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Os últimos 30 anos de eleições legislativas; perspectivas

para Setembro

Desde a queda do fascismo celebraram-se em Portugal 12 actos eleitorais


para a escolha de deputados para a AR e, em 27 de Setembro, haverá mais
uma versão. Se as firmas de sondagens se enganam a valer por erros
próprios de concepção de amostras e, principalmente, devido à volubilidade
das intenções de voto de muita gente, não seremos nós a ter melhores
condições para fazer projecções.

Por outro lado, não parece estar em risco a preponderância da mafia


bicéfala PS/PSD, pese embora a confirmação de alguma erosão, como se
verificou nas eleições para o Parlamento Europeu. Daí que as próximas
eleições devam constituir um momento de aferição do impasse político que
garante o poder do capital financeiro e dos sectores imobiliário ou das obras
públicas, no exercício do controlo da aplicação das receitas públicas.
Também servirá para se observar a margem de descrédito dos partidos,
através do que se possa chamar de taxa de abstenção. E, finalmente, para
detecção das capacidades de absorção do descontentamento pela esquerda
institucional ou pela direita xenófoba.

No que respeita ao provável crescimento da esquerda institucional, no seu


conjunto, há várias questões que pretendemos sublinhar:

• A votação vai englobar uma massa significativa de cidadãos que não


tem grandes contactos com esses partidos e não está organizada
politicamente, dado o carácter primordialmente eleitoral da sua
actuação, mais virada à exposição mediática do que ao
enquadramento organizativo. E, portanto essa massa de votantes é,
naturalmente volúvel, podendo involuir para um apoio ao PS se este,
uma vez na oposição, se “esquerdizar” com toda a carga dubidativa
que isso terá, no caso concreto;

• A escassa aposta na organização e na iniciativa militante,


nomeadamente com a mobilização dos sectores sociais mais
vulneráveis – precários, desempregados, jovens, reformados, utentes
do SNS, professores, – não favorece a fidelidade do voto em futuros
actos eleitorais;

• Por outro lado, a aposta deliberada no cenário parlamentar, com uma


quase certa maioria PS/PSD torna pouco profícua essa sede para a
defesa dos trabalhadores e dos pobres face à ofensiva do capital a
continuar pelo futuro governo. E, não correspondendo a esquerda
institucional às expectativas (ingénuas) de muitos cidadãos, estes
tanto poderão engrossar as fileiras dos abstensionistas passivos como
aumentar o número dos que quererão contestar o regime cleptocrático
de formas mais radicais.
• Em suma, o previsível marcado acréscimo da votação na esquerda
institucional - cujo principal mérito cabe ao carácter agressivo e anti-
social do governo socratóide – coloca essa esquerda perante uma
grande responsabilidade e uma enorme pressão, que é a de
corresponder às expectativas do seu eleitorado, utilizando a limitada
arma parlamentar. Mais, terá a esquerda institucional lideranças aptas
e quadros intermédios virados para colaborar na organização da
resistência, através de formas mais ousadas e criativas de luta?

1 - A participação eleitoral

O estudo da série dos resultados eleitorais dos últimos 30 anos ajuda à


comprensão do que representam eleições de deputados em democracia de
mercado e o seu escasso potencial transformador; nas mudanças na galeria
dos vencedores e vencidos, sabe-se que nesse catálogo não está
representada a multidão, os trabalhadores e os pobres residentes em
Portugal.

O quadro seguinte oferece um panorama dos votos não dirigidos a partidos,


onde se incluem aqueles passíveis de serem utilizados nos actos eleitorais e
que deveriam ser os correspondentes a idêntico número de cidadãos que,
por motivos vários, se não deram ao trabalho de uma deslocação ao local
das urnas de voto. Esta designação – urna – não deixa de ser curiosa pelo
que significa de local onde o cidadão enterra os seus direitos na
discricionaridade dos seus putativos representantes.

Tendo em conta o dilatado lapso de tempo, seria normal e correcto começar


pela observação do número de inscritos, como universo de referência que
engloba todos os potenciais participantes nas eleições. Porém, o número de
inscritos não é uma variável fidedigna, dada a má qualidade das
actualizações dos recenseados, verdadeira montra da atenção e do cuidado
com que os governos tratam a democracia.

Conforme se referiu recentemente (v. Eleições europeias 2009 – limitações e


oportunidades), como a eleição de mandarins não é prejudicada pelo
número de abstenções e este, não é considerado um elemento com impacto
castigador no financiamento dos partidos, a classe política não investe na
permanente actualização do recenseamento. Sendo assim, o número de
eleitores tanto pode descer, como subir pouco ou acentuadamente, embora
se mantenha bastante estável em 1995/2005. Tal como se verificou para as
eleições europeias, tudo indica que, este ano, a colheita de eleitores será
abundante.

Uma vez que as taxas de abstenção conduzirão a algumas imprecisões,


sobretudo em periodos de menores correções da base de dados dos
recenseados, o volume de votantes torna-se um objecto mais razoável de
análise. Nesse contexto, observa-se:

• Uma grande estabilidade do número de votantes, apesar do


crescimento de 2,7 M de inscritos durante os 30 anos considerados;
• A crença inicial nas virtualidades transformadoras do sufrágio, após as
restrições e falsificações impostas pelo fascismo, rapidamente se
diluiu, duplicando o número de abstenções entre 1975 e 1976;

• O número de votos nulos nas duas primeiras eleições prendem-se,


certamente com o desconhecimento sobre o preenchimento e,
curiosamente, os votos em branco foram assimilados a votos nulos
nesses dois primeiros actos, embora a sua leitura seja distinta;

• Sobressaem os recordes de votação nas duas vitórias da AD com Sá


Carneiro, em 1979/80 e os crescimentos da comparência nas urnas em
1995 e 2005 quando, respectivamente foi enterrado o cavaquismo e
afastado Santana Lopes;

• Em 2005 o volume de votos em branco duplica, depois de 20 anos


com uma expressão em torno dos 50 mil e, a manutenção dos votos
nulos, num mesmo patamar desde 1987, depois de um periodo com
valores bem mais elevados em 1979/85;

• Mesmo considerando as dúvidas sobre a qualidade do recenseamento,


é nítido o gradual crescimento dos votos não dirigidos a concorrentes
específicos, nomeadamente desde 1999, para mais de 3 M de
eleitores, quando o volume de inscritos se mantêm praticamente
constante.

Milhares
Votos não
Votantes Abstenções Brancos Nulos
Inscritos dirigidos
nº % nº % nº % nº % nº %
1975 6.231 5.712 91,7 520 8,3 0 0,00 397 6,95 916 14,70
1976 6.565 5.483 83,5 1.081 16,5 0 0,00 258 4,70 1.339 20,40
1979 7.249 6.007 82,9 1.242 17,1 43 0,71 121 2,01 1.406 19,39
1980 7.179 6.026 83,9 1.153 16,1 35 0,57 103 1,71 1.290 17,97
1983 7.337 5.708 77,8 1.629 22,2 42 0,74 104 1,83 1.776 24,21
1985 7.819 5.799 74,2 2.020 25,8 49 0,84 97 1,67 2.165 27,69
1987 7.931 5.676 71,6 2.254 28,4 50 0,88 74 1,30 2.378 29,98
1991 8.462 5.735 67,8 2.727 32,2 48 0,83 63 1,10 2.838 33,53
1995 8.907 5.905 66,3 3.002 33,7 46 0,78 67 1,14 3.115 34,97
1999 8.865 5.415 61,1 3.450 38,9 57 1,05 51 0,95 3.558 40,13
2002 8.903 5.474 61,5 3.429 38,5 55 1,01 53 0,96 3.537 39,73
2005 8.945 5.748 64,3 3.197 35,7 104 1,80 66 1,14 3.366 37,63

2 – Os votos dirigidos a partidos

À semelhança do que se fez no artigo sobre as eleições europeias acima


referido, procede-se a um conjunto de observações sobre os votos dirigidos
a partidos, no seu conjunto e, seguidamente, a cada um dos três grandes
segmentos – a esquerda institucional, a direita e a direita xenófoba, embora
o posicionamento ideológico e a prática politica, em todos esses segmentos,
tenha tido naturais variações num lapso de tempo tão dilatado. Mas, em
regra, essas mudanças fizeram-se no sentido de uma maior nitidez no
conteúdo conservador ou reaccionário (no caso da direita) ou, de um maior
conformismo por parte da esquerda.

a) Votos dirigidos a partidos na sua globalidade

Há uma relação muito forte entre a estabilidade do número de votantes e a


do número de votos dirigidos a partidos, tendo em conta a pouca relevância
dos votos em branco ou nulos; isto é, ao aumento dos inscritos corresponde,
essencialmente, um acréscimo dos não votantes.
Votos dirigidos a partidos (milhares)
Ano nº Ano nº
1975 5315 1987 5553
1976 5226 1991 5625
1979 5844 1995 5792
1980 5889 1999 5307
1983 5561 2002 5366
1985 5654 2005 5579

A observação dos dados revela que:

• Em 1979/80 as vitórias da AD devem-se a uma recomposição dos


apoios dos eleitores no seio do sistema partidário e não a um aumento
das taxas de participação nos sufrágios, pois maior número de
votantes reflecte, essencialmente, o aumento dos eleitores, mormente
com a inclusão de retornados das colónias, maioritariamente
apoiantes da direita;

• Em 1983, a experiência do bloco central surge após uma quebra


acentuada quer dos votos dirigidos a partidos quer dos votantes:
estes, numéricamente, situam-se ao nível de 1975 quando o volume
de inscritos era 1.1 M inferior;

• As eleições do cavaquismo (1985/91) correspondem a uma grande


estabilidade do voto dirigido, pese embora o crescimento dos inscritos
em quase 650 milhares;

• As eleições ganhas por Guterres (1995/99), embora no quadro de


grande estabilidade dos inscritos não conduzem a uma grande
mobilização dos votantes em partidos, caindo mesmo quase 400 mil, o
seu número em 1999;

• O retorno do PSD ao governo (2002), com Durão Barroso não altera


em nada quer o número de votantes, quer o daqueles que se
expressaram a favor de uma formação partidária, quer ainda nas
elevadas taxas de abstenção;
• Em 2005, a péssima imagem de Santana e do seu governo provocou
um aumento dos votos dirigidos em cerca de 200 mil, para além da
duplicação dos votos em branco, como atrás se salientou.

b) Votos em partidos de esquerda

O quadro que se segue apresenta os votos dirigidos à esquerda institucional,


com alguns arranjos simplificadores que, naturalmente, não têm em conta
as mutações dos programas políticos verificáveis nos 30 anos de eleições
observados. Convém, contudo explicitar alguns aspectos da agregação
apresentada:

• No conjunto PCP/APU/CDU enquadram-se as várias plataformas


eleitorais encimadas pelo PC e ainda uma formação autónoma que lhe
foi muito próxima, o MDP;

• Sob a sigla BE consideraram-se não só o actual BE mas ainda, para


anos mais recuados, as formações que lhe deram origem, por
sucessivas agregações (UDP, PSR, FEC, PUP, LCI, PC(R) e FER);

• O conjunto dos “outros” é muito heterogéneo, com a presença mais


regular do PCTP/MRPP e do POUS mas, incluindo também, MES, FSP,
PCPML, PRT, UEDS, OCMLP, LST, MUT e PH.

Milhares de votos
ESQUERDA
Total PCP/APU/CDU BE Outros
nº % nº % nº % nº %
1975 1.175 22,1 948 17,8 102 1,9 125 2,3
1976 1.027 19,7 789 15,1 108 2,1 131 2,5
1979 1.410 24,1 1.129 19,3 168 2,9 113 1,9
1980 1.276 21,7 1.010 17,1 144 2,4 122 2,1
1983 1.156 20,8 1.032 18,6 66 1,2 58 1,0
1985 1.059 18,7 898 15,9 121 2,1 39 0,7
1987 854 15,4 722 13,0 102 1,8 30 0,5
1991 630 11,2 505 9,0 77 1,4 49 0,9
1995 621 10,7 506 8,7 72 1,2 44 0,8
1999 671 12,6 487 9,2 132 2,5 51 1,0
2002 586 10,9 380 7,1 154 2,9 52 1,0
2005 869 15,6 433 7,8 365 6,5 71 1,3

A evolução dos votos dirigidos às formações da esquerda institucional induz-


nos aos seguintes comentários;

• A intensa propaganda sobre as virtualidades da via eleitoral para a


construção do socialismo, no periodo que se seguiu ao 25 de Abril
conduziu a que um quinto dos votos dirigidos apoiassem a esquerda
institucional até 1983;
• À quebra de 1976, decerto motivada pela desmobilização forçada pelo
golpe militar de 25 de Novembro, sucede-se a retoma de 1979/80
como reacção à tomada do poder pela AD de Sá Carneiro com o seu
programa agressivo e bipolarizador, de restauração do capitalismo
tradicional;

• Entre 1979 e até 2002 assiste-se a uma erosão do voto na esquerda


institucional, que cessou de se verificar em 2005 e cujo crescimento
se poderá consolidar este ano;

• Para essa erosão concorreram vários factores: momentos de voto útil


no PS, durante o periodo cavaquista e em 2002; ausência de
adaptação da esquerda à “normalização” da democracia de mercado,
com o pantanoso bloco central em 1983/85 e os dez anos de
cavaquismo que se seguiram; alguns benefícios com a chegada dos
fundos comunitários que conquistaram algumas consciências de
esquerda; crença no progresso capitalista, que não sendo abalada com
a recessão de 1993/95, não beneficiou, consequentemente, em
termos eleitorais, a esquerda, em 1995;

• O crescimento recente da esquerda institucional deve-se, por um lado,


à reacção ao dueto Santana-Portas em 2005 e, desde 1999, ao
federalismo aglutinador de diferenças em torno do BE que constituiu
um facto novo e mobilizador à esquerda do espectro institucional.
Note-se que em 2005, há 213 mil votos adicionais em partidos mas,
mais 283 mil na esquerda institucional.

As votações no PC ou coligações onde o partido participa revelam um


grande predomínio no seio da esquerda institucional, até 2005, ano em que
o PC representa, apenas metade do conjunto.

A evolução dos votos no PC apresenta alguns aspectos relevantes:

• A quebra de 1976 terá sido resultante da não participação do MDP e


ainda das sequelas penalizadoras da esquerda após o golpe de 25 de
Novembro de 1975, perante o qual o papel e a atitude do PC nunca
foram claras. Note-se que em 1976 foi a segunda e última vez que o
PC concorreu a eleições legislativas sem integração em coligações;
• A ameaça da direita (AD) em 1979/80 ou do bloco central em 1983,
eleva os votos no PC acima de um milhão e aumenta o seu peso na
esquerda institucional naquele último ano, mercê da grande quebra
das formações à sua esquerda;

• Com o cavaquismo inicia-se um periodo de decrescimento contínuo


que durou 17 anos. Sensivelmente, em 2002, o PC ao atingir a sua
mais baixa marca eleitoral em legislativas, cifra-se apenas com um
terço da sua votação máxima, 23 anos antes; e, para mais, num ano
em que a direita mais conservadora voltou ao poder, o que lhe poderia
ter sido favorável, como polo atraente para o voto de esquerda;
• Em 2005, o PC recupera algum do seu peso eleitoral, no contexto da
duma esquerda institucional francamente crescente, mobilizada
contra o tonto Santana, que nem a direita queria como primeiro-
ministro.

As votações no BE ou nas suas formações originais têm um


comportamento irregular no periodo considerado mas, contrariamente ao
PC, no que se refere ao último decénio, há um crescimento consolidado que
poderá ainda aumentar em Setembro próximo.

• Em 1975/76, as votações na UDP e congéneres ou na LCI (antigo nome


do PSR) quedam-se, em conjunto, aquém das verificadas para os
“outros”, o que deixa de acontecer no futuro;

• Nas eleições vencidas pela AD, aquelas formações acompanharam o


PC na ascensão como na queda, caindo abruptamente nas eleições
que conduziram ao bloco central, em 1983, com a perda do deputado
da UDP, pese embora a experiência parcial e efémera de aliança entre
a UDP e o PSR. Em 1985 retomam algum peso eleitoral e
acompanham o PC nas perdas até 1995;

• É em 1999 com a criação do BE que se observa a viragem ascendente,


curta em 2002 mas, muito acentuada em 2005 quando o PC, força
historicamente dominante na esquerda institucional, fica apenas a 68
mil votos de distância, deixando antever para breve, uma possível
repetição do que aconteceu nas últimas eleições europeias, quando o
BE suplantou o número de eleitores do PC. Essa viragem torna-se mais
previsível dadas as dificuldades do PC em ganhar eleitorado fora da
AML e do Alentejo, contrariamente ao BE e a simpatia de que este
goza na juventude e alguma classe média.

As votações nas “outras” formações da esquerda institucional


apresentam duas fases distintas, uma até 1980 com resultados superiores a
100 mil votos e outra posterior, até 2002 com votações em torno dos 50 mil
eleitores. Os resultados de 2005 e o crescimento observado nas últimas
eleições europeias podem anunciar uma subida consolidada, beneficiando
de alguma recusa de um excesso de institucionalismo por parte do PC e do
BE.

• Em 1975, este conjunto é dominado pela FSP (Frente Socialista


Popular) e pelo MES (Movimento da Esquerda Socialista), que no ano
seguinte sofrem grande erosão. Assim, o PCTP/MRPP, proibido de
participar nas eleições de 1975, compensa parcialmente aquela
erosão, tornando-se a segunda formação em peso eleitoral neste
conjunto, em 1976:

• Em 1979, o PCTP/MRPP passa a ser a principal formação desta área


ultrapassando uma efémera UEDS, de algum modo, herdeira do
conjunto FSP/MES, surgindo, pela primeira vez o POUS a concorrer. É
precisamente o POUS que em aliança com o PST alcança um bom
resultado em 1980, ultrapassando o PCTP/MRPP que, então, decresce;

• Na década de 80 o PCTP/MRPP situa-se com resultados em torno dos


20 mil votos, quase em igualdade com o POUS em 1983/1985; este,
porém, em seguida passa a ter votações muito escassas e o
PCTP/MRPP sobe, de futuro, para um patamar superior aos 40 mil
votos. Assinala-se ainda o surgimento do PH (Partido Humanista) em
1999, com votações crescentes desde então.

O crescimento global da esquerda institucional - apesar da heterogeneidade


de projectos entre as formações integradas sob aquela designação – desde
que não alicerçado em movimentações sociais é frágil e conjuntural, não
constituindo, de facto, uma ameaça para os interesses estratégicos da
burguesia e do capital. Sendo em Portugal, pouco expressivas as
manifestações sociais de protesto, desobediência e contestação, nem muito
densa a rede de conexões das forças sociais anti-capitalistas, caberá às
formações e militantes de esquerda em geral, um papel central de
perspectivação política dos trabalhadores, de acentuação das vantagens da
sua autonomia reivindicativa e de luta e, não subalternizar estas fulcrais
questões ao imediatismo e ao mediatismo da acção parlamentar.

Dificilmente, sem a mobilização da multidão de trabalhadores em geral,


precários, desempregados, aposentados, pobres, se sairá da alternância
putrefacta entre as facções da mafia bicéfala PS/PSD; e só o afastamento do
poder desses gangs constituirá uma mudança qualitativa nas condições de
vida, de trabalho e de bem-estar dos residentes em Portugal.

Sem esse esforço de mobilização e envolvimento de grande parte da


população trabalhadora e pobre, as subidas eleitorais da esquerda
institucional carecem de uma rectaguarda social segura e podem
transformar-se em recuos e desmobilização. O sebastianismo, sempre muito
presente na mente dos portugueses poderá criar um Berlusconi que
satisfaça as necessidades de acumulação de uma burguesia fraca e
subalterna e aceite por uma multidão convencida da necessidade de
sacrifícios “patrióticos”, como criou um Salazar. E, como estamos assistindo,
nas instituições europeias o apego à democracia não tem muita cotação, em
tempos de crise.

c) Votos em partidos de direita

No quadro que se segue, resumem-se os resultados obtidos pelo partido-


Estado PS/PSD, separando as suas duas alas que, aliás sempre concorreram
separadas uma da outra, para que o esquema da bipolarização melhor
funcione. Esse esquema tem sido utilizado como forma de permitir qualificar
o PS como “esquerda” e, assim, facilitar a divisão da população trabalhadora
e, em paralelo, definir o PSD como direita, como se existisse alguma análise
objectiva que estabeleça distinções que não as derivadas das conjunturas
eleitorais e das próprias exigências da encenação bipolarizadora. O carácter
de direita do PS, como repetidamente vimos afirmando, tem sido aceite
pacificamente pela esquerda institucional que, em vez de contribuir para a
clara separação entre a multidão de trabalhadores e ex-trabalhadores, por
um lado e a burguesia e o seu mandarinato, por outro, vem arrastando essa
clarificação, contribuindo para o engrossar do eleitorado na mafia bicéfala.
Essa, sim será a bipolarização criadora e a base para qualquer
transformação.

A presença do CDS aliado ao PS em 1978, a sua coligação eleitoral com o


PSD através da AD em 1979/80 e, mais tarde os acordos pós-eleitorais para
a constituição dos governos Durão e Santana, não põem em causa,
minimamente essa bipolarização. O CDS está sempre pronto a apoiar e
influenciar, ora uma, ora outra facção do partido-Estado, para levar por
diante os pontos mais reaccionários, os interesses do capitalismo mais
conservador, com as vantagens inerentes para os seus próprios quadros,
como é natural. Recorde-se, como em tão curta presença no governo, foi
lesta a sua actuação nos casos Portucale, submarinos, entre outros que,
claro está, pairam algures na secretária de algum investigador policial ou
magistrado.

Milhares de votos
DIREITA
Total PS PPD/PSD* Outros
nº % nº % nº % nº %
1975 3.705 69,7 2.163 40,7 1.507 28,4 35 0,7
1976 3.292 63,0 1.913 36,6 1.335 25,6 44 0,8
1979 3.339 57,1 1.642 28,1 1.664 28,5 32 0,6
1980 3.508 59,6 1.673 28,4 1.761 29,9 74 1,3
1983 3.644 65,5 2.061 37,1 1.555 28,0 28 0,5
1985 3.976 70,3 1.204 21,3 1.732 30,6 1.039 18,4
1987 4.415 79,5 1.263 22,7 2.851 51,3 302 5,4
1991 4.729 84,1 1.671 29,7 2.902 51,6 156 2,8
1995 4.633 80,0 2.584 44,6 2.015 34,8 35 0,6
1999 4.184 78,8 2.386 45,0 1.750 33,0 48 0,9
2002 4.297 80,1 2.069 38,6 2.201 41,0 28 0,5
2005 4.242 76,0 2.588 46,4 1.653 29,6 0 0,0
* AD (1979 e 1980) - A repartição dos votos entre PPD, CDS
e PPM baseia-se nos resultados de cada um em 1976

No seu conjunto, a direita tradicional engrossou as suas hostes logo em


1975, quando, através do PS, assumiu o combate contra o impulso
revolucionário, teleguiado pela embaixada americana e em ligação com a
direcção dos militares. O carácter autoritário de alguma esquerda, lançou
então, para os braços do PS e, menos para o PSD (ainda hoje “social-
democrata”!!), toda uma massa de trabalhadores, mormente do norte e
centro, bem como das Regiões Autónomas, com uma cultura menos urbana,
menos marcada por lutas laborais, empregada em sectores menos
capitalizados ou empresas de menor dimensão, menos empenhada nas
transformações pós-25 de Abril. Tacticamente, o PS apresentava-se como
“socialista”, como convinha na época mas, de um “socialismo democrático”
inventado pelo parlapatão Soares e que, mesmo esse, foi rapidamente
engavetado em benefício da reestruturação capitalista.

Em 1976/79 o PS conseguiu firmar o processo de reestruturação capitalista


com o apoio financeiro do SPD alemão e afastar a concorrência de Sá
Carneiro à inscrição na Internacional Socialista, embrião do prestimoso PSE,
actualmente acantonado no Parlamento Europeu. Assim, o PSD teve de se
contentar com uma agremiação menos “esquerdista” sem, naturalmente
renegar o legado “socialista” quando chegou ao poder em 1979/83.

Nesse periodo de arrumação política da direita portuguesa, o PS/PSD


consegue recompor-se das perdas eleitorais iniciais e inicia em 1980 um
periodo de aumento de peso eleitoral que atinge o máximo em 1991, com
Cavaco, mantendo-se em torno dos 80% dos votos dirigidos até 2002,
Retrocedeu um pouco em 2005, por efeito do visível acréscimo da esquerda
institucional e em plena crise económica e, se se repetir algo semelhante ao
obervado nas recentes eleições europeias, a direita tradicional poderá, de
novo reduzir a sua representatividade, porventura abaixo dos 4M de votos.

A distribuição interna dos votos no seio da direita tradicional revela que:

• Os 12 pleitos eleitorais repartem-se igualmente, quanto a vencedores,


entre os dois gangs, PS e PSD; no entanto, note-se que as diferenças
favoráveis ao PSD em 1979/80 são curtas, tal como em 2002;

• As vitórias do PS são em geral amplas relativamente ao seu gêmeo


que, só no periodo cavaquista em 1985/91 alcançam clara vantagem.
A maior diferença entre ambos verifica-se a favor do PS em 2005
(mais de 900 mil) e a favor do PSD, em 1987 com quase 1.6 M, depois
de ter absorvido a maior parte dos votantes do epifenómeno PRD;

• Em termos percentuais, o PS consegue o seu maior peso, no conjunto


dos votos dirigidos, com Sócrates em 2005 (46.4%) enquanto o PSD
consegue o mesmo feito em 1991 (51.6%). Inversamente, quanto aos
piores resultados, o PS manifesta-os em 1985 (21.3%), no rescaldo do
bloco central e penalizado pelo surgimento do PRD, de Eanes,
enquanto o PSD atinge o seu pior resultado em 1976, quando o PS se
apresentava como o campeão da normalização capitalista, por
delegação dos militares;

• As forças políticas de direita tradicional, exteriores ao PS/PSD não têm


logrado um espaço significativo, se se excluir o periodo 1985/91,
enquanto se não esfumou a ilusão do partido “ético”, cuja ambição era
a criação de uma força política central, género de PRI mexicano,
dirigido por um lider providencial, Eanes. Será curioso verificar se, no
actual momento de descrédito do PS/PSD os outros movimentos da
direita tradicional que, no seu conjunto, conseguiram um bom
resultado nas últimas eleições europeias, conseguem repetir essa
façanha, em Setembro.

d) Votos em partidos da direita xenófoba ou fascista

Esta direita a que chamamos xenófoba é dominada pelos CDS/PP que se


caracteriza pelo seu exacerbado apelo securitário, próprio de quem teme
pela segurança da propriedade face à turba e pelos valores tradicionais face
à modernidade; daí o seu pendor para uma maior atenção aos problemas da
agricultura. A pátria é um tema caro, o que se denota pela apropriação do
apoio aos combatentes da guerra colonial e pela exacerbação dos perigos
da imigração, agitados como causa da criminalidade e justificando, por
conseguinte, a tara securitária e o papel da autoridade e do Estado. O
acentuado nacionalismo, contudo não leva o CDS/PP a recusar os apoios
comunitários, bem pelo contrário a verberar contra o seu não adequado
aproveitamento… Nesta área se insere também o PND, como dissidência do
CDS/PP, provavelmente efémera, embora com 40 mil votos em 2005.

O vector fascista desta direita é protagonizado pelo PNR que, pese embora o
seu crescimento nas últimas eleições europeias, se mantém marginal,
baseando as suas propostas num nacionalismo racista ferozmente anti-
imigrantes, mormente se africanos.

Milhares de votos
DIREITA XENÓFOBA
Total CDS/PP * Outros
nº % nº % nº %
1975 435 8,2 435 8,2 0 0,0
1976 906 17,3 876 16,8 30 0,6
1979 1.095 18,7 1.023 17,5 73 1,2
1980 1.105 18,8 1.072 18,2 32 0,5
1983 761 13,7 717 12,9 45 0,8
1985 619 11,0 578 10,2 42 0,7
1987 284 5,1 252 4,5 32 0,6
1991 265 4,7 254 4,5 11 0,2
1995 537 9,3 534 9,2 3 0,0
1999 452 8,5 452 8,5 0 0,0
2002 482 9,0 477 8,9 5 0,1
2005 468 8,4 416 7,5 51 0,9
* AD (1979 e 1980) - A repartição dos votos entre PPD, CDS
e PPM baseia-se nos resultados de cada um em 1976

No que respeita ao espaço da direita xenófoba observa-se o seguinte:

• O CDS/PP quase ocupa todo esse espaço nos 30 anos analisados, uma
vez que as outras formações só ultrapassam 1% dos votos dirigidos a
partidos, em 1979;
• Em 1975, pese embora a conotação de partido fascista que lhe valeu o
boicote de uma realização magna no Porto e o assalto à sede em
Lisboa, o então CDS liderado pela volúvel figura de Freitas do Amaral,
aglutinou a direita mais conservadora e radical, beneficiando até, da
proibição do concurso do PDC às primeiras eleições;

• Curisosamente e embora liberto do anátema de fascista de 1975, o


CDS/PP aparece com uma relevância eleitoral semelhante à inicial,
entre 1999 e 2005; neste último ano é muito menos atingido
eleitoralmente do que o PSD, parceiro maioritário do governo Santana;

• No periodo 1976/80, aproveitando a maré reaccionária que se seguiu


ao golpe de 25 de Novembro e com a criação da AD, o CDS/PP atingiu
o máximo da sua força;

• Entre o esfarelar da AD e os consulados de Cavaco, o CDS/PP decai


enormemente até se transformar no chamado “partido do taxi” dado o
número dos seus deputados na AR. As maiorias absolutas de Cavaco
contentam a burguesia portuguesa que, assim, dispensa o CDS/PP
como força de pressão;

• Com o retorno do PS à área do poder em 1995, o CDS/PP dobra a sua


marca eleitoral, beneficiando da crise dinástica no PSD, com uma
liderança pouco credível (Fernando Nogueira);

• Nos três últimos confrontos eleitorais a votação no CDS/PP mantêm-se


relativamente estável, mesmo com o retorno ao poder, em apoio de
Durão e depois a Santana, quando constituia o núcleo duro do
governo; ou, quando o advento da novidade Sócrates encaminhou
muitos votos tradicionais de direita para a oferta da maioria absoluta
ao chamado engenheiro;

• Até 1987 a direita xenófoba, fora do CDS/PP, era representada


essencialmente pelo PDC (Partido da Democracia Cristã) que deixou
de surgir desde então. Depois de uma década representada por
grupos pouco expressivos, esta direita residual só ganhou expressão
com o surgimento do PND em 2005 que, contudo pouco afectou o
CDS/PP.

3 – Eleições em Setembro e o futuro

Em suma, os resultados de 30 anos de eleições legislativas conjugados com


a situação actual da conjuntura política e económica, numa perspectivação
do produto das eleições aprazadas para 27 de Setembro, revelam;

• A cristalização putrefacta da direita tradicional (PS/PSD) no poder, com


a manutenção do carácter subalterno, quiçá neo-colonial da burguesia
portuguesa, bem como a tradição corrupta e de pilhagem do Estado;
• A desconfiança e repúdio da população pelos partidos tradicionais, não
parece vir a conduzir a uma hecatombe eleitoral da direita, nem a
uma subida eleitoral transformadora da esquerda institucional;

• É bem patente, hoje, a ausência de perspectivas de melhoria


substantiva da situação da esmagadora maioria da população e, que a
actual crise só veio tornar mais visível o empobrecimento geral e a
falência do modelo exportador baseado em baixos salários associado
ao predomínio do capital financeiro e do imobiliário;

• A participação eleitoral de cada um é uma forma limitada de interferir


na definição do poder e que não deve afastar, antes complementar, a
preponderância de modos autónomos de organização e luta, por parte
dos trabalhadores e da multidão em geral, com um funcionamento
baseado em redes e ligações não hierarquizadas;

• Essas formas de actuação e organização são o modo mais eficaz de


combater a concentração e a fascização do poder na Europa, que
decorre em paralelo com a precariezação, não só no trabalho como na
vida em geral de cada um de nós, sendo esta apenas um passo atrás
da prática de um genocídio conveniente para um capitalismo sem
capacidade de criação de riqueza e de um bem-estar mínimo para a
maioria da população mundial.

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