se coloca é ampliar a abrangência do laboratório
qualificando mais pessoas e trazendo mais empresas parceiras e instituições
públicas de regulação do mercado de capitais como a Comissão De Valores
Mobiliários (CVM), sem, contudo, deixar esmorecer o sucesso da relação da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e a empresa XP
Investimentos.

Referências bibliográficas

DAGNINO, Renato. A relação universidade-empresa no Brasil e o argumento da


“hélice tripla”. Revista Brasileira de Inovação, Rio de Janeiro: FINEP, v.2, n. 2, p.
267-307, 2003.

DOSI, G.; SOETE, L. “The nature of the innovative process”, in Dosi, G.; Soete, L.
(orgs.), Technical Change and Economic Theory. Londres: Pinter Publishers,
1988.

LASTRES, Helena M. M., CASSIOLATO, José E. e ARROIO, Ana (orgs.).


Conhecimento, Sistemas de Inovação e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Editora
UFRJ/Contraponto. Coleção Economia e Sociedade, 2005.

PUCRS. Plano Estratégico da PUCRS, 2001-2010. Porto Alegre : EPECÊ, 2000.

______. Relatório de Desempenho do Laboratório de Mercado de Capitais, 2006-


2009 (mimeo).
BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS BIOMÉDICAS
INTEGRANDO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO PARA RESOLVER UM
PROBLEMA DE CONSERVAÇÃO AMBIENTAL E SAÚDE PÚBLICA

INTEGRATING TEACHING, RESEARCH AND PUBLIC OUTREACH TO SOLVE


A PROBLEM IN ENVIRONMENTAL CONSERVATION AND PUBLIC HEALTH

Bicca-Marques, Júlio César; PhD; Faculdade de Biociências - PUCRS


jcbicca@pucrs.br

Resumo

O surto de febre amarela silvestre que provocou a morte de sete pessoas e


de centenas de bugios no Rio Grande do Sul desde outubro de 2008 espalhou
pânico na população. O medo do avanço da doença e a desinformação acerca do
papel dos bugios na vigilância da circulação do vírus amarílico levaram
moradores de muitas regiões a exterminar os macacos das matas próximas as
suas residências. Devido à gravidade da situação e sua influência na
conservação do bugio-preto e do bugio-ruivo, espécies ameaçadas de extinção
no Estado, foi lançada a campanha “Proteja seu Anjo da Guarda”. A campanha
tem como objetivo principal esclarecer a população e a mídia acerca do
importante papel dos bugios no combate à febre amarela, salientando que eles
não são os responsáveis pelo ressurgimento dessa enfermidade de origem
africana, sua transmissão ou seu rápido avanço no Estado. A campanha conta
com a participação e o apoio de instituições educacionais, científicas,
governamentais das áreas de saúde e meio ambiente, religiosas e ONGs. Essa
aliança em prol da conservação da biodiversidade e da saúde pública tem sido
eficiente na alteração da qualidade das matérias veiculadas pela mídia, mas
ainda requer um grande esforço para atingir a sensibilização desejada da
população.

Palavras-chave: Conscientização ambiental, febre amarela, bugio.


120 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Abstract

The yellow fever outbreak that caused the death of seven people and
hundreds of howler monkeys since October 2008 in the State of Rio Grande do
Sul spread panic among the population. The fear of the disease and the lack of
information about the role played by howler monkeys in the surveillance of virus
circulation led inhabitants of several regions to exterminate the monkeys from the
forests near their homes. Because of the severity of this situation and its effect on
the conservation of black-and-gold and brown howler monkeys, species
threatened with extinction in the State of Rio Grande do Sul, a campaign named
“Protect our Guardian Angels” was launched to inform the public and the media
about the important role howler monkeys play in fighting yellow fever, stressing
that the monkeys are not responsible for the re-emergence of this African disease,
its transmission or its fast spread within the State. The campaign is run and
supported by educational, scientific, governmental (health- and environment-
related) and religious institutions and NGOs. This alliance of a wide range of
institutions in favor of biodiversity conservation and public health has been
effective in changing the quality of the news transmitted by the media, but still
requires a great effort to achieve the necessary level of population awareness.

Keywords: Environmental awareness, yellow fever, howler monkey.

Introdução

As últimas décadas testemunharam um crescimento explosivo da


população humana mundial. Segundo as NAÇÕES UNIDAS (2009), éramos 2
bilhões de habitantes em 1927, pouco mais de 2,5 bilhões em 1950 e quase 5,3
bilhões em 1990. Em 2005, já havíamos ultrapassado a marca dos 6,5 bilhões de
habitantes. Esse crescimento ampliou a demanda por recursos naturais e espaço
para fornecer alimento, vestuário e habitação para a humanidade, a qual aliada a
um modelo de desenvolvimento predominantemente capitalista, consumista e
poluidor têm promovido um nível de impacto sobre os ambientes naturais sem
precedentes na história.
Especialistas acreditam que a Terra já é incapaz de suprir de maneira
sustentável as necessidades da humanidade e a degradação ambiental e as
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 121

alterações climáticas são consequências diretas da pressão exercida sobre a


biosfera por essa população crescente (DANILOV-DANIL’YAN et al., 2009;
WACKERNAGEL e REES, 1996). Além de promover a pobreza, a desigualdade
social e a erosão de valores morais e éticos tradicionais, essas alterações
ambientais e o modelo prevalente de relação do homem com a natureza ao redor
do mundo têm facilitado o ressurgimento e a emergência de doenças infecciosas
que afligem a humanidade (LAFFERTY, 2009; MCMICHAEL e POWLES, 1999;
TOL et al., 2007).
O Estado do Rio Grande do Sul é um bom exemplo dessa nova realidade.
Na última década, os profissionais do Centro Estadual de Vigilância em Saúde
(CEVS) da Secretaria Estadual de Saúde (SES) têm investido esforços no
combate e prevenção a doenças infecciosas tradicionalmente tropicais, tais como
a dengue, a febre amarela e a leishmaniose (BERCINI et al., 2008; CARDOSO et
al., 2008; SANTOS et al., 2005, 2007). Em 2001, o Estado foi surpreendido por
uma epizootia de febre amarela silvestre que levou à morte uma grande
quantidade de bugios-pretos (Alouatta caraya) em alguns municípios da região
noroeste. Os moradores dos municípios afetados foram vacinados e, desde
então, a Divisão de Vigilância Ambiental do CEVS realiza o monitoramento da
população humana, a coleta de mosquitos silvestres vetores da doença
(Haemagogus leucocelaenus) e a captura de bugios-pretos e bugios-ruivos
(Alouatta guariba clamitans) para coleta de sangue em muitas regiões do Estado
visando a detecção da circulação do vírus (SANTOS et al., 2006; TORRES et al.,
2003, 2004).
Apesar desses esforços, uma nova epizootia de febre amarela silvestre foi
detectada na mesma região do Rio Grande do Sul no final de 2008. Essa
epizootia se alastrou rapidamente pelo Estado com consequências mais
devastadoras para as populações de bugios-pretos e bugios-ruivos e provocando
a morte de algumas pessoas. Além da mortalidade provocada pela doença, os
bugios estão sendo vítimas da desinformação. Como eles são extremamente
sensíveis à doença e podem vir a óbito num período de 3 a 7 dias após serem
picados por um mosquito infectado (BRASIL, 2005), a crença de que seriam os
responsáveis pela ocorrência e disseminação da febre amarela no Estado se
espalhou propagada, especialmente, por notícias divulgadas pela mídia.
122 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Concomitante à divulgação da ampliação da área de risco de febre


amarela no Estado em decorrência da observação de bugios mortos, a mídia
começou a divulgar denúncias de que a população de algumas regiões estava
perseguindo os animais por medo do avanço da doença. Essa situação exigiu a
discussão de estratégias de sensibilização da população por parte de instituições
preocupadas com a proteção dos bugios, a qual foi coordenada pela bióloga
M.Sc. Soraya Ribeiro da Equipe de Fauna Silvestre da Secretaria Municipal do
Meio Ambiente de Porto Alegre (SMAM). Essa situação foi relatada na seção
“Conservation News” do periódico científico internacional “Oryx – The
International Journal of Conservation” (BICCA-MARQUES, 2009). A primeira ação
foi a elaboração de cartazes pelas equipes da SMAM, cuja primeira tiragem foi
financiada pela Sociedade Brasileira de Primatologia, e da Secretaria do Meio
Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul (SEMA) (Figura 1).
Continuava-se discutindo ações que pudessem reduzir o impacto da
doença sobre os bugios quando no dia 2 de abril de 2009 recebi uma mensagem
eletrônica da Dra. Thaïs Leiroz Codenotti da Associação para a Conservação da
Vida Silvestre, ONG de Passo Fundo, que realiza levantamentos populacionais de
primatas em várias regiões do Estado. A mensagem eletrônica relatava
informações confiáveis de que as pessoas estavam matando os bugios,
especialmente por envenenamento, e que os animais já haviam desaparecido de
muitas áreas monitoradas. Essa situação não podia ser negligenciada e requeria
uma estratégia mais contundente e abrangente. Decidi na noite do mesmo dia
lançar individualmente uma campanha na internet, pois senti a necessidade de
agir imediatamente. Como os bugios são considerados importantes sentinelas da
circulação do vírus amarílico pelo próprio Ministério da Saúde (JERUSALINSKY
et al., 2008), resolvi denominá-la campanha “Proteja seu Anjo da Guarda”.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 123

Figura 1 - Cartazes produzidos pela SMAM (esquerda) e SEMA (direita).

Objetivos

A campanha “Proteja seu Anjo da Guarda” visa estancar o processo de


perseguição aos macacos por meio da difusão de informações científicas
acessíveis para a população e os meios de comunicação esclarecendo o
importante papel desempenhado pelos bugios no combate à febre amarela e
salientando que eles não são os responsáveis pela existência da doença, pela
atual epizootia e pelo seu rápido avanço no Estado. Além disso, a campanha visa
reforçar a importância da vacinação e do combate aos focos do vetor da febre
amarela no ambiente urbano, o mosquito Aedes aegypti, como medidas
preventivas da contração da doença e de sua urbanização.

Descrição do processo de inovação desenvolvido

Por sugestão da Assessoria de Comunicação (ASCOM) da PUCRS redigi,


na manhã do dia 3 de abril, um texto para ser enviado aos jornais de Porto
Alegre. Esse texto também foi imediatamente repassado para os alunos das
disciplinas de Ecologia Geral II e Ecologia Aplicada do curso de Ciências
Biológicas com o pedido de que fosse amplamente divulgado. Assinei o texto com
meu nome completo, filiação profissional, endereço, telefones e link para meu
currículo a fim de expressar sua legitimidade. Na noite do mesmo dia, o texto foi
124 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

publicado na íntegra no site da OSCIP Defender – Defesa Civil do Patrimônio


Histórico de Cachoeira do Sul por indicação do aluno de Ecologia Geral II Paulo
Cesar Patta.
Com um mês de campanha, o texto já havia sido veiculado em mais de 80
sites na internet, no blog da campanha
(http://ameacafebreamarela.wordpress.com/) desenvolvido e gerenciado pelo
mestrando David Santos de Freitas e na seção Superdicas do informativo PUCRS
Notícias no 293 (15 a 21 de abril). Sua mensagem também foi divulgada em
vários jornais (Gazeta de Rosário: 7 de abril; Correio do Povo: 8 de abril; Jornal
do Povo [Cachoeira do Sul]: 14 de abril; A Razão [Santa Maria]: 22 de abril; O
Estado de São Paulo: 29 de abril; Diário Gaúcho: 4 de maio; Zero Hora: 5 de
maio), em reportagem da TV Record que foi ao ar no dia 11 de abril e em
entrevistas a mais de 10 rádios com diferentes audiências. No dia 26 de abril, por
exemplo, participei do Programa Galpão do Nativismo com Dorotéo Fagundes na
Rádio Gaúcha por sugestão da aluna de Ecologia Aplicada Márcia Radaieski
Cunda. O programa teve a participação do famoso tradicionalista gaúcho J. C.
Paixão Côrtes que contou histórias sobre a origem do ritmo musical bugio,
inspirado no ronco e nos hábitos desses animais. Também participei dos
programas Pop Night Show da Rádio SP3, Sintonia da Terra do Núcleo de
Ecojornalistas do RS na Rádio da UFRGS e Conexão Regional da Rádio Santa
Cruz. Uma única entrevista concedida à Agência Radioweb teve 130
aproveitamentos por 122 rádios (69 comerciais, 51 comunitárias e 3 educativas)
de 101 cidades, especialmente gaúchas, com uma cobertura potencial de mais de
6,5 milhões de habitantes apenas nos dias 14 e 15 de abril. O texto da campanha
também foi utilizado para realizar um pedágio de conscientização organizado pela
Escola Técnica Estadual Dr. Rubens da Rosa Guedes de Caçapava do Sul.
Em reunião realizada no dia 23 de abril na sede do CEVS por solicitação
do biólogo M.Sc. Leandro Jerusalinsky, chefe do Centro de Proteção de Primatas
Brasileiros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e com a
presença de biólogos, veterinários e jornalistas da maioria das instituições locais
e estaduais envolvidas na questão ficou acertado que a campanha “Proteja seu
Anjo da Guarda” seria “adotada” pelas demais instituições (Figura 2). O convite à
Regional Sul 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil foi uma sugestão do
Prof. Dr. Pe. Érico José Hammes da Faculdade de Teologia da PUCRS, após o
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 125

aluno Régis Rafael Hryçai da disciplina Ecologia Geral II ter salientado a


importância da Igreja Católica como instituição formadora de opinião,
especialmente no interior do Estado. A CNBB enviou o texto a todas as dioceses
do Estado, ampliando significativamente a área de abrangência da campanha.

Sociedade Brasileira de
Pi l i

Figura 2 - Instituições participantes da campanha “Proteja seu Anjo da Guarda”.

Além das instituições participantes, as informações divulgadas pela


campanha foram legitimadas pelo apoio dos seguintes órgãos governamentais,
sociedades científicas, universidades e ONGs entre outros: Ministério da Saúde
(Secretaria de Vigilância em Saúde e Centro Nacional de Primatas), Sociedade
Brasileira de Parasitologia, Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Asociación
Mexicana de Primatología, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(Faculdade de Biociências, Museu de Ciências e Tecnologia e Instituto do Meio
Ambiente), One Earth Institute/EUA, Centro de Investigaciones del Bosque
Atlântico do Instituto de Biología Subtropical/Argentina, Departamento de
Vigilância Ambiental de Cachoeira do Sul, Instituto Orbis de Proteção e
Conservação da Natureza de Caxias do Sul e Rádio Santa Cruz de Santa Cruz do
Sul.
126 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Com a adesão dessas instituições à campanha, o texto foi atualizado. A


linguagem utilizada e a ausência de referências bibliográficas visam torná-lo mais
acessível para o público leigo. O novo texto é transcrito a seguir:

“Campanha “Proteja seu Anjo da Guarda”!

A febre amarela é uma doença infecciosa de origem africana causada por


um vírus que é transmitido por mosquitos. Existem dois tipos: a febre amarela
urbana, erradicada do Brasil em 1942, e a febre amarela silvestre. Os vetores
(agentes responsáveis pela transmissão) da forma silvestre são mosquitos dos
gêneros Haemagogus e Sabethes, enquanto a forma urbana pode ser transmitida
pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue.
A febre amarela silvestre já provocou a morte de algumas pessoas e de
muitos bugios em uma extensa área do Rio Grande do Sul desde o final de 2008.
No entanto, ao contrário da maioria das pessoas, os bugios são extremamente
sensíveis à doença, morrendo em poucos dias após contraí-la. Esses macacos já
estão ameaçados de extinção no Estado devido à destruição de seu habitat
natural (as florestas), à caça e ao comércio ilegal de mascotes.
Infelizmente, os bugios também estão sendo vítimas da doença e da falta
de informação da população. Inúmeros relatos indicam que habitantes das
regiões de ocorrência do bugio-preto e do bugio-ruivo estão matando os animais,
principalmente por envenenamento, por medo do avanço da doença.
Além de ilegal e de tornar mais crítico o estado de conservação desses
animais, essa atitude é extremamente prejudicial para o próprio homem. A morte
de bugios por febre amarela alerta os órgãos de saúde locais sobre a circulação
do vírus na região, os quais promovem campanhas de vacinação da população
humana, como se tem observado em mais de 200 municípios do Estado. O
Ministério da Saúde considera esses macacos importantes “sentinelas” da
circulação do vírus. Portanto, os bugios são nossos “ANJOS DA GUARDA”! Se
eles forem mortos pelo homem, descobriremos que a febre amarela chegou a
determinada região apenas quando as pessoas contraírem a doença. E talvez já
seja tarde para algumas (ou muitas) ...
Os bugios NÃO transmitem a febre amarela para o homem e NÃO são os
responsáveis pelo rápido avanço da doença no Estado. Eles são as principais
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 127

vítimas. As mudanças climáticas e a degradação ambiental provocadas pelo


homem são as principais responsáveis pelo recente aparecimento de inúmeras
doenças infecciosas no Estado. Especialistas acreditam que o avanço da doença
tem sido facilitado pelo deslocamento de pessoas infectadas ou pela dispersão
dos mosquitos ou por outro hospedeiro ainda desconhecido.
Perguntamos: “Você mataria o seu anjo da guarda?””

O texto da campanha também foi enviado por correio eletrônico para


alguns artistas gaúchos e para todos os vereadores de Porto Alegre. Apenas o
vereador Paulinho Rubem Berta respondeu a mensagem com um convite para
participarmos do evento de comemoração do 22º aniversário do Bairro Rubem
Berta. Por iniciativa dos estudantes do Laboratório de Primatologia, em especial
os mestrandos Elenara Véras dos Santos e David Santos de Freitas, foi
elaborada uma peça teatral intitulada “O ronco, o zumbido e a febre amarela” que
foi apresentada no dia 25 de abril (Figura 3). A peça contém três músicas em
diferentes ritmos, incluindo o funk “Bugio 40oC” de autoria de MC Vacinou (Felipe
Ennes Silva, mestrando do Laboratório de Primatologia) e MC Imunizou (Rodrigo
Ennes da Cunha). Pelo menos outras três apresentações em locais públicos de
Porto Alegre já estão programadas para os meses de maio e junho de 2009.
A campanha também envolve a divulgação das informações através de
palestras para diversos públicos. A palestra “A febre amarela silvestre no Rio
Grande do Sul: doença e desinformação ameaçam os bugios” foi apresentada na
Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre a convite do Programa
CRIAR (Conscientizar, Reeducar, Inovar, Agir e Racionalizar) e na Universidade
Luterana do Brasil/Guaíba a convite da Diretoria de Meio Ambiente e
Sustentabilidade da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Guaíba.
Essa palestra também foi proferida para estudantes de graduação da PUCRS e
estudantes do Ensino Fundamental do Colégio Marista Champagnat participantes
do Clube de Ciências coordenado pelas Profas. M.Sc. Berenice Alvares Rosito e
Dra. Melissa Guerra Simões Pires da Faculdade de Biociências.
A iniciativa independente do médico veterinário Elisandro Oliveira dos
Santos do Zoológico Municipal de Canoas e do Pampas Safari de produzir um
vídeo educativo sobre a relação do bugio e a febre amarela também tem
contribuído com a sensibilização pública. O vídeo está disponível no site YouTube
128 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

(http://www.youtube.com/watch?v=b9VI10R8jkA&feature=related) e já foi exibido


mais de 12.000 vezes (considerando as versões original e atualizada juntas).

Figura 3 - Autores e atores da peça teatral “O ronco, o zumbido e a febre amarela”. Da esquerda
para a direita: Danusa Guedes (mãe), Anamélia de Souza Jesus (bugio-ruivo fêmea), Marina
Ochoa Favarini (mosquito), Elenara Véras dos Santos (bugio-ruivo fêmea), Jonas da Rosa
Gonçalves (bugio-ruivo macho), David Santos de Freitas (filho), Leonel de Souza Martins (pai) e
Júlio César Bicca-Marques (narrador).

Resultados obtidos

Em relação à qualidade da informação divulgada pela mídia pode-se


considerar que a campanha “Proteja seu Anjo da Guarda” atingiu grande parte de
seus objetivos. A mudança de atitude é clara na maioria das reportagens
veiculadas por jornais, programas de televisão, rádios e internet sobre a febre
amarela e sua relação com os bugios. Mesmo naquelas reportagens que relatam
a morte de bugios, os animais já não são tratados como responsáveis pela
infecção dos mosquitos que depois transmitem o vírus para o homem. Uma breve
descrição da doença publicada no jornal Correio do Povo do dia 3 de maio ilustra
essa mudança: “Febre amarela – Doença infecciosa causada por um flavivírus,
transmitida por mosquitos. Ocorre só na América Central, na América do Sul e na
África. No Brasil, a doença é adquirida quando uma pessoa não vacinada entra
em áreas de transmissão silvestre. A transmissão ocorre se o mosquito picar uma
pessoa infectada e, com o vírus multiplicado, picar quem ainda não teve a doença
e que não foi vacinado.”
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 129

Infelizmente, no entanto, continuam as denúncias de perseguição aos


bugios em várias regiões do Estado. Essa informação sugere que a parcela da
população que vive próxima a áreas florestais habitadas por bugios e que tem
pouco ou nenhum acesso à internet ainda não foi devidamente sensibilizada ou
não crê na “nova” informação difundida pelos meios de comunicação.

Considerações finais

A campanha “Proteja seu Anjo da Guarda” se destaca por aliar um


problema de saúde pública à conservação ambiental e por transmitir uma
mensagem com base científica em linguagem acessível para o grande público. A
valorização da participação de atores multiplicadores de diversas áreas de
atuação vinculados à academia, órgãos governamentais, ONGs, clínicas
veterinárias e igreja foi essencial para legitimar a informação, ampliar o alcance
da campanha e qualificar as informações veiculadas pela mídia. Por fim, o
reconhecimento da importância do engajamento dos estudantes universitários na
divulgação da campanha e na participação nas suas ações representa um
aspecto de grande relevância no sucesso alcançado na sensibilização da
população.

Referências bibliográficas

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BANCO DE DADOS EM SAÚDE BUCAL
UMA FORMA INOVADORA DA DESCOBERTA DO CONHECIMENTO NA
ODONTOLOGIA.

ORAL HEALTH DATABASE


AN INNOVATIVE WAY OF KNOWLEDGE DISCOVERY IN DATABASE IN
DENTISTRY

Mota, Eduardo Gonçalves; PhD; Faculdade de Odontologia - PUCRS


Figueiredo, José Antônio Poli de; PhD; Faculdade de Odontologia - PUCRS
Ruiz, Duncan Dubugras; PhD; Faculdade de Informática - PUCRS
Blomberg, Luciano Costa; Faculdade de Informática - PUCRS

Resumo:

O objetivo deste artigo é documentar a condução do estudo realizado em


cooperação dos programas de pós-graduação em Odontologia (PPGO) e
Ciências da Computação (PPGCC) da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. O Banco de Dados em Saúde Bucal teve como objetivo a criação
de um ambiente de armazenagem, organização e recuperação dos dados de
procedimentos clínicos. Durante o período de três meses, entrevistas semi-
estruturadas foram realizadas em cinco áreas de atendimento ondotológico da
Faculdade de Odontologia (FO-PUCRS) a fim de se determinar a estrutura e
análise dos dados. Com base nas informações obtidas neste processo, modelos
lógicos, conceituais e físicos do banco de dados foram gerados assim como um
script em SQL (Structured Query Language). A ferramenta Oracle SQL Developer
(Oracle Corporation, Redwood Shores, CA, USA) foi usada para importar e criar o
BDSB (Banco de Dados em Saúde Bucal) implementado em Oracle 10g, um
sistema de gerenciamento relacional de banco de dados. A criação do BDSB em
conjunto dos programas de pós-graduação não só representa um importante
avanço na automatização das demandas operacionais, mas também é útil para a
exploração de uma valorosa fonte de conhecimento, rica em informações clínicas
e sociais.
132 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Palavras-chave: saúde bucal, modelagem de dados, banco de dados.

Abstract:

The aim of this article was to document the study conducted in the Post-
graduation programs in Dentistry (PPGO) and Computational Science (PPGCC),
at the Pontifical Catholic University of Rio Grande do Sul (PUCRS), with the view
to building environment for storage, organization and recovery of data from
clinical records. During a period of three months, semi-structured interviews were
held with five areas of dental attendance connected with the Dental School (FO-
PUCRS) for requirement collection and analysis. Based on the information
obtained in this process, conceptual, logical and physical models of the database
were developed, as well as the generation of a script in SQL (Structured Query
Language). After generating the script, the tool Oracle SQL Developer (Oracle
Corporation, Redwood Shores, CA, USA) was used to import and create the
OHDB (Oral Health Database) implemented in the Oracle 10g, a relational
database management system (RDBMS). Building the OHDB in conjunction with
PPGO-PUCRS not only represents an important advance towards automating the
organization’s operational demands, but is also particularly useful for exploiting a
valuable source of knowledge, rich in clinical and social information.

Keywords: Oral health, data modeling, database.

Introdução

A história atual da ciência tem nos mostrado uma mudança radical na


forma da produção do conhecimento. Este vem substituindo o acúmulo simples e
puro da informação extremamente especializada pelo uso mais eficaz e aplicável
dos resultados obtidos na sociedade. Baseado neste pressuposto, os autores
identificaram uma necessidade frente a crescente geração de dados clinico e dos
acumulados ao longo dos últimos 50 anos da Faculdade de Odontologia. O que
fazer com a informação? Como obter conhecimento da produção gerada ao longo
dos anos? De que forma as opções tomadas nas manobras clínicas impactaram
na qualidade dos serviços prestados? É preciso, então, tornar os dados contidos
nos formulários de papel em conhecimento na forma de identificação de métricas
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 133

e indicadores da saúde bucal, assim como, em uma ferramenta administrativa


para tomada de decisões.
Mediante esta limitação torna-se necessário à adoção de algum recurso
que possa processar este volume de dados e transformá-los em informação. Na
literatura identificaram-se alguns trabalhos [5] [8], embora não especificamente
em saúde bucal, que propõem o uso de ferramentas OLAP (Online Analytical
Processing) para análise de data warehouses médicos. Por outro lado, identificou-
se também, outro conjunto de publlicações [1] [2] [6] [7] que aborda este o mesmo
problema, porém, pelo uso da estatística descritiva em ferramentas como Excel e
SPSS.
Este artigo tem como objetivo propor um modelo analítico para indicadores
em saúde bucal, tendo como ponto inicial, o trabalho realizado junto à Faculdade
de Odontologia da PUCRS e suas unidades de atendimento odontológico. Como
resultado deste trabalho preliminar criou-se um BDSB (Banco de Dados em
Saúde Bucal). Por razões de conveniência, decidimos embasar o modelo analítico
especificamente sobre os dados do CEU Vila Fátima, os quais julgam-se de maior
relevância e representatividade.

Caso:

No intuito de conservar esta base histórica e viabilizar o resgate de


informações relevantes à pesquisa, como indicadores em saúde bucal,
desenvolveu-se em parceria com o PPGCC-FACIN um ambiente para
armazenamento, organização e recuperação destes dados.
Para tanto, foi realizado, durante o período de aproximadamente três
meses, um processo de coleta de dados, obtidos por meio de entrevistas semi-
estruturadas junto aos professores representantes das unidades de atendimento
odontológico vinculadas à Faculdade de Odontologia da PUCRS. Compondo
estas unidades estão: o Centro de Extensão Universitária Vila Fátima (Unidade de
Saúde SUS), o Hospital São Lucas (Serviço de Estomatologia) e o CERLAP
(Centro de Reabilitação de Fissuras Lábio-palatinas).
Nas entrevistas realizadas, coletaram-se informações referentes ao
processo de armazenamento dos dados nestas unidades, gerando-se ao final
desta etapa, uma documentação composta pela ata de reunião e por um modelo
134 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

conceitual (diagramas de classe) em notação UML (Unified Modeling Language).


Para esta etapa de modelagem utilizou-se a versão freeware do software Jude
Community.
Após finalizada a primeira rodada de entrevistas com os professores das
unidades de atendimento odontológico, buscou-se analisar a documentação
gerada para cada uma delas, de forma que fosse possível compilar estes dados
em um único modelo. Ao final do processo de modelagem foram identificadas 92
classes, 202 atributos e 96 associações. Por questões de melhor apresentação e
compreensão dos dados, o modelo resultante deste trabalho é apresentado na
figura 1 apenas com suas principais classes, extraindo-se desta forma algumas
especializações e classes auxiliares de menor relevância a compreensão do
modelo.

Figura 1 – Modelo operacional.

Uma vez elaborado o modelo conceitual, buscou-se validá-lo junto aos


professores da Faculdade de Odontologia envolvidos no processo de coleta de
dados. Ao final desta etapa, foram realizadas correções na nomenclatura de
algumas classes, visando-se adequá-las a uma linguagem mais comumente
utilizada na área de odontologia. Posteriormente, obteve-se uma amostra dos
prontuários com os dados a serem apreendidos, onde foram realizados alguns
ajustes nos relacionamentos e na tipagem dos atributos do modelo, que não
correspondiam com a forma de preenchimento dos prontuários.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 135

Realizados os ajustes finais no modelo conceitual, utilizou-se a ferramenta


freeware DBDesigner 4 para a implementação do modelo lógico de dados. Neste
modelo foram definidas as chaves primárias e estrangeiras para o Banco de
Dados em Saúde Bucal. Realizado este processo, foi gerado um script SQL
(Structured Query Language) e posteriormente importado dentro do SGBD Oracle
10g.
A partir da criação do Banco de Dados em Saúde Bucal, buscou-se inserir
a amostra de dados disponibilizada, visando testar a aderência destes dados ao
banco projetado. Realizadas pequenas adequações, planeja-se a fase de
apreensão dos dados, onde inicialmente pretende-se inserir no BDSB um volume
de aproximadamente dois mil prontuários, referentes à aproximadamente 25 anos
anos de atendimento no CEU Vila Fátima.
Esta escolha justifica-se por uma série de razões, entre elas a
possibilidade de apreensão de dados em curto período de tempo e principalmente
pela relevância dos dados ali manipulados, uma vez que o CEU Vila Fátima é
uma unidade vinculada ao SUS que por sua vez, apoia-se em uma série de
indicadores para avaliação da qualidade de seus serviços.
Durante boa parte do trabalho realizado até este momento, buscamos
ressaltar a importância da análise de dados como um precioso recurso na
obtenção de informações gerenciais. Neste sentido, vimos em seções anteriores
que importantes indicadores são gerados a partir deste processo de análise, seja
pela aplicação de ferramentas estatísticas, ou seja, pelo desenvolvimento de
modelos analíticos aplicados em data warehouses médicos.
Dadas estas considerações, podemos observar que apesar de tratar-se de
abordagens diferentes, ambas referem-se a um mesmo processo: KDD
(Knowledge Discovery in Database). Para o seguimento deste trabalho, é
importante entendermos alguns conceitos e características relacionadas a este
processo.
Segundo Fayad [2], KDD é o processo não trivial de identificação de novos
padrões válidos, potencialmente úteis e compreensíveis em conjuntos de dados.
No entanto, como etapa preliminar à obtenção de conhecimento no processo de
KDD, é necessário que o conjunto de dados a ser analisado seja armazenado em
um ambiente conciso e confiável. Neste sentido, data warehouses tem se
mostrado um recurso fundamental dentro da arquitetura de KDD.
136 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Segundo Inmon [3], um data warehouse é um conjunto de dados baseado


em assuntos, integrado, não volátil, e variável em relação ao tempo, de apoio a
decisões gerenciais. Uma popular abordagem para análise de data warehouses é
chamada de online analytical processing (OLAP)[5]. Segundo Machado [4], as
ferramentas OLAP são as aplicações às quais os usuários finais têm acesso para
extrair os dados de suas bases e construir relatórios capazes de responder as
suas questões gerenciais.
Ferramentas OLAP são utilizadas no desenvolvimento de modelos
analíticos que constituem uma representação de estruturas de armazenamento
de dados, o qual sua organização facilita o processo de descoberta de
conhecimento.
Existem três tipos principais de modelo analítico:
• Modelo Estrela – o modelo estrela caracteriza-se, basicamente, por
conter uma única tabela fato e várias dimensões;
• Modelo Floco de Neve – o modelo floco de neve é uma variante do
modelo estrela, diferindo-se por admitir que as tabelas dimensões
formem hierarquias com relacionamentos entre si;
• Modelo Constelação de Fatos – o modelo constelação de fatos admite
múltiplas tabelas fato compartilhando suas tabelas dimensões entre
outras tabelas. Este tipo de modelo pode ser visto como uma coleção de
estrelas.
Trazendo-se para o contexto do estudo realizado junto á Faculdade de
Odontologia, buscou-se apresentar na figura 2, a seguinte arquitetura de data
warehouse.

Figura 2 – Arquitetura data warehouse dentro de um ambiente de KDD.


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 137

Ao final deste processo, o módulo de exploração da ferramenta


DBDesigner 4 foi usada para gerar o script na linguagem SQL com as
especificidades do Banco de Dados em Saúde Bucal como mostrado na figura 3.

Figura 3 – Script em SQL gerado no software DBDesigner 4.

Considerações finais

A criação do Banco de Dados em Saúde Bucal em conjunto dos programas


de pós-graduação em Odontologia e Ciências da Computação apresenta uma
grande contribuição, não apenas devido ao volume de dados envolvido, mas
também pela sua diversidade (textos, números e dados temporais) e das áreas de
conhecimento aplicadas neste estudo. Além do mais, a construção de tal banco
de dados fornecerá uma série de benefícios à organização, tais como a
automação das demandas operacioanais pelo desenvolvimento de sistemas
administrativos, mas principalmente à pesquisa pela exploração da rica base de
informações clínicas e sociais.

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[7] STEINER, M. T. A. et al. Abordagem de um problema médico por meio do


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[8] ZHOU, X. et al. Building Clinical Data Warehouse for Traditional Chinese
Medicine Knowledge Discovery. Internacional Conference on BioMedical
Engineering and Informatics. v1, p615-620, Sanya, 2008.
A FORMAÇÃO DE UMA REDE DE PESQUISA CIENTÍFICA ATRAVÉS DA
CRIAÇÃO DE UMA “LIGA DA PESQUISA CIRÚRGICA”

THE FORMATION OF RESEARCH MEDICAL THROUGH THE CREATION OF


CHIRURGICAL RESEARCH LEAGUE.

Prof. Dr. Jefferson Braga Silva jeffmao@terra.com.br


Lucas Colomé lucascolome@hotmail.com
Alessandra Sebben adsebben@gmail.com
Martina Lichtenfels martinalichtenfels@hotmail.com
Marcelo Rabello marcelocrabelo@yahoo.com.br

Resumo

A iniciação científica é conhecida por todos como a maneira mais


adequada de introduzir o jovem aluno à interrogação, ao questionamento e a
pesquisa científica. Esses serão os pesquisadores e professores responsáveis
pelo avanço da ciência e produção de meios para o bem social.
Educar, instruir e mostrar o “savoir faire” é assunto dos mais experientes,
aqueles que já enfrentaram as dificuldades do novo, do inesperado e sobretudo
do inusitado na ciência e em seus desdobramentos. Desta parceria entre
novidade e experiência buscou-se motivação para a construção de conhecimento.
O objetivo primordial da criação de uma Liga de Pesquisa Cirúrgica foi de
organizar um grupo de alunos engajados em rede com os alunos da pós-
graduação e pesquisadores em clínica cirúrgica da pós-graduação em medicina
da PUCRS.
Para a formação da rede os atores devem estar comprometidos e
motivados para interligar alunos da graduação, alunos da pós-graduação e
orientadores. Alunos da graduação materializam o auxílio nas revisões
bibliográficas, desenvolvimento de modelos experimentais, avaliação dos
resultados e treinamentos de habilidades macro e microcirúrgicas.
A experiência da criação da Liga e a formação da rede de pesquisa tem
sido extremamente valiosa e proveitosa a todos os atores envolvidos. Reuniões
mensais com 51 alunos da graduação dos quatro primeiros semestres de atuação
140 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

ativa e produtiva e 12 alunos de pós-graduação de mestrado e doutorado são


estimulantes para os pesquisadores.
O estabelecimento da rede visa ainda criar a oportunidade de
colaborações, convênios e associações com outras entidades públicas e
privadas, seja na pesquisa ou na promoção de atividades de formação
profissional. Essa união dos projetos entre alunos de graduação e pós-graduação
certamente evoluirá para o desenvolvimento de projetos inovadores, produção de
conhecimento e novos parceiros da iniciativa privada.

Palavras-chave: conhecimento científico, inovação, pesquisa.

Abstract

The scientific initiation is known by everyone as the most appropriate way


to introduce a young student to question and scientific research. This will become
the researchers and teachers that will evolve the science for the society’s good
purpose.
Teach, instruct and show the “savoir faire”, is a matter of the most
experienced, those who already faced the novelty difficulties, the unexpected and
mainly the unusual on science and its developments. This partnership between
experience and new was motivation for the construction of knowledge. The
PUCRS’ Chirurgical Research League’s creation’s primordial objective was
organizing an engaged students group connected with post-graduation in surgical
clinic from PUCRS’ medicine post-graduation.
To form a net the actors must be compromised and motivated on
interconnection with the graduation students’, post-graduation students and
researchers. The graduation students help comes from bibliographic revisions,
experimental models creation, results appraise and macro and microsurgery ability
training.
The experience on Research League creation and the formation of
research nets was really valuable and fruitful for all evolved actors. Mensal
meetings with 51 graduation students from the first four active and productive
acting semesters and 12 post-graduation students from master’s degree and
doctor’s degree are stimulant for researchers.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 141

This network establishment aims to create the opportunity for collaboration,


partnership, and public and private entities associations, whether in research or in
the promotion of vocational training activities. This project’s union between post
and graduation students surely will evolve into the innovative projects
development, production of knowledge and new partnerships with the private
enterprise.

Keywords: scientific knowledge, innovation, research.

Introdução

Mais do que qualquer outra atividade econômica, o processo de inovação


está intimamente relacionado ao conhecimento. As universidades, fontes
primordiais de geração de aprendizado, desempenham um papel importante na
relação entre o saber científico e o processo tecnológico. O novo papel da
informação na economia e na indústria gerou um reposicionamento da atuação
das Instituições de Ensino Superior (IES), as quais não são apenas responsáveis
pelo treinamento, mas também por fornecerem o conhecimento crucial para a
evolução de muitos setores industriais (Rapini, 2006).
Na medida em que a Ciência e a Tecnologia foram reconhecidas como
essenciais no desenvolvimento econômico, cultural e social, o ensino das
Ciências em todos os âmbitos tornou-se muito importante, sendo objeto de
inúmeros movimentos de transformações no ensino (krasilchik, 2000).
Os setores que possuem maior atividade com interações intensas com a
ciência incluem áreas tecnológicas relacionadas à engenharia genética, química
industrial, biotecnologia e microeletrônica (processamentos de dados,
componentes eletrônicos, telecomunicações) (Godin, 1996; Mansfield, 1991;
Grupp, 1996)
Frente às transformações na relação entre Economia-Universidade-
Pesquisa, evidenciou-se a necessidade da criação de metodologias para
aproximar os alunos da graduação ao método científico desde seu ingresso na
universidade. A ocorrência da integração entre estes e alunos de pós-graduação,
já familiarizados com o método científico, garante a consistência e consolidação
das pesquisas realizadas. Desta forma, criou-se a “Liga da Pesquisa Cirúrgica”.
142 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Objetivos

A Liga de Pesquisa Cirúrgica tem como objetivo reunir alunos de


graduação e pós-graduação da PUCRS e de outras instituições de ensino, como
Feevale, IPA, Univates e UFRGS que estejam engajados pelo mesmo ideal,
pretendendo aprimorar seu conhecimento científico e inseri-los em projetos de
pesquisas da área médica. A proposta visa identificar percepções, sentimentos,
atitudes e opiniões dos participantes a respeito de um determinado tema, produto
ou atividade. Também incentivar a formação de idéias ou hipóteses e estimular o
pensamento do pesquisador.

Descrição

As reuniões são mensais e ocorrem principalmente nas dependências do


Laboratório de Habilidades Médicas e Pesquisa Cirúrgica, no qual se reúnem
professores e/ou orientadores, alunos de graduação e pós-graduação da PUCRS
e de outras instituições de ensino que participam ativamente de estudos médicos.
As atividades, sob a coordenação do Professor Dr. Jefferson Braga Silva,
incluem revisões bibliográficas, criações de modelos experimentais, avaliação de
resultados e treinamentos de habilidades macro e microcirúrgicas, com ênfase em
terapia celular. Os grupos de pesquisa são organizados de maneira em que todos
os alunos da graduação estejam inseridos em algum projeto de pesquisa da pós-
graduação ou em linhas de pesquisa dos orientadores.
Em cada encontro são realizadas palestras, cujo objetivo é contribuir com
informações sobre conhecimento científico e divisão de experiências
metodológicas referentes aos diversos temas abordados em projetos, assim como
outros subsídios pertinentes.

Participantes e projetos

Atualmente, a Liga da Pesquisa Cirúrgica conta com cinquenta e um


alunos de graduação (figura 1) e doze da pós-graduação, os quais pertencem às
Faculdades de Medicina, biologia, biomedicina, veterinária e química.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 143

30%

Número de graduandos
25%

20%

15%

10%

5%

0%
1º 2º 3º 4º 5º 6º
Período/Anos cursados da graduação

Figura 1. Percentual de alunos em relação ao ano cursado.

Dentre os projetos que vêm sendo executados por alunos do Mestrado e


Doutorado, destacam-se:
• Efeito de cimento α-Fosfato Tricálcico e Plasma Rico em Plaquetas na
Regeneração de Tecido Ósseo.
• Estudo Comparativo Controlado entre a Transferência Terminolateral em
Janela de Perineuro e a Transferência Terminolateral no Tratamento do
Músculo Denervado.
• Avaliação de Biopolímeros com Células-tronco.
• Modelo Experimental em Ratos no Reparo Ósseo do Fêmur Utilizando
Células-tronco Mononucleares no Plasma Rico em Plaquetas.
• Comparação do Uso de Radiofrequencia X Hidrojet na redução do
volume do disco intervertebral/ contagem de células em campo digital em
coluna de porco(pig).
• Estudo Prospectivo Randomizado da Integração de Enxertia de Gordura
no Dorso da Mão (Após Lesões Nervosas): Comparação Entre o Método
com Centrifugação Versus sem Centrifugação.
• A Utilização do Cateter Central de Inserção Periférica no Ambiente
Hospitalar.
• Uso de Fluoresceína Sódica em Ressecção de Tumores da Base do
Crânio para a Identificação de Nervos Cranianos.
• Estudo Experimental da Utilização de Células-tronco nos Traumatismos
Raqui-Medulares.
144 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Resultados

Após sua criação em dezembro de 2008, observou-se um aumento


significativo do número de pesquisadores envolvidos com os trabalhos. O
provável motivo desse incremento na participação dos acadêmicos se dá pela
maior visibilidade de divulgação das atividades que já vinham sendo
desenvolvidas no Laboratório de Habilidades Médicas e Pesquisa Cirúrgica da
PUCRS. A Liga de Pesquisa Cirúrgica visa ainda estabelecer parcerias,
objetivando firmar convênios e associações com entidades públicas e privadas.
Estes resultados apontam para uma grande aproximação entre os alunos
de graduação e de pós-graduação, da PUCRS e de outras universidades, visando
aperfeiçoar o desenvolvimento científico e a formação de parceiros de pesquisa,
bem como a difusão de conhecimentos e consequentemente a qualificação
acadêmica e profissional dos alunos das áreas da Ciência da Saúde.

Referências Bibliográficas

RAPINI, MS. Interação Universidade-Empresa no Brasil: Evidências do Diretório


dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Estud. econ., n.º 1 (37), p. 211-233, janeiro-
março 2007.

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Paulo em Perspectiva, 14(1), p. 85-93, 2000.

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MANSFIELD, E. Academic research and industrial innovation. Research Policy,


n.º 1 (20), p. 1-12, February 1991.
ANÁLISE DO SALTO HORIZONTAL EM CONTEXTO INCLUSIVO

Boccardi Goerl, Daniela; Ms; Faculdade de Educação Física – PUCRS


daniela.goerl@pucrs.br

Resumo

Este estudo investiga a influência de um programa de intervenção motora


lúdica inclusiva na habilidade motora fundamental salto horizontal da criança com
Síndrome do X-Frágil e da criança típica em contexto inclusivo, na faixa etária dos
05 aos 08 anos de idade. A abordagem qualitativa com um delineamento
experimental do tipo estudo de caso foi utilizada. Treze crianças participaram da
intervenção, sendo que duas crianças com os respectivos quadros clínicos acima
citado constituíram do foco deste estudo. Para a análise da habilidade motora
fundamental foi utilizado a Seqüência de Desenvolvimento proposto por Roberton e
Halverson (1984). As informações coletadas respondem aos objetivos específicos
da pesquisa que são: identificar, descrever e analisar o nível de desenvolvimento
das habilidades motoras fundamentais frente a um programa de intervenção
motora lúdica inclusiva. A análise qualitativa dos resultados mostra que um
programa de intervenção motora lúdica inclusiva propicia melhorias no
desempenho motor das crianças com deficiência e um aperfeiçoamento das
habilidades motoras da criança típica. O brincar foi um instrumento valioso neste
estudo por que além de satisfazer as necessidades infantis, foi um recurso para
minimizar a resistência à inclusão da criança com deficiência junto à criança típica,
proporcionando novos referenciais motores a estes dois grupos de crianças. Os
resultados desta pesquisa sugerem a necessidade de investir em contextos
inclusivos que oferecem para todas as crianças oportunidades de trabalhar em
cooperação, propiciando diversidade de experiências que promovem a aceitação
mutua das diferenças.

Palavras-chave: salto horizontal, Inclusão, Intervenção Motora.


146 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Abstract

This study investigated the influence of an inclusive ludic motor intervention


program on the fundamental motor skills jump of children with mental disorder, X-
fragile syndrome, Down syndrome, and children with typical development from 05
to 08 years of age. A qualitative approach using a case study experimental design
was used. Thirteen children participated in the intervention; however, only four
children with the clinical profiles cited above were focused on the present study.
The Development Sequence, proposed by Roberton e Halverson (1984), was
used to analyze the children’s motor skills performance. Collected information
attempted in this research was to: identify, describe and analyze the fundamental
motor skill level of development as a result of an intervention program with an
inclusion approach. The qualitative analyses of results suggested that the
inclusive ludic motor intervention program provided gains in the motor
development of the disabled children and an enrichment of the motor skill abilities
of the typical children. The playful environment was considered a powerful tool in
the study because it fulfilled the needs of the young children and minimized the
resistance to inclusion of the typical children to the disabled children. Overall, the
intervention helped all children to build new motor and social references,
regardless of disabilities. These results suggest that inclusive environments offer
better opportunities to all children in working together, providing them with
diversity experiences, which promote mutual acceptance of differences.

Keywords: Jump, Inclusive, Motor Intervention.

Introdução

Há uma escassez de estudos na área do desenvolvimento motor de


indivíduos com deficiência, quando comparado a outras populações, onde
situamos a pessoa deficiente apenas ao atendimento médico, fisioterápico,
fonoaudiológico e terapêutico. Esquecemo-nos que a Educação Física também
pode ser um fator altamente contribuinte para a otimização do potencial da
pessoa com deficiência.
Dessa forma, este trabalho centra-se no conceito de que o conhecimento e
o pensamento corporal são em si mesmos, basicamente vivenciais e de que suas
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 147

propriedades distintivas provém do caráter da ação. Acreditamos que somos um


resultado vivo de todas as experiências e que a história de nossas vidas acontece
de forma única e individual. O que ocorre, é um processo elaborativo que une o
ser ao corpo, suas vivências e sua continuidade enquanto vida.
Partindo deste pressuposto e reconhecendo que o trabalho das habilidades
motoras e do fator interacional requerem uma condição vivencial, a pesquisa
voltou seu olhar para a prática educacional com crianças com Síndrome do X-
Frágil e criança típica, e tem como questões: qual a influência de um programa de
intervenção motora lúdica inclusiva na habilidade motora fundamental salto
horizontal da criança com Síndrome do X-Frágil e da criança típica, sob uma
perspectiva de tomada de um novo referencial de movimento?
Ao propor este estudo da análise dos mecanismos corporais escolhemos
como instrumento a atividade do brincar em um meio inclusivo. Nosso
pensamento insiste que, na atividade do brincar alguns mecanismos são
possíveis de serem trabalhados, sem que se tornem extremamente autoritários
e/ou inflexíveis, na qual o professor assume um papel de agente educativo
conseguindo incidir sobre o aluno, auxiliando-o na construção de um conjunto de
conhecimentos e, portanto, adquirindo uma série de aprendizagens relativas a
uma determinada questão objetivada.
A escolha do brincar como instrumento de trabalho vem do conceito de que
nas brincadeiras as crianças reproduzem muito daquilo que experimentam na
vida diária, contudo, isto vai além da mera reprodução, pois, pelo menos em
parte, ela tende a se afastar destes modelos convencionais e a imprimir um toque
pessoal às suas ações, criando um estilo individual.
O brincar, possibilita à criança manifestar um progressivo desejo de ocupar
um espaço, de desenvolver experiências e descobertas com seu corpo e utilizá-
lo em um contexto natural através de uma crescente identificação e entendimento
do mundo que a rodeia. Ter um corpo não é suficiente para estabelecer o
equilíbrio com o meio, é preciso percebê-lo através do espaço construído, espaço
de objetos e espaço social, e conectá-lo ao mundo de representações, de
imagens e de símbolos.
Aliado a atividade do brincar, optamos por uma situação inclusiva na busca
de propiciar novos referenciais a criança com Síndrome do X-Frágil e a criança
típica. Oportunizando um meio não segregado a criança com deficiência, sendo
148 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

este não portador de um comprometimento grave, gera-se condições para uma


aprendizagem mais próxima da "normalidade". Isto justifica-se pelo fato de que,
na infância as crianças aprendem por imitação, e estando elas em um ambiente
educacional com crianças típicas, apresentarão referenciais motores mais
eficientes, e conseqüentemente, procurarão imitá-los, produzindo ações motoras
muito próximas dos padrões esperados para sua faixa etária.
Para Gallahue (2008) o desenvolvimento motor é definido como uma fase,
ou processo, cronologicamente dependente, levando ao status máximo de
maturidade de cada estrutura diferente.
O desenvolvimento humano implica transformações contínuas que ocorrem
através da interação dos indivíduos entre si e entre os indivíduos e o meio em que
vivem.
Castro (2005) relata que pesquisas demonstraram que o córtex motor
exerce uma função determinante em todas as funções de aprendizagem, sendo
as relações entre psicomotricidade e aprendizagem efetivamente inter-
relacionadas em termos de desenvolvimento psiconeurológico.
Durante o crescimento e a maturação de uma criança, ocorrem grandes
alterações no desenvolvimento motor típico, bem como no anormal.
Segundo Cardona (2004), o desenvolvimento motor típico significa um
desabrochar gradual das habilidades latentes de uma criança. Os movimentos
iniciais mostram-se simples nos recém-nascidos, se alteram e tornam-se mais
variados e complexos com o desenvolvimento. Estágio por estágio, as primeiras
aquisições são modificadas, elaboradas e adaptadas para padrões e habilidades
de movimentos mais finos e mais seletivos.
Este processo continua por muitos anos, porém as alterações maiores e
mais rápidas ocorrem nos primeiros 18 meses, tempo em que os marcos
fundamentais e importantes são atingidos.
Gimenez (2005) afirma que o desenvolvimento motor da criança com
deficiência intelectual obedece à mesma seqüência evolutiva das fases de
desenvolvimento da criança típica, porém de forma mais lenta.
Para Gallahue (2008), a criança com deficiência intelectual também se
desenvolve, mas em um ritmo mais vagaroso. Seu desenvolvimento, no entanto,
não é somente retardado, mas segue um curso anormal.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 149

Objetivo Geral

Investigar a influência de um programa de intervenção motora lúdica


inclusiva na habilidade motora fundamental salto horizontal da criança com
Síndrome do X-Frágil e da criança típica.

Objetivos Específicos

Identificar, descrever e analisar o nível de desenvolvimento da habilidade


motora fundamental salto horizontal da criança com Síndrome do X-Frágil e da
criança típica na faixa etária dos 05 aos 08 anos de idade, frente a um programa
de intervenção motora lúdica inclusiva.

Método

Participantes

Por tratar-se de um estudo de inclusão de crianças com deficiência e


crianças típicas, optamos por analisar um caso específico de deficiência
apresentado no programa de intervenção e um caso típico, com o propósito de
verificarmos os ganhos motores da criança deficiente junto a criança típica.
O programa compreendeu 10 (dez) crianças, sendo 01 (uma) com
Síndrome do X-Frágil, 02 (duas) com Síndrome de Down e 07 (sete) típicos.
Relativo à idade mínima, optamos por trabalhar com crianças a partir dos
05 (cinco) anos, em razão de que a brincadeira ainda estaria presente no
universo destas crianças. A idade máxima foi estabelecida em 08 (oito) anos.
Todos os participantes assumiram um termo de compromisso com a
pesquisa e autorizaram a participação do seu filho no programa e eventual
publicação dos dados obtidos.

Material

Foi utilizado a seqüência de desenvolvimento das habilidades motoras


fundamentais proposto por Roberton e Halverson (1984), instrumento que
identifica os níveis de desenvolvimento para cada um dos componentes
envolvidos na execução das habilidades de saltito em um pé, salto horizontal,
150 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

arremesso sobre o ombro e recepção de um objeto. A análise ocorreu


segmentariamente, ou seja, foi verificado o nível de desenvolvimento em cada um
dos segmentos corporais (braços, pernas e tronco) através do registro do sistema
de vídeo cassete. Com este procedimento foi possível reproduzir inúmeras vezes,
em velocidade normal ou reduzida, a execução de um mesmo movimento.
Considerando o nível de desenvolvimento apresentado em cada tentativa, foi
estabelecida uma avaliação final para cada componente. O participante teve que
ser consistente pelo menos em quatro tentativas no mesmo nível de
desenvolvimento, como resultado da análise do componente. As observações
indiretas representaram um importante reforço para a descrição do processo de
desenvolvimento da habilidade motora do participante durante a aplicação do
programa.
A seqüência de desenvolvimento da habilidade salto horizontal consiste em
dois componentes: o primeiro, refere-se ao componente pernas; e o segundo,
refere-se ao componente braço.
O experimento constou de duas avaliações, a primeira pré-intervenção e a
segunda pós-intervenção, seguindo o mesmo protocolo que a anterior. Todos os
participantes, individualmente, executaram sete tentativas em cada uma da
habilidade de salto horizontal utilizando os mesmos equipamentos e protocolo de
avaliação segundo o plano de observação proposto por Roberton e Halverson
(1984). A orientação dada ao participante compreendeu informações a respeito
do que deveria fazer em cada tentativa, sendo que foi enfatizado o início da
atividade. A voz de comando “atenção - prepara - foi”, em todas as tentativas,
indicou o momento de iniciar a ação motora.

Implementação da intervenção motora

O programa de intervenção motora foi construído a partir dos aspectos


motores, com ênfase ao desenvolvimento de todas as habilidades e o
direcionamento desta investigação baseou-se na atividade lúdica. Desta forma, as
atividades possuíram metas para a realização de nossos objetivos e não foram
selecionadas aleatoriamente.
Consideramos os seguintes pontos durante a escolha das atividades:
• o objetivo à que se propõe;
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 151

• a apreciação da atividade pelo participante, associado ao seu grau de


participação;
• a formação de grupos ou à individualidade, respondendo ao caráter de
socialização;
• os movimentos envolvidos;
• fornecimento de oportunidades à expressão da personalidade;
• respeito as característica individuais do participante, ou seja, cada
criança possui necessidades e potenciais diferentes, atitudes
diferenciadas, padrões de progresso diferentes e diferentes experiências.
Mediante as características dos participantes estudados, procuramos
estabelecer algumas condições de trabalho, tendo em vista, principalmente, a
estes princípios (Seaman e Depauw, 1982 apud Rosadas, 1994:34):
• progredir lentamente oferecendo-lhe primeiro atividades familiares;
• dizer-lhe claramente como vai ser a atividade;
• apresentar as idéias de forma lenta e com uma pequena quantidade de
informações por vez;
• prestar atenção ao seu nível de interesse em relação a atividade
proposta;
• usar exemplos concretos;
• estabelecer metas que estejam de acordo com o seu desenvolvimento e
que realmente possam ser alcançados, pois, "metas que mostrem-se
desafiadoras, atingíveis, realistas e específicas tem um efeito benéfico na
performance das pessoas, na qual a apresentação de metas realizáveis,
servem para aumentar a qualidade da experiência da aprendizagem"
(Schmidt, 2001:191);
• basear os novos movimentos naqueles que haviam sido aprendidos
anteriormente;
• elogiar as tentativas e dar ênfase ao bom desempenho;
• oferecer experiências que permitam cada aluno a participar.

Resultados

As informações coletadas a partir da análise das fitas de vídeo, referente


as duas coletas, a primeira Pré-Intervenção e a segunda, Pós-Intervenção para
152 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

os componentes perna e braço da habilidade salto horizontal estão apresentadas


nos gráficos abaixo.
Para o componente perna (gráfico 1) na habilidade motora fundamental
salto horizontal, a criança A apresentou na Pré-Intervenção o nível 2; extensão do
joelho primeiro ao impulsionar. No Pós-Intervenção, A passou para o nível 3;
extensão simultânea dos joelhos e tornozelos ao impulsionar.
A criança B apresentou o nível 2 na Pré-Intervenção para o componente
perna na habilidade motora fundamental salto horizontal; extensão do joelho
primeiro ao impulsionar. No Pós-Intervenção, B passou para o nível 3; extensão
simultânea dos joelhos e tornozelos.

Gráfico 1: componente perna na habilidade motora fundamental salto horizontal

Para o componente braço (gráfico 2) na habilidade motora fundamental


salto horizontal, a criança A apresentou o nível 2 na Pré-Intervenção; braços
iniciam a ação do salto, durante o vôo movem-se para fora abrindo e
permanecem na frente do corpo durante o agachamento. No Pós-Intervenção, A
permanece no nível 2.
Para o componente braço na habilidade motora fundamental, a criança B
apresentou o nível 2 na Pré-intervenção; braços iniciam a ação do salto, durante
o vôo movem-se para fora abrindo e permanecem na frente do corpo durante o
agachamento. No Pós-Intervenção, B passou para o nível 3; braços iniciam o
movimento, extensão dos mesmos nos momentos iniciais do vôo com flexão
parcial.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 153

Gráfico 2: componente braço na habilidade motora fundamental salto horizontal

Discussão

Os resultados demonstram que as crianças se encontravam nos níveis


iniciais de aquisição, confirmando a afirmativa de que as crianças com deficiência
apresentam atraso no seu desenvolvimento motor, configurando níveis
rudimentares para os componentes envolvidos em cada habilidade; e a criança
típica, apresentando níveis muito próximos do padrão maduro para a habilidade.
Da primeira para a segunda coleta, a análise dos dados demonstraram que
as crianças evoluíram para estágios mais avançados, passando de níveis iniciais
para níveis praticamente maduros do movimento.
As alterações ocorridas nos componentes das habilidades motoras
fundamentais, são vistas como reflexo dos fatores maturacionais; uma
reconstrução do sistema nervoso, sendo que cada mudança de estágio
representa a substituição de um antigo "programa" neural por outro programa
(Roberton, 1984). O autor ainda refere que os níveis representam períodos no
desenvolvimento que são caracterizados por determinados tipos de
comportamento que refletem um estado neural e, do tipo de processamento
cognitivo que orientará uma determinada ação. Essa seqüência sucessiva de um
estágio a outro, representa a passagem de um nível rudimentar de execução à
níveis superiores.
Roberton e Halverson (1984), abordam que as crianças circulam por estes
níveis de formas diferenciadas, em que partes do corpo se desenvolvem
diferentemente, não exatamente de forma linear, na qual podem ocorrer
mudanças de um nível inicial para um nível mais avançado; e confirmam os
pressupostos de Ferraz (1992), Copetti et al (1993) e Lopes (2001).
154 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Estas mudanças não desenvolvem-se apenas pelo processo de


maturação, como também, ocorrem pela influência das experiências ambientais à
que a criança está envolvida. Modificam-se por uma combinação de
oportunidades para a prática, o encorajamento e a instrução em um ambiente
sadio; condições essenciais para um bom desenvolvimento das habilidades
motoras fundamentais.
Com o emprego da demonstração, verificou-se resultados mais efetivos,
pois este continha mais informação a respeito da tarefa do que somente a
descrição da mesma. O excesso de informação verbal acabava por tirar o
interesse da criança pela atividade, pois a orientação verbal excessiva acabava
por eliminar o caráter lúdico da atividade.
Neste aspecto, fica comprovado que a ludicidade da tarefa modifica o
desempenho da criança na execução da habilidade, pois o envolvimento lúdico
gerou maior motivação para às atividades e, exercitou através das brincadeiras, a
memória, a atenção e o desempenho mais eficiente das habilidades motoras
fundamentais, porque as crianças queriam reproduzir exatamente as situações
que estavam sendo imaginadas, participar do "faz-de-conta" com a melhor
eficiência de suas ações.
O salto com os dois pés; habilidade que requer o desempenho coordenado
de todas as partes do corpo, trata-se de um padrão motor complexo, onde o
impulso e o pouso são feitos com os dois pés. Para a otimização do salto, todas
as partes do corpo encontram-se envolvidas, e é necessário a aplicação de força
no componente pernas para se alcançar grandes distâncias. As crianças
apresentaram grande predileção para execução desta habilidade, juntamente com
a habilidade motora do arremesso.
As dificuldades encontradas pelos participantes, relativo ao componente
perna, foi quanto ao agachamento preparatório insuficiente; e relativo ao
componente braço, uso impróprio dos mesmos associado a movimentos restritos.
A falta de força dos membros inferiores para a execução do impulso, foi um
agravante para o período inicial do programa; no entanto, propiciando à criança
um trabalho para esta capacidade, à ela foi proporcionada uma melhor condição
de realização da habilidade acima referida.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 155

Considerações finais

Constatou-se que um programa de intervenção motora que une crianças


com suas diferenças e utiliza o lúdico como meio de intervenção, é possível, sim;
não estamos afirmando que o processo é fácil, é um processo extremamente
difícil, que percorre inúmeras barreiras, mas é viável.
Respeitadas as características de desenvolvimento, muitas das crianças
que apresentam Síndrome do X-Frágil tem capacidade para atingir padrões
motores maduros, se lhes derem oportunidade e tempo suficientes de prática. A
falta de oportunidade de prática tem sido o motivo principal de entrave ao
desenvolvimento motor esperado para a faixa etária dos seis aos onze anos,
sendo verificado em alguns casos, regressão na qualidade de execução dos
padrões motores.
A prática de uma atividade motora deve proporcionar as crianças
oportunidades que possibilitem um desenvolvimento do seu comportamento
motor. Este desenvolvimento deve, através da interação entre o aumento da
diversificação e complexidade, possibilitar a formação de estruturas cada vez
mais organizadas, em que se alcançando um objetivo, novos objetivos são
estabelecidos e este processo não termina, porque a criança busca o
desenvolvimento máximo de todas as suas potencialidades.
E, reportando-se ao aspecto da aprendizagem, a referência de um
comportamento motor próximo ao maduro, representou um modelo mais eficiente
de realização motora, uma fonte de informação visual para a criança com
Síndrome do X-Frágil.

Referências

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escola. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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crianças de seis anos do município de Agudo/RS. Santa Maria: UFSM/CEFD,
1993.
156 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

GALLAHUE, David L. Educação Física Desenvolvimentista para todas as


crianças. São Paulo: Phorte, 2008.

GIMENEZ, Roberto. Atividade Física para Deficiência Mental. In: COSTA, Roberto
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LOPES, K.A .T. Deficiência Física nas Aulas Regulares de Educação Física:
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Adaptada: Curitiba, 2001.

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deficiência mental. Vitória: UFES. Centro de Educação Física e Desportos, 1994.

SCHMIDT, W. Aprendizagem e Performance Motora: uma abordagem da


aprendizagem baseada no problema. 2 ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.
A OFERTA DE MEDICAMENTOS DE QUALIDADE PARA A SOCIEDADE

Bender, Ana Lígia; PhD; Faculdade de Farmácia – PUCRS


abender@pucrs.br
Moriguchi-Jeckel, Cristina Maria; PhD; Faculdade de Farmácia – PUCRS
cmjeckel@pucrs.br
Thiesen, Flavia Valladão; PhD; Faculdade de Farmácia – PUCRS
fvthiesen@pucrs.br
Funck, José Aparício Brittes; PhD; Faculdade de Farmácia – PUCRS
aparício.funck@pucrs.br

Resumo

O aumento do consumo de medicamentos pela população em geral é uma


realidade global que reflete o crescente aquecimento do setor farmoquímico.
Entretanto, a ausência de monitoramento de insumos no país, o desvio de
qualidade das matérias-primas e o aumento da importação de insumos de países
asiáticos clamava por medidas que pudessem oferecer garantia e segurança nos
medicamentos oferecidos à população.
Neste cenário, a criação do Laboratório Analítico de Insumos
Farmacêuticos representa um importante papel social tanto na qualificação de
insumos empregados na produção de medicamentos quanto na formação de
profissionais. Os procedimentos realizados no LAIF visam à segurança e à
certificação de matérias primas nacionais e importadas para promover a
qualidade dos medicamentos. Este laboratório, inserido no Parque Científico e
Tecnológico (TECNOPUC) PUCRS, é resultado de uma parceria entre a
Associação Brasileira da Indústria Farmoquímica – ABIQUIF, Ministério da Saúde,
Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, Financiadora de Estudos e
Projetos – FINEP e PUCRS.

Palavras-chave: insumos farmacêuticos, medicamentos, certificação de


qualidade.
158 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Introdução

O Laboratório Analítico de Insumos Farmacêuticos é dotado de uma


estrutura inédita na América Latina. Localizado no Parque Científico e
Tecnológico da Universidade (Tecnopuc), o laboratório reúne equipamentos de
última geração para caracterizar, avaliar e monitorar os insumos utilizados na
produção de medicamentos. Com eles, é possível fazer a identificação de
materiais, o teor e o grau de pureza, a verificação da presença de contaminação
por metais pesados e a determinação do tamanho de partículas, entre outras
análises. A correta caracterização das substâncias que fazem parte de todos os
medicamentos é indispensável para assegurar a qualidade e a credibilidade
destes produtos e, consequentemente, contribuir para a saúde da população.
Além do diferencial de sua concepção, o LAIF se destaca pela extrema
importância na formação de profissionais qualificados em nível nacional, a
começar pelos acadêmicos. Este laboratório deve atender os laboratórios oficiais
e a indústria privada, dando suporte as suas análises e produtos.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 159

Objetivos

• Criar e viabilizar o laboratório analítico de insumos farmacêuticos na


PUCRS, integrando-o ao TECNOPUC.
• Dotar a PUCRS de capacidade para avaliação e caracterização de
insumos farmacêuticos, contribuindo com subsídios para a certificação de
matérias-primas farmacêuticas pela Farmacopéia Brasileira.
• Apoiar ações da ABIQUIF -Associação Brasileira de Indústria
Farmoquímica – e fabricantes nacionais, no que tange à certificação de
seus produtos.
• Prestar serviço às indústrias farmacêuticas, públicas e privadas, na
avaliação de insumos, monitoramento da qualidade e desenvolvimento
de metodologias analíticas.
• Apoiar ações da Farmacopéia Brasileira, elaborando monografias de
especificações de insumos, caracterizando-os, inclusive, quanto à
funcionalidade.
• Oferecer infra-estrutura laboratorial, que sirva de suporte para Curso de
Pós-Graduação na área de Farmácia, bem como amplie a produção
científica na área.

Descrição do Processo de Inovação

O processo de inovação através dos serviços ofertados pelo LAIF pode ser
descrito pelos impactos positivos causados em diferentes setores:
Social: garante a qualidade dos insumos utilizados na área de
farmoquímicos, os quais são consumidos pela população e a segurança dos
medicamentos produzidos, através de respostas terapêuticas uniformes e
controle dos riscos sanitários. Assegura o atendimento aos interesses
estratégicos do Sistema Único de Saúde.
Econômico: viabiliza as empresas farmoquímicas nacionais a competirem
no mercado externo, com produtos apresentando padrões de especificação de
qualidade.
Científico: o desenvolvimento do LAIF cria condições para a geração de
publicações científicas, bem como de patentes, ambas oriundas de pesquisas na
área de insumos e metodologias analíticas.
160 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Resultados Obtidos

O trabalho desenvolvido no LAIF tem contribuído para o desenvolvimento


tecnológico e industrial do setor farmoquímico nacional, aumentando sua
competitividade no mercado global e oferecendo garantia e segurança dos
medicamentos utilizados no Brasil.
O LAIF possibilita a articulação ensino-pesquisa-extensão, através do
desenvolvimento de novas metodologias e articulação com programas de pós-
graduação (pesquisa). Os alunos da Faculdade de Farmácia realizam aulas
práticas e muitos alunos da graduação são bolsistas de Iniciação Científica neste
laboratório (ensino). São oferecidos serviços qualificados a indústrias
farmacêuticas e a laboratórios públicos e está prevista a realização de cursos
com foco em novas tecnologias (extensão).

Considerações Finais

O LAIF se constitui um verdadeiro centro de excelência e conhecimento,


porque torna possível realizar no Brasil, aquilo que os próprios órgãos
reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, solicita em termos
de análise para os insumos farmacêuticos. Este laboratório estabelecerá
parâmetros de qualidade que deverão ser seguidos por todos, fornecedores
nacionais e estrangeiros. Isto favorecerá o desenvolvimento e a produção de
outros insumos farmacêuticos pela indústria nacional, permitindo oferecer
medicamentos de qualidade e baixo preço.
Através do LAIF a Faculdade de Farmácia promove uma interação com a
sociedade, a qual é de extrema importância, tanto do ponto de vista econômico
como social.

Referências Bibliográficas

Um olhar sobre o mundo – Nº 77 – Associação Brasileira da Indústria


Farmoquímica
Farmacopéia Brasileira IV Ed.

www.anvisa.gov.br
EFEITO DA MODIFICAÇÃO DO ESTILO DE VIDA SOBRE OS FATORES DE
RISCO CARDIOVASCULAR QUE COMPÕEM OS CRITÉRIOS DE
DIAGNÓSTICO DA SÍNDROME METABÓLICA, MARCADORES
INFLAMATÓRIOS E BALANÇO AUTONÔMICO: UM ESTUDO RANDOMIZADO

Feoli, Ana Maria Pandolfo; Dra.; FAENFI – Curso de Nutrição – PUCRS;


anafeoli@pucrs.br
Macagnan, Fabrício Edler; Dr.; FAENFI – Curso de Fisioterapia – PUCRS;
fmacagnan@pucrs.br
Schmitt, Virgínia; Dra.; - Curso de Farmácia - FFARM – PUCRS
Bregeiron; Márcia Koja; Dra. – Universidade Federal de Ciências da Saúde de
Porto Alegre
Antunes, Maria Terezinha; Dra. – Universidade Federal de Ciências da Saúde
de Porto Alegre

A principal característica inovadora desse estudo é a integração da


pesquisa com o ensino e a assistência. O objetivo do estudo é verificar o efeito da
associação da intervenção nutricional à suplementação de ácidos graxos ômega-
3 e à prática regular de exercício físico sobre os fatores de risco cardiovascular
que compõem a síndrome metabólica. Os voluntários foram acompanhados por 3
meses. Ao longo do estudo a circunferência abdominal, o peso corporal, os
hábitos alimentares, o perfil lipídico, os marcadores inflamatórios, a variabilidade
da freqüência cardíaca, a capacidade funcional e a qualidade de vida foram
avaliados antes e após a participação do programa. Os resultados mostram que
independente do tipo de intervenção todos os voluntários reduziram peso, IMC,
circunferência abdominal e glicose de jejum. No entanto, os voluntários que
participaram do programa de exercício físico apresentaram um benefício adicional
com redução da insulina, pressão arterial sistólica e aumento na capacidade
funcional. Estes resultados não acrescentam apenas subsídios às ações já
existentes de medidas preventivas e de tratamento das doenças crônicas não
transmissíveis, mas evidenciam a importância do atendimento, acompanhamento,
adesão ao tratamento e da atuação integrada da equipe de saúde garantindo
melhora na qualidade de vida e a preocupação com o viver saudável.

Palavras-chave: síndrome metabólica, estilo de vida, risco cardiovascular.


162 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Introdução

A principal característica desse estudo, identificada aqui como sendo


inovadora, foi a forma pela qual estruturamos a ação integradora da pesquisa
com o ensino e a assistência. Em 2006 um grupo de professores da Faculdade da
Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia FAENFI desenvolveu uma proposta de
estudo sobre modos de vida saudáveis. Essa proposta recebeu aporte de
recursos de agências federais e estaduais de fomento à pesquisa (CNPq e
FAPERGS) e conta com o apoio da PUCRS (estrutura física,
horas/pesquisadores e bolsas de iniciação científica - BPA). Além desses órgãos
de fomento públicos, várias empresas detectaram a oportunidade de investir em
pesquisa. Dentre elas, a Herbarium, Laboratórios Colbrás e Relthy, Ritter
Alimentos e Uniagro. Nesse sentido, o esforço conjunto da instituição de ensino
superior apoiando pesquisadores e alunos compõem o ambiente ideal para
experimentar novas abordagens terapêuticas, propostas de novos procedimentos,
que, pela riqueza de detalhamento e empenho do grupo, foi capaz de atrair
investimentos do setor privado. Uma área onde até então, poucas empresas
privadas têm alocado recursos para a prevenção. Com o amadurecimento do
grupo envolvido na medida em que o estudo foi se desenvolvendo, constituiu-se
uma nova uma linha de pesquisa denominada Vigilância, Gestão, Trabalho e
Educação em Saúde a qual integrada está ao Grupo Interdisciplinar de Pesquisas
e Estudos em Promoção e Vigilância da Saúde (GIPEPROVIS) da
FAENFI/PUCRS.
É nesse sentido que se detecta a característica inovadora desse projeto,
pois os resultados pretendem acrescentar subsídios às ações já existentes de
medidas preventivas e de tratamento das doenças crônicas não transmissíveis
relacionadas com obesidade e sedentarismo. Levando-se em consideração não
apenas os marcadores de risco cardiovascular, mas a ação integrada de
diferentes profissionais da área da saúde, que em conjunto somam esforços para
garantir, além da melhora da saúde, a melhora da qualidade de vida da
população.
Os indicadores de sucesso do programa de modificação do estilo de vida
proposto nesse estudo estão relacionados com o controle da Síndrome
Metabólica. Dessa forma, a normalização, de um ou mais, dos fatores de risco
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 163

que compõe os critérios de diagnóstico adotados pela Diretriz Brasileira de


Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Além de testar as orientações
propostas pela Diretriz Brasileira, nosso estudo propõe monitorar o atendimento,
acompanhamento, adesão ao tratamento e da atuação integrada da equipe de
saúde garantindo melhora na qualidade de vida e a preocupação com o viver
saudável.

Fundamentação Teórica

A síndrome metabólica (SM) é uma condição clínica definida pela


associação de alguns fatores de risco cardiovascular, que, quando presentes,
aumentam uma vez e meia a mortalidade geral e duas vezes e meia a
mortalidade por causas cardiovasculares1-3. Grandes estudos têm demonstrado
que a SM está intimamente ligada à deposição de gordura visceral e à resistência
à insulina4.
Segundo a Diretriz Brasileira, o tratamento da SM consiste basicamente
em modificar os fatores de risco cardiovascular, como a redução de peso, da
circunferência abdominal, a normalização da dislipidemia, a redução da pressão
arterial sistêmica (PAS) e a melhora do controle glicêmico. Associado às
estratégias farmacológicas para o tratamento da SM, a prática de exercício físico
regular e a modificação de hábitos alimentares desempenham papel central no
tratamento e prevenção da SM 5.
Há muito tempo se observa que a manutenção de uma alta capacidade
física atua favoravelmente sobre os fatores de risco cardiovascular,
principalmente aqueles ligados à SM, como sensibilidade à insulina e a redução
na incidência de diabetes tipo 2 e doença arterial coronariana (DAC)6,7. Além da
melhora da dislipidemia e da redução da pressão, indivíduos obesos podem se
beneficiar com a prática de exercício físico regular pela redução dos marcadores
inflamatórios, relacionados à obesidade central8. Espósito et al. (2003)9,
demonstraram o efeito antiinflamatório da mudança no estilo de vida, da dieta
estilo Mediterrâneo e de programas de exercício físico. Após dois anos de
acompanhamento, a mudança no estilo de vida de mulheres obesas reduziu o
índice de massa corporal e as concentrações plasmáticas de IL6, IL18 e proteína
C reativa (PCR), com concomitante aumento da adiponectina. O aumento nas
164 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

concentrações plasmáticas de adiponectina reduz o risco de infarto do miocárdio


(IAM), explicada em parte pela redução plasmática dos lipídios, marcadores
inflamatórios e melhora do perfil glicêmico10.

Objetivo

Avaliar o efeito da suplementação de ácidos graxos ômega-3 e da prática


regular de exercício físico associados a uma intervenção nutricional sobre os
fatores de risco cardiovascular que compõem os critérios de diagnóstico da
síndrome metabólica. Além disso, avaliamos os hábitos alimentares (índice de
qualidade da dieta), perfil antropométrico, marcador Inflamatório (PCR-us),
balanço autonômico, capacidade funcional e qualidade de vida.

Descrição do Processo de Inovação Desenvolvido e Resultados Obtidos

Método

Este é um ensaio clínico randomizado controlado por placebo que estuda


os benefícios da modificação do estilo na SM. Os voluntários que entraram em
contado após a divulgação em mídia impressa foram selecionados conforme os
seguintes critérios: ter entre 30 e 59 anos de idade com três (03) ou mais dos
seguintes achados a) circunferência abdominal: ≥ 88 cm para mulheres e ≥ 102
cm para homens; b) pressão arterial: sistólica ≥ 130 mmHg e diastólica ≥85
mmHg; c) glicose de jejum: ≥ 100 mg/dl; d) triglicerídeos: ≥ 150 mg/dl; e) HDL
colesterol: ≤ 40 mg/dl para homens e ≤ 50 mg/dl para mulheres. Foram excluídos
do estudo os indivíduos que apresentarem uma (01) ou mais das seguintes
situações: a) contra-indicação absoluta para atividade física por problemas
músculo-esqueléticos, neurológicos, vasculares (claudicação intermitente),
pulmonares e cardíacos; b) uso de hipolipemiantes; c) indivíduos não sedentários
(30 min duas ou mais vezes por semana); d) difícil contato e incapacidade de
retorno e acompanhamento.

Descrição dos grupos

Os indivíduos aptos foram convidados a participar do estudo e receberam,


individualmente, as informações referentes aos procedimentos aos quais seriam
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 165

submetidos (através do consentimento livre e esclarecido previamente aprovado


pelo comitê de ética em pesquisa da PUCRS- CEP). Após a avaliação inicial os
participantes foram randomizados em quatro grupos conforme descrito abaixo:
1. Grupo Intervenção Nutricional (IN): Neste grupo os integrantes foram
submetidos à intervenção nutricional e à administração de placebo
(1g/dia de óleo mineral) durante três meses.
2. Grupo Intervenção Nutricional + Suplementação Ômega-3 (INS3):
Neste grupo os integrantes foram submetidos à intervenção nutricional
e à administração de suplemento de ácidos graxos Ômega-3 (1
grama/dia) pela ingestão de 3 cápsulas de óleo de peixe por dia
durante três meses.
3. Grupo Intervenção Nutricional + Exercício (INE): Neste grupo os
integrantes foram submetidos à intervenção nutricional e à
administração de placebo (1g/dia de óleo mineral) associado a um
programa de exercício físico durante três meses.
4. Grupo Intervenção Nutricional + Exercício + Suplementação
Ômega-3 (INES3): Neste grupo os integrantes foram submetidos à
intervenção nutricional e à administração de suplemento de ácidos
graxos Ômega-3 (1 grama/dia) pela ingestão de 3 cápsulas de óleo de
peixe por dia durante três meses.

Intervenção Nutricional

A intervenção nutricional consistiu da orientação de um plano alimentar


individualizado e de reconsultas quinzenais. Em cada uma das reconsultas
abordavam-se temas sobre alimentação saudável, como: rotulagem de alimentos;
gorduras trans; alimentos funcionais; pirâmide dos alimentos; consumo de sódio;
programa 5 ao dia; substitutos alimentares; entre esclarecimentos de dúvidas. A
monitorização da dieta consistia de um inquérito recordatório de 24 horas e da
investigação das dificuldades encontradas pelo paciente para a adesão das
combinações realizadas na consulta anterior, bem como, do seguimento do plano
alimentar proposto. O plano alimentar está baseado nas recomendações da
Diretriz Brasileira para o Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica5.
166 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

A avaliação nutricional, que consistia de aferição do peso, circunferência


abdominal (CA) foi realizada no início e ao final de três meses de
acompanhamento.
O consumo alimentar foi medido pelo método recordatório de 24 horas e
registro alimentar de dois dias. As medidas caseiras foram convertidas em
gramas e mililitros e a quantificação dos nutrientes foi feita mediante programa
computadorizado da Escola Paulista de Medicina utilizando a Tabela de
Composição Química de Alimentos Brasileira (TACO).
A qualidade da dieta foi avaliada pelo Índice de Qualidade da Dieta (IQD).
O Índice de Qualidade da Dieta (Healthy Eating Index) proposto por Kant11 foi
considerado pela American Dietetic Association um instrumento adequado para
medir a qualidade global da alimentação na população. Este instrumento é
constituído por 10 componentes, sendo que seis medem o grau de adequação do
consumo de cada um dos cinco principais grupos de alimentos (Cereais, pães,
tubérculos e raízes; verduras e legumes; frutas; leite e produtos lácteos; carnes,
ovos e feijão), outros quatro medem a ingestão de gordura total, de gordura
saturada, de colesterol e de sódio, respectivamente, e o último mede a variedade
da dieta. Todos os componentes foram avaliados e pontuados de zero a dez,
sendo que os valores intermediários foram calculados proporcionalmente ao
consumido. A avaliação é feita através de escores: Abaixo ou igual a 40 pontos:
Dieta Inadequada; Entre 41 e 64 pontos: Necessita de modificação; Superior a 65
pontos: Dieta Saudável.

Avaliação da Capacidade Funcional

A capacidade funcional foi determinada pela estimativa do consumo


máximo de oxigênio. Para essa estimativa utilizamos a máxima velocidade e a
máxima inclinação tolerada pelos voluntários no teste incremental de membros
inferiores. Esse teste foi realizado em uma esteira ergométrica programada para
elevar ambos, velocidade e inclinação, a cada 03 minutos. O teste era
interrompido a pedido do paciente ou na vigência de algum sinal/sintoma de
alteração cardiopulmonar. Durante o teste foram avaliadas a PA, FC, escala de
esforço percebido, ECG e oximetria de pulso.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 167

Programa de exercício físico

A sessão de atividade física foi realizada em esteira por 30 minutos


contínuos, 3 vezes por semana, com uma intensidade de 60% a 70% da FC
máxima avaliada no teste incremental de membros inferiores, conforme
preconizado na Diretriz Brasileira5. Durante as sessões de exercício físico, a
equipe da fisioterapia monitorava constantemente a PA, FC, escala de esforço
percebida e oximetria de pulso. Tanto a velocidade quanto a inclinação foram
constantemente ajustadas a fim de manter a FC dentro do alvo de treinamento.

Marcadores Bioquímicos

Duas coletas de sangue foram realizadas, uma na avaliação inicial e outra


ao final do programa, após três meses. Os marcadores bioquímicos de risco
cardiovascular como glicemia de jejum, perfil lipídico, insulina e proteína C-reativa
foram analisado no laboratório de análises clínicas do HSL enquanto que os
marcadores inflamatórios (IL-6, IL-10, PCR e TNFα) foram analisados nos
laboratórios da faculdade de farmácia.

Qualidade de Vida

A qualidade de vida também foi avaliada no início e ao final do estudo.


Essa avaliação foi realizada através do questionário SF-36, o qual é subdividido
em 08 domínios: capacidade funcional (CF), aspecto físico (AF), vitalidade (V),
dor (D), aspecto social (AS), aspecto emocional (AE), aspecto de saúde mental
(ASM) e estado geral de saúde (EGS). Esse instrumento foi aplicado pelos
enfermeiros envolvidos no projeto12.

Resultados Parciais

A análise dos resultados de 62 pacientes (tabela 1) mostra que as


intervenções realizadas proporcionaram redução dos fatores de risco
cardiovasculares que compõem o diagnóstico da Síndrome Metabólica.
Fatores de Risco Cardiovasculares: Observamos que todos os grupos
apresentaram redução significativa do peso, IMC e da circunferência abdominal.
Os grupos INE e INSE3 apresentaram redução significativa de Colesterol Total e
168 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Triglicerídeos. Observou-se também que houve redução, ainda que não


significativa, nos demais fatores de risco (glicose, colesterol total, triglicerídios,
HDL-colesterol PAS e PAD), em todos os grupos.
Índice de Qualidade da Dieta: O índice de qualidade da dieta (IQD) foi
avaliado antes e após a intervenção (tabela 2). Observa-se a melhora significativa
dos hábitos alimentares dos participantes da pesquisa. No momento pré-
intervenção a média do IQD apresentava uma classificação “necessita de
modificação” (escore = 55,96) e após os três meses de intervenção a
classificação evoluiu para “Dieta Saudável” (escore = 72,74). As principais
alterações observadas foram: adequação da quantidade de lipídios ingeridos,
adequação do consumo de frutas maior variedade da dieta.
Qualidade de vida: Observamos que o programa de modificação do estilo
de vida foi capaz de melhorar significativamente os domínios CF, EGS e AE,
como podemos notar pela diferença percentual entre os relatos obtidos no início e
ao final do programa: CF (19% e 9%; P=0,001), EGS (9% e 9%, P=0,007) e AE
(45% e 15%; P=0,012) respectivamente nos grupos INE e IN. Contudo, os
voluntários do grupo INE relataram melhora significativa em relação ao grupo IN
nos domínios AF (45% vs 13%; P=0,001), V (34% vs 9%, P=0,005), D (24% vs -
2%, P=0,020), AS (35% vs 1%, P=0,007), ASM (26% vs 7%, P=0,025). O
programa de modificação do estilo de vida altera benéfica e significativamente os
relatos de avaliação subjetiva da qualidade de vida (SF-36) sendo que nos
voluntários que participaram do programa de exercício físico houve relato de
melhora adicional em relação AF, V, D, AS e EGS. Em contrapartida, ambos os
grupos demonstraram melhora efetiva no domínio estado geral de saúde, sendo
que, no grupo INE a melhora foi significativamente maior.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 169

Tabela. 1. Efeito da mudança do estilo de vida sobre os fatores de risco cardiovascular que
compõem os critérios de diagnóstico para Síndrome Metabólica.
IN INS3 INE INSE3

Pré Pós p Pré Pós p Pré Pós p Pré Pós p


(n=16) (n=13) (n=21) (n=16) (n=16) (n=16) (n=20) (n=17)
Peso (kg) 83±12,1 80± 13 0,00* 87,4±13,6 83,8±12 0,00* 85,3±13 80,6±13,1 0,00* 93,6±13,4 88,2±13,4 0,00*
IMC (kg/m2) 32,6±3,4 31±4 0,00* 33,5±4,1 32±3,9 0,00* 32,4±5 30,6±4,9 0,00* 34,2±4 33,3±4,1 0,00*
CA (cm) 103,7±7,7 100±8 0,01* 108,6±10,6 104,4±10,6 0,01* 102±9,5 96,7±10,6 0,00* 110,2±6,3 105,4±8,4 0,00*
Glicose mg/dl) 98,7±9,6 93±8 0,08 111,5±33,6 100,6±14,5 0,11 113,6±63,5 96,3±22,3 0,18 102,8±25,7 101,8±23,7 0,26
CT (mg/dl) 255,3±77,3 234±55 0,21 226,1±41,2 224,5±50,8 0,19 229,9±45 217,8±31,9 0,14 210,6±29,6 207,6±37,2 0,03*
TG (mg/dl) 263,8±178,3 250±184 0,15 192,4±83,5 178,1±75,4 0,08 186,5±87,1 149,4±81,6 0,04* 212,4±83,6 160,7±67,5 0,00*
HDL – col 45,5±8,5 44±10 0,60 44,5±11,5 42,3±9,1 0,53 46,3±11,4 44,1±9,3 0,41 42,5±9,1 44,7±8,1 0,54
PAS (mmHg) 133,4±18 125±13 0,13 129,7±15,1 124,1±17,3 0,43 132,8±18,3 125,5±17 0,07 128,3±11 118,9±15,6 0,08
PAD (mmHg) 82,1±11,8 78±7 0,11 83,1±14,8 79,2±12,2 0,88 83,7±8,1 81,3±8,8 0,31 81,7±9,5 77,8±7,5 0,13

Os dados estão expressos em média ± desvio padrão. *P < 0,05 quando comparados com valores
pré-intervenção. Abreviaturas: IN = Grupo Intervenção Nutricional; INS3 = Grupo Intervenção
Nutricional + Suplementação Ômega-3; INE = Grupo Intervenção Nutricional + Exercício; INES3 =
Grupo Intervenção Nutricional + Exercício + Suplementação Ômega-3; IMC= índice de massa
corporal; CA= circunferência abdominal; CT = Colesterol Total; TG = triglicerídios; HDL- col= HDL
colesterol; PAS= pressão arterial sistólica; PAD = pressão arterial diastólica;.

Tabela 02. Efeito da mudança do estilo de vida sobre o Índice de Qualidade da Dieta (IQD).
IQD Pré-Intervenção Pós-Intervenção p
(n=44) (n=29)

Escore numérico 55,96±14,46 72,74±13,08* 0, 0001

Classificação Necessita de Modificação Dieta Saudável

Os dados estão expressos em média ± desvio padrão. *P < 0,05 quando comparados com valores
pré-intervenção.
Observação: Os dados sobre a qualidade da dieta ainda estão em processo de análise. Isto
justifica a diferença do n pré e pós intervenção.

Considerações Finais

Nossos dados, ainda que parciais, corroboram resultados da literatura em


que a modificação do estilo de vida resulta em redução dos fatores de risco
cardiovascular que compõem os critérios de diagnóstico para Síndrome
Metabólica. Observou-se também uma melhora dos hábitos alimentares dos
participantes do estudo. Ressalta-se ainda como resultados positivos do estudo a
grande integração entre a equipe: pesquisadores, acadêmicos e bolsistas.
Avanço no grau de informação de fonte bibliográfica referente ao tema e,
principalmente, a satisfação demonstrada pela maioria dos voluntários
participantes do estudo, com os benefícios recebidos.
170 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

É importante salientar que por tratar-se de um estudo randomizado e com


rigorosos critérios de inclusão, os grupos estão sendo formados aleatoriamente e
por este motivo os grupos apresentam um número de participantes ainda
heteregêneo. Até o momento, contamos com a participação de 62 voluntários
distribuídos nos 4 grupos. Cabe salientar que os critérios de inclusão rigorosos
estão dificultando a captação dos 120 participantes planejados pelos
pesquisadores, mas por outro lado, este rigor metodológico garante atingir aos
objetivos do trabalho. O grupo de pesquisadores está buscando estratégias para
atender ao número estimado de participantes, dentre elas: divulgação da
pesquisa em meios de comunicação e parceria com a rede básica de saúde.
Destaca-se a contribuição desse estudo para a formação do profissional de
saúde e participação de todos na melhoria da saúde.

Referências

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inflammatory markers in obese women: a randomized trial. JAMA. 2003;
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10) Pischon T, Girman CJ, Hotamisligil GS, Rifai N, Hu FB, Rimm EB. Plasma
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12) Cicconeli R. M. et al. Tradução para língua portuguesa e validação do


questionário genérico de avaliação de qualidade de vida SF-36 (Brasil SF-36).
Rev Bras Reumatol. São Paulo. v.39, n.3, p.143:150. Maio-Junho,1999.
BOAS PRÁTICAS NAS CIÊNCIAS EXATAS
PRÁTICA DE ENSINO EM AMBIENTES NÃO-FORMAIS DE EDUCAÇÃO:
UM PROJETO SOCIAL QUE ENVOLVE DOCÊNCIA E PESQUISA

TEACHING PRACTICE IN NON FORMAL ENVIRONMENTS : A SOCIAL


PROJECT INVOLVING INSTRUCTION AND RESEARCH

Santos, Monica Bertoni dos; MS; FAMAT- PUCRS


bertoni@pucrs.br

Resumo

O presente artigo relata o desenvolvimento de um projeto que tem sido


realizado desde 2004/2 cujo objetivo é inserção profissional de licenciandos do
Curso de Licenciatura Plena em Matemática da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul. Numa parceria com a Pequena Casa da Criança,
reconhecida sociedade filantrópica de Porto Alegre, em um ambiente não-formal
de educação, são ministrados módulos de Matemática para os adolescentes que
participam do Programa Adolescente Aprendiz em Serviços Bancários e
Administrativos, coordenado pela referida entidade. A cada semestre, os
licenciandos desenvolvem com dois grupos de adolescentes, um trabalho que se
caracteriza pela construção coletiva de conhecimento. A cada ano, os objetivos
específicos do projeto têm refletido a busca de metodologias e recursos
inovadores para o ensino e a aprendizagem de Matemática.

Palavras-chave: educação não-formal, docência, pesquisa.

Abstract

The present article exposes the development of a Project that has been
realized since 2004/2, in a join work with the “Small House of the Child”, a well
known philanthropic society of Porto Alegre City. The main idea of this project is
the professional insertion of the students of the Docent Math Course of PUCRS. In
a non formal educational environment, the teenager participants of the “Bank and
Administrative Service’s Teenager Apprentice” program, coordinated by the
174 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

referred society, are presented to Math modules. At each semester, the Math
students work with two groups of teenagers, using the collective construction of
the knowledge. Every years, the specific objectives of this project have been
reflected the search of new methodologies and innovational resources to the
teaching and learning in Math sciences.

Keywords: non formal environment, instruction and research.

Introdução

Nas disciplinas de Metodologia A e B, de Prática de Ensino e de Estágios


Supervisionados do Curso de Licenciatura Plena em Matemática da Faculdade de
Matemática (FAMAT) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS), temos desenvolvido ações de pesquisa e ensino que pretendemos
sejam inovadoras e que denominamos Projeto de Inserção de Licenciandos de
Matemática no Campo Profissional, cujo objetivo geral é proporcionar aos futuros
professores, em sua formação inicial, uma visão da realidade do ensino em que
vão atuar. A cada ano, de acordo com o local e as características das ações
realizadas, são formulados os objetivos específicos.
A partir do segundo semestre de 2004, o Projeto tem se desenvolvido junto
ao Programa Adolescente Aprendiz em Serviços Bancários e Administrativos,
promovido pela Pequena Casa da Criança de Porto Alegre, uma das mais
tradicionais instituições filantrópicas do Rio Grande do Sul. O Programa, uma das
ações educacionais de profissionalização promovidas pela entidade, oferece um
espaço de educação não-formal que proporciona aos licenciandos que dele
participam, a oportunidade de conhecer a realidade dos alunos de Ensino
Fundamental e Médio e de realizar um trabalho coletivo, de pesquisa e ensino e
de desenvolvimento social.
Ao longo destes dez semestres em que se desenvolveu junto ao Programa
Adolescente Aprendiz em Serviços Bancários e Administrativos, o projeto contou
com a participação de licenciandos de matemática e de adolescentes, alunos de
escolas públicas, sendo que, nos anos 2006, 2007, 2008 e 2009, tem contado,
também, com a participação de um aluno bolsista de Iniciação Científica.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 175

As situações de aprendizagem organizadas e desenvolvidas pelos


licenciandos, ao longo deste tempo, foram sendo avaliadas, reformuladas e
reaplicadas, constituindo um acervo, organizado em Unidades de Aprendizagem.
Com isso, em 2009, um dos objetivos específicos do Projeto é a criação de um
ambiente virtual com o propósito de divulgar este acervo, o que poderá possibilitar
a interação com adolescentes que participam de programas semelhantes
realizados no interior do Estado do Rio Grande do Sul, com a supervisão da
Pequena Casa da Criança, bem como seus responsáveis.

Objetivos e Justificativa do Projeto de Inserção de Licenciandos de


Matemática no Campo Profissional

O objetivo geral do Projeto é proporcionar aos alunos de Licenciatura


Plena em Matemática da PUCRS sua inserção na vida profissional, tendo a
oportunidade de desenvolver uma ação pedagógica de cunho social que se
caracterize pela pesquisa, pelo ensino e pelo trabalho de equipe.
Ao participar do projeto, pretende-se, ainda, que os licenciandos, num
ambiente não-formal de educação, possam desenvolver a capacidade de
trabalhar em equipe, de compartilhar tarefas, de liderar, de pesquisar, de planejar
e preparar suas aulas, de elaborar e aplicar instrumentos de avaliação, de coletar
e analisar dados e de elaborar relatórios, atuando como professores reflexivos e
pesquisadores, desenvolvendo seus saberes docentes, contribuindo para que
seus alunos tenham reais experiências de aprendizagem e de construção da
cidadania.
Nosso intuito a cada ano, ao idealizar o Projeto de Inserção do Licenciando
de Matemática no Campo Profissional é proporcionar aos licenciandos vivências
inovadoras que lhes confiram uma gama de experiências e a possibilidade de
construir saberes docentes nos dois eixos em torno dos quais se efetiva essa
construção: o afetivo e o cognitivo.
Segundo Santos (2004):

Para cada um deles, entendemos dois domínios de construção


dos saberes docentes. Ao eixo cognitivo, atribuímos a construção
dos saberes da ciência, que chamaremos de disciplinares, e dos
saberes da ação docente, que chamaremos da prática. No eixo
afetivo, visualizamos que a construção dos saberes transita por
um domínio pessoal, que chamaremos de intrapessoal, e outro
176 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

social, que chamaremos de interpessoal, muito relacionados, mas


distintos.(p.265).

Assim, além das aulas na Universidade, com todos os recursos que aí são
oferecidos, experiências diversificadas proporcionadas ao longo da formação
inicial, que envolvem diferentes situações de ensino e aprendizagem do tipo
formal e não-formal de educação, em espaços escolares e não-escolares, fazem
parte da formação docente.
Experiências na educação formal desenvolvidas em espaços escolares são
proporcionadas aos licenciandos de Matemática na medida que, ao longo do
Curso, há quatro estágios obrigatórios que são realizados em escolas de ensino
fundamental e médio. Com isso, a oportunidade de, em parceria com a Pequena
Casa da Criança de Porto Alegre, trabalhar com jovens adolescentes em um
espaço não-formal de educação, indicou-nos um caminho para proporcionar aos
licenciandos o conhecimento de diferentes realidades sociais e escolares e, ao
mesmo tempo, a vivência de uma prática pedagógica que permitisse a elaboração
e a avaliação de situações de ensino e aprendizagem, que se caracterizassem
por um trabalho de pesquisa e de prática de ensino, visando ao desenvolvimento
social.
Segundo Park, Fernandes e Carnicel (2007),

O papel da universidade e dos trabalhos de pesquisa é pensar a


realidade sob novos ângulos, de forma crítica e consciente, e
propor intervenções reflexivas e práticas, preocupando-se,
também com a formação de futuros educadores; é dialogar com
quem já está na prática e formular questões e discussões para um
público interessado em problemáticas da atualidade que nos
tocam e envolvem de perto (p.27).

A partir disso, tais pesquisadores afirmam que, seus trabalhos “nos últimos
anos tem demonstrado uma preocupação com a construção do conhecimento nos
mais diversos segmentos: educadores que já estão nos espaços não-formais e
formais, com públicos freqüentadores e com pesquisadores” ( p.27).
Então, em nosso planejamento pedagógico, passamos a realizar com os
licenciandos da FAMAT, os Projetos anuais em parceria com a Pequena Casa da
Criança junto ao Programa Adolescente Aprendiz em Serviços Bancários e
Administrativos, organizando e ministrando módulos de Matemática para os
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 177

adolescentes que dele participam, aos sábados de manhã, durante doze sábados
por semestre.
Considerando a educação como elemento importante e relevante na
construção da cultura, fica clara a importância dada à relação educacional em
interface com ações culturais e sociais que acontecem em ambientes
educacionais não-escolares, que caracterizam uma educação do tipo não-formal,
para a construção dos saberes docentes dos futuros professores de Matemática.
Nosso entendimento do termo educação não-formal pressupõe uma
complementaridade ao sistema formal-escolar na perspectiva de ampliar
experiências escolares, contando com uma flexibilidade tanto nos conteúdos
programados quanto na sua abordagem, nas metodologias utilizadas, nos tempos
previstos, o que, de maneira nenhuma, dispensa a existência do planejamento
que, certamente, tem incluído objetivos, conteúdos, recursos e procedimentos
relacionados às situações de aprendizagem, cuidadosamente organizadas e
avaliadas.
Afonso (1989), citado por Fernandes e Park (2007), assim aponta as
diferenças entre o formal e o não-formal:

[...] por educação formal entende-se o tipo de educação


organizada com uma determinada seqüência (prévia) e
proporcionada pelas escolas , enquanto a designação não-formal,
embora obedeça a uma estrutura e uma organização (distinta,
porém das escolas) e possa levar a uma certificação (mesmo que
não seja essa a finalidade), diverge ainda da educação formal no
que respeita a não-fixação de tempos e locais e a flexibilidade na
adaptação dos conteúdos de aprendizagem a cada grupo
concreto (p.131).

Segundo Fernandes e Park (2007), ainda referindo-se a Afonso (1989), “ A


esses aspectos incorpora um diferencial: a preocupação com mudança ou
transformação social por buscarem projetos de desenvolvimento” (p.131).
Como se trata da formação de um profissional que trabalha com seres
humanos que devem se inserir em uma sociedade, é de se prever que a
Licenciatura promova o desenvolvimento de qualidades pessoais, sociais e
culturais de um sujeito que, ao construir-se como professor, como educador,
constrói-se como pessoa e como cidadão.
Conforme Ponte (2002):
178 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

A formação nesses campos pode favorecer o desenvolvimento de


capacidades de reflexão, autonomia, cooperação e participação, a
interiorização de valores deontológicos, as capacidades de
percepção de princípios, de relação interpessoal e de abertura às
diversas formas de cultura contemporânea, todos eles
capacidades e valores essenciais ao exercício da profissão. (p.3-
4).

A formação inicial de professores de Matemática que queremos


educadores matemáticos, pressupõe o domínio dos conteúdos que ele vai
ensinar. No entanto, é importante destacar que a formação desse professor esteja
situada, de forma igualmente importante, no domínio educacional, que inclui as
contribuições das Ciências da Educação, em especial, da Didática, além da
tomada de consciência dos problemas educacionais e sociais e da reflexão sobre
eles.

Descrição e desenvolvimento do projeto

Desde 1992, temos, a cada ano, organizado projetos de ensino e pesquisa


que se caracterizam pela Inserção de Licenciandos de Matemática no Campo
Profissional: alguns localizaram-se na Vila Fátima outros em escolas regulares.
Desde 2004/2, os projetos são realizados na Pequena Casa da Criança de Porto
Alegre junto ao Programa Adolescente Aprendiz em Serviços Bancários e
Administrativos.
Participam do Projeto, coordenados pela professora orientadora e desde
2006, liderados pelo bolsista de Iniciação Científica, alunos do Curso de
Matemática, matriculados nas disciplinas de Metodologia de Matemática A e B, na
Prática de Ensino e nos Estágios Supervisionados do Curso de Matemática e,
ainda, outros, como voluntários, participação que conta como atividade
complementar.
As aulas, geralmente ministradas em forma de oficina, para duas turmas
de adolescentes, acontecem aos sábados pela manhã, das 8 às 12 horas, na
Pequena Casa da Criança, na Vila Nossa Senhora da Conceição em Porto Alegre
e são planejadas e preparadas durante a semana na PUCRS.
Os adolescentes que participam do referido Programa estão regularmente
matriculados de oitavo ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino
médio de escolas públicas de Porto Alegre e da Grande Porto Alegre.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 179

Uma dupla de licenciandos, liderados pelo aluno bolsista, atua ora como
monitor, ora como professor titular, no mínimo, por três sábados que é o tempo
médio de duração de um módulo de trabalho. Como as atividades são planejadas,
realizadas e avaliadas, pelo grupo, os licenciandos têm a oportunidade, tanto de
conhecer e avaliar a realidade de alunos do ensino fundamental e médio de
escolas públicas das redes municipal e estadual de ensino, como de estudar
conteúdos e conhecer metodologias alternativas e recursos diferenciados para o
ensino e a aprendizagem de Matemática.
Os alunos bolsistas e os licenciandos têm realizado um trabalho de equipe
em que todos os envolvidos assumem a responsabilidade de planejar, efetivar e
avaliar as aulas referentes aos módulos de trabalho. O aluno bolsista, juntamente
com a professora orientadora, coordena as atividades, é o elo de ligação entre a
entidade promotora do Programa, os licenciandos e os adolescentes.
No início de cada semestre, é feita uma sondagem, bem como uma etapa
de conhecimento dos adolescentes, seu grau de escolaridade, suas preferências,
suas facilidades e dificuldades na aprendizagem de Matemática.
Após as sondagens, de acordo com o grau de escolaridade dos alunos é
feito o planejamento do semestre. Temos optado por abordar alguns assuntos
básicos de ensino fundamental, essenciais para a continuidade dos estudos,
importantes para a vivência em sociedade e para a leitura do mundo em que
vivem. Alguns temas como razões, proporções, regra de três simples e composta,
conceitos básicos de Geometria, de funções e de Matemática Financeira têm
sido, via de regra, trabalhados com os diferentes grupos.
Planejados os módulos de trabalho e as aulas dos respectivos módulos, os
materiais didáticos selecionados e utilizados nas oficinas são fornecidos pelo
Laboratório de Materiais Instrucionais da FAMAT ou são elaborados e construídos
pelos licenciando liderados pelo aluno bolsista.
Ao longo desses anos, temos elaborado um banco de planejamentos e
atividades para diferentes módulos de trabalho, os quais, semestralmente, são
selecionados e aprimorados a partir das demandas dos adolescentes. Os
materiais didáticos elaborados são preparados pelo aluno bolsista que se
encarrega de os distribuir para os outros licenciandos, esclarecendo as
combinações finais.
180 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Ao final de cada semestre, como encerramento das atividades e como


culminância do trabalho, os adolescentes participam, na PUCRS, de um evento
organizado pelos licenciandos que, além de uma confraternização, inclui uma
visita ao Laboratório de Materiais Instrucionais da FAMAT, realizando jogos,
desafios e atividades envolvendo raciocínio lógico e conhecimentos matemáticos,
bem como uma visita ao Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS.

Resultados obtidos

Identificamos três diferentes categorias de análise dos resultados obtidos


no desenvolvimento do Projeto, ao longo destes dez semestres: os resultados
relacionados aos licenciandos, os relacionados aos adolescentes e os que se
referem ao acervo de materiais que constituem as Unidades de Aprendizagem.
Para os licenciandos da Matemática da PUCRS, certamente tem sido uma
experiência bastante enriquecedora e diferente, principalmente para aqueles que
nunca haviam atuado em sala de aula. O Projeto tem se caracterizado pelo
estudo e pelo trabalho de equipe, pela reflexão em grupo, pela pesquisa no
preparo dos materiais e pela docência, o que indica o alcance dos objetivos
propostos que, em última instância, referem-se à promoção de habilidades
relacionadas aos saberes docentes.
Esta inserção é tanto mais eficiente quanto mais perto estiver da realidade
social e escolar em que o licenciando irá atuar, num contato com os diferentes
cenários e atores, tendo oportunidade de discutir as questões do ensino e da
aprendizagem ainda na Universidade.
No relatório do SEMINÁRIO ESTADUAL SOBRE LICENCIATURAS EM
CIÊNCIAS E MATEMÁTICA, realizado em Ijuí em 1991, encontramos a seguinte
orientação: “A interação do estudante de licenciatura com a realidade escolar
deverá dar-se através de um processo de integração de educação continuada de
professores com a formação em nível de graduação, devendo isto ocorrer
tornando-se a prática docente com eixo direcionador e toda a educação básica”.
(p.16).
Nas avaliações e auto-avaliações que constam de seus relatórios, via de
regra, os licenciandos colocam que as vivências de prática de ensino na Pequena
Casa foram reais experiências de ensino e de aprendizagem, identificam-nas
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 181

como gratificantes e momentos em que eles tiveram a oportunidade de


desenvolver um trabalho diferenciada no ensino de matemática e a oportunidade
de perceber o interesse dos seus alunos pela aprendizagem de Matemática.
Quanto aos adolescentes, é importante destacar a oportunidade que eles
têm de participar de situações de aprendizagem de Matemática que são
contextualizadas, que envolvem o uso da História da Matemática, que partem da
resolução de problemas e desafios propostos também através de jogos e do uso
de materiais concretos em situações diferenciadas daquelas geralmente
trabalhadas em salas de aula. Além da atitude positiva com que eles têm recebido
os licenciandos e as propostas de trabalho, do entusiasmo de suas participações
nas atividades desenvolvidas na PUCRS, em suas avaliações e auto-avaliações,
realizadas no final do semestre, eles identificam as formas diferentes de aprender
Matemática e o seu entendimento a respeito da importância da matemática para a
sua vida. O cunho de desenvolvimento social do Projeto, evidencia-se na medida
que os adolescentes têm a oportunidade de conviver tanto com universitários,
como no ambiente da Universidade, e os licenciandos têm a oportunidade de
conhecer a realidade de uma população carente que tem, na educação, a
oportunidade de integração socioeconômica e cultural.
O documento que denominamos Unidades de Aprendizagem, é o resultado
concreto da produção coletiva de um trabalho de pesquisa organizado na
Universidade. No que diz respeito ao Projeto de 2009, nosso objetivo é criar um
ambiente virtual onde possamos divulgar as Unidades de Aprendizagem e
interagir com mais adolescentes que participam, no interior do Estado, de
programas semelhantes, bem como com seus professores.

Considerações finais

A leitura das avaliações dos diferentes integrantes do Projeto levam-nos a


reflexões que nos permitem entendê-lo como uma ação inovadora de interação
com a sociedade, na medida que constatamos o desenvolvimento de cada um,
num processo de em interação com seus pares e com outros em diferentes
situações sócioeconômicas e culturais.
Para os licenciandos, ficam evidentes suas experiências de inserção na
profissão e a oportunidade de desenvolver pesquisa, um trabalho de produção
individual e coletiva de conhecimento.
182 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Para os adolescentes, constatamos a oportunidade de contatar com


estudantes universitários que lhes mostram outras maneiras de valorizar o
conhecimento, em especial, o conhecimento matemático, estimulando gosto pela
disciplina, o desejo de saber, vislumbrando a possibilidade de continuar os
estudos. Observamos a cumplicidade desses dois grupos de jovens,
compartilhando de uma sociedade de conhecimento.
Entendemos que é preciso buscar a construção de um novo mundo, e que,
para isso, como diz Grossi 2002 é pensar que:

[...]um mundo com paz, com fraternidade e com justiça é possível,


mas tem que ser construído diligentemente e como resultado de
um esforço coletivo, onde não haja pretensões de preeminência
de mais saber ou de mais valor moral de alguns que seriam os
capazes de conduzir o processo; descobrir-se que todos podem
aprender é algo de um estupendo poder democrático e
revolucionário; que uma boa pedagogia fundamentada em
pesquisa, desenvolvida num ambiente habilmente preparado dá
conta de ensinar a todos (p.13).

Como formadores de formadores, estamos imbuídos da certeza de que o


momento que vivemos exige de nós a promoção de ações positivas de interação
da Universidade com a sociedade

Referências

FERNANDES R.S., PARK, M.B. Educação Não Formal. In: Pak, M.B., Fernandes,
R.S., Carnicel, A. (org) Palavras-chave em EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL. SP:
Editora Setembro; Campinas , SP: Unicamp/CMU, 2007.

GROSSI, E.P. Democracia s.f.1. sociedade onde todos aprendem. Porto


Alegre:GEEMPA, 2002.

PARK, M.B., FERNANDES, R.S., CARNICEL, A. (org) Palavras-chave em


EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL. SP: Editora Setembro; Campinas , SP:
Unicamp/CMU, 2007.

PONTE, J. P. da. A vertente profissional de formação inicial de professores de


Matemática. In: Educação Matemática em Revista, v. 9, n.11, p. 3-8, abril 2002.
Edição especial.

SANTOS, M. B. dos. Saberes de uma Prática Inovadora: Investigação com


egressos de um curso de Licenciatura Plena em Matemática. Dissertação de
Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e
Matemática, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande d Sul, Porto Alegre,
2005.
ENSINO DE FÍSICA PARA INCLUSÃO: O RECONHECIMENTO DA
DIVERSIDADE E A SUPERAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

PHYSICS TEACHING FOR INCLUSION: THE DIVERSITY RECOGNITION AND


OVERCOMING DIFFICULTIES OF APPRENTICESHIP

Rocha Filho, João Bernardes da; Dr; FAFIS – PPGEDUCEM - PUCRS


jbrfilho@pucrs.br
Lima, Valderez Maria do Rosário; Dra; FACED - PROGRAD - PPGEDUCEM –
PUCRS
valderez.lima@pucrs.br
Basso, Nara Regina de Souza; Dra; FAQUI – PPGEDUCEM - PUCRS
nrbass@pucrs.br

Resumo

Apresentamos a inclusão e o respeito à diversidade, da forma em que são


expressos nos documentos oficiais que regem a Educação no Brasil, e
associamos estas diretrizes a uma ação exemplar que envolve o projeto Ensino
de Física para Cegos, realizado pela Faculdade de Física da PUCRS e o Instituto
Santa Luzia, uma escola inclusiva da cidade de Porto Alegre. A ação do professor
de Física que pretende utilizar o ensino desta ciência com o objetivo de formar
cidadãos aptos a intervir positiva e efetivamente na comunidade em que vivem é
descrita e analisada por meio de atividades que estão sendo realizadas no
contexto deste projeto de inclusão.

Palavras-chave: Ensino de Física para cegos, Inclusão, Diversidade cultural.

Abstract

This article presents the inclusion and the respect to the diversity, of the
form where they are express in the official documents that conduct the Education
in Brazil, and associates these directives to an exemplary action that involves the
Physics Education for Blind People Project, carried through inclusive school of
184 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Porto Alegre city. The actions of the Physics teacher that intends to use the
science education with the objective to form apt citizens to positively and
effectively intervene in the community where lives are described and analyzed by
means of activities that are being implemented in this project.

Keywords: Physics education for blind people, Inclusion, Cultural diversity.

Introdução

A fim de manter coerência com o princípio de “igualdade de condições para


o acesso e permanência na escola”, expresso na Constituição Federal do Brasil,
torna-se capital, na atualidade, que as instituições escolares procedam revisão de
seus projetos educativos com o propósito de eliminar barreiras impostas à
educação e garantir a inclusão de todas as crianças e adolescentes em
processos pedagógicos que os qualifiquem para uma atuação satisfatória na
sociedade do século XXI.
Embora ocorra associação entre o termo inclusão escolar e inserção de
estudantes com deficiências físicas e mentais em classes de ensino regular, a
idéia mais amplamente defendida é a de que a inclusão escolar não se refere
somente a esses alunos. Nesta perspectiva, as instituições escolares precisam
estar preparadas para atender necessidades de todos, o que exige da
comunidade escolar a superação da idéia de que aqueles que não se ajustam a
determinados padrões singelos de normalidade devem ser banidos. Estabelecida
esta premissa, a escola, por meio das ações que desenvolve, torna-se local de
formação de uma cidadania fundada na tolerância e no respeito às diferenças.
O alinhamento à mudança pretendida requer que a proposta educativa da
escola se reorganize no que se refere às metodologias escolhidas para estruturar
as situações de aprendizagem. É necessário utilizar estratégias capazes de
deslocar o aluno de uma condição passiva e subalterna para uma condição de
sujeito da própria educação, tornando a sala de aula um ambiente de
desenvolvimento humano e aprendizagem significativa.
Para conhecer adequadamente o problema e interagir com a comunidade
com vistas a elaborar, conjuntamente com ela, ações que consistam em soluções,
a FAFIS esteve envolvida no projeto Ensino de Física para Cegos, realizado no
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 185

âmbito do Ensino Médio em uma escola inclusiva de Porto Alegre. Nesta


experiência, a reorganização dos procedimentos didáticos e a aplicação de
materiais experimentais visaram reverter o tradicional processo de exclusão dos
alunos com necessidades especiais, mostrando uma ampliação substancial do
interesse pela disciplina e demonstrando, ainda, que os alunos cegos encontram
formas inusitadas de realizarem as atividades propostas e melhorarem suas
aprendizagens, aumentando suas auto-estimas.
Esta apresentação encontra-se organizada a partir da focalização da
problemática da inclusão de cegos em classes comuns do ensino regular, e
aborda estratégias de ensino de Física para o Ensino Médio explicitadas nos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), seguida de uma contextualização da
experiência do projeto supracitado, relatando as atividades desenvolvidas e
promovendo a análise de seus resultados. Situando a discussão na intersecção
desses temas, de um lado temos a constatação de que as dificuldades
encontradas pelos estudantes do Ensino Médio na disciplina de Física são, em
geral, maiores do que em outras disciplinas, e, de outro, que portadores de
deficiências visuais graves encontram-se entre estes estudantes da Educação
Básica, sendo sua inclusão em classes comuns dificultada pela metodologia
expositiva utilizada pela quase totalidade dos professores de Física.

Objetivos do Projeto

Na tentativa de oferecer soluções para este problema, permitindo aos


alunos uma melhor compreensão da Física e de sua linguagem, valorizando cada
indivíduo que compartilha o espaço da sala de aula, o projeto visou propor
modificações das estratégias de ensino, considerando a diversidade presente na
classe como uma possibilidade de enriquecimento dos processos de ensino e de
aprendizagem. Essas modificações incluíram ações pedagógicas que propiciaram
aos estudantes do Ensino Médio a reconstrução dos conceitos científicos,
ampliando sua autonomia e incentivando sua participação em projetos coletivos,
de modo a desenvolver a capacidade de convivência com as diferenças, assim
como a percepção das possibilidades de crescimento cognitivo e humano
oferecidas por tal convívio.
186 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Descrição do Projeto de Inovação e dos Resultados Obtidos

Uma das principais causas das dificuldades dos estudantes na disciplina


de Física é a forma como ela é abordada no Ensino Médio. A exposição de
equações, princípios e leis, seguida da resolução de exemplos idealizados e
exercícios repetitivos, ocasionalmente interrompidos por uma demonstração
experimental, tornam difícil a compreensão e a contextualização dos conteúdos
conceituais da Física. O que já é cansativo e abstrato para os estudantes que
vêem se torna um drama para os que não podem ver os gestos e os materiais
que o professor manipula. Esses alunos terminam sendo excluídos do processo
educativo, acreditando que suas deficiências os impedem de compreender e
aplicar os conceitos apresentados na disciplina, sem perceberem que seus
colegas videntes estão em situação semelhante. A metodologia tradicionalmente
utilizada pelos professores de Física do Ensino Médio, centrada no professor e
distanciada de situações reais e do cotidiano, não cumpre o papel de oferecer ao
estudante acesso a conhecimentos que ampliem a possibilidade de sua inserção
qualificada nos diversos setores da atividade humana, impedindo-o de utilizar
esses conhecimentos para qualificar sua vida ou a de seus concidadãos.
Assim, o Instituto Santa Luzia, escola inclusiva de Ensino Fundamental que
comporta turmas mistas com alunos portadores de deficiência visual e alunos
videntes, localizada na Zona Sul de Porto Alegre e pertencente à congregação
das Irmãs Vicentinas, aceitou colaborar com a FAFIS em uma ação visando dar
respostas a esse problema. Iniciamos, então, um processo de intercâmbio
universidade-escola, primeiramente por uma solicitação da Direção, que entrou
em contato conosco solicitando que opinássemos em relação à estruturação de
um ambiente próprio para ensino de Física. A escola, que até então oferecia
somente o Ensino Fundamental, pretendia estender seus serviços também ao
Ensino Médio, destinando uma sala ao laboratório de Física, mandando construir
mesas adequadas e equipando este espaço com os materiais básicos
necessários, segundo nossas orientações, e em alguns meses recebeu
autorização oficial para iniciar suas atividades no nível médio.
Em seguida, dois professores se sucederam durante o primeiro ano de
implantação do projeto, deixando evidente que o professor de Física desta escola
em particular precisaria, além da capacidade técnica tradicionalmente
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 187

desenvolvida nos anos de formação, abertura para acolher os alunos de turmas


inclusivas. Nessa época fomos contatados pela direção da instituição para que
sugeríssemos um candidato ao cargo de professor de Física, pois a carência de
pessoas aptas nessa carreira é reconhecida (MEC/CNE/CEB, 2007).
Apresentamos, então, um ex-aluno da Faculdade de Física da PUCRS, possuidor
de atitude educacional de caráter francamente humanista e que regressara
recentemente de seus estudos de pós-graduação, estando disponível.
Durante este período a escola também admitiu uma estagiária, e nós
solicitamos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul,
FAPERGS, uma bolsa de iniciação científica para que pudéssemos desenvolver
sugestões de experimentos adequados para ensino de Física em classes
inclusivas, visando dar apoio ao professor. Tanto o estágio quanto a bolsa foram
destinados a alunos de graduação em Licenciatura em Física da PUCRS, e por
meio deles mantivemos contato permanente com a escola, desde então. Quando
a bolsa foi outorgada a instituição escolar já contava com turmas de 1os e 2os
anos, e a bolsista começou a estudar a literatura sobre inclusão, observando e
acompanhando o desenvolvimento das aulas e criando, aplicando e corrigindo
experimentos adaptados ao ensino de Física em turmas mistas, enfim, buscando
meios para fazer com que o professor pudesse oferecer aos estudantes maior
acesso a recursos instrumentais e metodologias de ensino mais adequadas ao
trabalho. Essa bolsista, posteriormente, ingressou no magistério público estadual,
em uma escola inclusiva de Porto Alegre.
Desde o início do trabalho percebemos que entre os diferentes obstáculos
à inclusão em Física, dois eram especialmente importantes nesta escola: a
ausência de situações de investigação que incluíssem manipulação de objetos
em situações de aprendizagem, e a utilização de experimentos demonstrativos de
caráter eminentemente visual, cujas limitações são óbvias no caso de inclusão de
estudantes cegos.
Neste mesmo período, em outra pesquisa, estávamos desenvolvendo um
conjunto composto por ripas de madeira furadas, parafusos, discos, arruelas e
porcas, cujo objetivo era servir de material de sustentação para experimentos de
Física, quando percebemos que este material poderia ser uma alternativa para o
desenvolvimento de atividades investigativas em turmas inclusivas, possibilitando
a construção de conceitos e promovendo a autonomia dos estudantes.
188 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Entregamos à bolsista, assim, o primeiro destes conjuntos, composto por 20


peças de cada tipo, manufaturado por um marceneiro local, e ela passou a ser
orientada a desenvolver experimentos com base neste material. O professor foi
chamado para capacitar-se para a utilização do conjunto, e o recebeu por
empréstimo para que se familiarizasse com ele. Posteriormente, a escola, assim
como a PUCRS, mandou produzir seus próprios conjuntos, que agora são
utilizados regularmente.
A partir deste ponto o professor, a bolsista e a estagiária passaram a
desenvolver experimentos utilizando o material, seja como elemento de
sustentação, seja como base única, e um encontro inaugural foi realizado na
Instituição, com a participação dos orientadores, do professor, da estagiária e da
bolsista, quando uma turma de estudantes foi atendida e realizou diversos
experimentos em caráter de primeira aproximação ao material. A reação dos
alunos foi positiva, e tanto videntes quanto deficientes visuais puderam criar
experimentos interessantes envolvendo Mecânica, tendo oportunidade de
reprojetar, construir, desconstruir e testar montagens destinadas ao estudo da
Física. Desde então as aulas de Física da escola têm sido oferecidas
principalmente no laboratório, com o professor propondo experimentos adaptados
para a modalidade investigativa e para as necessidades, possibilidades e
interesses dos diversos grupos atendidos.
As montagens têm incluído máquinas simples, como alavancas e sistemas
de roldanas, no estudo das forças, instrumentos de medição, como balanças,
dinamômetros e torquímetros, sistemas rotativos, para estudo das forças no
movimento circular, veículos sobre trilhos e sob cordas, para estudo do
movimento linear, pêndulos, para estudo dos movimentos periódicos, sistemas de
transmissão por correia, no estudo da cinemática do movimento circular, rodas
d’água, no estudo das transformações de energia, e suportes, em geral, para
outros experimentos e conteúdos.
Numa aula típica de laboratório os alunos são dispostos em grupos,
ocupando seis mesas hexagonais que compõem o laboratório, todas com
tomadas de eletricidade, espaços para os alunos guardarem seus materiais,
bancos altos e pia. Os grupos são formados ao gosto dos alunos, respeitando a
regra de que devem possuir pelo menos uma pessoa vidente. Essa regra objetiva
evitar acidentes quando os experimentos envolvem itens potencialmente
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 189

perigosos, e os alunos videntes tornam-se cuidadores de seu colegas,


protegendo-os e orientando-os ao longo da aula.
O conteúdo conceitual é trabalhado previamente em aulas teóricas, e nelas
o professor conduz o trabalho problematizando e contextualizando o conteúdo. O
questionamento oportuniza aos estudantes a retomada de informações, a
explicitação de conhecimentos prévios e o avanço na construção de
conhecimentos. O estudo de determinado conteúdo parte de questões
desafiadoras, incentivando o aluno a expor argumentos e estabelecer hipóteses
explicativas, relacionando a situação apresentada com outras situações
relevantes sobre o tema. Nessas atividades o professor, ao invés de dar
respostas, instiga os alunos com novos questionamentos, aponta fragilidades no
raciocínio e auxilia na procura de respostas para os desafios colocados (LIMA,
2006).
Em algumas aulas de laboratório o professor faz referências ao conteúdo
que foi trabalhado teoricamente, ligando-o às vivências dos alunos e pedindo que
eles realizem montagens livres, relacionadas ao tema estudado em sala,
utilizando as ripas, parafusos, discos, porcas e arruelas distribuídas, alertando
para a necessidade de a montagem incluir a possibilidade de realização de
medições. Noutras, disponibiliza aos alunos um protótipo do experimento a ser
trabalhado, um sistema modelo ou um dispositivo comercial, como balanças,
pêndulos, lançadores, brinquedos, quebra-nozes, ferramentas e outros, deixando
que eles observem e manipulem livremente o material, e depois pede que eles
projetem e construam um sistema semelhante e façam medições de grandezas
relacionadas ao tema discutido em sala de aula. Este modo de condução da aula
de laboratório afasta-se da abordagem convencional de atividades de
experimentação, que consiste normalmente na realização pelos estudantes de
uma sequência de etapas com a finalidade de demonstrar uma verdade já
conhecida (ROSITO, 2000), ao mostrar-se desafiadora, ao valorizar a criatividade,
e ao criar condições para que o problema investigado esteja associado a
situações reais da vida dos alunos.
Ao final do período os grupos apresentam seus trabalhos aos demais em
suas próprias mesas, com os cegos mais próximos da bancada. Os
apresentadores, cegos ou não, conduzem as mãos dos alunos cegos até a
montagem, permitindo que eles vejam os seus trabalhos e compartilhem suas
190 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

impressões. As avaliações são realizadas de modo tradicional, porém incluindo


questões interpretativas compatíveis com a dinâmica de sala de aula, o que
permite que os alunos posicionem-se criticamente sobre o tema e suas
implicações no cotidiano, assim como sobre a metodologia empregada pelo
professor.
A grande autonomia e ludicidade oferecidas por este trabalho faz com que
os alunos trabalhem com afinco e dedicação, realizando experimentos
interessantes e criativos, independentemente de suas deficiências.
Ocasionalmente surgem problemas isolados, como alunos que se negam a
realizar uma experimentação proposta ou que, mesmo incentivados pelo
professor, alegam falta de inteligência, inaptidão para a experimentação,
dificuldades em trabalhar sem diretivas simples, ou desejo de ficar apenas
assistindo. Com paciência o professor respeita-os nessas atitudes e dá
assistência a eles, de maneira que esses mesmo alunos voltam a participar
ativamente em outras ocasiões, de modo que a negativa ocasional não
caracteriza exclusão. A tolerância e flexibilidade do professor, nestas ocasiões,
são ótimas conselheiras da ação, pois evitam que um problema temporário e
menor desencadeie reações que podem produzir danos emocionais irreversíveis
na relação professor-aluno-escola-física, transformando um pequeno obstáculo
em barreira insuperável. O professor que promove a inclusão precisa estar atento
à sua interioridade, reconhecendo as próprias limitações e agindo
empaticamente, pois isso diminui o risco de ocorrer uma reação
desproporcionadamente grande quando a atitude de um determinado estudante
toca questões não resolvidas na estruturação da personalidade do educador
(ROCHA FILHO, 2007).
Os experimentos, portanto, são realizados com a participação ativa de
quase todos, e essa interação com o outro é essencial para os processos
individuais de aprendizagem. Ao mesmo tempo, as atividades nos grupos são
permanentemente assistidas pelo professor, no exercício de seu papel de
mediador entre o estudante e o objeto a ser conhecido, no caso um conceito ou
uma lei da Física. Para Vygotsky (1995), desenvolver ações em cooperação com
outros jovens, ou auxiliado por um adulto, é forma de atuar na Zona de
Desenvolvimento Proximal, espaço em que a intervenção do outro possibilita que
o indivíduo avance e solucione questões que não conseguiria resolver sozinho,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 191

naquele momento. Há, portanto, o entendimento de que a organização da


atividade, a relação de cooperação subjacente ao processo, e o diálogo
empreendido no desenvolvimento da aula foram fatores decisivos para a
atribuição de sentido aos conceitos trabalhados e para a construção do
conhecimento nos diferentes conteúdos da Física.
Kamii (1988, 1992) considera que a autonomia moral, como capacidade de
decidir qual o melhor caminho a seguir, e intelectual, como capacidade do
educando de responsabilizar-se por suas aprendizagens, tornam-se factíveis em
condições claramente definidas de manejo por parte dos adultos. Na proposta
apresentada estão presentes condições para o desenvolvimento de autonomia
nos âmbitos citados, pois há incentivo à gestão das ações em grupo, à discussão
e posicionamento frequente por parte dos jovens, e à tomada de decisões,
impulsionada pela reflexão e pelo diálogo, que são permanentes e essenciais
para a instituição da independência moral. O diálogo entre os estudantes e com o
professor é garantido pela natureza da atividade e pelo clima de confiança e
liberdade presente em aula, e Freire (1996) destaca que a relação dialógica,
dentre outros fatores, é importante, pois o bom senso na utilização da liberdade é
obtido pelo jovem com o exercício de se confrontar com pessoas investidas de
autoridade, tais como pais e professores.
A autonomia intelectual é oportunizada pelo modo de agir do professor,
que encaminha as atividades de forma a incentivar o estudante a desenhar seu
projeto experimental, organizando o experimento e procurando informações e
recursos para promover as atividades. Estas ações tendem a resultar na
desacomodação do aluno do papel passivo de ouvir, repetir e copiar para a
condição ativa de elaboração própria e articulação entre os conhecimentos
(DEMO, 1998). Os objetivos de uma ação inclusiva, entre os quais a valorização
da diversidade e seu reconhecimento como elemento de enriquecimento de
todos, parecem ser alcançados na ação descrita. Há evidente melhoria do
autoconceito e da autoestima dos alunos quando trabalham desta forma, e
demonstram desenvolver sentimentos positivos, tais como segurança,
desinibição, autoconfiança e liderança.
192 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Considerações Finais

Esta experiência demonstrou que a recomendação mais enfática dos


PCNs para o Ensino de Física – a contextualização – é uma importante aliada do
professor no processo ensino-aprendizagem para turmas inclusivas, e que um
simples conjunto de montagens em madeira, usado adequadamente, ajuda muito.
Houve progressos consideráveis, traduzidos em diferenças positivas de atitude
dos alunos em relação aos inícios dos anos letivos. Foi perceptível o incremento
na habilidade de manusear os materiais e partilhar com os colegas as
descobertas feitas nas atividades de experimentação. O incentivo que receberam
para a realização do projeto, a construção e a proposição de medições em suas
próprias montagens experimentais em Física parece aumentar a vontade de
aprender dos alunos. Como os estudantes têm habilidades manuais e imaginação
espacial em graus diferentes, sentem-se motivados a ajudar seu colegas nas
tarefas, desenvolvendo e utilizando a imaginação, o senso de responsabilidade, a
tolerância às limitações dos outros, a habilidade de ensinar e de aprender e, por
conseqüência, ampliam suas autoestimas. Houve aumento do interesse dos
alunos pela Física, e um substancial incremento da interação na experimentação
em sala de aula.
Exercer atividades que incentivem a aplicação criativa de idéias e a
construção e medição em montagens relacionadas aos conteúdos da Física
também têm aumentado o número e a complexidade dos projetos relacionados à
Física nas Feiras de Ciências da escola. A atividade investigativa trouxe a Física
para a vida dos alunos, fazendo com que a ciência ganhasse um caráter prático
que dificilmente se encontra neste nível de ensino. O envolvimento de alunos
cegos em turmas inclusivas em atividades de experimentação criativa tem se
mostrado uma excelente alternativa às aulas tradicionais de laboratório didático,
principalmente em função do uso de materiais simples e baratos, como o conjunto
descrito. Ao invés de simplesmente contemplar o conhecimento do professor ou
as informações dos livros, o estudo individual e as capacidades de abstração e
memorização, que desfavorecem o cego, esta atividade desloca o foco do
processo educativo para o estudante inteiro, valorizando também sua destreza
manual, sua capacidade criativa, suas habilidades de relacionamento e seu
comprometimento com o outro, fatores decisivos no estabelecimento de vínculos
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 193

dos conteúdos de Física com as vivências de cada um. Os resultados têm sido
recompensadores em termos de aprendizagem, talvez porque esta seja uma
forma interessante de oferecer a todos os alunos, independentemente de suas
diferenças, uma chance de descobrir uma aprendizagem útil dentro e fora da
escola, que pode ser atingida de maneira lúdica e interativa.
Esta metodologia continua sendo aplicada, e foi estendida também aos
alunos do Ensino Fundamental, para que estes recebam as primeiras noções de
Física de uma forma positiva, evitando que uma abordagem equivocada desperte
preconceitos que dificultem, posteriormente, a inserção dos estudantes na Física
do Ensino Médio. Agradecemos à PUCRS, à FAPERGS e à Escola Vicentina
Instituto Santa Luzia pela oportunidade de realização deste projeto inovador.

Referências

DEMO, Pedro. (1998) Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados.

FREIRE, Paulo. (1996) Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra.

KAMII, C.; DECLARK, G. (1988) Reinventando a aritmética: implicações da teoria


de Piaget. Campinas: Papirus.

KAMII, C. (1992) Aritmética: Novas perspectivas. Implicações da Teoria de


Piaget. Campinas: Papirus.

LIMA, V. M. R. ; PAAZ, A. (2006) Reflexões sobre o ensino de Ciências na


educação de jovens e adultos. Ciências & Letras - Revista da Faculdade Porto
Alegrense.

Ministério da Educação do Brasil (2002). PCN+Ensino Médio: Orientações


Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências
da natureza, matemática e suas tecnologias. Secretaria de Educação Média e
Tecnológica. Brasília: MEC: SEMTEC.

MEC/CNE/CEB (2007) Escassez de Professores no Ensino Médio. Relatório da


Câmara de Educação Básica, do Conselho Nacional de Educação e do Ministério
da Educação, de autoria de RUIZ, Antonio Ibañez; RAMOS, Mozart Neves;
HINGEL, Murílio. http://portal.mec.gov.br/cne/

ROCHA FILHO, João Bernardes.; BASSO, Nara Regina de Souza ; BORGES,


Regina Maria Rabello. (2007) Transdisciplinaridade – A Natureza Íntima da
Educação Científica. Porto Alegre: EDIPUCRS.

ROSITO, Berenice Alvares ; RAMOS, M. G. ; MORAES, Roque ; COSTA, R. ;


BATISTA, J. ; GALIAZZI, M. C. . Construtivismo e ensino de ciências. 1. ed. Porto
Alegre: EDIPUCRS, 2000.

VYGOTSKY, L. (1995) Pensamentos e linguagem. São Paulo: Martins Fontes.


DESAFIO DE ROBÔS: INTEGRANDO A SOCIEDADE NO MUNDO DA
ROBÓTICA

CHALLENGE OF ROBOTS: INTEGRATING THE SOCIETY IN THE WORLD OF


THE ROBOTICS

Fagundes, Rubem Dutra Ribeiro, PhD, Faculdade de Engenharia – PUCRS


rubemdrf@pucrs.br
Ramos, André Luiz Tietböhl, MsC, Faculdade de Engenharia - PUCRS
andreltr@pucrs.br

Resumo

O projeto Robótica na PUCRS busca inserir estudantes no mundo


tecnológico atual através da implementação de um intercâmbio entre a Faculdade
de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e as
escolas de ensino médio e fundamental públicas e privadas, no sentido de
promover a popularização da ciência e da tecnologia, integrando, a esta proposta,
alternativas de desenvolvimento e capacitação de acadêmicos da Universidade,
preparação de professores das escolas para interagirem com a Robótica, bem
como o atendimento às necessidades de complementação do processo de ensino
e de aprendizagem dos alunos do ensino médio e fundamental. A principal
atividade do projeto é o Desafio de Robôs, promovido pela PUCRS há dez anos,
com expressiva participação de estudantes de diversas regiões do país.

Palavras-chave: Robótica, integração Universidade/escolas, novas estratégias


pedagógicas.

Abstract

PUCRS Robotics Project main purpose is to insert students in the


technology world through a cooperation program between the Engineering School
of PUCRS and public and private high schools. The main goal is to promote
science and technology among students in general, also offering alternative
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 195

activities to the university’s students and recycling to high school teachers,


complementing the teaching/learning process. The project’s main activity is the
Robot Challenge, promoted by PUCRS in the last ten years, with huge
participation of high school students and also students from other universities,
from different country regions.

Keywords: robotics, university/high schools integration, new pedagogic


strategies.

Introdução

A crescente modernização do sistema produtivo mundial a partir da década


de 1960, bem como a automação crescente dos processos de manufatura em
distintos setores, aliadas à definição de novos tipos de equipamentos com
crescente digitalização alterou profundamente a manufatura em nível mundial.
Surgiu um novo dispositivo automatizado de produção com repetibilidade
garantida, alto desempenho e alta confiabilidade que permitiu o aumento da
eficiência e consequentemente do lucro de sistemas produtivos. Este
equipamento é conhecido popularmente pelo nome robô. Um robô é um
equipamento eletro-mecânico para execução de diversas tarefas industriais, de
forma repetitiva, com grande confiabilidade e tem a capacidade de ser
logicamente configurado para a realização de tarefas, pois é programável.
A PUCRS foi pioneira na criação, organização e implementação do curso
de graduação de Engenharia de Controle e Automação no Rio Grande do Sul.
Neste curso a Robótica é utilizada como um dos fundamentos do processo de
aprendizagem profissional. A Robótica possui atividades acadêmicas, através de
competições, desenvolvidas em âmbito nacional e internacional, como o futebol
de robôs (promovida inicialmente pela Coréia do Sul e hoje realizada
internacionalmente), as olimpíadas de robôs (promovidas também na Coréia do
Sul), a competição First (USA), dentre outras. Em 1998, a PUCRS criou e
promoveu o 10 Desafio de Robôs como uma competição de alcance nacional e,
desde então, já ocorreram dez edições deste evento. O conceito teve como base
um projeto semelhante no MIT (Massachusetts Institute of Technology) que é a de
um competição que segue a idéia da disciplina 6.270 do MIT iniciada em 1987.
196 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Após as conclusões adquiridas nos primeiros eventos foi decidido padronizar a


competição sendo que a partir desta decisão foi desenvolvido um dispositivo
denominado Handyboard que é uma placa de controle fundamentada no
microcontrolador 68HC11 da Motorola. O Desafio de Robôs da PUCRS utilizou a
Handyboard até sua 3a edição em 2001. A partir de então, foi permitida a
utilização de outros controladores como, por exemplo, o RCX da LEGO Corp.,
dentre outros.
O grande diferencial desta competição é que os robôs são autônomos,
logo há um grande esforço em fazer o melhor robô e consequentemente o melhor
programa de controle. Os alunos, assim, devem utilizar conceitos avançados de
lógica, pois necessitam elaborar sua estratégia, levando em consideração as
estratégias dos adversários e desta forma definir a melhor tática conforme as
regras estabelecidas na competição.
A robótica é considerada atualmente a “mola” de uma grande
transformação nos meios de produção, devido à sua versatilidade, em oposição à
automação fixa, ou hard automation, atualmente dominante na indústria (Castilho,
2002).
Os robôs, graças a seu sistema lógico computacional, podem ser
reprogramados e utilizados em uma grande variedade de tarefas. Porém não é a
reprogramação o fator mais importante na versatilidade desejada e sim sua
adaptabilidade às variações no seu ambiente de trabalho mediante um sistema
adequado de percepção e tratamento de informações (Ferreira, 1991).
A robótica também pode ser um instrumento adicional de aprendizagem
escolar, usado de forma tradicional como meio de desenvolvimento de intelecto
ou como um “veículo” de aprendizagem. Segundo Papert (1994) a escola está no
contexto da sociedade:

"A mesma revolução tecnológica que foi responsável pela forte


necessidade de aprender melhor oferece também os meios para
adotar ações eficazes. As tecnologias de informação, desde a
televisão até os computadores e todas as suas combinações,
abrem oportunidades sem precedentes para a ação a fim de
melhorar a qualidade do ambiente de aprendizagem."

Neste contexto, o aprendizado, sob a análise de Piaget (1973, 1980 e


1981), passa por assimilações e acomodações, situações que advém do meio
onde o sujeito está inserido. Certamente Piaget não desenvolveu sua teoria a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 197

partir do ambiente computacional e da inteligência artificial existentes atualmente,


porém os princípios piagetianos parecem bastante atuais quando analisados sob
o prisma da robótica educacional. Em processos de assimilação e de
acomodação é que se estrutura o pensamento e, portanto, o comportamento da
pessoa frente a uma nova realidade. Através da experimentação a pessoa tenta
assimilar novos estímulos às estruturas cognitivas que já possui. Desta forma,
comparando e diferenciando conceitos e esquemas a pessoa efetua a operação
cognitiva da acomodação. Piaget (1987) definiu o processo de assimilação como
integração a estruturas prévias que podem permanecer invariáveis ou são mais
ou menos modificadas por esta própria integração, porém sem descontinuidade
com o estado precedente: assim não são destruídas, mas simplesmente
acomodam-se à nova situação (Piaget, 1981). Piaget (1981) também salienta que
o conceito acomodação é utilizado para toda modificação dos esquemas de
assimilação sob a influência de situações exteriores a que se aplicam. Maturana
(1995) intensifica a idéia de que o ambiente onde a pessoa está inserida
proporciona situações de aprendizagem e que somente é possível promover
situações de aprendizagem se existir no meio ambiente o fator a que se pretende
a interação, aspecto que salienta a importância da iniciativa da PUCRS de
introduzir a robótica no processo de aprendizagem.
O Projeto Robótica da PUCRS busca inserir o aluno no mundo tecnológico
atual. Através deste projeto procura-se promover a interação entre a Faculdade
de Engenharia da PUCRS (alunos e professores, nos níveis de graduação e pós-
graduação), outras instituições de ensino superior e ainda as escolas de ensino
médio e fundamental, pública ou privada, no sentido de estimular a popularização
da ciência e da tecnologia através dos princípios da Robótica.
Atualmente o Projeto Robótica da PUCRS possui todos recursos físicos
necessários em Robótica para sua execução sendo que tais recursos estão
localizados em um ambiente tradicional de engenharia - especificamente ao lado
de um laboratório de Manufatura Integrada por Computador (CIM) - onde existe a
possibilidade de interação com 5 robôs semi-industriais de médio porte.
198 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Objetivos

O principal objetivo do Projeto Robótica, como já salientado, é promover a


interação entre alunos de diversas instituições e também de diferentes níveis de
ensino, como forma de divulgar o aprendizado da ciência e da tecnologia
interagindo com diversos níveis da sociedade. Tal aprendizado é crucial nos dias
de hoje, não apenas para o indivíduo, como forma de aumentar suas chances no
mercado de trabalho, mas também para o país, pois na Nova Divisão
Internacional do Trabalho, os países líderes serão aqueles que apresentarem
maior grau de desenvolvimento tecnológico, o que requer um expressivo
contingente de profissionais capacitados nesta área.
Para as instituições de ensino envolvidas, o Projeto Robótica pretende
contribuir com os processos de ensino e de aprendizagem através da introdução
de uma nova tecnologia de ensino (re-visitando os conceitos tradicionais da aula
prática), permitindo que os alunos descubram novas formas de aprender.
No que diz respeito ao desenvolvimento pessoal, as atividades do Projeto
Robótica visam aperfeiçoar nos alunos participantes os seguintes pontos:
• habilidades psicomotoras;
• relacionamento inter-pessoal;
• interesse e curiosidade pela investigação científica;
• criatividade, senso crítico e paciência;
• aptidão pelo trabalho em detalhes;
• conhecimentos de física aplicada dentre outros;
• senso crítico na aplicação de tecnologias ;
• interesse para o aprendizado de novas tecnologias por intermédio da
robótica.

Descrição do Processo de Inovação Desenvolvido

O Projeto Robótica teve início com o Desafio de Robôs, evento que atraiu
a atenção de alunos de vários níveis de ensino, desde o ensino fundamental até a
pós-graduação. Como decorrência surgiram algumas parcerias com escolas de
ensino médio para o desenvolvimento de projetos específicos de robótica, como
por exemplo o projeto PAX, em parceria com o Colégio Marista Rosário, para o
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 199

desenvolvimento de um “robô mascote” em forma de periquito, do tamanho de


uma criança das séries iniciais de ensino fundamental. Encontra-se em fase de
implantação um projeto de parceria entre a PUCRS e diversas escolas de ensino
médio para o desenvolvimento do ensino de robótica, com a criação de um
Laboratório de Robótica Educacional, a ser sediado na Faculdade de Engenharia
da PUCRS. Outro evento marcante foi o 4o Campeonato Nacional de Futebol de
Robôs, realizado em 1999, com organização conjunta da PUCRS e do CTI/MCT,
com participação de equipes de São Paulo e Minas Gerais além de equipes
gaúchas.
Cabe ressaltar que o carro chefe do Projeto Robótica tem sido o Desafio
de Robôs, realizado já há dez anos, com intensa participação de escolas de
ensino médio e também de universidades de vários estados brasileiros.
O Desafio de Robôs consiste em uma competição de robôs autônomos
que realizam uma tarefa pré-definida em determinado espaço de tempo. O
objetivo do Desafio não é promover a destruição do adversário. Os robôs não
lutam, eles tentam realizar uma tarefa de forma mais eficiente que o robô
oponente. O ponto principal é que os robôs são autônomos, ou seja, não são
rádio controlados, sendo que é necessário criar um programa capaz de receber
status e interagir com o meio através de sensores e atuadores (os sensores
podem ser de inclinação, de presença de luz, de contagem de pulsos, de
aproximação, entre outros e os atuadores são motores, dispositivos mecânicos,
esteiras, braços mecânicos, etc).
A tarefa a ser executada é alterada a cada edição do Desafio e, ao longo
de seus dez anos de existência, o Desafio de Robôs já teve as seguintes tarefas:
• no primeiro desafio a tarefa foi “Robot Ant” ou Robôs Formigas, onde os
robôs representavam formigas recolhendo comida para seu formigueiro;
• no segundo desafio a tarefa foi o “Robot Pong” onde a mesa de
competições era dividida em duas partes e nela eram espalhadas bolas
de golf. Vencia o robô que terminasse com menos bolas no seu lado;
• o terceiro desafio representava uma Mina Abandonada com minério
radioativo e os robôs ganhavam pontos ao recolher minério e perdiam
pontos ao recolher lixo;
200 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

• o quarto, o quinto e o sexto desafios tratavam de um Campo Repleto de


Explosivos, mas cada desafio possuía sua peculiaridade, como por
exemplo, no penúltimo havia um ponto sobre o campo no qual era
possível desarmar todos os explosivos;
• no sétimo e no oitavo desafios, a tarefa era um jogo de basquete,
somente entre dois robôs;
• o nono e o décimo desafios propuseram uma tarefa de inteligência e
estratégia: sobre a mesa estavam dispostos bolas e paralelepípedos a
serem recolhidos pelos robôs, cada qual com uma pontuação
predeterminada. O Robô vencedor seria aquele que obtivesse mais
pontos ao final do jogo.
Por traz da realização, da criação e da avaliação dos Desafios existe uma
comissão organizadora, criada com o intuito de agilizar as tomadas de decisões
relativas ao desafio, composta atualmente pelos professores da PUCRS André
Luiz Tietböhl Ramos (idealizador do Desafio de Robôs da PUCRS) e Rubem
Dutra Ribeiro Fagundes (que participa desde a segunda edição), e pelos
funcionários técnicos Filipi Damasceno Vianna e Tiago Leonardo Broilo. Além
destes, a cada ano alguns alunos da PUCRS (graduação e pós-graduação)
participam desta comissão. Entretanto, é uma tradição do Desafio que decisões
relativas à tarefa que os robôs devem cumprir, prazos, compra de material em
conjunto, sejam tomadas por um conselho composto por membros de todas as
equipes participantes. Este conselho é chamado de Conselho de Equipes.
O Desafio de Robôs é um evento aberto ao público, com entrada franca, e
aconteceu inicialmente durante a Semana de Engenharia da Faculdade de
Engenharia da PUCRS, sendo que nos dois últimos anos ele foi realizado durante
a Feira das Profissões da PUCRS.

Resultados Obtidos

O Projeto Robótica, e mais especificamente, o Desafio de Robôs,


promoveram uma expressiva aproximação entre escolas, principalmente alunos
de diferentes níveis do ensino, sendo que a partir deste contato, realizado no
desafio, a PUCRS passou a auxiliar algumas escolas no ensino de robótica.
Paralelamente, o número de escolas participantes no Desafio vem crescendo,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 201

denotando que este evento vem cumprindo sua proposta de divulgar o estudo de
ciência e desenvolver o interesse dos jovens no desenvolvimento de tecnologia.
Diversos alunos de ensino médio, ao concluírem seus estudos ingressaram
em Universidades em carreiras ligadas à engenharia e à computação e
continuaram participando do Desafio, agora com equipes de alunos de
graduação, o que têm incentivado as novas equipes de ensino médio.
A contribuição do Desafio para o ensino não se restringiu apenas aos
acadêmicos, diversos professores, motivados pelo entusiasmo de seus alunos,
têm procurado aperfeiçoar-se, de forma a poder prestar uma contribuição efetiva
para as equipes e não ser apenas o professor responsável pela saída dos alunos
da sala de aula, aquele que só assina os papéis necessários à participação das
equipes.
No tocante ao ensino de graduação da PUCRS o Desafio tem oferecido
aos discentes das diversas Engenharias (Elétrica, de Controle e Automação e da
Computação) uma oportunidade de colocar em prática, de forma integrada, os
conhecimentos adquiridos em diversas disciplinas, o que tem se mostrado
altamente motivante, pois muitas vezes os conteúdos aprendidos ao longo do
curso eram apenas temporariamente “arquivados” sem que os alunos
percebessem o potencial de integração destes conteúdos, ou seja a integração da
teoria com a prática e do concreto com o abstrato.

Considerações Finais

O Desafio de Robôs foi uma iniciativa pioneira da PUCRS, que além de


promover a integração entre a Universidade e as escolas, aproximou também
alunos de diferentes universidades, de várias regiões do país, com realidades e
hábitos culturais diversos.
A iniciativa do Projeto Robótica da PUCRS despertou nos adolescentes e
jovens o interesse pela robótica. Atualmente, a maior parte das escolas
particulares (e até mesmo algumas escolas públicas) mantém laboratórios de
robótica e participam de diversos campeonatos, alguns até internacionais, em
diferentes modalidades e com diferentes tipos de robôs.
Um dos grandes diferenciais do Desafio de Robôs da PUCRS é o fato de
que todas as equipes participam da disputa em igualdade, pois são necessários
202 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

não apenas conhecimentos técnicos e de programação, mas também o


desenvolvimento de estratégias, favorecendo o raciocínio lógico. Em algumas
edições, equipes do ensino médio venceram equipes de universitários e até de
alunos de pós-graduação, o que pode ser explicado pelo fato de que se os
universitários dispõem de maior conhecimento técnico, os alunos do ensino médio
dispõem de mais tempo livre para dedicar-se ao projeto, estimulando assim a
dedicação e a perseverança além de uma criatividade mais aguçada.
Atualmente a meta dos organizadores deste evento é procurar possibilitar
a participação de alunos carentes. Neste sentido, está se buscado patrocinadores
que financiem os custos de aquisição dos componentes dos robôs e também a
criação de um Laboratório de Robótica Educacional, com infraestrutura para
receber estes alunos e seus professores, de forma que os equipamentos
adquiridos possam ser compartilhados por várias escolas. Tal laboratório serviria
como base para as equipes destas escolas, e nele também seriam desenvolvidas
outras atividades ligadas ao ensino de ciência e tecnologia, possibilitando ao
aluno carente a participação em atividades extra-curriculares.

Referências Bibliográficas

Castilho, Maria Inês. Robótica na Educação: com que objetivos? Monografia de


Pós-Ggraduação da Informática, UFRGS, 2002.

Ferreira, Edson de Paula. Robótica Básica, Modelagem de Robôs. 1991.

Papert, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na era da


informática. Artes Médicas, 1994.

Piaget, Jean. Lógica e Conhecimento Científico. Livraria Civilização, 1981.

Piaget, Jean. Para onde vai a Educação? José Olympio, 1980.

Piaget, Jean. Biologia e Conhecimento. Vozes, 1973.

Piaget, Jean. Desenvolvimento e Aprendizagem, volume Disponível em


Introdução aos Sistemas Especialistas. Livros Técnicos e Científicos Editora,
1987.

Maturana, Humberto R. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do


entendimento humano. Psy II, 1995.
ENADE COMENTADO-COMPUTAÇÃO: COMPARTILHANDO
CONTRIBUIÇÕES PARA A AVALIAÇÃO DE CURSOS

COMMENTS TO ENADE-COMPUTER SCIENCE: A CONTRIBUTION FOR


EVALUATION OF UNDERGRADUATE PROGRAMS

Oliveira, Flávio M.; Dr.; FACIN – PUCRS


flavio.oliveira@pucrs.br
Prolo, Carlos A.; Dr.; FACIN – PUCRS
carlos.prolo@pucrs.br
Zorzo, Avelino F.; Dr.; FACIN – PUCRS
avelino.zorzo@pucrs.br
Andrade, Gilberto K.; Dr.; FACIN – PUCRS
gilberto.andrade@pucrs.br

Resumo

Nos últimos anos, temos notado uma crescente demanda da sociedade,


em conhecer o resultado da avaliação de estudantes não somente em relação a
um determinado conteúdo, mas a um conjunto de conteúdos. Os estudantes de
cursos de graduação, ingressantes ou concluintes, são avaliados através do
Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE). Durante a preparação
para o ENADE 2008, os professores da FACIN constataram que os alunos têm
procurado provas já realizadas como fonte de consulta por diversos motivos: seja
para sentirem-se seguros quando da realização da prova, para verificar em que
áreas não possuem determinado conhecimento, como fonte de exercícios para os
cursos que estão realizando, ou mesmo por simples curiosidade. Diversas vezes
os estudantes trazem as questões para os professores no sentido de entender as
respostas apresentadas. Essa constatação motivou o grupo de professores a
consolidar a análise das questões na forma de um livro e disponibilizá-lo à
comunidade. Este artigo descreve a criação do e-book “ENADE 2008 Comentado:
Computação”, que é o resultado dessa experiência. Apresentamos o contexto em
que surgiu a ideia, o processo de elaboração do livro e as perspectivas para a
continuidade do trabalho.
204 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Palavras-chave: Exame Nacional de Desempenho, avaliação de cursos de


graduação, currículos de Computação.

Abstract

In recent years, the Brazilian society has demanded for increased


knowledge of the evaluation results achieved by students in university courses,
not only in a specific subject, but in more broad disciplines and skills as well. The
National Students’ Performance Evaluation (Exame Nacional de Desempenho dos
Estudantes – ENADE) is the standard test for undergraduate students at junior
and senior levels. During the preparation for the ENADE 2008 Computer Science
test, professors from the Faculty of Informatics (FACIN) identified that students
requested additional information sources, such as early tests, for several reasons,
such as, to use the questions as exercises for their disciplines, reassurance before
doing the test, and even simple curiosity. Many students brought the questions to
their professors seeking advice in order to understand the questions and their
answers. The high level of interaction and interest found in students motivated us
to gather the discussions in a book format and make it available to the community.
In this paper, we describe the conception of the e-book “ENADE 2008
Comentado: Computação” (ENADE 2008 Commented: Computer Science), which
is the result of this initiative. We describe here the context of the book idea, the
design and writing process and our next steps.

Keywords: National Students’ Performance Evaluation, evaluation of


undergraduate degree programs, Computer Science curricula.

Introdução

A avaliação de estudantes tem sido prática há muitos anos como forma de


verificar o aprendizado dos alunos em relação a determinados conteúdos. Nos
últimos anos, temos notado uma crescente demanda, da própria sociedade, em
conhecer o resultado da avaliação de estudantes não somente em relação a um
determinado conteúdo, mas a um conjunto de conteúdos. Essas avaliações
buscam trazer informações sobre a formação de um determinado estudante nas
diversas instituições existentes no Brasil (o mesmo processo também acontece
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 205

em diversos outros países). Na área de Computação as principais instituições de


ensino superior do Brasil com programas de pós-graduação sentiam a
necessidade de uma avaliação global de estudantes dos cursos de Computação.
Como a área não possuía um sistema de avaliação nacional, o Fórum de
Coordenadores de Pós-Graduação, um Grupo de Trabalho da Sociedade
Brasileira de Computação (SBC), propôs uma avaliação para todos os alunos que
desejassem concorrer a uma vaga em um programa de pós-graduação em
Computação no Brasil. Esta avaliação recebeu o nome de POSCOMP e é
realizada há diversos anos pela SBC. A necessidade desta avaliação surgiu para
que o processo de seleção fosse o mais justo possível, pois, em geral, a média
final de cada aluno difere muito de instituição para instituição. Entretanto, o
POSCOMP é uma avaliação individualizada, na qual os resultados não são
divulgados de maneira ampla e é realizada de maneira voluntária, não servindo
para um processo de avaliação de cursos ou institucionais de maneira ampla.
Para uma avaliação mais geral, no Brasil existem duas principais avaliações
oficiais realizadas com estudantes que finalizam o Ensino Médio ou Ensino
Superior. Quando terminam o Ensino Médio, os estudantes são avaliados por
meio do Exame Nacional de Ensino Médio (ENEM). Por outro lado, os estudantes
ingressantes (aqueles que já realizaram de 7% a 22% da carga horária do curso)
ou concluintes (aqueles que já realizaram pelo menos 80% da carga horária do
curso) de algum curso de graduação são avaliados através do Exame Nacional
de Desempenho de Estudantes (ENADE). O ENADE faz parte do Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) e busca aferir o
rendimento dos estudantes dos cursos de graduação das Instituições de Ensino
Superior no Brasil. Tal importância é dada ao ENADE pelo MEC, que o aluno
selecionado a participar tem sua formatura condicionada ao efetivo
comparecimento à prova, e atualmente cogita-se em universalizar a participação
do ENADE, tornando-o obrigatório a todos os estudantes.
O e-book “ENADE 2008 Comentado: Computação” (figura 01) surgiu de
um senso comum, existente entre os professores da FACIN, de que os alunos
têm procurado provas já realizadas como fonte de consulta por diversos motivos:
- para sentirem-se seguros quando da realização do ENADE;
- para verificar em que áreas não possuem determinado conhecimento;
- como fonte de exercícios para os cursos/disciplinas que estão realizando;
206 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

- ou mesmo por simples curiosidade.


Apesar de indicar para os estudantes onde encontrar as provas e
resultados, diversas vezes os estudantes trouxeram as questões para os
professores no sentido de entender a resposta apresentada, seja pessoalmente
ou nos foruns de discussão das disciplinas. Os professores envolvidos
constataram que essa interação, esperável e encorajada, merecia ser
compartilhada com uma comunidade mais ampla através um registro formal das
respostas.

Figura 01 – Capa do e-book


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 207

As próximas seções descrevem os objetivos da concepção do e-book, seu


processo de elaboração, os resultados da experiência e os próximos passos.

Objetivos

Os objetivos da elaboração do e-book foram:


- fornecer material de referência para os estudantes de graduação em
Computação;
- consolidar um registro das lições aprendidas e discussões propiciadas
pela preparação ao ENADE 2008 na comunidade docente/discente da
FACIN
- contribuir para o aperfeiçoamento do ENADE como referência de
avaliação em Computação.
Ao mesmo tempo, professores também poderão utilizar o mesmo para
enriquecer o material utilizado em sala de aula.

Descrição do processo

O processo de preparação para o ENADE 2008 na FACIN teve diversas


atividades, de maneira integrada a um processo mais geral que envolveu a
Universidade como um todo, dirigido pela Coordenadoria de Avaliação da
PROGRAD. No caso da FACIN, a preparação envolveu:
- Reuniões gerais com os alunos candidatos a fazer parte da amostra,
visando esclarecer o funcionamento da prova e conscientizar os
estudantes da sua importância;
- Criação de diversos fóruns no ambiente Moodle, para comunicação entre
os coordenadores de cursos e os alunos candidatos (e posteriormente
selecionados), bem como entre os alunos e os professores das diversas
áreas;
- Palestras sobre os conteúdos gerais, promovidas pela Coordenadoria de
Avaliação da PROGRAD;
- Discussões sobre questões do ENADE 2005 em sala de aula, antes da
prova, e sobre a edição 2008, após a sua realização.
Muitas das discussões sobre a necessidade de fontes de consulta para os
alunos aconteceram na sala de convivência dos professores da Faculdade de
208 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Informática (FACIN) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul


(PUCRS). Essas discussões aconteciam entre os intervalos de aula, quando o
professor Gilberto Keller de Andrade propôs um desafio ao conjunto de
professores: que os mesmos respondessem às questões do ENADE de maneira
comentada e juntassem essas respostas em um livro para consulta dos
estudantes.
O ENADE-Computação é composto por uma prova, um questionário de
impressões dos estudantes sobre a prova, um questionário socioeconômico e um
questionário do coordenador do(a) curso/habilitação. A prova é composta por 40
questões, sendo 10 questões de formação geral e 30 questões de componente
específico. No livro, apresentamos as questões do componente específico das
provas aplicadas aos alunos dos três cursos da área de Computação (Ciência da
Computação, Engenharia de Computação e Sistemas de Informação). As
questões estão assim distribuídas:
• 10 questões comuns aos três cursos;
• 20 questões particulares de cada curso (70 questões no total da obra).
Optou-se por não abordar no livro as 10 questões de conhecimentos gerais
comuns a todas as provas.
O livro contou com o apoio de 43 professores das Faculdades de
Informática, de Engenharia e de Matemática, incluindo uma apresentação do prof.
Avelino Zorzo, Diretor da FACIN. A organização das questões de cada uma das
provas foi realizada pelos professores Carlos Augusto Prolo (questões comuns e
do curso de Ciência da Computação), Fabiano Passuelo Hessel (questões do
curso de Engenharia de Computação) e Miriam Sayão (questões do curso de
Sistemas de Informação). Os professores foram orientados a responderem de
maneira livre, sem seguir um padrão predeterminado, podendo trabalhar questões
conceituais em suas respostas ou até observações críticas quanto à formulação
das questões. Algumas questões foram respondidas não por um único professor,
mas por um conjunto de professores que discutiram a melhor forma de responder
às mesmas. Após essa etapa, as respostas passaram por uma revisão dos
organizadores e uma revisão final na editora.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 209

A título de exemplo, apresentamos abaixo a questão 79a da prova e a


resposta/comentário incluídos no livro:

Texto para as questões 78 e 79

A Secretaria de Saúde de determinado município está executando um


projeto de automação do seu sistema de atendimento médico e laboratorial,
atualmente manual. O objetivo do projeto é melhorar a satisfação dos usuários
com relação aos serviços prestados pela Secretaria. O sistema automatizado
deve contemplar os seguintes processos: marcação de consulta, manutenção de
prontuário do paciente, além do pedido e do registro de resultados de exame
laboratorial. A Secretaria possui vários postos de saúde e cada um deles atende a
um ou mais bairros do município. As consultas a cada paciente são realizadas no
posto de saúde mais próximo de onde ele reside. Os exames laboratoriais são
realizados por laboratórios terceirizados e conveniados. A solução proposta pela
equipe de desenvolvimento e implantação da automação contempla, entre outros,
os seguintes aspectos:
z sistema computacional do tipo cliente-servidor na web, em que cada
usuário cadastrado utiliza login e senha para fazer uso do sistema;
z uma aplicação, compartilhada por médicos e laboratórios, gerencia o
pedido e o registro de resultados dos exames. Durante uma consulta o
próprio médico registra o pedido de exames no sistema;
z uma aplicação, compartilhada por médicos e pacientes, permite que
ambos tenham acesso aos resultados dos exames laboratoriais;
z uma aplicação, compartilhada por médicos e pacientes, que automatiza o
prontuário dos pacientes, em que os registros em prontuário, efetuados
por cada médico para cada paciente, estão disponíveis apenas para o
paciente e o médico específicos. Além disso, cada médico pode fazer
registros privados no prontuário do paciente, apenas visíveis por ele;
z uma aplicação, compartilhada por pacientes e atendentes de postos de
saúde, que permite a marcação de consultas por pacientes e(ou) por
atendentes. Esses atendentes atendem o paciente no balcão ou por
telefone.
210 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

QUESTÃO 79 – DISCURSIVA

Considerando as informações apresentadas no texto e considerando ainda


que entre os principais benefícios de um projeto de melhoria de sistema de
informação destacam-se o aumento da: (I) eficiência; (II) eficácia; (III) integridade;
e (IV) disponibilidade, faça o que se pede a seguir.

QUESTÃO 79 – A

(valor: 5,0 pontos)


(A) Cite 4 vantagens da solução proposta, frente à atual, para tratar a interação
entre pacientes e os serviços de saúde, sendo duas delas relativas à
eficiência e duas relativas à eficácia.

Resposta e comentário:

Seguindo [Sommerville07], eficiência e eficácia são requisitos não


funcionais, dado que não são exatamente funcionalidades a serem atendidas pela
aplicação, e sim características que devem ser observadas na solução
implementada. Eficácia implica no atendimento de objetivos; eficiência está
relacionada a requisitos de desempenho (por exemplo, tempo de resposta em
sistemas interativos) e requisitos de espaço (espaço ocupado pela aplicação em
memória principal ou secundária).
Assim, com relação à eficácia, analisemos os objetivos:
1. melhorar a satisfação dos usuários com relação aos serviços;
2. automatizar marcação de consulta;
3. automatizar manutenção do prontuário do paciente;
4. automatizar pedido e registro de exame laboratorial.
Assim, são vantagens relativas à eficácia (a questão pede duas):
• o sistema provê uma aplicação para gerenciar o pedido e registro de
resultados dos exames (atende ao objetivo 4 acima)
• o sistema provê uma aplicação que permite aos médicos e pacientes
acesso aos resultados dos exames (apoia os objetivos 1 e 3 acima)
• o sistema provê uma aplicação que automatiza o prontuário dos
pacientes (atende ao objetivo 3 acima)
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 211

• o sistema provê uma aplicação que permite a marcação de consultas


(atende ao objetivo 2 acima)
O “padrão de resposta” para as questões discursivas, na página do
ENADE foca no objetivo principal de satisfação do usuário, e cita como vantagens
que o paciente não precisará se deslocar até o posto de atendimento para marcar
consultas, nem ao laboratório para ter acesso aos exames. (Foi observado que o
texto não deixa claro se a satisfação do usuário de fato aumentou.)
São vantagens relativas à eficiência (também são pedidas duas):
• o sistema cliente-servidor permite acesso remoto fácil às aplicações por
todos os envolvidos no processo
• o próprio médico registra o pedido de exames, eliminando intermediários
e agilizando o processo
• a marcação de consultas pode ser feita pelo próprio paciente ou por
atendentes, e neste último caso com opção de ser feita no balcão ou por
telefone (na verdade isto também atende diretamente ao objetivo
principal de satisfação do cliente)
• o acesso às aplicações é compartilhado pelos diversos envolvidos no
processo
O “padrão de resposta” para as questões discursivas, na página do
ENADE também cita:
• menor quantidade de pessoas no atendimento à marcação de consultas
• maior quantidade de consultas realizadas por um médico em um mesmo
período de tempo
• menor tempo para marcação de consultas
• menor tempo para registro de prontuário pelo médico
• menor tempo de pedido de exames
• menor tempo no processamento do pedido de exame pelo laboratório
• menor tempo no registro do exame pelo laboratório
O processo de elaboração dessa resposta foi particularmente interessante,
pois teve o mais alto número de professores envolvidos (9 professores). A
questão envolve termos (eficiência/eficácia) que, não obstante serem usados
quase como sinônimos no cotidiano, receberam acepções distintas em
Computação. O debate originado foi dos mais ricos.
212 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Resultados obtidos

O livro "ENADE Comentado 2008 - Computação" foi lançado em abril pela


EDIPUCRS na forma de publicação eletrônica e está disponível para acesso livre
no endereço http://www.pucrs.br/edipucrs/ - "publicações eletrônicas". Dessa
forma, o público-alvo prioritário da iniciativa, que são os próprios estudantes, tem
acesso facilitado. A Pró-Reitoria de Graduação da PUCRS, através da
EDIPUCRS, transformou a iniciativa em uma série, da qual o livro elaborado na
FACIN é o primeiro volume.

Considerações finais

Até onde sabemos, pelo menos na área de Computação, a iniciativa é


inovadora no país. Além de fornecer um material extremamente útil para os
estudantes, tanto como auxiliar na preparação dos candidatos ao ENADE
propriamente dito como para o aprendizado nas disciplinas, a riqueza das
discussões realimentou a prática pedagógica dos professores da FACIN, que
puderam levar os comentários para a sala de aula e, também, incrementar seus
materiais. Cada questão, acompanhada de sua resposta, propiciou um exemplo
de como abordar um mesmo conteúdo por diversos ângulos, incentivando os
alunos a desenvolver essa habilidade, tão importante para o aprendizado.
Acreditamos que o livro também pode contribuir para a construção das
provas de Computação nas próximas edições do ENADE; assim, pretendemos
divulgá-lo no âmbito da Comissão de Educação da Sociedade Brasileira de
Computação, pois essa Comissão é o fórum nacional de discussão das diretrizes
curriculares e currículos de referência da área, os quais servem de base para a
elaboração do ENADE. Outra direção proposta para a continuidade do trabalho é
gerar uma publicação análoga para a prova de 2005.

Bibliografia consultada

Prolo, C.A.; Sayão, M.; Hessel, F.P. ENADE 2008 Comentado: Computação.
Porto Alegre, EDIPUCRS, 2008. 184p. Disponível em
<http://www.pucrs.br/edipucrs/enade/computacao2008.pdf>. Acesso em: 18 mai.
2008.
Sommerville, Ian. Engenharia de software. 8. ed. São Paulo : Pearson
Education, c2007. 552 p. : il.
PORTO ALEGRE ACESSÍVEL: ESTRATÉGIAS INOVADORAS PARA A
POLÍTICA DE ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO SOCIAL

ACESSIBILITY IN PORTO ALEGRE, BRAZIL:


INCLUDING PEOPLE BY INNOVATION IN URBAN PLANNING

Ferreira, Mario S., Dr., FAUPUCRS


msferreira@pucrs.br
Cé, Ana R.S., Me., FAUPUCRS
anace@pucrs.br
Campos, José C. B., Me., FAUPUCRS
zecampos@pucrs.br
Moraes, João F.D., Dr., FAMAT
jfmoraes@pucrs.br
Barboza, Suzana C., Esp., FAUPUCRS
sbarboza@terra.com.br
Regal, Paulo H., Me, FAUPUCRS
regal@pucrs.br

Resumo

O documento descreve ações inovadoras para o estabelecimento de


políticas de acessibilidade em Porto Alegre, à luz de informações levantadas,
através de método científico, acerca de condições críticas para a rota acessível
da população, considerando as características, peculiaridades e limitações dos
grupos humanos da Cidade. Ao final, o texto aponta para oportunidades de
utilização do conhecimento gerado na pesquisa, além do objetivo principal da
pesquisa, qual seja, a fundamentação para um plano diretor de acessibilidade
para Porto Alegre.

Palavras-chave: acessibilidade, acessibilidade urbana, inovação urbana.


214 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Abstract

The document describes innovation actions for the establishment of


accessibility politics in Porto Alegre, based in a raised information, through
scientific method, concerning critical conditions for the accessible route of the
population, considering the characteristics, peculiarities and limitations of the
human groups of the City. In the end, the text points for the chances of use of the
knowledge generated in the research, beyond the main objective of the research,
which is, to give tools for a accessibility urban planning for Porto Alegre.

Keywords: accessibility. urban accessibility, urban inovation.

A Demanda por Investigação: A Obsolescência das Cidades.

As mudanças trazidas pela revolução digital iniciada nos anos setenta


provocaram profundas transformações no modo de produção da cultura material
humana e, por conseguinte, trouxeram reflexos profundos no cenário global, do
ponto de vista dos modelos econômicos, políticos e sócio-culturais até então
adotados. Pode-se afirmar que a civilização encontra-se, hoje, num ponto de
inflexão, na medida em que paradigmas e dogmas vêm sendo substituídos,
discutidos e alterados.
O reflexo físico desta obsolescência é demonstrado na configuração das
grandes cidades, concentrando a mobilidade urbana no uso do automóvel. Novas
áreas de conhecimento e pesquisa surgem e, neste particular, áreas
tradicionalmente estabelecidas recebem novos nomes e significados. Neste
cenário de transição, ocorrem com freqüência confusões entre temas (ênfases e
diretrizes de projeto adotados) com áreas tradicionais de conhecimento.
A partir do final dos anos oitenta, o tema acessibilidade passa a integrar
áreas de pesquisa, ênfases de projeto e assume caráter oficial com a edição no
Brasil de normas específicas aplicáveis ao assunto. Sob o título NBR9050 -
Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos (ABNT,
2005), apresenta um conceito atual de acessibilidade:

“... visa proporcionar à maior quantidade possível de pessoas,


independentemente de idade, estatura ou limitação de mobilidade
ou percepção, a utilização de maneira autônoma e segura do
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 215

ambiente, edificações, mobiliário, equipamentos urbanos e


elementos.”

Segundo Castro (2008), muitas das grandes e médias cidades brasileiras


apresentam configurações urbanas estabelecidas no período colonial. Estas, por
sua vez, apresentavam características de apropriação física do espaço segundo
modelo europeu do período medieval, com adaptação livre aos condicionantes
geográficos, com edificações desenvolvidas em altura e divisão em bairros
compactos. Benévolo (1997) demonstra que, com a inserção do automóvel no
ambiente urbano, no início do século vinte, o pedestre desloca-se para
extremidades das vias (calçadas) e o passeio passa a ocupar só a calçada. Desta
forma, as ações desenvolvidas para dotar as cidades atuais de condições de
acessibilidade, são, na realidade, exercícios de adaptação e adequação de
cidades com configuração do medievo.

Figura 1 - Constantinopla tomada pelos turcos, em 1435: profundas alterações urbanas, ascensão
da burguesia, assentamentos em torno dos castelos feudais, modelo físico das cidades atuais.
Fonte: Benevolo, 1997.

A inadequação das calçadas para uso de equipamentos e produtos de uso


pessoal é outro ponto fundamental, na qualidade de uso do espaço destinado ao
pedestre nas cidades. A População com Mobilidade Reduzida (PMR) limita-se, na
maioria dos casos a uma condição de uso pleno destes produtos (órteses como
muletas, bengalas, etc.) em ambientes internos. Os carrinhos – de – bebê e
cadeiras de rodas, em sua maioria projetados e fabricados hoje, apresentam
216 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

dificuldades de mobilidade em rampas e rebaixos de meio-fio, adaptados nas ruas


medievais do século XXI.

O Projeto Porto Alegre Acessível

A partir de março de 2008, a equipe de pesquisadores da FAUPUCRS,


envolveu-se no projeto denominado Diagnóstico das Condições de Acessibilidade
de Porto Alegre, em atendimento ao convênio celebrado entre o Município de
Porto Alegre, com interveniência da Secretaria Especial de Acessibilidade e
Inclusão Social - SEACIS, e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, através da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Figura 2 – Imagem adotada no vestuário de identificação no levantamento de campo e no material


da pesquisa.

O cronograma do projeto de pesquisa, denominado Porto Alegre-


Acessível, previu em sua gênese a execução da investigação em três etapas: o
levantamento na Área Central (com limites definidos pela 1ª. Perimetral de Porto
Alegre), o levantamento nas demais áreas urbanas do Município e a elaboração
de um diagnóstico das condições de acessibilidade da Capital.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 217

A definição dos procedimentos, para a obtenção dos objetivos propostos


para a investigação, orientou-se pelas premissas do Programa Brasileiro de
Acessibilidade Urbana, de junho de 2004:

“Incluir uma nova visão no processo de construção das cidades


que considere o acesso universal ao espaço público por todas as
pessoas e suas diferentes necessidades” (Caderno 1 – Brasil
Acessível, 2006).

Assim, ficou definido previamente pelo grupo de pesquisa que:

Acessibilidade é uma situação de utilização de ambientes públicos


e privados, em condição de conforto e segurança, através do
provimento de dispositivos de circulação e mobilidade, oferta de
produtos, serviços e sistemas de informação destinados aos
diversos grupos de usuários dos ambientes urbanos. Incluem as
pessoas com deficiência e necessidades especiais, idosos,
crianças e população adulta em geral (Ferreira et al., 2007).

Buscou-se, desta forma, concentrar ações para a identificação de


situações de acessibilidade reduzida/prejudicada para a população em geral.
Procedeu-se, paralelamente aos estudos iniciais para compreensão e
percepção do porte do levantamento, sistema de inscrição, pré-seleção via
histórico escolar e entrevista e contratação de 30 estagiários, junto ao corpo
discente do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAUPUCRS, para constituição
de equipes de levantamento, com preenchimento de formulários e registro
fotográfico, sob supervisão dos quatro pesquisadores envolvidos nesta
investigação inédita.

Modelagem e Estruturação de Instrumentos de Levantamento e Coleta de


Dados

Foram desenvolvidos estudos e buscas de referências bibliográficas que


orientassem a montagem e edição de um instrumento adequado ao município. Do
ponto de vista da terminologia, buscaram-se informações nas normas
internacionais, normas brasileiras, na legislação municipal, além da informação
disponibilizada pela Secretaria Municipal de Acessibilidade e Inclusão Social -
SEACIS e na fundamentação teórica dos campos de conhecimentos específicos
de acessibilidade e mobilidade urbana (arquitetura e urbanismo; transporte;
circulação urbana; sistema de informação e orientação), complementares
218 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

(ergonomia; design; engenharia; paisagismo; avaliação pós-ocupação urbana;


legislação) e interdisciplinares compromissados com à pesquisa (educação e
saúde, sociologia e política urbana, ética e estética).
A partir da informação levantada, a estruturação do instrumento de
levantamento (formulário) concentrou-se em itens essenciais para análise
proposta, dentre os quais destacam-se calçadas, rebaixos em calçadas,
mobiliário e equipamentos nas calçadas, vegetação, obstáculos de
direcionamento de circulação (container,tapumes e canteiros de obras, tampas de
caixas de inspeção, placas de sinalização de trânsito, bancas, guaritas de
vigilância, abrigos em pontos de embarque e desembarque de transporte (ônibus
e táxi) ;e o sistema viário.

As Áreas de Intervenção: O Levantamento

Foram estudados modelos de determinação de vias principais para


levantamento, tendo como referência teórica os instrumentos legais de gestão
urbana. Para o levantamento na Área Central de Porto Alegre dividida por
quadrantes, definidos pelos eixos da Avenida Borges de Medeiros e Avenida
Duque de Caxias (figura 2), a saber: Quadrante 01 - Noroeste; Quadrante 02 –
Nordeste; Quadrante 03 - Sudoeste; Quadrante 04 – Sudeste.

Figuras 3 e 4 – Divisão da Área Central de Porto Alegre em Quadrantes.

A estratégia adotada estabeleceu como fundamental a confrontação da


análise das imagens capturadas nas inspeções visuais (aspectos subjetivos, com
base no conhecimento científico do grupo de pesquisadores) com o tratamento
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 219

estatístico das situações registradas em formulário (aspectos quantitativos das


ocorrências referentes á situações críticas de acessibilidade: freqüências, e
incidências e outros indicadores).
O modelo de levantamento consistiu em inspeção visual, com medição,
registro fotográfico e apontamento em formulário de situações consideradas
críticas, do ponto de vista da acessibilidade da população em geral, por trechos
de ruas.
Na etapa de levantamento das demais áreas do Município, foram
estabelecidos critérios pra definição de amostra considerando instrumentos
oficiais e, em especial, o plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental
de Porto Alegre - PDDUA/PoA. Em função da existência de diversos critérios para
identificação de bairros, adotados por órgãos municipais, estaduais, federais e
prestadores de serviços (CEEE, Correios, DMAE), a divisão para fins de
levantamento concentrou-se nas premissas do PDDUA-PoA, adotando as vias
perimetrais, radiais, estruturadoras, arteriais, coletoras e locais para o
estabelecimento de novos quadrantes de levantamento.
A figura 5, capturada de imagem de satélite, demonstra a malha da cidade
com a marcação das avenidas e artérias principais, do ponto de vista. A figura 6
apresenta a demarcação proposta pela pesquisa para estudo por amostragem
prevista para o levantamento dos bairros do município.

Figura 5 - Perimetrais, Radiais, Vias Estruturadoras, Vias Arteriais, Coletoras, Locais ( Google
Earth, 2008).
Figura 6 – Zoneamento de quadrantes para levantamento nas áreas fora da região central de
Porto Alegre.
220 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

A partir deste critério estabeleceu-se como amostra os Nós significativos


caracterizados pelo cruzamento entre as tipologias de vias adotadas. Assim, com
os quadrantes definidos por áreas entre vias perimetrais e áreas externas às
perimetrais, com posterior escolha dos nós significativos, foram elaborados
desenhos, por quadrante, para localização e levantamento pelos grupos
constituídos, de acordo com as áreas definidas, exemplificadas na figura 7.

Figura 7 - “NÓS”: cruzamentos entre vias com concentrações expressivas de população.


O exemplo apresenta o Nó 40, integrante do Quadrante Q5

Em agosto de 2008, encerrou-se a fase oficial de levantamento de campo


com o deslocamento da equipe de pesquisa, pesquisadores, estagiários e a
assessoria técnica da SEACIS para o último nó, no. 141, localizado na Ilha da
Pintada, quadrante 12. O termo fase oficial de levantamento foi utilizado
intencionalmente em função da previsão de retorno eventual a algum nó ou ponto
levantado para revisão de dados, mesmo na fase de tabulação, processamento
de informação e análise, fundamentais na etapa final de diagnóstico.

A Organização dos Dados e o Tratamento da Informação

As imagens organizadas e referenciadas na forma de catálogo, codificadas


por quadrantes, com identificação do formulário de levantamento, do trecho ao
qual se reportam, e acompanhadas de legenda, com registro e comentários das
situações identificadas foram armazenadas em banco de imagens para acesso e
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 221

resgate de situações passíveis de destaque ao longo do relatório final – o


Diagnóstico.
Foram utilizadas, para análise, as técnicas de estatística descritiva, entre
elas, distribuição de freqüências e análise exploratória de dados (gráficos,
tabelas, medidas de tendência central e de variabilidade, valores mínimos,
máximos e percentis). Os dados levantados para a organização da informação
foram de efetiva utilidade, subsidiando a produção do conhecimento (o
diagnóstico) e que, pela observância das normas para registro e armazenagem
constituem, hoje um significativo banco de dados e imagens sobre o tema, no
escritório do Núcleo de Acessibilidade e Mobilidade Urbana da FAUPUCRS, à
disposição da comunidade acadêmica para outras investigações sobre
acessibilidade.
Cumpre destacar o uso das ferramentas estatísticas, as quais permitiram
fundamentar cientificamente algumas situações previamente identificadas pela
comunidade, profissionais e setor público, de forma sensorial e perceptual,
através do cotidiano da cidade.

Resultados Obtidos: Identificação de Situações Críticas e Necessidades de


Atualização na Gestão Urbana.

Os resultados obtidos no levantamento, se analisados de forma isolada


não constituíram grande significado do ponto de vista da obstrução parcial do
passeio para a população. Foi possível analisar e concluir no documento final,
encaminhado ao poder executivo municipal, que as situações críticas apontadas,
do ponto de vista da acessibilidade, necessitam ações de adaptação imediata, em
função das características e configuração da cidade.
Foi possível concluir acerca da necessidade imediata de revisão da
legislação vigente, em nível federal, estadual e municipal, no que diz respeito à
atualização de leis, decretos, além da revisão de textos de normas. Foi possível
perceber, ainda, a necessidade de revisão da postura tradicional e do modelo de
gestão pública do espaço urbano, ao longo das diversas adminstrações. Órgãos
envolvidos com licenciamento, aprovação e fiscalização de elementos urbanos
como mobiliário, vegetação, obras, transportes, infra-estrutura e serviços
necessitam revisão do ponto de vista da performance isolada e independente, por
222 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

ocasião de planejamento e instalação de equipamentos e serviços. A visão


integrada de cidade, neste particular é ponto fundamental, com resultados físicos
na qualidade da configuração do espaço urbano e reflexos na condição de
acessibilidade e mobilidade da população.

Considerações Finais

Ao final de 2008, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS


encaminhou à Secretaria Especial de Acessibilidade e Inclusão Social o
Diagnóstico das Condições de Acessibilidade em Porto Alegre. Resultado do
trabalho de um ano, suportado por fundamentos científicos e metodologia
específica, constituíram base teórica para os necessários estudos e discussões
do Grupo Técnico, constituído pelo Executivo Municipal em 2009, visando à
elaboração do I Plano Diretor de Acessibilidade da capital, tido pela atual
administração como inédito no país. A FAUPUCRS, por seu turno, recolhe de
todo esse processo as repercussões mais elevadas. Seu Núcleo de Pesquisa em
Acessibilidade e Mobilidade Urbana, a quem coube desenvolver as atividades,
teve a especial oportunidade de envolver-se com instigante trabalho de pesquisa,
análise e diagnóstico. Trinta alunos de graduação participaram efetivamente da
investigação, agregando método de pesquisa através desta iniciação científica e
disseminando informalmente, entre seus pares de graduação o tema
acessibilidade.
Um dos objetivos não menos importantes da investigação, foi o
estabelecimento de um método de levantamento para diagnósticos aplicáveis às
cidades em geral, com configurações e características tipológicas que se
aproximem do Caso Porto Alegre. A inovação deixa como saldo um formulário e
roteiro de levantamento, além de uma nova visão da cidade para abordagens de
planejamento urbano: a divisão da urbe em quadrantes. Após a conclusão do
trabalho, com o encaminhamento do Documento, pode-se perceber que antigas
teses sobre Porto Alegre foram desqualificadas do ponto de vista científico.
Assim, fica liberado o cenário para o estabelecimento de novos paradigmas e
conseqüente montagem de instrumentos de planejamento e controle da cidade, à
luz do tema acessibilidade.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 223

Pode-se perceber que acessibilidade passou a constituir variável intrínseca


às atividades de concepção dos espaços e equipamentos urbanos e da
qualificação das vivências humanas neles desenvolvidas. Pode-se afirmar que o
diagnóstico produzido foi e continua sendo de grande utilidade para os trabalhos
que se seguem, na medida em que os resultados a serem obtidos com o novo
projeto de lei, se aprovado, contribuirá significativamente para a qualidade de vida
da população de Porto Alegre.

Referências

BENEVOLO, Leonardo. História das cidades. 3ª. edição. São Paulo:


Ed.Perspectiva, 1997.

BRASIL. Cadernos do Programa Brasileiro de Acessibilidade Urbana – Brasil


Acessível - Caderno 1: Atendimento às pessoas com deficiência e restrição de
mobilidade , Brasília, Ministério das Cidades, 2006.

BRASIL. NBR9050 - Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e


equipamentos urbanos. ABNT, 2004.

CASTRO, Maria Luiza A.C. de; AMARO, João Júlio Vitral, Implantação do sistema
de saneamento em Ouro Preto no século XI: a disputa pela Capital. In: OS
URBANITAS - Revista de Antropologia Urbana Ano 4. Disponível via WWW no
URL http://www.aguaforte.com/osurbanitas5/Castro&Amaro2007.html. Internet,
2008. Capturado em 12/06/2008.

FERREIRA, M.S.; CAMPOS, J.C.B.; BARBOZA, S.C.; CÉ, A.R.S. Acessibilidade


e Mobilidade Urbana: Mapeamento das Condições Atuais de Porto Alegre / Termo
de Referência. Porto Alegre, FAUPUCRS, 2007.

GOOGLE EARTH. Imagem da Cidade de Porto Alegre. Captura em maio, 2008.

PDDUA: Lei Complementar Nº 434 de 1999. Porto Alegre: Corag.


NOVA ABORDAGEM SAFETY NA SEGURANÇA DE CABINE

KNEIPP 1 , Ubirajara; Faculdade de Ciências Aeronáuticas – PUCRS


ukneipp@pucrs.br
DAL BOSCO 2 , Andréa Kneipp; Aerosul Instituto de Aviação
andreadalbosco41@gmail.com

Resumo

Este trabalho tem por objetivo apresentar o processo de inovação


experimentado nos Treinamentos de Segurança de Cabine, originalmente
concebidos para serem ministrados a tripulantes de aeronaves civis brasileiras.
Em uma primeira etapa serão referidos os principais órgãos e sistemas,
internacionais e nacionais, responsáveis pela regulamentação desses
treinamentos; na seqüência, será mostrada a integração dos sistemas brasileiros
responsáveis pela segurança de vôo e a importância da prevenção de acidentes
aeronáuticos na formulação da filosofia e da política da segurança de vôo em
território brasileiro, salientado o papel balizador da prevenção na elaboração de
programas de treinamento visando evitar a ocorrência de acidentes aeronáuticos.
Na etapa final será descrita a experiência realizada na Disciplina Emergência,
Segurança e Sobrevivência com a inclusão de alunos oriundos de outras
Unidades de Ensino da PUCRS, e as estratégias empregadas para solucionar os
problemas relativos à diversidade de áreas do conhecimento, adequação do
programa para o novo público-alvo, bem como a estratégia empregada para a
mobilização de alunos estranhos ao Sistema de Aviação Civil para a apropriação
de conhecimentos específicos sobre segurança de cabine e que podem ser
aplicados no seu cotidiano.

Palavras-chave: Emergência, Segurança e Sobrevivência.

1
Docente da Faculdade de Ciências Aeronáuticas-PUCRS e da Aerosul Instituto de Aviação,
Comissário de Vôo da Varig S.A. graduado em Pedagogia pela PUCRS
2
Docente da Aerosul Instituto de Aviação, Comissária de Vôo da Varig S.A. graduada em
Hotelaria pela PUCRS
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 225

Introdução

A OACI 3 , agência da Organização das Nações Unidas especializada em


aviação civil é o órgão internacional que determina os parâmetros de segurança
para a operação de aeronaves civis em mais de 190 países através de seus
dezoito Anexos Técnicos. De acordo com o artigo 44 da Convenção de Chicago 4 ,
é da responsabilidade dos países membros da OACI o cumprimento de toda e
qualquer matéria de segurança recomendada pela Convenção de Aviação Civil e
de seus Anexos Técnicos, entre elas a eliminação das deficiências quanto à
segurança de vôo, a incorporação de progressos técnicos e a revisão contínua
dos regulamentos.
Para a Organização de Aviação Civil Internacional, os aspectos Safety 5 da
Segurança de Cabine estão relacionados com os acidentes não intencionais,
como despressurização da cabine, eclosão de fogo acidental a bordo, pouso em
emergência e sobrevivência terra/água no pós-impacto, enquanto que os
aspectos da Segurança Security 6 referem-se aos acidentes intencionais, como
interferência ilícita contra aeronaves, aeroportos e suas facilidades.
Cada Estado Contratante 7 deve administrar os assuntos inerentes à
aviação civil, através de suas respectivas agências reguladoras 8 .
O modal de segurança aérea concebido e implantado no Brasil,
diferentemente dos demais países, engloba os segmentos de aviação militar e
civil, compondo-se de três grandes sistemas integrados:
Sistema de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos -
SIPAER, Sistema de Controle do Espaço Aéreo - SISCEAB e Sistema de Aviação
Civil - SAC. Cada qual possui o seu órgão central com funções reguladoras e
formadoras de recursos humanos nas respectivas áreas de atuação e trabalham
harmoniosamente integrados, tornando-se elos constituintes, simultaneamente,
de um e de outro sistema.

3
Organização de Aviação Civil Internacional/International Civil Aviation Organization
4
Convenção Internacional de Aviação Civil realizada em 1944 na cidade de Chicago, onde foi
fundada a OACI
5
O mesmo que segurança
6
Segurança Contra a Apropriação Ilícita
7
País Signatário da Convenção de Chicago
8
Agências que regulamentam a Aviação Civil em cada País Signatário
226 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

O SIPAER, criado em 1971, e de acordo com o Decreto Nº 87. 249 de 07


de junho de 1982 9 tem como atribuições planejar, orientar, coordenar, controlar e
executar as atividades de investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos,
cujo Órgão Central é o CENIPA, Centro de Investigação e Prevenção de
Acidentes Aeronáuticos. Todas essas atribuições conferem ao CENIPA a
competência de elaborar a política e a filosofia de segurança para todos os
segmentos da comunidade aeronáutica brasileira. A figura 01 mostra os Elos
Constituintes do SIPAER.

Figura 01- Elos Constituintes do SIPAER

O Órgão central do SISCEAB é o DECEA 10 , a quem compete planejar,


gerenciar e controlar as atividades relacionadas com a segurança da navegação
aérea, incluindo as telecomunicações aeronáuticas, a tecnologia da informação e
o controle do espaço aéreo brasileiro. O Brasil é o único país do mundo a possuir
um sistema completamente integrado de Defesa Aérea e Controle do Espaço
Aéreo; assim, os mesmos equipamentos e demais meios físicos e de recursos
humanos que prestam assistência ao fluxo do tráfego aéreo civil executam, de
forma simultânea, a Defesa Aérea do País, em íntima e permanente interação
com a Força Aérea Brasileira.
O Sistema de Aviação Civil Brasileiro-SAC é composto de uma extensa e
complexa gama de atividades que compreendem e interligam órgãos civis e

9
Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5731.htm - 116k -
10
Departamento de Controle do Espaço Aéreo: www.decea.gov.br/?page_id=60 - 34k
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 227

militares do Ministério da Defesa, sob controle governamental e entidades da


iniciativa privada. As atividades do SAC, representadas na figura 02,
compreendem a Indústria Aeronáutica, o Transporte Aéreo, a Infra-Estrutura
Aeroportuária, o Controle do Espaço Aéreo (realizado pelo DECEA) e, instituições
privadas de ensino que atuam na formação de recursos humanos para a aviação
civil, onde se incluem, entre outras, as Faculdades de Ciências Aeronáuticas e as
Escolas de Aviação Civil.
O Órgão Central do SAC é a ANAC 11 , a quem compete planejar, gerenciar,
controlar as atividades relacionadas à aviação civil, com exceção do controle do
espaço aéreo.

Figura 02- Atividades do Sistema de Aviação Civil Brasileiro

Na figura 02, pode-se verificar, ainda, a integração do DECEA ao SAC


como elo executivo, compartilhando uma infra-estrutura de apoio para a
promoção da Segurança de Vôo no Brasil.
Segundo Giddeon (2004), os custos de um acidente aeronáutico são
extremamente altos porque:

Primeiro, há o custo da perda da aeronave, que considerando o


valor desses veículos é uma perda considerável
independentemente do tamanho da organização. Existe também o
custo da perda de vidas e danos à propriedade. Aumentando a
lista, outros custos indiretos como admissão e treinamento para

11
Agência Nacional de Aviação Civil: www.anac.gov.br/anac/atribuicoesAnac.asp - 48k
228 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

substituição de pessoal, limpeza de ambiente, perda de uso do


equipamento, aumento do uso do equipamento restante, taxas
legais e processos, prêmios de seguros de vida, custo de
operações corretivas, dentre outros.

A razão da existência de programas de Segurança Safety, além de ser


uma exigência legal, caracteriza uma resposta à ocorrência de acidentes
aeronáuticos possibilitando programar lições aprendidas de suas investigações
que podem trazer uma oportunidade de detectar e corrigir deficiências nos
sistemas de segurança de vôo. É uma forma de prevenir que aconteçam
acidentes similares ou outros novos.

Objetivos

O programa de Treinamento de Cabin Safety no Brasil é regulamentado


pela Agência Nacional de Aviação Civil - ANAC, em consonância com as
determinações da Organização de Aviação Civil Internacional-OACI. O principal
objetivo de um programa safety é a prevenção de acidentes, motivo pelo qual o
Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos - CENIPA é um
importante balizador desses treinamentos por ser o principal mentor da filosofia e
política de segurança da aviação civil brasileira que se completa com as ações
integradas dos órgãos componentes dos demais Sistemas.
Os acidentes aeronáuticos apresentam uma característica peculiar, pois
envolvem normalmente um grande número de fatalidades associadas ao impacto
com o solo de uma única aeronave. Investigações, análises e conclusões de
diversos acidentes envolvendo aeronaves têm demonstrado que a existência de
sobreviventes após essas ocorrências está diretamente relacionada,
principalmente, com a competência da tripulação para as corretas tomadas de
decisão e a execução dos procedimentos apropriados a cada situação de
emergência que se apresente, e esta competência somente é alcançada com o
suporte de um eficiente programa de treinamento.
A Formação de Cabin Safety na PUCRS é ministrada na Disciplina 47220-
4 Emergência, Segurança e Sobrevivência - ESS e foi concebida de acordo com
as determinações do Instituto de Aviação Civil do antigo Departamento de
Aviação Civil, a autoridade aeronáutica competente à época da implantação do
Curso de Ciências Aeronáuticas, em 1994, contemplando as recomendações de
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 229

segurança advindas do Relatório Final do CENIPA sobre o Acidente Varig 254 de


1989 que passaram a exigir dos tripulantes de aeronaves civis brasileiras a
realização do Treinamento Prático de Sobrevivência na Selva. Até 1989 os
pousos forçados realizados em regiões de selva eram considerados “não
sobrevivíveis”, razão pela qual não eram exigidas dessas tripulações as práticas
de sobrevivência na selva, quando era ministrado tão somente um treinamento
teórico.
Cumprindo com as exigências das atualizações recomendadas, a
Disciplina ESS foi inserida no currículo do Curso de Ciências Aeronáuticas da
PUCRS com a seguinte ementa, ainda vigente:
“Disciplina teórico-prática que contempla o conhecimento das normas
legais de segurança, do uso dos equipamentos disponíveis e de aplicação dos
procedimentos adequados para as situações de emergência e sobrevivência,
incluindo exercícios práticos de combate ao fogo e de sobrevivência na água e na
mata.”

AERONAVE

INTENÇÃO DE
REALIZAR UM VÔO

Aspectos Aspectos Técnicos


Comportamentais e Operacionais
OCUPANTES EQUIPAMENTOS
TRIPULANTES E FIXOS E
PASSAGEIROS PORTÁTEIS

Figura 03- Abrangência da Disciplina Emergência, Segurança e Sobrevivência

A abrangência da Disciplina ESS, representada pela figura 03, reforça os


Oito Princípios do SIPAER 12 , onde se afirma que a responsabilidade pela
segurança de vôo é de todos os envolvidos com a operação de uma aeronave,
sejam fabricantes, tripulantes ou passageiros.

12
http://www.cenipa.aer.mil.br/cenipa/paginas/normas/NSCA3-3.pdf
230 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Descrição do processo de inovação desenvolvido e resultados obtidos

No segundo semestre de 2007, ocorreu uma alteração relativa ao público-


alvo da Disciplina ESS, antes direcionada somente aos alunos do Curso de
Ciências Aeronáuticas e que passou a ser disponibilizada pela PUCRS aos
alunos de suas demais Unidades de Ensino na categoria de Disciplina Eletiva e,
aí então, um grande desafio foi lançado:
• Como incluir alunos estranhos ao Sistema de Aviação Civil na Disciplina?
• Como adequar o programa de treinamento regulamentado pela
Autoridade de Aviação Civil a um público tão diferenciado quanto
diversificado?
• Como mobilizar o aluno estranho ao Sistema de Aviação Civil para
aprender sobre temas referentes à segurança de cabine?
Com o pensamento voltado para os Oito Princípios do SIPAER foram
buscadas e encontradas as respostas para estas questões; os alunos estranhos
ao Sistema de Aviação Civil foram categorizados como os passageiros de uma
aeronave sendo conduzidos por tripulantes, representados neste contexto pelos
alunos do Curso de Ciências Aeronáuticas.
De acordo com Freire (2001), [...] “Antes de mais nada, estou convencido
de que, epistemologicamente, é possível, ouvindo os alunos falar sobre como
compreendem seu mundo, caminhar junto com eles no sentido de uma
compreensão crítica e científica dele;”
Para Freire, o currículo regular de uma determinada disciplina é
importante, porém, mais importante do que o currículo é o modo de ensinar.
Neste sentido, não foi necessária a inserção de qualquer alteração no programa
da Disciplina Emergência, Segurança e Sobrevivência que a Autoridade de
Aviação Civil determinava, foi adotada apenas uma nova abordagem para temas
de significado tão familiar para uns e demasiadamente científico para outros.
Assim, foi idealizado e instituído o Seminário de Cabin Safety 13 , preparando o
cenário e desafiando os atores para o desenrolar da Disciplina ESS, com a

13
Seminário de Segurança de Cabine
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 231

finalidade de possibilitar uma troca entre os participantes no que se relacionava


ao conteúdo a ser trabalhado.
Em um primeiro momento, os alunos foram distribuídos, de acordo com
suas afinidades, em oito grupos de trabalho; a cada grupo foi a dada tarefa de
pesquisar o conteúdo de um conjunto de capítulos do Regulamento Brasileiro de
Aviação Civil 121 que fundamentam as unidades didáticas da disciplina sobre os
equipamentos de emergência existentes na aeronave. O Primeiro Trabalho
Escrito solicitado foi baseado na produção do conhecimento resultante dessa
pesquisa, aproveitada para avaliação na Primeira Prova Escrita. Com a
apropriação do conteúdo desses capítulos, cada grupo de alunos foi orientado
para elaborar um conjunto de questões dissertativas a serem empregadas na
composição de 40% da Prova Escrita P1, enquanto que os demais 60% foram
propostos pelo professor.
O próximo momento se constituiu na fundamentação teórica visando os
treinamentos práticos de Combate ao Fogo, Sobrevivência no Mar e
Sobrevivência na Selva, ministrada em aulas expositivas onde foi aberto um
fórum de discussão possibilitado pelo conhecimento produzido pelos alunos no
Primeiro Trabalho Escrito, ao mesmo tempo em que novos conteúdos iam sendo
apresentados no decorrer das aulas teóricas.
Após a realização das atividades práticas e as respectivas avaliações, com
a apropriação do conhecimento de todo o conteúdo programático proposto pela
Disciplina ESS, os alunos já estavam preparados para elaborar e apresentar o
Relatório Final do Seminário de Cabin Safety. As apresentações orais foram
programadas para serem realizadas em dois dias com os alunos se distribuindo
em quatro Grupos Verbalizadores e quatro Grupos Avaliadores no primeiro dia,
invertendo-se os papéis no segundo. Nessas duas sessões do Seminário os
alunos puderam apresentar, criticar, discutir e responder a questionamentos que
emergiam da assembléia do Seminário durante as apresentações orais. As
apresentações se caracterizaram por um misto de linguagem técnica e coloquial,
mas acima de tudo, atingindo todos os objetivos propostos ao longo do semestre.
O fechamento do curso foi a realização da Prova Escrita P2 que previa a
avaliação de todo o conteúdo abordado nas atividades teóricas e práticas
realizadas ao longo do semestre.
232 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

As avaliações realizadas durante todo o processo confirmaram um bom


aproveitamento tanto por parte dos alunos da Faculdade de Ciências
Aeronáuticas como pelos demais.
A integração verificada entre alunos de diferentes Unidades da PUCRS
matriculados na Disciplina Emergência, Segurança e Sobrevivência comprovou a
viabilidade desse processo de inovação.
Em 2008, o processo foi consolidado registrando-se uma grande demanda
de matrículas na Disciplina ESS, por parte de alunos de todas as áreas do
conhecimento. Para as atividades acadêmicas do segundo semestre de 2009,
espera-se que esta demanda seja repetida.

Considerações finais

Esta qualificação visa o cumprimento das determinações da Agência


Nacional de Aviação Civil com relação aos iniciantes na carreira de Pilotos,
Mecânicos de Vôo e Comissários de Vôo de Aeronaves Civis Brasileiras.
A estrutura montada pela PUCRS para a realização de todas as atividades
teóricas e práticas relacionadas para esta formação mostraram-se adequadas e
eficientes. Embora o aumento significativo do número de alunos em formação
com relação aos semestre anteriores (de 22 para 66), não foi gerada a
necessidade de aquisição de mais equipamentos.
As atividades teóricas são desenvolvidas em sala de aula convencional e a
exposição teórica é realizada com o suporte de multimídia, contando com um
acervo de vídeos sobre operação de equipamentos e sobre acidentes
aeronáuticos; após a exibição se discutem os procedimentos adotados pelas
tripulações envolvidas nessas ocorrências.
As atividades práticas são ministradas em áreas específicas:
A formação Prática de Sobrevivência na Selva é ministrada em área de
mata primária e secundária. A carga horária prevista é de 18 horas. Os módulos
são compostos de:
1. Primeiros Socorros pós-Catástrofe
2. Construção de Abrigo
3. Obtenção e Manutenção de Fogo
4. Obtenção e Purificação de Água para consumo dos sobreviventes
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 233

5. Preparação e Cozimento do Alimento para consumo dos sobreviventes


6. Sinalização às Equipes de Busca e Salvamento
7. Deslocamento pela mata em busca de socorro
A formação Prática de Marinharia é ministrada em piscina térmica, no
Ginásio Poliesportivo da PUCRS. A FACA dispõe de um barco salva-vidas do tipo
“lançamento na água” com os respectivos acessórios e de 40 coletes salva-vidas;
todos esses equipamentos são de uso aeronáutico. O treinamento é constituído
dos seguintes módulos:
1. Circuito Educativo dos Equipamentos Individuais de Flutuação
2. Circuito Educativo do Equipamento Coletivo de Flutuação
3. Circuito Educativo do Kit de Sobrevivência no Mar
4. Adaptação ao meio líquido
5. Simulações de Pouso na Água
6. Instruções sobre a “Jornada no Mar”
As atividades práticas de Combate ao Fogo são ministradas em área
disponibilizada pelo Campus PUCRS Viamão. A carga horária prevista é de 6
horas, empregando extintores de incêndio dos tipos “água pressurizada”, “pó
químico seco” e “dióxido de carbono”. É composto dos seguintes módulos:
1. Seleção de extintores
2. Operação de extintores em foco de fogo da Classe A
3. Operação de extintores em foco de fogo da Classe B
A participação de alunos oriundos de outros cursos das diferentes
Unidades Acadêmicas da PUCRS, na busca de conhecimentos relacionados à
segurança de cabine, permite afirmar que esta ação de ensino contribui
socialmente, pois, mais e mais pessoas estarão qualificadas para salvar vidas e
agir como multiplicadores da cultura de segurança, tão necessária em todos os
aspectos da vida humana.
Um programa de prevenção de acidentes é simplesmente uma prática
inteligente para qualquer organização conduzir seus negócios. Muitos aspectos
que fazem uma empresa segura para operar, também a fazem mais confiável e
lucrativa. Segurança é, então, um ótimo investimento. Prevenir acidentes
minimiza os custos e mantém a organização funcionando, preservando o seu bem
mais precioso: os recursos humanos.
234 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Referências

GIDEON, Francis. The Standard Handbook for Aeronautical and Astronautical


Engineers. McGraw-Hill, 2004

FREIRE, Paulo; SCHOR, Ira. Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. Rio de


Janeiro. Paz e Terra, 2001.
INOVAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE QUÍMICA: A
INTEGRAÇÃO ENSINO-PESQUISA-EXTENSÃO

Ramos, Maurivan Güntzel; PhD; Faculdade de Química – PUCRS


mgramos@pucrs.br
Ferraro, Concetta Schifino; MS; Faculdade de Química – PUCRS
cferraro@pucrs.br
Azambuja, Rejane Rolim; MS;Faculdade de Química – PUCRS
rrolim@pucrs.br

Resumo

O texto apresenta a formação inicial de professores de Química na


PUCRS, por meio dos seus pressupostos e de informações sobre a sua prática, e
destaca seu caráter inovador na relação de parceria entre a Universidade e as
escolas. Por um lado está a formação do professor, alicerçada no educar pela
pesquisa, por outro está a escola como campo de estágio. Na lógica da formação
instituída pelo curso de Licenciatura em Química, a escola é espaço de ensino,
pois possibilita a prática docente dos licenciandos; é espaço de pesquisa, pois
tanto os licenciandos quanto os docentes coletam e analisam dados dessa
realidade, os quais são matéria-prima para a reflexão e formação; é espaço de
extensão, pois os estagiários, com a orientação dos docentes da universidade,
levam inovações, na forma de idéias, de materiais (kits para as aulas práticas) e
de ação voltada à aprendizagem dos alunos do ensino médio.

Palavras-chave: Formação de professores de Química, Pesquisa de sala de


aula, Inovação.

Introdução

O presente texto aborda o processo de formação inicial de professores no


curso de Licenciatura em Química da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul – PUCRS, com destaque para a formação pedagógica nas
disciplinas sob a responsabilidade da Faculdade de Química, pelo seu caráter
inovador, com intensa articulação entre ensino, pesquisa e extensão.
236 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

O ensino ocorre pela mediação docente em sala de aula, em processos


reflexivos, tendo por base as experiências dos licenciandos no espaço escolar.
Portanto, o ensino nas disciplinas de formação pedagógica da FAQUI são todas
realizadas com base na ação-reflexão-ação (Shön, 1983, 1992), fortemente
vinculadas ao contexto e à realidade escolar. Com isso, busca-se superar a
racionalidade técnica em favor de uma racionalidade prática e crítica.
A pesquisa ocorre de dois modos: pela ação dos licenciandos, sob
orientação dos docentes, por meio da coleta, análise e interpretação dos dados
relativos à escola e à sala de aula de Química, bem como pela apresentação
escrita dos resultados desse trabalho, que serve de base à reflexão em sala de
aula; pela ação dos docentes, com o auxílio de alguns licenciandos (bolsistas e
monitores), por meio da coleta, análise e interpretação de dados sobre as
ocorrências nessas disciplinas, na forma de uma meta-análise, para compreender
e avaliar esse processo de formação com vistas a sua permanente reconstrução
e qualificação. Além disso, as disciplinas de formação pedagógica da FAQUI têm
entre seus pressupostos teóricos o educar pela pesquisa (DEMO, 1998;
MORAES, GALIAZZI, RAMOS, 2004; LIMA, 2004), que se apóia no
questionamento, na reconstrução da argumentação e em processos de
comunicação para divulgação e validação dos conhecimentos reconstruídos,
tendo como pano de fundo a abordagem sociocultural da aprendizagem e do
desenvolvimento humano (VYGOTSKY, 1996; WERTSCH, 1998, 1999; WELLS,
2001; SCHNEUWLY, BRONCKART, 2008).
A extensão ocorre por meio de contribuições efetivas às escolas de ensino
médio, aos professores e aos alunos, em ações variadas que envolvem a
participação efetiva dos licenciandos nas atividades escolares e dos docentes do
Curso de Licenciatura em assessorias. Entre as atividades que podem ser
consideradas de extensão, apresentam-se: a contribuição às aulas de Química
pelo empréstimo de kits para as atividades experimentais, organizados pelos
licenciandos e que eles utilizam nas aulas de estágio, possibilitando a realização
de aulas experimentais, principalmente nas escolas públicas, necessárias para as
aulas de Química; a contribuição à qualificação do trabalho dos professores de
Química das escolas pela proposição de atividades de ensino elaboradas e
testadas na Universidade, tendo essa assessoria um caráter de educação
continuada; a contribuição aos alunos das escolas em função de um trabalho
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 237

qualificado e com propostas atualizadas, o que implica aprendizagens


significativas, tanto dos alunos quanto dos licenciandos. Nesse sentido, a escola
não é apenas um espaço a ser ocupado pelos licenciandos para a realização das
suas atividades de estágio, mas, pelo contrário, é um espaço de interação onde
todos os participantes, alunos, professores da escola, licenciandos e docentes da
Universidade, aprendem e beneficiam-se mutuamente.
Essa experiência só tem se tornado possível graças à reformulação
curricular do curso aprovada em 1999 e implantada no primeiro semestre de
2000, na qual foram instituídas as disciplinas de Tutoramento em Prática de
Ensino I, II, III e IV e Estágio Supervisionado do Curso de Licenciatura em
Química, bem como as disciplinas de Projetos de Ensino de Química e
Metodologia de Ensino de Química. Essas mudanças ocorreram como solução da
Faculdade de Química para atender às exigências da nova Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), da Resolução CNE/CES No
1/2002, que institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de
Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de
graduação plena (BRASIL, 2002a), da Resolução CNE/CES No 2/2002, que
institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação
plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior
(BRASIL, 2002b), bem como da Resolução CNE/CES No 8, de 11 de março de
2002, que estabelece as Diretrizes Curriculares para os cursos de Bacharelado e
Licenciatura em Química (BRASIL, 2002c).

Objetivos

No presente texto, argumenta-se que é inovadora a formação de


professores capaz de reconhecer e respeitar a complexidade das relações que
existem nesse processo, de interagir com o espaço escolar numa parceria, na
qual todos são beneficiados, alunos, licenciandos, professores das escolas e
docentes da Universidade e de assumir a pesquisa como modo de aprender.

Descrição do processo de inovação desenvolvido

A descrição do processo de formação de professores de Química, objeto


principal deste artigo, ocorre por meio da descrição da estrutura geral do curso,
238 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

do trabalho realizado nas disciplinas pedagógicas da FAQUI e da discussão dos


pressupostos teóricos do curso.

O Curso de Licenciatura em Química da PUCRS

O curso atual de Licenciatura em Química de Faculdade de Química da


PUCRS tem a duração de sete semestres, totalizando 2940 horas. A formação
específica em Química ocorre por meio de disciplinas, em regime semestral, nas
áreas de Química Geral e Inorgânica, Química Inorgânica e Mineralogia, Físico-
Química e Química Orgânica, Química Ambiental, Química Analítica e Química
Biológica. Também integram a matriz curricular, as disciplinas de Física Geral e
Experimental, Matemática para Químicos, Ética e Filosofia da Ciência e
Humanismo e Cultura Religiosa, bem como as Atividades Complementares e as
disciplinas eletivas, que podem ser escolhidas entre as disciplinas dos demais
cursos de graduação da Instituição.

Figura 1 – Matriz Curricular da Licenciatura em Química – (4-309)

Em relação à formação docente, a matriz curricular do Curso está


organizada de modo a oferecer disciplinas de natureza pedagógica desde o
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 239

primeiro nível, como Psicologia da Educação - ensino e aprendizagem (primeiro e


segundo níveis), Organização de Políticas para o Ensino Médio (segundo nível) e
Didática Geral (terceiro nível), todas de responsabilidade da Faculdade de
Educação. Em relação à formação pedagógica específica de Educação Química,
o licenciando cursa as disciplinas de Projeto de Ensino de Química (quinto nível)
e Metodologia de Ensino de Química (sexto nível), estas de responsabilidade da
Faculdade de Química. A primeira propõe estudo de propostas alternativas de
ensino existentes no país e realiza a análise de livros didáticos convencionais, e a
segunda propõe o estudo de metodologias para o ensino de Química, priorizando
a ação e a pesquisa pelos alunos. Além dessas, o licenciando inicia nas
atividades de prática docente, no ambiente escolar, por meio das disciplinas de
Tutoramento em Prática de Ensino I, II, III e IV, culminando com o Estágio
Supervisionado no sétimo semestre. Nessas disciplinas, o licenciando vai
gradativamente assumindo-se como professor, tendo o educar pela pesquisa
como base para a reconstrução do seu conhecimento profissional.
A grande inovação dessa matriz curricular está nestas disciplinas, as quais,
são denominadas “tutoramentos”.
Cada uma das disciplinas de Tutoramento em Prática de Ensino tem um
objetivo específico, que são: o Tutoramento em Prática de Ensino I propõe-se ao
reconhecimento e problematização da realidade escolar e da sala de aula; o
Tutoramento em Prática de Ensino II propõe-se ao estudo da experimentação no
ensino de Química, envolvendo a organização do espaço para as atividades
práticas, bem como a preparação e aplicação de aulas experimentais; o
Tutoramento em Prática de Ensino III propõe-se ao aprofundamento teórico e
prático do estudo das questões experimentais no ensino de Química, pela
integração com outras áreas, por meio do desenvolvimento de projetos com os
alunos, de atividades integradoras com o Museu da PUCRS, da pesquisa de
novas atividades experimentais e da produção escrita sobre o trabalho
desenvolvido; o Tutoramento em Prática de Ensino IV propõe-se ao planejamento
e à organização de recursos para as atividades futuras do Estágio
Supervisionado, que ocorre no último semestre do curso.
As disciplinas de Tutoramento em Prática de Ensino têm, portanto, o
caráter de estágio, pois ocorrem no campo real de trabalho, que é o ambiente
escolar, com a supervisão dos docentes da Universidade em diálogo com os
240 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

demais colegas licenciandos. Para complementar essa formação, a disciplina


denominada de Estágio Supervisionado faz uma síntese desse processo,
consistindo em regência de classe, durante um semestre letivo, com a aplicação
de resultados dos estudos desenvolvidos ao longo dos Tutoramentos. No entanto,
os licenciandos não iniciam a organização e a prática de aula no último semestre.
A partir do Tutoramento em Prática de Ensino I, os licenciandos já preparam
planos de aula e realizam o trabalho sob a orientação de docente da Universidade
e sob a supervisão direta do professor titular da turma na escola. Isso foi se
construindo desse modo, pois é forte a convicção que o quanto antes o aluno
começa a assumir-se como professor, vai produzindo transformações importantes
na sua constituição profissional docente, principalmente pela reflexão sobre o que
faz.
Isso está de acordo com Mizukami, quando afirma que:

A premissa básica do ensino reflexivo considera que as crenças,


os valores, as suposições que os professores têm sobre o ensino,
matéria, conteúdo curricular, alunos, aprendizagem etc. estão na
base de sua prática de sala de aula. A reflexão oferece a eles a
oportunidade de se tornarem conscientes de suas crenças e
suposições subjacentes a essa prática. Possibilita, igualmente, o
exame de validade de suas práticas na obtenção de metas
estabelecidas. Pela reflexão eles aprendem a articular suas
próprias compreensões e a reconhecê-las em seu
desenvolvimento pessoal. (1996, p. 61)

Evidentemente que as disciplinas de prática pedagógica específicas de


Educação Química ocorrem em interação com as disciplinas das áreas
específicas de Química do curso, as quais também desenvolvem ações de
caráter pedagógico como o objetivo principal de aprofundamento e
complexificação do conhecimento químico.
Como ilustração, são apresentados alguns dados do primeiro semestre de
2009. Estão matriculados nas disciplinas de prática docente 92 alunos, os quais
estão realizando seus estágios/tutoramentos em 76 escolas, conforme mostra a
Tabela 1.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 241

Tabela 1 – Número de alunos matriculados nas disciplinas de prática pedagógica e número de


escolas nas quais realizam seus estágios ou tutoramentos em 2009/1
No de Escolas de
No de Alunos
Disciplina Tutoramento ou
matriculados
Estágio
TPE I 23 21
TPE II 17 16
TPE III 15 15
TPE IV 15 13
ES 12 11
Total 92 76

Considerando que há dez alunos cursando simultaneamente, pelo menos


duas dessas disciplinas, o número real é 82 alunos realizando suas atividades de
tutoramento ou estágio em 66 escolas da Capital e da Região Metropolitana de
Porto Alegre. Esse elevado número expressa a importância e o impacto que essa
atividade de formação tem em relação à realidade escolar do ensino médio. Esse
é mais um argumento de que os tutorandos/estagiários devem contribuir para a
qualificação da escola e da sala de aula, o que reflete na constituição formação
do seu “ser professor”. Isso está de acordo com o que afirma Arroyo (2003), que é
necessário investir na melhoria da escola e dos professores que lá trabalham
para melhorar o ensino e a aprendizagem em Química, pois não basta melhorar
os cursos de Licenciatura se os egressos desses cursos se defrontam com
situações de desqualificação e de desmotivação inerentes às relações de
produção e trabalho no contexto escolar.

Pressupostos teóricos da formação de professores de Química na PUCRS

Na formação de professores de Química desenvolvida nas PUCRS há


destaque para a interação dos licenciandos e dos docentes com os professores e
alunos das escolas, desde as disciplinas iniciais do curso, em um processo de
imersão gradativa do licenciando na escola.
Nessa perspectiva, o conceito de “tutoramento”, que perpassa as várias
disciplinas de formação em Educação Química, pode ser definido como “o
processo de aprender com o outro, numa relação de reciprocidade, no
espaço/tempo da escola e da Universidade”. (RAMOS e MORAES, 2006, p. 7).
Esse processo envolve saberes relacionados: à formação profissional (saberes
profissionais), associados aos conhecimentos docentes adquiridos durante o
242 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

curso de licenciatura; à área específica ou disciplina (saberes disciplinares) de


Química, que emergem da tradição cultural e da comunidade científica dessa
ciência; ao currículo (saberes curriculares), associados à organização do ensino
(objetivos, conteúdos, métodos), concretizando-se sob a forma de programas
escolares, os quais os professores aprendem planejar e a colocar em ação;
experiência docente cotidiana (saberes experienciais), associada à prática
docente, aos hábitos de cada professor e ao conhecimento de seu meio (TARDIF,
2006).

Figura 2: Os saberes e a constituição do professor de Química

Para que ocorram aprendizagens relevantes associadas à constituição


docente é necessário perceber a interação dos quatro tipos fundamentais de
sujeitos do processo de formação inicial como uma rede de relações e partilha de
saberes: os docentes e os licenciandos, no âmbito da Universidade; os
professores e alunos, no âmbito da escola. Isso significa que há várias situações
de tutoramento, entre docentes, licenciandos, professores, alunos; entre docentes
e licenciandos, licenciandos e alunos, docentes das universidades e professores
das escolas, e professores e alunos das escolas. Essa rede complexa é
representada pelo esquema apresentado na Figura 3.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 243

Figura 3 – Relações de tutoramentos na formação de professores

É evidente que essa rede não para por aí, pois muitas vozes integram-se
aos diálogos entre esses quatro segmentos e cada sujeito passa a ser
multiplicador dessa rede.
É nessa interação complexa, envolvendo experiências e saberes
diferenciados, que ocorre a formação inicial de professores na PUCRS. Nesse
processo em rede, todos são ensinantes e aprendentes (FERNANDEZ, 2001).
Por outro lado, os processos de formação inicial de professores de
Química na PUCRS, principalmente no que se refere às disciplinas de natureza
pedagógica, com destaque para os tutoramentos e estágios estão fundamentados
no educar pela pesquisa (DEMO, 1998; MORAES, GALIAZZI, RAMOS, 2004;
LIMA, 2004). Desse modo, em um movimento reconstrutivo, são formuladas
perguntas e produzidas respostas ou argumentos, que são comunicados ao
próprio grupo ou a outros grupos, com o intuito de divulgar e validar o aprendido.
Esse processo parte do conhecimento que cada um tem em relação ao objeto de
estudo, que vai se tornando mais consistente e fundamentado, mais abstrato e
científico. Para tanto, é necessário que o professor seja mediador nesse processo
e que pense junto com os alunos até mesmo o que ainda não sabe. Mas é
importante considerar que os alunos também são mediadores, pois, de fato, quem
244 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

faz a mediação entre o objeto de estudo e o sujeito é a linguagem em que se


movimentam os aprendentes e ensinantes.
Um aspecto importante da pesquisa, na abordagem deste texto, é que os
próprios alunos participam da formulação dos problemas, pois a possibilidade de
perguntar oportuniza a tomada de consciência em relação às lacunas do próprio
conhecimento e essa consciência das faltas pode contribuir para tornar os
sujeitos desejantes do aprender. Está na busca de solução dos desafios a
possibilidade da aprendizagem aos alunos. Cabe lembrar que a formação de
professores não consiste em fornecer fórmulas prontas para a solução de
problemas, pois é essa racionalidade que se quer superar.
O aprender, portanto, envolve a complexificação do senso comum, daquilo
que os alunos já conhecem e que aprenderam de modo experiencial ou pelo
ensino escolar vivenciado até o momento. Essa complexificação implica a
apropriação do discurso científico. Assim, não é o tipo de problemas que
influencia a aprendizagem dos alunos, mas o fato de eles mesmos os elaborarem,
pois “parece existir algo muito poderoso em relação ao fato de os próprios alunos
assumirem a função de perguntar” (WERTSCH, 1998, p. 129).
Trabalhar com pesquisa na sala de aula implica mudar as regras do
ensinar e do aprender. Neste caso, os caminhos não são dados, mas se
constroem cooperativamente em comunidades de aprendizagem voltadas para
reconstruções coletivas de conhecimentos, nas quais professor e alunos
assumem papéis de ensinantes e aprendentes.

Mais do que ensinar (mostrar) conteúdos de conhecimentos, ser


ensinante significa abrir um espaço para aprender, espaço
objetivo-subjetivo em que se realizam dois trabalhos simultâneos:
1-construção de conhecimentos; 2-construção de si mesmo, como
sujeito criativo e pensante. (FERNANDEZ, 2001, p. 30).

Pesquisar na sala de aula, numa perspectiva sociocultural, também


consiste em desenvolver competências associadas à linguagem, que possibilitam,
pelo diálogo e pelo confronto de idéias, formular problemas, encontrar soluções e
expressar os novos conhecimentos, que se qualificam por meio da crítica. Nesse
processo, a mediação, mais do que pelas pessoas, se dá pela linguagem numa
relação dialógica, pois quem conhece algo também ensina no processo de
conhecer. Pesquisar em aula implica a combinação de modos de linguagem,
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 245

especialmente, a fala, a escuta, a leitura e a escrita e implica partir de


questionamentos relevantes e significativos associados aos conhecimentos
iniciais dos participantes, colocando-os em cheque.

Falar ciência não significa simplesmente falar sobre a ciência.


Significa fazer ciência por meio da linguagem. Falar ciência
significa observar, descobrir, comparar, classificar, analisar,
discutir, formular hipóteses, teorizar, questionar, desafiar,
argumentar, planejar experimentos, seguir procedimentos, julgar,
avaliar, decidir, concluir, generalizar, informar, escrever, ler e
ensinar por meio da linguagem da ciência (Lemke, 1997, p. 11).

Isso significa valorizar a função epistêmica da linguagem, além da sua


função comunicativa. (MORAES, RAMOS, GALIAZI, 2007)
Em relação à formação inicial de professores de Química, as ações de
falar, ler, escrever e dialogar são valorizadas para a aprendizagem de
competências necessárias à profissão docente. Ao experimentar esses modos de
agir e aprender, os futuros professores tornam-se também capazes de colocá-las
em ação na sua prática docente. Para isso, as disciplinas voltadas à formação de
professores de Química propõem atividades que implicam envolver os alunos e o
professor em leituras, em relatos orais, em diálogos e em produção escrita,
associados às observações e ao trabalho realizado nas escolas. Isso se apóia na
tese de que os licenciandos tornam-se capazes de desenvolver uma prática
diferenciada e produtiva, com a emergência de aprendizagens significativas, se
experienciam esse modo de ensinar e aprender ao longo da sua formação inicial
em contatos com a realidade escolar.
Desse modo, durante os tutoramentos e estágios, os licenciandos têm a
oportunidade de reconstruir permanentemente o seu conhecimento e a sua visão
do que significa ser professor. Com isso, são favorecidos processos para
compreender a realidade no seu dinamismo e complexidade e de realizar um
trabalho mais adequado a esse contexto. A intensidade das ações realizadas, a
reflexão sobre essas ações e a possibilidade de reinventar a própria prática,
associadas às oportunidades de falar, ler dialogar e escrever contribuem para a
(trans)formação dos licenciandos em direção ao “ser professor”.
Nessa perspectiva, tornar-se professor implica assumir a posição de quem
pode e deve contribuir para mudanças relevantes e necessárias nessa área de
atuação. Ao compreender melhor a profissão e os problemas concernentes a ela,
246 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

os licenciandos tornam-se protagonistas de um ensino mais qualificado, vital para


a emancipação social.

Resultados obtidos

A matriz curricular do Curso de Licenciatura em Química vem sendo


praticada desde 2000, portanto há quase uma década. Durante esse tempo várias
investigações vêm sendo feitas no sentido de se compreender-se, cada vez mais,
esse processo de formação com vistas a sua permanente qualificação. O que se
destaca é que os professores egressos do curso, em geral, apresentam um perfil
caracterizado por uma atitude empreendedora, questionadora, capaz de buscar
soluções frente aos desafios que se apresentam, com um discurso mais
qualificado e uma prática coerente ao discurso e com a vontade de continuar
aprendendo, pois têm consciência do seu papel social. Deparam-se, no entanto,
com as dissonâncias em relação à realidade escolar (RAMOS, 2008), mas
apresentam condições de pensar individual e coletivamente em soluções para
superar as dificuldades.

Considerações finais

No presente texto, foi apresentado sucintamente o modo de organização


curricular de formação de professores no curso de Licenciatura em Química da
PUCRS, com destaque para a dinâmica adotada no currículo do curso, com forte
interação entre as Universidades e as Escolas, desde o início da formação,
podendo-se perceber a integração pesquisa-ensino-extensão. Nesse sentido, os
principais argumentos presentes neste texto defendem a parceria efetiva entre a
Universidade e as escolas em favor de um trabalho que beneficie a todos os
envolvidos: professores, alunos, docentes e licenciados.
Foi intenção também destacar os aspectos epistemológicos que embasam
a formação pedagógica do curso descrito, com ênfase no educar pela pesquisa,
numa abordagem sociocultural, na qual é valorizada a função epistêmica da
linguagem além de sua função de comunicação.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 247

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BOAS PRÁTICAS NOS INSTITUTOS ESPECIAIS
GESTÃO AMBIENTAL NA UNIVERSIDADE E A BUSCA DE UMA SOCIEDADE
SUSTENTÁVEL

Villwock, Jorge Alberto; Dr; Instituto do Meio Ambiente – PUCRS


Blochtein, Betina; Dr; Instituto do Meio Ambiente – PUCRS

Resumo

A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul tem assumido


uma postura pró-ativa no sentido de diminuir o impacto ambiental de suas
atividades. O desenvolvimento de procedimentos educacionais capazes de
despertar a consciência ambiental e de induzir a mudanças de atitude, nos seus
alunos, servidores, professores, e, conseqüentemente, nas comunidades onde
eles atuam, somado a tomada de iniciativas voltadas para o conhecimento e a
conservação da biodiversidade junto com projetos de pesquisa dirigidos ao
desenvolvimento de novas tecnologias, voltados para produção mais limpa,
energias renováveis, reciclagem de resíduos, redução de emissões, constituem
um elenco de ações destinadas a mitigar e mesmo reverter o estado de
degradação ambiental em que nosso planeta se encontra. A criação de um
Comitê de Gestão Ambiental ligado ao Instituto do Meio Ambiente, com o objetivo
de apoiar a administração universitária além de incentivar, aprovar e promover
atividades multi e interdisciplinares, relacionadas com o meio ambiente na
Universidade e na Sociedade que a envolve é mais uma atitude inovadora no
sentido de alcançar a sua sustentabilidade.

Palavras-chave: Gestão Ambiental, Universidade e Sustentabilidade.

Introdução

O estado de degradação das condições ambientais do planeta em que


vivemos tem sido motivo de preocupação global. Dele decorrem danos à
biodiversidade e a própria espécie humana tem sua existência ameaçada.
O despertar de consciências diante de tais fatos, a partir da segunda
metade do século passado, tem motivado ações no sentido de diminuir, parar e
mesmo reverter os processos de agressão ao meio ambiente decorrentes do
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 251

desenvolvimento desenfreado e sem sustentabilidade. As Conferências de


Estocolmo e do Rio de Janeiro, e o Protocolo de Kioto, são alguns dos inúmeros
exemplos de iniciativas de envergadura mundial, direcionados à busca desta
sustentabilidade.
Sabe-se, entretanto, de que nada adiantarão esforços internacionais,
nacionais ou mesmo de menor abrangência, se eles não forem acompanhados de
uma mudança de atitude de cada indivíduo ou de um número cada vez maior de
indivíduos, no sentido de respeitar e proteger o meio em que vivemos, onde se
processa, constantemente, o milagre da vida.
A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul está engajada
neste processo. As questões ambientais têm sido consideradas nas atividades de
ensino, pesquisa e extensão. A própria gestão universitária vem desenvolvendo
ações que visam a preservação de recursos naturais e do meio ambiente.

Gestão ambiental na Universidade

Em junho de 2008, a PUCRS criou, através de uma iniciativa inovadora da


Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós- Graduação, o Grupo de Trabalho de Gestão
Ambiental. Além de reunir informações e examinar as iniciativas de cunho
ambiental em curso na Universidade, o Grupo teve por meta a elaboração de uma
política de meio ambiente a ser adotada nos campi e extendida às comunidades
envolvidas pela atuação da PUCRS.
Em dezembro de 2008, o Grupo concluiu suas atividades, propondo
Diretrizes Ambientais e a criação de um Comitê de Gestão Ambiental (CGA-
PUCRS), ligado ao Instituto do Meio Ambiente, para atuar de modo permanente
na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. As sugestões foram
aprovadas e estão em fase de implementação.
Deste modo, o CGA-PUCRS terá por objetivos: apoiar à Administração
Superior na formulação de ações voltadas à gestão ambiental de seus campi,
além de incentivar, aprovar e promover atividades relacionadas com o meio
ambiente na Universidade e na Comunidade que a envolve, através de
procedimentos de ensino, pesquisa e extensão.
252 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Principais eixos da política de atuação do CGA-PUCRS

As ações relacionadas com o meio ambiente, no âmbito da Universidade,


deverão ser desenvolvidas em torno de três eixos principais: educação ambiental,
redução de impactos ambientais e produção e disseminação de novas
tecnologias capazes de diminuir o estado de degradação em que a Terra se
encontra.
Em primeiro lugar, a Universidade, através de seus procedimentos
educacionais, proporciona, vivência e crescimento cultural para uma importante
parcela da comunidade, formando cidadãos que passam a ser agentes
multiplicadores destes conhecimentos nos seus locais de atuação e de vida.
Diante das atuais circunstâncias é fundamental que se desperte, nestas mulheres
e nestes homens, uma consciência ambiental, uma verdadeira Consciência
Verde, que permita o restabelecimento da sustentabilidade da vida.
Por outro lado, os impactos decorrentes da ação humana são os
responsáveis pela crise ambiental que afeta o nosso planeta. O desenvolvimento
desenfreado promove a degradação dos recursos naturais e humanos. A
modificação e a destruição dos ambientes de vida, afetam a biodiversidade e
provocam a extinção de espécies. A reversão desses processos é fundamental
quando se busca retomar a sustentabilidade ameaçada. É preciso promover e
implementar padrões de produção e de consumo que atendam às necessidades
básicas da humanidade reduzindo as pressões ambientais e mitigando os
impactos decorrentes.
Para atingir estas metas, a Universidade deve atuar como agente de
primeira linha na pesquisa, no desenvolvimento e na inovação, criando e
disseminando novas tecnologias que proporcionem mecanismos de produção
mais limpa, redução de emissões, reciclagem de resíduos, aumento da eficiência
energética e outros processos que reduzam o dano ambiental decorrente das
atividades do homem sobre o planeta. O mesmo deve ocorrer com tecnologias
destinadas a mitigar e/ou reverter processos de degradação objetivando a
regeneração ambiental.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 253

Ações em andamento na Universidade

As questões ambientais têm sido consideradas nas atividades de ensino,


pesquisa e extensão em diversas unidades da Universidade. A própria gestão
universitária vem desenvolvendo ações que visam o uso adequado de recursos
naturais e do meio ambiente. A seguir são apresentadas ações em andamento
promovidas pela PUCRS.

Centro de Pesquisas e Conservação da Natureza – PRÓ-MATA

O projeto Pró-Mata foi concebido dentro da Pontifícia Universidade


Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, em 1991, tendo como propósito a
aquisição de uma área a ser destinada como unidade de pesquisa e conservação.
Utilizando recursos próprios, complementados por significativa doação da
empresa Andreas Stihl, sediada na Alemanha, e com atividades industriais no Rio
Grande do Sul, a PUCRS, em abril de 1993, adquiriu várias propriedades
contíguas, que somadas a áreas de preservação permanente compõem
aproximadamente 3.000 hectares inseridos nos municípios de São Francisco de
Paula, Itati e Maquiné.
A área do Pró-Mata, localizada na região nordeste do RS, no Planalto das
Araucárias e borda da Serra Geral, é coberta por fragmentos de floresta e
pequenos trechos com campos nativos, os quais representam importantes
remanescentes da vegetação original do Rio Grande do Sul. A estratégia de
implantação do Centro nesta área buscou garantir a proteção de áreas,
particularmente aquelas com extrema importância biológica ou complexidade
paisagística e que cumprissem papel de corredor ecológico na região Sul do
Domínio da Mata Atlântica. Esses são alguns dos atributos dos ecossistemas no
Pró-Mata, considerados como prioritários no âmbito da Reserva da Biosfera da
Mata Atlântica da Unesco.
Em abril de 1996, foi oficialmente inaugurada a sede do Centro de
Pesquisas e nestes treze anos de existência, o Pró-Mata se consagrou como um
importante pólo de pesquisa, ensino e extensão, recebendo mais de 2 mil
visitantes ao ano. Em sua atuação, o Pró-Mata passou a trabalhar de forma
efetiva ao lado de inúmeras outras Universidades, entidades governamentais e
não-governamentais, integrado à estratégia de ação em nível nacional e
254 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

internacional, que visa a encontrar e definir formas mais adequadas para as


interações do homem com o ambiente. O Pró-Mata adota o apoio à ética que
compatibiliza o desenvolvimento com a conservação na natureza. Assim, são
usuários do Centro pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação,
participantes de atividades curriculares ou projetos de pesquisa, da PUCRS e de
instituições parceiras.
A dedicação da comunidade atuante no Pró-Mata, aliada à adequada infra-
estrutura para as atividades propostas, garantiu condições para a execução de
projetos de pesquisa, monografias, dissertações, teses e livros, além da produção
de centenas de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais em
diferentes áreas do conhecimento. A vasta produção científica tem gerado um
amplo acervo de informações sobre o meio físico e biológico regional e local,
disponíveis em forma de relatórios, mapas e publicações. As abordagens do
Centro de Pesquisas integram aspectos que vão da sistemática à ecologia de
espécies e manejo de ecossistemas, e mais recentemente, passou a incluir
também a biologia molecular
Desde 1998, o Pró-Mata vem sendo administrado pelo Instituto do Meio
Ambiente.

Instituto do Meio Ambiente - IMA

A PUCRS criou, em 1998, o Instituto do Meio Ambiente na qualidade de


responsável pelo desenvolvimento de atividades de ensino de pós-graduação e
de pesquisa voltadas para questões ambientais. O IMA oferece o Curso de
Especialização em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente, já na décima
quarta edição. No início de suas atividades, o IMA criou a Comissão de
Gerenciamento de Resíduos da PUCRS – RECIPUCRS, nascedouro de muitas
das atividades que vem sendo levadas a efeito pela Prefeitura Universitária e pelo
Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho - SESMT e outros
setores da administração universitária. Paralelamente, o IMA tem coordenado
projetos de pesquisa e de extensão, dos quais várias outras unidades
universitárias da PUCRS têm participado, notadamente, a Faculdade de
Biociências, a Faculdade de Engenharia, a Faculdade de Química e o Museu de
Ciência e Tecnologia. Cabe ainda mencionar a criação, em 2007, do “Centro de
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 255

Excelência em Pesquisa sobre o Armazenamento de Carbono” através de


convênio com a PETROBRAS e a Agência Nacional do Petróleo.

Centro de Excelência em Pesquisa sobre Armazenamento de Carbono –


CEPAC

O CEPAC é um centro interdisciplinar para pesquisa, desenvolvimento,


inovação, demonstração e transferência de tecnologia (PDID&T) em
armazenamento geológico de carbono, vinculado ao Instituto do Meio Ambiente
da PUCRS. As atividades de pesquisa visam à análise da potencialidade, risco,
capacidade, durabilidade e rentabilidade desta atividade, associada ou não à
produção de energia (óleo, gás natural e hidrogênio). As tecnologias em que o
CEPAC se propõe a pesquisar e implantar, uma vez adotadas em escala
comercial, terão grandes conseqüências sociais e ambientais, tanto em nível local
como em nível global.
Ao desenvolver tecnologias para a redução das emissões de gases de
efeito estufa, o CEPAC contribui de forma efetiva para a mitigação das mudanças
climáticas e do aquecimento global, ajudando assim a estabilização da
concentração de CO2 na atmosfera, que em nível local pode ser refletido no não
aumento das ocorrências de eventos climáticos extremos e de mudanças
menores nos ciclos hidrológicos locais, evitando assim os impactos destas
mudanças no meio ambiente e na sociedade.
O CEPAC é o primeiro centro do gênero do país e também o mais bem
equipado para desenvolvimento de pesquisas na área de armazenamento de
carbono. O CEPAC já contribui para o posicionamento de destaque do Estado do
Rio Grande do Sul, com relação ao desenvolvimento de um pólo tecnológico na
área de seqüestro geológico de carbono.
O Centro conta com uma equipe multidisciplinar que envolve
pesquisadores, alunos de graduação, alunos de pós-graduação (mestrado e
doutorado) e professores da PUCRS. Integram a equipe do CEPAC
representantes das seguintes unidades acadêmicas da PUCRS: Instituto do Meio
Ambiente, Faculdade de Química, Faculdade de Engenharia, Faculdade de
Comunicação Social, Faculdade de Biociências e Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas.
256 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

No momento, o CEPAC conta com sede própria de 1000 m2 de área


construída no Parque Científico e Tecnológico da Universidade, o TECNOPUC.

Plano Diretor do Campus Central

Considerando a importância da instituição de ensino e pesquisa e a


necessidade de uma adequada inserção na estrutura urbana na cidade é que a
PUCRS e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre assinaram em 2003 um termo de
compromisso pelo qual a Universidade se comprometeu a elaborar um Plano
Diretor de Desenvolvimento do Campus Central, contemplando todo o atual
complexo universitário e hospitalar e as futuras obras de expansão.
Como complementação a este Plano Diretor, foi iniciado, em 2006, o
Relatório de Impacto Ambiental, envolvendo os meios físico, biótico e antrópico.
Foram analisadas questões referentes aos ruídos e vibrações, recursos hídricos,
cobertura vegetal, resíduos sólidos, circulação e acessibilidade, urbanização e
regime urbanístico, arqueologia, patrimônio histórico – Colégio Champagnat e
sistema viário. Várias iniciativas mitigatórias vêm sendo postas em prática.

Outras atividades

No âmbito da Universidade, poderiam ser mencionados numerosos


projetos de pesquisa voltados ao conhecimento da biodiversidade levados a efeito
pela Faculdade de Biociências e pelo Museu de Ciências e Tecnologia. O Livro
Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção é um dos importantes resultados que
a PUCRS coloca á disposição da Comunidade.
Projetos voltados para o aproveitamento da energia solar, desenvolvidos
na Faculdade de Física e que levaram à criação do Núcleo Tecnológico em
Energia Solar funcionando no TECNOPUC; projetos voltados para outras formas
de energias renováveis, desenvolvidos no Núcleo Tecnológico de Energia e Meio
Ambiente – NUTEMA e no Departamento de Energia Elétrica da Faculdade de
Engenharia; projetos de pesquisa e de extensão realizados pelo Núcleo de
Estudos e Pesquisa Ambiente e Direito - NEPAD da Faculdade de Direito,
atestam, entre vários outros, a potencialidade que a Universidade dispõe para
desenvolver atividades voltadas para o meio ambiente.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 257

Ações futuras

O Comitê de Gestão Ambiental da PUCRS, a partir de 2009, será


responsável pelo acompanhamento da aprovação e suporte na implementação
das Diretrizes Ambientais, conforme planejamento e prioridades da Instituição.
Deverá, por outro lado, acompanhar as ações ambientais em andamento
na Universidade, procurando atualizar o programa de atividades da Comissão de
Gerenciamento de Resíduos - RECIPUCRS, fazendo um completo levantamento
da produção, gerenciamento e tipos de resíduos nas diferentes unidades da
universidade.
No que diz respeito à educação ambiental deverá estimular a inserção de
conteúdos e atividades ambientais nas disciplinas dos cursos de graduação e
pós-graduação. Deverá, ainda, promover entre estudantes, servidores e
professores, a formação e capacitação de um grupo de agentes facilitadores /
multiplicadores nas diferentes unidades da universidade, capazes de estimular
ações capazes de despertar consciência ambiental.
O CGA deverá manter uma atitude inovadora, articulando seu trabalho com
as demais iniciativas institucionais na área de desenvolvimento social e
econômico, promovendo ações conjuntas de natureza inter e multidisciplinar, com
o objetivo de alcançar a sustentabilidade da Universidade e da Sociedade que a
inclui.
ATIVIDADE AUTO-INSTRUTIVA EM BIOÉTICA: A EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA
COMO FERRAMENTA DE APRENDIZAGEM PARA PROFISSIONAIS DE
NÍVEL TÉCNICO NA ASSISTÊNCIA A PESSOAS VIVENDO COM HIV/AIDS

SELF-INSTRUCTIVE ACTIVITY ON BIOETHICS: DISTANCE EDUCATION AS A


LEARNING TOOL FOR TECHNICAL LEVEL PROFESSIONALS ASSISTING
PEOPLE LIVING WITH HIV/AIDS

Feijó, Anamaria G. S.; PhD, Instituto de Bioética – PUCRS


agsfeijo@pucrs.br
Ramos, Mauro C.; PhD, Centro de Estudos de AIDS / DST do Rio Grande do Sul -
CEARGS
mauroramos@ceargs.org.br
Wagner, Paulo R.; PhD, Coordenadoria de Educação à Distância - PUCRS
prwagner@pucrs.br
et al. 1

Resumo

Antecedentes: Com a necessidade de aumentar os conhecimentos em


Bioética, a educação à distância pode ser uma ferramenta adequada alcançando
um grande número de profissionais da saúde e pesquisadores em diferentes
regiões geográficas a um baixo custo financeiro. Uma atividade auto-instrutiva
sobre fundamentos da bioética, baseada na Internet, foi desenvolvida em um
projeto conjunto entre o Centro de Estudos de AIDS/DST do Rio Grande do Sul -
CEARGS e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS,
financiado pela The Wellcome Trust. Descrição: Uma atividade auto-instrutiva de
curta duração, com cinco módulos, objetivando prover instrução básica em
bioética foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar e disponibilizada à
comunidade na Internet, de forma gratuita, no web site da PUCRS, utilizando o

1
Loch, Jussara A; Gauer, Gabriel J.C.; Kipper, Délio J.; Oliveira, Marília G. ; Weber, João B.B.;
Calvetti, Prisla U.; Carvalho, Fernanda T.; Müller, Marisa C.; Negreiros, Bruna F.; Nunes, Maura
M. S.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 259

ambiente virtual moodle. Questões de avaliação devem ser respondidas pelo


aluno para evoluir para as lições seguintes. Ao completar o curso, os usuários
terão adquirido conhecimentos básicos e habilidades em questões éticas da
prática e pesquisa clínica, especialmente as relacionadas as DST e HIV/AIDS.
Lições aprendidas: O desenvolvimento desta atividade pedagógica foi uma rica
experiência de aprendizagem, em que os profissionais/docentes no campo das
DST/HIV/AIDS, da Bioética e da Informática interagiram de forma multidisciplinar.
Os alunos participantes foram unânimes em considerar o curso informativo, útil, e
de fácil execução.

Palavras-chave: Bioética, Educação à distância, Síndrome da Imunodeficiência


Adquirida.

Abstract

Background: With the need to improve knowledge of bioethics, distance


learning education can be a useful tool, reaching large numbers of health
professionals and researchers in different geographic regions with low cost. An
Internet-based self-instructive activity on fundaments of bioethics was developed
as a joint project of the Centro de Estudos de AIDS/DST do Rio Grande do Sul-
CEARGS and the Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul -
PUCRS, funded by The Wellcome Trust. Description: A five-module, Internet-
based self-paced activity, that intends to provide basic instruction in bioethics was
developed by a multidisciplinary staff and offered free-of-charge to general public
through PUCRS’ moodle web site. Evaluative questions must be answered in
order to proceed to other lessons. At the completion of the modules, users have
acquired basic knowledge and skills in ethics in clinical practice and research,
especially STI/HIV/AIDS issues. Lessons learned: Developing this pedagogical
activity was a rich learning experience in which faculty in the STI/AIDS field,
bioethics, and informatics interacted on a multidisciplinary basis. Participants
unanimously considered the course informative, useful and user-friendly.

Keywords: Bioethics, Education, distance, Acquired Immunodeficiency


Syndrome.
260 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Introdução

O cuidado à saúde envolve tanto o atendimento individual, como ações


coletivas, participação política e controle social, já que a escuta à vida não pode
estar orientada somente para os processos fisiológicos ou patológicos. Esta
abordagem precisa fazer parte das reflexões das equipes e dos gestores em
saúde, sempre visando à humanização do atendimento aos pacientes, mediante
um aumento do grau de comprometimento no cuidado e nos serviços de saúde,
dando visibilidade às dimensões ética, subjetiva e humana de sua atuação
profissional. Além de ser uma prerrogativa da lei do Sistema Único de Saúde
(SUS), a humanização deve ser considerada, principalmente, como uma
necessidade de saúde. É importante haver uma constante troca de saberes entre
as diferentes áreas do conhecimento através do diálogo, da participação da
comunidade e do trabalho em equipe, especialmente quando tratamos de um
grupo específico de enfermidades - chamadas doenças infecto-contagiosas - e,
dentre elas, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). Estas
enfermidades tornam a pessoa extremamente vulnerável, demandando atenção,
respeito e cuidado especial.
Esta visão de cuidado especial com a vulnerabilidade é compartilhada pela
Bioética, área multidisciplinar de reflexão sobre conflitos que a sociedade
contemporânea nos apresenta em função dos avanços tecnológicos ou da má
distribuição de recursos. A verdade é que os conflitos que são estudados no
âmbito da Bioética resultam de uma situação histórica concreta, ou seja, de um
problema real que leva, naquele momento, a uma preocupação pública.
O Centro de Estudos de AIDS / DST do Rio Grande do Sul (CEARGS), sensível à
vulnerabilidade das pessoas vivendo com HIV/AIDS e preocupada com sua
responsabilidade em formar de maneira integral os cuidadores destas pessoas
em seus cursos e treinamentos, elaborou um projeto que foi financiado pela
Wellcome Trust. Sabedor do conhecimento aprofundado em Bioética de um grupo
de docentes da PUCRS, liderado, na época, pelo Prof. Dr. Joaquim Clotet, o
CEARGS estabeleceu contato com este professor visando propor a elaboração
de um instrumento educativo que pudesse auxiliar na formação de seus alunos.
Desta forma concretizou-se uma profícua parceria entre os docentes de
Bioética (hoje congregados no Instituto de Bioética) e do setor de Educação a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 261

Distância (EAD) da PUCRS com os profissionais do CEARGS, viabilizando uma


atividade auto-instrutiva de introdução à Bioética, disponível no site da nossa
Universidade e que traz aos interessados, já que é oferecida não apenas aos
alunos do CEARGS, mas à sociedade em geral, noções básicas de Bioética,
valorando o cuidado com a vulnerabilidade e salientando a atenção que deve ser
dada às pessoas vivendo com HIV/AIDS.

Objetivos

Geral: Propiciar à sociedade em geral e aos alunos do Centro de Estudos


de AIDS / DST do Rio Grande do Sul (CEARGS) informações e capacitação
teórica para refletir sobre as implicações ético-sociais da Síndrome de
Imunodeficiência Adquirida e da vulnerabilidade das pessoas vivendo com
HIV/AIDS, desde uma perspectiva bioética.
Específico: Elaborar uma atividade auto-instrutiva de introdução à
Bioética, a ser realizada de forma não presencial (à distância), para alunos e
técnicos científicos de nível médio do CEARGS e para sociedade em geral.

Descrição do processo de inovação

O CEARGS, atento às tendências educacionais contemporâneas,


entendeu que a Bioética seria uma área de importância para fornecer subsídios
teóricos fundamentais à formação dos alunos de seus cursos preparatórios,
inclusive por seu caráter multidisciplinar. Sendo assim, uma equipe deste órgão
propôs ao líder da Bioética na PUCRS, a elaboração conjunta de um projeto de
construção de uma atividade auto-instrutiva, semelhante a um curso de
capacitação, a ser submetido à aprovação de uma instituição internacional, a
Wellcome Trust, a qual possibilitaria os recursos financeiros para a execução do
projeto. A partir do aceite da Wellcome Trust elaborou-se um cronograma de
ações para organizar as reuniões e contatos visando dar conteúdo didático-
pedagógico ao projeto.
262 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Opção pelo ensino à distância

A escolha de uma modalidade de ensino à distância, já esboçado no


projeto, tomou vulto, levando em consideração as exigências da
contemporaneidade, com aceleradas transformações, tanto culturais quanto nas
inovações tecnológicas, onde os espaços formais para a educação têm sido
complementados pela crescente demanda pela EAD, permitindo que várias
instituições de ensino e capacitação desenvolvam estudos e experiências para
aperfeiçoar o processo de transposição da educação para além de seus muros.
Ao fomentar a incorporação das tecnologias de informação e comunicação (TICs)
e das técnicas de educação a distância aos métodos didático-pedagógicos
tradicionais, a utilização da Internet na instrução auxilia no processo de
democratização do saber, na valorização da informação e no uso da informática e
da comunicação para integrar o humano e o tecnológico; o individual, o grupal e o
social.

Formação da equipe

A equipe formada para a elaboração dos conteúdos constou de três grupos


de profissionais: docentes de Bioética da PUCRS, responsáveis pelo
desenvolvimento dos temas éticos e bioéticos; técnico-científicos do CEARGS,
responsáveis pela assessoria nos temas relacionados ao HIV/AIDS; professores e
instrutores do Setor de EAD da PUCRS, responsáveis por adaptar os conteúdos
para o formato on-line e criar o espaço virtual do curso. Cada equipe contou com
um coordenador de área, conforme descrito na Figura 1.

Equipe Bioética/PUCRS Equipe CEARGS Equipe EAD/PUCRS


Anamaria G. S. Feijó – FABIO (coord) Mauro C. Ramos (coord) Paulo R. Wagner - (coord)
Délio J. Kipper - FAMED Fernanda T. Carvalho Bruna F. de Negreiros
Gabriel J. C. Gauer - FAPSI Marisa C. Müller Maura M. de Souza Nunes
João Batista B. Weber - FO Prisla U. Calvetti
Jussara de A. Loch - FAMED
Marília G. de Oliveira - FO
Figura 1 – Equipe multiprofissional responsável pela elaboração do curso
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 263

Elaboração e desenvolvimento dos conteúdos

As equipes trabalharam de forma multidisciplinar, lendo, revisando e


comentando o trabalho dos colegas, sendo que a maioria dos contatos para
leitura e comentários sobre o teor dos capítulos foram feitos de forma eletrônica
por e-mail. À medida que os capítulos iam sendo finalizados e aprovados pelos
coordenadores, eram encaminhados ao EAD para inserção em espaço específico
no ambiente virtual moodle da PUCRS.
Para determinar se o curso estava suficientemente claro para ser
disponibilizado à comunidade em geral, foi realizado um teste piloto com sete
profissionais de saúde que trabalham na área de DST/HIV/AIDS, que fizeram
comentários e sugestões, propiciando as necessárias adequações de conteúdo,
linguagem e ambiente gráfico. Desta forma, o layout foi melhorado e o conteúdo
revisado, antes do curso ser colocado on-line.
Os temas foram planejados e distribuídos em cinco módulos, com o
objetivo de sistematizar os assuntos, permitindo ao aluno uma aprendizagem
progressiva, de modo que conceitos fundamentais, necessários para o
entendimento dos conteúdos posteriores, fossem apresentados no início do
estudo.
O primeiro módulo tratou do histórico da Bioética, de conceitos importantes
da disciplina e procurou dar uma noção da Teoria Principialista. O segundo
módulo versou sobre Ética em pesquisa com seres humanos e animais. O
terceiro módulo e o quarto foram elaborados tratando das questões bioéticas e
deontológicas relacionadas às doenças infecto-contagiosas, enfatizando a AIDS,
e o quinto e último módulo tratou da vulnerabilidade na assistência e na pesquisa
em saúde (Figura 2)
264 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Módulo 1 – Introdução à Bioética


1.1 Termos introdutórios fundamentais
1.2 Bioética - Histórico
1.3 Explicitando o conceito de Bioética (meio-ambiente, animal não-humano, área biomédica).
1.4 Principialismo (Denúncia de Beecher, Relatório Belmont, Teoria Principialista).

Módulo 2 – Ética em Pesquisa


2.1 Pesquisa envolvendo seres humanos
2.1.1 Introdução e breve histórico dos aspectos regulatórios.
2.1.2 Ética aplicada à pesquisa com seres humanos.
2.1.3 Termos e definições referentes à pesquisa envolvendo seres humanos.
2.1.4 Requisitos mínimos para uma pesquisa eticamente correta.
2.2 Pesquisa envolvendo animais
2.2.1 Por que usamos animais na pesquisa científica?
2.2.2 Por que a preocupação com o uso de animais na investigação científica?
2.2.3 Quem pode auxiliar no uso eticamente adequado dos animais na pesquisa?
2.2.4 Que leis existem?Que legislação seguir?

Módulo 3 - Os conflitos morais na prática clínica e a busca de soluções


3.1 Relação médico-paciente:
3.2 Direitos dos pacientes e o processo de consentimento livre e esclarecido.
3.3 Deveres de conduta dos profissionais de saúde:
3.3.1 Códigos deontológicos profissionais.
3.3.2 Ética dos Princípios, do Cuidado e das Virtudes.
3.4 Os Comitês de Bioética como instância de mediação dos conflitos: o que são e como
funcionam.

Módulo 4 - Infecção pelo HIV/AIDS


4.1 Cuidados clínicos e ética na sociedade
4.1.1 Aspectos legais, relacionados ao trabalho e à notificação dos casos.
4.1.2 Aspectos relacionados à testagem para o HIV e à responsabilidade do portador.
4.1.3 Privacidade, confidencialidade e revelação do diagnóstico para outras pessoas do
convívio do doente.
4.1.4 Aspectos relacionados ao tratamento, à transmissão vertical e aos direitos
reprodutivos.
4.1.5 Paciente terminal e risco de morte pelo HIV.
4.1.6 Ética na pesquisa em HIV/AIDS.

Módulo 5 - Vulnerabilidade
5.1. Conceituação.
5.2 Vulnerabilidade no Ensino, na Pesquisa, na Extensão e na Prática Clínica Profissional.
5.3 O Consentimento Livre e Esclarecido nos casos de vulnerabilidade (Crianças e
adolescentes; pessoas com desordens cognitivas; indígenas; população carcerária; grupos
estigmatizados (raças e etnias; gênero e sexualidade; patologias psíquicas e somáticas).
5.4 Normas de pesquisa em saúde.
Figura 2. – Quadro-resumo dos conteúdos dos módulos on-line

Além dos conteúdos considerados básicos para esta atividade introdutória,


passíveis de serem impressos para estudo, oportunizou-se ao aluno a ampliação
de seus conhecimentos através de leituras complementares, disponibilizadas nas
próprias lições através de links a artigos científicos, capítulos de livros
devidamente autorizados pelos autores, sugestões de filmes e visitas a páginas
web (Figura 3).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 265

Figura 3 – Sugestão de atividades complementares

Acesso ao moodle

Ao acessar a página do ambiente virtual moodle da PUCRS e localizar a


Atividade de Introdução à Bioética (Atividades Abertas à Comunidade), o aluno
tem condições de realizar seu registro por meio de senha personalizada e seus
acessos ao conteúdo das lições ficam garantidos por um período de um mês para
completar os cinco módulos. Quando realizadas em uma única sessão, a leitura
dos textos e quadros obrigatórios e as respostas às questões de avaliação,
permitem ao aluno concluir a atividade em um tempo aproximado de duas horas.
(Figura 4)

Figura 4 – Tela de acesso à Atividade Auto-Instrutiva de Introdução à Bioética


266 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Avaliação da aprendizagem

A avaliação da aprendizagem do aluno é realizada também on line, no


decorrer dos capítulos, ao responder perguntas objetivas, possibilitando ao aluno
a verificação de quanto está aprendendo e apreendendo do assunto. Se as
questões não forem corretamente respondidas, o estudante é convidado a
retornar ao início do segmento, estudá-lo novamente e refazer o pós-teste. Se
aprovado, recebe autorização para passar ao módulo seguinte. Após a finalização
dos conteúdos, o aluno está autorizado a imprimir uma declaração eletrônica de
conclusão da atividade. (Figura 5)

Figura 5 – Exemplo de atividade de avaliação da aprendizagem do aluno

Resultados obtidos

O Atividade Auto-Instrutiva de Introdução à Bioética permanece disponível


no ambiente virtual moodle da PUCRS (http://moodle.pucrs.br – atividades
abertas à comunidade) desde março de 2008. Até a presente data, cerca de 200
alunos realizaram a atividade on-line, com aproveitamento integral, sendo que os
participantes foram unânimes em considerar os conteúdos informativos, úteis e de
fácil execução. O CEARGS também tem utilizado os módulos de Introdução à
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 267

Bioética como pré-requisito para a realização de seus cursos de Metodologia em


Pesquisa Clínica.

Considerações finais

O desenvolvimento desta atividade didático-pedagógica foi uma rica


experiência de aprendizagem, em que os profissionais/docentes do campo das
DST/HIV/AIDS, da Bioética e da Informática interagiram de forma inter e
multidisciplinar.
O caso relatado exemplifica com propriedade a importância dada por
nossa Universidade ao diálogo e à interação com a Sociedade. Buscando
responder à realidade, necessidades e anseios da população, a PUCRS, nesta
parceria com o CEARGS, estende à comunidade - através de recursos
inovadores e atuais como as ferramentas de Educação à Distância - suas
atividades de ensino e pesquisa com vistas à elevação do nível de educação e
cultura do povo, como preconizado em seu Marco Referencial.

Referências

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Oxford University, 1994.

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Medicine, n.16, jun. 1966: 1340-60.

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20.10.2007.

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Nacional de DST e Aids. Recomendação para a terapia antiretroviral em adultos e
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SINGER P. Animal liberation. New York: Random House, 1990.


GERONTOARQUITETURA
- O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA DE UMA NOVA REGULAMENTAÇÃO
ARQUITETÔNICA -

Souza, Fabiane Azevedo de; Arquiteta Me arq_fabianeazevedo@yahoo.com.br


Souza, Antonio Carlos Araújo; PhD
Ferreira, Mario dos Santos; Arquiteto Dr msferreira@pucrs.br
Gomes, Irenio; PhD ireniogomes@uol.com.br

Resumo

Introdução: Poucos problemas têm despertado tanto a preocupação do


próprio homem em toda sua história como as alterações relacionadas ao
envelhecimento e à incapacidade funcional, associada a este período do
desenvolvimento humano. O projeto de ajuste dos espaços para o seu uso torna-
se cada vez mais importante, pois todos os esforços que tem como finalidade
aumentar a probabilidade de uma vida com maior autonomia, significam torná-la
mais segura e adaptada às limitações naturais decorrentes do envelhecimento. A
ausência de um conhecimento mais específico sobre as medidas antropométricas
desta população incorre em uma maior dificuldade de planejamento. Objetivos:
O presente estudo teve como objetivo geral: Determinar padrões referenciais
antropométricos da população idosa de Porto Alegre. Os objetivos específicos
foram: Caracterizar física e dimensionalmente a população de idosos; avaliar as
alterações morfológicas relacionadas ao envelhecimento, através de
levantamento antropométrico; analisar e comparar os valores coletados na
amostra com os valores utilizados como referência na bibliografia; Materiais e
Métodos: Inserido dentro do Projeto Multidimensional dos Idosos de Porto
Alegre, este trabalho foi definido como sendo transversal exploratório e
observacional de base populacional para os eventos mais freqüentes da
população idosa, com a participação de 476 idosos, com idade acima de 60 anos.
A coleta de dados foi realizada na PUCRS, após o preenchimento do termo de
consentimento. Resultados: O estudo mostrou que, de maneira geral, as
medidas avaliadas sofrem alterações significativas com o envelhecimento. E
estas são observadas principalmente no tronco. Os segmentos formados por
270 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

ossos longos tendem a não sofrer reduções importantes. Comparadas às


dimensões utilizadas como referência na bibliografia, as medidas coletadas
apresentaram um perfil de idoso menor e com estatura inferior. Conclusões:
Através deste levantamento pudemos estabelecer comparações e apontar
diferenças suficientemente importantes para afirmar que os dados utilizados como
padrão não são adequados à nossa população.

Palavras–chave: antropometria aplicada, dimensionamento humano, habitação


adaptada.

O envelhecimento progressivo da população humana constitui um sério


desafio para a civilização contemporânea (Yusuff, 2007) e o projeto de ajuste dos
espaços e produtos para o seu uso torna-se cada vez mais importante, pois todos
os esforços que tem como finalidade aumentar a probabilidade de uma vida, com
maior autonomia, significam diretamente torná-la mais segura e adaptada às suas
limitações naturais decorrentes do envelhecimento.
O entendimento deste processo de envelhecimento como uma ocorrência
natural do ciclo de vida é fundamental na compreensão do seu impacto sobre as
condições de saúde associadas à longevidade e à qualidade de vida dos seres
humanos. Ele não deve ser considerado uma doença, mas um evento contínuo e
inevitável, com características específicas e alterações cumulativas (Hayflick,
1997). As conseqüências deste processo no ser humano pode nos levar a
generalizar o idoso como um potencial portador de deficiências, o que difere
radicalmente de rotulá-lo como deficiente físico.
Embora as perdas funcionais que ocorrem em nossos sistemas vitais em
função do envelhecimento sejam eventos esperados e aumentem a nossa
vulnerabilidade, as doenças associadas à velhice não são parte do processo
normal de envelhecimento (Hayflick, 1997).
A Organização Mundial de Saúde argumenta que os países podem custear
o envelhecimento se os governos, as organizações internacionais e a sociedade
civil implementarem políticas e programas de “envelhecimento ativo” que
melhorem a saúde, a participação e a segurança dos cidadãos mais velhos. A
hora para planejar e agir é agora (OMS, 2005).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 271

Cabe à área biomédica o estudo do processo biológico do envelhecimento.


À arquitetura, como uma área social, cumpre a missão de estudar as alterações
físicas que ocorrem nesta fase e relacioná-las ao meio ambiente no qual ele vive,
propondo soluções que facilitem a vida dos indivíduos idosos – é o que passamos
a partir de então de chamar de GERONTOARQUITETURA.
A seguir, serão apresentados aspectos do processo de envelhecimento
humano e suas principais alterações. Alterações estas que influenciam
diretamente no planejamento de ambientes adaptados a determinados grupos de
indivíduos. Finalizando este capítulo abordaremos os temas relacionados às
proporções humanas e sua relação nos idosos. Após, serão descritas as
implicações das barreiras arquitetônicas no cotidiano do idoso.
A existência de numerosos conceitos por si só deixa clara a dificuldade de
entendimento do processo de envelhecimento (Papaléo, 2005) Dentre tantas
definições, a que conceitua o envelhecimento como um processo dinâmico e
progressivo, no qual há modificações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e
psicológicas (Papaléo, 2002) determinando uma perda progressiva da capacidade
de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade
é a que mais se aproxima do complexo processo de envelhecer. No intuito de
incorporar esse rigor dentro de uma definição operacional, foi proposto (Jeckel,
2002) que mudanças fundamentais relacionadas com a idade devem obedecer a
quatro condições: devem ser deletérias - alteram e tendem a reduzir a
funcionalidade do organismo, devem ser progressivas - se estabelecem
gradualmente, devem ser intrínsecas - não é o resultado de um componente
ambiental modificável e devem ser universais: todos os membros de uma espécie
deveriam mostrar tais mudanças graduais com o avanço da idade.
As alterações fisiológicas que ocorrem com a idade nos seres humanos
resultam de um somatório do processo de envelhecimento associado ou não às
doenças crônicas. Existe consenso que, com o envelhecimento, ocorrem
alterações morfológicas intrínsecas aos tecidos e órgãos que por sua vez alteram
a morfologia externa do indivíduo durante o envelhecimento. É uma “Aging
Conspiracy” (Wajngarten, 2205) uma conspiração do envelhecimento contra o ser
humano.
Paralelamente à evolução cronológica, coexistem fenômenos de natureza
biopsíquica e social, importantes para a percepção da idade e do envelhecimento.
272 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Nas sociedades ocidentais é comum associar o envelhecimento com a saída da


vida produtiva pela via da aposentadoria. São considerados velhos aqueles que
alcançam 60 anos de idade, o que torna difícil caracterizar uma pessoa como
idosa utilizando como único critério a idade. Além disso, neste segmento
conhecido como terceira idade estão incluídos indivíduos diferenciados entre si,
tanto do ponto de vista socioeconômico como demográfico e epidemiológico.
Mesmo reconhecendo que a idade não é o único parâmetro para definir o
processo sócio-demográfico do envelhecimento, o mesmo é usado a fim de
facilitar a análise dos dados e a construção de indicadores.
Todas as estruturas, tecidos e funções, modificam-se em alguma extensão
com o envelhecimento. Do ponto de vista do desenvolvimento de projetos que
visam à adequação da moradia para os indivíduos da terceira idade, algumas
alterações decorrentes deste processo são mais importantes.
Quando nos referimos às alterações morfológicas temos que as diferentes
populações mundiais são compostas de indivíduos de diferentes tipos físicos e
biótipos. Pequenas diferenças nas proporções de cada segmento corporal
existem desde o nascimento e tendem a acentuar-se durante o crescimento, até a
idade adulta. Destes, a composição corporal, a estatura e o peso são os que
influenciam diretamente na composição do envelope humano. O termo “envelope
humano” é constituído pelo delineamento externo do indivíduo, isto é, o espaço
que suas proporções ocupam em um ambiente.
No fator composição corporal, temos que o componente adiposo, tende a
aumentar e apresentar distribuição centrípeta com o avanço da idade,
depositando-se a gordura principalmente na região abdominal. Nas mulheres,
como o depósito de gordura é maior, a densidade corpórea é menor que a do
homem da mesma faixa etária (Papaléo, 2005). Com isso teremos diferenças
importantes, não só no gênero, mas também relacionadas às faixas etárias.
Outras alterações morfológicas importantes que devem ser consideradas
no projeto e/ou design de produtos para esta faixa da população são as
relacionadas ao aumento do diâmetro antero-posterior e redução do diâmetro
transverso do tórax nos idosos, constituindo o que chamamos de tórax senil.
A partir dos 40 anos de idade, que é até quando a estatura se mantém,
temos uma redução de cerca de um centímetro por década, devendo este fato a
um aumento das curvaturas da coluna, encurtamento da coluna vertebral devido
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 273

às alterações nos discos intervertebrais (Panero, 2002). Acentuando-se após os


70 anos (Papaléo, 2002).
Entre as diversas alterações que podem acontecer no sistema nervoso
central, a redução dos reflexos é uma das que mais importam no que se relaciona
à autonomia do indivíduo pelo maior risco de quedas.
Em relação às alterações musculares há uma progressiva redução da força
motora em parte pela diminuição da atividade física que gradualmente ocorre com
a idade, mas igualmente pela redução do número de fibras musculares que
acontece com o envelhecimento, a sarcopenia.
Duas são as alterações mais freqüentes relacionadas à coluna vertebral
que ocorrem com o envelhecimento. A primeira é uma progressiva redução de
altura dos discos intervertebrais que reflete na diminuição da estatura, geralmente
da ordem de um centímetro a cada década, acentuando-se após os 60 anos de
idade (Dieter, 2005).
A segunda alteração está relacionada à osteoporose, que induz a uma
redução da massa óssea e da resistência da vértebra podendo ocasionar uma
redução da altura vertebral por deformidade, que pode acontecer de forma
progressiva, assintomática ou de forma aguda quando ocorre uma fratura. Esta
alteração, geralmente diminui a estatura em cerca de dois centímetros para cada
vértebra comprometida, ocorrendo em curto espaço de tempo (Souza, 2002).
Em relação às alterações sensoriais a visão é um dos aspectos mais
importantes que devem ser levados em conta no desenvolvimento de um projeto
arquitetônico, considerando-se que a visão é um dos sentidos que mais é afetado
pelo processo de envelhecimento. A diminuição da acuidade visual (Terra, 2003)
pode ser ocasionada, como na catarata, por uma redução da transparência do
cristalino, ou mesmo pelas alterações de outras estruturas do olho fazendo com
que o indivíduo idoso utilize óculos com grande freqüência. Este aspecto é
importante pelo fato de que idosos, muitas vezes, por não ajustarem com
freqüência suas lentes passam a ter dificuldades visuais que podem induzir aos
acidentes.
Além da redução da acuidade visual, temos as alterações na visão
periférica, a dificuldade de discriminação de cores e a incapacidade de equilibrar
o contraste de luz ao mudar de ambientes (Terra, 2003). Este declínio dos fatores
sensoriais é considerado freqüente dentro do processo do envelhecimento.
274 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

A grande variabilidade das medidas corporais entre os indivíduos


apresenta um grande desafio(Kroemer, 2005) para o arquiteto e/ou designer de
equipamentos e espaços. Em cada processo projetual de arquitetura, as
dimensões e os movimentos do corpo humano (Boueri, 1999) são fatores
determinantes da forma e tamanho dos equipamentos, mobiliários e espaços
projetados.
O espaço que uma pessoa necessita para realizar uma atividade com
segurança depende do tipo de atividade executada, bem como de suas
características anatômicas e funcionais. A falta de espaço adequado pode
restringir o desenvolvimento correto da atividade doméstica, elevar o gasto de
energia humana e aumentar a incidência de erros (Kroemer, 2005).
Com importância fundamental em nossa qualidade de vida e bem-estar,
um ambiente físico adequado pode representar a diferença entre a dependência e
a independência para todos os indivíduos, mas especialmente para aqueles mais
idosos.
Pessoas que residem em moradias que oferecem múltiplas barreiras
físicas tendem a sair de casa com menos freqüência e por isso estão mais
sujeitas ao isolamento, depressão, menor preparo físico e conseqüentemente
terão problemas de mobilidade.
O fato de não existirem estudos antropométricos específicos para as
necessidades de adaptação do ambiente próprias à sua condição dificulta a
execução de projetos adequados para esta população, visto que, ao se projetar,
para se evitar erros, é preciso delinear o perfil do usuário.
Um ambiente adequado a idosos ativos atua como agente de prevenção
de eventos inesperados e por conseqüência, acidentes. Grande parte dos idosos
é capaz de reconhecer os perigos existentes relacionados ao manejo do
ambiente.
Estratégias ambientais que visam dar sustentação à mobilidade segura e
reduzir o risco de quedas baseiam-se em três abordagens gerais (Perracini,2005):
identificação e eliminação de barreiras, adaptação do ambiente e proporcionar
esquemas de emergência para o caso de eventuais acidentes; tais como
campainhas e alarmes de fácil acesso. Essas medidas, embora ainda pouco
realizadas, são os primeiros passos na direção da redução das barreiras
arquitetônicas.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 275

Embora as quedas não sejam eventos exatamente decorrentes do


processo de envelhecimento, a sua freqüente ocorrência nesta população a torna
um fato típico do paciente idoso (Iida, 2002). As quedas podem decorrer de uma
série de problemas, sejam eles intrínsecos ou extrínsecos. Os que se referem aos
fatores intrínsecos relacionam as mudanças relativas à idade, sedentarismo,
redução de reflexos, equilíbrio, negação da fragilidade, entre outros. Enquanto
que os extrínsecos referem-se aos problemas de barreiras ambientais, ambientes
potencialmente inadequados, medicação que afeta o equilíbrio, entre outros. No
que se refere ao risco acentuado de quedas de própria altura, temos que o tempo
de reação de uma pessoa de sessenta anos, segundo Iida, 2002, é 20% maior do
que de jovens com vinte anos e essa diferença tende a crescer em tarefas mais
complexas, que exijam capacidade de discriminação entre vários estímulos
diferentes.
Os idosos são mais vulneráveis a determinados tipos de acidentes, sendo
o banheiro o ambiente responsável por grande parte dos acidentes domésticos
tornando-se um local de atenção contínua. As quedas trazem consigo
complicações que por muitas vezes são as responsáveis pelo comprometimento
da qualidade de vida do indivíduo(Dieter, 2003). É de total importância diferenciar
os indivíduos idosos normais que apresentam alterações típicas do
envelhecimento com o grupo de indivíduos que possui deficiências físicas, quer
sejam elas por acidentes ou por demais causas, dessa forma entendemos a
urgente necessidade de avaliar as alterações morfológicas que os indivíduos
apresentam com o envelhecimento para, a partir daí, procurarmos as soluções
que poderiam estar relacionadas à criação de normas específicas para os idosos.
Em leis e normas, o idoso está associado ou incluído no grupo de pessoas
portadoras de deficiência. É necessário entender que o envelhecimento é uma
fase natural da vida do homem, apresentando limitações tanto quanto nos demais
ciclos da vida. As barreiras atitudinais existem e são reforçadas pelo estigma e
preconceito, não se devendo agregar aos já inúmeros preconceitos associados
aos idosos, também a condição de deficiente físico.
Por ser uma fase da vida de maior probabilidade de perdas contínuas:
limitações funcionais, perda do emprego, perda de companheiros, há uma
tendência à esteriotipação generalizada da velhice. Com o objetivo de se
276 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

minimizar os preconceitos arraigados a esta população é que se torna tão


importante o conhecimento de suas características.
Sabe-se da forte influência que o ambiente físico exerce sobre o cotidiano
do indivíduo, especialmente no idoso em função do número de horas em que este
permanece na sua residência.
Torna-se necessário ratificar que as limitações decorrentes do avanço da
idade não são o verdadeiro problema, uma vez que são parte do ciclo natural de
vida humana. O problema real é a falta de interação entre as limitações e
diversidades humanas com o ambiente em que vivem fazendo-se com que a
tarefa do arquiteto seja a de superar essas dificuldades e projetar ambientes que
compensem essas limitações.

Justificativa

Estudos de amostras populacionais são fundamentais para o entendimento


dos desafios que surgem em uma população em processo de envelhecimento.
Superar esses desafios requer um planejamento inovador e reformas políticas
substanciais tanto em países desenvolvidos como em países em transição. Os
países em desenvolvimento enfrentam os maiores desafios, e a maioria deles
ainda não possui políticas abrangentes para o envelhecimento. A ausência de um
conhecimento mais específico sobre as medidas antropométricas desta
população incorre em uma maior dificuldade de planejamento, onde
normatizações específicas poderiam minimizar efeitos decorrentes de
inadaptação de espaços e ambientes através de uma prevenção seja ela primária
ou secundária. A relevância deste projeto está relacionada à definição de
parâmetros morfométricos dos idosos da nossa população de forma a permitir o
desenvolvimento de normas específicas. É sobre este estudo que se propõe um
trabalho de medição desta população que embora saudável possui limitações
reconhecidas pela avançada idade. Indivíduos que continuam exercendo
atividades profissionais, físicas, realizando viagens, desfrutando da condição
financeira que acumularam durante os anos de trabalho pleno.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 277

Objetivo Geral

Determinar padrões referenciais antropométricos da população idosa de


Porto Alegre.

Objetivos Específicos

Caracterizar física e dimensionalmente a população de idosos; Avaliar as


alterações morfológicas relacionadas ao envelhecimento, através de
levantamento antropométrico; Analisar e comparar os valores coletados na
amostra com os valores utilizados como referência na bibliografia para execução
de projetos de espaços e ambientes;

Delineamento Do Estudo

O projeto maior, Estudo Multidimensional dos Idosos de Porto Alegre, no


qual se insere este estudo foi definido como sendo transversal exploratório e
observacional de base populacional para os eventos mais freqüentes da
população idosa.

Seleção da Amostra

Os critérios norteadores da escolha da amostra foram os mesmos


empregados no Levantamento de 1995 e baseado no censo populacional de
2000. A determinação do n da amostra para o presente estudo baseou-se no
número de indivíduos avaliados no estudo anterior para cada bairro da cidade de
Porto Alegre, atualizados pelo IBGE de acordo com as estimativas de variação
populacional para 2005 que foram calculadas a partir dos resultados do censo de
2000. O número de indivíduos necessários para constituir uma amostra
representativa da população idosa de Porto Alegre em 1995 foi definido como
sendo de 880 indivíduos ou 0,69% da população idosa estimada de 132.965
habitantes para 1995. O mesmo percentual foi calculado para a população idosa
estimada em 2005, resultando em uma amostra de 1164 indivíduos, os quais
foram avaliados em seus domicílios. Do total de indivíduos da amostra inicial, 483
participantes, sendo 137 homens e 346 mulheres, compareceram à segunda
avaliação.
278 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Critérios de Inclusão

Foram incluídos indivíduos socialmente ativos selecionados na Fase I e


que compareceram à Fase II deste estudo o qual obedeceu a um critério de
amostra populacional com base no censo do IBGE.

Critérios de Exclusão

Indivíduos portadores de deformidades físicas congênitas ou adquiridas


com uso de próteses; Indivíduos portadores de doenças neurológicas ou
degenerativas graves. Da amostra selecionada 7 indivíduos , 5 homens e 2
mulheres, foram excluídos.

Coleta dos Dados e Instrumentos

O levantamento de dados desta população foi realizado dentro do projeto


“Avaliação Multidimensional dos Idosos de Porto Alegre”, no qual os indivíduos
foram transportados até o Campus da PUCRS para estas coletas entre outras de
diversas unidades desta Universidade. A avaliação foi feita através de
instrumento de medida métrica validada pelo INMETRO (trena metálica
antropométrica marca Sanny). As medições na posição sentada foram realizadas
sobre um cubo de mdf laminado com 40 cm de largura, 40 cm de altura e 40 cm
de profundidade. A avaliação foi feita com os indivíduos descalços e com menor
volume de roupas quanto possível. A mensuração de estatura foi realizada com
estadiômetro.
As variáveis medidas foram as seguintes: Estatura em posição ortostática;
Altura de ombros em posição sentada; Altura de olhos em posição sentada;
Comprimento nádega-joelho em posição sentada; Comprimento nádega-poplítea
em posição sentada; Altura do joelho em posição sentada; Alcance da ponta da
mão estendida; Altura solo - virilha em posição ortostática; Altura solo - cotovelo
em posição ortostática;
Largura dos ombros em posição sentada;

Análise Estatística

Os dados foram armazenados em uma planilha Excel e Access. As


análises foram realizadas no programa SPSS (Statistical Package for the Social
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 279

Sciences) versão 11.5. Adotou-se um nível de significância de 5%. Os resultados


foram comparados com os valores expressos em tabelas de referências para a
população adulta e avaliadas as respectivas diferenças entre as medidas.

Aspectos Éticos

A realização do presente estudo foi efetuada após a aprovação da


Comissão Científica do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS e do
Comitê de Ética em Pesquisa na Área de Saúde da PUCRS. Os voluntários da
pesquisa assinaram termo de consentimento livre e esclarecido. A pesquisa foi
conduzida dentro das normas da Resolução 196/1996 do Conselho Nacional de
Ética em Pesquisa (CONEP) sob número de aprovação 1066/05-CEP, em 07 de
novembro de 2005 com o título “Estudo Multidimensional Comparativo de 10
anos: 1995-2005”.

Discussão e Considerações Finais

O presente estudo foi desenvolvido com o objetivo de produzir padrões de


referência dimensionais da população idosa que venham a auxiliar aos
profissionais, tanto da área biomédica quanto àqueles que desenvolvem projetos
relacionados à ergonomia ou ao planejamento de espaços para a população
idosa. Por ser uma fase da vida de maior probabilidade de perdas contínuas:
limitações funcionais, perda do emprego, perda de companheiros, há uma
tendência a esteriotipação generalizada da velhice. É importante enfatizar a
necessidade de se projetar ambientes seguros, sobre os quais os idosos possam
exercer as atividades com autonomia e, com isso, aumentar seu senso de
eficácia e auto-estima. Para vir de encontro a esta necessidade é que se propôs a
montagem deste trabalho a partir da ausência de dados morfométricos de
populações específicas tais como a população idosa. Através deste levantamento
pudemos estabelecer comparações com dados referenciais e encontrar
diferenças suficientemente importantes para afirmar que estes dados não são
adequados a esta população. A respeito da importância das diferenças
encontradas destacamos, por exemplo, a medida de altura do solo até o cotovelo,
que tem relação direta com o posicionamento de barras de segurança, pois é
essencial no estabelecimento das alturas dos planos horizontais. Para estas, a
280 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

medida da colocação é normatizada através de uma regra de que a mesma deve


ser colocada sete centímetros abaixo do valor médio do indivíduo que a utiliza.
Como as normas brasileiras se baseiam em levantamentos considerados
universais (de origem européia e americana) têm-se para esta medida, em
especial, no percentil 5, 104,9 cm para homens e 97 para mulheres, gerando um
valor mínimo de altura de barras de 90 cm, como rege a ABNT. A importância
para qual nos referimos é que a altura encontrada no estudo foi de 95,7 cm para
homens e 89 cm para mulheres, no percentil 5, o que nos conduz à conclusão de
as barras devem ser reposicionadas quando forem indicadas para esta
população. Quando avaliamos as medidas de alcance da ponta da mão
estendida, ou também denominado alcance frontal de apreensão, temos que
utilizar os valores de percentis 5, pois são os menores valores que possibilitam a
determinação da amplitude espacial de alcance à volta do usuário. Também nesta
medida verificamos diferenças de até 7,5 cm, no sexo masculino, significando a
impossibilidade, por exemplo, de alcance de um balcão de agência bancária.
Salienta-se que, mesmo havendo uma diferença nas médias de estatura de até
16 cm entre os sexos, os valores médios de comprimento de nádega até joelho
da população estudada são muito próximos. Chegando, no percentil 95, a serem
iguais. Com isto podemos nos apoiar na bibliografia que nos diz que ossos
longos, como o fêmur, tendem a sofrer menor diminuição com o envelhecimento.
Sabe-se da forte influência que o ambiente físico exerce sobre o cotidiano do
indivíduo, especialmente no idoso em função do número de horas em que este
permanece na sua residência. Torna-se necessário ratificar que as limitações
decorrentes do avanço da idade não são o verdadeiro problema, uma vez que
são parte do ciclo natural de vida humana. O real problema é a falta de interação
entre as limitações e diversidades humanas com o ambiente em que vivem,
fazendo-se com que a tarefa do arquiteto seja a de superar essas dificuldades e
projetar ambientes que compensem essas limitações. A contribuição que este
trabalho pretende é no sentido de iniciar um processo de mudança na maneira de
pensar de forma que entendam a importância da adequação de um ambiente na
manutenção da capacidade plena de seu usuário.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 281

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Guanabara Koogan; 2005.
DETERMINAÇÃO DE MALONDIALDEÍDO EM AMOSTRAS BIOLÓGICAS POR
CROMATOGRAFIA LÍQUIDA DE ALTA EFICIÊNCIA

DETERMINATION OF MALONDIALDEHYDE IN BIOLOGICAL SAMPLES BY


HIGH PERFORMANCE LIQUID CHROMATOGRAPHY

Leite, Carlos Eduardo; Especialista em toxicologia; Instituto de Toxicologia –


PUCRS
carlos.leite@pucrs.br
Petersen, Guilherme Oliveira; Aluno de Graduação de Farmácia; Instituto de
Toxicologia - PUCRS
guipetersen@gmail.com
Betto, Mariel Raquel Borges; Aluna de Mestrado do Programa de Pós-
Graduação em Biologia Celular e Molecular; Instituto de Toxicologia/Laboratório
de Farmacologia Aplicada – PUCRS.
maribetto@gmail.com
Campos, Maria Martha; PhD; Instituto de Toxicologia/Faculdade de Odontologia
– PUCRS.
maria.campos@pucrs.br

Resumo

Um desequilíbrio no sistema de produção de espécies reativas do oxigênio


(ERO) ou a incapacidade do organismo em neutralizá-las, faz do estresse
oxidativo um mecanismo fisiopatológico crítico, ligado a doenças
cardiovasculares, neoplasias, doenças neurológicas e, processos fisiológicos
normais, como o envelhecimento. O conhecimento da extensão do estresse
oxidativo sobre o organismo é de extrema importância para o desenvolvimento de
novas terapias e medicamentos. A ação das ERO sobre os componentes
celulares gera diversos produtos secundários, como o malondialdeído (MDA). A
quantificação dos níveis de MDA é considerada um parâmetro confiável para a
avaliação do estresse oxidativo celular. O objetivo deste trabalho é validar um
método para quantificação de MDA em diferentes amostras biológicas. A
cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) foi a técnica escolhida, devido a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 283

sua alta especificidade e sensibilidade. Para a determinação do MDA, a amostra


é derivatizada e injetada no sistema CLAE, utilizando coluna C18 e detector de
fluorescência. Os parâmetros de validação seguem as normas preconizadas pela
ANVISA. Os resultados preliminares mostram que nas condições cromatográficas
utilizadas, foi possível detectar o MDA em concentrações normalmente
encontradas no plasma e, que será possível aperfeiçoar e validar o método.

Palavras-chave: estresse oxidativo, malondialdeído, cromatografia líquida de alta


eficiência.

Abstract

Oxidative stress is caused by an imbalance between the production of


reactive oxygen species (ROS) and the ability of biological systems to readily
detoxify these reactive intermediates, or even to repair the resulting damage.
Thus, oxidative stress is accepted as a critical pathophysiological mechanism in
several human pathologies such as, cardiovascular diseases, cancer, neurologic
alterations, and physiological processes as aging. The knowledge about the
extension of oxidative stress in the human body is extremely relevant for
developing new therapies. The action of ROS in cellular components generates
secondary products, such as malondialdehyde (MDA). The quantification of MDA
levels is a suitable parameter to assess cellular oxidative stress. The aim of this
work was to validate a high performance liquid chromatography (HPLC) method
for quantification of MDA in biological samples. HPLC was chosen due its high
specificity and sensibility. To determinate MDA, the sample is derivatized and
injected in the HPLC system, using a C18 column and a fluorescent detector. The
validation parameters followed the ANVISA recommendations. The preliminary
results, under the chromatographic conditions adopted by us, showed that it is
possible to detect MDA in concentrations often found in plasma of healthy rats,
and that it is possible to further improve and validate this method.

Keywords: oxidative stress, malondialdehyde, high performance liquid


chromatography.
284 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Introdução

Diferentes estilos de vida e fatores ambientais (incluindo, por exemplo,


tabagismo, dieta, álcool, radiações ionizantes, biocidas, pesticidas e infecções
virais) e outros fatores relacionados à saúde (por exemplo, obesidade ou o
processo de envelhecimento) podem ser pró-carcinogênicos. Em todos estes
casos, o estresse oxidativo atua como um mecanismo fisiopatológico crítico
(Mena et al., 2009).
O estresse oxidativo é causado por um desequilibro no sistema de
produção de espécies reativas do oxigênio (ERO), ou radicais livres, e a
capacidade do organismo em neutralizar estes compostos ou reparar os danos
por eles causados. Desta forma, o estresse oxidativo é aceito como um processo
importante, envolvido em diferentes patologias, incluindo doenças
cardiovasculares, câncer, diabetes, artrite reumatóide, ou afecções neurológicas
como Doença de Alzheimer ou Parkinson (Del Rio et al., 2005; Mena et al., 2009)
As ERO são estruturas químicas, geralmente instáveis, que possuem o
átomo de oxigênio em sua constituição e, que conduzem a diversas interações
quando entram em contato com os tecidos biológicos. Estes compostos podem
ser produzidos no organismo como um resultado de processos bioquímicos
convencionais ou, podem ser atribuídos à estimulação externa por uma variedade
de características físicas, químicas ou biológicas (Angelopoulou et al., 2009).
Todos os componentes celulares são suscetíveis à ação das ERO; porém,
a membrana plasmática é um dos mais atingidos em decorrência da peroxidação
lipídica, o que frequentemente acarreta danos nas estruturas celulares e altera a
sua funcionalidade. Consequentemente, há perda da seletividade na troca iônica
e liberação do conteúdo de organelas, como as enzimas hidrolíticas dos
lisossomas, além da formação de produtos citotóxicos, culminando com a morte
celular (Ferreira e Matsubara, 1997; Bagis et al., 2005).
Os lipídios estão entre as principais classes atingidas pelo estresse
oxidativo, sendo que a peroxidação lipídica dá origem a diversos produtos
secundários. Estes produtos são principalmente aldeídos, como o malondialdeído
(MDA), que aumentam o dano oxidativo (Del Rio et al., 2005). O MDA possui
ação citotóxica e genotóxica, encontrando-se em níveis elevados em algumas
patologias associadas ao estresse oxidativo. Altos níveis de MDA podem afetar a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 285

funcionalidade mitocontrial, alterando a permeabilidade da membrana e a


excitabilidade celular. A quantificação dos níveis de MDA nos sistemas biológicos
é considerada um parâmetro confiável para a avaliação do estresse oxidativo
celular em amostras biológicas (Bagis et al., 2005; Del Rio et al., 2005).
Os métodos clássicos para a determinação do MDA em amostras
biológicas baseiam-se na sua derivatização com o ácido tiobarbitúrico (ATB). A
condensação destas duas espécies dá origem a um composto com alta
absortividade que pode ser quantificada em espectrofotômetro (Del Rio et al.,
2005). Embora estes métodos ainda sejam amplamente utilizados, eles não são
específicos para detecção dos produtos de peroxidação lipídica, uma vez que
quantificam a soma das diferentes substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico,
denominadas TBARS (Steghens et al., 2001; Del Rio et al., 2005). Nos últimos
anos diversas metodologias utilizando cromatografia líquida de alta eficiência
(CLAE) foram propostas, com o objetivo de melhorar a especificidade e a
sensibilidade, evitando os desvios dos métodos mais antigos (Del Rio et al.,
2005).

Objetivo e justifivativa

O objetivo deste trabalho é validar um método confiável para a


quantificação de MDA em plasma por CLAE. Posteriormente, este método será
utilizado para fazer o monitoramento do estresse oxidativo em diversas amostras
biológicas de interesse dos pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul (PUCRS), que desenvolvem pesquisas em conjunto com o
Instituto de Toxicologia da PUCRS (InTox). Nestes projetos de pesquisa, a
avaliação do estresse oxidativo, seja ele induzido por fatores endógenos (como
por exemplo, envelhecimento e processos inflamatórios) ou exógenos
(medicamentos, radiações, drogas e pesticidas), é de extrema importância.

Materiais e métodos

Instrumentação e condições cromatográficas

Para a validação da metodologia foi utilizado um Cromatógrafo Líquido de


Alta Eficiência Agilent® 1100 SERIES (USA), equipado com degaseificador,
286 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

bomba isocrática, injeção manual com loop de 20 μL e 50 μL e detectores


ultravioleta e de fluorescência.
Para a separação cromatográfica, foi utilizada uma coluna de fase reversa
C18 (250 mm x 4,6 mm, 5μm), sob fluxo de 1 mL/min da fase móvel, composta de
metanol/tampão fosfato (55:45 v/v). Os comprimentos de onda para a detecção
espectrofluorimétrica foram 532 nm (excitação) e 553 nm (emissão).

Preparação da amostra

As amostras utilizadas são de plasma proveniente de ratos machos da


espécie Wistar (Rattus norvegicus). Posteriormente, serão utilizadas outras
amostras biológicas como, por exemplo, fígado e cérebro. A análise de MDA
também será validada para amostras de plasma humano. As amostras de plasma
foram derivatizadas com ATB, aquecidas em condições ácidas por um período de
1 h, precipitadas, diluídas e centrifugadas. Posteriormente, 20 μL do
sobrenadante resultante do processo de centrifugação foram injetados no
cromatógrafo.

Desenvolvimento e validação da técnica

A validação de métodos pode ser definida como “o processo pelo qual


atributos ou figuras de mérito são determinados e avaliados, sendo estes
importantes em um programa de garantia de qualidade” (Valentini et al., 2004).
Portanto, o objetivo principal é assegurar que determinado procedimento analítico
apresente resultados reprodutíveis e confiáveis, que sejam adequados aos fins
para os quais tenha sido planejado.
Para o desenvolvimento da metodologia, foram utilizados trabalhos
publicados nos últimos anos em revistas conceituadas (Mão et al., 2006; Ghotto
et al., 2007; Candan e Tuzmen, 2008). O processo de desenvolvimento e
validação da metodologia para a medida de MDA foi realizado de acordo com as
normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e, envolveu: (i)
revisão bibliográfica (para seleção da técnica mais apropriada); (ii) adaptação do
método às condições do laboratório; (iii) otimização da técnica e; (iv) subsequente
determinação dos parâmetros especificidade e seletividade, linearidade, precisão,
limite de detecção (sensibilidade) e exatidão (ANVISA, 2003).
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 287

Resultados

Os resultados preliminares mostram que nas condições cromatográficas


utilizadas e com o processo de extração empregado para o tratamento das
amostras, foi possível detectar o MDA nas concentrações normalmente
encontradas no plasma (Figuras 1 e 2).

Figura 1. Cromatograma do padrão de MDA adicionado a uma amostra de plasma.

Figura 2. Cromatograma obtido a partir de uma amostra de plasma.

Para confirmação da identidade, do tempo de retenção e, para uma


avaliação preliminar da recuperação do MDA nas amostras, foi adicionado 1 μM
de padrão de MDA a uma amostra de plasma. A amostra controle não recebeu
adição de MDA. As duas amostras foram injetadas separadamente (Figura 3). A
amostra sem adição de padrão apresentou uma área de 3.973 e a amostra com
adição apresentou 5.740. Desta forma, confirmou-se que o pico era
correspondente ao MDA. O tempo de retenção nas condições cromatográficas
utilizadas foi de 3.77 minutos. A recuperação, para testes preliminares, foi
considerada satisfatória.
288 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Figura 3. Sobreposição dos cromatogramas da amostra de plasma e da amostra de plasma com


adição de padrão de MDA.

Considerações finais e perspectivas

Através da avaliação dos resultados obtidos até o momento, podemos


afirmar que o InTox tem condições de validar e aperfeiçoar a análise de MDA em
amostras biológicas. Esta análise será disponibilizada para a comunidade
científica da PUCRS, a fim de fornecer informações confiáveis para médicos,
farmacêuticos, dentistas, enfermeiros e outros profissionais da área da saúde,
para a avaliação do estresse oxidativo nas diversas situações em que a mesma
se aplica, contribuindo, dessa forma, para o aprimoramento de terapias e para o
desenvolvimento de novos fármacos com potencial anti-oxidante.

Referências

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357-364, 2004.
PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO NA FUNDAÇÃO IRMÃO JOSÉ OTÃO

STRATEGIC PLANNING IN THE IRMÃO JOSÉ OTÃO FOUNDATION

Gehlen de Leão, Álvaro; Dr.; Faculdade de Engenharia – PUCRS


gehleao@pucrs.br
Suárez Maciel, Ana Lúcia; Dr.; Faculdade de Serviço Social – PUCRS
ana.suarez@pucrs.br
Hartmann Duhá, André; Dr.; Faculdade de Administração, Contabilidade e
Economia – PUCRS
aduha@pucrs.br

Resumo

Em anos recentes, como consequência do acentuado crescimento da


importância das entidades do Terceiro Setor nos contextos nacional e
internacional, o modelo de gestão utilizado por estas organizações sem fins
lucrativos passou a se constituir em um elemento-chave para a sua perenidade.
Assim, as entidades que integram esse setor têm sido desafiadas a rever seus
processos e práticas, reconhecendo que o paradigma organizacional que as
orienta ainda está sendo construído. Oriundos de três distintas áreas do
conhecimento, os autores deste artigo se propõem a compartilhar a experiência
vivenciada, a partir de junho de 2008, na Direção Executiva da Fundação Irmão
José Otão. Nesse sentido, o presente artigo descreve e reflete sobre o processo
desencadeado na referida Fundação, partindo da premissa de que o
planejamento estratégico é uma ferramenta essencial para a gestão das
organizações do Terceiro Setor, desde que observadas as suas particularidades.

Palavras-chave: planejamento estratégico, terceiro setor, inovação.

Abstract

In recent years, as a result of growing importance of the entities of the Third


Sector in the national and international contexts, the management model used by
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 291

these non-profits organizations has turned into a key element for their survival.
Thus, the entities within this sector have been challenged to review their
procedures and practices, recognizing that the organizational paradigm is still
under construction. Coming from three different areas of knowledge, the authors
aim to share their experience lived from June 2008 on the Executive Board at
Irmão José Otão Foundation. Accordingly, this paper describes and reflects on the
process initiated at the Foundation, based on the premise that strategic planning is
an essential tool for the management of Third Sector organizations, provided that
their particularities are taken into account.

Keywords: strategic planning, third sector, innovation.

Introdução

A Fundação Irmão José Otão é uma entidade sem fins lucrativos, sediada
na cidade de Porto Alegre e instituída, em 1981, pela União Sulbrasileira de
Educação e Ensino, a partir de uma iniciativa do Conselho Universitário da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Ao longo dos seus quase vinte e oito anos de existência, a Fundação
Irmão José Otão vem consolidando a sua presença nos contextos local, regional,
nacional e internacional por um conjunto de iniciativas nas áreas educacional,
cultural e social, em sintonia com a direção estratégica da PUCRS e com as
tendências de gestão no âmbito do Terceiro Setor.
No ano de 2008, a Fundação Irmão José Otão passou por um processo de
realinhamento organizacional que possibilitou a revisão do seu posicionamento
perante o conjunto de stakeholders com o qual se relaciona. Nesse processo, a
necessidade de uma nova metodologia de trabalho passou a ser evidente e o
planejamento estratégico foi vislumbrado como uma ferramenta capaz de
qualificar esse processo.
O presente artigo tem por objetivo compartilhar a experiência dos autores
na Direção Executiva da Fundação Irmão José Otão, com vistas a permitir uma
reflexão sobre a aplicabilidade do planejamento estratégico na gestão de
organizações do Terceiro Setor, apresentando as etapas percorridas e os
resultados alcançados a partir da sua aplicação na referida Fundação.
292 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Planejamento Estratégico Aplicado a Organizações do Terceiro Setor

O gerenciamento estratégico se constitui em um processo permanente,


desenvolvido em ciclos que abrangem as etapas de planejamento, execução,
monitoramento e avaliação. O planejamento estratégico, em particular, busca
uma gestão eficaz e sustentável da organização, destacando-se alguns aspectos
relevantes na sua elaboração: o estabelecimento da visão de futuro, como forma
de inspirar e mobilizar os stakeholders na realização das atividades da
organização; a abertura para a mudança, associada à capacidade de lidar com as
resistências inerentes ao processo; e a definição do nível de participação das
pessoas no processo de planejamento (Queiroz, 2004).
O processo de planejamento estratégico deve ser conduzido de forma a
responder às questões-chave para o sucesso da organização (Hudson, 2009),
entre as quais se pode ressaltar: o que, especificamente, a organização deseja
alcançar nos próximos anos? o que ela aprendeu com as experiências passadas?
como os recursos deveriam ser alocados entre os diferentes objetivos? quais os
padrões de qualidade a serem atingidos?
Ainda, segundo Hudson (2009), algumas características se destacam em
um processo de gerenciamento estratégico: a complexidade decorrente da
inserção da organização em um ambiente de alto grau de incerteza; a
necessidade de uma abordagem integrada, que perpasse a estrutura funcional da
organização; a clareza e a integração dos diversos elementos-chave do
planejamento estratégico, entre os quais a missão, a visão de futuro, os objetivos
estratégicos e os indicadores de desempenho.
Nesse sentido, e atendendo à solicitação do Conselho Deliberativo, a
Diretoria Executiva iniciou, no mês de outubro de 2008, as atividades de
preparação do Plano Estratégico da Fundação Irmão José Otão (FIJO, 2008) para
o período de 2009 a 2012.
O processo de planejamento estratégico foi precedido da elaboração de
um diagnóstico para análise do ambiente externo – envolvendo aspectos
políticos, econômicos, sociais, tecnológicos, ambientais e legais – e para análise
interna de desempenho e capacidade da organização, o qual foi apresentado aos
integrantes do Conselho Deliberativo em reunião realizada no dia 26 de setembro
de 2008. Os resultados deste diagnóstico permitiram definir a missão, os valores
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 293

e a visão de futuro da Fundação Irmão José Otão, bem como estabelecer os


objetivos estratégicos e as iniciativas estratégicas a eles vinculadas.

Missão, Valores e Visão de Futuro

Ao longo do último trimestre do ano de 2008, em um trabalho desenvolvido


pela Diretoria Executiva, com o apoio de integrantes do Conselho Deliberativo,
foram redefinidos a missão, os valores e a visão de futuro da Fundação Irmão
José Otão, a seguir apresentados.
Missão – A Fundação Irmão José Otão tem por missão incentivar,
promover e viabilizar projetos e atividades de produção, difusão e aplicação do
conhecimento, em prol do desenvolvimento cultural, social e econômico do País.
Valores – Transparência, sustentabilidade, inovação e responsabilidade
social.
Visão de Futuro – Até 2012, ser reconhecida como uma Fundação de
referência na gestão de projetos e na realização de atividades que possibilitem o
aumento dos níveis de desenvolvimento cultural, social e econômico do País.

Objetivos Estratégicos

A partir da definição da missão, dos valores e da visão de futuro da


Fundação Irmão José Otão, iniciou-se o processo de estabelecimento dos
objetivos estratégicos para o período de 2009 a 2012, acompanhados de um
conjunto de iniciativas estratégicas, cuja implementação se inicia a partir do Plano
de Trabalho proposto para o ano de 2009.
Objetivo Estratégico 1: desenvolver projetos e atividades, nas áreas de
ensino, pesquisa e extensão, compondo parcerias e articulando redes de
cooperação, em âmbito nacional e internacional. Este objetivo possui três
iniciativas estratégicas a ele vinculadas: implementar o Project Management
Office na Fundação Irmão José Otão; prestar serviços de gerenciamento de
projetos; e prestar serviços na área da educação, envolvendo atividades de
ensino, pesquisa e extensão.
Objetivo Estratégico 2: mobilizar recursos visando a sustentabilidade dos
projetos e das atividades. Este objetivo possui duas iniciativas estratégicas a ele
294 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

vinculadas: implementar o Setor de Captação de Recursos na Fundação Irmão


José Otão; e desenvolver um Programa de Relacionamento com organizações.
Objetivo Estratégico 3: colaborar no desenvolvimento e na disseminação
de tecnologias de inovação social. Este objetivo possui cinco iniciativas
estratégicas a ele vinculadas: promover um Projeto de Desenvolvimento Social na
Comunidade São Judas Tadeu; desenvolver o Projeto Observatório do Terceiro
Setor; promover articulação com o Torneio Talento Empreendedor da PUCRS;
desenvolver o Projeto Banco de Tecnologias Sociais; e implementar um modelo
de organização socialmente responsável na Fundação Irmão José Otão.
Objetivo Estratégico 4: apoiar atividades de capacitação no campo das
ciências, das artes e da cultura. Este objetivo possui quatro iniciativas
estratégicas a ele vinculadas: promover o Curso de Especialização em Gestão da
Responsabilidade Social; promover o Curso de Especialização em Gestão no
Terceiro Setor; promover cursos de capacitação na Área de Desenvolvimento
Social; e desenvolver atividades culturais com a comunidade.
Objetivo Estratégico 5: incentivar a formação acadêmica e profissional de
estudantes, mediante a viabilização de oportunidades de realização de estágios e
a concessão de bolsas de estudo. Este objetivo possui três iniciativas estratégicas
a ele vinculadas: aumentar a oferta de oportunidades de estágio para alunos de
graduação; preparar alunos de graduação para o ambiente profissional; e criar um
Fundo de Bolsas para alunos de graduação.
Objetivo Estratégico 6: fortalecer a imagem institucional da Fundação
Irmão José Otão junto à sociedade. Este objetivo possui uma iniciativa estratégica
a ele vinculada: implementar uma Política de Comunicação Social na Fundação
Irmão José Otão.

Iniciativas Estratégicas e Áreas de Atuação

A implementação do Plano Estratégico da Fundação Irmão José Otão teve


início logo após a sua apresentação e aprovação em reunião do Conselho
Deliberativo, realizada no dia 6 de janeiro de 2009.
Nesta reunião, através da apresentação do Plano de Trabalho 2009, foram
detalhadas as iniciativas estratégicas vinculadas aos objetivos definidos no Plano
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 295

Estratégico, incluindo as metas, o período de realização, o orçamento e os


setores responsáveis por sua execução.
A figura 1 apresenta a nova estrutura organizacional da Fundação Irmão
José Otão (FIJO, 2009), adotada a partir de janeiro de 2009, visando atender às
iniciativas estratégicas estabelecidas no Plano de Trabalho.

Conselho
Deliberativo

Conselho
Fiscal

Diretoria
Executiva

Apoio e Secretaria

Assessoria Jurídica Assessoria de Comunicação

Coordenação Captação de Prestação Administrativo Bolsas e Cursos e Desenvolvimento


de Projetos Recursos de Serviços Financeiro Estágios Eventos Social

Figura 1 – Estrutura Organizacional da Fundação Irmão José Otão

A estrutura organizacional compreende os órgãos administrativos –


Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal e Diretoria Executiva –, cujas atribuições
estão claramente definidas no Estatuto da Fundação Irmão José Otão, e uma
estrutura funcional composta por setores responsáveis pela execução das
atividades definidas no Plano de Trabalho.
As atribuições específicas dos setores funcionais – Coordenação de
Projetos, Captação de Recursos, Prestação de Serviços, Administrativo-
Financeiro, Bolsas e Estágios, Cursos e Eventos, Desenvolvimento Social, Apoio
e Secretaria, Assessoria Jurídica e Assessoria de Comunicação – podem ser
visualizadas na página disponibilizada na Internet, através do endereço eletrônico
www.fijo.org.br.
O Plano de Trabalho da Fundação Irmão José Otão, para o ano de 2009,
prevê o desenvolvimento de 18 iniciativas estratégicas, com a utilização do
296 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

conceito de Gerenciamento de Projetos (PMI, 2000), que é definido como sendo a


aplicação sistemática de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas com
o intuito de alcançar os resultados esperados a partir da alocação criteriosa de
recursos na realização de projetos.
O conjunto de iniciativas estratégicas é apresentado na tabela 1,
classificando-as por áreas de atuação, e estando o seu gerenciamento e a sua
execução sob a responsabilidade da Diretoria Executiva e dos demais integrantes
da estrutura organizacional da Fundação Irmão José Otão.

Tabela 1 – Iniciativas Estratégicas, Áreas de Atuação e Setores Responsáveis


Iniciativas Estratégicas Áreas de Atuação Setores Responsáveis
Aumentar a oferta de oportunidades de
estágio para alunos de graduação. Central de Estágios
Bolsas e Estágios
Preparar alunos de graduação para o FIJO
ambiente profissional.
Promover o Curso de Especialização em
Gestão da Responsabilidade Social.
Cursos e Eventos
Promover o Curso de Especialização em
Cursos e Eventos
Gestão no Terceiro Setor.
Promover cursos de capacitação na Área de
Desenvolvimento Social.
Promover um Projeto de Desenvolvimento
Social na Comunidade São Judas Tadeu.
Desenvolver o Projeto Observatório do
Terceiro Setor.
Desenvolvimento Social Desenvolvimento Social
Desenvolver o Projeto Banco de Tecnologias
Sociais.
Desenvolver atividades culturais com a
comunidade.
Promover articulação com o Torneio Talento
Empreendedor da PUCRS.
Prestar serviços de gerenciamento de
Escritório de Projetos
projetos.
FIJO
Prestar serviços na área da educação, Prestação de Serviços
envolvendo atividades de ensino, pesquisa e
extensão.
Implementar o Project Management Office na Coordenação de
Fundação Irmão José Otão. Projetos
Implementar o Setor de Captação de
Recursos na Fundação Irmão José Otão.
Captação de Recursos
Desenvolver um Programa de
Relacionamento com organizações.
Criar um Fundo de Bolsas para alunos de Diretoria Executiva
Bolsas e Estágios
graduação.
Implementar uma Política de Comunicação Assessoria de
Social na Fundação Irmão José Otão. Comunicação
Implementar um modelo de organização
socialmente responsável na Fundação Irmão Desenvolvimento Social
José Otão.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 297

Nas seções seguintes serão detalhadas as principais iniciativas


estratégicas ora em desenvolvimento, descrevendo as atividades executadas e os
resultados esperados.

Incentivo à Formação Acadêmica e Profissional de Estudantes: a Central de


Estágios FIJO

A Central de Estágios FIJO está vinculada ao Setor de Bolsas e Estágios


na estrutura organizacional da Fundação Irmão José Otão, se constituindo em um
dos agentes de integração de estágios curriculares dos alunos de graduação da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, estando sua atuação
balizada pelo objetivo estratégico de incentivar a formação acadêmica e
profissional de estudantes, mediante a viabilização de oportunidades de
realização de estágios e a concessão de bolsas de estudo.
Tendo como responsabilidade, para o ano de 2009, a operacionalização
das iniciativas estratégicas de aumento da oferta de oportunidades de estágio e
de preparação de alunos de graduação para o ambiente profissional, a Central de
Estágios FIJO desenvolve as seguintes atividades:
(a) elaboração de convênios com os locais de estágio;
(b) divulgação de ofertas para os alunos de graduação da PUCRS;
(c) agilização nos processos de recrutamento e seleção e de contratação
de estagiários dentro do perfil definido pelo local de estágio;
(d) acompanhamento dos alunos e assessoria aos locais de estágio, desde
o processo de recrutamento e seleção até a conclusão do estágio, seguindo o
enquadramento definido pela legislação e em conformidade com as
especificidades de cada curso de graduação;
(e) acompanhamento da avaliação das partes envolvidas durante o
processo de estágio, através de instrumento de acompanhamento do estágio, de
entrevistas individuais, de visitas aos locais de estágio, e de encontros com o
professor responsável nas Unidades Acadêmicas da PUCRS;
(f) participação em eventos referentes ao mundo do trabalho e captação de
novos locais e oportunidades de estágio, de acordo com as necessidades das
áreas de formação, analisando e avaliando as condições do local de estágio;
298 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

(g) realização de eventos que auxiliem os alunos de graduação da PUCRS


na preparação para sua inserção no mundo do trabalho, orientando-os na
elaboração do seu currículo, no desenvolvimento das competências valorizadas
pelas organizações e no processo de seleção para uma vaga;
(h) participação em reuniões com professores coordenadores de estágios
das Unidades Acadêmicas da PUCRS e com o Núcleo de Estágios das Pró-
Reitorias de Graduação e de Assuntos Comunitários.

Apoio às Atividades de Capacitação no Campo das Ciências, das Artes e da


Cultura

A Fundação Irmão José Otão, através do seu Setor de Cursos e Eventos,


atua na capacitação de profissionais no campo das ciências, das artes e da
cultura, ofertando Cursos de Especialização e Cursos de Extensão em parceria
com a PUCRS.
Como decorrência das novas diretrizes estabelecidas pelo seu Plano
Estratégico, esta oferta passa a contar com seguinte escopo: desenvolvimento de
projetos de cursos que tenham o Desenvolvimento Social como objeto de estudo,
bem como o fomento à realização de cursos de caráter interdisciplinar,
congregando várias Unidades Acadêmicas da PUCRS. Nesta linha de atuação, a
partir de abril de 2009, a Fundação Irmão José Otão está promovendo os
seguintes cursos:
(a) curso de especialização em Gestão do Terceiro Setor, visando à
qualificação de profissionais para a gestão de organizações do Terceiro Setor,
com senso ético, espírito crítico-reflexivo e competências teóricas e
metodológicas, através da análise da conformação contemporânea das
organizações de Terceiro Setor, da reflexão sobre as possibilidades e os limites
das práticas destas organizações no contexto da sociedade atual, e da habilitação
para a utilização de princípios, conceitos e metodologias de gestão social em
diferentes realidades organizacionais que compõem este setor;
(b) curso de especialização em Gestão da Responsabilidade Social, com o
objetivo de qualificar profissionais para a gestão da responsabilidade social no
âmbito das organizações de primeiro, segundo e terceiro setores, através da
análise do movimento da responsabilidade social na contemporaneidade, do
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 299

estudo das suas determinações econômicas, políticas, sociais, culturais e


ambientais, da reflexão sobre as possibilidades e os limites das práticas de
responsabilidade social no contexto da sociedade atual, e da habilitação para a
utilização de princípios, conceitos e metodologias de gestão socialmente
responsável nas organizações.
Para ambos os cursos foram estabelecidas parcerias com organizações do
primeiro, segundo e terceiro setores do Estado do Rio Grande do Sul, viabilizando
a oferta de bolsas de estudo para os alunos. Dentre as organizações que
firmaram parceria para a realização dos cursos de especialização, destacam-se a
Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Rio Grande do Sul, a
Associação Cristã de Moços, a Associação Rio-Grandense de Fundações, a
Confederação Nacional das Cooperativas Médicas – UNIMED, o Instituto Renner,
a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, a Fundação Projeto Pescar, o Grupo do
Terceiro Setor, a ONG Parceiros Voluntários, a Secretaria Estadual da Justiça e
Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul e o Serviço Nacional de
Aprendizagem Industrial – RS.

O Observatório do Terceiro Setor e o Projeto de Desenvolvimento Local


Comunitário

O Observatório do Terceiro Setor está sendo concebido a partir do


compromisso com a disseminação da cultura e de um modelo de gestão inovador
e empreendedor no âmbito do Terceiro Setor, e da necessidade de implantar, na
Região Sul do País, um Observatório do Terceiro Setor, garantindo um espaço
que possa contribuir com o Desenvolvimento Social do Estado do Rio Grande do
Sul.
Nesse sentido, o Observatório possui os seguintes objetivos:
(a) colaborar com o desenvolvimento social do Estado do Rio Grande do
Sul, a partir da implantação de um Observatório do Terceiro Setor na Fundação
Irmão José Otão, visando à efetivação de um modelo de gestão pública que
garanta os direitos sociais da população gaúcha;
(b) realizar estudos sobre a situação do Terceiro Setor no Estado do Rio
Grande do Sul, mapeando e identificando tecnologias de intervenção social;
300 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

(c) subsidiar os órgãos gestores das políticas sociais públicas com


propostas de ação sintonizadas com as demandas da sociedade gaúcha;
(d) mapear tecnologias sociais de caráter inovador, no contexto das
organizações de Terceiro Setor, visando favorecer a multiplicação de
experiências bem-sucedidas no âmbito da gestão social pública;
(e) contribuir com a qualificação dos agentes que atuam nesse contexto,
através de ações de assessoria às suas demandas, bem como de promoção de
processos formativos.
O Projeto de Desenvolvimento Local Comunitário, por seu turno, é
desenvolvido em parceria com a Coordenadoria de Desenvolvimento Social da
Pró-Reitoria de Extensão da PUCRS e com a Associação de Moradores da Vila
São Judas Tadeu (AMOVITA).
As principais atividades desenvolvidas neste projeto envolvem a
assessoria para implementação do Projeto Sócio-Educativo da AMOVITA e
elaboração de um diagnóstico social da realidade local para subsidiar a
comunidade na definição de futuros projetos sociais que possam apoiar o
desenvolvimento social sustentável, em especial as ações voltadas à infância e à
adolescência. Este projeto conta com a atuação de uma equipe técnica da
Fundação Irmão José Otão, composta por um assistente social, um pedagogo e
dois estagiários de Serviço Social.

Desenvolvimento de Projetos e Atividades através de Parcerias e Redes de


Cooperação

O desenvolvimento de projetos e atividades através do estabelecimento de


parcerias e da articulação de redes de cooperação está vinculado à
implementação do Escritório de Projetos FIJO, que tem como finalidade principal
a prestação de serviços de gerenciamento de projetos (PMI, 2000) na área da
educação, envolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Desde o início do ano de 2009, o Escritório de Projetos FIJO está apoiando
a PUCRS no Projeto Primeira Empresa Inovadora – PRIME, instituído pela
Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP, para a concessão de subvenção
econômica para empresas nascentes e inovadoras, com o objetivo de criar
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 301

condições financeiras para que essas empresas possam enfrentar com sucesso
os principais desafios de seus estágios iniciais de desenvolvimento.
O Escritório de Projetos FIJO, como coordenador operacional do Programa
PRIME, tem como atribuição principal o apoio à Coordenação Geral do Programa
PRIME na PUCRS, executando as seguintes atividades:
(a) auxílio à divulgação do programa ao público em geral e atendimento
para o esclarecimento de dúvidas em relação ao programa;
(b) gerenciamento da documentação entregue pelas empresas e auxílio
administrativo na realização das atividades de seleção e de treinamento das
empresas participantes do programa;
(c) apoio para a realização de visitas às empresas selecionadas, com o
intuito de verificar o andamento do programa, a utilização dos recursos
financeiros e o cumprimento das metas previstas;
(d) elaboração de relatórios gerenciais para o controle da Coordenação
Geral do Programa na PUCRS e para o atendimento das solicitações da FINEP
junto à PUCRS.

Mobilização de Recursos para a Sustentabilidade dos Projetos e das


Atividades da Fundação

Com o intuito de potencializar a mobilização de recursos para a


sustentabilidade dos projetos e das atividades da Fundação Irmão José Otão,
foram iniciados, ainda no segundo semestre de 2008, estudos para a estruturação
do setor de Captação de Recursos (Herbst e Norton, 2007; Norton, 2003), a partir
de uma série de atividades de benchmarking e de capacitação em âmbito
nacional e internacional, sob a responsabilidade da Diretoria Executiva.
Inclui-se nessa iniciativa a análise das possibilidades de implantação de
atividades de gerenciamento de endowment funds como um futuro pilar do
modelo de gestão da Fundação Irmão José Otão, com o intuito de prover os
recursos necessários para o cumprimento da sua missão, de forma sustentável e
no longo prazo.
302 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Fortalecimento da Imagem Institucional da Fundação Irmão José Otão junto


à Sociedade

A política de comunicação social da Fundação Irmão José Otão está sendo


definida com o objetivo de fortalecer a sua imagem institucional, incluindo a
alteração da sua identidade visual e ampliação da utilização dos meios de
comunicação eletrônica, através da remodelação da sua página na Internet e da
criação de uma newsletter digital.
Além disso, procurou-se estabelecer um mecanismo que viabilizasse a
participação mais intensa dos públicos que se relacionam com a Fundação,
destacando-se o convite efetuado aos integrantes do Conselho Deliberativo e do
Conselho Fiscal para participação em reuniões semanais com a Diretoria
Executiva.

Considerações Finais

Em seus quase vinte e oito anos de atuação, a Fundação Irmão José Otão
tem percorrido uma trajetória que reafirma o seu compromisso com o
desenvolvimento cultural, social e econômico do País. O presente artigo procurou
descrever as atividades de planejamento estratégico desenvolvidas pela
Fundação Irmão José Otão durante o ano de 2008, apresentando as principais
diretrizes do seu realinhamento estratégico, bem como as ações já
desencadeadas como fruto dessas propostas.
A partir destas atividades, a Fundação Irmão José Otão, em razão do seu
vínculo com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, reforça a
sua identidade voltada para a consolidação de uma organização que tem as
marcas da Instituição Acadêmica. A materialização dessa identidade é reforçada
pelo intenso envolvimento dos integrantes do seu Conselho Deliberativo, do seu
Conselho Fiscal, do seu corpo funcional e da sua Diretoria Executiva, que é
composta por três professores oriundos de três distintas áreas do conhecimento –
administração de empresas, engenharia e serviço social –, vinculados às
Unidades Acadêmicas da PUCRS que, a partir de uma gestão interdisciplinar,
garantem a articulação da Fundação com a Universidade, com as suas
congêneres e com a sociedade em geral.
A tradução de uma boa prática, no âmbito das organizações de Terceiro
Setor, no caso ilustrado da Fundação Irmão José Otão, se alicerça nos seguintes
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 303

aspectos: a importância da missão organizacional na definição do seu papel no


conjunto da sociedade; a capacidade de decifrar as demandas e as necessidades
dos públicos com os quais interage, buscando incorporá-las no planejamento; a
busca pelo desenvolvimento de competências específicas para atuação no setor,
com vistas a uma atuação qualificada na área; a observância do marco legal
vigente no setor; a atenção à sustentabilidade da organização; e a
imprescindibilidade do planejamento estratégico como ferramenta de gestão
capaz de viabilizar um modelo de gestão competente e inovador.
Assim, a transparência, a sustentabilidade, a inovação e a
responsabilidade social passam a ser os valores a serem adotados para que os
resultados alcançados possam gerar impactos positivos para todos os públicos
que interagem com a Fundação Irmão José Otão e com a Universidade.
Por fim, reafirma-se o propósito da atual Diretoria Executiva de conduzir a
Fundação Irmão José Otão de forma a preservar a sua trajetória histórica e, ao
mesmo tempo, torná-la protagonista na construção de propostas inovadoras no
contexto das organizações que compõem o Terceiro Setor no Brasil.

Referências

FIJO. Planejamento Estratégico 2009-2012. Porto Alegre: Fundação Irmão José


Otão, 2008.

FIJO. Relatório de Atividades 2008. Porto Alegre: Fundação Irmão José Otão,
2009.

HERBST, N. B.; NORTON, M. The Complete Fundraising Handbook. London:


Directory of Social Change, 2007.

HUDSON, M. Managing without Profit: leadership, management and governance


of third sector organisations. London: Directory of Social Change, 2009.

NORTON, M. The Worldwide Fundraiser’s Handbook: a resource guide for NGOs


and community organisations. London: Directory of Social Change, 2003.

PMI. A Guide to the Project Management Body of Knowledge: PMBOK Guide


2000 Edition. Newtown Square: Project Management Institute, 2000.

QUEIROZ, M. O Planejamento Estratégico e as Organizações do Terceiro Setor.


In: VOLTOLINI, R. (org). Terceiro Setor: Planejamento e Gestão. São Paulo:
Editora SENAC, 2004. .
EDUCAÇÃO ONLINE: UMA EDUCAÇÃO INOVADORA?

ONLINE DISTANCE EDUCATION: INNOVATION IN WHAT SENSE?

Lucia Maria Martins Giraffa, Dr.; FACIN/CEAD – PUCRS


giraffa@pucrs.br
Elaine Turk Faria, Dr.; FACED/CEAD - PUCRS
elaine.faria@pucrs.br

Resumo

A Educação a Distância (EAD) na PUCRS constituiu-se no ano de 1999 e


a nova forma de gestão estabeleceu-se em 2006, após estudos sobre a
caminhada percorrida e a necessidade de inovar com sustentabilidade para
manter-se na vanguarda do mercado nacional. Este capítulo apresenta o
resultado do projeto de renovação da Coordenadoria de Educação a Distância
(CEAD), mais conhecida como PUCRS VIRTUAL, destacando os aspectos de
mudanças e inovações relacionados à (re) estruturação da organização, opções
tecnológicas e paradigma educacional, aliados aos tempos de cibercultura e
educação virtual, sem perda dos princípios norteadores do Estilo Marista de
Educar.
Após a descrição do contexto e soluções implementadas para realizar as
mudanças e inovações no setor, apresenta-se algumas reflexões acerca das
possibilidades da EAD online mediada pela Internet e seus recursos. Conclui-se
que a gestão de projetos de EAD online com qualidade técnica, tecnológica,
pedagógica e de pessoal requer cuidados em muitos sentidos e envolve não
apenas o investimento, a aquisição dos equipamentos, e sim ênfase no preparo
dos profissionais que utilizarão estas mídias, mas também o tratamento
pedagógico a elas aplicado.

Palavras-chave: Educação a Distância online, Tecnologias Digitais, Inovação e


Aprendizagem.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 305

Introdução

A Educação a Distância (EAD) não é uma modalidade de ensino nova. A


EAD na sua forma mais tradicional se apoiava no uso da infraestrutura dos
correios para enviar os materiais e lições aos alunos distantes. Estabelecia-se o
modo assíncrono de estudar. Cabia ao professor estruturar o curso, organizar as
lições, criar materiais, dividindo os conteúdos entre informação teórica e
exercícios de fixação. Os alunos recebiam estes módulos, liam os textos, faziam
os exercícios e algumas vezes os remetiam para correção. A maioria dos cursos
enviava o gabarito dos exercícios confiando na autodisciplina do aluno e no seu
senso de responsabilidade. Com os avanços da tecnologia, o surgimento dos
computadores e, principalmente da rede Internet, vivenciamos um sistema social
baseado na viabilidade de atividades online (síncronas), onde o acesso à
informação está muito facilitado, permitindo que distâncias e tempo não sejam
mais fatores restritivos para comunicação, surgindo a “nova” EAD. Uma EAD
tecnologicamente dependente da evolução e consolidação das Tecnologias
Digitais (TDs). Uma EAD online que emerge de uma civilização científica e
técnica, imersa na globalização da economia, na mundialização da cultura e na
internacionalização da Educação.
Segundo (Aretio, 2007), esta nova realidade fez com que fosse estendida a
todo o planeta uma preocupação em adequar a formação dos indivíduos para que
eles desenvolvam as competências necessárias para trabalhar e conviver neste
novo cenário. Os ciclos de renovação do conhecimento associado às tecnologias
digitais se produzem num período temporal muito inferior a vida das pessoas.
Desta forma, se faz premente que o indivíduo se atualize constantemente para
poder acompanhar o ritmo da sociedade e sentir-se inserido e apto para
desenvolver funções produtivas.
A EAD não é por si só, inovadora, mas a Educação Virtual (Virtual
Learning), ou simplesmente EAD online, apoiada em Tecnologias Digitais permite
um novo olhar acerca de uma prática tradicional. Mudar os meios implica em
rever a prática docente e a forma como se deve organizar os cursos. É procurar
sublimar a perda da presença física, utilizando como elemento a virtualidade e
suas características. Neste novo contexto surgem os desafios para se fazer EAD
de qualidade. Como se resolve a questão de estar presente no virtual? A reposta
306 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

é a interatividade mediada pelos recursos de comunicação hoje disponibilizados


nos AVEA’s (Ambientes Virtuais de apoio ao Ensino e a Aprendizagem).
Assim, apesar do termo EAD, essa alternativa de educação assume como
desafio, minimizar a importância da distância geográfica entre professores e
alunos, aproximando-os por meio da interatividade. Em muitas aulas presenciais,
a ‘distância’ entre mestre e educandos é grande, por isso muitas escolas, em que
a presença é obrigatória, estão adotando métodos e procedimentos que têm sido
bem sucedidos na EAD, promovendo a interatividade e a autonomia dos alunos.
Este relato apresenta o resultado do projeto de renovação da
Coordenadoria de Educação a Distância (CEAD), mais conhecida como PUCRS
VIRTUAL (PV), destacando os aspectos de mudanças e inovações relacionados à
estrutura da organização, escolhas tecnológicas e paradigma educacional,
aliados aos tempos de cibercultura e educação virtual, sem perda dos princípios
norteadores do estilo marista de educar. Enfatiza-se que a tecnologia é um meio
e não um fim quando se trata de educação de qualidade.

Objetivos

1. Relatar a proposta de mudança na Educação a Distância da PUCRS.


2. Promover reflexão acerca da necessidade da formação docente para
atuar com alunos oriundos da geração digital.
3. Divulgar o trabalho realizado no âmbito da PUCRS relacionado à oferta
inovadora de cursos virtuais online de extensão e especialização.

Mudança e Inovação estrutural para manter a competitividade

A PUCRS VIRTUAL foi criada em 1999 como uma Unidade autônoma e


em 2006 passou a ser uma Coordenadoria da PROEX (Pró-Reitoria de
Extensão), denominando-se, então, Coordenadoria de Educação a Distância
(CEAD). Neste momento, após uma reflexão sobre sua caminhada e os recursos
existentes na atualidade mudou-se a tecnologia e a gestão dos recursos humanos
da Unidade.
A solução encontrada na época da criação da EAD da PUCRS era a
utilização de satélite como tecnologia de comunicação para a geração e
transmissão de aulas fortemente associadas a videoconferências e/ou
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 307

teleconferências. Os alunos interagiam com os professores pelo serviço telefônico


0800 e o material das aulas era disponibilizado na plataforma WEBCT (Web
Course Tools). O modelo ponderava as atividades síncronas e assíncronas em
função do projeto do curso, geralmente usando como base 20% das aulas
transmitidas via satélite e com alunos assistindo de forma simultânea nos pontos
distantes distribuídos pelo país. No auge deste modelo a PV possuía unidades
em quase todos os estados brasileiros, podendo, também, transmitir para
diversos países do continente americano, África e Europa; embora nunca tenha
ocorrido um curso internacional.
As aulas gravadas seguiam o modelo das aulas presenciais com uso de
slides em PowerPoint onde o conteúdo estava estruturado e o professor, sentado
a uma mesa, em frente a câmeras, em estúdio com cenário fixo, discorria sobre o
assunto do encontro. A interação era obtida por meio do uso de serviço telefônico
ou perguntas no ambiente na ferramenta de chat. Este modelo requereu a criação
de uma infraestrutura de pessoal de apoio ao docente, a fim de poder viabilizar o
atendimento dos inúmeros alunos matriculados no curso e espalhados
geograficamente no território brasileiro. Nem todos os cursos possuíam alunos
com tal granuralidade, mas a maioria deles era oriunda de pelo menos três
estados diferentes. Fato este que exigiu a criação de toda uma logística, ainda
existente, embora adaptada aos novos tempos e demandas.
A necessidade de comunicação síncrona, de o aluno receber a imagem em
um local distante e poder interagir com a equipe de professores e tutores, e a
diversidade geográfica do território brasileiro, considerando que estávamos no
final da década de 90, século XX, a opção recomendada na época era, sem
dúvida, a utilização de satélite; o qual garantia a abrangência e os serviços
demandados pela proposta pedagógica.
Com o passar dos anos, a evolução e consolidação da Internet, os custos
elevados da manutenção do sistema de satélite e, principalmente, da mudança na
proposta conceitual e entendimento do que seriam as aulas virtuais, a valorização
da interação, a ênfase na mediação no ambiente virtual de aprendizagem, a PV
muda sua forma de trabalhar. O foco deixa de ser a valorização das aulas
gravadas como elemento basilar da aprendizagem dos alunos, para se focar na
estruturação de cursos onde a aprendizagem do estudante está vinculada a uma
308 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

postura de autonomia, desenvolvimento de competências de pesquisa, análise,


crítica, construção textual, argumentação e trabalho em equipe.
Nesta nova proposta a PV foi reestruturada no ano de 2006. Os cursos
foram reformulados, a equipe de professores foi renovada (hoje temos apenas
20% da equipe original), a fim de refletir o novo momento e nova percepção do
papel da unidade de EAD no contexto da Universidade. A PV é uma unidade de
serviços cujo papel é apoiar e gerir as ações e políticas da PUCRS no que tange
a modalidade de Educação a Distância.
A PUCRS VIRTUAL tem por missão auxiliar a produzir e difundir
conhecimento de forma inovadora, observando os preceitos do Estilo Marista de
Educar, fundamentada na formação humana, orientada por critérios de qualidade
e ética.
Segundo Rodrigues (2006) “a gestão estratégica das organizações é
influenciada e orientada pelas mudanças exógenas, relacionadas às estruturas de
mercado, e pelas mudanças endógenas, que devem ser implementadas no
ambiente interno da organização” (p. 223). Isto significa examinar as forças e os
elementos que impactam de modo crítico no desempenho da instituição, levando
em consideração o contexto competitivo.
Nesta perspectiva, necessitou-se examinar a estrutura organizacional e o
desenvolvimento dos recursos humanos da instituição em questão; realizando
mudanças que contemplassem os aspectos de atendimento diversificado e
flexibilizado. Neste sentido, a grande dificuldade encontra-se na própria legislação
trabalhista brasileira que não se atualizou. Não existem ainda subsídios legais
para se enquadrar os novos profissionais que atuam no segmento de EAD e este
é um grande desafio da gestão de pessoal.
A estrutura organizacional, atual, da PV contempla os seguintes
apoiadores:
• Gestores para organizar e atender as demandas relacionadas à
organização e supervisão dos cursos.
• Professores Colaboradores, lotados em unidades acadêmicas e com
horas cedidas para atuação na CEAD. Eles ministram aulas nos cursos
de capacitação dos professores para uso do AVEA, supervisionam a
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 309

equipe na elaboração dos materiais e avaliações necessários para a


estruturação do espaço virtual de aprendizagem;
• Professores para ministrarem as aulas, atender os alunos e elaborarem
os materiais e avaliações necessários para a estruturação do espaço
virtual de aprendizagem.
• Auxiliares Técnicos em EAD (ATEDS) que organizam e sistematizam as
informações geradas no ambiente virtual em função do grande volume de
informações produzidos nos fóruns e, também, na publicação e
disponibilização de materiais elaborados pelos professores. Enfatiza-se
que a PV não “tutores” em seu quadro de pessoal.
• Núcleos de Informática associado à Gerência de Tecnologia de
Informação e Comunicação (GTIT) que cuida de todos os aspectos
relacionados à manutenção e infraestrutura de hardware da plataforma
onde estão os repositórios e sala de aula virtual.
• Help Class responsável pelo suporte aos usuários da plataforma
MOODLE (Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment).
• Nucleo de Mídia e Design (NMD) setor que trabalha com a manipulação,
formatação e disponibilização de objetos digitais em multimídia, que
viabilize os recursos a serem inseridos no repositório de recursos a
serem disponibilizados nas aulas virtuais. Importante salientar que o uso
de áudio e vídeos é cada vez mais explorado na EAD. Estes materiais
são produzidos a partir das demandas dos professores que fazem o
designer do curso. Neste setor também é fundamental a presença de
web designers que permitam a customização da plataforma e a
organização estética do ambiente.
• Estagiários são alunos da graduação da PUCRS que formatam os
materiais digitais, acompanham as gravações, organizam os materiais do
curso no arquivo virtual (webfólio) do curso, acompanham/registram a
entrega de materiais, de avaliações e de emails, organizam a modelagem
do ambiente virtual, entre outras atividades.
• Uma infraestrutura de secretaria e recepção que suporte todas as ações
administrativas e de serviço de correio.
310 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Seguindo na linha inovadora e empreendedora da Universidade, aliada a


abertura da legislação educacional brasileira, a Coordenadoria de Educação a
Distância (CEAD) da PUCRS passou a estruturar as políticas de EAD da
instituição e a administrar o Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem na
plataforma MOODLE, em substituição ao WEBCT. Este AVEA (MOODLE) foi
implementado em 2006 nas disciplinas semipresenciais da graduação, disciplinas
presenciais que optaram pelo ambiente para suporte as aulas e também em todos
os cursos virtuais.

Mudança e Inovação Pedagógica alinhada com a proposta Marista

O momento atual exige uma crescente interatividade e interconectividade,


propiciada pelas TDs, com emprego de vários meios de comunicação e diferentes
equipamentos interligados em rede. Essa interatividade se constitui no diferencial
da EAD da PUCRS VIRTUAL, na oferta dos seus cursos: disponibilidade de
acesso ao ambiente virtual do curso na modalidade 24x7 (todo o dia e durante
toda semana), comunicação facilitada com toda a equipe de apoio e professores,
uso de tecnologia digital de ponta, inibição da impressão de materiais em papel
(incentivo a uma cultura de responsabilidade ambiental, apesar do aluno poder
imprimir tudo o que desejar o curso apenas usa materiais digitais ou
digitalizados), interatividade freqüente entre os integrantes do curso e
disponibilização de áudios e vídeos contextualizados com o assunto do curso
(com baixo índice de reaproveitamento integral de materiais em função da
personalização das atividades a cada turma).
O uso de materiais multimídia especialmente elaborados para o curso
auxilia a superar o grande desafio da EAD com ênfase conteudista (mera
informação proporcionada pelo fácil acesso à Internet e aos hipertextos) sem
desenvolvimento efetivo da aprendizagem, abrindo espaço para cursos de baixa
qualidade e de resultado duvidosos os quais têm realizado um “desserviço” a
comunidade que acredita na EAD.
Destaca-se, ainda, como característica relevante, a versatilidade desta
metodologia, que tanto pode ser permeada pelo ensino presencial,
semipresencial ou virtual, como também se adequa ao ensino formal ou não-
formal.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 311

Com o advento da Internet, a qual completa dez anos de uso massivo, a


sociedade contemporânea mudou a forma como se comunica e, também, pode-
se dizer que existe uma mudança na forma como se aprende. Segundo Lévy
(2003), o aluno que navega no ciberespaço possui uma forma diferenciada de
trabalhar o conhecimento. Esta percepção pode ser facilmente comprovada pelos
inúmeros recursos que um aluno nativo do ciberespaço utiliza no seu cotidiano.
Estamos acostumados a observar o jovem de hoje usar de forma simultânea o
MSN, a Internet, jogar, falar no telefone e até mesmo estudar. Isto pode parecer
muito complexo e pouco provável para nós imigrantes do ciberespaço.
Além deste aspecto de mudança no comportamento, vamos encontrar a
questão da quebra do paradigma da presencialidade. Hoje um aluno não precisa
mais estar no mesmo espaço físico que seu professor e colegas. E, também, a
questão da sincronicidade fica relevada a outro plano, uma vez que o ferramental
disponível (fóruns, blogs, páginas e outros) permitem que a informação seja
disponibilizada e tratada de forma assíncrona, sem prejuízo da qualidade (desde
que bem planejada).
Hoje temos os nativos digitais sendo ensinados e tutelados por imigrantes
digitais (Prensky, 2001). Isto significa que os docentes não nasceram imersos nas
tecnologias e tiveram de aprendê-las. Logo, a percepção não é a mesma. O
desafio é grande e temos de vencer preconceitos antes de tudo. Esta nova
geração de discentes faz coisas diferentes e são expoentes de mudanças
relacionadas à globalização. Eles se comunicam com seus pares e demais
pessoas de forma mais intensa, usando o computador, o celular, os iPods, os
blogs, os Wikis, as salas de bate-papo na Internet, os jogos em rede e as diversas
plataformas de comunicação que a cada dia são criadas.
Não se sabe a novidade que vem por ai, mas se sabe que a comunicação
interativa é a base de toda oferta tecnológica. As pessoas querem se comunicar a
um simples toque de botão. Nada mais natural para quem desde bebê foi
estimulado a usar um controle remoto e foi educado que a distância física não é
fator impeditivo para comunicação e a aprendizagem. Esta geração denominada
de Homo Zappiens por Veen e Vrakking (2009) é agente de mudança na
educação. Os autores salientam que esta geração se difere de qualquer outra
porque cresceu numa era digital.
312 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

EAD online: uma educação inovadora e de qualidade a partir da capacitação


docente

A formação docente oferecida pela PUCRS VIRTUAL através de suas


Oficinas MOODLE
(http://www.ead.pucrs.br/cursos/oficinamoodle/portal/index.php) capacita o
professor da Universidade a criar a infraestrutura de sua sala de aula virtual em
função do projeto pedagógico da sua Unidade Acadêmica. As Oficinas tem sido
uma estratégia inovadora de proporcionar reflexões acerca do papel das
tecnologias versus o papel do docente neste novo e desafiador contexto que
emerge do uso massivo de TDs na sociedade. Estas Oficinas ocorrem durante os
semestres letivos e também nos períodos de recesso escolar, para turmas
pequenas, que tanto podem ser de mestres da mesma Unidade Universitária
como de grupos diversificados. O objetivo principal destas oficinas é o de levar os
professores a aprenderem a criar ambientes virtuais de ensino e de
aprendizagem, descobrindo as funcionalidades (recursos e atividades) do
MOODLE, utilizando diferentes serviços e ferramentas computacionais para
gestão e interação nestes ambientes.
Outro aspecto fundamental que se faz necessário no que tange a formação
do docente para atuar no ciberespaço está ligada a seleção e organização de
materiais digitais. Neste aspecto o uso Bibliotecas Virtuais (organizadas a partir
de links e materiais disponíveis na Internet) e disponibilização de livros virtuais (E-
Books) estão sendo cada vez mais incentivados na EAD. Nos cursos da PV
incentiva-se a utilização do acervo digital interno provindo da Biblioteca Central da
PUCRS e da Editora da PUCRS (EDIPUCRS), além do portal
www.dominiopublico.org.br o qual permite a coleta, a integração, a preservação e
o compartilhamento de conhecimentos, sendo seu principal objetivo o de
promover o amplo acesso às obras literárias, artísticas e científicas (na forma de
textos, sons, imagens e vídeos), já em domínio público ou que tenham a sua
divulgação devidamente autorizada, que constituem o patrimônio cultural
brasileiro e universal. Assim como estes, muitos outros sites e portais de editoras
nacionais ou internacionais são utilizados e incentivados seu uso, já que
disponibilizam ser acervo científico na íntegra e no formato digital.
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 313

Outra estratégia utilizada para compor o acervo de materiais usados nos


cursos são os repositórios brasileiros de Objetos de Aprendizagem (OA), tais
como:
RIVED (http://www.rived.mec.gov.br)
CESTA (http://www.cinted.ufrgs.br/CESTA/)
LabVirt (www.labvirt.fe.usp.br)
Oe3-tools (http://www.cesec.ufpr.br/etools/oe3)
Banco Internacional de Objetos Educacionais
(http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/)
Estes repositórios de OA permitem que se encontre uma série de
possibilidades gratuitas de softwares educacionais Se o curso permitir o uso de
programas escritos em inglês, alternativa interessante encontra-se em
repositórios internacionais tais como:
MERLOT (http://www.merlot.org/merlot/)
CAREO (http://www.ucalgary.ca/commons/careo),
ARIADNE (http://www.ariadne-eu.org)
Wisc-Online (http://www.wisc-online.com)
Os repositórios mencionados acima incorporam o conceito atual de tratar o
projeto de softwares educacionais na perspectiva de Objetos de Aprendizagem,
observando a questão do reuso e interoperabilidade. Segundo Weller, et al.
(2003), um OA é uma parte digital do material da aprendizagem que se dirige a
um tópico claramente identificável ou resultado da aprendizagem e tem o
potencial de reutilização em contextos diferentes.
A figura 1 apresenta a interface da Comunidade MOODLE de Professores
da PUCRS usuários do AVEA, devidamente capacitados nas Oficinas da CEAD, a
qual foi criada para permitir o intercâmbio de informações e boas práticas
adquiridas pelos docentes da Universidade. Esta ação, também inovadora, abriu
espaço para o professor dialogar com colegas de forma ágil e acessível, com total
autonomia e flexibilidade. E, sensíveis ao fato de que a maioria dos docentes são
imigrantes digitais e não é possível adquirir destreza com uso de ferramentas
digitais sem a devida reflexão e prática, esta comunidade permite ao professor
obter ajuda com seus pares e equipe da CEAD, a qual acompanha as
contribuições no intuito de fornecer apoio virtual.
314 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Figura 1: Comunidade MOODLE de professores da PUCRS

Apesar de não ser possível, ainda, por questões legais, realizar cursos de
mestrado e doutorado totalmente a distância, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-
Graduação (PRPPG) da PUCRS, ciente dos avanços tecnológicos, da
necessidade de se manter atualizada e das vantagens que estes recursos digitais
síncronos e assíncronos podem trazer para a pós-graduação Stricto Sensu e a
pesquisa define sua política de EAD a qual confere “um caráter de virtualidade e
ubiqüidade (pervasividade) que a própria natureza do desenvolvimento científico
e tecnológico requer, dentro dos padrões atuais da tecnologia”. Neste sentido ela
incentiva os professores a utilizarem salas de aulas virtuais como repositórios e
elementos de articulação e interação extraclasse, promovendo a cultura da
discussão virtual no âmbito das disciplinas presenciais. Além do uso destes
ambientes virtuais mais formais existe o estimulo à criação de blogs para os
professores colocarem materiais e divulgarem sua pesquisa e idéias. O uso
destes recursos tão comuns no ciberespaço amplia o espaço tradicional de
pesquisa e divulgação cientifica. A gerencia destes blogs e salas virtuais é
realizada em parceria com a CEAD, a qual funciona como elemento articulador
destas ações na comunidade de pesquisa da PUCRS.
A partir desta política de EAD, a PRPPG passa a usar “tecnologias de
comunicação síncronas na defesa das teses e dissertações, nos exames de
qualificação e em reuniões regulares de pesquisa, viabilizando o trabalho de
comissões e a discussão colegiada, exigindo menor esforço de deslocamento e
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 315

possivelmente um menor volume de recursos financeiros, permitindo


participações que, tivessem de ser 100 % presenciais, nem sempre seriam
possíveis.”
Enfatiza-se que, para este novo discente, nesta nova instituição
educacional, é preciso que o professor se aproprie do paradigma da EAD,
compreendendo sua potencialidade e referencial teórico, para melhor usufruir dos
recursos tecnológicos, com vistas a uma educação interativa, inovadora e de
qualidade. Cabe à instituição e aos educadores criarem ambientes de
aprendizagem em que os alunos possam ser orientados, não só sobre onde
encontrar informações, mas, também, como avaliá-las, analisá-las, organizá-las,
tendo em vista seus objetivos.
Nessa proposta, os próprios professores passam a perceber o
conhecimento, cada vez mais, como um processo contínuo de busca e pesquisa
de recursos instrucionais e informações, atualizando mais fácil e rapidamente seu
material didático. Assim, a ameaça de padronização e massificação da EAD, ou
ainda, a pretensão de ser propiciadora de um curso de “aligeiramento” da
aprendizagem ficará descartada, assumindo uma postura política e
procedimentos pedagógicos adequados. A reflexão crítica sobre estas questões,
possivelmente, levará a uma prática de mediação pedagógica que favoreça a
interatividade.

Considerações finais

A experiência acumulada nesta área permite afirmar que não é só a


tecnologia que possibilita o sucesso da EAD online. Muito mais importante do que
ela oferece em termos de oportunidades e infraestrutura é a necessidade dos
professores entendê-la e utilizá-la. A tecnologia, em si, não é boa nem má, o uso
que se faz dela é que determina se o resultado é positivo ou negativo.
Organizar uma aula virtual não é tarefa fácil para quem possui pouca
familiaridade com uso de tecnologias e em especial os recursos da Internet. O
atributo difícil, também é relativo, uma vez que o docente que costuma planejar
criteriosamente e de forma diversificada sua aula presencial encontrará muita
similaridade no organizar as aulas virtuais. Evidente que o acompanhamento
virtual demanda uma nova postura e organização do tempo do professor, e
316 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

principalmente, um entendimento por parte do aluno de que apenas o ambiente


virtual está sempre disponível e o professor não fica a sua disposição todo o
tempo.
Ensinar a distância no modo online é diferente de ensinar presencialmente,
mesmo para professores com larga experiência de magistério. Isso significa que é
necessário conhecer, estudar, pesquisar, avaliar e refletir sobre todos os aspectos
envolvidos nesse processo bem como ressignificar a trajetória já percorrida a
partir da experiência no presencial. Não há espaço para improvisação total, ou
seja, o docente tem de organizar todo o curso antes que o mesmo ocorra e no
caso de inclusão de recursos multimídia estes devem ser previamente projetados
e, preferencialmente, estar disponíveis por ocasião do curso. É uma nova forma
de pensar e realizar o espaço da sala de aula. Ao mesmo tempo em que se exige
este rigoroso planejamento, o professor deve ser flexível e apto a improvisar a
partir das intervenções dos seus alunos e ser capaz de corrigir eventuais lacunas
através da criação de atividades e disponibilização de materiais complementares.
Isto vai requerer cada vez mais domínio de conteúdo e expertise, razão pela qual
muitos pesquisadores de EAD questionam a formação que hoje se fornece aos
professores, a qual não os prepara devidamente para atuar nesta modalidade,
fazendo com que seja imperioso capacitar os professores.
Como toda educação, formal ou continuada, necessita ter qualidade, a
EAD online, especificamente, por ser inovadora e apresentar legislação
educacional própria, é avaliada constantemente, para ter autorização e
reconhecimento dos cursos desenvolvidos, bem como o credenciamento da
instituição de ensino. Nesse sentido, acredita-se que, como todos os cursos de
graduação e pós-graduação estão sendo sistematicamente avaliados
(interna/externamente) e redimensionados, na busca da qualidade (requisito
indispensável à Educação, tanto mais num país em desenvolvimento, não
importando se é presencial ou à distância), justifica-se repensar a tecnologia, o
paradigma educacional, a interatividade e as ações inovadoras no campo da EAD
cujo foco central é a qualidade da educação ofertada.

“Em tempos de mudança, aqueles que aprenderem herdarão a


Terra, enquanto aqueles que já aprenderam encontrar-se-ão
esplendidamente equipados para lidar com um mundo que não
mais existe.” Eric Hoffer
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 317

Referências

ARETIO. G, L. (coord.) Ruiz Corbella, M.; Domínguez Fajardo, D. De la educación


a distancia a la educación virtual. Barcelona: Ariel, 2007.

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VEEN, W.; VRAKKING, B. Homo Zappiens - Educando na Era Digital. Porto


Alegre: ARTMED, 2009.
O MUSEU DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA DA PUCRS: MEDIAÇÃO ENTRE
CONHECIMENTO E SOCIEDADE

THE MUSEUM OF SCIENCES AND TECHNOLOGY - PUCRS: MEDIATING


KNOWLEDGE AND SOCIETY

Simões Pires, Melissa G.; PhD; MCT- PUCRS


mgspires@pucrs.br
Scolari, Luiz Marcos; Esp; MCT - PUCRS
scolari@pucrs.br
Jeckel-Neto, Emílio A.; PhD; MCT- PUCRS
jeckel@pucrs.br

Resumo

Discute-se um tipo de ação de responsabilidade social do Museu de


Ciências e Tecnologia da PUCRS (MCT-PUCRS) feita através da divulgação de
informações científicas relacionadas a temas atuais relevantes por meio de
exposições temporárias não previstas no calendário de atividades do Museu.
Estas exposições são elaboradas a partir de temas que têm grande impacto no
cotidiano da comunidade no momento. São apresentados dois casos que
exemplificam esta ação: as exposições sobre o surto de dengue e sua prevenção
em 2008 e sobre o impacto da ação das pessoas na população de bugios,
relacionada com o avanço da febre amarela no Rio Grande do Sul em 2009.

Palavras-chave: Papel social, Informação científica e tecnológica, Museu de


Ciências.

Abstract

One kind of social responsibility action of the Museum of Sciences and


Technology of PUCRS (MCT-PUCRS) is discussed. The Museum’s action is to
promote unscheduled exhibits on scientific information about current relevant
topics concerning the society. Two cases are presented: the an epidemic outbreak
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 319

of dengue and its prevention in 2008, and the impact of people actions on the
bugio monkees related to the onset of yellow fever in the State of Rio Grande do
Sul in 2009.

Keywords: Social role, scientific and technological information, Sciences


museum.

Introdução

A exposição permanente do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS


(MCT-PUCRS) foi inaugurada em 14 de dezembro de 1998 e, atualmente,
apresenta mais de 800 experimentos interativos, distribuídos na área de
exposições do Prédio 40 e no PROMUSIT (Programa Museu Itinerante). Através
de dioramas, multimeios, interações vivas, jogos virtuais e exposições
temporárias diversas, são envolvidas diversas áreas como: física, matemática,
astronomia, geologia, paleontologia, arqueologia, história e outras (Borges et al.,
2008).
Segundo Nicholson (2002), o estudo da museologia tem oportunizado uma
evolução nos processos de criação de uma exposição científica. Trabalhos como
o de Cazelli e colaboradores (2002), afirmam que duas dimensões têm sido
consideradas fundamentais nessas exposições: a primeira refere-se à promoção
da compreensão pública da ciência e da tecnologia (C&T). A segunda é a
abordagem social, que visa trazer a cultura da sociedade de um modo geral para
dentro dos museus, a fim de que os conhecimentos científicos e tecnológicos
atuais, que estão presentes na mídia e geram controvérsias, sejam
compartilhados e discutidos pelo público. Essa abordagem social está relacionada
à atuação do museu como responsável por processos de divulgação científica
junto à comunidade. Também diz respeito ao nível de entendimento de ciência e
tecnologia necessário para que cada cidadão tenha a condição de compreender o
seu entorno, ampliando as possibilidades e oportunidades de atuação no seu
meio social.
Valente e colaboradores (2005) ressaltam que as demandas da sociedade
e as questões educacionais vêm conformando o papel social dos museus de
ciência, sobretudo na absorção de novas idéias e tendências por parte dessas
320 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

instituições, no replanejamento das formas de trabalho, especialmente para que


os museus possam acompanhar as rápidas mudanças do mundo contemporâneo.
O fato do MCT-PUCRS utilizar a exposição como ferramenta prática, tanto
para o meio científico quanto para o cidadão comum, permite que as
necessidades cotidianas de uma comunidade sejam utilizadas como ponto de
partida e de inspiração para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da
inovação e da criação no espaço museal. Essa nova relação imediata entre a
demanda da sociedade e a inovação da exposição deve estar embasada no
reconhecimento mútuo das contribuições que cada lado pode oferecer para que,
juntos, tomem decisões e atitudes que dizem respeito à sociedade em geral
(Valente et al., 2005).
Nesse contexto insere-se o presente trabalho, apresentando duas ações
fora do calendário previsto, elaboradas pela equipe do MCT-PUCRS com a
finalidade de prestação de esclarecimentos a comunidade envolvendo os temas
dengue e febre amarela, em momentos distintos em que a compreensão pública
dos temas envolvia diretamente a tomada de decisões e atitudes da população.

Descrição do processo de Inovação

A primeira ação no âmbito do MCT-PUCRS ocorreu em março de 2008,


quando a dengue estava tornando-se um problema de saúde pública no Rio
Grande do Sul. A equipe do MCT-PUCRS procurou a Secretaria Municipal de
Saúde de Porto Alegre e estabeleceu uma parceria para elaborar a exposição
interativa denominada “Corrida contra a dengue”. Através de atividade lúdica, a
exposição alertou os visitantes sobre os riscos dessa doença, bem como as
maneiras de precaver-se contra a mesma. Tal iniciativa mostrou-se válida, pois
era buscada intensamente por alunos, professores e publico em geral. A
conscientização da comunidade quanto aos riscos e sua responsabilidade nos
cuidados para evitar a disseminação da dengue foram os focos principais dessa
exposição. Além de todas as informações técnicas contidas nesse espaço, havia
um jogo gigante com dados, onde os alunos disputavam uma “corrida contra a
dengue” ao longo de uma trilha Nesta trilha havia determinadas atitudes corretas
ou incorretas que faziam o participante avançar ou retroceder até que
Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 321

conseguisse chegar ao ponto final. Os finalistas eram premiados com uma taça
comemorativa ao seu sucesso (Figura 1).

Figura 1 - Aspectos da exposição “Corrida contra a Dengue”.

A segunda ação de responsabilidade social ocorreu no início de 2009,


quando do avanço significativo da febre amarela no Estado do Rio Grande do Sul.
Essa exposição abrangia, não somente o tema “doença febre amarela”, mas
também envolvia um acontecimento que estava preocupando o meio científico de
forma importante: o abate de bugios no estado causado por informações
incorretas. Várias comunidades estavam, equivocadamente, considerando o
bugio como transmissor da enfermidade e, por medo, estavam matando estes
animais, quando estes macacos sofrem contaminação antes dos humanos e
morrem da doença ao invés de transmiti-la. Para a elaboração dessa exposição,
buscou-se o apoio das Unidades Acadêmicas da PUCRS, através de docentes e
discentes engajados na temática. Foi elaborada então a exposição “Proteja o seu
anjo da guardo” (Figura 2), que alertava para o fato de que os bugios eram, na
verdade, sentinelas sanitárias que indicavam a presença da doença em
determinada região e eram vítimas da mesma.
322 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Figura 02 - Painel da exposição “Proteja seu anjo da guarda”.

Utilizou-se também nesse espaço o tema de uma campanha lançada pelo


professor da Faculdade de Biociências, Dr. Julio Cesar Bicca Marques que
divulgou a importância bugio como um indicador de que a doença estaria
presente em determinado local.
Além das informações citadas, outras buscavam alertar o público sobre a
importância de sua atuação contínua para o controle dos mosquitos
transmissores (Aedes aegypti), abordando temas como medidas de prevenção
(Figura 3), meios de propagação, além de mostrar os sinais e sintomas da doença
(Figura 4).

Figura 3 - Painel sobre a prevenção da febre amarela.


Inovação, Universidade e Relação com a Sociedade: Boas Práticas na PUCRS 323

Figura 4 - Painel sobre os sintomas da febre amarela.

Resultados

Embora não se tenha mensurado sistematicamente o impacto dessas


exposições, um indicador de sua relevância é foi a grande procura por mais
informações dobre os temas abordados. Os visitantes em geral buscam essas
informações com a equipe de mediadores que trabalham na exposição do Museu.
Muitas vezes, conversavam com os mediadores para compartilharem seus
anseios e/ou sugestões para se ampliar a divulgação sobre as temáticas. Já os
professores que acompanharam grupos de estudantes, além de contarem com a
mediação no espaço museal, solicitaram informações sobre formas de trabalhar o
tema em sala de aula com a Coordenação Educacional do MCT-PUCRS.
324 AUDY, J. L. N. & MOROSINI, M. C. (Orgs.)

Considerações Finais

Acreditamos que, pela credibilidade do MCT-PUCRS junto à sociedade,


todas as informações veiculadas pelo Museu sejam mais facilmente aceitas e
assimiladas por alunos, professores e pelo publico em geral, não somente pela
forma são como são elaborados os ambientes expositivos, mas também pela
qualidade e clareza do conteúdo trabalhado.
A finalidade do Museu como espaço de divulgação científica tem se
mostrado presente, pois, pelo relato de visitantes, após essa experiência, muitos
passam a ser multiplicadores de das informações obtidas na exposição por as
considerarem fidedignas. Também se mostraram sensibilizados pelo impacto
dessas doenças na vida das pessoas e no meio ambiente.
Assim, considera-se que estas ações focadas no cotidiano imediato da
sociedade contribuem de forma eficaz e comprometida para que, em tempo hábil,
as pessoas possam utilizar os conhecimentos da ciência para efetivarem-se como
cidadãos atuantes e conscientes do seu papel e da sua responsabilidade social.

Referências

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GUIMARÃES, V.; SILVA, G. Implantação de centros e museus de ciências. Rio de
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VALENTE, M. E., CAZELLI, S. e ALVES, F.: Museus, ciência e educação: novos


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