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IGREJA:

CORPODE CRISTO

(Um estudo da epístola aos efésios)

João Parahyba Daronch da Silva

Publicação da Junta Geral de Ação Social Da Igreja Metodista do Brasil

1966

ÍNDICE

ÍNDICE APRESENTAÇÃO REFLEXÕES SOBRE A EPÍSTOLA DE EFÉSIOS 1 - Natureza da Igreja 2 - Caráter

APRESENTAÇÃO

REFLEXÕES SOBRE A EPÍSTOLA DE EFÉSIOS

1 - Natureza da Igreja

2 - Caráter da Epístola

3 - Conteúdo da Epístola em resumo

4 - Questões que oferecem problemas especiais

I - A PROCLAMAÇÃO DOS ATOS DE DEUS

1. A Separação destruída em Jesus Cristo

2. Confessar Jesus Cristo

3. A Ressurreição: um sobre todos

4. O Espírito: poder para comunicação.

II - A COMUNHÃO DO POVO DE DEUS

1. Revelação: nossa Salvação da morte

2. Igreja e Conhecimento

3. A Igreja não é do mundo, mas é no mundo

4. A Igreja: Povo constituído por Deus

III - A PRESENÇA DA IGREJA

1. Solidariedade: “Justificados e Pecadores”

2. Dimensões da Ética no “Evangelho da Paz”

3. O Ministério da Igreja

Conclusão: Unidade e Renovação da Igreja

APRESENTAÇÃO

"Mas,

cresçamos

Cabeça, Cristo".

seguindo

em

a

tudo

Verdade

naquele

em

que

amor,

é

o

(Efésios 4:15)

Em momento mui oportuno o Gabinete Geral está sugerindo o estudo na Epístola do apóstolo Paulo à comunidade cristã na cidade de Éfeso. Dentro das linhas mestras do Plano Qüinqüenal em que se objetiva não apenas uma redescoberta da mensagem que motivou e dinamizou o Movimento Wesleyano do século XVIII, mas, em que se busca, acima de tudo, uma reafirmação inequívoca da Responsabilidade Cristã da Igreja Metodista do Brasil na conjuntura contemporânea, seguramente que uma reflexão sobre o grande documento aos Efésios virá enriquecer a mente da Igreja abrindo-a para uma compreensão mais ampla de sua Natureza e de sua Missão conferidas uma vez para sempre em Jesus Cristo, o Senhor da Igreja e do Mundo.

Todo o panorama eclesiástico atual confirma a necessidade inadiável de um re-exame da Igreja até à raiz mesma da totalidade de sua vida e de suas formas de expressão na sociedade brasileira. Somos desafiados hoje como nunca a um testemunho integral do "Evangelho do Reino de Deus" afim de que "a suprema riqueza de Sua graça" seja comunicada aos séculos e não seja confundida com as pequenas riquezas de "evangelismos de reinos religionistas". Pois, em verdade, Jesus pregava o Evangelho do Reino de Deus contra todas as formas e interpretações que pretendessem usurpar o lugar exclusivo da pessoa e da autoridade graciosa de Deus. Devemos nos perguntar sempre sobre que tipo de evangelho estamos mostrando como Igreja!

Este re-exame não pode ser feito pela Igreja à luz de si mesma, de sua própria

história mas à luz mais alta que é a Palavra viva do Deus vivo; é à Luz da Palavra de

que está

acontecendo no século e discernir o relevante do irrelevante, o significativo e

criativo de tudo quanto é vazio de significado e discernir os fundamentos da verdade dos rudimentos do mundo.

Deus que a Igreja pode ver-se a si mesma e ver corretamente

o

"Natureza e Missão da Igreja" constitui o ponto de partida da eclesiologia contemporânea porque este tema nos atira para dentro do fundamental que é a Cristologia que dá validez e justificativa à existência da Igreja no mundo. Seguramente o erro capital que podemos perceber na História da Igreja é a resistência eclesiástica ao governo renovador e permanente de Jesus Cristo; decisões de concílios que afetam o sentido da natureza e do ministério da Igreja tomadas em completo divórcio dos fundamentos bíblicos e teológicos.

Dai todo um comprometimento alienante da Igreja com estruturas superadas e que, de modo algum, constituem a Igreja de Jesus Cristo. Talvez a contribuição máxima de Lutero para o pensamento teológico tenha sido precisamente o fato de conseguir desvincular "Reino de Deus" de sua pecaminosa identificação com a hierarquia eclesiástica. Aliás, esta é uma tensão permanente para a qual não podemos estar desprevenidos, pois nunca poderemos capturar a realidade da Igreja que é o Corpo de Jesus Cristo em nossas estruturas e tradições denominacionais. Assim, antes de qualquer decisão nossa, antes de qualquer Concílio em que se vai "definir" a Ordem da Igreja e o sentido das formas de sua presença na sociedade, é imprescindível o estudo profundo da Natureza e da Missão da Igreja a partir do Ministério de Jesus Cristo — o Servo de Deus que determina a forma permanente da Igreja e a amplitude de sua presença no mundo afim de que "a suprema riqueza de sua graça seja mostrada aos séculos vindouros".

É exatamente o espírito de obediência reverente à Palavra do Servo de Deus, que é o Senhor da Igreja, o fator determinante da medida de humildade própria da Igreja para confessar-se arrependida a Jesus Cristo a fim de ser renovada por Ele para Seu Serviço. Tal disposição não é uma simples opção para a Igreja; é um imperativo de sua Natureza e de sua Missão dadas na Palavra Viva de Deus, que cria, transforma, julga, salva e sustenta a Igreja.

A Igreja somente é seu verdadeiro ser quando existe para os membros da

humanidade "mundana": isto é, o homem na sociedade é concretamente o endereço do amor de Deus em Jesus Cristo. Existir para os outros, existir em Jesus Cristo, compartir o sofrimento de Deus pelo mundo, "descer até às partes mais baixas da terra", transpor as "paredes de separação e inimizade", é a graça mais cara e mais preciosa que foi dada à Igreja, A graça de Deus é uma graça "custosa", seu alto preço consiste em arrancar o homem decisivamente de si mesmo, incorporando-o à comunhão da família de Deus — Corpo de Cristo — onde impera uma nova ordem de relações e uma nova e permanente possibilidade de vida.

A carta do apóstolo Paulo aos cristãos em Éfeso indica seguramente o

caminho do discipulado para a presente situação tanto da Igreja quanto do mundo.

Este discipulado não é uma nova forma de mérito humano ou alguma maneira sutil de se alcançar a "santidade" e a "perfeição"; é uma disciplina concreta: isto é, uma disciplina no Corpo de Cristo, uma disciplina em Cristo, que incluí basicamente uma relação sacrificial com a comunidade cristã que é o corpo do amor em cujas águas vivas somos batizados para não pertencermos mais a nós mesmos e não vivermos mais para nós mesmos: "Se alguma Igreja quiser vir após Mim, negue-se

a si mesma

".

Assim, esperamos humildemente, que este estudo faculte, pela proteção e direção do Espírito, em cada congregação onde dois ou três estiverem reunidos em Cristo, uma crescente compreensão do ministério total da vida da Igreja bem como auspicie uma tomada de consciência da imensa possibilidade aberta na situação brasileira e em cujos tormentos o Senhor está supremamente interessado.

Este manual é apenas 'uma ferramenta para o serviço. Nele está o resultado de uma tentativa de exegese do texto bíblico em que vão extraídas e sublinhadas em simples esboço as grandes realidades do "mistério revelado no Evangelho". Destas realidades nos poderemos alimentar em comunhão uns com os outros para a responsabilidade cotidiana de servir ao Senhor; é pão para a jornada, mas é pão que demanda meditação comunitária com o mais alto sentido de não nos alimentarmos para nós mesmos, de não nos apascentarmos a nós mesmos senão para vivermos no Corpo de Cristo que é o Corpo que existe em amor para com todos os demais.

REFLEXÕES SOBRE A EPÍSTOLA

A carta do apóstolo Paulo aos "santos em Éfeso" é um documento a respeito da Igreja de Jesus Cristo; não é uma carta sobre problemas particulares da

congregação, mas é uma carta capital cujo conteúdo versa sobre as dimensões essenciais da Natureza e da Missão da Ecclesia de Jesus Cristo sublinhando:

a) Sua Unidade (Efésios 4);

b) Sua Integridade (Ef 1:4; Ef 5:27;

c) Sua Apostolicidade (Ef 2:20; Ef 3:1; Ef 4:7,11; Ef 6:15);

d) Sua Catolicidade (Ef 2:19; Ef 4:13; Ef 6:8 e 1:1).

1) NATUREZA DA IGREJA:

A natureza da Igreja é dada na epístola pelas relações que estabelecem

dependência permanente, constituindo laços indissolúveis entre a Igreja e:

1.

Deus — o Pai (Ef 3:14)

2.

Jesus Cristo — o Cabeça (Ef 1:22; Ef 4:13; Ef 5:29-32)

3.

Espírito Santo — de quem procedem os carismas (Ef 1:13; 4:7).

d)

Comunidade de Israel — (Ef 2:12, 19 e 22)

e)

Comunidade gentílica — (Ef 4:17; Ef 5:5-13; Ef 6:11)

f) Com todos os santos — (Ef 1:15; 3:15; Ef 4:13; Ef 6:18-24)

Destas relações é que decorre a natureza da Igreja; é a natureza destas relações que constituí a Igreja como Igreja. Toda verdade a respeito da Igreja (para não dizer o próprio sentido da palavra Ecclesia nos é comunicada em termos destas relações, desta ordem de relações criadas por Deus em Jesus Cristo e no Espírito Santo. É na epístola aos Efésios que aparece pela primeira vez uma doutrina especial sobre Igreja. A verdade "relacional" (ou dialógica) sobre a Igreja que aparece em Efésios aparece em Colossenses onde se afirma que Cristo é a cabeça da Igreja e que a Igreja é o corpo de Cristo. Em Efésios 3:21 e 5:32 Cristo e a Igreja são colocados lado a lado, como que na mesma ordem; por outro lado, em outras passagens fala-se de uma relação de subordinação da Igreja a Cristo). Esta linguagem figurada parece ser empregada sem nenhum rigor lógico: Cristo é a própria Igreja e esta é o seu corpo; e ainda: Cristo está acima da Igreja como sua cabeça e como Aquele que é antes de todas as coisas e para quem todas "convergem".

Todas essas fórmulas são intimamente relacionadas entre si. Em Efésios Eclesiologia é Cristologia e vice-versa. Tudo o que se refere a Cristo e à Igreja é pensamento de Deus, é obra de Deus, é resultado da ação de Deus. O clímax de tudo é atingido no hino final no capítulo Ef 5:25-32. As imagens empregadas aí são provenientes da linguagem mítica daquela época. As expressões da carta aos Efésios sobre a Igreja e Cristo mostram uma visão unitária do mundo daquela época e seu autor fala a linguagem de círculos gnósticos. O salvador que sobe aos céus vence em seu caminho os poderes celestes (Ef 4:8ss) e rompe o muro de

divisão que separa o mundo do Reino de Deus (Ef 2:14ss); volta para junto de si mesmo como o anthropos (o ser humano) supremo (Ef 4:13ss) . Contudo Ele é a Cabeça sob cujo governo todas as coisas são reunidas; sendo assim Ele eleva os seus membros, cria o "homem novo" e edifica seu corpo em que se revela a obra inteira de Deus (Ef 3:8-19). O salvador ama e atende, purifica e salva a sua Igreja. Ela é sua esposa, Ele é seu esposo, unidos um ao outro em obediência e amor (Ef 5:22-32). Este mundo de idéias, figuras e imagens empregadas na epístola são adequadas a finalidade primordial de exprimir a relação indissolúvel entre Cristo e Igreja; ainda mais; para explicar a realidade de que a Igreja não é instituição ou sociedade humana apreensível pelas leis da sociologia e sim a resultante da ação de Deus. O ponto decisivo da eclesiologia em Efésios é a comunhão com Cristo. Somente a partir dessa comunhão com Cristo passa a existir a comunhão dos homens entre si como irmãos. Contra as tentativas sociológicas em solver (explicar) a questão da Igreja, devemos anotar que Paulo em suas epístolas não concebe Eclesiologia senão em função da Cristologia.

Cristo alimenta e cuida da Igreja. Tem-se a impressão de que, numa representação tão complexa, e ao mesmo tempo grandiosa pelas imagens usadas, se encontram divagações em que a fé em Deus e em Sua assembléia divina é interpretada dentro de uma moldura especulativa. Por mais que tal impressão se imponha, é preciso repeli-la resoluta e radicalmente. A maneira como se fala da Igreja mostra que não se trata de especulações sem base e muito menos de afirmações esotéricas. Assim, quando o apóstolo trata da sabedoria e do conhecimento de Deus não está tratando de intelectualismo e sim daquele "conhecimento do coração", (Ef 1:18), que se realiza na obediência da fé que relaciona o homem com os atos de Deus. É uma linguagem muito rica que não está em função de si mesma, nem a serviço de especulação intelectual, mas é a aptidão em que se expressa a verdade sobre a Igreja em sua natureza derivada da obra de Deus em Jesus Cristo.

2) CARÁTER DA EPÍSTOLA:

a) Mais intensiva e extensivamente do que qualquer outro livro do Novo

Testamento, Efésios tem o caráter e a forma da oração. Não somente a primeira metade (Ef 1:3 a 3:4), mas a exortação à conduta cristã e à unidade do Espírito na segunda parte (Ef 4:1) são basicamente oração em sua forma; além dessas expressões de adoração e de intercessão, a epístola nos dá vários chamados à oração (Ef 5:14,19; Ef 6:18). "Lex orandi, lex credendi" — isto é, a verdade da fé tem sentido somente como um ato de culto; Efésios nos dá um sentido bem profundo de dogmática cristã que é o sentido da comunhão com Deus, pois a verdadeira fé é matéria da mais verdadeira comunhão com Deus. Tudo o que a epístola nos oferece sobre Fé e Vida, sabre Dogmática e Ética é precisamente na forma da oração.

b) Efésios não apresenta o Evangelho na forma polêmica tradicional, a

despeito de estar em jogo todo o tremendo conflito entre cristianismo judaico e étnico; também não nos dá o Evangelho pelos caminhos da argumentação racional nem com lugares comuns de compaixão sentimentalista. Há apenas uma base que para o autor é suficiente e que constitui a única possibilidade de preservação do

"mistério revelado em Jesus Cristo": são os grandes atos de Deus. Os atos de Deus são a sua palavra, isto é, o que Deus tem feito e revelado em Jesus Cristo. A sabedoria e a vontade, o amor e o propósito de Deus, a pregação, a morte a ressurreição de Cristo, o poder do Espírito — na forma de carismas sobre a Igreja para o desempenho do ministério. Qualquer outra base é passageira, vem e vai, mas, os atos de Deus são, para empregar uma linguagem de Agostinho, "começos absolutos ou eternos" — são permanentes, não sofrem nenhuma variação. Efésios celebra o ágape de Deus (o amor) que ultrapassa toda forma de sabedoria (Ef 3:19) ; é exatamente neste amor que se apóia o Evangelho da Paz que prescinde, que abre mão de todo e qualquer argumento para defendê-lo; o autor da epístola dispensou inclusive a forma tradicional dos argumentos escriturísticos. Os atos de Deus são proclamados e não argumentados apologeticamente. Efésios não é a defesa de um Evangelho cheio de informações interessantes para nós, mas é a proclamação do Evangelho em que estão dadas uma vez por todas as bases novas a respeito de nós e de toda a criação em Jesus Cristo: o que Deus fez em nosso favor e que nova situação a obra de Deus criou graciosamente para todas as esferas e relações da vida.

3) CONTEÚDO DA EPÍSTOLA EM RESUMO:

Capítulos 1 e 2:

São constituídos basicamente do que Deus, em Seu Amor e Vontade soberana, tem proposto desde a eternidade;

Capítulos 3 a 4:1-24:

São expressivos dos grandes atos de Deus; isto é: aquilo que Deus tem feito e revelado como o "mistério do Evangelho" presente de forma total em Jesus Cristo;

Capítulos 4:24 até o final da epístola:

Este longo trecho é uma repercussão dos Atos de Deus: Seu amor, Sua luz através da vida da Igreja e sobre o mundo. É exatamente — após tratar das obras de Deus que aqui dão a medida exata da Natureza da Igreja como resultado da ação de Deus (a Igreja é obra de Deus em Jesus Cristo) — que a carta vai tratar da Missão da Igreja no mundo também como resultado da mesma presença e obra de Deus em Jesus Cristo; o sentido da presença da Igreja em todas as esferas e em todas as fronteiras da vida é dado como uma resultante dos atos de Deus em Jesus Cristo que criaram a nova ordem de relações (a comunidade cristã) e que constitui a nova vida ou a boa nova de salvação para todos.

É muito extraordinário que o conteúdo de Efésios nos ofereça o mesmo movimento teológico que temos no Evangelho segundo João e que se resume no versículo 16 do terceiro capítulo: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Os cristãos não vivem daquilo que negam, mas daquilo que podem afirmar e confessar como os atos de Deus. Sobre Deus e sobre o homem, sobre a comunidade e a respeito de pessoas, quanto a extensão do Reino de Jesus Cristo sobre os poderes do século (aeon), aos cristãos é dado conhecer as novas de salvação como atos praticados por Deus mesmo. Daí o método que a epístola

segue na proclamação do Evangelho apoiando-se não nas bases da argumentação lógica que pode ter seu valor alterado como variável é o coração humano.

Se Deus mesmo é a base e o motivo, nenhuma variação deve ser receada. A Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas sendo Jesus Cristo mesmo a pedra angular (Ef 2:20). A Igreja obviamente está dispensada de alicerçar-se e de fundamentar sua responsabilidade senão nos atos de Deus mesmo. Há epístolas paulinas em que o apóstolo parece tomar uma posição defensiva porque a verdade do Evangelho mesmo, a Igreja visada na carta ou a própria pessoa do apóstolo estão sendo atacados seriamente. Em Efésios, entretanto, um tom de júbilo triunfal, "falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais" (Ef 5:19), determina o caráter de cada pensamento e de cada sentença. É o júbilo de quem vive pelo privilégio de conhecer as boas novas concernentes a todos os homens, tanto gentios como judeus que induz o autor a omitir até mesmo as "provas escriturísticas" usadas nas outras cartas de modo geral.

Temos no caráter e na forma da epístola aos Efésios uma imagem muito rica do apóstolo como "evangelista": ele mostra um Evangelho no qual confia inteiramente, pois a dimensão do mesmo coincide com a Pessoa do próprio Deus. Não há nenhum perigo de que falte real comunicação ou amor pelo homem, quando um evangelista como Paulo testifica confiar no Evangelho como SUFICIENTE!

Fora de qualquer dúvida, esta confiança faz parte inseparável da Missão da Igreja — é um dos sentidos do próprio testemunho da Igreja. Tratar da restauração desta confiança já em si seria uma verdadeira renovação dentro da Igreja e, especificamente, uma total renovação de nossas formas tradicionais de 'pregação' do Evangelho como 'sermões' dados dos púlpitos. Efésios nos auspicia pela forma em que nos mostra o Evangelho (forma esta que o próprio Evangelho determina) a possibilidade de exame dos métodos e do conteúdo bem como dos objetivos daquilo que nós chamamos hoje de evangelização ou de responsabilidade evangelística da Igreja.

4) QUESTÕES QUE OFERECEM PROBLEMAS ESPECIAIS:

Apresenta-nos a epístola algumas questões cuja solução racional nos escapa. Todavia, não podemos deixar de encará-las humildemente. Aliás, devemos tratar dessas questões para nos tornarmos mais conscientes da impossibilidade humana em transformar a Palavra de Deus em mero objeto de pesquisa e curiosidade intelectual. Os problemas levantados pela Epístola nos auspiciam uma atitude de humildade perante o fato "invulgar" do Evangelho, mostrando-nos a medida exata de nossa contingência humana e levando-nos a desistir da pecaminosa tentativa em "desnaturar" o mistério da Palavra e violar o "escândalo" da mesma. Temos que nos convencer de que os limites da razão humana não são os limites da Vida e muito menos ainda os limites da Palavra de Deus. Nenhuma palavra humana pode capturar a Palavra e esgotá-la em sua plena significação. Esta tentativa pecaminosa gerou muito conflito ao longo da História por se pretender com uma

palavra (geralmente um conceito filosófico) aprisionar a Livre Palavra de Deus em Jesus Cristo revelada para sempre.

1. "ELEIÇÃO" (erradamente chamada de predestinação) — é muito claro na

Epístola que o apóstolo proclama o Evangelho como a revelação de uma "decisão" e uma "eleição" por iniciativa de Deus "antes da fundação do mundo" (Ef 1:11-14). Há uma série de verbos indicativos desta realidade. Numa leitura superficial do texto e mesmo num estudo mais cuidadoso do sentido etimológico é possível a conclusão "fácil" de que o autor esteja tratando de um determinismo filosófico e esteja de pleno acordo com a mentalidade tradicional da "dupla" ou "simples" predestinação. Será real esta conclusão? As referências à eleição em Cristo podem ser consubstanciadas numa doutrina ou crença determinista? Na simples fidelidade ao texto, sem pretender solucionar a questão, devemos sublinhar certas realidades que o autor busca explicitar:

a) o sujeito dos verbos empregados — Paulo emprega uma terminologia em

que procura comunicar precisamente a "gratuidade absoluta" do ato em que Deus nos torna "herdeiros do seu amor" ou “filhos adotivos"; isto é os verbos conjugam o amor (ágape), totalmente determinado por Deus em nosso favor. Entretanto, Paulo emprega tais verbos (inclusive o verbo proorisas que aparece em Ef 1:11) , com o grande propósito de adorar neste ato redentivo (a eleição em Cristo), o amor soberanamente livre de Deus revelado. "Eleitos em Cristo" e "em amor" são absolutamente sinônimos.

b) a fonte de todas as bênçãos — Paulo, por outro lado, comunica com este

sentido de "salvação antecipada" — a eleição na eternidade da vontade de Deus em seu amor — que é o amor de Deus a fonte exclusiva de todas as bênçãos concedidas à Igreja e que a Igreja é um resultado precisamente dessa decisão do amor de Deus. Este é o sentido maior da grande palavra do Evangelho — a "graça" que redime o pecador.

c) "proorisas hemas" - (“nos predestinou para Ele” - Ef 1:5) — Este particípio

subordinado ao verbo principal indica como foi que Deus nos elegeu e, com uma precisão totalmente nova, indica a finalidade de nossa eleição. A eleição não constitui um fim em si nem mesmo um fim para os eleitos. Ela é efetivada dentro do movimento total e do propósito total do amor de Deus que determina tudo.

2. "CONHECIMENTO" E "INTELECTUALISMO" — Efésios apresenta uma

ênfase sobre certas palavras que podem induzir a uma noção intelectualista da fé cristã. São as palavras gregas “apokalypsis" (revelação), "sophias” (sabedoria), “katalabesthai" (compreensão) e a palavra "gnosei" (conhecimento). Entretanto esta palavra "gnosei" que teria dado margem para toda a confusão de gnosticismo bíblico, não aparece como uma simples "glosei", pois Paulo lhe antepõe um "epi" e emprega "epignosei" (que é muito freqüente em suas epístolas e é como aparece no Evangelho de João). Não há então possibilidade de confusão, pois se trata daquele conhecimento “que vem de cima”, que vem por revelação de Deus e não por conquista humana. Paulo ora a Deus para que os cristãos sejam dotados do

"espírito de sabedoria" e de "revelação". Paulo está convencido de que os eleitos são os que ouviram a "palavra da verdade" (Ef 1:13) e podem crescer em conhecimento (Ef 1:17; Ef 3:19; Ef 4:13) e que são responsáveis pela comunicação ao próprio universo (Ef 2:7; Ef 3:10) desta "multiforme sabedoria de Deus". Que atitude de arrogância pode derivar dai para a Igreja em relação ao mundo? Será que é pelo conhecimento de certas coisas extraordinárias que se justifica a conduta de prioridade da Igreja sobre o mundo? Esta questão de suma gravidade vamos tratar na exegese sobre a Igreja especificamente.

3.) "MISTÉRIO" ou "SUPERSTIÇÃO"? — É na Epístola aos Efésios que encontramos certas realidades cuja ênfase tem sido dada pela melhor teologia reformada; por exemplo: "que Deus atua por grande amor e graça" (Ef 2:4,7); que "Deus ama" a Igreja até ao ponto de "entregar-se a si mesmo" em Jesus Cristo por ela (Ef 5:2,25), e torna-se um exemplo de que cada um deve amar assim ao seu próximo com mútua sujeição (Ef 5:21). Mas, Efésios apresenta um apelo com respeito a Cristo num sentido e numa dimensão que se poderia chamar de uma "cristologia redentiva de alcance cósmico"! Exatamente na Epístola em que se trata tão intensamente da presença de Cristo "pela fé" no coração humano, apontando certa noção de interioridade da fé cristã, é que somos surpreendidos com expressões que apontam para "regiões celestes", para "habitantes dos ares", para "potestades do maligno" e para as "hostes da maldade" (Ef 1:19; Ef 2:1; Ef 4:8; Ef

6:11).

Em Efésios temos duas ênfases: o amor de Cristo e o caminho de Cristo no ser humano; a outra é a que assiná-la a Cristo como "aquele que desce às partes inferiores da terra e que sobe às alturas celestiais" (Ef 4:8,10); Cristo é aquele em quem Deus exerceu a eficácia do Seu poder a ressurreição tendo-o colocado à Sua direita acima de todo poder, dando-lhe todo o domínio e submetendo tudo a seus pés (1:20-22). Isto é, em Efésios, Jesus é maior que tudo e tudo está submetido à sua autoridade, mesmo aqueles que se rebelam, tais como os "principados e potestades (1:21; 3:10 6:12), os séculos (aeon) e das gerações (Ef 2:7; Ef 3:5), do príncipe do ar, maldade ou maligno (Ef 2:2; Ef 4:27; Ef 6:11).

A totalidade do mundo (Ef 1:10), o ar, até regiões celestes (Ef 2:2), parecem estar cheios e .dominados por tais espíritos. É muito impressionante que a epístola fale tanto na "sabedoria e no conhecimento da verdade" e ao mesmo tempo use uma constelação de expressões de conotação supersticiosa. Tal fato levanta problemas muito sérios para a nossa compreensão da Cristologia dada na epístola em que Cristo é a "cabeça sobre todo o universo" (Ef 1:10) — temos aí sem dúvida uma dimensão cósmica da fé cristã. Mas, como em Colossenses, Cristo não está em guerra com o Universo e sim "reconciliando todas as forças e fazendo a paz".

4) ECLESIASTICISMO: (OU VIDA COMUNITÁRIA)? — É, como já dissemos, a epístola que trata, em sua verdadeira essência, da Igreja. Muitas epístolas do Novo Testamento são endereçadas a uma ou outra Igreja em alguma cidade do mundo Mediterrâneo; Efésios também. Mas, em adição, Efésios é uma carta sobre a Igreja, sobre a Igreja com “I” Maiúsculo segundo podemos discernir no grande documento do apóstolo. Não sobre os problemas de determinada

congregação local, mas da IGREJA em sua Unidade (Ef 4:3), em sua Santidade (Ef 1:4; Ef 5:27), em sua Apostolicidade (Ef 2:20; Ef 3:1; Ef 4:7,11; Ef 6:15-20) e em sua Catolicidade (Ef 2:19; Ef 4:13; Ef 6:18). No foco da epístola está, mais uma vez, a Igreja Universal em todas as Suas relações. A concentração de Efésios no tópico "Igreja", encontra alguns paralelos no Evangelho de Mateus, na primeira Epístola aos Coríntios, nas epístolas endereçadas a Timóteo e a Tito, em I Pedro e nas sete cartas do Apocalipse em seus capítulos 2 e 3. Quanto mais a Igreja tem crescido mais tem crescido o interesse dos estudiosos sobre a questão da "Natureza da Igreja". Atualmente a Igreja Católica Romana e a Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas estão fascinados por este tema. Haverá apóio na epístola aos Efésios para as noções de uma Igreja Mundial de acordo com o pensamento Católico Romano e o pensamento Protestante?

Efésios nos ensina que a Igreja é o Corpo de Cristo (Ef 1:23; Ef 4:4, 12; Ef 5:30); que a Igreja é a "plenitude daquele que é tudo em todos" (Ef 1:23). Dai, será

possível concluir que a Igreja seja a 'extensão da encarnação', a "sociedade redentiva" ou a expressão histórica da 'natureza divina'? Leitores que por natureza, nascimento ou inclinação pessoal sejam Católicos Romanos ou Anglicanos parece que sempre se regozijam em justificar com Efésios todo o seu eclesiasticismo! De qualquer forma, ansiosos ou jubilosos, o fato é que todos nós temos a tendência de justificar "nossa" Igreja como a portadora da real presença de Cristo e chegamos

até a tomar a decisão de determinar tal presença

convém lembrar sempre que dois evangelistas narram o estranho acontecimento em que a "assembléia em torno de Cristo" foi o obstáculo para que uma pessoa tivesse acesso a Cristo (Lc 5:18-19 e Mc 2:1-4)! É possível que a Igreja constitua uma parede a separar o homem de Cristo impedindo-lhe comunhão com Deus? Haverá possibilidade de tal problema? A Igreja pode chegar à terrível tentação de colocar-se como Igreja no lugar de Cristo? Tudo o que Efésios nos oferece sobre a Igreja se refere à obra de Deus em Cristo em que a Igreja se deve inteiramente à obra da graça do Senhor.

Entretanto, face a tal problema

5) MORALISMO: (OU ÉTICA "EM AMOR")? — Nenhum pesquisador sério da verdade e da sabedoria no campo da ética pessoal e comunitária pode questionar o valor de termos como crescimento e perfeição amor e justiça, poder e unidade. Tais conceitos brotam na epístola contra toda a mentalidade da impureza do paganismo que contrasta com a nova vida que se abre em Jesus Cristo: (Ef 4:13,17-24; Ef 5:3,8). Paulo, entretanto, vai até ao detalhe especialmente no chamado "código doméstico" (Haus-Tafeln) em que nos dá exortações concernentes à vida cotidiana do homem e da mulher, pais e filhos, senhores e servos (Ef 5:21 6:9). Tais exortações são dadas e fundadas em duas palavras chaves do texto: "submissão" e "obediência" (Ef 5:21,33; Ef 6:1,5). Tal fato tem feições que tendem a uma espécie de autoritarismo e conservadorismo moral que não incluem justiça e possibilidade de mudança ou "revolução" nas relações humanas. Parece agravar-se o problema quando alguns estudiosos observam certa omissão da epístola quanto a doutrina da segunda vinda de Cristo. Embora não se possa negar o silêncio da carta quanto a dimensão escatológica em específico, pode-se pelo menos constatar uma ênfase unilateral na realidade da vida terrena. No capítulo seis, especialmente, o autor dá claramente a idéia de uma

aceitação total, em submissão, do servo ao seu senhor sem encorajar qualquer luta por modificação.

Parece, por outro lado, que o autor de Efésios ignora que "nós não temos aqui nossa última cidade" (Hb 13:14) e parece esquecer que "nós somos estrangeiros e peregrinos sobre a terra" (Hb 11:13; 1Pd 2:11). Enquanto outros livros do Novo Testamento tratam claramente da dispersão da Igreja ou da vida cristã no mundo como uma vida em "diáspora" (Tg 1:1; 1Pd 1:1), o autor de Efésios ensina explicitamente que "vós não sois mais estrangeiros e forasteiros, mas sim concidadãos dos santos e família de Deus" (Ef 2:19)! Que estranha parece ser esta "casa de Deus"! Quão aprisionante sujeição (Ef 5:21 e Ef 6:5)! Que grande inspiração para conselhos legalistas quando não há nem possibilidade de uma porta aberta pata libertar o escravo do seu senhor autoritário, nem mesmo possibilidade de emancipação da mulher ou do homem quando vítimas da injustiça ou impiedade!

Aí estão as questões que oferecem os principais problemas para a exegese

nesta epístola do Novo Testamento. Os grandes perigos e problemas de determinismo, intelectualismo, superstição demonológica, eclesiasticismo, e, finalmente moralismo legalista! Referi assim cada problema não somente para provocar nossa reflexão mais profunda e criativa, mas, especialmente, por fidelidade aos textos e para desafiar-nos a uma visão mais integral de um estudo bíblico que nos liberte da fragmentação da Palavra de Deus. Um dos mais sérios problemas no estudo bíblico está precisamente nas interpretações que violentam o sentido do Evangelho e o reduzem a "evangelho do nosso pobre reino individual, deixando de ser o "Evangelho do Reino de Deus".

O único método de "preparação para o Evangelho da paz" (Ef 6:15) e a

correspondente tarefa da evangelização não é o estudo de "métodos de evangelismo" e sim a comunhão com o Evangelho mesmo. É este o plano da epístola aos Efésios; daí sua relevância para a nossa presente situação. Tentaremos nas páginas seguintes acompanhar o autor na apresentação do Evangelho que ele nos dá na proclamação aos "santos em Cristo e em Éfeso".

CAPÍTULO I

A PROCLAMAÇÃO DOS ATOS DE DEUS

"Porque Ele é a nossa paz, o qual de ambos, fez um; e, tendo destruído a parede de separação que estava no meio, a inimizade, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças para que dos dois criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo em Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade."

(Ef 2:14-16)

Efésios não parte de abstrações ou de princípios especulativos, mas sim de eventos indicativos da Ação de Deus na História em Jesus Cristo especificamente. É uma epístola que parte da conjugação dos verbos que proclamam, que comemoram os grandes atos de Deus praticados em e por Jesus Cristo. Aqui, nesta carta de Paulo, temos a explícita referência a "mão de obra" de Deus (Ef 2:10), a "perfeita humanidade" (Ef 4:3), a um "novo homem" criado conforme à imagem de Deus (Ef 4:24) ou "nova natureza", segundo a tradução RSV e conforme Cl 3:9). O Evangelho que Paulo é comissionado a proclamar aos gentios (Ef 3:8), como "das insondáveis riquezas de Cristo", é apresentado basicamente como a morte, a ressurreição e o domínio universal de Jesus Cristo como expressão do amor de Deus para com a humanidade no contexto do mundo "judeu-gentílico".

1.a) A SEPARAÇÃO DESTRUÍDA POR JESUS CRISTO

"PAREDE DA SEPARAÇÃO" (mesotoichon) - Ef 2:14 Estas duas expressões são chaves do conteúdo total da epístola: a chamada "parede de separação" que foi removida ou aniquilada, tendo perdido totalmente sua significação (por ter sido anulada) por Cristo. Na totalidade da carta o apóstolo nos mostra que o Evangelho é a ação de Deus que se move sobre este eixo: Cristo fez a Paz destruindo o muro de divisão. Eis porque a própria compreensão da Igreja como uma realidade de "relações" não nos pode escapar no estudo desta epístola. O eixo da ação de Deus em Filipenses, Colossenses e Romanos são argumentos Cristológicos — o eixo em Efésios é a realização da Paz pela destruição da parede de separação: (Cl 1:15-20; Cl 2:14; Fp 2:6-11; Rm 3:1-26, etc.)

QUE SIGNIFICA ESSA "PAREDE DE SEPARAÇÃO"? Podemos examinar primeiramente quatro possibilidades de sua significação na epístola:

a) A parede de separação pode ser uma alusão à parede divisória do

templo de Jerusalém que separava os judeus adoradores dos gentios visitantes. Aquela parede sem dúvida, selou aos pagãos como aqueles que são "do lado de fora". Pode também ser uma alusão ao anjo dando guarda em volta da terra prometida em Gênesis 32:1-2. Há também uma referência na parábola profética do Livro de Isaías 5:5 em que a Casa de Israel é chamada a "vinha do Senhor" e Deus promete derrubar o seu muro afim de ser pisada.

Alguns estudiosos do Novo Testamento sustentam que a carta aos Efésios foi escrita pelo ano 70. Neste caso Paulo não seria então seu autor. O elemento mais forte para estes comentaristas é exatamente o nosso texto em Ef 2:14 que, segundo eles, se refere à destruição de Jerusalém e do templo, em conseqüência, pelos romanos. Mas, neste caso, nos parece muito estranho que a catástrofe histórica que foi a queda de Jerusalém esteja servindo como objeto adornado com um argumento da obra de Jesus Cristo, isto é, um argumento cristológico da mais alta relevância pois sobre Ele repousa o sentido da obra de Jesus Cristo como autor da paz, sendo usado para simplesmente adornar a queda de Jerusalém! O fato é que o muro do templo e os muros de Jerusalém não esgotam o fundamento do texto em sua significação.

b) Outra possibilidade de compreensão do pensamento de Paulo aos

Efésios é a referência à lei mosaica. A lei havia assumido uma função divisionista segundo a interpretação rabínica que havia erigido um corpo de ordenanças e estatutos estabelecidos em certo modo para facilitar o cumprimento da Lei. Tal corpo de ordenanças era causa de divisão muito forte. Em Romanos, Gálatas e Efésios há uma distinção idêntica entre a Lei do Senhor e as "interpretações" dos rabinos fariseus (Rm 7:13; 3:31; Gl 3:19). Além do problema destas "interpretações", denunciadas como verdadeira corrupção da Lei, o autor de 'Gálatas trata da função "tutelar" da Lei, implicando nisso, um sentido transitório da Lei em relação ao sentido permanente da revelação da fé (Gl 3:23). A parede abolida por Jesus Cristo poderia significar para o autor as ordenanças rabínicas ou a própria Lei, em sua função de tutora até a chegada de Cristo. O capítulo terceiro da segunda epístola aos Coríntios parece apoiar esta interpretação quando trata da "remoção do véu" na antiga aliança pela nova aliança; ali o autor trata exata e explicitamente da Lei como sendo o "ministério da condenação" escrito em tábuas de pedra" — "glorioso", mas inferior à glória do "ministério da justiça"!

Paulo mostra, sem sombra de dúvida, em Gálatas e em Romanos que a paz com Deus e a liberdade da vida dos filhos de Deus não se alcança à glória de maneira nenhuma pela prática estatutária das "obras da lei". Somente uma atitude escravizada à mentalidade legalista e formalista poderia sugerir a noção de que haja alguma possibilidade de se alcançar "méritos" perante Deus mediante a observação de certos deveres rituais. Com efeito, de acordo com Efésios 2:14-16 — a "lei de ordenanças e estatutos" — se constitui num instituto divisionista entre

Judeus e Gentios, colocando-os numa situação de inimizade mútua em face de Deus. Na discussão das "obras" (Ef 2:5,8), Paulo focaliza a mesma perspectiva das Epístolas aos Romanos e Gálatas.

Realmente, o ensino a respeito da Lei é o mesmo nas três epístolas paulinas. A parede ou o muro destruído por Cristo pode significar precisamente a anulação da função divisionista da Lei (motivada pela mentalidade legalista) sem ferir de maneira alguma a validez da Lei na economia da redenção.

c) A "parede" que divide os homens uns dos outros e de Deus e que foi removida por Cristo, pode ser uma referência à "cortina" ou "véu" do templo de Jerusalém que separava o Santo dos Santos. Em Marcos 15:38 o incidente em que se rompe o "véu do santuário" está relacionado diretamente à "hora" em que Jesus Cristo "expira na cruz". Afirma o texto literalmente que o "véu rasgou-se em duas partes de alto a baixo". Isto porque a morte de Cristo é o evento que possibilita a abertura do caminho de acesso ao Pai. Em Hb 10:19-22 há a referência precisamente a este sentido aqui mencionado.

d) Finalmente, a "parede abolida" — pode significar as barreiras entre o homem e Deus, entre o homem e o homem, que consistem em "figuras" de poder nomeados como "anjos", "principados", "potestades", "hostes do maligno". O autor parece ter em mente um "reino invisível", formado de poderes incontroláveis, idéias, normas, ordens de forças que verdadeiramente dividem e separam a terra dos céus que Deus governa. Entretanto, Paulo também afirma a presença desta "ordem de forças" nas "esferas celestiais". Aquilo que nós chamamos pela palavra "inferno" pode significar este "reino" de forças de separação. Então a "parede" de que Efésios trata afirmando que Cristo destruiu, pode ser uma perfeita metáfora para os poderes dominantes de caráter angélico e demoníaco que tornam a vida humana uma vida miserável. Estes poderes, na Epístola aos Efésios não aparecem apenas em relação ao homem, mas são tratados em sua relação cósmica. A "parede" de separação pode também envolver os níveis "racionais", "irracionais", "mágico", "religioso", "individual" e "coletivo", enfim todas as esferas de que participa a vida humana como as esferas de que ela não participa. Efésios declara a "atuação" destes poderes sem discutir a natureza dos mesmos.

Temos uma indicação cheia de significado para nossa compreensão, embora não nos ofereça muita segurança, de que a compreensão "legalista e meritória" das relações com Deus e os chamados "rudimentos cósmicos" são coisas idênticas. É uma possível conclusão a que chegamos da leitura em Cl 2:8 e Gl 4:3-9 — onde a "Lei" (como ordenação legalista) e os "rudimentos do mundo" (stoicheia tou Kosmou) são a mesma coisa. Em Efésios 2:14 não só a parede da assim chamada "lei natural", e das "obras meritórias", mas também a "parede" no sentido de mentalidade ou de estruturas mentais da vida são declaradas dissolvidas. Parece haver um relacionamento da "parede abolida" com a totalidade das forças que de

uma forma ou de outra, atingem a vida humana tanto de fora para dentro como de dentro para fora.

A seleção de um dos quatro significados acima apontados para a expressão do apóstolo que procura comunicar o significado da própria morte de Jesus Cristo na Cruz, é muito improvável que possa ser feita. A variedade de significação de sua linguagem e o fato de nela estar referido o sentido mais central da mensagem da Igreja — o significado da morte do Senhor — nos adverte seriamente a não limitarmos a realidade do texto paulino sobre a "parede destruída" à esfera "religiosa". É inquestionável, quando lemos Efésios e, especificamente o versículo quatorze do segundo capítulo, que se trata do Evangelho cujo poder e implicações são concernentes às esferas políticas, cósmicas, intelectuais, morais ou éticas até às distinções físicas e metafísicas de todas as estruturas da vida do homem e da sociedade. Traduzindo na linguagem contemporânea: Efésios proclama o que Jesus Cristo tem feito com as divisões existentes entre raças e nações, entre ciência e ética, entre leis naturais e códigos sociais, povos primitivos e povos, progressistas, os de fora e os de dentro, entre todas as instituições onde se joga com o ser humano. O testemunho de Efésios a Jesus Cristo é inequívoco quanto ao poder de sua morte para quebrar, destruir e superar todas as fronteiras e divisões entre os homens. Ainda mais, Efésios proclama que Jesus Cristo reconciliou o homem com Deus e criou a ordem nova das relações para todos os homens.

1.b.) CONFESSAR JESUS CRISTO. Tal é o alvo fundamental. É afirmar em novas relações, a destruição definitiva de todas as formas de forças divisionistas, de hostilidade, de inimizade, de segregação e a nulidade de toda sorte de "gueto".

Nem rico, nem pobre, judeu ou grego, homem ou mulher, de qualquer cor ou raça, pode pretender superioridade e, muito menos, apropriar-se de Jesus Cristo com alguma ambição de exclusividade (Ef 4:22). Não tem sentido vermos o homem pelos critérios divisionistas e artificiais que criamos — Deus revelou em JESUS CRISTO uma NOVA HUMANIDADE, é através deste ato grandioso de Deus, que se chama JESUS CRISTO, que podemos e devemos saber o que é o HOMEM. O "velho homem" estabelecido pelos elementos da "concupiscência enganosa" foi declarado irreal, totalmente vão, anulado e com ele toda ordem de relações que tal "humanidade" estabeleceu.

Jesus Cristo criou uma realidade para todos os homens, uma vitória em benefício de todos — para ambos — (Ef 2:14; Ef 4:21-24); não pode haver discriminação alguma que já não haja sido condenada e anulada por Jesus Cristo. Há agora um novo rosto de homem perante todos os homens. Podemos repetir com Efésios que agora "há um novo homem criado segundo Deus" (Ef 4:24)! Não há mais nenhum significado em permanecermos em nossas próprias obras, pois já temos a "mão de obra" de Deus (o novo homem) criado em Jesus Cristo para as "boas obras" (Ef 2:9)! É inteiramente vão chamarmos Jesus Cristo "Senhor, Senhor", a não ser que signifiquemos por "Cristo" este novo homem, o fim das divisões separatistas, "uma realidade nova feita de ambos", um "novo corpo" onde morrem os dois antagonistas de Deus (Ef 2:14-16).

Dizer "Senhor, Senhor" significa afirmar o império de um Reino novo, uma nova ordem de relações cujo critério é aquele "homem novo"; isto é, dizer Jesus Cristo, significa dizer: RECONCILIAÇÃO, ou PAZ (Ef 2:16 e Ef 2:14,17). Em termos negativos, significa dizer "abolição" e "ab-rogação" de cada hostilidade e de todas as hostilidades (Ef 2:14)!

Abolição e Paz — estas grandes palavras nos arrancam da utopia, ou do escárnio, de que o Cristianismo deve produzir uma espécie de humanidade sem sexo, sem raça, sem diversidade de ocupação e situação social — um "super-homem". As palavras "nem judeu, nem grego, nem escravo, nem livre, nem homem ou mulher; todos sois um só em Jesus Cristo" (Gl 3:28; Cl 3:11; 1Co 12:13) pelas quais Paulo descreve a obra de Cristo, não significam a inexistência de sexo, nacionalidades, classes e ocupações. De outra forma Paulo não incluiria em suas cartas exortações especificas a judeus e gregos (Rm 2:17; Rm 11:13), a esposas (Ef 5:22; Cl 3:18), servos e senhores (Ef 6:5), etc. Mas, a fé em Jesus Cristo, enquanto se trata de Cristo mesmo, significa as duas coisas — existem as distinções —e, exatamente nele, elas são transformadas e incorporadas na possibilidade de uma vida comum: os que estavam formalmente em oposição, que se excluíam mutuamente, separados por circunstâncias que pareciam ser um "muro" intransponível.

Confessar Jesus Cristo, de conformidade com Efésios significa afirmar simples e redentivamente: COMUNIDADE, CO-EXISTÊNCIA, NOVA VIDA, RECONCILIAÇÃO, PAZ (Ef 2:14).

As implicações desta equação para a totalidade da vida da Igreja hoje são enormes (JESUS CRISTO — RECONCILIAÇÃO — COMUNIDADE — CO-EXISTÊNCIA — PAZ)! Podemos, graças à dádiva da Palavra de Deus em Jesus Cristo, e devemos repensar sempre sobre a Natureza e a Missão da Igreja como relevante em qualquer situação e face a qualquer ovelha ou nova fronteira que desafie a nossa fé. Podemos pensar sobre a Natureza e a Missão exatamente como a "nova humanidade" (esta forma que o amor de Deus tomou em Jesus Cristo para estar presente na história e expressar-se como "nova humanidade serva"; aí teremos a perspectiva para um re-exame fecundo e renovador (revitalizante) da Missão Cristã frente às tensões reais e artificiais do mundo contemporâneo: - a desordem das relações internacionais, a pré-potência de qualquer Nação sobre as demais, desordem das relações eclesiásticas, a tensão das gerações e das diferentes classes sociais, as tensões entre os diversos "mundos" que estão tentando em “coisificar” o homem (transformar o homem reduzindo-o a uma coisa, um objeto como, por exemplo, mão de obra, uma ficha, um número, etc.).

Efésios confessa e celebra com júbilo intenso (é uma carta cheia de melodia!) a grandiosidade do Ato de Deus chamado JESUS CRISTO em cuja realidade da morte e da ressurreição temos a criação da Nova Ordem das Relações.

Confessar Jesus Cristo é afirmar a nulidade de todas as formas e critérios de relações que segregam e fragmentam a vida humana; é afirmar que, uma vez por

todas, Deus aniquilou, que Deus anulou a força de todos os "rudimentos do mundo", reduziu a nada as "potestades" do século em torno às quais estava estruturada a vida e todas as relações humanas.

Mas, COMO é que Cristo destruiu o "muro de separação" entre o homem e Deus? Seguir o significado de Efésios é ir bem mais longe do que simplesmente afirmar que Jesus Cristo é o "evento" de unificação social! Efésios coloca a maior ênfase no fato de que "somente Jesus Cristo é aquele que traz a Paz e a Reconciliação entre Deus e o homem". Isto é, somente Jesus Cristo é o EVENTO REDENTOR.

Como é que Efésios proclama a efetividade da Paz? A resposta a esta pergunta básica é uma resposta múltipla: "em seu sangue" (Ef 2:13); "em sua carne", (Ef 2:15); "através da cruz", (Ef 2:16); "em si mesmo" (conforme o texto grego de Ef 2:15-16) ; "em um espírito" (Ef 2:18). As palavras "sangue", "carne", "um corpo", "um espírito" nenhuma outra realidade circunscrevem senão JESUS CRISTO MESMO! Isto significa que a totalidade de sua humanidade, e, mais especificamente, sua morte na cruz, seu sacrifício é o caminho único em que nos vem a Paz. As palavras "em sua carne", "em seu sangue", em um corpo", são as brutais palavras em que se traduz o concreto sacrifício do amor substitutivo — é exatamente por "substituição" que somos redimidos e reconciliados com Deus e para Deus — isto é — "EM JESUS CRISTO" somos salvos e não "EM NÓS MESMOS"!

Em Efésios, a morte de Cristo na cruz não resulta em miséria, mas naquilo que, se chama "at-one-ment", isto é, o resultado redentivo, reconciliador do homem com Deus, a Paz do homem com Deus e com o homem é o saldo da morte de Cristo para a humanidade. A epístola aos efésios não apresenta uma doutrina elaborada da Encarnação ou da Expiação. Mas, trata a morte de Cristo explicitamente como

"uma entrega de si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus" (Ef 5:2)! Trata, então dos resultados, dos efeitos permanentes da morte de Cristo, da ressurreição de Cristo, de CRISTO MESMO, como o "evento" da reconciliação e da Paz! Ele é a nossa Paz". Contudo, a cruz é mencionada como o meio da reconciliação; as palavras sacrificiais "sangue" e "carne" expressam o tom do argumento (Ef 2:13-18). A dádiva de si mesmo "como oferta e sacrifício", em Efésios (Ef 5:2) é afirmada exatamente para estampar perante seus leitores o "paradigma de Cristo" para a nova vida inaugurada: da mesma forma como "Cristo vos amou e se "

Em semelhante caminho podemos discernir em

entregou a si mesmo por nós

Cl1:22, em Hb 2:14 e no Evangelho segundo João 1:14, que a carne e o sangue e a morte de Cristo (isto é a totalidade da humanidade de Cristo sacrificada), são o meio em que a Graça e a Verdade, a Reconciliação e a Vida, o Amor e a Paz, são dados ao homem. Paulo é extremamente explícito: Ele declara em palavras que não deixam dúvida alguma, que pregar significa "tornar conhecido e proclamado", nada senão "Jesus Cristo e este crucificado" (1Co 1:23; 1Co 2:2).

Os termos sacrificiais "sangue" e "carne" usados em Efésios 5:2, a freqüência com que a morte de Jesus Cristo no Novo Testamento é situada em referência ao capítulo 53 do livro Isaías — tais fatos indicam claramente que temos, numa

compreensão conjunta dos textos do Antigo e do Novo Testamento, a mais vivida resposta à questão do "por que e do como que a morte de Cristo "faz a Paz"!

Enquanto no Antigo Testamento o "muro" (o véu do templo!) está construído e o rompimento do mesmo tem que ser feito por um "mediador", em Efésios o próprio resultado da "dádiva" do mediador é apresentado. Não somente para Israel ("os que estavam perto" — Ef 2:17), mas igualmente para os Gentios ("vós que antes estáveis longe" — Ef 2:13) — a salvação é alcançada.

No Antigo Testamento o "muro" permanece para o povo de Israel enquanto que no Novo Testamento ele é abolido. Esta é a diferença entre ambos. Contudo em ambos, há o elemento essencial que lhes é comum: o homem escolhido por ato de Deus como o "mediador", o "intercessor". Ele intercede perante Deus pelo oferecimento de si mesmo e a totalidade de sua vida finalmente. Ele se coloca não ao lado de Deus contra os pecadores a acusá-los, mas, ao contrário, Ele está, estranhamente, ao lado dos “inimigos” (os que não têm comunhão e se rebelram contra Deus na condição de pecadores) de Deus para orar, para interceder por Eles diante de Deus — sua intercessão, sua oração é o oferecimento de si mesmo, seu corpo, sua vida, sua honra, sua bênção, sua eleição, seu amor total a Deus "pelos transgressores", os malfeitores (Isaias 53:12 e Efésios 5:2), "por nós"!

Como os Efésios têm "Paz" com Deus em Jesus Cristo"? Nós agora podemos responder esta pergunta: porque Eles podem contar com UM que, do seu lado, intercede por eles perante Deus. Eles não estão mais sozinhos. Por eles tem orado Aquele que é Justo (1Jo 2:1) e que é "amado" (Ef 1:6). Aquilo que Efésios não diz explicitamente sobre a intercessão de Cristo é claramente refletido em João 17:1-26; 1Jo 2:1, e Hb 5:7; Hb 7:25, e é dramaticamente descrito em todas as narrativas dos evangelistas quando mostram a Jesus Cristo numa cruz entre dois

criminosos e ao mencionar as "últimas" palavras do crucificado. A intercessão feita por Jesus Cristo é a soma total de sua vida e sofrimento que o símbolo dos

apóstolos expressou no uso dramático do verbo "Padeceu

intercessor é totalmente nova, é inaudita a Israel. No antigo Testamento temos a

Esta realidade do

".

confissão de Moisés: "Eu não posso sozinho levar todo este povo, pois me é pesado demais" (Nm 11:14-15 e Ex 18:18).

Efésios denuncia como completamente inúteis, estéreis, todos os meios e engenhos do homem em fazer a Paz. Ela é a grande decorrência, a máxima palavra, que vem do sacrifício de Jesus Cristo; é a realidade "pré-determinada" por Deus em "seu filho amado" (Ef 1:4-6), o que efetivamente temos "em seu corpo" "através da cruz" (Ef 2:13) em que o "seu sangue", a "sua carne" aboliram a muralha de separação entre o homem e Deus e entre homem e os demais homens:

"Paz aos que estavam longe e aos que estavam perto".

A profundeza, a verdade e o poder desta confissão do nosso próprio pecado e a "entrega que Cristo fez de si mesmo" por nós é que nos torna possível compreender a redenção como uma dádiva para todos que necessitam e não como uma possessão privada de certa "classe" de pessoas (os do lado de dentro)! Se não podemos crer que Jesus Cristo intercede, ora morre pelos "estrangeiros", pelos

"desesperados", pelos "a teus no m u n d o" (Ef 2:12), então não cremos que Ele morreu por "nós".

Sua morte e seu chamado, a Paz e a Reconciliação que Ele criou são para ambos e entre ambos: os de "perto" e os de "longe". Ou Cristo é a "boa nova" para qualquer um ou, então, seu sacrifício será nulo e vão. Em Efésios 2:13-18, Paulo proclama inequivocamente, e nós somos chamados a crer que a morte de Jesus Cristo não foi em vão — que o muro de separação entre o homem e Deus, entre o homem e o homem, foi destruído.

A boa nova da "destruição da parede de separação" e a "nova humanidade" criada para a vida de paz é incondicional. Veneno é injetado no "Evangelho da Paz" se nós limitamos sua validez por qualquer condição ou restrição.

Para falar em termos de Efésios: nós fomos eleitos em Jesus Cristo (fomos aproximados a Deus e temos paz uns com os outros) não porque sejamos "irrepreensíveis e santos", mas para que o sejamos "perante Ele" (Ef 1:4).

Cristo morreu por nós não por causa de "nossa pureza ou santidade", mas, ao

contrário, pela nossa impureza e iniqüidade, afim de "santificar a Igreja pela

purificação

cousa semelhante, porém santa e sem defeito" (Ef 5:26,27). Temos que observar nestas sentenças tão explícitas a completa ausência de qualquer condicional. A obra de Cristo proclamada em favor do homem na carta aos Efésios desconhece por completo o condicional "se"! E, por outro lado, não podemos deixar de observar o uso freqüente das conjunções finais e consecutivas: "de modo que" e "afim de que"!

e apresentá-la perante Ele em glória, sem mácula, ou ruga, nem

A morte de Cristo, sua efetividade histórica, sua significação total é a

possibilidade suficiente da nova ordem de relações. Primeiro e sempre as "boas novas": nós fomos alvo de intercessão e oração, do amor e do sacrifício de Jesus Cristo; então, o chamado a "andarmos de maneira digna da vocação a que fomos chamados" (Ef 4:1). Em primeiro lugar a eterna vontade e o eterno plano de Deus em redimir-nos no "sangue" de Cristo "em amor" (Ef 1:7) é "acesso ao Pai" (Ef 2:18; 3.12). Antes de tudo Jesus Cristo desce "às partes mais baixas" e "ascende às partes mais altas" com o propósito de "cumprir todas as cousas" (Ef 4:8-10; Ef 1:20); então, nós podemos ter esperança e intercede para que "sejamos cheios de toda a plenitude de Deus" (Ef 3:19) . Em primeiro lugar somos "salvos pela graça então, segue: "afim de que andemos nelas" (Ef 2:10; Ef 4:1ss).

A novidade de vida e a retidão do nosso caminho são o propósito e a

conseqüência dos atos de Deus que celebramos na morte e na ressurreição de Jesus Cristo (exatamente como em Romanos 6:3ss). Não existe nada que estabeleça condicionamento do Evangelho. Qualquer tentativa em promover um "evangelismo" que aprisione a mensagem da cruz a qualquer condição, que a "suspenda" até que certos preparativos "espirituais" sejam feitos na Igreja e o mundo possa observar, será sempre "um evangelismo nosso" e uma traição ao Evangelho — atos de Deus — que coloca a cruz antes e acima de tudo. A

proclamação de Jesus Cristos crucificado é a pré-condição e o fundamento exclusivo para a proclamação da nova vida e do novo caminho "de antemão preparado" para que andemos segundo as "boas obras" que Deus mesmo preparou (Ef 2:10. "Cristo crucificado" é muito mais do que certa qualificação da mensagem dos cristãos para o mundo e de sua vida no mundo. Realmente, a "crucificação do Senhor da Glória" (1Co 2:8), isto é, a suprema humilhação do Filho de Deus" (Fl 2:6), é a verdadeira motivação, fundamento, centro e sentido de "tudo" que os cristãos têm para testificar por palavras e por obras no mundo em todos os tempos. E há apenas um evento, único em equivalência à crucificação de Cristo, que permanece, uma vez para sempre, no coração mesmo do Evangelho que a Igreja proclama: A RESSURREIÇÃO.

1.c. A RESSURREIÇÃO: UM SOBRE TODOS.

A ressurreição é o evento por excelência. Não nos é possível argumentá-la; não podemos explicá-la; não podemos reduzi-la a um objeto de comprovação. Podemos receber e participar, segundo a mensagem do Novo Testamento, de sua significação. É básico sabermos que Efésios, como os demais livros do Novo Testamento, não se preocupa em tratar de como foi que Cristo ressuscitou.

Em contraste com a literatura apócrifa e outros documentos de grupos sectários, Efésios não pretende penetrar no secreto de "um evento" sem paralelo algum na história e na experiência humana. Contudo, a significação, o poder e as conseqüências demandam interpretações e proclamação. Podemos questionar como pode a morte de um homem afetar e mudar o curso dos séculos e as vidas de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo!

A ressurreição de Cristo pelo poder de Deus é a solene aceitação do

"oferecimento sacrificial" de Cristo em favor do homem. O oferecimento feito a Deus permanece na dependência da aceitação divina: (Ef 5:2; Gn 8:21; Ex 29:18; Ez 20:14). O caminho em que o sacrifício de Cristo é aceito por Deus corresponde à totalidade da sua morte e à unicidade absoluta da crucificação. Esta é a significação da ressurreição em Efésios; significa que o "mesmo Jesus Cristo que desceu às partes mais baixas da terra" (Ef 4:9), é por um ato poderoso de Deus levantado ao mais alto lugar de honra (Ef 1:19-22; Hb 2:9). Não somente as palavras, (ensinos), os atos e os sofrimentos, mas a totalidade, Jesus Cristo mesmo, é recebido por Deus e elevado à mão direita de Jesus (Ef 1:20) . Tudo que encontramos no Novo Testamento é conexão inseparável com a morte de Cristo torna permanente o evento da sua crucificação.

A ressurreição revela que o sacrifício feito na cruz é para Deus "aroma

aceitável". A ressurreição é a resposta de Deus à oração intercessória da crucificação de seu Filho pelos pecadores. A ressurreição é a manifestação gloriosa do amor que fez Jesus Cristo entregar-se até à morte na cruz; e Ele é a fonte do nosso amor para com Deus e uns para com os outros.

Em Efésios três aspectos da significação da ressurreição são enfatizados

especificamente:

1º) A ressurreição de Cristo por Deus é um ato de tal graça e de tal magnitude de poder que só-mente Deus pode mostrar. "A suprema grandeza

do seu poder" (Ef 1:19) e a "suprema riqueza da sua graça" (Ef 2:7). A ressurreição

significa que tal poder e

reverso da ordem normal "vida-morte" sob a qual estávamos cativos e sem

nenhuma esperança (Hb 2:15), estabelecendo a nova ordem: "morte-vida"!

"Aquele que desceu estávamos mortos

com o propósito de mostrar nos séculos

vindouros a suprema riqueza da sua graça em bondade para conosco em Jesus Cristo" (2:1,5,7). "Pelo que diz: desperta tu que dormes, levanta-te de entre os mortos e Cristo te iluminará" (Ef 5:14). Isto é, para o autor de Efésios, falar de Deus significa falar do poder e da graça de Deus em favor do homem escravo na morte sem nenhuma possibilidade de libertar-se! Efésios trata daquela graça que se manifestou, o Deus que se revelou a si mesmo, pela derrota da morte no "evento" da ressurreição de Cristo. Se silenciamos sobre a ressurreição não podemos falar de Deus. Nossa "fé será fútil", ainda mais: "se nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida somos os mais infelizes de todos os homens" (1Co 15:17,19). Dizer "DEUS", segundo Efésios, no vale da morte e das tribulações da vida, significa crer em e dizer: "RESSURREIÇÃO"!

tal graça se manifestam em "supremacia" como o

é o mesmo que subiu

" (Ef 4:10); "Vós

nós os que

Ele deu vida

2º) A Ressurreição é um ato de Deus com dimensão e relevância cósmica. Entre todos os principados, potestades e poderes que influenciam e determinam o curso da vida, da natureza e da história da sociedade e da mente, nenhum parece ser tão onipotente, final e devastador como a morte. A despeito de todos os expedientes "atenuadores" e "embelezadores", apesar de todos os subterfúgios religiosos, a morte não é chamada injustamente pela Palavra de Deus como o "último inimigo" (1Co 15:26). Viver no presente mundo não significa nada

melhor do que viver para morrer, isto é viver sob o estigma, sob o espetro da morte; isto significa viver "miseravelmente"! Mas, eis o "inaudito para os escravos da morte": há um Deus que estabelece algo totalmente novo — "a eficácia da força do seu poder exercido em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o

acima de todo principado, e potestade, domínio e poder, e de

sentar à sua direita

todo nome que se nomeia não só neste século (aeon), mas também no vindouro" (Ef 1:19-21). Dizer "ressurreição" significa que há UM DEUS (para quem nenhuma das esferas da vida humana é alheia) cujo domínio é soberano às leis da natureza a que nós estamos submetidos. A Ressurreição é o triunfo sobre a morte.

3º) A Ressurreição é um ato "final", um ato de confirmação. De "onde" Cristo está "assentado" (Ef 1:20), pode e tem o propósito de "levar todas as coisas à plenitude" (Ef 1:23; 4:10), até mesmo o lugar da maior resistência — o coração e a compreensão humana (Ef 3:17,19).

Não é aqui que devemos tratar da razão pela qual Efésios não menciona explicitamente a segunda vinda de Cristo (Parousia). O julgamento final certamente não foi esquecido (Ef 5:6; Ef 6:8), pois a vida do cristão é uma vida sob o "trono do

Senhor". Em Colossenses (Cl 3:4) uma direta referência, como em outros documentos do Novo Testamento, ao aparecimento futuro de Cristo é feita. Em Efésios o propósito da ressurreição e da ascensão do Senhor é lançar "luz", iluminar com sua própria luz, todos os eventos futuros. Que significa, por exemplo, o fato de Cristo ser "elevado à direita de Deus? Paulo explicitou o propósito: "afim de levar todas as coisas à plenitude de Deus", ou, "afim de encher todas as cousas com a plenitude de Deus". Porque nenhum outro senão o "crucificado", o "intercessor", o Cristo que quebrou o muro e que triunfou sobre a morte", é que pode responder a tais perguntas: a intercessão feita por Cristo tomou lugar à mão direita de Deus! Ele vive sempre para interceder por nós" (Hb 7:25). Ele não conquistou tal glória para si mesmo, ao contrário, sua glorificação, como decorrente de sua humilhação até à morte na cruz, tem o propósito do amor de Deus em favor do homem, para o homem pecador. A glorificação de Jesus Cristo não resultou de nenhum plebiscito popular, não é um acidente da história ou um fato decorrente do julgamento humano: "Deus o exaltou soberamente e lhe deu "o nome que está acima de todo o nome" (Fp 2:15) .

O resultado da ressurreição é freqüentemente descrito em uma terminologia de conotação "política". Se Cristo está "entronizado" (Ef 1:20) no trono de Deus, Ele não apenas está numa relação de soberania com todas as formas de domínio e com todas as expressões de poder, mas Ele está para ser reverenciado por todos como Rei e Senhor (Fp 2:9-11). Em tal situação o "seu reinado", invariavelmente, afeta a vida de todos os habitantes. Assim, Cristo exerce sua autoridade "acima de todos" (Ef 1:21), não somente sobre poderes demoníacos ou angélicos, mas a totalidade dos homens estão sujeitos ao domínio de seu poder. Nos relatos do Evangelho assim como na epístola aos Efésios, o "Evangelho de Cristo", é introduzido e apresentado como uma série de "novas" ou declarações "políticas".

Ele anuncia mudanças profundas que atingem o governo e que atingem a situação social e concreta das comunidades humanas. Tal atuação tem aquele sentido expresso nas símiles do Reino de Deus com o "fermento" e com a "semente" e o "sal" (Mc 4:27). É uma obra de Deus; é completa. Mas é uma obra que de princípio a fim envolve o homem. Em Efésios, termos como "estrangeiros" (xenoi); "peregrinos" (paroikoi — "paroquianos"); "concidadãos" (sympolitai);

"comunidade" (politeia), são termos que assinalam muito claramente o caráter "político" ou o sentido "citadino" (de “polis”), que o Reino de Deus implica. Paulo afirma a nova ordem criada em Jesus Cristo como determinante da seguinte relação: "vós não sois mais "paroquianos" (paroikoi), mas sois "concidadãos" "

(Ef 2:19). Na Epístola aos Colossenses Paulo usa a

mesma terminologia e indica claramente a ação de Jesus Cristo como a ação "libertadora" que transfere a vida de uma esfera de domínio para outra, de um reino para outro (Ef 1:13). Enfim, a ressurreição e entrosamento de Jesus Cristo são eventos que revelam o domínio de Deus sobre todas as esferas de poder na conseqüente criação de uma nova "humanidade", de uma nova "cidadania". Temos que discernir aqui que Jesus Cristo é o "método" e o "espírito" do governo de Deus. A ressurreição significa que Deus identifica solene e singularmente, de maneira exclusiva e para sempre, o seu poder e o seu governo com a pessoa do "intercessor" que destrói a "parede de separação".

(sympolitai) dos santos

O tema da ressurreição de Cristo é tratado em Efésios intensivamente. Os

termos "sofrimento", "tentação" e "tribulação", freqüentemente empregados nos relatos dos evangelhos e das epístolas, são omitidos na carta aos Efésios. A morte de Cristo que dá toda a perspectiva da "Teologia Crucis" é focalizada desde o

sentido mais profundo do triunfo da vida eterna no evento singular da ressurreição.

Enquanto a ênfase da Epístola aos Colossenses é o "morrer em Cristo" (Ef

em Efésios é "em Cristo nós ressuscitamos". Caberia aqui um estudo bem aprofundado desta realidade, pois a Epístola aos Efésios sublinha o "Já" da obra da redenção — isto é, os resultados efetivos, atuais do Reino de Deus presente em Jesus Cristo. O sentido em que a ressurreição é proclamada, bem como toda a Cristologia dada na Epístola, indica um sentido de oposição à mentalidade "dualista" a respeito do mundo; Paulo parece questionar aquilo que nós nos habituamos superficialmente (conforme a filosofia medieval), a chamar e designar por "milênio".

2:20),

A oposição a essa mentalidade "milenarista" é indicada na carta aos Efésios de maneira muito radical e profunda no fato de que a obra de Deus em Jesus Cristo — "o Evangelho da Paz" — é a destruição das "separações", a "anulação da parede de divisão", é um ponto final na mentalidade "departamentalizada" da vida; ainda mais positivamente, ela é a "congregação", a "unificação" de todas as coisas em Jesus Cristo como "cabeça de tudo! Esta realidade em toda a amplitude de sua dimensão está indicada em Efésios 1:10 onde o apóstolo emprega uma expressão de tradução muito difícil e sempre incompleta, mas que no original parece abarcar o significado do "Evangelho da Paz" — é o termo grego que o autor nos dá na composição de "anakephalaiosasthai" — "convergir em Cristo (cabeça) todas as

coisas", reduzir tudo ao governo de Cristo", "unificando nEle todas as coisas" tanto as que estão nos céus como as que estão sobre a terra! Este mesmo sentido de "unificação", este rompimento radical do dualismo expresso na filosofia medieval, é dado quando Paulo trata da morte (equivalente em Efésios à encarnação de

Cristo), e da ressurreição como "descer" e "subir"

para

(Ef 4:10).

1.d.) O ESPÍRITO: PODER PARA COMUNICAÇÃO

A "descida" e a "ascensão" de Cristo, a sua entrega total e sacrificial, sua

morte intercessória pelos mortos em pecado, a fé e a esperança de todos os que

vivem por meio dele, podem ficar reduzidos a nada mais do que símbolos a despeito da firmeza do pensamento, da proclamação e dos escritos do apóstolo Paulo.

A menos que toda esta realidade histórica e sua relevância permanente da

obra de Deus em Jesus Cristo sejam comunicados em sua validez, ela será vazia e infrutífera. Neste ponto é que nos encontramos numa decisiva .encruzilhada Sem a "comunicação" nos encontramos no abismo insuperável entre o que é verdadeiro "nos lugares celestiais" e o que deve ser verdadeiro "sobre a terra", entre os eventos e as dádivas de Deus e a nossa nebulosa apreensão desta revelação.

A vitória, a transposição deste abismo só é possível mediante uma genuína

"comunicação". Nós estamos super acostumados ao uso de "meios de comunicação" que já chegamos mesmo a confundi-los com "evangelização". Meios

psicológicos, estatísticos, meios de propaganda, etc, não são o Evangelho nem a evangelização. Efésios não faz uso deles. De acordo com Efésios, o problema da comunicação é solucionado pelo próprio Deus e permanece em Suas mãos. O poder do Espírito de Deus é que conduz o homem à compreensão, a aceitação e obediência do que Deus tem feito. "Deus nos abençoou com todas as bênçãos

espirituais" (Ef 1:3); “

a palavra, o evangelho da vossa salvação, e nele

crendo, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da nossa herança" (Ef 1:13-14); "em um mesmo espírito temos acesso ao Pai" (Ef 2:18); "estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito" (Ef 2:22); " o

por

mistério

preservar a unidade do Espírito no vínculo, da paz" (Ef 4:3); "não entristeçais o

Espírito de Deus em que fostes selados" (Ef 4:30); " (Ef 5:18); "orai em todo o tempo no Espírito" (Ef 6:18).

ouvistes

como agora foi revelado pelo Espírito" (Ef 3:3,5); "

mas

esforçando-vos

enchei-vos do Espírito"

O Espírito também é significativo quando fala do "dom de Cristo" como dádiva

a ele mesmo e a cada um dos membros da comunidade — Igreja (Ef 3:7; Ef 4:7 e

cf. 1Co 12:7). As riquezas e a medida dos dons dispensados em diferentes ministérios entre os santos com o propósito de "equipá-los para o serviço a que cada um é chamado (4:11) e na continuidade da edificação e crescimento do "corpo de Cristo" (a Igreja) — (Ef 4 :12-16 e Ef 2:20-22).

Que mensagem podemos receber destas referências ao Espírito na carta aos Efésios? A ênfase ao Espírito parece ser equivalente a ênfase na ressurreição de Cristo. Para o autor de Efésios, o dom do Espírito é a evidência da ressurreição de Cristo. Este dom, e Somente este, prova o interesse de Cristo pelos homens, e seu poder para criar a comunhão entre o homem e Deus, para criar comunidade e o serviço aceitável a Deus.

Sem a realidade do Espírito estamos sempre tentados a relegar a crucificação

e a ressurreição de Cristo ao mesmo plano de qualquer acontecimento humano;

podemos considerá-las simplesmente como qualquer outra história religiosa, lenda ou mito. Ou, então, sem o Espírito, podemos considerá-las como eventos "espúrios" e de uma era pré-científica ou de uma época de crenças miraculosas. É exatamente o dom do Espírito que impede que um criticismo falso prevaleça expressando-as como "não científicas" — "mitológicas" ou "antiquadas". Pela dádiva do Espírito, Deus está sempre apto a surpreender o homem, por mais superior que possa ser a feição científica que o homem tenha do mundo.

Nas obras do Espírito, Deus ainda está operando no "coração" da própria história e experiência, na comunidade dos homens como em suas mentes. Os grandes eventos da crucificação e da ressurreição, tornam-se contemporâneos no Espírito. A atuação do Espírito sobre a terra na riqueza de seus ministérios são provas para nós de que a obra redentora de Deus está se efetivando, não é um fato passado, não é um "fato" completo da história. É pela sua própria continuidadee pela sua auto-comunicação que a perfeição da obra de Deus é revelada mais claramente.

Quatro

características

desta

permanente

obra

de

Deus

devem

ser

assinaladas, quando lemos o testemunho de Efésios ao Espírito Santo:

d.1.) O Espírito Santo é o Poder de Deus — poder demonstrado pela ressurreição de Cristo de maneira suficiente (Ef 1:19) e do Cristo ressurreto (Ef 4:7):

Efésios pressupõe, na liberdade com que fala do Espírito de Deus e do poder do Cristo ressurreto, que Cristo e a dádiva do Espírito são inseparáveis. A glória de Cristo é declarada pela dádiva do Espírito a Cristo e pela dádiva que Cristo faz do Espírito aos membros da comunidade cristã. O Espírito Santo é o mesmo Espírito do poder da ressurreição. Sua santidade é identificada com o poder peculiar que realiza a dádiva da vida onde e quando a morte parece triunfar.

d.2.) O Espírito Santo é a poderosa "manifestação" de Deus. De acordo com o Evangelho de João, o Espírito é o "Espírito da Verdade". Ele cumpre a missão de "revelar", "ensinar", "lembrar", "testificar", "falar", "proclamar" e "conduzir à toda a verdade" (Ef 14:17,26; Ef15:26; Ef 16:7). De acordo com o livro de Atos dos Apóstolos (At 2:33; At 2:14) o Espírito "derrama" coisas para serem "vistas" e também "ouvidas". Na primeira epístola aos Coríntios o dom de Deus é chamado de "a manifestação do Espírito" (1Co 12:7). Efésios chama o Espírito Santo como o "Espírito de Sabedoria e de Revelação no conhecimento" (conforme Isaías 11:2). A revelação do "mistério" é efetuada por meio do Espírito (Ef 3:5) e o "selo" do Espírito (Ef 1:13; Ef 4:30) é obviamente um evento de que Efésios está consciente.

O fato da manifestação do Espírito, segundo o Novo Testamento, sempre implica como indispensável a comunicação do conhecimento da Verdade ou a revelação; colocando num plano mais objetivo podemos dizer que a comunicação do Espírito implica na informação para a inteligência do homem, para a mente humana. Em Efésios o Espírito é a própria Sabedoria de Deus que se comunica, como em João: "Ele vos ensinará todas as coisas e vos guiará em toda a Verdade (Jo 14:26; Jo 16:13).

Não Somente no Evangelho de João e em Atos 2, mas também em Efésios, a essência do Espírito como "revelador" pode ser assinalada como a ação através da

palavra", isto é, falar, testemunhar e ouvir! Claro está que não se trata de qualquer palavra, mas sim daquela palavra que é a "espada do Espírito" (Ef 6:17). "Ouvindo ”

a Palavra da Verdade, o Evangelho

(Ef 1:13) são realidades que não podem ser separadas como se fossem diferentes manifestações da "eleição de Deus". Efésios trata dos "ministérios da palavra":

"apostolado", "profecia", "evangelismo", "pastorado" e "ensino" quando trata do "dom" do Cristo ressurreto à Igreja (Ef 4:7,11).

e crendo", e "sendo selados pelo Espírito

Também "orar" e "salmodiar" no Espírito, indicam que a Palavra e o Espírito são inseparáveis. Tal fato traz implicações muito grandes para a Missão da Igreja, pois condiciona ao evento do Espírito toda a atividade da mesma.

d.3.) O Espírito Santo é o poder da unificação. Ele congrega os homens pela obra de Deus e debaixo da obra de Deus. O Espírito, que equipa a Igreja para

o ministério já dado em Jesus Cristo, atesta de maneira suprema o que temos

denominado a "perfeita obra de Deus" que é o próprio Cristo crucificado e ressuscitado, e como já descrevemos, (com base em Efésios 2:13-18), como a criação da Paz e a criação do novo homem em relação a Deus (que tem acesso ao Pai).

O amor de Deus por seu Filho (Ef 1:6), e por nós (Ef 1:4; Ef 2:4; Ef 5:1), e o

amor entre os homens (Ef 1:15; Ef 4:2; Ef 5:25,33; Ef 6:21,23) — este amor — não

é assunto de simples palavras ou afetos apenas, mas é o amor em que fomos

amados em Jesus Cristo, criativo e efetivo! Conforme Romanos (Rm 5:5) "o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações pelo Espírito Santo" e conforme Gálatas (Gl 6:2) "levai as cargas uns dos outros, desta maneira cumprireis a Lei de Cristo" que vem em seqüência a todo um capítulo dedicado aos "frutos do Espírito". Este amor tem o poder de criar a comunhão, de congregar o que estava separado de unir o que estava desunido; Ele é o criador da Unidade (na língua inglesa há uma palavra muito adequada a expressar esta realidade: "atonement" que traduz o ato sacrificial de Cristo na cruz e ao mesmo tempo seu efeito na criação da unidade — at-one-ment): RECONCILIAÇÃO. É precisamente o Espírito "o vínculo da paz" a que estamos chamados a guardar com diligência (Ef 4:3).

Conhecer, pelo poder do Espírito, quais são as riquezas da glória de Deus, e encontrar acesso a Ele pelo mesmo Espírito (Ef 1:18; Ef 2:18; Ef 4:7), este é o dom de Deus que "edifica" e que causa o "crescimento" de uma comunidade sobre a terra — que se chama "IGREJA" (Ef 2:22). A Igreja é obra do Espírito Santo; e a Igreja — tal Igreja — a evidência explícita para a ressurreição do Cristo crucificado.

Agora podemos formular uma terceira significação para a expressão inicial:

"comunicação pelo Espírito". Ela significa não somente a ação de um poder que "suplanta" e que "informa" com a Verdade tanto sobre a vida como sobre a morte; significa também a criação de uma comunidade — uma comunidade com Deus e com "aqueles" homens que eram estranhos uns aos outros.

O Cristo ressurreto manifesta-se a si mesmo na criação e sustentação, na

equipação (construção) e no crescimento da Igreja que é tal comunidade. A Igreja é

o povo que "vive em Cristo" como o "novo homem" (Ef 2:15). Ela permanece

perante Ele "gloriosa" (Ef 5:27). Dia a dia seus membros — defrontados pela hostilidade do velho homem — são renovados no espírito de seus entendimentos

(Ef 4:22). Como "casa de Deus" e "família de Deus" — a comunidade resultante da obra de Deus — constitui o "corpo de Cristo" que manifesta uma vida como o apóstolo descreve em Colossenses 3:12: "eleitos de Deus, santos e amados", — em afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de

longanimidade

O sentido desta vida de comunidade, segundo Colossenses e

Efésios, se expressa como resultado do amor que é o "vínculo da perfeição" (Cl 3:12-14). A Igreja é a "fraternidade" criada por Deus (Ef 2:1)) ou a "armadura de Deus" (Ef 6:11).

".

A comunidade da Igreja, criada pelo Espírito de Deus, é uma "unidade" que

cresce e que esta sendo "construída" (Ef 2:21; Ef 4:12-16); ela não é de modo

nenhum uma "sociedade histórica" cuja finalidade seja a de preservar o "status quo" . Ela não é uma assembléia com compromissos de timidez, que, por medo não se atreva a correr riscos, mas é a comunidade "fortalecida pelo Senhor e pela força do seu poder" (Ef 6:10). A Igreja é a evangelista que, por sua presença, proclama a remoção de todas as formas de "muros" entre os de dentro e os de "fora" do Reino de Deus. Tal forma de presença da Igreja tem o sentido oposto à mentalidade que somente julga e aceita como correto aquilo que está conforme ao seu próprio interesse ou benefício. Com a mentalidade de somente "buscar o seu interesse" a Igreja não seria IGREJA, mas seria "capitalismo" que procura e aceita somente o que lhe traz vantagens e benefícios próprios.

A Igreja não pode justificar sua presença e sua segurança futura pela construção e observação de demarcações e "cortinas" entre nações, denominações, congregações, ou ordens leiga e clerical. Pelo contrário, sua presença deve seguir, pela segurança do Espírito já derramado, a presença de Cristo em sua solidariedade total, sua identificação com os famintos, os que têm sede, os que são escravos, os explorados, até com os criminosos e presos que, obviamente, não parecem ser seus discípulos nem membros da Igreja (Mt 25:31-46; Lc 23:32-43).

Pelo selo do Espírito Santo (Ef 1:13; Ef 4:30), não somente a comunidade dos santos, mas a totalidade da humanidade está selada de certa forma, como a circuncisão era um sinal que todos os judeus permaneciam para Deus (Ef 2:11). A Igreja que vive pelo Espírito, no seio do mundo, é uma "estampa", um "sinal" de Deus. Ela mostra que a totalidade do mundo, a totalidade da humanidade é propriedade de Deus e que não há nenhuma chance de escapar ao fato de que todas as coisas foram entregues ao domínio de Jesus Cristo como "Cabeça" (Ef 1:22). A menos que a Igreja creia na presença do Espírito atualmente na vida da humanidade, sua missão não terá nenhum sentido.

d.4.) O Espírito Santo é a "fiança" da futura consumação. A mensagem de Paulo em Efésios não é de modo algum uma perfeição individual ou de uma felicidade pessoal. Sua prospectiva, sua meta é: "Jesus Cristo é o tudo em todas as coisas" (Ef 1:23; Ef 4:10). É a esperança de que "todos" cheguem até à estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4:13). Paulo sublinha de forma tal a palavra “todos”, que seria um grave pecado tentar ignorá-la ou desprezá-la. O triunfo do propósito de Deus está manifesto nesta mesma dimensão e direção futura de "totalidade em Cristo": "um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por todos e em todos" (Ef

4:6).

Efésios não encoraja nenhuma esperança futura na linha em que tal esperança é alimentada pelos tradicionais "sistemas meritórios". Efésios é uma epístola em que a "escatologia" (palavra do vocabulário bíblico que significa a doutrina sobre as "últimas coisas", finais dos tempos), é colocada num outro nível e numa outra perspectiva. A questão não é se haverá ou não um julgamento final (Ef 6:8), mas sim o fato da vitória de Cristo sobre "todas as coisas" (Ef 1:10; Ef 4:10), a unidade final de "todos" perante e em o Único Filho de Deus (4:13). É uma tal amplitude de esperança cristã assegurada para todos pela vitória de Cristo que nos

dá a linha básica em que Efésios trata da escatologia: a "promessa" (Ef 1:13; Ef 2:12; Ef 6:2), a "esperança" (Ef 1:18; Ef 2:12; Ef 4:4) e a "herança" (Ef 1:14,18; Ef 5:5) não apontam em vão para a mesma direção. Pelo Espírito Santo, a esperança e o triunfo da obra de Deus não servem de apoio a nenhuma pretensão de interesse privado e egoísta. Se Deus "é tudo em todos", não tem sentido algum qualquer ansiedade quanto a existência individual futura. Efésios não promete "pastagens celestiais" para determinadas pessoas, mas assegura e proclama o triunfo completo da causa de Deus revelada em Jesus Cristo. O Espírito Santo é o selo de que esta realidade não pode ser removida.

Temos que assinalar que a Obra que Deus realiza através de Jesus Cristo e pelo Espírito Santo não significa apenas um aspecto ou um segmento de Deus. Em Efésios não há nenhuma base para a idéia da Obra de Deus como manifestação ou operação de Deus para Deus mesmo. Não podemos falar exceto falando deste amor, deste plano, deste mistério e desta "palavra-ação" que tem sido revelada pelo seu Filho e pelo seu Espírito. E não há uma forma de rendermos graças a Deus ou de louvar Seu Nome exceto em referência ao que Ele nos tem dado no passado, no presente e ao que está antecipado nas bênçãos futuras, em nome de Jesus Cristo e com o selo do Espírito Santo (Ef 5:20).

Em Efésios o autor do que Deus tem feito e o que Ele tem feito corresponde exatamente a expressão do "conselho de sua vontade" e o "seu beneplácito" (Ef 1:5,9,11). Esta vontade não é motivada por nenhum fator aparte de Deus mesmo em seu amor. "Antes da fundação do mundo" (Ef 1:4), "de conformidade ao seu beneplácito (1:5,9), "conforme às riquezas de sua graça" (Ef 1:7; Ef 2:7), "em misericórdia", exatamente "por causa do seu grande amor com que nos amou" (Ef 2:4), tudo exclusiva e justamente por uma única forma e um único homem — "Jesus Cristo", isto é, "em Cristo" (Ef 1:3-13) .

Devemos observar que nenhuma necessidade ou ansiedade humana é apresentada como motivação para a Obra de Deus. Isto significa, por outro lado, que não há necessidade humana que possa condicionar, anular ou mudar o "beneplácito" de Deus. A misericórdia de Deus não está à mercê ou na dependência da nossa miséria humana. Verdadeiramente segundo todo o Novo Testamento, o que determina o curso da ação de Deus é exclusivamente o seu "beneplácito" para nos amar. Daí o fato básico de Paulo não cessar de adorar através da chamada "eleição" ou "predestinação" a inflexível gratuidade, a absoluta gratuidade da redenção.

O plano de Deus referido em Efésios muitas vezes (1:10; 3:2,9) aparece em conexão a um termo grego (oikonomia) que pode ser traduzido pela palavra "economia". Esse termo grego significa administração de uma casa de família, principio governamental, estratégia ou dispensação. Seja qual for o sentido que preferirmos, Efésios torna claro que Jesus Cristo e a revelação de sua obra não são uma parte, mas é o coração mesmo do Eterno plano de Deus.

CAPÍTULO II

A COMUNHÃO DO POVO DE DEUS

A Igreja em sua origem, constituição e vida depende de três elementos básicos:

a) A auto-revelação de Deus, que manifesta seu beneplácito eterno para

salvar os homens da morte criando-lhes uma nova ordem de vida;

b) O conhecimento do mundo que procede de Deus, conhecimento que

determina o que é fundamentalmente necessário para que o homem participe vitalmente do que é verdadeiro e bom; c) A graça de Deus, que, de homens formalmente hostis uns aos outros, dá origem uma "assembléia" (comunidade) que consciente e jubilosamente adora a Deus e busca que os demais façam o mesmo.

Não há possibilidade de tratarmos da Natureza da Igreja sem redescobrirmos o que está em sua base original:

1) REVELAÇÃO: nossa salvação da morte. Em Cristo, Deus planejou eternamente nos amar; em Cristo a perfeita obra de Deus em seu amor foi consumada; em Cristo "o mistério" da sua vontade nos foi dado a conhecer (Ef 1:19). Nele nós fomos selados pelo "evangelho da nossa salvação" (Ef 1:13). Mas, uma eleição eterna, uma promessa e uma herança, uma obra perfeita, ficaria sem valor se não tornasse conhecido que tal amor é real, ativo e efetivo. Amor que não se declara a si mesmo e falha em criar uma livre resposta de amor não é totalmente amor, ou, mais concretamente, não é o amor de Deus.

Este "propósito eterno" (Ef 3:11) realiza-se no momento histórico escolhido por Deus: "Quando chegou a plenitude do tempo" (Gl 4:4), "na dispensação da

plenitude dos tempos" (Ef 1:10) "Cristo foi (constituído) cabeça de tudo. Mas, foi o

seu "beneplácito"

graça em bondade para conosco

em Cristo Jesus" (Ef 2:7), que "a Ele seja a

"para revelar nos séculos vindouros a suprema riqueza de sua

glória na Igreja e em Cristo Jesus por todas as gerações e para todo o sempre" (Ef

3:21).

Muito se tem dito e escrito sobre a necessidade do homem conhecer-se a si mesmo afim de poder participar do seu ser "autêntico". O autor de Efésios,

entretanto, está pouco interessado no assunto do eu como objeto de conhecimento. Este conhecimento é um objeto para oração e é uma questão de fé, Ele não nega, mas assenta enfaticamente: "O Pai da glória vos conceda espírito de sabedoria e "

está claro que não se trata do

de revelação no pleno conhecimento Dele

conhecimento do "eu", conhecimento de mim mesmo, mas de "conhecer com todos os santos".

Lendo Efésios percebe-se a insistência de Paulo na "revelação do mistério" (Ef 3:3) e todas as suas "dimensões" como a totalidade do amor de Deus (Ef 3:18) que "ultrapassa todo o entendimento" (Ef 3:19), — o "mistério de Cristo" (Ef 3:4), o poder que atuou na ressurreição (Ef 1:19), e a esperança da herança dada aos santos (Ef 1:18).

A revelação de Deus questiona e desafia a razão em lugar de negá-la. Ela não

exige de nós um "sacrifício da inteligência" para compreendermos "qual é a largura e o cumprimento, a altura e profundidade do amor de Deus" (Ef 3:18). Pois, o amor de Deus "ultrapassa o conhecimento", e exatamente essa transcendência do amor de Deus é conhecida (Ef 3:19), realmente permanece um "mistério". Mas, nos foi dado a conhecer pela "pregação do Evangelho" e, por meio da Igreja, "a multiforme sabedoria de Deus" é manifesta ao mundo (Ef 3:4-10). A totalidade da obra de Deus tem o caráter e o propósito da revelação. Aquilo que Ele fez em Cristo é com o propósito de manifestação (o mesmo em Romanos 3:25-26 como em Ef 2:7). Afinal, como é que podemos conhecer Deus? Somente pela Sua obra e revelação. Quão impotentes e incompetentes somos nós para conhecer a grandeza da obra de Deus que "não vem dos homens, mas procede de Deus" — "é dom de Deus" (Ef 2:8).

A natureza da revelação de Deus é proclamada em termos claros. Nunca em

proposições a respeito dos atributos de Deus (dizendo, por exemplo que Deus é imortal, invisível, etc.), nem através de um código de vida moral, nem ainda como uma lei perfeita de liberdade (como em Tiago 1:25); ao contrário, o que tem sido revelado por Deus só o pode ser com base no fato de que: "Deus é rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou" (Ef 2:4).

Ele é o Pai, cuja riqueza foi "derramada sobre nós" (Ef 1:8). Ele é Espírito Único, o Único Senhor, o Único Deus e Pai (Ef 4:3-6), revelou se a si mesmo na criação de um novo homem (Ef 2:15), chamando-nos para sermos "um corpo" em "uma esperança" e "em uma fé" (Ef 4:4) e na promessa de que "cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus" (Ef 4:13). Deus aceita o sacrifício como um "aroma agradável" que é oferecido pela Paz e que proclama a Paz (Ef 2:14-18; Ef 5:2). Através de Cristo Ele faz com que os que estavam perto e os que estavam longe sejam aproximados e tenham acesso ao Pai de todos (Ef 2:13-18; Ef 4:6). Ele concede ao homem as "armas" para uma luta contra poderes sobre-humanos (Ef 6:10) — tudo isto e mais, é "revelado" como manifestação do mistério do Deus que criou todas as coisas (Ef 3:9).

Observemos que é sempre um ato do Deus vivente, e não uma série de

informações a respeito de um "inativo" ser de Deus, quando Paulo trata da "revelação" e do "conhecimento". Esta realidade não é exclusiva da epístola aos

porque Deus o tem

a criação do mundo, sua essência invisível (seu poder e

Efésios: "

o que de Deus pode ser conhecido é evidente

assim

divindade eternos), são conhecidos por meio de suas obras" (Rm 1:19). "Conhecer a Cristo" é "conhecer o poder de sua ressurreição e (a) comunhão em seus

sofrimentos" (Fp 3:10). "

mas temos recebido o Espírito que vem de Deus, para

EM SEUS ATOS — na fidelidade ao seu eterno propósito, ao Cristo crucificado, e às promessas dadas a Israel — é que Deus revela quem é: sempre "Nosso Pai" (Ef 1:2, etc), e o que Ele é: quão pleno de graça, de riqueza e de poder!

É precisamente nesta auto-manifestação de Deus que o homem tem a sua mais ampla possibilidade de vida. Pensar que o homem não é nada porque Deus é "tudo em todos", é um enorme absurdo. Pois, em verdade, o homem é o único beneficiário (herdeiro) desta grande ação de Deus em sua revelação de si mesmo ao homem. Morte, impureza, injustiça, solidão, divisão, hostilidade e toda a situação humana que tais palavras ou outras possam expressar, encontram da parte de Deus a mais inaudita expressão de amor que destrói a força má de todas estas coisas transformando de maneira completa a situação do homem: (Ef 2:4,7; Ef 5:2)!

Sentença após sentença, tudo o que Deus torna conhecido através de sua revelação é a sua ação, são as suas obras, na salvação do homem. "O Evangelho é o poder de Deus para a salvação" (Rm 1:16)! A "palavra da verdade" é identificada com o "Evangelho da nossa salvação" (Ef 1:13). A glória própria e devida para Deus "na Igreja" e "em Jesus Cristo" é uma e a mesma glória (Ef 3:21). Aquilo que Deus fez "em Cristo" Ele o fez para os homens como a existência da Igreja sobre a terra deve manifestar.

Devemos também assinalar que pela revelação os homens se tornam "participantes" e "beneficiários" na vida do Deus Triuno. "Não mais" são alienados (separados) da "vida de Deus" como nos tempos da "ignorância, da vaidade dos pensamentos, da dureza dos corações" em que viviam "antes" (Ef 4:17-18). Como filhos, "como crianças", participam da "sabedoria do Pai" (Ef 1:17), da "sua bondade" (Ef 2:7; Ef 4:32), a tal ponto que podem ser chamados de "imitadores de Deus" (Ef 5:1)! Ressuscitados em Cristo, são "colocados no trono com Ele" (Ef 2:5). Como "membros do seu corpo", são "um só corpo" (Ef 5:30; Ef 2:16; Ef 3:6; Ef 4:4). "Fortalecidos pelo Espírito" podem lutar contra os principados e potestades do século (Ef 6:10). Para usar a mesma sentença em 2Pe 1:4 — "são participantes da natureza divina".

Unindo-os a si mesmo como em "sua morte na cruz", em tomando sobre si os "pecados que eram nossa exclusiva propriedade", fazendo-nos "sua propriedade" (Ef 1:14; Ef 4:8), tornando-nos santos em relação a Ele, exatamente nós que

andávamos "segundo a vontade da carne" (Ef 1:4; Ef 2:3; Ef 5:26) — desta maneira

é que Deus tem operado e tem se revelado ao homem. Ele "mostrou isso" para todo

o sempre (Ef 2:7). É "isso" que deu a saber às potestades e aos principados (Ef 3:10) e, através da Igreja, Sua multiforme sabedoria se torne conhecida.

Essa revelação "pelo Evangelho" (Ef 3:4), mostra a solidariedade de Deus com o homem e cria a possibilidade da participação do homem nas "riquezas de Deus", que "ultrapassam a sabedoria" (Ef 3:19). Nenhum homem pode falar de tal confiança a respeito do serviço de Deus pelo homem e sua esperança para toda a humanidade senão aquele que recebeu a revelação de Deus. Paulo como os

demais "santos" e também com todos os apóstolos e profetas de Deus, recebeu a mesma revelação (Ef 3:5; Cl 1:26). Mas, Ele não resiste à consciência de que a Ele "o último e o menor de todos os santos" em especial foi dado o privilégio de participar do apostolado do mistério, isto é, "a graça de pregar aos gentios o Evangelho das insondáveis riquezas de Cristo" (Ef 3:3,8; Ef 6:19).

Deus se torna conhecido pela obra da salvação dos pecadores em Cristo. A fim de penetrarmos na plena significação desta realidade necessitamos acrescentar algumas observações mais quanto ao sentido dos termos "conhecimento" e "conhecer" nos livros da Bíblia. Aquilo que hoje é chamado o conceito grego de conhecimento corresponde à compreensão "racional" e "científica" que imperou no mundo ocidental no século dezenove! "Conhecimento" neste sentido pode ser definido como a soma do objetivo, do impessoal, do controlável e do conveniente como informação a respeito de pessoas, de fatos ou de cousas. É a habilidade com fatos, verdades, princípios, leis, métodos adquiridos pelo estudo, pela pesquisa, investigação ou exercício intelectual. É o tipo de conhecimento que "reduz" a verdade e até a própria realidade da vida a "conceitos" e, exatamente esta parece ser uma das marcas da cultura humanista: a tirania do seu conceptualismo, olvidando-se sempre que os limites da razão não são os limites da vida! Não devemos hoje estranhar a falta de "humanidade" desta cultura. "Conhecimento" no sentido bíblico, obviamente, não se ajusta a essa mentalidade da cultura conceitualista. O conhecimento de um objeto ou de um esqueleto implica em que o homem é livre para dispor dele como "algo" submetido ao seu interesse e opinião. Mas, a Verdade não é um objeto nem um esqueleto, pois se fosse teria já perdido o último de suas possibilidades e de suas credenciais. A pessoa de Deus, a Verdade e o conhecimento de Deus segundo a Bíblia somente são identificados numa perspectiva bíblica total e profunda.

Na Bíblia as relações justas entre Deus e o homem (Mt 11:27; Jo 6:69; Jo 17:3-5; Gl 4:9; 1Co 8:13; 1Co 13:12; etc.) são chamadas "conhecimento". Deus ou Cristo "conhece" os que são seus e os que são seus o "conhecem" (Jo 10:14). A pior forma de separação é confessada quando uma pessoa diz a outra: "eu não te conheço" (Dt 33:9; Mt 25:12). No Antigo Testamento a relação mais íntima entre a comunhão do esposo e sua esposa é descrita pelo verbo "conhecer" (Gn 4:1,17,25, etc.). De acordo com Os 2:16,20; Jr 31:31-34 e Ez 16, há uma analogia entre o conhecimento de Deus no sentido da união entre Deus e o homem e o conhecimento que une esposo e esposa. Em ambos os casos "conhecimento" é "comunhão" e união entre pessoas, uma que chama e responde, entre uma, que recebe, entre uma e outra pessoa que se completam mutuamente. Do conhecimento de Deus o homem aprende o que significa ser solidário e o que necessita saber para chegar a ser uma pessoa solidária.

Em Efésios o plano de Deus de revelar-se ao homem, “fazer o homem conhecer o mistério de sua vontade", de "Jesus Cristo", e do "Evangelho" (Ef 1:9; Ef 3:4; Ef 6:19) é motivado pelo amor e pela graça de Deus (Ef 2:4-7). A seus leitores, aos quais Paulo escreve em grego, várias vezes ele explica o que é que Ele quer dizer por "conhecimento" e "mistério". Ele o diz em plenas e profundas palavras: os santos são os que recebem conhecimento de Deus, ou melhor ainda, são os que

são conhecidos por Deus (Gl 4:9; 1Co 8:2; 1Co 13:12; conforme João 10:14 e 2Tm 2:19). Ele tem em mente exatamente o sentido de conhecimento que encontramos no Antigo Testamento e não as noções de conhecimento da cultura helênica.

Paulo não nos dá uma série lógica de proposições, de axiomas, de princípios objetivos, de atributos definidores dos quais nos possamos apoderar como uma "soma" de conhecimento intelectual sobre Deus. Conhecimento de Deus, pelo contrário, é uma "forma de vida" — é "nova existência", é "nova criação", é "nova ordem de relações" (2Co 5:16-17ss) — não mais em "alienação", mas "perto" da comunidade e da aliança de Israel" (Ef 2:12). Tanto em Oseías, Jeremias, Ezequiel como na carta aos Efésios (Ef 5:21-32) as relações entre esposo e esposa são tratadas como uma analogia da relação entre o Senhor e seu povo escolhido.

Não podemos fugir à conclusão de que em Efésios os verbos "conhecer" e

"fazer conhecer" — exceto numa única alusão feita ao helenismo em que aparece conhecimento (gnosis) (Ef 3:19), denotam uma relação existencial entre Deus e o

me

conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois, perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei" (Jr 31:34). Isaías

homem que estava prometida no Antigo Testamento: "

porque

todos

afirmara: "A terra será cheia do conhecimento do Senhor" (Is 11:9) ; " o meu Servo,

o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si" (Is 53:11).

No cântico de Zacarias (Lc 1:77) lemos na mesma direção: "

para dar ao seu

povo o conhecimento da salvação no redimi-lo de seus pecados, graças a entranhável misericórdia de nosso Deus. O "conhecimento de Deus" é inseparável do "amor a Deus"; Deus é para ser amado "com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com toda a nossa força" (Dt 6:4-5) ; "com toda a nossa mente" (Lc 10:27). A totalidade do homem é escolhida para amar a Deus.

O conhecimento de Deus nunca pode ser um "manual" que possamos carregar no bolso e que possa ser adquirido como adquirimos objetos de segunda

mão. Nunca Ele se restringe a uma parte da personalidade, é sempre em referência ao seu ser total. Enfim, o conhecimento de Deus é "o vínculo da Paz", a "nova ordem de relações" que nos é auspiciada pelo "Evangelho da Paz", a salvação a que fomos chamados" e na qual devemos andar em relações cuja dimensão seja dada por "toda humildade e mansidão, com longanimidade" e que nos "suportemos uns aos outros em amor" (Ef 4:1-2). Tal conhecimento em que sabemos que "Deus

é tudo em todos", não é uma negação do homem, e sim a sua total libertação para a amplitude da vida de novas relações em Cristo.

2. É imprescindível que anotemos que na carta aos Efésios mais do que em outro livro bíblico trata-se da "Igreja" e do "conhecimento". Estes dois tópicos permanecem inseparáveis na epístola. A Igreja é o primeiro fruto da revelação de Deus. Ela conhece aquilo que deve ser mostrado para a humanidade inteira numa amplitude universal. Aqui é o lugar certo para assinalarmos que esta mesma realidade determina que a Igreja não viva para si mesma. Ela não recebeu este conhecimento somente para seu benefício privado. "A multiforme sabedoria de

Deus se torne conhecida agora dos principados

pela Igreja" (Ef 3:10)

A IGREJA É O CANAL, É A FERRAMENTA DE TRABALHO PARA DEUS. É

enorme a sua responsabilidade pelo conhecimento que lhe foi confiado. Em Efésios o privilégio imenso da Igreja (dos cristãos) por receber o conhecimento de Deus é descrito sob a metáfora da luz: "antes éreis trevas; agora sois luz no Senhor. Andai como filhos da luz" (Ef 5:8). Tal sentença torna mui claro que a Igreja é um resultado da ação de Deus que transformou "filhos das trevas" em "filhos da luz" com a missão de que "caminhem como filhos da luz".

O mais responsável título e a mais séria comissão com que a Igreja é tratada

de Deus, que é a

Igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade" (1Tm 3:15). Tais títulos têm alimentado não "pequenas pretensões" quando tomados fora da dimensão profunda da responsabilidade e submissão que lhes são implícitas. Quando perguntamos sobre a natureza da "verdade" de que a Igreja é "coluna", temos que humilhar-nos para encontrarmo-nos de novo com Ela numa morte de cruz — é a verdade que se humilha até à morte e morte de cruz (Fp 2:7,8). O fato de "sermos filhos da luz", sermos gerados pela verdade, implica em que nos devemos totalmente à Verdade, à Luz que nos tornou filhos.

no Novo Testamento encontramos na epístola a Timóteo: "

casa

A união entre "conhecimento" e Igreja pode ainda ser visto à luz do que lemos

na epístola aos Coríntios (1Co 8:1-3): "

Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como importa saber". De conformidade a Efésios, o conhecimento de Deus não é um sistema de pensamento ou de informações para serem recebidos, possuídos e convencionados. É muito mais do que isso. Conhecimento ou "iluminação dos olhos do coração" é e permanece uma dádiva de Deus, pela qual devemos orar:

vos conceda o espírito de

sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele" (Ef 1:16,17). Desta realidade só podemos concluir que o conhecimento é uma "forma de vida", uma existência total como participante de Deus e como recipiente de sua graça, sendo impossível o seu enclausuramento (sua prisão) em conceitos ou em instituições. A "igreja" corre o grande risco de deixar de ser "Igreja" por cometer o pecado da apropriação indébita, apoderando-se da verdade, o que seria um fruto não do Espírito da Verdade, mas um fruto da enganosa concupiscência.

"não cesso de dar graças por vós

o saber ensoberbece, mas o amor edifica.

para que Deus

A palavra da verdade e o conhecimento do mistério de Cristo nunca são ou

serão uma propriedade da Igreja. A Igreja é chamada a permanecer na verdade, a amar a verdade, a respeitar a verdade com muito maior humildade do que a mais séria pesquisa científica deva fazer. A Igreja permanece um discípulo, ao lado do mundo, na escola de Deus em que há "um só Senhor e Mestre" (Mt 23:8). Conhecimento só existe onde existe "crescimento em sabedoria". Os cristãos são "luz" (Ef 5:8) somente enquanto continuam sendo "iluminados" pelo Espírito (Ef 1:17) e por Cristo (EF 5:14). A Igreja só é a Igreja enquanto permanece no caminho em que possa "conhecer o amor de Cristo que excede todo o entendimento e para que seja tomada de toda a plenitude de Deus" (Ef 3:19). Claro, então, que daí decorre para a Igreja uma enorme responsabilidade. Toda a sua reflexão teológica,

seu estudo da História, da Educação, da sociedade enfim, serão estudos em função de sua Natureza e Missão como Igreja de Jesus Cristo.

O conhecimento no sentido bíblico é "vida comum" e "responsabilidade mútua" ou comunitária. Ele cria formas, funções e ministérios. Mas, não esqueçamos jamais, que, vida comunitária, belos programas de ação, formas de organização (estruturas e pragmatismo), não podem jamais colocar-se no lugar do aprendizado, do "crescer em sabedoria" dos poderosos atos de Deus.

— É exatamente

o que lemos na "oração sacerdotal de Cristo" (Jo 17:14,16; Jo 15:19). Cristo roga

que seus discípulos não sejam "tirados" do mundo. Semelhantemente, em Efésios, a Igreja é a comunidade que vive na terra. Efésios trata da Igreja "católica" (Katholica, que em grego significa universal), isto é, da una, universal (íntegra), comunidade de amplitude mundial, em que permanecem todos os membros de uma região, de uma assembléia local e de uma congregação. Há uma só Igreja em Jesus Cristo, pois há um só corpo com uma única Cabeça! A questão eclesiológica (doutrina ou estudo sobre a Igreja) não pode ser focalizada mais dentro da distinção tradicional das "duas naturezas" da Igreja, a Igreja terrena e a Igreja celestial, mentalidade que conduz à distinção fatal entre Igreja "visível" e Igreja "invisível".

3. A Igreja não é do mundo

mas, a Igreja é no mundo

Não há uma eclesiologia bíblica senão partindo e permanecendo na "Cristologia"; ou se trata da Igreja em Cristo ou não se trata da Igreja! O dualismo da Igreja concebida em termos tradicionais (medievais) reflete a tensão que há atualmente entre diferentes escolas — a Igreja que "já é" e a Igreja que "ainda não é"; ou a tensão entre a "aparência" e a "essência" da Igreja (distinção filosófica); ou, entre a Igreja de "fato" e a "ideal"; ou, finalmente, entre a Igreja "histórica" e a "escatológica".

Que contribuição há na epístola aos Efésios para meditarmos sobre esta questão que é fundamental quanto à Natureza da Igreja e a sua relação com o que chamamos "mundo"? No manuscrito grego do texto de Efésios encontramos logo

no endereço da carta um elemento significativo. No versículo primeiro lemos: "aos santos que vivem em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus" (Ef 1:1). Em Éfeso e em Cristo podem parecer a uma análise superficial uma simples referência geográfica. Éfeso

e Cristo não são meras localidades.

Esferas de poder, canais de pressão, e certo "status" resultantes são descritos pela pequena palavra "em" e pelos nomes que lhe seguem. Se "Cristo" permanece para a "perfeita obra de Deus", "Éfeso" para o "mundo" e suas influências. Os destinatários desta epístola são ambos "efésios" (de acordo com o título) e "santos fiéis" em Jesus Cristo. A mistura dos dois não é feita no texto. Para Paulo não há algo parecido com "cristãos efésios"; ou o que modernamente conhecemos como "Cristandade Católica", "Cristandade Germânica" ou "Cristandade Americana". Mas, a relação é estabelecida: os santos vivem "em Eféso" e são "fiéis em Jesus Cristo". Paulo não endereça sua carta a cristãos abstratos ou imaginários e suspensos no ar. É característico do seu pensamento falar da Igreja como a Igreja

sobre a terra. Entre Efésios e Apocalipse há uma distinção bem nítida de ênfase teológica: a primeira trata da vida da Igreja na terra, enquanto a segunda trata da assembléia dos anjos e dos mártires na esfera celestial. A ênfase de Efésios se explica pelo fato de que a epístola está justamente tratando daquilo que "era" e que "agora" já "não é mais"; a obra de Deus em Jesus Cristo é o divisor de águas, é a fronteira entre o antes e o agora. "Agora" a ressurreição, o entronamento (colocação no trono, glorificação), a comunhão da casa de Deus e do seu reino, a revelação do mistério de Deus, o testemunho da nova forma da vida teve lugar, tudo isto lugar daquilo que imperava "antes": o reino da morte, do pecado, do estrangeirismo, da inimizade, da ignorância — tudo isto não é mais válido (Ef 2:1ss.; Ef 3:1ss; Ef 4:17ss. e versículo 28)!

Claro está que a consumação da obra de Deus, a participação final na herança agora garantida (Ef 1:13) no "dia da redenção" (Ef 4:30), não é ignorado pelo autor da epístola. Já mencionamos que Efésios contém uma "escatologia", uma doutrina das últimas cousas. A Igreja vive, mas é em esperança que ela vive (Ef 4:4).

Mas, a Igreja não é descrita primeiramente em temos futuros. A escatologia de

Efésios trata muito mais da Igreja no presente mundo em que ela vive. A verdadeira doutrina das "últimas cousas", a escatologia bíblica, mostra não somente o futuro, mas principalmente a totalidade da obra em que Deus manifesta sua eterna vontade plenamente no tempo. "Últimas cousas" e "últimos dias", realmente tornam-se presentes quando o Espírito de Deus é derramado sobre a Igreja (Atos 2:17); quando o Evangelho da plenitude das promessas de Deus é proclamado (Lc 4:18-21); quando a "hora vem" e "agora é", em que os mortos podem ouvir a voz de Deus (Jo 5:25). Estas realidades, a presença do Espírito, a presença do Evangelho,

a presença da ressurreição na terra, entre os Efésios e outros que estavam "longe", são anunciadas na epístola. A Igreja vive desta presença e do cumprimento das promessas dadas para os últimos tempos. Estudiosos do Novo Testamento têm denominado este sentido da escatologia como "escatologia realizada".

Vivendo do Espírito e sendo selada pelo Espírito, a Igreja é, sem dúvida, um sinal "escatológico" erigido no mundo. Entretanto, a consciência das bênçãos já recebidas, o "agora", não esconde aquilo que está apenas antecipado. A Igreja

sabe que a revelação de Deus está continuamente se expressando e através da Igreja (Ef 3:10)! A Igreja é um sinal para o mundo; por sua existência verdadeira, ela

é um sinal vivo para o mundo de que, definitivamente, nada senão o plano de Deus revelado em Cristo para a humanidade inteira permanecerá.

A santidade e a irrepreensibilidade da Igreja (Ef 1:4; Ef 5:27), são dádivas e comissão que Deus mesmo lhe tem feito, e está fazendo agora ao reunir os homens sobre a terra em Cristo Jesus. Os cristãos não se podem fazer ou se chamarem a si mesmos de santos. Seria mais do que ridículo intentar fazê-lo. Mas, nós somos chamados como cristãos a compreender o que é que a "Palavra" tem dito e tem feito para todos. "Pela Palavra" somos purificados. Paulo o afirma explicitamente que a Igreja é "purificada na água pela Palavra" (Ef 5:26). E no evangelho de João (Jo 15:3) Jesus afirma: "vós já estais limpos pela palavra que Eu vos tenho falado".

Os reformadores chamaram esta pureza como a "Justiça imputada" e, em fazendo assim, estão sendo fiéis aos textos bíblicos e, especialmente, ao que Paulo afirma em Romanos 4:3. É a santidade dádiva de Deus e que permanece em relação a Deus na missão confiada à Igreja.

Mas, poderia a santidade ser limitada a um "verbalismo" ou a uma simples questão de palavras? Claro que não se trata disso. Ao referir-se à palavra, os textos tratam daquela "Palavra" que traduz os atos poderosos do Deus poderoso que se revela em Jesus Cristo. Ouvindo a palavra da verdade, o evangelho da nossa "

(Ef 1:13). É palavra redentiva, criativa de comunhão e de paz. Assim, a

despeito de tudo quanto os "efésios" necessitavam para sua vida de adoração, de testemunho, de conduta, eles são realmente eleitos por Deus para serem santos. Eles são comissionados e chamados a serem santos e o são porque são chamados. Estes estão responsabilizados a proclamar que Deus, a despeito de todo o pecado e iniqüidade do homem, cria um povo chamado santo.

salvação

Podemos agora indicar duas conclusões que contêm a alternativa para as duas posições que conhecemos como "dualismo" e "perfeccionismo". Igreja do Senhor não é Deus e não é o mundo, mas Deus revela sua amorável soberania pela criação e edificação da Igreja no mundo. E a Igreja é, então, "Una", "Santa" e "Católica" não por suas capacidades adquiridas, possuídas através dos anos, mas por causa da obra que o Espírito realiza nela e por ela por intermédio da Palavra e em fé. Ela não é uma assembléia perfeita, mas uma "fraternidade" em crescimento constante e em "comunhão" ininterrupta. Ela vive sempre em processo de "formação", está permanentemente sendo formada e por isso mesmo renovada pela obra do Espírito.

Se a santidade da Igreja é uma dádiva de Deus, então ela é indivisível. Então a unidade da Igreja é incorruptível, como quer e onde quer que estejam os seus membros. A “catolicidade” (universalidade) da Igreja é real a despeito de todos os problemas regionais e as diferenças confessionais. A santidade e a catolicidade da Igreja permanecem inseparáveis — uma é decorrente da outra. Todo o escândalo dos pecados denominacionais, sectaristas, de grupos e indivíduos não podem anular a dádiva de Deus, sua promessa e sua comissão. A dádiva de Deus está selada pelo Espírito de tal forma que não há nada que possa anulá-la.

Onde a Igreja está presente tornam-se visíveis os sinais da presença do Espírito — há "crescimento" e há construção". É característica da natureza da Igreja não somente "ser arraigada e fundada em amor" (Ef 3:17) ou "construída sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo mesmo a principal pedra angular" (Ef 2:20), mas também o crescimento visível. Raízes e alicerces permanecem invisíveis. Há, entretanto, as evidências visíveis da presença da Igreja no mundo: uma comunidade que cresce como um "edifício bem ajustado" — um "corpo de santos" sendo equipado para o serviço (Ef 2:21; Ef 4:12,16) . É da natureza da Igreja que ela se assemelha em parte ao crescimento do corpo humano, em parte a uma casa em processo de construção. As metáforas (figuras) de "raiz", (arraigados) e "crescimento" se referem ao mistério do crescimento e da vida da Igreja como realidade que se torna visível, mas cuja causa

original permanece oculta. Com tais figuras quer o apóstolo traduzir o mais profundo do ser da Igreja que não está nela mesma e sim em Deus que a sustenta. As metáforas “corpo”, “juntas”, “crianças”, são medidas que traduzem a “maturidade” (Ef 4:13-16), com as quais quer o autor traduzir a realidade da obra de Deus na criação da nova humanidade, do novo homem que não mais permanece atado aos sinais próprios da infância (Ef 4:14 e 1 Co 13:11). Finalmente, a metáfora do "edifício" ou do "templo", torna muito claro o fato de que os elementos exteriores são não só o resultado do crescimento que se efetuou interiormente, mas que elementos de fora também são encaixados para o crescimento da construção.

Nenhuma destas metáforas pode ser tomada isoladamente para se pensar na Igreja; elas se completam e se corrigem umas às outras. A realidade "interior" e a realidade "visível", a vida da Igreja, o poder dado por Deus, e a atividade ou o ministério de cada membro não podem ser separados. Esta é a Igreja: a plantação de Deus no mundo, nova humanidade criada por Deus de forças inimigas, a construção de Deus sobre a terra. Sempre a Igreja de que Paulo trata assinala a obra de Deus na terra e não em algum lugar imaginário.

4. A Igreja e sua relevância "política". Não é sem sentido público ou de relevância social e política que a Igreja vive sobre a terra da sabedoria que vem de Deus. A Igreja é o povo de Deus que "cresce" em conhecimento e no desempenho de "ministérios" recebendo assim uma "cabeça", uma "forma" e uma "assembléia religiosa"; ela é um "povo" entre os povos; ela não é a simples soma de indivíduos cristãos isoladamente vivendo sem ultrapassar a dimensão do valor individual. O conceito da "nação" talvez seja o mais próprio para expressar o que significa quando o povo da Deus é chamado "comunidade" na qual os gentios são admitidos, ou quando os efésios são chamados "concidadãos dos santos e membros da família de Deus" (Ef 2:12,19). Claro que Paulo não está pensando no absurdo de estabelecer uma "Igreja-Estado" (como o Vaticano, por exemplo). Mas, quando ele fala da nossa "cidadania" (Fp 1:27); quando Paulo lembra aos efésios de sua "herança no Reino de Deus"; também quando a Igreja é chamada "cidade" (polis) ou "campo" (Hb 12:22; Hb13:14 e Ap 3:12; Ap 20:9), não resta dúvida que está bem assinalada a dimensão, pela terminologia e pelo seu significado, de relevância "citadina" da Igreja.

Paulo chama ainda a Igreja de "Israel de Deus" (Gl 6:16; Rm 2:29). O termo grego para Igreja (ekklesia) que é freqüentemente usado no Novo Testamento descrevia antes e durante os tempos de Paulo uma "assembléia do povo". A simples menção desta palavra poderia ser suficiente para indicar-nos que a Igreja será a Igreja à medida de seu envolvimento vital com as nações e com o mundo. Se ela é continuamente a comunhão crescente dos que conhecem o mistério de Cristo, a abolição das separações e a criação da paz entre o homem e Deus e entre as criaturas de Deus, ela não pode de maneira alguma permanecer fechada em si mesma.

Cristo "desceu às partes mais baixas da terra" (Ef 4:9). Ele suportou a luta e sustentou a luta com "os poderosos deste século" que o crucificaram (1 Co 2:8). Os cristãos são "co-herdeiros", membros do mesmo corpo, participantes da mesma

promessa" (Ef 3:6) com Israel e com Cristo, somente quando crescem com Cristo e em Cristo (Ef 4:15), como uma comunidade ativa e visível, responsável dentro da vida do mundo.

"Guardar-se a si mesmo isento da corrupção do mundo" com o propósito de manter a "religião pura e sem mácula" (Tg 1:27), não quer dizer lavar as mãos quando escândalos e injustiças sociais, políticas e econômicas estão gritando aos mais altos céus! Mesmo porque o próprio texto de Tiago afirma que é verdadeira a "religião que visita as viúvas e os órfãos". A Igreja está responsabilizada a envolver-se (tratando "da verdade em amor") na importância das questões da paz, da justiça e da verdade — pois "o fruto da luz consiste em toda a bondade, justiça e verdade" (Ef 5:8).

É claro que a existência da Igreja na terra como uma "nação" implica em que ela está chamada aos riscos dos conflitos com todos os poderes deste século, com os interesses das nações. A nação, o estado, a cultura, os propósitos de uma determinada sociedade estão envolvidos na linguagem do apóstolo ao referir às potestades e os poderes deste século como forças que a Igreja deve enfrentar e às quais terá que "resistir no dia mau" (Ef 6:12).

Devemos recordar que a cidade de Eféso era uma das mais famosas cidades do mundo helenístico e do Império Romano e que a "mãe", o "amor", o "comércio" e

o "culto das massas" davam à cidade um destaque fora do comum (Atos 19:23-40). Temos que observar, entretanto, que Paulo não trata da Igreja envolvido num

conflito político e que os ataques não partem da Igreja e sim das "potestades" e dos "principados", então, Paulo exorta os cristãos a "não andarem como eles andam" e lhes afirma: vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim como sábios" (Ef 5:15); "remindo o tempo porquanto os dias são maus" (Ef 5:16). Ele encoraja os cristãos a se "fortalecerem no Senhor e na força do seu poder" (Ef 6:10), e é claro que é a fortaleza do mesmo poder que operou o "Evangelho da Paz". A Igreja aparece finalmente como e exército militante de Deus, além de ser a "assembléia dos cidadãos" (Ef 2:19) que é a "luz" no mundo e para o inundo (Ef 5:8) exército equipado com o espírito certo e a armadura certa para enfrentar a batalha com os dardos "confusos" e inflamados do maligno (Ef 6:16). A armadura determina

a natureza da vida da Igreja e do conflito que ela manterá no mundo. Tal é a Igreja "em Éfeso" e "em Cristo".

5. A Igreja: Povo constituído por Deus. Até aqui temos observado que a Igreja é uma realidade de que podemos tratar somente em função de eventos que tiveram lugar dentro da história. Resumidamente e em específico: a confirmação da obra de Deus através da nova ordem de vida, a comunhão e o comissionamento de um Povo sobre a terra, e a submissão de toda forma de necessidades do mundo ao julgamento e à graça da sabedoria de Deus. A Igreja é onde estas cousas acontecem.

Tais eventos têm a natureza e o aspecto de semeadura, de serviço que demora, de frustração duradoura, mais do que a aparência de vitória retumbante e de frutos abundantes e muito rápidos. Pela sua natureza em permanente formação

e informação, sua incessante mudança (arrependimento) e seu crescimento

ambíguo dentro da história do mundo, a Igreja não pode ser medida como se fora um dos clubes planejados pela habilidade e pelo interesse humano, como se fora um fenômeno natural, pois ela é o Povo que escuta e segue o chamado que Deus mesmo profere no Evangelho da Paz.

Qualquer pessoa conserva sua nacionalidade sem que atue como um cidadão responsável. Mas, um cristão não permanece um cristão sem que atue

cotidiamente em testemunho de obediência responsável. A Igreja é um "corpo" vivo

e dinâmico. Os sinais da Igreja são evidentes e, se não forem evidentes, não é a autêntica Igreja do Senhor Jesus.

A irrevogável constituição pela qual a Igreja é a família, a nação de Deus de conformidade com sua vida e existência, não é uma carta ou qualquer outro documento escrito no papel. Nunca será um atestado que a Igreja possua e possa exibir como sua credencial permanente e dentro de sua própria história. Não é um passado glorioso ou um futuro que possa ser atestado por ela como documento de

comprovação. A constituição da Igreja é a sua Natureza e a Natureza da Igreja é a sua relação. A epístola aos Efésios torna esta verdade suficientemente clara. Em Efésios a Igreja é tratada, como já apontamos nas reflexões iniciais, numa "ordem

de relações": em sua relação com "Deus, o Pai", com "Cristo", com o "Espírito", com

a "comunidade de Israel", com os "gentios" e com "todos os santos". Somente

quando estas relações são vivas e justas é que a Igreja é Igreja. Na Bíblia inteira "justo" ou "justiça" nunca é uma virtude individual ou abstrata, mas é sempre viva, vivida de conformidade ao espírito de um pacto de relação pessoal.

a) Em Efésios a relação entre Cristo e a Igreja aparece como na unidade do corpo e pelo título "cabeça" que é dado a Cristo, na metáfora do "corpo de Cristo" que se usa para a Igreja, e nos termos de "membros do corpo" que é empregado para descrever os "santos" (Ef 1:22; Ef 4:4,12,15,25; Ef 5:23,30). Paulo usa uma terminologia paralela em outras epístolas (Cl 1:18,24; Cl 2:19; 1Co 11:3; Rm 12:4). Em Efésios e na carta aos Colossenses o foco primeiro, não o exclusivo, está na inter-relação "Cristo-Igreja", enquanto nas epístolas aos Romanos e 1 Coríntios o foco está na mútua relação entre os cristãos.

Cabeça, corpo e membros, de acordo com a mentalidade grega e moderna são preliminarmente partes do homem. Mas, quando o Antigo Testamento faz referência a qualquer parte do corpo (cabeça, alma, olhos), é a totalidade humana que está sendo focalizada antes que subdivisões anatômicas. Na Bíblia, o homem não tem uma alma, uma cabeça, um corpo. Mas, Ele é uma alma, um corpo, e é o que seus olhos e suas mãos fazem ou o que seu coração ama (Mt 5:24-30; Mt 6:22-23; Lc 19:22). Quando, em Efésios, Paulo chama Cristo de Cabeça da Igreja

ele não quer significar com isto que Cristo é a parte mais nobre do corpo. E sim que Cristo é identificado com aquela realidade que é mais indispensável para o domínio total da vida do corpo, como o Senhor que protege, dirige, e que nutre todos os atos

do corpo como a "mente" do mesmo. É desta maneira que a Igreja pode "manifestar

a sabedoria de Deus" (Ef 3:10). Temos, então, aqui a significação básica da

equação, "A Igreja é o corpo de Cristo". A Igreja é a manifestação do Cristo

ressurreto na terra. Quando ela é perseguida, ele mesmo é perseguido (Atos 9:4). Quando Cristo que "é a nossa vida for manifestado em glória, nós seremos manifestados com Ele em glória" (Cl 3:4). "Nós carregamos sempre no corpo o "

morrer de Jesus para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo

4:10ss).

(2Co

Nós temos que concluir que enquanto Cristo é o "homem perfeito" (Ef 4:13), o corpo de Cristo (Igreja) ainda está sendo construído, ainda não está perfeito. Em Efésios é muito clara a noção de que a Igreja vive em uma relação de permanente "crescimento" em submissão à Cabeça. Não há na epístola qualquer apoio às pretensões de um eclesiasticismo que se proclama "bene" ou "plene" Igreja. A Igreja não é inaccessível, poderosa ou rica, ou um corpo fechado, mas ela é o corpo de Cristo que vive em crescimento. A Igreja, por natureza, inclui virtualmente os que ainda são descrentes. Além disso, está claro em Efésios (como na carta aos Colossenses) que Cristo não é somente Cabeça da Igreja. Ele é também Cabeça de cada homem ainda que seja um homem que não creia nEle (aqui nos referimos novamente a Efésios 1:10). Como a todos os textos da epístola em que se sublinha tão positivamente a amplitude total da obra de Deus em Cristo. (Devemos ler Colossenses 1:20 que nos dá a mesma realidade).

A intenção, a força do propósito e da obra que Deus cumpre em Jesus Cristo não tem limites. Esta verdade concede à Igreja o sentido e a amplitude de sua responsabilidade missionária "Cristo é para todos". A palavra grega que aparece Ef 1:10 é "anakephalaiosasthai", que significa reduzir tudo sob um único chefe. Embora seja considerada a ambivalência que o verbo tenha, para o autor da epístola, não há dúvida que ele assinala o alcance total do propósito de Deus de submeter toda a criatura à vontade e ao amor expressos em Jesus Cristo como Cabeça de todas as coisas. Está aí uma noção bem ampla da esperança da fé cristã em seu alcance cósmico.

b) A Igreja vive em relação especial com Israel. Este elo especial pode ser melhor chamado "solidariedade" ou "comunhão". Por "Israel" não entendemos apenas o antigo Israel ao qual fora prometido e dado o Messias. Nem ainda os judeus de hoje em sua dispersão no mundo ou no jovem estado de Israel criado em 1948 esgotam o que "Israel" significa. Nem mesmo podemos tomar como definição exclusiva o "Israel segundo o Espírito", os que "adoram em Espírito e em 'Verdade" de todas as épocas, referidos por Paulo e João (Rm 2:29; Gl 6:16; João 1:47; João 4:22). O que devemos ter em mente é a totalidade das possíveis descrições do Israel que devem estar envolvidas quando temos diante de nós os textos da epístola aos Efésios.

qual em outras gerações não foi dado a conhecer aos filhos dos homens,

como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, no Espírito, a saber que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do Evangelho" (Ef 3:5-6). De conformidade com este texto, o mistério do Evangelho é a "fraternidade" e "co-cidadania" dos Gentios com Israel! Esta realidade estabelece o compromisso de sérias ponderações a que não nos podemos furtar. A obra total de Cristo, "fazendo a paz"

o "

e sendo "Ele a nossa paz" pela "destruição da inimizade" (Ef 2:14-16) não é apenas em relação a, mas consiste também da anulação, da derrubada do muro de divisão entre os judeus e os gentios. Observemos que ela não é relacionada, primariamente, à divisão entre raças e classes, nações e pessoas, idades e culturas. Pareceria melhor a nós que tensões e contrastes políticos, sociais, raciais, morais, espirituais, educativos e psicológicos mereceriam maior atenção do que qualquer outra cousa ao tratar-se da relação entre a Igreja e Israel. Textos como Gl 3:28; Cl 3:11; 1Co 12:13 tratam da unidade entre judeus e gregos, homens escravos e livres, bárbaros e citas, mulher e homem. Agora os judeus e os gentios são contados como "UM" entre muitos dos pares de inimigos que tem sido reconciliados (at-one-ment) em Cristo.

Este é o momento em que devemos alcançar as implicações daquilo que Paulo diz quando fala da criação da "nova humanidade". Nesta epístola a "mão de obra de Deus" (Ef 2:10), o "novo homem" (Ef 2:15; Ef 4:24), é criado somente dos dois — Judeus e Gentios (Ef 2:11-22). Que ambos, Judeus e Gentios, estão divididos também em homem e mulher, jovem e velho, servos e senhores, é um fato que não podemos esquecer no pensamento do autor. Mas, a paz social entre sexos, entre gerações e entre diferentes classes não é substituto para aquela Paz única que põe fim a hostilidade entre os de "dentro" e os de "fora", entre os de "perto" e os "que estavam longe" da "casa de Deus".

De conformidade com o texto de Efésios, a paz social de forma alguma é uma conseqüência da paz que foi estabelecida entre Judeus e Gentios. A grande obra de Deus (somos feitura dele, cf. Ef 2:10) e a proclamação do sangue de Cristo (Ef 2:13-17) busca a paz entre os que são estranhos à comunidade de Israel e aos Israelitas. Mas, unicamente a paz estabelecida em Cristo entre Judeus e Gentios, que permita a ambos, alcançarem juntos a paz com Deus (Ef 2:16-18) é o fundamento, é o leito em que a "co-existência pacifica" é possível em todos os níveis e em todas as esferas da vida.

Por que razão os que crêem em Cristo não podem ter paz com Deus e uns com os outros senão juntos com Israel? Efésios responde esta pergunta: não é

porque Israel não necessite ressurreição e reconciliação, comunhão e crescimento para ser "templo santo do Senhor". Ao contrário, afirma Paulo, não somente vós

(Gentios) "estáveis mortos em vossos delitos e pecados

século" (Ef 2:1); "mas, entre os quais (filhos da desobediência) também todos nós

éramos (Judeus), por

estando nós mortos em

nossos delitos e pecados nos deu vida juntamente com Cristo

2:3-6). "De ambos (Judeus e Gentios) Cristo fez um e dos dois criou um novo homem" (Ef 2:14-16). "Vindo Ele evangelizou a paz aos que estavam longe e aos que estavam perto" (Ef 2:17). Não em um diferente, mas sim "em um mesmo Espírito" está facultado o acesso ao Pai (Ef 2:18), e "juntamente vós estais sendo edificados para habitação de Deus em Espírito" (Ef 2:22).

(Judeus) andávamos nos desejos da nossa carne e natureza filhos da ira, como todos os demais. Mas Deus

segundo o curso deste

em Cristo. (Ef

O que Paulo proclama na carta aos Efésios não é nenhuma superioridade dos Judeus em seu caráter racial ou histórico, nem ainda uma "fraternidade" entre

Gentios e Judeus a qualquer preço. As palavras "em Cristo" e "em um Espírito" nos impedem encarar o problema de uma perspectiva puramente humanista e histórica! A indissolúvel e transcendente solidariedade entre Judeus e Gentios formando o "corpo de Cristo" está assegurada precisamente na obra de reconciliação que se espelha de forma exclusiva e definitiva na morte e na ressurreição de Cristo.

A conotação profunda em que Judeus e Gentios são reconciliados em Cristo indica a grande realidade de que a Igreja está relacionada com cada um e com todos os homens. A posição em que Israel aparece na economia divina da salvação apresenta a mesma ambigüidade em que a parábola do "filho pródigo" nos apresenta o "irmão mais velho" (Lc 15:25-32). Enfim sobre esta relação da Igreja com todos os demais trataremos em seguida no próximo capítulo do nosso estudo em que o texto de Efésios nos levará a refletir sobre a presença da Igreja no Mundo e as implicações entre a Fé Cristã e a Ética.

CAPÍTULO III

A PRESENÇA DA IGREJA

Temos visto até aqui as duas grandes secções em que se move o conteúdo teológico da carta aos Efésios. Na primeira sublinha-se o que Deus, em seu soberano amor e vontade tem proposto na eternidade. Temos visto então uma série muito fecunda de verbos em que o autor comemora a total iniciativa divina na salvação e na reconciliação do mundo ou da totalidade das cousas. Temos examinado ainda na mesma série de verbos o fato de que Paulo e os cristãos não cessam de adorar a gratuidade absoluta do ato em que Deus nos torna seus filhos.

Sua soberania é uma soberania em Cristo, isto é, uma soberania de amor que inclui

a totalidade das criaturas como o endereço pessoal da obra perfeita de Deus, a "mão de obra de Deus".

Na segunda grande secção temos visto exatamente a Revelação de Deus —

a "multiforme sabedoria" que se revela no evento "Jesus Cristo" que "destrói o muro

da separação" e que "faz a paz". Aqui numa série de verbos que conjugam a revelação de Deus sublinha-se o conteúdo pessoal da Palavra de Deus (palavra-ato) e a sua relação inseparável com o evento da Igreja como a comunidade em relação de dependência permanente da ação da "sabedoria" ou do "conhecimento de Deus" que ultrapassa toda compreensão humana. Então, a constituição da Igreja como "Povo de Deus" em Jesus Cristo, a Igreja como "Corpo de Cristo", comissionado a manifestar "as insondáveis riquezas de Cristo" (Ef 3:10) que se constituem no "mistério revelado" (o qual é o "Evangelho da Paz"!), "a Palavra da Verdade" em que a Igreja foi selada "pelo Espírito Santo da promessa". Daí, da constituição da Igreja no evento "Jesus Cristo", que criou o "novo homem", decorre a missão da Igreja, o ministério da Igreja no mundo como aquela comunidade que torna evidente a paz com Deus e a paz do homem com o homem.

Assinalemos mais uma vez que toda esta realidade nos é dada em Efésios numa forma singular em relação às demais epístolas paulinas. Pois Efésios é verdadeiramente uma liturgia dos grandes atos praticados por Deus em sua revelação ao homem. Daí a insistente forma de oração, podendo-se mesmo afirmar que tudo é, na epístola, assunto de oração, de comunhão com Deus. A verdade revelada é, não uma verdade formal ou lógica, que é dada na forma de princípios ou proposições estáticas, a verdade é uma relação pessoal. A Igreja é também uma relação, uma nova ordem de relações, uma nova ordem de vida, de vida comunitária. Os adjetivos e não os substantivos é que indicam "as virtudes" da vida

cristã; isto é, a vida cristã é uma vida em relação a Deus — é uma relação, uma comunhão permanente. A participação na obra de Deus — a vida em Cristo que é a vida da Igreja implica realmente numa atmosfera de ininterrupta adoração. Esta natureza tão pessoal em que os atos de Deus são proclamados na epístola e a natureza da Igreja que decorre da natureza dos atos de Deus cria verdadeiramente

a "liturgia cristã" — assim, Efésios é a doutrina cristã transmitida como música de adoração, de harmonia universal, de paz no seu sentido de reconciliação pelo sangue de Cristo como a "justiça imputada" no dizer dos grandes reformadores.

A Natureza da Igreja determina assim a Missão da Igreja de maneira tal que é

um absurdo dizer que

responsabilidades da Igreja. Igreja é Missão. O que Deus fez em Cristo está relacionado com Israel e com o mundo Gentio, como está relacionado com todas as criaturas e com todas as cousas na terra e nos céus.

missão ou que muitas são as

a

Igreja

tem

uma

Devemos então, agora, estudar a terceira parte da Epístola que trata por um lado, da "Igreja equipada", e, de outro lado, da Igreja equipada para o mundo".

Devemos dizer que este capítulo do nosso estudo e que é o capítulo final, assinala a repercussão dos atos de Deus no mundo através da Igreja. Necessitamos

no Evangelho" (Ef 1:13)

considerar como a comunidade dos que "ouvem e crêem está presente e "anda" no mundo.

Na segunda metade da epístola vimos que o autor está sempre indicando que "

a conduta dos cristãos em Éfeso não era diferente dos não cristãos.

quais também nós andávamos todos, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira,como também os demais" (Ef 2:3). Agora, entretanto, nos capítulos 4 a 6, está uma realidade totalmente nova, determinada pela obra de Deus — um povo para Deus mesmo, que é "comunhão", que é "construído" e recebe "crescimento em sabedoria, em amor, em santidade" — este povo para Deus é a Igreja. Toda esta assembléia, esta comunidade está vocacionada a "andar retamente de conformidade com a vocação que foi chamada" (Ef 4:1).

entre os

Como "nova humanidade" a Igreja foi criada através da obra de Deus em Cristo (Ef 2:15). Ela é constantemente "renovada" desde dentro e de fora (Ef 4:23-24). Ela é "vestida de novo" (Ef 4:23- 24; Ef 6:11,13) das "cousas que Deus mesmo tem criado e preparado de antemão" para que a Igreja "ande nelas" (Ef 2:10). Portanto, isto é, como natural conseqüência de tudo quanto Deus já fez (após todos os Indicativos do Evangelho), os cristãos são chamados a "não andar mais como andam os Gentios" (Ef 4:17) — então, seguem-se aos Indicativos do Evangelho os seus grandes Imperativos.

Esta ordem que não pode ser alterada, senão para cairmos no “religiosismo” (religiosidade) farisaico que tenta invalidar a "Palavra da cruz", é proclamada na Epístola aos Romanos de forma inequívoca. Vamos aqui abrir um pequeno parêntesis para a inclusão do texto de Romanos com um pequeno comentário exegético e alguma observação quanto à tradução que tem sido feita do mesmo. Refiro-me aos primeiros dois versículos do grande capítulo em que Paulo trata

precisamente da "nova vida" segundo as misericórdias de Deus : "Eu vos exorto, portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecer vosso ser (ta somata), como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: este é o vosso culto verdadeiro. E não vos esquematizeis a este século presente, mas que a renovação da vossa mente (metanoia) vos transforme e faça discernir (dokymassein) qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito" (Rm 12:1-2).

A misericórdia de Deus é o apoio em que Paulo está sempre alicerçando as

conjunções conclusivas que ele emprega com tanta freqüência. Em Romanos o contexto da conclusiva empregada no versículo acima mencionado (portanto) se constitui de onze capítulos em que o apóstolo trata dos atos praticados pela misericórdia de Deus subordinados ao verbo "libertar". Paulo indica a misericórdia de Deus como a causa da grande libertação que temos em Jesus Cristo: "libertação da ira", "libertação da lei", “libertação do pecado" e “libertação da morte" — a palavra libertação em Romanos é sinônimo perfeito de " justificação".

A misericórdia de Deus que "justifica" e a "mão de obra de Deus" que "cria a

Paz" (Romanos e Efésios) são a mesma realidade evangélica. Esta "obra perfeita" não torna o homem inativo ou anulado. Ao contrário, atua como poder permanente e exclusivo para possibilitar a "renovação" do homem. Recordemos uma vez mais que a ênfase da Epístola aos Efésios está sobre a obra de Deus em Cristo que cria uma nova ordem de vida.

Paulo está sempre insistindo, pela terminologia que emprega, numa nova ordem de vida cristã que consiste numa disponibilidade permanente, numa

abertura permanente ao inaudito, a algo novo, ao surpreendente e ao "crescimento em Cristo". Devemos ler no próprio texto o que isto significa realmente:

"

razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do

Senhor" (Ef 5:17); "

como servos de Cristo, fazendo de coração (mente), a vontade do Senhor" (Ef 6:6). Paulo está muito longe da posição simplista de submeter a "nova vida" a uma "lista" de regrinhas fixas para a conduta dos cristãos que contemplasse todas as eventualidades da vida em sociedade. Parece muito claro que Paulo não admite a possibilidade de se "tomar" a vontade de Deus nas mãos ou em certos postulados.

servindo à vista, como para agradar aos homens, mas

por esta

discernindo

sem cessar o que é agradável ao Senhor" (Ef 5:10); "

não

Paulo chama aos destinatários de sua Epístola com uma expressão muito rica de sentido: "filhos amados" (a expressão em grego "tekna" significa literalmente "herdeiros"; é a mesma expressão usada quando ele os chama de "filhos da luz" — "tekna fotos" — quer dizer "herdeiros cia luz"). Assim, como filhos amados" — andai em amor e "como filhos da luz" — andai na luz (Ef 5:1 e 8)! Há para esta nova possibilidade um "paradigma" e este não é o apóstolo, mas é o próprio Deus em Cristo: "Sede, portanto, imitadores de Deus, como "herdeiros do amor" e andai em amor como também Cristo vos amou e se entregou a si mesmo por nós". Além disso, devemos acrescentar que todas as metáforas de que o autor se serve na Epístola para comunicar a Natureza da Igreja são "símbolos" que indicam um aprendizado permanente, um "discipulado constante" em amor — amor cuja fonte é Cristo. O amor de Deus em Cristo é sempre o "paradigma" para a presença da

Igreja na sociedade.

Temos aí uma realidade permanente e invariável. Isto é, dinâmica, capaz de transcender todas as melhores formas de vida de determinada "época" como de

todas as "épocas" da história, e, exatamente, por tal razão, a fé cristã pode

expressar-se

concretamente

em

cada

nova

situação

pela relevância dêste

"paradigma".

1 - SOLIDARIEDADE: "JUSTIFICADOS" E "PECADORES"

Quando Paulo declara que Cristo destruiu a parede de separação entre os que estavam "longe" e os que estavam "perto" abolindo-a (Ef 2:14), e quando proclama que Cristo "está entronizado acima de todas as coisas", submetendo todas as potestades a si (Ef 1:20,23), claro que o apóstolo está bem consciente do que tal ordem de realidade implica. E, quando a Igreja "escuta" o Evangelho (Ef 1:13), ela deve compreender quais são as conseqüências desta relação:

1.a.) Não existe "muro" entre a Igreja e o Mundo: que não existe "muro"

entre o povo eleito e as demais nações é uma realidade clara que não pode ser esquecida. A "eleição" de um povo em Abraão foi revelada já com a finalidade

explícita: "

"muro" entre o povo eleito e as demais nações deve levar a Igreja a pensar seriamente em toda a problemática levantada pelos "nacionalismos" do mundo contemporâneo e o desafio que de fato representa ao testemunho, ao vigor do Evangelho da paz. Há seguramente em Efésios uma teologia de juízo definitivo sobre "ordens" de mentalidade e de estrutura em que se expressam os grandes conflitos entre os povos.

em

ti serão benditas todas as nações da terra" (Gn 12:). A remoção do

A Igreja é criada e destinada por Deus, segundo Efésios, a tornar visível audível, tangível, e a manifestar publicamente a vida, o amor, a justiça inquebrantável do Senhor ressurreto. Nenhuma apologia pode ser feita de um culto, de uma ordem litúrgica, em que a realidade da obra total de Deus em Cristo não é expressada conforme nós a encontramos nos termos bíblicos e, em especial, como encontramos em Efésios. Um culto em que Cristo, cabeça de toda a humanidade, a Igreja e o mundo não são tomados com a seriedade devida, simplesmente não tem nenhum sentido de culto cristão.

De outro lado, temos que re-examinar as “divisões”, os “muros” que causam, que perpetuam as estruturas tradicionais das nossas “denominações". As divisões causadas pelas "ordens" que se pretendem justificar com referências bíblicas isoladas! Os conceitos de autoridade eclesiástica dentro dos nossos sistemas tradicionais que fomentam toda uma mentalidade "clericalista" de profunda "separação". Não é sem razão histórica, muito deplorável, que estamos na época da "laicisação", da criação da "ordem leiga" em que a Igreja busca na época uma possibilidade de abertura mais ampla na direção do povo! Além da profunda tragédia das separações "internas", estas estruturas causam uma separação "artificial" entre a Igreja e o mundo o que dificulta ainda mais a fidelidade da Igreja

em cumprir o mandato e a vocação "com que foi chamada". Entre a "identificação de Cristo", "descendo até às partes mais baixas da terra", e os "pináculos" a que se alteiam orgulhosamente as estruturas denominacionais, há uma enorme diferença que deixa contra nós um saldo muito ridículo. É preciso fazer-se a distinção entre o "Evangelho" que é o próprio Cristo e as fantasias religiosas contemporâneas que insistem em afastar a pessoa do Redentor daquele povo que é o objeto da totalidade do Seu amor revelado na cruz!

A Igreja é o "Corpo de Cristo" (e "há um só corpo"!), e uma das grandes implicações desta realidade é o fato do condicionamento da Igreja "ser a Igreja" na medida de sua aptidão em traduzir concretamente o mesmo espírito de Jesus Cristo. A relevância da Igreja está na razão direta de sua "submissão a Cristo", de sua disposição em "aceitar" a decisão de Cristo de estar presente onde Ele mesmo decide estar da forma como Ele já decidiu e revelou em seu amor soberano (Fp 2:5-8 e Mt 25:34-40). A vocação da Igreja deriva da presença de Jesus Cristo e não resta para a Igreja maio "honra" que a de ocupar aquele mesmo lugar de "servo" que Cristo revelou e para o qual constitui a Igreja como "Seu Corpo". A descoberta da presença de Cristo no "preso", no "faminto", no "estrangeiro" é o inaudito do Evangelho da paz. Cristo já tomou uma decisão eterna à Igreja nos eventos do Evangelho em sua totalidade.

Temos que abrir aqui um pequeno parêntesis para mencionar um dos grandes problemas na questão da Igreja. Somos ainda vítimas de uma longa e desastrosa confusão histórica sobre a Natureza da Igreja. A noção de Igreja sofre de uma

verdadeira "infiltração" de platonismo filosófico. Trata-se do dualismo que concebeu

a Igreja como "visível e invisível", como "militans" (militante) ou como "triunphans"

(triunfante). Partindo de tais especulações as afirmações a respeito da Igreja ficam cada vez mais confusas. A maior responsabilidade nesta confusão cabe a Santo Agostinho por ter desenvolvido amplamente essa especulação platônica que cria o abismo entre "idéia" e "realidade". O protestantismo participa do mesmo irrealismo de Platão com sua distinção celebre entre "Ecclesia visibilis" e “Ecclesia invisibilis".

Precisamos retornar ao texto bíblico para redescobrir na sua terminologia toda

a significação que temos perdido sobre a Igreja. Restauraríamos toda a riqueza do

significado de certos termos e ficaríamos livres da sobrecarga de traições históricas que nos empobrecem mais e mais. Do termo "ekklesia" que nos dá a idéia de uma "assembléia popular"; do termo no Antigo Testamento — "gehalá" ou do "kenishtâ" que, segundo os estudiosos do texto hebraico é o empregado para traduzir tanto "ekklesia" como o termo “synagogê" — que nos dá a idéia de "chamado" de comunidade popular"; do termo empregado no Novo Testamento "laós" (povo) como Igreja de Deus; destas realidades da linguagem bíblica ao "eclesiasticismo" e ao "clericalismo" em que nos encontramos hoje há uma diferença que por si mesma se condena.

1.b.) "Em Cristo" — este é o "eixo" da ética do Evangelho. Devemos afirmar que não há possibilidade de se tratar nem da Igreja nem das relações com a sociedade sem tomar-se com seriedade este "eixo" — "em Cristo".

A Igreja necessita ser "revestida da armadura de Deus" a fim de ser "fortalecida no Senhor e na força do seu poder" (Ef 6:10-11), isto significa não somente uma relação de dependência permanente da Igreja ao Senhor, mas implica na profunda precariedade da mesma em sua presença num mundo de forças hostis. Realmente, Paulo fala de um "mundo" que é arena das "astutas ciladas do maligno" (Ef 6:11). A situação da Igreja jamais poderá ser em relação ao mundo uma situação de superioridade ou de um "status religioso" com vantagens sobre a vida no mundo.

Além de tudo, deve ser assinalado que, a Igreja, segundo a carta aos Efésios, está numa relação missionária com toda a humanidade. Esta relação deixa claro que a Igreja é uma realidade preliminarmente transitória; é uma instituição em serviço. Melhor dito, a Igreja não é uma "instituição" ela é "uma expedição". Contudo, ela é o primeiro fruto, o fruto que tipifica e exemplifica como sinal, a manifestação e o domínio total do "Reino" presente em Cristo Jesus. Ela é a única comunidade que vive na consciência de que está a serviço de Deus. A igreja vive a reconciliação com Deus e com os demais. Somente a Igreja conhece esta reconciliação e a proclama precisamente por "sua submissão a Jesus Cristo" (Ef 5:24). Ainda mais, sua submissão não é uma tarefa "privada,", mas é realmente um "serviço público".

Deus não esgotou sua atuação divina ao constituir a Igreja; Ele não

"transferiu" o poder e a missão. Paulo assevera com firmeza: "

desperta tu que dormes, levanta-te de entre os mortos e Cristo te iluminará" (Ef 5:14). Deus não se limita de maneira nenhuma a formas, mesmo que estas formas tenham sido dadas por Ele. Nós não podemos capturá-lo em nenhuma de "nossas" formas e em nenhuma das "suas formas." A Igreja é o corpo de Cristo enquanto permanece "em crescimento" (Ef 2:21; Ef 4:15) na direção da "Cabeça"!

que diz:

pelo

No Antigo Testamento temos um texto que resume esta realidade que Paulo

está proclamando aos Efésios na equação "Deus = Igreja-Mundo". Diz esse texto:

"Eu o Senhor te chamei em justiça, tomar-te-ei pela mão, e te guardarei, e te farei mediador da aliança com o povo, e luz para os gentios" (Isaías 42:6). Em Efésios

esta missão do Servo do Senhor é expressa nas palavras: "

no Senhor; andai como filhos da luz" (Ef 5:8). A presença da Igreja no mundo, como resultado da Obra de Deus, "filhos da luz" (= gerados da luz) implica na permanente disposição da Igreja de não ser de si mesma, mas ser para o serviço de Deus no mundo.

porém, agora sois luz

Temos agora que enfrentar uma pergunta capital: como é que a Igreja "levanta", "anda" e "serve"?

A única possibilidade do "serviço" ser fiel e honesto, isto é, correspondente ou "coerente" ao ser da Igreja, à natureza da Igreja como "obra de Deus" é através da humildade permanente. O "andar" deve ser dirigido à meta exata, ao objetivo inequívoco. O "permanecer", ou melhor, o "ficar em pé" pressupõe a base firme e a decisão de "agüentar" de "resistir".

Paulo em sua epístola aos cristãos na Ásia Menor permanece ao lado dos que não podem acreditar que uma "igreja-muro" (fechada em si mesma) seja verdadeira ou que possa ser a manifestação da obra redentora em Cristo que destrói a

"inimizade", todas as formas de "servidão" e a morte! A "igreja-muro" é um ídolo que se adora a si mesmo e que se serve a si mesmo e não a Cristo. Ela está presente no mundo da maneira mais negativa que se possa conceber, servindo como muralha intransponível de separação entre Cristo e os que necessitam de Cristo. É impossível que nesta altura não vos venha à lembrança a cena do Evangelho relatada em Marcos 2:1-12! Quando um paralítico foi impedido de chegar a Jesus por "causa da multidão". Tornou-se, então, necessário que seus amigos introduzissem pela "porta do telhado"! Este incidente encorajador revela primeiramente que Cristo veio realmente para "perdoar" e "restaurar" os que por

Mas, ele desmascara

conveniência percam a esperança ficando do lado de fora

também a devastadora função que a formação de um muro em torno da Igreja pode assumir.

O grave do problema é que a "muralha" em torno da Igreja será mais do que

um obstáculo para os que "necessitam" de Cristo (os de "longe", os de “fora”!), mas será um obstáculo para "ambos" tanto para a Igreja quanto para os demais, pois Cristo não só não faz acepção de pessoas como também destruiu todas as

porque por Ele (Cristo),

temos juntos acesso ao Pai em um mesmo Espírito " (Ef 2:18). O Evangelho da Paz pregado na epístola aos Efésios é uma "espada de dois gumes". Ele declara em sua plena essência: "Cristo é nossa paz" (Ef 2:14). E este gume corta toda a pretensão de privatividade, exclusividade e auto-promoção a que os cristãos são tentados em relação aos demais. Em conclusão, não há, de acordo com o Evangelho da Paz, nenhum "muro de separação" entre a Igreja e o Mundo!

divisões. O texto em Efésios é suficientemente claro: "

Entretanto, aqui pode surgir uma pergunta, à primeira vista, muito importante:

"e que é que se pode dizer a respeito da grande e 'elevada montanha' de onde foi

avistada a 'cidade que descia do céu', a cidade santa"? (cf. Ap 21:10). Se lemos o texto em sua totalidade vamos perceber que realmente foi revelado a João, o vidente de Patmos, não uma 'imagem da Igreja' e sim a eterna e final presença de

Deus entre os homens: "

com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com Eles" (Ap 21:3) . Não há menção de templo nesta "cidade", pelo contrário, há a afirmação clara do "santuário de Deus". "Nela não vi templo, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso e o Cordeiro" (Ap 21:22). Entretanto, há menção de que "alguns" ficarão do lado de fora! E então? "Nela jamais entrará cousa alguma "

e "Fora ficam os cães, os

feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica

a mentira" (Ap 21:27; Ap 22:15). Mesmo com tudo isto, nós não podemos transformar "esta cidade" num símbolo do nosso "templo” e da "Igreja" ou num mero paradigma dos "muros" e das montanhas que os próprios homens têm construído em nome de Cristo. Não temos nenhuma autoridade e nenhuma possibilidade em identificar "aquela cidade" que "desce do Céu", "preparada por Deus mesmo" e em que "Ele mesmo habitará com as nações", com as nossas igrejas ou as nossas denominações.

contaminada, nem o que pratica abominação e mentira

eis a habitação de Deus com os homens. Deus habitará

Quando numa outra "visão" João vê Satanás junto com Gogue e Magogue e as suas hostes, lutando contra o "acampamento dos santos" e a "cidade amada", nenhuma "muralha" é mencionada. Este "acampamento dos santos" é, provavelmente, a comunidade dos que foram ressuscitados e entronizados juntos

com Cristo (Ap 20:4 e Ef 2:5) — é a Igreja. De conformidade com esta visão Deus é quem defende o "acampamento" de seus inimigos, não com "muros de separação",

mas sim com "fogo que desce do céu

" (Ap 20:9).

O que queremos assinalar com tudo isso é simplesmente o fato de que em Efésios a verdadeira "distinção" entre os do lado de “fora" e os santos que "estão em Cristo" tem um sentido muito mais sério para a Igreja do que podemos imaginar. Façamos, por exemplo, a leitura bíblica em textos como 1Ts 4:12; 1Co 5:12; Cl 4:5; 1Pd 2:12 - em que a relação entre a Igreja e os "do lado de fora" é sublinhada de maneira direta.

Que há uma enorme diferença entre os cristãos e os que ainda não participam da nova vida em Cristo é óbvio em todo o Novo Testamento. O que devemos compreender, todavia, como de fato Efésios nos ensina suficientemente, é que tal diferença não nos dá uma situação nem de superioridade nem de privilégio. Esta

diferença, determinada exclusivamente pela obra da graça de Deus, que nos tornou "filhos da luz" e que dá a Natureza da Igreja. O "ser" da Igreja (natureza) é o "fazer" da Igreja. Enquanto nós insistirmos em isolar ou em inverter esta equação, não seremos Igreja, seremos mero ativismo farisaico. Pois, é somente a partir da Natureza da Igreja, dada nos atos da "longanimidade e misericórdia", na "multiforme sabedoria de Deus, no "Evangelho da Paz", é que se instrui, que toma sentido a Missão da Igreja. Devemos então concluir simplesmente dizendo que a Natureza da Igreja é uma natureza missionária. Tudo quanto Deus lhe deu ou lhe confiou não é para si mesma, mas para todos os demais. A Igreja está apoiada no "fundamento dos apóstolos e dos profetas" e deles "Jesus Cristo é a pedra principal" (Ef 2:20); não podemos esquecer que "apóstolos", "profetas", "Jesus Cristo" — são outros tantos nomes para o grande nome, para a grande palavra de nossa fé: "Graça"; nós os temos porque Deus no-los enviou, são dádivas da misericórdia para com o mundo que "Deus amou de tal maneira que deu seu filho

unigênito

" (João 3:16). O fundamento da Igreja mencionado no Novo Testamento

(apóstolos e profetas) é "fundamento em Cristo", eles permanecem enquanto servem à natureza missionária da Igreja (Ef 4:7-12)!

Jesus Cristo realizou a salvação havendo "descido até às partes mais baixas

da terra" (Ef 4:9). Somente quando nós aceitamos o "lugar" que Ele comparte

somente

temos "em Cristo" e "juntos" (Judeus e Gentios) e "em um mesmo Espírito" que é

dádiva Sua (Ef 2:18; Ef 3:12; Ef 4:7). Não há possibilidade da Igreja "andar fielmente conforme seu chamado" (sua natureza) permanecendo em si mesma e para si mesma — o lugar e a forma da presença da Igreja já estão determinados pela Natureza da Igreja — "em Cristo".

conosco é que podemos nos chamar de cristãos. "Acesso ao Pai" nós

Em todas as esferas e em todos os níveis da vida da sociedade, desde a

insuportável miséria da fome e da nudez, da exploração e do aviltamento da personalidade até aos grandes "centros" de decisão humana ao nível político, econômico e social onde se jogam com os supremos valores éticos, nenhum cristão é capaz de carregar o pecado do mundo. Cristo é o suficientemente capaz (João 1:29,36). Mas, o cristão é um atestado da obra de Cristo na medida em que expressa "solidariedade" em atos de ajuda, de compreensão de simpatia fraternas.

Nenhum cristão tem a chave da solução dos grandes e complexos problemas da política e da economia, da ciência e da cultura, da sociedade e da mente humana. Mas o cristão participa totalmente e comunitariamente em todas as frentes de batalha, correndo os riscos de erro, com o esforço humano em todos os campos. Solidariedade e comunhão com o que estão "longe" e com os que estão "perto" são sinais da santa Igreja e dos santos que não se "envergonham" do Evangelho da paz, mas que vivem no mundo "de modo digno da vocação com que foram chamados (Ef 4:1). É a medida da humildade da Igreja que lhe dará esta dimensão da relevância no mundo. Paulo torna explícito imediatamente o sentido primeiro deste "andar de modo digno" quando afirma: "com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor" (Ef 4:2). Com toda certeza "em amor" não significa menos do que "em Cristo".

Podemos agora tirar algumas conclusões sobre o sentido desta solidariedade entre a "Igreja" e o "mundo" para empregar ainda uma terminologia tradicional embora esvaziada de significação.

1.c.) Solidariedade entre a Igreja e o Mundo exclui qualquer pretensão de que a Igreja seja melhor do que o mundo. Tal afirmativa nos desafia a uma revisão mental muito profunda e completa sobre o que temos aprendido e pensado e até "dogmatizado" a respeito do mundo. Afinal de contas já é tempo de enfrentarmos com toda a honestidade cristã o problema do "mundo" dentro do nosso próprio coração, da nossa mente, das nossas categorias de pensamento, de nossos critérios de valor e até de nossas formas de "igreja". De outro lado, está claro que há formas de vida, ordens de relações que constituem, segundo Efésios um mundo (aeon) que Cristo destruiu, inaugurando, revelando uma nova ordem de

relações. Daí o fato significativo de Paulo exortar aos cristãos em Éfeso que "não

andem mais segundo aquele aeon",

éreis trevas, mas agora sois luz no

Senhor; andai como filhos da luz" (Ef 5:7-8). Trata-se do que Eles eram e não do mundo.

pois

Por outro lado, Paulo os exorta não porque alimentasse algumas suspeitas ou tivesse alguns pensamentos maliciosos quanto a eles, e sim porque o "mundo" em cada uma de suas formas e de suas forças era para eles uma constante e forte tentação.

Não Somente os "gentios", mas os "cristãos" são admoestados a não "andarem mais como meninos agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo o vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro" (Ef 4:14); "não andeis como também andam os gentios na vaidade dos seus próprios pensamentos (mentalidade)" (Ef 4:17); "não mais

segundo as concupiscências do engano da caricatura do homem antigo" (Ef 4:22) e "não furteis mais, mas trabalheis" (Ef 4:28). Paulo recorda que tais cousas trazem a "ira de Deus sobre os filhos da desobediência" (Ef 5:6), contrastando então o "fruto da luz com as obras das trevas" (Ef 5:1-15) . De toda maneira está claro que aquilo que precisa ser dito a respeito do mundo também é dito a respeito dos santos. E aquilo que é concernente aos santos é também concernente aos que ainda estão "fora". O apelo: "de maneira digna fostes chamados" (Ef 4:1), é um chamado para "arrependimento", para "conversão", para "esperança", para "nova vida" estendida aos que ainda não a têm. Se existe uma diferença entre os que estão "perto" e os que estão "longe" em relação à vida e às tentações e ao pecado, a única diferença é esta: os gentios ainda andam sem o conhecimento da salvação (e as conseqüências desta "ignorância"), enquanto os cristãos conhecem a graça que se revelou em Cristo e conhecem os seus pecados. Confessam e vivem de arrependimento (Ef 1:7) como escolhidos representantes do novo mundo no mundo. Assim, é o perdão dos pecados a sólida base para a solidariedade entre crentes e não crentes.

1.d.) A solidariedade entre a Igreja e o mundo não depende da amizade nem ao menos de uma atitude de tolerância dos incrédulos para com os crentes. Solidariedade, criada pelo Evangelho da paz, é incondicional. Pode haver épocas em que o estado e a sociedade reconheçam a utilidade e a liberdade da Igreja e, quando, como no caso da América, sejam favoráveis e até encorajem o funcionamento do "serviço da Igreja". Contudo, devemos assinalar hoje mais do que nunca que a Igreja não depende de nada disso para sua fidelidade à sua Natureza e à sua Missão!

Isto significa num sentido bem profundo que a Igreja não pode estar apoiada senão em Deus; não há nenhuma ilusão para a Igreja com relação às forças que constituem o mundo e que nele atuam permanentemente. Paulo adverte esta realidade na epístola aos Efésios quando trata da necessidade do permanente "revestimento" da Igreja e sua "adestração" para usar a "armadura de Deus", afim de resistir "no dia mau", "ficar firme", "contra as astutas ciladas do diabo" (Ef 6:10-20. Concede inclusive seu "testemunho" como "embaixador até em cadeias" (Ef 6:20). Esta solidariedade com o mundo no sentido "incondicional" significa precisamente a independência em que a Igreja precisa viver em relação às respostas do mundo à Verdade.

Aqui está precisamente uma das dimensões da "glória" da Igreja: sua participação no ministério de Cristo que, segundo o relato evangélico "padeceu" e não foi recebido "pelos seus, tendo vindo para o que era seu" (João 1:11). Ou numa expressão ainda mais decisiva: "no mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16:33). A perseguição que Igreja deve sofrer no mundo faz parte tanto da natureza do mundo quanto da natureza da própria Igreja. A dimensão de sua solidariedade é determinada não pela aceitação por parte do mundo, mas pelo caráter do amor que a Igreja deve manifestar em Cristo — ela deve viver dentro da multiforme sabedoria de Deus e da suprema riqueza de sua insondável misericórdia, do seu amor que "ultrapassa todo o entendimento".

A solidariedade da Igreja é posta à prova precisamente quando maiores são

os obstáculos que são colocados na sua jornada. Paulo encarece a indispensável realidade da "armadura total de Deus" (Ef 4:11) e acrescenta especificadamente:

"cingindo-vos com a verdade, vestindo-vos com a couraça da justiça; calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com

o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno" (Ef 6:14-16). Isto

significa que não há uma segurança terrena para a Igreja. Ela deverá viver mesmo

pela fé apoiando-se nos atos de Deus e não na aceitação do mundo.

2. DIMENSÕES DA ÉTICA DO “EVANGELHO DA PAZ”

O eixo "em Cristo" que nos é dado na epístola não nos permite escapar à

tentativa de conceituar a Ética do Evangelho em dois sentidos fundamentais:

- Sentido Comunitário em oposição à mentalidade do individualismo religioso;

- Sentido Diaconal (que deriva do verbo grego "diakoneo", que significa o

servidor da cidade), em oposição à mentalidade do egoísmo religioso que visa sempre "a minha salvação", "o meu lugar no céu".

Toda a realidade ética na epístola aos Efésios está submetida a uma

expressão mui freqüente em todas as cartas do apóstolo Paulo — "em Cristo". É exatamente esta a realidade que assinala a diferença entre o "antes" e o "agora não mais" em toda a situação dos Judeus e dos Gentios. Esta oposição entre o que eram "sem Cristo" (Ef 2:12) no mundo e o que "agora não são mais" é marcada pela totalidade e gratuidade da obra de Deus "em Cristo" (Ef 2:13; Ef 2:8). De maneira que não há nenhuma possibilidade de se tratar de "ética" senão a partir da Cristologia que encontramos como a essência mesma do "Novo Testamento", não

é apenas um "testamento", mas é um "novo" testamento — é Testamento "em Cristo".

É muito importante que assinalemos que há na estrutura das epístolas

paulinas (como no Evangelho mesmo) uma ordem inalterável. Tomemos, por

exemplo, a epístola aos Romanos. Nela temos os primeiros 11 capítulos que tratam

dos grandes atos de Deus (" "universalidade do pecado" (“

nós alguma vantagem? Não, de forma

nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão abaixo do pecado; como está escrito: não há justo, nem sequer um, não há quem "

entenda

ato da graça de Deus (Romanos 4).

- Rm 3:9-12). Então, o "inaudito" do evangelho: "Justificação" como um

o

Evangelho é o poder de Deus" - Rm 1:16),

temos

Seguem-se daí os grandes atos de Deus nesta "justiça imputada pela fé" como foi tratada pelos reformadores no século XVI:

- "Libertação da ira de Deus", onde temos então, "paz com Deus", somos

"reconciliados com Deus" (cap. 5); e,

- "Libertação do pecado", onde temos como resultado a amplitude da nova

vida em Deus (cap. 6:1-14);

- "Libertação da Lei", temos então como resultado a nova situação de "servos

da justiça" e não "escravos de legalismo" (cap. 6:15-18, sendo, então, "Libertados

da morte" para vivermos a Vida Eterna.

Qual o penhor de tudo isto? Paulo responde em Romanos da mesma maneira como responde em Efésios: "o Espírito"! Leia-se o capítulo 8 da carta aos Romanos. Então, agora "porque não recebestes o espírito de escravidão para

viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o Espírito de adoção, baseados no qual clamamos: “Abba, Pai”. O próprio Espírito testifica ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e "

co-herdeiros com Cristo

(Rm 8:15-17). Então, seguem-se mais três capítulos que

tratam da "justiça soberana" de Deus e a "situação" de Israel com os "demais" gentios. Somente então, isto é, após onze capítulos que tratam da ação de Deus é que Paulo vai tratar da "ética". Claro é que há uma ordem de termos que não se pode alterar.

O mesmo se dá nos relatos do Evangelho. Podemos notar esta ordem não no

seu sentido literário ou estrutural, mas no seu sentido exegético quando lemos em Marcos: "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido e o Reino de Deus está próximo" (Mc 1:14-15), somente após é que se anuncia: "arrependei-vos e crede no Evangelho".

É exatamente porque há um "Evangelho" que é possível o arrependimento.

A expressão "em Cristo" utilizada por Paulo em suas epístolas e,

especificamente agora no caso de Efésios, significa a amplitude na qual os cristãos podem viver; amplitude que está sempre em oposição à estreita rigidez de todas as formulas e ordenanças legalistas. É mais do que evidente que Cristo na epístola aos Efésios não é um "doador de leis", mas é o autor da Paz, pois, o texto afirma

com toda a clareza: "

longe, e Paz também aos que estavam perto" (Ef 2:17).

e,

vindo, Ele evangelizou a Paz a vós outros que estáveis

Devemos ainda sublinhar que a expressão "em Cristo" trata, em Efésios, diretamente do Cristo que triunfou sobre a morte pela ressurreição. Esta realidade

fere o problema da liberdade, pois a ressurreição é a grande libertação da morte e a inauguração de um novo "Reino", de um novo "século" (aeon) que é o "Reino da vida". Os cristãos são tratados na epístola dentro desta nova ordem de realidades criadas, resultantes da ressurreição do Senhor. É impressionante que a questão da liberdade do homem não seja tratada em Efésios. Realmente não faz nenhum sentido tratar-se da libertação "daqueles que estão mortos em seus delitos e pecados" (Ef 2:1). Paulo torna muito claro que nem a "mente", nem a "vontade" e nem as "funções do corpo" do homem, nada está isento do pecado; a totalidade do homem em suas relações é pecado (Ef 2:3-5)! A ressurreição cria um "novo homem": aquilo que era morte agora é vida e aquilo que era escravidão agora é "

(Ef 2:1). "Quando Ele subiu ao

liberdade. Ele vos deu vida, estando vós mortos

alto, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens" (Ef 4:8).

Então, "sede, pois, imitadores de Deus, como filhos (herdeiros) amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por

vós

que fomos amados. Enquanto temos presente esta realidade, a generosa compaixão de Deus para conosco não temos nenhuma possibilidade de sermos irreconciliáveis e intolerantes e arrogantes ou orgulhosos com o nosso próximo. Não há outro caminho em que devemos e podemos andar senão aquele caminho já

indicado "em Cristo" — "andai em amor" (Ef 5:2). Aliás, convém recordar que Cristo estabeleceu um critério para se decidir quanto a realidade de sermos ou não seus discípulos. Ele afirmou categoricamente: "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns para com os outros" (João 13:35). Esta é a credencial. Se Cristo mesmo já tomou esta decisão não estaremos em oposição a Ele quando estabelecemos outras "credenciais" que nos identifiquem como cristãos? Nossas formas de ritual, de doutrinas? Não estará tudo questionado pela irremovível verdade que esta simples expressão "em Cristo" traduz para todos e

para sempre? "Todos conhecerão que sois meus discípulos

o sentido de

universalidade ou totalidade que aí é dado não nos poderá abrir novos horizontes quanto ao testemunho da Igreja?

"

(Ef 5:1-2). Paulo está sempre apontando para a generosidade do amor com

",

Se fosse possível a compilação de um catálogo ou de uma "lista" que relacionasse todas as expressões adjetivas da vida cristã segundo o Novo Testamento não há nenhuma dúvida que todas seriam encabeçadas pelo grande mandamento do amor. Ele é o eixo em torno do qual se move a ação de Deus e outro não poderá ser o eixo em que se há de mover a ação da Igreja, a menos que ela deixe de ser a Igreja e deixe de "andar de maneira digna da vocação a que foi chamada" (Ef 4:1 e Ef 5:2).

Sem dúvida nenhuma muito dos obstáculos para o relacionamento vital e decisivo da Igreja com a sociedade está já localizado na "fraqueza" ou na

"ausência” deste amor por parte da Igreja. Isto é, a Igreja estaria se recusando em ser fiel a Cristo não amando a todos como Cristo amou e se entregou a si mesmo por todos! Na epístola aos Efésios, como em todas as demais cartas neo-testamentárias, há todo um vocabulário que assinala esta dimensão de relacionamento em amor com uma insistência que não justifica nossa indiferença. "Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque

somos membros uns dos outros

vossa boca nenhuma palavra torpe, e, sim, unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e assim transmita graça aos que ouvem longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia. Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros como também Deus em Cristo vos perdoou" (Ef 4:25-32). Aí segue-se o grande texto de que estamos tratando nesta porção do estudo: "Sede, pois, imitadores de Deus, como herdeiros amados" (Ef 5:1). Esta exortação que parece, à primeira vista, uma enorme pretensão humana, deve ser entendida à luz do sentido indicado nas palavras precedentes e às quais se refere a conclusiva "pois" ou "portanto". Somente o perdão de Deus em Cristo, revelação do amor, o Evangelho da paz, é que permite esta imitação que consiste em tomar tal amor perdoador como modelo e como oportunidade aberta e não como uma obrigação humana. “Imitação de Deus" e "andar em amor" ou "em Cristo" ou "andar de maneira digna da vocação" são expressões absolutamente idênticas na

não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não saia da

epístola.

Imaginemos por um momento a audácia do homem tentar "imitar a Deus"! Não é de maneira alguma a intenção e o pensamento de Paulo colocar-nos no mesmo nível de Deus, o nível da igualdade com Deus! Pois, a pretensão de "ser igual a Deus" é a pretensão básica do pecado (Gn 3:5)! Paulo mesmo em sua epístola aos Romanos ao tratar da "idolatria e depravação humana" nos diz exatamente isto, quando declara : "inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem "

corruptível

(Rm 1:22,23).

Na epístola aos Efésios o tema é tratado muito claramente:

a) "Sede imitadores de Deus"! - Como? "Como herdeiros amados"! Não somos colocados de maneira alguma numa posição de "relação de igualdade", mas sim numa relação de "filiação em amor". A "semelhança" com Deus está aqui numa oposição frontal e completa à pretensão de querer ser igual a Deus ou a tomar o lugar de Deus; a oposição reside no adjetivo dessa semelhança que é dado também em todo o contexto da epístola: "glorificar a Deus". Isto é algo mais do que simplesmente ser leal à verdade, envolve minha decisão de que Deus faça a sua vontade e envolve a mais profunda gratidão e humildade para com "aquele que me amou e se entregou a si mesmo por mim".

Por outro lado, não podemos esquecer o plural, a dimensão de comunidade, de vida cristã vivida em Cristo que é dada na epístola toda. A ética decorrente do "evangelho" se opõe de forma radical à mentalidade moralista e legalista de todos os sistemas religiosos que formulam programas para o "indivíduo chegar ao céu" ou para o "indivíduo se santificar". O Novo Testamento desconhece este tipo de santificação. Aliás, ela se assemelha exatamente à mentalidade "farisaica" condenada por Cristo tão severamente. Pois, é aquele tipo de religiosidade para "mim mesmo" e que nada tem de cristã! A ética do evangelho é ética em Cristo, isto é, comunitária e para serviço, para a vocação da Igreja em favor dos outros. Tal realidade transforma de maneira radical as relações do homem com Deus e com o seu irmão, com o seu próximo. É exatamente o que Cristo faz. Cria um "novo homem" que não vive mais para si mesmo, mas que passa a viver para os outros em Cristo, em amor. Este é o fundamento em que se assentam todas as declarações de conotação "moral" da epístola. A nova vida em Cristo é uma vida libertada para ser dos demais, para dar-se a si mesma em resgate dos outros. Paulo está seguro que nada senão o amor de Deus revelado em Cristo é a garantia, a fonte de toda a motivação, e o critério da existência da Igreja no mundo. No momento em que a Igreja olvida estas duas dimensões da ética decorrente dos grandes atos de Deus perde sua razão de ser, pois nada foi dado a Igreja para si mesma senão para que seja "manifesto aos demais"!

Está, pois, aí, em resumo, segundo o que se pode extrair da epístola aos Efésios, uma base de capital valor para repensarmos sobre o condicionamento da "conduta cristã" a certas formas e normas rígidas e individualistas estabelecidas pelas denominações. Parece claro que o amor de Deus em Cristo criador da

Natureza e da Missão da Igreja no mundo está sempre questionando as formas de vida e de presença da Igreja em relação ao mundo. Efésios comemora uma nova ordem de relações, uma nova vida que foi criada pela poderosa ressurreição de Cristo e que está para ser compartida com toda a humanidade. Assim o fundamento ético é o fundamento dado na natureza missionária ou apostólica da Igreja. Sua suprema expressão é a dinâmica do amor. A função capital e unificadora de todos os ministérios concedidos à Igreja em Cristo é a "construção do corpo em amor" (Ef

4:15).

b) "Em Cristo" ou "no Senhor" — está a grande liberdade responsável com que Deus nos libertou para não transformarmos o nosso próximo num "objeto" ou numa "coisa". Esta nova ordem de relações em Cristo é profunda e cotidianamente real nas esferas da vida humana de maneira completa e permanente. O mesmo

amor com que "fomos amados em Cristo" exemplifica e possibilita as relações entre

o esposo e a esposa (Ef 5:22-30); entre os pais e os filhos (Ef 6:1-4); entre

empregados e patrões (Ef 6:5-9)! É uma relação que deve repercutir na vida em suas diferentes esferas sociais.

Finalmente, mais uma palavra sobre o sentido apostólico ou missionário da ética. Aqui vamos tratar um pouco do tema da "evangelização" ou vamos nos aproximar do tema da "grande comissão" (Mt 28:18-20) ou do tema do sentido do "testemunho" (Atos 1:8), em que se pode ter uma visão da amplitude mundial e toda inclusiva da missão da Igreja em Cristo o "autor da paz".

Parece claro que Efésios impõe algumas conclusões sobre este tema e que elas podem ser meditadas na forma de algumas declarações básicas para efeitos de reflexão comunitária ou em grupos de estudo.

c) Deus é o "seu próprio" evangelista, e constitui uma honra para a Igreja ser usada neste "serviço". A evangelização envolve exatamente tudo o

que o evangelho significa — a "obra perfeita de Deus", "sua multiforme sabedoria", "as riquezas incompreensíveis da sua graça", a "plenitude do seu amor". Unicamente Deus pode revelar-se a si mesmo através da obra que realizou em Cristo. Cristo é o perfeito evangelista. Ele veio e evangelizou a paz aos que estavam longe e aos que estavam perto". Já assinalamos que se trata fundamentalmente não de palavras mas de "palavra-atos” em uma crucificação! Cristo "evangeliza a Paz" fazendo a Paz por meio de sua morte na cruz. De conformidade com Hebreus 2:3, "o Senhor é quem anuncia pela primeira vez a salvação” e em Hb 12:24 “o sangue de Jesus" fala acima de qualquer outra pessoa.

O Cristo crucificado é o "Evangelista". Ele é o "Apóstolo".

Mas, de acordo com Efésios há outros evangelistas e apóstolos, profetas, pastores e mestres! Sob o Cristo crucificado e ressuscitado permanece a tarefa do apostolado da Igreja no mundo. Aqui necessitamos penetrar, ainda que não muito profunda ou extensamente, no estudo dos "ministérios a partir do ministério de Cristo". É imprescindível que o façamos não somente porque a epístola trata de maneira especifica o tema, mas porque é impossível tratar da Natureza e da Missão da Igreja no mundo sem uma séria reflexão sobre os "ministérios" da mesma.

Atualmente quando se discute especialmente o tema há grandes perigos de nossa mente se afastar do relevante significado bíblico que ai está implicado.

Antes de assinalarmos qualquer coisa sobre os "ministérios" devemos ter em mente o contexto em que Paulo trata o tema nesta epístola: "Há Somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos" (Ef 4:4-6) : "e a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo" (Ef 4:7)!

d) A Igreja não tem outro propósito senão o de viver publicamente para a "glória de Deus". Sobre este tema muito tem sido discutido nos últimos dias. De um lado, há os que afirmam ser dupla a tarefa da Igreja: "culto" e "missão". De outro lado, há os que afirmam, baseados em textos como Atos 2:42-47, que há pelo menos três propósitos definidos para a Igreja: "adoração", "comunhão" e "serviço", sendo tudo mais decorrente e inter-relacionado a estes três.

Não há dúvida que todos estes termos são termos bíblicos. Contudo, devemos assinalar que eles são indicados por quatro termos equivalentes em grego: "eucharistia", "diakonia", "kerygma" e "koinonia" que correspondem em nosso idioma respectivamente "ação de graças", "serviço", "mensagem" (pregação, anúncio) e "comunhão". Claro que nenhuma destas palavras está com seu sentido expresso nas traduções. Cada uma delas valeria todo um profundo estudo bíblico que muito edificaria a mente da Igreja. Ademais, devemos observar que outros livros do Novo Testamento (Filipenses, 2 Coríntios, 1 Pedro, por exemplo) tratam mais específica e exaustivamente daquilo que podemos chamar de "fundamentos da missão" da Igreja que estas palavras simplesmente assinalam.

O testemunho que Paulo dá em Efésios da vida da Igreja é rico, amplo e profundo. Ele trata da "multiforme sabedoria de Deus" que deve ser manifesta por intermédio da Igreja: (3.10). Mas com incomparável clareza e vigor Ele também mostra que a Igreja foi criada e congregada, comissionada, sustentada e equipada para o grande propósito de "glorificar a Deus" (Ef 1:12; Ef 1:6,14) isto é, para louvor da glória de Deus que significa uma vida de "ação de graças" pelos dons recebidos em Cristo (Ef 5:20).

Não pode haver sombra de dúvida de que na epístola aos Efésios toda a missão da Igreja é "resposta" à ação de Deus — assim, louvor e ação de graças, glorificação e adoração se expressam na amplitude da "multiforme sabedoria" de Deus que criou a grande liberdade para uma nova vida de relações em amor. É gratidão dinâmica criada pela natureza das obras de Deus na sujeição de "todas as cousas" à unidade em Cristo e gratidão por "todos os homens" em favor dos quais foi "destruída a parede de separação" (Ef 1:10,22; Ef 2:13-14). Tudo isto torna claro que a Igreja em todos os seus atos está orientada basicamente na direção de duas frentes — Deus e o inundo. Esta realidade nos lembra que não pode haver uma comunhão "privativa" da Igreja com Deus ficando o mundo do lado de fora! Se observamos bem os relatos que tratam da "Ceia do Senhor" veremos que se constituem muito mais numa "festa de amor" (ágape) do que numa cerimônia

ritualista ou numa "comunhão fechada" (Atos 2:42; 6:1; Lc 22:12. Atos 12:12; 2Pe 2:13)! Este é o momento de nos perguntarmos até onde as Escrituras nos apóiam na celebração de "atos" de relação "particular" entre nós mesmos como Igreja e Deus? O que é que a Igreja pode e deve fazer para si mesma, como algo "incomunicável", "misterioso" e que os demais devam ser excluídos? Há "elementos" exclusivos dos crentes?

Parece evidente que não somente os "sacramentos", mas também toda a pregação, a oração, o ensino, a fraternidade, a adoração que estão "integradas" nos sacramentos, deveriam ser mediadores de uma exclusiva inter-comunhão entre Deus e os "seus"! Ora, tal forma de relação com Deus implicaria necessariamente na exclusão dos demais ou na ex-comunhão dos "de fora"!

Contudo, Paulo indica na sua 1ª epístola aos Coríntios duas realidades que

questionam este "exclusivismo" sacramental: "

disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, proclamais a morte do Senhor, até que Ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e desse modo coma do pão e beba do cálice; pois quem come, e bebe, sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe juízo para si" (1Co 11:24-29).

dado graças, o partiu e

tendo

Está claro no texto de Paulo que o ato da ceia do Senhor em que há os "símbolos" do "corpo" e do "sangue" do Senhor, a Igreja é colocada com o mundo perante a grande realidade daquele "ato de entrega de si mesmo" em favor dos pecadores todos que Cristo praticou. Paulo afirma com enorme clareza que o sangue é "a nova aliança", é o "novo Testamento"! A quem pertence este "novo Testamento" que neste texto não é um livro de bolso? Então, Paulo afirma que a ceia do Senhor e a participação nela é um "ato de proclamação da morte do Senhor"! A quem se destina esta proclamação? Quem foi que Deus amou "de tal maneira que deu seu Filho unigênito"?

Além disso, Paulo trata da "maneira" de se participar na ceia do Senhor que é, sem dúvida, um ato comunitário e nunca individual, tornando claro em que consiste a "participação indigna": não discernir o corpo do Senhor! Temos que perguntar pela "significação" do corpo de Cristo a fim de podermos realmente participar "juntos" dos benefícios que dele emanam.

O vocabulário, a estrutura, o conteúdo de Efésios estão impregnados de referências à oração, à Igreja, e à maneira do cristão conduzir-se no mundo. Claro que devemos esperar desta epístola noções muito mais ricas e precisas sobre as relações entre o serviço da Igreja a Deus e o seu serviço no mundo do que de qualquer outro livro do Novo Testamento. Por esta razão devemos perguntar se o apóstolo, na epístola em que trata mais intensivamente da Igreja, estaria encorajando e formulando uma conceituação "sacramental da Igreja".

Efésios usa escassamente como os demais livros do Novo Testamento o termo que poderia ser equivalente para o conceito de sacramento usado na patrística e na escolástica. Dos dois sacramentos (Batismo e Ceia do Senhor) que são celebrados em todas as comunidades cristãs, somente o Batismo é mencionado em Efésios. O nome "eucaristia" é fundado em Ef 5:4 (correspondendo ao verbo usado em Ef 1:16; Ef 5:20); mas todo o contexto mostra que ele significa "ação de graças" em cada uma de suas formas possíveis e não na celebração de um determinado ato ritual. A menção que é feita ao Batismo está numa relação que não podemos menosprezar: "Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4:5).

3. O MINISTÉRIO DA IGREJA Parece ser exatamente este o momento para tratar do "ministério" da Igreja, pois Paulo nos conduz nesta direção no capítulo 4 de Efésios. Ele inicia o texto em

que vai tratar do "ministério" precisamente com estas palavras: "Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados" (Ef 4:1), seguindo-se, então, o que ele entende por "modo digno com as seguintes palavras: "com toda a humildade e mansidão, com toda a longanimidade, "

suportando-vos uns aos outros em amor

(Ef 4.2), segue-se, então o grande tema

da UNIDADE (Ef 4:3-6) e, como decorrência natural o grande tema do "MINISTÉRIO".

JESUS CRISTO é o protótipo de todo o Ministério da Igreja. Tratar do ministério é tratar de Jesus Cristo. Sua "Pessoa-Missão" é a fonte primária e o paradigma por excelência de onde podemos exaurir o sentido total do ministério da Igreja e a noção básica de que a Igreja é Missão. O batismo de Jesus no seu significado aponta para o sacrifício pascal. Jesus disse a discípulos seus: "Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo, ou receber o batismo com que eu sou batizado" (Mc 10:38)? Neste texto "baptisthenoi" é sinônimo de "morrer"!

Os relatos da Santa Ceia nos Evangelhos sinóticos, a despeito das diferenças de detalhes, são unânimes em afirmar que, no momento em que Jesus "parte o pão" e "toma o cálice" ele anuncia que "seu sangue seria derramado por muitos", e, todos os relatos contêm o termo diathéke. Em João há uma completa relação entre o batismo de Jesus e sua morte "substitutiva": "Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29,36). Tal relação entre Jesus e sua morte substitutiva é o tema que permeia todo o Novo Testamento. Jesus é o "Bom Pastor que dá a sua vida" (Jo 10:11). Tais palavras apontam para as noções de substituição, entrega, resgate, serviço. A expressão que temos no Evangelho de João "cordeiro de Deus" (amnós toü theoü) é equivalente a expressão aramaica "Ebed Yahvé" ("Servo do Senhor").

Do ministério do "Servo", do autêntico "diakonos" (Jesus Cristo é o diácono de Deus para o mundo!), aquele que veio "não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida" (Mt 20:28; Mc 10:45), é que deriva a verdadeira dimensão do ministério da Igreja como "laós toü theoü". O batismo de Jesus é, por assim dizer-se, uma antecipação da totalidade do ministério. O Ministério da Igreja é o ministério de "todos os batizados". Pois, "fomos batizados na sua morte" (Rm 6:3). "Ele mesmo

deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e mestres, com vistas ao equipamento (katartismón) dos santos para o desempenho do seu serviço” (eis érgon diakonfas), diz-nos Ef 4:11. Jesus Cristo é a fonte de todos os carismas. A comunidade dos carismas consiste, portanto, na participação em Cristo.

Aqui, desta perspectiva em que Paulo nos coloca com o texto de Efésios (cap. 4), é o lugar para se tratar do sentido bíblico que nos é dado na expressão “laós toü theoü”. A redescoberta da Natureza da Igreja nos leva à conclusão de que, verdadeiramente, o "poder" das chaves não foi dado somente a Pedro, mas à totalidade do "laós toü theoü" como a comunidade dos crentes ou a "comunhão dos santos" (Mt 18:17)

em verdade vos digo que

tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado no céu" (Mt 18:18). Além deste texto o Evangelho de João nos dá outro que nos comunica a mesma realidade: "Se de alguns perdoardes os pecados são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos" (Jo 20:23). A Igreja foi criada sobre o "fundamento" dos Apóstolos pela efusão do Espírito Santo, que fez com que todos os membros (batizados em Cristo) fossem testemunhas dos atos de Deus. Portanto, a sucessão apostólica não pode jamais ser interpretada em linha "unilateral", ou seja, que somente pessoas que tenham recebido "ordenação" especial dela possam participar. Ao contrário, a Igreja é apostólica como a "comunidade" total que participa da "doutrina dos apóstolos, do partir do pão, da comunhão fraternal e das orações". Desta forma, mediante o batismo em Cristo todos participam da sucessão apostólica, todos participam do "ministério", todos participam do "serviço" — a vida total da Igreja é apostolado.

" se teu irmão pecar, vai argüi-lo entre ti e Ele só

Parece-nos claro que, a partir do texto mesmo, e não das especulações sectaristas, podemos sublinhar como possível enriquecimento das noções "tradicionais" sobre o ministério da Igreja algumas dimensões mais profundas e mais completas:

3.a.) O Ministério é "serviço" — isto é, diakonía, e como tal, pressupõe nos

que o exercem a honesta atitude de humildade competente (é exatamente ai que

que andeis de modo digno da vocação

a que fostes chamados com toda a humildade

Paulo inicia o capítulo sobre o ministério: "

").

O ministério confiado à Igreja exige, por sua natureza em Cristo, o despojamento por parte da Igreja de qualquer vislumbre de vaidade, de glória prematura. A Igreja só pode exercer sua missão em termos de uma vida de serviço, uma vida de diácono (literalmente criado "doméstico", "garçom").

3.b.) O Ministério é serviço no mundo e para o mundo. Não é exercido em abstrato, em "conventos" mas em concreto envolvimento nas contingências do mundo. Este envolvimento é enfrentado pelo ministério como uma das implicações inseparáveis da Encarnação de Jesus e conduz a Igreja a uma redescoberta da dimensão positiva da História Humana.

3.c.) O Ministério "serviço" nos liberta das limitadas e pecaminosas conotações institucionais (profissionais), individuais, e, conseqüentemente de uma noção errônea de Igreja centralizada no rotineiro trabalho de um "pastor que vive para a Igreja mesma, afim de conduzir-nos, então, a uma alta compressão de "ministério" como o serviço que um povo ministerial mediante todas as formas possíveis (inclusive seculares) presta à sociedade.

Numa compreensão assim, o pastor não é "vedete", nem "animador" de programas para satisfazer a Igreja (que será sempre uma Igreja "consumidora" e "parasita"), mas é o "servo" do povo servidor.

Podemos agora perceber a razão pela qual relacionamos neste estudo da Epístola aos Efésios os três temas - "sacramento", "ministério" e "ética" dentro do capítulo sobre a Presença da Igreja na sociedade.

Creio que desta perspectiva bíblica podemos ser verdadeiramente enriquecidos numa nova compreensão do sentido e da responsabilidade da Igreja na situação contemporânea. A tradicional caricatura de "mandatários" ou de "autoridades eclesiásticas” são questionadas definitivamente numa redescoberta da verdadeira imagem de Igreja como "serva" em Cristo que é o "Servo" até a obediência da morte!

De outro lado, não padece dúvida que a Igreja não pode abordar a sociedade senão partindo da realidade que lhe é dada no "eixo" da ética, isto é, "em Cristo". Então, toda a arrogância, todo laivo (mancha, nódoa) de superioridade é mais do que supérfluo, é pecaminoso!

O sentido mais real do testemunho cristão nasce na "fraqueza", na humildade

total de cada membro do corpo do Senhor e em cada situação concreta das esferas de sua vida de relações. Este é o significado de "andar como crianças amadas" (Ef 5.1) e "em amor” (Ef 5:2) da mesma maneira como "Cristo amou e se entregou a si mesmo por nós" (Ef 5:2)!

A única expressão da ética na epístola aos Efésios é a "atividade do amor". A

função unificadora e integradora de todos os ministérios que Cristo tem concedido à Igreja não tem outro endereço senão este: " a construção do Corpo em amor" (Ef

4:12,13,15,16).

Parece que devemos concluir esta parte dando atenção à mensagem enviada à Igreja "em Éfeso" conforme encontramos no livro de Apocalipse. Nesta carta devemos fazer uma observação que é de fato impressiva. Há uma apreciação sobre certas esferas do testemunho daquela Igreja e uma advertência muito severa que fere o "Espírito" do seu testemunho.

"Conheço as tuas obras, assim o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achastes mentirosos; e tens perseverança e

suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer” (Ap 2:2-3). Está é uma imagem perfeita de uma igreja que busca a fidelidade à doutrina do Senhor e que permanece ativa em seu trabalho.

Entretanto, há uma advertência muito séria à Igreja assim fiel na doutrina e no trabalho. Eis: "Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro caso não te arrependas" (Ap 2:4-5).

Parece evidente a relação que existe entre o "primeiro amor" e as "primeiras obras". Esta advertência à renovação da Igreja no seu sentido mais fundamental evoca a essência mesma da carta aos Efésios em que o apóstolo proclama o

"Evangelho da Paz" que nada mais é do que a força do amor com Cristo "fez a paz"

e destruiu a parede de separação, reconciliando em seu "sangue", em "seu corpo" Judeus e Gentios.

Esta advertência está dirigida à Igreja em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois ela toca exatamente a Natureza e a missão com que foi formada pela "entrega" que Cristo fez de si mesmo em benefício de todos. Toda a ação e toda a forma de presença como de estrutura da Igreja está sendo questionada: de momento a momento por este soberano ato de "auto-entrega" em que Deus mesmo nos tem amado na plenitude de Cristo.

O evento ímpar da História é esta "auto-entrega" em que Jesus Cristo participa integralmente da vida humana e torna a vida humana partipante da "suprema riqueza da misericórdia de Deus" (Ef 2:7). Dentro desta realidade "cristológica" como Paulo nos proclama em Efésios, é que temos a Igreja e que somos a Igreja, a Igreja em Cristo e em Éfeso.

Em face da dádiva de Deus — "o Evangelho da paz" — estão abertas para a Igreja as portas que conduzem a novas formas de responsabilidade e a novas dimensões de seu testemunho contemporâneo. O Evangelho é algo que é dado a todos. Não é um conjunto de leis, de ordenanças, de proibições e preceitos negativos, mas é um dom, uma afirmação, é o SIM e o AMÉM à toda a Criação que, ainda que caída, é sua Criação em Cristo.

A Igreja é enviada como aquela "comunhão em Cristo" — o "corpo de Cristo" — que assinala no mundo a "paz de Cristo" (shalom: Salvação em hebraico) que é

a plenitude de todas as bênçãos divinas, a consumação de todos os dons de Deus,

a integridade perfeita de sua obra. O Evangelho é assim uma Pessoa em relação, é Cristo mesmo em comunhão perfeita com a humanidade. Daí a Natureza da Igreja como uma "relação" e não como uma "instituição"!

Terminamos aqui com algumas observações finais para reflexão de cada um. Estas observações vão na forma de perguntas:

1. Até que ponto por isolarmos a comunhão com o nosso próximo do

conhecimento de Deus, estamos impedindo a renovação da Igreja e a proclamação do Evangelho da paz? Será que podemos separar estas duas realidades como se fossem cousas separáveis ou distintas?

2. Esforçamo-nos mais e mais por compreender a Palavra de Deus e a ela

sermos fiéis. Assim devemos realmente fazê-lo. Mas, até onde este nosso esforço poderá separar-nos do nosso próximo? Parece claro que Efésios nos ensina que recebemos a compreensão da "multiforme sabedoria de Deus" exatamente para entrarmos em comunhão e "crescermos em amor"!

3. Confessamos nossa fé como nossa Igreja nos tem ensinado e temos a

preocupação de sermos fiéis ao ensino que temos recebido. Parece não haver dúvidas quanto ao fato de assim procedermos. Entretanto, temos que escutar quanto a isto a pergunta básica: até que ponto esta "confissão" pode cegar-nos os olhos? Pois, podemos tentar confessar que amamos a Deus, mas se não amamos nosso irmão ainda permanecemos nas trevas! Ou nós é que devemos decidir quem é nosso irmão e quem não o é?

4. Damos grande importância ao planejamento e aos programas da organização para a atuação da Igreja. Mas, até onde esta preocupação não estará impedindo uma ação "espontânea" do Espírito que dirige e ilumina a Igreja? Deus não estará dando, de dentro do Mundo, a “Agenda” para a IGREJA?

CONCLUSÃO

UNIDADE E RENOVAÇÃO DA IGREJA

O estudo da Epístola aos Efésios nos leva não somente à conclusão de que a

proclamação do Evangelho da Paz é a mais relevante resposta da Palavra de Deus aos tormentos do mundo contemporâneo, como nos conduz ao tema da Unidade e renovação da Igreja como um único tema. Além disso, o conteúdo do memorável documento do apóstolo Paulo, coloca-nos face a face com a dimensão suprema da Igreja como "Corpo de Cristo" e sua vocação missionária ecumênica.

O Evangelho da Paz é a armadura de Deus que exerce pressão sobre "todos

os limites da terra". A ênfase da Epístola sobre a unidade em Cristo não pode significar menos do que um imperativo divino para a Igreja na história. Dedicamos assim a conclusão deste estudo ao tema da Unidade e Renovação da Igreja como um imperativo do Evangelho da Paz e movido pela inabalável convicção de que a desunião das igrejas e dos cristãos é um vitupério ao Evangelho e uma traição a Jesus Cristo.

Uma leitura ainda que superficial do texto de Efésios, deixa muito claro que existe uma relação indissolúvel entre a Unidade, a Vocação Missionária e a Santidade da Igreja. O sentido desta relação nos é dada especificamente no

conteúdo total do capítulo quarto. Em primeiro lugar notamos as duas dimensões da Unidade da Igreja :

a.

dimensão divina — Ef 4:1:6 — a Unidade da Fé.

b.

dimensão humana — Ef 4:7.16 — a Diversidade de ministérios.

O

capítulo termina, como seqüência natural, com uma série de advertências

que traduzem o testemunho da Igreja dentro do mundo em que ela é o "Corpo de Cristo", mostrando o apóstolo que a Missão da Igreja é a própria Natureza da Igreja — Ef 4:17-32. Aqui, precisamente onde Paulo trata da Santidade da Igreja, não nos pode escapar a relação de extraordinária significação em que ele nos comunica essa dimensão da Igreja: cada uma das advertências que ferem o testemunho do cristão é feita em relação a responsabilidade de cada um como "irmão dos demais". Isto é, a santidade oposta aos gentios não é apenas santidade no "plural", no sentido comunitário, mas é dada no sentido pessoal da responsabilidade de cada um para com os "outros". Além disso, devemos sublinhar o elemento que vincula estas relações: é sempre o amor! Efésios trata do crescimento da Igreja "em amor" — o amor é o vínculo das relações e a estatura do novo homem em Cristo. A

edificação cristã só existe quando é "edificação em amor" (Ef 4:16,31,32).

Quando se insiste hoje nos "dons do Espírito Santo" para a renovação da Igreja, por que razão tal insistência, via de regra, resulta em discórdia, desunião e "manifestações" discutíveis do Espírito? Essa busca do Espírito que não responde ao testemunho de obediência à Unidade da Fé, não estará sendo rejeitada por Deus? Haverá possibilidade de se tratar da santidade da Igreja sem tratar-se da sua unidade em Cristo como vocação missionária no mundo?

Em outras palavras, nossas preocupações por renovação e restauração da Igreja não estarão resistindo ao Espírito Santo quando teimam em ignorar a relação entre a unidade da fé e a vocação missionária do Corpo de Cristo? Se há "um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo, um só Espírito" (cf. Ef 4:1-7), que relação deve haver entre a unidade da Igreja e sua vocação? Não existirá uma relação bem íntima entre nossas divisões, nossas amarguras, cóleras, iras, competição "evangelística" e o sentido do perdão com que somos perdoados por Deus no Corpo crucificado de Jesus Cristo, perdão que estamos negando uns aos outros (embora não seja propriedade nossa)?

Devemos meditar nestas interrogações sob a luz que emana do grande capítulo quarto da Epístola de Efésios, em especifico, os versículos finais: "E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. Longe de vós toda amargura, e cólera, ira, gritaria, blasfêmia e bem assim toda a malícia. Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, da maneira como Deus vos perdoou em Cristo".

Na longa e crucial caminhada ecumênica há lições muito preciosas que nos pertencem a todos nós como membros do Povo de Deus. Entre elas está a confissão feita em 1917 num encontro de cristãos membros de Igrejas neutras (neutras em relação à guerra mundial que desgraçava a humanidade). Estavam presentes representantes da Suécia, Suíça, Dinamarca, Noruega e Países Baixos. Em plena guerra aquele grupo se encontrou em torno dos seguintes temas:

"Unidade dos Cristãos", "Os Cristãos e as Questões Sociais", "Os Cristãos e a Ordem Internacional". O informe da conferência, sob o espectro da guerra, nos diz que houve a seguinte declaração quanto à Unidade Cristã: a unidade dos cristãos não é algo exterior, que forças humanas possam realizar — ela é um ato de Deus em Jesus Cristo. A Cruz de Cristo é o centro da Unidade dos cristãos. Esta unidade não é uniformidade; ela é uma permanente atitude de reverência e amor recíprocos dos diferentes corpos eclesiásticos em sua liberdade de servir a Deus. Ela é uma cooperação livre entre as Igrejas enfim, a unidade dos cristãos é o testemunho e a vida de amor; não existe em função de si mesma, mas em função do serviço cristão em todos os domínios da vida humana".

Devemos observar nestas reflexões três realidades básicas: a primeira é a dimensão da unidade como obra de Deus em Jesus Cristo; a segunda é o centro dessa unidade (a cruz de Cristo) e não as igrejas ou as doutrinas; a terceira realidade é a relação entre a unidade e a responsabilidade da Igreja em servir à humanidade. Estas três realidades sempre estão juntas quando se pensa na

unidade cristã.

É impressionante como o ecumenismo ou a dimensão ecumênica do testemunho da fé sempre implica numa redescoberta da relação que existe entre os tormentos do mundo e a fé em Jesus Cristo. Em outras palavras, a busca da unidade cristã sempre conduz a Igreja a redescobrir o sentido mais profundo de sua vocação missionária, sua relação vital com as necessidades do homem no mundo presente.

Devemos perguntar agora: os maiores obstáculos à unidade e renovação da Igreja hoje não residem de maneira básica no fato de que tais temas (unidade e renovação), sejam tratados sem se tomar com a devida seriedade e fundura o tema da "cruz de Jesus Cristo"? Afinal de contas qual é o Espírito interessado na unidade cristã? Qual é o Espírito com poder para renovar a Igreja? Não é o mesmo Espírito? Afinal de contas qual é o caminho da unidade? Ou não existe um caminho de unidade? Existe ou não o "evangelho da Paz"?

A Unidade que buscamos não é a unidade que somos capazes de criar!

A Unidade que buscamos, se a buscamos segundo as Escrituras, é aquela que já nos está dada uma vez para sempre em Jesus Cristo.

Portanto, não deve ser a unidade de "nossas" igrejas tais quais elas são, e sim aquela unidade que descobrimos quando cada um de nós se volta de novo para o Cristo crucificado e, em arrependimento, recebe uma nova comunhão de amor e serviço com o Senhor.

QUE NOS ENSINA a Unidade Cristã segundo Efésios 4 e o fundamento Cristológico que deriva do texto no capítulo 2:11-19? Que relação há entre os dois temas: o da morte de Cristo e a unidade da fé?

Em outras palavras: se um só é o fundamento tanto da unidade quanto da

renovação da Igreja — JESUS CRISTO CRUCIFICADO — devemos enfrentar hoje as seguintes questões:

1. É possível haver renovação da Igreja sem a Unidade do Espírito?

2. Será possível separar-se a realidade do perdão que nos é dado em Cristo

para todos igualmente (sendo o perdão divino a única possibilidade de sermos membros do Corpo de Cristo) da Unidade da Igreja?

3. Seria o Espírito de Deus infiel, concedendo "renovação" a um grupo afim de

que esse grupo se torne "juiz orgulhoso", sem amor para com os demais membros

do Corpo de Cristo?

4. Deus nos permite pensar em renovação da Igreja quando o seu eterno

propósito revelado em Cristo é o de "reunir, reconciliar todas as coisas em Cristo" (Ef 1:10; Ef 1:22; 2Co 5:18-21)?

5. Se os grandes textos das Escrituras que tratam da Unidade tratam igualmente das dádivas do Espírito (carismas espirituais), não estaremos sendo

infiéis à Palavra de Deus se tentarmos buscar renovação espiritual sem obediência

à Unidade Cristã (Rm 12; 1Co 12; Ef 4)?

Considerações finais:

Há dois vínculos do cristão com o seu próximo e com o mundo do seu próximo. O primeiro deles é o vínculo da humanidade que nos é comum a todos como membros da criação de Deus. O segundo vínculo é aquele que nos é dado no "Evangelho da Paz" — a obra que Deus tem realizado em Jesus Cristo. O Senhor do cristão é o mesmo Senhor dos demais membros da humanidade e está atuando

em todos. Portanto, o cristão ao falar a seu semelhante não fala como um estranho

a outro estranho! Fala a seu semelhante como participe com ele na operação do

Espírito que comunica o amor de Deus revelado na morte de Cristo em favor de toda a humanidade. Fala apoiado no vínculo do "Evangelho da Paz" que salva o homem do egoísmo para a solidariedade, do ódio para o amor, da injustiça para a justiça, da escravidão, para a liberdade, da solidão para a comunhão, das trevas para a luz, da morte para a vida que há em Jesus Cristo.

A Igreja é o Corpo de Cristo, é o resultado do "Evangelho da Paz", é a

testemunha na sociedade destas coisas novas que Deus fez em Jesus Cristo para

a humanidade inteira. Isso significa que a Igreja é a Igreja quando tem as credenciais, quando assinala no mundo essa "obra de Deus".

Claro que o Evangelho não necessita de nenhuma comprovação fora dEle mesmo. Entretanto, a finalidade do Evangelho e suas demandas para a vida humana exigem certas evidências, certos sinais que não só lhe sirvam de apoio, mas que indiquem concretamente a sua significação. Tais sinais devem ser encontrados na vida cotidiana da Igreja.

O evangelista convida homens e mulheres a participarem de uma nova vida

que em "algum lugar" já está sendo revelada ainda que não em plenitude. Tal lugar

é a Igreja onde se traduz o testemunho do "Corpo de Cristo" que destrói todas as paredes de separação entre os homens.

QUE SINAIS SÃO ESSES do Corpo de Cristo? Sinais que constituem as

credenciais

denominacionais! Atendo-nos à Obra de Deus realizada em Jesus Cristo mediante

a operação do Espírito, não podemos escapar de responder esta pergunta básica

senão

apostolicidade.

palavras: unidade, santidade, catolicidade e

do testemunho da Igreja no mundo e não as tradições

com

quatro

grandes

Essas quatro grandes palavras são as credenciais da Igreja como Corpo de Cristo e são as credenciais do ministério da Igreja no mundo. O ministério é servo da Palavra e do Mundo ao qual a Palavra é pronunciada na Pessoa de Jesus Cristo,

o Senhor. O ministério é discípulo do Senhor que se fez Servo de todos (Fp 2:1-11). Pois, verdadeiramente a Igreja não se prega a si mesma, senão a Jesus Cristo como Senhor (2Co 4:5).

Os sinais são esses:

1. A Igreja é UNA: esta é uma declaração do que a Igreja é e não uma

exortação ao que ela deveria ser. Um só é o Corpo de Cristo. Deus tem dado unidade a seu povo na terra e, o Seu plano redentor, revelado uma vez para sempre em Jesus Cristo, é trazer todos os homens à Unidade que Ele tem criado em Cristo. Não há outro nome entre os homens pelo qual possam ser salvos (Atos 4:12). Essa mensagem faz parte do ser da Igreja, de maneira que os homens ao encontrarem a salvação em Jesus (se de fato a encontram segundo as Escrituras o revelam!), não podem escapar do outro encontro inaudito do Evangelho da Paz: — o encontro com o seu irmão mais pequenino de qualquer parte do mundo! Esta é a conexão última entre a unidade e a missão da Igreja.

O Evangelho é proclamado afim de que os homens cheguem à unidade em

Cristo, àquela estatura de humanidade nova que Ele criou para todos. Essa unidade em Cristo determina a comunhão uns com os outros.

O Evangelho é dado ao Mundo afim de que os homens se tornem irmãos; afim

de que Caim seja o guardador, o amigo solidário do seu irmão e jamais o seu ciumento e invejoso assassino. O Evangelho é dado afim de que os homens se amem uns aos outros. A evangelização que não leva essa credencial de Unidade não é o Evangelho de Jesus Cristo! Quanta traição está sendo feita no mundo moderno ao próprio conteúdo do Evangelho!

2. Igreja é SANTA: a Santidade da Igreja é a do seu Senhor e Salvador. Os

homens participam dela pela graça de Deus mediante a ação do Espírito. O santo é aquele que é chamado para o serviço do Senhor na diversidade de ministério do Seu Corpo no Mundo.

A santidade é o sinal de que alguém é servo! Este sinal pertence à Igreja como serva do Senhor. É uma dimensão missionária da Igreja Serva do Senhor; isto é, é dado em função do serviço, em benefício dos outros e não para auto-glorificação.

Todo vislumbre de vanglória é negação da santidade. A glória da Igreja é a glória de Cristo (Fp 2:5-11), na medida de sua participação do Corpo de Cristo crucificado pelos pecadores. A dimensão da Santidade da Igreja desde Abraão é em função do ministério no mundo e jamais em função de qualquer pretensão individualista. Enfim, a santidade da Igreja está em Cristo e é dada em relação à obra e vontade de Cristo; como "dom do Espírito" é dada a cada um para um fim proveitoso aos demais, isto é, para o "bem comum" (1Co 12:7).

3. A Igreja é CATÓLICA: Por mais que nós cristãos protestantes possamos

torcer o nariz em relação a essa expressão, por causa dela fazer parte de uma outra

igreja, essa palavra tem um sentido especial e é uma exigência de Deus para a vida

da Igreja. Não falamos da Igreja Católica Apostólica Romana, mas afirmamos que a Igreja cristã é católica, ou seja, universal. "É a plenitude daquele que cumpre tudo em todos" (Ef 1:23). Isso significa que a Igreja foi dada para todos os homens, sem qualquer discriminação. Significa também que na Igreja é oferecida a todos os homens a plenitude da Graça de Deus em Cristo Jesus, o "autor da Paz".

A catolicidade é o sinal que traduz concretamente o fato de que o Evangelho é

dado para todos os homens. A catolicidade da Igreja de Jesus não quer dizer de maneira nenhuma que é aquela que está em toda parte! Pois catolicidade é a dimensão de integralidade da Igreja como Corpo de Cristo para todos. Tudo o que a Igreja é, anuncia, faz ela o faz em nome do Senhor que amou igualmente a todos os homens. Quando uma igreja não é uma comunidade para todos, sem nenhuma discriminação ou distinção, ela está negando a natureza do Evangelho que é para todos. A catolicidade da Igreja é isso: uma igreja aberta para todos

4. Igreja é APOSTÓLICA: significa que a Igreja é Missão; foi enviada por Deus como a comunidade Missionária ao mundo sem solução de continuidade. Não só "até os limites (confins) da terra", mas "até a consumação dos séculos".

Cada crente é parte da ininterrupta ação de Deus na história, participando assim de uma única sucessão apostólica. A apostolicidade da Igreja não é uma propriedade privativa de alguns ou de alguma confissão, ela é dada na permanente ação do Espírito de Deus. A apostolicidade é uma dimensão do ser da Igreja e não um nome "particular" de alguma Igreja! O cristão representa a Igreja Apostólica onde vive e trabalha cada dia. Essa dimensão apostólica da Igreja implica na sua significação como realidade escatológica: a missão da Igreja permanece "até que Ele venha", isto é, deve durar até que Jesus Cristo retorne.

É mais do que evidente que os "sinais dos tempos" pressionam os cristãos a

buscar uma compreensão nova de sua obediência contemporânea a Jesus Cristo. A responsabilidade da Presença Profética da Igreja deve seguir inquietando e questionando todas as formas que teimam em entorpecer a consciência cristã e em marginalizar a Igreja, Corpo de Cristo, em face dos tormentos do mundo atual. O "Espírito" está intercedendo com "gemidos inexprimíveis" afim de que a Igreja "caminhe da maneira digna com que foi chamada". A fome, as guerras e violências de toda natureza, a desumanidade, a negação da imagem cristã do homem, que constituem os "sinais dos tempos" devem inquietar muito mais a Igreja do que a questão do seu crescimento estatístico.

A Epístola aos Efésios, com toda certeza, é endereçada diretamente aos cristãos do nosso tempo.

Esse é o tempo em cujos marcos Deus chama Seu Povo ao testemunho da Unidade: "esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4:3).

Esse é o tempo em que somos chamados à uma renovação mais profunda e realista do que até aqui se tem falado: "e vos renoveis no espírito de vossa

mentalidade, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em JUSTIÇA e RETIDÃO procedentes da VERDADE" (Ef 4:23:24).

Esse é o tempo em que a Igreja é chamada ao crescimento numa dimensão essencial: "Mas, seguindo a VERDADE EM AMOR, cresçamos naquEle que é o CABEÇA, CRISTO" (Ef 4:15).

O Evangelho da Paz que nos é dado na própria pessoa de Jesus Cristo, o Autor da Paz, cumpre o propósito de Deus revelado desde o principio: "Disse Deus:

Este é o sinal da minha aliança estabelecida entre mim e toda carne sobre a terra" (Gn 9:8-17). O apóstolo Paulo declara como se revelou a natureza dessa aliança eterna em Jesus Cristo com as seguintes palavras: "desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que prepusera em Cristo, de fazer CONVERGIR NELE TODAS AS COISAS, tanto as do céu como as da terra, na dispensação da plenitude dos tempos" (Ef 1:9-10)!

A essa natureza e propósito da obra de Deus em Jesus Cristo — Evangelho da Paz — é que deve corresponder a presença fiel da Igreja que é o Seu Corpo na terra.