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ANÁLISE CRÍTICA

DA OBRA DO PASTOR JOEL SANTANA

ANÁLISE BÍBLICA DO CATOLICISMO


ROMANO
Gledson Meireles

e-mail: gledsonmeireles2007@hotmail.com
2009
PREÂMBULO

Considerando as palavras do pastor Joel: Caríssimo leitor, não permita


que o preconceito o impeça de examinar todo este livro, pois é com muito
amor e com todo o respeito que os católicos merecem que exteriorizamos
aqui nossa sincera opinião acerca do Catolicismo, eu me pus a examinar
atentamente o livro Análise Bíblica do Catolicismo Romano. Essa crítica é o
início de um diálogo com o pastor Joel, seguindo também uma sugestão sua,
ou seja, a de preparar uma crítica sobre o livro acima mencionado, e foi
feita quase que totalmente seguindo a formatação do seu livro, com
pouquíssimas mudanças, analisando-o de forma detalhada. Ficará patente
que muito daquilo que os protestantes chamam de “bíblico”, como sendo
doutrina fundamental que deve ser crida para que alguém seja um cristão
de fato, nada mais é que a interpretação dos textos bíblicos dada por
Lutero, Calvino ou outro líder protestante, ou ainda pelas Confissões de
Augsburgo, a Confissão Belga, de Westminster, de Heildeberg etc. Então, os
escritos dos reformadores, os credos e confissões protestantes, formam o
que podemos chamar de tradição protestante. Mesmo a patrística não é
negada. Quando o pastor Joel diz no preâmbulo da sua obra que O único
padrão que nos permite aferir com precisão uma doutrina religiosa, é a
Bíblia, ele está correto, mas também é um fato que o sentido do ensino
bíblico está condicionado, na prática, pela tradição. Então é correto dizer
que a “tradição” protestante é importante para entender suas doutrinas,
embora oficialmente o Protestantismo afirme que somente a Bíblia é regra
infalível de fé e prática. Isso não exclui a tradição e a autoridade da Igreja
entre os protestantes, segundo o conceito original de Sola Scriptura, mas
significa que somente a Bíblia constitui autoridade infalível. O típico
protestante irá afirmar que aquilo que os primeiros cristãos ensinavam está
na Bíblia e somente nela, não necessitando, para entender a doutrina, dos
escritos sub-apostólicos dos Padres da Igreja, ainda que muitos dispensem
algum respeito por pela patrística. Mas, estou certo de que o que chamei de
tradição protestante foi testada, segundo o protestantismo, pela autoridade
da Bíblia e considerada ortodoxa. Desse modo, a tradição é importantíssima
para entender questões doutrinais, e o protestantismo não escapa dessa
realidade. A salvação somente pela fé, por exemplo, é inquestionável dentro
do Protestantismo, constituindo um verdadeiro dogma. Contudo, foi Lutero
quem interpretou as palavras de São Paulo em Romanos 3,28 como se
fossem uma declaração contra o valor salvífico de toda e qualquer boa obra.
Será que São Paulo intencionava ensinar isso? Lutero afirmou que sim. Essa
era a doutrina “bíblica”, segundo o seu livre exame. Os outros reformadores
também ensinaram o mesmo. Portanto, quando um protestante lê a Bíblia,
deve ter em mente que seu entendimento está condicionado pelos seus
líderes, pelo menos nessas questões indiscutíveis. Se qualquer protestante
entender que a Bíblia afirma que a fé e as boas obras são necessárias para
a salvação, (fé + boas obras) esse protestante estará automaticamente fora
do protestantismo, por ter dado uma interpretação bíblica incompatível com
o dogma oficial, do qual não se pode abrir mão. Esse protestante estará
ensinando a “heresia” da salvação pelas obras! E assim se saberá que não
foi o Espírito Santo quem o inspirou! Desse modo, a “tradição protestante” é
tão infalível quanto a Bíblia e é base para o entendimento dessa doutrina,
como de outras tantas. Isso é o que a Igreja Católica ensina sem rodeios,
que a Bíblia, a Tradição e o Magistério são as fontes da sua doutrina. Os
católicos estão conscientes que devem submeter-se à Igreja para o correto
entendimento da Bíblia, pois a Igreja é o sustentáculo da verdade 1 Tm
3,15. Então foi Deus quem ensinou esse princípio, que é bíblico. Por
exemplo, se um católico entender que as obras nada influem na salvação,
esse já deixa automaticamente de ser cristão católico e passa a ser um
herege, pois está negando um dogma, contra a Bíblia e a Tradição cristã.
Então, muitas divergências entre católicos e protestantes surgiram do livre
exame que introduziu doutrinas novas que constituem o protestantismo,
desconhecidas pelos cristãos primitivos! O dogma Sola Scriptura é inerente
à tradição protestante, negar esse princípio equivale a não ser verdadeiro
protestante. Então, temos de estudar a Bíblia e as tradições que se
harmonizam com seus ensinamentos para nos certificarmos da verdade, sob
autoridades, é claro, sejam elas católicas ou protestantes. Qual a tradição
que está de acordo com a Bíblia, que foi ensinada desde o começo? Onde
está a heresia? Das muitas definições do termo hairesis (heresia, em grego),
a definição do apologista Dave Armstrong é bem simples e prática. Heresia,
segundo o apologista, pode ser definida somente como os apóstolos e
padres da Igreja a definiram, de acordo com o princípio da sucessão
apostólica. Heresia é o que não foi transmitido desde o princípio, desde os
apóstolos e Nosso Senhor Jesus. Uma novidade que não encontre seus
antecedentes é heresia. Se por exemplo, a Salvação Somente pela Fé não
for encontrada na Bíblia e tradição cristã até os dias de Lutero, então será
essencialmente uma novidade doutrinal, uma heresia que deu origem ao
protestantismo. De fato, o historiador Franco Hilário Júnior afirmou que o
Protestantismo é uma heresia que deu certo. Conscientizemo-nos de que
ambos os lados tem uma tradição que os auxilia nos entendimento da
revelação bíblica. Diante de tudo isso, essa crítica é um diálogo com o
pastor Joel bem como com os protestantes em geral, para melhor nos
certificar qual é o correto entendimento da Palavra de Deus, a Bíblia, se é o
que a tradição da Igreja Católica sempre ensinou ou se é o que a “tradição
protestante” vem defendendo. Vamos à Bíblia, mas é inegável que a
tradição é importante e até imprescindível para a entendermos. Isso não
quer dizer que a Bíblia não seja clara, pois é possível entendê-la, em grande
parte, sem recorrer a outras fontes, como a tradição, não sendo esse fato
uma negação necessária de qualquer instância adicional para que temas
mais complexos e debatidos sejam dirimidos pela autoridade da Igreja, à luz
da tradição apostólica, ou, no caso protestante, à luz da tradição
protestante. Essa crítica foi feita quase que totalmente seguindo a
formatação do livro do pastor Joel, com poucas mudanças. (Certamente
necessita de muitas correções gramaticais, dos erros de digitação e etc
(necessita de uma revisão geral)). Portanto, repito que estamos de acordo
que o fundamento último é a Bíblia, mas devemos aprender o que é que a
Bíblia está realmente ensinando em muitos pontos fundamentais. A Bíblia é
a Palavra de Deus, independente do reconhecimento do seu cânon pela
Igreja, pois não foi esse fato que a fez ser o que ela é, mas, pelo contrário,
por ser a Palavra de Deus, o Espírito Santo guiou a Igreja no reconhecimento
dos livros sagrados. Que essa crítica seja o início de um amistoso diálogo.

[ARMSTRONG, Dave. Is Sola Fide (Faith Alone) a Legitimate Development of


Patristic & Augustinian Soteriology? (http://socrates58.blogspot.com)]
CAPÍTULO 1

A HISTÓRIA DO CATOLICISMO

1.1. Como e quando surgiu o Catolicismo

O Catolicismo, ou seja, a corporação dos que são chamados a vivenciar a fé


apregoada por Jesus Cristo; começou no século l (...) (Dom Estêvão
Bettencourt, teólogo). Essa é uma verdade irrefutável. Bem, falando das
trevas em que se encontravam os povos na época imediatamente anterior a
Cristo, o pastor Joel assim afirma: Em meio a essas trevas tão medonhas
raiou a luz, a saber, Jesus. A maioria o rejeitou, mas milhares creram nEle,
surgindo assim o que Ele chamou de Igreja, isto é, o conjunto dos seus
discípulos. Igreja, como conjunto dos discípulos, não é somente um grupo
assim denominado, mas uma instituição ou organização, ao mesmo tempo,
também, um organismo. Aliás, enfaticamente, Cristo disse: construirei a
minha Igreja (Mt 16,18). A respeito da organização da Igreja nos primeiros
tempos, surgiram muitas teorias, embora não possamos adotar nenhuma
que seja contrária aos textos da Sagrada Escritura. O pastor Joel afirma que
inicialmente os discípulos de Jesus se organizaram em igrejas locais e
independentes, exemplificando com os textos de Apocalipse 2 e 3. Afirmar
independência é um tanto forte, por isso o pastor reconhece que esta
independência era relativa, visto que confraternização e cumplicidade
nunca faltaram entre os verdadeiros cristãos (grifo acrescentado). A
independência das igrejas locais do primeiro século é comparável à
independência das igrejas locais, cristãs católicas, ou comunidades locais de
hoje, cada qual governada localmente por um Bispo. Todas, porém, em
união total entre si e com a sede em Roma, existindo confraternização e
cumplicidade. Como gostariam os protestantes que sua “unidade” e
“independência” fossem comparáveis à unidade e independência católica.
Assim, diz o pastor Joel: a união que havia ... era similar à que há hoje entre
as diversas denominações evangélicas: somos independentes e
divergentes, mas unidos, cúmplices e convergentes em Cristo. Contudo isso
não é verdadeiro, pois é teológica e historicamente impossível e improvável
que a Igreja Católica do primeiro século fosse composta de igrejas
“divergentes”, equivalente à profunda desunião protestante. Não há
possibilidade de unidade, cumplicidade e convergência em Cristo, se não
houver uma só doutrina, uma só fé.

Embora tenha havido heresias desde os primeiros anos de crescimento


eclesial, elas aumentaram com o passar do tempo. Esse aumento de falsas
doutrinas já havia sido profetizado por Nosso Senhor. De igual modo, na era
apostólica, após a Ascensão, os apóstolos viram insinuar estranhos ensinos
opondo-se à ortodoxia cristã católica, veiculados por grupos judaizantes e
gnósticos. Esses grupos apresentavam-se como “cristãos”, muitas vezes
apresentado-se como pregadores autorizados pelos próprios apóstolos. Nos
primeiros anos da Igreja os seguidores de Jesus Cristo eram conhecidos
como discípulos, tendo os apóstolos uma referência especial, por terem sido
escolhidos entre os discípulos. Algum tempo mais tarde, devido à pregação
do nome de Cristo, o Messias, apóstolos e demais discípulos passaram a ser
chamados de cristãos, tendo o nome surgido na cidade de Antioquia (Atos
11, 26). Esse nome tornou-se o designativo principal, usado até
dissimuladamente pelos hereges. A Igreja fora fundada para se espalhar
pelo mundo, como disse o próprio Senhor, ordenando aos apóstolos a
ensinarem todas as nações, o que indica a universalidade da Igreja,
batizando-as no nome da Trindade, e ensinando-as a observar o que Ele
havia prescrito, sendo tudo isso acompanhado por Sua presença até o fim
dos séculos (Mateus 28, 19-20). É pelo caráter universal da Igreja de Jesus
que logo ela foi designada pelo nome de Católica, que em grego significa
Universal. Esse nome aparece registrado com relação à Igreja pela primeira
vez no início do segundo século, no ano 107, por Inácio de Antioquia,
sucessor dos apóstolos. Assim, quando grupos heréticos surgiam apelando
para o nome de cristãos, eram logo desmascarados por não estarem unidos
à Igreja Católica. Certamente é a esse fato que o pastor Joel está se
referindo quando disse: Mais tarde, visando dificultar a infiltração de
heresias na Igreja, os cristãos tiveram a brilhante idéia de se organizar em
forma de uma federação de igrejas, (...) à qual deram o nome de Igreja
Católica, isto é, Igreja Universal. No entanto, as palavras do pastor Joel
estão um tanto equivocadas, como vimos, pois não houve o surgimento de
uma brilhante idéia para a organização de tal federação de igrejas. Essa
idéia somente seria totalmente verdadeira se as igrejas fossem avulsas,
desunidas, independentes, o que não era o caso. A Igreja em Eféso, em
Antioquia, em Corinto, em Filadélfia, em Pérgamo, em Tiatira, em Sardes, e
etc., eram todas comunidades ou igrejas locais unidas na mesma fé,
organizadas de acordo com o modelo apostólico, submetidas à autoridade
dos apóstolos, como podemos demonstrar no Concílio de Jerusalém, concílio
que exerceu autoridade sobre todas as Igrejas. O fato é que cada Igreja local
é católica por fazer parte da única Igreja. Assim também compreendemos o
fato de que as epístolas eram enviadas a todas as comunidades da época,
pois se tratava da mesma Igreja dispersa por diversas regiões. Como afirma
o Catecismo, nº 752, a palavra Igreja designa a assembléia local ou toda a
comunidade Universal dos crentes. No nº 835, o Catecismo previne contra
distorções no entendimento desse assunto, mostrando que não é uma
simples soma de Igrejas locais, mas a Igreja católica é que se estabelece
nas várias localidades e culturas e sociedades humanas, expressando-se de
diversas formas, sendo a única e mesma Igreja Católica: A Igreja universal
não deve ser entendida como simples somatório ou, por assim
dizer, federação de Igrejas particulares [...]. Mas é antes a Igreja,
universal por vocação e missão, que lançando raiz numa variedade
de terrenos culturais, sociais e humanos, toma em cada parte do
mundo aspectos e formas de expressão diversos» (324). A rica
variedade de normas disciplinares, ritos litúrgicos, patrimónios
teológicos e espirituais, próprios das Igrejas locais, «mostra da
forma mais evidente, pela sua convergência na unidade, a
catolicidade da Igreja indivisa». Essas palavras não são somente bonitas
ou eloquentes, mas retrata a realidade católica incomparável com qualquer
outra instituição religiosa. Então, é, no mínimo, defeituosa a comparação
que o pastor fez com as convenções CBB, CBN, CGADB, etc. É uma tese
pouco feliz. A forma organizacional [comparável a uma federação ou
corporação unida] não foi resultado de uma idéia posterior, mas um
desenvolvimento de sua organização apostólica original.

A associação de igrejas locais, formando a única Igreja Católica,


desenvolveu-se e passou a ser governada pelos bispados de Roma, o de
Jerusalém, o de Antioquia, o de Constantinopla e o de Alexandria, sendo que
o Bispo da Igreja local de Roma, por ser sucessor da cátedra de Pedro,
sempre teve preeminência. Quando o imperador Constantino aceitou o
cristianismo, a Igreja já estava assim estabelecida, de acordo com o gérmen
organizacional deixado por Cristo e pelos apóstolos. Aí houve o processo
de oficialização, de Constantino, até ser de fato levado ao pleno
cumprimento com o imperador Teodósio em 380. Entende-se, portanto, que
(...) o que ocorreu no século IV, foi a manifestação do Catolicismo sob novas
formas que a liberdade lhe proporcionou a fim de cristianizar o paganismo e
não para paganizar o Cristianismo (Dom Estevão). Logo após a liberdade
concedida pelo Império, surgiu outro profundo problema, diverso em
quantidade e qualidade: as heresias. A Igreja, após quatro séculos de
perseguição, agora gozava de liberdade, e recebeu vantagens patrimoniais,
financeiras e morais, como disse o pastor Joel. A Providência Divina
continuou no governo da situação. Porém, o pastor afirma que a religião
“oficial” (aspeado pelo pastor Joel, pois era um tipo de oficialização fatual,
não de direito, ocorrida somente com Teodósio, como afirma D. Estevão),
passou a ser da moda, de status, rentável e desejável pelos que antes a
rejeitavam. Até certo ponto é compreensível que cessadas as perseguições,
muitos conversos não possuíam o fervor semelhante àquele dos tempos das
tribulações, mas seria uma generalização imprópria afirmar que esse era o
caso de todos ou que de forma essencial a Igreja tenha se
“descaracterizado”. Os tempos mudaram, os problemas continuaram sob
novas formas, e a Igreja seguiu-se em sua expansão dentro dos moldes
deixados pelo Senhor Jesus Cristo. A introdução de cristãos nominais ou de
fachada na Igreja foi um problema grave, contudo, não pôde levar a obra de
cristo à derrota, como historiadores protestantes costumam retratar, onde
um paganismo teria “se mesclado” com o cristianismo, tornando-se
“vencedor”. Teologicamente isso é inaceitável e historicamente improvável.
Embora tenha havido grandes ataques perigosos contra a fé, a Igreja
sempre saía vencedora, como atesta a história. O mundanismo sempre
tentou dominar a vida cristã, e, de fatos como esses, a história está repleta,
sendo muitas vezes usados para “provar” a corrupção da Igreja. Uma
análise mais detida e imparcial é necessária para melhor compreensão de
tais acontecimentos.

Os protestantes tentam provar que:

1) Os erros que surgiram nos dias de Constantino são perpetuados pela


Igreja Católica até os nossos dias;

2) Tais erros se avolumam cada vez mais;

3) A “Igreja” que emergiu de tal barafunda não se caracteriza como


Igreja de Cristo.

Para provar o item 1, o pastor não poderia mostrar um só erro “introduzido”


por Constantino, e nem que a Igreja o tivesse “perpetuado”. O item 2 alude
a um “aumento” de erros, o que é impossível na Igreja Católica, fiel à Bíblia
e à Tradição. O item 3 revela uma tese de que a Igreja teria “emergido” de
uma “barafunda”, se “descaracterizando” cristãmente. Responde-se a isso
que o Espírito Santo nunca permitiu que a Igreja de Cristo se transformasse
em tal barafunda, portanto, nunca chegou a ser isso. Deus não é de
confusão, e mesmo entre heresias, que causam mal ao corpo de Cristo, a
Igreja sempre sai vencedora. O pastor afirma: Do que vimos até aqui,
certamente está claro que podemos responder à pergunta “Como e Quando
Surgiu o Catolicismo?”, mas, como exposto em seu livro, o autor tentou
“provar” a suposta união, ou o imaginário “casamento” entre a Igreja de
Cristo com o paganismo. É possível “ouvir” [imaginar] as palavras do pastor
Joel protestando que não foi isso que ele disse, pois não se referiu à Igreja
de Cristo fazendo união com os pagãos, mas “àquela federação que deixou
de ser Igreja de Cristo”, “emergindo da tal barafunda”. Bem, isso só provaria
que na opinião ou parecer do pastor Joel, bem como dos protestantes, de
maneira geral, no seu ponto de vista, a Igreja teria “perdido” sua verdade.
Contudo, como foi possível provar anteriormente, essa tese da federação
não se mostrou correta, e podemos felizmente dizer que a Igreja Católica
fundada pelo Divino Filho de Deus, foi, continua sendo e sempre será a
Igreja de Cristo. Diante disso, a afirmação de que o Catolicismo é o
resultado de uma fusão do Cristianismo com o paganismo carece de
verdade, ficando apenas na opinião do autor e dos que pensam como ele.
Ademais, é importante lançar o olhar para o período enorme da tal “fusão”,
visto que teria iniciado no 2º século e se daria finalmente no 4º, embora
nem mesmo o pastor possa afirmar quando, de fato, teria acontecido: Não é
possível sabermos o exato momento em que a a sobredita associação de
igrejas se descaracterizou... Para isso o autor recorre à explicação de que o
Diabo entra devagar e progressivamente. Realmente essa estratégia
diabólica é verdadeira, mas se considerarmos a origem divina da Igreja
Católica, seria uma contradição crermos que o Diabo a tenha “vencido”.
Segundo o pastor, hoje, de qualquer forma, é possível afirmar que a Igreja
“não” é mais cristã, na verdadeira concepção do termo. Chega a chamá-la
de paganismo gospel, paganismo cristianizado, inovação. Obviamente o
pastor Joel não está sozinho nessa opinião, e diz estar ladeado por peritos
de grande envergadura, evangélicos, quanto não-evangélicos, até mesmo é
ombreado por Rui Barbosa, e termina citando N. Lawrence Olson, que afirma
ser a Igreja uma falsa religião, cheia de invencionices. (N. Lawrence Olson.
O plano divino através dos séculos. Rio de Janeiro: CPAD. 8 ed. 1986, p. 15).
Que o pastor não esteja sozinho nessas idéias descabidas, do ponto de vista
objetivo, é lógico, assim como o autor dessa crítica é ombreado por grandes
e competentes eruditos.
As palavras do Dr. Rui Barbosa são anti-católicas. Felizmente ele se refere
ao imperador não batizado, que significa não cristão ainda, segundo a
doutrina católica, pois a porta de entrada na Igreja é o batismo. A real
conversão de Constantino foi demorada, pois somente no leito de morte é
que ele recebe o batismo. A História Universal ensina que o imperador, o
Pontifex Maximus, tinha um poder ilimitado, e isso explica as tentativas de
intromissão de Constantino na Igreja. Que ele tenha resolvido sobre
dogmas, parece não ser uma avaliação correta, pois um pagão não
poderia resolver assuntos cristãos, que nem mesmo conhecia bem. Já foi
tratado sobre a crise enfrentada pela Igreja no século IV, não é necessário
repetir. A Igreja é sempre reformanda, como ficou patente no Concílio de
Trento. (LOPES, Hernandes Dias. O Papado e o Dogma de Maria. São Paulo:
Hagnos. 1 ed. 2005, p. 63, citando Janus. O Papa e o Concílio. Rio de
Janeiro: Elos. 3 ed. p. 24. Grifo nosso [citado pelo pastor Joel]). As
declarações de Rui Barbosa são excessivas, pois certamente generalizam
o problema, como se fosse a “regra” no catolicismo. (JANUS. O Papa e o
Concílio. São Paulo: Livraria Acadêmica Saraiva & Cia. – Editores. 2 ed.
1930, p. 14. Traduzido em português e prefaciado por Rui Barbosa de
Oliveira [citado pelo pastor Joel]).
A respeito de Santo Agostinho, respeitado por muitos protestantes, a
maioria das doutrinas que ensinou não são erros, mas a pura doutrina
cristã. Foram citadas: sucessão apostólica, salvação através da referida
associação intitulada Igreja Católica, mariolatria, oração pelas almas dos
mortos, sincretismo entre Cristianismo e paganismo, etc. A sucessão
apostólica é bíblica, a necessidade de pertencer à Igreja verdadeira, que é a
Católica, é bíblica, a “mariolatria” não é bíblica, pois o correto é a
veneração, não a adoração aos santos, a oração pelas almas é bíblica, o
sincretismo cristianismo-paganismo, não é bíblico, talvez o que se chama
“sincretismo” aqui é a estratégia de conservar elementos da cultura pagã,
que nada afetam essencialmente o culto cristão. Quanto às atitudes dos
imperadores, é lícito dizer que nem sempre agiam corretamente, como é
dito de Teodósio I, mas a voz de santos cristãos católicos não silenciavam
contra os excessos. O professor Orlando Fedeli nos conta que certa vez o
imperador Teodósio foi proibido de entrar na Igreja no domingo, por uma de
suas injustas ações bélicas: Foi Teodósio, no final do século IV, que fez o
Cristianismo religião oficial do Império Romano. E isso não significou que se
poderia entrar na Igreja de qualquer jeito "trazendo para dentro da
Igreja multidões de pessoas não convertidas, que para se tornarem
"agradáveis" ao ESTADO [ao Governo do Imperador] faziam-se
cristãos nominais, agindo como atores, sem experimentarem a
genuína conversão por CRISTO". Prova de que isso é completamente
falso, é o fato de que Santo Ambrósio, Bispo de Milão, proibiu que o próprio
Imperador Teodósio entrasse na Igreja para assistir a Missa num domingo,
porque o Imperador havia massacrado, sem misericórdia, os habitantes de
uma cidade rebelada. Se nem o Imperador podia entrar na Igreja sem
arrependimento, imagine-se as multidões!. [FEDELI, Orlando. Mentiras
contra o papado. 2006_seção cartas] (algumas palavras foram corrigidas nessa
citação: Mllão, domigo, Igerja, arrependiemnto). Se os imperadores eram
tratados assim, pode-se imaginar qual era a exigência da Igreja quanto à
obediência à Lei de Deus naqueles tempos. E essa citação é prova histórica
que permite concluirmos isso de forma imparcial. Veja que não se nega que
os imperadores tenham agido mal, que tenham ocorrido vários desvios de
muitos naqueles tempos. O que não se pode dizer que a Igreja tenha sido
vencida, pois estão sobre ela as promessas de Cristo. Muitas vezes, o
próprio imperador contribuía para as heresias, como fez o próprio
Constantino com relação ao arianismo. A tese de que as ditas regalias que a
Igreja possuía no império, a partir de Constantino, e a imposição através da
força do imperial teriam feito do cristianismo a religião da maioria (o autor
coloca entre aspas “cristianismo”), um cristianismo nominal, de pagãos
revestidos de cristãos, não pode ser sustentada. Esse quadro conclusivo,
como já exposto, é contrário aos fatos. De fato, diversas coisas erradas
aconteceram, mas não suprimiram a Igreja, não a desvirtuaram, não a
venceram, pois a mesma Igreja Católica, não outra “igreja” escondida nas
“montanhas”, mas a mesmíssima Igreja continuou vencedora e mantendo
inalterada a doutrina cristã. A veneração de Maria e do santos é um
patrimônio cristão, não uma prevalência de costumes pagãos na Igreja de
Jesus Cristo. Quando se diz que aquele momento foi o “inicio” da Igreja,
como citado pelo Pastor J. Cabral, se considera a grande clareza de que as
doutrinas de hoje já eram cridas e ensinadas naquela época, de forma
explícita. Portanto é errada a referência a uma suposta “metamorfose”
eclesiástica. Dessa forma, torna-se claro, também, que o protestantismo
diverge muito daqueles tempos. Não há como comprovar a existência de
algum ensinamento característico do protestantismo naquela época, de
forma secundária, é claro, pois a praxe protestante é usar somente a
Escritura Sagrada, sem alusão aos santos padres que, na maioria das vezes,
contradizem as doutrinas protestantes, e o texto bíblico, assim tirado de seu
ambiente co-natural, como diz D. Estêvão, fica “livre” para as interpretações
heterodoxas, que surgem naturalmente das imaginações dos homens. Essa
é uma realidade inegável. Basta estudar as heresias que surgiram durante a
história. Não se pode dizer que montanistas, donatistas, etc, são os
“verdadeiros cristãos”, pois, eram hereges como os arianos, os nestorianos
etc., etc., etc.) Por outro lado, as mesmas doutrinas cristãs católicas podem
ser encontradas nos séculos anteriores, comprovando as suas origens
bíblicas, bastando para isso estudar cuidadosamente o assunto. Os atos do
imperador Teodósio foram muito criticados. É certo que houve erro. É lícito
também, ao que parece, uma certa relativização no entendimento dos fatos
devido às circunstâncias. Sem justificar, portanto, os erros que havia. As
atitudes dos cristãos após Teodósio devem ser entendidas segundo as
circunstâncias da época. Certa vez li uma explicação muito interessante da
qual se pode concluir que houve uma espécie de trato, que garantia que o
grupo vencedor, pagão ou cristão, dominaria o império, destituindo a parte
vencida. Como foi o cristianismo o vencedor, o poder imperial cumpriu o
“trato” proibindo o paganismo por toda a parte. Se o paganismo tivesse
vencido, teria feito o mesmo com os cristãos intrépidos e insubmissos. Deus
não o permitiu. Também não foi glorificado com tantas e tantas ações
excessivas de maus cristãos. Mas tudo faz parte da liberdade e imperfeições
humanas, e todo pecador não arrependido foi, é e será punido. E é certo que
a Divina Providência nunca deixa a Igreja sem a necessária proteção.

Agora, o pastor Joel tenta provar que os chefões, como ele chama as
autoridades da Igreja Católica, que essas autoridades sabem do que ele
afirmou, ou seja, dão fé. O autor cita a primeira prova, com uma citação da
Enciclopédia Católica feita por Ralph Woodrow, a respeito da suplantação do
culto dos deuses pagãos pelo culto dos santos cristãos. Vejamos as provas
do pastor Joel:

Primeira prova) “Tornou-se fácil transferir para os mártires cristãos as


concepções que os antigos conservaram concernente aos seus heróis. Esta
transferência foi promovida pelos numerosos casos nos quais os santos
cristãos tornaram-se os sucessores das divindades locais, e o culto cristão
suplantou o antigo culto local. Isto explica o grande número de
semelhanças entre deuses e santos” (Enciclopédia Católica [Em
inglês],Volume 9, páginas 130 e 131, art. “Legends”. Citado em Babilônia: a
Religião dos Mistérios, de Ralph Woodrow, Associação Evangelística, página
35). No entanto, nessa obra, Woodrow parece não ter citado todo o trecho
da Enciclopédia, como está no site www.newadvent.org, nem esclareceu, ao
que parece, seu significado pelo contexto em que o mesmo aparece. Nesse
texto, a Enciclopédia segue explicando que não há provas de uma
metamorfose de deuses em santos, ou seja, os cristãos não fizeram
daquelas divindades locais os seus santos de devoção, mas que, na
suplantação da idolatria pagã em determinadas localidades, os santos
cristãos sofriam a influência das antigas concepções lendárias aplicadas aos
falsos deuses. A Enciclopédia trata, nessa ocasião, das lendas que eram
inspiradas nas narrativas religiosas pré-cristãs. Esses conceitos são bem
próximos e podem ser confundidos facilmente, e a prática também pode ser
obscurecida. Então, pode-se dizer que o paganismo era destruído, mas as
figuras dos santos cristãos nem sempre eram entendidas na sua pureza
original, mas sofriam influência da mentalidade pagã ainda arraigada nas
culturas.

A Segunda prova é uma citação do Padre Luiz Cechinato que diz


assim: ...Os Batismos eram dados em massa. Ser cristão tinha virado
moda. A igreja ganhava na quantidade e perdia na qualidade. De pequenas
comunidades, a Igreja passou a ser multidão” (Os Vinte Séculos de
Caminhada da Igreja, página 77, 4ª edição, Editora Vozes, 2001). A citação
do padre Cechinato deve ser entendida no contexto do que foi exposto
anteriormente, em que os cristãos livres das perseguições físicas, no século
IV, passaram a ser “perseguidos” mais fortemente pelas falsas doutrinas e
pela companhia de tantas almas não-convertidas que se “convertiam” ao
cristianismo. Porém, mesmo nessa época eram muitos os santos cristãos e a
doutrina permanecia pura.

A terceira prova seria uma apostila da Escola Pastoral Catequética [mas,


segundo D. Estêvão, não existe essa escola. Deve se tratar de outra
instituição.] que afirma que após o fim das perseguições, a Igreja, nesse
tempo, mais ligada ao poder temporal, muita coisa surgiu de errado com a
intromissão do poder temporal em certos setores eclesiásticos ou quando
autoridades se uniam a tal poder [tais poderes]. Os erros, certamente
morais, que se avolumaram naquela época, perpassam toda a história da
Igreja até os dias de hoje, mas não podem corromper a perene doutrina
cristã católica.

***

O costume dos cristãos de terem santos padroeiros deve ser entendido


segundo a sã doutrina, da verdadeira veneração.

O fato de a Igreja permitir que santos sejam lembrados como padroeiros é


herança da estratégia para destruição do paganismo. Obviamente a
essência mudou, pois os “deuses” deixaram de existir nas mentes dos
verdadeiros cristãos. Que exista o dever de cessar a intercessão após a
morte, ou seja, que quando um cristão parte deste mundo ele deixe de
interceder ou receber pedidos de intercessão, é um princípio extra-bíblico,
pois a Bíblia, em última instância, silencia-se sobre o assunto, deixando
princípios que permitem que uma conclusão contrária à do pastor Joel. Não
há registro de mandamento ou proibição quanto à prática de pedido de
intercessão aos santos do céu, e é fato que os cristãos sempre oraram aos
santos, mas apenas para pedirem intercessão. A veneração dos santos de
da mãe de Cristo é patrimônio cristão, e os apóstolos foram iniciadores
dessa prática. A forma da veneração foi desenvolvida, o princípio continua o
mesmo. Afirmar que os primeiros cristãos não veneravam a mãe de Deus é
falso. O mesmo é afirmar que suas expressões de veneração continuaram
idênticas em todos os séculos, pois se negaria assim o desenvolvimento
legítimo das práticas cristãs. Todas as doutrinas são desenvolvidas, melhor
entendidas, definidas contra os erros dos hereges durante a história. Por
exemplo, os apóstolos criam na divindade de Jesus e do Espírito Santo
juntamente com o Pai. Mas não se pode dizer que os cristãos tinham o
mesmo entendimento que temos hoje. Eles criam na doutrina da trindade,
mas não conheciam esse termo e nem tinham um entendimento tão claro
como temos hoje, pois a definição desse mistério é datado do século IV.
Quando havia conversões ao cristianismo era necessária uma catequese
sobre essas revelações cristãs. Um exemplo é o narrado em Atos 19, onde
havia cristãos que nem sabiam que existia o Espírito Santo. O termo
trindade surgiu no II século, porém, a verdade da trindade foi revelada por
Jesus Cristo, no século I e pode ser encontrada implicitamente já no Antigo
Testamento. Portanto, da mesma forma, o culto mariano sempre existiu na
Igreja como afirmou o Concílio Vaticano II, suas expressões foram sendo
enriquecidas, permanecendo sua essência, que é a veneração à Mãe do
nosso Salvador Jesus Cristo. As “provas” de como surgiu o Catolicismo não
provaram nada.

1.2. Desfazendo sofismas

Neste tópico o pastor tenta desfazer os argumentos católicos que,


segundo ele, são aparentemente corretos, mas, que camuflam veladamente
heresias de perdição.

1.2.1. “Não adoramos aos santos”

Sabendo que os cristãos católicos afirmam que não adoram aos santos,
mas apenas os veneram, e que esses não são deuses, o pastor chama isso
de sincretismo; de idolatria disfarçada. Isso seria uma influência pagã, ao
contrário do que seria correto, ou seja, de uma influência cristã no
paganismo. Vejamos as palavras do pastor Joel: O povo de Deus não tem
um santo para cada coisa, e sim, um Santo para todas as coisas, a saber,
São Jesus (Sl 121.1-2). Qualquer igreja que imita o paganismo é pagã-
gospel. Isso seria verdadeiro se fosse como o pastor Joel imaginou, no caso
de um sincretismo do cristianismo com a macumba, onde os “cristãos”
fariam algo similar como oferecer galinha branca a Jesus, no lugar de
galinha preta aos orixás, e teria razão questionar: Não seria isso uma
macumba-gospel? Isso tudo não agradaria ao Senhor. Para o pastor, a Igreja
Católica está no mesmo caminho. Mas o fato é essencialmente outro. Para
haver idolatria é necessário haver adoração a um ídolo. Se o culto cristão
não oferece adoração aos santos, e esses não são deuses ou ídolos, não há
idolatria. Se pelo menos se houvesse adoração a uma criatura, a um santo
qualquer, essa o transformaria em um ídolo e, portanto, o culto consistiria
em idolatria. Assim, é necessário compreender o que é adoração. Todos os
atos cristãos de culto dos santos não são indicativos de adoração, mas
apenas de veneração.

1.2.2 “Deus mandou fazer imagens”

A doutrina católica concorda com o parêntese aberto pelo pastor,


reconhecendo na serpente de bronze uma figura de Cristo crucificado, e a
cura tipificando a salvação. O fato, porém, de que Deus utilizou imagens
de escultura para ensinar o seu povo, prova que o uso religioso das
imagens é lícito em si. A proibição se deu por causa da idolatria que os
judeus tão facilmente adotavam. Os cristãos já estão aptos a diferenciarem
entre o culto de veneração e o de adoração.

A segunda “razão” que os protestantes encontram para acusar os católicos


como sendo idólatras seria o fato de que: católicos se ajoelharem diante dos
seus “santos” (sic) e o fato de rezarem a esses “santos ” (sic). Então, não é
somente o uso de imagens, mas o fato principal é que os cristãos católicos
pedem intercessão aos santos, mesmo não se utilizando imagens. Somente
rezando diretamente a Deus é que os católicos deixariam de ser idólatras.
Mas isso torna a oração em adoração, o que não é verdadeiro. Orar não é o
mesmo que adorar, podendo até estar em íntima ligação, porém não se
identificam os dois exercícios. Na oração aos santos se faz uma petição de
intercessão. Se um cristão pedir a outro que reze por ele, essa petição não
se torna uma adoração. A intercessão é exatamente isso: pedido aos santos
que roguem por nós. Os protestantes deveriam, em primeiro lugar, provar
biblicamente que o pedido de intercessão é o mesmo que adoração. Desse
modo conclui-se que o culto aos santos é constituído basicamente de duas
coisas: imitação de virtudes e pedidos de intercessão. A imitação dos santos
é totalmente bíblica: 1 Cor 4:16; Phil 3:17; 2 Thess 3:7-9. O autor de
Hebreus 13 exorta os cristãos a lembrarem-se dos que os precederam na fé.
Uma forma de lembrar-lhes é sempre tê-los presente na memória cristã, o
que é feito na prática, na liturgia cristã. Temos então a lembrança, a
exposição de suas virtudes para serem imitadas e os pedidos para que
intercedam a Nosso Senhor por todos. Podemos, repetindo, concluir que o
culto dos santos é essencialmente a lembranças dos santos, a exposição de
suas virtudes a serem imitadas pelos cristãos e os pedidos de intercessão.
Lembrar os santos é bíblico e não constitui idolatria; imitar as suas virtudes
é claramente bíblico também, portanto, não há idolatria nisso; por fim, e o
mais importante nessa questão, o caso da oração que se pede aos santos. A
veneração dos santos é característica do povo de Deus, algo natural ao ser
humano, por isso, mesmo os pagãos possuem práticas semelhantes,
contudo desvirtuadas. E esse desvirtuamento não é o que acontece com o
verdadeiro culto cristão católico. Portanto, é falso que orar signifique adorar
como supõem as acusações, e por isso não existe a tal “idolatria” nesse
culto. O ato de ajoelhar pode significar adoração, mas não exclusivamente,
pois se refere também a um profundo respeito, reverência, veneração. O ato
de ajoelhar-se e a prática de oração de intercessão não constitui idolatria. E
como é natural que peçamos aos irmãos que orem por nós, acrescido do
fato de que a morte não desfaz a comunhão dos santos e que esses podem
conhecer nossas intenções em Deus, é lícito que peçamos a intercessão
deles, visto que isso não contraria os mandamentos de Deus. Isso explica o
fato de não ter sido exarado explicitamente um mandamento dizendo que
devemos pedir aos santos do céu para que orem por nós, visto que já
conhecemos o princípio dessa prática. A falta de um mandamento ou
recomendação explícita no texto bíblico para o recurso à intercessão dos
santos do céu pode ser suprida pelo estabelecimento dos princípios
legítimos que tornam essa prática útil e boa e, portanto, lícita, pois a
identifica com a intercessão feita por qualquer fiel que ainda vive nesse
mundo. Dessa forma, não existe fundamento bíblico para sua proibição.
Desses princípios infere-se uma aceitação implícita por parte de Deus, por
serem princípios racionais, e nunca o contrário, ou seja, uma condenação. A
Sagrada Escritura ensina que a oração do justo é agradável a Deus e tem
grande eficácia (Tiago 5,16). Aconselha sempre que peçamos a intercessão
dos irmãos cristãos; que rezemos uns pelos outros. Sabemos ainda que os
anjos e santos do céu podem rezar intercedendo por nós, e essa certeza
está exarada já no livro deutero-canônico de 2 Macabeus 15,14-15, portanto
no Antigo Testamento, onde está dito que o Sumo sacerdote Onias e o
profeta Jeremias, já falecidos, intercediam pelo povo de Deus. Além do que,
estamos unidos numa comunhão, formando um único corpo, o que é
chamado desde os tempos apostólicos de Comunhão dos Santos. Se não há
exemplos de pedidos de intercessão dos santos no Antigo Testamento, isso
se deve ao fato de que o conhecimento era ainda imperfeito a respeito do
estado dos mortos, e certamente também não era possível que os mortos
ouvissem as orações que lhe eram dirigidas, visto que não participavam em
mais nada sob o sol (Ecl 9,5.10). Já no Novo Testamento vemos que os anjos
e os anciãos oferecem, no céu, diante de Deus, incenso juntamente com as
orações dos santos da terra, o que indica, de alguma forma, uma
participação nas nossas orações até que as mesmas cheguem a Deus por
Cristo (Apocalipse 8,3). Esses motivos levam à conclusão lógica que é
compatível com o ensino bíblico a prática de pedir intercessão dos santos no
céu, ao mesmo tempo em que torna ilegítima, estranha e extra-
escriturística qualquer proibição da mesma. Não é necessário provar que a
intercessão entre os cristãos na terra é aconselhada, mas vejamos mais
sobre isso. O autor do livro de Hebreus pede que os cristãos hebreus orem
por ele e os outros pregadores do Evangelho: Orai por nós. Estamos
persuadidos de ter a consciência em paz, pois estamos decididos a procurar
o bem em tudo. Com o maior encarecimento, porém, vos rogo que oreis,
para que mais depressa eu vos seja restituído. (Hebreus 13,18-19). São
Paulo recorre à intercessão dos cristãos de Roma: Rogo-vos, irmãos, em
nome de nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da caridade que é dada pelo
Espírito, combatei comigo, dirigindo vossas orações a Deus por mim (Rm
15,30). Deus sabe de todas as coisas e, assim, conhece nossas
necessidades. Mas, por nossa causa, quer que tenhamos o costume de pedir
a Ele por nós e por outros, mesmo que nós mesmos possamos ir
diretamente a Ele, e que os outros também podem fazê-lo, mas, como está
no texto citado. De fato, mesmo que o autor podia rezar diretamente a
Deus, e com certeza o fazia, isso não o dispensava a que recorresse
também às orações dos irmãos na fé (orai por nós) que rezariam a Deus
intercedendo em favor deles. Esse pedido é o mesmo que endereçamos aos
santos do céu dizendo: rogai (ou roguem) por nós. Sabe-se que os santos
não nos podem oferecer nada, a não ser sua boa vontade de rezar por nós a
Deus, em nome de Jesus Cristo, da mesma forma como fazemos uns pelos
outros aqui neste mundo. A diferença é que eles estão mais próximos de
Deus, pois o pecado não mais faz parte de suas vidas, são santos e justos,
sendo suas orações muitíssimo agradáveis a Deus, pois somente podem
pedir de acordo com a santa vontade divina, sendo inspiradas pelo próprio
Espírito Santo (Hebreus 8,26). Contrariamente a isso, nem sempre as
intenções dos fiéis neste mundo estão de acordo com o Espírito Santo, ou
suas vidas estão de acordo com o santo Evangelho, o que faz necessário
aprendermos sempre mais sobre a oração e deixar que o Espírito de Deus
ore em nós e por nós até quando intercedemos por todos, que é uma regra
para nós (Hb 8,26). Desse modo está provado que a oração que os cristãos
fazem aos santos tem o sentido de pedir que intercedam a Deus por nós,
juntando suas orações às nossas, e não uma forma que dispensa de ir a
Cristo, como se isso fosse uma tarefa para outros. Vamos a Deus em nome
de Jesus Cristo e pedimos pelos outros, os outros fazem o mesmo
solicitando os favores divinos para nós, e é isso que fazem os santos que
habitam o céu. A Igreja tem o cuidado de dizer rogai por nós, nas orações
aos santos, e tende piedade de nós nas orações a Deus, pois somente Ele
pode ter tal atitude para conosco. Porém, se se encontram orações que, às
vezes, expressam um pedido de misericórdia a um santo, deve-se entendê-
lo como sendo o pedido de que tal santo suplique misericórdia a Deus pelo
fiel que ora, sendo esse sentido da oração mais importante que o expresso
nas palavras, como afirma o teólogo Bellarmino. Embora salte aos olhos que
tais palavras dirigidas a uma criatura causam confusão enorme na nossa
mente, e parece mais prudente limitá-las ao essencial expresso pela petição
rogai por nós usada oficialmente pela Igreja. Quando o art. 21 da Confissão
de Augsburgo fala sobre a falta de prova de que se deve invocar os santos
ou procurar o seu auxílio, e apresenta 1 Tm 2,4, logo se nota qual foi o
equívoco dos protestantes. A prova que podemos apresentar é que a
intercessão é recomendada entre os cristãos junto com os demais pontos
tratados anteriormente. O fato de que Cristo é o único Mediador não tornou
impossível ou desnecessária a intercessão que fazemos uns pelos outros
neste mundo, portanto, se trata de questões inteiramente diversas a
Mediação única de Cristo com as intercessões que fazemos e que nos são
recomendadas por Deus. Se o texto de 1 Tm 2,4 proibisse a intercessão dos
santos do céu, proibiria a nossa intercessão da mesma forma, constituindo
uma negação desse próprio princípio, o que entraria em contradição com
outras passagens bíblicas. A Confissão de Augsburgo afirma que somente
ele (Jesus) prometeu que quer atender a nossa prece, mas isso é outro
indício do pouco entendimento da intercessão. Quando pedimos por alguém
estamos nos dirigindo a Cristo por essa pessoa, e o mesmo faz um santo do
céu. Quando nos dirigimos aos santos e pedimos que orem por nós, estamos
apenas solicitando que juntem-se a nós e orem nas nossas intenções a
Cristo, o qual irá nos atender, somente Ele, que é Deus é fonte de todo a
graça. A Confissão, porém, é clara em afirmar que o seu objetivo e intenção
é evitar algumas tradições e abusos, crendo estar essencialmente de acordo
com a Bíblia e a Igreja Católica. É fato que a Igreja afirma que a intercessão
dos santos não é necessária para a salvação, os santos não são fontes de
graça, mas que esse recurso é bom e útil, e não é diferente da intercessão
que é praticada entre os fiéis neste mundo. Se sabemos que está em
harmonia com a sã doutrina, que é possível que os santos do céu orem pela
Igreja na terra, não é razoável que se negligencie essa prática cristã
alegando falta de prova explícita de alguém pedindo a um santo falecido ou
de um mandamento para que façamos isso. O que falta, portanto, é um
princípio razoável que torne essa prática cristã proibida e condenável. A
condenação da mesma é tradição protestante, como a que está no Art. 21
da Confissão de Augsburgo. A Enciclopédia Católica nos informa que na
Apologia da Confissão de Augsburgo (Apology of the Augsburg Confession"
(ad art. xxi, sects. 3, 4) citado na Enciclopédia Católica – em inglês) é
admitida que os santos e anjos possam orar por nós, mas nega que isso
prove que podemos recorrer a eles. Os calvinistas, por sua vez, negam tanto
a intercessão quanto a invocação dos santos. Dessa forma, como um bom
protestante, um livre intérprete, mas, como é natural, fiel à essência da
doutrina protestante, o pastor Joel se nega a aceitar a verdade de que
podemos recorrer à intercessão dos santos do céu, ficando com uma
posição que poderíamos resumir do seguinte modo: se os santos podem
orar por nós, isso não implica que devemos pedir isso a eles, que eles
resolvam isso com Deus. Contudo, isso é algo sem sentido, como foi
analisado acima. Se Deus não mandou isso explicitamente, não significa
que seja proibido, visto que nenhuma implicação negativa afeta a sã
doutrina, mas, pelo contrário, se harmoniza com a mesma. A tudo isso se
soma, como comprovação da legitimidade da intercessão dos santos, a
compreensão que os primeiros cristãos tinham da doutrina sobre esse
ponto, que os levaram a recorrer à intercessão dos mártires, como é
atestada pela arqueologia. Os escritos dos Padres da Igreja são outras
fontes de comprovação dessa prática cristã. Como afirma a Enciclopédia
Católica (em inglês), essa prática está aberta a abusos. Realmente a má
compreensão é que tem levado a milhares de pessoas a abusar dessa
prática legítima, como conseqüência de falta de instrução cristã.
O pastor reconhece que não se pode negar que Deus mandou confeccionar
imagens de escultura e que é igualmente inegável que essa prática foi
proibida em Ex 20, 4. Para explicar o paradoxo aparente, o pastor usa a
mesma explicação católica: o aparente paradoxo se explica informando que
Deus não se opõe ao uso de imagens, contanto que tais estátuas não sejam
imagens dos deuses e usadas no culto às divindades pagãs. É meio caminho
andado o reconhecimento de que Deus proíbe imagens de deuses e não
simplesmente imagens. A proibição não se dirige à confecção de imagens
em si, mas de deuses, ou seja, de ídolos. Contudo, o erro continua em se
considerar as imagens dos santos como sendo adaptações das imagens dos
ídolos. Quando o protestante conseguir desfazer essa confusão estará mais
perto da doutrina cristã original sobre esse assunto. Suplicar bênçãos aos
santos seria um ajuste dessa prática no cristianismo. No entanto, o que se
pede aos santos é essencialmente a intercessão.

1.2. 3. “Os santos fazem milagres”

O parecer do pastor Joel de que não é bom negócio nos conduzirmos por
milagres, está correto. Devemos crer na palavra de Deus, isso é essencial.
Muitas vezes os “milagres” são enganosos, são falsos.

1.3. Está na Bíblia e na História Universal

1.3.1. À luz da Bíblia e da História

A Bíblia e a História não fornecem suporte para “provar” que a Igreja


tenha, sincreticamente, perpetuado o paganismo através do culto aos
santos e do uso das imagens sagradas, nem que a Igreja seja um tipo de
mistura cristianismo-paganismo. Dizer que o clero católico não ignora essa
paganização é um tanto impreciso. O que o clero conhece (pelo menos é o
que nos ensina) é aquilo que os protestantes chamam de “paganização”, o
que não o é de fato. Então, não há nada provado sobre esse aspecto. Antes
de tudo, deveria ser provado que o culto dos santos seja idêntico ao “culto
pagão” e que as imagens cristãs sejam de “deuses”, e que são utilizadas
com a mesma intenção. Isso não pode ser provado nem historicamente,
muito menos teologicamente. Podemos afirmar, com certeza, que tudo o
que Deus criou é bom. Atribuir, de alguma forma, “maldade” às coisas
criadas é um pensamento gnóstico. E certamente o pastor Joel não é adepto
de doutrinas influenciadas pelo gnosticismo. Portanto, nem todas as práticas
que os outros povos realizam são intrinsecamente más. Se os pagãos
acendiam velas, nada há de mau nesses objetos e nem nesse gesto em si.
As intenções contrárias ao cristianismo, seu uso religioso (interior), é que
não podem ser sincretizados com a fé cristã. Por outro lado, existem
costumes essencialmente maus e que não podem ser adotados em
quaisquer circunstâncias como, por exemplo, o canibalismo. Esse ato é
pecaminoso em qualquer tempo, lugar e/ou circunstância; é moralmente
mau. Portanto, os cristãos venceram o paganismo por cristianizar ou batizar
muitos de seus objetos, costumes e etc., dando-lhes, inteiramente, novo
significado. Tudo isso faz parte da sabedoria cristã católica, inspirada por
Deus. O primeiro grande teólogo cristão católico, São Paulo, realizou essa
espécie de cristianização de idéias pagãs. Em Atenas ele pôde observar e
ficou impressionado com a religiosidade daqueles gregos. Vendo um altar
pagão onde havia uma inscrição ao Deus desconhecido (At 17,23), São
Paulo se serviu daquela idéia que os pagãos tinham desse deus, e afirmou
que se tratava do Deus Javé, o Deus dos judeus [e naturalmente, dos
cristãos]. Nessa ocasião, o Apóstolo citou filósofos pagãos e, a partir do
pensamento desses, desenvolve uma forma de pensamento cristão. (At 17,
24-29). Essa é, basicamente, a mesma atitude que a Igreja teve e tem para
com os costumes pagãos: adota qualquer coisa que não seja pecaminoso
e o cristianiza. Como afirmou o apologista Dave Armstrong, isso é uma
ótima sabedoria prática e um profundo entendimento da natureza humana.
São Paulo certamente também foi alvo de incompreensões, e, claramente,
foi culpado de estar “misturando” cristianismo com paganismo. É óbvio que
isso estava longe de qualquer veracidade. Podemos concluir que as críticas
e acusações à Igreja quanto ao suposto casamento “pagão-cristão” são
infundadas, muito menos provadas. A atitude cristã é essencialmente
diferente de uma “adoção” de costumes pagãos. Isso reflete a parcialidade
dos acusadores. Da mesma forma que esses protestantes acusam a Igreja
de paganismo, por causa do uso de velas, imagens, etc, de igual modo os
ateus, os não-cristãos ou mesmo muitos grupos cristãos protestantes, usam
a mesma estratégia para negar doutrinas que outra ala do protestantismo
defende, como a Trindade de Deus, a Ressurreição de Cristo, afirmando que
essas doutrinas tiveram “origem” na Babilônia e no Mitraísmo pagão,
respectivamente. E, nisso tudo, apresentam “provas” como o pastor Joel
apresentou em sua análise. Esses protestantes não são considerados pelo
maioria do protestantismo, sendo considerados membros de seitas.

[ARMSTRONG, Dave. Is Catholicism Half-Pagan? Disponível em:


http://socrates58.blogspot.com/2006/02/is-catholicism-half-pagan.html.
Acessos em: abril 2009]

Um fato, por assim dizer, neutro, é o costume de que os povos tinham de


indicar um “deus” ou “deusa” para cada coisa. Como citou o pastor Joel, a
Bíblia fornece o nome de muitos desses deuses, como Dagom, Moloque,
Diana, Rainha do Céu etc. O pastor também nega que os santos possam
ouvir nossas orações, por não terem o atributo da onipresença ou
onisciência. Os santos não poderiam saber se o orante pede com fé ou não.
Essa prática teria tido origem no “paganismo” segundo dizem. E acha
curioso que a Bíblia não ensine a mediação dos santos, visto ser um livro
completo, bom para toda boa obra e que nos conduz à vida eterna.
[Apocalipse 22.18,19; 2Timóteo 3.14-17; Jo 20.30-31]. Por isso, afirma que a
Igreja apela à Tradição, enquanto que os protestantes provam que o
catolicismo não é Bíblico apenas pela Bíblia, ou, como disse, empunhando
Bíblias. Para que os protestantes possam crer que a intercessão dos santos
é patrimônio cristão, a Bíblia deveria conter uma afirmação exarada com
respeito a isso. Os profetas deveriam ter registrado que Deus elevou os
santos à categoria de medianeiros (Amós 3,7; Isaías 8, 20). Não foi lendo a
Bíblia que os católicos aprenderam isso, assevera o autor. Cita Is 63, 16 que
afirma que Abraão nem mesmo nos conhece, nem sabe que existimos. O
pastor acusa os papas de ensinarem o que bem entendem e de que não
podemos segui-los sob pena de cairmos no inferno. O que está na Bíblia é o
que nos basta. Todos devemos concordar com essa última afirmação. A
intercessão dos santos não é necessária à salvação, mas se trata de uma
demonstração da Comunhão dos Santos, visto que a morte não quebra a
ligação entre os remidos. Se há essa quebra, que o protestantismo prove
pela Bíblia. Que apresente provas convincentes de que os cristãos santos
que morrem estão desligados dos cristãos da terra e se não conseguirem
provar isso, está de pé a doutrina cristã de sempre: além de ser razoável, a
doutrina da intercessão dos santos é cristã de fato. Vejamos que essa
doutrina cristã ensina que os santos não são oniscientes, nem onipresentes,
nem onipotentes, pois são criaturas como nós. Porém, como estão no céu,
podem ver em Deus [que tudo vê, tudo pode, tudo sabe, etc.] os pedidos
que os santos na terra endereçam a Ele por Cristo. Tudo vem pela Graça de
Cristo. Como afirma Dom Estêvão, os santos não nos dão nada, pois não são
fonte de graça. [BITTENCOURT, Estevão Tavares. Católicos Perguntam.] São
intercessores, como nós aqui na terra, porém, estão em melhor condição do
que nós, estão no céu. Como o pastor sabe, em 2 Macabeus 15, 11-16 é
narrado que o profeta Jeremias e o sacerdote Onias oravam pelo povo.
Aceitando ou não a inspiração do livro de Macabeus, é certo que era crença
judaica, crença de judeus verdadeiros e ortodoxos, que morreram pela fé,
era crença de que os mortos podiam interceder, o que torna compreensível
que os cristãos tenham facilmente assimilado essa noção, não sendo
necessário que Deus tenha ordenado que peçamos a intercessão dos santos
do céu, pois a intercessão na Igreja já é imensamente recomendada e
somando-se ao fato de que permanecemos unidos em comunhão mesmo na
morte, é lógico concluir que a oração aos santos que habitam o Paraíso é
lícita. A prática de rezar pelos mortos não tem nada em comum com a
necromancia, nem com a adivinhação ou outras práticas ocultas, como diz
Dave Armstrong. Os judeus rezavam pelos falecidos, mas não praticavam a
necromancia e outras práticas que estavam terminantemente proibidas (2
Macabeus 12, 39-45; Deuteronômio 18, 9-14). Assim também fazem os
cristãos. A oração pelos mortos não contradiz as condenações daquelas
outras práticas, que são essencialmente diferentes. O Novo Testamento, por
sua vez, não condena a oração pelos mortos e nem os pedidos de
intercessão aos santos. Essas práticas não estão em conflito com o
cristocentrismo. Quanto à teoria da “associação de Igrejas” que teria se
tornado Católica, é uma teoria inconsistente. O pastor reconhece a
antiguidade de muitas doutrinas que ele nega: o batismo pelos mortos
(século I [1Co 15.29]), e as orações à “Mãe de Deus” (século III), etc. A
libertinagem, e a negação da ressurreição, essas são de fato doutrinas
heréticas. Então, as “heresias” já existiam, sendo o fato que ocorreu no IV
século foi o aumento do número de “hereges”, inserindo heresias do corpo
doutrinal da “associação” de igrejas. Interessante que os protestantes
geralmente falam do culto à Virgem Maria como datando do século V, e
agora o pastor reconhece orações à Mãe de Deus no século III, ou seja, um
recuo de quase dois séculos. A teoria da “degradação” do cristianismo como
sendo o “início” do catolicismo é falso. Como foi visto no início deste
capítulo, a Igreja Católica foi fundada por Jesus Cristo no século I. A esse
respeito, a História Universal é uma testemunha fidedigna, e como o pastor
Joel se mostra aberto a crer nos fatos historicos, e, em sua obra, costuma
citar, entre outras fontes, algumas revistas, parece oportuno registrar aqui
uma informação publicada na Revista das Religiões, edição 12, agosto de
2004, sobre o Cristianismo, ou Catolicismo, como preferir. Na reportagem O
Universo das Religiões é dito que o Catolicismo surgiu no século I, no
Oriente Médio [mais precisamente na Palestina] (p. 46). É impossível
estudar a história do Cristianismo sem estudar história a Igreja Catolica, que
é a mesma. Quanto às teses que tentam apontar uma “origem” tardia para
a Igreja, não passam de tentativas sem respaldo histórico. E se, porventura,
o ônus da prova de que a Igreja Católica é formalmente a mesma desde o
século I, for uma atividade exclusiva dos téologos, as provas teológicas são
igualmente fidedignas e abundantes. O pastor, continuando, chama os
cristãos da época de endiabrados, por coagir os pagãos à conversão e
matar os que discordavam deles, citando a Inquisição (que veio séculos
mais tarde), e o testemunho de Marcos Bagno, que, de passagem, se
expressou a respeito desse assunto em seu livro sobre o vernáculo da
Língua Portuguesa. [Marcos Bagno. Preconceito Lingüístico, 23ª edição, abril
de 2003, Edições Loyola: São Paulo, página 156. Ênfase no original]. O
pastor Joel afirma que a Igreja, que possui um pequeno e muito rico país, o
Vaticano, continuou inovando e que, no século XVI, os cristãos, lendo a
Bíblia, descobriram que estavam enganando e sendo enganado, dando um
golpe nos “inovadores” (o pastor se refere aos católicos). E afirma que
durante a história os “cristãos” verdadeiros sofreram pela verdade,
certamente se referindo às heresias montanista, valdense, albigense etc.
Depois diz: Os papas tentaram e tentam refrear este movimento, mas não
conseguem, porque “O SENHOR DOS EXÉRCITOS ESTÁ CONOSCO”, afirmam
os integrantes deste mover de Deus. Esse movimento, ao qual se refere o
pastor, é o Protestantismo. É difícil crer que Deus tenha guiado tão
desorientado movimento. Que tudo esteja na Providência Divina não
podemos duvidar. A doutrina dos Reformadores está cheia de contradições.
O Protestantismo surgiu numa época propícia, necessária devido aos
inúmeros abusos, à baixa moral e etc., mas Deus continuou sua obra na
Igreja que Cristo fundou, conhecida por todos como a Igreja Católica
Apostólica Romana. Bata ver a Reforma Católica operada no Concílio de
Trento.

CAPÍTULO 2

AS PRETENSÕES DO CLERO CATÓLICO

2.1. A Igreja Católica é a única Igreja de Cristo.

Neste capítulo iremos analisar mais criticamente a afirmação de que a


Igreja Católica é a única Igreja de Cristo. Isso tem desconsertado a muitos
protestantes, e o pastor Joel demonstra, através de várias citações de obras
católicas, que essa doutrina é pregada pela Igreja, dizendo: “Se o leitor
duvida, vamos às provas”. De fato, a Igreja afirma aberta e irrefutavelmente
ser ela a única Igreja fundada por Jesus Cristo, Filho de Deus e Nosso
Senhor.
Após várias citações, ele conclui que “apresentar-se como a única
Igreja de Cristo é uma das características das seitas; portanto, nenhuma
igreja realmente cristã prega isso”. Talvez não pregue com tanta clareza e
provas como a Igreja Católica, porém, as seitas (ou, como afirmou o pastor,
uma “igreja realmente cristã”) tem, em si, uma postura que demonstra
convicção de que é mais “correta” que as demais. E sob essa convicção,
está implícita a consideração de que se pertence à “igreja verdadeira”, ou
seja, de que se a tal igreja não é a verdadeira, pelo menos está contida
nela, é o que qualquer membro de uma igrejas dessas deve pensar.
Qual seria a Igreja de Cristo? É “o conjunto dos redimidos pelo sangue
de Jesus, e não os adeptos de uma certa associação”, responde o pastor
Joel. Quem assim afirma, certamente tem certeza absoluta de que faz parte
do “conjunto dos redimidos”, sendo assim, acredita ser membro da
verdadeira Igreja. É uma forma camuflada ou uma maneira metonímica de
afirmar o mesmo que a Igreja Católica afirma.
A atitude do pastor tem alguns pontos louváveis, porém, não
caracteriza uma posição correta e bíblica sobre o assunto. E se temos o
direito de discordar, o que o pastor Joel sempre concede, podemos afirmar
que estão errados os protestantes. Ele acusa os papas de “vaidade” por
ensinar a veracidade única da Igreja Católica: “Essa vaidade dos papas de
alegarem que o seu grupo é a única Igreja de Cristo, não encontra lugar
entre os membros da igreja deste autor, os quais, apoiando-se em Rm 14 e
outros trechos bíblicos correlatos, fazem “vista grossa’’ às falhas banais de
outras igrejas e as consideram co-irmãs em Cristo. Sim, há união entre nós!
Aleluia! Este respeito recíproco é importante, pois ninguém é dono da
verdade.”
Embora seja correto que ser humano nenhum é dono da verdade, é
preciso lembrar que devemos ser servos dela. E Romanos 14 não trata de
doutrina, mas de questões disciplinares, ou melhor, alimentares, que não
tinham relação essencial com a doutrina cristã, ficando a cargo do fiel,
através da sua consciência, escolher o que fazer, comer ou deixar de comer.
Isso é diferente do que significa entre os protestantes as adiaphora, ou
doutrinas “secundárias”.
Diz o pastor Joel: “Nunca ouvimos um pastor evangélico afirmar que a
sua igreja é a única Igreja de Cristo, ou a única organização
verdadeiramente cristã, mas a literatura dos católicos, das testemunhas-de-
jeová, dos mórmons, dos adventistas do sétimo dia e outros grupos pseudo
cristãos, tem a petulância de fazê-lo.”
Comparar a santa Igreja Católica com grupos protestantes modernos é
um equívoco imenso. É verdade que outros grupos protestantes afirmam
estar com a verdade, como os citados anteriormente, e, por isso e por
outros motivos, são tachados de “seitas” por outros protestantes.
Quando percebendo a posição moderada que a Igreja tem para com os
outros grupos cristãos, o pastor acusa a Igreja dizendo que “O clero católico
morde e assopra”. Continuemos nosso estudo crítico.

2.2. Fora da Igreja Católica não há salvação

O autor, citando o Catecismo pp. 232-244, ## 811-848, parece entender


não entendendo, pois afirma que o texto é incoerente e contem comentário
autodiscrepante. É direito nosso interpretar, para extrair o verdadeiro
sentido do texto, então, vou interpretar e mostrar que o pastor está errado.
Quem sabe, talvez, o texto não seja ambíguo mesmo, mas deve-se entendê-
lo segundo a Tradição. Quando aludi à possível ambiguidade textual, me
baseio em acusações dos cristãos católicos fiéis à Tradição, membros da
Fraternidade São Pio X, por exemplo, que muitas vezes afirmam isso, por
considerarem os textos do Vaticano II ambíguos. O pastor considera auto-
discrepância, porque nota que mesmo afirmando a exclusividade de
pertencer à Igreja para ser salvo, o catecismo diz que mesmo os
evangélicos e até os muçulmanos podem ser salvos sem pertencer à Igreja,
desde que não a conheçam ou saibam da sua verdade: Por isso não podem
salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus,
através de Jesus Cristo, como instituição necessária, apesar disso não
quiserem nela entrar ou então perseverar. O autor, então, conclui que,
nesse caso, os evangélicos não são anistiáveis, visto que não são inocentes,
pois estão sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus, através de
Jesus Cristo, o que os faz incrédulos, e não desinformados. Trata-se de uma
conclusão fortíssima, porém, pela sua afirmação condicional (se realmente
a Igreja Católica fosse necessária para a salvação), podemos afirmar que o
pastor, bem como muitos protestantes, não reconhecem a Igreja como tal,
embora só Deus é capaz de julgar os corações. A única maneira de se estar
nessa circunstância condenável, é conhecer a verdade e negá-la, mesmo
assim. Se o pastor Joel assevera que os protestantes não são inocentes, e
isso é um princípio que acarreta condenação, então estariam todos
condenados. Mas ninguém, a não ser Deus, pode afirmar, sem dúvidas, que
alguém não é inocente. Muitos protestantes conhecem que a Igreja afirma
ser a verdadeira, mas continuam fora dela. Isso não prova que não sejam
mais inocentes, mas que, por algum motivo desconhecido, seu
conhecimento ainda é insuficiente para convertê-los. Isso é uma visão
realista, não um morder e assoprar. E, se é assim, o pastor pode estar nessa
ignorância, mas com boa intenção, mesmo conhecendo tanto sobre a Igreja,
e, dessa forma, estar na graça, e pertencendo à Igreja Católica sem o saber,
pois se comporta com sinceridade. Portanto, segundo a Igreja Católica,
alguém nessas condições está na graça de Deus. Isso somente Deus pode
julgar com certeza absoluta. É isso que a Igreja ensina. Se, porventura,
alguém reconhece a Igreja como a verdadeira, mas, mesmo assim, continua
combatendo-a, e recusando nela entrar, esse perde sua sinceridade, perde
sua inocência e não pode ser salvo. Como muitos fariseus, que reconheciam
que Cristo pregava a verdade, mas não se converteram, mesmo diante de
sinais irrefutáveis, como a ressurreição de Lázaro e outros (João 11, 38-44).
Portanto, somente Deus conhece esses casos. Assim, o catecismo não pode
dizer com certeza que alguém esteja condenado, ou que será condenado,
mas se limita a estabelecer os princípios para entender essa questão.
Quando o pastor Joel diz: Realmente a Igreja Católica não crê na salvação
dos evangélicos, pois ela prega oficialmente que os que não somos devotos
de Maria estamos nas trevas, e assegura que sofreremos as conseqüências
dessa nossa atitude, nos impetrando um “ai”, ele não interpretou essas
palavras como foi explicado anteriormente. De fato, ele não as entendeu de
forma correta. Ou certamente as palavras não foram suficientes para deixar
a questão clara. Realmente, se a devoção à Virgem Maria é essencial para a
fé cristã, e se se a entende perfeitamente como tal, mas mesmo assim, se
põe contra ela, essa alma não tem outro destino a não ser o inferno, pois
nega uma verdade voluntariamente. A devoção aos santos não pode salvar
ninguém, mas a recusa em face a uma verdade não é atitude cristã, e se se
crê que a devoção mariana é correta, não se pode recusá-la. Mas o pastor
Joel vê a mediação mariana como desnecessária, impossível, inexistente,
como um pecado para a morte, uma idolatria. Se o faz de acordo com sua
consciência, pois ainda não foi convencido de sua veracidade, não pode ser
condenado. Se, porventura, vier a entender que a devoção a Nossa Senhora
é legítima, faz parte do patrimônio cristão, está totalmente em harmonia
com a doutrina de Cristo, sendo essencialmente cristocêntrica, pois como
diz Nossa Senhora em João 2,5, devemos obedecer a Jesus Cristo, se diante
de tudo isso, ainda teime em não aceitar, sabendo que está em erro, contra
sua própria consciência, que o estaria julgando, então não há como estar na
graça de Deus e, portanto, salvar-se. Então está provado que a Igreja crê e
ensina a salvação dos protestantes sinceros e de quaisquer outros de
qualquer religião. A missão da Igreja é pregar o Evangelho, e como cremos
que os protestantes estão em erro, devemos pregar a eles a verdade,
corrigindo-os no que estivem errados, e acreditamos que os sinceros de
coração estarão naturalmente abertos para acolher a mensagem da
verdade, quando a entenderem e conscientemente estarem convictos de
que devem abraçá-la. O Catecismo, 816, número já citado no livro, ensina
isso, de que existem pessoas que, de certo modo, já pertencem ao povo de
Deus. Ensina ainda que, os que nascem no protestantismo não podem ser
culpados do pecado de divisão, e, no sentido exposto acima, podem ser
justificados pela fé e pelo batismo (CIC, 817). Em todas as religiões, e por
que não dizer com maior razão, nas igrejas protestantes, fora da Igreja
Católica, existem elementos de santificação e de verdade. Todos esses
elementos vêm de Cristo e devem levar a Ele, e reclamam a unidade
católica. Por isso, a Igreja deve manter sua missão evangelizadora em prol
da unidade (CIC, 820), também o diálogo entre teólogos, a formação
ecumênica dos fiéis, o encontro de fiéis de igrejas diferentes. Portanto, o
que se está fazendo nesta crítica, que não extrapola a posição da Igreja, não
é proibido pelo Papa, mas recomendado (CIC, 821). Assim, entende-se que
as igrejas separadas não possuem a plenitude dos meios de salvação e, por
isso, devem conhecer esses meios que somente a Igreja Católica conserva.
Quando se diz que os sinceros de coração abraçarão a fé logo que estiverem
certos dela, não é semelhante ao que pensam também os protestantes,
quando pregam aos católicos, ou a quaisquer outras pessoas, sabendo que
a graça de Deus será dada aos sinceros e que desse modo estes se
converterão?

Criticando as palavras do Pe. Leonel Franca “Igreja Católica, [...] único


baluarte da força moral, única tábua de salvação” [...]. E: [...] “o
catolicismo vive e só ele pode dar vida”, o pastor indigna-se por entender
que essas palavras fazem dos evangélicos um povo imoral, não servindo
nem para soerguer a moral dos povos. E questiona, na sua indignação: Será
que esse infeliz pensa que as igrejas evangélicas são imorais? Raciocine e
tire suas próprias conclusões. As minhas conclusões foram outras. E parece
que estão de acordo com o que disse o padre Franca.

Certamente as palavras do padre Leonel Franca não tiveram essa


conotação. Isso não quer dizer que suas palavras não estão dizendo o que
dizem, para que o dito fique pelo não dito, mas significa que elas realmente
não estão dizendo da forma que entendeu o pastor Joel. Baseio-me no que
eu chamaria de “pressuposto católico”, num “instinto católico”, (sei explicar
direito), que o pastor Joel talvez não conheça, o que o faria compreender
corretamente as duras palavras do padre, acima citadas. Então, houve um
“problema de comunicação” aqui. Isso é muito comum, e qualquer um de
nós está sujeito a isso. O que de fato ocorre, segundo o padre Leonel Franca,
é que somente a verdadeira Igreja e Religião tem sempre a moral perfeita e
infalível, sendo as outras, igrejas e religiões, todas passíveis de permitir e/ou
adotar, oficialmente em seu ensino, erros morais graves. Entre essas
“outras”, estão as igrejas protestantes, que mesmo tendo intenção de
soerguer a moral dos povos, intenção de realmente pregar a moral, de não
ter o propósito de maculá-la, mesmo com tudo isso, são capazes de adotar
os maiores erros, e oficialmente, como por exemplo: o aborto (há
protestantes que o permitem), o casamento homossexual (fala-se aqui da
possibilidade de que essas coisas sejam adotadas) e etc. E assim, é nesse
sentido que o padre Leonel Franca disse aquelas palavras, de que só o
catolicismo é baluarte da força moral. Suas palavras disseram o que
disseram. Ele certamente não pensava que as igrejas evangélicas fossem
imorais, deduzo isso pelos conhecimentos que tenho de alguns de seus
escritos, mas ele não considerava essas igrejas como baluarte da força
moral, pois isso só é possível no catolicismo, tudo por graça divina, que não
permite que a Igreja afunde em qualquer erro de fé e moral, uma graça que
falta nas outras instituições, impossibilitadas de serem o referido baluarte, o
que as torna suscetíveis de ser tornarem imorais. Se são morais hoje,
podem não o ser amanhã, o que não é admissível em um baluarte. A Igreja
ensina que somente ela possui todos os meios de salvação que Cristo
entregou. Portanto, o protestantismo não é parte da Igreja. Mas Cristo pode
salvar os sinceros, os quais somente Ele conhece. Isso serve para qualquer
outra religião também, onde seus membros podem ser salvos se estiverem
agindo sinceramente, porém, na ignorância. Serve até para os membros da
Igreja Católica, pois nem todos os que estão fisicamente na Igreja serão
salvos, mesmo sendo a Igreja verdadeira, por não estarem na graça de
Deus. Isso prova que é necessário ser membro vivo da Igreja para ser salvo,
pois Cristo salva os que são seus e estão no seu rebanho. É verdade que
nem todas as ovelhas estão no rebanho visível, que é a Igreja Católica, mas
fazem pare da Igreja por seguirem a Deus sinceramente e se tornariam
membros da Igreja se fossem convencidos de que a mesma é a única
verdadeira. Conclui-se que se um católico afirmar que tal igreja ou religião
“salva”, ou que os seus membros podem ser salvos sem a necessidade de
sair dessa igreja ou religião, está errado. Se disser que todos os membros
das outras igrejas ou religiões estão perdidos a menos que se convertam ao
catolicismo, também está errado. Contudo, continua a necessidade de se
unir à Igreja caso se certifiquem disso. Se disser que todos os cristãos
católicos estão salvos, está errado. Portanto, ninguém se salva fora da Igreja
Católica, como foi mostrado acima, pois fora da Igreja não há salvação, e
isso foi Cristo quem ensinou. Essa é a doutrina oficial. Se alguém conhece a
verdade e mesmo assim a combate, esse não será salvo. É isso que afirma
sem hipocrisia o padre Vicente Wrosz na página 35 da sua obra citada no
livro do pastor Joel.

2.3. “Infalíveis”

O pastor Joel trata agora da infalibilidade papal, explicando que quando


o papa fala ex-catedra, ou seja, de sua cadeira, isto é, com a autoridade de
que é investido, possui o dom da inerrância, dado por Deus, o que significa
que os católicos não precisam se preocupar com a ortodoxia doutrinária,
bastando fechar os olhos e seguir ao papa sem medo, visto que é
impossível que o papa erre. Mas é de notar que não é assim que funciona
normalmente. Embora seja correto que o papa não possa errar em assuntos
de fé e costumes em seus pronunciamentos ex-catedra, nem sempre, e é
até raro, ele fale como Supremo Pastor ou ex-catedra. Isso significa que os
pronunciamentos papais podem cometer erros ou equívocos, e os cristãos
católicos estão sempre atentos às suas palavras e lhe devem obediência
desde que seus ensinamentos estejam em harmonia com a fé cristã perene.
Agora, quanto aos pronunciamentos ex-catedra há de fato uma
tranqüilidade eclesial, visto que é o próprio Senhor Jesus que guia a sua
Igreja. O autor faz quatro transcrições para provar que a Igreja ensina a
infalibilidade papal, duas do Catecismo da Igreja Católica, página 255, #
889 a 891, uma da obra do Padre Cechinato, Os Vinte Séculos de
Caminhada da Igreja, Editora Vozes, 4ª edição de 2001, página 358. O
Catecismo ensina que a infalibilidade da Igreja é uma participação na
própria infalibilidade de Cristo que assim o quis e etc. A primeira citação é
clara e o pastor reconhece que seria o bastante, mas como havia prometido
quatro citações ele prossegue. A segunda citação, nº 889 e 891 do
Catecismo, ensina a infalibilidade do papa e dos bispos em união com ele. A
citação do padre Cechinato confirma essa verdade afirmando que é o
Espírito Santo que garante a infalibilidade do papa. Isso causa espécie nos
protestantes, e o pastor pergunta: O que o Papa pretende com essa
pretensão de infalibilidade exclusiva? Resposta: Manipular os católicos a
seu bel-prazer. Então, para o pastor a doutrina da infalibilidade papal é uma
estratégia para manipulação a bel-prazer dos católicos. Quando o papa
declara que sua infalibilidade tem a mesma extensão que o depósito da
revelação está afirmando que é tão inerrante quanto a Bíblia. Mas vejamos
bem que a Bíblia é a Palavra infalível de Deus e é nela que está ensinada a
doutrina da infalibilidade do papa, então, é um dogma de fé. O pastor cita
alguns exemplos que “provariam” que o papa não é infalível nas “decisões
eclesiásticas”, as quais são a proibição da leitura da Bíblia em 1229, a
Inquisição, as decisões do papa Vitélio para que rezasse a missa em Latim.
Para um católico que conheça bem a doutrina da infalibilidade, esses
exemplos não provam nada, mas para os protestantes e o público em geral,
que pouco ou nada entendem da questão, isso é prova de que o dogma é
“falso”. Poderíamos até apostar que, na maioria das vezes, essa conclusão é
feita a priori e que as “provas” alegadas são resultado de meras pré-
concepções. Quando houve a proibição da leitura da Bíblia em Toulouse, no
ano de 1229, aquela era uma medida específica que deve ser entendida
segundo as circunstâncias históricas. Não foi algo universal e de sempre,
mas uma decisão em um tempo definido e por motivos razoáveis. Hoje, a
Igreja recomenda a leitura da Bíblia, pois aquelas circunstâncias não
existem mais, e é inviável uma proibição dessas nos tempos atuais. Mas o
pastor vê nisso uma contradição, pois em 1229 se proibiu a leitura Bíblica e
hoje se a recomenda. Pela explicação anterior é possível dirimir a questão.
No entanto, o autor acrescenta que a Bíblia católica, hoje recomendada para
leitura, está “adulterada”, pois contem livros “apócrifos” e “explicações”
(com aspas) nas margens inferiores, que o autor chama de heréticas. Os
livros que o autor chama de apócrifos nada mais são que aqueles livros
deuterocanônicos, e as explicações, embora não sejam infalíveis, não são
heréticas mas tem por objetivo auxiliar na correta interpretação da
Escritura, como fazem os protestantes com suas bíblias de estudo, uma
exemplo é a Bíblia Apologética. A inquisição, referida pelo autor como essa
tal de santa inquisição, que teria matado a bel-prazer quem se recusasse a
submeter aos abusos dos emissários de Satanás, nada mais foi que uma
instituição que teve como objetivo defender a fé em tempos difíceis e de
heresias perigosas. Os estudos reconhecem que houve abuso de autoridade
por parte de inquisidores, o que não invalida a instituição e suas intenções.
Segundo o pastor, a Igreja mantem por escrito que os heréticos devem ser
excomungados e mortos, embora não os matem mais, citando para isso a
obra de um pastor, Homero Duncan. O pastor cita também o caso do Papa
Vitélio que teria decidido falar a missa em Latim para que ninguém
entendesse nada, uma idéia agradável que levou a proibir, por
determinação, a tradução da Bíblia para o vernáculo. Hoje, diz o pastor, as
traduções são feitas coma aprovação dos papas, querendo com isso fazer
notar uma “contradição”, visto que os papas daquela época “se opuseram”
às traduções bíblicas e os de hoje as aprovam, o que seria mais uma prova
da falibilidade dos papas. Não é necessário provar que tudo isso é mais um
anacronismo e, na prática, mais uma incompreensão do dogma da
infalibilidade papal. Depois o autor cita o Padre Miguel Maria Giambelli, que
“interpreta” (com aspas acrescentadas pelo pastor) Mateus 16, 19 como foi
dito anteriormente. Para contradizer a interpretação católica, o pastor cita o
caso em que São Paulo chamou a atenção de São Pedro por causa de sua
atitude de evitar comer com os cristãos provenientes do paganismo,
agradando aos cristãos judeus. Isso seria uma “prova”, pois se o papa é
infalível, e S. Pedro era Papa, S. Paulo deveria ter se silenciado. Mas a
doutrina da Igreja, mais uma vez incompreendida, não ensina que o Papa é
impecável (se bem que os protestantes e, portanto, o pastor Joel, conhecem
essa resposta católica e consideram-nas nas suas acusações) e que os
cristãos tem o direito e o dever de criticá-lo em suas posições não ortodoxas
e até desobedecê-lo se ele faltar com a verdade. A História Universal pode
provar isso. Então, o evento de Gálatas 2, 11-14 não prova nada contra a
infalibilidade papal. O autor afirma que Mateus 16.19 está mal traduzido na
maioria das Bíblias protestantes e católicas. Segundo ele, essas traduções
equivocadas estariam conferindo a São Pedro uma autoridade que o poria
acima de Deus, sendo que o Céu se orientaria por Pedro e não o contrário.
Então o autor apresenta a tradução da Almeida Revista e Atualizada, que
teria “corrigido” o erro traduzindo assim: "... o que ligares na terra, terá sido
ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus".
O sentido da tradução seria que Jesus não estaria dizendo que aprovaria o
que Pedro fizesse, mas que Pedro ao fazer qualquer coisa, devia certificar se
a mesma gozava ou não da sanção do Rei dos reis e Senhor dos senhores –
Jesus Cristo – o Filho do Deus vivo. Isso significa que São Pedro não teria
poder de fazer nada, mas que seus atos necessitariam da sanção de Cristo,
ou melhor, que já teriam sido feitas por Cristo, como é explicado pelo pastor
no texto de João 20, 23. Nesse caso de Mateus 16,19 o apostolo deveria ter
certeza, se certificar de que o que estava fazendo tinha a sanção celeste ou
tinha sido sancionado por Deus. Mas a doutrina católica ensina que o Papa
tem poder conforme a verdade, na verdade e nunca contra a verdade. Todo
o pronunciamento dentro da verdade é ratificado pelo Céu. Sendo assim, as
palavras de Cristo são como foram pronunciadas: S. Pedro tinha autoridade
de ligar e desligar em nome de Cristo, com a aprovação de Cristo, dentro da
Lei de Cristo, conforme a vontade de Cristo. Talvez isso tenha ficado claro.
Felizmente o pastor Joel reconhece que as outras traduções são também
corretas: O modo como Mateus 16.19 está no original, aceita tanto esta
última tradução, quanto as outras. Nestes casos, a tradução fica a cargo do
bom senso e, sobretudo, do contexto bíblico. O que estaria por trás das
traduções seria o bom senso e o contexto bíblico ou, mais precisamente, a
orientação teológica do tradutor. Para dar razão à última tradução, o pastor
“apresenta” os cristãos não se submetendo cegamente aos apóstolos,
chegando mesmo a questioná-los, entendendo que esse era o “modo de
tratamento” que os cristãos tinham para com os apóstolos. Para isso o autor
cita Atos 11, 2-18, principalmente os versos 2, 3 e 18. Nessa passagem é
dito que os cristãos se apaziguaram depois que são Pedro se explicou [por
ter entrado na casa de Cornélio, que era um gentio], o que supõe um
debate acirrado. O pastor termina esse raciocínio assim: Eles tinham que
provar que os seus sermões tinham a aprovação de Deus (Atos 17.10,11). É
necessário dizer, principalmente dessa última parte, que o pastor está
totalmente equivocado. Em nenhum lugar é encontrado cristãos
requerendo provas de que os sermões dos apóstolos eram aprovados por
Deus, e se assim o fosse, os cristãos é que se tornariam, de certa forma, os
árbitros ou o árbitro da doutrina. O texto de Atos 17, 10 e 11, que serviu ao
pastor para dar “suporte” a essa posição, infelizmente não se encaixa nela.
O contexto de Atos 17 fala dos judeus da Beréia que, abertos à pregação
apostólica, examinavam as Escrituras para se certificarem de que Cristo era
o Messias que os apóstolos estavam anunciando. O resultado é que muitos
judeus bereanos se converteram. Eles não eram cristãos ainda. O mesmo se
diz dos tessalonicenses que, ao contrário dos bereanos, foram menos
nobres por não serem abertos ao anúncio evangélico e em conseqüência
disso, somente alguns se converteram. Os cristãos eram totalmente
submissos aos apóstolos, bastando que alguns começassem a ensinar
doutrinas estranhas e serem denunciados pelas autoridades da Igreja. Em
Gálatas 1, 8 se pode perceber qual era o valor de autoridade que tinham as
pregações apostólicas: Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do
céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado,
que ele seja anátema. Toda a autoridade estava com os apóstolos. Nesse
contexto, quem se atreveria a requerer provas de autoridade ou de
aprovação de Deus a um apóstolo? Certamente isso não é impensável ou
impossível, mas é mais natural que surgisse na mente de homens pouco
ortodoxos e não [talvez nunca] dos cristãos fiéis. No texto de Gálatas citado,
o apóstolo está tão certo de sua pregação, como também da dos demais
apóstolos, afirmando que mesmo se eles ou um anjo do céu anunciasse
algum diferente estaria, por isso mesmo, amaldiçoado! Esse era o clima de
relação entre os fiéis e os apóstolos. Os apóstolos já haviam fornecido
provas suficientes de terem sido enviados por Deus e não era necessário
que a cada sermão fossem apresentadas novas provas. E mesmo o texto de
Atos 11, 2-18 trata da atitude de São Pedro de entrar em casa de pagãos e
não de algum sermão ou doutrina que ela tenha pregado. Igualmente pode
ser dito do incidente de Gálatas 2, 11-14 que trata de um comportamento
ou atitude do chefe dos apóstolos e nunca de um ensinamento. Todos eram
unidos na fé, na mesma doutrina cristã e apostólica. Diante disso, provamos
que podemos pensar teologicamente, e sabemos que os papas são homens
pessoalmente falíveis como todos nós, e que alguns durante a história
foram autores de pecados graves, sendo infalíveis somente nos assuntos
que Deus os encarregou de ensinar. A posição católica está longe de ser
fanática como diz o pastor, ou que somos privados do uso da razão por
causa do “fanatismo”. A infalibilidade papal existe e está em plena
harmonia com a doutrina cristã, nada tendo de farsa, como acusou o autor.
Deus não se contradiz mesmo! Nisso concordamos sempre. Saber que os
homens são falíveis e que, portanto, os papas estão nesse grupo, todos
sabemos, e por isso, o pastor reconhece que foi ridículo se por a provar essa
questão; mais ridículo que tentar provar a infalibilidade. Contudo, o fez,
segundo ele, por amor aos católicos, pois essa “heresia” não mereceria ser
refutada. Todos sabemos da falibilidade humana, a menos que alguém seja
doente mental, como disse o pastor, e se alguém se julgasse infalível, não
poderia ser condenado, pois os loucos não respondem por seus atos. E ao
falar isso, o pastor garante não estar sendo irônico, pois mesmo a ironia
sendo válida, utilizada até pelo profeta Elias diante dos adoradores de Baal,
e usada por ele [pastor Joel] em outros tópicos, não estaria fazendo uso dela
no momento, mas que suspeita realmente da sanidade mental de alguém
que sinceramente se julga infalível. A isso respondemos que obviamente
nenhum Papa pode ser chamado de louco ou doente mental, visto que são
conscientes de suas imperfeições e falibilidades, próprias da natureza
humana. O que não confundem é essa verdade com a outra, a da
infalibilidade Papal, que independe do homem, mas vem unicamente de
Deus. Um exemplo para entender melhor a questão é o ocorrido com o papa
João XXII. O Papa João XXII ensinou que as almas dos salvos falecidos
somente entrariam na visão beatífica após o juízo final, e mesmo pareceu
acreditar no sono da alma. Esse parecer foi até manifestado nos sermões
papais. Segundo o que os protestantes creem, e o pastor Joel assevera em
seu livro sobre o catolicismo, o papa é infalível e isso desabilita qualquer ser
humano a opor-se à sua opinião, e que nem mesmo um bispo ou o conjunto
de todos os bispos, visto que somente teria sua autoridade infalível quando
concordasse com o Papa. É necessário uma análise rápida sobre essa
questão. Quem é conhecedor da doutrina da Igreja sabe que essa ensina
que as almas dos salvos entram na visão beatífica tão logo são julgadas ou
purificadas, o que está em contradição com o que disse o papa João XXII.
Calvino tratou dessa questão no livro 4, capítulo 7, 28, da sua obra
Institutas, na qual afirma que o papa citado deveria ser tirado da lista dos
pontífices, já que emitiu opinião herética. Essa opinião implica num falso
princípio de que se um papa errou doutrinariamente, é prova que ele não é
papa ou que a questão lança dúvidas sobre o dogma da infalibilidade. Tudo
isso é apenas uma falta de conhecimento sobre o assunto. O que ocorreu foi
que o papa estava emitindo opinião pessoal, sobre uma questão ainda não
definida pela Igreja, e nessas circunstâncias, ninguém goza de infalibilidade,
nem o papa. Os teólogos da época se opuseram ao papa João XII e muitos
afirmaram que a sua opinião era herética. O papa escreveu em 1333 que
estava apenas expressando sua parecer pessoal. Em 1334 ele afirmou que
nunca foi sua intenção ensinar algo contrário à Sagrada Escritura, e antes
de sua morte, já estava convencido de que a as almas vão para o céu antes
do juízo final. Parece que a noção do sono da alma já havia sido condenada
em 1274. A comissão que estudou a questão a pedido do papa João XXII
decidiu em favor de que as almas gozam da visão beatífica antes do juízo.
Esse exemplo é prova histórica de que o papa somente é infalível quando
tem intenção de ensinar uma verdade para a Igreja Universal e não quando
emite parecer pessoal sobre quaisquer assuntos. [cf. para esse exemplo
utilizei informações de Dave Armstrong, comentando as Institutas de João
Calvino]. É o Espírito Santo quem guia a Igreja nesses assuntos. Nessa
questão, os teólogos estavam certos e o papa errado! O papa abandonou
suas convicções errôneas. Que esse exemplo seja suficiente para
demonstrar que a infalibilidade não é o que pensa o pastor Joel e a maioria
dos protestantes. Mais uma reflexão necessária sobre isso é que devemos
ter em mente que nem o próprio Papa pode “escolher” usar sua
infalibilidade quando bem entender, pois isso seria uma incoerência, visto
que, como alguém que tendo o poder de optar por estar livre de todo erro,
escolheria somente alguns momentos de sua vida, ao passo que em outros
optaria a mera condição de ser falível? Outra questão importante é que não
é possível que um mau papa, inspirado pelo Demônio, introduza uma
doutrina ex-catedra, pois caso isso venha a ser arquitetado, em qualquer
época, o próprio Deus se encarregará de não permitir a ocasião da
intentada pronunciação. Diante disso, vemos que a autoridade final para um
cristão católico não é o Papa, mas o próprio Deus. Creio que a maioria dos
católicos concordará que esses argumentos aqui tratados serviram para nos
tornar mais críticos e ainda mais fiéis à doutrina de Nosso Senhor Jesus
Cristo. O pastor termina esse tópico fazendo uma comparação inusitada do
Papa com um pregador que se auto-proclama “Jesus Cristo”, afirmando que
ambos estão no mesmo patamar, visto que possuindo direitos equivalentes,
um se proclama infalível e o outro o próprio “filho de Deus”. E mais, são
seguidos por pessoas inteligentes, “cultas”, como até uma psicóloga que
seria discípula do Inri! Poderíamos relativizar as opiniões afirmando, por
exemplo, que embora os fiéis do pastor Joel não o considerem infalível, as
suas palavras gozam de grande autoridade, enquanto que para esses
mesmos fiéis, os pronunciamentos do papa nada valem! As opiniões do
pastor tem seu valor, porém, não derrubam a indestrutível doutrina cristã
que, nem de longe, são atingidas por muitas dessas “críticas”. Algumas
críticas são pertinentes, mas não destroem a doutrina, antes servem para
elucidá-la.

2.4. São os únicos sucessores dos apóstolos

A sucessão apostólica é bíblica e comprovada historicamente. É sabido


que a Igreja afirma que os protestantes estão desligados dessa sucessão,
não a possuindo, por haverem se separado da Igreja verdadeira. Isso é dito
no respectivo item do livro do pastor Joel. Respondendo à crítica católica, o
pastor Joel afirma que os protestantes possuem a sucessão por
conseqüência natural do fato de seguirem a Cristo. Porém, é necessário que
haja tanto a mesma doutrina do Evangelho quanto possuir a linhagem
ininterrupta dos sucessores de Pedro. O protestantismo cai diante dessas
duas exigências. Desse modo, os verdadeiros Ministros do autêntico
Evangelho fazem parte do clero cristão católico.

2.5. Papa – o alicerce da Igreja

Tanto os cristãos católicos quanto os cristãos protestantes creem e


ensinam que a Pedra angular da Igreja é Cristo. É Ele quem sustenta a Igreja
sendo o seu fundamento mais profundo. Mas Pedro é a Pedra colocada por
Cristo como fundamento visível. Isso é o que está expresso em Mateus
16,18. Portanto, é uma premissa verdadeira que Cristo tenha posto um
fundamento visível para Sua Igreja, sendo Ele o infalível Arquiteto. Os
protestantes preferem interpretar o texto como se ele não estivesse dizendo
o que diz, e ainda afirmam que a Igreja é quem está interpretando
“erradamente”.

O pastor Joel diz: Considerar-se o alicerce da Igreja é, sim, ser


pretensioso. Segundo ele, quem examina a Bíblia sem ser guiado pelo Papa,
chega à conclusão de que a linguagem metafórica do texto não diz que a
Pedra é Pedro, pois os apóstolos trataram de elucidar a questão (Mt 21.42;
At 4.11; 1Co 3.11; Ef 2.20; 1Pe 2.4-6, etc.). Os textos citados falam de Cristo
como a Pedra angular ou como a pedra da qual beberam os israelitas no
deserto e que tudo isso prefigurava a Cristo (1 Cor 3,11). Esses textos não
invalidam o texto de Mateus 16, 18. Ou melhor, eles não o explicam como
se ele estivesse afirmando que a Pedra não era mesmo Pedro. O texto de
Mateus 16,18 deve continuar dizendo o que diz, ou seja, Pedro, naquela
ocasião é a Pedra e Cristo era o Edificador. Os outros textos citados
apresentam a verdade de que Jesus é a Pedra. E Ele mesmo em Mateus
afirma que construiria Sua Igreja sobre Pedro.

Depois o pastor passa a explicar o sentido da passagem de Mateus 16,


18, certamente crendo que está apresentado o “verdadeiro” significado,
visto não estar sendo submisso ao Papa no seu exame. O pastor afirma que
tanto a palavra traduzida por pedra, quanto o vocábulo transliterado por
Pedro, podem ser traduzidos por pedra. Até aqui está correto. Mas o pastor
alude ao jogo de palavras que Jesus fez, o que está expresso no original
grego: No original, “pedra” é petra, isto é, rocha ou penha. Já o vocábulo
transliterado por “Pedro” é Petros, isto é, uma pedra pequena ou fragmento
de pedra. Uma pedra que possa ser transportada. Ora, se Cristo, logo após
comparar Pedro a uma pedrinha, afirmou que edificaria a Sua Igreja sobre a
rocha, salta aos olhos que Ele não pretendia construir a Igreja sobre Pedro.
E conclui que a Pedra era Cristo. Essa interpretação é negada por muitos
eruditos protestantes e está teológica e gramaticalmente incorreta, pois
todo o contexto aponta a Pedro como sendo a Pedra. Além do mais, essa
explicação do pastor Joel não se harmoniza com o contexto. Naquele
momento Cristo estava elogiando a São Pedro pela sua confissão de fé e,
desse modo, colocando-o como pedra fundamental da Sua Igreja,
constituindo aquele momento como o de uma condecoração. Já quando se
atenta às palavras do pastor Joel, ficou subentendido que Cristo estava
“desqualificando” a São Pedro, que não seria pedra, mas uma pedrinha que
não servia de fundamento. Essa intenção não foi tirada do texto, mas do
que se poderia chamar “teologia protestante oficial”. Também se pode
argumentar que o grego tem outra palavra para pedra pequena ou pedra
que pode facilmente ser transportada, a qual é lithos. Se petros também
pode significar uma pedra menor, não é a palavra mais indicada para
expressar isso quando comparada com lithos. Soma-se a isso o fato de que
Jesus não falou em grego, mas em aramaico, e em Sua língua materna
kepha significa pedra. Explica-se o motivo de o Evangelista ter traduzido
diferentemente Kepha por Petros e Petra no texto de Mateus 16,18. É que
Petra é nome feminino enquanto Petros é masculino. O sentido é o mesmo
que foi expresso por Cristo na Sua língua original, Pedra ou Rocha, pois às
vezes o nome vem transliterado, o que prova que foi Kepha o nome dado
por Cristo ao apóstolo Simão (João 1,42 translitera Cefas). Outros objetam
que o Espírito Santo, que é o verdadeiro autor da Bíblia, usou Petros ao
invés de Petra, o que seria uma diferenciação de significado, como quer o
protestantismo. Mas, mesmo assim, permanece o fato de que ambos os
termos significam rocha ou pedra, assim como Kepha em aramaico, a língua
original. A doutrina católica não faz dos papas o real caminho de salvação,
como sendo o caminho, a verdade e a vida, como acusou o pastor, mas, é
certo que Cristo salva somente os que fazem parte da Sua Igreja, que são os
verdadeiros membros, seja ela entendida como quiser. Não é a Igreja quem
salva, mas ela “salva” como um sacramento de salvação, visto que é o
corpo de Cristo. O pastor Joel diz: Se essa crença fosse verdadeira, os
assassinos que matavam em obediência aos papas, nos dias da famigerada
“Santa” Inquisição, estariam hoje no Céu; ao passo que João Huss, Jerônimo
Savonarola, e milhares de pessoas que ao serem ameaçadas pelos papas,
preferiram a morte a desobedecer a Cristo, estariam todas no Inferno. Essa
afirmação supõe uma certeza de que todos os inquisidores, ou os
assassinos que matavam em obediências aos papas estão no inferno e que
Huss, Savonarola e outros milhares como eles estão no céu, o que é uma
certeza impossível.

Se algum ensinamento do Papa entrar em choque com a Palavra de


Deus, o princípio católico é de que se obedeça a Deus. Mas sempre que isso
ocorrer, o Papa não estará apoiado pela Bíblia e tradição. E não é verdade
que os cristãos católicos não pensem só pelo fato de serem submissos à
Igreja. Os protestantes também devem ser submissos à autoridade de suas
igrejas, por exemplo, quando elas ensinam o Sola Scriputra e desdenham a
Tradição. Nenhum protestante ortodoxo poderá questionar essa verdade se
pelo seu livre exame chegar a uma conclusão contrária. As palavras do
pastor Joel de que os santos da Igreja concordavam com os protestantes e
não com os católicos em certos pontos, são palavras que deixam de
considerar certos aspectos. Por exemplo, a citação de Santo Agostinho, que
falava da confissão de Pedro, ou seja, o próprio Cristo, como sendo a pedra,
não nega que São Pedro seja a pedra, o que é confessado pelo próprio Santo
Agostinho e outros padres. O pastor Joel cita a Bíblia Apologética, a qual traz
o testemunho de Santo Agostinho e São João Crisóstomo referindo-se ao
texto de Mateus 16,18 no qual a pedra é Cristo, confessado por Pedro:
Nesta pedra...a qual tu confessaste, Eu construirei minha Igreja. Esta pedra
é Cristo; e nesta fundação o próprio Pedro construiu (Agostinho, Comentário
Sobre o Evangelho de João, citado na Bíblia Apologética, 1ª edição/2000, ICP
Editora, página 1072, nota de rodapé alusiva a Mt 16.18). Dependendo do
contexto, às vezes se fala da confissão de Pedro e outras vezes do próprio
Pedro sem contradição alguma, pois os santos padres não negavam que
Pedro fosse a pedra, como fazem os protestantes. Assim, os protestantes
estão, nesse caso, concordando parcialmente com os santos citados. Uma
prova disso é que até mesmo o Catecismo da Igreja Católica cita o texto
acima nesse sentido em que foi citado na Bíblia Apologética, sem negar o
primado de Pedro. Sobre os pecados de alguns papas ao longo da história,
isso não quebra a sucessão apostólica, como sugere o autor, mas apenas
prova que existiram maus papas e que a Igreja não é dependente, em
última instância, do Papa, mas de Deus que a sustenta. Sobre os bispos da
Fraternidade São Pio X que foram excomungados, é interessante que a dita
excomunhão foi suspensa e o diálogo com a Fraternidade continua. Eles
eram considerados cismáticos, mas parece que não eram, portanto, como
eles mesmo dizem, a excomunhão foi inválida. Quanto às diferenças que
não poderiam fazer diferença entre católicos e ortodoxos, é uma
consideração muito oportuna e insuspeita da parte do pastor Joel, visto que
muitos protestantes costumam citar essas “diferenças” enormes entre as
duas Igrejas, tudo com o intuito de desqualificar a tradição cristã. Quanto às
divergências bem mais acentuadas que a Igreja estaria tolerando em seu
meio (mais acentuadas que aquelas pregadas pelos Católicos Velhos, seria
interessante citar alguns exemplos. Faltou no livro.

2.6. Sobre os títulos honoríficos do clero

Citar Mateus 23, 9 como proibição de chamar o presbítero de Padre ou o


chefe da Igreja de Papa não prova nada, é uma interpretação falsa. O texto
proíbe ter um pai segundo o entendimento pagão e meramente humano,
como se os ditos “pais” fossem fonte de tudo, fora de Deus. Veja que os
judeus chamavam Abraão de Pai e Jesus nunca os repreendeu por isso, mas
ratificou esse costume. O sentido do termo é o que importa. Outros títulos
devem ser entendidos dentro da doutrina cristã. O de Sumo Pontífice, por
exemplo, é semelhante ao de Sumo Sacerdote, que os judeus conheciam. É
interessante notar que Cristo nunca rejeitou tal título quando se referia ao
sacerdote humano dos judeus. A respeito da hierarquia na Igreja, essa é
percebida mais na prática que os textos bíblicos evidenciam do que pelos
nomes (Atos 20,28). Com o desenvolvimento da doutrina se percebe já no
século II os títulos sendo usados mais tecnicamente. Pode-se concluir que os
títulos do clero não derrogam a autoridade de Deus.

2.7. Donos da verdade

O pastor cita o fato de a Igreja ensinar que somente o Papa e os bispos


em comunhão com ele podem interpretar a Bíblia autenticamente,
excluindo até os padres dessa função. Assim, os protestantes estariam
desautorizados de interpretarem a Bíblia. É verdade. O pastor citou o
Catecismo: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi
confiado exclusivamente ao Magistério da Igreja, ao Papa e aos bispos em
comunhão com ele” (Catecismo da Igreja Católica, página 38, # 100).

Quanto ao texto de Atos 17, 11 como sendo um exemplo de que leigos


podem julgar as pregações oficiais através do livre exame, isso não é
verdade. Os bereanos que examinavam a Bíblia não eram cristãos ainda,
mas judeus. Após converterem-se, e muitos se converteram, eles não
poderiam continuar julgando a pregação dos apóstolos, mas aprendendo
submissos às autoridades constituídas por Deus. Eles examinavam como
alguém exigindo certos requisitos para que abracem ou não o que lhe está
sendo apresentado. Se os apóstolos estavam certos ao afirmarem que a
Sagrada Escritura apontava a Jesus como o Messias, então se tornariam
cristãos. Eram conhecedores da Bíblia, não necessitaram de ir aos seus
líderes judeus para questionarem se as profecias se referiam a Cristo, mas a
comparação da própria pregação sobre Cristo com a Escritura foi suficiente
para aceitarem o Messias prometido. É um exemplo a ser seguido pelos
cristãos, o paciente e perseverante estudo das Escrituras. Quanto ao que
ocorreu depois da conversão é de se supor com razão que nenhum bereano,
como nenhum outro cristão, ousava discordar da doutrina pregada pelos
apóstolos, como se pelo livre exame pudesse dizer que isso ou aquilo não
“era bem assim”. Mesmo porque o Novo Testamento ainda estava
nascendo, eles o estavam aprendendo e não tinham capacidade alguma
para discernir o que era ou não doutrina de Cristo. De fato, isso era
garantido pelo dom da infalibilidade que os apóstolos possuíam. Então,
quanto à crítica de que não existe grupinho algum a pensar por nós, de que
os leigos podem examinar a Bíblia para se certificarem da autenticidade ou
não do que o clero está ensinando, o pastor Joel, bem como todo o
protestantismo está enganado sobre o real sentido de Atos 17,11. Não é
verdade que se trata de tapeação o fato de que os bispos só podem
interpretar corretamente a Escritura se estiverem em comunhão com o
Papa. Isso é o que a Bíblia e a tradição sempre ensinaram. O pastor então
questiona: E como deve reagir o católico diante da alegada infalibilidade
exclusiva, que o papa e seus bispos dizem possuir? Os católicos podem
discordar disso e questioná-los? Podem fazer o que os bereanos fizeram,
comparando pelas Escrituras o que o apóstolo Paulo dizia, para se
certificarem da autenticidade ou não do que ele ensinava, sem serem
tachados de hereges, desobedientes, e sim de nobres, por este gesto tão
sábio? Novamente equívoco de se conceber o exemplo do bereanos como
sendo o do livre exame. Repito que naquela ocasião os bereanos não
deviam obediência nenhuma a São Paulo, pois nem eram membros da Igreja
ainda. Só passaram a ser quando se converteram. Aí é que não há lugar
para questionamento da doutrina oficial. Imagine alguém dizendo que o
apóstolo Paulo estava equivocado na sua doutrina, será que não receberia
dele um anátema? (Gálatas 1,8). Deus ordenou que obedecêssemos às
autoridades da Igreja e com certeza está garantido que oficialmente a
mesma não poderia ensinar o erro. Sobre as atitudes eclesiásticas na época
da inquisição, pode-se dizer que foram necessárias. Aí o pastor pergunta: é
necessário matar? Não, não é. Mas naquelas circunstâncias em que certos
delitos eram punidos com a pena de morte e sendo a população cristã e que
consideravam o pecado um crime pior que qualquer outro cometido a nível
social, pois é uma transgressão da Lei Divina, constituindo uma ofensa a
Deus, é fácil entender que a pena capital era vista como justa para os
hereges. O povo clamava por justiça, e as heresias não perturbavam até a
ordem social, não eram imaginação dos cristãos. É bom lembrar que a pena
capital é justificável pela Bíblia e pela razão e, desse modo, está justificado
o princípio que moveu a Igreja a aceitar certos apelos populares. Os Papas
estavam corretos na intenção, que é defender a fé, e infelizmente o Santo
Ofício deu ocasião para muitos e muitos exageros e abusos, contra a
vontade do Papa. O caso de Joana D´arc, por exemplo. O dever de defender
a fé continua e os papas de hoje continuam com essa consciência. Não é
mais imaginável um estabelecimento da Inquisição naqueles moldes, pois a
sociedade pós-moderna é totalmente diferente e até a pena de morte, que
em si é justa para certos casos extremos, é negada, pois impera um
sentimentalismo irracional na humanidade. E é impensável também que
alguém hoje possa ser julgado e morto legalmente por causa de religião,
pois as circunstâncias não mais permitem. É fato que a Inquisição não
existiu sempre daquela forma (1184 e 1233). Então vimos que a intenção de
defender a fé, somada à legitimidade da pena capital para delitos
considerados de extrema gravidade e ainda a constante solicitação popular
para uma tomada de posição quanto aos perturbadores ou mesmo traidores
da sociedade, como de fato eram considerados aqueles hereges (A. Souto
Maior. Historia Geral) levaram a Igreja a posicionar-se, de alguma forma,
pois não era mais possível mantivesse a mesma atitude, que seria
considerada omissa naquela época. O meio foi instituir um Tribunal, uma
forma de justiça para resolver a questão, ao invés de deixar que as massas
populares fizessem “justiça” com as próprias mãos. E certamente os
clérigos se pronunciavam contra aqueles linchadores, mas a Igreja não
podia somente proibir tais reações do povo, talvez seria interpretada como
uma defesa dos hereges. Talvez também essa posição não fosse eficaz ou
uma forma correta para evitar males maiores. Tudo isso torna razoável as
instituição tão criticada em nossa época. É melhor buscar o entendimento
da História ao invés de julgarmos os fatos. O Tribunal do Santo ofício evitou
aqueles crimes e praticou outros, é verdade. Mas isso faz parte das
imperfeições humanas, que nem sempre conseguem levar cabo os bons
princípios. A entrega ao braço secular para execuções eram raras, como nos
conta pesquisas profundas e imparciais. As cifras de “milhões” de mortos
pela Inquisição é falsa, nasce da imaginação não dos documentos históricos.
É um fato curioso que na Itália, onde o poder da Igreja é mais eficaz, as
execuções eram em número menor, ao passo que na Espanha, onde o poder
político se impôs e controlou os tribunais, cometendo muitos crimes que são
injustamente considerados eclesiásticos. Agora se continuam negando a
legitimidade intencional da Igreja, paciência. Quando é dito que um católico
não põe em dúvida a autoridade da Igreja está-se referindo ao princípio
evangélico que Cristo ensinou, ouvir a Igreja para assim ouvi-Lo (Lucas
10,16). A citação do Pastor Hugh P. Jeter, dizendo que o professor católico
merece toda confiança ao ponto de se afirmar que o branco é preto o aluno
deve concordar, isso é um absurdo. O que M. Garrido Alabama disse é muito
difícil de justificar-se. O pastor continua com a tese de que os padres não
pensam teologicamente: Como já sabemos, há muitos livros escritos por
padres, argumentando de tudo quanto é jeito, a fim de provar que nós, os
evangélicos, estamos interpretando mal a Bíblia. Mas essas críticas são
destituídas de valor, já que não procedem de alguém que, raciocinando com
sua própria cabeça, tenha tirado as suas próprias conclusões. Como
informamos, os padres não podem fazer isso. Só o papa e seus bispos
podem fornecer a real interpretação da Bíblia, segundo o Catolicismo. Ora,
para que sabermos a opinião de quem não tem opinião própria? A opinião
de um padre típico é: “É errado ter opinião”. Geralmente, quando um
padre nos “refuta”, o faz à base do seguinte raciocínio: “Quem são esses
evangélicos para discordarem de Sua Santidade? Na minha opinião
eles estão com a razão; porém, eu concordo com eles por causa das
minhas deficiências. Se eu não fosse tão ignorante, discordaria
deles. A lógica humana diz que a razão é deles; mas, como o Papa é
infalível, a conclusão óbvia é que eles estão equivocados”. Quanto a
isso, de que críticas católicas de que os evangélicos estão interpretando a
Bíblia erradamente serem críticas sem valor, visto que os padres católicos
não estão pensando por si, não é convincente, pois, se os padres escritores
não merecem a consideração do que publicam, por não estarem
expressando o seu parecer pessoal, poderia ser objetado que permanece de
pé as suas opiniões, que são fiéis ao parecer o Papa e dos Bispos, que
estariam pensando por si mesmos e concluindo aquilo mesmo que os
padres informam, dando valor à mesmas, que indiretamente são
apresentadas aos protestantes, sendo, portanto, em última análise, dignas
de consideração. Realmente a conclusão de que não se deve raciocinar é
idiota. Não parece ser isso o que de fato ocorre entre o clero cristão católico,
conhecido pela cultura eminente que possui. Mas nesse caso o pastor Joel já
disse que esses estão cegos (2 Cor 4,4). É óbvio que os dogmas são
indiscutíveis e não poderão ser mudados. Mas isso é comum ao
protestantismo também, que não abre mão do que considera fundamental,
como sendo os pilares da fé cristã, onde todos devem estar unidos, sob
pena que serem tachados de hereges, de não-evangélicos, de falsos
profetas, de pregadores de heresias de perdição. A diferença é que a Igreja
Católica tem diversos outros pontos doutrinais que são fundamentais e que
os protestantes consideram “secundários” ou como questões irrelevantes.
Então, não é, como foi exemplificado, uma questão de um idiota-guia e de
idiotas seguidores, formando dois conjuntos de idiotices, que não resolvem
nada mesmo, se assim o fosse. A citação de Romanos 14 como sendo uma
“prova” de que os cristãos primitivos divergiam em questões doutrinais não
prova nada. Essas divergências exemplificadas em Romanos 14 também
existem na Igreja Católica e não se assemelham em nada às divisões
protestantes.

CAPÍTULO 3

CRIANÇAS NO LIMBO?!

3.1. Expondo o que a “Igreja” diz

No respectivo tópico o pastor Joel expõe que a Igreja prega que os


recém-nascidos não-batizados não são filhos de Deus, nascem sob o poder
das trevas, do poder do Maligno (que com inicial maiúscula significa o
Diabo). Morrendo nesse estado não pode ir para o céu, mas sua alma irá
para o estado chamado limbo. Desse estado talvez possa sair um dia, pela
misericórdia de Jesus. Por isso, segundo diz, a Igreja ensina rezar pelas
almas das criancinhas mortas sem batismo, para que possam sair do limbo
e ir para o Paraíso Celestial. Depois questiona: O que levou o clero católico a
essa conclusão? E responde: Jesus disse que o ser humano tem que nascer
da água e do Espírito, para se habilitar a entrar no Reino de Deus (Jo 3.1-
5). Sabendo que é pelo batismo, segundo a Igreja, que se nasce pela água e
pelo Espírito, o batismo é necessário para a salvação, até dos recém-
nascidos, e se morrerem sem o batismo, estão privados da visão de Deus
face a face. Desconhece-se o modo pelo qual Deus aplica-lhes a salvação.
De fato, essa é a doutrina cristã católica.

Depois disso, o pastor cita cinco tópicos, do Catecismo, do Compêndio do


Catecismo e do Dicionário Aurélio, para provar que a Igreja ensina isso de
fato.

Passa a seguir a “refutar” o que a Igreja diz.

3.2. Refutando o que a Igreja diz

O autor irá tecer considerações quanto ao “imaginário” limbo, bem


como quanto às crianças lá retidas. Podemos afirmar que o limbo é uma
hipótese teológica, que o autor chamou de “imaginário”. Ele sabe que essa
doutrina não é dogma de fé, pois nenhum concílio a definiu.

3.2.1. Primeira refutação

O pastor acredita que o Dr. Aurélio [dicionarista] equivocou-se ao


afirmar que o limbo foi uma doutrina posterior ao século XIII, visto que D.
Estevão afirma que santo Anselmo a ensinou, e esse santo nasceu em 1033,
no século XI. Citação: “A partir de Santo Anselmo [...], os teólogos
propuseram o limbo como estado de felicidade natural reservada a tais
crianças; elas veriam a Deus não face a face, como no céu, mas
indiretamente, através do espelho das criaturas” (BETTENCOURT, Estêvão.
Católicos Perguntam. Santo André: O Mensageiro de Santo Antônio. 7 ed.
2004, p. 29). Mas D. Estevão diz que foi a partir de Santo Anselmo que a
doutrina foi proposta, o que implica que Santo Anselmo não a formulou. É o
que parece.

No item a) o pastor “descredencia” totalmente a Santo Anselmo, afirmando


que esse não foi teólogo, nem santo, mas um “falso profeta”, por ensinar o
Limbo, o que seria uma discriminação das crianças no além-túmulo, uma
invencionisse.

Afirmar que as crianças no limbo gozam de uma felicidade natural seria


tampar o sol com a peneira ou por o lixo sob o tapete, uma tentativa de
reparar o erro sem abrir mão dele. O pastor descreve o pensamento de
santo Anselmo: a) Deus, por ser justo, não pode levar para o Céu, as almas
das criancinhas que morrem sem ser batizadas, já que as tais estão
manchadas pelo pecado original; b) Deus, por ser amor, não as lançará no
Inferno, pois não têm culpa pessoal quanto a isso; c) há, portanto, um lugar
intermediário próprio para elas, onde, embora impossibilitadas de verem “a
Deus face a face”, podem, contudo, vê-lo “através do espelho das
criaturas””. E, por conseguinte, terem uma felicidade natural, inferior à
daqueles que estão para o Céu;. É importante notar que essa posição é
razoável. Devemos considerar três princípios verdadeiros: a) a necessidade
do batismo b) vontade salvífica de Deus c) os recém-nascidos [ou mesmo os
não nascidos, ainda em estado fetal] não tem pecado pessoal, mas nascem
com o pecado original. A doutrina do limbo tenta resolver a questão. É, no
mínimo, uma opinião teológica respeitável. O limbo das criancinhas não está
exarado na Sagrada Escritura, mas a conclusão teológica de Santo Anselmo
deve ser considerada. Não há revelação de que Deus salve
automaticamente a todo ser humano, o que implica afirmar que todo
homem nasce salvo. Essa certeza não é bíblica, é extra-bíblica e, pelo que
podemos notar pelo teor geral da Escritura, é uma doutrina anti-bíblica.
Portanto, todos nascem sob o império do Maligno, mas se morrem nesse
estado antes de atingir o uso da razão, Deus certamente possui outros
meios pelos quais salvá-los, fora do batismo. Um batismo de “inocência”,
como ironicamente propôs o pastor, talvez não seja adequado visto que o
pecado original deixa claro que o ser humano não é um inocente nato
diante de Deus. Mas como os infantes não possuem pecado pessoal, a
misericórdia de Deus nos inspira a esperar que a salvação deles é possível.
Uma razoável hipótese é que todos os que morrem sem receberem a
regeneração, e antes de atingirem o uso da razão, são postos à prova por
Deus, e usando do livre arbítrio podem se colocar pró ou contra Deus,
podendo ser salvo ou mesmo condenado. Diante da falta de revelação de
Deus quanto a essa questão, justifica-se rezar por essas almas. Dizer que
todas estão perdidas é um equívoco; afirmar que todas estão salvas
constitui outro; o estado intermediário e de felicidade natural é, no mínimo
razoável, a colocação à prova em liberdade de escolha para ser a mais
bíblica e racional. Agora voltemos à análise das palavras do pastor Joel.

No item c) o pastor afirma que D. Estevão destoa do catecismo afirmando


que Deus tem recursos invisíveis para salvar tais crianças, enquanto que o
catecismo nada garante sobre o destino eterno delas. Passa a formular
perguntas a D. Estevão, às quais se imagina uma resposta aqui. Diz o
pastor: Formulo, porém, a esse Padre as seguintes perguntas?

Ele questiona a D. Estevão se a Igreja prega isso [sobre os recursos


invisíveis], e responde que não, pois oficialmente a doutrina é insegura
nesse caso. Qualquer tentativa de pedir a Deus não tem eficácia conhecida.
A Igreja declara que não conhece outro meio além do batismo pelo qual
uma pessoa seja salva.

Pode-se responder que isso nada mais é que uma fidelidade da Igreja ao
texto sagrado. E quando a Igreja afirma que Deus pode salvar mesmo sem
os sacramentos, está expressando o mesmo que D. Estevão quando aludiu
aos recursos que Deus tem para salvar, e que nos são desconhecidos. Em
João 3,5 Jesus não revela outro meio pelo qual o homem possa entrar no
Reino de Deus, mas apenas o renascer da água e do Espírito. Se o
protestantismo interpreta essas palavras como sendo outra coisa, por
exemplo, a fé e a conversão, o que exclui o batismo, isso também estaria
“excluindo” as criancinhas, que não podem ter fé, visto não terem chegado
ao uso da razão. Mas, é óbvio que o protestantismo prega que as crianças já
estão salvas. Onde os protestantes encontram essa afirmação é que é um
mistério, pois a Sagrada Escritura não o revela. O próprio texto de São João
citado acima é uma prova irrefutável disso.

O pastor Joel questiona assim a D. Estêvão: o senhor disse que a Igreja ora
pelas almas das criancinhas que morreram sem ser batizadas. Caso essas
orações sejam respondidas, em que tais almas serão favorecidas? Sairão do
lugar em que estão, onde não podem ver a face de Deus, e voarão ao Céu?
Se sim, pergunto: Então o senhor aquiesce que elas não estão no Céu? Ou o
senhor não sabe onde elas estão? Caso esta última pergunta seja
respondida positivamente, concluo que o senhor admite que as almas em
questão podem não estar bem, assim como também reconhece que há uma
possibilidade de elas já estarem na bem-aventurança eterna. Logo, o senhor
não confirma a existência do Limbo, não o nega, nem se silencia sobre o
assunto, mas fala como bom representante de sua insegura igreja. Sendo
assim, tal qual a sua Igreja, o senhor está cheio de dúvidas, não é mesmo?

Podemos imaginar uma responta considerando a doutrina da Igreja. A Igreja


reza pelas almas das crianças, pois sendo criaturas de Deus, nasceram com
o pecado original e não podem ser responsabilizadas por isso, mas,
igualmente, não podem ser admitidas no Céu, visto que o pecado original as
priva disso. Sobre esse fato explica o professor Orlando Fedeli: O limbo é
onde ficam as crianças que morreram sem Batismo, até que Deus as prove,
dando-lhes também a graça de bem escolher entre o bem e o mal. Se não
há limbo, muitos iriam ao céu sem Batismo, o que contraria a palavra de
Cristo. Isso também é uma explicação teológica católica, não foi o senhor
Orlando quem a inventou. Ninguém nasce salvo, é preciso optar por Cristo e
receber a salvação dele. As crianças ainda não tiveram tempo e condição
para isso, como se salvar então? No batismo, elas são tornadas filhas de
Deus pela fé da Igreja. Sem o batismo, isso não pode acontecer. Deus, que é
misericordioso, tem outros meios justíssimos para salvar tantas criaturas
que morreram nesse estado. Ele só pode condenar quem voluntariamente
apartou-se Dele.

O pastor Joel diz: Os espíritos das crianças que estão no Limbo, embora não
estejam numa condição tão ruim quanto a dos que estão no Inferno, não se
pode dizer que já estão salvas, considerando que a sua Igreja prega que se
deve orar pela salvação delas, como visto há pouco. Ora, se não estão
salvas, então estão perdidas, não é mesmo?

Pelo que foi respondido anteriormente pode-se afirmar que as crianças no


limbo não estão salvas definitivamente e, portanto, podem ser
condenadas caso não optem por Deus, escolhendo livremente o mal, como
o fazem tantas pessoas nesse mundo, ao chegar ao uso da razão. Não se
pode dizer que estão perdidas. Por isso, a oração para que se salvem tem o
mesmo sentido da oração que fazemos pelos que estão vivos.

Continua: Admitir que as almas dos recém-nascidos que morreram sem o


batismo, estão carentes das nossas orações, não equivale a - na melhor das
hipóteses -, ombrear “Santo” Anselmo, segundo o qual tais almas não estão
no Céu, mas noutro lugar onde não podem ver a face de Deus?

Essa admissão da carência de orações que as almas dessas crianças tem, se


aproxima muito da hipótese de Santo Anselmo, divergindo, no entanto, no
fato de que o estado do limbo não é eterno, havendo a possibilidade de se
sair dele.

E ainda, diz o pastor Joel: E essa não é uma atitude anticristã, que põe em
xeque a justiça e a misericórdia de Deus?

Pelo contrário, é uma atitude que equilibra a justiça e a misericórdia de


Deus. Deus não condena os inocentes e nem salva os pecadores não
arrependidos. Todos os que nascem, estão privados da glória de Deus, pois
nascem da carne, e devem ser postos na graça divina. O meio que Deus
revelou, nós já o conhecemos. Agora, podemos ter certeza que ele possui
outros, para salvar os que morreram sem batismo, visto que é revelado que
Deus quer que todos sejam salvos.

No item f) o pastor Joel aconselha a Dom Estevão a ler a Bíblia sem os


óculos dos papas, bispos e arcebispos para que dirima suas dúvidas.
Certamente, dom Estevão teria uma resposta apropriada para isso.

***

O pastor acusa a Igreja de não querer se desfazer da doutrina do limbo (e


também do purgatório) por motivos econômicos, que seria a vaca leiteira de
inestimável valor. Se acreditam na salvação automática das criancinhas “a
vaquinha vai pro brejo” diz o pastor. Tudo isso constituiria molejo, jogo de
cintura e malabarismo do clero. É óbvio, diz o pastor, que se a Igreja cresse
que as crianças estão no paraíso, não aconselharia a orar por elas. Isso já foi
respondido acima.

O pastor conclui que tudo isso é fazer uma péssima imagem da pessoa
maravilhosa de Jesus e diz: O fato de Jesus haver dito que das crianças é o
Reino dos Céus (Mt 19.14) constitui prova de que elas estão
automaticamente sob a graça de Deus, oriunda do sangue de Jesus.

Então, o texto de Mateus 19, 14 seria a prova bíblica de que as crianças


estão automaticamente salvas, sob a graça de Deus, oriunda do sangue de
Jesus. Essa doutrina afirma que as crianças não precisam ser batizadas, pois
delas é o Reino dos Céus. Todavia, isso introduz uma contradição doutrinal,
pois leva a crer que o ser o humano “nasce salvo” para depois, ao atingir a
idade em que possa decidir por si mesma, “passar a precisar de Jesus”, o
que a coloca numa posição ruim. Nascer salva para depois entrar em
condenação até que tenha fé, ou seja, se converta a Cristo! Mas, em
nenhuma parte do Evangelho é dito isso. Se Mateus 19, 14 dispensa as
crianças do batismo, e “declara” que estão salvas pelo sangue de Jesus
automaticamente, então poderíamos afirmar que todos os pobres em
espírito (Mateus 5, 3) não necessitam do batismo, pois já estão salvos pelo
sangue de Cristo, visto que é dito que deles é o Reino dos Céus.

O pastor explica a posição protestante quanto ao batismo: Damos


grande importância ao batismo, mas não o consideramos imprescindível
para a salvação. Para nós, o batismo é uma iniciação à fé cristã.
Conseqüentemente, se por uma razão justa, não for possível batizar, não há
problema algum.

Para o catolicismo, como foi dito, o batismo é necessário à salvação. No


entanto, se alguém tem fé em Cristo e se converte, e antes de ser batizado
venha a falecer, está salvo, pois se batizaria, caso tivesse sido possível,
sendo que o desejo supre a vez do sacramento. Não adianta, portanto, citar
Lucas 23,43 para negar que o batismo seja necessário à salvação, pois o
ladrão crucificado não foi batizado, o que já foi respondido acima. Mas, o
pastor questiona: Ora, se um ex-bandido pode entrar no Céu sem batismo,
uma criancinha é que não pode? Por que toda essa incerteza? O ex-bandido,
por ter se arrependido, foi salvo por Cristo, do contrário seria condenado. A
criancinha não pode ser condenada, a menos que no uso de sua liberdade
negasse a Deus. Então, João 3, 1-5 fala do batismo sim, porém, o novo
nascimento pode ocorrer sem a realização do sacramento caso não haja
possibilidade, pois Deus, que ligou a salvação ao Batismo, ele mesmo não
está limitado ao sacramento (CIC 1257). O caso de Cornélio, que recebeu o
Espírito Santo antes de ser batizado é uma exceção [necessária] à regra,
visto que normalmente não ocorre assim. Tudo o que ocorreu naquela
ocasião foi extraordinário: a visão que teve o apóstolo S. Pedro e etc. Não
podemos argumentar com as exceções à regra. O novo nascimento é o
batismo. Por ter Cristo afirmado que o Reino do Céu é das criancinhas, o
pastor assevera que mesmo aceitasse a necessidade do batismo, ele
poderia afirma que as crianças estão salvas antes mesmo de nascer. Outra
objeção contrária à necessidade do batismo para a salvação é a seguinte,
segundo o autor: Vários católicos já nos disseram que o fato de Jesus haver
dito que “quem crer e for batizado será salvo” prova que o batismo é
necessário para a salvação até dos recém-nascidos. Mas os temos ajudado
a entender que se assim fosse, a perdição dos nenéns que morrem sem o
batismo seria inevitável, pois que dependeriam de duas coisas para serem
salvos: fé e batismo.Ora, batizar um bebê é fácil, mas fazê-los crer foge da
nossa alçada. É o que foi dito anteriormente, a criança não pode crer, é
assim, nem a doutrina protestante poderia provar que só se salva pela fé.
Contudo, argumentam que a salvação á automática. Para os chegados ao
uso da razão e na possibilidade de receber o sacramento, esse é necessário.
A Igreja não afirma que as criancinhas são “filhas do diabo”, mas que estão
privadas da graça de Deus pelo pecado original, estando, de certa forma,
sob poder do Maligno. Continuam sendo criaturas de Deus e, portanto,
podem ser adotadas como filhas. Essa é a resposta que o pastor Joel estava
procurando, sem sofisma.

O pastor reconhece que à luz da Bíblia (Sl 51.5; Rm 5.12, etc.) podemos
afirmar que os recém-nascidos são, de fato, portadores do que se
convencionou chamar de “pecado original”. A Sagrada Escritura é,
realmente, claríssima ao afirmar a doutrina do pecado original. Porém, a
explicação para o pecado original como sendo a natureza pecaminosa causa
um problema. A nossa natureza pecaminosa continua sempre como tal,
inclinada ao pecado pela concupiscência, e sabemos que a concupiscência
não pode ser tirada da natureza humana. Sendo assim, o pecado original se
tornaria um pecado “imperdoável”, se o considerarmos como sendo a
própria natureza humana pecaminosa. Contrário a isso, a Bíblia apresenta
como pecado imperdoável somente a blasfêmia contra o Espírito Santo. O
pastor afirma: ...quando nós formos ao seu encontro através da morte, o
Espírito Santo eliminará de nosso ser a natureza pecaminosa, também
chamada de pecado original. Bem, então, é na morte que ficamos livres
do pecado original? Diante do fato de que todos os seres humanos morrem,
todos ficam “livres” do “pecado original”, “através da morte”. Mas o pastor
afirmou que é o Espírito Santo que eliminará de nosso ser a natureza
pecaminosa. Isso torna claro que, segundo o pastor, há no “ser humano”
uma natureza pecaminosa que se chama pecado original, e que esse
pecado só é eliminado [pelo Espírito Santo] na morte. Então, o Espírito
Santo eliminaria o pecado original dos salvos, quando esses morressem, e
não faria o mesmo com os outros mortos. Mas assim, todos os homens
convivem com o pecado original até a morte! Não havendo diferença
alguma nesse aspecto! Diante de tudo isso, é necessário informar que foi
Lutero quem ensinou que o pecado original é a nossa natureza, ou, mais do
que disse o pastor Joel, Lutero disse que o pecado original é o nosso próprio
ser. Isso é uma heresia. A doutrina cristã católica ensina [sempre ensinou]
que o pecado cometido por Adão e Eva, não obstante ser para eles um
pecado pessoal, afetou também a natureza humana, e se propagou e todos
os seus descendentes, pois, como primeiros pais, pecaram na posição de
cabeça da raça humana. Com esse pecado original, perderam a santidade e
a justiça originais, ocasionando consequencias dramáticas para a natureza
do homem, como a concupiscência, o sofrimento e outras, sendo a maior
delas a morte. Como se pode perceber, a concupiscência ou a natureza
inclinada ao mal é uma conseqüência do pecado original e não o próprio
pecado. (Romanos 5, 19; Catecismo 397). O pecado original é transmitido
com a natureza humana (CIC 419). Portanto, o ser humano deve ser posto
novamente na graça de Deus, e isso acontece através do Batismo, que
devolve a vida da graça, apagando o pecado original e tornando a pessoa
um filho de Deus. As conseqüências do pecado permanecem, e devem ser
combatidas pelo homem auxiliado pela graça recebida. Portanto, o pecado
original é perdoado, é apagado no Batismo, para que vivamos a vida na
graça de Deus. O que passar disso é heresia.

O santo Batismo é, portanto, necessário à salvação. De certa forma as


protestantes devem concordar com isso. Imaginemos que uma pessoa
receba o dom da fé, arrependa-se de seus pecados e aceite a Cristo como
seu salvador pessoal, Único e Suficiente e, por um motivo qualquer, não
queira submeter-se ao Batismo, não queira ser batizada. Pela doutrina cristã
católica, essa pessoa não pode ser salva se permanecer assim, pois deve
ter os seus pecados perdoados e ser feita uma filha de Deus. Sem isso não
será salva!

Os protestantes dirão que a salvação é alcançada pela fé, arrependimento e


aceitação de Cristo como Único e Suficiente Salvador. Porém, o pastor Joel
diria que se tal pessoa rejeita ser batizada, é uma prova ou evidência de
que não está realmente salva, não foi salva, sendo falso aquilo tudo, “fé,
arrependimento e aceitação de Cristo”, pois , do contrário, não estaria
rejeitando obediência a uma ordenança de Cristo. Sendo assim, não será
salva!

Podemos concluir que, praticamente, os protestantes concordam com


católicos, divergindo gravemente em termos teóricos. Não creem que o
batismo seja necessário à salvação, mas que nas condições acima, sem ele,
o “convertido” não irá para o Céu. É como que uma aceitação prática e uma
rejeição teórica.

Então, os “dois produtos” de que fala o pastor Joel, o Batismo e as


exéquias, para livrar e arrancar do limbo, respectivamente, são uma
conclusão natural de toda a doutrina cristã sobre o Batismo.

Enquanto os protestantes, que se dizem “cristãos autênticos”,


consideram os recém-nascidos como “anjinhos”, “salvos”, por não “terem
culpa”, o pastor questiona se o catolicismo estaria ensinando a “loucura” de
que as crianças são “filhas do diabo”, “endemoniadas” etc. Já foi respondido
acima, mas, repetimos: ninguém nasce sendo filho de Deus. Todos
nascemos como criaturas de Deus e podemos ser adotados como filhos
através do Batismo. Ao chegar ao uso da razão, se alguém opta pelo
caminho do Maligno, praticando suas obras, tornar-se filho do Maligno! Da
mesma forma, os filhos são os que obedecem a Deus!
3.3. Criança não é filho de Deus mas é gente

Respondendo à pergunta do Frei Battistini: “Será que para os


protestantes criança não é gente?”, o pastor Joel, que tem o Frei na conta
de falso profeta e alma penada, ao mesmo tempo ora por ele para que seja
salvo, dizendo: “Já chorei por ele em minhas orações! Façam o mesmo,
meus irmãos!”
Pois bem, o pastor responde à pergunta positivamente, informando ao
prezado (sic) Frei que os recém-nascidos são gente, mas, muito mais que
isso, “eles estão salvos, já são filhos de Deus” e etc... Numa certa ironia
continua: “Logo, que as crianças são gente, católicos e evangélicos estão de
comum acordo”, indo, portanto, à controvérsia principal, que é se os recém-
nascidos estão perdidos, se são escravos do poder das trevas, se estão
debaixo do poder do Maligno, se são filhos do Diabo e se o batismo pode
salvar esses “condenados ao Limbo”. São questões interessantes para
quem, por não entender a questão e perceber tanta imprecisão nos livros
quanto ao assunto se põe a mostrar a falsidade da doutrina em questão.

3.5. Convergência evangélica na divergência batismal

O pastor Joel afirma que há convergência entre os protestantes a


respeito do Batismo. Os protestantes batizam crianças, entre outras razões,
por julgar que isso ajuda a educar o batizado no caminho do Senhor. A
maioria das igrejas não batiza crianças, o que se subentende que algumas
igrejas evangélicas batizam os recém-nascidos. Mas, segundo o pastor,
estas igrejas (nenhuma delas, se subentende) o fazem, não para libertar os
nenéns do poder das trevas, arrancá-los de debaixo do poder do Maligno,
transformá-los em filhos de Deus e, por conseguinte, livrá-los do Limbo.
Essa postura do pastor é semelhante àquele que ele acusou o Bispo
Miranda, pois parece desconhecer que a primeira igreja protestante, a
Luterana, iniciada pelo próprio Lutero, ensina que o batismo livra do diabo
sim, é o que ensina o Catecismo Menor de Lutero:

Que dá ou para que serve o batismo?

Realiza o perdão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a salvação


eterna a todas as pessoas que crêem no que dizem as palavras e
promessas de Deus.

Quais são estas palavras e promessas de Deus?

São as palavras que nosso Senhor Jesus Cristo diz no último capítulo de
Marcos:
"Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será
condenado."

Pelo que foi provado acima, Lutero ensina que o batismo perdoa os
pecados, livra da morte, livra do diabo e dá a salvação eterna.
Certamente, se o pastor já conhecia essa doutrina luterana [dá a entender
que não], ele excluiu os luteranos do protestantismo, pois afirmou que as
igrejas que batizam as crianças não o fazem para libertar os nenês do
poder das trevas, arrancá-los de debaixo do poder do Maligno, ou como o
mesmo Lutero escreveu: livrar do diabo. Com isso, pode-se dizer que
quem mudou de doutrina [protestante] não foi Lutero, mas os protestantes
reformados.
Comentando as argumentações de muitos protestantes que afirmam ser
desnecessário batizar os bebês, pois esses não tem pecado, e que os
católicos retrucam afirmando a realidade do pecado original, e também
pelo fato de que Jesus mesmo sem pecado se deixou batizar, o pastor
reconhece que os católicos tem uma dose de razão, pois o pecado original
e o batismo de Jesus, são fatos inegáveis à luz da Bíblia. Mas afirma que se
os católicos querem se inspirar em Jesus, deverão batizar exclusivamente
os adultos. A isso se responde que o batismo que Cristo recebeu não foi o
batismo cristão, pois esse logicamente Ele mesmo iria instituir. Depois
questiona: Porém, será que o batismo lava pecado original? Mas é claro.
Sendo o pecado original e privação da santidade e justiça, e o batismo a
operação da justificação, então o pecado original é apagado. Se se
considerar o pecado original como a concupiscência, que é um erro
doutrinal, então não há como crer que esse fosse apagado. O pastor afirma
optar por batizar somente os que creem, o que exclui os recém-nascidos, e
respeita os que divergem dele, se não atribuem valor salvífico ao batismo.
Em outras palavras, creio que nesse caso somente se o batismo é segundo
a teologia calvinista-reformada. O pastor Joel apresenta três razões para
considerar o batismo católico como “não bíblico”: Primeiro, porque é por
aspersão; segundo, porque é extensivo às criancinhas; terceiro, porque é
visto como tábua de salvação. Os dois primeiros “erros”, segundo ele, não
descaracteriza nenhuma igreja cristã, mas o último sim, é um “erro
gravíssimo”, pois faria de Cristo um mostro, que condena até os bebês e
negaria que o sangue do Senhor é a única fonte purificadora. A essa
objeção do pastor Joel, até Lutero já havia respondido, visto que o batismo
confere a graça através do sangue de Cristo, pois que o batismo não é só
água, mas é a água contida no mandamento de Deus e ligada à palavra de
Deus (Catecismo Menor de Martim Lutero). Portanto, mesmo estando tão
convicto, e aberto quanto à questão, como está o pastor Joel, afirmando
que mesmo se estiver em erro por negar o batismo aos recém-nascidos e
adotar a imersão como forma única, ele diz estar tranqüilo, pois é o sangue
de Cristo a única tábua de salvação, o pastor deve reconhecer que a
questão não necessita de compreensão maior, já que Lutero (para citar os
protestantes) havia respondido a esse aparente problema. Os luteranos,
certamente, não fazem parte daqueles que convergem nesse assunto,
segundo o pastor. Se o luteranos são protestantes [e são realmente], não
há a tal convergência na divergência aludida nesse tópico.

CAPÍTULO 4

O CATOLICISMO VERSUS BÍBLIA

4.1. A Igreja Católica traiu a Bíblia!

O pastor Joel acredita que pode provar a incompatibilidade da doutrina


católica com a Bíblia. O próprio título é equivocado, pois o catolicismo está
enraizado na Bíblia, sendo impossível ser colocado versus Bíblia.
4.1.1. Adicionando-lhe os apócrifos
A) Quando?

Nesse capítulo, tópico 1.1 a), o pastor Joel tenta provar que foi oficial e
definitivamente no século XVI que os livros deutero-canônicos (que os
protestantes chamam apócrifos) foram adicionados à Bíblia. Vejamos a
explicação:

Poucos sabem que em 1546, no Concílio de Trento, o clero católico


adicionou à Bíblia sete livros apócrifos. Eles já vinham fazendo isso desde o
século IV, contudo, o reconhecimento oficial e definitivo desses livros por
parte da Igreja Católica se deu a partir do século XVI. Século XVI? Bem, esse
Concílio foi relevante quanto à aprovação dos apócrifos, mas não podemos
esquecer que no século XIX, no Concílio Vaticano I, datado de 1870, se
ratificou a canonicidade dos apócrifos. Por que tantas ratificações? O leitor
não desconfia de nada?

Na explicação supra-citada podemos notar que não foi algo novo o que
se deu no século XVI, pois é reconhecido que a Igreja já havia aprovado os
deuterocanônicos desde o fechamento do cânon no 4º século. Mas o pastor
Joel afirma que a adição (que nunca houve) foi, de forma oficial e definitiva,
feita no século XVI, e mostra que essa decisão foi ratificada em 1870. Após
essas explanações, o autor questiona se o leitor não desconfia de nada. A
isso pode-se responder que se houve mais ratificações é porque foi
necessário! Mesmo a definição do século XVI não foi em vão, de forma
arbitrária ou sem necessidade. Por que o Concílio de Trento tratou da
questão do Canon? Porque os protestantes, iniciando com Lutero, estavam
colocando em dúvida e retirando muitos livros da Sagrada Escritura,
entre os quais os deuterocanônicos. A Igreja, depois de vários anos, à luz da
Bíblia e tradição cristã, responde a todas as dúvidas e acusações dos
protestantes, definindo (contra todas essas dúvidas) o cânon bíblico que a
Igreja recebeu de Deus.

Contudo, o pastor Joel apresenta outras razões pelas quais a Igreja teria
adicionado livros à Bíblia. Por exemplo: A adição dos apócrifos à Bíblia se
deu pela seguinte razão: Prover aos padres recursos para “provar” pela
“Bíblia” que o Catolicismo é ortodoxo. Por exemplo, 2Macabeus, capítulo 12,
versículos 40 a 46 diz que é certo rezar pelas almas dos mortos. E no
capítulo 15, versículos 11-16 deste mesmo livro, consta que Onias e
Jeremias, então já falecidos, intercediam a Deus em prol dos judeus. Ora,
uma "Bíblia" assim era tudo que o clero católico precisava. Nenhum livro da
Bíblia manda rezar pelos mortos, tampouco dizem que os mortos oram por
nós; só 2Macabeus o faz; e o leitor não desconfia de nada?

Interessante o início da suposta razão apresentada: “provar” que o


catolicismo é ortodoxo! Mas mesmo sem nenhum dos deuterocanônicos a
Igreja pode provar que é ortodoxa! Basta ler os Evangelhos! A questão é
que Lutero e os seus seguidores (sucessores?), negaram a inspiração dos 2
livros dos Macabeus porque neles estava a verdade sobre o Purgatório. A
questão pode, mais logicamente, ser colocada contra a posição protestante,
pois se o livro apresenta a doutrina da oração pelas almas e da intercessão
dos santos, isso não o desqualifica como livro sagrado, o que necessitaria de
um critério objetivo, mas, antes, é uma prova de que o escrito é mais
explícito sobre essa questão, e sendo esse assunto negado pelo
protestantismo, será uma parte da Escritura que não poderá ser tolerada
por ele. A respeito da oração pelas almas dos falecidos, o pastor Joel insinua
que esse expediente de 2 Macabeus 12, 40-46 faria com que o tormento
eterno para os ímpios deixasse de existir (se as orações tivessem efeito
positivo), visto que então esvaziaríamos o Inferno. Após apresentar esse
arrazoado, o pastor Joel previne de uma eventual resposta que os católicos
venham a apresentar para essa questão: Talvez alguns católicos tentem se
defender dizendo que a religião deles não ensina a rezar pelos que estão no
Inferno, mas sim, pelos que estão no purgatório (...) e caso eles apresentem
esse possível argumento, podemos replicar das seguintes maneiras.

De fato, se os protestantes objetarem que a oração pelas almas serviria


para “salvar” os condenados ao Inferno, os cristãos católicos responderiam
que essas orações servem de auxílio àquelas almas que padecem no
purgatório. Esse auxílio é possível pelo fato da existência da comunhão dos
santos. E, então, quais as razões que poderiam “refutar” essa resposta
cristã católica? O pastor Joel afirma que o texto citado de 2 Macabeus
ensina a rezar pelos que estão no Inferno, pois aqueles que morreram
haviam cometido idolatria. O autor apresenta mais o seguinte: a Igreja
Católica ensina que a idolatria é pecado grave e que conduz ao Inferno.
Conclui-se, assim, que as orações, para estarem de acordo com aquele
texto de 2 Macabeus, devem ser oferecidas pelas almas dos condenados!!!!
Leiamos as próprias palavras do autor: Se os católicos querem mesmo
obedecer o que está escrito no capítulo 12 de 2Macabeus, devem rezar
pelos que estão no Inferno, visto que este texto manda rezar pelos que
haviam morrido na idolatria.

Essa objeção não refuta a doutrina do purgatório pelas seguintes


razões: os Macabeus estavam servindo a Deus e faziam a Sua Vontade; não
se esqueciam de louvar a Deus, e, portanto, pediram o auxílio do Senhor
para as suas batalhas. Alem do mais, o texto afirma que o Senhor os ouvia
(2 Mc 10, 1-3.7.16.28). Tudo isso prova que os judeus macabeus estavam na
graça de Deus, ou seja, em comunhão com Deus e, portanto, não foram
condenados ao Inferno. O senhor Rondinelly Ribeiro afirma: Por isso os
companheiros de Judas Macabeu, apesar do pecado, morreram
piedosamente, e ele, por crer na ressurreição dos mortos, mandou realizar
a oração expiatória em favor deles, o que seria supérfluo se não cressem
nesta ressurreição. Aqueles judeus não eram idólatras, mas,
certamente por fraqueza, guardaram consigo bens de valor material que
eram consagrados aos ídolos, e foi nisso que consistiu o seu pecado. Como
piedosos, receberam o perdão divino, mas suas penas deveriam ser
expiadas, e por isso o texto de 2 Mac 12,40-46 afirma que é santo e salutar
orar pelos mortos. E mais, Ribeiro afirma que: A purificação final somente é
concedida aos que se reconciliaram com Deus nesta vida. Estando aqueles
judeus reconciliados com Deus, foram salvos. Porém, no purgatório sofreram
as consequências daquele pecado em que tinham caído. A objeção
protestante caiu por terra.

[RIBEIRO, Rondinelly. Apostolado Veritatis Splendor: RESPONDENDO


ARGUMENTOS CONTRA A DOUTRINA DO PURGATÓRIO. Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/2860. Desde 28/06/2004.]
A segunda objeção é relativa ao fato de que a Igreja tem uma oração
assim: “Senhor, lembrai-vos de nossos irmãos que morreram na
esperança da ressurreição, e de todos aqueles que já partiram deste
mundo! Acolhei-os junto de Vós, na luz da vossa face!” (Grifo
acrescentado pelo pastor). O pastor Joel afirma ter um folheto com
aprovação eclesiástica, (que ele chama de obra oficial dessa “seita”) que
contem essa oração. Logo, o clero está ensinando a rezar por todos, todos
os que partiram, até os condenados, não só os que padecem no purgatório!

Poderia afirmar que padres já teceram críticas a essa expressão (já ouvi
crítica de um padre quanto a isso). Parece que essa crítica foi feita também
por Bento XVI, pois essa oração insinuaria uma salvação para todos os que
morreram. Mas, visto que a doutrina cristã católica nunca ensinou a rezar
pelos condenados, e o Catecismo ratifica essa doutrina (os condenados não
tem possibilidade de salvação), podemos concluir que essa oração contém
uma ambiguidade ou uma má articulação gramatical ou outro erro dessa
espécie, e seria oportuna uma correção. Portanto, a segunda objeção não
tem sentido fora disso. Entretanto, a objeção está correta quando notou a
que resultado errôneo aquelas palavras podem levar.

B) Provas cabais da fraude

O pastor Joel reconhece a importância histórica dos livros 1 e 2


Macabeus, negando-lhe, porém, a inspiração. Uma das provas de que o livro
de Macabeus não é inspirado seria o fato de que o autor (do livro de
Macabeus) humildemente pede perdão pelas possíveis falhas que nele os
leitores viessem a encontrar. Deus não pede perdão, então, o livro não seria
inspirado! Segundo o pastor, Isto prova a humildade do autor, bem como a
falta de inspiração divina. Esse parecer está correto em parte, pois se o
pedido de perdão que o autor de Macabeus faz é prova de sua humildade,
não pode, porém, ser usado como prova de que o livro seja não inspirado. O
autor apenas diz que se sua composição contiver alguma falha, pois, todo
homem comete falhas, que o leitor o perdoe. Isso somente prova que o
autor estava consciente de sua pequenez diante de Deus, e que qualquer
defeito em seu escrito seria devido às suas capacidades humanas, que
poderia demonstrar fragilidade na transmissão da verdade infalível de Deus.
De forma alguma essa “prova” a mais constitui prova contra a inspiração do
livro em questão. De fato, para que o protestante considere que 2 Macabeus
15, 38 é uma prova da não inspiração do livro, ele deve a priori crer que o
livro não é inspirado. Assim, fica fácil considerar qualquer aparente defeito
como uma prova da não inspiração. Se surgirem dificuldades semelhantes
em outros livros que o protestante considera canônico, logicamente tentará
compreender a questão, mas não dirá que isso se trata de prova contra a
canonicidade da obra. Da mesma forma, para o estudante católico, que
reconhece a canonicidade de todos os 72 ou 73 livros, tais “defeitos” ou
“falhas” nunca depõem contra a inspiração dos mesmos. Outro fato que
torna mais evidente a subjetividade dessas opiniões é, por exemplo, a de
um ateu, para o qual a Bíblia é um livro meramente humano. Textos como o
de 2 Mac 15,38 e tantos outros, de qualquer um dos livros bíblicos, serão
“provas” de que a Bíblia não é inspirada. O que leva o ateu a essas
conclusões é a sua fé na inexistência de Deus. Realmente o ateu crê nisso e,
portanto, ele tem uma crença que o condiciona a esses disparates. Voltando
ao âmbito cristão, sabemos que nenhum católico ou protestante irá afirmar
que a opinião do escritor do Eclesiastes em 2,11 será prova de que Deus
não o havia inspirado. Assim como em Mateus 27, 9, o evangelista atribui a
profecia a Jeremias, quando o texto pode ser o que está em Zacarias 11,12-
13. Um estudioso pode considerar isso um “equívoco”, outro pode afirmar
que Jeremias tenha dito, mas que foi Zacarias quem escreveu um texto
semelhante, ainda, que o volume no qual está o texto de Zacarias era
chamado de Jeremias, como explica Hélio de Menezes em sua Bíblia LTT
anotada. São explicações que talvez não convençam alguém que esteja
“certo” de que não houve inspiração. Porém, tudo isso não depõe contra a
inspiração dos livros citados, e assim, não tem fundamento usar 2 Mac
15,38 para desacreditar da origem inspirada do mesmo, pois o texto não
tem nada a ver com a questão. O autor também nega que os
deuterocanônicos foram citados por Jesus e, mesmo se o fossem, isso não
seria prova de inspiração divina, salvo se Cristo previamente informasse
com termos como Está escrito.., ou as Escrituras contem etc... Concordamos
que a mera citação não faz um livro inspirado. Contudo, o Novo Testamento
cita a septuaginta e, indiretamente, várias citações podem ser encontradas
dos livros deuterocanônicos. Mas esse argumento não é conclusivo, e é
rejeitado pelo pastor Joel. Segundo ele, basta os protestantes perguntarem
o motivo de o livro A Vida de Enoque não ter sido adicionado no cânon, pois
Judas o cita nos vv. 14 e 15. Essa objeção já está respondida acima, mas
repeto aqui: a mera citação não faz um livro inspirado.

O pastor lembra o fato de que o Antigo Testamento já estava escrito no


tempo de Cristo, e que na opinião popular, bem como na dos rabinos, os
deutorocanônicos não eram parte da Escritura. Qual seria a prova para isso?
É que, até hoje, os judeus, por não crerem em Jesus, rejeitam o Novo
Testamento e como tradição, os apócrifos nunca foram reconhecidos como
canônicos, sendo que a Bíblia judaica contem somente os livros que os
protestantes passaram a adotar. Flávio Josefo atesta que os livros do Antigo
Testamente eram somente os da Bíblia Hebraica. O pastor Joel também
afirma que do século V ao XVI a Igreja adotava 10 livros a mais como
“inspirados”. Dentre esses estavam III e V Esdras e a Oração de Manassés,
que teriam sido retirados no Concílio de Trento. Logo após, o pastor Joel
afirma que a primeira adição de livros “apócrifos” à Bíblia foi feita na
Tradução dos Setenta ou Septuaginta, e, no entanto, reconhece o valioso
trabalho que é a tradução referida. Cita o fato de que os ortodoxos aceitam
outros livros que foram rejeitados pelo catolicismo e ironiza com a
possibilidade de mais “adição” ou mesmo “retirada” de livros “Bíblicos” pela
Igreja: É bem provável que em um próximo concílio os papas acrescentem à
Bíblia (ou removam dela) mais alguns apócrifos. Por que não? Se o fizeram
em 1546, não poderão fazê-lo novamente? Outro fato seria a tradução da
Vulgata, que incluiu os deuterocanônicos, mas, não para fins doutrinários.
Prossegue o autor: Os apócrifos sofreram forte oposição, na qualidade de
livros inspirados, por Júlio Africano, Atanásio, Jerônimo e muitos outros
valores da igreja primitiva. Houve muita polêmica, sempre decidida em
Concílios, os quais foram: oConcílio de Hipona (393 d.C.), Concílio de
Cartago III (397 d.C), Concílio de Cartago IV (419 d.C.), Concílio de Trulos
(692 d.C), Concílio de Florença (1442 d.C.), Concílio de Trento (1546 d.C.) e
Concílio Vaticano I (1870 d.C.). Agora, surge uma questão importantíssima,
e é o próprio pastor quem a sugere quando afirma: Uma vez que a Bíblia
dos católicos, em relação à Bíblia dos evangélicos, tem sete livros a mais,
como dois mais dois são quatro, ou os católicos acrescentaram algo à Bíblia
ou os evangélicos tiraram algo da Bíblia. E, segundo Apocalipse 22.18-19,
há alguém indo para o inferno por causa disso: ou os católicos, ou os
evangélicos. Daí a necessidade de pesquisarmos bem, para ficarmos do
lado certo, antes que seja tarde demais. É reconhecidamente uma posição
de suma importância, e não se pode deixá-la de lado, como se fosse, pelo
contrário, um assunto de mera importância. O pastor Joel também pede que
se os católicos descobrirem que foram os protestantes que diminuíram a
Bíblia, que os considerem perdidos e esforce para ajudá-los; e se chegar à
conclusão que foi o contrário, ou seja, uma adição de livros à Escritura, que
saiam do catolicismo já. A tudo isso, pode-se responder que não há
possibilidade de adicionar e/ou retirar livros da Bíblia, visto que a Igreja
nunca o fez e, se não o fez, não há tradição para fundamentar essa prática.
Além disso, o Espírito Santo conduziu todo o processo de reconhecimento do
Canon. Os livros III e IV Esdras e a Oração de Manassés nunca fizeram parte
do catálogo sagrado, não sendo canonizados em nenhum concílio. No
quarto século, esse e outros apócrifos (os não inspirados) foram rejeitados
pela Igreja e os livros inspirados foram canonizados (protocanônicos e
deuterocanônicos; toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento). O mesmo foi
ratificado nos concílios posteriores, até que definitivamente a mesma lista
(Cânon) foi definida em Trento. O Espírito Santo guia a Igreja nessas
questões de importância crucial para a salvação das almas. É importante
informar que o mesmo Concílio que definiu todo o Antigo Testamento,
também o fez com relação ao Novo Testamento, e os protestantes aceitam o
cânon cristão católico para o Novo Testamento, enquanto optam por
continuar a usar o cânon judaico para o Antigo Testamento, o que é uma
incoerência. Quanto à razão pela qual os católicos deram um nome
diferente aos deuterocanônicos, ao lado dos protocanônicos, é que aqueles
foram disputados (várias vezes, e a Igreja não esconde isso) enquanto que
os outros tiveram aceitação rápida. É esse o motivo do nomezinho especial,
como se referiu o pastor Joel. O termo deuterocanônico surgiu no século XVI,
como afirma o erudito Bruce, e sua separação dos outros livros se deu, mais
exatamente, em 1520. Isso pode ser confirmado pela introdução da
tradução protestante New English Bible. São Jerônimo (quem os
protestantes costumam citar como ombreando a sua posição) tinha sua
opinião (pessoal) a respeito dos deuterocanônicos (lembramos que esse
termo era desconhecido em sua época), e sabemos que os Padres da Igreja
não são individualmente infalíveis. Portanto, como filho da Igreja, submetia
sua opinião à autoridade da Igreja Católica. Desse modo, mais tarde, São
Jerônimo reconheceu a inspiração dos deuterocanônicos.
A verdade é que os deuterocanônicos, após disputas mil, foram
reconhecidos como livros inspirados no quarto século, juntamente com
todos os outros livros do Antigo Testamento e do Novo, nos concílios citados
anteriormente. Não existiu “dois canons”, mas os termos proto e deutero
serviram para indicar os livros que foram aceitos sem disputa e aqueles
polemicamente disputados, respectivamente. É fato que outras vezes os
cristãos influenciados por ideias contrárias aos deuterocanônicos, lançaram
dúvidas e tentaram levantar novas polêmicas. Um exemplo disso foi o
ocorrido no século XVI, quando os protestantes, rebelando-se contra a
autoridade da Igreja, retiraram esses livros da Bíblia, e a Igreja, por sua vez,
teve de defendê-los explicitamente no Concílio de Trento.

[ARMSTRONG, Dave. Reply Concerning the Canonicity of the So-Called


"Apocrypha" (vs. Dr. John Ankerberg & Dr. John Weldon) ]

4.1.2. Igualando-a à tal de Tradição


A questão da Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição. Sabemos que
Deus nos deu uma só revelação e que essa revelação foi transmitida de dois
modos: escrito e oral. Sendo apenas duas as vias de transmissão da
revelação única de Deus, as sagradas Escritura e Tradição são iguais e
harmônicas. O pastor Joel diz que os papas não se apóiam só na Bíblia que
eles adulteraram em 1.546 mas também na Tradição sagrada. Sabendo que
nunca houve adulteração a acusação caiu por terra. Nenhum papa
“adulterou” a Bíblia, muito pelo contrário, a Igreja sempre defendeu a
Sagrada Escritura dos erros heréticos. Quanto ao valor da Tradição
certamente o acima exposto já é suficiente para entender. O autor cita o
Catecismo número 97 que ensina ser a Bíblia e a Tradição um só sagrado
depósito da Palavra de Deus. Agora o pastor quer demonstrar o que é a
Tradição. Segundo ele, o católico quando encurralado por um expositor da
Bíblia recorre à Tradição, que seria o conjunto das tradicionais incoerências
que constituem o Catolicismo; as quais, além de chocarem com a Bíblia, são
autocontraditórias. Uma “tradição” incoerente e autocontraditória não pode
ser a Sagrada Tradição. Uma tradição incoerente consigo mesma e com a
Bíblia, é uma tradição com “t” minúsculo, humana, falível. A Tradição cristã
deve ser entendida como a Palavra de Deus transmitida nos atos
magisteriais e no seu culto ao longo da história da Igreja, é a Tradição com
“T” maiúsculo [simbolicamente para diferenciá-la das tradições humanas; e
mesmo que seja escrita com “t” minúsculo, o que importa é o entendimento
que temos sobre a mesma]. O pastor está equivocado, certamente, ao
chamar a tradição cristã de “tradição humana”. Mas ele sabe que a Igreja se
apóia em 2 Ts 2,15 que ordena conservar as tradições que vos foram
ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa. Segundo ele, os papas
usam essa passagem como prova irrefutável de que Deus nos legou a Bíblia
e a Tradição, mas crê [o pastor] que a passagem significa que a sã doutrina
é tradição da Igreja, e que esta doutrina tradicional era transmitida nos seus
dias, tanto oralmente, quanto por epístolas. Isto, e mais nada. Então, a
Tradição é a sã doutrina de sempre, dos dias dos apóstolos e dos nossos
dias, transmitidas naquele tempo por via oral e escrita. Sendo assim, não há
nada a objetar, pois é essa a Tradição cristã católica. Quanto à suposta
incoerência com a Bíblia e consigo mesma, como provas de que a Tradição
“não” é divina, isso não é verdade. Portanto, chamar a Tradição de
barafunda e afirmar que a mesma não vem de Deus é não entender
corretamente a Tradição. Em João 14,26 e 16,13 Nosso Senhor promete o
envio do Espírito Santo, o que se cumpriu em Pentecostes. O Espírito Santo
é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, portanto é Deus, e veio para
ensinar, fazendo lembrar o que Jesus tinha dito. Essa explicação é
necessária porque muitos usam o texto para justificarem o ensino de
novidades totalmente contrárias á Bíblia, como o faz o Espiritismo. Tudo o
que Jesus havia ensinado foi gravado na mente dos apóstolos para que
ensinassem. Dessa promessa pode-se concluir que não há verdades
adicionais e nem necessidade de completar a verdade já ensinada. A Igreja
recebeu verdades futuras, certamente as verdades escatológicas, já no
primeiro século. Jesus diz que o Espírito Santo fala daquilo que é próprio
dEle e o interpreta aos apóstolos. Então, toda a verdade está completa e o
Espírito Santo guia a Igreja na compreensão dessa verdade, que muitas
vezes está implícita, e não ensinando mais verdades essencialmente
diversas. Um exemplo é a doutrina da Santíssima Trindade, que somente
pôde ser compreendida no Novo Testamento, mas já está presente
implicitamente na Bíblia desde o Gênesis. Quando a tradição deduz
verdades bíblicas está somente explicando e definindo o que já está no
texto sagrado, de forma que compreendamos. Isso significa que cremos que
tais verdades já estão reveladas na Bíblia, precisando apenas de maior
compreensão por parte da Igreja.

4.1.3. Pondo-a abaixo da tal de Tradição.

O pastor cita um livro [com imprimatur] no qual é afirmado que a


Tradição está acima da Bíblia e questiona: Por que as palavras de Cristo que
não foram escritas valeriam mais do que as que estão registradas na Bíblia?
Será que as doutrinas católicas dependem disso para se sustentar?
Obviamente que sim. Mas a doutrina cristã católica se prova pela Escritura e
Tradição e não pela última somente. Negando a Tradição os protestantes
“podem” dar diversos significados aos escritos bíblicos que a Tradição nunca
conheceu. Quanto a uma possível fuga pela tangente do católico que alegar
que o livro citado pelo pastor não se trata de uma obra oficial, o pastor
afirma que tal obra foi sancionada pelo Mons. Aristides, que era Bispo e,
portanto, “infalível” também (sic) e que os envolvidos na elaboração da
obra não foram advertidos desse erro de somar algo à Bíblia ou considerá-la
inferior! Por fim, afirma que o catolicismo enquadra-se em Mateus 15, 6.
Mas, nesse texto Nosso Senhor trata das tradições humanas e não da
Tradição cristã católica que, como vimos, é aconselhada em 2 Ts 2,14-15. O
bispo, por sua vez, e como sabe o pastor Joel [suponho que saiba], não tem,
individualmente, o dom da infalibilidade! Certamente, o pastor equivocou-se
aqui. Por outro lado, o catecismo afirma que a Bíblia e a Tradição são iguais
em valor. Para provar que mesmo outras obras católicas afirmam que a
Bíblia e a Tradição tem o mesmo valor, basta citar a obra do Frei Battistini,
citada no livro do pastor Joel, na qual o frei afirma na p. 20 o seguinte: a
Tradição tem o mesmo valor da Bíblia. [A Igreja do Deus Vivo, 25ª Edição
/1996, Editora Vozes] Pelo exposto, o mínimo que poderíamos afirmar é que
existem duas afirmações conflitantes, uma na obra aprovada pelo Bispo
Aristides e outra registrada pelo frei Battistini, implicando numa
contradição, embora isso seja uma suposição, visto que não se sabe qual o
contexto da frase citada pelo pastor Joel, mas acredita-se que está correto.
Mas visto que o Catecismo e outras obras igualmente católicas afirmam que
são igual em valor, a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição, é correto
afirmar que essa é a posição oficial. Então, quando o pastor prometeu
provar que para a Igreja embora a Bíblia e a Tradição constituam “um só
sagrado depósito da Palavra de Deus”, a Tradição está acima da Bíblia,
ele apenas citou uma obra que parece “destoante” do correto entendimento
da questão. Não negamos que os apologistas católicos utilizem muitas
comparações e exemplos que deixam transparecer essa posição destoante,
mas, pelo testemunho unânime da Bíblia, do Catecismo e de outra obra
católica, concluímos que o ensino católico tem a Escritura e a Tradição como
um só sagrado depósito da Palavra de Deus. Se porventura o pastor venha a
ingressar na Santa Igreja Católica, é nisso que deverá crer, e ajudar a
corrigir as imperfeições que aparecem nos arrazoamentos de outros
autores.

4.1.4. Sujeitando-a às arbitrariedades dos papas

4.1.4.1. Quanto à interpretação

O pastor tem a opinião de que se somente os papas e bispos podem


fornecer a real interpretação da Sagrada Escritura, tolhendo os padres, as
freiras, os pastores protestantes, os católicos leigos e outros de beberam
diretamente na Fonte, isso seria uma tentativa de privar a Bíblia de sua
própria autoridade. Ou seja, o pastor argumenta que é direito de todos,
padres, pastores, leigos e etc, de interpretarem a Bíblia. Mas se formos
raciocinar [teologicamente], notaremos que posição da Igreja tem o sentido
inverso: ao manter sob autoridade do Magistério Eclesiástico o ofício da
correta interpretação Bíblica, está-se evitando que as interpretações
conflitantes se tornem numa barafunda oficializada, onde vários pontos de
vista humanos se passam por “doutrinas cristãs legítimas”. E realmente
sempre funcionou assim. Basta notar o exemplo do Antigo Testamento em
que todos ouviam a leitura a Palavra de Deus, eram ensinados pelos
sacerdotes, profetas etc., sendo a Escritura transmitida por uma
autoridade divinamente autorizada, como, por exemplo, Moisés ou o Rei.
Essa verdade é demonstrada com maestria no artigo do site Montfort, Leia a
Bíblia!?. Artigo criticado e mal entendido por muitos protestantes, que o
interpretam como sendo uma “proibição” da leitura da Bíblia, algo não
intencionado pelo autor [ou autores (?)].

4.1.4.2. Quanto à leitura.

A proibição da leitura da Bíblia em 1229 foi necessária e é


compreensível. É interessante notar que foi um período curto da história. A
Igreja Católica, oficialmente e seguindo a doutrina de sempre, recomenda a
leitura da Bíblia. São Jerônimo já dizia: "Lê com freqüência e aprende o
melhor que possas. Que o sono te encontre com o livro nas mãos e que a
página sagrada acolha o teu rosto vencido pelo sono" (PL 22,404). Quando
em 1229 foi proibido o uso das traduções vernáculas da Bíblia, deveu-se a
motivos justificáveis, pois os hereges utilizam a Bíblia para ensinarem suas
heresias. A proibição foi suspensa em 1233. Apareceu também uma
proibição em 1235 num decreto do rei Jaime da Espanha. Tudo para
proteger a Bíblia contra os erros. No entanto, as palavras de São Jerônimo
(+420) tornaram-se norma da autoridade eclesiástica.
Usar desse expediente para ensinar que o catolicismo proibiu o povo de
ler a Escritura é um sofisma, pois deixa uma falsa impressão de que essa
tenha sido sempre a regra, o que é falso.
JOSÉ AUGUSTO. Apostolado Veritatis Splendor: A IGREJA PROIBIU A
LEITURA DA BÍBLIA?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/288.
Desde 06/11/2001.

4.1.4.3. Quanto à tradução

A História da Bíblia mostra que as traduções iniciaram muito cedo. A


Igreja se empenhou nesse trabalho e sempre foi a defensora da Palavra de
Deus. O que o Dr. Marcos Bagno falou é compreensível. De fato, a
popularização da Bíblia se tornou maior depois do século XVI, e as traduções
foram intensificadas. Mas é correto também que durante a história da Igreja
sempre existiram traduções parciais ou totais da Bíblia para outras línguas,
o que prova que as acusações protestantes não tem fundamento, são
parciais e pouco críticas. Há obras que alimentam esses equívocos. No
entanto, obras mais especializadas provam que existiam várias traduções
vernáculas da Bíblia, não somente em Latim. Lutero não foi o primeiro a
traduzir a Bíblia para o alemão e mesmo em sua época ouviu protestos
quanto a apresentar seu trabalho como o primeiro nesse âmbito. Max
Weber, por exemplo, analisando a repercussão que a empresa de Lutero
teve na sociedade, compara a tradução do reformador com outras feitas
anteriormente, o que seria impossível se essas não existissem. De fato,
existiam várias edições da Bíblia em alemão já no século XV, bem antes da
Reforma. Se a Igreja começou a tolerar as traduções vernáculas após a
Reforma, se deve ao fato de que as circunstâncias histórias estavam em
mudança, não era possível manter as mesmas medidas se a causa das
mesmas estava desaparecendo. Mas mesmo essa “tolerância” não era
novidade. A história afirma que já existiam traduções parciais da Bíblia em
diversas línguas, inclusive em alemão (no século VII, por exemplo).

4.1.4.4. Quanto às distorções.

Pare que é o contrário: quem raciocina profundamente logo percebe a


harmonia da doutrina cristã católica.

4.1.5. Negando-a sorrateiramente

O autor cita apologistas norte-americanos, como John Weldon, John


Ankerberg e Dave Hunt, anti-católicos, para dizer de passagem, que
afirmam estar a Igreja negando a Bíblia quando diz que essa não é infalível
em assuntos científicos. O autor cita uma afirmação católica: “As Escrituras
são inerrantes, mas não em sua totalidade”. “Daí afirmarmos que a Bíblia é
livre de erro naquilo que pertence à verdade religiosa revelada para nossa
salvação. Não é necessariamente livre de erro em outros assuntos (por
exemplo, ciências naturais)”. Bem, o autor interpreta que se a Bíblia é
inerrante, mas, não em sua totalidade, ela não é inerrante, de inerrante ela
não tem nada, pois a definição não é que a Bíblia erra pouco, mas que não
contém erro algum. E, sendo assim, o clero católico não está falando coisa
com coisa. Mas o pastor Joel precisa saber que quando a Igreja afirma que a
Bíblia é inerrante em assuntos religiosos e não em outros, não está negando
que ela possa ser inerrante em outros assuntos, mas que a Revelação não
tem intenção de ensinar a não ser a verdade religiosa, portanto, não
fazendo diretamente afirmações de cunho histórico, científico e etc. Então, a
Bíblia não se torna suspeita, muito menos 100% suspeita, como afirmou o
pastor, pois Deus é e pode ser infalível em qualquer assunto, mas teve
intenção de revelar somente as verdades do campo religioso, o que torna
compreensível as afirmações católicas. Deus pode infalivelmente ensinar
qualquer assunto, e se a Bíblia traz qualquer desses exemplos, serão
sempre inerrante, seja qual for o campo a que esteja ligado. Por outro lado,
pode haver aparentes “equívocos” no campo científico, como, por exemplo,
a afirmação de que a semente de mostarda é a menor de todas (Mateus
13,32), quando a ciência atual poderia mostrar a existência de sementes
menores que a de mostarda. Nesse caso, Jesus não tinha intenção de
ensinar ciência, mas naquele momento, dentro da cultura em que estava e
considerando o nível conhecimento do público sobre a questão, usando
como referência as sementes que os judeus usavam em suas plantações,
Ele se serve de um exemplo compreensível para revelar uma verdade
religiosa infalível. Um cientista não pode levantar objeções legítimas quanto
a isso. O autor ironiza que o Papa seria, então, o infalível intérprete da
falível Bíblia, considerando aquelas incompreensões dos protestantes da
posição católica sobre o assunto, e que a Igreja usa a Bíblia somente para
impressionar os desavisados, onde o pastor chega a pedir piedade para a
cúpula da Igreja e dos que confiam em seus membros. Tudo isso não é
verdade, como vimos. Tudo isso o quê? Que a Igreja pregue que a Bíblia é
falível. A Igreja prega que a Bíblia não tem intenção de ensinar outra coisa
a não ser a verdade religiosa, ou que primeiramente seja somente essa sua
intenção, e que outras verdades aparecem apenas eventualmente. Nesse
contexto, o pastor Joel cita o Frei Battistini, que estaria induzindo suas
vítimas a suspeitarem das Bíblias protestantes, pois o Frei diz assim em seu
livro: Nenhum protestante pode demonstrar que a sua Bíblia é a autêntica
Palavra de Deus. (A Igreja do Deus Vivo, 33ª Edição /2001, Editora Vozes,
página 20). A citação está correta, é verdadeira, mas não o sentido que o
pastor deu a ela. Pelo contexto da lição, o frei quis dizer que os protestantes
não podem demonstrar que a sua Bíblia seja a Palavra de Deus, pois como
negam o papel da autoridade infalível da Igreja, e a Bíblia não traz em si a
lista dos livros inspirados, os protestantes tem de recorrer à autoridade
católica, à tradição, para se certificarem da autenticidade da Escritura, ou
pelo menos, do Novo Testamento, pois com relação ao antigo, terão de
recorrer à tradição judaica. Não se trata de uma ou outra versão protestante
da Bíblia, nem do imprimatur, mas o de afirmar que tais e tais livros são
inspirados por Deus. É a conclusão que pode ser tirada de juízo do pastor
sobre a citação do Frei Battistini examinando-se a lição inteira da obra
citada. Se a interpretação acima está errada, estou pronto a analisá-la
novamente e corrigi-la, caso estiver errada mesmo. Então o Frei não está se
referindo às interpretações da Bíblia, nem o papel da tradição para essas
interpretações, mas ao valor da tradição para reconhecermos os livros
inspirados. Nabeto afirma que a Bíblia é infalível nos assuntos de fé.

NABETO, Carlos Martins. Apostolado Veritatis Splendor: A BÍBLIA É


INFALÍVEL?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1390.
Desde 05/09/1999.

CAPÍTULO 5
O PERDÃO E A DOUTRINA DO PURGATÓRIO

5.1. A doutrina do Purgatório

O pastor Joel afirma nesse capítulo, no qual chama o perdão católico de


“falso perdão” e o purgatório de “rentável”, faz sua análise na seguinte
estrutura: a) dissertaremos sobre o que a Igreja Católica prega a respeito do
perdão; b) exibiremos as provas; c) refutaremos à luz da Bíblia; estrutura
adotada nos outros capítulos.

5.1.1. Dissertando sobre o “perdão” católico

A respeito da doutrina sobre o inferno, estão de acordo os católicos e os


protestantes, como afirma o pastor Joel: Tanto a Igreja Católica, como as
igrejas evangélicas, pregam que existe o Inferno, de cujo tormento nunca
sairão os que ingressam nesse abismo. Contudo, sabemos que alguns, como
os adventistas, negam essa doutrina e são considerados seitas pela grande
maioria protestante. Para a Igreja Católica, os Adventistas também são
igualmente protestantes, mas fazem parte do protestantismo moderno. A
respeito do Céu, cristãos católicos e cristãos protestantes também estão de
acordo, conforme as palavras do pastor Joel: Ambas pregam também, que
existe o Céu, no qual, católicos e evangélicos querem morar. A divergência
está no como ir para o Céu, pois os protestantes creem que os que morrem
com todos os pecados perdoados, vão, na hora, para o Paraíso Celestial e a
Igreja Católica ensina, como já vimos, que não basta estarmos perdoados
por Deus para entrarmos no Céu [palavras do pastor em destaque]. O
perdão que a Igreja prega reduziria somente a pena, mas não anularia a
sentença: Segundo ela, o perdão dos pecados não anula a sentença, mas
tão-somente reduz a pena. O autor reconhece que a Igreja prega que existe
a possibilidade de pagar a pena aqui na terra e caso não seja cumprida
poder ser paga no purgatório. O pastor refere-se à Igreja Católica como a tal
igreja, ao tratar da questão das indulgências: A tal igreja diz que dispõe de
um expediente chamado indulgência. Há, segundo ela, dois tipos de
indulgências: 1) A indulgência parcial, que diminuiria a pena que o
perdoado teria de cumprir antes de entrar no Céu; e 2) a indulgência
plenária, que eliminaria todos os resíduos que o perdão divino não
consegue eliminar. A respeito do perdão, explicado como sendo apenas para
reduzir a pena sem anular a sentença, não deixa clara a doutrina da Igreja.
De fato, o perdão do pecado mortal anula as penas eternas, do contrário
haveria condenação ao perdoado! Então, o perdão cristão católico anula a
sentença. E sobre os pecados veniais, que não levam para a morte eterna,
mas, como pecados que são, deixam uma espécie de mancha na alma,
esses conservam suas penas temporais a serem expiadas e podem até ser
perdoados no purgatório. Pecados veniais são aqueles pecados que mesmo
os santos geralmente caem, mas que não separam o fiel de Deus, não
destroem a graça. A respeito do perdão, uma passagem do Catecismo, nº
1473, afirma assim: O perdão do pecado e o restabelecimento da
comunhão com Deus trazem consigo a abolição das penas eternas do
pecado. Mas subsistem as penas temporais . Em outra passagem as penas
temperais são consideradas uma graça de Deus, que nos educa em seu
caminho, nos torna responsáveis pela parte que nos toca.

O pastor conclui assim a doutrina cristã católica sobre como alguém entra
no Céu: a) Obter o perdão dos pecados (especialmente dos pecados
graves); b) cumprir a pena devida pelos pecados já perdoados, ou obter
uma indulgência plenária; c) tornar-se perfeito. Caso a pessoa morra após
cumprir a exigência “a”, ou até mesmo após preencher os requisitos “a” e
“b”, mas sem satisfazer a exigência “c”, terá que sofrer por um tempo no
purgatório, antes de entrar na bem-aventurança eterna. Ou seja, aquele
que, mesmo tendo morrido com todos os pecados graves e veniais
perdoados, mas sem cumprir as exigências “b” e “c”, permanecerá no
purgatório até cumpri-las. Só a partir daí, terá livre acesso ao Paraíso
Celestial. E os cristãos podem ajudar as almas com orações, esmolas,
missas etc., e as próprias almas do purgatório em suas orações pelos
vivos. Podemos dizer mais a respeito da letra a, que o perdão dos pecados
graves é imprescindível para entrar no céu, pois quem não obtém esse
perdão de Deus, não pode ser salvo. As penas de que fala a letra b, bem
como a indulgência plenária, são as penas temporais, que sempre ficam
como conseqüências dos pecados. E a indulgência é a remissão dessas
culpas. O tornar-se perfeito, expresso na letra c, é uma ordem do próprio
Deus que diz para sermos perfeitos assim como Ele é, e Deus não
ordena nada que Ele não possa tornar possível, se foi exigido é porque é
possível. Sendo a Igreja a dispensadora dos dons de Deus e tendo
autoridade dada por Deus, pode exigir certas obras do fiel para que possa
alcançar indulgências. Certamente é isso que está no exemplo que o pastor
apresentou: Antigamente uma indulgência custava um terço do que se
gastaria com uma peregrinação a Roma. Em qualquer parte do mundo,
bastava o católico calcular o que ele gastaria para sair do seu país, ir a
Roma e retornar à sua casa. Depois dividia este valor pelo algarismo três e
doava o quociente à Igreja Católica.

5.1.2. Exibindo as provas

Nesse item o pastor exibe doze provas do que disse anteriormente.

É muito importante frisar o modo como se obtém a indulgência, que


está na quarta prova: estar na graça de Deus, ter seus pecados perdoados,
obviamente depois de sincero arrependimento e confissão. É o ensino
bíblico.

Na quinta prova é dito sobre a santidade necessária é aquela que a


Justiça e Santidade de Deus requerem do salvo. Não é possível negar isso
com base na Bíblia.

A sexta prova, citando a Seção VI do Concílio de Trento que sentenciou


contra quem negasse a existência de penas.

Todas as provas devem ser entendidas nesse sentido.

Não são somente os católicos que podem ir ao purgatório, mas


qualquer fiel, por exemplo, um protestante que não tiver em estado de
santidade suficiente para ver a Deus face a face.

A chance póstuma não é, como vimos, uma chance de um pecador fora


da graça de Deus se salvar após a morte, pois essa chance não existe, mas
trata-se de uma purificação necessária dos já salvos, que morrem na
amizade de Deus, sendo uma ordem ditada pela justiça divina. E a fé na
possibilidade de alcançar a perfeição nesta vida é baseada em vários textos
bíblicos como Mateus 5,48. Deus não exige o impossível.

Todos os excessos, os charlatanismos de muitos pregadores de indulgências, que não


tinham o aval da Igreja para seus erros, foram resolvidos no Concílio de Trento.

5.2. Qual é o fundamento evangélico?

Depois de demonstrar que há divergência entre católicos e


protestantes sobre o perdão dos pecados, o pastor passa a elencar seis
fundamentos evangélicos do perdão:

a) para entrarmos no Céu, basta-nos o perdão que Deus nos dá;

Essa afirmação nega a participação do homem, a parte do homem que o


próprio Deus deixou à nossa responsabilidade.

b) para o pecado perdoado não há pena alguma a ser cumprida, visto que
perdão e cumprimento de pena são termos incompatíveis entre si, e,
portanto, auto-excludentes;

Não são necessariamente auto-excludentes, como não é auto-excludente


que um ladrão arrependido tenha de devolver, como uma pena devida, o
que roubou ou prestar algum serviço reparatório. Isso é exigido pela justiça.
Arrepender-se de ter roubado e ficar com o objeto roubado, essa seria uma
contradição ou auto-exclusão de um arrependimento sincero. Deve haver
uma reparação.

c) não é preciso atingir a perfeição nesta vida, para ir morar no Céu, visto
que se isso fosse verdade, ninguém iria direto para o Céu, já que a Bíblia
diz que todos nós pecamos (1Jo 5. 8,10; 2Cr 6.36; Tg 3.2). Morrer antes de
atingir a perfeição, não é algo apenas “bastante freqüente”, como o supõe
o Padre Estêvão, mas sim, algo inevitável a todos os humanos;

Então, na ótica do pastor Joel e, consequentemente, do protestantismo, não


é preciso, ou mesmo é impossível tornar-se perfeito para que assim possa
ir direto ao Céu. Os protestantes podem entrar na visão de Deus com todas
as suas imperfeições, mesmo que leves, pois já tem certeza da salvação e
crêem que o sacrifício de Cristo pagou tudo por eles. É necessário frisar que
nós pecamos, sofremos as conseqüências do pecado original (pois este já
fora perdoado no batismo), porém, podemos atingir a perfeição que Deus
requer e, assim, ir diretamente ao Céu. Isso não é impossível, mas, como
bem afirmou Dom Estevão, é algo menos freqüente. O autor citou os textos
de 1 João 5, 8 e 10; 2 Crônicas 6, 36 e Tiago 3, 2, que, de maneira geral,
afirmam que todo homem tem pecado. Mas é justamente isso que a
doutrina católica está ensinando. Que todo homem tem pecado, isso é
certo, mas também é certo que com a graça de Deus podemos chegar à
perfeição que Ele requer de nós para entrarmos no céu, o que está exarado
em outros textos como Mateus 5, 48 já citado anteriormente. O texto de Tg
3,2 também deixa isso claro, pois termina assim: ...Se alguém não cair por
palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo.
[Bíblia Ave Maria] [...Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e
poderoso para também refrear todo o corpo – Almeida Corrigida e Revisada
Fiel].

d) as almas dos verdadeiros cristãos que já partiram desta vida, não estão
aguardando maior purificação para, então, adentrarem à presença de
Deus, visto que já partiram desta vida cem por cento purificados mediante
o perdão que nos é dado por meio do sangue de Jesus, vertido por nós na
cruz;

Que Jesus tenha quitado 100 por cento toda a dívida com o seu sacrifício
redentor ninguém pode duvidar. Porém, Cristo salvou e redimiu a
humanidade para que todos tenham acesso ao céu e não para que sejamos
dispensados de sofrer as conseqüências temporais (penas) de nossos
pecados voluntários. Nesse item parece que não houve uma harmonia
entre a misericórdia e a justiça de Deus. Ele perdoa cem por cento, mas
não requer mais nada da parte do perdoado?

e) realmente, só os perfeitos podem entrar no Céu, mas na hora em que


Cristo voltar para arrebatar os cristãos ao Céu (Jo 14. 1-3; 1Ts 4.13-17), ou
quando nós formos ao seu encontro através da morte, o Espírito Santo
eliminará de nosso ser a natureza pecaminosa, também chamada de
pecado original (Rm 8.11; Fp 3.21; Ap 14.13); e é essa depuração futura,
que será tão instantânea quanto o é hoje o perdão, que nos habilitará a
vermos Deus face a face. Sim, todo aquele que está perdoado, já está
pronto para entrar no Paraíso Celestial, tão logo Cristo venha nos arrebatar
ao Céu. E assim como, no dia do arrebatamento da Igreja, os cristãos não
irão para uma sala de espera, para ali purgar suas imperfeições, mas
prontamente subirão ao Céu, de igual modo, quando morre um servo de
Deus, sua alma voa direto para o paraíso;

O pecado original é a privação da graça santificante, não a natureza


pecaminosa do nosso ser. A depuração ocorre no batismo, que confere a
graça santificante ao cristão, permanecendo a natureza decaída. A graça é
que nos torna aptos a ver Deus face a face. No que concerne ao
arrebatamento, esse se dará no Juízo Final. É necessário também lembrar
que a Sagrada Escritura fala que haverá uma purificação através do fogo,
na qual o fiel sofrerá as conseqüências por ter praticados obras
imperfeitas, porém será salvo por ter construído suas obras (mesmos que
imperfeitas) sobre o verdadeiro fundamento que é Cristo. Portanto, a
passagem de 1 Cor 3, 11-15 não fala somente do fiel que não receberá o
galardão, mas do fogo que purificará para a salvação, e esse fogo é o do
Purgatório. Por outro lado supõe que muitos não terão que sofrer no fogo,
pois obraram perfeitamente.

f) não existe esse negócio de pena devida pelos pecados já perdoados,


indulgência parcial, indulgência plenária, tornar-se perfeito ainda nesta
vida, purgatório, missas e esmolas pelos que padecem no purgatório, etc.
O purgatório do verdadeiro cristão é o sangue de Jesus.

A letra f já foi devidamente refutada na resposta à letra e. Entender


perfeitamente a Comunhão dos Santos é imprescindível para entender as
indulgências. A última afirmação acima lança luz no entendimento do
purgatório, que realmente só existe (segundo o ensino cristão católico) por
causa do sangue de Jesus, pois sem Ele, todos pereceriam. Foi Deus quem
criou o purgatório.

Para “provar” que o catolicismo está “errado”, o pastor cita as


seguintes passagens bíblicas, que quando bem entendidas somente
corroboram o que a doutrina da Igreja ensina. Vejamos essas brevíssimas
reflexões:

Romanos 8:1: Entende-se claramente, nesse texto, que se trata da


condenação ao inferno, que não existe para os que estão em Cristo Jesus.

2 Coríntios 5: 17: Tudo se fez novo, mas o homem ainda está sujeito a
pecar, e não pode entrar no céu com o pecado ou pena temporal.

Lucas 23: 43: É a promessa de que nós estaremos com Cristo no paraíso.
O ladrão foi salvo por Cristo depois de arrepender-se. Após sua justificação,
seu novo nascimento, sem o batismo, pois, como diz o Catecismo, Deus não
está ligado aos sacramentos. Portanto, não havia mais penas, eternas ou
temporais, para que cumprisse. Mesmo assim, o ladrão aceitou
pacientemente o seu sofrimento como um verdadeiro regenerado.

João 8:32,36: Realmente e verdadeiramente, Cristo é o libertador!

Hebreus 7:25: O texto diz que Cristo pode salvar, mas não aplica Sua
salvação de qualquer forma, ou seja, não salva de qualquer jeito, mas
somente os que se chegam a Deus por Cristo.

Efésios 2:8: Essa passagem fala da justificação.

1 João 1:7: O sangue de Jesus nos purifica após o arrependimento. Não há


refere às penas aqui.

Hebreus 10:17,18: O texto fala da remissão perfeita que Cristo realizou


de uma vez por todas. Deus fala que não se lembrará dos pecados, mas e
as penas temporais devidas? Não há nenhuma alusão contrária aqui.

Comentando um dos versículos supracitados, a saber, Lc 23:43, os


evangélicos dizem que o fato de o ladrão mencionado neste texto, não
necessitar de purgatório e indulgência para se salvar, podendo ir para o
Paraíso naquele mesmo dia, prova cabalmente que o perdão que Deus nos
oferece em Cristo, nos basta, para entrarmos no Céu, visto que o restante é
da competência do próprio Cristo. (Pr. Joel) Mas devemos prestar atenção
que, de acordo com a doutrina da Igreja, a justificação apaga e perdoa todas
as penas. É interessante, também, que o ladrão creu em Jesus, arrependeu-
se e foi justificado, sofreu pacientemente as dores atrozes da crucificação
reconhecendo-se culpado. Tudo isso lhe foi meritório por ter aceitado e
recebido a graça santificante. Se, como reconheceu o pastor Joel, os
perdoados sofrem as conseqüências físicas do pecado original e dos
pecados pessoais, por que isso não acontece isso após a morte? Por que
não haveria as consequências espirituais? O pastor reconhece que os
perdoados sofrem, sem dúvida, as conseqüências físicas do pecado, mas
afirma que tão logo morre um perdoado, a sua alma voa imediatamente ao
Paraíso Celestial. Isso nega, de certa forma, a justiça de Deus, exaltando
somente a misericórdia. Onde está escrito que não há consequências
espirituais a serem sofridas pelo cristão e que tão logo esse morre vai
sempre direto pra o céu? Certamente o pastor irá citar textos como 1 Pedro
2,24 que diz que Cristo levou os nossos pecados, completamente. Mas pena
e pecado são diferentes. As penas temporais que foram requeridas a Davi,
um santo do Antigo Testamento, mostram que as penas não são suspensas
quando do arrependimento e recebimento do perdão. Ele não foi
condenado, mas pagou as penas temporais. E foi salvo pelo sacrifício
expiatório futuro de Cristo. Por que as penas existiriam somente enquanto a
pessoa vive e não depois também que morre sem tê-las experimentado
ainda? Seria o pagamento das penas em vida algo que acontece
desnecessariamente? Seria a morte o pagamento de toda pena temporal?
Se Cristo permite que permaneçam penas em conseqüências dos pecados
perdoados, por que essas deixariam de existir depois da morte, mesmo não
sendo expiadas? Qual o motivo para não suspendê-las enquanto o fiel
contrito ainda vive? Por que não se experimenta o “perdão total”, que inclui
a dispensa de toda pena temporal, ainda em vida? Como é que sofre danos
no julgamento aquele salvo que construiu sua obra sobre Cristo, mas a
construiu de forma imperfeita? (1 Coríntios 3,15). Esse dano, esse fogo
purificador, indica sofrimento por causa da imperfeição da obra, que não
resistiu ao fogo. Mas é obvio que a obra não sofre, quem sofre é o dono da
obra, que perde sua recompensa, conquanto não seja condenado.
Generalizando o caso daqueles pregadores de Coríntios 3,15 ao contexto
que estamos tratando, é bíblica e razoável a posição cristã a respeito das
penas temporais.

O pastor tem uma atitude de respeito aos que divergem da posição


evangélica quanto ao perdão e sugere que se estude a Bíblia e baseie a
opinião nela: E se você já estudou a Bíblia, e concluiu em sua mente que
realmente o perdão que Deus nos oferece nos habilita ao Céu na hora, saiba
que então você não é católico, nem tampouco, espírita. E talvez você até
seja evangélico e nem saiba. Realmente, quem nega a existência do
purgatório, da necessidade e possibilidade de ser perfeito como o Senhor
nos ordenou (Mt 5,48), esse não é mais um cristão católico. Por isso o pastor
convida alguém que se encontra nessas circunstâncias: Una-se a nós! Mas,
se alguém crê que Cristo realmente perdoa, nos livra da condenação, mas,
requer de nós uma vida santa e sem a mínima mancha para vê-lo face a
face, e que isso não significa um “perdão fajuto, nem cheio de cicatrizes,
nem uma venda de gato por lebre”, mas um perdão harmonioso com a
justiça de Deus, esse é um cristão católico, que deve estudar a Palavra de
Deus mais e mais para não perder a verdadeira fé. Aproveitando as palavras
do pastor Joel, afirmo também que é bíblico usufruir simpatia de idéias.

O pastor Joel argumenta a respeito do perdão que a Igreja ensina, que se


Bíblia ordena que devemos nos inspirar no tipo de perdão de Deus, e se
temos que pagar as penas temporais dos pecados perdoados, conclui-se
que aqueles que por nós foram perdoados, ainda tem muito que acertar
conosco. Porém, essa argumentação, muito interessante, não é de todo
conclusiva, pois, se, por exemplo, alguém difama uma pessoa publicamente
e depois se arrepende, pode, pedindo perdão, ser perdoado pela pessoa
ofendida, mas essa, por sua vez, tem por direito, com toda a justiça, de
exigir que o ofensor repare sua falta reabilitando, diante de todos, aquela
pessoa a quem ofendeu. Portanto, isso não significa colocar Deus abaixo
dos nossos pés, como afirmou o pastor Joel, nem que o perdão seja fajuto, e
nem que o nosso perdão seja maior que o de Deus, mas que o nosso perdão
deve refletir e reflete (e nisso o pastor Joel concorda), de certo modo, o
perdão perfeito de Deus. E o perdão de Deus é da forma que a Igreja
Católica tem ensinado nesses milênios da era cristã, que existe a pena
temporal dos pecados perdoados, pois somente assim se harmoniza com a
exigência da justiça perfeita de Deus. Reconhece [parcialmente] o autor: Os
perdoados sofrem, sem dúvida, as conseqüências físicas do pecado, tanto
do pecado original, como das culpas pessoais: doenças, envelhecimento,
morte, danos patrimoniais e morais, etc., como ocorreu a Davi, o qual,
mesmo estando perdoado, amargou inúmeros sofrimentos neste mundo;
ou, ainda, como ocorreu aos apóstolos, os quais, mesmo estando perdoados
por Deus, continuaram sujeitos às mazelas supracitadas: envelhecimento,
doenças, morte, etc. Mas tão logo morre um perdoado, a sua alma voa
imediatamente ao Paraíso Celestial. Como o pastor Joel sabe e até citou em
seu livro, Davi pecou, arrependeu-se e foi perdoado, cento por cento, é
claro, mas não somente amargou inúmeros sofrimentos neste mundo, mas,
mais precisamente, perdeu seu filho primogênito como expiação da sua
culpa específica já perdoada. Outro fato é o de Moisés, que pecou e
também se arrependeu, mas pagou a pena de não poder entrar na Terra
Prometida. Embora o pastor reconheça as consequências do pecado, seu
argumento deixa implícito que Deus deveria ter poupado a Davi, não lhe
tirando o filho, ou permitido a Moisés entrar na Terra Prometida, pois ambos
foram perdoados, e deixa igualmente implícito o questionamento do motivo
para se pagar ou sofrer tal pena. Mas é esse o modo de agir de Deus. Onde
está escrito que Deus não requer de nós que expiemos nossas faltas
cumprindo as penas temporais devidas, e que iremos diretamente ao céu
assim que morremos? Se houvesse algum lugar afirmando isso, estaria em
contradição com os exemplos acima, de pessoas perdoadas e ao mesmo
tempo sofrendo penas temporais. Por que Deus agiria diferentemente após
a morte do cristão, se a Sua justiça continua a mesma? Aqui, trata-se da
maneira de Deus, de como Ele e age, ou seja, do princípio de exigência de
uma reparação do pecado perdoado.

As mazelas (doença, envelhecimento, morte) desta vida somente podem ser


penas temporais se vividas em espírito de oferecimento de tudo a Deus.
Como diz Romanos 8, 17, texto que revela a necessidade de sofrer com
Cristo para ser glorificado com Ele, é isso que ensina a Igreja. Não são
quaisquer mazelas que, muitas vezes, afligem os homens, mas, não são
vividas em espírito de expiação, o que não reduz em nada as penas
temporais. Quanto ao argumento que nega que as penas sejam as mazelas
da vida, visto que os indulgenciados não deveriam sofrer mais nenhuma
delas e de que no além-túmulo não existem essas tais mazelas, pode-se
responder que: se as penas redimidas são as de pecados passados e não
de futuros pecados o argumento perde sua força, pois enquanto vivemos
temos possibilidade de pecar e acumular, infelizmente, mais penas.
Portanto, é certo que o cristão só entra no céu depois de expiadas todas as
penas temporais, e é pela compreensão de que temos a esperança da
salvação e não uma certeza absoluta, que muitos católicos tem se mostrado
humildemente cheios de temor e tremor diante de Deus, como os
depoimentos do Cardel O´Connor, de Helder Câmara e de Madre Teresa
registrados pelo pastor Joel, que não constituem uma simples insegurança.

O perdão – total não parcial - que a Igreja sempre ensinou, e que os


protestantes anatematizam, está profundamente contido na Bíblia, é o
Evangelho Verdadeiro, e desse modo, a sua negação é que poderia ser
enquadrada em Gálatas 1, 8.

5.3. Os atravessadores do “perdão” católico

O pastor cita o Catecismo para dizer que o catolicismo ensina que deve-se
confessas o pecas pelo menos uma vez por ano e cita dos números 1448 e
1449. Segundo o pastor a Igreja está tirando proveito de um texto de difícil
interpretação, o qual é João 20, 23. Realmente, para o protestante que
segunda o sacramento da penitência, esse é outro texto que não se encaixa
em sua teologia protestante. De fato somente Deus perdoa dos pecados, (2
Cr 7.14; 6.21; Sl 103.2,3; 1Tm 2.5; Jo 14.6; Hb 10.19, etc.), mas a negação
de que Cristo deu a homens o poder de perdoar em seu nome, recorda as
acusações dos fariseus contra Cristo, dizendo que só Deus pode perdoar os
pecados. O tempo perfeito está dizendo que o que o apóstolo pronunciasse
já foi concedido, tem o aval do céu, ou seja, ele tem a permissão para tal,
para que fosse aplicado no tempo necessário: o poder de perdoar e reter os
pecados. Tudo de acordo com a vontade de Deus, pois é óbvio que Ele não
ratifica o que destoe de Suas palavras. O texto de Mateus 16, 19 também é
alvo do pastor Joel. Esse texto estaria apenas dizendo que Pedro teria o
direito de: ...declarar ligado o que à luz da Palavra de Deus, demonstrasse
estar ligado nos céus; bem como declarar desligado dos céus o que, pela
mesma razão, demonstrasse estar alienado de Deus. Logo, o texto em
apreço não delega a Pedro o poder de perdoar ou não os pecadores, mas
sim, o poder de mostrar aos pecadores o caminho do perdão, bem como o
poder de declará-los perdoados ou não, à luz da Palavra de Deus [Pastor
Joel]. Será que Cristo não tinha pessoas em mente quando disse “tudo” o
que ligares e não “todos”? São Pedro teria autoridade de dizer: “Fulano não
pode ser reconhecido como membro da Igreja, até que se converta”. Ele
podia dizer também: “Se tua fé e arrependimento são sinceros, estás em
sintonia com os Céus, isto é, tens comunhão com Deus; e, portanto, te
reconhecemos como membro da Igreja do Senhor”. Para fazer tal afirmação
parece óbvio não ser necessário receber um poder de Deus como aquele
dado a São Pedro e aos Apóstolos. Que alguém não possa ser reconhecido
como membro da Igreja até que se converta, todos os cristãos sabem, pelo
menos os mais esclarecidos. É, assim, difícil imaginar Nosso Senhor apenas
dando o direito de reconhecimento aos apóstolos, para que dissessem: olha,
se você tem fé e se arrependeu sinceramente, você está em comunhão com
Deus! Essa interpretação talvez nem Lutero tinha em mente! É novíssima.
[A Almeida Corrigida e Revisada Fiel traduz Mateus 16,19 assim: E eu te
darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado
nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.]. É mais
fácil aceitar o que o insofismável texto está dizendo: àqueles que os
apóstolos perdoassem seriam perdoados e àqueles aos quais não
perdoassem esses teriam seus pecados retidos, e em Mateus 16, 19 é dado
o poder e autoridade de ligar e desligar pessoas na Igreja.

5.4.1. A doutrina do Purgatório é Bíblica

Para o protestantismo o purgatório é o resultado imediato do falso


perdão católico. Mas, como foi provado que o perdão cristão católico é
verdadeiro, então o purgatório, que o resulta o é também. O pastor explica
que depois do perdão (termo que coloca entre aspas) o católico entra no
estado chamado purgatório do qual não sairá, mesmo após a morte, até que
cumpra a pena devida pelo pecado já perdoado, e que através de missas,
esmolas e rezas em favor dos mortos se obtém a abreviação desse estado.
Cita o padre Euzébio Tintori, que assim define o purgatório: “...estado médio
das almas, sofrendo por certo tempo em expiação de seus
pecados...”. Para o pastor, (como foi tentado provar) o purgatório é
crendice, mas como a Igreja apresenta provas bíblicas, o autor se põe a
analisar as referidas provas. Ele se limita a analisar uma só passagem
bíblica, pois não crê ser necessário que apresente todas, pois o Espírito
Santo é que pode convencer os católicos de seus desvios e convertê-los do
mau caminho e não a força dos argumentos protestantes. Confiar somente
nos argumentos não é atitude cristã, concordo com o pastor Joel. É o
Espírito Santo quem convence, dando força aos argumentos. O pastor passa
então a “refutar” a explicação de Mateus 12,32, que seria o texto predileto
para provar a doutrina do purgatório. Vejamos como o pastor inicia a
explicação: A referência bíblica em apreço, que é Mt 12.32, diz que a
blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada nem no presente
século nem no século futuro. Desta afirmação do Senhor Jesus, a cúpula da
Igreja Católica se serve para apresentar mais uma “prova bíblica” de que o
purgatório existe. Senão, vejamos o que diz o Catecismo da Igreja Católica,
página 290, # 1.031: “...Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas
podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século
futuro”. Mas este argumento é fraco por três razões...” As razões que o
pastor Joel apresenta são: se o pecado não é perdoado nem neste século
nem no futuro, quer dizer apenas que é imperdoável e que não há mais
pecados para serem perdoados além-túmulo; prova com o texto de Marcos
3, 29 o qual afirma que a blasfêmia contra o Espírito Santo jamais terá
perdão; se houver pecado a ser perdoado não haveria necessidade de
cumprimento da pena, pois cumprir pena é diferente de ser perdoado, e
questiona: Cristo perdoa ou não perdoa? Conclui que a doutrina do
purgatório é facilmente refutável e que é antibíblica não porque o termo não
apareça na bíblia, nem porque os textos bíblicos usados como prova falam
de outro assunto, mas também porque há doutrinas bíblicas que serão
insustentáveis, caso aceitemos o purgatório católico. Para provar
convincentemente deve-se, então, provar que a doutrina do purgatório não
contradiz outras doutrinas bíblicas. Esse é o ponto-chave. Primeiramente, é
oportuno raciocinar um pouco mais. A argumentação do pastor Joel conclui
corretamente, porém, não é conclusiva para toda a questão. De fato, se o
pecado contra o Espírito Santo não é perdoado nem neste século e nem no
século futuro, quer dizer que é imperdoável, e isso é confirmado por Marcos
3,29; mas o texto deixa margem para se crer que existem pecados que
podem ser perdoados no século futuro, pois é isso que a expressão permite
deduzir: nem no presente século nem no século futuro. Embora perdoar seja
diferente de cumprir uma pena, o perdão (neste caso, de pecados veniais)
pode deixar uma pena a ser paga, e essa, segue-se ao perdão mesmo no
século vindouro, através do purgatório. É óbvio que os seres humanos
querem evitar o sofrimento o máximo possível, e crer que instantaneamente
o salvo está no céu após partir desse mundo é o que todos querem. Apesar
de isso ser possível, não é sempre assim. Ao céu, todos os salvos irão,
porém, nem todos no mesmo instante em que morrerem. E a pergunta:
Cristo perdoa ou não perdoa? Claro que perdoa, tão profundamente que
deixa a alma tão branca quanto a neve. Porém, a sua justiça infinita requer
a expiação das penas temporais (pois a pena eterna já foi tirada por Cristo).
Enfim, Mateus 12,32 realmente permite crermos no purgatório e podemos
afirmar que é uma doutrina bíblica (não uma crendice), que é conforme a sã
razão e não se choca com o ensinamento cristão em geral.

5.4.2. A doutrina do purgatório solapa a fé no arrebatamento da


Igreja

Se a doutrina do arrebatamento é aquela que afirma que no Juízo Final


todos os salvos irão para o Céu quando Cristo disser: Vinde benditos de
meu Pai..., então a doutrina do purgatório está em perfeita harmonia com
ela. Agora, se o arrebatamento é a doutrina que afirma que mais de mil
anos antes do Juízo Final, Jesus virá buscar o Seu povo (João 14.1-3;
Apocalipse 19.11 a 20.15), temos de concordar que essa doutrina não tem
lugar na fé cristã católica. A ressurreição, a glorificação dos cristãos vivos, o
Juízo Final e o arrebatamento ocorrerão no último dia (1 Coríntios 15.52).
Corretamente o pastor Joel afirmou que quem pensa assim (na expiação das
penas temporais neste mundo ou no purgatório), certamente não crê na
possibilidade de ser arrebatado agora, caso Cristo venha neste exato
momento. De fato, somente os que se consideram já salvos (no sentido de
prontos para entrar no céu agora), só os que assim pensam é que creem no
arrebatamento secreto, que ocorreria num atómo de tempo, num abrir e
fechar de olhos, onde só os salvos veriam, e portanto, nega a existência do
purgatório, pois, segundo imaginam, não há penas a sofrer. O verdadeiro
cristão, na verdade, crê o contrário, pois sabe que seus sofrimentos em
Cristo, são necessários por causa dos pecados veniais a que sempre está
sujeito, ou mesmo como conseqüência de um pecado grave já
arrependido, confessado e perdoado. O pastor Joel afirma: Deve ser esse o
motivo pelo qual nunca ouvimos um integrante do clero católico pregar
sobre o arrebatamento da Igreja, e, logo mais adiante, diz: E faz ela muito
bem, porque se essa seita, sem abrir mão do purgatório, pregar o
arrebatamento da Igreja, será mais incoerente do que já é. Chamando a
Igreja de seita e de incoerente, admite que aqui, felizmente não houve
incoerência, por isso a Igreja faz muito bem, em não pregar o
arrebatamento sem abrir mão do purgatório. Porém, é oportuno afirmar que
essa coerência aqui ocorre também em todos os outros assuntos
doutrinais, basta que não se compare a doutrina do perdão protestante com
a doutrina do purgatório, que realmente são autoexcludentes.
Autoexcludentes porque o perdão protestante é da idade do protestantismo,
em seus inícios luteranos.

5.4.3. Induz à salvação pelas obras

Não existe salvação pelas obras, mas pela fé e pelas boas obras. E isso
não é um expediente estranho à Bíblia, pelo contrário, é a própria doutrina
bíblica. Para o pastor Joel, a salvação pelas obras seria um pechinchar com
Deus, uma pechincha vã, já que o preço estipulado é o Sangue de Jesus e
Deus não abre mão disso, o que seria, de outro modo, uma salvação
barateada. (Apocalipse 5.9; 1 Pedro 1.18-19). Diz o pastor Joel: Somar ao
sangue de Cristo o mérito de nossas obras, é subestimar o preço. No
entanto, não haveria sofrimentos ou obras ou invencionices que para
baratear a salvação. Há grande equívoco aqui.

O pastor Joel explica como é a salvação, vejamos: A salvação é assim:


Ou o pecador a recebe de graça, valendo-se do preço que já foi pago por
Jesus, ou irá para a eternidade sem ela; porque Deus não a negocia,
vendendo-a, a quem quer que seja (Apocalipse 22.17; Efésios 2.8-9;
Romanos 11.6). O pastor estabelece o princípio de que é proibido cooperar
na salvação e que isso é vontade de Deus. Isso realmente está em contraste
total com a doutrina católica e em contradição com texto que revelam a
participação que Deus requer do fiel.

Os protestantes não negam algum valor das boas obras. É claro que
não. Vejamos o que diz o pastor Joel: A Bíblia dá muito valor às obras de
justiça feitas pelos verdadeiramente salvos. Mas isso porque os
verdadeiramente cristãos fazem obras por serem salvos, e não para serem
salvos (1 Coríntios 6.20). Nossos sofrimentos e boas obras não podem nos
salvar. Se pudessem, o Senhor teria morrido em vão. Então as obras têm
valor no protestantismo. Qual é o valor, o mesmo que a Bíblia dá ou um
valor diferente, ou mesmo, um mínimo e até dispensável valor? É difícil
conciliar a necessidade e valor das obras, sem as quais ninguém entra no
céu, e ao mesmo tempo afirmar que elas nada valem em termos de
salvação.

Deixemos que o pastor Joel explique mais um pouco: O fato de os


capítulos 10 e 11 de Atos dos Apóstolos nos falarem que, embora Cornélio
fosse justo, temente (reverente) a Deus, generoso (fazia muitas esmolas ao
povo), dedicado à oração e ao jejum, Deus o mandou chamar à sua
residência o apóstolo Pedro, para que este lhe falasse de Cristo, prova
cabalmente que só o sangue de Jesus nos quita para com Deus. As boas
obras não salvam. E se somarmos a elas o sangue de Cristo, continuaremos
perdidos. Apelemos para o sangue, e só para o sangue.

Mas os capítulos 10 e 11 dão realmente um grande valor às boas obras.


O fato de que Deus enviou São Pedro até a residência de Cornélio para falar
de Cristo não invalida o valor das boas obras. Outrossim, a própria Escritura
nos diz que aquelas boas obras de Cornélio foram aceitas por Deus. Diante
disso, afirmamos que Cristo é o Salvador, e todos devem necessariamente
estar nele para ser salvos. Cornélio era temente a Deus, e com toda a
certeza abraçaria o cristianismo assim que o conhecesse. Se, porventura,
Cornélio morresse antes de conhecer Jesus, ele seria salvo, e salvo por Jesus
Cristo, pelo Seu sacrifício na cruz, pois aquele homem era justo e temente a
Deus e havia sido aceito por Deus. No entanto, ninguém está dispensado de
ouvir falar de Cristo, de o conhecê-lo e de aceitá-lo, como se já fosse o
“bom bastante” para se salvar por sua própria conduta. Portanto, o episódio
de Atos 10 e 11 está em total conformidade com a doutrina católica, que
ensina a salvação pela fé e pelas boas obras. Não se trata de somar a elas
o sangue de Cristo. O sangue de Cristo é o que salva e que faz com que
nossas boas obras influam na nossa salvação. Para os protestantes, como
explica o pastor Joel, a salvação é instantânea, e se o convertido morrer
logo após sua justificação, entrará no céu imediatamente, e se viver, deverá
gastar sua vida em boa obras em gratidão pelo perdão total e instantâneo
que o Senhor já lhe deu. Ele diz ainda: Quem diz que está salvo, mas não se
dedica às boas obras, é mentiroso. Então o salvo praticaria as obras porque
é salvo e não para ser salvo, ou seja, continua o pastor: Não as faria para se
salvar, mas sim, por ser salvo (Efésios 2.8-10). Os versículos 8 e 9 dizem
que somos salvos sem o auxílio das obras; e o versículo 10 diz que somos
salvos para as obras.
Conclui que o clero católico não está ajudando o povo a entender que a
salvação é pela graça, e explica como é a salvação na doutrina cristã
católica: A “graça” católica pode ser explicada assim: “A salvação é para
as pessoas boas. Logo, as ruins estão perdidas. Mas, se estas pessoas,
arrependidas imploram salvação, Deus lhes dá a graça da força para
deixarem de ser más e se tornarem boas de fato, praticando o bem,
mediante a graça da força que receberam por meio da fé em Deus, na
Igreja Católica e nos seus sacramentos. Deste modo, o católico entra no
Céu porque merece o Céu; merece o Céu porque é de fato bom; ele é bom
porque teve forças suficientes para dedicar-se ao bem; teve forças
suficientes para dedicar-se ao bem porque Deus lhe deu tais forças; Deus
lhe deu tais forças antes dele merecê-las, por ainda não ter feito o bem,
estando apenas desejoso de deixar de ser mau; e, se ele não merecia esta
força dada por Deus, para fazer por onde merecer o Céu, então foi salvo
pela graça por meio da fé. O pontapé inicial é graça pura”. Em outras
palavras: “O pecador é admitido na empresa de Deus sem méritos, mas
receberá o galardão (recompensa, pagamento) da bem-aventurança eterna
nos Céus, pelo trabalho prestado. As boas obras e os sofrimentos aos quais
ele será submetido após a admissão na empresa de Deus pela graça por
meio da fé, tem os respectivos objetivos: Acumular méritos e expiar o seu
passado. E, se os sofrimentos e obras por ele experimentados até o
momento da morte, não forem suficientes para torná-lo digno do Céu, o
sofrimento do purgatório entrará em ação no além-túmulo e completará a
obra. E, enquanto ele estiver sofrendo lá, seus correligionários devem dar
esmolas e dizer missas em favor de sua alma. Estes, por sua vez, estão
acumulando méritos para também se tornarem suficientemente bons a
ponto de merecerem o Céu, quando morrerem; ou, na pior das hipóteses,
não terem que sofrer por muito tempo na fornalha do purgatório”.

Muito bem explicado, porém, o pastor não está convencido de que


realmente é assim. E mesmo essa boa explicação parece ter cometido um
pequenino equívoco, quando disse: As boas obras e os sofrimentos aos
quais ele será submetido após a admissão na empresa de Deus pela graça
por meio da fé, tem os respectivos objetivos: Acumular méritos e expiar o
seu passado. De fato, não é isso que a Igreja prega, pois o Batismo apaga e
perdoa todas as faltas e remite todas as penas eternas e temporais. Isso
impossibilita o acúmulo de méritos para “expiar o passado”, pois esse não
tem necessidade mais disso. Assim como numa criancinha recém-nascida, o
batismo apaga o pecado original e a torna filha de Deus e herdeira do céu, o
adulto batizado está pronto a entrar na bem-aventurança. O pastor, chega,
logo depois, a chamar o purgatório de desgraça.

De fato, os que Deus fez bons se salvam. Os maus que se convertem,


recebem a graça e são justificados, tornam-se bons. Então, a salvação, ou
como foi chamado pelo pastor Joel de pontapé inicial, ou seja, a justificação,
essa é somente graça, sem obras. A partir daí, o cristão deverá viver como
salvo, em boas obras, para ser salvo, ou seja, glorificado no céu. Santo
Agostinho ensinava que Deus nos recompensa pelos próprios benefícios que
ele ofereceu a nós. As boas obras influem sim na nossa salvação. O mérito é
verdadeiro, apesar de ser secundário, pois em primeiro lugar sabemos que
foi Deus quem nos deu o dom de tê-lo (CIC, 2025-26). O cristão que não
pratica boas obras não será salvo! Não porque nunca tenha sido salvo,
como se a justificação levasse automaticamente ao salvo a praticar boas
obras, e essas fossem sinal inquestionável de que se trata de um salvo! O
texto de Efésios 2, 8-9 ensina o seguinte: os pecadores que, mortos em seus
pecados, são salvos imerecidamente pela graça de Deus, devem agora
praticar as boas obras, v. 10, não como gratidão apenas, mas também,
como necessário para continuar no caminho da salvação, já que se trata das
obras que Deus preparou para o salvo praticar livremente, pois a fé sem
obras é morta. Portanto, existem salvos (que foram justificados
verdadeiramente) de verdade que não estão praticando boas obras e não
podem, assim, ser recebidos no céu, ou melhor, pode ser condenados.
Podem ter fé, mas não tem boas obras. Certamente, o pastor Joel não crê
nessa verdadeira doutrina, que parece ter entendido, porque não está
convencido de que a Bíblia a ensina. Porém, no próprio texto de Efésios
acima está clara a doutrina católica, apesar de aparentemente se
harmonizar com a teologia protestante.

5.4.4. Serve de fundamento à simonia

A simonia é condenada pela doutrina cristã católica. Basta ler o


Catecismo [nº 2118/2121] que assim define esse pecado: compra ou
venda das realidades espirituais. Quem vende ou quem compra alguma
realidade espiritual está pecando! O pastor Joel acusa a Igreja de estar
praticando charlatanismo através dos séculos, cometendo o pecado da
simonia, ou seja, o “comércio de coisas sagradas”. Segundo o autor, esse
negócio de perdão com cicatrizes, indulgência parcial, indulgência plenária,
purgatório, missas pelas almas dos mortos, Limbo, exéquias pelas almas
das criancinhas que morreram sem o batismo e outras mais, foram
inventados para ganhar dinheiro, e afirma que é possível que padres
ingênuos não percebam isso, mas que é “verdade”, pois até o catecismo
ensina que a “oferta” é uma das coisas sugeridas para “remissão dos
pecados”. Cita uns casos em que existem preços distintos para missa
simples ou missa com fundo musical, e o preço da indulgência que teria sido
estabelecido pelo Papa Adriano VI como sendo 1/3 da viagem a Roma. O
pastor questiona: É charlatanismo ou não é ? O purgatório seria a vaca
leiteira do vaticano (citação feita pelo autor). O autor acusa a Igreja, que
chama de “religião” (entre aspas), de viver da exploração da fé pública e da
ingenuidade do povo. Essas palavras se parecem até com aquelas notícias
dos meios de comunicação que denunciam as falcatruas das seitas
protestantes pelo Brasil a fora, embora não seja comum nesses noticiários
qualquer notícia que pelo menos lembre a participação a Igreja Católica
nesses crimes. Essa acusação não tem cabimento. Para quem já está
plenamente convencido de que o que foi citado acima é “charlatanismo”, é
quase impossível convencê-lo do contrário. Porém, para os que ainda estão
dispostos a ver as coisas mais imparcialmente, e mesmo os plenamente
convencidos, pois não é impossível que mudem de opinião, é necessário
entender que todos os itens citados não se encaixam no pecado de simonia.
A Igreja não vende o perdão ou a remissão dos pecados. Há mesmo ofertas
que servem como penitência para quem já foi perdoado, penitência para
remissão das penas temporais. Isso é veementemente atacado pelo pastor
Joel, que garante não existir as penas temporais. Então, o fundo de tudo isso
deve ser resolvido segundo a concepção teológica ortodoxa.

5.5. Condena seus “inocentes” e absolve os culpados

O pastor afirma que a Igreja Católica é a que mais ensina incoerências.


Certamente essa “percepção” se dá pelo fato de ele, o pastor Joel, não ter
conseguido conciliar todo o ensino católico, e devido ao fato de crer, como
um bom protestante, na teologia dos reformadores, pois crer que
essencialmente ela é a doutrina cristã pura. O pastor afirma que o fato de
que a Igreja ensina rezar por todos os mortos equivaleria a ensinar a
possibilidade de que no final ninguém será condenado. Isso estaria contido
nas palavras seguintes, com grifos do autor: Senhor, lembrai-vos de nossos
irmãos que morreram na esperança da ressurreição, e de todos aqueles
que já partiram deste mundo! Acolhei-os junto de Vós, na luz da
vossa face!” (Grifo nosso). De fato, estas palavras são ambíguas, no
mínimo, e não estão de acordo com a tradição cristã católica. Deveriam ser
retificadas. Parece-me que o próprio papa Bento XVI já se pronunciou contra
essa falsa noção inspirada na oração citada. O pastor conclui que essa
oração implica em muita confusão e que Jesus não o ensinou, e relembra
que a Igreja nega que ofereça preces pelos condenados. Diante de tudo
isso, pode-se dizer, com base na doutrina da Igreja, que é verdade que não
há esperança para os condenados ao inferno e que esses não podem
receber orações dos cristãos, visto ser isso uma ação inútil. Como foi dito, a
noção (falsa) que a oração citada deixa transparecer não é católica e essas
palavras deveriam ser corrigidas. O melhor e estarmos bem conscientes
disso, baseados na Bíblia e na Tradição, no ensino oficial da Igreja.

5.6. Estou interpretando mal?

Nesse tópico o pastor Joel procura mostrar quem estaria interpretando


mal a doutrina da instantaneidade do perdão: ele ou o católico (Anderson)
que o havia acusado de ter tirado de sua própria cabeça conclusões que se
passariam como doutrina da Igreja. Para isso, o autor cita trechos dos e-
mails onde discutiram a questão: O cristão católico que remeteu o e-mail ao
pastor, afirmou que: “A penitência ordenada pelo Sacerdote, após a
confissão, não tem nada a ver com o perdão do pecado em si, nem é uma
paga pelo pecado perdoado, mas, ao contrário, visa restituir o caminho de
santidade na vida do pecador. E, logo depois, afirma que o sofisma do
pastor Joel cai por terra se continuarmos a ler o que diz o Catecismo,
passando a citar o n. 1460 do mesmo. Em seguida o pastor Joel apresentou
sua defesa, mais ou menos assim: Veja o que diz o Catecismo da Igreja
Católica..., citando os trechos dos números 1471 e 1473 com grifos
acrescentados. Nessa defesa, argumentando que o senhor Anderson disse
que “A penitência ordenada pelo Sacerdote, após a confissão, não tem nada
a ver com o perdão do pecado em si, ...”, o pastor mostra que o Catecismo
da Igreja Católica, fala de uma tal (sic) de “... pena ... devida pelos pecados
já perdoados”, que pode ser eliminada pela indulgência, e que as
indulgências podem ser para os fiéis vivos ou para as almas do purgatório,
concluindo que o senhor Anderson está equivocado quanto à interpretação
da palavra indulgência. Afirma que o vocábulo não quer dizer restituição do
caminho de santidade..., a não ser que isso signifique o cumprimento das
penas citadas e, assim, o senhor Anderson entraria num beco sem saída,
pois afirmou que o pastor estaria interpretando mal, quando disse que: a
Igreja Católica prega que o perdão dos pecados não anula a sentença, mas
que tão-somente reduz a pena. Dessa forma, o senhor Anderson queria
fazer crer que o Catecismo não está dizendo o que diz.

Então, o pastor Joel explica que o pecador perdoado, ao receber Cristo como
seu único e todo suficiente Salvador deve apenas ser orientado a viver a
vida em Cristo, e não ser ensinado a como se remir da pena pelo pecado já
perdoado. Isso seria uma heresia que minimizaria a Obra Redentora de
Cristo na cruz, negando a totalidade do perdão no ato da conversão, sendo,
portanto, indubitavelmente, heresia de perdição, sim, senhor. Eis a
conclusão do pastor.

O pastor Joel está tratando de algo muito sério, o qual é o perdão no


ato de conversão, ou melhor, na justificação, na regeneração do pecador. A
doutrina católica ensina que, pela fé e batismo, o homem é justificado,
enquanto os protestantes definem o ato da justificação no momento em
que, pela fé, o cristão aceita a Jesus como seu único e todo suficiente
salvador, antes do batismo. De qualquer forma estamos falando do
momento inicial, da justificação e, portanto, devemos entender o perdão
que Deus confere ao justificado nesse instante. Negar a totalidade do
perdão no ato da conversão é, portanto, heresia de perdição, sim
senhor, nas palavras do pastor Joel. Nesse aspecto nem o pastor Joel, nem
qualquer protestante, precisa mudar de fé, pois converge com a doutrina
cristã católica. Portanto, se esse for não apenas um dos motivos, mas, o
principal motivo pelo qual o pastor Joel Santana não pode se converter ao
catolicismo, por causa dessa suposta heresia de perdição, então, o pastor
pode ficar tranquilo e ingressar na Santa Igreja ou preparar seu ingresso,
pois, essa é doutrina cristã católica, portanto da Sagrada Escritura, que o
perdão recebido na justificação é total, perdoando o pecado e não restando
pena alguma. Não existe a suposta heresia. Se o batizado morrer logo após
sua justificação, irá direto para o Céu, não há purgatório para ele, pois seus
pecados e penas não existem mais! É o que ensina o Catecismo, número
978, para não falar que estou interpretando errado: No momento em que
fazemos a nossa primeira profissão de fé, ao receber o santo Baptismo que
nos purifica, o perdão que recebemos é tão pleno e total que não fica
absolutamente nada por apagar, quer da falta original, quer das faltas
cometidas de própria vontade por acção ou omissão; nem qualquer pena a
suportar para as expiar [...] (Grifo acrescentado). Eis a doutrina católica:
na justificação o perdão é pleno e total, não restando nem pecado e nem
pena. A Bíblia ensina isso.
Agora, não podemos afirmar que o cristão regenerado fique, sempre e
infalivelmente, dessa forma por toda a vida (e nisso também os
protestantes tem de concordar), pois a natureza humana decaída, ainda,
pela concupiscência, inclina o homem ao pecado. Isso também está exarado
no número 978: ... Mas apesar disso, a graça do Baptismo não isenta
ninguém de nenhuma das enfermidades da natureza. Pelo contrário, resta-
nos ainda combater os movimentos da concupiscência, que não cessam de
nos arrastar para o mal. Quer dizer que a natureza humana continua
enferma, e o combate contra o pecado deve continuar.
Mas, certamente, o pastor Joel não ficaria contente e convencido se não
tivermos a visão de Lutero quanto à salvação, que aconteceria hapax, de
uma vez por todas, sendo o homem tão salvo na justificação quanto o é no
dia da sua morte. E crer também naquela doutrina herética de que pecados
passados, presentes e futuros já estão perdoados. Isso nega o mérito, as
penas devidas aos pecados que o cristão venha a cometer após a
justificação e, portanto, que as obras influam na salvação, na glorificação.
Isso é doutrina de origem luterana, e se o autor crê assim, deve
coerentemente reconhecer que seu mestre (pelo menos nessa questão) é
Lutero. Esse foi o jeito que Lutero encontrou para resolver o impasse que se
passava em seu próprio íntimo. Ele passou a negar o livre arbítrio (para a
salvação), e consequentemente o valor das boas obras (o mérito), como se
isso minimizasse o sacrifício redentor de Jesus Nosso Senhor. A justificação
forense não é bíblica, é luterana, pois como Lutero não conseguia ver-se
livre da concupiscência (como ninguém consegue mesmo) e, erradamente,
considerando-a como sendo o próprio pecado, chegou à conclusão de que o
homem está irremediavelmente perdido e, mesmo na justificação, seus
pecados não são perdoados como ensina a sã doutrina cristã católica, que
afirma que Deus apaga, perdoa, purifica verdadeiramente nossos pecados,
mas Lutero ensinava que Deus apenas não leva os pecados em conta, (uma
não imputação, ensinando uma justificação forense, jurídica, que não opera
transformação no interior do homem. Nesse caso não se sabe se o pastor
Joel crê como Lutero, mas si assim for, está errado. Lutero não estava
correto, e sua doutrina não era, como supunha, a mesma da Bíblia.
[BETTENCOURT, Dom Estêvão Tavares. Apostolado Veritatis Splendor:
COMO E QUANDO SURGIU O CATOLICISMO. Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/3567. Desde 03/04/2006.] Continuando a
exibir as provas de que o senhor Anderson “interpretou” erradamente o que
diz o Catecismo da Igreja Católica acerca da indulgência, e o fato de que
as indulgências servem para os vivos e para os mortos, a explicação do Sr.
Anderson sobre o restituir o caminho de santidade... estaria se referindo
também aos falecidos salvos que estão no purgatório, e isso não seria o
conceito que o catecismo ensina. Com isso, ele prossegue: Ou o clero
católico quer que os tais cumpram no Paraíso Celestial onde estão, a pena
devida pelo pecado já perdoado (cumprir pena no Céu não deve ser
nada mau), ou que a cumpram no purgatório, o que, por sua vez, prova que
a Igreja Católica prega mesmo que o perdão não anula a sentença, mas
apenas reduz a pena. Isso seria desfavorável aos líderes da Igreja pois seria
dizer que o Magistério da Igreja não desgruda do pé de suas vítimas, nem
depois de mortos (considerar os cristãos católicos como vítimas é fazer um
conceito injusto, da santa Igreja, mesmo considerando a boa intenção do
autor.) Não haveria como restituir o caminho de santidade aos salvos que
estão no céu, nem aos do purgatório, pois, como diz o pastor, o Catecismo
assim afirma, : “indulgência é a remissão ... da pena devida pelos
pecados já perdoados” e não, a restituição do caminho de santidade,
como disfarça o senhor Anderson, enganando os seus leitores
propositadamente, diz o pastor Joel. Passa a analisar o contexto do texto
citado pelo senhor Anderson para saber se a indulgência é pena devida
pelos pecados já perdoados, ou é a restituição do caminho de santidade.
Vejamos o que diz o pastor Joel: Pelo contexto do texto de onde o senhor
Anderson fez a sua transcrição, se pode ver que a definição que o
Catecismo da Igreja Católica dá a esta expressão é a seguinte: Uma vez
perdoado, o cristão deve reparar o seu erro, devolvendo o roubado, se
retratando de uma calúnia, pedindo perdão às pessoas por ele prejudicadas,
etc. Ora, com isso concordamos plenamente. Devo afirmar que essa
interpretação quanto à restituição do caminho da santidade está no
contexto, porém, é apenas a primeira parte. Assim, o Catecismo diz: Mas,
além disso (...) Aliviado do pecado, o pecador deve ainda recuperar a
perfeita saúde espiritual. E fala do “satisfazer”, do “expiar”, ou seja, da
satisfação, chamada também de “penitência”. A satisfação é algo mais,
mais do que a reparação ao próximo, como o pastor Joel entendeu (nesse
ponto, entendeu corretamente, mas de forma incompleta, pois faltou
entender sobre a satisfação diante de Deus). E, realmente, no contexto fala-
se da satisfação e não das indulgências. A respeito da reparação: para o
pastor, a reparação do erro significa somente viver a vida de absolvido por
Cristo, não constituindo uma pena. Assim, se o absolvido não cumprir sua
reparação, não tem problema, vai para o Paraíso no mesmo dia. Nesse
ponto é negada a obrigatoriedade de cumprir a pena temporal que a justiça
divina impõe ao pecador arrependido, o que constitui um equívoco, visto
que, como a justiça divina é inexorável, suas exigências permanecem,
devendo a pena ser cumprida de alguma forma.

Citando os abusos das indulgências na época da revolta protestante, o autor


fala do “perdão prévio”, pregado por Tetzel, porém, condenado no Concílio
de Trento. De fato, isso é algo estranho à doutrina oficial, pois é verdade
que nunca a Igreja Católica pregou tal doutrina. Comentando as citações do
senhor Anderson, o pastor Joel chama a Igreja de charlatã (continua
charlatã, diz); e em sua explicação, grifa a palavra OFERTA, no número 1460
do Catecismo, que seria uma oferta para comprar a absolvição dos que
padecem no purgatório. Pelo contexto, a palavra oferta parece não ter o
sentido como entendeu o pastor Joel. Afirma também que o purgatório é
fruto das imaginações da cuca do Papa Gregório, chamando, de maneira
pouco respeitosa, esse Papa de O Grande embusteiro. Permita-me dizer que
não parece ser respeitoso chamar alguém de embusteiro, se esse de fato
não o for. Sabemos, ainda, que a doutrina do purgatório é bíblica, já
ensinada pelos padres da Igreja muito tempo antes do Papa Gregório,
bastando ler Tertuliano, nascido no 2º século, cujos escritos aludem ao
purgatório. Certamente não é a idade da doutrina que o pastor está
procurando saber, mas é necessário mostrar que a fé no purgatório tem
origens ainda no Antigo Testamento e aparece em escritos cristãos
anteriores ao 6º século, tornando equivocada a afirmação dos protestantes
de que essa crença foi “criada” nesse século - sexto.

Citando Hebreus 10:17,18, o pastor Joel grifa novamente a palavra oferta, e,


entre colchetes, alude interrogativamente à indulgências: “E não me
lembrarei mais de seus pecados e de suas iniqüidades. Ora, onde há
remissão destes, não há mais oferta [indulgências?] pelo pecado”. Diz que
se há pena, o perdão é mentiroso, e questiona: E porventura, o fato de o
Catecismo da Igreja Católica nos falar duma tal de pena devida pelo
pecado já perdoado, não está, por conseguinte, ratificando a negação da
totalidade e instantaneidade do perdão de Deus em Cristo, no ato da
conversão, como também o fizera o Concílio de Tento? Após isso, chama o
senhor Anderson de cego, pois esse não quer enxergar, e afirma que
gostaria de livrá-lo dessa cegueira.

O pastor Joel está defendendo e está convencido de que o perdão católico


não é total, nem instantâneo, mesmo que a Igreja o afirme. Quando o
Catecismo afirma que Cristo sozinho expiou nossos pecados, o pastor Joel
chama isso de incoerência ou mais uma incoerência, visto que a Igreja crê
nas penas devidas aos pecados já perdoados. Ao mostrar como o senhor
Anderson prosseguiu em seu arrazoado para provar que o pastor havia
mentido de propósito, o autor diz que o tiro saiu pela culatra, verificando
que o Sr. Anderson ao citar o texto que continha a palavra pagamos ele se
compararia a um advogado que argumentando a favor do seu cliente,
exibisse provas cabais de que o mesmo é culpado.

E diz o Pastor Joel: Não! Não! Não! Senhor Anderson! Os perdoados nada
pagam pelos seus pecados! A verdadeira Teologia não admite isso em
hipótese alguma. Os frutos de vida do cristão seriam apenas de gratidão e
nunca para expiar seus pecados, que foram total e instantaneamente
expiados por Cristo, e o fiel nada mais tem que fazer nesse sentido, e, além
do mais, segundo sua conclusão, perdão e cumprimento de pena são
autoexculdentes.

O Pastor Joel não leva em conta que Deus, em sua infinita e soberana
Vontade, age através da lei da cooperação, no qual o cristão tem a
obrigação de, com a graça divina, satisfazer a Deus pelas penas devidas.
[Catholic Encyclopedia: http://www.newadvent.org/cathen/12677d.htm].
Quando digo “não leva em conta”, não quer dizer que não saiba que é isso
que a Igreja ensina, mas que considera isso um erro, visto que sua
“teologia” é protestante e, segundo esse entendimento do texto bíblico, não
existiria nenhuma pena após a justificação do pecador. Devemos entender
que Cristo ofereceu um sacrifício perfeito, instantâneo e pleno. A forma
como nos apropriamos do seu sacrifício redentor, não é somente crendo,
mas também através da nossa cooperação. É um ponto importante, pois
segundo os protestantes, é somente pela fé que o homem recebe a graça
da salvação. Mas a fé supõe o livre arbítrio, o que já é uma cooperação da
sua parte, antecedido, é claro, pela graça divina. Contudo, sabemos que a fé
e as obras não são meritórias para a justificação do pecador, mas que o são
para a glorificação, sua entrada na bem-aventurança do céu. A Igreja
sempre entendeu que a apropriação da salvação, pelo homem, se dá
através da fé e das obras, uma cooperação, segundo o livre arbítrio,
antecedida e sustentada pela graça de Deus. Cristo não veio tirar todo o
nosso sofrimento, mas perdoar os pecados e as penas eternas, cem por
cento. Sendo assim, Ele pagou totalmente a dívida a qual veio sanar. Por
outro lado, as penas temporais existem, pois não houve o cancelamento dos
sofrimentos e do nosso dever de cooperar, pela graça de Deus, com e em
Cristo. Isso não fez parte do que o nosso Redentor veio pagar. Não foi a Sua
vontade livrar o homem das penas temporais, pois se o fosse, poderia ter
feito sem problemas e, por isso, não existe o perdão automático e
instantâneo das penas temporais, a não ser quando o homem nasce de
novo, passando da morta para a vida, através do batismo. Deus quis que
fosse assim para o nosso próprio benefício. Deus é perfeitamente Santo e,
por esse motivo, Sua Justiça requer o pagamento das penas temporais.
Diante disso, é possível entender que tanto o cristão católico quanto o
cristão protestante estão olhando para Cristo, como o Salvador. A diferença
é que segundo a doutrina original, o cristão deve cooperar para entrar no
Céu e de acordo com o protestantismo não há cooperação do cristão na sua
salvação, sendo essa obra exclusiva de Deus. Isso é uma posição teórica,
pois na prática tanto católicos quanto protestantes se esforçam por cumprir
a vontade de Deus praticando boas obras, embora os primeiros tenham
consciência de que estão cooperando livremente com a graça, como algo
extremamente necessário à salvação, imprescindível para a permanência na
graça de Deus, enquanto que os últimos creem que somente estão vivendo
a vida de obras que Deus preparou para que vivessem nelas, sendo uma
consequencia da fé, visto que os que não tem fé não podem provar ser
verdadeiros cristãos regenerados por não possuírem obras. O problema é
que as obras são ditas, na Escritura, como parte intrínseca do plano de
salvação (Efésios 2, 8-10). Outro problema é que só existiria verdadeira fé
quando existissem boas obras, que necessariamente a refletissem. Isso
supõe algo automático, visto que aquele tem fé a refletiria na vida. Essa
noção cria um amálgama inseparável de fé-obras, onde há fé há boas obras,
onde não há fé não há boas obras. Mas é verdade que existe fé verdadeira
que somente faz barulho e que não age, por obras, através do amor (1
Coríntios 13). A noção amalgamada de fé-obras contradiz essa específica
noção bíblica, pois a fé é distinta das obras, sendo essas formalmente
vivificadas pelo amor. Por isso é que é possível que alguém possua a
verdadeira fé, a ponto de transportar montanhas, o que só pode ser uma fé
verdadeira, mas que não possua obras, por não possuir o amor, que é outra
virtude necessária à salvação. Nessa noção, a responsabilidade do homem
permanece, visto que as obras não virão naturalmente, de forma
automática, mas que necessitarão da vontade livre daquele que tem fé para
praticá-la, com a graça de Deus, graça que pode ser resistida pelo homem.
É assim que se explica a possibilidade de ter fé e não ter obras, sendo essa
fé, mesmo que verdadeira, uma fé morta, pois não dá a vida eterna, por não
agir por meio do amor. Isso certamente pode ser exemplificado no caso de
Abraão que, justificado pela fé, depois de algum tempo foi justificado pelas
obras, onde é evidente que sem essa justificação das obras, aquela da fé
não o salvaria, pois uma coisa não pode negar a outra. E essa justificação é
feita também diante de Deus e não só dos homens, pois esses não possuem
o poder de justificar como Deus possui. São Paulo nunca condenou a
doutrina que combina fé e boas obras em obediência ao Decálogo para a
salvação, mas tão somente ensinou que a Lei Mosaica não salva, mas sim, a
graça através da fé em Cristo, pois é defensor da salvação pela fé e boas
obras. De fato, a fé que São Paulo ensina é aquela que está em conexão
com a ação e age por meio do amor (Gl 5,6). Em Tiago 2, 14-26, pelo
contexto, não parece que São Tiago esteja tratando de falsa fé, mas de uma
fé que não é aperfeiçoada pelas obras, sendo morta, portanto, não pode
salvar e de uma fé que é auxiliada por boas obras. O v. 14 questiona se
somente a fé pode salvar, e o v. 22 é importantíssimo, pois além de ratificar
que a fé e as obras são duas coisas separadas, afirma que a fé coopera com
as obras e que por essas ela é aperfeiçoada: ... a fé cooperou com a suas
obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E o v. 24 afirma claramente
que o homem é também justificado pelas obras. Outro verso importante
para compreendermos o valor das boas obras na salvação é o v. 23, onde
está a noção de que a fé deve conter a disposição para obedecer e praticar
a lei de Deus, segundo o contexto em que o texto é apresentado por São
Tiago. A noção de que fé se reflete nas obras deixa implícito que fé e obras
não são duas coisas, mas se trata de uma coisa só, existindo somente uma
fé-obras, e não fé e obras, ou seja, duas coisas separadas. É claro que o
pastor Joel admite que são distintas a fé e as obras, o que converge com a
doutrina católica, mas não crê que as obras salvem, mas que são
inseparáveis da fé, e que servem somente para santificação. Por outro lado,
sabemos que a fé, dom gratuito e imerecido, dado por Deus sem obras,
serve para a salvação que se dará após uma vida de boas obras. A noção
protestante traz alguns equívocos, revelados nessas incompatibilidades com
certas passagens da Escritura como tratado acima.

Quando o Catecismo cita Fl 4, 13 no texto em que mostra a


cooperação do cristão em satisfazer, em Cristo, por suas penas, o pastor
Joel dá outra explicação ao texto, o qual se referiria somente à força que
Deus nos dá para vivermos como autênticos cristãos em meio às
adversidades da vida, dizendo que a única satisfação que Deus aceita é a
de Cristo, e a cooperação do homem subestimaria o preço pago por Ele.
Então, quando o texto afirma TUDO POSSO NAQUELE (em Cristo) que me
conforta, esse tudo excluiria a satisfação que Cristo quer de nós! Nega,
então, não só a satisfação, mas até a co-satisfação. Não podemos satisfazer
nem em nome do Filho e nem à base dos méritos Dele. Essa afirmação
tem que ser provada pela Sagrada Escritura, pois é o ponto-chave
dessa discussão. É um princípio não-demonstrado, portanto, não há prova
bíblica de que é “proibido” que cooperemos com Cristo na nossa salvação.
Se for verdadeira a afirmação, o pastor terá razão, e mostrará textos
claros a esse respeito, se não, terá de converter-se ao catolicismo como
prometeu, e continuar em seu trabalho de defesa da Fé que ele ama. O
cristão católico crê que essa é a vontade de Cristo, que Ele revelou para o
homem e apresenta prova bíblica, pois somente assim se entende os textos
em que o homem aparece associado no plano de sua salvação, como sendo
um agente ativo. É nesses textos que aparece a parte que nos toca, na qual
podemos cooperar para o pagamento da dívida temporal dos pecados que
já foram perdoados. É certo que a dívida eterna, somente Cristo é capaz de
pagar. O pastor entende (na verdade não entende bem ou tem dificuldade
para entender ou aceitar) que se Cristo expiou o pecado sozinho, não há
como pagarmos as nossas penas. À primeira vista isso se assemelha a uma
contradição, mas não é. Aquilo Cristo veio pagar, somente Ele pode pagar, e
não foi o que é interpretado como sendo a total impossibilidade do homem
em participar do plano de Deus. Isso é doutrina protestante, não bíblica. É
necessário perceber que não é o texto bíblico que disse isso, mas os
reformadores. Isso fica patente quando estudamos o a Bíblia, a tradição
católica e a “tradição” protestante, pois é, de certa forma, essa tradição
protestante a que está por detrás dessa compreensão do “perdão”. Falta,
então, somente aceitar a nossa cooperação que Cristo ensinou. O Catecismo
não é incoerente. O pastor, e os protestantes em geral, negam a parte que
nos toca! Ele diz: indulgência é o nome da remissão da pena. Aqui,
realmente está correto o pastor Joel, e o católico Anderson se mostrou (um
pouco) confuso, certamente interpretando mal. O pastor Joel continua: O
senhor Anderson não mentiu, quando afirmou que eu dissera que “o
Catolicismo sustenta que o perdão não anula a sentença, mas tão-
somente reduz a pena. Ao ser perdoado, o castigo eterno é trocado
pelo castigo temporário”, mas mentiu quando disse que o Catolicismo
não prega o que eu disse que prega. Como vimos, no batismo (justificação),
não há essa “troca de castigo”, mas o perdão é pleno e total. E nesse ponto,
da justificação do pecador, o pastor Joel equivocou-se quanto à posição
católica. Após a justificação, tudo muda. As obras, que antes nada valiam,
passam a ter o seu mérito, dado pela graça de Cristo, o cristão passa a
poder cooperar, trabalhar, obrar a sua própria salvação, ao mesmo tempo
que Cristo é o Único Salvador, sem contradição. É a própria Sagrada
Escritura que assim ensina, sem sofisma, sem tentar fazê-la dizer o que não
está dizendo, nem mudar o sentido da palavra salvação, nem do verbo
salvar, que se referem contextualmente à salvação eterna: Assim, meus
caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa
salvação com temor e tremor, não só como quando eu estava entre vós,
mas muito mais agora na minha ausência (Fl 2, 12) [Grifo acrescentado].
Nesse esforço livre e auxiliado pela graça de Deus o cristão pode dizer que,
de certa forma, ele pode salvar até mesmo os outros: Olha por ti e pela
instrução dos outros. E persevera nestas coisas. Se isto fizeres, salvar-te-
ás a ti mesmo e aos que te ouvirem (Bíblia Ave Maria) [Grifo
acrescentado]... Podemos trabalhar na {operar a, segundo tradução Corrigida e
Revisada Fiel} nossa salvação, salvar a nós mesmos e aos outros! Quem o
disse foi Deus! Estamos sendo cooperadores obedientes de Deus, de certo
modo, co-redentores com Ele. Porém, é Ele o nosso Único Salvador, do qual
tudo procede. São as palavras humanas muitas vezes imprecisas para
revelar o profundo significado dessa verdade.
Depois o autor cita os textos (nos números 1471 – 1473; Concílio de Trento
seção VI) para provar que não faltou com a verdade em suas afirmações
sobre a doutrina em questão. Termina afirmando que o senhor Anderson
cava a sua própria sepultura quando tentou provar que a Igreja não ensina a
parcialidade do perdão e, ao mesmo tempo, citou um texto afirmando que
pagamos por nossos pecados. O pastor cita o Aurélio (dicionarista) que fala
da remissão como perdão total ou parcial, dizendo que para entender isso
basta bom senso e honestidade.

Enfim, podemos afirmar com certeza que a Igreja ensina a totalidade e


perfeição do Sacrifício realizado por Cristo na cruz. O entendimento dessa
questão é que é “danificado”, insistindo que Cristo veio pagar aquilo que
não era dívida Sua e nem constava do Seu plano. No entanto, a apropriação
que desse sacrifício fazemos é mediante a fé e as obras, na cooperação até
o final das nossas vidas, segundo a graça e vontade de Deus. Diz Dom
Estevão: ... a Igreja nunca negou a totalidade e a instantaneidade do perdão
obtido por Cristo. (...) Na verdade, a Redenção realizada por Cristo foi total
e instantânea, mas ela é mais do que um bilhete de entrada na ceia da vida
eterna dado a um homem sem a veste nupcial ou a um pecador portador
das manchas do pecado; é mais do que uma habilitação jurídica. Ela produz
em nós, mediante os sacramentos, uma nova criatura, que tende a se
formar na medida em que a velha criatura é mortificada (cf. Ef). Essa
formação da nova criatura não se faz apenas mediante a fé do crente, mas
requer boas obras ou o exercício do amor, como incute o Apóstolo São
Tiago; (...) cf. Tg 2, 19) [Fonte já citada acima]. A citação de São Tiago não
contraiz os escritos paulinos, especialmente de Romanos a Filemon, pois S.
Paulo ensina que a fé opera pela caridade; se o cristão não tiver amor
(caridade) não vale nada.

5.7. A diferença que faz diferença

A principal diferença entre o catolicismo e o protestantismo, no parecer


do pastor Joel, é aquela referente à Redenção de Cristo, e que, se
porventura, pudéssemos convergir nesse ponto, as outras dificuldades
seriam de menos importância: As disparidades que há entre o Catolicismo e
o movimento evangélico são enormes. Porém, muitas dessas divergências,
são diferenças que não fariam diferença, caso convergíssemos a respeito da
redenção em Cristo. Unidos nesse ponto, continua o pastor, os protestantes
poderiam até tolerar o que consideram gravíssimo, como a obrigatoriedade
do celibato, a virgindade de Maria, sua imaculada conceição e assunção ao
céu. Na crítica dos capítulos respectivos a esses temas poderemos analisar
esses pontos mais detalhadamente, mostrando que não são graves, nem
gravíssimos, nem, muito menos, erros. Então, se houver convergência na
doutrina da Redenção, os protestantes poderiam até, quem sabe, se
tornarem cristãos católicos. Mas, a respeito desse ponto, a Boa Nova da
Salvação pela Fé em Jesus, o pastor afirma não poder ser tolerada
divergência, sob pena de irmos para o inferno. O erro consistiria em que a
Igreja prega o “perdão parcial” e não o “perdão total”. Isso consistiria na
“não-pregação” do Evangelho. Segundo o pastor Joel, a idéia de que o
perdoado tem uma dívida a pagar é algo estranho às Escrituras Sagradas.
No entanto, melhor seria dizer que tal ensino é estranho à doutrina iniciada
por Lutero e não à Sagrada Escritura. O perdão “parcial”, diz o pastor, seria
uma renegociação da dívida, ou um abatimento [de mais de 50%], ao passo
que Cristo trouxe um perdão total. Um fato, já esclarecido, que é necessário
repetir, é que o perdão, na justificação [que o catolicismo ensina] é pleno e
total, não restando nem pecado nem pena. Há então a convergência
necessária nesse ponto. O homem antes da justificação está morto
espiritualmente.

É injusto afirmar, como faz o pastor Joel, que a Igreja não pregue e não
viva o Evangelho ou que não é um movimento Evangélico. Igualmente não é
verdade que a doutrina protestante seria “convincente”, e que os padres
não racionariam teologicamente (pois teriam quem raciocinasse por eles,
que seriam os bispos e papas que se julgam acima dos homens) e por isso
não a aceitam (a doutrina protestante). Pode-se ver que não é assim que
acontece. Negar que os padres raciocinem teologicamente, e afirmar que os
papas e bispos são presunçosos não é condizente com a realidade!

É necessário frisar que o Evangelho afirma que na justificação ocorre a


regeneração do pecador, esse se torna uma nova criatura, filho de Deus e
membro da Igreja de Deus. Inicia-se a vida da graça, onde a cooperação no
tomar a cruz e seguir a Jesus constitui a regra. Tomar a cruz e seguir o
Crucificado é participar com Ele do Seu plano, para ser digno dEle (Mateus
6, 24). Quem não crê no Evangelho está condenado, e, como disse o pastor,
se a Igreja não está pregando o Evangelho, já que crê no perdão que deixa
penas temporais, então, o pastor está ensinando que os católicos estão
condenados. O pastor Joel afirma que os protestantes poderiam suportar as
fraquezas dos irmãos, mas, não dos católicos, que são falsos profetas! Veja
o conselho que o pastor Joel dá aos protestantes: Caro irmão em Cristo,
quando um católico lhe perguntar por que você não crê que a Igreja
Católica é de Deus, diga-lhe que é porque ela não prega o Evangelho.
Aconselha até a comprar o Catecismo para evangelizar os católicos! O autor
afirma que as diferenças entre católicos e evangélicos não é que um seja
certo e o outro errado, pois ambos somos igualmente fracos (como criaturas
passíveis de erros). Então, ele passa a elencar as diferenças. Façamos uma
avaliação críticas dos tópicos indicados pelo pastor.

1ª) É Cristo quem salva, segundo o modo que ele mesmo instituiu. O
católico crê que a salvação o faz responsável em manter-se, com a graça de
Deus, no caminho da salvação pela prática responsável (pois é e continua
sempre livre) das boas obras, ao passo que os protestantes creem que a
salvação os dispensa de tudo, de toda obra. Isso, segundo o pastor, faz de
Cristo um “Salvador Onipotente”, que salva instantaneamente, sem nossa
ajuda, enquanto a visão católica o faria “frágil”, e que salva
progressivamente. No entanto, para defender a Onipotência de Cristo, o
pastor apresenta uma doutrina inconsistente com o Evangelho, pois leva a
tirar a obrigação do cristão em cumprir a Lei de Deus. Não quero com isso
afirmar que o protestantismo esteja ensinando uma doutrina abertamente
imoral, mas que a lógica nos aponta a isso, visto que as premissas
constantes da doutrina protestante são, pelo menos implicitamente,
antinomistas. Se a doutrina cristã católica, ao afirmar que devemos cumprir
a Lei de Deus e, dessa forma, participar cooperando com a graça que
recebemos gratuitamente de Deus para que possamos ir para o céu (ser
salvo) se isso é “diminuir” o sacrifício de Cristo, segundo a lógica nos levaria
a pensar, no ponto de vista protestante, da mesma forma a consideração de
Cristo como realizando tudo por nós, sem nos fazer participantes em nada
da nossa salvação, nem nos fazer dignos de méritos, estaria logicamente
levando, ou, pelo menos, abrindo caminho a uma preguiça, uma vida
alicerçada numa falsa certeza de salvação, tendo em conseqüência a vida
levada na frouxidão moral. Foi o que se deu nos dias de Lutero e pode
acontecer sempre, em qualquer lugar ou época. Portanto, na doutrina cristã
católica o nosso Onipotente Salvador veio para nos salvar, redimir, justificar,
regenerar, santificar e nos fazer reinar com Ele no Céu, porém, não veio nos
dispensar das obrigações que temos de praticar para a apropriação dos
seus dons gratuitos, que não merecemos. O mérito só se inicia a partir da
recepção da graça de Deus, que não é somente uma inclinação divina,
bondosa e misericordiosa para nós, mas um dom divino interno e gratuito
que nos auxiliar na prática da virtude. Uma simples inclinação de Deus para
o homem, não é a definição de graça, tal como é entendida no
protestantismo, segundo os apologistas John Ankerberg e John Weldom.
[John Ankerberg e John Weldom. Fatos sobre o Catolicismo Romano]. Isso
seria nada mais que um sentimento divino para com o homem, sem, no
entanto, agir nele. A doutrina cristã católica define graça de acordo com a
teologia legítima da Sagrada Escritura, não segundo a teologia luterana, que
é a raiz das teologias protestantes ou da Teologia Protestante. Então, com o
intuito de “salvar” a doutrina da Onipotência do Salvador, os protestantes
caem, no mínimo, no erro de fazer de Cristo [indiretamente] um “liberal” em
questões morais.

2ª) Sobre o perdão, o católico crê, como revela a Escritura, num perdão
total e pleno ocorrido no Batismo, na justificação. Porém, caso venha o
cristão cair em pecado, o perdão que receberá o livrará do pecado e da
pena eterna, mas deixará as penas temporais a serem expiadas pelo
penitente, neste mundo ou no purgatório caso não houver a completa
expiação. Já o protestante crê que o perdão deixa para sempre o cristão
livre de todo o pecado e de toda a pena (passada, presente e futura), não
tendo que pagar ou expiar mais nada. Sabemos que as boas obras feitas
com a graça de Deus servem para a expiação, mas os protestantes negam
essa verdade.

3ª) Cristo pagou toda da dívida na cruz, e alcançou toda a graça para a
salvação do mundo. As penas temporais pagas pelo pecado fazem parte do
plano de Deus, são uma conseqüência de sua justiça, e Cristo não veio
pagá-las, deixando-a ao pecador arrependido, que pode expiá-la com a
ajuda da graça de Deus. Em primeiro lugar, o perdão das penas eternas é
que foram expiadas por Cristo.

4ª) Não é verdade que Cristo seja mais um exemplo a ser seguido do que
um substituto do pecador na cruz. Isso é outra doutrina, não a católica.
Cristo é o Redentor e Salvador do mundo no sentido exposto anteriormente.

5ª) O pastor Joel acusa os católicos que se esforçarem para imitar o


arquétipo [Cristo] para merecer a salvação, enquanto o protestante se
esforça para agradar aquele que o tornou digno da salvação. Isso não é
verdade. Essa uma falsa “consequência” do entendimento que se fez da
doutrina católica em comparação com a protestante. Nada que possamos
fazer nos coloca no caminho da salvação ou nos salva. Uma vez salvo, o
homem deve cooperar com a graça até que seja levado ao céu. Não é
somente um “agrado”, mas trata-se da obrigação, da obediência a Cristo. É
nisso que consiste o agradar-lhe.
6ª) O autor reconhece que o evangélico afirma com ousadia que já está
salvo, mas o católico acha que afirmar isso é cometer o grave pecado
chamado presunção. É, de fato, presunção, pois ninguém pode garantir que
continuará no caminho da salvação até a sua morte. O certo é termos
esperança de salvação e não uma “absoluta certeza”, o que não é revelado
nas Escrituras, nem compreensível à luz da razão.

7ª) A idéia do suposto “Advogado” que pagou a dívida do réu, na doutrina


protestante, e a “advogada” que suplica ao justo Juiz que assistiu ao crime,
o qual não pode perdoar, é um outro modo errôneo de entender a doutrina
da Igreja Católica. O Advogado realiza aquilo que veio realizar, o qual não
inclui a dispensa de todas as penas temporais de que tratamos
anteriormente. Já a “advogada”, certamente o autor está se referindo à
Virgem Maria, ela não pode rogar por um pecador que não queira se
converter, que rejeite a graça de Cristo. Santo Afonso afirma que o Juiz é
cheio de misericórdia e que não devemos pensar que essa misericórdia não
nos seja suficiente para irmos até Ele.

8ª) Quando se fala em mérito, entende-se aquele mérito obtido pelo cristão
com o auxílio da graça de Deus. Os protestantes negam todo o mérito
pessoal, para a salvação, e, consequentemente, se esquivam de todo o real
dever de obedecer à Lei Moral Divina. Os méritos de Cristo são suficientes
(não só importantes, como disse o pastor referindo-se à doutrina cristã
católica) para salvar-nos sim, esse é o pensamento católico típico.
Suponhamos que um batizado viva conforme a lei de Cristo por toda a sua
vida, durante anos. É obvio que será salvo. Agora, suponhamos que um
batizado morra após o seu batismo. O que acontecerá com ele? Passará
pelo purgatório? Não. Irá diretamente ao céu, mesmo que não tenha tido
tempo de praticar nenhuma boa obra. Esse é o pensamento católico típico.
Ele salvou-se no momento da justificação.

9ª) O católico está totalmente entregue à graça de Deus, em cada ação que
pratique, e confia nessa graça com todo o seu ser. Isso não equivale a dizer
que toda a boa obra que faça não influa em sua salvação, como imaginam
os protestantes e seu sistema. E nem quer dizer que esteja “pagando” a
Deus “em dia” com “medo de calote”. Isso é apenas a expressão de um
coração arrependido e disposto a obedecer o Salvador, sofrer com Ele e ser,
por isso, glorificado com Ele (Romanos 8, 17).

10ª) Novamente, acusar o católico de ver em Jesus somente um “arquétipo”


é fazer uma injusta avaliação da doutrina católica. Cristo é o nosso Cordeiro,
o nosso Bode expiatório sim, como o pastor sabe que cremos, porém,
“interpreta” a posição da Igreja erroneamente.

Todas as acusações que o pastor faz sobre esse assunto seriam pelo
suposto motivo de que o cristão católico não sabe porque Jesus morreu.
Essa é uma “opinião” das mais estranhas do livro. Segundo o autor, são
raríssimas as exceções, mas os católicos creriam assim: “Para o homem se
salvar, basta-lhe ser bondoso até para com seus inimigos. E Jesus veio
ensinar isso. E o fez não só com palavras, mas sobretudo, com atos, não
pagando na mesma moeda o mal que lhe fizeram.” E depois julga assim:
Nada, porém, está mais longe da verdade. De fato, isso é extremamente
longe da realidade, pois, não é verdade que a salvação que Cristo nos
mereceu seja essa, e muito menos que os católicos assim creiam. A
doutrina oficial é outra. Se há católicos que pensam assim, e certamente há,
esses devem ser evangelizados urgentemente!

Então, o pastor Joel explica a doutrina da salvação: O homem é pecador e


Deus é justo, por cujo motivo ficamos irremediavelmente perdidos. Então
Jesus desceu do Céu para cumprir a pena em nosso lugar... Quem apela
para com Deus fica quitado. Então, o sangue de Jesus expia todo o pecado,
como está em 1 João 1,7. É bom lembrar que mesmo o purgatório só é
possível através do sangue de Jesus. Continua o autor: Precisamos informar
aos católicos que aceitar Cristo como Salvador é mais do que crer na Sua
existência, Seu nascimento virginal, Sua vida santa, Sua morte, Sua
ressurreição, Sua divindade; é mais do que cumprir normas, ou seja,
guardar Sua Lei moral. Segundo o autor, não são os exemplos de Cristo, e
nem suas palavras, mas o Seu sangue é que nos salva. Bem, isso é a
doutrina cristã católica, mas, mais ainda, até mesmo as palavras de Cristo
nos purifica, tudo por mérito obtido no Calvário! O pastor explica que o
perdão é mais pagamento do que perdão da dívida. Com isso concordamos,
sem os exageros que levem a heresias. O pastor explica ainda que Deus não
pode perdoar os pecados: E, embora Ele não possa perdoar pecado, por ser
o justo Juiz, a Bíblia diz que ele perdoa. Você entendeu agora o arranjo de
Deus? Sirva-se deste arranjo, e seja salvo pela graça, por meio da fé, agora.
Sim, agora, pois Romanos 8.1 diz que agora não há nenhuma condenação
para os cristãos! Esse “arranjo” foi confuso: a Bíblia diz que Deus perdoa,
mas Ele não pode perdoar, por ser Juiz! Então a Bíblia fala de algo que não
existe, de uma ilusão! Bem, essa explicação é confusa, e como Deus não é
de confusão, a explicação é que falhou! Creio que Deus perdoa o pecador
por causa do sacrifício da cruz, deixando a alma tão branca quanto a neve,
infundindo a justiça de Cristo.

O pastor afirma que os católicos, em sua maioria, desconhecem que a Igreja


nega a totalidade do perdão explicitamente e que os padres ensinam isso
implicitamente, rezando missas pelos mortos do Purgatório (que ele chama
de “imaginário”), distribuem indulgências e determinam penitências etc.
Mas, é bom lembrar que, quando bem entendido, a Igreja ensina a
totalidade do perdão, não como querem os protestantes, que desejam
verem-se livres do cumprimento da Lei Moral para serem salvos, salvando-
se pela fé “somente”. Tudo o que foi citado já está respondido acima. Mas, o
autor afirma que os leigos não sabem disso porque se movem no
“automático”, ou seja, não filosofam suas práticas religiosas. O “verdadeiro”
Evangelho não admitiria essas práticas coadjuvantes, pois o sangue de
Jesus é suficiente (Cl 2, 14). Que o sangue de Jesus seja suficiente ninguém
nega, porém, que dispense o homem de cooperar com a graça, isso não é
ensinado pelo Evangelho. Já que a maioria dos católicos “desconhece” o
perdão, uma minoria “conhece”, diz o pastor Joel, e que seria incoerente
crer e negar o “perdão” bíblico e se proclamar cristão. Os clérigos, então,
estariam cometendo dois equívocos:

1º) pregam o perdão, negando-o. Eles não dizem que Jesus não perdoa. O
que eles dizem é que não basta estarmos perdoados. Isso seria um perdão
que não anularia a sentença, mas reduziria a pena. Com relação às
indulgências (a parcial e a plenária), o pastor acusa o Papa Leão X de ter
inventado tal distinção, pois seria uma forma de fazer oferecer àqueles que
não podiam pagar por uma “graça” maior. Seria um produto de qualidade
inferior, ao invés de “vender” o mesmo produto por um preço camarada, um
quebra-galho. Quem não tem cachorro, caça com gato. Talvez seja
necessário saber quais os meios necessários para alcançar os diferentes
tipos de indulgência.

2º) Para o pastor, os católicos deveriam assumir que não são cristãos,
como o Budismo, o Confucionismo, etc, para não serem incoerentes. Ele diz:
Não assumem que não são cristãos. Ou não ser religioso, sob pena de ser
hipócrita e incoerente.

O pastor acusa a Igreja de cometer os “pecados” de não pregar, de negar,


de mercantilizar e de falsificar o Evangelho, por não “pregar” a “totalidade e
instantaneidade do perdão”, o que teria a conseqüência de estar negando o
evangelho. Sobre as “ofertas” para remir-se das penas do pecado, faz
acusação de mercantilismo e charlatanismo. Segundo o pastor, não pregar e
negar o Evangelho seria um perigo menor que falsificá-lo, pois vendendo
gato por lebre estaria enganando pessoas bem intencionadas que poderiam
estar servindo a Deus, (imagino que seja no protestantismo é claro), e que
estão crendo num “falso Jesus”, membros de uma “falsa igreja” e indo para
um “falso Céu”. Mas se a Igreja está com o Evangelho de sempre, e as
razões aqui demonstradas indicam que seja esse o caso, a doutrina que o
pastor Joel está ensinando é que toma a posição de falsa, e está na mira de
suas próprias acusações.

* * *

O pastor acredita que sua apresentação “provou” que a Igreja prega a nega
o perdão, bem como prega e nega o castigo eterno, sendo a pregação e a
negação simultâneas. E não somente isso, o pastor avalia essa
“ambigüidade” como tendo o alvo de que o dito fique pelo não dito, para
com isso confundir os ingênuos; disso, segundo ele, milhões se libertaram e
milhões se libertarão, desse “egito” (sic) para levá-los à “terra que mana
leite e mel” (sic). A “terra prometida” aqui é o Protestantismo, ou como
preferir, é “Jesus”, entre aspas porque o evangelho é entendido conforme o
protestante entende: nada a fazer para ser salvo, somente crer e pronto!.
Tudo isso fica claro, mais do que o pastor imaginou, fica claríssimo que há
uma falta de compreensão mais exata da doutrina cristã e uma negação da
doutrina bíblica. A falta de compreensão se resolve estudando mais a fundo
e de maneira receptiva a questão em pauta. Por outro lado, a negação é
mais profunda, visto estar convicto de que já está em posse da verdade
bíblica quando na verdade está-se arvorando em defesa da “verdade”
luterana e reformada. O pastor fala da contenda que há entre os católicos e
os evangélicos, pois quando esses denunciam a Igreja Católica, os católicos
partem para a revanche, alegando que os protestantes também falham; e o
autor admite que isso não é novidade, pois acredita que a Igreja de Cristo
nunca foi perfeita. Essa última parte é uma opinião errada. A Igreja de Cristo
é perfeita em Seu fundador. A imperfeição que os seus membros possuem é
certamente àquela a qual o autor está se referindo. A pregação
“evangélica” tem também os católicos como alvo, e isso é, no mínimo, um
equívoco, mas não de todo destituído de razão, devido ao fato de que a
imensa maioria dos católicos são nominais e desconhecem a doutrina cristã,
mas deveriam ser evangelizados com o Evangelho original que a própria
Igreja prega. O Pe. Fernando bem descreve essa realidade em seu programa
de 24/04/2009: O nosso povo cristão e católico tem fome de Deus. ’E
verdade que existem cristãos católicos relaxados, medíocres e que tem
mais fome de coisas mundanas do que do Pão, último e definitivo, que
desce do Céu. Mas é verdade também que existem, graças a Deus, milhões
desejosos de receberem a Palavra de Deus, pois cada fiel católico tem o
direito de possuir um ministro de Deus, tem o direito de possuir um
sacerdote que lhe sirva diariamente este Pão, que o homem não pode
buscar com suas próprias forças. É disso que o pastor Joel está falando, e
mesmo que negue a mediação sacerdotal existente na Igreja Católica, os
pastores protestantes, ao anunciar o Evangelho, estão, de certa forma,
agindo como os sacerdotes católicos. Mas o pastor afirma que os
protestantes são clientes de um Advogado que conseguiu a nossa
absolvição e desejam que os católicos ajustem ao Dr. Jesus para saírem da
prisão espiritual como os protestantes já saíram. Isso quer dizer que os
católicos ainda permanecem “prisioneiros”. Essa “boa nova” que os
protestantes querem anunciar aos católicos é aquela que dispensa o
homem de agir para ser salvo, mesmo que seja com a graça de Deus, o que
eles consideram uma “auto-justificação”, como o homem “se salvando”, um
tipo de “impedimento” de “confiar” só no sangue de Jesus. Mas isso é o que
podemos chamar de heresia de perdição de uma religião falsa. Se todos
temos erros, pois somos humanos, nem todas a igrejas pregam essa
salvação tão fácil, que diz: basta a fé e serás salvo, sem as obras!.
Sabemos, no entanto, que concordamos na prática com essa doutrina, pois
a Igreja ensina que a fé viva é aquela que opera através da caridade, é que
a caridade não é só de palavras, mas de obras, enquanto que os
protestantes ensinam que aquele cristão que não dá testemunho de sua
conversão, não vive a vida conforme o Evangelho, esse nunca foi salvo. É
como se disséssemos que mesmo não atribuindo valor salvífico às obras, os
protestantes [pelo menos é assim que o pastor Joel felizmente crê] creem
que sem as obras, que foram deixadas por Deus para que vivamos nelas, os
“crentes” não entrarão no céu por não serem de fato crentes. O erro grave
do pastor Joel é afirmar que a única Igreja verdadeira, a Igreja Católica, não
é Igreja. Parece até uma revanche, visto que a Igreja Católica no documento
Dominus Iesus afirma que igrejas protestantes não são igrejas na verdadeira
concepção do termo, certamente porque falta nelas a sucessão apostólica e
etc. Mas, sei que não é por isso. De fato o pastor Joel afirma que a Igreja
Católica não “tem nada a ver com igreja”, considerando-a fora do
cristianismo, algo que a Igreja não afirma do Protestantismo, a não ser a
respeito daquelas seitas que pregam doutrinas que descaracterizam
qualquer grupo como não cristão, como por exemplo a negação da
Santíssima Trindade. Se fôssemos argumentar apontando os pecados dos
membros das outras igrejas, sabemos que poderiam fazer o mesmo
conosco, visto que isso é comum a todos os homens e, com toda a razão, o
pastor diz dos pastores charlatães: Mas eles [os católicos] precisam saber
que tais “pastores” também estão indo para o Inferno. Finalizando esse
raciocínio, o pastor sugere deixar de lorota e aceitar a Cristo como único e
suficiente salvador e senhor Pessoal, e para os que já o fizeram e continuam
na Igreja Católica, aconselha que saiam dela pois está sendo um peixe fora
d´água, crendo num “evangelho” diferente daquele ensinado pela Igreja e,
sabendo que a Igreja não muda, é “incorrigível”, o melhor seria abandoná-
la. A última avaliação é bem pertinente, pois sabemos que a verdade é
sempre a mesma, ontem, hoje e sempre, como o é o próprio Senhor Jesus,
que é a Verdade. Então, é impossível que a verdade mude, e essa é a razão
pela qual a Igreja Católica é imutável, sempre a mesma, irreformável em
sua doutrina santa, mas sempre em reforma nos seus membros sempre
falhos. Nesse ponto ela é totalmente corrigível. Na doutrina, como não há
erros, não existe possibilidade de correção. Ao que os protestantes chamam
de “incorrigível”, está a presença da fidelidade da Igreja à verdade.

Ao que abandonar a Igreja, o pastor aconselha a não se dirigir às igrejas


que se intitulam evangélicas, mas que estão a serviço de satanás. Essa
pessoa deve orar, pedindo direção de Deus, vincular-se a um trabalho sério
ou fundar sua própria denominação, e se precisar de ajuda é só contatá-los.
Se o pastor Joel encontrar na Bíblia Sagrada um exemplo de
aconselhamento como o que deu aqui, que me informe, pois sabemos que é
um pecado fundar denominações, visto que introduz divisão, sectarismo no
Corpo de Cristo.

Diz ainda que a Igreja Católica tem sido usada pelo Diabo para esconder
o Evangelho, e a chama de arapuca de Satã! Será que precisamos de mais
exemplos para afirmar que a Igreja Católica está sendo perseguida?

Por fim cita o Padre Vicente Wrosz: “A diferença entre católicos e


protestantes é essencial, e bem maior do que parece” (Respostas da Bíblia
às Acusações dos “Crentes” Contra a Igreja Católica, Livraria Editora Pe.
Reus, 48ª edição /2000, página 13).

O que o padre Wrosz escreveu é uma verdade: o protestantismo difere


essencialmente do catolicismo.

CAPÍTULO 6

ANÁLISE DA MARIOLOGIA CATÓLICA

Nesse capítulo o pastor inicia mostrando que a Igreja prega que Jesus é
o Salvador, e que a Virgem Maria e os santos podem interceder pelos
cristãos junto a Jesus Cristo, e alude também à diferença básica entre a
posição católica e a protestante quanto à intercessão dos santos, pois
segundo o parecer protestante isso é antibíblico, pois não se poderia pedir
aos espíritos dos mortos que intercedam por nós. Agora, uma “novidade”,
que o autor vem apresentar, é que a cúpula da Igreja estaria pregando uma
heresia ainda maior (“heresia” no entender protestante, comparada pelo
autor à doutrina da intercessão, embora saibamos que isso não é heresia,
mas é a fé cristã desde os tempos apostólicos), e seria a de que Cristo
constituiria o justo Juiz cuja missão é nos julgar e punir, e não o Salvador
que veio nos salvar. E mais: isso estaria sendo pregado pelos papas, bispos
e demais clérigos. O ofício de advogar junto a Cristo para obter nossa
salvação seria de Maria, uma doutrina pregada pelos chefões do
catolicismo. Entre as “negações” da verdade salvadora de Cristo, estaria, às
vezes, sendo reconhecida Sua mediação única, entretanto, seguida da
afirmação de que essa não é Sua missão. Deve-se concordar com o pastor
Joel quanto às críticas dentro dessa “compreensão” do assunto, pois, se
assim fosse, isso seria um verdadeiro disparate, pois não há como ser
Mediador e único Salvador e ao mesmo tempo não realizar essa missão
exclusivamente ou mesmo não realizá-la nunca. O pastor diz que
geralmente isso fica implícito, sendo às vezes dito explicitamente,
constituindo um emaranhado que tem por objetivo fazer com que o dito
fique pelo não dito e a arapuca do Diabo funcione. Se fosse assim, deve-se
repetir, o pastor teria razão, pois seria uma contradição e uma sutileza que
objetivaria destituir a Cristo de Sua investidura e conferir a Maria o Seu
ofício. Pode ser dito “se fosse assim”, porque de fato não o é, mas será
necessária uma reflexão pormenorizada ao longo da crítica desse capítulo
para nos certificarmos disso. O pastor apresenta uma lista de 26 afirmações
que “provaria” duas asserções conflitantes, ou seja, a de que Cristo é o
salvador e a negação dessa verdade, e mais 4 itens que “provaria” o
“endeusamento” que Maria teria, também, entre os católicos carismáticos.
Apresenta ainda uma notícia veiculada em 28/08/1998 pelo jornal O Globo,
de que existiria um grupo católico instando junto ao Vaticano para que
Maria fosse reconhecida como a “quarta” pessoa divina!!! Não é necessário
comentário dessa heresia, se de fato foi pensada pelo tal grupo formado por
católicos. O pastor sabe que Dom Estêvão negou tal informação, o qual
disse que o dito jornal faltou com a verdade, mas como não foi possível
saber a origem da notícia publicada no artigo, ficou uma suspeita no ar. O
pastor Joel afirmou somente que tem as palavras da articulista contra as do
padre Estêvão, sem saber quem faltou com a verdade, o que é, no mínimo,
uma atitude prudente. Que a atitude anti-Maria é comum entre os
protestantes é um fato bem conhecido. É por tal motivo que o pastor pode
aludir à conclusão dos cristãos católicos de que os protestantes odeiam a
Virgem Maria. Para fundamentar suas notícias, o pastor cita dados da
Revista Defesa da Fé, órgão oficial do ICP, que traz palavras do padre André
Carbonera sobre a atitude dos protestantes quanto à Virgem Maria, o qual
chamou de burros os que não recorrem à sua intercessão: ... Seria uma
inútil auto-suficiência e uma enorme burrice!...” Então, o pastor afirma
poder provar que os protestantes não odeiam a Maria, mas que a deixam
quietinha no lugar onde ela mesma se pôs (Lucas 1, 38.46-48), e que isso
significa submissão a Deus, não um ato de burrice como suposto pelo padre
Carbonera. Bem respondido, por sinal. Mas acredito que é bom dizermos
que os cristãos sempre reconheceram a posição especial da Mãe do Senhor,
e sem tirá-la de sua posição de serva do Senhor, sempre a exaltaram, com
veneração (amor, reverência, respeito, imitação, pedido de intercessão).
Essa atitude não a tira do seu lugar, de criatura serva de Deus (ao mesmo
tempo que exaltada por Ele à dignidade de mão do Salvador). Outra
informação contra a atitude dos protestantes é a do padre D. Francisco
Prada, acusando os protestantes de ignorar e denegrir a Virgem Maria,
negando sua virgindade. Enfim, traz também palavras do Frei Battistini
sobre a falta de veneração a Nossa Senhora entre os protestantes,
considerando-os como os que não gostam de Maria. Obviamente o pastor
Joel nega que essa seja a atitude do protestantismo, e chega a apontar
provas do amor que os protestantes praticam, como a manutenção de
orfanatos, asilos, cuidados com bandidos e etc. Segundo o autor, o
fanatismo e a desonestidade predomina entre os clérigos católicos, e isso é
uma conclusão tirada das leituras de obras católicas. Tudo isso seria porque
os católicos não possuem argumentos sólidos extraídos da Bíblia para
responder aos ataques protestantes. Talvez essa questão também mereça
algum comentário. Todos conhecem a atitude de negação e/ou indiferença
que os protestantes têm para com a mãe de Jesus. Muitos já ouviram
palavras de baixo calão, proferidas por protestantes leigos, referentes a
Nossa Senhora. Então, não é destituído de verdade as palavras do padre
Carbonera e do Frei Battistini. Certamente não é exata uma generalização,
acusando a todos os protestantes de atitudes como essas. Mas é verdadeiro
que predomina uma indiferença considerável, no que diz respeito ao culto
de veneração mariano, entre as igrejas protestantes, o que as coloca em
desarmonia com o cristianismo de sempre. É útil frisar que essa observação
não nega que os protestantes sejam cristãos, mas apenas tem como
objetivo auxiliar nossa reflexão. Portanto, a atitude dos clérigos acima
mencionados não constitui uma falta de ética ou sofisma enganador, mas
retrata, se não exatamente, pelo menos boa parte da realidade observável
entre os protestantes. O diálogo onde há amor, respeito e franqueza, como
aconselha o pastor Joel, é o ideal que devemos ter e praticar. Mas quando o
pastor diz que as crendices católicas a respeito de Maria não são
respaldadas pela Bíblia, essa afirmação não é verdadeira. Pode até conter
verdade, mas como tal, absolutamente, não o é, pois se é exato que entre
as muitas expressões populares se encontrem desvios, excessos e outras
distorções do verdadeiro culto a Maria, isso não pode ser encontrado na
genuína atitude cristã na veneração à mãe do céu. Toda essa atitude deve
estar em harmonia com a revelação de Deus na Bíblia Sagrada, vivida na
Tradição. E aqui, deve-se lembrar que a veneração que os protestantes
chegam a ter para com a virgem Maria ainda fica aquém da tradicional
veneração inspirada pelas páginas do Novo Testamento. E Tradição não
pode ser entendida segundo a definição dada pelo pastor Joel, mas deve ser
tida como a palavra de Deus transmitida por via oral. Quanto à pretensão de
provar que a Igreja Católica está a serviço de Satanás, é uma tarefa
impossível, se ela de fato não estiver, e acreditamos e provamos que não
está, como será patentemente mostrado nessa crítica. O múnus salvífico de
Nossa Senhora (CIC, 969) será melhor entendido no decorrer das nossas
reflexões, as quais provarão que Jesus Cristo é o único e suficiente salvador,
único nome pelo qual somos salvos (At 4,12). Toda a pesquisa do pastor Joel
(leituras, entrevistas com ex-membros da Igreja, missas assistidas (pela TV
ou pessoalmente na Igreja?) mostra que suas palavras não tem o caráter de
calúnia, como ele mesmo diz. Mas faz-se necessário refletir, pois talvez o
autor chegue a novas conclusões, ainda não previstas.

6 1. Literatura, santos , contos e outros gestos mariolátricos.

6.1.1. O Livro de “Santo” Afonso


A respeito do livro de Santo Afonso, o pastor Joel dedicou esse extenso
capítulo a uma profunda análise das afirmações que o autor faz na dita
obra. São muitas citações e provas de que a Igreja concedeu permissão e
até mesmo aconselhamento para sua leitura. Não é necessário repetir
tantas citações da obra e nem das provas de sua aprovação pela Igreja, pois
os leitores da obra do pastor Joel já as conhecem. A obra de Santo Afonso é
de fato muito apreciada, aconselhada a sua leitura, elogiada, difundida em
várias línguas e etc. O seu autor, que era bispo, foi canonizado e, segundo o
que está exarado na página 13 da edição da obra usada pelo pastor Joel, a
Igreja aprovou os escritos de Santo Afonso, o que inclui o livro Glórias de
Maria, e é dito que esses escritos foram cuidadosamente lidos. Portanto,
segundo o parecer oficial, a obra não contém heresia. Esse fato explica o
motivo de não haver “repreensão” por parte das autoridades, numa época
em que as heresias eram combatidas com rigor mais extremado, e que o
pastor Joel nos faz lembrar os rigores da inquisição. Diante de todos esses
acontecimentos, é lícito questionar ainda mais o motivo pelo qual todas as
afirmações “excessivas” contidas no livro nunca terem sido vítimas de uma
“censura”, e o autor das mesmas ser até elevado à categoria de santo. O
pastor Joel tem essa atitude na conta de cumplicidade de todo o clero, e
cumplicidade num ensino de estar favorecendo uma doutrina de “perdição”.
É algo um tanto curioso que o livro nunca tenha sido entendido assim, e
poderia ser apresentada uma explicação para isso. Sirvo-me, em parte, das
idéias do apologista Dave para formular essa resposta. A mente cristã
católica está “acostumadíssima” com as honras prestadas à Virgem Maria.
Sempre foi tradição oferecer o máximo da veneração à mãe do Senhor.
Além do mais, a cristologia católica é perfeita, e toda a doutrina aponta para
Cristo como único Salvador e Redentor da humanidade, digno de toda
honra, glória e louvor, o único santo, o próprio Deus feito Homem. Sendo a
fé cristocêntrica, todas aquelas afirmações excessivas (concordo
plenamente que de fato são assim mesmo), todas elas são entendidas (e
assim é necessário ser) através dessa sã doutrina, não sendo consideradas
literalmente (pois isso daria o resultado que o pastor Joel já apontou). Toda
essa linguagem estaria afirmando apenas a posição singular da Virgem
Maria no culto cristão, sem elevá-la acima daquilo que sempre foi, uma
serva do Senhor. Então, as lentes católicas estariam filtrando todos esses
excessos de linguagem (hipérboles), harmonizando-os com a reta doutrina,
sem nunca serem entendidos ao pé da letra. Sendo assim, o “silêncio” do
clero não poderia sofrer nenhuma condenação. Mas esse fato não poderia
deixar de lado a prudência necessária. É igualmente verdadeiro que o culto
popular dos santos e, sobretudo, da Virgem Maria, tem conotações muito
estranhas, pouco ou nada críticas, desvirtuadas até, que requerem uma
instrução religiosa urgente, uma evangelização contundente e instrutiva,
uma verdadeira conversão. Muitos expressam uma mariolatria pela grande
ignorância que possuem. Não é o caso de Santo Afonso, ao que parece, que,
se de fato concebia aquelas idéias literalmente, seria um idólatra
consciente! As afirmações das quais o pastor Joel se serviu e que estão
contidas no livro Glórias de Maria, à primeira vista, dizem o que dizem,
ficando difícil entendê-las de outra forma, e a interpretação do pastor Joel é
muito oportuna, lógica, e qualquer um que se pusesse a considerá-las
objetivamente para tirar uma conclusão baseada nelas mesmas, chegaria a
um resultado semelhante. Mas parece que podemos entendê-las segundo
algumas direções encontradas na própria obra de Santo Afonso, segundo a
sã doutrina, através da posição cristocêntrica. E a sã doutrina proíbe
veementemente que tenhamos um “outro salvador ou salvadora”, a não ser
Jesus Cristo. E se é fato que a Igreja prega que somente Cristo pode nos
salvar, toda a linguagem que trata de Maria como “redentora”, “porta do
céu” e outras afirmações mais, devem ser entendidas metaforicamente,
como dizendo algo diferente, sob pena de serem blasfemas. E se se disser
que essas afirmações são literais, temos o dever de negá-las, ombreados
pela Bíblia e pela tradição cristã, que só podem estar em harmonia. Do
contrário, como foi dito, um cristão católico não somente pode, mas deve
rejeitar qualquer engrandecimento ou exaltação de uma criatura além dos
seus limites intrínsecos. Por exemplo, na citação de São Bernardino de Sena,
que diz: ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus, essa
afirmação, segundo o que diz em si mesma, é incompatível com toda a sã
doutrina, pois se Deus fosse “sujeito” a Maria, essa seria a “Deusa” (com
artigo definido, pois seria a maior), acima de tudo e de todos. Seria mesmo
o cúmulo do absurdo! Deus não obedece a ordens. Mas, seria preferível não
tachar o santo de mariólatra tão apressadamente, e nem mesmo a santo
Afonso, que o citou, visto que em outro lugar do livro é dito que, após a
ascensão, Cristo não estava sujeito a ninguém, nem à Sua mãe, pois não
mais lhe devia aquela obediência que prestava quando viveu nesse mundo.
Conclui-se, com razão e verdade, que Deus não pode estar sujeito a nada e
a ninguém, e de fato jamais esteve, não está e nunca estará, pois somente
Ele é Deus, é Senhor, é Criador do universo, e fora dEle nada poderia ter
vindo à existência. Esse princípio não parece ter sido negligenciado por
Santo Afonso. Poderemos, no decorrer dessa crítica, refletir mais sobre isso.
A respeito da consagração a Nossa Senhora, é verdade que também possui
palavras muito chocantes (até para os meus ouvidos cristãos católicos). Ou
são entendidas à luz de Cristo ou não podem ser nem mesmo pronunciadas.
Quanto ao decreto do Concílio Vaticano II (acusado por muitos católicos de
possuir decretos ambíguos), o pastor Joel, assim como outros protestantes,
notou uma grave imperfeição de linguagem: Os fiéis devem venerar... a
memória ‘primeiramente da gloriosa sempre virgem Maria, Mãe de Deus e
de nosso Senhor Jesus Cristo’ ” (Compêndio do Vaticano II, Editora Vozes,
29ª edição, 2000, página 103, # 140. Grifo nosso). Ora, se Maria é Mãe de
Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo, então, das duas uma: Ou ela não é
mãe só do lado humano de Jesus, mas também de Sua Divindade (o que é
um absurdo), ou ela, além de ser mãe do Filho, é, também, mãe do Pai. E,
de um jeito ou de outro, isso é o ápice da mariolatria. A Igreja sempre
ensinou que Maria é mãe de Jesus Cristo, que é Deus, mãe da Sua Pessoa,
não da sua natureza ou lado humano, portanto, mãe de Deus como homem,
nunca mãe da divindade, nem mãe de Deus Pai. A Igreja não pode ser
acusada de tão grave heresia, por ela mesmo condenada, e é fácil certificar-
se disso lendo o próprio Catecismo ou qualquer obra séria publicada pela
Igreja sobre o assunto. Portanto, o pastor Joel tem razão em criticar essa
construção gramatical inadequada. Um exemplo prático a respeito das
expressões de veneração à Virgem Maria, seria o caso em que é comum a
afirmação de que o coração de Maria é o caminho que nos conduz a Deus, o
que não é possível conciliar, ao menos à primeira vista, com o texto de João
14, 6 onde Nosso Senhor é o caminho, a verdade e a vida, e sem o qual
ninguém chega ao Pai. Porém, se for entendido que seguindo os exemplos e
inspirações da vida de Nossa Senhora, as virtudes de seu coração, essa
constitui uma atitude que nos estaria levando a Deus, como suscitado pela
boas inspirações do coração da Virgem Maria, e essa compreensão não está
conflito com a revelação, a Bíblia, pois cada boa ação de um cristão, que
pode ser imitado como exemplo de vida, pode auxiliar os outros na
aproximação a Deus, tendo essa função benéfica de produzir conversões e
contribuir para o maior fervor cristão nos outros. E como tal, não somente o
coração de Maria poderia contribuir para isso, mas todos os corações
santos, de todos os justos e santos que partiram para o céu, e que nos são
apresentados como modelos a ser seguidos. Mas, no entanto, o coração da
mãe do Senhor, criado, predestinado, preparado, purificado pelo próprio
Deus Uno e Trino, esse coração é, entre todos os corações, o que pode nos
inspirar maior devoção e piedade e nos “levar” a Deus, apontando-nos a
Cristo, o único caminho, sob inspiração do Espírito Santo Paráclito. Essa
compreensão está em completa consonância com a Sagrada Escritura. E
assim podemos, com o total aval da doutrina bíblica, entender dessa forma.
E essa não é uma novidade de compreensão, mas a única forma ortodoxa
de se aderir à devoção mariana, uma forma católica tradicional, da era
apostólica, oficial, sempre constituindo o fundamento de toda a verdadeira
devoção. Qualquer desvio (e é quase impossível evitar que apareça) deve
ser combatido e corrigido. Para melhor compreender isso é necessário
mostrar o princípio bíblico de que os homens, criaturas de Deus, podem ser
canais de graça, não apenas pelo exemplo e palavra pregada, mas como
instrumentos de Deus, segundo estabelecido pela sua soberana vontade,
sendo como que ferramentas pelas quais Ele quis livremente associar a Seu
plano para distribuição de graças, através de orações, do espírito de
penitência etc. Em outras palavras, Deus pode não distribuir sua graça
diretamente, mas usar de outros meios. E é sabido que não há fundamento
para negar que Deus esteja proibido de agir assim, como se se tratasse de
um conceito impossível a priori, nem um dado revelado asseverando que tal
não possa ocorrer. Contrariamente a isso, podemos, sem dificuldade,
estabelecer o princípio divino de distribuição de graças, presente na Bíblia,
através dos seres humanos. Para tanto, podemos citar 1 Coríntios 9, 22: Fiz-
me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos,
a fim de salvar a todos, onde São Paulo afirma ter se tornado tudo para
todos a fim de salvar, e essa salvação, que somente vem de Deus, é
possível pela graça que unicamente Ele concede, e nesse caso específico,
estava concedendo através do seu servo, o apóstolo Paulo. Para negar que
essa salvação seja a salvação eterna, seria necessário recorrer a uma noção
diversa do termo, que não é encontrada no contexto imediato em nem no
conjunto geral do ensino bíblico (da forma em que foi expresso aqui_1 Cor
9,22), mas um recurso que tem como origem a teologia adotada pelo
intérprete, a qual é a teologia calvinista, ao que parece. Porém, permanece
o fato de que “alguma” graça foi conferida mediante a ação do apóstolo.
Pelo contexto, porém, é certo que se trata da salvação eterna da pessoa no
céu. Da mesma forma, 2 Coríntios 4, 15 diz que os sofrimentos do apóstolo
serviam para aumentar a distribuição de graças, diríamos assim, a ação de
graças para a glória de Deus. Como a graça se estende a mais e mais
pessoas, da forma que pelos sofrimentos vividos em união com Cristo a
graça é distribuída. Ao afirmar que a Virgem Maria pode nos obter as graças
de Cristo, como um vaso eleito, está-se respaldado por uma noção bíblica,
onde seres humanos servem de canais da graça de Deus em favor dos
irmãos. Quanto às afirmações ou expressões excessivas e tão comuns na
devoção mariana, o cristão católico não é, absolutamente, obrigado a ater-
se a elas, nem pronunciá-las, nem mesmo conhecê-las. O livro de Santo
Afonso não faz parte da catequese (eu mesmo não o conhecia, e ainda o
conheço pouco). No máximo podemos entendê-las segundo a sã doutrina,
como foi visto. O que é essencial é o culto mariano de sempre: tê-la como
nossa mãe, visto que somos membros do corpo de Cristo_somos outros
“cristos”_, confiar na sua intercessão, como confiamos na intercessão de
todos os santos, do céu e da terra, mas de uma forma especial, pois ela foi
alvo de uma graça sem igual, e por esse motivo, recebe o mesmo culto que
todos os demais santos, chamado de dulia, mas com uma ênfase maior, por
isso classificado como hiperdulia, continuando o mesmo em essência. E
como está em João 2,5, a vontade de Nossa Senhora é que obedeçamos a
Cristo, fazendo tudo o que Ele nos disser. Qualquer culto de veneração que
não tenha esse foco está desvirtuado. Assim, se qualquer expressão de
veneração (amor, respeito, imitação) fosse idolatria, o sentimento mesmo
da veneração já o seria, sem necessidade do culto externo. Mas isso não é
verdade, visto que a veneração é inerente à fé cristã, é até natural ao ser
humano. Idolatria, ao contrário, é a adoração a um ídolo, tendo-o como um
deus. A sã doutrina proíbe isso. Se mesmo conhecendo os escritos da Igreja,
sua doutrina oficial, alguém caiu em idolatria, não é culpa da Igreja, pois é
inadmissível que a doutrina católica leve alguém a ser idólatra, porque a
mesma doutrina não permite esse pecado e, portanto, o cristão católico de
fato não é idólatra. Se foi por alguma ambiguidade de obras publicadas ou
por falta de compreensão ou por não estudar a doutrina cristã e viver na
ignorância, praticando um cristianismo católico nominal e etc, tudo isso é
outra questão. É certo que o Catecismo proíbe a idolatria e não confunde o
culto de dulia (que é o mesmo que hiperdulia, diferindo só no grau).
Podemos sim, venerar os santos, desde que seja veneração mesmo.

6.1.10. O parecer dos clérigos católicos

Popularmente, os santos receberam, e muitas vezes continuam


recebendo, tratamento excessivo por parte dos fiéis, e misturado mesmo a
superstição, algo que ainda hoje é percebido.
Venerar demais os santos e esquecer de Jesus é o erro fundamental. O
fato de o Concílio ter admitido que foi sua tarefa colocar os santos abaixo da
Trindade é estranhíssimo. Ficou pouco explicado. Pois deixou a questão: Foi
a doutrina e a liturgia oficial ou foram as expressões da devoção que os
cristãos católicos foram absorvendo ao longo dos séculos, o que levou a
essa troca de posições e consequente idolatria? Percebo que realmente
as devoções populares tem os santos e a Virgem Maria em primeiro lugar,
pois muitos nunca chegam a falar de Jesus, limitando-se a citar a Virgem
Maria. Isso está errado!
Segundo o que a Lúmen Gentium afirma sobre a verdadeira veneração
à Virgem Maria, o livro Glórias de Maria deveria ser evitado, pois lá
encontram-se exageros, que são difíceis até de conciliar com a sã doutrina.
O que faço aqui, é entender aquelas afirmações segundo a doutrina cristã,
mas reconheço que não são saudáveis as declarações metafóricas de
muitos desses santos escritores.

6.2. O supremo culto a Maria

Nesse tópico o pastor passa a mostrar a classificação dos cultos,


“segundo” a Igreja Católica, que “ensinaria” que esses se dividem em três
categorias: dulia, hiperdulia e latria. O primeiro é devido aos santos e anjos,
o segundo à Virgem Maria e o terceiro é prestado somente a Deus. Numa
demonstração cristã católica preferiria classificar didaticamente em primeiro
lugar o culto de Latria, pela sua superioridade essencial a todos os outros
cultos, seguido do culto de hiperdulia, devido à singularidade de Maria entre
as criaturas, e o culto de dulia, prestado aos demais santos servos de Deus.
O pastor prossegue afirmando que segundo a Bíblia há somente um tipo de
culto, e este é tributado a Deus. Dessa forma somente Deus, o Criador,
pode ser cultuado. As “provas” disso seriam: Apocalipse 19, 19 e 22, 9 onde
é registrado que um anjo rejeitou a adoração que o apóstolo João lhe quis
prestar. São Paulo, em Cl 2, 18 ensina que não se deve cultuar os anjos:
“Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto
dos anjos, metendo-se em coisas que não viu, estando debalde inchado na
sua carnal compreensão” (Cl 2.18).. Outra prova seria a recusa de São Pedro
em receber a homenagem de Cornélio (Atos 10, 25-26). Os protestantes
negam o culto de dulia, afirmando somente que: Com todo o respeito e
amor para com Maria, afirmamos que a Hiperdulia é idolatria. Com isso
afirmam que Nossa Senhora certamente rejeitaria tal culto, visto que era
humilde e santa, e faria como o apóstolo São Pedro o fez no exemplo acima.
O pastor afirma que podemos amar Maria, respeitá-la, honrá-la, admirá-la,
elogiá-la, apreciá-la, sem cultuá-la. Essa afirmação foi ótima até o momento
em que disse sem cultuá-la, devido ao fato de que não apresentou a forma
de proceder nesse caso. Como amar, respeitar, honrar, admirar, elogiar,
apreciar sem o auxílio de atos que expressem isso? Isso teria pouca “força”,
visto que somos corpo e alma, e não conseguimos viver somente de idéias
abstratas. Não podemos manter o culto de veneração e nem mesmo o de
adoração se não o cultivarmos ativamente através das nossas ações. A
participação dos cultos na Igreja é um exemplo disso. Para avaliar a
importância das atitudes basta imaginar o “fervor” de um “cristão” que
frequenta a Igreja de vez em quando, uma vez a cada cinco anos, por
exemplo, ou que reza às vezes, quando “acha” necessário, ou que “lembra”
de Deus em certos momentos etc. Com toda a certeza, uma pessoa nessas
condições não vive uma vida cristã. Visto que no protestantismo a Virgem
Maria não tem lugar nas suas celebrações, nos sermões, enfim, não é
lembrada na vida cristã, é praticamente impossível “venerá-la” sem o
culto de veneração. O pastor afirma que o clero ensina que a hiperdulia está
acima da Dulia e abaixo da Latria mas acredita que na prática não é assim,
visto que os escritos endossados pelo clero católico estariam colocando
Maria acima de Cristo, como a obra de Santo Afonso tão criticada pelo
pastor. Então o pastor apresenta “as provas” de que o clero católico é mais
devoto de Maria do que de Cristo. A primeira prova seria o Rosário, e
apresenta a definição: segundo o Novo Dicionário Aurélio, uma enfiada de
165 contas, correspondente ao número de 150 ave-marias e 15 padre-
nossos. O terço, explica o pastor, correspondente ao número de 50 ave-
marias e 5 padre-nossos. E o autor resume assim: Nos dois exemplos
acima, a Cristo coube apenas menos de um décimo da devoção a Maria. E
você acha que isso se dá por acaso? Não seja ingênuo caro leitor! Abra os
seus olhos!; esse quadro é sim, sintomático. Pode-se dizer desses dois
exemplos que, quando analisamos o rosário e o terço, a conclusão é
justamente contrária àquela do pastor Joel. Primeiro deve-se notar que os
dois exemplos citados são de orações marianas, próprias da veneração da
Igreja para com Nossa Senhora. Nada mais natural que nessas orações o
nome de Maria apareça repetidas vezes. Mas será que nessas orações
marianas o culto a Jesus seja diminuído ou até mesmo excluído ? Se assim o
fosse deveríamos rejeitar essas orações, como querem os protestantes. E
mais, eles teriam razão. No entanto, compreendamos a reza do terço e do
rosário conforme nos explica a Rosarium Virginis Mariae. A carta apostólica
diz: O Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia
mariana, no seu âmago é oração cristológica. O pastor Joel não ficaria
surpreso ao encontrar tal afirmação, e, certamente, também não se
convenceria da verdade da mesma. Por isso é necessário mais algumas
palavras. Como tudo no culto da Igreja Católica, o Rosário e o terço, que são
orações próprias da devoção a Nossa Senhora, essas mesmas orações são
no fundo, no seu âmago, um culto a Cristo, visto que todo o culto cristão
tem por objetivo render a honra, a glória, o louvor etc. a Deus. Senão
vejamos: o pastor notou obviamente que de 165 contas, 15 são de Pai
Nossos e 150 de Ave-Marias. É isso um sinal de que a devoção “diminui” o
culto a Cristo? NÃO. É preciso notar que inicia-se a reza do Rosário com a
profissão de fé cristã: O CREDO. A primeira conta é própria para a reza do
Pai Nosso, como início de tudo, o Alfa do rosário. Os mistérios contemplados
em todo o Rosário são aqueles da vida de Cristo: encarnação, morte,
ressurreição, ascensão, descida do Espírito Santo e assunção de Nossa
Senhora. Em todo o Rosário está se contemplando a vida do Nosso Senhor,
Salvador e Redentor. Cada mistério inicia-se com o Pai Nosso e termina com
um Glória ao Pai. Com isso vemos que essencialmente o Rosário é, de fato,
cristocêntrico. Ironicamente diríamos que se os protestantes tivessem para
com Jesus uma devoção como os cristãos católicos tem para com a Virgem
Maria, estariam negando a Ele, tanto o centro como todo o objetivo do culto.
A Virgem Maria é venerada apenas por sua união com Cristo, e isso já é
razão suficiente para ver o amor que tributamos a Nosso Senhor. Então, é
sintomático que a quantidade de Ave-Maria não muda a qualidade do
Rosário, que é uma oração com fisionomia mariana, mas com âmago
cristológico. Quantos às estampas, estando em primeiro lugar as figuras de
Maria e em segundo as de São Cristóvão, e, por fim, as dedicações dos
templos a Nossa Senhora não prova uma mudança essencial no culto
cristão. Não se pode deixar de concordar que o povo é muito inclinado a
superstição e essas práticas podem tornar-se ocasião desse pecado. Quanto
aos sermões, esses seriam de tônica “mariana” enquanto que os sermões
“evangélicos” teriam a tônica apostólica: Jesus. Os católicos instintivamente
estariam colocando Maria em segundo ou terceiro lugar, tendo um propósito
do clero para isso. Então, 90% das mensagens católicas seriam referentes a
Nossa Senhora. O autor diz que sua obra talvez leve os católicos a
aumentarem a confecção de folhetos que falem de Cristo, mas que até
agora não é essa a ênfase. O clero estaria destituindo, há séculos, o Senhor
Jesus de Sua função. O pastor considera essa afirmação muito forte, porém,
diz que tem base firme para suportá-la, podendo provar como dois mais
dois são quatro. O clero pregaria sempre que Cristo estaria irado e que
aplacado pelos rogos de Maria, seria aplacado o seu furor. Para isso, cita as
“provas”, sendo essas constituídas de palavras de Santo Afonso, um
testemunho do ex-padre Charles Chiniquy, que pregava, quando era padre,
que não devemos ir a Cristo, visto que o Rei está irado, e cita as palavras de
Lutero que apresentam os mesmos argumentos. O pastor imagina que
alguém talvez pergunte sobre a veracidade das afirmações do Padre Charles
Chiniquy e de Lutero, e propõe outra questão, sobre se seria impossível que
um clérigo pregasse esse absurdo, visto que ele havia “provado” que
próprio Santo Afonso havia feito em sua obra, chamando a declaração de
grande blasfêmia, e o bispo de herege. Assim ninguém teria moral para
acusar Lutero e Chiniquy de calúnia e que a atitude de Santo Afonso não foi
ato isolado, pois ele foi até canonizado e elevado a Doutor da Igreja; chama
o livro Glórias de Maria de pernicioso, e de que tem ensino infernal, como
aquele de que “Maria socorre e alivia” e “Cristo julga e pune”, sendo que
quem aprovou a abra seria cúmplice explicito e quem não protestou contra
ela, seria um cúmplice implícito, mesmo os leigos: E você que é católico
leigo, e contribui financeiramente para sustentar essa seita, não pense que
escapará ao juízo de Deus.

O pastor reconhece que a palavra dulia é realmente bíblica, e que


significa servir, como em Romanos 12,11. Explica o pastor que nesse texto
se manda servir ao Senhor, logo, dulia é culto ou serviço a Deus. Isso
significaria, segundo o mesmo autor, que a dulia deve ser prestada a Deus,
e, contrariamente a isso, a Igreja estaria prestando dulia aos santos e anjos.
E não somente isso, pois enquanto se presta a Nossa Senhora um culto de
hiperdulia, estaria assim afirmando que seria um culto “maior” que aquele
prestado a Deus. Mas isso é mais um equívoco. A exegese feita pelo pastor
da palavra dulia conclui erradamente. Como se entende a palavra dulia com
referencia aos santos e anjos não há como confundir com o culto de Deus. O
serviço devido a Deus e devido ao homem é expresso em diferentes
aspectos. A latria se presta unicamente a Deus. A dulia que se oferece a
Deus é distinta da dulia que se presta ao homem. A latria é somente devida
a Deus, que é o Criador. Mas a dulia que se deve a Deus pelo seu Senhorio,
o próprio Deus comunica de certa forma às criaturas, permitindo que a
essas possam ser tributadas uma dulia própria das criaturas. A hiperdulia
nada mais é que o mais alto significado de dulia, prestado a alguém que
tenha uma especial comunhão com Deus como, por exemplo, Nossa
Senhora.

Dulia é a honra prestada aos santos. Latria é o culto de adoração


prestado a Deus somente. Hiperdulia é a veneração à Virgem Maria. A
diferença entre latria e dulia não é somente de grau, mas de tipo. Santo
Agostinho diz que a dulia é dita dos servos em relação aos senhores, o que
ajuda a compreender o uso do termo com relação aos santos (Cl 3, 22.24).

6 3. A casa de “Maria”

Quanto ao que foi dito por Ralph Woodrow, com base em informações
fidedignas da Enciclopédia Católica, sobre o transporte angélico da Casa de
Maria para a Itália, pode ser dito o seguinte: é algo herdado da tradição, não
é dogma de fé, nem doutrina imposta, não somos obrigados a crer nessa
estória, não é necessária para nossa salvação. Agora parece que ficou claro.
Realmente, concordando com o pastor Joel, não precisamos da casa de
Maria, mas da graça de Jesus, e cristãos autênticos não se preocupam com
crendices, seja qual for (não conheço essa estória sobre a casa de Maria,
mas também não sou obrigado a conhecer), e essa é uma postura de
cristãos católicos que conhecem a Bíblia e a Tradição (que não pode
contradizer o que está escrito).
De tudo isso, pode ser dito, com certeza, que um protestante não
precisa temer ingressar-se na Igreja por esse tipo de questão.

6.4. Os “Honoríficos” Títulos de Maria

6.4.1. Nossa Senhora


O pastor inicia afirmando que: Embora a Bíblia diga que Jesus Cristo é
o nosso único Senhor (1 Coríntios 8.6; Judas 4), não é novidade para
ninguém que os clérigos católicos pregam que Maria, a mãe de Jesus, é
Nossa Senhora. É um fato. Mas devemos primeiramente saber em que
sentido a Virgem Maria é tratada como Senhora. Que Cristo é o Senhor, no
mais alto sentido, que exerce senhorio sobre os vivos e os mortos, ninguém
pode duvidar. O necessário é mostrar que o título que a Virgem Maria
recebeu não a torna uma senhora nesse sentido do senhorio de Cristo.
Somente assim seria conflitante. A imaginada tentativa de defesa que os
cristãos católicos tomariam, como se o ter uma “senhora” não derrogaria o
Senhorio de Jesus, seria realmente uma balela, não convincente. O exemplo
que o pastor Joel apresentou mostra muito bem esse fato. As tarefas que se
atribui a cada santo, não noções populares que, com o tempo, tomaram
conta do imaginário cristão. É certo que os títulos da Virgem Maria são
muito mais abundantes, mas tudo isso é devido à sua maior proximidade
com Jesus Cristo. O autor faz um resumo dos vários títulos que se atribui a
Nossa Senhora, tendo como fonte a Revista das Religiões, edição especial,
Editora Abril, página 66, maio de 2005, os quais são Nossa Senhora do Ó, do
Carmo, Desatadoras dos Nós (interpretados como “pecados”). Após essas
explicações, o autor propõe sete perguntas que, segundo ele, trazem as
respostas no seu próprio bojo. A primeira indica que se se estende o
senhorio a qualquer outra criatura, o Senhorio de Cristo é alterado, o que de
fato é verdade e, portanto, não se pode compreender o título de Senhora
como tendo o significado bíblico. O fato de Maria ser senhora resultaria que
outros personagens bíblicos fossem senhores também. Mas visto que o
título é apenas popular, a dificuldade de entendimento não se impõe. Assim
como nenhum grande homem pode ser nosso senhor, assim também
nenhuma grande mulher pode ser nossa senhora, no sentido bíblico. Se
fosse dado à Virgem Maria o título com a denotação que tem o título de
Cristo, isso seria realmente um endeusamento, mas isso não pode existir, o
que requer uma conscientização sobre o significado do termo. Quanto à
mudança de se considerar “nossa conserva” ao invés de “nossa senhora”,
isso não é necessário se se tem o devido entendimento que damos ao título.
O considerá-la conserva não é uma falta de respeito, mas pode inspirar em
muitos a falsa noção de que já alcançaram as virtudes que a mãe do Senhor
possuía. As graças que Nossa Senhora recebeu devem inspirar em nós uma
imitação de suas virtudes, e isso é cristão. Servir a “dois senhores”, e
conciliar esse “comportamento” com Mateus 6,21 e I Samuel 7, 3-4 é um
erro, e uma tarefa impossível. Como pudemos notar, o titulo é somente
popular, não denotando um “senhorio” de Maria sobre nós, como se
devêssemos “servi-la”. O que ela certamente deseja de todos os cristãos, é
que sejam fiéis no seguimento do seu Filho Jesus Cristo. A Bíblia não registra
a existência de “outro senhor” ou “senhora”, portanto, como a pergunta já
traz no seu bojo a resposta, Deus não se esqueceu disso, pois é algo
inexistente. E como cristãos católicos sirvamos ao único Senhor Jesus Cristo.
E para não pensarem que essa é uma posição isolada, particular, é
necessário mostrar que isso é totalmente católico, uma posição oficial: A
Mãe de Jesus, com toda certeza, merece esse respeito e, por isso, a designamos
comumente como Senhora, sem qualquer conotação com o sentido especificamente
bíblico do termo Senhor [Disponível em: http://www.diocesedeanapolis.org.br/ (link
perguntas)]. O pastor faz uma confabulação imaginária (um diálogo fictício)
na qual trata a Virgem Maria de senhora, no sentido de respeito, como se
ele estivesse vivendo entre nós, e é igualmente chamado por ela de senhor:
Veja o leitor que no fictício diálogo acima, chamamos a Maria de senhora, e
ela por sua vez, nos chamou de senhor. No entanto, não se pode esquecer
que é natural ao ser humano o reconhecimento das virtudes de outrem,
inspirando um respeito profundo, e é certo que os cristos assim tratavam a
Virgem Maria e, se porventura ela vivesse entre nós, teria um tratamento
todo especial. O fato de se usar iniciais maiúsculas, certamente se dá pelo
motivo de que seu uso já é tradicional, o que não indica que o sentido tenha
extrapolado seus limites. Se o povo simples confunde as coisas, é dever das
autoridades eclesiásticas fornecer a devida orientação, assim como é do
povo a responsabilidade de instruir-se. Esse título honorífico, recebido pela
Virgem Maria, não a torna deusa (o que introduziria a idéia blasfema e
herética de quarteto ou tetrandade divina). O pastor afirma que não basta
apelar para o bom senso para certificar-se se Maria é ou não senhora, mas
devemos usar a Bíblia. Essa afirmação do pastor está correta. Assim,
aprendemos que a Virgem Maria se considerava a serva do Senhor (Lucas
1,38). Que isso possa nos ensinar a praticar as virtudes daquela mulher
singular, dada como mãe ao apóstolo João, e tida por nós, assim como São
João a considerou, como nossa mãe do céu.

6.4.2. Mãe de Deus.

O pastor Joel afirma que não é necessário provar com transcrições que a
Igreja prega que Maria é Mãe de Deus, e expõe o raciocínio encontrado no
Catecismo: se Jesus é Deus e Maria é Mãe de Jesus, logo Maria é Mãe de
Deus. Salta aos olhos que o silogismo é perfeito. As premissas são
verdadeiras e seu resultado é lógico. É verdade, porém, que o homem pode
raciocinar mal com premissas corretas e tirar delas um resultado falso. Esse
não é o caso do católico, mas, evidentemente, do protestante.

De Maria foi formada e herdada a natureza humana de Cristo. E, como


mãe, ela deve, naturalmente, ser a mãe da Pessoa do seu Filho. E a Pessoa
de Cristo, que é Deus, é a Pessoa Divino-Humana, a partir da encarnação.
Maria não é mãe desde toda eternidade, mas a partir da encarnação, no
tempo.

Maria nunca foi, não é e nem será mãe da Divindade de Cristo, nem mãe
do Pai. Isso é heresia pura! A Igreja não prega isso e, portanto, não podemos
crer nesse ensino. Se isso for um motivo que alguém alegue para não ser
católico, esse “motivo” não existe e tal pessoa pode voltar, ou ingressar na
Igreja sem problemas, crendo que Maria é a mãe da Pessoa de Cristo
enquanto homem. Sendo essa Pessoa o Próprio Deus, ela é
verdadeiramente Mãe de Deus, somente nesse sentido.

A Cristologia católica não é deficiente. Maria, por ser descendente de


Adão, foi salva por Cristo, mas salva já em sua concepção, para ser a mãe
do Salvador dela própria e do mundo. O pastor rebate o silogismo afirmando
que seria ilógico, pois se Jesus é Deus e ele dormia, conclui-se que Deus
dorme (Mateus 8, 24-25), se ele disse que não poderia fazer coisa alguma,
então Deus não pode fazer nada (João 5,30) e etc. (Mateus 26,26; João
11,15; 1Coríntiso 15,3). Mas tais questões fazem parte do mistério de Deus
e não destroem o ensino da maternidade divina, que é totalmente coerente
com a sã doutrina.

Não há problema algum com o silogismo apresentado no início. Afirmar


que ele seja “ilógico” chega a ser um absurdo. Sabemos que Jesus é
verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É necessário atenção como
começou a afirmação: Jesus é... Isso significa que a pessoa que é Jesus, ou
a pessoa de Jesus, é DEUS-HOMEM. Portanto, tendo todos os atributos
divinos (onipotência, onisciência, onipresença...) em sua pessoa, possui
também os atributos humanos: certas limitações próprias da natureza
humana. É de extrema necessidade crer nessa verdade: a Pessoa de Jesus
Cristo, que é Deus, assumiu a natureza humana. Está, portanto, desfeita a
confusão. Sabemos que os protestantes creem que Jesus é verdadeiro Deus
e verdadeiro homem, mas mesmo assim caem diante dessas dificuldades
como foi evidenciado pelas colocações do pastor. O arrazoado do pastor Joel
começa bem e termina errado: Assim fica claro que católicos e evangélicos
não ignoram que Jesus é portador de duas naturezas: humana e divina.
Deste modo Maria pode ser mãe de Jesus sem ser Mãe de Deus. Ela é mãe
do lado humano do Senhor, e não da Sua Divindade. É um bom começo
reconhecer que as limitações de Jesus se referem ao seu lado humano.
Porém, a argumentação posterior, volta à estaca zero, antes mesmo do
raciocínio antecedente. Nestório assim tinha feito e estava errado. Quando
afirmou que Maria era mãe do homem Jesus, ele criou uma outra pessoa de
Cristo: uma pessoa humana juntamente com outra pessoa divina. Maria
seria mãe somente da pessoa humana. O protestantismo, fazendo a mesma
argumentação, se apega ao lado humano como que transformando-o em
outra pessoa, o que chamam de “natureza”. A verdade é que não existe
outra “pessoa” e não existe, também, tal caso de uma mãe ser apenas
“mãe da natureza” do filho. De fato, Maria é mãe da natureza humana que
subsiste na Pessoa de Jesus Cristo que é Deus. A razão nos indica que
uma mãe é sempre mãe do filho, mãe da pessoa do filho. Sendo assim,
Maria é mãe da Pessoa do Filho de Deus, que é o mesmo Deus, a Segunda
Pessoa da Trindade Santíssima, desde o momento em que se fez homem,
assumindo a natureza do homem. Portanto, conclui-se com a Sagrada
Escritura e com todo o bom senso, que Maria é Mãe de Deus a partir da
encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. De qualquer modo está desfeita
toda a confusão aludida no início da argumentação.

A Bíblia chama Maria de mãe de Jesus e mãe de Deus. De fato, a Bíblia


a chama de Mãe de Deus através da saudação a Isabel em Lucas 1, 43,
quando diz mãe do meu Senhor, que significa Deus. Desse modo, esse
parecer é indiscutível.

1. Não é opinião, nem ponto de vista. Está exarado em Lucas 1,43.


2. Ninguém é dono da verdade mesmo. Mas o que a Igreja está
ensinando tem todas as características da verdade: é bíblico, está
de acordo com o bom senso, e em conseqüência disso é tradicional,
pois a verdade não muda.
3. De fato, não é apoiado na Tradição apenas, pois está na Sagrada
Escritura.

Jesus, como foi visto anteriormente, é Deus e filho de Maria a partir da


encarnação e não desde toda eternidade. Isso ficou claro. O fato de Jesus
ter existido sempre não o impediu de tornar-se homem, nascer no tempo,
ter uma mãe humana. A argumentação do pastor trouxe certa confusão e
contradição. A Bíblia diz simultaneamente que Maria é mãe de Jesus e que
Ele não tem mãe. Isso se resolveria, segundo o pastor, com a consideração
da questão das duas naturezas. Votamos a essa questão. Mas parece que o
pastor continua na estaca zero. Primeiro: nunca é dito que uma mãe é mãe
da natureza do filho. Quanto ao texto de Hebreus 7, 3 o significado é o
seguinte: Sem pai, sem mãe, sem genealogia, a sua vida não tem começo
nem fim; comparável sob todos os pontos ao Filho de Deus, permanece
sacerdote para sempre. (Outra tradução, Almeida Corrigida Fiel: Sem pai,
sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida,
mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para
sempre.) O próprio pastor entendeu que isso se refere ao lado Divino. Como
Deus, desde toda eternidade, Cristo não tem pai humano, é claro, nem mãe,
nem descendentes, nem princípio, nem fim. Como Homem, ou Deus-
Homem, no tempo, possui princípio (quando nasceu), pai (adotivo), mãe
(em Sua Pessoa Divina e Humana, segundo a natureza humana), possuiu
um fim temporário, enquanto homem (na morte de cruz). A definição cristã
católica é clara nesse ponto, pois afirma que a divindade não foi
proveniente de Maria, que é uma criatura. Evita corretamente a heresia
nestoriana que o protestantismo parece não perceber que está adotando.
Que Cristo é criador de Maria, todos afirmamos, tanto os cristãos católicos
quanto os protestantes. Deus não dependeu de Maria para vir ao mundo,
mas, numa expressão compreensível, “quis depender”, quis fazê-la
participante dessa grandiosa graça. Como afirma um canto católico, “Maria
é esposa, mãe e filha do mesmo Deus de amor”. Ou mesmo, como disse o
pastor Joel, Deus se serviu de uma das obras de Suas mãos. É verdade que
a Virgem Maria não tinha o mérito de receber a graça que Deus a concedeu,
sendo essa graça totalmente gratuita, imerecida. Sobre a tradução de Lucas
1,28 pode-se dizer que o mais correto, mesmo quando se pensa na
grandiosa graça da maternidade divina, é traduzir como cheia de graça, ao
invés de agraciada, contrariamente ao parecer do pastor. Agora, será que os
pedidos da mãe de Jesus, sejam quais forem, devem ser atendidos, como
disse o pastor referindo-se à crença dos católicos? Ele diz: Por ser Maria a
mãe de Jesus, os católicos deduzem que um pedido dela é tiro e queda.
Pode-se dizer que Santo Afonso, são Germano e tantos outros usaram de
linguagem imprópria ao falar de muitos privilégios da mãe de Jesus.
Certamente santo Afonso não cria estar exagerando, mas o que se vê em
suas comparações é que exageros ou linguagens impróprias foram artifícios
muito usados. Assim como é citado são Germano falando da autoridade
dos pedidos de Maria, em outra parte da obra de Santo Afonso é dito que
após a ascensão, Jesus já não está sujeito à Sua Mãe. Sendo isso bíblico, é
por esses princípios que devem ser entendidos outras passagens. Se, de
acordo com Mateus 12, 46-50, somos todos família de Jesus, aqueles que
obedecem a vontade do Pai do céu, podemos pedir o que quisermos e nos
será dado. E Nossa Senhora certamente foi o modelo de uma serva que faz
a vontade do Pai, sendo apresentada nessa passagem para imitação. E
como o Reino dos Céus não é réplica do reino humano, somente as petições
que estiverem segundo a vontade de Deus é que serão atendidas, e é certo
que a Virgem Maria somente pode unir-se a nós nas intenções que atendem
esses requisitos. As palavras de Cristo em João 2, 3-4 servem para corrigir o
mal entendido dos ouvintes do Evangelho e nunca uma mal-criação à Sua
mãe, como bem entendeu o pastor. Aquela resposta, ainda, demonstrou que
Cristo antecipou a sua hora (de realizar os milagres) realizando o primeiro
sinal.

6.4.3. Imaculada

O pastor Joel inicia esse item com uma explicação heterodoxa sobre a
maternidade divina, visto que diz: Deus escolheu Maria para ser mãe do
lado humano de Seu Filho Jesus. É um erro próximo ao nestorianismo,
praticamente idêntico até, pois afirma que Maria é mãe somente do lado
humano de Cristo, e não de Cristo. Nestório, por sua vez, dizia que Maria
era mãe do Cristo homem e não do Cristo Deus. Nisso ele criava dois
“Cristos”. Assim, os protestantes “ortodoxos” tem, de certa forma, um
antecedente em sua crença: Nestório e o nestorianismo. O pastor continua
afirmando que por ser Mãe de Jesus Cristo, muitos acreditam ser ela a
mulher mais pura que já pisou neste planeta, possuidora da maior
santidade, sendo eleita por isso. O pastor deve reconhecer que é, no
mínimo, racional essa posição. Deus não se encarnaria numa mulher
pecadora; bastar pensar na Sua grandeza infinita. Mas o pastor Joel afirma
que essas considerações da santidade da Virgem Maria são frutos da
imaginação, não tendo respaldo bíblico. Por essas poucas linhas já é
possível perceber que a razão lança luz para a compreensão dessa verdade,
não sendo uma “fabricação da imaginação”, e que o pastor não foi feliz em
sua afirmação. Pelo exposto pelo autor, a Bíblia afirmaria o “contrário”, ou
seja, “que Maria é pecadora”. Mas onde estaria essa afirmação? Por sua vez,
o pastor pergunta o contrário: Onde está escrito que Maria era a mulher
mais pura do mundo? E ele imagina a resposta: “Se não o fosse, não teria
sido a única eleita”. E retruca afirmando que a pergunta permanece sem
resposta: “Nossa pergunta não foi respondida. Queremos saber onde está
escrito. Mas, como vocês apelam para a lógica, respondam-nos: Se
existissem dez donzelas tão fiéis quanto Maria, Deus faria Jesus nascer de
todas elas?” Vejamos bem. Da mesma forma como foi questionado
anteriormente, o pastor quer uma prova “escrita” para a doutrina da
imaculada conceição, enquanto que a primeira pergunta requer igualmente
uma prova “escrita” do “estado pecaminoso” da Virgem Maria. Interessante
que o pastor percebeu que existe um fundo racional nessa doutrina, pois
questionou: ...como vocês apelam para a lógica, respondam-nos. Mas a sua
pergunta não é muito oportuna: Se existissem dez donzelas tão fiéis quanto
Maria, Deus faria Jesus nascer de todas elas?” A isso responde-se que não
foi apenas a “fidelidade” de Maria que fez com que Deus a elegesse, mas
Ele a elegeu antes da sua concepção, preparando-a em todos os momentos
da sua vida para ser a Mãe do Seu Divino Filho, sendo uma predestinação
única, e Deus não prepararia várias mulheres iguais para depois escolher
uma, pois Ele é Onisciente. O pastor afirma que os sacrifícios da Lei Mosaica
(Hebreus 10.4; 9.22 Lucas 2.24; Levítico 12.68) era um tipo da morte
expiatória de Cristo, e que Maria não se julgou dispensada dos mesmos,
auto declarando-se dependente do sangue de Jesus. Nesse ponto, a
doutrina cristã católica está totalmente de acordo, pois o Salvador de Maria
é Jesus Cristo. Mas parece que o pastor não conhecia esse detalhe da
doutrina a Igreja, ou conhecia? Se conhecia, ele raciocinou como se não
conhecesse. Logo após, o autor diz abertamente: A Bíblia não diz que Maria
era a mulher mais pura que já existiu, mas os que fizeram dela uma deusa,
alegam que ela não tinha o pecado original, ou seja, a natureza
pecaminosa. Conquanto a Bíblia não afirme que a Virgem Maria tenha
herdado o pecado original, o pastor assevera que a própria Bíblia não diz
que Maria é toda santa. Qual a verdadeira doutrina aqui? Primeiro, pecado
original é a privação da graça de Deus, é estar fora da graça divina, e não a
nossa natureza pecaminosa. O pastor afirma que a nossa natureza
pecaminosa é hereditária, e Jesus é a única exceção da regra (Romanos
3.23). Deve-se entender que o pecado original é hereditário através da
natureza humana, não sendo a própria natureza humana. A prova é que
Jesus herdou a natureza humana, foi igual a nós em tudo exceto no pecado.
O pastor Joel prossegue com sua explicação: Jesus foi isento do pecado
original porque foi gerado pelo Espírito Santo (Mateus 1.20-25; Lucas 1.26-
38), mas Maria foi concebida pelo concurso natural de seus pais. E provem-
nos biblicamente o contrário, se puderem fazê-lo. Mas se o pecado original é
a natureza pecaminosa, que natureza herdou Jesus? Obviamente Ele não
teve pecado, mas, então, Sua natureza seria outra e não a humana. Isso
poderia implicar na negação da verdadeira humanidade de Cristo, embora
saibamos que o pastor Joel não quer dizer isso, visto que crê que Jesus
Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como ensina a doutrina
cristã católica. Dessa confusão se concluiria que virgem Maria não teria
herdado essa “outra” natureza. Mas toda essa dificuldade repousa na falsa
definição do pecado original. O pecado original é a privação da graça
santificante, sendo que os homens nascem fora da graça de Deus, sob o
poder do Maligno. A virgem Maria não poderia, em um só instante da sua
vida, estar sujeita ao poder do Demônio visto que fora predestinada para
ser Mãe do Filho de Deus, que é Deus, e ela comunicaria a natureza humana
ao Deus-Homem. Essa natureza não poderia estar manchada, mas pura e
imaculada. Foi isso que ocorreu. Deus, em virtude dos méritos de Cristo,
salvou a Virgem Maria, não permitindo que o poder do Maligno a tocasse,
preservando-a de toda mancha pecaminosa para ser a Mãe do Divino Filho
de Deus. A Sagrada Escritura ensina que ninguém tem o direito à graça de
Deus, nem a virgem Maria, pois mesmo ela estaria privada da graça. No
entanto, todos podemos ser postos por Deus em sua graça, pelo Sacrifício
Salvador e Redentor de Cristo. Maria foi cheia de graça no instante de sua
concepção, na própria gênese de sua existência, tudo por graça de Jesus
Cristo. Então, ela herdou a natureza humana já na graça de Deus, por obra
Dele. A virgem Maria foi concebida e nasceu de pais piedosos e santos, que
pelo concurso natural comum a todo casal, conceberam a Virgem Maria,
porém, como eram todos manchados pelo pecado original, o transmitiriam a
ela se Deus não interviesse. Assim, a virgem Maria nasceu na graça de
Deus, com uma natureza humana nunca manchada pelo pecado original e
foi essa natureza imaculada que Cristo herdou, uma natureza perfeita.
Somente Cristo é, por direito, o Imaculado, sendo que Maria foi imaculada
em vista dos méritos de Seu Filho, sendo ela mesma, como criatura, não
merecedora de tão alto benefício. Isso não é fazer da Virgem Maria uma
“deusa”, como querem os protestantes acreditar. Não era necessário
também que o pastor nos desafiasse para que mostrássemos a prova de
que Maria não foi concebida de modo natural, pois essa nunca foi a doutrina
da Igreja Católica. Estamos unidos nesse ponto. O autor nos conta que uma
católica falou que a Bíblia não fala dos pecados de Maria, embora registre
os pecados de todas as pessoas nela abordadas, o que seria um indício de
que ela foi isenta do pecado original. O pastor, porém, afirma que a Bíblia
não registra os pecados de José, Misael, Azarias, Ana, etc., o que seria válido
também pensar que esses não tiveram o pecado original. Certa vez li um
argumento semelhante num relato de conversão de um ex-pastor
assembleiano, hoje cristão católico, que desafiou a quem provasse pela
Bíblia que Maria tinha pecado. É um bom argumento, porém, não conclusivo
e não é o fundamento da fé católica. Não é o fato de que se não se descreve
“os pecados” de alguém, que esse alguém seja isento deles. Então, com
certeza, José, Misael, Azarias, Ana e outros tantos contraíram o pecado
original, exceto Jesus e Maria. É pelo teor geral do ensino bíblico que posso
afirmar isso. Os protestantes ensinam que Maria é “pecadora”, que foi
contaminada com o “vírus” do pecado, e o pastor Joel diz que isso pode
levar uma pessoa mal informada a pensar que estamos blasfemando. E para
contrabalançar, o pastor diz que grandes vultos da Igreja Católica também
pensavam assim. Cita informações do CPR_Centro de Pesquisas Religiosas_,
afirmando que Santo Tomás de Aquino e Santo Anselmo acreditavam que
Maria era portadora do pecado original, ou seja, pecadora por natureza. Cita
também um livro do Pe. Dom Francisco Prada confessando que Santo Tomás
negava o que ele chama de “suposta” Imaculada Conceição de Maria, e que
essa questão agora estava resolvida. Mas o pastor questiona a base para
concluir que finalmente findou a discussão teológica sobre esse assunto.
Segundo ele, o Padre Prada se respaldava em duas bases nada sólidas, a
primeira seria uma aparição da virgem a Bernardete Soubirous e a segunda
as próprias palavras infalíveis de Pio IX. Segundo o pastor esse dogma
“criou” um outro, ou seja, “forçou” o clero a “criar” o dogma da Assunção,
pois sendo Maria isenta do pecado, ela não tinha porquê morrer, pois a
morte é consequência do pecado. De tudo isso o pastor conclui
erradamente: À base dessa falsa premissa, a Igreja Católica proclama que
Maria morreu para nos salvar, já ressuscitou dentre os mortos e
subiu ao Céu. Primeiro, Maria não morreu para nos salvar, pois é não é
“salvadora”, nem “redentora”. É certo que ela é co-redentora com Cristo.
Esse título é facilmente deturpado, pois parece afirmar que Maria “nos
salvou” juntamente com Cristo, como que auxiliando a obra do Salvador.
Mas não é isso. Cristo nos salvou sozinho e redimiu toda a humanidade,
mesmo a Sua a mãe, que foi salva por Ele. Quando os teólogos afirmam que
Maria é co-redentora, estão apenas ensinando que Deus quis associar a
pessoa da virgem Maria na obra de salvação, como uma participante.
Porém, essa participação não acrescentou nada à obra de Cristo, pois ela
mesma estava sendo salva. A participação da virgem Maria começou com o
seu “Fiat”, na encarnação do Verbo. A obra de Cristo é toda suficiente, não
necessitando de nada e de ninguém. Para esclarecer mais, podemos afirmar
que, de certa forma, quando um pregador do Evangelho (um cristão), sofre
pela causa do mesmo, sofre por e com Cristo, em favor das almas, ele está
salvando almas, co-redimindo-as, pois está abrindo o caminho da graça
de Cristo. Somente isso. Se a linguagem é inadequada é por falta de termos
apropriados para explicar essa questão. A respeito da doutrina da Imaculada
Conceição devemos lembrar que é bíblica, portanto, antiqüíssima. No
entanto, seu entendimento não foi completamente possível senão com o
desenrolar dos séculos. Dom Estêvão relata que o povo de Deus, tanto no
Oriente como no Ocidente, desde os primeiros séculos, se comprazia de
celebrar a pureza e santidade de Maria. Os teólogos não haviam dirimido
nessa questão, pois parecia incompatível com a universalidade da Redenção
e da singular santidade de Jesus. Nessas circunstâncias, grandes santos
teólogos fizeram declarações contrárias, como Santo Anselmo, São
Bernardo e Santo Tomás de Aquino. [Estêvão Bettencourt, OSB. Imaculada
Conceição de Maria. 2004. Panfleto]. A isso, muitos podem irrefletida e
erradamente concluir que esses santos tinham uma visão comparável à
opinião protestante. Mas isso não ocorre. Santo Tomás, por exemplo, tinha
em alta consideração a santidade da Virgem Maria, crendo que ela havia
sido purificada ainda no ventre materno e que não cometeu nenhum
pecado, sendo imaculada. Santo Tomás primeiramente se pronunciou a
favor da Imaculada Conceição, mas terminou por concluir contra ela na
Summa Teológica. No entanto, ele deixou os princípios capazes de fornecer
a solução verdadeira dessa dificuldade [Enciclopédia Católica]. Se os
protestantes seguissem esse exemplo poderíamos nos unir nessa verdade
cristã. A dificuldade era que a doutrina cristã católica afirma a salvação
universal realizada por Cristo e, sendo Maria sem pecado, os teólogos criam
não ser possível uma conciliação dessa verdade com a verdade da redenção
e temiam isso fosse uma consideração de que Maria estivesse fora da
redenção, o que seria inaceitável. Essa razão explica as declarações em
contrário desses teólogos. Mas no século XIV o impasse foi resolvido por
João Duns Scoto, explicando assim a questão: pela aplicação antecipada dos
méritos de Cristo, Maria foi preservada das conseqüências do pecado
original; ela nasceu portadora da graça santificante... [Dom Estêvão]. As
dúvidas foram se dissipando até que em 1854 o dogma foi definido pela
bula Ineffabilis Deus. Antes da definição, certamente um assunto livremente
discutido, porém, as posições contrárias parecem terem sido menores.
Pode-se ler nos Sermões do padre Antônio Vieira, século XVII, sobre a
Imaculada Conceição. O padre Miranda explica Romanos 5, 12 onde São
Paulo afirma que todos pecaram. Pensar que Maria esteja fora dessa
afirmação é incompreensão da doutrina da Igreja. Pecar em Adão é ser
membro da raça de Adão, e Maria sendo dessa raça, contraiu o débito do
pecado, pecou em Adão mas não contraiu a mancha deste pecado.
[MIRANDA, Antônio. Súmula Bíblica contra os protestantes. Manhumirim,
1960]. Portanto, ela foi concebida e nasceu na graça de Deus, sem pecado.
A redenção de Maria foi preservativa. Deus não permitiu que ela
contraísse a mancha do pecado original. A explicação é clara. Voltando ao
raciocínio do pastor Joel, ele transcreve três “provas” das afirmações da co-
redenção, da ressurreição e da assunção de Maria: a primeira sendo uma
citação da Enciclopédia Católica feita na obra Será Mesmo Cristão o
Catolicismo? P. 77, que afirma que Maria experimentou sofrimento por
nossa salvação; o que é confirmado pelos apologistas protestantes John
Ankerberg e John Weldon com base na mesma Enciclopédia; a segunda é
uma citação de Ralph Woodrow que conta a respeito da ressurreição de
Maria ao terceiro dia e uma citação de Santo Afonso dizendo que Jesus
preservou o corpo de Maria, citação da obra Glórias de Maria, página 242; a
terceira e última é uma citação do Catecismo, onde é afirmado que Maria foi
assunta ao céu em corpo e alma Catecismo da Igreja Católica, página 273,
# 966, Editora Vozes, 1.993. Todas, certamente, citações verdadeiras.

***

Para finalizar esse item, o pastor afirma ter provado a doutrina oficial
católica de que Maria está no céu em corpo e alma, e que para isso deve ter
ocorrido, das duas uma: ou ela morreu e ressuscitou ou foi trasladada viva,
como o foram Enoque e Elias (2 Rs 2; Hb 11. 5). O pastor questiona: E qual
é a posição da Igreja Católica acerca desta questão? O autor afirma que
como ele havia dito, Maria morreu e ressuscitou para a nossa salvação,
embora não tenha explicado o sentido dessa afirmação, como vimos acima,
mas em suas pesquisas pôde notar que nos bastidores da Igreja circula que
Maria foi arrebatada ao Céu sem experimentar a morte, o que seria correto
se ele tivesse dito que Maria não morreu. Isso é confirmado pelos
apologistas norte-americanos citados e pela obra Roma Sempre a Mesma,
de um ex-padre, Hipólito Campos, lida pelo pastor Joel há mais de 30 anos.
O autor não cita página, edição e etc por não tê-la em mãos. Diga-se de
passagem que eu nem existia quando o pastor Joel leu essa obra. Disso
tudo, o pastor encontra uma grande “confusão”, considerando que “São”
(sic) Bernardo escreveu que Maria morreu, o que foi registrado pelo pastor
Woodrow, e existe a tradição de que ela foi trasladada. Vejamos: 1) Ela
sofreu para nos salvar, mas não chegou a morrer, antes foi trasladada viva,
sem passar pela morte; 2) Ela experimentou sofrimentos diversos e,
inclusive, a morte, por nossa salvação, mas foi ressuscitada e assunta ao
Céu em corpo e alma, como o fora Jesus Cristo. Essas são as duas
conclusões interessantes as quais chegou o pastor Joel. Depois ele
pergunta: E como a Igreja Católica administra esse emaranhado? Na
verdade não existe verdadeiramente uma “confusão” e nem um
“emaranhado”. O que existe é uma incerteza do fato. A tradição mais antiga
e a mais provável é a de que Maria passou pela morte, embora exista a
possibilidade ou é aceitável a outra posição, que é mais recente e menos
provável. O pastor depois cita a A Revista das Religiões de maio de 2005,
editada pela Editora Abril p. 30, a qual fala do dogma da Imaculada
Conceição e Assunção, de 1854 e 1950 respectivamente, que não falam
sobre a morte de Nossa Senhora, o que não é negado pelo papa da época,
Pio XII, mas que não foi definido na ocasião, sendo importante crer somente
que ela está em corpo e alma no céu. Poderíamos dizer, de passagem, que
a verdade sobre a questão não pôde ser definida, permanecendo uma
incógnita, e o papa não pôde explicitamente tomar partido de maneira
infalível. A Tradição ensina as duas coisas: a Enciclopédia ensina que a
Virgem Maria morreu e o papa afirma que conhecer isso, ou melhor, ter
certeza sobre isso é irrelevante. Como disse o pastor, o Papa Pio XII preferiu
deixar os católicos bem à vontade quanto a isso, o que poderia ser dito
mais: o papa, mesmo não negando o fato da morte de Maria, e se é fato ela
morreu realmente, ele não pode com certeza absoluta afirmar ex-cathedra
essa sua convicção, pois, na hipótese de não ser fato, e a Virgem não tendo
experimentado a morte, o papa estaria pronunciando falivelmente, o que
nesses casos é impossível que ocorra. Certamente essa não é uma verdade
revelada. É melhor que fiquemos com a mais provável e mais antiga
tradição. O pastor fala do título Co-redentora, ainda não definido
solenemente como dogma. A Revista de Religiões, à página 29, registra que
milhões de fieis de 148 países solicitam pronunciamento desse dogma, o
mais alto cargo, igualmente estaria sendo pensado em proclamar o título de
Medianeira. O pastor diz que alguém menos culto em assuntos teológicos
poderia concluir que a Igreja não prega ainda sobre os títulos citados, visto
não terem sido proclamados, estando mesmo, um deles, em fase de análise.
Mas isso, segundo o pasto, é ledo engano. Diz o autor: A Igreja Católica já
prega abertamente que Maria é medianeira. O autor chama isso de
“heresia”, cita o Catecismo, p. 274, e elabora uma questão que o leitor
poderia fazer, questionando o que falta para a proclamação dessa verdade
visto que até o catecismo aprovado pelas autoridades de Igreja já a ensina.
Para isso o autor faz três considerações: a primeira seria de que todo
dogma é doutrina, mas a recíproca não é verdadeira, e para chegar a essa
conclusão o autor citou o exemplo do dogma da virgindade de Maria que é
ensinado, mas não foi definido solenemente; a segunda consideração do
pastor é que o porquê disso, é que, segundo se crê, uma coisa é uma coisa
e outra coisa é outra coisa, palavras do autor; a terceira e última ele ironiza:
Se ainda não fui claro, saiba que o filho não é meu. Enfim, são meras
ironias. O pastor termina questionando se o leitor entendeu ou não, e se
não, aconselha a ficar tranquilo, pois o importante é crer que Nossa Senhora
foi assunta ao céu, o que é dogma infalível, do contrário se estaria
suspeitando da infalibilidade papal e já não sendo católico. A questão que
não cala na mente dos protestantes é essa que o pastor imagina para um
momento de “incredulidade” de um fiel: E como podemos saber se o Papa é
infalível mesmo? A resposta seria fácil, segundo o autor, pois ele diz: Basta
você atentar para o fato de que quem está se dizendo infalível, é o próprio,
nisso não poderia haver equívoco. O infalível dizendo-se infalível assegura
sua própria infalibilidade, bastando não pensar para “crer” nisso, e o pastor
termina afirmando que uma vez crendo nessa verdade, poderemos crer em
tudo menos no Evangelho. De fato, voltando um pouco atrás, os títulos de
Co-redentora e Medianeira não gozaram de especial definição, mas são
verdades de fé, ou seja, esses títulos traduzem, de certa forma, a fé da
Igreja. Qualquer definição não introduzirá novidade de fé. Quanto ao fato da
infalibilidade, o papa somente o é, e o pastor sabe disso ou pelo menos
conhece essa definição, em questões de fé e moral. É o próprio Evangelho,
a própria Teologia Bíblica que assim afirma, e a razão humana não depõe
contrariamente. Portanto, não foi o Papa que se auto-proclamou infalível,
mas a doutrina cristã católica de sempre assim ensinou, embora tenha sido
definida no século XIX. E crendo nessa verdade, que o Evangelho revelou,
estamos crendo nada mais nada menos que no Evangelho.

6.4.4. Nossa Mãe


A exegese cristã católica de João 19, 26-27 está totalmente de acordo com o
referido texto. “Ora, Jesus, vendo ali a sua mãe, e ao lado dela, o discípulo a
quem ele amava, disse à sua mãe: Mulher eis aí o teu filho. Então disse ao
discípulo: Eis aí tua mãe.
Nosso Senhor, na cruz, entrega Sua mãe aos cuidados de S. João, o discípulo
amado, e, daquela hora em diante, ele literalmente a leva para sua casa.
Com certeza ele a tratou como mãe, segundo as palavras de Cristo. A Igreja
tem nesse fato um exemplo, e ensina aos cristãos a acalentar nobres
sentimentos filiais para com Nossa Senhora, como o fez São João. Como
bem notou o pastor Joel, os cristãos católicos ‘Crêem que o apóstolo João
estava representando os cristãos de todo o mundo, em todos os tempos.
“Se Maria era a mãe do apóstolo João, então ela é nossa mãe também”. É
óbvio que, nesse contexto, São João teve cuidados filiais para com Maria.
Que ele não a tinha como “potente protetora” (nas palavras do autor) em
sentido físico ou espiritual, isso entende-se, como disse o pastor, pois não
foi ela quem o levou para casa, mas o contrário, desde que ele recebeu
ordem do Senhor de tê-la sob sua custódia. Porém, seu respeito e sincera
veneração pela Mãe de Deus certamente foi o início e a inspiração para essa
atitude cristã.
Segundo o pastor Joel, as leis hermenêuticas não permitem que se
“espiritualize” essas palavras, e que elas apenas ensinam a honra que os
filhos devem prestar aos pais como ele o fez. Não podemos negar que Cristo
tenha honrado sua mãe de modo sublimíssimo, pois foi fiel cumpridor dos
mandamentos de Deus. A esse respeito, porém, a espiritualização das
palavras literais de João 19, 26-27 não é excluída, visto que no Evangelho
de São João podemos encontrar palavras que, à primeira vista, pareciam ser
literais, em sentido material, mas o eram profundamente espirituais.
O catecismo afirma que a “... maternidade espiritual (de Maria) estende-se
a todos os homens que ele veio salvar. “Ela gerou seu Filho, do qual Deus
fez ‘o primogênito entre uma multidão de irmãos (Rm 8, 29), isto é, entre os
fiéis, em cujo nascimento e educação Ela coopera com amor materno. (CIC,
501). Nesse sentido, as palavras de Cristo não queriam apenas significar um
“amparo” para sua mãe e uma filiação restrita somente a São João, ou
mesmo somente aos apóstolos, mas, como ele e como todos os outros
apóstolos, a todos os fiéis cristãos, irmãos espirituais de Cristo. Cristo não a
daria por mãe ao apostolo se fosse proibido aos cristãos de tê-la como Mãe.
É importante notar que Jesus não disse “Eis aí a tua irmã” mas “Eis aí a tua
mãe”.
Além do mais, o pastor Joel reconhece que o fato de ter Maria Santíssima
por mãe não torna ninguém um “mariólatra”. Porém, nesse arrazoado ele
nega a hiperdulia. Chega até a exemplificar com Gl 3.7 e 1 Pe 3.6, textos
que afirmam ser Abraão e Sara “nossos pais na fé” e questiona: “Se Abraão
pode ser nosso pai, e Sara, a mãe das cristãs, por que Maria não poderia ser
nossa mãe?” É bom deixar claro que o pastor Joel não considera que Maria
seja nossa mãe. Embora a Sagrada Escritura atribua a filiação de todos os
crentes a Abraão, não o faz a Sara, a qual São Paulo faz apenas mãe das
fiéis e exemplares esposas cristãs, como disse o pastor: “a mãe das cristãs”.
Maria pode mesmo ser, e é de fato, nossa mãe espiritual sem problema
algum, pois não há argumento que torne isso incompatível com a doutrina
cristã, como estamos vendo.
No final da argumentação, o pastor Joel assevera que mesmo que Jesus
tivesse espiritualizado suas palavras (o que de fato aconteceu), ninguém
poderia se servir disso para fazer de Maria uma “deusa”, o que poderia ser
igualmente atribuído a Abraão e Sara. De fato, essa é uma verdade. O
cristão católico não pode absolutamente e em hipótese alguma “endeusar”
nem nossa mãe do céu nem qualquer outra criatura. O culto de hiperdulia
ou superveneração, se dá pelo fato de ela ter sido a criatura mais unida ao
Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. E essa maternidade acontece no
tempo, não é de toda a eternidade, pois a Virgem Maria não existia, mas
sua maternidade divina passou a ser realidade no Natal do Senhor e, em
relação ao Corpo de Cristo, ocorreu quando Jesus a entregou por mãe a São
João. Desse modo, não é necessário recorrer a uma “necessidade” de
preexistência da mãe.
Para finalizar, é necessário entender que as palavras de Cristo tinham total
autoridade na mente dos seus discípulos e, muitas vezes, eram entendidas
literalmente como em João 21, 22-23, sem compreenderem o sentidos das
mesmas. Nessa ocasião, após ter profetizado o modo como São Pedro iria
glorificar a Deus, as palavras de Cristo a respeito de São João deram
margem à equivocada interpretação de que ele não morreria mais,
fisicamente. Mas o fato é que São João representava os cristãos naquela
ocasião. Portanto, essas mesmas palavras, entendidas espiritualmente,
significam: “São João”, ou seja, a Igreja, não morrerá até que Cristo venha.
Ao entender espiritualmente João 19,26-27 e João 21,22-23 é possível
harmonizar a maternidade de Maria Santíssima concedida ao apóstolo João
em relação à Igreja.
6.4.5. Bendita entre as mulheres

O pastor afirma que os católicos citam o texto de Lc 1,42 para apoiar a


devoção à Virgem Maria, e diz que Maria é bendita, conforme Lucas 1.42,
mas afirma, corretamente, que isso não a torna deusa. Ele cita o caso de
Jael, chamada de bendita entre as mulheres em Jz 5,24, e diz que todos os
servos de Deus são benditos (Mateus 25, 34; Deut 28,3-6). Porém, o fato de
um anjo saudar alguém é singular, e o anjo saudou a Maria. Parece que em
nenhum outro lugar na Bíblia um anjo presta esse tipo de veneração a outro
servo de Deus.

6.4.6. Bem-Aventurada

O pastor considera irrelevante que em Lucas 1,48 a Virgem Maria


afirme que todas as gerações a chamarão de bem-aventura, pois diz que
todos os servos de Deus são bem-aventurados. Se todos os servos são bem-
aventurados por ter Cristo no coração, incluindo, entre esses servos, a
Virgem Maria, isso torna todos igualmente bem-aventurados, sem que a
Virgem seja nem mais nem menos bem-aventurada que qualquer outro
cristão. O mais importante é ter Jesus no coração, não no ventre. Essa é a
conclusão do pastor Joel, tirada de Lucas 11.27,28, onde diante das palavras
de uma mulher que se referia à Virgem como bem-aventurada por ter dado
à luz e amamentado a Jesus, o Mestre aproveita para dizer que os bem-
aventurados são os que ouvem e observam a Palavra de Deus. Mas, como
sabemos que existem graus de santidade, nem todos são igualmente
santos, e os méritos da Virgem Maria, que creu de todo o coração e
entregou-se sem reservas a Deus para o Seu plano de salvação, justifica
que a tenhamos como a mulher mais bendita, assim como Jesus, como
homem, foi o mais bendito dos homens e o exemplo máximo do servo em
obediência ao Pai. O texto evangélico aponta-nos o Bendito e a Bendita, o
que podemos entender como o mais bendito entre os homens e a mais
bendita entre as mulheres, o novo Adão e a nova Eva, tudo por obra e graça
do Bendito Salvador e Redentor e Senhor Jesus Cristo. Portanto, está
justificado o tratamento singular que os cristãos oferecem à Mãe de Deus. O
pingo d´água no oceano, como se referiu o pastor Joel ao fato da Virgem ter
Jesus no ventre, que é a maternidade divina, acrescida da sua entrega total
a Jesus, a torna mesmo uma mulher singular, pois sem deixar o mais
importante, ela não desdenhou o menos, mas foi fiel em tudo. Certamente
poderia afirmar que Jael era uma figura da Virgem Maria, e assim ela foi
bendita entre as mulheres das tendas, enquanto a Virgem Maria, por causa
da honra do seu Divino Filho, foi bendita entre todas as mulheres do mundo
(Jz 5,24; Lc 1,28). O bom senso já aponta para essa conclusão, por isso não
é despropositado traçar esse simples paralelo.

6.4.7. Rainha do Universo


O título de Rainha do Universo não contradiz a doutrina bíblica. Se Cristo
é o Rei, sua mãe pode ser, de certa forma, a Rainha. Isso não significa que
literalmente haja um trono central, como disse o pastor, no qual Maria está
assentada. Se trata apenas de uma analogia ao reinado de Cristo e à
participação de sua mãe nesse reinado, de modo especial, pois também
todos os cristãos participarão dele. Sendo que foi o próprio Deus quem
escolheu a Virgem para ser a mãe de Cristo, por obra do Espírito Santo, a
“coroação” de Maria é feita por graça da Trindade santíssima, e é isso que
retratam as imagens da coroação. Os cristãos dos primórdios certamente
não tinham Maria como uma “conserva” somente, mas a tinham como mãe
(o que é compreensível à luz de João 19,25-27), e a veneravam certamente
como a primeira santa serva de Deus em dignidade. Tudo por causa de
Cristo. Desse modo, toda a verdadeira devoção mariana é necessariamente
cristocêntrica. Isso é razoável e não contradiz os dados da revelação. Assim,
não há indícios de que os cristãos dos primórdios do Cristianismo a tinham
como uma fervorosa serva Deus, cheia do Espírito Santo e nada mais, pois
tal virtude pode ser vista em tantos outros servos e servas. Dessa forma,
Maria seria considerada uma mera serva (mesmo nessas condições
expostas acima), contrariamente ao razoável fundamento da devoção
religiosa mariana, sempre tida como a maior das devoções pelo fato de sua
maternidade divina, por ser a mãe do Salvador. Tal atitude de equiparação
da Mãe do Senhor com todos os demais servos de Deus, também não
harmoniza-se tranquilamente com o bom senso. Por outro lado, a verdadeira
devoção a Maria, que é cristocêntrica, está em harmonia com a Bíblia e a
razão.

6.4.8. Perpetuamente virgem

O pastor Joel afirma que todos sabem que a Igreja Católica prega
oficialmente que Maria nunca se relacionou sexualmente com José, e
acrescenta: Ora, quando se diz que o senhor “X” é casado com a dona “Y”,
não se especula se eles se relacionam ou não sexualmente, pois fazê-lo é
ser extremamente indiscreto. Tal era o caso de José e Maria. De fato é esse
o motivo pelo qual a Sagrada Escritura não trata dessa questão
explicitamente, mas indiretamente deixa claro que Maria fez voto de
virgindade e, de fato, teve somente um Filho, Jesus. A Bíblia não se
interessa em apresentar a vida conjugal dos casais, mas a história da
salvação da humanidade.
Mesmo que o relacionamento conjugal comum seja um dom de Deus e
não possui mácula, a vida celibatária é apresentada como superior à vida
matrimonial. Isso é Evangelho. O que ultrapassar isso é paganismo.

Portanto, a Bíblia prova que a Mãe de Jesus permaneceu virgem. Isso


não é invenção, não é apresentado somente pela Tradição e, na verdade, os
“irmãos” de Jesus eram seus primos. Se não, não é possível identificar seus
pais, muito menos afirmar que eram filhos de Maria, pois a Bíblia não o diz.
A separação dos personagens de Mateus 13,55 como sendo diferentes dos
citados em Marcos 15,40; Atos 1,14 etc não tem fundamento. Nada de
sofisma da parte cristã católica. Pode-se verificar que nunca os primos de
Jesus são chamados filhos de Maria. E a harmonia da interpretação católica
é uma característica da verdade.

[PINTO, Cláudio. Apostolado Veritatis Splendor: OS "IRMÃOS" DE JESUS:


MARIA TEVE OUTROS FILHOS?. Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/4852. Desde 07/03/2008.]

6.4.8.1. “São seus parentes próximos”

O pastor Joel inicia sua análise do dogma sobre a Virgindade de Maria


Santíssima. Ele sabe e informa que “o clero católico sustenta que os irmãos
de Jesus mencionados em Mt 13.55-56, não eram filhos de Maria; antes
tratava-se de parentes próximos.” Após essa informação, faz uma exposição
na qual acredita que a mesma “põe a frangalhos esse conto do vigário.” E o
“conto do vigário” obviamente seria a doutrina da Igreja!!!!
Então, essa doutrina cristã (crida pelos cristãos de sempre) é chamada
de “conto do vigário”, o que seria, portanto, uma “invencionice”, uma
“fábula” e etc. O leitor poderá refletir que sobre essa questão seriamente:
todos os cristãos, em todos os séculos, de maneira geral e oficial, creram na
virgindade de Maria, e que aqueles “irmãos” de Jesus, eram de fato seus
primos. Alguns na antiguidade começaram a duvidar dessa verdade por não
entenderem as passagens bíblicas que mencionam esses irmãos do Senhor.
Mas sempre foram os hereges que assim acreditavam. Nem mesmos o
protestantismo original, com Lutero e Calvino e etc., nem mesmo eles
negaram essa verdade. Ou seja, a tradição protestante mais remota é
unânime com a doutrina católica, e os protestantes de hoje, nesse ponto,
estão mais em consonância com os Hereges que surgiram a partir do 4º
século. Se se objetar que os protestantes não estão ligados aos seus líderes
históricos, os reformadores, como se esses fossem homens infalíveis, e
então não estão obrigados a concordar com eles nesse ponto, é necessário
reconhecer também que esse fato prova que a presente questão não é tão
clara e óbvia como querem os protestantes atuais fazer crer, pois seus
grandes mestres, que tinham realmente cultura altíssima e conhecimento
muito profundo das Escrituras, nem mesmo eles concordaram com o que
ensinam a maioria dos líderes do protestantismo atual. E, pelo contrário,
estavam em perfeita harmonia com o catolicismo na fé na virgindade de
Maria.
Leiamos a exposição do pastor:
É verdade que as palavras para irmãos e irmãs podem referir-se a um
parente próximo. O sentido, porém, tem de ser determinado pelo contexto
e por outros textos das Escrituras. E no caso dos irmãos e irmãs de Jesus, o
contexto indica que se trata realmente dos meios-irmãos e meias-irmãs de
Jesus.
Primeiro, em parte alguma a Bíblia afirma a doutrina da perpétua
virgindade de Maria...
Segundo, quando o termo ‘irmãos e irmãs’ é empregado em conjunto
com ‘pai’ ou ‘mãe’, então o sentido não é o de primos e primas, mas sim de
irmãos e irmãs mesmo (cf. Lc 14:26). Tal é o caso a respeito das menções
dos irmãos e irmãs de Jesus. Mateus 13:55 diz: ‘Não é este o filho do
carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão
e Judas?’ (cf. Mc 6:3). Terceiro, há outras referências na Bíblia aos irmãos de
Jesus. João nos informa de que ‘nem mesmo os seus irmãos criam nele’ (Jo
7:5). E Paulo fala de ‘Tiago, o irmão do Senhor’ (Gl 1:19). Em outra ocasião
Marcos refere-se a ‘sua [de Jesus] mãe e seus irmãos’ (Mc 3:31). João falou
de ‘sua mãe, seus irmãos e seus discípulos’ (Jo 2:12). Lucas menciona que
estavam no cenáculo ‘Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele’ (At 1:14) ”
(Geisler, Norman; e Howe, Thomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e
“Contradições” da Bíblia, Editora Mundo Cristão, página 355, 1ª edição
brasileira, 1.999).
Bem, essa foi a explicação que deveria por a “frangalhos” a doutrina
católica em questão. Mas parece que não cumpriu o que era suposto. A
doutrina católica continua inabalável, e iremos ter a oportunidade de
perceber isso ao continuarmos a análise.
O pastor continua, afirmando que os “clérigos católicos não se
inspiraram na Bíblia para criarem o dogma da perpétua virgindade de
Maria”; e que não foi uma interpretação errada: “Não, não, não!”, assevera
o pastor. Ele afirma claramente que essa doutrina foi “criada” ou
“inventada” ou fruto da “criatividade” do clero, e está na Tradição, e não na
Escritura.
Desse modo, ao refutarmos os protestantes, que negam essa verdade,
estaríamos recorrendo à Bíblia apenas para mostrar que eles a
interpretaram mal, e não para extrair a prova. Isso tornaria a atitude
protestante bem “menos errada”, pois eles estariam apenas em erro de
interpretação de uma fonte fidedigna, enquanto os católicos estariam
menosprezando-a, comparando-a igual ou inferior à Tradição (interpretada
pelo autor como “transitória”, “falível” e “contraditória”).
É bom lembrar que a Igreja não procura justificar pré-conceitos ou pré-
concepções. A Igreja vem do início do cristianismo e tem sua doutrina toda
enraizada na Escritura e na Tradição.
O pastor afirma que os textos-prova da virgindade de Maria nunca
conseguiriam provar tal fato e mal podem provar que os protestantes estão
em erro de interpretação. Além do mais, segundo o pastor, os textos estão
“deturpados”. Aqui poderíamos contradizer que esse argumento não passa
de um argumento do silêncio, e não serve nem para provar um lado e
nem o outro, pois é fraquíssimo. Não há na Escritura um texto afirmando
explicitamente a virgindade de Maria, como seria, por exemplo: Maria foi
sempre virgem. No entanto, não há igualmente nenhuma afirmação
contrária: Maria não foi sempre virgem, ou qualquer afirmação do gênero.
Além disso, há provas de que os “irmãos” de Jesus eram seus primos, e que
Maria foi mãe apenas de Jesus. E a Tradição e o bom senso confirmam esse
fato.
Enfim, o pastor considera a hermenêutica católica (desse texto), uma
“hermenêutica” tão deslavada e descabida (aspas inseridas pelo autor).
Prosseguindo, ele faz um questionamento: “Considerando que Mt
13.55 dá os nomes dos quatro irmãos de Jesus, e ainda nos fala de suas
irmãs, e supondo que estes sejam parentes próximos, perguntamos, para
que o caro leitor reflita calmamente e responda a si mesmo: Será que Jesus
tinha só seis parentes? O leitor conhece alguém que tenha só seis
parentes?”.
Embora reconhecendo que o termo “irmãos” tenha o significado de
“parentes próximos”, o pastor argumenta que em Mateus 13, 55-56 o
significado deveria ser de irmãos mesmo. Do contrário, até Maria seria
incluída entre os “irmãos” ou parentes próximos de Jesus, visto que pais,
tios, e avós são parentes próximos.
Nesse caso, o evangelista “tão-somente diria: “E não estão entre nós
todos os seus irmãos, isto é, sua mãe e os demais parentes dele?”. ”
O pastor questiona a razão para José e Maria se casarem, se tinham
votos de permanecer celibatários. À primeira vista isso é um contra-senso:
“uma donzela que quer manter-se virgem para sempre, mas não quer ficar
solteira”, o mesmo é dito de um noivo que casasse com tal noiva. O autor
até pergunta por que os padres não se casam então com as freiras, já que
são celibatários? Deixo de lado as perguntas irônicas e continuo na análise
da questão.
Embora só tenha ficado sabendo da sua eleição quando da aparição do
anjo Gabriel, Maria tinha sido eleita desde toda eternidade. Ela foi avisada,
e ficou sabendo naquela ocasião, mas Deus o sabia sempre. Seu voto de
virgindade, que suas palavras deduzem com evidente certeza, não
necessitava do conhecimento de sua eleição. Livremente e segundo o
plano de Deus, ela concebeu aquele voto. São Tomás de Aquino explica
que esse voto era, no início, relativo, pois como a virgem Maria era filha de
Israel, um de seus deveres como esposa era contribuir para o crescimento
do povo eleito. Mas no momento da aparição e após a explicação do anjo,
seu voto se tornou absoluto, visto que não tinha qualquer impedimento para
que se concretizasse perpetuamente, já que o próprio Deus o havia
ratificado através do seu mensageiro Gabriel (cf. São Tomás de Aquino.
Summa Teológica).
Por que estava desposada então? Desposada equivalia ao noivado (ou
mesmo ao casamento, segundo muitos autores). Quem faz isso quer se
casar! Certamente, Maria não queria se casar, pelo menos não há o mínimo
indício disso, e, além do mais, o isso está implícito nas suas palavras em
Lucas 1, 34.
O costume dos povos antigos de prometerem suas filhas em
casamento certamente lança luz sobre essa questão. Quanto ao serem real
e verdadeiramente marido e esposa, como afirma categoricamente a
sagrada Escritura, não devemos concluir que tenham vivido como todos os
esposos do mundo. Bastam, para entender isso, os acontecimentos
singulares que ocorreram na família de Nazaré, aptos a contrabalançar
esse questionamento. Por exemplo, Jesus é chamado, categoricamente pela
Sagrada Escritura, de o filho do carpinteiro, José, embora saibamos o
sentido dessa filiação, diverso do habitual, pois era filho nutrício, adotivo, e
ninguém concluiria, com razão, que por essa expressão (filho do carpinteiro)
devemos entender segundo ponto de vista biológico. A Bíblia não explica
detalhadamente a filiação adotiva por ser algo desnecessário, claro pelo
contexto.
6.4.8.2. “Unigênito é primogênito”

Nessa questão, o pastor procura fazer-nos refletir sobre o motivo que levou
os Evangelistas Mateus e Lucas a chamar Jesus de primogênito ao invés de
unigênito. Seria esse um sólido argumento para “provar” que Jesus não era
o único filho? Para os protestantes, pelo menos é o que parece, isso deveria
ser dito com todas as letras: Jesus é filho unigênito de Maria.

O pastor Joel apresenta as palavras do Pe. Euzébio Tintori, com as quais


concorda: Primogênito era assim denominado o unigênito para todos os
efeitos legais.” Porém, tendo em conta que o texto evangélico foi escrito
décadas após o nascimento de Cristo, supõe que o evangelista poderia ter
se expressado com a palavra unigênito, pois “já se sabia se Maria havia tido
ou não outros filhos”. E diz: “Logo, Mateus poderia chamá-lo de unigênito,
se Ele fosse filho único”, questionando a seguir: “Por que não o fez?”
Naturalmente, essa possibilidade de uso não supõe
obrigatoriedade para tal. Nem há razões explícitas para que isso devesse
ocorrer.
Bem, é oportuno informar que diversos manuscritos gregos não trazem
o termo primogênito em Mateus. {muitos protestantes dirão que se trata de manuscritos
corrompidos}. Porém, temos a palavra em Lucas. Não há razão para fugir à
explicação da mesma, o que não é uma estratégia correta. Primogênito é
um termo jurídico que significa aquele antes do qual não tinha nascido
outro (Diácono Francisco, livro Em Defesa da Fé). Pelo próprio termo,
portanto, não podemos afirmar solidamente nada contra a virgindade de
Maria. O primeiro filho era consagrado a Deus por ser o primogênito, e, para
isso, não se esperava que nascessem outros. A prova disso, por exemplo,
está em Êxodo 13, 1-2; 34, 19. O termo também não tem sua significação
baseada numa suposta expectativa de que sejam gerados outros filhos,
como se o significado dependesse dessa atitude psicológica. Portanto, de
fato, todo unigênito é primogênito, embora a recíproca não seja assim,
obviamente. Sendo termo técnico, e sendo perfeitamente usado pelos
evangelistas nesse sentido, não há razão para suspeitar de que São Mateus
tenha intencionado utilizar o termo para sugerir que Cristo não é era filho
único, ou que tenha se esquivado de usar outro termo por esse suposto
“fato”.
Não há muitos empregos do termo pelos evangelhos com respeito a
Jesus. Em João 3,16 é empregado o termo unigênito, em relação à sua
filiação Divina. Com o mesmo sentido, Hebreus 1,6 emprega primogênito.
O fato de que nas duas ocorrências que se referem ao seu nascimento
se use primogênito, é, com certeza, válido para enfatizar seu significado
definido de consagrado a Deus.
Assim, fica claro que o suposto argumento “sólido” que os protestantes
costumam apresentar, carece de qualquer solidez.
Continuando a crítica contra as afirmações do Pe. Euzébio a respeito do
significado de primogênito, o pastor Joel afirma que esse não é o único
argumento protestante. É não é mesmo. Porém, que outros argumentos que
usem sejam “irrefutáveis”, isso também não é correto afirmar.
Concluindo a seção, o pastor diz que se o argumento protestante é
fraco (segundo o padre), o contraargumento é “fraquíssimo”, pois não pode
provar o contrário, ou seja, a virgindade de Maria. Pelo que foi dito acima
essa questão já está resolvida. Agora, se o termo primogênito em Mateus 1,
25 não pode provar qualquer um dos lados do debate, resta ainda a prova
da virgindade de Nossa Senhora como uma dívida para com os
protestantes. E, por que não dizer, restaria ainda, também, provar que ela
tenha tido outros filhos, constituindo uma dívida para com os católicos.

6.4.8.3. O “Até” de Mt 1.25 não prova nada?

Existe na Tradição mais antiga, a doutrina da virgindade de Maria. É um


fato. Para sermos salvos não era necessário sabermos sobre a vida
matrimonial de José e Maria, por isso, a Bíblia não traz os detalhes desses
acontecimentos. Não haveria debates sobre a questão, de maneira
específica, se os protestantes se dobrassem aos dados que a Bíblia oferece
e se pusessem à luz da tradição na compreensão dessas coisas. O dobrar-se
diante dos dados bíblicos qualquer um cristão fiel, em tese, está disposto a
fazer. Já com relação à tradição, isso é, há muito tempo, uma questão
complicada, pois muitos a vêem como um conjunto de invencionices
humanas. É necessário que os dados da Revelação escrita e os dados
recebidos por tradição não entrem em colisão. Somente assim estaremos
ombreados pela Palavra de Deus. Quando se diz “dobra-se” diante dos
dados bíblicos, a questão ainda não se resolve, pois sabemos que a razão
humana comete falhas e pode “achar” que um certo dado é “bíblico”
quando na verdade não o é. Não é de hoje que todos os hereges arvoram-se
como fiéis à Sagrada Escritura, apresentando as mais disparatas
“interpretações”.

O pastor Joel apresenta uma “prova” clássica contra a virgindade


perpétua de Maria, que é o texto de Mateus 1, 25, o qual diz que José não a
conheceu até que deu à luz seu filho... Usando o dicionário Aurélio o pastor
mostra a definição de “até”, que se refere a um limite de tempo, no espaço
ou nas ações. Esse fato seria claríssimo para entender que após o
nascimento de Cristo as coisas mudaram entre o casal José e Maria, e só
não ficaria assim entendido se não formos tendenciosos. Concordamos que
o “até” do texto de Mateus serviria, pelo menos à primeira vista, como um
atestado claro contra a virgindade. Mas as coisas podem não ser tão claras
assim, e não por causa de uma suposta posição tendenciosa, mas por
motivos mais profundos que revelam a possibilidade de uma visão mais
relativa sobre o assunto, se se tomar como base o texto em questão. Como
bem entendido através das explicações do Padre Euzébio, citado pelo pastor
Joel, fica exposto que a Bíblia é explícita quanto à virgindade de Maria antes
do parto e que após o nascimento de Jesus há um silêncio sobre essa
questão. As fontes fidedignas para resolvermos esse assunto seriam,
também, os Santos Padres e a Igreja, que é infalível. Foi dito “também”
porque apesar do silêncio da Bíblia sobre o fato, qualquer afirmação
posterior tem de passar pelo teste bíblico para ser aceito como verdadeiro
ou falso, através de comparações com os dados da revelação. Para avaliar o
pensamento do padre Euzébio, o pastor propõe a seguinte questão: Agora,
vamos avaliar as afirmações do padre Euzébio. Se dissermos que fomos
para o Rio de Janeiro em 1970 e que lá permanecemos até 1.988, o leitor
entenderá que nunca nos mudamos do Rio de Janeiro e que lá
permanecemos até hoje? Certamente que não, mas o padre Euzébio
demonstra não pensar assim. O pastor cita também o texto de Mateus
28,20, uma prova usada pelos católicos, de que o “até” nem sempre possui
o sentido visto anteriormente. Mas o texto de Mateus 28, 20 estaria se
referindo ao apoio à evangelização mundial que cessará quando do fim do
mundo, mantendo o sentido do “até”, já conhecido. No entanto, essa
questão sobre o “até” é bem antiga. Os primeiros a negarem a virgindade
de Nossa Senhora com base nesse texto foram os hereges Joviniano e
Helvídio, no século IV. Loisy, que foi um negador do Evangelho, e não teria
escrúpulos em negar uma verdade cristã católica, afirmou que a partir
desse “até”, ninguém pode deduzir nada contra a virgindade de Maria. E
certamente esse comentário insuspeito teve como base as conotações do
“até” nas línguas originais da Bíblia, o que torna o parecer do Dr. Loisy mais
apropriado que o do Dr. Aurélio, que define o significado do termo em
português. Esse sentido diferente do termo “até”, que certamente é o que
está em Mateus 1,25, é bem nítido em 2 Samuel 6,23, onde é dito que
Micol, filha de Saul, não teve filho até a sua morte, o que seria ridículo
concluir que Micol tenha dado à luz depois de morta e enterrada, tendo por
“prova” o até do texto. Pelo contexto, pode-se perceber claramente que São
Mateus não tinha intenção alguma de afirmar nada sobre o futuro
relacionamento do casal Maria e José, mas apenas enfatizar a concepção
virginal de Jesus no ventre de Sua mãe. É sobre esse pressuposto, bem
razoável, que podemos afirmar que o texto não depõe contra a fé da Igreja
nessa questão. A explicação do pastor Joel sobre o significado do “até” em
Mateus 28,20, que não estaria se referindo à permanência de Cristo com os
apóstolos e discípulos, enfim, com a Igreja, mas que tinha por objetivo tratar
do tempo da ação evangelizadora, é um significado que não traz nenhuma
conseqüência contra a fé e se harmoniza bem com o texto, sendo, portanto,
uma interpretação válida também. Tendo em vista a permanência de Cristo
com a Igreja, essa não cessará nunca, já quanto à sua assistência à
evangelização no mundo, essa terá fim quando tarefa chegar ao seu
término. Agora é necessário concordar também, à luz do contexto, que São
Mateus não teria motivos de informar qual foi a relação do casal após o
Natal, uma preocupação irrelevante, mas que tinha em mente provar a ação
exclusiva do Espírito Santo na concepção do Filho de Deus no ventre da
Virgem Maria. Nesse caso, o “até” não traz o sentido de futuro, mas olha
apenas para o passado. Assim como em Gênesis 8, 7, onde está dito que
Noé soltou o corvo, e que esse não voltou à arca “até” que as águas
baixassem. Pelo contexto, Moisés não tinha em mente informar se o corvo
voltou ou não à arca, algo sem relevância, mas dizer somente que o corvo
não voltou (e não voltou mais), sem indicações futuras. Quaisquer outras
elucubrações contraditórias a isso não encontram suporte nessa passagem.
E a respeito da confissão do padre Euzébio de que é através dos Padres e da
Igreja que nos certificamos da virgindade de Maria, o pastor conclui que os
protestantes tem razão em dizer que não é lendo a Bíblia que aprendemos
tais coisas, baseado nas mencionadas palavras do padre. A alusão de que a
Igreja diverge de seus santos em alguns assuntos, é correta, pois os santos
não possuem infalibilidade. Mas a divergência entre os santos e a Igreja é
diversa da divergência entre os protestantes e a Igreja, pois quando do
pronunciamento ex-catedra muitos deveriam ceder de suas posições
divergentes, e os santos estavam dispostos a isso. Quanto ao direito de
divergir, isso não pode ser tirado. Mas na Igreja, temos de ter o espírito de
humilde submissão, estudar e abraçar a doutrina que é proposta. Temos,
também, como os protestantes, compromisso com a Bíblia. E é por isso que
podemos continuar filosofando nossas crenças e práticas juntos. Mas isso
não significa que não tenhamos de nos submeter às decisões eclesiásticas,
como foi dito, como se se tratasse de um juízo privado, mas que temos o
direito de estudar e compreender os motivos de um ensinamento ser como
é. Se a Igreja ensina que Maria permaneceu virgem, vamos estudar e
compreender melhor a questão e responder as objeções. A Igreja é infalível,
é doutrina bíblica, mas nem por isso nós devemos crer cegamente em tudo,
sem qualquer reflexão. O pedido de explicação, que o pastor Joel fez, é
válido e necessário. Devemos crescer na fé que uma vez por todas foi
entregue aos santos (Jd 3). A virgindade perpétua de Maria implica que ela
permaneceu literalmente virgem, e se para isso for necessária uma
explicação do que significa ser virgem, deve-se dizer que o hímem não foi
rompido, algo um tanto desnecessário (em si) tornar claro, mas certamente
foi dito para expressar que mesmo o corpo físico de Nossa Senhora ficou
intacto E como estamos raciocinando, não é pecado detalhar. Certamente é
isso que faz com que os teólogos tragam essas ponderações, uma
“elucubração” que foi vítima das sátiras de Erasmo de Roterdã. De qualquer
forma é dogma de fé que Maria foi virgem antes do parto, no parto e após o
parto. Por isso é que se compara o nascimento de Cristo como um raio que
atravessa um cristal sem maculá-lo [PRADA, Francisco. Novenário. São
Paulo: A M Edições. 3 ed., 1996, p. 66_citado pelo pastor Joel]. Se a questão
do “hímem” e do “relacionamento” entre os esposos da sagrada família é
tão irrelevante, e de fato o é, entende-se a razão para que isso não tenha
sido exarado nas páginas sagradas, e, por isso, não é necessário brigarmos,
basta que os protestantes creiam nas legítimas interpretações da tradição
cristã, harmônicas com a Bíblia, mais antigas (embora antiguidade em si
não é critério de verdade), e sempre cridas na Igreja, unam-se aos cristãos
católicos na fé de sempre e, nesse caso, deixem de desobediência à Igreja
nessa questão (e em outras), o que faz diferença, e que entendemos ser
necessário para a salvação (porque leva unidade de fé_doutrina),
considerando que quem ouve a Igreja, ouve a Cristo. Ficou patente que a
Bíblia, bem interpretada como foi mostrado nessa crítica, não deixa dúvidas
sobre a virgindade da Virgem Maria.

6.4.8.4. Voto de castidade?!

O pastor cita o parte do padre Euzébio Tintore (no aludido Novo


Testamento por ele comentado) e do bispo Dom Mateus Rocha (este, revisor
de uma Bíblia de estudo editada “Com aprovação eclesiástica” pela Edições
Paulinas [editora católica]), que explicam que Maria fez voto de virgindade,
o que está implícito na pergunta que fez ao anjo Gabriel sobre como poderia
engravidar, visto não conhecer varão. Seria essa explicação parcial, sem
levar em conta Lucas 1, 27 e por isso diz o pastor: Mas eles se esqueceram
que Lc 1.27 diz que Maria era desposada, isto é, noiva. Ora, será que já
existiu neste mundo uma noiva tão ingênua que não soubesse que
virgindade e casamento são incompatíveis? E se sim, seria Maria uma
dessas ingênuas? Que pensam eles de Maria? Pois bem. Os casamentos na
antiguidade, especificamente na cultura judaica, seguiam modelo diverso
do existe hoje, principalmente na cultura ocidental. A jovem Maria estava
prometida em casamento a um jovem, José. A virgem Maria não tinha
“sonho de casar-se e gerar filhos e etc.”, e nem há vestígio disso. Pelo
contrário. Certamente, sua vocação não era o matrimônio. A sua pergunta
ao anjo não tem outra explicação razoável senão que ela tinha profundo
desejo de permanecer virgem. Portanto, não se tratava de ingenuidade, mas
de algo que se harmonizaria plenamente, como sempre, no projeto divino.
Quando o anjo anuncia-lhe o plano de Deus, ela expõe sua dúvida, que é
logo respondida para que não se preocupasse, pois Deus é quem iria
realizar tudo. Era plano de Deus que Seu Filho nascesse de uma virgem
casada, pois, era inadmissível na sociedade da época a existência de mães
solteiras, e não era Deus quem o iria introduzir, e muito menos que uma
noiva fosse culpada de traição, o que resultaria na pena de morte pelo
apedrejamento. Isso explica o motivo de José, varão justo e, naquele
momento, desconfiado de ter sido traído (desconfiança desfeita
miraculosamente por um anjo que lhe apareceu em sonho), pensar em
abandonar às escondidas sua noiva. É isso o que a Igreja pensa sobre a
Virgem Maria.

6.4.8.5. À “Bíblia” finalmente

O pastor afirma que dificilmente se recorre à Bíblica para provar a


virgindade perpétua de Nossa Senhora, como se isso fosse uma “regra”,
dizendo que existem exceções, e nessas exceções a Igreja “tentaria” dar
razões desse dogma à luz da Bíblia. É bom lembrar que a regra sempre foi a
Bíblia e a Tradição.

“O Filho”

Citando um catecismo, distribuído pela Arquidiocese Militar de Brasília,


o pastor mostra um argumento usado na p. 30 do mesmo para provar que
Jesus é o único Filho de Maria: “Jesus é o único Filho de Maria mostrado
ainda pela designação enfática (com o artigo), ‘O Filho de Maria’ (Marcos
6.3)”. Então, o pastor diz: Quer-se dizer com isso que o fato de Jesus ser
chamado de “o” Filho de Maria ( o artigo “o” realmente consta do original)
prova que Ele é filho único dela. Após isso, o pastor explica que o artigo não
se destina a provar isso, e que esse argumento seria ou ingenuidade ou má
fé [dos clérigos], pois seria uma ignorância das regras da língua grega ou
um fingimento disso. O artigo definido, afirma o pastor, não tem finalidade
única demonstrar unicidade, mas também destacar individualidade. Uma
prova disso seria que na mesma passagem Jesus é chamado de “o
carpinteiro”, razão que faz o pastor questionar: Revelaria erudição
deduzirmos daí que nos seus dias, Jesus era o único carpinteiro do mundo?
Pensem e repensem nisso os padres sinceros. Depois afirma que aqui o tiro
sai pela culatra e o feitiço vira contra o feiticeiro, mostrando que em Gálatas
1, 19, o apóstolo Tiago é chamado de “o irmão do Senhor”, da mesma forma
que a passagem comentada anteriormente, o artigo consta do original. Se
em Mc 6,3 o artigo tivesse a função de indicar unicidade, também o seria
em Gálatas 1, 19, sendo que Tiago seria considerado o “único irmão de
Jesus”. Mas filho único não tem irmão, e como a Igreja ensina que os irmãos
de Jesus são, de fato, seus primos ou parentes próximos, concluiríamos que
haveria contradição na Bíblia, afirmando que em Mateus 13,55 Jesus tinha
quatro parentes e em Gálatas 1, 19 somente um. Vejamos a dificuldade que
o pastor apresenta: Afinal, Tiago era irmão único, ou parente único? Se os
clérigos católicos disserem que era parente único, terão que se ver com Mt
13.55, visto dizerem que “os irmãos” aqui aludidos são parentes próximos.
E, se disserem que era seu único irmão, lá se vai a eterna virgindade de
Maria, pois que então Jesus teria dois parentes chamados Tiago: um primo e
um irmão. Logicamente não havia um só Tiago naqueles dias, reconhece o
pastor, e o autor sabe ainda que um Tiago, irmão de José e filho de Maria e
Cléofas era parente de Jesus, mas afirma que recorrer a isso para provar
que os personagens de Mateus 13, 55 eram parentes de Jesus, revela o
desespero do clero. Diante de tudo isso, poderíamos afirmar as dificuldades
apresentadas podem ser resolvidas. O uso do artigo é somente mais um
indício da verdade do dogma da perpétua virgindade de Maria, pois isso o
texto citado traz o advérbio ainda “...mostrado ainda”, pois existem muitas
outras provas. Embora o artigo tenha a função de designar, também, a
individualidade, indica da mesma forma, como o pastor reconhece, a
unicidade. Mas seria isso desprovido de sentido em Marcos 6,3? É
importante considerar o fato de que há evidência de que São José, o
carpinteiro de Nazaré, já havia falecido naquela época, e isso explica porque
Jesus é chamado de “o carpinteiro”, com artigo. Segundo o padre José
Bortolini existem opiniões recentes que afirmam que o fato de Jesus ter sido
chamado de “o filho de Maria” não indicaria necessariamente que José tinha
morrido. Mas, se não é necessariamente verdadeiro continua sendo uma
hipótese de valor, podendo ser verdadeiro, e, além do mais, é o
entendimento mais comum e compreensível durante a história, acredito.
Isso significa que, naquela região de Nazaré, José era certamente o único
carpinteiro, e após sua morte, Jesus tornou-se o carpinteiro. Não se exclui a
existência de carpinteiros em todo o mundo da época, mas somente na
pequena cidade de Nazaré. Desse modo, ao dizer que Jesus é “o Filho” de
Maria, a unicidade pode realmente estar sendo intencionada. Os estudiosos
cristãos católicos tem conhecimento da língua grega e, como cristãos, não
costumam “fingir” ou usar de artifícios enganosos para quaisquer fins, como
insinuou o autor. Quanto a Gálatas 1, 19, o artigo tem por função diferenciar
o Tiago, filho de Zebedeu, do Tiago “irmão” do Senhor, explicando assim o
uso do artigo sem se chocar como Mateus 13,55. O assunto não é o número
de parentes do Senhor, mas mostrar qual dos apóstolos foi visto por São
Paulo em sua viagem a Jerusalém. São Paulo tinha ido a Jerusalém para
visitar São Pedro, e lá, não viu outro apóstolo a não ser a Tiago, o irmão
do Senhor, contrastando-o com o outro Tiago apóstolo. Então, o artigo em
Gálatas 1, 19 não poderia indicar mesmo a unicidade no sentido de que o
apóstolo era o único parente de Jesus, mas pode ser entendido como o
único Tiago apóstolo parente de Senhor. Tendo o artigo as funções de indicar
unicidade e individualidade, se entende as duas passagens dentro do
respectivo contexto e do conhecimento prévio que temos da questão. Como
dito anteriormente, o artigo não é a única prova ou evidência, pois nem
todos os apologista recorrem a ele em suas defesas, como não o fez o Padre
Wrosz, nem o Frei Battistini. Então, percebe-se que se o tiro saiu pela
culatra e o feitiço virou contra o feiticeiro, a culatra e o feiticeiro não estão
do lado católico. Que artigo em Marcos 6, 3 tem seu valor a favor da posição
cristã católica nessa questão, isso tem!

6.5. A “Virgem” e os carismáticos.

Se o catolicismo é contra a idolatria e a mariolatria, não pode haver


católico carismático “mariólatra”. Se existem é porque estão mais
desorientados do que nunca. E para piorar copiam coisas reprováveis de
protestantes pentecostais. A falta de critica nesses movimentos é muito
alta, talvez por isso chegam a dizer Aleluia a Maria. Sobre o fato de
chamarem a Nossa Senhora de Estrela da Manhã, que é título bíblico de
Cristo, Porta do Céu e etc., são termos bem tradicionais usados na ladainha.
Não devem ser entendidos ao pé da letra, mas como uma linguagem
ornamentada para refletir a devoção cristã para com a mãe de Jesus. Falar
que Maria está presente em todos os grupos de oração é linguagem
imprópria, muito imprópria. Para tal fato seria necessária a onipresença que
só Deus tem. Sabemos que Deus permite que as orações dos santos da
terra sejam conhecidas pelos santos do céu, mas os santos não podem estar
presentes em mais de um lugar ao mesmo tempo. Quanto ao trocadilho
usado pelos católicos, parece que é uma resposta aos protestantes, que não
são devotos à Nossa Senhora. São palavras pouco críticas.

6.6. Maria-de-menos e Maria-demais?!

O pastor Joel defende a posição protestante oficial, a que deve ser seguida
pelos autênticos protestantes. Ele não concorda com a seguinte afirmação
de certo pastor:“ De uma forma geral, o povo evangélico menospreza Maria.
Nós temos de dar as mãos à palmatória, pois de uma forma geral, nós
evangélicos zombamos e ridicularizamos a figura de Maria” (J. Jacó Vieira,
Em Defesa da Virgem Maria, produção independente, página 13_citação do
livro do pastor Joel.). Para defender a posição protestante ele diz que entre
os evangélicos há os que o são de fato, bem como os falsos. Considerando
isso, o mesmo pode ser dito dos católicos, pois há católicos de fato e
católicos falsos, nominais. Ele prossegue dizendo: Conseqüentemente, é
possível que haja entre nós alguém que não tenha para com Maria o
respeito que lhe é devido. Contudo, se há, são tão poucos que ainda não
encontramos sequer, um. É um “fato” interessante, pois católicos sempre
observam desprezo para com Nossa Senhora entre os protestantes,
chegando a conhecer protestantes que expressam esse desprezo. De modo
semelhante, os protestantes sempre percebem “mariolatria” nos católicos,
embora a Igreja afirme que não ensina adorar criaturas, mas somente a
Deus. O pastor diz já ter conhecido crentes que consideram Maria-demais,
que seriam resquícios do catolicismo, mas não conhece quem possa ser
acusado de Maria-de-menos entre eles. Portanto, o pastor Joel conclui que
seu colega pastor se equivocou na sua observação. Talvez, como explicou o
pastor Joel, possamos entender as atitudes anti-marianas dos protestantes
como um desprezo pela “idolatria”, não uma desprezo por Maria, e seria
isso que os católicos estariam “compreendendo mal”. Mas, também, pode-
se dizer que são atitudes não-críticas de católicos, certamente nominais em
sua maioria, que sempre provocam reações entre os protestantes,
incapacitando-os de compreenderem a posição católica verdadeira. Assim
diz o pastor: Todos os verdadeiros evangélicos amam e respeitam a Maria,
mas desdenham o culto a Maria, bem como às suas estampas e estátuas.
Desse modo não haveria justiça em acusar os protestantes de ensinar o
Maria-de-menos e, muito menos, o Maria-demais. Maria seria considerada
uma valorosa varoa para os protestantes. No entanto, deve-se questionar o
modo pelo qual os protestantes expressam essa sua atitude “positiva” para
com Nossa Senhora, visto que não é natural que os conteúdos internos de
nossa alma não venham à tona em gestos concretos que os expressem. A
posição oficial protestante, como mostra o pastor a respeito do que os
protestantes creem, é que a Virgem Maria foi manchada pelo pecado
original (os textos-prova seriam: 1Rs 8.46; Sl 14.3; Rm 3.23, etc.), e que ela
reconheceu sua pecaminosidade (o pastor cita Lucas 1,47). O texto citado
de São Lucas não fala de pecaminosidade, mas revela que a Virgem Maria
reconhece a Deus como seu Salvador. Isso é ensinado pela Igreja. Para
tanto, não era necessário que ela estivesse manchada pelo pecado, mas era
suficiente uma atitude de criatura diante do Criador, uma criatura que tinha
sido liberta por Deus de toda a corrupção pecaminosa, uma necessidade de
toda a criatura humana, o que se deu na sua concepção. Assim, vemos que
Lucas 1,47 não ensina necessariamente que Maria tenha contraído o pecado
original, o que nos faz perceber que essa noção da pecaminosidade de
Maria tem outra origem, que são os pressupostos teológicos adotados em
contrário à doutrina cristã católica, não a Bíblia. Os textos bíblicos usados
por católicos e protestantes podem ser os mesmos, a divergência será no
entendimento deles, em consequencia da teologia (protestante) adotada. O
pastor Joel, falando das graças que Nossa Senhora recebeu diz: A graça
concedida a Maria é muito grande, mas nenhuma graça divina nos
transforma em deuses. Quanto a isso não seria necessário dizer que os
cristãos católicos convergem plenamente, pois é sabido que não devemos
colocar ninguém no lugar de Deus. Quanto à posição protestante em relação
aos servos de Deus, afirma o pastor: Nós, os evangélicos, amamos e
honramos a Maria tanto quanto amamos e respeitamos a Moisés, Abraão,
Elias, Hulda, Débora, Pedro, Paulo, João, etc. Mas é sintomático que todos
esses outros nomes ocupem grande parte dos sermões, nos púlpitos,
enquanto que Maria parece ser raramente lembrada, a não ser quando se
faz referência às “idolatrias” católicas. Ela não ocupa lugar especial e, além
disso, parece ocupar um lugar que faz lembrar o que o outro pastor disse, o
de Maria-de-menos, que talvez seja uma conseqüência inconsciente no meio
protestante, como sendo um modo de “evitar” falar de Maria. Essa posição
é tida entre os protestantes como a atitude correta, a de “deixar” Maria no
seu “devido” lugar, humilde e realista, no qual ela mesma se pôs. De
qualquer forma o pastor assevera que entre os verdadeiros protestantes
ninguém coloca Maria-de-menos, alguns até podem ser tidos como tendo
Maria-demais, o que seria o único desequilíbrio. Quanto a isso, há
protestantes que já expressaram o desejo de ver a Virgem mais reconhecida
pelo protestantismo, como nos informa o pastor Joel. Mas a respeito da
acusação de Maria-de-menos, o pastor propõe a pergunta: Se realmente
estamos deixando a desejar no apreço devido a Maria, como erroneamente
crêem os que nos acusam de Maria de menos, perguntamos: Não fizeram os
apóstolos o mesmo?. Essa pergunta parece negligenciar o fato de que não
há prova de atitudes dos apóstolos que se assemelhassem às atitudes
protestantes. Os pressupostos que o protestantismo adota é que os faz
“ver” isso. A Bíblia é um livro que trata da história da salvação, tendo Cristo
como centro. Tudo converge nele. As palavras que revelam a pessoa da Sua
mãe a mostram como uma criatura muito especial (e os protestantes o
reconhecem) e os indícios de tratamento dos apóstolos para com ela,
podem ser deduzidos de textos como João 19,25-27, no qual Jesus a entrega
como mãe ao apóstolo João. É natural que os cristãos dos primórdios
lembrassem dessa maternidade ensinada por Cristo e reconhecida pelo
apóstolo João, e, na imitação do apóstolo, o culto religioso da Virgem Maria
se desenvolveu. É verdade que não encontramos nada, nas páginas do
Novo Testamento, que seja contrário ao culto mariano. Um culto explícito
também não está exarado, e as menções à pessoa da Virgem são muito
limitadas. De fato, muitas coisas somente estão implícitas na revelação. No
entanto, a dedução lógica que legitimamente pode ser tirada é a de que os
cristãos iniciaram na era apostólica o culto de veneração da mãe do Senhor
e não o contrário. A notícia de que uma senhora “católica” disse não gostar
da Bíblia porque o livro não dá a honra devida a Nossa Senhora, é de se
deplorar. Não se pode negar que uma devoção desorientada a tenha levado
a tal posição. E é igualmente verdadeiro que a falta de cultura bíblica
fomentou tal parecer. E é triste que esse possa ser o parecer de tantos
“católicos” por aí (“católicos”, entre aspas mesmo). Quanto aos diversos
títulos marianos, chamados pelos protestantes de “mariolátricos”, os quais
são Nossa Senhora, advogada dos pecadores, medianeira entre Deus e nós,
Rainha do Universo, digna de Hiperdulia, nossa Mãe, nossa intercessora..., e
que nenhum protestante concorda, se forem entendidos como os
protestantes entendem, como sendo um “endeusamento” de Maria, os
católicos deveriam concordar nesse ponto e rejeitá-los. Se, no entanto, o
sentido dos mesmos forem como ficou explicado nessa crítica, parece que
os protestantes deveriam concordar, pois não trazem heresia alguma os tais
títulos. E se as palavras são importantes, o sentido das mesmas parece que
são importantíssimos. Não adianta manter as palavras sem conservar o
sentido. Como por exemplo, os testemunhas de Jeová acreditam no Espírito
Santo, o qual é escrito com letras minúsculas (espírito santo) na sua
tradução da Bíblia (Tradução do Novo Mundo), mas o entendem como uma
“força vital” de Deus, e não como uma Pessoa Divina, portanto, negam a
Santíssima Trindade. Não adiantou acreditar no “espírito santo” para que
pudéssemos convergir com eles nessa questão. Se houvesse apenas
mudança de nomes, conservando-se o sentido, não haveria problema. O
contrário é que é inadmissível. A parte final desse tópico é importante
reproduzir aqui e analisá-la em seguida. O pastor Joel afirmou: Se realmente
estamos deixando a desejar no apreço devido a Maria, como erroneamente
crêem os que nos acusam de Maria de menos, perguntamos: Não fizeram os
apóstolos o mesmo?. Os apóstolos enfatizavam o nome de Jesus e falavam
de Maria só de passagem. O apóstolo Paulo chegou a dizer: “Porque nada
propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”
(1Co. 2.2). E por que teríamos que falar mais das virtudes de Maria, do que
de outros heróis da fé? Moisés, Jó, Daniel, Paulo, Misael, Ananias, Azarias e
outros, foram menos virtuosos do que Maria? Se sim, em que ela os
sobrepujou? Além disso, não é Cristo nosso modelo maior de perfeição?
Lembre-se: Maior do que Maria, é o fruto de seu ventre (Jesus); e que tê-lo
no coração é mais importante do que tê-lo no ventre. Esta não é apenas a
opinião deste autor; antes se refere ao parecer infalível de Jesus (Lucas
11.27,28). A indizível felicidade de ter Jesus no ventre, foi exclusiva de
Maria; mas a inefável bênção da salvação é comum a todos os verdadeiros
cristãos, inclusive a Maria. E é esta, a bênção que faz diferença. A postura
protestante acusada como Maria de menos não pode ser comparada com a
atitude apostólica. Então a resposta à pergunta do pastor é: não, os
apóstolos não fizeram o mesmo que os protestantes fazem! Sendo que a
Bíblia trata de Cristo, e isso é dito pelos teólogos católicos, como D.
Estêvão, entende-se que o personagem central é Cristo, e que todos os
outros personagens orbitam esse centro. Agora, basear-se nas menções
passageiras de Maria na Escritura para deduzir que ela era uma
personagem sem predileção especial ou que não tenha recebido devoção
religiosa é um critério inválido para deduzir o culto mariano naquela época.
Obviamente quando se escreve a respeito da Virgem Maria nos dias de hoje,
o seu nome aparece mais “incrementado” ou numa linguam floreada, com
títulos como Virgem Santíssima, Nossa Senhora e etc. As menções bíblicas
eram mais “simples”, porém, de significado igualmente profundo. Por
exemplo, falando da encarnação de Cristo, São Paulo diz em Gálatas 4,4 que
Ele nasceu de uma mulher. O título mulher foi pronunciado na cruz (João
19,25-27), lembrando Gênesis 3,15, o protoevangelho, onde Cristo é predito
como a semente da mulher que esmagará a cabeça da Serpente. E outras
passagens a chamam de mãe de Jesus, como em Atos 1,14, falando da
reunião no cenáculo à espera da vinda do Espírito Santo. A Bíblia não traz
explicitamente qual era os sentimentos dos apóstolos e discípulos pela mãe
de Jesus, e assim não diz que eles a tinham como uma “conserva” apenas,
nem diz que a tinham com o status em que é tratada hoje na Santa Igreja
Católica. Há, portanto, um silêncio sobre esse sentimento de veneração,
pelo menos explicitamente. Para deduzi-lo, porém, as “menções
passageiras” ao nome da mãe de Jesus no Novo Testamento não indica
nada. Já o sentido dos acontecimentos da sua vida permite uma dedução
segura de que os primeiros cristãos a veneraram de forma especial, e que a
devoção cristão a ela tenha iniciado muito cedo, na era apostólica. É uma
explicitação das passagens como a de Cristo a entregando como mãe a
João; sua intercessão pelos noivos em Cana; a mulher de Apocalipse 12
(mesmo essa passagem sendo considerada primeiramente como
simbolizando a Igreja), e que mesmo sendo negado pelos protestantes que
essa figura apocalíptica trate de Maria, é difícil ou mesmo impossível ler o
relato de Apocalipse 12 sem que venha à mente a Virgem Maria, mãe do
Varão que governará as nações com cetro de ferro, a não ser que se
negasse, infundadamente, que o menino nascido não era Cristo. Portanto, é
impossível negar que os primeiros cristãos tenham tido uma veneração
religiosa especial para com a mãe do Senhor, recorrendo-se a um juízo a
priori. Estabelecido isso, é fácil comprovar, com os escritos subapostólicos,
o reconhecimento da figura de Maria no culto cristão como essencialmente
é mantido na Igreja Católica. Diante disso, a pregação apostólica usando
exclusivamente o nome de Cristo, não nega o culto de veneração a Nossa
Senhora e nem aos santos, pois se trata de questão diversa. Realmente é
Cristo crucificado que devemos receber. É verdade que a figura de Maria
sobrepujou a de todos os outros heróis da fé. Ela foi digna, por pura graça
de Deus, de ser a Mãe do Deus feito Homem. É uma razão que fala por si
mesma. É justo que seu nome seja reconhecido como o mais importante
entre os nomes dos santos servos de Cristo, não apenas por sua
maternidade física, literal, mas espiritual também, pois ela se entregou
totalmente a Deus, e como conhecedora de Sua palavra, como está exarado
no Magnificat, ela não deve somente ser honrada como a mãe biológica do
Cristo, mas como aquela que cumpriu a palavra de Deus de maneira
exemplar: Eis aqui a serva do Senhor... (Lucas 2; 11,27-28), sendo o
exemplo mais perfeito entre as criaturas, que soube seguir o perfeitíssimo
modelo que é Jesus Cristo. E a idéia de se imitar seres humanos em suas
boas ações é doutrina bíblica, como dizia São Paulo: Sede meus imitadores
como eu o sou de Cristo (Tessalonicenses). Os protestantes reconhecem
essa verdade. Um cântico da missa do natal diz o seguinte: O Cristo já
nasceu na gruta de Belém, mas é preciso ainda nascer em nós também
(naqueles que ainda não o receberam). E a Ave Maria tem o seu ponto mais
alto quando diz: Bendito é o fruto do seu ventre, JESUS. Portanto, essa é a
doutrina católica oficial, ensinada por Cristo. Então, podemos concordar com
as palavras do pastor Joel, quando disse: Maior do que Maria, é o fruto de
seu ventre (Jesus); e que tê-lo no coração é mais importante do que tê-lo no
ventre. Esta não é apenas a opinião deste autor; antes se refere ao parecer
infalível de Jesus (Lucas 11.27,28. Que Nossa Senhora teve Cristo no
coração antes de tê-lo no ventre, já diziam os santos Padres. Ela a teve no
coração, depois no ventre, até o nascimento de Cristo, e continuou para
sempre tendo-O no coração. Isso é o que devemos imitar, pois cabe
também a nós ter o Cristo no coração, ter a benção da salvação de Cristo
em nós, como teve a Sua mãe. Voltando àquela pergunta do pastor: Que
outra honra podemos tributar a Maria, além do que já fazemos, sem nos
tornarmos mariólatras? A honra que os protestantes afirmam tributar à
Virgem Maria é insuficiente, pois ainda a consideram como uma pecadora,
equiparam-na com outras mulheres santas, apesar de ela ter recebido honra
sem igual por ser a mãe do Salvador do mundo, não reservam a ela nenhum
lugar na liturgia e tantas outras coisas. O conceito que os protestantes tem
da mãe de Jesus Nosso Senhor é errôneo, parcial e, portanto, insuficiente
para uma mariologia correta. O erro é crer que os devidos tratamentos para
com Nossa Senhora são erros da mariologia católica, antes que um
desenvolvimento natural do cristianismo original. Aceitem a imaculada
conceição, a maternidade de Maria com relação à Igreja, a sua intercessão,
de acordo com a vontade de Deus.... Essa é a doutrina católica de sempre.
Isso não é mariolatria. Somente seria assim se a considerassem como
“deusa”, “fonte de graça”, “salvadora”, como se tivesse acrescentado algo
ao sacrifício de Cristo (o que não pode ser deduzido,da doutrina católica) e
etc.
6.7.1. A bênção da existência

Todos os católicos devem saber que a veneração que temos para com a
Virgem Maria é devido ao seu papel de mãe de Jesus, é por Ele que tudo
tem sentido e é nele que tudo deve convergir.

6.7.2. A bênção de ter um marido temente a Deus

O pastor iniciar imaginando os “sonhos” que a Virgem Maria tinha:


Basta-nos ler Mt 1.18-25; e Lc 1.26-38, para sabermos que Maria, por ser
uma moça normal, sonhava com o que todas as donzelas sonham: tornar-se
esposa e mãe. Os textos não permitem tirar essa conclusão. É certo que até
padres já escrevem algo parecido, a respeito do sonho de Maria de ser
esposa e mãe, mas é justamente o contrário que pode-se concluir da
Escritura. Certamente a Virgem Maria tinha em seu íntimo o voto de
castidade, de maneira relativa, pois não poderia ir contra a lei de Deus, se
fosse do Sua vontade que não permanecesse virgem. Mas como o anjo a
tranqüiliza dizendo que a concepção de Jesus seria obra do Espírito Santo,
então ela se entrega como a serva do Senhor e o milagre acontece. Entre a
serva bendita Jael e a serva bendita Maria, a razão nos diz que a graça de a
Virgem Maria recebeu transcende em grau muitas vezes à que recebeu Jael.
(Juízes 5.24; Lucas 1.28)

6.7.3. A bênção de ser mãe

Segundo a Bíblia, enquanto Maria tomava as medidas necessárias para


casar-se com o homem de seus sonhos _ o seu amado noivo José _, foi
surpreendida com uma notícia angelical de que ela havia sido eleita por
Deus para ser a mãe do Salvador do mundo. A Bíblia não relata que esse era
o sonho de Maria e como foi visto acima essa tese é infundada. É certo que
os noivos já tinham plenos direitos de se relacionarem como esposos. A
pergunta de Nossa Senhora se torna incompreensível se não considerarmos
que havia um voto de virgindade: “Como se fará isso, visto que não
conheço homem?”, (Lc 1.34,35). Em Jz 13, 4.5.7, o anjo anuncia à esposa de
Manoá que ela conceberia e teria um filho. A mulher era estéril. Das
palavras do anjo, que são óbvias, a mulher não questionou sobre como
poderia ela engravidar:
5 Porque eis que tu conceberás e terás um filho sobre cuja cabeça näo
passará navalha; porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre;
e ele começará a livrar a Israel da mäo dos filisteus. A mesma anunciação
foi feita à Virgem Maria, que estava desposada com o varão José: 31 E eis
que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pór-lhe-ás o nome
de Jesus. Como iria casar-se era lógico esperar filhos, ainda mais que o anjo
estava anunciando. Veja que a esposa de Manoá não questiona, mas vai
contar ao esposo o que o anjo dissera. Já a Virgem Maria logo revela sua
dificuldade diante daquele mensageiro de Deus (v.34). Então a Virgem
pronuncia o fiat (v.38). O Espírito Santo faria todo o trabalho e por que não
daria ao esposo José o dom da castidade? Tudo é possível para Deus. Vê-se
assim que a pergunta feita ao anjo não foi porque estava “noiva”, pois o
anjo só disse que ela iria conceber, o que é óbvio a uma mulher casada, não
estéril e em relacionamento normal com seu esposo. Os noivos já tinham
direitos matrimoniais, poderia dizer que eram “casados” que ainda não
moravam juntos, o que clareia ainda mais a questão. Deve-se concordar
com o pastor Joel quando diz: O fato de Maria tornar-se mãe do Senhor, fez
dela a mais bem-aventurada mãe de todos os tempos, pois ter um filhão da
envergadura de Jesus é, sem dúvida, uma felicidade infinita. Agora quando
diz que teve outros filhos (Mateus 13,55-56), volta-se à estaca zero. A
felicidade infinita da Virgem Maria em ter o seu Filho Jesus dispensou-a de
qualquer felicidade adicional de ter outros filhos. Ela foi a mãe mais
completa que já existiu, como seu filho primogênito e unigênito. E sobre os
supostos “filhos” de Maria que não criam em Jesus (Jo 7,5), que por não
crerem em Jesus estariam correndo perigo de condenação, mas que se
converteram depois (At 1,14), é somente incompreensão dos fatos. Aqueles
eram os seus primos e não irmãos. Esse quadro imaginário é destituído de
fundamento.

6.7.4. A bênção de ser serva de Deus

Os católicos concordam nesse ponto.

6.7.5. A bênção da humildade

O mesmo pode ser dito desse tópico também. E, graças a Deus, Maria
se pôs entre os que sabem que nada somos e que só Deus é grande. Ela
disse que Deus “atentou na humildade de sua serva” (Lc 1.48). O
exemplo perfeito de humildade de uma criatura que se tornou desde a
concepção filha e serva de Deus.

6.7.6. A bênção do batismo no Espírito Santo

A promessa que Deus fez na instrumentalidade do meu xará, de


derramar o Espírito Santo sobre toda carne (Jl 2.28), se cumpriu no dia de
Pentecostes (At 1 e 2); e Maria estava entre os agraciados At 1.14). Sim,
Maria recebeu a promessa que João Batista e Jesus chamavam de batismo
no Espírito Santo (Mt 3.11; At 1.5), e falou em outras línguas (At 2.4). A
Virgem Maria que tinha, desde a concepção, o Espírito Santo, foi coberta
pelo poder de Deus, teve Jesus no ventre e agora participa da recepção do
Espírito Santo junto com a Igreja.

6.7.7. A bênção de ser um exemplo de vida

O pastor Joel explica com tons que lembram um sermão católico: A


fidelidade de Maria é um estímulo a todos nós. A sua vida inspira fé e amor.
Tal se dá porque se ela pôde ser fiel, todos podemos sê-lo também, já que
ela era um ser humano normal igual a todos nós; e não um anjo, tampouco
uma deusa. O católico deve concordar que Virgem Maria é um ser humano
normal, porém sem pecado, pois foi santificada na concepção. Isso não tira
sua liberdade, por isso é exemplar sua vida. Lembre-se que Eva pecou
mesmo sendo pura, pois obedeceu ao Diabo. Pelo contrário, a Virgem Maria
obedeceu a Deus em todos os sentidos. Ela não foi um anjo, nem semi-
deusa, nem muito menos deusa.

Outro exemplo que lembra um verdadeiro sermão católico são essas


palavras do pastor Joel: Inspiremos, pois, no belo exemplo de Maria e
deixemos que o Espírito Santo “gere” Cristo em nossos corações!

A diferença está em que o protestantismo não a considera como Mãe, mas


como irmã; não a considera como Nossa Senhora, embora saibamos que
esse título é popular, não tem a conotação de uma Senhora no sentido
semelhante ao senhorio de Cristo, mas é apenas uma forma carinhosa dos
cristãos de tratarem a virgem Maria, e assim deve ser sempre, pois o que
passar disso está errado. Ela, a serva do Senhor, não é caminho de salvação
mas um brilhante exemplo a ser imitado, o que converge com a doutrina
católica. Ela não é a luz, mas pode ser luz como todo cristão pode ser, e,
certamente, sua luz brilha muito mais pela sua perfeita obediência a Deus.
O pastor continua dizendo: ela não é nossa medianeira, mas foi por seu
intermédio que o Pai enviou ao mundo o único Mediador entre Ele e nós. Ela
não pode salvar, nem perdoar, nem fazer nada por nós, a não ser é claro,
rogar por nós a Deus em nome de Jesus. O pastor aconselha amar a Maria e
a todos os servos de Deus do passado, do presente e do futuro, mas cultuar
somente a Deus. Deve-se dizer que esse culto a Deus é o de latria,
enquanto que o culto de veneração aos servos de Deus pode ser mantido,
desde que não ultrapasse seus limites, mas é intrínseco à vida cristã.
Portanto, hiperdulia, dulia e latria não são modas iventadas, mas apenas
uma maneira de entender melhor as coisas. Segundo o pastor, a hiperdulia
não existe e a dulia é o serviço sagrado a Deus. Devemos concordar. Mas
compreende-se que é permitido a dulia aos serviços, é que essa dulia
singular à mãe de Jesus, à qual foi acrescentado o prefixo hiper para
mostrar o nosso amor a Jesus. A Virgem Maria só recebe tamanha honra por
ter sido escolhida por Jesus, ela não seria lembrada se não fosse por causa
dEle. Isso é cristianismo católico. O resto, o que ultrapassar isso, é
mariolatria deslavada.

6.7.8. A bênção da salvação

É certo que a Virgem Maria necessitava do perdão e da salvação, mas


tudo isso ocorreu na concepção, preservando-a do pecado. Foi Cristo quem
a salvou. Ela correspondeu à graça de Deus durante toda a sua vida e foi
levada ao Paraíso celeste. Sabemos que Adão e Eva foram salvos pro Cristo
assim como todos os homens que existiram, que existem e que existirão,
portanto não é difícil aceitar que a Virgem foi salva antes do sacrifício ter
sido consumado na cruz (2 Cr 6.36; Sl 14.2-3; Rm 3.23; Gl 3.22; 1 Jo 1.10). O
pastor diz ainda: E ela foi suficientemente realista para admitir isso e
refugiar-se em Cristo, em cujo sangue carmesim lavou-se, tanto do pecado
original, quanto de suas culpas pessoais. Esse reconhecimento que o pastor
Joel apresenta aqui, de que a Virgem Maria admitiu sua dependência de
Cristo, que ela lavou-se do pecado original em seu Seu sangue está
corretíssima. As culpas pessoais não chegaram a ocorrer, pois já não tinha
mais o pecado original e continuou obediente a Deus em tudo. Tudo por
graça de Deus. Como filha de Adão a Virgem Maria estaria sob o pecado
original, mas foi salva no momento de sua concepção, pois estava sendo
preparada para ser a mãe de Cristo. O pecado original não é a natureza
pecaminosa hereditária não é o pecado original, mas é afetada por ele. Veja
que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, herdou a natureza
humana imaculada, pois não era sujeito ao pecado original.

6.7.8. A bênção da salvação

O pastor Joel fala salvação que Nossa Senhora recebeu, reconhecendo-


se necessitada de um Salvador, e que ela o encontrou em seu Filho Jesus.
Isso está corretíssimo (Jo 14.6; At 4.12). Uma prova é Lucas 1,47. O pecado
maculou a todos, sem exceção (2 Cr 6.36; Sl 14.2-3; Rm 3.23; Gl 3.22; 1 Jo
1.10). Devemos compreender somente que Maria foi isenta de pecado em
vista dos méritos de Cristo na cruz, não tendo ela direito algum nisso, tudo
por pura graça divina. Jesus foi o Salvador de Sua própria mãe. O perdão do
pecado de Maria ocorreu no instante mesmo da sua concepção, e por isso
ela nasceu imaculada. Sendo imaculada em sua concepção, não cometeu
pecado pessoal por graça de Deus. Mas o pastor Joel traz a definição de
pecado original bem diversa daquela entendida desde os primórdios da era
cristã: Sim, a natureza pecaminosa hereditária, conhecida pelo nome de
pecado original, é um vírus que nos é comum, mas suas desastrosas
conseqüências não nos afetarão na eternidade se, como Maria, recorrermos
a Cristo enquanto há tempo. (Pastor Joel). Se o pecado original fosse a
natureza pecaminosa hereditária, Cristo não o teria “perdoado”, pois todos,
como sabemos, somente somos livres dela (da natureza pecaminosa)
quando da hora da morte. E essa natureza Cristo herdou sem o pecado
original. Portanto, o pecado original não é a natureza humana, mas está
nela, e pode ser apagado dela. As conseqüências do pecado permanecem,
como o sofrimento, a concupiscência e etc., mas o pecado não. O pastor Joel
lembra o bispo Santo Irineu, que, falando da Virgem Maria, disse:
obedecendo, se fez causa de salvação tanto para SI como para todo o
gênero humano” (Citado em Compêndio do Vaticano II, 29ª edição,
Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 2000, página 106, # 144. Grifo nosso (PR.
Joel)). Aqui o pastor “brinca”, ironicamente: Ora, se até os santos católicos
tinham a mesma opinião dos evangélicos, então não estamos tão errados
como alguns católicos pensam. Podemos até, a qualquer momento, sermos
também canonizados pelo Papa, não? De fato, nesse ponto, de que Nossa
Senhora foi salva por Cristo, estão de acordo os cristãos católicos e cristãos
protestantes. E das palavras de Santo Irineu, o pastor Joel diz: O fato de
Irineu dizer que Maria foi “causa de salvação, ... para todo o gênero
humano”, não faz dela nossa Co-Salvadora, já que Paulo afirmou que se
Timóteo vivesse o que pregava, ele (Timóteo) se salvaria tanto a si mesmo
como aos que o ouviam (1Tm. 4:16). As palavras de santo Irineu, que
mostram Maria como salvando a si mesma e também a todo o gênero
humano, são iguais à de São Paulo em 1 Timóteo 4, 16, onde o bispo é dito
como podendo salvar a si mesmo como aos que o ouvissem. Isso é o que
chamamos de co-redenção de Maria dando a ela o título de Co-Redentora, o
que também, em algum grau, pode ser dito dos cristãos empenhados em
salvar almas. Está, portanto, respaldada na Bíblia a doutrina de que Maria é
co-redentora, somente nesse sentido dito anteriormente. É óbvio que Nossa
Senhora não se torna por isso a “salvadora” do gênero humano, e nem de si
mesma, como ninguém pode assim tornar-se. O que esse textos querem
dizer é que,_e isso não foi explicado pelo pastor Joel_, nós cooperamos com
a graça de Deus, deixando que Ele nos salve, e trabalhando para que salve
outros (foi dito “deixando”, para indicar o nosso livre arbítrio). É isso que diz
1 Timóteo 4,16 e, por que não lembrar, também é o que afirma S. Irineu.
Isso não é usurpação do lugar de Deus, mas efetivação do plano que Ele
mesmo deixou para o homem. O pastor Joel diz ainda que concordou (ele e
os colaboradores da obra) com Santo Irineu em seu parecer (de santo
Irineu) porque estava respaldado na Bíblia, a única fonte a qual devem
compromisso, pois do contrário o tachariam de falso profeta, assim como
fez a Igreja Católica condenando doutrinas de Orígenes. De fato, os cristãos
católicos concordam com isso, pois essa é uma norma cristã, pois o que não
está em harmonia com a revelação desse ser descartado, seja qual for a
fonte.

6.8. Maria através dos séculos

O pastor Joel admite que os cristãos sempre amaram, elogiaram e


imitaram a Virgem Maria, mas acusa os “idólatras” de terem-na como
deusa. A tese de que a federação de igrejas do século II foi corrompendo-se
e fazendo sincretismo religioso já foi tratada em 1.1. É certo que o culto do
santos mártires data do primeiro século, certamente também o culto dos
anjos. O culto à Virgem Maria já deveria ter alguma expressividade nessa
época. Os erros que surgiram na época de Constantino não fazem parte do
patrimônio católico. Afirmar que o fingimento deu origem ao catoliscismo é
uma posição errônea. O certo é que muitos fingidos entrou no catolicismo,
como entra em qualquer igreja ou religião, seja ela falsa ou verdadeira, e
que esses tais fingidos se serviram da verdadeira religião para fugir das
condenações que os imperadores estavam dispensando. Afirmar que a
Igreja teria surgido propriamente no século IV em diante é outro erro, como
já foi visto nessa crítica. Se há quem diga que por volta do ano 130 d. C. os
cristãos prestavam culto à Virgem Maria, é um indício que nos leva a crer
que não se tratava de novidade, mas de desenvolvimento da verdadeira
veneração mariana. Nessa época muitos cristãos que conviveram com os
apóstolos ainda viviam e não perceberiam inovações sem que
protestassem. Então, o devido respeito à Virgem Maria e o culto impróprio
dos pagãos modernos são realmente distintos.

O primeiro é cristão católico e o último é “católico nominal”, mas como


ambos são antigos, o primeiro é mais antigo ainda pois vem do 1º século. O
pastor Joel reconhece que o anjo Grabriel foi o primeiro a venerar a Virgem
Maria, seguido por santa Isabel. Assim é que os cristãos fizeram sempre. O
pastor diz que a mariolatria começou no 3º século ou, mais
acentuadamente, do 4º em diante. De qualquer forma cremos estar de
acordo com os cristãos do primeiro século que devotaram um culto de
veneração condizente com a doutrina cristã.

6.9. A virgindade de Maria e a Arqueologia

As palavras finais desse tópico podem ser totalmente adotadas pelos


católicos, inclusive para o assunto em questão: Depois de tudo isso,
consola-nos a verdade maior de que qualquer descoberta científica que
corrobore com os ensinos bíblicos, é, para nós que temos uma experiência
pessoal com o Senhor, como uma gota d’água no Oceano, embora
reconheçamos a sua importância. E de nenhum valor é, qualquer suposta
ciência que queira pôr em xeque a veracidade bíblica. Se nós, que tempo
experiência pessoal com Cristo, temos a virgindade de Maria como fato
verdadeiro e, por isso, inquestionável, qualquer suposta ciência que venha
negá-lo, não tem valor. Cada descoberta científica verdadeira é importante,
mas para o católico essa descoberta do tal ossuário não tem cientificidade
comprovada. E de fato não tem, para qualquer investigador imparcial. Já
para um protestante, qualquer mera ilusão sobre essa questão particular,
que contribui para a negação da virgindade de Maria, é acatada mesmo sem
escrúpulos, o que é natural, pois é vista como uma razão a mais para suas
crenças. O mesmo pode ser dito dos cristãos católicos. É verdade que a
ciência verdadeira não pode contradizer a Bíblia. Esperemos maiores
esclarecimentos sobre esse fato.

A história realmente nos ensina que devemos ter uma certa dose de
desconfiança de tudo e de todos, como diz o pastor. Todo achado
arqueológico verdadeiro estará de acordo com a Bíblia. Desse modo, sob a
perspectiva católica, pode-se afirmar que a arqueologia pode também
ajudar os protestantes a entender que não há provas arqueológicas
contrárias à virgindade de Maria. O caso do ossuário que contém uma
inscrição que fala de um Tiago filho de José e irmão de Jesus não concluiu
nada contra a doutrina católica. O pastor apresenta questões interessantes:
Uma pessoa que tivesse sob sua guarda os restos mortais de Tiago, não
poderia guardá-los numa urna antiga? O fato de a inscrição não datar do
século I, prova cabalmente que se trata de uma gaiatice? De fato, a
inscrição não é verdadeira (do 1º século) e se o achado continua sendo de
importância, é igualmente digno de nota que o ponto principal que poderia
ser usado contra a virgindade de Maria foi provado ser falso ou altamente
questionável, o que ainda está de acordo com a Bíblia que nunca apresenta
filhos de Maria. Aliás, nem mesmo a inscrição diz isso. No entanto é verdade
que se a inscrição fosse verdadeira poderíamos supor que Maria teria tido
outros filhos, mas nem assim poderíamos ter a questão como conclusiva,
pois não traria novidade, já que há uma tradição que apresentam os irmãos
de Jesus como sendo filhos que José teria tido em casamento anterior. Nada
comprovado.

6.10. A respeito dos “milagres” da “virgem”

Que os anjos e santos tenham a possibilidade de um certo


conhecimento do que se passa na terra, é uma verdade que se pode deduzir
da Bíblia. Certamente Deus os informa de coisas que estão segundo Seu
plano de salvação. Não há um mandamento e nem uma proibição para que
façamos ou não orações de pedidos de intercessão aos santos do céu. No
entanto, a sã doutrina não apresenta nada contrário a essa prática, mas,
pelo contrário, torna-a compreensível e aceitável, tendo por fundamento a
comunhão de todos os santos. Realmente sem fé não se obtem a graça
pedida (Tg 1,6-7), mas os santos não precisam saber se aquele que está
orando tem fé ou não, pois quem atenderá o pedido é Deus, que é
onisciente. Os santos não podem nos dar nada, pois, como diz o teólogo D.
Estêvão, eles não são fontes de graça. Do mesmo modo nós não temos o
dever e nem a possibilidade de saber se os nossos irmãos tem fé ou não
quando nos pedem que orem por eles, o que não nos inviabiliza desse dever
de interceder por eles. O mesmo pode ser dito dos santos dos céu. Se os
pagãos tem o costume de fazer pedidos aos deuses ou aos antepassados,
somente prova que tal inclinação é humana, e tem a possibilidade de ser
encontrada em qualquer tempo, cultura ou religião. A doutrina bíblica não
oferece obstáculo a essa prática. Deus ensinou que os santos da terra
podem ser intercessores ou “mediadores”, de alguma forma, e desse
princípio se deduz que os santos do céu o podem também sem problema
algum. Isso não é invenção arbitrária dos papas. Os cristãos primitivos já
oravam aos santos, como atesta a arqueologia, por exemplo. O princípio de
tudo isso foi revelado então (Amos 3,7; Is 8,20). Dizer que os cristãos
primitivos não recorreram aos santos é um tanto inexato. A arqueologia traz
comprovações. A Bíblia silencia-se sobre o assunto, portanto, não é certo
que desse silêncio se tire a conclusão de que tal atitude é proibida, nociva
ou que nunca tenha sido tomada pelos cristãos. O motivo porque não pode
ser tirada tal conclusão é devido ao fato de que a prece de intercessão aos
santos do céu não derroga em nada a mediação única de Cristo. Não é pelo
fato de ser um argumento do silêncio apenas. Sabemos que a Bíblia à vezes
não traz explicitamente uma proibição sobre certas coisas, mas, pelo
contexto geral da Escritura é correto concluir que tal coisa é ou não
verdadeira ou lícita. Isso não acontece com a questão da intercessão dos
santos, pois essa não é intrinsecamente má ou errada, mas é sadia é
logicamente útil. Por tudo isso, a afirmação de que os cristãos primitivos não
recorreram uma única a esse expediente é improvável. É correto que tudo o
que está registrado na Bíblia é suficiente para nos dar vida, para a nossa
salvação (2 Tm 3,15-16 e Jo 20,30-31). Por isso, a intercessão dos santos
não é necessária á salvação. Ir além do que a Bíblia manda significa, antes,
ir contra o que ela manda, e a intercessão dos santos do céu não contradiz
nada do que foi revelado.

6.11. Afinal, Maria salva ou não salva?

A pergunta acima tem embutido o objetivo de “demonstrar” que a


Igreja estaria “ensinando” que, no final das contas, é Maria quem “salva”. O
pastor tenta “cumprir a promessa” de “provar” as incoerentes afirmações
eclesiásticas sobre o múnus salvífico de Maria. Segundo ele, a Igreja estaria
fazendo 4 afirmações incoerentes simultaneamente: a primeira é a de que
Maria não salva, a segunda é que Maria ajuda Cristo a nos salvar, a terceira
afirma que Maria salva mais do que Cristo, e a quarta declara que é só
Maria salva. Pelo que podemos ver, a primeira é realmente cristã católica, a
segunda poderia ser, se houver o entendimento ortodoxo da afirmação, a
terceira é herética e a quarta é pior ainda. Compreenderemos melhor na
crítica dos próximos itens.

6.11.1. “Maria não salva, pois Jesus é o único Salvador”

O pastor escreve: A literatura oficial da Igreja Católica diz


categoricamente que Cristo é o único Salvador: “Jesus Cristo, único
Redentor e Salvador nosso...” (Compêndio do Vaticano II. Petrópolis:
Vozes. 29 ed. 2000, p. 101, # 136);. Podemos ver que até aqui, nada há de
errado, pois essa é a doutrina cristã católica.

6.11.2. “Maria salva juntamente com Cristo”

O pastor relembra o exposto no item 6.1.3 do seu livro, sobre os


panfletos que afirmam ser Maria a “salvadora”. Logo após ele cita as
palavras de Nossa Senhora em sua aparição aos pastorinhos portugueses,
no ano de 1917: O meu Imaculado coração será o teu refúgio e o caminho
que te conduzirá até Deus {grifo acrescentado pelo pastor}. Ao afirmar que
essas são informações oficiais, o pastor cita o Catecismo, p. 274, que fala do
múnus salvífico de Maria e de seus títulos: advogada, auxiliadora, protetora
e medianeira. Sendo assim, interpretando essas palavras em conexão com
as anteriores [expressas em 6.11.1], Maria seria a “co-salvadora”, o que
faria de Cristo um “co-salvador”, logicamente. A salvação seria pelo
sacrifício de Cristo e pelos “rogos” de Maria, que ajudaria Cristo a nos salvar.
O pastor confessa a sua confusão, um pouco irônica: Aliás, confesso que
não sei se é ela que ajuda a Cristo, ou se é Cristo que ajuda a ela. Ou se
trataria de dois adjuvantes, um auxiliando o outro? É preciso saber que se a
doutrina da Igreja afirma sem rodeios que Cristo é o único salvador, é
porque é isso mesmo, sem sofisma, sem sombra de dúvida: só existe um
nome pelo qual podemos ser salvos, e esse nome é o de Jesus (Atos 4,12).
Quanto ao múnus salvífico de que fala o catecismo, Maria o tem em grau
mais elevado que nós, por ser a Mãe do Senhor Jesus Cristo, que é Deus.
Portanto, esse múnus é essencialmente o mesmo que cada um de nós,
cristãos, temos. Talvez não tenha ficado claro. É o seguinte: nós também,
assim como os santos no céu, possuímos esse múnus salvífico, quando
rogamos a Deus por alguém, pela conversão das almas e etc. Se formos
atendidos, e Deus conceder a conversão àquelas almas por nossa
intercessão, estamos de alguma forma auxiliando ou contribuindo para
aquele ato de Deus, agindo com o múnus que Deus concedeu às Suas
criaturas. Então, quer dizer que salvamos os outros ou ajudamos a Cristo?
Depende: se for no sentido de que acrescentamos algo ao sacrifício de
Cristo, então a resposta é um infinito e sonoro NÃO! Porque é impossível
acrescentar algo ao infinito, e o sacrifício da Cruz é infinito, não
necessitando de nada mais. Agora, se for no sentido de que, segundo o
plano de Deus, participando da comunhão dos santos, podemos pedir as
graças necessárias aos irmãos, então a resposta é sim, pois Jesus nos deu
esse encargo, por Sua graça. Assim, fica claro que a Virgem Maria, estando
no céu, sendo a Mãe de Cristo, pode alcançar, dentro dessa comunhão dos
santos, as graças que Deus ofereceu para que pudéssemos receber,
segundo o Seu eterno plano de associar a Seus atos as criaturas. Aliás, é um
principio cristão de que a oração do justo tem grande eficácia e
ninguém pode negar que a Mãe de Jesus tem elevado grau de justiça e
santidade. (Tiago 5, 16). [tradução Bíblia Ave Maria]

6.11.3. “Maria é a principal Salvadora”

O pastor passa a citar agora as palavras floreadas de Santo Afonso, que


se não atentarmos bem e contextualizá-las, podem mesmo nos levar a
dificuldades sérias como aquelas apontadas pelo pastor Joel. O texto citado
é o seguinte:“Quando nos dirigimos a esta divina Mãe, não só devemos ficar
certos de seu patrocínio, mas às vezes seremos até mais depressa
atendidos e salvos chamando pelo nome de Maria, do que invocando o
santíssimo nome de Jesus, nosso Salvador” (Glórias de Maria, op.cit., p.
118.) [grifo acrescentado pelo pastor]. O pastor Joel conclui, a partir desse
texto, que Cristo salva, mas não tão rápido e eficiente quanto Maria, sendo
que a salvação seria de Cristo e a rapidez e a eficiência seriam de Maria, e
que para os apressados é só recorrer a Maria, enquanto que aos outros, que
esperem por Cristo. Isso é um absurdo, uma conclusão perigosa e falsa,
embora seja assim que o texto fora de seu contexto global nos levaria a
concluir. Certamente não pode ser assim. É Cristo o único e suficiente
salvador do mundo, que prontamente, com toda a rapidez e eficiência, nos
salva a todos. As palavras de Santo Afonso devem, necessariamente, ser
entendidas com o olhar para o ser humano, no sentido de que somos tão
imperfeitos e pecadores que nossa pequenez nos afasta do santíssimo
Salvador, e, nessa circunstância, um pedido de alguém especial e santo,
poderá “agilizar” aquilo que nosso estado deplorável estaria impedindo.
Assim, a ênfase não é na infinita e perfeita misericórdia de Cristo, sempre
disposto a socorrer àquele que se dirige a Ele, mas, repetimos, a ênfase
está na fraqueza e pecaminosidade humana, entendida como um empecilho
para alcançar a graça. A intercessão é já um plano divino, permitido e
aconselhado por Deus. Sendo assim, o salvador único e suficiente e perfeito
é somente o Senhor Jesus Cristo. Finalmente, o pastor usa de ironia
afirmando que o ofício de Jesus é julgar e punir, ofício que o “Pai lhe Deus”
[uma alusão às palavras de Santo Afonso] e, por isso, não sendo sua
especialidade a salvação, haveria “demora” nesse ofício! Meras ironias,
nascidas de incompreensões justificadas, obviamente, mas que devem ser
vistas e entendidas segundo o santo Evangelho. Jesus Cristo é nosso único
Salvador e Redentor.

6.11.4. “Maria é a única Salvadora”

Agora, para finalizar, o pastor volta a usar as floreadas palavras de Santo


Afonso, naquele sentido errôneo que vimos anteriormente e que foi
devidamente explicado acima. O pastor relembra que em 6.1.1 ele
apresentou um texto do livro Glórias de Maria, interpretado por ele como
sendo a prova de que é ensino oficial, registrado nessa obra, que Maria é a
“única” “salvadora”. Logo já podemos notar que se fosse assim a
incoerência seria gritante: a Bíblia e o Catecismo da Igreja Católica afirmam
categoricamente, sem rodeios, sem sofisma, objetivamente que Jesus Cristo
é o único e suficiente Salvador e Redentor. Maria não poderia nunca
acrescer uma til à obra do Divino Salvador. Vejamos, no entanto, o texto
citado: “Consistindo o reino de Deus na justiça e na misericórdia, o Senhor
dividiu: o reinado da justiça reservou-o para si, e o reinado da misericórdia
o cedeu a Maria”. E: “O Eterno Pai deu ao Filho o ofício de julgar e punir,
e à Mãe o ofício de socorrer e aliviar os miseráveis” (pp. 36 e 37.
Grifo nosso). E diz mais:“Vós sois a única advogada dos pecadores” (página
105. Grifo acrescentado pelo pastor). O pastor usa de mais ironias aqui,
dizendo que se você quer ganhar chibatadas, vá a Jesus Cristo mas se você
quer cafuné, então recorra a Maria. Ou melhor (ou pior, diria), o pastor diz
os que se dirigem a Jesus são condenados, sendo salvos somente aqueles
que vão a Maria, como se isso fosse o pensamento de Santo Afonso.
Barbaridade! Isso seria terrível concluir. Cristo é a fonte de toda bondade,
de toda misericórdia, de toda justiça, de toda luz, de toda graça, de tudo
que podemos pensar que mais perfeito que exista. Como poderia ser seu
oficío diminuído a tal ponto de não poder ser misericordioso, mas apenas
terrível juiz? Certamente nem Santo Afonso pensava assim, visto que em
sua obra citada, ele afirma que Cristo é o misericordioso salvador, mas que
se o pecador se achar indigno e temeroso de recorrer a ele, não receie pedir
a intercessão de Nossa Senhora. Porém saiba que, a salvação é proveniente
unicamente Dele, que pagou o preço do resgate por nós na cruz. Aquelas
palavras tão doces e suaves não devem levar a tão drástica conclusão.
Infelizmente o povo mal instruído poderia pensar assim, imaginando uma
falsa “dureza” no Divino Salvador, no estilo, mais ou menos semelhante, da
cena final do Auto da Compadecida. Quem sabe até católicos “instruídos”,
que, se concebem assim, continuam “mal instruídos”. Nos temos o mesmo
Jesus profetizado na Antiga Aliança, nascido de mulher [Gl 4,4], a Virgem
Maria, não um “jesus” diferente.
De fato, o pastor afirma que talvez o clero tente de defender, alegando que
não é bem assim. É uma previsão lógica, pois as coisas não são assim, como
vimos, e a defesa se torna necessária. Que Deus auxilie o clero a produzir
uma defesa santa e objetiva com relação a essa questão. Mas já podemos
ver que as coisas são diferentes, são conforme o ensino oficial expresso no
Catecismo da Igreja Católica. Contudo, o pastor parece ter certa razão
quando afirma: Mas, se as palavras ainda dizem alguma coisa, é isso que
diz o livro do Bispo Afonso... Podemos ver que se não forem interpretadas à
luz da doutrina cristã católica, as palavras de Santo Afonso poderiam
ensinar o que não pretendiam (é uma opinião minha), pois se assemelham
ao que o pastor Joel entendeu, tornando-se assim uma heresia de perdição.
Conclui-se assim que as palavras de Santo Afonso são metáforas que tem
por fim ressaltar o papel de Nossa Senhora no plano de Deus, embora sejam
exageradíssimas e (gostaria que não fossem) até mesmo blasfemas. E o
fato do clero canonizar o autor, elevá-lo a Doutor, aprovando assim a sua
obra, além de promover sua distribuição, traduzi-la, editá-la, prefaciá-la com
sobejos elogios e recomendar sua leitura? A resposta mais simples seria que
essa obra não contém heresia, de fato, ou pelos menos não poderia haver,
visto que as interpretações “drásticas” das suas palavras, como fez o pastor
Joel, e realmente é difícil não chegar a essas conclusões, somente seriam
possíveis se “descontextualizadas” da sã Teologia, parecendo ensinar o que
não ensinam, se é que não ensinam mesmo. Mas como parecem ser, muitas
e muitas vezes, claras as afirmações destoantes do Evangelho, talvez tenha
havido incoerência mesmo, e sendo uma experiência ou revelação particular
do autor, não obriga a nós cristãos a professá-la. Essa obra, sem os
exageros, se for bem entendida, dentro do depósito da fé, alimenta a nossa
devoção para com a Mãe de Deus, o que não deve nunca ultrapassar aquilo
que é essencial à veneração. O pastor Joel tem razão na maior parte dessas
críticas.

6 7. Maria: mulher hiper abençoada

Hiper abençoada mesmo, os católicos devem concordar.

CONCLUSÃO

A vida conjugal de José e Maria foi singular. Não há motivo razoável para
acreditar que isso não possa ter ocorrido, como quer o protestantismo. Uma
concepção virginal sem intervenção humana é uma singularidade maior e
supera a razão, e nem por isso iremos rejeitá-la, portanto, outros fatos
singulares não são necessariamente impossíveis. Pode-se objetar que
concepção virginal é revelada explicitamente. Está certo. Mas a Bíblia não
diz que os “irmãos” de Jesus eram filhos de Sua mãe e nem de José, desse
modo, a conclusão protestante se baseia em um pressuposto fundamental
epistemológico protestante, que é o que faz com que um protestante pense
como protestante. O mesmo pode ser dito dos cristãos católicos, mas a
diferença é que a doutrina católica é ombreada pela Bíblia, visto que essa
não a contradiz quando analisada objetivamente, também pela tradição
cristã, que não contradiz a Bíblia, do contrário não é tradição cristã. E de
maneira geral, não há negação da virgindade pós- parto de Maria senão
após o século IV, mais explicitamente (pois Tertuliano já havia escrito algo
nesse sentido), e também pela razão, que não apresenta dificuldade
nenhuma. Certamente José estava mais preocupado com sua fidelidade ao
plano de Deus para sua vida, do que com a sua masculinidade diante do
povo, ou seja, daquilo que o povo poderia conceber a seu respeito, caso
esse soubesse que sua vida matrimonial era casta. Era mais importante que
a verdade da concepção virginal fosse acreditada. É verdadeiro o que disse
o professor Orlando: E se o sinal dado pela profecia era que "uma virgem
daria à luz", se ela, depois, se tornasse mãe de outros filhos de modo
normal, se poria muito mais em dúvida sua virgindade e sua honestidade no
caso da geração de Jesus. Esse argumento racional reforça ainda mais a
doutrina da virgindade de Maria.

Disponível em:
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica
&artigo=20040827093000&lang=bra_acesso em 26/06/2009.

CAPÍTULO 7

OS 7 SACRAMENTOS

O autor exibe a definição de sacramento (do dicionário Aurélio) e


informa que são três as questões nas quais divergem católicos e
evangélicos: nome, quantidade e finalidade. O nome, segundo ele, é
questão periférica e não cardeal, uma posição na qual devem concordar os
católicos. É uma infantilidade brigar por causa de meros nomes.

Os protestantes consideram apenas dois sacramentos (ordenanças):


Batismo e Ceia. E creem que os mesmos não podem preceder a salvação.
Logo, esta não é conseqüência daqueles. Qual o apoio para crerem assim? É
que existem pessoas que se salvaram antes do batismo e antes de
participaram de outros atos de fé, como o Ladrão crucificado ao lado de
Jesus. Textos: Lc 7. 7 50; 19.9; At 10. 11-18, Lucas 23,43. O pastor Joel
explica: cremos paralelamente que, se por um motivo qualquer, não for
possível participar destes ritos, não haverá condenação alguma.

Os sacramentos são indispensáveis para a salvação, mas, se porventura


for impossível participar deles, ou seja, recebê-los, Deus pode salvar sem
o sacramento, constituindo isso uma exceção. A doutrina católica ensina
isso. Portanto, esse ponto não é motivo para um protestante continuar fora
da Igreja Católica. O ponto-chave da discussão é o valor salvífico dos
sacramentos, pois os protestantes creem na salvação somente pela fé, e,
por isso, excluem esse valor dos sacramentos.

Quanto a João 6,53, é importante o reconhecimento que dele faz o


pastor Joel: É verdade que Cristo disse que comer Sua carne e beber Seu
sangue são condições imprescindíveis à salvação (Jo 6.53) (...).
Reconhecendo que João 6,53 expõe uma condição imprescindível à salvação
já é um bom começo. É necessário, agora, reconhecer que Mateus 6,53 e
Mateus 26, 26-28 estão tratando da Eucaristia: Cristo, que havia prometido
dar seu corpo e sangue como comida e bebida, cumpriu essa promessa no
momento oportuno, na Última Ceia. Os protestantes deveriam refletir nesse
ponto seriamente, pois, a Eucaristia provoca decisão. Quanto ao fato de
considerar que João 6,53 fala do sacrifício de Cristo na cruz e da nossa fé no
sangue que por nós Ele derramou, isso é uma interpretação que não se
encaixa no contexto, mas que está de acordo com a teologia protestante
adotada, a qual fornece essa compreensão (de que a salvação se daria
somente pela fé), excluindo o valor salvífico dos sacramentos, nesse caso a
Eucaristia, mesmo que Cristo tenha afirmado claramente isso em João 6,53.
E, quando a Sagrada Escritura fala de pessoas que se salvaram sem
batismo, sem comunhão (eucaristia), e etc., isso não é prova para que
neguemos o valor salvífico dos sacramentos. Aqueles casos são exceções, e
uma exceção não invalida o uso comum, e nós devemos seguir as ordens de
Cristo. E necessário que o protestante conscientize-se de que está errado
em não considerar João 6,53 como tratando da Eucaristia, e considerando
que o texto claramente afirma a salvação ligada a esse ato, ao certificar-se
dessa verdade, deverá procurar o grupo cristão que mantém essas palavras
como são ensinadas no Evangelho, a Igreja Católica. É oportuno que
analisem melhor a sua posição em considerar que Cristo estaria falando do
seu sacrifício na Cruz e da nossa fé no seu sangue derramado, ao invés de
falar, como está claro, da Eucaristia.

Portanto, os sacramentos conferem a graça. O autor chama a Igreja de


intolerante, por anatematizar até quem diverge por questão de quantidade
(dos sacramentos). Mas isto, em matéria de fé, constitui um
reconhecimento e um elogio dos protestantes à Igreja Católica. Quem nega
um sacramento instituído por Cristo, ou acrescenta um, está errado, isso
não é questão banal, já que é vinculada à obediência a Cristo.

BATISMO: O Catecismo da Igreja Católica diz: “... A Igreja não conhece


outro meio senão o batismo para garantir a entrada na bem-aventurança
eterna...” (página 350 # 1.257). Este é o motivo pelo qual o clero católico
duvida da salvação até do recém-nascido que morreu sem o batismo. Ora, a
Igreja Católica nos aconselha a fazermos exéquias pelas almas das
criancinhas que estão no Limbo, como já vimos, mas o fato dela dizer
paralelamente que não conhece outro meio senão o batismo, que garanta a
entrada no Paraíso, prova que ela não garante que as exéquias produzirão o
efeito desejado. De fato, a Igreja não se pronuncia abertamente sobre a
salvação das criancinhas mortas sem o batismo visto que a Bíblia não trata
da questão diretamente. É necessário que outros princípios sejam
considerados para o correto desenvolvimento do tema. O texto de 1 Tm 2,4
é o principal, visto que Deus deseja que todos sejam salvos. É interessante
que o Catecismo não cita o Limbo, que é uma hipótese teológica aceitável,
mas nunca definida ex-catedra, mas também não se pronuncia com a
certeza de que os bebês mortos sem o batismo estejam no céu. Um dos
motivos é que as palavras de João 3, 5 não devem ser negligenciadas, assim
como as conseqüências nefastas do pecado original. Afirmar que Cristo as
cobre com seu sangue é um recurso protestante muito simples, mas que
acarreta contradições, visto implicar que todos nascemos “salvos”. O pastor
afirma: Vários católicos já nos disseram que o fato de Jesus haver dito que
“quem crer e for batizado será salvo” prova que o batismo é necessário
para a salvação até dos recém-nascidos. Mas os temos ajudado a entender
que se assim fosse, a perdição dos nenéns seria inevitável, pois que
dependeriam de duas coisas para serem salvos: fé e batismo. Batizá-los é
fácil, mas fazê-los crer foge da nossa alçada. Os recém nascidos são
batizados na fé da Igreja, pois não possuem impedimento para que possam
ir até Jesus (Mateus 19,14).

A CONFIRMAÇÃO OU CRISMA: É uma invencionice inteligente, diz o


pastor. Inteligente porque torna a pessoa mais ligada à Igreja. Mas esse
sacramento é deixado por Cristo, senão os apóstolos não o teriam praticado.
Portanto, não é invencionice.

EUCARISTIA: O valor salvífico da Eucaristia é bíblico, contrariamente ao


que o pastor Joel afirmou.

CONFISSÃO: Os clérigos receberam o poder de perdoar pecados e para


exercê-lo devem logicamente conhecer os pecados através da confissão.
Isso não diminui a mediação de Cristo (1 Tm 2.5).

A explicação do pastor sobre a confissão é a seguinte: Confessarmos uns


aos outros, é bíblico (Tg 5.16); mas ao padre, não. Confessarmos
mutuamente significa que quando pecarmos contra o nosso irmão, teremos
que dizer-lhe que reconhecemos que erramos e suplicar-lhe o perdão. Mas
essa explicação não convence porque em Tiago 5,16 supõe que a confissão
seja dos cristãos aos seus superiores na hierarquia eclesiástica. Quando
alguém peca contra outro, o dever do ofendido é perdoar aquele que pediu
seu perdão. Enquanto que na confissão é previsto que os pecados não
perdoados fiquem retidos. As ajudas dos pastores protestantes (em forma
de orientação, jejum, oração...) podem ser eficazes em muitos casos, mas
parece que não se comparam aos benefícios que Deus oferece através da
Confissão auricular. Um fato interessante é que, segundo Gilberto Freyre, no
Brasil colônia o número de problemas mentais nas mulheres era muito
menor quando comparado com casos na América do Norte, onde, por falta
da confissão ao sacerdote, muitas mulheres, que viviam numa sociedade
repressora, como também era o caso do Brasil, enlouqueciam, pois não
tinham como livrar-se das suas angústias e outros problemas psíquicos na
confissão. Obviamente o objetivo era o perdão dos pecados, mas é evidente
que seus frutos agem em todo o ser. Esse exemplo é só para citar o ponto
de vista meramente humano dos benefícios desse sacramento [Obra:
Sobrados e Mucambos].

MATRIMÔNIO: O pastor pergunta: Que tem a ver casamento com


salvação? Se o matrimônio é sacramento, e esse é um sinal sensível da
graça, o matrimônio confere uma graça especial para os fins específicos do
matrimônio.

A ORDEM: A ordem é para anunciar, mas também, para distribuir, de certa


forma, a redenção de Cristo. É o que parece ser dito em vários textos
bíblicos. Como um sacramento, que é canal de graça, é licito dizer algo
semelhante como foi dito acima sobre o matrimônio. O Catecismo explica
que o sacramento da ordem e do matrimônio tem como fim a salvação dos
outros, donde pode-se afirmar que esses sacramentos servem para a
salvação pessoal indiretamente. O pastor Joel talvez não tenha lido todo o
catecismo, pois isso é explicado (CIC, 534).

A EXTREMA-UNÇÃO: Esse é um sacramento e, como tal, confere graça


também. É meio de salvação dado por Cristo, portanto, não pode
contradizer nenhum texto bíblico. Se o sacramento confere a graça é porque
Cristo mesmo está agindo por meio desse sinal sensível, e não o mero sinal
que em si tem o poder fora de Cristo (Tg 5.14,15 Ef 2.8 At 4.12).
Sacramentos não são criações dos teólogos, como disse o pastor. E sobre a
“possível” criação de vários outros “sacramentos” como sacramento da
oração, sacramento do louvor, sacramento do cântico, sacramento da
caridade, sacramento da leitura da Bíblia, sacramento das coletas para os
santos, sacramento do jejum, sacramento do ensino, sacramento da
pregação do Evangelho, sacramento da fé, etc., não é possível que
aconteça. Que tradição poderia apresentar para tal invenção?

CAPÍTULO 8

SOBRE A EUCARISTIA

8.1. A postura evangélica

O Pastor Joel explica que a postura evangélica quanto à Eucaristia é que


essa é um memorial, uma comemoração espiritual, na qual o corpo e
sangue são simbolizados pelo pão e o vinho, e que as palavras isto é o meu
corpo... sangue não devem ser entendidas ao pé da letra. Assim explica:
É comum, entre nós, repetirmos as palavras de Jesus: “Isto é o meu corpo”
e “Isto é o meu sangue”, mas explicamos que estas frases não podem ser
entendidas ao pé da letra. E mais: somente os salvos participam da Ceia,
pois esta não tem valor salvífico, não salva, mas é praticada por quem já é
salvo. Vejamos suas palavras: o "salvo" que recusar a tomar parte deste ato
de fé, estará, com este gesto, deixando claro que ainda não é salvo. É que o
salvo não necessita fazer isso para se salvar, visto que já é salvo; mas
precisa fazer isso por ser salvo, já que a Santa Ceia existe para os salvos.
Cremos, contrariamente a isso, que Eucaristia é alimento espiritual, o
próprio Pão do Céu, que é Cristo, que confere a graça para fortalecer a vida
cristã. De qualquer forma, na prática concordam os cristãos católicos e
protestantes, já que a Eucaristia é, via de regra, necessária ao salvo, ou
seja, àquele que está na graça de Deus, e se alguém se esquiva de
participar do corpo e do sangue de Cristo, não entrará no céu. O protestante
dirá que ele não participa da ceia por não ser salvo, como foi explicado pelo
pastor. Porém, a doutrina protestante é incoerente, pois mesmo
concordando na necessidade da ceia para o salvo (a menos que ele não
tenha tempo ou condições para dela participar, como no caso do ladrão
crucificado), nega-se que seja um sacramento, o qual confere a graça de
Deus. É como se fosse algo de tamanha necessidade, mas que não traria
nada a mais ao cristão.

8.2. Com a palavra o clero católico

Nesse tópico o pastor Joel deixa claro que não se filia à interpretação
católica. Os católicos tratam desse assunto ao pé da letra. Como, segundo o
autor, os católicos defendem essa doutrina? Utilizando a Bíblia (entre aspas)
e apelando para o conto do vigário, segundo o pastor Joel. É bom saber, e
responder ao pastor Joel que é na Bíblia que está toda a doutrina da
Eucaristia e só nela está fundamentada. Qualquer milagre acontecido ou
que venha a acontecer somente serve para comprovação.
8.2.1. Recorrem à “Bíblia”.

Sabendo que os padres creem literalmente nas palavras espirituais


que estão na Bíblia, o pastor cita uma passagem da Summa Theologia de
São Tomás de Aquino, citada por um ex-padre, Aníbal Pereira Reis, que diz:
Por virtude deste sacramento, contém-se sob as espécies [...] o Corpo de
Cristo, com Seus ossos, nervos etc.”. Comentando sobre o significado desse
“etc.” o pastor afirma que Santo Tomás se referia a todos os demais
componentes do corpo humano, e o pastor se põe a citar vários, talvez com
a intenção de fazer o leitor acreditar que a fé cristã na Eucaristia seria
“ridícula”. Conclui que a Missa é um ato obsceno, imoral, ilegal, anti-
higiênico e que a essa doutrina católica é uma crendice. Ele diz: os padres
precisam saber que estas palavras de Jesus não podem ser interpretadas
literalmente. E explica, então, as palavras da Ceia do Senhor: Jesus disse,
por exemplo, que os Seus discípulos eram o sal da Terra (Mateus 5.1,3).
Eram eles sal de fato? Cristo disse também: “Eu sou o caminho, eu sou a
porta, eu sou a videira, eu sou o pão...”. Será que não é mais teológico
encararmos estas palavras como metáforas? Logicamente que sim, e o
mesmo devemos fazer em relação aos elementos da Ceia do Senhor.

Por isso é que cita, com razão, afirmações que falam da adoração da
Hóstia pelos cristãos católicos, pois se a Hóstia É Jesus Cristo, devemos
culto de Adoração a Ele. Desse modo, até mesmo o autor reconhece que a
Missa é das duas uma: ou um verdadeiro culto de adoração a Deus, do qual
quem não participa está perdido, por estar negando adoração a
Jesus; ou é um ato de idolatria. Bem, provado que a Missa é o mesmo culto
cristão apostólico, os protestantes tem de se posicionar quanto a isso,
aceitando a Eucaristia ou negando-a, participando da Missa (o único
sacrifício de Cristo tornado presente no altar) ou recusando de participar
dela conscientemente. É necessário: Oração, estudo da Sagrada Escritura e
da Sagrada Tradição cristã. Com relação à celebração da festa de Corpus
Christi, se o pastor Joel crê que o pão, (a “bolacha”) não é Cristo, então,
para ele, há uma “bolacholatria”. Pode-se dizer que, se ela é Cristo (como
de fato é), há realmente o culto de latria ao Senhor Jesus. E desse modo os
cristãos católicos estão oferecendo o culto de adoração requerido por Deus.
O pastor ainda comenta o seguinte: Só de passagem queremos fazer
constar que esse feriado é uma falta de respeito aos evangélicos, bem
como aos adeptos de outras confissões religiosas que não crêem nisso. Por
que temos que cessar nossas atividades, deixar de faturar, por causa de
uma crença alheia? Pensem nisso nossos políticos! Se a festividade está de
acordo com o Evangelho e é uma forma de pregar publicamente essa fé
evangélica na Eucaristia, então, como o direito é da verdade, que essas
comemorações ajudem aos outros, que não creem (a maioria dos
protestantes e os adeptos de outras religiões), a se converterem. Depois, o
pastor prossegue: Pesquise, pois, a Bíblia com humildade e oração; e só
adore à hóstia, se a Bíblia lhe convencer a fazê-lo. Para isso, basta crer na
Bíblia, a qual ensina em João 6, que o Pão eucarístico é o Corpo de Cristo e
pronto: devemos adorar a Cristo sempre, também quando se mostra a nós
sob a espécie de Pão.

8.2.2. Apelam para o conto do vigário

Nesse tópico, ao citar o relato do Padre Prada sobre um acontecimento


de uma mula que ajoelhou-se diante da Hóstia, o que teria causado a
conversão de muitos hereges, o autor não contraargumenta: Contra-
argumentar para quê? Tendo a mula feito ou não o que nos historia o Padre
Prada, convém que não façamos o mesmo. Adoremos somente o Cristo
vivo. Mas, responde-se a isso que a Hóstia é Cristo vivo e glorificado, não
morto. O pastor faz alusão ao milagre em que a hóstia tornou-se carne, o
que foi informado por católicos. Ele não se põe a refutar, dizendo:
Novamente, não vou refutar. Contra-argumentar para quê? Basta, aos meus
leitores, o uso do bom senso, não é mesmo? Até porque tendo ou não a
mula adorado a hóstia, é prudente não fazermos o mesmo. Bem, que os
protestantes, com exceção, dos Luteranos, não creem literalmente nas
palavras da Ceia do Senhor, é um fato. É uma negação das palavras de
Cristo. Cristo está vivo na Hóstia, por isso logicamente é preciso adorá-lo.

8.3. Questionando as missas

Nesse tópico, o pastor questiona que a Missa comemora a Ceia do


Senhor e não o Sacrifício de Cristo, segundo a definição do dicionário
Aurélio. Que a Missa é oferecida pelas almas, e que os católicos só comem o
Pão. Chega a dizer que “hóstia” era uma forma pagã de sacrificar aos
deuses, e que depois o termo passou a significar holocausto. Não há provas
históricas para essa analogia com o paganismo, como uma pesquisa
objetiva pode demonstrar.

8.4. Uma flagrante contradição

Nesse tópico afirma que Cristo é sacrificado em cada missa, enquanto o


sacrifício de Cristo foi uma única vez, e cita Hebreus 9, 28; 10, 2.14.18. No
v. 18 ele questiona sobre a oferta, sacrifício (Missa?).

Comentando o número 1367 do Catecismo, o qual explica que o sacríficio da


Missa é incruento (em derramamento de Sangue), e citando o dicionário
Aurélio, o qual traz definições de que a eucaristia contem o corpo e o
sangue de Cristo, o pastor tenta fazer com que a eucaristia caia por terra.
Se a hóstia é Cristo completo, então não seria o sacrifício incruento! O
pastor termina citando Hebreus 9,22, onde se diz que sem derramamento
de sangue não há remissão. E, de fato, não há mesmo.

É fácil perceber a confusão: Cristo não é sacrificado novamente na Missa,


quando a hóstia é comida, mas o seu sacrifício (cruento) torna-se presente.
Então, na Missa não há outro derramamento de sangue. Sendo que o
sacrifício de Cristo foi cruento, uma vez por todas, e torna-se presente na
Missa (sem ser necessário derramar o sangue de novo: incruento), então a
Missa é o mesmo sacrifício de Cristo, que foi cruento lá no Gólgota e,
portanto, remite os pecados. As espécies do pão e do vinho simbolizam a
separação do corpo e do sangue de Cristo na cruz. A celebração é simbólica
e real, ao mesmo tempo, o símbolo está na apresentação das espécies
separadas, e a realidade do sacrifício está presente com todos os seus
frutos, que são eternos e irrepetíveis.

O pastor Joel lembra as palavras do Padre Vicente Wrosz que chamou os


pastores de “curiosos”, por não serem ordenados pelo Papa para celebrar o
sacrifício de Cristo, e que teria insinuado à “base” (sic) de João 6,53 que os
protestantes estariam mortos espiritualmente, a ainda sentisse dó deles
dizendo: “que pena...” (sic).
Mas o pastor Joel certamente também sente pena dos católicos por vários
motivos. Parece que estão quites ele e o padre Wrosz nesse ponto. Enfim,
para entender a Eucaristia basta aceitar as palavras de Cristo da forma em
que foram pronunciadas. E o que parecia “contradição” é resolvido. E como
bem diz a liturgia: Eis o mistério da fé.

8.5. Divergências entre os clérigos sobre a transubstanciação

O autor cita a obra do teólogo protestante Karl Weiss, na qual está dito que
os clérigos católicos divergiram quanto à transubstanciação, incluindo papas
e Santo Agostinho. Mas está provado que Santo Agostinho ensina a
presença real ao mesmo tempo em que ressaltava o simbolismo da
Eucaristia, segundo Dave Armstrong. Então o protestantismo conserva
parcialmente o que ensinou Santo Agostinho. Mesmo que um papa ou
algum teólogo afirme algo contrário à fé, devemos continuar pregando a fé
contra a opinião privada deles.

8.6. Outros absurdos

Segundo o pastor, afirmar que a hóstia é Cristo seria uma falsa premissa.
Mas como o Evangelho deixa claro que Cristo afirmou que o Pão é o Seu
corpo, a premissa é verdadeira.

8.6.1. Só comem o pão

Como os protestantes celebram a Ceia comendo o pão e bebendo o vinho,


mas não creem que estejam comento e bebendo a carne e o sangue do
Senhor, os católicos na maioria das vezes só comem o corpo de Cristo, no
qual está espiritualmente o Cristo todo. O pastor acusa a Igreja de muitas
incoerências, e uma delas é que só o padre tem direito de comungar ambas
as espécies. Basta lembrar que é mais grave negar a realidade da Eucaristia
do que comungar apenas uma espécie crendo que se está comungando o
Corpo do Senhor. Pensem nisso.

8.5.2. Intolerância

"Se alguém negar que aquilo que se oferece na missa não é Cristo para
ser comido, seja excomungado" (Concílio de Trento, citado em A Igreja que
veio de Roma, op. cit., p. 127). Após essa citação, o pastor ironiza sobre o
ecumenismo e questiona se talvez Santo Agostinho e os Papas Gelásio I e
Gelásio II estivessem vivos hoje, seriam excomungados. Conclui que Santo
Agostinho talvez seria, mas os papas não porque são infalíveis! Mais
ironias. Basta lembrar que o papa João XXIII na Idade Média foi julgado e
condenado por um Concílio.

8.5.3. Eca! Que nojeira!

Termina com citações e imaginações que levam a qualquer uma a sentir


nojo! Nada muito instrutivo aqui.

CAPÍTULO 9
O CELIBATO ECLESIÁSTICO

9.1. A Bíblia é contra?

O celibato sacerdotal é lei eclesiástica não uma lei divina e a Igreja


afirma isso claramente e sem rodeios. Porém, o celibato está em
conformidade com o Evangelho e, nesse caso, resiste a uma análise bíblica.
O pastor Joel cita 1 Tm 3,1-7: “Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao
episcopado, excelente obra deseja. É necessário, pois, que o bispo seja
irrepreensível, MARIDO de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro,
hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, mas
moderado, inimigo de contendas, não ganancioso; que governe bem a sua
própria casa, tendo seus FILHOS em sujeição, com todo o respeito (pois se
alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da Igreja de
Deus?); não neófito, para que não se ensoberbeça e venha a cair na
condenação do Diabo. Também é necessário que tenha bom testemunho
dos que estão de fora, para que não caia em opróbrio, e no laço do Diabo”
[ênfase acrescentada pelo autor do livro original].
O pastor afirma que muitos padres apelam para textos fora do contexto
em defesa do celibato, e explica que em 1 Corintios 7, São Paulo aconselha
a todos os cristãos o celibato, não somente ao clero. De fato, existem
aqueles com o dom do celibato, enquanto a maioria opta pelo matrimônio. A
Igreja, com sua liberdade legisladora, optou por admitir ao sacerdócio
aqueles que tem esse dom. Aos demais, o matrimônio é o recomendado. Por
isso, foi dito no início que nesse caso esse assunto resiste a uma análise
bíblica, como resistiu aqui. Não há engano algum: 1 Cor 7 fala do dom do
celibato e até o aconselha. Aconselha também o matrimônio para aqueles
que não possuem tal dom. Em 1 Tm 3, 1-7 estão os conselhos para
admissão ao episcopado. Naquela época a Igreja não havia adotado a lei do
celibato clerical, portanto, o texto não tem nada contrário a essa posição
eclesiástica.
O dom do celibato é tão real que mesmo protestantes tem optado por ele,
como afirmou o autor: Muitos evangélicos optaram pelo celibato... Cita até o
caso de um ex-padre que continua celibatário, para melhor servir a Deus.
Portanto, essa lei da Igreja tem respaldo bíblico e não está apoiada em
verso isolado do contexto. Pergunta-se então: Os seminaristas optam pelo
celibato de livre espontânea vontade ou de livre espontânea pressão? Na
ótica do pastor Joel, a segunda alternativa seria a correta! Mas, a Igreja está
apenas admitindo os candidatos que sentem ter esse dom! São eles que
procuram o ministério sacerdotal, conscientes do que terão de cumprir, não
é a Igreja que o impõe a um leigo qualquer. É nisso que consiste a liberdade.
Não há colisão com 1 Tm 3, 1-7, pois nessa passagem, realmente, o
apóstolo aceita o vocacionado para o ministério mesmo que não seja
celibatário. São Paulo e o Bispo Timóteo eram celibatários, e o texto não
está ordenando e nem aconselhando a Timóteo a ser casar, mas fornecendo
recomendações para a escolha dos ministros. Uma delas é que, se o
candidato é casado, que seja com “uma só mulher”. Trata-se de uma
recomendação, não uma ordem para que os bispos e padres se casem, pois,
se assim o fosse, que lugar seria concedido àqueles que possuem o dom do
celibato? Os que possuem esse dom estariam eliminados desse ofício, e isso
se choca com 1 Coríntios capítulo 7. O autor questiona: E por que o clero
católico não age hoje como o apóstolo Paulo agia? Naquela ocasião a Igreja
aceitava o casamento dos presbíteros, hoje não aceita, amanhã quem sabe?
Trata-se de uma lei eclesiástica. Em alguns casos, pastores casados são
admitidos nos sacerdócio. O pastor chamou isso de politicagem. Como
estava dizendo, é como explica o Pe. Vicente Wrosz, a respeito de 1 Tm 3,2,
que S. Paulo naquela época, recomendava que se escolhessem homens
casados, virtuosos, e que a ênfase do texto cai sobre as palavras “com uma
só mulher”: Daí na sua carta (I Tim 3,2) ele não coloca acento nas
palavras: “que seja casado”..., mas nas palavras: ... ”como uma só
mulher”... – e não com duas ou três, mesmo que sucessivamente – o
que seria sinal de moleza e muita paixão, deixando pouco zelo e dedicação
para Deus e as almas. [grifo no original].
E, como foi dito, a Igreja Católica reconhece que a exigência do celibato dos
padres não é de lei divina, mas de lei eclesial, que em circunstâncias
especiais poderia ser abolida, mas opta pela maior perfeição, já que por
este motivo os Apóstolos de Jesus deixaram a convivência matrimonial e
familiar, para se dedicar inteiramente à propagação do Reino de Deus, -
como consta de Lc 18, 28-30. [WROSZ, p. 20].
Portanto, concluímos, com certeza, que a lei eclesial do celibato está em
conformidade com a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada.
[Pe. Vicente Wrosz. Respostas da Bíblia às Acusações dos “Crentes” Contra
a Igreja Católica, Livraria Editora Pe. Reus, 22ª Edição, abril/2000]

9.2. Padre feiticeiro, sim; casado, não.

O pastor cita casos em que há padres envolvidos com o Candomblé,


com o Budismo, o Kardecismo, a Umbanda e outras religiões não cristãs,
tentando provar até através de livros, que elas são tão válidas quanto o
Cristianismo. Ninguém nega que isso exista, ainda mais nesses tempos
maus e de apostasia. Não parece muito oportuno comparar as heterodoxias
dos padres com a imposição do celibato, como se a Igreja acolhesse
qualquer tipo de desvio, menos o do casamento de um sacerdote, que em si
não constituiria pecado algum. Isso não corresponde à verdade. Todas as
heresias são rechaçadas, e sempre que necessário a Igreja toma uma
atitude corretiva. Porém, que existem e estão sendo disseminadas, ninguém
duvida. O mesmo se diga dos desvios de membros da Igreja em contato
com as práticas espíritas, o que constituiria uma espécie de “espiritólicos”.
Não é de se crer que sejam católicos praticantes. A respeito do fato da
aparição de uma alma pedindo missas para que fosse liberta do purgatório,
citado no livro Glórias de Maria, isso não constitui espiritismo, visto que não
houve (e é proibido que haja) evocação da dita alma.
Acusar Santo Afonso de espiritismo, de não ser sucessor dos apóstolos, nem
ministro do Evangelho, por ter feito tais relatos incorre, no mínimo, que o
autor esteja equivocado quanto à natureza do espiritismo e da
mediunidade.
Quanto ao empreendimento de uma cruzada de conscientização e
esclarecimento ao provo sobre o pecado de feitiçaria, isso é muito oportuno
em todas as épocas, e em nossos dias, especialmente no Brasil, é algo de
muita importância. De fato, o espiritismo é muitíssimo mais pernicioso para
um cristão. O protestantismo contem maiores pontos de contato com o
catolicismo. Atualmente, o papa Bento XVI condenou as práticas de bruxaria
na África, e suas palavras podem ser adaptadas aos casos de cultos afro-
brasileiros no Brasil.
Quanto ao tipo de “respeito” que faz vista grossa aos erros doutrinários, se
trata de um respeito humano incompatível com a Palavra de Deus. À
acusação de que todo bom católico é, necessariamente, um bom espírita,
repito o que disse anteriormente, que é um equívoco considerar as práticas
de orações cristãs católicas e as práticas espíritas como equivalentes.
Chamar isso de mediunidade, e ainda afirmar que isso é promovido pela
Igreja através dos séculos é uma deturpação dos fatos.

9.3. As pirraças do Papa

Muito demorada, segundo os exemplos citados, a burocracia do Vaticano


relativa aos pedidos de dispensa dos padres.

9.4. A idade do celibato na “Igreja”

Com já foi visto anteriormente, com o passar do tempo a Igreja adotou a


lei do celibato clerical. São Paulo era celibatário e dessa forma vários
ministros foram seguindo esse exemplo cristão. A lei se tornou obrigatória
mais tarde, mas suas raízes são reconhecidamente evangélicas. O pastor
Joel, ao citar D. Estevão como uma testemunha de que a Igreja reconhece
que o celibato foi imposto posteriormente, parece estar surpreso por esse
reconhecimento. No entanto, esse e outros mal entendidos são claramente
explicados pela Igreja aos interessados. Palavras do Pr. Joel: Até o Padre D.
Estêvão Bittencourt, ardoroso defensor do celibato clerical, demonstrou
reconhecer que na Igreja Primitiva os Ministros do Evangelho eram casados.
Disse ele: “...A partir do século IV Concílios regionais foram impondo
essa prática como obrigatória aos candidatos ao sacerdócio no
Ocidente...” (Pergunte e Responderemos, Ano XLIV, nº 489, março/2003,
página 32 [ou página inferior 128] citação do pastor Joel). Termina dizendo
que na igreja primitiva não havia monges e freiras, porém, esquecendo-se
que a inspiração dessa prática já estava lá. O problema é saber desenvolver
o entendimento, conquanto que não haja mudança essencial do decorrer do
mesmo. E como no século 1º o dom do celibato já havia sido revelado, a
existência de monges e freiras no decorrer da história indica o
desenvolvimento da compreensão do mesmo dom.

9.5. Há padres que também pensam assim

Para o pastor Joel, os padres que ainda “pensam” (teologicamente),


conseguem enxergar o absurdo da imposição do celibato. E cita a revista
Time, de 23/02/1970, com milhares de pedidos de dispensa dos padres.
Certamente, todos os padres pensam, principalmente em termos teológicos,
ao contrário do que afirma o pastor Joel e outros, e estão de acordo com a
lei do celibato. Um exemplo foi o citado Pe. Vicente Wrosz.

9.6. Que pena!

O pastor afirma ter pena dos padres, dos quais foi roubado direito de
constituir família e ter filhos e etc. Chega a aludir que há padres que se dão
por realizados, por estarem se relacionando sexualmente com freiras e
outras mulheres, inclusive casadas. É óbvio que os padres que assim o
fazem estão em pecado mortal. Porém, essa é uma questão moral. E a pena
que o pastor sente não é razoável, visto termos provado, e o pastor sabe
disso, que o celibato é uma opção vivida por muitos e é dom dado por Deus
segundo a Bíblia. Será que Deus rejeita para o sacerdócio aqueles a quem
Ele mesmo concedeu o dom de serem eunucos por amor ao Reino dos
Céus? É evidentemente sem fundamento “ter pena dos padres” por esse
motivo, pois parece mais razoável ter pena dos que tem esse tipo de pena!

9.7. Incoerência

Nesse tópico o Pr. Joel fala de casos em que pastores protestantes


convertidos ao Catolicismo são admitidos como padres. Por que não
estendem também aos leigos católicos, ilibados e conhecedores da doutrina
da Igreja, e permitem aos pastores convertidos? E chega a fazer uma
pergunta que poderia dar até um samba, segundo o autor: O que os ex-
pastores têm, que os outros católicos não têm? Aos pastores que
conheceram a verdade completa e se tornaram católicos, esses são
comparados a Judas Iscariotes, os quais estariam dando um testemunho,
considerado pelo autor como sendo um “tristemunho”. Isso, a Igreja estaria
usando para impressionar os “incautos, ou fazendo politicagem. É certo que
essa lei é eclesiástica e, não sendo contaria à lei de Deus, pode ser
administrada pela Igreja. É lógico que os padres que desejam casar-se não
tinham verdadeiramente o dom do celibato.

CAPÍTULO 10

RASTRO DO CLERO ATRAVÉS DOS SÉCULOS

Neste capítulo o pastor Joel registra as palavras do Papa Marcelo II, que
teria afirmado: “Dificilmente um papa escaparia do inferno” (Vita Del
Marcelo, página 132), no que teria o papa, em sua [do pastor] opinião,
razões sobejas para se expressar assim. O autor põe-se então, a registrar
com pesar a dissoluta vida do clero católico, admitindo não ter prazer em
fazer essas acusações, pois só Deus pode julgar e condenar, reconhecendo
que todos os seres humanos estão sujeitos às mesmas paixões, mas revela
esses fatos porque lhe parece que os católicos não sabem disso, o que se
reflete no tratamento que dão ao clero, seguindo-o cegamente, como se
eles fossem deuses. Os católicos se mostrariam muito exigentes nos
diálogos com os protestantes, mas não igualmente exigentes para com a
liderança do Catolicismo. Aceitariam as heresias dos papas, mas não os
sólidos argumentos dos evangélicos. Isso se daria porque os católicos são
iludidos pelos papas, que negam que os pastores protestantes tenham o
encargo de interpretar a Palavra de Deus, treinando os católicos para
rejeitar nossos sermões, por mais que provem que sejam autênticos, e, ao
mesmo tempo, aceitando as maiores aberrações dos papas e bispos.
Ensinam que as interpretações dos papas seriam infalíveis e a dos pastores
questionáveis. O motivo de toda essa reflexão é o seguinte: Não queremos
que os católicos nos idolatrem como o fazem aos papas. O que desejamos é
que saibam que seus líderes espirituais são seres humanos, e não deuses.
Acha até incrível que um católico acredite que o papa seja infalível.

O pastor Joel se põe a apresentar mais de dez parágrafos nos quais são
registrados os pecados de vários papas durante a história. No final, afirma
que o século XXI não tem se revelado melhor. Será que os católicos confiam
aos papas o futuro de suas próprias almas [como afirma o pastor Joel], ao
contrário dos evangélicos que pensam com suas próprias cabeças? Um
exemplo que serviria para provar que seria verdadeira a primeira parte
dessa interrogação, foi assim expresso: Por exemplo, quando um Pastor
protestante cai em pecado, em nada abala a fé dos leigos, visto que estes
aprendem desde cedo que os pastores não são infalíveis e donos da
verdade.

Enfim, todas essas afirmações tiveram como objetivo provar que os


papas são iguais a qualquer homem, falível e pecador e que não fazem
parte de uma outra espécie como muitos ingenuamente acreditam. Os
papas estariam se considerando acima de todos os seres humanos, quer
protestantes, quer católicos e etc., por afirmarem ter o encargo de
interpretar a Palavra de Deus. Como os católicos podem se defender de
tudo isso? Geralmente mostram o seguinte, nas palavras do pastor Joel: Às
vezes os clérigos católicos se defendem dizendo que os papas não são
infalíveis quanto ao pecado; antes, a infalibilidade deles se limita à
pronunciação ex-cátedra. E passa a afirmar que foi ex-cátedra que
ordenaram a execução de milhares de pessoas. Questiona a seguir: Como
saber se foi ou não ex-cátedra, se não podemos divergir do Papa, e que
quando isso acontece os errados somos nós? [para isso cita as palavras do
Pe. Álvaro: "Quando nossos pontos de vista não coincidirem será por
deficiência nossa!"; cita também o Catecismo que afirma ser do Papa o
encargo de interpretar corretamente a Bíblia]. Isso mostraria que a proibição
do livre exame é contrária à Bíblia e à razão. Se para sabermos que um
ensinamento foi proclamado ex-cétedra, basta pesquisarmos se esse já é
dogma (e se, segundo o seu parecer, toda doutrina de uma religião é
dogma), esse argumento seria mais um conto do vigário, um dito pelo não
dito, ou o famoso 171!!!!.

Bem, depois de tanta acusação é imprescindível que tenhamos uma noção


mais clara ainda do que seja o dogma da infalibilidade papal. Me sirvo aqui
das palavras do prof. Orlando Fedeli: (o senhor) ... não distingue entre a
pessoa que é Papa e o papa enquanto sucessor de Pedro e Vigário de Cristo
na terra. E agora, entendamos as condições em que se exercem a
infalibilidade: Quando Cristo deu o poder das chaves ao Apóstolo São Pedro,
fazendo dele o chefe da Igreja, a pedra sobre a qual ia fundar a sua única
Igreja, prometeu-lhe que as portas do inferno não prevaleceriam sobre ela,
e que tudo o que Pedro ligasse na terra, seria ligado no céu, e o que ele
desligasse na terra, seria desligado no céu. Isto é, que Pedro, sempre que
falasse, sobre fé e moral , para toda a Igreja, como o poder que Cristo lhe
concedera , seria infalível. Essa promessa dava a Pedro o dom da
infalibilidade, nas condições expostas acima. (...) Pedro era infalível,
mas Simão continuava pecável. (...) Nos Papas é preciso distinguir, então,
o homem e o Papa. O homem pode ser até criminoso -- como Alexandre VI --
mas o Papa continua infalível, porque o dom de Cristo é incontaminável.
[Orlando Fedeli] [Disponível em:
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=papa&artig
o=20040818102436&lang=bra. Acesso em: Março/2009] O cargo de papa
tem o dom da infalibilidade, isso não depende do homem, mas de Deus. O
professor Alessandro Lima também nós dá uma explicação sobre a
infalibilidade do papa, a qual não é sinônimo de Impecabilidade Papal. Dizer
que o Papa não erra quando ensina sobre Fé e Moral a toda Igreja, não é
dizer que ele não peca. O papa não é um anjo, muito menos um deus, não é
um ser diferente do humano, não é superior aos outros seres humanos,
nada disso. Mas, por ser Papa, ocupa uma posição instituída por Deus, a
qual merece nossa devida veneração e obediência. Os maus papas nunca
introduziram uma doutrina contrária à Fé cristã católica, e isso é uma
comprovação histórica do que está sendo tratado aqui. As doutrinas cristãs
católicas só são “heresias” aos olhos dos protestantes, assim também pode
ser dito em referência a seus (dos protestantes) argumentos “sólidos”. O
primeiro argumento fundamental que poderíamos elencar para falar do dom
da infalibilidade é o da vontade de Deus de que todos os seres humanos se
salvem. Para se salvarem devem conhecer a verdade, e para conhecer essa
verdade é necessário que alguém ensine, e como todos os homens sem
exceção [nem o papa foge a essa regra], sem exceção são falhos, Deus
mesmo institui um Magistério, composto de homens, mas que através do
qual, Ele mesmo ensina infalivelmente, por um dom conferido, sua verdade
através de homens que são, em si mesmos, falíveis. Assim explica o
professor A. Lima: Deus quer que todos conheçam a Verdade, que é
anunciada aos homens pela pregação e pelo ensino. Logo, quem prega e
quem ensina a Verdade não pode errar, não pode ensinar o erro, pois então
já não ensinaria a Verdade mas a Mentira. Por isso Deus desde tempos
remotos instituiu Seu Magistério através de pessoas autorizadas, que
gozando de um carisma especial, anunciariam a Verdade sem defeito, sem
mancha, sem ruga, sem mácula. Todos os homens podem ensinar,
conquanto estejam de acordo com a doutrina ensinada pelo próprio Deus,
da forma como foi entregue. O Magistério foi através dos tempos, ocupado
por homens de Deus que, mesmo sujeitos a falhas, guardavam a Sua
Palavra por um dom especial de Deus: A autoridade do Magistério foi dada
primeiro a Moisés, depois aos Levitas e anciãos de Israel (cf. Deut 31,9-13).
Também foi dada aos Reis (cf. 2 Cr 34,30). Como se vê não cabia ao povo
ler e pedir a Deus entendimento da Escritura, pois seu (sic) autoridade não
há unidade. [Prof. A. Lima]. O prof. Alessandro Lima faz a seguinte pergunta:
Ora, se tal proteção divina era garantida desde o Antigo Testamento, será
que esta infalibilidade não será mais plena no Novo Testamento? Como
Deus é o mesmo sempre, seu Magistério no Novo Testamento é exercido na
Igreja Católica e aos Papas é conferido o carisma da infalibilidade. S. Pedro
deveria confirmar os irmãos na fé, portanto, a autoridade Petrina é fonte de
toda autoridade e unidade na Igreja de Deus. Pois a Pedro foi dado o poder
de dar a última palavra (“confirma os teus irmãos”). Logo, quando Pedro
se pronuncia não há mais um ou duas palavras na Igreja, mas uma só.[Prof.
A. Lima].

Portanto, não é ingenuidade crer na infalibilidade do Papa. Todos sabemos


que esse dom é garantido devido ao plano de salvação das almas, criado
pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Quando cremos nessa verdade estamos
nos conformando à vontade do Nosso Deus e Salvador. Isso não é entregar a
salvação da alma ao Papa ou a quem quer que seja. O Papa não tem poder
contra a verdade, e somente o exerce segundo a soberana graça de Deus,
que não permite que ensine o erro e assim faça perecer as almas. Quando
os evangélicos pensam com suas próprias cabeças, e contra a autoridade
da Igreja Católica, estão fazendo como afirmou o Prof. A. Lima: ...cada
crente é seu próprio mestre da Fé. Cada crente é infalível, pois crê que
lendo a Escritura a entende perfeitamente. Ora, se há tantos infalíveis no
protestantismo, porque não concordam nas questões mais simples? Por quê
(sic) cada denominação protestante tem sua própria doutrina totalmente
diversa de outra denominação?

Quanto à alusão de que os pecados dos líderes não afetariam os liderados,


isso não é bem assim. Embora saibamos que nossa salvação é pela graça de
Deus, quando os ministros caem, isso pode levar muitos à perdição, seja no
catolicismo, seja no protestantismo ou em qualquer outro lugar. Quando o
pastor Joel afirmou, quando um Pastor protestante cai em pecado, em nada
abala a fé dos leigos... esse em nada portanto, não é absoluto. Muitos
protestantes pouco instruídos certamente podem ser e são abalados! Isso
não ocorreria somente na hipótese de que o fiel considera o seu “superior”
como infalível ou dono da verdade ou mesmo impecável! Isso faz parte da
natureza humana; sempre há possibilidade de que tais fatos ocorram. Da
mesma forma, um cristão católico consciente de sua fé não é abalado a
ponto de perdê-la por causa de pecados de (um) ministro(s) da Igreja.
Voltando ao caso do Papa, ele não erra e nem pode errar por um dom que
Deus o conferiu, não por um privilégio pessoal. A infalibilidade consiste nas
questões de fé e moral. A grande maioria atitudes dos papas (poderíamos
assim dizer) não cai sob esse carisma, portanto, para saber se um
pronunciamento é ex-catedra, basta verificar se ele é uma doutrina de fé e
moral, onde o papa fala intencionalmente a toda a Igreja como Pastor. Visto
que os fiéis deve obediência ao Papa, se fosse possível que ensinasse ex-
cátedra uma doutrina errada, a Igreja perderia a verdade, e seria vencida.
Isso é impossível visto que Cristo garantiu que as portas do inferno não
prevalecerão contra a Igreja. Se todas as doutrinas de uma religião são
dogmas, elas o são em si mesmas, não o são no entendimento, às vezes,
um entendimento incompleto dos homens. Se há dificuldades, há
questionamentos. Por exemplo, o dogma da Imaculada Conceição sempre
foi verdade em si, inquestionável. Porém, somente tardiamente ele foi
proclamado, quando todas as dificuldades foram resolvidas, proclamado
com toda a certeza de ser um dogma [como sempre foi] cristão.

[Disponível em: LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor:


PROTESTANTE PERGUNTA SOBRE A INFALIBILIDADE PAPAL. Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/4602. Desde 03/10/2007. Acesso em:
30/03/2009]

CAPÍTULO 12

A IGREJA CATÓLICA É A 1ª IGREJA

12.1. Nascemos no século XVI?

O pastor Joel acusa a Igreja de iludir as pessoas por ensinar que ela foi
fundada por Jesus Cristo no primeiro século e que permaneceu una até
que apareceu o Protestantismo no século XVI, o que seria uma inverdade.
Mas, a primeira afirmação está correta, pois a Igreja Católica foi fundada
por Nosso Senhor Jesus Cristo na Palestina, no século I. Enfrentou muitas
heresias e, no entanto, permaneceu una podendo ser uma barreira contra
todas as heresias, o que valida quase toda a segunda afirmação acima. A
falha da segunda parte da afirmação é que não é verdade que não
existissem outras igrejas, como a Ortodoxa, e tantos outros grupos anti-
católicos como os Valdenses, Albigenses, para citar os posteriores ao
século XI. Por isso foi dito que a Igreja enfrentou muitas heresias. A tal
ilusão da inexistência de outras igrejas antes do século XVI estaria na obra
editada sob o Imprimatur do padre Aristides Rocha, Os Erros ou Males
Principais dos Crentes ou Protestantes, 7ª edição, 1957, editora O Lutador,
que à pagina 4 afirmaria que antes do século XVI só existiam os católicos
romanos. O pastor tenta mostrar que o catolicismo não foi fundado pelo
Senhor Jesus Cristo (afirma que isso seria “ofender” o Senhor, pois crê que
a Igreja está cheia de “heresias”). Mas essa é uma tarefa impossível. Por
outro lado é sabido que as heresias estavam profetizadas desde os
primeiros dias, como bem demonstra o pastor Joel citando Atos 20,30; 1
Tm 1, 19-20 e etc. O pastor acusa o monsenhor Aristides de tirar proveito
dos seus liderados e prossegue “demonstrando” que a Igreja Católica
seria diabólica. Obviamente as “provas” de que existiram grupos
heréticos anti-católicos em toda a história não são negadas pela Igreja, e
para provar isso não seriam necessárias tantas citações de livros de
história, já que bastaria apenas citar as obras de Dom Estevão que tratam
claramente desse fato (e são obras católicas). Seria o suficiente, por
exemplo, o livro Crenças, religiões, igrejas & seitas: quem são?, aliás,
citado pelo pastor Joel. Contudo foi importante para melhor fundamentar
a questão.

12.2. Erros e virtudes de Lutero


Certamente ao mostrar, como um bom protestante, os erros e virtudes do
pai do protestantismo, o pastor Joel, naturalmente, se coloca como
alguém que já não comete os erros que o seu fundador cometeu em
matéria de fé e moral (e de alguma forma terá de admitir que, sendo
Lutero o iniciador da “reforma” protestante no século XVI, posso chamá-lo
de “seu fundador”, como fiz anteriormente). Isso é natural, assim como o
autor dessa crítica acredita não crer em erros doutrinais. Que os
arrazoados aqui expostos possam auxiliar-nos a ver a verdade com mais
clareza, com a ajuda da graça de Deus.

12.2.1. Virtudes de Lutero

Dentre as “boas ações” de Lutero, o pastor Joel aponta a reação contra a


idolatria, contra a “intolerância religiosa”. Nesse tópico devemos saber (e
o pastor Joel sabe, e até aponta como um erro de Lutero) que Lutero foi
intolerante ao máximo, talvez pior que os papas que tanto passou a odiar,
pois foi conivente no massacre a milhares de camponeses. De fato, Lutero
disse que esses deviam ser assassinados como se fossem cães. Isso é
história. O próprio pastor Joel cita esse fato noutro tópico (História e
Consciência do Mundo, Gilberto Cotrim, 2º Grau, Editora Saraiva, 4ª
edição de 1996, páginas 228-229 [citado pelo pastor Joel]). Então, suas
palavras contra a intolerância religiosa, não tem força moral. Lutero
também se colocou contra a infalibilidade papal, contra a simonia, e
contra a salvação pelas obras. Embora saibamos que a Igreja ensina que a
salvação é pela fé e obras, o que é negado, pelo menos em teoria pelos
protestantes, pois como disse o pastor Joel: Salvação pelas obras (como
vimos no capítulo 5, a salvação é só pela fé, mas a Igreja Católica
pregava, prega e pregará que a salvação é pela fé mais obras). É
interessante que o pastor Joel creia que a Igreja tem uma doutrina
imutável, que é uma característica da verdade.

12.2.2. Erros de Lutero


O pastor passa a apontar os equívocos do “mestre”: E quais foram os
equívocos de Lutero? Ele cometeu os seguintes erros: a) amar da Igreja
Católica e b) Aceitar e praticar alguns dos erros da Igreja Católica. O
primeiro “erro” de Lutero é o amor que tinha pela Igreja, querendo
reformá-la. O pastor Joel considera isso um erro, pois crê que a Igreja é
“incorrigível”. O segundo “erro” foi que Lutero continuou praticando
doutrinas católicas como o batismo infantil, a forma de batizar por
aspersão, a consubstanciação (que admite a presença de Cristo na
Eucaristia), o cesaropapismo (algo que a Igreja Católica nunca admitiu por
completo). A atitude de Lutero de praticar o cesaropapismo e as outras
doutrinas citadas, não eram vistas pelo reformador como erro, pois
acreditava que sua doutrina vinha do céu, não admitindo que o
contradizesse. Da mesma forma, é possível que o pastor Joel esteja errado
em considerar “erros” aquilo que Lutero conservou, da Igreja Católica,
como ensino bíblico, e elogiar como virtudes aquilo que talvez fossem os
verdadeiros erros do Reformador, pois sabe-se que o pastor Joel não se
arvora como inspirado, como fazia Lutero. É correto dizer que o critério de
julgamento que o pastor Joel usa é seu entendimento “bíblico” da doutrina
cristã, que, relativamente, nada mais é que a doutrina reformada-batista-
dispensacionalista, essencialmente formulada por Calvino, que em muitos
pontos contrariou Lutero. É necessário pelo menos refletir na possibilidade
de Calvino ter-se distanciado do Evangelho mais ainda que o primeiro
reformador, e essa doutrina, que tanto é defendida no meio protestante, e
que é considerada a doutrina “bíblica”, ser somente uma doutrina
humana.

12.3. Lutero e o clero católico


O pastor inicia esse tópico citando as palavras do livreto Os Erros ou
Males Principais dos “Crentes” ou Protestantes, que diz: “Sabido é ser o
protestantismo oriundo da revolta e do protesto de Lutero contra a Igreja
Católica, de que fazia parte e donde foi excluído por insubordinação e
libidinagem”. O pastor indigna-se contra essas palavras, pois não vê
como ser subordinado ao Papa naquelas circunstâncias de comércio de
indulgências. Quando à libidinagem, o pastor diz estar surpreso com isso,
e questiona: Desconheço a seara onde ele coletou essa surpreendente
revelação. Será que esse Monsenhor chama de libidinagem ao casamento
de Lutero?! Sei lá. Mas essa surpresa é que é surpreendente, pois quem
tem conhecimento da vida de Lutero sabe que ele não tinha o dom do
autodomínio e que por não conseguir ver-se livre dos seus impulsos
pecaminosos, o quais considerava pecados, criou a doutrina da salvação
somente pela fé, doutrina composta de forte carga subjetiva, segundo a
Enciclopédia Barsa Britânica (1998), visto que não há como ser livre
pecado, e onde o crente seria “coberto” com o manto de Cristo,
permanecendo o mesmo pecador de sempre. E comparando a visão do
dicionário de filosofia anteriormente citado e o parecer do clero quanto a
Lutero, o pastor afirma que essa discordância se dá porque o clero não se
orienta pela razão, mas por um fanatismo cego e doentio que os priva de
pensar, e repete que Padre não pensa teologicamente. É interessante,
quando estamos falando de Lutero, que o pastor Joel fale de razão, a qual
não era vista com bons olhos pelo reformador, que disse ser a razão a
meretriz louca (FEDELI, Orlando. Relação entre fé e razão_cartas.
Disponível em:
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=doutrina&
artigo=20040821164557&lang=bra). Certamente a citação do livro acima
não se referia ao casamento de Lutero. O adágio popular citado pelo
pastor, em muitos casos, serve para os dois lados, católico e protestante:
quem tem telhado de vidro não atira pedras ao do vizinho. Se Lutero não
conseguir superar as barbaridades praticadas muitos clérigos através dos
séculos, ele foi um bom concorrente, pois em pouco tempo, fora da Igreja,
munido de “melhor” doutrina, conseguiu subordinar a Igreja ao Estado, a
aconselhar o massacre de milhares, a permitir poligamia, e atacar os
judeus com palavras que podem ter alimentado o anti-semitismo e etc.,
tudo isso depois de ter abandonado o Catolicismo! O adágio acima é
mesmo útil (leia o artigo: Lutero, o filme: uma boa e grossa mentira, no
site Montfort). O artigo, que trata do filme Lutero, de suas omissões, é
duríssimo para com Lutero, mas não é mentiroso. Qualquer um que tenha
capacidade de entender a real história do reformador, verá que as
informações desse artigo são verdadeiras.

12.4. Escondendo atrás dos erros de outrem


O pastor Joel fala da intolerância dos protestantes contra os “hereges”
(entre aspas), de cita o exemplo de Miguel de Servet, vítima da inquisição
calvinista. Desse modo, os protestantes foram tão intolerantes quanto os
católicos. Nisso o pastor Joel está com a razão. O pastor continua
afirmando que Contudo, o clero católico não pode esconder atrás dos
erros dos protestantes, visto que um erro não justifica o outro. Outra vez o
pastor está com a razão. Logo após ele diz: Qualquer "Igreja" assassina,
intitule-se ela protestante ou católica, não tem moral para dizer que é a
Igreja de Cristo. Disse “Igreja” (entre aspas), pois não crê que a Igreja
verdadeira cometa tais erros. Diante disso, afirma que a Igreja Católica
deixou de ser de Cristo, e se João Calvino e seus comparsas não se
arrependeram, estão ardendo no Inferno juntamente, com os papas e
outros clérigos não seguiram a “verdade em amor” (Ef 4,15). Não se
pode negar a verdade dessas palavras, exceto quando diz que a Igreja
deixou de ser de Cristo. Que os pecadores que não se arrependem são
condenados, isso estamos de comum acordo. Quanto à Igreja deixar de
ser Igreja de Cristo, isso seria somente possível em igrejas particulares,
nunca a Igreja Católica como um todo, pois, desse modo, as palavras de
Cristo, de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja,
teriam falhado, o que não é possível ocorrer nunca, pois se a Igreja
apostata, essa foi vencida pelos poderes do inferno, indo contra as
promessas do Evangelho. E além do mais, se esses erros dos católicos (a
intolerância religiosa) forem contados para descaracterizar a Igreja como
não sendo mais de Cristo, ou pelo menos, não sendo infalível enquanto
duravam aqueles “erros”, os mesmos erros dos protestantes poderiam ser
citados para descaracterizar o luteranismo e o calvinismo, as raízes do
protestantismo (o protestantismo histórico) como não sendo de Cristo já
no seu nascedouro, pois já produziram maus frutos no século XVI, o que
complicaria a posição dos protestantes. Então seria melhor argumentar
teologicamente.

12.5. A Igreja Católica já Foi de Cristo


O pastor Joel volta a afirmar que a Igreja tornou-se a sinagoga de
Satanás: Que a associação de igrejas, que se convencionou chamar de
Igreja Católica, um dia foi de Cristo, nenhum teólogo evangélico nega,
segundo nos consta. Essa tese, como vimos, diz que houve uma
degeneração da qual o Catolicismo “surgiu”. Onde estaria a verdadeira
Igreja então? Novamente o pastor responde que a Igreja de Cristo não
está na rua tal, número tal. Dessa forma, nem o Catolicismo e nem o
Protestanismo seria a “Igreja” de Cristo, mas essa É, antes, o conjunto dos
que seguem a Jesus. Embora possamos dizer que, como foi analisado no
livro do pastor Joel, o protestantismo é que estaria “dentro” dessa
definição, visto que o Catolicismo desconsiderado como Igreja ou Religião.
Mas é interessante as obras os seguidores de Cristo, citadas pelo pastor:
Estes seguidores de Cristo não praticam homicídio, fogem da idolatria,
proclamam a salvação exclusivamente pela fé no sangue de Jesus, vivem
o amor, etc. Ao citar a salvação exclusivamente pela fé já está indicando
os protestantes como os seguidores de Cristo. Nos primeiros séculos, os
“cristãos” que saíam da Igreja Católica é que são considerados, pelos
protestantes, como os “verdadeiros” “cristãos”. Essa tese traz em seu
bojo a impossibilidade de ser provada historicamente, visto que esses
grupos de cristãos não mantinham a pureza doutrinal. Pelo contrário, eles
são conhecidos como hereges, os verdadeiros representantes das heresias
que lutavam contra a Igreja Católica. E tais grupos, sempre desunidos,
não possuem as características da verdadeira Igreja, que a Sagrada
Escritura apresenta.

12.6. Separamo-nos da verdadeira Igreja?

Já é possível imaginar a resposta protestante para a pergunta, que


seria “não”. Mas é óbvio que a resposta correta é “sim”, portanto,
resposta errada. A sucessão apostólica seria o fato de estarem unidos da
Jesus, sendo conseqüência disso, o que implica a não necessidade do que
realmente entendemos por sucessão apostólica. Vejamos a crítica do
pastor: Cristo não deixou sucessores, e sim, seguidores; não deixou
vigários, e sim, representantes; não deixou inquisidores assassinos, e sim,
mártires; não deixou ditadores, e sim, evangelistas e mestres; não deixou
déspota algum, mas discípulos exemplares, dignos de serem seguidos;
não deixou papas e padres, mas sim, irmãos (Mt. 23.9 ["Papa" deriva do
latim, e é o mesmo que "pai". “Padre” também é "pai", em espanhol]),
etc. Enfim, conclui-se que Cristo não deixou a Igreja Católica mas a
“Igreja” Protestante, onde seus membros seriam os “seguidores”, os
“representantes”, o “mártires”, os “evangelistas e mestres”, os “discípulos
exemplares dignos de serem seguidos”, os “irmãos”. Isso tudo quer dizer
o mesmo que a Igreja Católica afirma sobre ela mesma, mas o
Protestantismo afirma não afirmando e não afirmando afirma. Afirma que
o Protestantismo e o Catolicismo não são a Igreja de Cristo, mas pela
definição que apresenta, o Catolicismo está descartado, pois somente o
Protestantismo se encaixa perfeitamente. Então, conclui-se, diante disso
tudo, que a Igreja Católica, além de ser a verdadeira Igreja, afirma isso
aberta e inegavelmente. Outras seitas o fazem, mas sem moral para isso.
O resto do Protestantismo também o faz, mas de forma diferente, como
vimos, para se diferenciar das outras “seitas” protestantes. Pelo menos é
o que foi visto aqui. O pastor afirma ainda: O clero católico adora dizer
que os protestantes saíram da Igreja Católica, mas a verdade é outra. Não
saímos; antes fomos expulsos por um charlatão chamado Papa Leão X. Só
não foram expulsos da "Igreja" por esse sanguinário e vendedor de
"indulgências", os que eram da mesma laia dele. Então os Protestantes
tiveram que sair de uma “Igreja falsa”, ao invés de saírem
voluntariamente do ninho de cobras? Segundo o pastor Joel, a Igreja não
mata mais hoje os hereges porque a liberdade religiosa foi conquistada,
não por terem mudado de opinião. Até parece que durante milênios a
Igreja passava o tempo “matando”. Bem, essa é a opinião dos
protestantes. Mas, é necessário refletir sobre isso de forma imparcial.
Depois, o pastor cita a omissão ou mesmo o apoio de católicos ao
nazismo. Nesse caso também os protestantes não são inocentes, visto
que muitos protestantes se mostraram igualmente coniventes. A Igreja
Católica oficialmente era contrária ao nazismo. O pastor cita ainda
notícias sobre envolvimento de clérigo católicos na ditadura argentina e
as estratégias políticas do papa João Paulo II para a derrubada do
comunismo no leste europeu. Tudo isso estaria ratificando o parecer de
Rui Barbosa. Para isso é necessário ler obras especializadas sobre o
assunto.

12.7. Padre Luiz Cechinato, o advogado do diabo


As explicações do padre Cechinato, sobre os reais fatos da
inquisição, são interpretadas como tentativas de inocentar a Igreja
Católica: :"...O Papa quis que os inquisidores fossem religiosos (bispos e
padres), porque no tribunal civil entrariam interesses políticos, e muitos
inocentes poderiam ser condenados. De fato, nos últimos tempos, o
Estado estava atribuindo a si o direito de julgar os hereges......Às vezes, o
povo mesmo jogava o herege na fogueira, por conta própria, sem o
julgamento......Como se vê, não podemos pensar que a Igreja seja a única
responsável pela inquisição. Antes, quem levava os hereges à fogueira
era o poder civil. Os peritos em Teologia julgavam se havia crimes contra
a fé. Mas a sentença e a execução ficavam por conta do Estado..." (Os
Vinte Séculos de Caminhada da Igreja, páginas 191 a 193, 4ª edição de
2001, Editora Vozes). Pelo texto acima o padre Cechinato não tira a
responsabilidade da Igreja, mas tão somente aponta que outras
instituições eram igualmente responsáveis, pois afirma: podemos pensar
que a Igreja seja a única responsável pela inquisição. Mas o pastor Joel faz
uma interessante análise, como se o padre Cechinato tivesse esquecido
de que a Igreja podia intervir em favor da não execução dos hereges,
excomungando que o fizesse. Eis suas palavras: se o Papa ameaçasse
excomungar da Igreja quem ousasse assassinar os "hereges",
logicamente ninguém se atreveria a executá-los. É, como foi assinalado,
um ponto interessante, mas deve-se ver no contexto histórico, qual o
alcance da sentença da excomunhão, que era muito considerada, não se
pode negar, mas que talvez não fosse totalmente eficaz para “salvar” os
hereges das mãos do povo ou mesmo do Estado. É óbvio que se assim
tivesse acontecido, a Igreja gozaria de menos repreensão por parte dos
protestantes e outros que vêem na inquisição um “atentado” contra a
humanidade. Quanto ao poder “ilimitado” dos papas, que o pastor Joel
afirma que, na época, eram semideuses, que podiam mandar e
desmandar a bel-prazer, entronizando e depondo reis, isso é discutível.
Não se pode negar o grande respeito que tinham os papas, mas é certo
que parece exagero dizer que seus poderes fossem como os de
semideuses. Dessa forma, os papas seriam não somente omissos, mas
teria pecado por comissão, auxiliando na “maldade” que estavam
praticando contra os hereges, chamados entre aspas pelo pastor Joel
(“hereges”), como se não o fossem. Mas é certo que eram. Por exemplo,
os albigenses eram contrário ao matrimônio, eram maniqueístas,
portanto, eram hereges, não “hereges”. Mas a conclusão do pastor Joel,
típica no protestantismo, é essa: Os "hereges" eram entregues ao Estado,
o qual lavrava e executava a sentença de morte nas fogueiras, porque os
papas, quais Pilatos, queriam "lavar" suas mãos. Certamente o Padre Luiz
Cechinato sabe disso, mas o amor doentio pelo seu "time" não o deixa
confessar que o seu clube faliu. Mas é óbvio que o padre Cechinato
conhece a história, não de uma suposta “lavagem” de mãos à moda de
Pilatos, mas que a pena capital, parte da legislação da época, era vista
como uma punição justa, e a Igreja, depois de tudo fazer, entregava os
hereges ao braço secular como parte da medida que tinha adotado nos
tribunais inquisitoriais. E a pena de morte justa é moral, portanto, nesse
particular, somente a injustiça, que ocorreu em muitos casos, é que pode
ser motivo de acusação contra muitos membros da Igreja, não a
instituição da Inquisição em si. A questão é polêmica, pois, mesmo a
solução que o pastor Joel apresenta, que é a opinião de tantos, até de
católicos, não é um solução tão simples assim: Mas ele (o padre
Cechinato) não atenta para o fato de que tais linchadores de "hereges"
não eram julgados pela "Igreja", tachados de hereges, excomungados e
entregues à "justiça". Então a Igreja deveria intervir para evitar essa ação.
Será que interviu ou não? A resposta é sim. Não da forma como foi
expressa, como se fosse “correto” julgar os “linchadores”, o que se
assemelharia a uma condescendência com a heresia, causa daquelas
reações populares. A Igreja criou os tribunais da inquisição justamente
para coibir aquelas manifestações do povo, o que ao mesmo tempo
estava de acordo com o objetivo de reprimir as heresias. Os estudos
imparciais sobre a inquisição mostram um quadro bem diverso daquele
retratado nas obras adversárias, vamos dizer, pois revelam uma justiça
cautelosa, onde casos de execução eram relativamente baixos. Para os
que não concordam com tudo isso, o jeito é apelar para a condenação de
todo o “sistema inquisitorial”, no entanto, sem uma base razoável para tal
condenação. O melhor seria tentar compreender a questão, já com
relação aos culpados, a esses está reservado o julgamento de Deus. A
Igreja não via como uma “boa ação” o assassinato de hereges, mas como
uma justa ação, prevista para muitos casos. Quanto ao que o padre
Cechinato afirmou, e que foi comentado acima, de que a Igreja não era a
única responsável, o pastor Joel concorda, mas afirma que a Igreja não
estava sozinha, pois tinha o Diabo ao seu lado, e que na questão em
apreço, estavam também os demônios, bem como reis e rainhas tão
endiabrados quanto essa "Igreja. Bem, isso é uma afirmação que, à luz
dos fatos em si, não pode ser provada, nem pela Bíblia, nem pela História
imparcial, como se a Igreja estivesse “diabolicamente” inspirada. Fica a
critério do pastor e dos protestantes escolherem o que pensar sobre essa
questão, não permitindo que o sentimentalismo seja a base dos seus
“arrazoados”. Também não é surpresa que diante de uma visão
totalmente negativa da Igreja e de seus atos, alguém naturalmente tenha
essas conclusões. É verdade, porem, que podemos chegar a falsas
conclusões a partir de dados corretos, e, nesse caso, cabe saber o lado
que mais está apto, como resultante de estudos científicos, a apresentar
uma tese mais próxima da realidade, que não contradiga os fatos
históricos. Nenhum cristão católico pode procurar inocentar culpados, mas
afirmar que todos os processos inquisitoriais são como que “marcados”
pela “injustiça”, isso não parece fazer jus ao que as pesquisas mais
profundas revelam.

12.8. Recapitulando

Agora, nesse “recapitulando” o pastor Joel afirma que a “Igreja” de Cristo


estava no 4º século de existência quando a Igreja Católica “nasceu”. As
“provas” já foram dadas no seu livro, e refutadas nessa crítica. E diz o
pastor: Resumidamente, a seqüência é a seguinte (e resume o que está
em 1.1).
1º) Nasceu a Igreja de Cristo. Esta era, no princípio, constituída de igrejas
locais, independentes, como já vimos em 1.1.... Já foi possível refutar isso.
Mas o pastor apela para a divisão de trabalho missionário entre Pedro e
Paulo, pois aquele se dirigiu aos judeus e esse aos gentios. Isso seria um
“prova” de que não havia um líder universal, mesmo que ambos podiam
pregar em todo o mundo, mas com ênfase nas suas respectivas áreas. É
falso isso. Pois os carismas de serviço não provam que a liderança
universal não tenha existido. São Pedro foi o primeiro a pregar aos judeus
(Atos 2), e também o primeiro a pregar aos pagãos (Atos 10), como líder
da Igreja. São Paulo começou seu apostolado pregando especialmente aos
judeus nas sinagogas, passando a pregar aos pagãos depois que os
judeus se mostravam endurecidos. O Espírito Santo cumulou o apóstolo
dos gentios de dons que seriam úteis em suas viagens missionárias em
terras gentias. Isso não nega que a autoridade tenha sido São Pedro. O
Concílio de Jerusalém mostra que Pedro foi quem resolveu a questão,
sendo as falas de São Paulo, São Barnabé e São Tiago não depõem contra
a sua liderança na Igreja. De fato, as sugestões de São Tiago não
acrescentaram novidade alguma no discurso de São Pedro. Até mesmo o
fato de São Paulo ter ido a Jerusalém para conhecer a Pedro
especificamente é um indício que esse tinha um papel singular na Igreja
(Gálatas 1 e 2). Não seria o dispensacionalismo uma nova barreira para
entender a questão do primado de Pedro? Também o trabalho de São
Paulo, maior do que o de todos os outros, não prova que esse fosse o
“líder” como há protestantes que forçam os textos a afirmarem isso.
Mesmo com o líder Pedro, instituído por Cristo, é Cristo o líder universal de
sempre. Com referência ao título “romano”, em católico romano, ou Igreja
Católica Romana, esse é um título histórico, não essencial. Portanto, não é
contraditório: a Igreja é Universal (Católica) essencialemente, e Romana
somente porque sua sede está em Roma.

12.9. Quem saiu da Igreja?

O pastor Joel se explica melhor aqui, quase aparentemente


contradizendo o que disse anteriormente, quando afirmou que os
protestantes foram “expulsos” da Igreja: Para manter a sua primazia, a
Igreja Católica alega que os protestantes se separaram dela. Até certo
ponto isso é verdade. Realmente nos separamos dela. Porém, jamais nos
separamos da Igreja de Cristo. Até porque a Igreja não pode se separar da
Igreja. Nada pode se separar de si mesmo. O motivo da separação,
segundo o pastor, seria bem explicado à luz da Teologia. Isso realmente é
verdadeiro e podemos concordar. Diz o pastor ainda: E é a parte que for
achada pregando heresias, que é a que se separou, visto que primeiro
nasceu a Igreja, e depois as heresias no seio daquela. O erro é que ele crê
que foi a Igreja quem iniciou a pregação de heresias. Mas o fato é que os
protestantes é que inovaram, basta um estudo cuidadoso das bases do
protestantismo para certificar-se disso. Nenhum teólogo pode provar que
a Igreja pregou novidades ou heresias, como afirmou o pastor Joel. As
seguintes palavras do pastor são essencialmente iguais à que eu disse
anteriormente em relação à Igreja Católica, que é a única Igreja de Cristo:
Ora, qualquer grupo de cristãos, isto é, qualquer igreja local, ou ainda
uma associação mundial ou nacional de igrejas, pode se desviar da rota
traçada por Jesus e se perder, mas a Igreja de Cristo nunca esteve fadada
ao fracasso. Ela jamais foi derrotada. Jesus garantiu que as portas do
Inferno não prevaleceriam contra a Igreja. Basta que o protestante creia
que essa Igreja de Cristo, que eles creem que existe, é a Igreja Católica,
visível e invisível. Não adianta criar teses e mais teses sobre uma Igreja
de Cristo que não seja a Católica, como foi provado nessa crítica. Um
exemplo é a doutrina de que a verdadeira Igreja é “invisível”. Essa
doutrina foi muito utilizada pelos reformadores. Calvino ensinou que a
Igreja, enquanto vista por Deus, é composta de todos os salvos, e
enquanto vista pelos homens é percebida como tendo joio e trigo
misturados. Esse conceito é verdadeiro, visto que a Igreja Católica o
ensina, na doutrina sobre o Corpo Místico de Cristo. O que não é verdade
é que a Igreja não seja também visível, possuindo seus atributos que a
fazem ser reconhecidas pelo mundo. Na tese protestante a “Igreja visível”
está retratada de certa forma nas diversas denominações que vemos pelo
mundo afora. Os verdadeiros membros da Igreja estão em todas elas,
inclusive na Igreja Católica, e também há membros que não fazem parte
de nenhuma delas, mas são conhecidos somente por Deus. Todos esses
constituem a Igreja invisível. A doutrina católica, por sua vez, ensina que
realmente só Deus conhece os verdadeiros membros da Igreja, contudo, a
Igreja Católica é visível e invisível. Isso significa que nem todos os
membros da Igreja Católica visível estão contados entre os verdadeiros
membros de Cristo, ou seja, não são membros vivos da Igreja, ao passo
que existem muitos que não estão na Igreja Católica fisicamente, mas já
fazem parte dela, da sua alma, sejam membros das outras igrejas ou até
mesmo membros de outras religiões, pois somente Deus sabe onde estão.
Mas Jesus chama essas ovelhas para o seu rebanho visível, a Igreja
Católica (João 10,16). A razão para negar que a Igreja seja somente
invisível é que muitas passagens da Escritura não se harmonizam com tal
conceito, tornando-o impossível de ser verdadeiro, ao passo que a
doutrina cristã católica está totalmente em harmonia com essas
passagens bíblicas e com o teor geral da Escritura. Os laços de união da
Igreja devem ser visíveis e testemunhar essa união ao mundo, o que não
seria possível se a Igreja fosse unida só invisivelmente. Isso é expresso
claramente em João 17, 18.19.21. Nesses versos Cristo afirma que enviou
Sua Igreja ao mundo e que a unidade da Igreja é sinal para a conversão: E
para que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo acredite
que tu me enviaste (v. 21). Essa unidade a Igreja Católica sempre
testemunhou a todos. A “unidade” protestante não serve como sinal para
o mundo! Um pesquisador imparcial, não é necessário que seja nem
mesmo cristão, certamente concordará com isso. Não adianta querer
provar que uma suposta associação de igrejas locais chamada de Igreja
Católica tenha perdido o rumo. Isso não existe. Os que se desviaram
foram justamente os que saíram da Igreja Católica durante os séculos.
Com a tese de que o Protestantismo é que seria a Igreja, como vimos, o
pastor continua afirmando que se o Protestantismo se transviar, Deus
suscitaria o Protestantíssimo, e se esse falir, Deus levantaria outro
movimento para protestar contra esse, até Cristo nos “arrebatar”, ou
poderia ser dito, até o fim do mundo. Essa é uma conclusão necessária,
quando não se aceita que a Igreja nunca caiu, está sempre em reforma e
não precisará nunca de recomeço. Se um adúltero não pode tachar seu
fiel cônjuge de destruidor da família, essa metáfora não cabe à Igreja
Católica, mas aos reformadores. Veja que o Concílio de Trento reformou a
Igreja, uma obra de reforma dirigida por Deus, levada a cabo pela
Providência Divina que permitiu a revolução protestante para castigar a
Igreja pelos seus pecados e reformá-la moralmente, não
doutrinariamente. Já os protestantes se mostraram desunidos desde o
início, característica das obras humanas. Quanto ao fato de sempre
surgirem movimentos necessários “protestando” contra os anteriores, que
estariam corrompidos, isso é sempre possível e natural que ocorra, mas
não é provável que sejam necessariamente inspirados por Deus.

CAPÍTULO 13

O MATRIMÔNIO E O CATOLICISMO

13.1. Divórcio: um mal às vezes inevitável

O pastor Joel deixa claro que o divórcio é um mal, uma desgraça, e que
Deus não o quer para o homem. Certamente essa é a opinião do
protestantismo. Porém, segundo o protestantismo, em alguns casos, o
divórcio seria permitido, assim como as novas núpcias, ou o novo
casamento (Mateus 19.9). O pastor conhece a postura da Igreja Católica, a
qual respeita o casamento como um verdadeiro sacramento, sendo
indissolúvel e, portanto, não permitindo novo casamento exceto pela
separação por morte de um dos cônjuges. Para os protestantes, a
infidelidade conjugal daria permissão ao novo casamento. Assim, depois de
citar o catecismo que é claramente contrário às novas núpcias, o autor
adverte o católico que vive um novo “matrimônio” dizendo que ele é um
adúltero aos olhos da Igreja, e sendo o adultério um pecado punido com a
condenação eterna, todos os que assim vivem estejam conscientes de sua
posição. Realmente severo o Evangelho que a Igreja defende! Mas, assim o
é de fato. Porém, o pastor Joel diz: E, se os clérigos católicos não querem
ser mais incoerentes do que já são, precisam aconselhá-los (a você e a seu
novo cônjuge) a se separarem, e não tapeá-los com “freqüência às missas,
penitências” e outras mais, e conclui que o catolicismo é prejudicial à
família, e pode destruir um lar. O ideal seria mesmo a separação, e é isso
que se conclui do ensino da Igreja. Isso é pregar o Evangelho. Porém, a
defesa do Evangelho da forma como ele é, torna-se “motivo” para acusar a
Igreja de ser um mal contra a família!

13.2. A indissolubilidade do matrimônio em Romanos 7


Ao tratar de Romanos 7,1-3, o autor afirma que muitos são mal
informados ao provar que o adultério não dá à parte traída o direito de
divorciar-se da parte traidora e contrair novo matrimônio. Passa, então, a
falar de contexto imediato, contexto remoto e contexto histórico, os quais
seriam o meio para se entender que o texto não erradica a ideia da
possibilidade de um novo casamento. Mas, será que isso é mesmo
encontrado no texto de Romanos 7?
Para o pastor, em sua exegese, o v. 4 é a chave para a compreensão. O
apóstolo estaria se referindo ao passado, ao Antigo Testamento, da forma
que era, não da forma que é atualmente. Assim explica: Paulo estava
dizendo que como a morte do marido na Antiga Aliança, dava à viúva o
direito de arranjar outro marido, nós, os cristãos, não somos obrigados a
nos submetermos ao jugo da Lei de Moisés, visto ter Cristo morrido. O texto
não estaria reprovando o divórcio, mas, apenas que o apóstolo está dizendo
é que Cristo nos libertou da Lei (Romanos 7.6).
Mas, na Antiga Aliança era predominante a poligamia, enquanto na
Nova, o casamento considerado como em sua forma original, como no
início, no Éden, apenas entre um homem e uma mulher. A explicação foi um
tanto confusa.

13.3. A indissolubilidade do matrimônio em Mateus 19

Quantos “irmãos” infelizes (protestantes?) no casamento que se


divorciam e casam-se novamente! Embora o Evangelho não permita! Mas, o
homem sempre encontra um jeitinho, e com o aval da “igreja” a que
pertence! O pastor Joel diz que apresentar Mateus 19 como uma prova
contra o novo casamento após um divórcio é exibição de uma falsa
Hermenêutica. O pastor questiona: Senão, vejamos: Os fariseus não só
perguntaram a Jesus se “é lícito ao homem repudiar a sua mulher”, mas
acrescentaram: “Por qualquer motivo?” (Mateus 19.3). Vejamos qual é a
resposta e a explicação disso, segundo o pastor Joel: E, no versículo 9, Jesus
dá Sua Nova Lei nestes termos: “Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua
mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra,
comete adultério...” Aí Jesus diz bem claro que a parte traída pode divorciar-
se da parte traidora e casar-se novamente. E para tornar mais claro o
entendimento dessa questão, o autor sugere o seguinte raciocínio: Se o
diretor duma empresa fizesse a seguinte comunicação interna: “Aquele que
tiver mais de cinco faltas ao trabalho, num período de trinta dias, a não ser
que apresente uma razão convincente, será demitido”. Deveríamos concluir
que o referido diretor estaria dizendo que todos que tivessem mais de cinco
faltas ao trabalho, num período de trinta dias, seriam demitidos
sumariamente? Claro que não. E não temos nós, em Mateus 19.9, um caso
similar?Se o texto permitiu um novo matrimônio nesse caso, as palavras
e/ou o seu significado ficaram não identificados. Somente uma
“hermenêutica” dessas é que foi visto um aval para novas núpcias em
Mateus capítulo 19, versículos 1-8.
Em sua conclusão, temos, entre outras, as seguintes palavras: Ora, o
divorciar-se do cônjuge infiel e contrair novas núpcias é tão-somente um
ponto facultativo da Lei de Cristo.
Muito fácil, então. Basta uma infidelidade conjugal e o divórcio está
permitido! Não é isso que pensa qualquer pagão? E o evangelho teria ponto
de contato com uma doutrina singular proveniente dos desejos
desordenados do homem? Fica fácil compreender porque o protestantismo
encontra enorme receptividade, principalmente entre pessoas que vivem
esse tipo de situação. Bem, os pastores até podem aconselhar uma
reconciliação, mas, segundo eles, Deus não ordenou isso. Deus é indiferente
se o homem e a mulher se divorciem por motivos de infidelidade? E tudo
isso na Nova Lei do Evangelho? Então, segundo o protestantismo, façam (os
cônjuges) como quiserem! Onde o Evangelho ensina isso? É óbvio que é em
lugar nenhum. É uma falsa tradição ou doutrina ou ensinamento ou uma
mera invenção, ou seja, qualquer coisa vinda de homens, não de Deus.
É óbvio que a Igreja, fiel à Lei de Deus, não permite tal doutrina. E
ainda é acusada de ser contra a família!

13.4. Consideremos 1 Coríntios 7.10,11 e 39

Segundo o pastor Joel, o que está exarado em 1 Coríntios 7,10-11 tem que
ser interpretado à luz do seu contexto remoto, que é Mateus 19,9.
Realmente, o texto de Mateus 19,9 ensina o mesmo que 1 Cor 7, 10-11, ou
seja, a indissolubilidade do matrimônio, não o seu contrário. Mas aqui, o
pastor admite que o texto não permite novo casamento, pois não fala da
infidelidade conjugal: Logo, a separação tratada nestes dois versículos não
permite um novo casamento, por não concernir à infidelidade conjugal.
Logo, segundo o autor, só a morte pode dissolver a união conjugal; mas, se
uma das partes não respeitar este princípio divino, a outra fica livre, à luz
da Bíblia, e não à luz de alguns versículos isolados de seu contexto imediato
e/ou remoto.
Depois, passa a tratar da questão de uma união de pessoas não batizadas,
que, portanto, não contraíram o sacramento do matrimônio e, se
porventura, queiram casar-se na Igreja teriam essa liberdade, o que
resultaria em “adúlteros” entrando na Igreja. Mas, se o casamento deles não
era válido, ou seja, não era casamento de fato, não há adultério quando se
casam com outro cônjuge, pois se trata do primeiro casamento. Na verdade,
vivam antes em “adultério” ou em “fornicação”, agora não.
E sobre o casamento realizado por ministros protestantes, que para a Igreja
Católica não seria válido, o pastor questiona: Talvez você queira me
perguntar: “Pastor Joel, então, segundo o Catolicismo, você e sua esposa
são adúlteros ou fornicários? Ora, se o nosso casamento não é válido, que
somos, senão adúlteros e/ou fornicários? Depois disso, conclui ele: Mas eu
posso abandonar a minha esposa, me converter ao Catolicismo, e me casar
de novo numa Igreja Católica. Realmente hilário: isso não é o que ensina a
Igreja. O pastor Joel está redondamente enganado e escreveu sobre o que
conhecia muito pouco. A questão é um pouco mais complexa. O Código de
Direito Canônico, no cânon 1.055, §, afirma que: 'O pacto
matrimonial...entre batizados foi por Cristo Senhor elevado à dignidade de
sacramento'. Podemos supor, com certa certeza, que ambos, o Pr. Joel e sua
esposa eram batizados (numa igreja protestante) quando se casaram. Pelo
que foi dito, eles realmente contraíram o matrimônio validamente, e estão
casados segundo o que ensina a Igreja Católica.
Tratando de um caso parecido, o Pe. Jesús Hortal afirma: Os DOIS eram
protestantes, BATIZADOS, mesmo que pela confissão a que pertencem
(batistas) o tinham sido na idade adulta e por imersão. Em princípio,
devemos supor a validade desse batismo, porque a matéria e a forma
empregada pelos batistas são perfeitamente válidas e porque a intenção
prevalente do ministro é, sem dúvida, realizar aquilo que Cristo mandou (cf.
cânon 869, §2). [grifo no original]. Nesse caso, se não houve impedimento
algum por parte dos noivos, devemos supor que o pr. Joel e sua esposa
estão realmente casados. E, se porventura ele se converter ao catolicismo,
não pode abandonar sua esposa, e, se o fizer, não pode casar-se numa
Igreja Católica.
E, para os que vivem sem os sacramentos, esses estariam perdidos, pois os
sacramentos são necessários à salvação. Questionando se haveria exceção
para essa regra, relembra, ironicamente, as crianças mortas sem batismo e
a doutrina do limbo.

[NABETO, Carlos Martins. Apostolado Veritatis Splendor: O MATRIMÔNIO ENTRE


PROTESTANTES É VÁLIDO?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4095.
Desde 12/02/2007.]

13.5. Os anticoncepcionais são proibidos?

O pastor supõe que a Igreja seja totalmente contrária ao planejamento


familiar assim como o é aos anticoncepcionais. Cita o Catecismo: “...é
intrinsecamente má ‘toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou
durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento de suas
conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar
impossível a procriação...’ ” (Catecismo da Igreja Católica, pág. 614, #
2.370). Assim, a Igreja (ou o papa) deveria bancar todas as despesas dos
casais na criação de seus filhos, em todo o mundo, ou então, não
deveríamos dar crédito a ela (a Igreja). Foi o que sugeriu o pastor Joel. E
afirmou, com certa verdade: Ainda bem que a maioria dos católicos não
está nem aí para o Papa, quanto ao controle de natalidade. Com relação aos
católicos nominais isso deve estar correto, pois muito não guiam suas vidas
pelo Evangelho, mas pela moda mundana e pagã. Evitar os filhos é uma
irresponsabilidade dos casais, em muitos casos. Contudo, nem toda relação
sexual deve necessariamente gerar filhos. Mas ela deve estar sempre
aberta à procriação, o que é muito raro hoje em dia. O controle de
natalidade pode ser feito desde que não ofenda os princípios morais. Isso
está de acordo com o Evangelho, com a Lei de Deus.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: LEITORA PERGUNDA


SOBRE PLANEJAMENTO FAMILIAR. Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/2662. Desde 12/04/2004.

PIMENTA, Marcus Moreira Lassance. Apostolado Veritatis Splendor:


ANTICONCEPÇÃO: UM ATENTADO AO PLANO DE DEUS . Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/3226. Desde 12/09/2005.

13.6. Sempre foi assim?

Nesse tópico o pastor fala da seriedade e severidade (todas entre aspas)


da Igreja no trato com as famílias, e acusa a Igreja de, no passado, ter
permitido o divórcio aos que doavam altas somas. É bom relembrar o caso
do Rei Henrique VIII, na Inglaterra, que pediu o divórcio ao Papa e não foi
atendido. Será que o rei não tinha dinheiro? Ou é melhor concluir que a
Igreja é fiel ao Evangelho? Se ao Rei foi dispensada tal severidade, que teve
por consequência a separação da Igreja da Inglaterra, uma nova cisão na
cristandade, pode-se imaginar o tratamento dado ao resto dos “fiéis” que
pedissem o divórcio.
CAPÍTULO 14

TENTANDO SAIR DA CRISE

14.1. O porquê da crise

A Igreja está em crise, e mesmo sendo o Brasil a maior nação católica


do mundo, (o pastor diz “infelizmente”) a maioria dos católicos é composta
de não-praticantes. Mesmo entre os praticantes, boa parte não é tão
praticante como se alardeia por aí. O autor afirma: É grande o número dos
que pensam que ser católico praticante consiste apenas de assistir às
missas assiduamente, comungar amiúde e confessar aos padres pelo
menos uma vez por ano. Muito bem lembrado que ser cristão católico não é
somente ir à Missa, comungar e confessar (raramente). O pastor afirma que
muitos dos católicos chamados “praticantes” pensam que a salvação
consiste em manter os padres bem informados das desgraças que andam
fazendo, pois confessam um pecado com vários outros previamente
agendados, pintando e bordando sem qualquer remorso, sequer pensam em
mudar de vida, vivendo debaixo da uma capa religiosa, hipocritamente
como a seita da qual são adeptos. Entre esses fatos, a hipocrisia, a vida
incoerente de muitos católicos, ninguém pode negar que isso ocorra. Tudo é
consequência do pecado dos homens. Quando à acusação de que a Igreja
(chamada injustamente de seita) seja hipócrita, isso não é verdadeiro
afirmar. A Igreja Católica foi fundada por nosso Senhor, é santa em seu
fundador e não pode ser culpada pelos pecados dos seus membros. A
santidade da Igreja vem de Cristo, que ensinou uma doutrina perfeita e
santa, uma lei santa, justa e boa, sacramentos que, de certa forma, são
análogos às fases da vida natural, pois através deles o Senhor Jesus Cristo
regenera, alimenta e cura sobrenaturalmente. Os maus membros da Igreja
não podem corromper o que a Igreja tem de incorruptível, mas apenas
condenam-se a si mesmos, rejeitando a graça de Deus. Depois disso, o
autor alude a um número não pequeno de católicos “sinceros” que, ouvindo
a pregação protestante, logo se “convertem” a Cristo, deixando a Igreja. E
diz: Por tudo isso a Igreja Católica está em crise no Brasil. Aliás, não só no
Brasil, mas em toda a América Latina. Pelo que foi dito pelo pastor a
respeito da formação religiosa dos católicos, é fácil perceber o motivo de
tantos serem atraídos pelas seitas protestantes. A própria percepção do
pastor Joel, da vida insubmissa aos princípios cristãos, de católicos
nominais, nos permite concordar que é real o estado lastimável de muitos
membros da Igreja. Porém, um sinal de que se é católico sincero não é a
conversão ao protestantismo, pois poderia igualmente ser dito que os
protestantes sinceros se converteriam infalivelmente ao catolicismo, assim
que ouvissem a pregação do verdadeiro Evangelho. É claro que uma pessoa
sincera, diante de uma verdade convincente, adere a essa com prontidão.
Mas, pelo que se pode entender, o protestantismo não é a verdadeira
religião, mas uma heresia que combate a Igreja Católica. Portanto, os cristão
católicos que aderem ao protestantismo, nem sempre o fazem por estarem
sedentos da verdade, o que implicaria em sinceridade, mas o fazem por
“motivos” diversos, um deles, como foi visto acima, o desconhecimento da
própria doutrina cristã católica, a vida irregular, contrária aos ensinamentos
que deveriam regular suas vidas etc. Esses católicos, continua o pastor,
estariam examinando as Escrituras, como os bereanos de Atos 17,11. A
respeito dqueles judeus bereanos, conhecedores do Antigo Testamento, eles
comparavam a pregação apostólica com as Escrituras, e muitos se
convertiam à fé cristã por certificarem-se que Jesus era de fato o Messias.
Se os cristãos católicos tivessem um conhecimento das Escrituras
comparável ao daqueles judeus da Beréia, esses católicos se certificariam
que a pregação protestante é uma heresia surgida com os Reformadores do
século XVI, sob moldes modernos, se tornariam convictos da veracidade da
sua fé cristã católica, e saberiam onde está o engano.

14.2. Os clérigos têm consciência da crise

O descontentamento da Igreja diante do surgimento de mais heresias é


natural, já que é seu dever velar pela exposição incorrupta do Evangelho de
Cristo. Portanto, o pastor não faltou com a verdade quando afirma que os
clérigos tem consciência da crise.

14.2.1. O papa reage

O pastor fala das visitas do papa João Paulo II, que visitou o Brasil devido
à crise da Igreja, mostrando que o papa estava disposto a tudo, para que o
movimento protestante não continue iludindo e confundindo os católicos.
Isso também foi o motivo da visita do papa Bento XVI para lembrar aos
católicos da veracidade da Igreja, para que não a troquem pelas seitas. Não
há tanto o que falar sobre esse assunto, visto que essas intenções são
justas, pois, sendo a Igreja a única verdadeira, sua posição de combate às
falsas doutrinas se torna compreensível, como foi dito acima. É só comparar
o “apostolado” do pastor Joel, que em sua convicção profunda de que a
Igreja Católica não é Igreja, a combate arduamente. Os papas apenas estão
usando de um direito que também lhes assiste.

14.2.2. Os padres aquiescem

A citação do Padre Vicente Wrosz é apresentada pelo pastor como uma


prova de que os padres conhecem e concordam com as diretrizes
evangelizadores da Igreja em combate à seitas protestantes: “Os bispos
latino-americanos, reunidos com o Papa João Paulo II em Santo Domingo,
em outubro de 1992, reconheceram que o avanço das seitas é um sério
desafio para o catolicismo na América Latina, e recomendam ‘instruir
amplamente o povo, com serenidade e objetividade, sobre as respostas que
devem dar às injustas acusações contra a Igreja Católica’ ” (Respostas da
Bíblia às Acusações dos “Crentes” Contra a Igreja Católica, Livraria Editora
Pe. Reus, 48ª edição de abril/2000, página 3, grifo nosso). Quanto à
consideração do pastor de que o livro do padre Vicente é herético, assim
como outros lançados com o mesmo objetivo, que é o de defender o
Evangelho, somente o dito livro seria herético se o compararmos com a
doutrina protestante, ou seja, na ótica protestante, não em comparação
com a doutrina bíblica tradicional. E a doutrina protestante não serve de
critério para discernirmos se uma doutrina é verdadeira ou herética, pois foi
nasceu no século XVI.

14.2.3. Imitando os evangélicos

O pastor fala da imitação que os católicos nominais estão praticando


para reavivar a Igreja, depois de notarem, através dos veículos de
comunicação, que a Igreja estaria naufragando, enquanto os clérigos
modernizam a parte externa do culto, mecanizando um “fervor” que nunca
tiveram (grito do pastor), seguindo um raciocínio como: ... Se os
evangélicos são bem sucedidos assim, quem assim fizer, bem sucedido
será. Os católicos estariam plagiando os protestantes, copiando não
somente o que há de bom entre eles, mas também, por causa da
intensidade da sede com que foram ao pote, estariam copiando as
meninices, as papagaiadas “evangélicas”. O pastor reconhece que essas
papagaiadas, como as de “cair no espírito”, são de origem protestante: Ora,
isso é plágio, pois podemos provar que essa papagaiada é evangélica, diz.
Isso estaria sendo, principalmente nos EUA, uma estratégia de êxito, pois
muitos estariam se deixando levar, crendo que as diferenças entre
protestantes e católicos não são mais relevantes, o que, faria do catolicismo
mais perigoso do que nunca. Essa crítica pode igualmente ser feita de forma
contrária, pois se o protestantismo se assemelha mais e mais ao catolicismo
a cada dia, ele se torna um perigo maior para a Igreja do que antes. Talvez,
segundo o autor, a regravação dos hinos evangélicos pelo Pe. Marcelo Rossi
faça parte do plano citado. Entre esses hinos, a Virgem Maria estaria sendo
adorada como Deusa. O pastor exorta os protestantes citando Mateus 24,24
prevenindo contra os falsos profetas. Diante de tudo isso, posso afirmar que
quase a totalidade do que foi dito é verdadeira. Quase, pois não é verdade
que a Igreja esteja plagiando até as papagaiadas protestantes, mas que o
movimento carismático católico, muitas e muitas vezes, por uma
religiosidade pouco crítica, no calor das emoções e, às vezes, na
desobediência de seus superiores, estão imitando os protestantes,
acreditando, com isso, estarem fazendo um grande bem à Igreja. O pior é
que muitos padres também se deixam levar, tornando-se muito liberais com
relação a essas práticas. Outros até mesmo insinuam heresias. Não que o
movimento seja de todo reprovável, mas que existem muitos erros que são
de origem protestante, um estudo sério pode provar, como o próprio pastor
Joel admitiu. É necessária uma orientação aos grupos da Renovação
Carismática Católica, pois estão sendo caminho para muitos deixaram a
Igreja e voarem para as seitas protestantes. De fato, olhando pela
perspectiva católica, essas estratégias estão favorecendo o protestantismo.
Estão desorientando ainda mais os católicos já desorientados. É isso
mesmo! O perigo que o pastor percebe nos movimentos pentecostais para
com o protestantismo histórico, é muito maior quando se considera a
repercussão negativa que os exageros “carismáticos” tem efetuado no seio
da santa Igreja. Um fato positivo, graças a Deus, é que não faltam padres
que protestam e denunciam esses abusos.

14.2.4. avivando a idolatria

Esse item se refere às medidas tomadas para tirar a Igreja da letargia,


como a distribuição de panfletos sobre os prodígios que as imagens de
Nossa Senhora estariam realizando... Segundo o pastor, a Igreja estaria
querendo manter o povo longe de Deus, no obscurantismo, idolatria e etc.,
através desses meios.

14.3.5. Incentivando ao ecumenismo (erro de digitação no livro;


deveria ser 14.2.5, o próximo 14.2.6)

Através dessas palavras do pastor Joel, podemos entender a posição


que os protestantes, pelo menos os mais radicais, tem perante o
Ecumenismo: Os líderes da Igreja Católica querem dialogar conosco, como o
Diabo dialogou com Eva no Jardim do Éden, mas a missão que o nosso
Senhor nos confiou é a de evangelizar o mundo. Portanto, sempre que
quiserem dialogar conosco, abramos nossas Bíblias e mostremos a eles que
Jesus salva. Não desperdicemos estas oportunidades! Se os protestantes
creem nisso, que o façam segundo a sua consciência, e que os católicos
dialoguem ou mesmo evangelizem com a mesma sinceridade e franqueza.
O pastor diz que os católicos são “pagãos”. Essa certamente é a
característica principal do anti-catolicismo. O exemplo apresentado, pelo
pastor, de católicos que “evangelizam”, mas sem conhecerem bem o que a
Igreja prega, portanto, não a representando bem, é um fato comum e que
deveria ser evitado, através de uma melhor formação desses
evangelizadores.

A pergunta do pastor Joel é interessante: A Igreja Católica não quer


abrir mão de suas heresias. Ela quer que todos se unam a ela, mas ela não
quer se unir a ninguém. O que ela aspira é que todos reconheçam que estão
errados, se retratem e se unam a ela, submetendo-se ao Papa. E, sendo
assim, perguntamos: Onde está a novidade? Não pregam todas as religiões
exatamente isso? Todas as religiões, de per si, não fazem o mesmo? E
assim, os protestantes estão incluídos nesse bojo, pois pensam, se não a
totalidade, a maioria deles, que todos deveriam crer no evangelho como foi
apresentado no livro do pastor Joel. Como o pastor, creem que esse é o
“verdadeiro” evangelho. O pastor continua: Os evangélicos que estão se
deixando levar pelo ecumenismo, são extremamente ingênuos. Eles estão
sendo enganados por Satanás. Aliás, muitos dos que se dizem evangélicos,
estão indo para o Inferno, juntamente com todos os que, como eles,
rejeitam a Cristo. (...) Será que o Ecumenismo produzirá o efeito desejado?
Parcialmente sim. Muitas igrejas protestantes já não protestam mais nada.
Porém, o Ecumenismo nunca conseguirá acabar com a Igreja de Cristo.
Sempre haverá alguém que não se deixará levar. Essa opinião não é típica
dos protestantes, pois também há católicos que rejeitam o ecumenismo e
acusam os homens da Igreja de estarem traindo o Evangelho, ao abrir mão
de verdades cristãs católicas tradicionais, e de usar de ambiguidade para
agradar aos protestantes e etc. Certamente, nessa questão do Ecumenismo
há muitas distorções. Agora, que a Oração é mais eficaz os argumentos
creio que devemos concordar.

14.3.6. Ensinando o povo a rezar

No tópico respectivo a este, o pastor cita o Catecismo da Igreja


Católica, página 680, # 2.650, o qual fala sobre a oração da seguinte forma:
“A oração não se reduz ao surgir espontâneo de um impulso interior; para
rezar é preciso querer. Não basta saber o que as Escrituras revelam sobre a
oração; também é indispensável aprender a rezar. E é por uma transmissão
viva (a sagrada Tradição) que o Espírito Santo, ‘na Igreja crente e orante’,
ensina os filhos de Deus a rezarem”. Não há nada de errado no que foi
expresso acima, porém, não foi o que entendeu o pastor Joel. Para ele a
declaração acima é contrária à Bíblia pelo menos por duas razões. Segundo
o pastor, a primeira razão é que a Bíblia é categórica ao afirmar que a
oração realmente pode ser o “surgir espontâneo de um impulso interior”, e
a segunda razão é que a Bíblia diz de si mesma que ela tem condição de
nos preparar “para toda boa obra” (2 Tm 3.15-17). Será que “toda boa
obra” não inclui a oração? Certamente que sim, diz o autor. Vejamos: o
catecismo não afirmou que a oração não possa ser o surgir espontâneo de
um impulso interior, mas que ela não se reduz a isso. Então há a
possibilidade, pois, o que não pode é que a oração seja somente isso. E o
motivo, o Catecismo esclarece: para rezar é preciso querer. Ninguém deve
somente esperar “brotar” espontaneamente o desejo da oração ou a própria
oração, mas, devemos querer rezar. Depois o pastor afirma que na Escritura
não encontramos os servos de Deus repetindo palavras decoradas, sendo
todas as orações o “surgir espontâneo”, o brado da alma. O autor também
questiona como o ladrão arrependido orou, e em que livro de rezas ele se
inspirou, e lembra ainda as orações de Abraão, de Jacó, de Moisés, de
Salomão, de Jesus, dos primeiros cristãos e muitos outros. Certamente, isso
é uma crítica ao costume cristão católico de usar livros de orações. Porém,
isso não demole a doutrina da Igreja, pois não é proibido fazer orações
espontâneas, ao mesmo tempo que as preces aprendidas são de grande
valor. A respeito da afirmação de que não basta saber o que as Escrituras
revelam sobre a oração, o pastor questiona: Mas quem disse que não
basta? Pode-se responder a isso afirmando que a Bíblia basta para
aprendermos, mas não basta sabermos, temos de praticar orando,
aprendendo a rezar. Não é isso que o Catecismo está dizendo? Mas o pastor
entendeu que os clérigos católicos dizem que não basta... pelo fato de
quererem também dizer algo sobre o assunto, aproveitando para ensinar a
Ave-Maria e as rezas aos santos (que o pastor cita entre aspas: “santos”), e
anjos diversos. E afirma que Cristo nos ensinou a rezar direto a Deus Pai, e
nunca falou da necessidade de intermediários entre nós e Deus. O
intermediário que, no entanto, necessitamos, é Cristo. O pastor Joel
pergunta: Por que Cristo não nos ensinou a rezar aos espíritos dos mortos
que já estão no Paraíso, pedindo-lhes que roguem por nós? Será que os
papas são mais sábios do que Cristo? Esse raciocínio tem a intenção de
provar a invalidez da oração de intercessão do santos. Podemos afirmar que
o Único Mediador e Intercessor é Cristo, mas, ao mesmo tempo, quando
oramos uns pelos outros, e isso é uma ordem bíblica, nós nos tornamos
intercessores e mediadores, o que nunca visão primária constituiria uma
contradição. Na verdade nada há de contradição. A intercessão que fazemos
é possível somente no nome de Jesus Cristo, pois ele é o único Mediador de
salvação. A doutrina cristã católica ensina que a nossa intercessão, bem
como a dos santos no céu, é uma intercessão secundária. Se fôssemos ser
coerentes, ao negarmos a intercessão dos santos baseados no argumento
de que Cristo é o único Intercessor, deveríamos cessar de orar pelos nossos
irmãos, o que constituiria uma explícita desobediência à ordem expressa de
rezarmos uns pelos outros. Mas os protestantes logo argumentariam que, de
fato, devemos rezar pelos irmãos e por todos, mas que não podemos orar
aos santos do céu. Assim, estabelece-se que a oração de intercessão é
possível unicamente entre os cristãos vivos. Chegamos ao limite da
argumentação, pois a Bíblia não nos fornece provas para que creiamos que
os cristãos no céu estejam totalmente desligados dos cristãos na terra. Pelo
contrário, o que vemos é que a comunhão dos santos nunca cessa. O
apocalipse mostra, simbolicamente, os mártires muito cônscios e
preocupados com os acontecimentos na terra, clamando vingança (Ap 6,9).
De fato não há ensinamento que prove um desligamento ou uma cessação
da comunhão dos santos depois da morte. Trata-se do mesmo fato, visto
que as orações de intercessão que fazemos pelos vivos e aquelas que
pedimos aos santos são essencialmente idênticas.

A respeito das palavras decoradas, o pastor afirma que isso não é o que
Deus mais espera ouvir de nós, quando nos dirigimos a Ele em nossas
orações. Mas é isso o que a Igreja Católica ensina, afirmando que a reza não
pode ser meramente mecânica. Contudo, isso não invalida o uso das
palavras dos livros de orações. É o Espírito Santo que reza conosco e por
nós, conhecendo o nosso coração muito melhor que nós mesmos. Se
alguém reza sem a devida disposição, tanto faz usar palavras espontâneas
ou decoradas, a ineficácia será a mesma. O mesmo pode ser dito do
contrário.

O pastor Joel logo se lembrou de Mateus 6, 9-13, a passagem em que


nosso Senhor ensina a rezar. O autor explica que o leitor talvez pense que o
que foi dito colide com o referido texto bíblico, visto que este texto parece
dizer que Cristo pôs na nossa boca as palavras que devemos pronunciar
quando estivermos orando. Mas explica que o que Cristo quer é que
entendamos Sua atitude, o que Ele quis dizer com isso. Mais uma vez, nada
há de contraditório com a doutrina católica, pois é o mesmo que a Igreja
ensina. Convergimos plenamente nesse ponto. Quando o pastor explica que
o desejo de Jesus é que tenhamos na Sua oração-modelo a inspiração para
as nossas, ou melhor, que façamos da oração-modelo que Ele nos ensinou,
o esboço das nossas, parece que o autor aprendeu isso lendo o Catecismo.
Se não o foi, ou seja, se ele aprendeu isso diretamente da Bíblia, é mais
uma evidência de que a doutrina bíblica é fielmente retratada nos
compêndios que a Igreja elabora para nos ensinar; o que permitiu essa feliz
coincidência. De fato, certamente ele dirá, de imediato, que foi na Sagrada
Escritura que aprendeu essas verdades. Então, aqui temos, mais uma vez, a
oportunidade de verificar a fonte bíblica da Igreja, expressa em seus
Catecismos. O autor prossegue explicando: Quando Ele diz que devemos
orar dizendo “Pai nosso que estás nos Céus”, o que Ele quer é inculcar em
nós que podemos relacionarmos com Deus como os filhos se relacionam
com seus pais, e que não necessitamos de intermediário algum, visto
termos livre acesso ao Pai. “Santificado seja o teu nome” significa que o
orante não pode levar uma vida de profanação. Santificar é o contrário de
profanar. “Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos
que nos têm ofendido”, não significa que tenhamos que memorizar estas
palavras e repeti-las, mas sim, que se não perdoarmos aos nossos
devedores, não alcançaremos o perdão de Deus. Depois ele afirma que uma
das provas de que estamos na trilha certa é o fato de que Lucas, ao
registrar a mesma oração, deixou claro que ele não havia decorado a reza,
pois omitiu a palavras que Mateus havia registrado. Felizmente o autor
afirma não incriminar os que rezam o Pai-Nosso (entre aspas), pois não vê
nisso nenhum mal; mas deixou claro que a “sólida argumentação” que foi
feita se destina tão somente a provar que os que afirmam que “a oração
não se reduz ao surgir espontâneo de um impulso interior” e que
não basta saber o que as Escrituras ensinam sobre as orações não são
biblicistas. Porém, visto que os biblicistas católicos estão de acordo com o
pastor sobre a essência da oração, a crítica não os atinge. Outra razão é que
os apóstolos não aparecem rezando o Pai Nosso, mas rezando com suas
próprias palavras. Contudo, é ilógico e sem fundamento afirmar que eles
não o fizessem. As palavras de Cristo na oração do Pai Nosso constituem a
mais perfeita e bela oração cristã, e os apóstolos nunca diriam o contrário.
Como já pudemos ver anteriormente, não houve razão para tantos ataques,
pois a doutrina católica está totalmente de acordo com os principais
arrazoamentos do pastor. Certamente, porém, o autor se apegou demais à
afirmação não se reduz..., e a entendeu como se fosse uma proibição da
oração espontânea, o que não existe, e que o não basta saber... não é uma
negação de que a Escritura seja fonte de aprendizado também nesse
sentido, como o próprio Catecismo afirma mais adiante, no número 2653,
falando sobre o aprendizado da sublime ciência de Jesus Cristo, que
certamente inclui todo o Evangelho: A Igreja «exorta com ardor e
insistência todos os fiéis [...] a que aprendam "a sublime ciência de Jesus
Cristo" (Fl 3, 8) pela leitura frequente das divinas Escrituras [...]. Lembrem-
se, porém, de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de
oração, para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem, porque "a
Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos
oráculos"». Na leitura da Escritura, e em espírito de oração, aprendemos a
ciência de Cristo, e aprendemos mais a orar.

CAPÍTULO 15

COMO EVANGELIZAR OS CATÓLICOS

Nesse capítulo o pastor apresenta algumas técnicas para a


evangelização dos católicos que podem ser usadas também pelos católicos
para a evangelização dos protestantes.

São 11 itens, de 15.1. a 15.11 intitulados: Ame-os, Ore por eles, Seja
sábio, Seja amigo, Seja cortês e franco simultaneamente, Saiba como
começar e como parar, Encoraje os católicos ao diálogo, Modere suas
críticas, Não se julgue dono da verdade, Pregue o Evangelho, Peça
Sabedoria a Deus. São técnicas muito interessantes para um trabalho de
evangelização. E se cremos que são os protestantes os que estão
equivocados, essas técnicas podem ser usadas para instruí-los e
logicamente serem respeitadas no diálogo por ambos os lados.

Alguns exemplos que o pastor apresenta sobre a falta de instruções de


muitos católicos, como o de uma senhora beata e adúltera, servem para
convencer-nos mais ainda da necessidade de evangelização dos “católicos”
nominais para que se tornem cristãos católicos de fato. Cremos que o
Catolicismo é o Cristianismo original.

O fato de que às vezes os católicos são desencorajados de dialogar e


discutir sua religião com os protestantes não significa que o Catolicismo não
tenha argumentos. O pastor Joel diz assim: Porque os clérigos sabem que é
fácil provarmos a um católico que o Catolicismo não resiste a um confronto
com a Bíblia. Mas essa postura parece também ser ensinada a alguns
protestantes, pelo menos, como aos iurdianos, protestantes criticados por
estarem praticando sincretismo religioso. É certo também que a maioria dos
católicos não tem preparo para um diálogo com protestantes, e esse fato
torna compreensível essa postura. Interessante também é essa afirmação
do autor: Muitas de nossas igrejas cometem erros que a Igreja Católica
nunca cometeu.

EPÍLOGO

Podemos questionar as seguintes palavras sobre as sugestões que a


Igreja deveria seguir para se fazer aceitável como Igreja de fato, pelos
protestantes: Se fizerem isso, daremos as mãos e caminharemos juntos
para o Céu. Se porventura a Igreja adotasse as sugestões dos protestantes,
esses se tornariam cristãos católicos ou continuariam divididos em várias
igrejas e seitas? (2 Timóteo 3, 5).