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O que é a Filosofia

Jorge Barbosa Filosofia Ciências Sociais e Económicas Setembro, 2013

O QUE É A FILOSOFIA

Jorge Barbosa, Setembro 2013

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O que é a Filosofia

I)    O filósofo não é o sábio.
II)    Análise do conceito de sabedoria.
A)   A sabedoria como ideal teórico.
1)       Pensamento imediato, pensamento filosófico.
2)      As condições da emergência do pensamento filosófico.
a)      Condições materiais de natureza económica.
b)    Condição política.
c)      Condição intelectual e moral.
3)      As características do espírito filosófico.
a)      A capacidade de se espantar ou de se maravilhar.
b)      Espírito de dúvida.
c)      Espírito de exame : reflexividade.
4)      Pensamento sofista - pensamento filosófico.
5)      A sabedoria filosófica como alternativa à violência.
B)   A sabedoria como ideal prático.

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Jorge Barbosa, Setembro 2013

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Segundo a terminologia grega (φιλοσοφία é uma palavra composta de φιλεῖν. muitas vezes. de tal modo que pode até ser muito interessante descrever as variações dessa intencionalidade. O que é a filosofia? Qual é a sua natureza e quais são os seus desafios? A etimologia da palavra dá-nos uma primeira indicação. são conduzidos a problematizá-la. então. O que é que isto quer dizer? Jorge Barbosa. Acontece. desqualificar radicalmente a postura socrática e continuar a pretender fazer filosofia. saber”). Cada autor encarna a intencionalidade filosófica à sua maneira. Esta dificuldade relaciona-se com o facto de a definição da filosofia fazer desde logo parte do próprio questionamento e da prática filosófica. a filosofia define-se como o amor à sabedoria. tal como pode ser colocada por uma pessoa de bem que manifesta muitas dúvidas sobre o interesse de uma disciplina. não se procura apresentar a própria intencionalidade filosófica. “amar” et de σοφία. Setembro 2013 3 . deteriorada na cena pública. sem contradição. do interior da filosofia. No entanto.O que é a Filosofia Coloca-se muitas vezes a questão de saber o que é a filosofia. “sabedoria. aquela que Platão atribui a Sócrates e que inspira a maior parte do que é dito neste texto. como mostra a leitura dos grandes filósofos. não me parece que possamos. Será. Neste texto. reatualiza a sua natureza e as suas finalidades. que nada é mais problemático do que a resposta a esta questão. Com efeito. mas não é garantido que aqueles que asseguram o seu sucesso mediático sejam os seus mais fieis servidores. mas tão só aquilo que ela tem de mais essencial. Esta questão pode ser colocada por um aluno do ensino secundário que se inicia nesta disciplina. a filosofia está na moda. defendida uma certa ideia da filosofia. Esta ideia pode ser discutida por todos aqueles que.

e se dá o nome de sabedoria àquilo que permite ao desejo ter a inteligência de si mesmo e não se deixar enganar por coisas sem saída. foi chamado o “pai da filosofia” foi reconhecido pelo oráculo de Delfos como o homem mais sábio de Atenas. Mas a resposta da Pitonisa à questão do seu amigo Querefonte vai surpreender Sócrates. Tal como o Eros (o amor). mas só aquilo que nos faz falta. Mas o que é que desejamos verdadeiramente? Ao afirmar que só há um saber. a figura de Sócrates. Pitacos de Mitilene. Mison (de origem obscura) e Anacarsis (filho de um rei bárbaro e de uma grega) Jorge Barbosa É importante salientar que. Proclama alto e bom som que não sabe nada.   Domingo. a sua natureza é ambígua. Estranha figura a deste homem cuja missão consiste em acordar os homens para a consciência de si mesmos. justamente. Mas para tender para aquilo que nos poderia preencher. Sócrates apresenta-se como aquele que dramatiza na sua pessoa a resposta a esta interrogação. Não tem a perfeição dos deuses. é porque o soberano bem da vida não é oferecido aos homens como uma dádiva do céu. Sólon de Atenas. é projetar-nos para objetos ou para finalidades das quais depende a realização da nossa existência. É certo que aquele (Sócrates) que. [“Eu que garanto só saber a respeito do amor” Banquete 177d]. Exorta-os a conhecerem-se a si mesmos. mas tende para ela. Viver. Setembro 2013 4 . esta revela-se ser a de um ser produzido pela energia do desejo. O desejo é sinal de uma falha. Embora questione os homens que se cruzam com ele na praça pública sobre os grandes assuntos que deveriam preocupar a consciência humana. era constituída por Tales de Mileto. Reconduzido à sua verdade existencial. O seu verdadeiro nome é felicidade. o filósofo anuncia claramente que não é um sábio. Bias de Prieno. Não compreende que possa ser agraciado com essa honra. diz ele. o saber do Eros (o amor-desejo). Periandro de Coríntio. Chilon de Esparta. Só sei que nada sei. Jorge Barbosa. portanto. A figura do filósofo. Ferecides de Siros. pois não se deseja o que se possui. Acontece que não há felicidade possível sem a compreensão daquilo que nos pode fazer felizes e sem que sejam ativados os meios apropriados a essa compreensão. pois se há alguma coisa que o distingue dos seus concidadãos é certamente a consciência da sua ignorância.. o desejo filosófico ou o desejo de sabedoria é no fundo o saber e a sabedoria do desejo. portanto. Epiménides de Creta. Isto significa que um ser de desejo é um ser privado da plenitude dos deuses. ao apresentar-se como alguém que gosta de saber. ao mesmo tempo pobre e rico.O que é a Filosofia I)    O filósofo não é o sábio. O φιλοσοφός (filósofo) não é o σοφός (sábio). que esses sábios fossem em número de sete. A lista dessas sete pessoas tinha sido determinada pelos sacerdotes de Delfos (segundo o oráculo) em 585 a. de que ele se considera um arquétipo. 15:01 Recordemos que o número sete era considerado o número da sabedoria. pois só aquele que tem a inteligência da sua miséria está em condições de a superar. Embora possa variar segundo os historiadores. A tradição pretendia. precisamos de ter consciência dessa falha e neste sentido o desejo é rico. nem por isso se apresenta como conhecedor das respostas às suas perguntas. para cada um de nós.C. é desejar. Cleóbulo de Lindos (em Rodes). Sócrates é. essa lista. a refletir sobre o mistério da sua condição. Por esta razão. surge historicamente em contraste com a do sábio. de uma pobreza ontológica. de acordo com Diógenes de Laércio.

A paixão. Setembro 2013 5 . Os antigos usavam duas palavras para designar as duas dimensões da sabedoria: Sophia para o saber ou sabedoria teórica e Phronesis para a sabedoria prática ou prudência. pela serenidade. a sabedoria é definida pelos antigos como o método da vida boa e feliz. O nosso fim supremo é o sucesso da nossa vida. e vejamos um pouco melhor o que devemos entender por sabedoria. os ideais tradicionais da sabedoria deixam de parecer fora de moda. Num primeiro sentido. O que está em jogo na filosofia não é um simples exercício intelectual. a antifolosofia. não nos deixemos cair na ratoeira dos preconceitos do momento. Pouco importa que vejamos claramente que aqueles que se consideram anticonformistas acabem por ser o cúmulo do conformismo. Esta distinção entre polaridade teórica e polaridade prática da sabedoria é puramente especulativa pois os dois ideais implicam-se mutuamente. as exaltações sociais ou pessoais revestem-se de maior prestígio numa sociedade do espetáculo do que as sóbrias virtude do filósofo socrático. a felicidade. isto é. na violência das paixões ou no desregramento do comportamento. Por isso. É inútil pensar que podemos conduzir bem a nossa vida sem sermos esclarecidos. o delírio. Procedendo deste modo. temos de admitir que a sabedoria não corresponde a um ideal muito em voga. só que sem a sabedoria não conseguiremos alcançar essa realização plena. a alienação de si mesmo. o termo remete para uma certa maneira de conduzir a vida. Num segundo sentido. II)    Análise do conceito de sabedoria. pelo acordo consigo mesmo e com o mundo: a sabedoria corresponde então a um ideal prático. nos tempos que correm. Jorge Barbosa. o termo sabedoria pode ser sinónimo de saber: filósofo é aquele que gosta de saber e a sabedoria corresponde a um ideal teórico. Em todo o caso. conferem à filosofia uma dimensão existencial. O filósofo é aquele que procura uma postura existencial marcada pelo sentido da medida. A moda está em tudo o que é “contra” ou “anti” (a contracultura. pelo contrário é o nosso ser e a nossa vida naquilo que é o mais importante para nós. a anti-arte).O que é a Filosofia A sabedoria não é de forma nenhuma a finalidade da existência. a sua realização. À primeira vista. ou que sejamos capazes de exercer o nosso pensamento com retidão. Nem por isso.

uma vez que todos o têm. Ora se entendermos a ignorância pelo seu carácter insensato. 1)       Pensamento imediato. O pensamento é. por natureza. É como um vento forte que varre o conforto intelectual. o que é que pensamento quer dizer. Por esta razão. mas podemos questionar-nos sobre se não levam ao limite uma desordem mais compreensível num hospital psiquiátrico do que em qualquer outro lugar. pois estamos habituados a opor o saber à ignorância e não àquilo que é a ausência de sabedoria. com efeito. acreditamos então que há pensamentos “loucos”. aberrante. Neste sentido. a baixeza e a vulgaridade. Todos. É que a grande viragem a que se chama filosofia muda tudo. vivem num mundo de significados e de valores. irrefletido. pensamento filosófico. para retomar uma fórmula de paternidade nietschiana. ou a falta de sabedoria que poderíamos qualificar de “loucura”. O real não é para nenhum ser humano uma presença muda. Estes têm. desde o mais primitivo ao mais civilizado. Havendo comportamentos “loucos”. pelo menos. cujo preço é a solidão no melhor dos casos. O recurso à ideia de sabedoria não é evidente quando o que está em questão é o saber. o filósofo é muitas vezes percecionado como uma ofensa viva por todos aqueles que querem viver no quentinho das suas certezas. Talvez porque tem uma consciência aguda daquilo que ameaça sempre o exercício do espírito. e infundado das representações e do discurso. todos comunicam significados e valores que estruturam a sua relação com o mundo e com os outros homens. e sobretudo a maneira habitual de pensar. temos também de reconhecer que a falta de sabedoria não é monopolizada pelos grandes delirantes. Mas não nos basta ser sãos de espírito para estarmos ao abrigo da ignorância. Mas o que é que isto quer dizer? Tentemos compreender. o homem é um ser Jorge Barbosa. a vantagem de exibir com clareza o seu delírio. teríamos de admitir que todos os homens pensam. E não estão enganados. ou a condenação à morte no caso de Sócrates.O que é a Filosofia A)   A sabedoria como ideal teórico. mas existe nele uma alteridade irredutível. Se pensar consistisse somente neste exercício do espírito ou da mente. o filósofo é um ser singular. Todos os homens. realizado pela língua que falam e pela cultura a que pertencem. é o correlato do seu desvendar. para já. perigoso. da estupidez e da baixeza. Setembro 2013 6 . O mesmo é dizer que todos procuram um sentido. fazem uso da sua mente ou do seu espírito. Vive a vida como toda a gente. da cegueira. subverte os hábitos mentais e envergonha sempre a estupidez.

por instâncias exteriores das quais somos um brinquedo inconsciente. o que corresponde ao que podemos chamar determinismo ideológico. social. É que há uma grande diferença entre o que se pode chamar o pensamento imediato (ou espontâneo) e o pensamento filosófico. Era a isto que Sócrates se referia ao dizer que a vida filosófica era uma Jorge Barbosa. para pensar verdadeiramente. isto é. A criança fala. Atualiza-se. O pensamento verdadeiro realiza-se sempre como pensamento do pensamento. o pensamento é o porta-voz de significados que o aprisionam. na situação singular deste ou daquele grupo. mas. Deste modo. ou pensamento muito simplesmente. na medida em que aquilo que pensamos é a caixa de ressonância de representações construídas em nós pela educação que recebemos e pelo ambiente cultural a que pertencemos. histórico. e por aprendermos a falar uma língua particular. Constitui. Com efeito. sem que tomemos consciência dessa influência. pois as palavras de um doente mental. O primeiro corresponde à alienação dos domínios da mente e da moral.O que é a Filosofia pensante porque é um ser que fala. nenhuma criança é autor de uma obra filosófica. não são completamente destituídas de sentido. Setembro 2013 7 . mesmo nas suas condições patológicas. Marca o momento em que o sentido deixa de ser aceite como um significado recebido. para se transformar num significado problemático. portanto. através da palavra. é próprio da condição humana. que se saiba. o outro corresponde à reapropriação desse domínio. como movimento de retorno ou de reflexão da mente sobre si mesma. O pensamento filosófico desenvolve-se sob o signo da atividade ou da ação humana. Funciona no interior de um sistema de representações que o influenciam. Estes pensamentos são fabricados. por muito delirantes que sejam. como reflexão crítica sobre o que até então era evidente. é errado pretender que somos o sujeito ativo dos nossos pensamentos. independentemente da nossa iniciativa intelectual. na sua forma imediata. de forma a submeter as suas produções a um exame racional. Absorvemo-los com o leite materno e ao longo do nosso desenvolvimento pelo simples facto de estarmos imersos num contexto familiar. O pensamento imediato desenvolve-se sob o signo da passividade. Foram tão bem interiorizados que se solidificaram sob a forma de hábitos mentais que se impõem com uma tal evidência que se constituem em obstáculos internos à atividade pensante. Daqui segue-se que. o pensamento é menos da ordem do pensado do que da ordem do não pensado. portanto. pois nenhum língua é uma descodificação neutra da realidade. Quer isto dizer que não pensamos como respiramos e que não basta dispormos de um espírito ou de uma mente para pensar verdadeiramente. Todas analisam o real de acordo com interesses e com tradições. No entanto. O pensamento não é monopólio de ninguém. durante milénios muitos homens viveram sem saberem o que é que “pensar” quer dizer. um ponto de ruptura entre um antes e um depois. por outro lado. não basta usar o espírito.

acompanha o homem em todas as épocas e em todos os lugares. cujas ações estão no princípio das coisas tal como elas são. que. Este preconceito idealista contribui para ignorar que a capacidade para iniciar uma relação crítica com as verdades comuns está associada a condições históricas particulares. As narrativas míticas desempenhavam a função de dar resposta a estas questões. Pelo contrário. da qual se pode dizer que não nos conseguimos libertar só por termos um espírito ou uma mente capaz de nos garantir essa libertação. Com efeito.C. e forneceu às sociedades humanas o cimento ideológico indispensável para a sua coesão. em vez e no lugar da razão. Este nascimento testemunha que a aventura humana não está substancialmente ligada à aventura filosófica. o pensamento racional. a sua verdade não está sujeita a discussão. a vocação do pensamento mítico era produzir inteligibilidade. esse. Tal como a ciência e a filosofia. é fundamentalmente diferente do modo de pensamento racional. de compreender de onde vêm e para onde vão. de estabelecer regras de convivência coletiva. sob pena de grandes desordens cósmicas e sociais. Jorge Barbosa. a aventura humana está ligada ao pensamento religioso ou mítico. Esta conquista é acompanhada na cena social por profundas transformações. Para a humanidade em geral. Têm ainda uma característica muito própria: é que as narrativas míticas não se apresentam como criações humanas. Concede um grande espaço ao imaginário. os homens sempre tiveram necessidade de tornar inteligível a sua experiência. O pensamento mítico precedeu. se nos lembrarmos que a filosofia nem sempre existiu. na Ásia Menor no século VI a. e tal como devem continuar a ser. que o “logos” (o discurso racional) é aquele que se constrói a partir do mito e em ruptura com ele. recolhidas por iniciados que detêm a autoridade sobre o grupo a que pertencem.O que é a Filosofia espécie de segundo nascimento. que se conserva ainda bem vivo para uma grande parte da humanidade. sem os quais nenhuma vida humana seria possível. então. mas como revelações divinas. Daqui decorre. Setembro 2013 8 . Forneceu aos nossos mais longínquos antepassados os significados e os valores. Nasce em Mileto. Com efeito. na justa medida em que os significados são transmitidos no modo de uma tradição sagrada. Mas é claro que este modo de pensamento. A submissão às verdades religiosas é uma submissão a uma tutela teológicopolítica. é claro o que se quer dizer. então. como também não se discute o poder dos guardiães do templo que as impõem. E isto vale tanto para toda a humanidade como para cada homem particular. Faz intervir nas suas explicações a crença em seres sobrenaturais.

para que alguns disponham deste tempo livre. sendo a mais excelente de todas a atividade pensante. Está ligada.O que é a Filosofia 2)      As condições da emergência do pensamento filosófico. os homens não têm a liberdade para fazer da busca da verdade um fim em si mesmo. quando começaram a procurar uma disciplina deste género. antes de ser capaz de lutar pelas finalidades que lhe são próprias. Antes de mais. e. é necessário que outros trabalhem para satisfazer as necessidades da vida. o homem realiza a função que o distingue do animal e o define na sua humanidade. Foi uma sociedade esclavagista que. pela necessidade de satisfazer as necessidades animais. nem sequer considerar que a valorização da vida teorética pelos gregos é puramente ideológica. nós não temos nesta investigação nenhum interesse que lhe seja estranho. Não têm nem tempo nem disponibilidade mental para isso.). antes de ser um escândalo social. Pelo contrário. quase todas as necessidades da vida e as coisas que interessam ao bem-estar estavam satisfeitas. na inconsciência do seu próprio determinismo. a dedicar-se a tarefas que não são fins em si mesmas. “Assim. por natureza. Os gregos antigos chamaram-lhes atividades liberais. abrigar-se. E o que se passou é prova disso mesmo. Concluo que. esgotando as reservas imensas das suas colónias em mão de obra útil à sua prosperidade. vestir-se. Se não fosse assim. manifestamente. a uma organização social desigual. A humanidade está condenada a resolver o problema da sua sobrevivência. e os homens consagrar-se-iam às atividades que são dignas de um homem livre. portanto. Setembro 2013 9 Considerase ideológico todo o sistema de representações que só tem valor teórico de fachada e que só reflete. uma consolidação da atividade pensante. devemos compreender sobretudo o sinal de que as atividades utilitárias relacionam-se. etc. a existência desenvolver-se-ia na liberdade. proteger-se. Neste sentido. por um lado. portanto. a alienação material é uma característica própria da condição humana na medida em que é coagida. ao filosofar. Tal como consideramos livre aquele que é um fim para si mesmo e que não Jorge Barbosa. o tributo que a humanidade tem de pagar pelo facto de fazer parte da animalidade. por outro lado. Pois. convém ter consciência de que. Não devemos ver. à riqueza de uma sociedade capaz de fazer surgir uma classe de homens que têm a liberdade de colocar a si mesmos problemas teóricos. nesta verdade histórica perturbadora. porque. um contexto socioeconómico com a função de o justificar Jorge Barbosa: . pois. O trabalho é. embora tenha sido para escapar à ignorância que os primeiros filósofos se dedicaram à filosofia. a filosofia é um luxo. se a sua natureza fosse puramente espiritual. como pretendem aqueles que só conseguem ver nos seus valores a expressão e a justificação de uma situação de interesses instalados. inventou a filosofia. a)      Condições materiais de natureza económica. com a servidão. mas somente os meios para atingir fins impostos pela natureza (comer. enquanto os recursos do espírito estiverem comprometidos com a resolução de problemas práticos. é evidente que procuravam o saber pelo saber e não como um fim utilitário.

Quando os espíritos esclarecidos são condenados ao silêncio. se protege de todas as críticas pela intimidação. Não surpreende. a humanidade reapropria-se do poder que tinha sido. por conseguinte. São heterónomos. que faz. enquanto o exercício livre do espírito é motivo de prisão ou de morte. Prova disso é o facto de um grande número de sociedades antigas terem sido prósperas sem terem tornado possível o surgimento da filosofia. ou nos libertamos coletivamente das superstições. enquanto a fonte de sentido e da lei foi a instância divina. Não conseguimos pensar sozinhos. isto é o poder de instituir o seu mundo. que se apresenta sem alternativa. pois só ela é um fim para si mesma. É a troca. a sua discussão que permitem que cada um faça um uso fecundo da razão. enquanto for tabu pôr em dúvida as verdades reveladas. Pode ser privilégio de alguns favorecidos pelos deuses. muito mais do que um assunto pessoal ou privado. ou então mantemo-nos numa situação de menoridade intelectual e moral. assim também esta ciência é a única de todas as ciências que é uma disciplina liberal. pelo terror. o sagrado governa o profano. um direito consagrado na relação política.O que é a Filosofia existe para outro. votados à clandestinidade. Livro A. No entanto. os homens não tinham a liberdade de ser os autores da sua aventura. Vrin. a circulação das ideias. Tomo1. não basta libertar-nos da dependência do trabalho para termos tempo livre para pensar. a ser o autor da sua história. a covardia e a preguiça da maioria. Recebem a sua lei do alto ou de qualquer outro lado. ou pela redução dos homens à pobreza. A filosofia implica uma sociedade. O invisível reina sobre o visível. b)    Condição política. mas não faz sentido sobrestimar as capacidades de um espírito solitário. p. Esta reapropriação do poder político marca a entrada das sociedades no regime da historicidade. imputável às estratégias de domínio daqueles que pretendem salvaguardar o seu poder e. Com efeito. o direito a discutir a lei.” Aristóteles. atribuído aos deuses. quando um pensamento único. A Luzes e o seu progresso são uma tarefa coletiva. Por outras palavras. portanto. na qual os sábios e os pensadores possam fazer um uso público da razão. Metafísica. a liberdade de pensar é um logro. Com esta invenção. 9. que a sociedade que inventou a filosofia tenha sido também aquela que inventou a democracia. O homem arcaico vive a sua história anulando-se. os espíritos não têm condições para se libertar do obscurantismo em que estão encerrados. até então. da possibilidade de exercer o espírito de maneira autónoma. Pois. Os homens reivindicam o direito de decidir as regras da sua vida coletiva. Implica que os significados e os valores sejam discutidos num amplo debate público. Faltavalhes a condição política. Todos os seus Jorge Barbosa. Setembro 2013 10 .

portanto. como faz Jan Patocka. Confundimos facilmente a liberdade do pensamento com a liberdade de opinião. opinar não é pensar. que foi iniciada pelos Gregos. de participação. sendo a liberdade política necessária para pensar livremente. Esperam da filosofia sobretudo satisfações narcísicas. uma situação de crise: crise do sentido. interpretam o criticismo filosófico como uma oportunidade para fazer valer as suas opiniões. 1985.. Não será esta a prova de que. Atenas condena o filósofo a beber a cicuta. Os alunos do ensino secundário são. Para além desses poderes. nem um totalitarismo. outros ainda mais temíveis. Acreditam ingenuamente que a liberdade do espírito é um dado. é uma democracia. oportunidade disso. por serem internos ao pensamento. É que para compreender o nascimento da filosofia temos de compreender também que as condições materiais e políticas não são suficientes para explicar a intencionalidade filosófica. pelo contrário. Em 399 a. raro e perigoso como mostra o destino de Sócrates. o governo ateniense não é nem uma tirania. muitas vezes. Quanto mais os homens sentem prazer em ouvir dizer que são livres de pensar. destruição do sentido recebido e dos parâmetros tradicionais. As condições intelectual e moral são tão difíceis de explicitar como de pôr em prática. Setembro 2013 11 . de repetição do passado fundador.O que é a Filosofia Le désenchantement du monde. o surgimento da filosofia traça uma fronteira entre o que se pode chamar. Gallimard. ela não é suficiente? Outros poderes alienantes entram em jogo em sociedades democráticas. A atividade pensante implica. uma vez que. a “condição pré-histórica” da humanidade e a sua “condição histórica”. mas. nada é mais raro nos homens do que um autêntico espírito filosófico. Ora. mais lhes é penoso ter de se libertar daquilo que torna essa liberdade ilusória. c)      Condição intelectual e moral. e. quando na verdade só pode ser uma conquista. São ainda indispensáveis condições intelectuais e morais. Com efeito. durante algum tempo. muitos acreditam que ser livre de pensar consiste em pensar o que se quer. como todos sabemos. têm de ser ultrapassados. Terão. Ora. Como diz Marcel Gauchet. Jorge Barbosa: actos são ritos de comemoração. como niilismo e como reivindicação de uma autonomia anómica? Claro que não. Jorge Barbosa. Todos os homens têm opiniões. como triunfo dos arbítrios individuais. testemunhas vivas disto mesmo.Quer isto dizer que a filosofia se realiza como anarquia intelectual e política.11. as condições intelectual e moral dependem da iniciativa pessoal. p. garantidas as duas primeiras (económica e política). espontaneamente. mas poucos são aqueles que pensam. se tudo correr bem. Este é um paradoxo que surpreende muito mais gente do que aquela que pode sentar-se comodamente num autocarro.C. “A religião é o enigma da nossa entrada em marcha-atrás na história” Neste sentido.

mas retorno sobre si e desenvolvimento das potencialidades da interioridade espiritual. Um sujeito pensante é um ser que renova uma virtude da infância que consiste em lançar um olhar surpreendido sobre o mundo. aquele que confia na autoridade que lhe dá uma resposta. neste sentido. mas sê-lo-ão. Todas as opiniões estão certas? Como poderiam elas estar certas se são contraditórias? . O acto através do qual o pensamento reclama a sua liberdade é. 16:45 Entretiens. É crédulo. assim. Não será impressionante que as respostas dos homens a questões idênticas sejam tão diferentes? Como é possível não nos sentirmos interpelados pela heterogeneidade e pelas contradições das representações humanas? O filósofo Epicteto dizia. por outras palavras. pensar é parar. já não são aquilo que encerram. As respostas comuns. Jorge Barbosa. A atividade pensante não se desenvolve como se fosse um movimento natural. XI. ao mesmo tempo. e esta credulidade cedo o põe a dormir e o torna uma presa fácil de todos os endoutrinamento ideológicos. Os grandes autores não escondem que há nesta tomada de consciência uma vivência desestabilizadora. II. mais do que as deste ou daquele?” Espantar-se é o mesmo que romper com o que é familiar. pelo menos as nossas? E porque não as dos Sírios ou as dos Egípcios? Porquê as minhas. a)      A capacidade de se espantar ou de se maravilhar. Sobretudo quando tomamos consciência da sua multiplicidade e da sua diversidade. A atividade pensante também não é expansão e exteriorização existencial. deixou de o ser. a curiosidade ou desequilíbrio (como dirá Piaget mais tarde) são o oposto da inércia intelectual. vulgares. E quais são essas exigências? É o que temos de ver agora para aprofundar a conversão intelectual e moral que a atividade pensante implica. Esta inércia faz triunfar sobre as questões o conforto das respostas recebidas. rompendo simultaneamente com a ingenuidade e a passividade. Na verdade. pelo contrário. 3)      As características do espírito filosófico. é ter a experiência de que o que. até então. . A criança é alguém que interroga com a vivacidade de um espírito curioso e. mas. Porque é que existe alguma coisa e não nada? Porque é que as coisas são como são e não de outro modo? A surpresa. “Este é o início da filosofia. era evidente.O que é a Filosofia O acto de pensar obedece a certas exigências. o espanto. inseparável de uma certa atitude mental que define o que é próprio do acordar filosófico. aquilo que suscitam.Portanto nem todas são certas. O despertar intelectual tem de singular o facto de reencontrar a disponibilidade da infância para o questionamento. Setembro 2013 12 Jorge Barbosa Domingo. que o que dá início ao esforço de pensar é menos o enigma do mundo do que as contradições das opiniões humanas que pretendem resolver esse enigma.

Pois como posso saber se o que digo é verdadeiro. como diz Kant. Então a indiferença da maior parte dos homens perante o conflito de opiniões testemunha que já fizeram o luto da verdade. de uma época para outra. embora nem por isso deixem de ser certas para quem as enuncia. isto é. a coerência exige que não se acredite em nenhuma. preconceitos. neste sentido. Setembro 2013 . Será por preguiça ou por covardia. É opinião toda a afirmação que não tenha sido submetida a um exame crítico. que a verdade já está morta? De modo nenhum. Como é possível que os homens se acomodem tão bem à contradição das respostas dadas a uma mesma questão? Há aqui um duplo escândalo para o espírito: • Em primeiro lugar. É recebida como verdadeira sem que nos preocupemos seriamente com saber se esse enunciado é verdadeiro ou falso. que nenhuma seja verdade. Estranho paradoxo: quanto menos uma ideia é questionada no seu valor de verdade. o escândalo do conflito de opiniões. ideias feitas. para examinar só com os nossos recursos o que é que eles têm que justifique a sua pretensão a ser verdadeiros. se nos respeitarmos a nós mesmos. é a este tipo de crenças que os Gregos chamaram doxa. e este é o segundo escândalo. se pode haver verdade alguma. Acreditamos que são verdadeiras. e que podemos traduzir por opinião. mais do que comprometer-se na aventura da busca da verdade. mas não sabemos se existem razões para acreditar nelas. Mas o que nos pode deixar perplexos é que que a necessidade de distinguir o verdadeiro do falso não se imponha imperativamente em sociedades onde se exprimem as opiniões mais diversas e mais contraditórias. Não podemos. Esta requer coragem e que nos aventuremos a deixar de nos alienarmos nos conteúdos de pensamento que estabelecem a nossa heteronomia. ideias “a priori”.O que é a Filosofia angustiante. que a maior parte dos homens não assume esta responsabilidade do espírito? Renunciam a servir-se do seu entendimento e parece que se satisfazem com a sua menoridade intelectual. O segundo escândalo é o que corresponde à inconsequência humana em reivindicar a verdade para enunciados que não tenham legitimidade a uma tal pretensão. Duas proposições contraditórias não podem ser simultaneamente verdadeiras. A necessidade de de as submeter a um exame racional é um imperativo para quem queira alcançar a verdade. Todas as nossas primeiras ideias são. ela não pode variar de indivíduo para indivíduo. Que esta satisfação exista num contexto social em que a pluralidade de opiniões não é um direito de cidadania. de um grupo para outro. mais ela se reveste do prestígio de ser verdadeira. Onde haja várias verdades. para o seu adepto. enquanto não me der ao trabalho de verificar se tenho razão em acreditar nisso? Ora. opiniões. Pois. Porque será que tão poucos homens se sentem na obrigação de proceder a este exame? Isso significa que a maioria dos homens renunciou a pretender a verdade?. A opinião 13 • Jorge Barbosa. portanto. Impossível ficarmos indiferentes a ele. ainda podemos compreender. Reencontrar a tranquilidade do significado recebido. É grande a tentação para abandonar a tarefa iniciada. submetê-las a sólidas razões teóricas. e se a preocupação com a verdade for uma exigência essencial da razão humana.

São prisioneiros de um falso saber. sem reservas. pois corresponde a um estado de espírito que adere a um conteúdo de pensamento que acredita (ou sabe) que é verdadeiro. de forma que faltava dedicar-me. A violência inerente à convicção destrói as condições de possibilidade de um verdadeiro diálogo entre os homens. Esta é a razão pela qual o acto fundador da filosofia é. e tornar-se disponível para uma verdadeira pesquisa da verdade. do sectarismo típico dos compromissos ideológicos. Duvidar consiste em deixar de de estar submetido ao poder de uma certeza. o mesmo que despertar de uma espécie de sono dogmático. Ou os confortamos nas suas convicções. esforçase por desestabilizar os seus interlocutores. “Só os tolos e as ostras aderem”. que me apercebi de que. desde os meus primeiros anos de vida. para Descartes. Nada é pior do que a adesão massiva. que nem se dão ao trabalho de refletir sobre elas. Ora. Deixamos de nos colocar numa estratégia de poder. quando nos espantamos de novo. ou os ignoramos. Reencontrar a faculdade de nos admirarmos é. Esta relação com as ideias é própria do fanatismo. onde o desafio é impor aos outros uma verdade de que pensamos ser os titulares. Um espírito absolutamente certo de alguma coisa está privado de toda a possibilidade de recuo para examinar o valor do enunciado que o domina tanto quanto o espírito julga dominá-lo. Ao proceder deste modo. tinha recebido numerosas opiniões falsas. o pior inimigo do espírito não é o erro. Foi a esta tarefa que se dedicou Sócrates na relação que manteve com os seus concidadãos. Setembro 2013 14 . e de que aquilo que fundei desde então baseado em princípios tão mal fundamentados. b)      Espírito de dúvida. a desfazerJorge Barbosa. mas o dogma. a prática metódica da dúvida. por lhes devolver a liberdade que perderam. Não podemos discutir com certos espíritos. Deixa de haver jogo entre o pensamento e o seu conteúdo. tomam consciência da sua ignorância e podem dar início à conversão intelectual e moral de que se falou mais acima. com a nossa própria inconsequência transformamos radicalmente a nossa relação com a verdade e com os outros. Estão de tal modo convencidos de estar na posse das respostas às questões colocadas por Sócrates. De facto. “Há já algum tempo. em primeiro lugar. e. dizia Valéry para pôr em evidência a amplitude da alienação consubstancial a esta maneira de nos relacionarmos com os significados e com os valores. Através da prática da ironia (fingimento de ingenuidade). portanto. que a interrogação socrática faz estalar.O que é a Filosofia é dogmática por natureza. de tal forma que a capacidade para se libertar dos seus malefícios é a primeira vitória do espírito sobre si mesmo. A certeza é uma servidão interior. escreve Descartes. ou batemo-nos para impedir a imposição social do seu ponto de vista. Deixa de haver liberdade. confrontandoos com as suas contradições. por uma vez na vida. sem dúvidas. só podia ser muito duvidoso e incerto.

A dúvida não tem preconceitos sobre a verdade ou sobre o erro do que é posto em dúvida. Pode acontecer que. a verdade do enunciado resista. para fundamentar de novo o que pode ser considerado verdadeiro. 1641. e a começar tudo de novo desde os fundamentos. através de um exame racional no termo do qual a verdade será teoricamente estabelecida ou a falsidade desmascarada. “Exame”é uma palavra já muito frequentemente utilizada. no termo do exame. Normalmente. Ora. afim de se tomar a si mesmo como objeto e de se fundamentar através do domínio das suas operações. Este é o desafio do esforço reflexivo. Restaurar o espírito no papel que deveria ser o seu: o de estar no fundamento dos seus actos. é a relação que aquele que a formula mantém com ela. como se nas crenças humanas nada pudesse ser justificado por argumentos racionais. 20:57: Conferir o tema da opinião verdadeira em Platão. Jorge Barbosa Domingo. São disposições intelectuais necessárias para nos comprometermos no caminho do conhecimento. É incapaz de a fundamentar racionalmente. Daqui decorre que uma verdade teoricamente fundamentada é bem diferente de uma verdadeira opinião. Setembro 2013 15 . de Jorge Barbosa. a exigência do pensamento atualiza-se sempre como uma atividade de libertação daquilo que procede de uma autoridade diferente do espírito. se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”. não é porque sempre se pensou algo que isso é verdadeiro. Mas não basta dizer a palavra para que seja claro o que ela quer dizer. o prestígio do número (somos de modo a que nos pareçam verdadeiras as opiniões partilhadas pela maioria) e o prestígio da autoridade. O espanto. a dúvida não são fins em si. é fazer um retorno sobre si mesmo. que pode ter valor de verdade. não é por Aristóteles ter dito que isso é verdadeiro. Méditations métaphysiques. de Descartes com a dúvida ou de Kant com o projeto crítico. Tal como o raio de luz é reenviado numa outra direção ao encontrar um obstáculo. Quer se trate de Sócrates com a ironia. Isto não significa que o varrimento do pensamento seja uma destruição por princípio. 18:38 me de todas as opiniões que tinha recebido na minha educação. o que faz a força da opinião é o hábito. mas então basearse-á em razões diferentes das que sustentam a opinião. isto é para conduzir um verdadeiro exame. para o pensamento. Será ainda necessário garantir essa verdade. c)      Espírito de exame : reflexividade. Esta é uma distinção subtil que estabelece que o que faz o carácter opinativo de uma afirmação não é o conteúdo. I. Como fazer para conduzir um exame digno desse nome? Examinar exige que procedamos a uma operação de reflexão no sentido óptico do termo. assim também refletir.O que é a Filosofia Jorge Barbosa Domingo. não porque um erro é partilhado pelo maior número de pessoas que ele se transforma em verdade.

no exercício do espírito. Bem/mal. Devemos. justificável ou não? Só a reflexão faz aceder à inteligência aquilo que dizemos verdadeiramente. 21:45 por exemplo: princípios lógicos de identidade. diz Descartes. os sujeitos autónomos dos nossos discursos. mas qual é o valor dos valores que enunciamos? A razão pode fazê-los seus? Confirma-se aqui o que já foi dito: o pensamento filosófico não é um pensamento de primeiro grau. em nós. que a razão tem a sua necessidade e que só aquele que se conforme a ela conduz com retidão o seu raciocínio. etc a fala comum está saturada com estas distinções. Desde que estejamos atentos aos actos do espírito para interrogar o seu fundamento e a sua legitimidade. útil/inútil. Não foi por acaso que Platão mandou inscrever no frontão da Academia: “Ninguém que não seja geómetra entra aqui”. nem de contingências históricas ou culturais. os princípios da razão . Na ausência destes prérequisitos. 510 a). mas a razão. A reflexão faz-nos tomar consciência do que é uma ilusão. sempre que falamos fazemos surgir algum sentido. Embora a razão seja uma faculdade natural. em segundo lugar. mas a afirmação de si mesmo. O pensamento de primeiro grau é uma ausência de pensamento ou um impensado que mantém uma relação imaginária consigo mesmo. convém submetermo-nos primeiro à dura escola das matemáticas. com esta frase. justo/injusto. e sobretudo revelam-nos a dimensão universal da razão. O mesmo é dizer que não podemos esperar dos homens uma verdadeira reflexão filosófica na ausência de uma formação intelectual muito rigorosa. Tem uma necessidade e uma universalidade que é a da razão. Porquê? Porque não está imediatamente na posse de si mesmo. O teorema de Pitágoras não depende do arbítrio do seu inventor. belo/feio. As matemáticas são uma disciplina onde aprendemos a não fazer batota com a razão. Se entendermos por sujeito racional. o sujeito que respeita. Na apresentação que Platão faz do caminho do conhecimento. princípios racionais de razão suficiente . de não contradição. “Começar tudo de novo desde os fundamentos. Nós acreditamos ser os autores. Por exemplo. para termos a experiência de que não podemos dizer o que nos apetece. na imagem da linha (República. a dialética ou filosofia só surge depois. Setembro 2013 16 Jorge Barbosa Domingo.O que é a Filosofia ser o seu autor e o seu juiz. Platão achava que só nos podemos dedicar à filosofia na idade adulta e solidamente armados no plano intelectual e moral. se quiser estabelecer algo de firme e de constante nas ciências”. O mesmo se passa com os valores. cujo desafio já não é a pesquisa da verdade. É significativo que. se queira dizer que não se rompe com a opinião por um truque de varinha mágica. o exame filosófico corre o risco de não passar de um jogo estéril para adolescentes prontos para degradar a crítica filosófica em crítica pela crítica. das impressões sensíveis. Incitam-nos a desconfiar da imaginação. a esfera da inteligibilidade está dividida em duas partes: a primeira é o conhecimento dianoético (matemáticas e aquilo a que hoje chamamos ciências). diz ele. Sempre que falamos fazemos uso de noções que supõem valorizações. ela precisa de aprender para se desenvolver. faculdade comum a todos os homens desde que se conformem às suas exigências. descobrimos que o sujeito do discurso não refletido está longe de ser o sujeito racional. “dar aos adolescentes e às crianças uma educação e uma cultura apropriadas à sua Jorge Barbosa. pode consentir esse sentido? É sensato ou absurdo.

Com efeito. Sócrates dedicava-se a ela com a ironia. Platão fala de purificação e de catarse. pois num sentido profundo. Esta é uma operação dolorosa para a qual é necessário que o sujeito tenha boas disposições naturais. Não utilizam a sua razão para examinar se as definições nas quais baseiam os seus discursos seguem o caminho da razão. portanto. as virtudes intelectuais são solidárias com a virtude moral. Setembro 2013 17 Jorge Barbosa Domingo. a razão é o que faz a dignidade do homem e é aquilo que o homem deve honrar para respeitar a sua própria humanidade. Esta instrumentalização da razão. paixões e interesses. isto é. posição religiosa. o que impede o espírito de se exercer segundo a sua necessidade própria. mas a lógica que aplicam é uma lógica passional. depois quando alcança a idade adulta. O real é refratado na parede dos nossos sentidos. Antes de sermos um ser de razão. cuidar bem do seu corpo no momento em que está em crescimento e em formação. ou se as crenças que defendem têm coerência e legitimidade. em nós. Ela é inseparável da maiêutica. etc. situação de classe. ideológicas. Não é livre para um exercício autónomo pois é instrumentalizada. Punha em evidência que o império da opinião é o império em cada um de nós daquilo que temos de afastar para começar a compreender o que quer dizer pensar. de uma estratégia cujo desfio é o de revelar cada um à verdade de si mesmo. Para ele. Temos desejos. remete para a dominação. mas também a experiência e sobretudo um espírito libertado de de qualquer outra preocupação que não a da busca da verdade. 22:23 République. ao serviço de fins ou de princípios que revelam o imenso poder da nossa parte irracional. afim de o preparar para servir a filosofia. Esta dimensão é a dimensão sensível. ºe verdadeiramente imoral para Platão. reforçar os exercícios que lhe são próprios” Eduquemo-los então para assumir as responsabilidades sociais (obrigações políticas e militares) que ainda falta tempo para se entregarem à filosofia. é inútil pensar que esta tarefa esteja ao alcance dos homens. Se a natureza não ajudar um pouco. de uma dimensão do nosso ser disposta a subverter a nossa razão. A razão é portanto cegada e alienada.O que é a Filosofia Jorge Barbosa Domingo. paixões ou interesses. Somos um corpo no sentido lato e é verdade que este torna impossível uma relação transparente com a verdade. e basta observar os homens para nos apercebermos de que colocam o espírito ao serviço da justificação e da satisfação desses desejos. Raciocinam muito. Mas isso passa por um trabalho de si sobre si que consiste numa ascese: libertar-se interiormente daquilo que nos mantém prisioneiros. que esta é a única autoridade a respeitar e que dedicada ao domínio Jorge Barbosa. . pois esta supõe não só a formação. Trata-se de descobrir que somos uma alma. religiosas. libertar os olhos da alma da prisão do corpo para retomar as metáforas de Platão. vantajoso ou conveniente.). 498c juventude. Utilizam-na para provar uma verdade colocada no exterior da razão por uma instância heterogénea à sua natureza (desejo. históricas. Mas o sentido da ironia não se esgota nesta função crítica. 22:45 Conferir tema de Platão sobre o corpo túmulo ou prisão da alma. somos um ser sensível. A pedagogia de Platão não separa. que já não nos é familiar. interesse. desmascarava a verdade da opinião que consiste em confundir o verdadeiro com o que nos é útil. sociais. a formação intelectual da formação moral. da nossa particularidade empírica com as suas determinações sexuais. Confrontando os seus interlocutores com as suas contradições.

mas estranhos à intencionalidade filosófica.pensamento filosófico. parteira que ajudava a dar à luz os corpos. ainda nos dias de hoje. e todos desejavam inculcá-la.. fazendo-se pagar caro pelas suas lições. Prodicus são grandes representantes do pensamento sofista. onde se instalam periodicamente para ensinar. chamavam-se. aumentando as capacidades intelectuais pelo exercício.. sofistas. por exemplo. E na assembleia do povo. 4)      Pensamento sofista . uma ruptura com o pensamento sofista. ao contrário da caricatura que Platão faz dele. historicamente. Todos são estrangeiros em Atenas. . Sócrates dramatiza a oposição da filosofia à sofística. que Platão põe Protágoras a recitar no diálogo com o mesmo nome. É ela que traça a fronteira entre um autêntico espírito filosófico e espíritos intelectualmente muito poderosos. enquanto ele ajudava a dar à luz os espíritos. Setembro 2013 18 Paideia. §3 du L. Donde a necessidade de desenvolver as competências politécnicas. diz que que se a arte do seu irmão médico é fazer um diagnóstico e prescrever um tratamento.” Dizemos. Sócrates foi acusado de ser um deles e.C. Protágoras mostra que a natureza do homem é produzir cultura. se o especialista militar ou jurídico não Jorge Barbosa. a filosofia emerge de uma dupla ruptura: • • No século VI a. esclarece ele ainda “que eles foram os fundadores da ciência da educação. uma ruptura com o pensamento mítico.C. ele comparava a sua arte à da sua mãe.O que é a Filosofia de si mesma. na época de Sócrates. a de Górgias. tal como Platão o apresenta nos seus Diálogos. é templo da verdade. Jaeger salienta que todos têm um ponto comum: “todos professavam a aretê (a virtude) política. beneficiando de um grande poder social. os sofistas são os fundadores do humanismo. aquilo a que se dedica o sofista Hípias cujo objetivo era sem dúvida. Tendo também necessidade de explorar os recursos da fala. Num certo sentido. é a de persuadir o doente a escutar os conselhos daquele que possui a ciência. ensinar as regras gerais das artes (arte=saber fazer). com a escola de Mileto. II. Isto levanos a defender que. 23:58 O ensino dos sofistas é difícil de unificar. a sua arte. segue em larga medida as vias que eles traçaram”. Por esta razão. pois a linguagem é o instrumento do pensamento e a fala. a pedagogia e (…) a cultura intelectual. Criaram. no entanto. Protágoras. Górgias. graças à sua inteligência técnica e moral. Isto é muito claro na narrativa do mito de Prometeu. Esses espíritos muito poderosos. com Sócrates. Jorge Barbosa Domingo. No século V a. o meio através do qual os homens exercem o poder de uns sobre os outros. Hípias. com efeito. 00:02 Ibid. Jorge Barbosa Segunda-feira. Górgias. Talvez seja inútil chamar a atenção para o facto de encontrarmos aqui a condição mais difícil de realizar.

correndo o risco de ser incompreendido pela maioria. “O homem é a alma”. Platão manifesta uma extrema severidade com a paideia (educação sofista). sobre o justo e o injusto. cujas exigências o homem deve respeitar para se colocar à altura da dignidade que ela lhe confere.O que é a Filosofia tiver eloquência. Para o sofista. uma faculdade dos princípios e dos fins. Setembro 2013 . regida pelo conjunto das leis que o determinam. o logos tem uma vocação diferente daquela que lhe é atribuída pelos sofistas. acabará por receber a maioria dos votos. No entanto. a classe social. Só que. Para Sócrates. esses mestres de um novo género. hoje. quando Sócrates fala da razão. a razão é uma instância particular. na qual Protágoras pretende circunscrever a natureza humana. O que é que ensinava Protágoras de tão típico para a nossa modernidade? Defendia que “o homem era a medida de todas as coisas”. Com efeito. a razão é uma faculdade subordinada. o homem é dotado da capacidade de transcender estes limites para aceder a um horizonte de universalidade. portanto.Sócrates. no relevo atribuído às técnicas e à linguagem. e. Esta crítica incide sobre dois pontos essenciais: por um lado. o sexo. Este é o ponto essencial onde o espírito filosófico se afirma na sua originalidade. Acusa. especialista em oratória. atribui-lhe um significado muito diferente do de Protágoras. O diferendo aparece claramente na oposição Protágoras . o demagogo. lnão sendo um simples instrumento. o sofista sabe falar de uma arte que não possui. no Sofista. Se esta afirmação quisesse dizer que só a autoridade da razão humana poderia decidir sobre o verdadeiro e o falso. sendo que o exercício da razão não escapa a esta determinação. Protágoras parece ter saído a ganhar ao longo da história. e no conflito que opõe os dois. o homem tem uma especificidade metafísica e moral. os dois atributos da natureza humana. diz Sócrates. apesar de utilizarem frequentemente o nome de educação para aquilo que propõem. Num caso. o homem é um simples ser reduzido à sua particularidade empírica. todos os diálogos platónicos põem em cena a alteridade de duas maneira de conceber o homem e a sua vocação. para o outro. de serem “fazedores de prestígios”. A alternativa não apresenta qualquer equívoco: • Para um. A educação sofista baseia-se. de que a razão é uma prova convincente. para querer dizer que a razão define uma dimensão de superioridade ontológica irredutível à dimensão empírica. no outro caso. o homem é uma simples realidade fenoménica entre todas as outras. Platão reprova-lhes o facto de serem fazedores de opinião e de não se preocuparem com uma autêntica educação intelectual e moral. tal como antes. o temperamento. os homens sentem-se mais próximos de Protágoras do que de Sócrates. por outro lado. sobre o bem e o mal. É um simples meio de argumentação e de raciocínio ao serviço das paixões e dos interesses de uns e de outros. 19 • Jorge Barbosa. Sócrates não criticaria Protágoras por isso. a situação histórica.

seria a de aprender a tornar socialmente poderosas as ideias mais úteis. uma maioria é sempre uma força. Se. Pensando bem. presa das paixões e dos interesses humanos. Jorge Barbosa. que. portanto. poderia unir os homens num mundo comum. Esta determina. a tarefa dos homens não seria a de procurar a verdade. Quer se queira quer não a razão nunca poderá ajoelhar-se diante do altar da força. Sonha com uma cidade em que o diálogo. com efeito. Se fosse assim. a razão aspira a garantir o seu reino sem recorrer a meios que lhe sejam externos. este mundo comum não é um fantasma de pesadelo. Neste sentido. Protágoras e Hobbes não vêem mal as coisas. agora. a democracia não nos afasta de uma relação de força. Sendo a instância que nos permite representar o direito. entre os homens. Por isso. a opinião subjetivista e relativista em matéria de verdade. A matemática certifica sem reservas essa possibilidade. por vezes. os homens conseguem superar os seus diferendos. Pois parece verdade que. se a verdade matemática fosse. não é tanto pela virtude do exame racional. o filósofo é o homem que chama o outro à razão para romper com a violência ideológica e política. Setembro 2013 20 . os sofistas ensinam a retórica ou a arte de argumentar para serem capazes de defender uma ideia com tanta habilidade quanto a sua contrária. sendo o instrumento de medida comum na matemática. para além dos números e das figuras? O muito realista Hobbes reconhecia que. não poderia desempenhar a mesma função em outros objetos. No entanto. teremos de renunciar à ideia de uma verdade universal e eterna. Feliz instituição esta da maioria que permite superar a violência das discórdias humanas sem recurso às armas. então. Mas. Cada um teria a sua verdade. face às necessidades ou aos interesses da maioria. Por conseguinte. o conflito é resolvido pelo princípio da maioria. isso já o sabemos. e isto passaria pelo domínio da linguagem. como a questão do justo e do injusto. e não é por sermos o mais forte que temos necessariamente razão. estamos. e. conduzido no silêncio das paixões e na ascese dos interesses e dos desejos. Se formos realistas. Que esta prática sofista do discurso é contrária à prática socrática.O que é a Filosofia Se a particularidade empírica for inultrapassável. haveria certas ideias que seriam mais úteis do que outras. a questão é a de saber se conseguimos seguir Sócrates respeitando os seus pressupostos. tantos reais quantos os sujeitos que vivem neles. O conflito de opiniões seria um destino inevitável. Haverá tantas maneira possíveis de nos representarmos as coisas quantos os sujeitos falantes que contactam com elas. Protágoras defende. ensinam uma arte de falar. dessolidarizada com a preocupação da verdade e do valor. A isto podemos chamar uma técnica de poder. mas pela submissão à regra política da democracia. condenados a ver o mundo através do nosso prisma particular. a de se aplicar a discriminar o verdadeiro do falso. as opiniões são soberanas. E tem toda a razão. Porque é que a razão. na medida em que a sua verdade tem uma universalidade que se fundamenta exclusivamente na sua necessidade racional. poderíamos apostar que os homens a discutiriam com uma violência e uma parcialidade comparáveis às de que fazem prova habitualmente. quando os membros de um grupo não se entendem. não sendo possível a razão adquirir qualquer autonomia. No fundo. Embora seja permitido dizer tudo.

e para tentar conciliá-los de modo a que o interesse de uns não seja a desgraça dos outros. mas o acordo dos espíritos no uso da razão. 5)      A sabedoria filosófica como alternativa à violência. por esta via. subvertamos a nossa relação com a verdade e com os outros. são um dado observável. mas de a procurarmos em conjunto. e que. para deixar de confundir o verdadeiro. Com efeito. para determinar as nossas reivindicações justas. nada autoriza a redução do homem à sua dimensão empírica e a negar que ele tem a possibilidade de transcender os limites. como se o que é devesse ser a medida do que pode ser. como poderíamos ter redigido e aprovado uma Declaração universal dos direitos do homem? Não terá sido necessário romper com o cárcere etnocêntrico. com o que parecer ser verdadeiro. denunciar a sua unilateralidade e promover a ideia de valores e significados universalizáveis de direito. mas não significa que devamos aprovar o facto. uma missão de reconciliação dos homens no seio de uma comunidade razoável. O racionalismo das Luzes nasceu em solo europeu. É a honra do género humano.O que é a Filosofia A luta de interesses. uma vez que a sua pedra de toque não são as pretensões de uns ou de outros. de acordo com a norma do espírito. Jorge Barbosa. a violência das oposições. então. tome consciência do seu desejo de se libertar da sua lei. A missão socrática revela-se. quando somos capazes de nos elevar acima da parcialidade dos nossos interesses. segundo a norma dos afetos. É também esse poder da razão que entra em jogo. Sócrates pede-nos que encaremos a razão como. mas não é a expressão da particularidade da cultura ocidental. Isto é absolutamente incontestável. Setembro 2013 21 . Do mesmo modo. para a questão das quantidades. Pede-nos que façamos amizade através do espírito. para as questões do sentido e do valor. Por outras palavras. a instrumentalização ideológica da razão. Já não se trata de acreditar que estamos na posse da verdade. por pouco esforço que faça. onde os sofistas se esforçam por o encerrar. iniciar uma relação crítica com os valores e com os significados particulares do seu grupo. o equivalente do instrumento de medida matemática. hoje como antes. que todos os amantes da determinação étnica da condição humana consideram inultrapassável de facto e legítima de direito? Foi o poder de transcendência da razão que permitiu a cada membro de uma cultura libertar-se do seu enraizamento cultural. Se não fosse assim. Só a má fé poderia levar-nos a negar que a razão seja em nós um poder de transcendência. é o poder de transcendência que permite que cada um.

190a. diria um pessimista. cujo desafio é superar uma dificuldade teórica. A segunda máxima de Kant é particularmente significativa. não havia necessidade de fazer luz sobre ele. se tudo fosse claro para o espírito humano a ponto de todos estarem de acordo. O pensamento procede. Setembro 2013 22 • Jorge Barbosa Segunda-feira. acentua esta ligação do pensamento com o diálogo. 228. Points Seuil. Freud) para instruir o processo da razão concebida como instância universal e transcendente. sublinhando que para pensar é preciso ser vários em um. Pior ainda. um sentido do problema. Esse já era o debate levado a cabo pelos sofistas. p. afirmando e negando” Théétète. isto é: uma formação intelectual rigorosa. o homem que se distancia de um conteúdo de pensamento. 22:44 O pensamento é “um discurso que a alma tem consigo mesma sobre os objetos que ela examina… Parece-me que a alma. 1972. 2) Pensar colocando-se no lugar dos outros ou máxima do pensamento alargado. não faz mais do que conversar consigo mesma. muito hábeis na arte de lhes conferir alguma verosimilhança. mas sobretudo uma conversão intelectual e moral. III. mas este diálogo de dois-em-um não perde o contacto com o mundo dos meus semelhantes: estes são. • • . porque é incapaz de se Jorge Barbosa. Le système totalitaire. Pois se não houvesse problema inicial. que está ao alcance de todos os seres dotados de espírito. com efeito. 22:50 “Todo o pensamento (…) se elabora na solidão. ao contrário da discussão com o outro. quando pensa.O que é a Filosofia Missão utópica. então. 3) Pensar estando sempre de acordo consigo mesmo ou máxima do pensamento consequente. a não ser quando impôs às sociedades a anarquia racionalista. por questões e respostas num percurso. há quem diga que a ideia de uma transcendência possível do espírito é uma ilusão idealista. Com efeito. o examina fazendo a si mesmo as objeções que os outros poderiam fazer-lhe se estivessem presentes. do mesmo modo. A crise da razão é tão velha como a emergência do seu magistério. Dá ideia de que a razão nunca pôde verdadeiramente impor a sua autoridade e que nunca desestabilizou a autoridade da tradição ou de Deus. • Por outro lado. de que o que é fundamentado na razão. Só duas condições são requeridas: Por um lado. A natureza das paixões é bem mais poderosa no homem do que a sua natureza racional. representados no eu com o qual conduzo o diálogo do pensamento”. Missão difícil. o pensador é. O pensamento é. a convicção de que não podemos ter razão sozinhos. da ambiguidade das coisas e da sua complexidade. A estreiteza de espírito é típica daquele que não consegue libertar-se das suas palas. • E Kant lembra que a ética do pensamento implica três máximas diretoras: 1) Pensar por si mesmo ou máxima do pensamento sem preconceitos. quando as capacidades de argumentação e de demonstração do espírito foram mobilizadas e as ideias mais loucas não deixaram de ter defensores talentosos. Hannah Arendt. Não foi preciso esperar pelos filósofos da desconfiança (Marx. dialógico por essência. é um diálogo entre mim e eu mesmo. Nos antípodas do homem prisioneiro da opinião. mas não impossível. Jorge Barbosa Segunda-feira. também o deve ser em direito por qualquer outro ser que disponha de razão. Nietzche. então. porque se defronta com o problemático. interrogando e respondendo. responderia o filósofo. Por que razão? Platão diz que o pensamento é um diálogo da alma consigo mesma. o que torna possível um verdadeiro diálogo entre os homens não é diferente daquilo que torna possível a atividade pensante.

separado o trigo do joio. 11:03 Segue-se. pergunto eu onde é que vemos isso? Não é seguramente em ti que o vejo. Uma questão pede respostas que o exame conduz a problematizar pacientemente até ao ponto em que. podemos entender-nos sobre verdades comuns. Mais fieis às lições do mestre. não é seguramente em mim que o vês. Os sucessos da reflexividade ou da regressão dialética não devem. o filósofo duvida de tudo exceto das virtudes do exame para esclarecer o juízo e fundamentar racionalmente as verdades. o filósofo é como o cientista. porque. Les Confessions. Ao dizer verdade racional. isto é. que o que tu dizes é verdadeiro. Neste aspeto. qualquer que seja a sua demonstração. que consiste em assegurar a retidão do seu próprio entendimento. A experiência aconselha-nos a ter menos pretensões. XXV. como podemos ver nos diálogos socráticos de Platão. O que não corresponde a um conhecimento menor ou menos importante do que qualquer outro. pois saber isso não é uma ciência menor do que saber o que quer que seja”. Sócrates é mais modesto do que o seu discípulo Platão. como diz Descartes. o percurso filosófico (de resto. que ela desemboca. não é para o substituir pelo dogmatismo filosófico. 35. pois. Pela dimensão aporética do seu discurso. então. por isso. isto é. que o método do pensamento é a dialética ou a arte do diálogo elevada à dignidade de um processo de reflexão. Mas isto não é uma forma de defender o ceticismo. todavia. se descobrirmos que “o conhecimento procurado ultrapassa inteiramente o alcance do espírito humano. um e outro. que a alma pode apreender intuitivamente no termo da ascensão dialética. Jorge Barbosa Ontem. Para este. Se a reflexão nos permite romper com o dogmatismo da opinião. Para isso. Não há um saber absoluto em filosofia. o meio de nos elevarmos dos conhecimentos sensíveis ou opinativos às Ideias ou inteligíveis puros. XII. que o respeito pelos Jorge Barbosa. na imutável verdade que está acima das nossas inteligências”. A unilateralidade do seu olhar. Mas é impossível demonstrar a validade deste pressuposto. enquanto o cientista duvida de tudo exceto da ciência. fazernos esquecer os seus fracassos. com efeito. em impasses teóricos. p. Jorge Barbosa Ontem. Vemolo. que o que eu digo é verdadeiro. um e outro. Pléiade I. Faltalhe a mais elementar sabedoria. por vezes em aporias. um e outro.O que é a Filosofia abrir à alteridade. ela pressupõe o que é para demonstrar. quando vemos. seria necessário que o percurso ou método racional se pudesse fundamentar a si mesmo. Ora. Acontece. em vez de alcançarem uma conclusão positiva. Agostinho. Só que. Um e outro baseiam-se num fundamento irracional que consiste em fazer da razão a única medida em assuntos de verdade. tal como o método científico) não consegue fazer valer-se de semelhante garantia. 10:33 “Quando vemos. mais ignorantes. não nos julgaremos. A verdade é revelação de um “nós” em lugar de um “tu” e um “eu”. Setembro 2013 23 Regra VIII das Règles pour la direction de l’esprit . a dialética é o método da ciência. esses diálogos confrontam o espírito com a sua própria impotência. 1079. a determinação da sua situação condenam-no a fechar-se numa espécie de mitologia pessoal ou comunitária. não se quer dizer verdade indiscutível.

Seria injusto não proporcionar bens aos talentos e aos méritos. socialmente. ou então a propósito do debate muito atual a respeito do casamento de homossexuais. Setembro 2013 24 . Todos podem também pretender o respeito pelas liberdades fundamentais (expressão. podemos defender que uma distribuição justa das honras. Estas antinomias. Neste sentido. cristianismo e islamismo) é irredutível. Este é o risco que corre aquele que se limita a fazer um uso estritamente formal da razão. dos poderes e das riquezas é uma repartição igualitária. a propósito da antinomia do princípio de liberdade e do princípio de igualdade. Um voto vale um voto. pensamento. a cada um deve ser dado aquilo que merece. não. circulação proteção. A pluralidade humana ainda pressupõe outras vias. por exemplo. Todos os cidadãos são iguais em direitos. cada um com a sua legitimidade. seja garantida a igualdade de oportunidades para desenvolver e manifestar o mérito e o talento de cada um. Por exemplo. e considere.judaísmo.). portanto. à Jorge Barbosa. a antinomia das vias abertas por Atenas e por Jerusalém (as religiões de Abraão . em termos filosóficos. aos constrangimentos do real. baseando-se este princípio na ideia de que os homens são iguais em dignidade. Mas podemos também defender que é injusto tratar igualmente seres desiguais em talento e em mérito e que. O princípio igualitário impõe a atribuição dos mesmos direitos e deveres básicos a todos os membros do grupo. Disto é prova a impotência do filósofo racionalista para convencer aquele que desqualifique a razão nessa pretensão. Este uso estritamente formal da razão é surdo à ambiguidade das coisas. Poder-se-ia desenvolver o mesmo tipo de raciocínio. esforçando-nos por as conciliar. independentemente do mérito de cada um na apreciação das condições políticas. Mas podemos compreender razoavelmente que esta igual legitimidade fundamenta a obrigação de respeitar o direito de ambas as reivindicações. Será possível superar o diferendo entre partidários de uma ordem social igualitarista e uma outra hierarquia? Racionalmente. Em todas as atividades. igualmente irredutíveis. exigem de nós razoabilidade. vários princípios podem ser formulados. que só a submissão a uma autoridade divina pode ser uma via para a salvação. Para elucidar uma questão. Estes exemplos sugerem que os problemas são complexos e que o erro consiste sempre em nos fecharmos numa posição unilateral. Estamos aqui em presença de um enigma. mais do que racionalidade. porventura. o que pressupõe que. Os dois têm a sua legitimidade do ponto de vista da razão. por exemplo. pois não nos é possível demonstrar que um princípio é mais racional do que outro. etc. quaisquer que sejam os seus talentos ou o seu mérito. alguns são mais eficazes socialmente do que outros que até podem ser mais talentosos. sobretudo se estes só dependerem da responsabilidade das pessoas.O que é a Filosofia princípios lógicos e pelos princípios racionais são necessários para garantir a retidão do pensamento que os pretenda validar. O princípio hierárquico induz-nos a não nos limitarmos a uma definição abstrata do ser humano e a ter em conta características concretas de uns e de outros.

ainda que racionalmente fundamentadas. mas que é da virtude que provêm as riquezas e tudo o que é vantajoso. pag. A sabedoria filosófica exige. então. Jorge Barbosa Ontem. mais do que a certezas dogmáticas. honrar as suas exigências. sobre os resultados. obrigado absolutamente.O que é a Filosofia Jorge Barbosa Ontem. à exigência moral. o bemestar material também. à altura da qual o filósofo deve ascender. julgar. jovens e velhos. é também agir. quer aos particulares quer ao Estado. A preocupação em sermos racionais não deve dispensar-nos de sermos razoáveis. convém recordar que somos seres dotados de razão e que a razão é o fundamento das nossas obrigações.” (Gabriel Marcel Le déclin de la sagesse. Tal como a sabedoria teórica é a virtude do espírito nas suas operações intelectuais. Jorge Barbosa Ontem. mas não devem constituir o horizonte da vida ao ponto de lhes “Não tenho. o senso da proporção e a recusa de todas as formas de integrismo racional. eis o que o que deveria ser a grande missão do homem. viver não é só pensar. 30b Jorge Barbosa. na Septième lettre sur Kant. sobretudo e mais grave. 21:28 Limitemo-nos. ao andar pelas ruas. As necessidades da nossa natureza animal têm a sua legitimidade. na medida em que esta é. sobretudo e fundamentalmente aquele que percebe os limites da razão. Implica uma espécie de revelação que é sobretudo a dedicação a uma tarefa crítica. a algumas breves considerações. pois noblesse oblige” afirma Alain. 20:52 “A moral consiste em se saber espírito e. não sobre a sua função libertadora da estupidez e da baixeza e ainda menos sobre a sua capacidade para se desenvolver numa comunidade de seres razoáveis. Sócrates não diz coisa diferente desta. que não seja o de vos persuadir. e. o fundamento da dignidade humana e uma instância universal e transcendente. assim também a sabedoria prática é a virtude do homem na condução da sua vida. talvez. este texto sobre a natureza da intencionalidade filosófica correria o risco de ser bem indigesto. com efeito. Cuidar da sua alma. lutar por finalidades que acreditamos poderem trazer-nos felicidade. 20:26 pluralidade humana. que não devemos dedicar-nos mais ao corpo e às riquezas do que ao aperfeiçoamento da alma. projetar-se de um certo modo no mundo. então. recordemos.”Apologie de Socrate. Repito que não são as riquezas que que fazem a virtude. a este título. Nas suas exortações aos seus concidadãos. unidos pela consciência da sabedoria que lhes falta e pela vontade de. Ora. em conjunto. para ele. conhecer. Incerteza. outro objetivo. Setembro 2013 25 . Já compreendemos que o filósofo é o homem que se sente na obrigação de honrar as exigências da razão. Se esta parte fosse objeto de um aprofundamento comparável ao da parte anterior. Nos dois casos. É neste sentido que podemos concordar com Russell quando afirma que o valor da filosofia reside na sua própria incerteza. Estas palavras de Sócrates não devem ser interpretadas como um convite ao ascetismo. “O homem razoável é. 89) B)   A sabedoria como ideal prático.

Por isso Hannah Arendt liga o seguinte preceito socrático: “cometer a injustiça é pior do que a sofrer. é o mesmo que dizer preocupada em não ter de se envergonhar com ela mesma. a moral é uma relação consigo mesmo. Não interessa a forma como esta dualidade é teorizada (dualismo do sensível e do inteligível em Platão e em Descartes. estar de acordo com o nosso juiz interior. ou estar em desacordo ou em oposição com toda a gente. de fenómeno e do nómeno em Kant).O que é a Filosofia serem sacrificadas as exigências espirituais e morais e de comprometer os bens superiores da existência humana que são a liberdade. Setembro 2013 . Antes de ser uma relação com os outros. no plano prático. O erro tem origem sempre na subversão da exigência razoável de uma lei diferente da nossa. pelo menos eu preferiria sofrê-la a cometê-la”. naquilo que faz a sua superioridade ontológica. Não tendo nascido tão pouco para se conformar à ignorância e à menoridade intelectual. tal como a virtude do olho é ver bem. a uma outra afirmação: “mais me valia servir-me de uma lira dissonante e mal afinada. o homem só tem de obedecer à lei que lhe pode ser dada pela sua razão. Trata-se de viver em boa companhia connosco próprios. Para eles. Os gregos chamam virtuoso àquele que realiza a sua missão de forma excelente. Assim. Uma não se desenvolve sem a outra. do que 26 Jorge Barbosa Ontem. Reconhece-se aqui o imperativo categórico tal como Kant o enuncia. O essencial é compreender que não podemos viver em paz na contradição interior e no desprezo por nós mesmos. dirigir um coro desafinado. As palavras de Sócrates visam incitar cada um a dar ordem ao seu ser e à sua ação. então. É essa a sua tarefa. 22:07 Gorgias. o melhor e o mais justo. Umas e outras virtudes supõem a coragem de preservar. em todas as ocorrências da vida. os valores do espírito: a verdade no plano teórico. Esta preocupação em dar uma expressão razoável à parte irracional da sua natureza é típico daquele que ama a sabedoria. Assim se compreende que a sabedoria teórica e a sabedoria prática são interdependentes. das paixões ou dos interesses. assim também a virtude do homem é desenvolver a sua faculdade razoável na sua excelência. Temos. 469c Jorge Barbosa. quer se trate dos desejos. cada ser da natureza tem uma função que só ele pode cumprir. afim de projetar em si e fora de si a face da natureza humana. de onde decorre este imperativo. Só a reflexão nos liberta da loucura e torna possível uma vida boa e feliz: • Boa. a felicidade e a moralidade. sob a forma das virtudes intelectuais e virtudes morais. é a de um ser que tem que viver com a testemunha interior que cada um traz em si. de nos libertar da escravidão da nossa natureza sensível. para simultaneamente potenciar o exercício do espírito e libertá-lo da cegueira das paixões e potenciar a sua forma de ser obstáculo à violência e indignidade. dualismo da natureza e da liberdade. A experiência comum. aquele que encarna o ponto de vista do universal e que pergunta sempre: “podes universalizar o princípio da tua ação?” “podes querer que todos os homens ajam como tu ages?”.

Não compete aos homens beneficiar da plenitude e da felicidade dos deuses. para os particulares e para o Estado”. somente tender para elas. portanto. 482bc • ser um e contradizer-me” . Ninguém. Setembro 2013 27 . 22:12 Gorgias. correto dizer. mais consigo próprio do que com os outros. aquele que não sabe orientar o seu desejo mais no sentido do que o alegra do no sentido do que o entristece entrega a sua existência às dores da insatisfação permanente. pois. libertando-o dos delírios da imaginação e da sua tendência a não se limitar. Feliz. resgate da desmedida e da falta de lucidez. tal como afirma Sócrates. Se um mundo de celerados é uma ofensa à humanidade é sobretudo porque nenhum ser razoável quer estar em guerra. com efeito. Mas esta conclusão não deve fazer esquecer a mensagem da introdução. sendo que o importante é que nos convençamos de que é a paz moral que condiciona a paz social e não o inverso. que a sabedoria é o método da vida boa e feliz. A felicidade de existir exige temperança. e a experiência filosófica é disso testemunha.O que é a Filosofia Jorge Barbosa Ontem. “é da virtude que provêm as riquezas e tudo o que é vantajoso. O filósofo não é o sábio. tem nada a recear do homem que se esforça por ser sábio. Jorge Barbosa. É. quer dizer preocupada em fazer concordar o seu desejo com o real. Aquele que não sabe gerir o seu desejo.

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