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g i g i

colette

GIGI é certamente uma das obras-primas de colette, um dos romances em que ela empenhou toda a pujança de seu gênio

artístico. vamos encontrar em suas páginas as mesmas características excepcionais da colette que conhecemos através de traduções anteriores: a sensibilidade lírica, a perspicácia a envolver em situações inesquecíveis os seus personagens, a vigorosa capacidade de criar tipos humanos sem descambar para a caricatura fácil, enfim, a pureza do estilo que a consagrou como um dos grandes clássicos da frança contemporânea. GIGI trata da história de uma jovem adolescente — gilberte — que, iniciando-se nos segredos da vida, sofre as dúvidas e desilusões próprias da sua idade. É malícia que toma contacto com as coisas indispensáveis à graça feminina: a beleza de um vestido, o encantamento de um novo penteado, a elegante

simplicidade de um ornamento

viver o momento fecundo da

transformação da criança em adulto; mal liberta dos hábitos infantis, já é uma promessa fascinante da mulher, aquela que um dia desabrochará em todos os seus encantos. a esta jovem, colette reservou alguns problemas de espantosa realidade. o maior deles, na pessoa de um velho conhecido da

família, gaston, que se apaixona pela vivacidade e juventude de gigi. ela o rejeita, é demasiado inexperiente para reconhecer a

é mulher! e o romance termina

autenticidade de tal afeto, mas

com uma solução original, capaz de encantar os leitores mais diversos. em GIGI, colette é uma romancista que nos ensina as relações entre os seres e a vida. magnífica pintora da alma, sabe captar e fixar o delicado movimento que anima a menina-moça nas suas primeiras experiências perante a crua realidade da vida.

colette

gigi

prefácio de ROLMES BARBOSA

tradução de yolanda steidel de toledo

2ª edição

1959

difusÃo europÉia do livro rua bento freitas, 362 rua marquês de itu, 79 sÃo paulo

título do original: g i g i

imagens de colette

a DAMA NA JANELA

a mais viva lembrança que guardamos de colette remonta aos fins da primavera de 1953, em paris. não precisamos nos esforçar muito para, fechando os olhos, vê-la de novo à janela do seu apartamento no palais royal, o cabelo cor do tempo esvoaçando ao sol e uma écharpe de schiaparelli no pescoço, de onde emergia um rosto faceiro, sem idade, tão novo quanto os arbustos dos champs elysées e tão velho quanto os muros da saint-chapelle. quem a visse do imenso pátio, a cumprimentar vizinhos e conhecidos, mal poderia imaginar o esforço que lhe custava permanecer meia hora à janela. a moléstia que a prendia, geralmente, numa cadeira de rodas, cobrava-lhe pesados juros por aqueles momentos de distração em que, apoiada no peitoril, ela sentia, através da praça, o pulsar de sua paris. para os que a conheciam, e que paravam para saudá-la, a dama respondia com o "coquetismo" de mulher habituada a

meio século de homenagens. de certa maneira, ela representava, para os transeuntes, tudo quanto a capital francesa possuía de brilhante, de espirituoso e de vivo — de uma vivacidade a cujo encanto não escapavam os que, dos pontos mais remotos da terra, ali chegavam. aos nossos olhos, sua face, ao corresponder ao nosso cumprimento, assumia o aspecto de uma máscara fascinante, desligada do tempo e do lugar, máscara que em certos momentos se humanizava, como a de uma pessoa que tivéssemos conhecido desde sempre. e ao sol primaveral, o

rosto da escritora célebre, da detentora do mais alto posto da legião de honra, da autora lida por milhões de pessoas em todos os continentes, desaparecia como por passe de magia, para dar lugar à fisionomia entre pensativa e maliciosa da pequena "claudine".

a memória guarda também outra imagem da colette

daqueles dias: a colette dos inesperados acessos de falta de ar, que a obrigavam a interromper, em pânico, as entrevistas marcadas com os admiradores que de todas as partes do mundo a procuravam. nessas ocasiões, os visitantes — sempre recebidos com alegria pela escritora que, paralítica, adorava viver rodeada de gente permaneciam contrafeitos no salão povoado de enfeites pitorescos (e no qual desco- brimos uma coleção de borboletas do brasil, cuja iridescência devia iluminar o aposento nos dias de inverno). permaneciam contrafeitos, surdamente revoltados contra a estupidez dos

males que atormentavam a anfitriã. e retiravam-se cabisbaixos, envergonhados de gozarem de saúde, de poderem andar e sair pelas ruas, deixando-a abandonada atrás daquelas portas duplas.

no dia seguinte, colette tomava mil e um cuidados para se

desculpar com as visitas. através de telefonemas e telegramas,

desdobrava-se em explicações: "o mal-estar que sentira na

ligeira

enxaqueca"

grande, admirável colette que se valia de todas as artimanhas para ocultar dos demais o seu sofrimento! na sua generosidade de mulher superior, fazia todo o possível para

véspera

fora

algo

sem

importância"

"uma

"não durara nem um minuto"

que os visitantes não saíssem da sua casa com o sentimento do quanto a vida pode ser má e absurda.

guardamos outras imagens dessa mulher extraordinária. a mais fiel, porém, continua a ser a da "dama na janela" do palais royal: um ser humano de extraordinária fibra, enfrentando cara

a cara o duro destino e, ao mesmo tempo, sorrindo para a

praça onde outrora brincavam os delfins de frança, sorrindo para a sua cidade e para o mundo. um sorriso indefinido de

quem sabe que, no fundo, tudo está certo.

À SOMBRA DE SIDO

quais as raízes do gênio de colette? de onde lhe vinha a experiência que a levou a retratar com tamanha acuidade o drama do homem e da mulher eternamente irreconciliáveis, numa sociedade tragicamente fútil e insegura de si própria?. quais as origens da pessoalíssima filosofia de vida, que muitas vezes nos faz erguer os olhos das páginas de seus livros para perguntar, a nossos botões, como adquirira ela tal conhecimento das amarguras humanas? como sucede com todos nós, foram múltiplas e variadas as raízes que nutriram colette. a vocação para as letras lhe foi, possivelmente, transmitida pelo progenitor, o bonacheirão jules

colette, oficial dos exércitos de napoleão iii. tendo perdido uma perna na campanha da itália, foi obrigado a renunciar, com desespero, à carreira das armas, resignando--se a ser "monsieur le precepteur" numa cidadezinha de província, onde desposou uma pensativa e atraente viúva, sidonie landoy.

a princípio, o "capitão colette" tentou encontrar na literatura uma compensação para as suas decepções. jamais chegou, porém, a realizar qualquer obra consistente. muitos anos mais

tarde, evocando a influência paterna, a autora de le fanal bleu diria:" era ele que queria sair ao sol e reviver quando eu co- mecei, obscuramente, após a sua morte, a escrever "

a grande, a decisiva influência sofrida por colette foi, porém,

a de sua progenitora, sidonie landoy, que até nós chegou com

o diminutivo de sido. aliás, sidonie foi, também, o nome que a futura romancista recebeu na pia batismal: gabrielle-sidonie colette. assim foi ela

batizada na velha igreja da pitoresca saint-saveur-en-puisaye. ali mesmo fez os primeiros estudos, completados, depois, em auxerre. toda a sua formação, porém, desenvolveu-se à sombra de sido.

extraordinária sido! de aparência simples e pacata, excelente dona de casa e anjo providencial da família, ela concentrava nos olhos grandes e profundos toda a luminosidade de seu espírito de mulher que vivia muito à frente de sua época. quem a via, inteiramente dedicada aos seus e aos cuidados do jardim e da horta, mal suspeitaria a força moral e a independência de caráter que nela palpitavam. sua existência, exteriormente plácida e medíocre, transcorria, de acordo com uma lei própria, com um código secreto que trazia escrito no fundo do coração. era capaz de permanecer horas num canto afastado do pátio verdejante, contemplando os pássaros que vinham bicar as uvas e sorver o mel das margaridas. ela amava as pessoas, os animais e as coisas com amor total, sem condições — amor no qual pairava forte sentimento pagão da natureza. por outro lado — como nos conta a filha — não obstante sua experiência da vida, sido negava peremptòriamente a existência do mal. quando, em sua presença, alguém aludia ao tema, ela dava de ombros e procurava mudar o rumo da palestra. foi à sombra dessa mulher singular que, no fundo de sua província, lia, todas as noites, antes de dormir, um capítulo das mémoires de saínt-simon, que a futura moralista de les vrilles de ia vigne floresceu. na obra da filha projetar-se-iam os anseios e os sonhos que devem ter atormentado a esposa do capitão de napoleão iii. no fundo, em sido, mesmo antes do nascimento de colette, já existia colette. em colette, mesmo após a morte de sido, continuou a existir sido.

WILLY

após sido, surgiu "willy". claro é que o parisiense fátuo e mundano jamais logrou suplantar a sogra no que diz respeito a influências sobre a escritora de les heures longues. quando, aos 20 anos, colette tornou-se esposa de henry gauthier-villars (conhecido nas rodas boêmias e jornalísticas como "willy"), que nunca passou de uma espécie de cronista mundano, presunçoso e vazio, iniciou uma fase de sua existência muito diversa da que até então conhecera. o casal instalou-se em paris e passou a freqüentar um mundo exótico, semiboêmio, povoado por pessoas amáveis,

aloucadas e cínicas. logo depois colette descobriu que desposara um homem sem escrúpulos nem princípios, egoísta

e irresponsável, cujo único objetivo na vida era a caça aos prazeres fáceis. além disso, vivia sempre à custa de expedientes confusos. um desses expedientes levou-o a insistir com a esposa cuja queda para a literatura era assunto de conversa entre os conhecidos para que, correspondendo à bem remunerada demanda dos editores, escrevesse novelas

com cenas um tanto equívocas, para garantir a venda

tornar o negócio mais completo, ele mesmo se encarregaria de

assiná-las

os que adquiriram tais livros com intuitos inconfessáveis ficaram, certamente, decepcionados. não obstante o "espírito" que dá um sabor especial a certas passagens das aventuras e desventuras da impossível heroína, a jovem autora revelava, sobretudo, desde o início, raras qualidades de narradora e de criação de tipos. farta de ser enganada e explorada pelo esposo, colette requereu divórcio. sozinha em paris, financeiramente lesada por "willy", viu-se compelida, para poder viver nos primeiros tempos, a aceitar contratos para atuar em espetáculos de "music-hall". foi uma experiência inesquecível que, anos mais tarde, lhe daria material para escrever a vagabunda. um segundo casamento lhe trouxe anos de desafogo, que ela aproveitou para se lançar, de corpo e alma, à carreira das letras. o êxito foi total desde os primeiros tempos.

e para

surgiu, assim, a série "claudine".

a OBRA

poder-se-á apontar falhas nos livros de colette. ninguém, porém, dotado de um mínimo de sensibilidade, deixará de "participar" de sua obra. ninguém poderá negar que ela sabe fixar com precisão, em suas páginas, esse milagre que se chama vida. muitos críticos lhe censuram o tom de futilidade, a preocupação com os pequenos nadas de uma sociedade brilhante, mas "pobre por dentro", cuja filosofia da vida consiste na satisfação das exigências da vaidade, do estômago e do sexo. de fato, muitos dos seus personagens nos parecem mesquinhos, ocos, irritantes dentro da sua auto-satisfação. no entanto, como artista honesta para consigo própria, colette

transpunha para os seus livros o mundo que a rodeava. poderemos censurá-la pelo fato de ter vivido num mundo que, quer ela quisesse ou não, era assim? reconheça-se, além disso, a extrema vitalidade de todos os tipos que lhe brotaram da pena. na verdade, colette conhecia o segredo de prender a vida nos seus livros. prendia-a com a ânsia de quem receava morrer um minuto depois. e, isso das claudine a gigi, passando por no mínimo duas dezenas de li- vros que constituem contribuições notáveis para o brilho das letras francesas dos últimos 50 anos. pois ela sabia retratar não somente "o momento que passa", mas também a psicologia das gerações que, da "exposition universelle" ao general-presidente de gaulle, repetiram em paris, e em certos outros recantos da frança, os equívocos da comédia humana. daí o signo de perenidade que desde já, poucos anos após a sua morte, lhe caracteriza a obra.

rolmes barbosa

gigi

— não esqueça, gilberte, de que você vai à casa de tia alicia.

está ouvindo? venha aqui enrolar os papelotes. está ouvindo, gilberte.

— será que não posso ir sem papelotes, vovó? — acho que

não — disse, moderando-se mme alvarez. pousou sobre a chama azul de um fogareiro de álcool o velho

ferro de papelotes, com suas tenazes terminadas por dois pequenos hemisférios de metal maciço e preparou os papéis de seda.

— vovó, e se você me arranjasse uma onda de lado, para

variar?

— nem pense nisso. para uma jovem de sua idade, anelar as

pontas dos cabelos já é o cúmulo da excentricidade. sente no banquinho. ao sentar-se no banco, gilberte dobrou as pernas de quinze anos, longas como as de uma garça. a saia escocesa descobriu- lhe as meias grosseiras até para cima de uns joelhos cuja rótula oval era, sem que ela o soubesse, a perfeição mesma. a bre- vidade da barriga da perna e a altura do arco do pé eram vantagens que levavam mme alvarez a lamentar não ter a neta estudado dança. naquele momento, porém, não era nisso que

pensava. apanhava as mechas louro-cendradas, enroladas e aprisionadas no papel fino e achatava-as entre as metades de bola do ferro quente. a paciência e a habilidade de suas mãos delicadas iam reunindo em grandes anéis dançantes e elásticos, a espessura magnífica da bem cuidada cabeleira de gilberte, que, aliás, não lhe ultrapassava os ombros. o odor do ferro quente e o do papel fino, que rescendia vagamente a baunilha, amolentavam a menina imóvel. por outro lado, gilberte sabia vã qualquer resistência. quase nunca procurava subtrair-se à moderação familiar. — É frasquita que mamãe vai cantar hoje? — É. e esta noite se eu fosse rei. já disse que, sentada num banquinho baixo, você precisa aproximar os joelhos, dobrá-los juntos,

à esquerda ou à direita, para evitar indecência.

— mas vovó, estou de calça e saia de baixo.

— calça é uma coisa, decência é outra — disse mme alvarez. —

tudo vai da atitude.

— já sei, tia alicia vive repetindo isso — murmurou gilberte, sob o telhado de cabelos.

— não preciso de minha irmã — disse azedamente mme alvarez —

para te inculcar princípios de conveniência elementares. sobre isso, graças a deus, sei um pouco mais que ela. — se você me deixasse ficar, vovó, e eu fosse ver tia alicia domingo que vem?

— realmente! — disse mme alvarez com altivez. — você não terá outra sujeição para me fazer?

— sim — disse gilberte. — que me façam saias mais compridas

para eu não ficar o tempo todo dobrada como um z, quando me sento. você compreende, vovó, tenho que estar toda a hora pensando no meu "isso-que-você-está-pensando", com estas saias curtinhas.

— silêncio! não tem vergonha de chamar a isso o seu "isso-que- você-está-pensando?"

— por mim, bem que eu gostava de lhe dar outro nome

mme alvarez apagou o fogareiro, olhou no espelho da lareira sua

pesada figura espanhola, e decidiu :

— outro não há.

de sob a fileira de caracóis louro-cendrados dardejou um olhar incrédulo, de um azul escuro e belo de ardósia molhada. e gilberte ergueu-se de um salto:

— olhe, vovó, de qualquer jeito, ou me fazem saias um palmo mais

compridas, ou me acrescentam um babadinho — e muito agradável seria, para sua mãe, mostrar-se ao lado de

uma marmanjona aparentando pelo menos dezoito anos! e a carreira dela? reflita um pouco!

— pois reflito — tornou gilberte. — que importância teria isso, se eu quase nunca saio com mamãe? ajeitou a saia que lhe subia pelo ventre liso, e, perguntou:

— ponho o casaco de todo o dia? acho bom.

— e como se haveria de saber, então, que hoje é domingo,? vista o

casaco liso e ponha o canotier azul-marinho. quando é que você vai adquirir o senso do que convém? de pé, gilberte era da altura da avó. mme alvarez, à força de usar o nome de um amante defunto, adquirira uma palidez amarelada,

engordara e lustrava os cabelos com brilhantina. usava pó de arroz branco demais e, como o peso das bochechas repuxava-lhe um pouco as pálpebras inferiores, acabara por adotar o nome de inês. em volta dela gravitava em boa ordem a sua família irregular. andrée, a filha solteira, abandonada pelo pai de gilberte, preferira, a uma prosperidade caprichosa, a vida discreta das segundas cantoras, num teatro subvencionado. tia alicia — nunca ninguém ouvira dizer que lhe

tivessem falado em casamento — vivia só, de rendas que dizia modestas. e a família dava grande importância às opiniões de tia alicia — e às suas jóias. mme alvarez examinou a neta, do canotier de feltro enfeitado com uma pena, aos sapatos molière comprados feitos.

— não pode juntar mais as pernas? desse jeito até o sena passaria

debaixo de você. você não tem nem sombra de barriga e ainda assim acha jeito de empiná-la para a frente. e ponha as luvas, por favor. todas as atitudes de gilberte eram ainda governadas pela indiferença das crianças castas. parecia um archeiro, parecia um anjo rígido, parecia um rapazola de saias; raramente parecia uma mocinha. "vestidos compridos, quando lhe falta o raciocínio de uma criança de

oito anos!", dizia mme alvarez. "gilberte me desanima", suspirava andrée. "se não fosse por mim, você desanimava por alguma outra coisa", revidava plàcidamente gilberte. pois era uma menina dócil e se acomodava à vida caseira, quase exclusivamente familiar. quanto ao seu rosto, ninguém podia predizer coisa alguma. a boca era grande e o riso se abria sobre dentes de um branco maciço e novo; o queixo curto

"meu deus, onde foi ela

e, entre as altas maçãs do rosto, um nariz

buscar essa baratinha?", suspirava a mãe. "minha filha, se você não

sabe, quem há de saber?", replicava mme alvarez. diante disto, andrée, pudica tarde demais, enfadada demasiado cedo, silenciava apalpando

é um lote de

as amígdalas sensíveis. "gigi — assegurava tia alicia

matéria-prima. pode arranjar-se muito bem, mas pode também dar em

."

vovó —

gritou do corredor — é titio gaston! voltou acompanhada de um homem alto e jovem a quem segurava

pelo braço enquanto falava, cheia de cerimônias e criancices, como fazem as colegiais em recreio.

— que pena, titio, tenho que o deixar tão depressa! vovó quer que

eu vá ver tia alicia. que carro trouxe hoje? É a dion-bouton nova,

conversível de quatro lugares? dizem que se pode guiá-la com uma

— vovó, estão batendo, eu vou abrir que estou de

mão só! você precisa de luvas bonitas, titio! mas então, titio, você se zangou com liane?

— gilberte! e você tem alguma coisa com isso? — censurou mme

alvarez.

— mas, vovó, é coisa que todo mundo sabe! estava no gil blas e começava assim: "uma secreta amargura esgueira-se no produto

açucarado da beterraba"

laram disso comigo, porque sabem que eu o conheço. e — sabe, titio? — elas não dão razão a liane, no curso suplementar. dizem que ela não está agindo direito!

no curso suplementar as meninas todas fa-

— gilberte! — repetiu mme alvarez. — diga até logo a m. lachaille e suma daqui!

— deixe a menina — suspirou gaston lachaille.

— ela, ao menos, fala sem malícia. e é verdade mesmo que entre

liane e eu está tudo acabado. você vai ver tia alicia, gigi? então pegue

o meu carro e depois mande-o de volta. gilberte deu um grito, um salto de alegria e abraçou lachaille.

— obrigada, titio! oh! a cara da tia alicia! o focinho da porteira! e lá se foi, num tropel de potrinho sem ferradura.

— você está mimando a menina, gaston — disse mme alvarez.

mas não falava a verdade. gaston lachaille só prodigava os mimos e luxos regulamentares: seus automóveis, seu insípido palacete no pare monceau, as mesadas de liane e seus presentes de aniversário, o

champanha e o bacará em deauville, no verão, e em monte cario, no inverno. de tempos em tempos, numa subscrição qualquer, fazia um bom donativo em espécie, comprava um iate que logo revendia a algum monarca da europa central, ou comanditava um jornal novo — sem que com isso ficasse mais contente. olhando-se no espelho, dizia:

"aí está o facies de um sujeito explorado." como tinha o nariz longo e os olhos negros e grandes, o comum dos mortais julgava-o passível de ser logrado. mas seu instinto comercial e sua desconfiança de rico o protegiam: ninguém jamais conseguira roubar-lhe os botões de pérola da camisa, as cigarreiras de metal maciço, incrustadas de pedrarias, nem a peliça debruada de zibelina escura. pela janela, viu partir o carro. naquele ano, os automóveis eram altos e ligeiramente alargados em cima, por causa dos chapéus desmesurados, impostos por caroline, otero, liane de pougy e outras pessoas notórias de 1899. por isso os carros derramavam-se molengas, nas curvas.

— mamita — disse gaston lachaille — você não me faria um chá

de camomila?

— até dois — respondeu mme alvarez. — sente-se, meu pobre gaston.

de uma poltrona derreada, retirou umas revistas côncavas, uma meia por cerzir e uma caixa de pastilhas de alcaçuz. o homem traído acomodou-se com delícia enquanto a dona da casa dispunha as duas chávenas na bandeja.

— por que será que a camomila que me fazem lá em casa tem

sempre cheiro de crisântemo amanhecido? — suspirou gaston.

— questão de cuidado. acredite se quiser, gaston: muitas vezes é

em paris mesmo que colho a minha melhor camomila, em terrenos baldios. uma camomila pequenina, que não é nada para se ver, mas o gosto é uma delícia. meus deus, que beleza a fazenda do seu terno!

essas listas imprecisas são da maior distinção. aí está um tecido como seu pai gostava, coitado. mas, a verdade é que ele não era tão elegante quanto você. só uma vez, em cada encontro, mme alvarez evocava a memória de um lachaille pai, que assegurava ter conhecido muito. destas antigos relações, verdadeiras ou falsas, ela não retirava outra vantagem senão a familiaridade de gaston lachaille e o prazer de pobre que aquele homem rico gozava, descansando na poltrona velha. sob o teto embaçado pelo gás, as três mulheres não reclamavam dele nem colares de pérolas, nem solitários, nem chinchilas, e sabiam falar com decência e consideração de coisas escandalosas, veneráveis e inacessíveis. desde os doze anos de idade, gigi sabia que o pesado fio de pérolas negras de mme otero era "banhado", ou antes, arti- ficialmente tinto, e que seu colar de três voltas graduadas valia "um reino"; que as sete voltas do de mme de pougy careciam de animação, que o famoso bolero de diamantes de eugénie fougère não valia nada e que uma mulher que se respeita não anda, como mme antokolski, num cupê forrado de cetim malva. documente, gigi rompera com sua colega de curso, lydia poret, quando esta lhe exibira um solitário montado num anel, presente do barão ephraim.

— um solitário! — exclamara mme alvarez. — uma menina de

quinze anos! acho que a mãe dela está louca.

— mas vovó! — respondera gigi — não é culpa da lydia, se o

barão lhe deu o anel!

— cale-se! não é o barão que eu censuro. o barão sabe o que deve

fazer. o simples bom senso é que exigia que a mãe poret pusesse o

anel num cofre, ou no banco, enquanto espera.

— espera o quê, vovó?

— os acontecimentos.

— por que não na caixinha de jóias?

— porque a gente nunca sabe. tanto mais que o barão é homem

para voltar atrás. mas se ele se declarou mesmo, mme poret que retire

a filha da escola. e enquanto as coisas não se esclarecem bem, você me fará o favor de não ir nem voltar do curso com a pequena poret. ora, quem diria!

— mas, e se ela se casar, vovó?

— casar? casar com quem?

— com o barão?

mme alvarez e a filha trocaram um olhar atônito. "esta pequena é de desanimar — murmurou andrée. — parece que caiu de outro

planeta."

— então, meu pobre gaston — disse mme alvarez. — É mesmo

verdade essa briga? por um lado, talvez seja melhor para você, mas, por outro, compreendo que a coisa lhe tenha causado aborrecimentos.

em quem há de a gente se fiar, pergunto eu o pobre gaston escutava, bebendo camomila escaldante. gozava

assim um conforto igual ao de olhar a rosácea enfumaçada do lustre suspenso, "adaptado à eletricidade", mas fiel ao vasto abajur verde- nilo. o conteúdo de uma cesta de trabalho estava meio derramado sobre a mesa da sala de jantar, onde gilberte esquecera seus cadernos. sobre um piano de parede, uma ampliação fotográfica de gilberte, com oito meses, fazia pendant com o retrato a óleo de andrée num papel de

se eu fôsse rei

uma desordem sem vileza, um raio de sol primaveril

nas rendas da cortina, um calorzinho rastejante vindo do aquecedor

quase frio, agiam como outros tantos filtros benfazejos sobre os nervos daquele homem rico, solitário e traído.

— meu pobre gaston, você está mesmo sofrendo muito?

— propriamente falando, não é sofrendo que estou; eu estou é

chat

— se não é indiscrição — volveu mme alvarez — como é que isso

foi acontecer com você? eu li os jornais, mas quem pode se fiar neles? lachaille puxou o bigodinho revirado a ferro e passou os dedos na

cabeleira forte, cortada à escovinha.

— oh! mais ou menos a mesma coisa que das outras vezes. esperou

o presente de aniversário e raspou-se. ainda por cima, desajeitada a ponto de ir enfiar-se num cantinho tão pequeno da normandia, que não foi preciso grande esperteza para descobrir que na estalagem só havia

aborrecido.

dois quartos: um ocupado por liane, outro por sandomir, um professor de patinação do palais de glace.

— ah!, é um que valsa com a polaire no five o’clock, não é? hoje as mulheres não sabem mais guardar as distâncias. e logo após o

aniversário

mme alvarez, com o dedinho no ar, mexia na xícara a colherinha. ao baixar o olhar, as pálpebras não lhe cobriam inteiramente os globos

oculares salientes, o que tornava evidente sua semelhança com george sand.

— eu lhe dera um colar — disse gaston. — mas que colar! trinta e sete pérolas. a do centro era do tamanho do meu polegar. avançou o polegar branco e bem cuidado, diante do qual mme alvarez manifestou a admiração devida a uma pérola de centro.

— você faz as coisas como homem que sabe viver — disse ela. — e neste caso você se saiu muito bem, gaston.

não é delicado

É tudo o que há de mais incorreto!

— saí como corno, isso sim.

mme alvarez pareceu não ouvir.

— se eu fosse você, gaston, procuraria vexá-la. arranjaria uma mulher da sociedade.

— obrigado pelo remédio ~ disse lachaille que, distraidamente, ia comendo as pastilhas de alcaçuz.

apoiou discretamente mme alvarez. — É trocar cavalo zarolho por cavalo cego. respeitou então o silêncio de gaston lachaille. um som abafado de

piano atravessava o teto. sem falar, o visitante estendeu a xícara vazia que mme alvarez encheu.

— com efeito, já me disseram que quem não morre do mal

— tudo bem na família? que notícias há de tia alicia?

— minha imã, você sabe, é sempre a mesma. muito fechada, muito

sorrateira. diz que gosta mais de viver de um belo passado do que de um presente feio. o rei da espanha, o príncipe milan, o quediva, rajás

acredite quem quiser! É muito gentil com gigi. como é

justo, acha-a um pouco atrasada, quer que estude mais. na semana

passada, ensinou-a a comer, de maneira impecável, lagosta à americana.

às dúzias

— para quê?

— diz alicia que é de uma grandíssima utilidade. diz que as

três

pedras de toque de uma educação são a lagosta à americana, o ovo quente e os aspargos. diz que a falta de elegância à mesa tem pro- vocado brigas entre muitos casais.

— É verdade — disse lachaille, sonhador. — É verdade

— oh!, alicia não é tola e, para gigi, isto vem a calhar, pois ela é muito gulosa. tivesse aquela cabeça a mesma atividade das

mandíbulas

projetos tem para a festa das flores! tenciona deslumbrar-nos mais

uma vez?

— eu não, que leve a breca! — resmungou gaston. — este ano,

aproveito as minha infelicidades para economizar rosas vermelhas. mme alvarez juntou as mãos. — oh!, gaston, você não faria uma coisa dessas! sem você o desfile parecerá um funeral.

até parece uma criança de dez anos. e você que belos

— pode parecer o que quiser — disse sombriamente gaston.

— você vai deixar gente como valérie cheniaguine ganhar o estandarte bordado. oh! gaston, isto não pode ser!

— pois vai ser assim mesmo — disse gaston. — valérie tem

recursos.

— e pode estar certo que ela não se arruinará para isso! gaston, o

ano passado, aqueles dez mil buquês que ela atirava — sabe de onde

vinham? pois ela contratou três mulheres durante dois dias e duas noites, só para amarrar os buquês — e as flores foram compradas no

mercado dos halles. nos halles! só o chicote do cocheiro, as quatro rodas e os arreios é que eram de lachaune.

— percebo a malandragem — disse lachaille mais alegre. — ora veja, comi todo o alcaçuz!

o passa martelado de gilberte soou militarmente na antecâmara.

— lá de volta? — disse mme alvarez. — que significa isto?

— significa — disse a pequena — que tia alicia estava indisposta.

o essencial é que andei passeando no fonfom do titio. sua boca entreabriu-se, deixando ver os dentes brilhantes.

— sabe, titio, enquanto andava no seu automóvel, fiz uma cara de

mártir, assim para ter o jeito de que está cansada de tanto luxo. diverti- me muito! atirou longe o chapéu, e os cabelos caíram-lhe sobre as têmporas e as faces. sentou-se num tamborete bastante alto e dobrou os joelhos até ao queixo.

— e então, titio? você está com cara de pesadelo. quer jogar

piquet? hoje é domingo e mamãe não volta entre o espetáculo da tarde

e o da noite. quem foi que comeu todo o meu alcaçuz? ah!, titio, isto assim não pode continuar. você vai me dar outra caixa, pelo menos?

— gilberte, tenha modos — ralhou mme alvarez. — desça os joelhos. você pensa que gaston tem

tempo para se preocupar com o seu alcaçuz? endireite a saia. gaston, quer que eu mande essa menina para o quarto?

o herdeiro lachaille, de olho no baralho usado que gilberte

manejava, estava em luta contra uma terrível vontade de chorar um pouco, de contar suas desgraças, de adormecer naquela poltrona velha e de jogar piquei.

— deixe a menina. aqui, eu respiro, descanso um pouco. gigi, aposto dez quilos de torrões de açúcar.

— não me apetece o seu açúcar. gosto mais de bombons.

— É a mesma coisa, e os torrões de açúcar são mais saudáveis que os bombons.

isso diz você, porque os fabrica.

gilberte, que falta de respeito!

os

olhos desolados de gaston lachaille sorriram. — deixe a menina,

mamita

que é que você quer, se eu perder, gigi? meias de seda?

fez-se triste a grande boca infantil de gilberte.

— as meias de seda me dão coceira

eu queria

gigi levantou para o teto a cara de anjo de nariz chato, inclinou a cabeça, deixou escorrer de uma à outra face os anéis dos cabelos:

— quero um espartilho persephone, verde-nilo com rosinhas

rococó bordadas nas ligas. não, queria antes um rolo de música.

— você estuda música?

— eu não, mas minhas colegas do curso superior botam os

cadernos em rolos de música, porque assim parecem alunas do conservatório.

— gilberte, não seja indiscreta — disse mme alvarez.

— você terá o seu rolo de música e o seu alcaçuz. corte, gigi.

daí a instante, o herdeiro dos torrões de açúcar disputava ardentemente suas cartadas. nem seu nariz importante, que soava oco, nem seus olhos meio africanos intimidavam a parceira que, de cotovelos fincados, com as espáduas ao nível das orelhas, exasperados o azul dos olhos e o vermelho das faces, parecia um pajem bêbado. jogavam os dois com pouco barulho, muita paixão e troca de injúrias abafadas. "sua venenosa, sua aranha", dizia lachaille. "nariz de corvo", retrucava a pequena. sobre a rua estreita, ia descendo o crepúsculo de

março.

— gaston, não é para você fugir — disse mme alvarez — mas já

são sete e meia. permite que eu vá cuidar do jantar?

— sete e meia! — gritou lachaille. — e eu que vou jantar no larue, com dion, feydeau e um barthou! a última rodada, gigi!

— por que um barthou — perguntou gilberte. — são muitos, os

barthou?

— dois. um, que é um belo rapaz e outro, que o é menos. o mais conhecido é o menos bonito.

— não é justo — disse gilberte. — e feydeau, que vem a ser? lachaille depôs as cartas, pasmado.

— ora, e esta!

ela não conhece feydeau. então nunca vai ao

teatro?

— quase nunca, titio.

— não gosta de teatro?

e vovó e tia alicia dizem que o teatro impede

de pensar no lado sério da vida. não conte a vovó que eu disse. soergueu sobre as orelhas as ondas dos cabelos e deixou-os cair outra vez resfolegando:

— loucamente, não

— ufa, como esquenta esta juba!

— e o que é que elas chamam o lado sério da vida?

— oh!, eu já não sei mais, titio gaston! nem sempre as duas estão

de acordo. diz vovó: "É proibido ler romances, dá tristeza. É proibido usar pó de arroz, que estraga a pele. É proibido usar espartilho, que

É

proibido travar conhecimento com as famílias das colegas do curso,

sobretudo com os pais que vêm buscar as filhas à saída

falava depressa, respirando entre as palavras, como criança que deu

uma corrida.

— e vem então tia alicia, tocando outra música, e diz que eu já

passei da idade do colête-corpinho, que preciso de lições de dança e de etiqueta e que tenho de estar sempre a par de tudo e saber o que é um quilate e jamais permitir que o chique dos artistas me encha os olhos. "É muito simples, diz ela, de todas as roupas que você vê no palco, não há uma, em vinte, que, uma vez sopesada, não se torne

e você, titio,

que é que vai comer hoje no larue?

— sei lá! filé de pescada com molho de mariscos, para variar. e,

mexa-se, gigi, tenho

estraga o corpo. É proibido parar sozinha diante de vitrina de

"

desprezível". enfim, é de arrebentar os miolos da gente

naturalmente, um lombo de carneiro trufado cinco cartas!

— grande coisa! estou com um jogo de ladrão! aqui, vamos comer um resto de cassoulet requentado. gosto muito de cassoulet.

— ora, é só um cassoulet de porco — disse modestamente inês

alvarez, que voltava. — esta semana o ganso está proibitivo.

— mando-lhe um de bon abri — disse gaston.

— muito obrigada, gaston. gigi, ajude m. lachaille a vestir o

sobretudo. traga-lhe a bengala e o chapéu. quando lachaille foi-se embora, meio de má vontade, farejando e lamentando o cassoulet requentado, mme alvarez voltou-se para a neta:

— gilberte, diga-me direitinho por que voltou tão cedo da casa de

tia alicia? não perguntei diante de gaston porque jamais se deve agitar

questões de família em frente de terceiros, não esqueça disto.

— nada de mais, vovó. tia alicia estava de rendinha na cabeça em

sinal de enxaqueca. disse ela: "estou passando mal". disse eu: "então volto para a casa, não quero cansar você". disse ela: "descansa cinco minutos". "oh! — disse eu — não estou cansada, vim de carro". "de carro!" — exclamou ela, levantando as mãos, assim mesmo deste jeito. eu deixara o carro esperando um momentinho, para mostrá-lo à tia alicia, como você pode imaginar. "pois é — disse eu — é uma dion-bouton conversível de quatro lugares; foi titio que ma emprestou, enquanto está lá em casa. ele brigou com liane". — "com quem você pensa que está falando? — replicou ela. ainda não estou no túmulo para ignorar coisas de notoriedade pública. já sei que ele brigou com

aquela vitrina de jóias. está bem, agora volte para casa, não fique aqui se aborrecendo junto a uma pobre velha doente como eu". enquanto eu entrava no automóvel, ela me dava adeus da janela. mme alvarez apertou os lábios.

— uma pobre velha doente! ela, que nunca soube o que era um resfriado! que topete! que

— vovó, você acha que ele vai se lembrar do meu alcaçuz e do meu rolo de música? mme alvarez elevou para o teto um olhar lento e pesado.

— talvez, minha filha, pode ser.

— mas, uma vez que ele perdeu, ele tem que

— É, ele ficou devendo, sem dúvida, e com certeza vai pagar. põe o avental e arruma a mesa. guarda as cartas.

vovó, que foi que ele contou de mme liane? É

verdade que ela "pirou" com sandomir e o colar?

— antes de mais nada, "pirou" não se diz. depois, venha aqui para

que eu prenda o seu cabelo e ele não caia na sopa. e, em terceiro lugar, você nada tem a ver com as proezas de uma pessoa que agiu contrariamente ao savoir-vivre. isto tudo são histórias íntimas da vida de gaston.

— mas, vovó, íntimas como? todo o mundo fala delas, já chegaram

— sim, vovó

até ao gil

— silêncio! para você, basta saber que o comportamento de mme

liane d'exelmans contraria o senso comum. o presunto para sua mãe

está num prato coberto, deixe-o em lugar fresco. gilberte estava dormindo quando sua mãe — andrée alvar, em letra miúda, nos cartazes da opera comique — voltou. mme alvarez mãe, sentada diante de seu joguinho de paciência, perguntou-lhe, por hábito, se não estava muito cansada. para obedecer aos usos da polidez familiar, andrée censurou-a por esperar acordada, e mme

alvarez respondeu, segundo o ritual:

— não dormiria tranqüila se não visse você voltar. guardei presunto e uma tigelinha de cassoulet quente. e ameixas cozidas. a cerveja está na janela.

— a pequena está deitada? — claro.

andrée alvar comeu bastante, dando provas de um apetite pessimista. a pintura tornava-a ainda mais bonita; sem ela, porém, a boca era descorada, e róseo o rebordo dos olhos. por isso mesmo, tia

alicia afirmava que o sucesso de andrée sobre o palco não se repetia nas ruas.

— cantou bem, minha filha? andrée levantou os ombros.

— cantei, sim. e que adianta? vai tudo para o tiphaine, como você

bem sabe. ai, ai, ai, não sei como é que suporto uma vida destas —

você

a

escolheu

mas suportaria melhor — disse

sentenciosamente mme alvarez — se tivesse alguém dá nos nervos e faz ver tudo negro. você é anormal.

É a solidão que

oh!, mamãe, não recomecemos; estou tão

que há de

novo?

nada. só se fala na ruptura entre liane e gaston.

— acredito. se o caso chegou aos bastidores da opera comique, que nem por isso é lugar tão moderno

— É um acontecimento mundial — disse mme alvarez.

— já se fazem prognósticos?

— que nada! não houve tempo. ele está na mais negra desolação.

você acredita que, às quinze para as oito, ele estava aí mesmo onde você está, jogando piquet com gigi? diz que não quer ir à festa das

flores.

— não?

— pois é. se isso acontecer, será um fato universalmente notado. aconselhei-o a refletir, antes de tomar uma decisão destas.

— no teatro — disse andrée — estavam dizendo que há uma artista

de music-hall, uma tal de cobra, do olympia, que talvez tenha agora uma oportunidade. dizem que aparece num número de acrobacia e que

a trazem à cena num cesta pequenina, e ela vai saindo lá de dentro, desenrolando-se toda como um serpente. mme alvarez esticou desdenhosamente o seu grande lábio inferior:

— apesar de tudo, gaston lachaille não desceu ainda às artistas de

music-hall. justiça se lhe faça: ele sempre se ateve, como é dever de

um solteirão de sua classe, às grandes demi-mondaines

— boas vacas — murmurou andrée.

— mede as palavras, minha filha! não adianta nada chamar as

pessoas e as coisas pelo nome. as amantes de gaston sempre tiveram categoria. para ele, a única maneira decente de esperar um brilhante casamento é ligar-se a uma das grandes demi-mondaines; isto,

supondo que se case um dia. em todo o caso, havendo algo de novo, as primeiras informadas seremos nós. gaston tem muita confiança em mim. você precisava ver como ele me pediu um chá de camomila. É uma criança, uma verdadeira criança. e com uma tal fortuna a lhe pesar nos ombros! irônica, andrée piscou suas pálpebras rosadas.

. não é para reclamar, mas

desde que conhecemos gaston, nunca vimos dele mais do que a tal

— lamente-o, mamãe, vá lamentando

— nem ele nos deve nada. e sempre nos mandou açúcar para os

doces e para o meu curaçau e, de tempos em tempos, uma ave de suas fazendas, e atenções para a menina

— se você se contenta com isso

mme alvarez levantou bem alto a cabeça majestosa:

— perfeitamente, contento-me, sim! tanto mais que, se não me

contentasse, isso não mudaria nada

— em suma, para nós, este gaston lachaille, tão rico, é como se não

o fosse. se nos víssemos em algum aperto, seria ele, ao menos, capaz

de nos ajudar? mme alvarez pousou a mão no coração.

— estou convencida que sim — disse ela. e, refletindo, acrescentou:

— mas prefiro não ter que lhe pedir.

andrée retomou o jornal que trazia a fotografia da abandonada.

— olhando bem, ela não tem nada de extraordinário.

— não — replicou mme alvarez — ela é extraordinária, sim. a

prova é o renome que tem. renome e êxito não são obras do acaso.

você raciocina como essas desmioladas que dizem: "um colar de sete

voltas ficaria tão bem em mim quanto em mme de pougy. e eu seria tão capaz quanto ela de viver à larga". essas frases só me fazem dar de ombros. leve o resto da camomila para banhar os olhos.

— obrigada, mamãe. a pequena foi ver tia alicia?

— e foi no próprio automóvel de gaston. ele emprestou-lho. um

carro que talvez faça sessenta quilômetros por hora. ela não cabia em

si!

— pobre pequena! pergunto a mim mesma o que

fará na vida. É capaz de acabar manequim ou balconista. parece atrasada. eu, na idade dela mme alvarez pousou na filha um olhar carregado de eqüidade:

— não se gabe muito do que fazia na idade dela.

se bem me lembro, na idade dela, você disse adeus a m. mennesson — embora ele fosse um industrial e mostrasse boa disposição para lhe arranjar a vida — e deu o fora com aquele professorzinho de solfejo andrée alvar beijou os bandos lustrosos de brilhantina de sua mãe:

— mãezinha, não me maldiga mais a essa hora da noite, estou com

. boa noite, mamãe. tenho ensaio ao meio-dia e quarenta e

cinco, mas almoço no restaurante, durante o descanso; não se preocupe comigo. num longo bocejo atravessou no escuro o quarto em que a filha dormia. de gilberte, não entreviu na penumbra senão um chumaço de cabelo e o galão ruço da camisola. trancou-se no exíguo banheiro e, apesar da hora tardia, acendeu o bico de gás debaixo do aquecedor de água. entre outras virtudes, mme alvarez havia inculcado fortemente em sua descendência, o respeito a certos ritos e máximas, tais como:

"o rosto, a rigor, pode-se deixar para o dia seguinte, em caso de urgência e de viagem. mas o cuidado com a parte baixa do corpo é a dignidade da mulher." mme alvarez deitava-se por último e levantava-se primeiro, não admitindo que a empregada tocasse no café matinal. dormia na sala, no diva conversível e, às sete e meia em ponto, abria para os jornais, o litro de leite e a empregada, esta a carregar aqueles. Às oito horas, já tirara os grampos onduladores e alisara os belos bandos. Às dez para as nove, gilberte seda para o curso, limpa e de cabelos escovados. Às dez horas, mme alvarez "pensava" no almoço, ou antes, enfiava as galochas e, pendurando no braço a alça da rede de compras, ia ao mercado. naquele dia como nos outros, depois de verificar que gilberte já se

tanto sono

levantara, ela pousou na mesa a cafeteira e a leiteira ainda fervendo, e desdobrou o jornal enquanto esperava gilberte, que entrou fresca, cheirando a água de lavanda e cheia de sono. um berro de mme alvarez acabou de a despertar.

— gigi, chama tua mãe! liane d'exelmans suicidou-se! a pequena soltou uma longa exclamação:

— ooooooo! morreu?

— qual nada. ela sabe o que faz.

— como foi que ela fez, vovó? usou um revólver?

mme alvarez olhou para a neta com ar de comiseração :

— nem pense nisso. tomou láudano, como de costume. "sem poder

ainda responder pelos dias da bela desesperada, os doutores morèz e pelledoux, que não se arredam de sua cabeceira, emitiram diag-

nóstico tranqüilizador". pois o meu diagnóstico é que mme d'exelmans, desse jeito, acaba estragando o estômago

— da outra vez, vovó, não foi pelo príncipe georgevitch que ela se matou? — onde está sua cabeça, meu bem? foi pelo conde berthou de sauveterre.

— ah!, sim, é verdade

34

durante um momento, os grandes olhos de mme alvarez divagaram.

. e agora, o que é que o titio vai fazer?

— das duas, uma, minha filha. logo o saberemos, mesmo que ele

principie negando-se a dar entrevistas. É preciso sempre começar recusando as entrevistas. depois, enche-se as colunas dos jornais. vá dizer à porteira que nos compre as folhas da tarde. você comeu bem? tomou as duas xícaras de leite, comeu a segunda fatia de pão? calce as luvas antes de sair e não se atrase pelo caminho. vou acordar sua mãe.

que história! andrée, você está dormindo? ah,., já se levantou? andrée, liane suicidou-se.

— para variar — resmungou andrée. — aquela só tem uma idéia na cabeça, mas é teimosa.

— você ainda não tirou os bigoudis, andrée?

— para meu penteado se desmanchar durante o ensaio? muito

obrigada! mme alvarez mediu a filha desde os chifrinhos dos bigoudis até às chinelas de feltro:

— bem se vê que você não precisa temer olhar de homem, minha

filha. presença de homem, eis a cura para mulheres que andam de roupão e chinelas. que história a deste suicídio! suicídio falhado, bem

entendido. a pálida boca de andrée desenhou um sorriso de desprezo:

— já começa a ser aborrecida essa criatura, com seus purgantes de

láudano.

— e nem é ela que interessa, mas o menino lachaille. É a primeira

já teve a gentiane, que

lhe roubou papéis e depois a tal estrangeira que queria por força que

ele se casasse com ela. mas a primeira suicida é liane. num caso destes, um homem notável como ele precisa de muita precaução para adotar uma atitude.

vez que isto lhe acontece. ele já teve, vejamos

— ora, ele vai rebentar de orgulho!

— pois terá razão. teremos novidades importantes, muito breve.

pergunto a mim mesma o que dirá alicia de semelhante acontecimento.

— há de querer fazer disto um bicho de sete cabeças.

— alicia não é nenhum anjo. mas devo reconhecer que enxerga longe. e sem mesmo sair do quarto! — sair para quê?? tem telefone. mamãe, você não quer que mandemos colocar um telefone aqui?

— É uma despesa — disse mme alvarez, preocupada. — e já

estamos bem apertadas. o telefone só tem real utilidade para homens que fazem grandes negócios e mulheres com alguma coisa a dissimular. se você mudasse de existência — é uma suposição — e

gigi entrasse na

telefone". mas ainda não chegamos lá, infelizmente permitiu-se um suspiro, calçou as luvas de borracha e, sem tristeza, pôs-se a cuidar da casa. graças a ela, o modesto apartamento envelhecia sem decair muito. de sua vida passada, guardava os hábitos honrados das mulheres sem honra e os ensinava à filha e à filha de sua filha. os lençóis não ficavam nas camas mais de dez dias e a arrumadeira-lavadeira-engomadeira contava em alto e bom som que em casa de mme alvarez mal se tinha tempo de ver passar as camisas e as calças das senhoras, e as toalhas de mesa. a um berro inopinado, "gigi, descalça-te!", gilberte devia tirar sapatos e meias, submeter a uma investigação completa os pés brancos e as unhas bem cortadas, e denunciar a menor ameaça de calosidade. durante a semana que se seguiu ao suicídio de mme d'exelmans, lachaille teve reações incoerentes. deu em seu palacete uma festa noturna em que dançaram estrelas da academia nacional de música e, para uma ceia, obrigou a abrir quinze dias antes da data habitual um restaurante do pré-catelan. footit e chocolat representaram uma cena

seria eu a primeira a dizer: "coloquemos o

durante a noitada. entre as mesas da ceia, volteava rit del erido no lombo de um cavalo, enfiada numa saia-calça com babados de renda branca, de chapéu branco sobre os cabelos negros, com plumas de avestruz espumejando em volta de um rosto implacavelmente belo, tão belo que paris se enganou, anunciando que gaston lachaille a alçava (a cavaleiro) sobre um trono de açúcar. mas, vinte e quatro horas depois, paris desenganava-se. o gil blas, por ter divulgado falsos prognósticos, quase perdeu a subvenção que lhe concedia gaston lachaille. um hebdomadário especializado, paris en amour anunciou outra pista falsa sob o título jovem e riquíssima ianque não disfarça sua in- clinação pelo açúcar francês. enquanto isto, à leitura dos jornais, o peito de mme alvarez era sacudido por um riso de incredulidade. pois era do próprio gaston lachaille que lhe vinham as suas certezas; duas vezes em dez dias, ele achara tempo para vir beber sua camomila e acomodar, nas almofadas da poltrona em concha, sua lassidão de industrial e seu mau humor de homem só. trouxe mesmo, para gigi, um ridículo rolo de música, todo em couro da rússia, com fechadura de esmalte, e vinte caixas de alcaçuz. mme alvarez ganhou um foie-gras e seis garrafas de champanha, munificências das quais o titio lachaille tirou sua parte convidando-se para jantar. durante o jantar, gilberte, um tantinho embriagada, contou os mexericos do curso suplementar e ganhou no piquet a lapiseira de ouro de gaston. ele a perdeu com boa cara, ani- mou-se e riu, designando a pequena a mme alvarez: "É o meu melhor companheiro". e os olhos espanhóis de mme alvarez iam, cheios de uma atenção lenta e vigilante, das faces rubras e dos brancos dentes de gigi ao herdeiro lachaille, que lhe puxava os cabelos aos punhados:

"você escondeu o quarto rei na manga, sua malandra!" . entrementes, andrée voltou da opera comique, viu a cabeça despenteada de gigi, que rolava pela manga de lachaille, aqueles belos olhos azuis quase negros e que choravam lágrimas de um riso . não achou nada para dizer e aceitou um copo de champanha, depois outro e mais outro. mas como, depois do terceiro copo, manifestasse o desejo de cantar para gaston lachaille a ária das campainhas, de lakmé, sua mãe levou-a para a cama. no dia seguinte, ninguém comentou aquele serão familiar a não ser gilberte, que exclamou: "nunca dei tanta risada em minha vida, nunca! e a lapiseira é de ouro!" suas expansões chocavam-se com um silêncio estranho, ou com uns "ora; gigi, um pouco mais de seriedade", atirados como por distração.

depois gaston lachaille passou quinze dias sem dar sinal de vida ou presença e a. família alvarez documentou-se só pelos jornais.

— você viu, andrée? assinalaram nos ecos mundanos a partida de

m. lachaille para monte cario. esta partida parece circundada por

dizem

uma espécie de mistério sentimental que nós respeitaremos eles!

— vovó, você acredita que, no curso de dança,

lydia poret andava dizendo que liane partiu no mesmo trem, só que em outro compartimento. será verdade, vovó? mme alvarez dava de ombros:

— se fosse verdade, como é que essas poret o haviam de saber?

será que elas têm relações com m. lachaille, agora?

— não, mas lydia poret ouviu dizer no camarim da tia, que é da

comédie-française. mme alvarez trocou um olhar com a filha.

— no camarim! compreendo muito bem

— disse ela.

mme alvarez desprezava a carreira de artista, apesar da severidade

do emprego de andrée. quando mme emilienne d'alençon decidira apresentar coelhos ensinados fazendo piruetas, quando mme de pougy, mais tímida no palco que uma meninazinha, divertira-se mimando um papel de colombina, toda de tule preto lantejoulado, mme alvarez aniquilara-as, a ambas, com uma frase: "com que então já desceram a isso?"

— vovó, diga vovó — tornou gilberte — você conhece o príncipe radziwill?

— que tem hoje esta pequena? que bicho a mordeu? e, antes do

mais, que príncipe radziwill? existe mais de um.

— não sei — disse gigi. — o que vai casar. na lista dos presentes

estão "três guarnições de secretária de malaquita". malaquita, o que é?

— oh! que menina aborrecida! uma vez que ele se casa, deixa de

ser interessante. — mas se titio gaston se casasse também deixaria de ser interessante?

— depende. interessante seria se se casasse com a amante. quando

o príncipe cheniaguine casou com valentine d'aigreville, todo o mundo

compreendeu que o que ele queria era aquela vida mesmo que ela lhe vinha dando há quinze anos, isto é, cenas, pratos atirados à parede, reconciliações em pleno restaurante durand, na praça da madeleine. todo o mundo compreendeu que se tratava de uma mulher que sabia fazer-se apreciar. mas tudo isto é complicado demais para você, minha

pobre

— e você acha que foi para casar com liane que eles partiram juntos?

mme alvarez apoiou a testa na vidraça e pareceu interrogar o sol primaveril que dotava a rua de uma metade fresca e uma quente:

— não — disse ela. — ou então não entendo mais nada de nada.

preciso falar com alicia, gigi. acompanhe-me à casa dela, deixe-me lá

e volte pelo rio. assim você toma ares, posto que hoje em dia parece que é preciso tomar ares. eu nunca tomei ares mais que duas vezes por

ano, em cabourg e em monte cario. e não me sinto mal por naquele dia mme alvarez voltou tão tarde que a família jantou sopa morna e carne fria, e bolos enviados por tia alicia. e, aos "que foi que titia contou?" de gilberte, ela opôs uma cara de manteiga gelada e respostas de bronze.

— contou que vai ensinar você a comer ortolans.

— que chique! — exclamou gilberte. — e que disse do vestido de verão que me prometeu?

— disse que ia ver. e que você não terá razão de queixa.

— ah! — disse tristemente gilberte.

— recomendou também que você fosse almoçar com ela quinta- feira ao meio-dia em ponto.

— com você, vovó?

mme alvarez olhou a garota comprida, sentada ali diante dela, o

rosto de maçãs altas e rosadas, sob uns olhos azuis como a noite, os dentes fortes, mordendo lábios frescos e gretados e a abundância sel- vagem dos cabelos louro-cendrados.

— não — disse ela, afinal. — sem mim.

gilberte levantou-se e passou os braços em volta do pescoço da avó:

vovó, você não me vai pôr.

morando com tia alicia, não? eu não quero sair daqui, vovó! mme alvarez limpou a garganta, tossiu e sorriu:

— meu deus, que menina tola! sair daqui! minha pobre gigi, não é

que eu queira repreendê-la, mas você não toma jeito! À porta de sua casa, tia alicia suspendera, à guisa de campainha, um cordão de contas com folhas verdes de parreira e roxos cachos de uva pintados no fundo. mesmo a porta, de tão envernizada e re- envernizada, parecia molhada e brilhava com um lustro de caramelo- escuro! abria-a um "criado homem" e, desde a soleira, gilberte apreciava, sem discernimento, uma atmosfera de luxo discreto. o

— você disse isso de um

tapete, por sua vez coberto de tapetes persas, dava-lhe asas. tendo mme alvarez declarado que a salinha luís xv da irmã era "o próprio tédio", gilberte repetia "a sala de tia alicia é muito bonita mas é o próprio tédio!" e reservava toda sua consideração para uma sala de jantar toda de limoeiro pálido, datando do diretório, dourada e sem incrustações, enfeitada somente pelas nervuras da madeira transparente como cera. "mais tarde hei de comprar uma destas para mim", dizia gilberte inocentemente.

— isso mesmo, e no faubourg antoine — zombava alicia,

com um sorriso da boca fina, ornada de dentinhos que se mostravam de vez em quando. com seus setenta anos, a velha possuía gostos pessoais, um quarto de dormir cinza-prateado com vasos vermelhos de porcelana da china, um banheiro estreito e alvo, quente como

uma estufa e uma saúde robusta, que ela escondia sob afetações de fragilidade. os homens de sua geração, quando desejavam descrever alicia saint-efflam, perdiam-se em exclamações como "

os que haviam

não há o que dê uma idéia

"ah!, meu caro!

sido íntimos, mostravam fotografias que os mais jovens

achavam medíocres: "era mesmo muito bonita? pela fotografia "

não parece

sonhavam um momento, reconhecendo aquele pulso dobrado em

pescoço de cisne, ou a orelha pequenina, ou o perfil revelador da deliciosa relação entre a boca desenhada em coração e o ângulo bem aberto das pálpebras de longos gilberte foi beijar a bonita senhora que trazia sobre os cabelos brancos uma renda negra, de chantilly e, sobre o corpo um tanto pesado, um vestido de interior de tafetá changeant. — está com dor de cabeça, tia alicia?

— ainda não sei — respondeu tia alicia. — dependerá do

os antigos apaixonados, diante dos retratos,

almoço. venha logo, que os ovos estão prontos. tire o casaco. mas que vestido é este?

— vestido de mamãe reformado para mim. têm algo de

especial os ovos de hoje?

— não. ovos mexidos com pão. também os ortolans não são

complicados. você vai ganhar creme de chocolate — e eu também.

com sua tez jovem, sua renda sobre os cabelos alvos e suas rugas clementes, realçadas de cor-de-rosa, tia alicia bancava a marquesa de teatro. gilberte venerava a tia em tudo e por tudo. sentando-se à mesa, puxou a saia debaixo de si, juntou os joelhos, aproximou dos flancos os cotovelos, fez sumir as omoplatas e ficou tal qual uma senhorita. sabia a sua lição:

partia o pão com delicadeza, comia com a boca fechada e tinha o cuidado de não deixar escorregar o indicador sobre o dorso da lâmina, ao cortar a carne. uma fivela, apanhando-lhe os cabelos na nuca, descobria os contornos suaves da testa, das orelhas e do pescoço, que parecia singularmente forte, dentro da gola um tanto mal-feita do vestido reformado, de um azul triste, com o

corpete franzido sobre uma pala e rematado, para alegrar, com três galões de mohair costurados à barra da saia e três vezes três galões de mohair nas mangas, entre o punho e o ombro. tia alicia, diante da sobrinha, observava-a com seus belos olhos azul-negros e não achava o que censurar.

— que idade tem você? — perguntou bruscamente.

— a mesma de outro dia. quinze anos e meio. titia, que é que

você pensa desta história de tio gaston?

— por quê? isso lhe interessa?

— claro, minha tia. isso me aborrece. se titio arranjar com

alguma outra, não voltará mais lá em casa para jogar piquet e tomar camomila, ao menos durante algum tempo. seria pena.

— esse é um ponto de vista,

com as pálpebras apertadas, tia alicia olhava para a sobrinha com ares críticos. — você está estudando direito, no curso? quem são suas amigas? corte os ortolans em dois, de um só golpe, firme, sem fazer a faca ranger no prato. mastigue uma metade e depois a outra; os ossos não contam.

responda às minhas perguntas sem parar de comer e, ao mesmo tempo, sem falar de boca cheia. dê um jeito. se eu faço, você também pode fazer. quem são suas amigas?

— ninguém, titia. vovó não me deixa nem tomar lanche com a família de minhas colegas.

— ela tem razão. você não tem nenhum namorado? nenhum

funcionariozinho de pasta debaixo do braço? nenhum colegial? nenhum homem maduro? previno que não adianta mentir, eu percebo. gilberte contemplava aquele rosto animado, de velha autoritária, que o interrogava com aspereza.

— não, titia, não tenho ninguém. alguém falou mal de mim?

ando sempre sozinha. e por que é que vovó está sempre me proibindo de aceitar convites?

— desta vez, pelo menos, ela tem razão. só viriam convites de pessoas comuns, o que vale dizer, inúteis.

— e nós não somos pessoas comuns?

— não.

— o que têm os outros de menos que nós?

— têm a cabeça fraca e o corpo imprudente. além disto, são casados. não creio, porém, que você compreenda.

— sim, titia, compreendo que nós não nos casamos.

— não que o casamento nos seja proibido. mas, em vez de casar "já", acontece que a gente se casa "afinal".

— será que isso me impede de freqüentar as meninas de

minha idade?

— sim. você está se aborrecendo em casa? pois aborreça-se

mais um pouco. isso não é mau, ajuda a formar decisões. que é

isso? uma lágrima? lágrima de boba, que não está avançada para

a

tia alicia apanhou com três dedos cintilantes o pé de seu copo

e o ergueu:

— À nossa saúde, gigi. você vai ganhar um quediva com a

xícara de café. mas com a condição de não me molhar a ponta

do cigarro e de não cuspir pedacinhos de fumo, fazendo ptu,

ptu

e eu lhe darei também um cartão para uma das chefes da

casa bechoff-david, uma antiga colega minha que não teve

êxito

petisca.

seu guarda-roupa vai mudar. quem não arrisca não

idade. coma seu ortolan.

os olhos azul-escuros brilharam. gilberte tartamudeava de

alegria:

— tia! titia! de

— choff-david. e eu, que não te julgava coquette?

be

.

.

gilberte corou. — com as roupas que me fazem em casa, não posso ser coquette. — compreendo. será que você tem gosto? e quando você pensa em se embelezar, como é que você se imagina?

— oh!, titia! eu sei perfeitamente o que me ficaria bem. eu

vi

torna

— vulgar.

. criação de mme lucy gérard. centenas de

e

preguinhas, em musselina cinza--pérola, de alto a baixo

depois outro, todo com aplicações azul-lavanda, sobre um fundo negro, de veludo, formando na cauda um leque de pavão

explique-se

sem

gestos;

gesticulando,

você

se

— vi um vestido

brilhou no ar a pequena mão com belas pedrarias.

— basta, basta, já vejo que você dá para se vestir como grande

coquette do français — e você toma isto como elogio i venha servir o café. não, não levante o bico do bule para cortar a queda da gota. prefiro uma lagoazinha no fundo do pires à virtuosidade de garção de café.

a hora que se seguiu passou depressa para gilberte: tia alicia abrira seu cofrezinho de jóias preparando-lhe uma lição deslumbrante.

— que é isto, gigi?

— um diamante navette.

— a gente diz brilhante navette. e isto?

— um topázio.

tia alicia ergueu as mãos e o sol, ricocheteando sobre os anéis, borrifou-as de florinhas azuis. — um topázio! tenho suportado muita humilhação, mas esta ultrapassa tudo! um topázio entre minhas pedras? por que não uma

água-marinha ou um peridoto? isto é um brilhante junquilho, minha tola, e não verá muitos iguais a este. e isto? gilberte entreabriu a boca, pôs-se sonhadora.

— oh!

isso é uma esmeralda. oh! como é linda!

tia alicia enfiou no dedinho a grande esmeralda quadrada e calou- se um momento.

— está vendo — disse ela a meia voz — este fogo quase azul,

correndo ao fundo da luz verde

este milagre de azul inatingível

só as esmeraldas mais belas contêm

— quem foi que lhe deu, titia? — ousou perguntar gilberte.

— um rei — disse tia alicia simplesmente.

— grande rei?

— não, rei pequeno. os grandes não dão pedras muito belas.

— por quê?

furtivamente, tia alicia mostrou o branco dos dentes finos.

— se quer minha opinião, não gostam delas. cá entre nós, os

pequenos também não.

— então quem dá as belas pedras?

— os tímidos. também os orgulhosos. e os malandros também, por

acreditar que, dando uma jóia monstro, provam boa educação. Às

vezes, uma mulher, para humilhar um homem. não use nunca jóias de segunda, espere que venham as de primeira ordem.

— e se não vierem?

— pior. em vez de um diamante mau, use um anel de cem tostões.

nesse caso, diga: "é uma lembrança, que não deixo nem de dia nem de noite". não use nunca jóias de arte; isso desmoraliza inteiramente uma mulher.

— jóia de arte o que é?

— depende. uma sereia de ouro com olhos de crisólito. um

escaravelho egípcio. ametistas gravadas. algum bracelete sem grande

peso, mas que dizem cinzelado por mão de mestre. uma lira, uma

estrela montada em broche, uma tartaruga

enfim! nunca — mas nunca — use pérolas barrocas, nem para alfinete de chapéu. evite também a jóia de família.

horrores,

— no entanto, vovó possui um belo camafeu num medalhão.

— belos camafeus não existem — disse tia alicia, curvando a

cabeça. — existe a pedra preciosa e a pérola. há o brilhante branco, junquilho, azulado ou rosado. dos diamantes negros, não falemos, que

não valem a pena. há o rubi — quando a gente está bem certa dele. a safira, quando é de cachemira, a esmeralda, contanto que não traga na água algum sabe deus o que de claro ou amarelado

— titia, gosto muito, também, de opalas.

— sinto muito, mas você não vai usá-las. a isso, oponho-me eu! espantada, gilberte quedou-se um momento de boca aberta.

— oh!, titia, será que você também acredita que trazem azar?

— e por que não? sua tolinha — continuou tia alicia rapidamente.

vejamos, que poderia eu indicar ainda? nas turquesas, que morrem, no mau olhado

— mas — disse gigi, hesitante. — isso é

é superstição

— claro, minha filha. dizem também que são fraquezas. um bom

lote de fraquezas e mais o medo de aranhas — é a nossa bagagem

indispensável junto aos homens.

— por que, titia?

a velha senhora fechou o cofre, conservando diante de si gilberte, ajoelhada.

— porque nove, entre dez homens, são supersticiosos; dezenove,

em vinte, acreditam no mau olhado e noventa e oito, em cem, têm

. muita coisa, menos estarmos

medo de aranhas. eles nos perdoam

livres do que os inquieta

. por que esses suspiros?

— porque jamais me lembrarei de tudo isso.

— o importante não é que você se lembre, mas que eu o saiba.

— titia, que vem a ser uma guarnição de secretária de

— em qualquer caso, uma calamidade! mas, meu deus, quem te

malaquita?

andou ensinando essas palavras?

— a lista dos presentes dos grandes casamentos, nos jornais, titia.

— bela leitura! enfim, aí você poderá aprender quais os presentes

que não se deve dar nem enquanto falava, ia tocando aqui e ali, com sua unha aguçada, p jovem rosto à altura do seu, levantava o lábio gretado, verificava o

esmalte sem mancha dos dentes.

— belo maxilar, minha filha. com dentes assim eu teria devorado

paris e o estrangeiro. É verdade que comi um bom pedaço. que é isto aqui? uma espinha? você não pode ter espinha nenhuma perto do nariz. e isto? você espremeu um cravo. você não deve ter que espremer cravo nenhum. eu te darei um pouco da minha água adstringente. e, de conservas, você só comerá presunto cozido. não tem usado pó de arroz?

— vovó proibiu.

— ainda bem. você vai regularmente àquele lugarzinho? assopre

no meu nariz. afinal, a esta hora isto não prova nada, acabou de almoçar

pousou as mãos sobre os ombros de gilberte:

— preste atenção no que digo: você pode agradar. tem um

narizinho impossível, uma boca sem estilo, as maçãs do rosto um tanto mujiques

— oh!, titia — gemeu gilberte.

— mas pode superar tudo isso por meio dos olhos, dos cílios,

dos dentes e dos cabelos, se não for completamente idiota. e quanto ao corpo colocou as mãos em concha no peito de gigi e sorriu:

— projeto. mas bonito projeto, bem plantado. não coma muita

amêndoa que isso faz os seios pesados. ah!, lembre-me de lhe ensinar a escolher charutos.

gilberte abriu tanto os olhos que as pontas dos cílios tocaram-lhe nas sobrancelhas. — por quê? recebeu uma palmadinha no rosto.

— porque sim. não faço nada sem razão. se tomo conta de você,

devo olhar por tudo. quando uma mulher conhece as preferências de

um homem, inclusive os charutos, quando um homem sabe o que agrada a uma mulher, estão bem armados um contra o outro

— e então, batem-se — concluiu gilberte com ar finório.

— batem-se como?

a velhinha olhou consternada para gigi:

— ah! —disse ela — não foi você, seguramente, a inventora do

espelho de três faces

mme henriette, da casa bechoff enquanto ela escrevia, sentada num bonheur-du-jour minúsculo e rosado, gilberte respirava o perfume do aposento bem cuidado e, sem cobiça, inventariava aqueles móveis tão familiares quanto mal conhecidos; o amor sagitário que indicava as horas em cima da lareira, os dois quadros galantes, o leito arredondado, com sua coberta de chinchila, o rosário de pequenas pérolas finas e os evangelhos sobre a mesa de cabeceira, duas lâmpadas vermelhas de porcelana da china, contrastando com a pintura —. vai, filhinha, logo tornarei a convocar você. peça ao vitor o bolo para levar. devagar, não me despenteie! e fique sabendo que eu aqui estou, observando sua partida. ai de você se sair em passo de granadeiro ou arrastar os pés!

vem, psicóloga, quero te dar o bilhetinho para

o mês de maio, que trouxe de volta a paris gaston lachaille, dotou

gilberte de dois vestidos bem feitos e de um casaco mais leve — "um

paletó-saco, igual ao de cléo de mérode", dizia ela — além de chapéus e de sapatos. a tudo isto, ela acrescentou uns crespinhos -na testa que a banalizaram. desfilou diante de gaston com um vestido branco e azul que quase chegava ao chão: "tem quatro metros e vinte e cinco a minha saia, só de roda, titio!"

a pequenez da cintura arrochada numa fita de gros giain com fivela

de prata, enchia-a de orgulho. maquinalmente, porém, tentava libertar o belo pescoço musculoso, preso numa gola com barbatanas e do mesmo pano que o corpete pregueado: venise imitation. as mangas e a saia rodada, em seda branca com listas azuis, farfalhavam levemente, e gilberte, um pouco coquette, beliscava o bouffant das mangas sobre o braço, um pouco abaixo do ombro.

— você parece um macaquinho — disse gaston lachaille. —

gostava mais daquela roupa escocesa. estrangulada nessa gola, você está com jeito de galinha que engasgou com o milho. vá se ver um pouco. arrufada, gilberte pediu a opinião do espelho. um caramelo, vindo de nice pelas mãos de gaston, fazia-lhe um caroço na bochecha.

— já ouvi muita coisa a seu respeito, titio, mas quanto a ter gosto

em matéria de vestidos, nunca ninguém me disse nada

. sufocado, gaston mediu de alto a baixo aquela jovem, subitamente uma moça, e desabafou com mine alvarez.

— bela educação! apresento-lhe meus cumprimentos.

com isto, saiu — e sem tomar camomila. mme alvarez juntou as mãos.

— que é que você foi fazer, minha pobre gigi!

— ora — disse gigi — por que é que ele me provocou? agora já

sabe que eu respondo mesmo! a avó sacudia-lhe o braço.

— você não se dá conta, desgraçadinha? meu deus, com que idade

vai você adquirir o uso da razão? eis aí um homem talvez mortalmente

ferido! logo na hora em que a gente se esmera em

— se esmera em que, vovó?

— ora, em fazer de você uma jovem elegante, em mostrá-la sob

luzes favoráveis

— aos olhos de quem, vovó? confesse que para um amigo velho como o titio não é preciso a gente se afobar.

mme alvarez não confessa nada, nem mesmo seu espanto, na manhã seguinte, ao ver aparecer gaston lachaille, jovial, todo de terno claro.

.

— ponha o chapéu, gigi. vamos almoçar.

— onde? — gritou gigi.

— em versailles, no reservoirs.

— chique, chique, chique — cantou gilberte. voltou-se para a

cozinha:

— vovó, eu almoço no reservoirs, com titio! sem mesmo tomar o

tempo de desatar o avental de cetineta floreada que lhe cingia o

ventre, mme alvarez apareceu e interpôs a mãozinha entre o braço de gilberte e o de gaston lachaille:

— não, gaston — disse ela simplesmente.

— como não?

— oh!, vovó! — chorou gigi.

mme alvarez não pareceu ouvi-la.

— vai para o quarto um momento, gigi, quero falar em particular com m. lachaille.

esperou gilberte afastar-se, fechando a porta atrás de si e depois, voltando-se para gaston, suportou sem vacilação um olhar negro e bastante brutal.

— que significa isto, mamita? desde ontem noto coisas mudadas

aqui — por quê?

— sente-se, gaston, faça o favor — disse mme alvarez. — estou

cansada. ai, minhas pobres suspirou, esperou um sinal de interesse que não veio e desatou o avental de babador sob o qual trazia o vestido negro, com seu broche grande de camafeu. designou uma cadeira ao hóspede, e ficou com a

poltrona para si. depois sentou-se pesadamente, alisando os bandos já grisalhos e cruzou as mãos no colo. o lento movimento de seus grandes olhos de um preto ardente, sua facilidade em conservar-se imóvel, faziam julgar que estava muito senhora de si.

— gaston, você sabe a amizade que lhe tenho

.

lachaille repuxou o bigode, permitindo-se um sorrisinho de homem

de negócio.

— amizade e gratidão. mas nem por isso esqueço que tenho a meu

cargo uma alma. como você sabe, andrée não tem tempo nem gosto para se ocupar da pequena. nossa gilberte não é uma menina desempenada, como há tantas. É uma verdadeira

— de dezesseis anos — disse lachaille.

— que logo completará — aprovou mme alvarez. — há anos você

lhe vem dando bombons e brinquedos. ela só jura pelo titio. e aí está

você agora, querendo levá-la de automóvel, a almoçar no reservoirs mme alvarez pôs a mão sobre o seio:

— pelo meu coração e minha alma, gaston, se só se tratasse de

mim e de você, eu diria: "leve onde quiser, eu a confio de olhos

você é mundialmente conhecido.

fechados". mas existem os outros

sair sozinha com você, para uma mulher, é o mesmo que

gaston lachaille perdeu a paciência.

— está bom, está bom, já compreendi. quer que eu acredite que só

por almoçar comigo, gigi ficará comprometida? um pedacinho de mulher como aquele, verde como uma hortaliça, uma garota que nin- guém conhece nem olha

— digamos antes — interrompeu mme alvarez, com doçura — que

você a consagraria. quando você aparece em algum lugar, gaston, sua presença é assinalada. uma moça que sai em sua companhia já deixa

sem mais. nossa

gilberte, porém, ao menos quanto a esse aspecto, não deve deixar de

ser uma moça como as outras. para você, gaston, seria apenas mais um "caso". mas deste, não teria eu a coragem de rir, se o viesse a ler no gil blas gaston lachaille levantou-se e, antes de responder, andou da mesa à porta e da porta à janela.

— pois bem, mamita, não a quero contrariar. não discutirei mais — disse friamente. — fique com sua garota. voltou-se para mme alvarez com o queixo alto:

— entre parêntesis, pergunto eu a mim mesmo, para quem a estará guardando? para algum empregadinho de dois mil e quatrocentos

francos, que casará com ela e lhe fará quatro filhos em três anos? — eu concebo de outra maneira o papel de mãe — disse pausadamente mme alvarez. — farei o possível para não entregar gigi senão ao homem que disser: "encarrego-me dela, assegurarei seu futuro!" terei o prazer de lhe oferecer sua camomila, gaston?

de ser uma moça comum ou mesmo uma moça

— não, obrigado, estou atrasado.

— quer que gigi lhe venha dizer adeus?

— não vale a pena, vejo-a outro dia. não sei quando, ando muito ocupado estes dias.

— não faz mal, gaston, não se incomode por causa dela. bom

passeio, gaston. uma vez sozinha, mme alvarez enxugou a testa e foi abrir o quarto de gigi.

— gigi, você estava escutando atrás da porta!

— eu não, vovó!

— estava sim. não se deve nunca escutar atrás das portas, é o

melhor meio de ouvir atrapalhado e interpretar mal as palavras. m. lachaille já foi.

— estou vendo — disse gilberte.

— então vá esfregar as batatinhas novas num trapo. eu as passarei na manteiga, quando voltar.

— você vai sair, vovó?

— vou à casa de alicia.

— outra vez?

— e quem é você para reclamar — disse com severidade mme alvarez. — melhor fazia indo lavar os olhos na água fria, uma vez que já fez a tolice de chorar.

— vovó

— o quê?

— que é que custa me deixar sair com titio gaston de vestido novo?

— silêncio! você não entende nada de nada. deixe ao menos raciocinar os que disso são capazes. e calce as luvas de borracha para lidar com as batatas. uma lei de silêncio pesou durante a semana toda sobre a casa das

alvarez que, um dia, inopinadamente, receberam a visita de tia alicia. veio num cupê, toda de rendas negras e seda fosca, com uma rosa ao ombro, e conversou com a irmã mais moça, muito preocupada e longe das demais. ao despedir-se, não deu mais que um momento de atenção a gilberte:

— que é que ela queria? — indagou gilberte de mme alvarez.

— oh!

não queria nada. só o endereço do médico que tratou do

coração de mme buffetery. gilberte refletiu um instante:

— demorou — disse ela.

— que é que demorou?

— o endereço do médico. vovó, eu queria um comprimido, estou

com dor de cabeça.

ontem também estava. dor de cabeça não dura quarenta e oito

horas.

É de crer que as minhas não sejam iguais às de todo mundo —

disse gilberte, sentida. ia perdendo um pouco a suavidade. ao voltar do curso, dizia "o professor tem raiva de mim", queixava-se de insônias e escorregava para uma preguiça que a avó antes vigiava de perto que combatia. um dia em que gigi estava ocupada, passando alvaiade em suas botinas de atar, de lona branca, gaston lachaille veio entrando sem bater. tinha os

cabelos longos demais, a pele escurecida pelo sol e estava com um terno de verão, de xadrez baralhado. parou de repente, diante de

gilberte, encarapitada num tamborete alto, de cozinha, e com a mão esquerda enfiada num sapato.

— oh!

vovó largou a chave na porta. É bem coisa dela!

como gaston não dizia nada e a olhava, a moça corou lentamente, pousou a botina sobre a mesa e puxou a saia sobre os joelhos.

— então, titio, você chega como um ventanista! sabe de uma

coisa? você emagreceu. o seu famoso ex-cozinheiro-chefe do príncipe de gales já não lhe dá comida bastante? assim magro, seus olhos fica- ram maiores, mas também o nariz parece mais comprido e

— quero falar com sua avó — interrompeu gaston lachaille. —

suma para o quarto, gigi! por um instante a moça ficou boquiaberta. depois, pulando do

tamborete, estufou o forte pescoço de arcanjo e cresceu para lachaille.

— suma para o quarto! suma para o quarto! e se eu lhe dissesse o

mesmo? está pensando que manda aqui dentro, para me dizer que suma para o quarto? pois bem, é para lá mesmo que eu vou, para o meu quarto! e de uma coisa pode estar certo: é que de lá não saio enquanto você estiver nesta casa! bateu a porta e, teatralmente, passou-lhe o ferrolho.

— gaston! — bufava mme alvarez — hei de exigir que essa menina lhe peça desculpas, sim, eu o exigirei e, se for preciso gaston lachaille não a ouvia, e olhava a porta trancada.

— agora — disse ele — falemos pouco e bem, mamita.

— recapitulemos — disse tia alicia. — ele começou realmente por afirmar: "ela será mimada como "

— como nenhuma outra mulher jamais o foi!

— sim, mas isto é uma frase vaga, como todo homem diz. eu

sou pelas precisões.

— nem elas faltaram, alicia. ele disse que desejava garantir

gigi contra todos os aborrecimentos, até contra ele mesmo, por

um seguro, uma vez que era uma espécie de padrinho dela.

— sim, sim, não está mal. mas é vago, sempre muito vago estava ainda deitada, com os cabelos brancos em cachos sobre o travesseiro cor-de-rosa. preocupada, amarrava e desamarrava a fita da camisola. mme alvarez, pálida e sombria, como a lua e a nuvem, sob seu chapéu matinal, apoiava à cabeceira os braços cruzados.

— ele acrescentou: "não quero fazer nada bruscamente. antes

do mais, sou o melhor amigo de gigi, quero dar a ela tempo de

se habituar comigo

tinha lágrimas nos olhos. disse ainda: "ela

não terá que se haver com um selvagem". enfim, portou-se como

"

um cavalheiro, um verdadeiro cavalheiro.

cavalheiro um tanto vago. e à pequena, você

falou claro?

— falei como devia. não era mais o momento de tratá-la

como a uma criança, de quem a gente esconde os bolos. falei claro, sim. falei de gaston como de um milagre, como de um deus, como

— ttt, tt, tt — criticou alicia. — eu teria antes feito ressaltar

as dificuldades, a cartada que se está jogando, o furor das outras todas, a vitória a conquistar sobre um homem em evidência

— sim

sim

mme alvarez juntou as mãos:

— a dificuldade! o que está em jogo! você pensa que ela se

parece com você? então não a conhece! gigi não tem maldade, ela

— agradecida.

— quero dizer que não tem ambição. fiquei mesmo chocada

de ver que não reagia num sentido nem noutro. nem um grito de

alegria, nem lágrimas de emoção. tudo o que extraí foram uns "

no fim somente é que

ela impôs, como condições

"ah!, sim

é muito gentil da parte dele

— o que nos falta ouvir! — murmurou alicia.

ela mesma responderia às propostas de m. lachaille,

que teria com ele uma explicação, a sós. que, afinal, tudo isto era com ela.

— podemos contar com um bonito arranjo! você deu à luz

uma inconsciente. ela vai pedir a lua e — eu o conheço — ele não lha dará. É às quatro horas que ele vem?

— que

— É

— não mandou nada? nem flores? nem um bibelô?

— não. É mau sinal, você não acha?

— não. É bem o jeito dele. cuida que a pequena se vista com graça. está com boa cara?

— hoje não muito. pobre da minha meninazinha

— ora, ora — disse alicia com dureza. — deixe para chorar outro dia, quando ela tiver posto tudo a perder.

— você não comeu nada, gigi.

— não tinha muita fome, vovó. posso repetir um pouco de café?

— claro que sim.

— e uma gota de combier?

— decerto. o combier é soberanamente estomacal.

pela janela aberta entravam os ruídos e a tepidez da rua. gilberte mergulhava a língua até ao fundo do cálice de licor.

— se tia alicia visse você, agora, gigi — disse mme alvarez.

gigi respondeu apenas com um sorrisinho cínico. seu velho vestido escocês apertava-lhe os seios e, por baixo da mesa, ela espichara as pernas compridas para fora da saia.

— que é que mamãe está ensaiando hoje que não veio almoçar

conosco, vovó? você acha que ela foi mesmo ensaiar na opera

comique?

— pois se foi isso que nos disse

.

— pois eu acho que ela não quis almoçar aqui. — de onde lhe veio essa idéia?

sem afastar os olhos da janela ensolarada, gilberte levantou os ombros:

— oh!, nada, vovó

enxuto o cálice de combier, levantou-se e pôs-se a juntar os

talheres.

— deixa isso, gigi, eu tiro a mesa.

— por que, vovó? estou fazendo como de costume.

fincou nos olhos de mme alvarez um olhar que a velha não sustentou.

— almoçamos tarde, já são quase três horas e você ainda não está

vestida. afinal,

— será a primeira vez que eu necessitaria de uma hora para mudar de roupa.

— não precisa de mim? seu cabelo está bem enrolado?

— está sim, vovó. e quando tocarem, não se incomode, eu irei abrir.

Às quatro em ponto, gaston lachaille tocou três vezes. um rosto infantil e preocupado apareceu na porta entreaberta do quarto, e esperou. depois de mais três golpes impacientes de campainha, gilberte avançou até o centro do aposento. conservara o velho vestido escocês e as meias grossas. esfregou as faces com os punhos cerrados e correu a abrir a porta.

— bom dia, titio gaston.

— não queria abrir, malvada?

passando na porta, esbarraram-se nos ombros e se disseram "oh!, perdão!", com um ar altivo; depois, riram sem jeito.

— sente-se, por favor, titio. imagine que não tive nem tempo de me

vestir. não é o seu caso. em matéria de sarja azul-marinho, não há

melhor.

— você não sabe nada. isto é cheviote.

— É verdade! onde estou com a cabeça? sentou-se em frente dele e puxou a saia sobre

os joelhos. olharam-se. a segurança juvenil de gilberte desfez-se e uma espécie de súplica aumentou loucamente seus olhos azuis.

— que tem você, gigi? — perguntou lachaille a meia voz. — diga- me alguma coisa. sabe por que estou aqui? ela fez que sim, com um grande meneio da cabeça.

— você quer? ou será que não quer? — disse ele, mais baixo.

ela passou para trás da orelha um caracol de cabelo e engoliu a saliva, corajosamente:

— não quero — disse ela.

lachaille apertou as pontas do bigode entre dois dedos e, por um

momento, desviou o olhar daqueles dois olhos azuis ensombrecidos, de uma sarda da face rósea, dos cílios recurvos, da boca ignorante de seu poderio, da pesada cabeleira cendrada, do pescoço torneado como uma coluna, forte, quase masculino, liso e virgem de jóias

— não quero o que você quer — volveu gilberte. — você disse a

vovó

ele avançou a mão, interrompendo-a. tinha a boca meio torta como se os dentes lhe doessem.

— sim, eu sei o que disse a sua avó, não vale a pena você repetir.

eu

diga só o que você não quer. e pode também dizer o que quer

darei

— verdade? — exclamou gilberte.

ele aquiesceu, deixando cair os ombros como quem está moído de cansaço. surpresa, gigi contemplava aquelas confissões de lassidão e tormento.

— titio, você disse a vovó que desejava assegurar meu futuro.

— um belíssimo futuro — disse firmemente lachaille.

— será belo se eu gostar dele — disse gilberte, com firmeza não

menor. — encheram-me os ouvidos com o atraso em que estou para minha idade, mas assim mesmo compreendo o significado das palavras. assegurar meu futuro, quer dizer que eu irei embora daqui.

que eu irei embora com você e que dormirei na sua cama

.

— por favor, gigi

— mas, titio, por que me sentiria constrangida de lhe falar assim se

você não se constrangeu em falar com vovó? também vovó não se constrangeu em me falar. vovó quis me fazer ver tudo cor-de-rosa. mas eu sei mais do que ela disse. sei muito bem que se você me assegurar o futuro, meu retrato vai aparecer nos jornais, terei que ir à

festa das flores, às corridas e a deauville. quando brigarmos, nossa bri- ga será comentada no gil blas e no paris en amour. e quando você me deixar definitivamente, como fez quando se cansou de gentiane de cévennes

— como é que você ficou sabendo disso? quem misturou você com essas histórias?

gravemente, ela inclinou a cabeça. — vovó e fia alicia. elas me ensinaram que você é um homem universalmente conhecido. fiquei sabendo também que maryse chuquet lhe roubou cartas, que você deu queixa contra ela; que a condessa pariewsky não estava contente com você porque você se recusava a casar com uma divorciada e que ela lhe deu um tiro de

revólver

sei o que todo mundo sabe.

lachaille pousou a mão no joelho de gilberte.

— não é dessas coisas que nós dois temos que falar, gigi. isso tudo acabou, passou.

— claro, titio, até o dia em que começar de novo. não é culpa sua,

se você é um homem universalmente conhecido. mas comigo não vai.

puxou para baixo a saia, fazendo escorregar do joelho a mão de gaston.

— tia alicia e vovó estão de acordo com você. mas como, em todo

o caso, trata-se um pouco de mim, quero também dar a minha opinião.

e minha opinião é que isso não me serve. levantou-se e começou a andar de um lado para outro, na sala. o

silêncio de lachaille parecia embaraçá-la e ela pontuava o seu vaivém "

com "pois é", "ora, é isso

— o que eu queria saber — disse gaston, afinal — é se você não

se eu desagrado a

você, era mais fácil dizer logo

— não é isso, titio, você não me desagrada! fico contente sempre

que o vejo! a prova é que eu também quero propor uma coisa: você continuará a vir aqui, como sempre, até mais vezes. ninguém verá nisso nenhum mal, você é amigo da família. há de me trazer alcaçuz,

está procurando esconder que eu lhe desagrado

champanha no dia do meu aniversário, nos domingos faremos um

piquei

esse negócio de dormir na sua cama, para que todo o mundo o saiba,

de perder colares de pérolas, de estar sempre sendo fotografada, e sempre alerta e maquinalmente, ia enrolando um caracol de cabelo em volta do nariz e tanto que sua fala já se tornara fanhosa e a ponta do nariz, violeta.

— uma vidinha muito bonita, sim, senhora — interrompeu gaston

será que isso não é uma boa vidinha? e sem todo

lachaille. — só que você esquece, gigi, que estou apaixonado por você.

— ah! — exclamou ela. — você nunca me disse isso.

— É

. — confessou ele, desajeitado. — pois agora estou dizendo.

gigi continuava diante dele, de pé, com a respiração acelerada, em silêncio. seu embaraço nada escondia dela, nem o pulsar dos dois seios, sob o corpete estreito, nem o rubor magoado, ao alto das faces, nem a palpitação daquela boca fechada, mas destinada a abrir-se e a fruir

— então isso é outra coisa — disse ela, afinal. — mas, então, você

é um sujeito horroroso! está apaixonado por mim e quer me arrastar a uma vida que só me dará aborrecimentos, vida em que todo o mundo mexerica sobre todo o mundo, em que os jornais escrevem

malvadezas

está apaixonado por mim e acha muito natural me meter

em aventuras abomináveis que acabam em separações, brigas, sandomires, revólveres e láudano

estourou em soluços violentos e ruidosos como um acesso de tosse. gaston cingiu-a nos braços, querendo incliná-la para si como um ramo, mas gigi escapou e refugiou-se entre o piano e a parede.

— mas escute, gigi, escute

.

— nunca! não quero ver você nunca mais! nunca esperaria tal coisa

de você

embora daqui! cegava-se, com os dois punhos a esmagar os olhos. gaston a alcançara e procurava, naquele rosto bem defendido, o espaço para um beijo. mas só achava para os lábios a orla de um queixo pequenino,

você não é um apaixonado, você é um homem mau! vá-se

coberto de lágrimas. acorreu mme alvarez, com o barulho dos soluços. pálida e circunspecta, conteve-se, hesitando na soleira da porta da cozinha:

— meu deus, gaston — disse ela. — mas o que é que a menina

tem?

— eh! — disse lachaille — tem que não quer.

— não quer — repetiu mme alvarez. — como, não quer?

— não quer, não. estou falando claro, penso eu?

— não, não quero, não — choramingou gigi. mme alvarez olhou para a neta com uma espécie de terror.

mas é da gente dar com a cabeça na parede! gigi, mas eu gaston, deus é testemunha que eu disse a ela

disse a

— disse até demais — berrou lachaille.

e virou para a pequena um rosto que já não passava do de um pobre homem apaixonado e entristecido. mas gigi só lhe mostrava as costas, sacudidas pelo pranto e a cabeleira em desordem. ele exclamou com voz abafada:

ah! isto também já chega! — e foi-se embora, batendo a porta.

no

dia

seguinte

às

três horas, tia alicia, chamada por um

pneumatique,

saltava de seu cupê, subia ao andar dos alvarez,

imitando o arfar dos cardíacos, e empurrava sem ruído a porta que sua

irmã deixara encostada.

— onde está a pequena?

— no quarto. quer vê-la?

— há tempo. como está ela?

— muito calma.

alicia elevou os pequenos punhos encolerizados.

— muito calma! faz desabar o telhado sobre nossas cabeças e está muito calma. que geração! levantou o veuzinho de pintas e fulminou a irmã com o olhar.

— e você, aí plantada, que é que você pretende fazer?

seu rosto de rosa amarrotada afrontava duramente o grande rosto branco da irmã que, moderadamente, empertigou-se:

— como, o que pretendo fazer? o que não posso é amarrar essa pequena. um suspiro longo suspendeu-lhe as espáduas cheias:

— bem se pode dizer que eu não merecia as filhas que tenho.—

pois lamente-se! lachaille saiu daqui no estado de espírito em que um homem faz todas as asneiras!

— e nem levou a palheta — disse mme alvarez.

— subiu ao carro com os cabelos ao vento. a rua toda o viu!

— se me dissessem que a estas horas está noivo ou fazendo as pazes com liane, não me _ o momento é fatídico — disse lügubremente mme alvarez.

— mas, como foi que ele falou com essa menina, com essa

parasita? mme alvarez apertou os lábios.

— gigi talvez seja um pouco louquinha para certas coisas e

atrasada para a idade, mas não é o que você está dizendo. uma jovem

que chamou a atenção de m. lachaille não pode ser uma parasita. as rendas negras de alicia foram sacudidas por um furioso dar de ombros.

e uma vez calçadas as suas luvas de

pelica, que foi você reprovar, à princesa?

— procurei torná-la razoável. falei da família, mostrei-lhe que

estamos todas atadas à mesma corda, enumerei as coisas que ela podia fazer por ela mesma e por nós

— e de coisas pouco razoáveis, você não falou? não mencionou

amor, viagens, luar na itália? É preciso fazer ressoar todas as cordas.

não lhe disse que o mar do outro lado do mundo é fosforescente, e que há flores com colibris voando em roda, e que se ama sob gardênias, ao lado de chafarizes? tristemente, mme alvarez olhou para a sua vibrante irmã.

— como haveria de falar, alicia? não sei nada disso tudo. o mais longe que fui, foi cabourg e monte cario.

— muito bem, muito bem

— você não sabe inventar?

— eu não, alicia.

calaram-se ambas. alicia fez um gesto decidido:

— vá chamar aquela franguinha. vamos ver.

quando gilberte entrou, tia alicia já havia recuperado sua gentileza de velhota frívola e cheirava a rosa-chá presa perto de seu queixo.

— bom dia, minha gigi.

— bom dia, tia alicia.

— sabe o que inês me contou? que você tem um apaixonado! e que

apaixonado! para uma primeira experiência, é de mestre! gilberte fez que sim, com um sorrisinho de resignação e desconfiança. À curiosidade de alicia, ela oferecia um rosto fresco a que a orla lilás das pálpebras e a boca febril acrescentavam uma espécie de maquilagem. por causa do calor, levantara o cabelo nas

têmporas, com o auxílio de dois pentes que lhe repuxavam o canto dos olhos.

— parece, também, que você anda bancando a malvada e tem experimentado as garras em m. lachaille, menina! gilberte ergueu para a tia olhos incrédulos.

— bravo, sim, senhora! ele será ainda mais feliz por isso, quando você voltar a ser gentil.

— mas, eu sou gentil, titia! só que não o quero — o caso é esse.

— sim, nós sabemos. você o mandou de volta às suas usinas, muito bem. mas não o mande ao diabo que ele é capaz de ir mesmo. em suma, você não o ama. gilberte fez com os ombros um gesto infantil.

— ora, titia, gostar dele, eu gosto. muito.

— É o que eu digo, não o ama. note bem: eu não vejo mal nisso,

assim você conserva toda liberdade de espírito. ah!, não estaria tão sossegada se você fosse louca por ele. e é um belo moreno, o lachaille, tem um belo corpo, basta ver as fotografias de roupa de banho que tirou em deauville. nesse ponto, ele tem reputação firmada. sim, sim, minha gigi, eu lamentaria que você começasse por uma paixão. irem

esquecer tudo nos

os dois sozinhos para o outro lado do mundo

braços do homem que nos ama, escutar o canto do amor numa

primavera

não dizem nada ao seu coração estas coisas? que

acha você disso?

— acho que quando acaba a eterna primavera, m. lachaille vai-se

com outra dama. ou então é a dama, digamos, eu, quem o deixa, e m. lachaille põe-se a contar tudo o que houve. e a dama, suponhamos sempre que seja eu, não tem outra coisa a fazer senão meter-se na cama de outro cavalheiro. não quero. não sou volúvel. cruzou os braços sobre os seios e estremeceu ligeiramente.

— vovó, posso tomar um comprimido? queria deitar-me, estou

com frio.

— idiota! — explodiu tia alicia. — você merece uma lojinha de modas. anda, vai, casa com um expedicionário.

— se você quiser,

mme alvarez apalpou-lhe a testa.

— você está se sentindo mal?

— não, vovó, estou triste.

mas preferia ir deitar.

apoiou a cabeça no ombro de mine alvarez e, pela primeira vez na sua vida, fechou os olhos pateticamente, como uma mulher. as duas irmãs entreolharam-se.

— minha gigi, você bem sabe que ninguém quer atormentá-la a

esse ponto — disse mme alvarez. — não sendo de sua vontade

— o que gorou, gorou — disse alicia secamente. — não se vai falar nisso a vida inteira.

— você não poderá nos censurar — disse mme alvarez — por não

ter recebido conselhos, e dos mais competentes.

— eu sei, vovó. mas assim mesmo estou triste. — por quê?

sobre a face aveludada de gilberte, uma lágrima desceu sem molhá-

la e a moça não respondeu. ao golpe brusco da campainha que tremelicou, gigi levantou-se de um pulo.

— oh! deve ser ele — disse ela. — vovó, é ele, não o quero ver, esconda-me, vovó!

ouvindo a tonalidade baixa e apaixonada da voz, tia alicia levantou

a cabeça e aguçou o ouvido perito. depois correu a abrir a porta e, prontamente, voltou, seguida de gaston lachaille, que vinha empalidecido e com o branco dos olhos turvo.

— bom dia, mamita, bom dia, gigi — disse ele em tom jovial. — não se incomodem, vim buscar minha palheta

não recebendo resposta de nenhuma das três mulheres, a segurança

o deixou:

— ora, afinal bem podiam me dizer uma palavra, nem que fosse só bom dia! gilberte avançou um passo:

— não — disse ela — você não veio buscar palheta nenhuma

porque está com outra na mão. você não anda à cata de palhetas. veio

é me fazer sofrer outra vez.

— isto — explodiu mme alvarez — é mais do que eu suporto!

então, gigi! eis um homem que, escutando somente seu grande

— vovó, com licença, um momentinho só, eu logo acabo

maquinalmente, puxou a saia, ajustou a fivela da cintura e marchou para gaston.

— eu refleti, titio, refleti muito

ele a interrompeu, temendo ouvir o que ela ia dizer:

— eu te juro, minha

— não, não me faça juramentos. refleti que preferia ser infeliz com

você, do que sem você

então

e a moça vacilou ainda, duas vezes:

— então

. é isso. bom

bom dia, gaston.

como de costume, estendeu-lhe a face e ele, um pouco mais

longamente do que de costume, beijou-a, até que a sentiu atenta e depois imóvel e dócil em seus braços. mme alvarez fez como quem ia se precipitar mas a mãozinha impaciente de alicia a reteve:

— deixe. não se meta. não vê que isto já não é da nossa conta?

e mostrava a gigi repousando a cabeça, confiante, no ombro de

lachaille, e derramando sobre ele a riqueza de seus cabelos soltos. o homem feliz voltou-se para mme alvarez. — mamita — disse ele. — faça-me a honra, a mercê, a alegria

infinita de me ceder a mão

.

o menino doente

o menino que ia morrer quis levantar-se um pouco mais alto nos travesseiros e não pôde. susteve-o a mãe, ouvindo seu pedido sem palavras. e o menino destinado à morte teve perto do seu, uma vez mais, o rosto maternal que acreditava já não ver, com seus cabelos castanhos, repuxados nas têmporas, como os das menininhas antigas, a face longa, pouco empoada e um tanto magra, o ângulo muito aberto dos olhos castanhos, tão certos de dominar suas inquietações que esqueciam amiúde de manter-se em guarda — meu garoto está cor-de-rosa esta noite — disse ela alegremente. tinha, porém, impressos nos olhos castanhos um temor e uma fixidez bem conhecidos do menino. evitando suspender a nuca enfraquecida, a criança rolou, para o ângulo das pálpebras, suas pupilas de grandes íris verde-mar e, gravemente, retificou:

— estou côr-de-rosa por causa do abajur. cheia de dor, dona mamãe olhou para o filho e, consigo mesma, censurou-o por ter apagado com uma palavra o róseo que lhe vira nas faces. o menino tornara a cerrar os olhos e, com a aparência do sono, voltara-lhe o semblante de criança de dez anos. "ela pensa que

durmo". sua mãe voltou-se suavemente, como temendo que o

pequeno doente sentisse a ruptura do fio do olhar e deixou-o.

"ele pensa que eu penso que ele

vezes, de se enganar. "ela pensa que eu não sofro", pensava jean.

e, sobre as maçãs do seu rosto, os cílios tiritavam de sofrimento. dona mamãe pensava: "como ele sabe imitar bem uma criança que não sofre! outra mãe se enganaria, mas eu " — vaporizei lavanda. gostas do cheiro? o quarto está perfumado.

a criança fez que sim, sem falar; o hábito e a obrigação de

brincavam assim, às

poupar suas forças haviam-na, finalmente, dotado de um repertório de pequeninos sinais, de uma delicada mímica, complicada como a linguagem dos animais. mostrava-se exímia

no fazer dos sentidos um uso feérico e paradoxal.

para ele, as cortinas de musselina branca, batidas pelo sol das dez da manhã, emitiam um som róseo e a encadernação antiga de uma viagem pelas margens do amazonas, toda de pelica loura, derramava em seu espírito um sabor de massa de pastéis quente. a vontade de beber exprimia-se por três "batidas" de

oh!, na vontade de comer ele nem pensava.

as outras necessidades do corpinho amolentado e desfeito, tinham sua telegrafia pudica e muda. mas naquela existência de criança condenada, tudo o que ainda podia merecer o nome de supérfluo, de prazer ou brinquedo, mantinha-se preso à palavra humana, procurava termos exatos e variados, a serviço de uma voz harmoniosa e como que amadurecida pela doença, e apenas um pouco mais aguda que uma voz de mulher. jean escolhera as palavras convenientes para o jogo de damas, para a "paciência" constelada de bolinhas de vidro, para o trou-madame e para muitas outras distrações desusadas que se serviam do marfim, da

madeira de limoeiro e da marchetaria. outros vocábulos, em sua maioria secretos, aplicavam-se a um baralhinho suíço de cinqüenta e duas cartinhas envernizadas, emolduradas e filetadas

a ouro, como painéis de um salão. as rainhas eram como

pastoras, toucadas com chapéus de palha ornados por uma rosa;

os valetes-pastores traziam seus cajados; mas os reis eram barri-

gudos, corados, tinham olhinhos duros de proprietários montanheses e, por causa deles, jean inventara uma paciência que excluía os quatro monarcas grosseirões. "não, pensou ele, meu quarto não cheira bem. não é a mesma lavanda. acho que, antigamente, quando eu vivia em pé posso ter esquecido". cavalgou uma nuvem de perfume que passava ao alcance das suas narinas pequeninas, brancas e apertadas, e afastou-se rapidamente. sua vida no leito provia-o de todos os deleites da moléstia, inclusive a dose de malícia filial de que as crianças não concordam jamais em privar-se; e quanto a isto, ele não fornecia nenhum esclarecimento. montado na nuvem perfumada, vagueou pelo ar, dentro do

. mas

pálpebras. comer

quarto, e depois, aborrecendo-se, evadiu--se por um encaixe de vidro fosco, existente na bandeira da porta, e foi-se ao longo do corredor, seguido no vôo por uma enorme traça prateada que ia espirrando na esteira da lavanda. para distanciar-se dela, seus joelhos pressionaram os flancos da nuvem de perfume com um desembaraço e um vigor de cavaleiro que, diante dos humanos, recusavam-lhe suas pernas inertes de criança semiparalítica. evadido de sua vida passiva, ele sabia cavalgar, passar através de

muralhas e, acima de tudo, sabia voar. inclinando o corpo como o mergulhador que desce através das ondas, varava displicentemente com a testa um elemento de que já conhecia os recursos e as resis- tências. com os braços abertos, bastava-lhe cortar de viés uma ou outra vaga, para modificar a direção do vôo, e um ligeiro golpe de quadris evitava-lhe o choque da aterrissagem. aliás, ele aterrissava raramente. uma vez, baixara até perto demais da terra, roçando

imprudentemente um prado em que pastavam vacas. tão perto da terra, que vira, diante da sua, uma bela cara espantada de vaca loura, com os chifres em crescente de lua e os olhos a olhar o menino voador como duas lentes de aumento, enquanto as bocas-de- leão, florindo junto à relva, vinham ao seu encontro e cresciam como

. tivera tempo de apoiar com firmeza as mãos nos

longos chifres, para lançar-se para trás, pelos ares, e lembrava-se ainda do calor dos cornos lisos, da sua ponta arredondada e como que benfazeja. os ladridos do cão pastor, úmido de orvalho, que acorrera para proteger a vaca, perdiam-se à medida que o menino voador remontava ao seu firmamento familiar. nitidamente, jean se lembrava de como tivera que esforçar-se, naquela manhã, para retornar através de uma aurora de pervincas, planar sobre uma cidade que dormitava e cair sobre o seu leito laqueado, no fundo do qual tombara de mau jeito, machucando-se muito; uma dor tenaz queimara-lhe os rins, atenazara-lhe os fêmures, uma dor tão forte que não lhe fora possível esconder de dona mamãe dois traços nacarados, de — meu filhinho chorou? — em sonho, dona mamãe, em sonho prontamente, a nuvem de cheiro agradável atingiu o fim do corredor, bateu com o focinho na porta que dava para a cozinha. — ho, ho! ho, ho! que tonta! ah!, essas lavandas mestiças de serpilho! quebram-nos a cara, se não as segurarmos firme. então, é assim que se atravessa uma porta de cozinha?

astros pequeninos

duramente, apertava entre os joelhos a nuvem arrependida e

guiava-a para as regiões superiores da cozinha, lá onde o ar é quente, perto do teto, onde seca a roupa lavada. baixando a cabeça ao passar entre dois panos, jean rompeu com destreza o atilho de um avental e passou-o pela boca da nuvem à guisa de freio. boca nem sempre é boca, mas freio sempre é freio e o que ele freia pouco importa. "aonde vamos? precisamos estar de volta à hora do jantar e já é "

tarde. vamos, lavanda, apressa o passo transposta a porta de serviço, divertiu-se descendo a escada de ponta cabeça, e depois praticou algumas escorregadelas de costas. espantada com o que lhe pediam, a nuvem de lavanda resfolegava um pouco. "agüenta, minha potranca de montanha!", dizia o menino, rindo às gargalhadas, ele, que em sua vida enclausurada não ria nunca! na

descida louca, arrancou, de passagem, os pêlos de um cão da casa, daquele que, ao que se dizia, sabia ir à calçada "fazer suas necessidades" e depois subir para junto de seus pais, e arranhar a porta. surpreendido pela mão de jean, o cãozinho ganiu e grudou-se à parede.

— queres vir conosco, riki? levo-te na garupa!

agarrou o cão com sua mãozinha possante, atirou-o à garupa enfunada e vaporosa da lavanda que, esporeada pelos calcanhares nus, degringolou pelos dois últimos andares abaixo. aí, o cachorro, aterro- rizado, saltou da garupa acolchoada e subiu as escadas, de volta, uivando de susto.

— não sabes o que perdes! — gritou-lhe o menino. — eu também

tinha medo, nos primeiros tempos, mas olha agora, riki! cavaleiro e montaria atiraram-se à pesada porta da rua. para espanto de jean, esbarraram, não com o maleável obstáculo de carvalho complacente, de fechaduras que se derretiam, e grandes

ferrolhos que diziam "sim, sim", girando suavemente nos gonzos; chocaram-se à inflexível barreira de uma voz firmemente cinzelada "

que cochichava: "

sufocado pelo choque, dilacerado de alto a baixo, jean percebeu a

cruel consciência das duas palavras, "que ele, kiele kiele", cortantes

.ceu", cortada

como lâminas. junto a elas, jazia a palavra em três pedaços.

que ele adormeceu

.ceu" repetiu jean. acabou-se o passeio a cavalo, eis o "

não teve nem tempo de perguntar consigo a quem atirava aquele adeus. tinha uma pressa horrível. receava a aterrissagem. À nuvem,

.ceu" enrolado como um gato.

adeus

estafada, faltaram os quatro pés que jamais tivera; antes de se

dispersar, em gotinhas frias, como um meneio de anca inexistente, atirou o cavaleiro ao leito laqueado e jean tornou a gemer àquele contacto brutal.

— dormias tão bem

— disse a voz de dona mamãe.

que voz, pensou o garotinho, toda misturada de linhas retas e linhas curvas — uma curva e uma reta— uma linha seca, outra úmida.

jamais, oh!, jamais ele tentaria explicar tal coisa à dona mamãe. primeiro, porque ela não compreenderia; depois, porque é preciso não inquietar dona mamãe.

— acordaste gemendo, meu querido, era alguma dor?

ele fez sinal que não, agitando da direita para a esquerda seu indicador delgado, branco e bem cuidado. aliás, o sofrimento ia-se

acalmando. tombar naquela caminha um tanto áspera era coisa a que, afinal, estava habituado. e que se podia esperar daquela grande nuvem balofa, com suas maneiras de grosseirona perfumada? "da próxima vez, pensou jean, montarei a grande patinette". assim chamava, nas horas de pálpebras fechadas e de véu interposto entre a clara lâmpada e o abajur, um imenso corta-papéis niquelado, tão grande que, em lugar de um m precisava de dois e mesmo três, para o seu qualificativo.

quero dizer, a

faca de papel, um pouco mais para baixo do abajur? muito obrigado.

jean virou a nuca sobre o travesseiro, preparando com sossego o seu próximo passeio. seus cabelos louros eram cortados bem curto

atrás, para evitar que se emaranhassem. o alto da cabeça, as têmporas e as orelhas eram cobertas de anéis de um louro suave, vagamente esverdeado, louro de lua hibernai, condizente com o verde-mar dos olhos e com o branco-pétala do rosto.

— que lindo que ele é! — murmurava as amigas de dona mamãe.

— parece-se tanto com o aiglon. a isto, dona mamãe sorria com

desdém, sabendo que o aiglon tinha os lábios grossos como os de sua mãe, a imperatriz, e teria invejado os lábios arqueados e afilados nos

cantos que aumentavam a beleza de jean

mas, louvado seja

"sim, sim, tem qualquer coisa

deus, jean não é tuberculoso!" aproximados abajur e corta-papel pela mão hábil de dona mamãe, jean verificou, sobre a larga lâmina cromada, a presença de um reflexo rosado como neve à aurora, sombreada de azul — uma cintilante paisagem de hortelã. depois, pousando a têmpora esquerda sobre o

— dona mamãe, você quer empurrar a grande

e ela dizia com altivez:

talvez a testa

travesseiro firme, escutou, lá dentro, som de gotas e de fontes, produzido pelos fios de crina branca, sob o peso da sua cabeça. entrecerrou os olhos.

— mas, filhinho, está quase na hora do jantar — disse dona

mamãe, hesitando. o menino doente sorriu à mãe, com indulgência. deve-se perdoar tudo aos que têm saúde. aliás, estava ainda vagamente abalado pela

queda. "tenho tempo", pensou, acentuando o sorriso, com risco de ver dona mamãe — diante de certos sorrisos muito bem acabados, por demais carregados de uma serenidade à qual só ela sabia dar sentido — perder o controle e sair do quarto precipitadamente, dando um encontrão no batente da porta.

— meu querido, se isso não te faz diferença, eu jantarei

rapidamente na sala, sozinha, depois que tiveres acabado o teu jantar

— sim, sim — respondeu o pequeno indicador branco e

condescendente, dobrando-se duas vezes. "nós sabemos, nós sabemos", disseram também as pálpebras

bordadas de cílios, piscando duas vezes. "sabemos o que é uma senhora mamãe muito sensível, aos olhos da qual surgem num instante

para as

orelhas, há muitas pedras preciosas. mas brincos de olhos, só dona

mamãe é que os tem, quando pensa em mim. será que ela não vai "

habituar-se comigo nunca? como ela é pouco razoável

dona mamãe inclinava-se e ele se pendurou no seu pescoço, ritualmente, erguendo os braços livres de entraves. ela, orgulhosa da

carga, levantou aquele corpo delgado de criança crescida, o busto fino e as longas pernas, inertes agora, mas que sabiam estreitar e dominar os flancos de uma nuvem ameaçadora. depois, por um momento, dona mamãe contemplou sua obra graciosa e defeituosa, recostada num travesseiro duro, em forma de espaldar, e exclamou:

um par de lágrimas, como um par de pedras

— muito bem! a bandeja do teu jantar já vem vindo. mas é bom eu apressar mandore, que anda sempre atrasada. saiu outra vez.

. mais que tudo, ela sai. não quer deixar-me,

mas não cessa de sair do meu quarto. vai enxugar seu par de lágrimas. ela tem cem razões para sair do meu quarto e, se por acaso as razões

faltassem, eu lhe forneceria mais mil

virando a cabeça com precaução, olhou mandore que entrava. não

era mesmo justo, não era inevitável que — barriguda e dourada,

"ela sai, ela entra

mandore nunca se atrasa."

sonora a todos os impactos, harmoniosa por sua voz bonita e pelos seus olhos lustrosos como a preciosa madeira dos alaúdes — esta forte empregada respondesse ao nome de mandore? "não fosse eu, ainda se

chamaria angelina". mandore atravessou o quarto; e sua saia listada de amarelo e marrom, ao roçar pelos móveis, ia ressoando com amplas sonoridades de violoncelo que jean era o único a perceber. atravessando-a no leito pequenino, pousou a mesinha de pés curtos, coberta por uma toalha bordada, que sustinha a tigela fumegante.

— chegou o jantar!

— o que é?

— primeiro, a fosfatina, é claro! depois

você vai ver

sobre todo o corpo recostado, o menino doente recebeu o consolo

de um olhar capitoso, trigueiro, vasto, refrescante: "que boa essa

como

antes se contivessem um

pouco

olhos, reabrindo-os ao ouvir um tilintar de colheres. colheres de sopa, colheres de mingau, colheres de poção. jean não gostava de colheres, exceção feita de uma de prata, uma bizarra colher de cabo longo e retorcido que acabava numa rodela toda lavrada. "É um quebrador de açúcar, dizia dona mamãe. — e a outra ponta da colher, dona mamãe? "

e, quase

sempre, seu olhar resvalava para um retrato fotográfico do pai de jean, o marido que ela perdera tão jovem: "teu pai querido, jean", e que jean designava friamente, com palavras reservadas ao silêncio e ao segredo: "o cavalheiro pendurado lá na sala". além da colher de absinto — absinto, absinto, ab-santo — jean não gostava senão de garfos, demônios quatro vezes cornudos, sobre os quais se empalavam a almôndega de carneiro, peixinhos convulsionados na fritura, um quadrado de batata com seus dois olhinhos de pepino, uma lua de damasco em quarto crescente, com seu granizo de açúcar.

— não sei bem. creio que era uma colher de absinto

esgotado, sob a carga da universal gentileza, fechou os

cerveja preta dos olhos de mandore! como ela é gentil comigo

são todos gentis em relação a mim "

— jean, querido, abre o bico

obedeceu, fechando os olhos e engoliu um remédio quase insípido,

não fosse por um passageiro, mas inconfessável desenxabimento que

em seu vocabulário secreto, jean chamava a esta

poção de "ravina de cadáveres". nada, porém, o faria arrancar a si estas sílabas medonhas, para atirá-las aos pés de dona mamãe. seguiu-se à inevitável sopa fosfatada, paiol mal--varrido,

disfarçava o pior

calafetado de farinha velha nos cantos. mas a esta perdoava-se tudo,

em atenção ao que boiava de irreal no seu caldo claro, ao sopro floral, ao perfume empoeirado das florinhas que mandore comprava na rua, aos ramalhetes, para dar a jean depressa passou um pequeno naco de carneiro grelhado. "corre, carneirinho, corre, eu faço boa cara, mas desce logo ao meu estômago, inteirinho, que por nada no mundo te mastigo, ouço ainda balir a tua carne e não quero nem saber se estás côr-de-rosa por dentro!"

— jean, você está comendo tão depressa hoje

a voz de dona mamãe tombava lá do alto, da penumbra, talvez daquela cornija de estuque encaracolado, talvez do armário em jean, uma certa e particular mansuetude permitia a dona mamãe

atingir, lá em cima do armário, um clima igual ao da roupa branca da casa. ela subia por meio de uma escada dupla e, depois de invisibilizar-se por trás do batente da direita, descia carregada de gran- des lajes de neve, talhadas na própria altitude. sua ambição limitava-se a esta colheita. jean viu mais longe e mais alto, lança-se sozinho aos cimos cândidos, penetra num par ímpar de lençóis, reaparece na bem arredondada dobra de um par. e que vertigens, que escorregadelas entre guardanapos rígidos e adamascados; e sobre determinada serra de bordado engomado e cercaduras gregas, que roer de ramos de lavanda seca, de flores desfeitas, raízes de íris, grossas e cremosas era de lá, que ele descia ao amanhecer, duro de frio, pálido em seu

meu deus, ele se descobriu de novo,

leito, débil e malicioso:

dormindo! mandore, uma bolsa d'água quente, depressa!" bem bai- xinho, jean congratulava-se por chegar sempre a tempo e, numa invisível página de um certo caderno escondido no recanto ativo e latejante do seu flanco, por ele chamado de "bolso do coração",

anotava as peripécias da ascensão, a queda das estrelas e o tremeluzir alaranjado dos cimos roçados pela aurora

— se estou comendo depressa, dona mamãe, é porque tenho fome.

sim, sim, jean conhece todas as astúcias. pois não é que às simples

palavras, "tenho fome", dona mamãe enrubesce de alegria?

— ah!, meu querido, se isso é verdade, sinto muito só te dar como

sobremesa geléia de maçã. mas eu recomendei a mandore que pusesse um nada de limão e uma casquinha de baunilha para perfumar. resoluto, jean enfrentou a geléia de maçã, acidulada senhorita de província que, como tantas outras, ao acercar-se dos quinze anos, olhava para aquele garoto de dez, com altivez e desdém. É verdade

que recebia o troco. não estava ele armado contra ela? não claudicava àgilmente, arrimado no seu bordãozinho de baunilha? "sempre curto demais, sempre, este bordão", murmurava ele à sua maneira inatingível voltava mandore, e sua saia barriguda, de listas largas, inflava-se de tantos gomos quanto os de um melão. andando, ela fazia soar só para jean, tzrummm, tzrummm, as cordas interiores que eram, a própria alma, a rica harmonia de mandore — já acabou de jantar? com essa pressa, a comida volta. você não costuma comer assim. dona mamãe de um lado, mandore de outro, as duas junto ao leito. "que grandes!" dona mamãe, com seu vestidinho cor de vinho, toma pouco lugar. mas mandore, além da caixa de ressonâncias, tem duas alças arredondadas, as mãos à cintura, que a ampliam. resoluto, jean demoliu a geléia, dispersou-a no prato, relegou-a, em festões, para o friso dourado da louça e mais uma vez a questão do jantar ficou resolvida. há muito tempo descera a noite de inverno. saboreando seu meio copo de água mineral — a água fininha, furtiva e leve que ele

acreditava verde porque a bebia na sua taça verde-pálido — jean cal- culava precisar ainda de um pouco de coragem para encerrar seu dia de doente. viria outra vez a toilette da noite, os cuidados minuciosos e inelutáveis que requeriam o auxílio de dona mamãe e mesmo — tzrumm, tzrummm — a assistência sonora e alegre de mandore; viria a escova de dentes, a luva de esponja, o sabão, tão gostoso, a água morna e mais o conjunto de precauções que preservavam os lençóis das gotas erradias; outra vez as ternas indagações maternais — filhinho, assim não podes dormir; a encadernação do gustave doré, grande, está bem embaixo das tuas costelas, e esta ninhada de volumes pequeninos, com cantos pontudos, espalhados pela cama

toda

— não, dona mamãe, assim mesmo está bom. acabada a toilette, jean lutava contra a embriaguez do cansaço. conhecia, porém, o limite de suas forças e não tentava escapar aos ritos preparatórios da noite, nem aos prodígios que, caprichosa, ela pu-

desse engendrar. temia somente que a solicitude de dona mamãe prolongasse além do possível a duração do seu dia, arruinasse o edifício material de volumes, de móveis, um certo equilíbrio de luz e sombra mantido e acatado por jean, e que lhe custara os últimos esforços até à hora extrema, dez horas. "se ela ficar, se insistir, se

não queres que eu aproxime a mesa?

quiser cuidar de mim depois que o ponteiro grande inclinar-se para a

direita do xii, vou me sentir branco, mais branco, ainda mais branco, meus olhos vão se encovar e nem os não-obrigado-está-bem-dona- mamãe poderei mais responder, e para ela isto é absolutamente "

necessário

sorriu à mãe e a majestade com que a doença assinala as crianças que atinge, nasceu-lhe numa dobra flamejante da cabeleira, desceu às

pálpebras e fixou-se amargamente em seus lábios. era a hora, em que dona mamãe desejaria abismar-se na contemplação de sua obra martirizada e encantadora

vai ser terrível, ela vai soluçar

— boa noite, dona mamãe — disse a criança muito baixinho.

— estás cansado? queres que eu vá embora?

o menino fez mais um esforço, abriu bem seus olhos da cor do mar

bretão e, em todos os seus traços, manifestou a vontade de ser belo e disposto; baixou corajosamente os ombros altos:

— será que estou com cara de menino cansado? diga, dona mamãe!

ela respondeu só com um ar travesso e um sinal de cabeça, beijou o filho e foi-se embora levando consigo gritos de amor refreados, adjurações juguladas, litanias a implorar que o mal retrocedesse, que

desatasse aquelas' pernas longas e fracas, aqueles quadris emagrecidos mas não disformes, e devolvesse ao sangue empobrecido seu livre curso pelas ramificações verdes" das veias

— aqui estão duas laranjas no prato. não precisas de mim para apagar a luz?

— eu mesmo apago, dona mamãe.

— meu deus, onde estou com a cabeça! hoje não tomei tua temperatura.

uma neblina interpôs-se entre o vestido grenat de dona mamãe e seu filho. naquela noite, com mil precauções, jean queimava em febre; tinha no côncavo das palmas da mão um foguinho aceso, nas conchas das orelhas, um wu-wu-wu batendo e, em volta das têmporas, fragmentos de coroa escaldante.

— fica para amanhã cedo sem falta, dona mamãe.

— a pêra da campainha está bem ao alcance de tua mão. tens

certeza que não queres mesmo uma pessoa para fazer-te companhia, nas horas que ficas sozinho, sabes, uma dessas bonitas enfer a última parte da palavra foi estrebuchar numa dobra de obscuridade e jean rolou com ela. "no entanto, era uma dobra pequenina", dizia ele, ao cair, censurando-se. devo ter arranjado uma corcova enorme atrás do pescoço. fiquei feito um zebu. ma xeu bebi;

é eu bem que vi que dona mamãe não cebeu, não, que ela não

percebeu cair nada. estava muito ocupada com tudo o que leva na saia, de noite, quando me deixa: suas pequenas orações, as observações que deve comunicar ao médico, a grande tristeza que lhe dou, não

tudo isto que ela carrega de

noite, arrepanhado na saia levantada e — pobre dona mamãe — que

transborda e rola pelo

que não sou infeliz? ao que parece, um menino de minha idade não pode nem viver deitado, nem estar pálido e privado de suas pernas,

infeliz eu era ainda

quando me levavam a passear na cadeira de rodas. inundavam-me com uma chuva de olhares. eu me encolhia para que me atingissem um pouco menos. tombavam como granizo os "que bonitinho!" e os

"que pena!"

primo charlie, com seus joelhos esfolados, seus sapatões ferrados e

essa palavra, boyscout, metade de aço e metade de borracha, com que

ele me esmaga

eu e a quem chamam, ora minha irmã de leite, ora minha noiva. está aprendendo bailado. ao me ver aqui deitado, alça-se no bico dos pés e diz: "olha como eu faço". mas isto são amolações; chega uma hora, à noite, em que as amolações adormecem. É a hora em que tudo está bem." apagou a luz, e plàcidamente, assistiu surgir em volta de si sua

noturna companhia, o coro das formas e das cores. esperou a eclosão sinfônica e a turba que dona mamãe chamava sua solidão. retirou de sob o braço a pêra da campainha — brinquedo de doente, todo esmaltado de luar — e pousou-a sobre a mesa de cabeceira. "ilumina, agora!" ordenou ele. ela não obedeceu de pronto. a noite, lá fora, não estava tão negra que não se distinguisse o galho extremo de um castanheiro da avenida, desfolhado, pedindo socorro, detrás do vidro. sua ponta intumescida afetava a forma de um débil botão de rosa. "sim, vais tentar outra vez enternecer-me, dizendo que és o broto da estação próxima. mas, bem sabes como sou severo para com tudo o que fala do ano que vem. não "

entres. some. desaparece! como diria meu primo : vai saindo

sua pureza ergueu-se em toda a sua altura, para estigmatizar com mais um sinal aviltante, o primo dos joelhos escalavrados e violáceos

e seu vocabulário esmaltado de "mas é, hein?" "meto o pau, para mim

é sopa, ah! fraquinho!" e sobretudo de "imagine!" e de "compreende!" — como se o pensamento e a agudeza de espírito pudessem deixar de

e essa menina bonita que nasceu no mesmo dia que

e eu, à guisa de alvo. agora, de desgraça, só as visitas do

nem sentir dores — sem ser infeliz. infeliz

que hei de fazer para que compreenda

querendo ninguém comigo de

fugir apavorados, com todas as suas delicadas pernas de grilos sapientíssimos, ante semelhante menino calçado de pregos e barro seco só à vista do primo christian, jean limpava os dedos no lenço como para livrá-los de uma areia grosseira. pois dona mamãe e mandore, interpostas entre o menino e as leituras de baixa espécie, haviam--lhe feito a graça de só conhecer e amar dois luxos: a delicadeza e o sofrimento. protegido, precoce, prontamente ele se apoderara dos hieróglifos da tipografia, e saíra pelos livros afora tão loucamente como cavalgava nuvens, forçando paisagens inscritas sob as superfícies polidas ou reunindo em torno de si tudo o que, para os privilegiados como ele, secretamente povoa o ar. deixara de se servir da caneta de prata gravada com suas iniciais desde o dia em que sua caligrafia amadurecida e veloz enchera de surpresa e, por assim dizer, ofendera o médico de mãos frias: "isto então é caligrafia de criança, minha senhora? — sim, sim, doutor, meu "

filho tem já uma escrita muito segura

e os olhos de dona mamãe

pediam desculpas. "isso não é perigoso, ao menos, doutor?" do mesmo modo, continha-se para não desenhar, temendo as traições, a loquacidade de algum croquis, pois, tendo esboçado o retrato de mandore, com todo o seu teclado de ressonâncias interiores, e a silhueta de um relógio de alabastro galopando velozmente sobre quatro colunas, e mais o cão riki, nas mãos do cabeleireiro de cães, penteado à 1'aiglon, como ele próprio, jean amedrontara-se com a semelhança de seus ensaios e, prudentemente, rasgara suas primeiras obras. — "meu jovem amigo, você não desejaria um álbum com lápis de cor? distrai e é um brinquedo apropriado para sua idade." a esta sugestão, que julgara extramedical, jean respondera apenas com um olhar apertado entre os cílios, olhar grave e viril que media de alto a baixo o médico oferecedor de conselhos. "não seria o barbeiro, meu amigo, que se permitiria dizer semelhante coisa." não perdoava, ao médico, ter ousado interrogá-lo, certo dia, longe da presença materna:

"e por que diabo você chama dona à sua mãe?" para dar resposta, puseram-se de acordo a voz fraca e musical e um olhar irritado e másculo: "não imaginava que o diabo tivesse algo a ver com isso." o gentil ceifador de cabelos desincumbia-se de sua missão de outro modo, contando a jean sua vida domingueira. todos os domingos, ia pescar nos arredores de paris. dando uma cintilante volta com suas tesouras, ensinava de que jeito se atira longe a rolha com a isca. e jean

até fechava os olhos sob o frescor das gotas d'água que se iam ampliando em rodelas, ao cair, quando o pescador erguia vitoriosamente a linha carregada

— quando o sr. sarar, monsieur jean, levo-o comigo para a beira do

rio

— sim, sim — concordava jean de olhos fechados.

"que necessidade têm eles todos de me ver curado? eu estou à beira

do rio. de que me serviria um perxão do tamanho de sua mão ou uma sôlha que nem sua faca de papel?"

— barbeiro, meu amigo, seja gentil, conte mais

e era então ouvir a história das borboletas crepusculares, coladas ao

arco de uma pequena ponte, isca improvisada que permitira capturar "um montão" de trutas, com a ajuda de uma vara de aveleira, tirada de

uma cerca, e de três pedaços de barbantes amarrados um ao outro sob o acompanhamento provocante e fresco das tesouras chilreantes, a história começava:

-— o senhor vai até um miserável braço de rio, estreito como minha coxa, mas que se alarga à medida que atravessa o prado. vê então dois-três salgueiros juntos, um pouco de mato de corte: é ali

"É ali mesmo", repetia jean, consigo: "bem sei que é ali". desde o primeiro dia, jean rodeara os dois-três salgueiros de grandes espigas de agrimônia eupatória, arrancados do álbum botânico, e de cânhamos de flores côr-de-rosa, esse mesmo que atrai e adormece crianças cansadas e borboletas. o salgueiro mais velho fazia caretas só para jean, com sua cara monstruosa e podada, debaixo da coroa de convolvuláceas brancas. um peixe saltando, partia o espelho

ouviu-os o gentil barbeiro,

da água do rio, dois peixes saltando ocupado com suas iscas:

— estão caçoando de mim, esses aí

— não, não — protesta jean — fui eu quem atirou duas pedrinhas .

já os apanho.

n'água

a

raineta canta e a tarde imaginária passa

.

e

sonhava o menino: "a raineta canta, quando ela se escreve com a

e está sentada, invisível, na sua jangada de nenúfar. a outra raineta, a cinzenta, pende redondinha de um galho de macieira — e não canta".

com o sonho, esfurnava-se rio, prado e ceifador de mechas douradas, deixando, na fronte de jean, uma franja loura de cabelos

. acordado, o menino ouvia,

vindo da sala, um sussurro, um colóquio longo e abafado entre dona mamãe e o doutor, de onde fugia uma palavra que, buliçosa e eriçada,

ondulados, um doce e banal perfume

vinha em busca de jean: a palavra "crise". as vezes, vinha toda cerimoniosa, feminina, adornada para a distribuição dos prêmios, com um h atrás da orelha e um y no corpete: "chryse, chryse saluter".

"verdade? É verdade?" dizia, ansiosa, a voz de dona mamãe. "eu disse:

talvez", replicava a voz do doutor, vacilante e mal equilibrada numa "

perna só. "uma crise salutar, mas dura

jovem crioula da américa tropical, graciosa em seu vestido branco com babados. o ouvido sutil da criança recolhia também o nome de outra pessoa,

que certamente convinha manter em segredo. nome incompleto, parecido com alyzie effanti, lysie infantil; e ele acabara acreditando que se tratava de uma meninazinha também acabrunhada por uma dolorosa imobilidade, dotada de duas longas pernas inúteis, e de quem se falava à parte para não lhe provocar o galho extremo do castanheiro, obtemperando à ordem recebida, naufragara dentro da noite com a mensagem da primavera que viria. surda a uma segunda exigência de jean, a campainha em forma de pêra recusava-se a iluminar, com seu fogo opalescente e suavemente delimitado, a mesa de cabeceira com a garrafa de água mineral, o suco de laranja, a grande faca de papel cromada, que incubava sua aurora

alpestre, o relógio míope de cristal convexo e o termômetro

livro sobre a mesa esperava a escolha de jean. os textos impressos, fossem quais fossem seu peso e formato, dormiam fechados ou, abertos, velavam na mesma cama que o menino doente. uma encadernação grande pesava às vezes como um tijolo, sobre suas pernas irrigadas por uma vida tão avara — e ele não se queixava. com os braços ainda válidos, tateou em volta de si trazendo de volta algumas brochuras, esfarrapadas e mornas. de sob o travesseiro, um volume antigo dardejou o chifre amigo. amontoadas como almofadas, as brochuras ajeitaram-se de encontro à pequenina anca do garoto magro e a face infantil e terna encostou-se a uma encadernação de vitela loura que datava de cem anos atrás. sob a axila, jean ve- rificou a presença dura de seu companheiro favorito, um volume troncudo como um paralelepípedo, rezingueiro e robusto, que achava o leito suave demais e, geralmente, ia acabar a noite no chão, em cima do tapete branco de pele de cabra. como bons amigos, encaixavam-se ângulos de papelão, covas, cavidades e reentrâncias de uma frágil anatomia. a machucadura passageira disfarçava a pungência da dor crônica. certos supliciozinhos voluntários, infligidos entre a orelha e a espádua pela

nenhum

chryse saluter-masdura,

vitela loura e chifruda, deslocavam e amenizavam os tormentos

suportados pela mesma região e pelas costas, míseras e pequeninas,

aladas de omoplatas

" de boa-

fé, a criança machucada pensava um instante, e depois respondia

foi que não

foi aquele telhadinho onde apoiei os

foi aquele ancinho grande

e ainda bem

que dona mamãe não viu, no canto de meu olho, o cortezinho, o sinal

do bico daquela andorinha em que esbarrei, no ar

desviar, e ela era dura que nem uma foice. também o céu é tão peque- "

nino

o rumor das suas noites erguia-se, esperando e até familiar, variando conforme os sonhos, a fraqueza, a febre ou a fantasia de um dia que dona mamãe acreditava tristemente semelhante a outros dias. esta nova noite em nada se assemelhava à noite de ontem. a

obscuridade é rica, possui incontáveis tons de negro. "esta noite, tudo

é violeta. dói-me

as costas. mas não, é um peso, são dois pesos que tenho suspensos aos quadris, dois pesos em forma de pinha como os da balança da cozinha. e você? ilumina, afinal, ou não?" para obrigar a pêra de esmalte a obedecer-lhe, apoiou a face sobre a encadernação de vitela loura e estremeceu ao senti-la tão fria: "se ela está gelada é porque estou queimando de febre." e não escorria luz

nenhuma da fruta de esmalte à mesa de cabeceira. "que terá ela? e eu, que terei eu, que hoje à tarde a porta da entrada me resistiu?" estendeu

a mão pelo ar noturno e povoado e, sem tatear, encontrou o fruto

tenebroso. e a luz, caprichosa, mudando de fonte, surgiu no carão míope do relógio esférico. "não te metas nisto", murmurou jean. con- tenta-te com dizer as horas." mortificado, o relógio apagou-se e jean soltou um suspiro de poderio satisfeito. mas, dos flancos endurecidos, não obteve mais que um gemido. logo pôs-se a mugir um vento que ele reconheceu entre todos, o vento que rompe os pinheiros, que descabela os lariços, que

ergue e desfaz as dunas; as imagens interditas ao comum dos sonhos, que não transpõem a franja das pálpebras fechadas, insurgiram-se, qui- seram saltar livres, aproveitar aquele quarto sem limites. algumas, estranhamente horizontais, quadriculavam a multidão vertical das que

se tinham erguido de um salto. "visões escocesas", pensou jean.

que digo? são sempre

não tive tempo de

cotovelos para ver voltarem os carneiros

que me caiu na nuca enquanto eu bebia água na fonte

"que é isto aqui?" perguntava dona

mamãe. "parece um golpe. não posso compreender como

consigo mesma: "aqui desviei daquela árvore

ora, vejamos, é isso mesmo

dói-me, o quê? a testa.

abalado pela ascensão vibrante da grande febre, seu leito tremia levemente. sentiu-se três ou quatro anos mais leve e o medo, que quase não conhecia, o solicitou. pouco faltou para que chamasse:

"socorro, dona mamãe, estão levando seu filhinho". nem nas suas cavalgadas, nem no rico domínio dos sons mais estranhos — sons corcundas, portadores de ampolas ressonantes nas cabeças e sobre as suas costas de besouros, sons pontudos, com focinho de lagosta — em parte alguma o menino vira, suportara, formara um enxame igual, degustado pelo ouvido como se fosse boca, descascado pelos olhos doloridos e encantados. "socorro, dona mamãe, socorro! você bem sabe que eu não posso andar! só sei voar, "

nadar, rolar de nuvem em nuvem

indizível, algo de esquecido, moveu-se em seu corpo, muito longe, numa distância infinda, na extremidade última de suas pernas inúteis, uma desordem de formigas esparsas e perdidas. "socorro, dona mamãe!" outra alma, porém, cujas decisões não dependiam nem da impotência nem dos benefícios maternais, fez um altivo sinal, impondo silêncio. e um constrangimento feérico manteve dona mamãe do lado de lá, no lugar em que ela esperava, modesta e ansiosa, mostrar-se tão valente quanto seu menino. por isso ele não gritou. também os desconhecidos, fabulosos estranhos começavam já seu rapto. surgindo de toda parte, derramaram-lhe quenturas e gelo, o suplício melodioso, a cor como curativo, a palpitação como maça, e ele, já voltado para fugir imóvel para a mãe, optou de súbito e atirou-se ao sabor do vôo, através de brumas e meteoros, de raios que o acolheram macios, fecharam-se,

no mesmo instante, algo de

abriram-se e, quase ao sentir-se perfeitamente feliz, ingrato e alegre, desabrochado em sua solidão de filho único, em seus privilégios de paralítico e órfão, percebeu que uma fissura pequenina, uma fissura triste e cristalina, separava-o de uma felicidade cujo nome côncavo e dourado ele ainda não aprendera — a morte. fissura pequenina, triste e

leve, vinda talvez dalgum planeta para sempre abandonado

claro e pungente, ligado ao menino que devia morrer, erguia-se tão fiel que a evasão deslumbrante em vão o procurava distanciar.

talvez tenha durado muito tempo sua viagem. mas, libertado do sentido da duração, ele só julgava sua variedade. acreditou freqüentemente seguir um guia indistinto e também perdido. então, gemia por não poder assumir uma responsabilidade de piloto, e ouvindo seu próprio gemido de orgulho abatido ou de fadiga imensa,

o som

abandonava seu périplo, deixava a esteira de alguma rajada fusiforme

e se refugiava, encolhido, a um canto. ali o alcançava a angústia de habitar um país sem cantos, sem

substâncias angulosas, uma corrente de ar escuro, uma noite em cujo seio ele já não passava de garotinho perdido, em prantos. levantava-se depois sobre pernas numerosas, subitamente múltiplas e promovidas ao grau de andas, que uma dor cortante ceifava em feixes crepitantes. depois soçobrava tudo e só o vento cego informava-o da rapidez de sua carreira. ao passar de um continente familiar a um mar desconhecido, surpreendia palavras de uma língua que se admirava de

conhecer:

— o ruído do copo quebrado me acordou — a senhora está vendo como ele estala os lábios. não acha que

quer água? gostaria de saber o nome daquela voz. "a senhora, a senhora

que

senhora?" mas já a velocidade sorvia as palavras e sua lembrança. em certa noite pálida, ao sabor de uma pausa que lhe trouxe

vibrações às têmporas, colheu assim algumas sílabas e as quis repetir.

a parada brusca o pusera, dolorosamente, em face de um objeto con-

sistente e ríspido, interposto entre dois mundos nobres e desabitados. um objeto sem destino, finamente listado, eriçado de pequenos pontos

misteriosamente cúmplice — como ele descobriu mais tarde — de "

e

na mesma hora, alado e de ponta cabeça, atirou-se de volta ao caos que o sossegava. de outra vez, viu uma frágil mão. dotada de dedos afilados, a pele um pouco gretada e com manchas brancas nas unhas, ela repelia certa massa maravilhosa, toda zebrada, que corria do fundo do horizonte. jean pôs-se a rir. "pobre mãozinha, a massa engole-a de vez; ora vejam, uma massa toda listada de amarelo e preto, com um ar tão inteligente!" a mãozinha frágil lutava com todos os dedos separados, e as riscas paralelas começavam a distender-se, a divergir e vergar como barrotes moles. entre eles, um grande hiato se abriu engolindo a mão frágil, que jean surpreendeu-se a lamentar. este sentimento retardava- lhe a viagem e, com um esforço, ele se lançou de novo. mas carregava consigo a saudade, comparável ao tilintar de um copo quebrado há muito, muito tempo atrás. daí por diante, quaisquer que fossem os redemoinhos e abismos embalados por inofensivas vertigens, sua viagem foi perturbada por ecos, sonoridades de pranto, a preocupada tentativa do que se assemelhava a um pensamento, e por um

horríveis "meu jovem amigo". "É

e

eu sei

manga

enternecimento importuno. um ladrido seco rompeu subitamente os espaços e jean murmurou:

"riki

madame, ele disse "riki!" outro balbucio disse também: "ele disse riki! "

ele disse riki uma força pequenina, tremulante e dura, da qual percebeu a dupla pressão sob as axilas, parecia querer suspendê-lo para algum píncaro. sentindo-se machucado, resmungou. se pudesse transmitir suas instruções à força pequenina e aos seus ângulos, ensinar-lhe-ia que

não se trata assim um viajante notável, que para ele existem veículos imateriais, corcéis não ferrados, trenós capazes de traçar sulcos de sete

cores ao longo do arco-íris

por

por elementos dos quais só a noite desencadeia e controla o

ímpeto. este ventre de passarinho, por exemplo, recém-pousado contra

e, aliás, não é um ventre de

passarinho, pois se não é coberto de plumas, mas apenas orlado por

uma mecha de pêlos longos

mundo existisse outra face que não fosse a

. "seria uma face", pensou ele, "se no

a sua face, não tem direito algum

que ele só aconselha em ser molestado

"

ao longe, ouviu uma espécie de soluço que repetia: "riki!

quero falar, quero proíbo que me toquem,

mandar embora esta "

proíbo

reunindo forças para falar, aspirou ar pelas narinas. com o ar, penetrou o prodígio, o encantamento da memória, o cheiro de uma cabeleira, de uma epiderme que ele esquecera do outro lado do

mundo, e que precipitava nele uma corrente de lembranças torrenciais. tossiu, lutando contra alguma coisa que crescia e que lhe atava um nó na garganta, mitigava uma sede acocorada ao canto seco dos seus lábios, salgava suas pálpebras transbordantes, e encobria

sobre

uma extensão sem nome, uma voz falou, repercutindo ao infinito:

"meu deus, ele está

e a voz soçobrou

numa espécie de tormenta donde surgiam sílabas desconexas, soluços,

chamadas a alguém presente,

"depressa, venha

misericordiosamente sua volta ao duro leito de aterrissagem

.

esta

falsa

face

está chorando

"

depressa". "que barulhada, mas que barulhada", pensava o menino, censurando. mas, inconscientemente, ia apertando cada vez mais sua

face à suave superfície lisa, limitada por uma cabeleira e bebia ali,

pérola por pérola, um orvalho

voltou a cabeça e encontrou

no caminho um vale estreito, um ninho moldado bem para o seu tamanho. foi o tempo de, consigo mesmo, dar-lhe um nome: "o ombro de dona mamãe" e perdeu os sentidos, ou antes, adormeceu

voltou a si para ouvir a própria voz, leve e um tanto zombeteira. "então, donde vem, dona mamãe?" ninguém lhe respondeu mas a delícia de um gomo de laranja escorregado entre seus lábios sensibilizou-o para o retorno e para a presença daquela que buscava. soube-a inclinada para ele, na doce e submissa atitude que lhe vergava o talhe e fatigava o dorso. depressa esgotado, calou-se. mas já o assaltavam mil cuidados e ele venceu a

fraqueza para satisfazer o mais urgente: "vocês me trocaram o pijama, dona mamãe, enquanto eu dormia? ontem quando eu deitei trazia um azul e este é rosa."

— madame, é incrível! ele se lembra que vestia um pijama azul na

primeira noite em que desprezando o resto da frase que uma voz grande e quente acabava

de cochichar, ele se entregou às mãos que lhe retiravam a roupa umedecida. mãos destras como vagas, entre as quais ele se embalava

sem peso nem desígnio

enrole-o no roupão grande, mandore, sem vestir

as mangas -— o calorífero vai bem, madame, não tenha receio. coloquei uma bolsa quente agora mesmo. ele está ensopado, de verdade

.

— está ensopado

"

pensava jean. "gostaria muito de cocar as pernas, ou então, que me "

tirem estas formigas

"se soubessem donde eu venho

com menos a gente se

— dona mamãe

recolheu o mutismo, a imobilidade vigilante que eram a resposta de

d. mamãe, à espreita:

quer cocar um pouco os meus tornozelos, por

que as formigas do fundo do silêncio, alguém murmurou, com um estranho respeito:

— por favor,

— ele sente

falou em

apertado no roupão grande, tentou dar de ombros. e por que não? falara em formigas. e era assim tão espantoso dizer riki e dizer formigas? um sonho transportou-o, mais leve, aos confins da vigília e do sono, mas um roçar de pano o fez voltar. reconhecendo, por entre

os cílios, bem próxima, a manga odiosa, com seu desenho azul e seus pelinhos de lã, o ressentimento devolveu-lhe forças. recusou-se a ver mais, mas uma voz veio abrir-lhe as pálpebras cerradas, uma voz que "

dizia: "então, meu jovem amigo "enxoto-o daqui, enxoto-o", gritou jean, consigo mesmo. "ele e sua

manga, e seus jovem-amigo e seus olhos pequeninos, eu os maldigo, enxoto-os!" extenuava-se de irritação e ofegava.

— então, que é que há? quanta agitação

ora, ora

veio a mão pousar-se na cabeça de jean e ele, na impossibilidade de revoltar-se, esperou que um olhar seu fulminasse o agressor. mas, sentado à cabeceira, no lugar de dona mamãe, encontrou apenas um bom sujeito meio pesadão, meio careca, cujos olhos se umedeceram ao cruzar os seus.

então? É verdade que sente

formiga nas pernas? É mesmo? pois é gentil de sua parte, realmente

muito gentil

tomar uma colher de sorvete de limão, ou um gole de leite?

a mão de jean abandonou-se ao calor de uma palma, entre dedos

gorduchos e muito macios. murmurou um consentimento confuso, sem que ele mesmo pudesse distinguir se recusava ou se desejava o

sorvete, a bebida ou o leite

escuras, seu olhar, empalidecido e quase cinzento, saudava dois

olhinhos de um azul alegre, dois olhinhos piscadores, úmidos e ternos

o resto daquele tempo novo foi apenas uma aparência de instantes

desordenados, uma mistura de so-nos breves, longos, herméticos, de

sobressaltos precisos e estremecimentos vagos. o bom do médico dissipou-se numa festa de ha-ham, ha-ham, de uma tosse forte e satisfeita, de frases como: "felizmente, minha senhora! estamos salvos!" — ruídos todos de um júbilo tamanho que jean, se não

estivesse derretido de indolência, teria perguntado o que acontecera naquela casa de tão feliz. as horas passavam inexplicavelmente, compassadas por frutas em geléia e leite com baunilha. um ovo quente soergueu sua pequenina tampa, revelando seu botão dourado. a janela entreaberta deixava passar um sopro capitoso, um vinho de

o gentil barbeiro não tivera ainda licença para voltar. desciam pela

testa e pelo pescoço de jean cabelos de menina e dona mamãe arriscou

atar-lhes uma fita rosa que o filho repudiou com um gesto de rapaz ofendido detrás dos vidros, dia a dia, o ramo de castanheiro intumescia seus brotos modelados como botões de rosa e, pelas pernas de jean, corriam formigas, munidas de pequenas mandíbulas beliscantes. "desta vez agarrei uma, dona mamãe!" mas era somente a sua epiderme transparente que ele beliscava e a formiga fugia para o

entre olheiras enormes e sobrancelhas

não quer meio copo de limonada? não era capaz de

— olha o meu garoto

o meu garoto

interior de uma ramagem de veias da cor da relva primaveril. no oitavo dia dos tempos novos, uma grande écharpe de sol tendo-se atravessado sobre seu leito, jean se comoveu mais do que podia

suportar e decidiu que naquela noite mesma a febre quotidiana lhe daria aquilo que há uma semana esperava em vão, aquilo que a fadiga profunda e os sonos, talhados num bloco de negro repouso, afastavam dele: seus companheiros sem rosto, suas cavalgadas, seus acessíveis firmamentos, sua segurança de anjo em pleno vôo

— dona mamãe, por favor, eu queria meus livros

— meu querido, o doutor disse

— não é para ler, dona mamãe, é para eles se habituarem de novo comigo sem dizer palavra, dona mamãe, apreensiva, trouxe os tomos

esfarrapados, o grande tijolo mal encadernado, a pelica loura e macia como pele humana, uma pomologia pintada com frutas bochechudas e

o guérin manchado de leões de cara chata, de ornitorrincos, sobrevoado por coleópteros do tamanho de ilhas

vinda a noite, lastreado de alimentos enfeitiçadores, aos quais concedia o interesse e a avidez das crianças ressuscitadas, fingiu-se arrasado de sono, murmurou desejos, uma canção vaga e maliciosa que recentemente improvisara. espreitou a partida de dona mamãe e mandore e, assumindo o comando de sua jangada de in-fólios e atlas, embarcou. detrás do galho de castanheiro, uma lua jovem denunciava que, graças à estação, os brotos iam-se abrir em folhas digitadas. sem auxílio, sentou-se na cama, rebocando as pernas, pesadas ainda e percorridas por formigas. ao fundo da janela, na água celeste

da noite, banhavam-se juntas a lua recurva e o reflexo indistinto de um

menino de longos cabelos a quem ele dirigiu um chamado. levantou o braço e o outro menino, docilmente, repetiu o gesto de ultimação.

meio embriagado de poderio e maravilhas, convocou seus comensais das horas privilegiadas e cruéis, os sons visíveis, as imagens tangíveis,

os mares respiráveis, os ares nutritivos, as asas que desafiavam pés, os astros que riam convocou principalmente certo garotinho fogoso que, secretamente, estourava de alegria ao deixar a terra, enganava dona mamãe e — senhor de sua alegria e de suas dores — mantinha-a prisioneira de cem ternas imposturas depois esperou, mas não veio nada. não veio nada naquela noite nem nas seguintes, nada, nunca mais. desertara do corta-papel cromado a paisagem de neves rosadas, e jamais o menino voltaria a

planar numa aurora de pervincas, entre os cornos agudos e os belos

olhos redondos de um rebanho azulado pelo orvalho

mandore, toda amarela e marrom, voltaria a ressoar com todas as cordas — tzroumm, tzroumm — zumbindo sob a vasta roupagem sonora. e a serra adamascada que se amontoava lá no armário grande, seria possível que recusasse a uma criança válida, em breve, os prazeres que consentia ao menino entrevado, nos declives de imaginárias geleiras? há um tempo em que é preciso aplicar-se em viver. há um tempo em que se deve renunciar à morte em pleno vôo. com um aceno, jean disse adeus ao seu reflexo de cabelos de anjo, e a saudação foi-lhe devolvida do fundo de uma noite terrestre e despojada de prodígios — a única noite permitida às crianças livres do abraço da morte, às que adormecem de bom grado, curadas e desapontadas.

nunca mais

a mulher do fotÓgrafo

quando aquela a quem chamavam "a mulher do fotógrafo" resolveu pôr fim aos seus dias, aplicou na realização de seu intento uma grande boa-fé, muito cuidado e uma inexperiência total em tóxicos; e graças a deus, falhou. com isso, o prédio inteiro se rejubilou e eu também, apesar de não ser do bairro. mme armand — do atelier armand, fotografia artística e ampliações — habitava no mesmo andar que uma enfiadora de colores de pérolas e era raro eu não encontrar a amável "mulher do fotógrafo" quando ia à casa de mlle devoidy. pois naqueles tempos antigos, como todo mundo, eu tinha um colar de pérolas. uma vez que todas as mulheres desejavam usar pérolas, houve pérolas para todas as mu- lheres e todas as bolsas. que enxoval de casamento teria ousado passar sem "uma volta"? a mania começava com o presente de batizado, um fio de pérolas do tamanho de grãozinhos de arroz. de lá para cá, moda nenhuma apresentou exigência semelhante. a partir de um milheiro de francos, comprava-se um colar "verdadeiro". o meu custara mil francos, o que quer dizer que não chamava a atenção. mas era bem vivo e tinha um alegre oriente, testemunha da sua e da minha boa saúde. não foi por capricho que o vendi, durante a primeira grande guerra. para renovar seu fio de seda, eu não esperava que a necessidade se fizesse sentir. o enfiá-lo servia--me de pretexto para visitar mlle devoidy, conterrânea minha, à distância de algumas paróquias. de vendedora nas "aux mille parures", onde tudo era falso, ela passara a enfiadeira de "verdadeiros". era uma solteirona de mais de quarenta anos que, como eu, conservava o sotaque de nossa terra; agradava-- me, além disso, por causa de um humour reticente que, do alto de uma honestidade meticulosa, zombava de muita coisa e muita gente. quando subia ao seu apartamento, eu dizia um bom dia amável à mulher do fotógrafo que, muitas vezes, encontrava de pé à soleira de sua porta escancarada, diante da porta sempre fechada de mlle de- voidy. a mobília do fotógrafo transbordava para o patamar, começando por um "pé" daqueles bem antigos, um pé de máquina fotográfica de bela nogueira com veios, molduras e, ainda por cima, tríplice. seu volume e caráter de imutabilidade lembravam-me aquelas roscas que,

por volta da mesma época, nos aposentos decorados com algum gosto artístico, eram postas a suster alguma estatueta grácil. fazia-lhe companhia uma cadeira gótica que servia de acessório nas fotografias de primeira comunhão. o nicho de vime, o lulu empalhado e o par de redes caro às crianças vestidas à marinheira, completavam o depósito de acessórios expulsos do atelier. reinava neste patamar terminal um cheiro incurável de pano pintado. no entanto, não era de ontem a pintura do pano de fundo reversível, em camaieu cinza sobre cinza. uma das faces representava uma balaustrada orlando um parque inglês, e a outra, um mar pequenino, limitado ao longe por um porto indistinto, com a linha do horizonte pensa para a direita. estando freqüentemente aberta a porta, eu via a mulher do fotógrafo sempre plantada contra o fundo tempestuoso desse mar enviesado. presumia, vendo-lhe um vago ar de expectativa, que vinha respirar a frescura do último patamar ou espiar se subia algum freguês. mais tarde, soube que me enganava. eu entrava no apartamento fronteiro e mlle devoidy estendia-me uma de suas mãos secas, agradáveis, infalíveis, que ignoravam a pressa ou o tremor, mãos que jamais deixavam cair uma pérola, um carretel ou uma agulha e que, com um torcida firme dos dedos, engomavam a ponta de um fio de seda, passando-o sobre a meia-lua de cera virgem, e enfiavam-no pelo fundo de uma agulha mais fina que qualquer agulha de de mlle devoidy, o que eu vi melhor, apanhado no círculo de luz debaixo do abajur, foi o busto com seu colar de coral sobre a gola engomada e branca e seu sorriso de zombaria contida. possuía um rosto borrifado de sardas, meio chato e que mais servia de moldura e contraste para os olhos, que eram de um castanho de aventurina, penetrantes, pontilhados de ouro e desnecessitados de óculos ou lentes, pois chegavam a contar até essa poeira de pérolas chamada semente, com que se compõem torsades e échctveaux insípidos como miçanga branca, e denominados bayadères. em seu estreito alojamento, mlle devoidy trabalhava no primeiro aposento e dormia no segundo, que precedia a cozinha. Ã entrada, a porta dupla fazia de antecâmara minúscula. quando um visitante batia ou tocava a campainha, mlle devoidy, sem se levantar, gritava:

— entre! a chave gira para a esquerda! teria eu pela minha conterrânea um princípio de amizade? com toda a certeza, gostava de sua mesa profissional, forrada de feltro verde como um bilhar, debruada como mesa de brídge e sulcada de

canaizinhos paralelos ao longo dos quais a enfiadeira arrumava e calibrava os colares, auxiliando-se com pinças delicadas, dignas de. tocar as mais preciosas matérias: a pérola e a asa da borboleta morta. era amiga também das particularidades e surpresas de um ofício que exigia dois anos de aprendizagem, aptidões manuais e o hábito um pouco desdenhoso de lidar com jóias. o delírio do amor às pérolas, que tanto tempo durou, permitia à experimentada enfiadeira trabalhar em casa e à vontade. quando mlle devoidy me dizia, escondendo um bocejo: "fulano e cicrano trouxeram-me ontem montões, foi preciso "

ficar compondo até duas da manhã

feèricamente os "montões" e elevava o verbo "compor" à altura de um trabalho de espírito. desde a tarde, e no inverno também durante as manhãs escuras, uma lâmpada de mesa, dessas que se pode orientar à vontade, permanecia acesa. sua luz forte varria todas as sombras da mesa de trabalho, na qual mlle devoidy não admitia nem o menor vaso de flores, caixinha ou bibelô capaz de esconder uma pérola perdida. até mesmo as tesouras pareciam fazer-se chatas. salvo este cuidado, que mantinha a mesa num estado de nudez estrelada de pérolas, jamais surpreendi em mlle devoidy o menor sinal de desconfiança. colares e sautoirs jaziam desmembrados sobre o tapete verde como apostas desprezadas. — não está com muita pressa? então arrumo-lhe um lugarzinho. divirta-se com o que anda por aí, enquanto enfio seu colar. então, esta fieira está lhe dando muito trabalho? vai ser preciso usar uma agulha. ah! a senhora não aprenderá nunca enquanto zombava de mim, incumbia o seu sorriso de recordar-me nossa origem comum: uma aldeia cercada de bosques, a chuva do outono escorrendo sobre as maçãs amontoadas à beira dos prados, à espera do lagar. e eu, com efeito, me divertia com o que andava pela mesa. Às vezes, eram grandes sautoirs americanos, impessoais e faustosos. as pérolas de cécile sorel misturavam-se às trinta e sete célebres pérolas da polaire. havia ali colares de joalheiros, novinhos e leitosos, não comovidos ainda por uma longa amizade com a pele das mulheres. aqui e acolá, algum diamante montado em fecho despeda- çava arco-íris. mais além, falando em papadas com rugas, tendões de velha e, quem sabe, em gânglios empolados, uma gargantilha de catorze voltas, paliçada de pequenas barras de terá mudado esta estranha profissão? ou continua a lançar, diante de mulheres pobres e incorruptíveis, fortunas indefesas e tesouros aos

minha imaginação fazia crescer

montes?

ao cair da tarde vinha às vezes mme armand sentar-se à mesa verde. por discrição, abstinha-se de manusear os colares e passava sobre eles o seu olhar de pássaro, indiferente e brilhante.

— já acabou seu dia, mme armand? — dizia mlle devoidy.

— oh! o meu dia não é como o do meu marido, não se acaba

quando acaba a luz. tenho o jantar para aquecer, o atelier a arranjar,

coisinhas aqui, coisinhas ali

se era inflexível quando de pé, mme armand não o era menos

quando se sentava. seu busto, arrochado num corpete escocês vermelho e preto, entre os batentes entreabertos de uma jaqueta, fazia- me pensar num armário pequeno. dela emanava uma certa sedução de mulher-tronco. ao mesmo tempo, ela transpirava a amenidade das "caixas" sérias, e algumas outras grandes virtudes.

— m. armand? — tornava mlle devoidy. — que é que faz de bom a

estas horas? — ainda está ocupado, trabalhando no casamento de sábado passado. num negócio pequeno como o nosso, é preciso fazer tudo sozinho. esse cortejo do casamento de sábado está dando muito

trabalho, mas o lucro é apreciável. primeiro o casal, depois as demoiselles d'honneur em grupo, depois o cortejo todo junto, em

quatro poses, sei

mas, também não é o fim do mundo.

eu não o ajudo tanto quanto desejava

. a mulher do fotógrafo voltou-se para mim como para se desculpar.

ao falar, os engomados e diversos outros prestígios do corpete justo, da jaqueta e da gardênia de pano presa à botoeira, fundiam-se ao calor de uma voz agradável, quase sem modulação, feita para contar longamente histórias de bairro.

— meu marido anda cansado por causa de um princípio de

o ano foi ruim demais

para que tomássemos um ajudante. o que me amola é não ter firmeza nas mãos, deixo cair tudo. agora é o pote de cola, daqui a pouco a bacia de banhar chapas, depois, bumba, lá se vai para o chão uma moldura. a senhora imagina o déficit no fim do estendeu para mim a mão que, na verdade, tremia.

exoftalmia, digo exô para ir mais depressa

— nervos — disse ela. — por isso deixo-me ficar nos meu

domínios, trato das coisas da casa. por um lado, parece que isso me faz bem aos nervos, mas

era freqüente ficar naquele "mas", depois do qual vinha um suspiro; e, como eu perguntasse a mlle devoidy se o "mas" não

encerraria alguma história melancólica :

— nem pense nisso — redargüiu minha conterrânea. — a criatura

arrocha-se para ter cintura fina e depois é obrigada a tomar fôlego a

cada instante. com seus traços regulares, mme armand permanecia fiel às golas altas e à franja na testa, pois já lhe haviam assegurado que se parecia à rainha alexandra da inglaterra, só que num tipo mais travesso. ora, mais travesso, aí está o que eu não afirmaria; mais trigueiro, certamente. abundam em paris, e procedentes da própria paris, sem que lhes seja necessário o sangue meridional, as cabeleiras de um negro azulado acompanhadas de narizinhos corretos e peles bem brancas. mme armand possuía tantos cílios quanto uma espanhola, e um olhar de pássaro, isto é, um olhar negro de brilho invariável. o bairro pagava-lhe tributo lacônico e suficiente murmurando "bela mo- rena" à sua passagem. sobre o que a opinião de mlle devoidy punha uma restrição:

— bela morena é o termo

— há dez anos que conhece mme armand?

sobretudo há dez anos.

— não, pois só há três anos ela e gros yeux vivem juntos. eu sou

mais antiga na casa. mas posso imaginar como era mme armand há dez anos. vê-se bem que é mulher que se rala.

— que se rala? isso é forte. não estará exagerando?

um olhar ofendido, cor de minério cintilante, passou por baixo da

lâmpada e veio atingir-me na sombra.

meteu-

se-lhe na cabeça que leva vida sedentária, imagine! todas as noites, antes ou depois do jantar, vai dar um passeio para tomar ar.

— errar é humano, mme armand também pode se enganar

— É um hábito saudável

mlle devoidy apertou os lábios, fazendo convergir os pelinhos

incolores do buço que lhe crescia ao canto dos lábios — justamente como fazem as focas antes de mergulhar, fechando à água o acesso às narinas.

desde que a mulher

do fotógrafo encasquetou que padece sufocações quando não sai — isso basta para que, um dia destes, a encontrem sufocada no patamar.

— os hábitos saudáveis e eu, a senhora

— a senhora raramente sai, não é, mlle devoidy?

— não saio quase nunca.

— e nem por isso se sente mal?

— eu, não. mas não impeço ninguém de viver doutro jeito.

atirou à porta fechada, alvejando uma invisível mme armand, um

olhar carregado de malícia que me fez pensar nas maledicências ferozes trocadas através das cercas pelas guardadoras de rebanhos da minha região, enquanto matam varejas inchadas de sangue no ventre sensível das novilhas sobre uma carreira de pérolas minúsculas, mlle devoidy inclinou sua fronte orlada, no ponto em que terminava a cabeleira castanha, entre a orelha e a face, por uma penugem argêntea e vigorosa, como seu buço. os traços todos desta reclusa parisiense falavam-me de salgueiros acetinados, de nozes maduras, de arenosos leitos de

nascentes, de sedosas cascas de árvore. ela dirigia a ponta da sua agulha, apertada entre o polegar e o indicador meio achatados, para o furo quase invisível de pérolas pequenas, de um branco opaco, que enfiava de cinco em cinco e depois deixava escorregar pelo fio de seda. um punho familiar bateu à porta.

— É tigri-cohen — disse mlle devoidy. — estou reconhecendo o jeito. a chave está na porta, monsieur tigri.

a fisionomia desfavorecida de tigri-cohen aproximou-se da

pequenina arena de luz. era de uma feiúra alegre, às vezes, e às vezes irônica, ora suplicante e ora triste, como a de certos macaquinhos inteligentes demais que, ao mesmo tempo, acham motivo para apreciar os dons humanos e para tremer de medo deles. sempre achei que tigri-cohen muito se constrangia para conseguir aquele ar de negaças, aventura e pouco escrúpulo. dava-se mesmo um chique de agiota a juros altos, talvez por ingenuidade. mas sempre notei que tinha a mão aberta, tanto para o dinheiro pequeno quanto para a "erva graúda", e por isso morreu pobre, no seio de uma honestidade ignorada. conheci-o nos bastidores do music-hall, onde ele passava a maior parte de suas noites. as artistazinhas trepavam-lhe aos ombros como araras ensinadas e tratavam de agradá-lo o mais possível. sabiam que tinha os bolsos cheios de jóias falsas e de pérolas defeituosas, boas somente para o alfinete de chapéu. e ele as enchia de admiração exibindo pedras de má cor e nome bonito, peridotos, calcedônias, crisólitos e zircões ambiciosos. tratava-as por tu, por tu era tratado e assim vendia, entre as dez e a meia-noite, alguns de seus pedregulhos brilhantes. diante das vedettes afortunadas, porém, apresentava-se principalmente como comprador. seu amor pela pérola bonita sempre me pareceu mais sensual ainda que comercial. não esqueço a exaltação em que o vi, um dia em que o

encontrei em seu depósito, conversando com um sujeitinho comum e

indecifrável que tirara de seu colete surrado um lenço de seda azul- celeste e, do lenço, uma única

— ainda está contigo? — perguntou tigri.

— sim — disse o sujeitinho. — mas não por muito tempo.

era uma pérola redonda, não furada ainda, do tamanho de uma cereja bonita e que não parecia recebei* a luz fria, do lado par da rua

lafayette, mas emitir uma claridade igual e velada. tigri a contemplava sem uma palavra; o sujeitinho calava-se.

— ela é

procurou em vão um louvor e levantou os ombros.

— deixa ver? — perguntei eu.

ela é

— começou tigri-cohen.

tomei na palma da mão aquela virgem cálida e maravilhosa, com

seu enigma de cores instáveis, seu tom rosado indecifrável, que adquiria um azul nevoso e depois o trocava por um malva fugidio. antes de devolver a pérola gloriosa, tigri suspirou. depois o sujeitinho extinguiu as doces luzes no lenço azul, meteu tudo no bolso, distraidamente e foi-se.

— ela

— a quem pertence?

tigri estourou, levantando os braços compridos e simiescos.

. ela tem a cor do amor — repetiu tigri.

— a quem pertence? de quem é? vou lá saber? de uns tipos negros,

lá das Índias. de um sindicato de safados. de selvagens, de gente sem

fé sem sensibilidade, sem

— quanto vale?

ele deixou tombar em mim um olhar de desprezo.

— quanto? uma pérola daquelas, uma aurora, circulando ainda de

camisola de cetim azul, no fundo de um bolso de corretor? quanto vale? então é um quilo de ameixas? "três francos, madame. aqui estão, muito obrigado". oh! que barbaridade! sua cara inteira remexia, aquela cara de palhaço apaixonado e feioso, sempre rica de expressão excessiva, de riso demasiado, de exageros de dor. aquela noite, em casa da devoidy, lembro-me que ele estava molhado de chuva e pouco ligava. com um gesto maquinai, explorava os bolsos que encerravam sautoirs de pedras de cor, anéis

de pedra bruta, saquinhos onde dormiam diamantes em invólucros de papel. atirou sobre o pano verde alguns cordões de pérolas:

— toma, devoidy, meus amores; arranja-me isto para amanhã. e achas muito feio? se tirasses a pluma que entope a parte do

enfim, faze o que

meio, podias talvez enfiá-lo numa corda

entenderes. por hábito, inclinou-se sobre o meu colar, com um olho fechado e outro aberto.

— a quarta a partir do centro, eu compro. não? como queiras. adeus, minhas belas. vou hoje à noite à ante-estréia do folies bergère.

— noite boa para negócios — disse polidamente mlle devoidy.

— bem vê que não entendes disso. numa noite destas, elas só

pensam no papel, no vestuário, na cara que lhes faz o público, e em se sentir mal por detrás dos reposteiros. adeus, belas. outros passantes, principalmente outras passantes, batiam a porta e vinham abordar o pequeno círculo de luz dura. e eu os olhava a todos com a avidez que sempre senti em relação aos seres que não corro o perigo de tornar a ver. mulheres adornadas avançavam sob a lâmpada as mãos transbordantes de grãos brancos e preciosos; ou então, com o gesto lânguido e orgulhoso dos que adquiriram o hábito das pérolas, abriam o fecho de seus colares. entre outras, minha memória reteve a imagem prateada de certa mulher coberta de chinchilas. entrou agitada, tão robusta e tão populacheira, em seu luxo, que era até um gosto para os olhos. rudemente, sentou-se no tamborete de palha e ordenou:

— não desfie o colar todo. separe só esta aí, ao lado da do centro;

sim, esta bonita mlle devoidy, a quem não agradavam déspotas, cortou pausadamente dois nós de seda e empurrou para a freguesa a pérola libertada. a bela mulher tomou-a e estudou-a de perto. ali, sob a

lâmpada, eu poderia ter contado seus cílios aglutinados e palpitantes. estendeu a pérola à enfiadeira:

— e a senhora, que acha desta pérola?

— não sou entendida em pérolas — disse mlle devoidy, impassível.

— verdade?

e a bela mulher, com gesto e intenção irônicos, apontou a mesa.

depois, a expressão de seu rosto alterou-se; apanhou um pequeno peso de ferro sob o qual mlle devoidy conservava suas agulhas já enfiadas e precipitou-o sobre a pérola, que se partiu em mil pedaços. mau grado meu, escapou-me um "oh!". mlle devoidy, porém, apenas aproximou

do seu busto, sob suas mãos fiéis, um trabalho inacabado e pérolas esparsas.

a freguesa contemplava sua obra sem dizer palavra. explodiu,

afinal, em lágrimas veementes, soluçando: "cachorro! cachorro!" enquanto recolhia o rimei dos cílios numa ponta de lenço. depois

enfiou na bolsa o colar amputado e reclamou "um papel de seda" no qual encerrou os mínimos fragmentos de pérola falsa e levantou-se. antes de sair, fez questão de afirmar com energia que "aquele negócio

não acabava assim" e carregou para fora os incômodos eflúvios de uma essência novíssima, festejada pela moda: o "junquilho sintético".

— É a primeira vez que a senhora assiste a um espetáculo destes, mlle devoidy? mlle devoidy arrumava de novo sua mesa com mãos cuidadosas e sem tremores.

— não, é a segunda — disse ela. — com a diferença que da

primeira vez a pérola resistiu. era verdadeira. o resto do colar também.

— e que foi que a mulher disse?

— não era mulher, era um homem. ele exclamou: "ah! que

vagabunda!"

— por quê?

— porque o colar era da mulher dele e ela o fizera crer que só

custara quinze francos

questões de pérolas há histórias de todas as tocou com dois dedos seu colarzinho de coral. espantei-me de

surpreender naquela cética um gesto de esconjuro e de entrever uma nuvem de superstição sobre aquela cabeça teimosa.

É mesmo; a senhora não imagina, em

— pois então não gostaria de usar pérolas?

hesitando entre a prudência comercial e a vontade de não mentir,

ela deu de ombros num gesto enviesado.

a gente não conhece nem a si mesma. em coulanges

havia um sujeito, anarquista como ele só, que metia medo a todos; e um dia ele herdou uma casinha com jardim, um pombal redondo e um

— sabe-se lá

chiqueiro

queria que o visse, a estas horas. onde foi parar o seu

anarquismo

reencontrava logo o seu riso contido, sua expressão agradàvelmente sediciosa e seu jeito de aprovar sem baixeza e de criticar sem grosseria. certa tarde em que me demorava em sua casa, ela surpreendeu-me a bocejar e eu me desculpei, dizendo :

nunca tomo chá e almocei mal,

pois a carne estava mal passada e eu não posso com carne sangrenta

— nem eu — respondeu minha conterrânea. — na nossa terra, bem

— estou com uma fome daquelas

sabe a senhora que se diz que a carne crua é só para ingleses e gatos. mas se tiver paciência por cinco minutos, vai aparecer aqui um mille- feuilles, sem que eu me mexa desta cadeira. quer apostar?

— aposto uma caixinha de chocolate de leite.

— está feito — disse prontamente mlle devoidy, estendendo aberta sua mão enxuta, que eu apertei.

— mlle devoidy, como é que sua casa não cheira nunca a peixe

frito, nem a cebola, nem a ensopado? a senhora tem alguma fórmula

secreta?

ela fez que sim com um bater de pálpebras. — posso saber?

três batidas familiares soaram na porta da entrada.

— está chegando seu folhado e meu segredo está descoberto. entre, entre, mme armand. enquanto isto, fechava em minha nuca meu colarzinho burguês. mme armand, atrapalhada com a cesta, custou para me estender os dedos cronicamente trêmulos. falou com precipitação.

. o prato

do dia é carne assada à borgonhesa e trouxe-lhe também um belo pé de alface. quanto ao mil-folhas, é pena ! touxe ameixas cristalizadas. mlle devoidy fez-me uma careta cômica, e quis aliviar da carga sua

vizinha prestativa. esta, porém, exclamou: "levo tudo para a cozinha"

e apressou-se em direção ao aposento escuro. mas quando atravessou

a zona iluminada, mlle devoidy e eu lhe entrevimos o rosto:

— vou-me embora, vou-me embora, que deixei o leite no fogo! —

disse ela, com jeitinho garoto. atravessou correndo a sala da frente e puxou a porta atrás de si.

mlle devoidy foi à cozinha buscar duas ameixas cristalizadas, cobertas de açúcar cor-de-rosa, num prato decorado com uma granada flamejante e a inscrição: "À alvorada dos bombeiros sapadores."

— não há dúvida — disse ela, pensativamente — de que a mulher do fotógrafo andou chorando. e que não há leite no fogo

— esperem, esperem, não me toquem, trago coisa frágil

— cena doméstica?

ela sacudiu a cabeça.

— pobre do velho gros yeux! ele não é capaz disso. nem ela. ora

vejam! como desapareceu depressa a sua ameixa! quer mais? a mim, tirou-me a fome a cara descomposta da mulher de m. armand.

— isso amanhã já passou — disse eu distraidamente.

em troca desta frase tão molenga recebi uma olhadela breve e

cortante.

— passou, hein? e se não passar, pouco se lhe dá, à senhora.

— e então? está achando que não me apaixono suficientemente pelas encrencas do casal armand?

— o casal armand não lhe pede nada, nem eu tampouco. seria a

primeira vez, ora essa, que me veriam pedir a alguém para tentar conter sua irritação, mlle devoidy baixava a voz. Éramos, penso eu, perfeitamente ridículas. mas, graças a esta nuvem

de raiva que surgira entre duas mulheres de sangue vivo, fixaram-se na minha memória os detalhes da tola e imprevista cena. tive o bom senso de, apoiando a mão sobre o ombro de mlle devoidy, pôr fim ao incidente:

— vamos, vamos. não nos façamos de mais idiotas do que somos!

. teme que lhe

aconteça alguma coisa? sob sua pele cor de avelã, mlle devoidy corou e cobriu o alto do rosto com a mão, num gesto romanesco e simples.

não seja muito

gentil

que faço, derreto que nem manteiga descobrindo as belas e úmidas pupilas pontilhadas de ouro, empurrou para mim o tamborete de palha.

— pode ficar ainda um minuto? só um minutinho? está chovendo, lá fora, deixe passar a chuva sentou-se à minha frente, no seu lugar de trabalho e, vigorosamente, esfregou os olhos com os nós dos dedos.

— antes do mais, é preciso notar que mme armand não é mulher de

isto

aqui é um prediozinho de coisa nenhuma, dos da moda antiga. duas peças à direita e duas à esquerda, negocinhos nos quartos, em família . gente que mora assim tão perto — não é que façam barulho, não é que eu os ouça — é que os sinto. sobretudo mme armand que passa tanto tempo no patamar. num lugar como este, quando as coisas não vão bem, os vizinhos não demoram a sentir, pelo menos baixou a voz, cerrou os olhos, os pelinhos do buço rebrilharam e ela espetou na mesa a ponta duma agulha como se, cabalisticamente, estivesse contando as palavras.

mexericos e confidencias. mas mora tão perto, bem aí ao

quando as pessoas são gentis demais, não sei mais o

bem sabe que se eu puder ser útil a essa boa senhora

— agora, a senhora mostra-se gentil

— quando a mulher do fotógrafo sai às compras, para mim ou para

ela, pode-se ver a porteira, a vendedora de flores de debaixo da cúpula, a mocinha do bistro — se não é uma é outra — avançarem para ver onde ela vai. ora, para onde iria ela? vai ao leiteiro, ao cabeleireiro, vai buscar pão quente, como todo mundo! e as curiosas ficam desajeitadas, descontentes, como se lhes tivessem prometido alguma coisa e depois recusado. e na próxima vez, recomeçam. quando sou eu quem sai, ou mme gâteroy lá de baixo, com a filha,

ninguém fica espiando como se se tratasse de algum acontecimento. — mme armand — aventurei eu — tem um físico um tanto tanto pessoal. talvez mesmo abuse do escocês mlle devoidy sacudiu a cabeça e pareceu desistir de fazer-se compreender. estava ficando tarde, as portas fechavam-se em todo o prédio, de alto a baixo; em todos os andares, ajeitavam-se cadeiras em volta das mesas, e dos pratos de sopa. fui-me embora. insòlitamente fechada, a porta do atelier fotográfico conferia um importante papel decorativo ao "pé" de aparelho e ao par de redes de caçar borboleta, cruzadas sob o bico de gás. embaixo, a porteira ergueu a cortina para me ver passar. eu nunca ficara até tão tarde. a noite morna fumegava em volta dos bicos de gás e a hora insólita oferecia-me a pequenina angústia, não desprezível, que antigamente me empolgava à saída dos espetáculos de teatro começados sob o sol a pino e acabados com a noite fechada. merecerão, os meus passantes de épocas longínquas, reviver nestas poucas páginas em que os obrigo, ressurgir? quiseram que os mantivesse secretos, pelo menos durante o tempo em que deles me ocupei. por exemplo: no meu domicílio conjugai ignoravam a existência de mlle devoidy e minha familiaridade com tigri-cohen. o mesmo quanto à mulher do fotógrafo e quanto a uma bordadeira, hábil na arte de recobrir colchas esgarçadas e arranjar pedacinhos de seda multicor em forma de tapetes e cobertas de carrinho de criança. gostaria eu dessa bordadeira por causa de seu trabalho que desprezava modas e máquinas de costura, ou por seu segundo ofício? sim, porque às seis da tarde ela deixava seus hexágonos de seda e ia para a gaîté lyríque, onde cantava uma das partes dos "mosqueteiros no convento". no interior de minha bolsa, entre o couro e o forro, guardei longo tempo uma bolsinha de cinqüenta centavos, perdida em casa de tigri- cohen e que ele, antes de ma devolver, divertira-se em constelar de diamantezinhos, seguindo a forma das minhas iniciais. em minha casa, porém, não falei nem do lindo fetiche nem de tigri, pois meu marido daquele tempo tinha do joalheiro uma idéia tão retangular e inflexível, uma concepção tão falsa e tão banal do "traficante", que eu nem poderia defender a causa de um nem reformar o erro do outro. teria eu verdadeiro afeto pela pequena bordadeira? amaria, com amor de amigo, esse tigri-cohen, tão mal conhecido? não sei. o instinto da dissimulação não roubou para si uma parte muito grande em minhas diferentes vidas. importava-me, isso sim, como a muitas mulheres, escapar ao julgamento de certas pessoas que eu sabia

um

sujeitas ao erro ou inclinadas a certezas que proclamavam em tom de afetada indulgência. tal tratamento leva-nos — a nós, mulheres, a afastar-nos da verdade simples, como de uma melodia chata, sem modulações, para nos comprazermos no seio da meia-mentira, do meio-silêncio e das meias-evasões.

vindo o momento, pus-me de novo a caminho da casa de fachada estreita, em cuja fronte a vidraça azul do atelier armand punha sua viseira inclinada. logo no vestíbulo, barraram-me o caminho um entregador de tinturaria com seu avental preto e uma entregadora de pão, com sua comprida cistera de vime. o primeiro, sem que eu o provocasse, disse- me, prestativo: "não é nada, é uma tempestade num copo d'água". ao mesmo tempo, uma coursière de casa de modas, desceu pela escada abaixo, dando com sua caixa amarela em todos os barrotes da escada, e ganindo:

— está branca como um lençol! não tem uma hora de vida! como por magia, seus gritos agruparam uma dúzia de transeuntes a lhe fazerem perguntas de toda espécie. puseram-se a lutar dentro de mim uma vontade de fugir, uma repugnância vaga e uma curiosidade basbaque; afinal, foi a uma resignação estranha que me entreguei, sabendo muito bem que não me deteria antes do último patamar. por quem? pela mulher do fotógrafo, ou por mlle devoidy? quanto a esta, mentalmente, fui decidindo sua sorte, como se nada, jamais, pudesse pôr em perigo sua sabedoria zombeteira, a firmeza de suas mãos suaves como madeira sedosa, nem dispersar as constelações esbranquiçadas, perfuradas e preciosas, que ela perseguia de agulha em riste pelo pano verde da mesa. enquanto subia a escada, com o fôlego já curto, ia tratando de sossegar. acidente? por que não teria acontecido com as tricoteuses do quarto andar ou com o casal de encadernadores? aquela tarde de no- vembro, carregada de umidade, conservava a força do cheiro da couve, do gás e da humanidade comovida que me indicava o caminho o ruído inopinado dos soluços é desmoralizante. apesar de fácil de imitar, conserva seu prestígio grosseiro, de náusea. enquanto, entre a rampa e um entregador de embrulhos empurrado com demasiada rapidez, eu passava por uma espécie de laminação sorrateira, ouvimos soluços — soluços convulsivos e viris — e os comentários da escada, ávidos, calaram--se. o ruído quase não durou; extinguiu-o alguém, lá

em cima, fechando uma porta. sem ter jamais ouvido soluçar aquele que mlle devoidy apelidara o "velho gros-yeux", não tive dúvidas de que era ele quem soluçava.

atingi afinal o último patamar, atravancado de desconhecidos, entre as duas portas fechadas. abriu--se uma delas e ouvi a voz mordaz de mlle devoidy.

— minhas senhoras e senhores, onde vão desse jeito? isto não é

sensato. para tirar fotografia, já é tarde. ora qual, não houve acidente algum! uma senhora luxou o tornozelo, já lhe puseram uma tala e é só! entre os ascensoristas correram alguns risos e um murmúrio de decepção. pareceu-me, porém, que sob a iluminação crua, mlle devoidy estava com muito má cara. proferiu ainda algumas palavras destinadas a desencorajar o invasor e entrou em seu apartamento.

— ora, se já acabou

— disse o entregador de embrulhos.

para recuperar o tempo perdido, empurrou um empregado de adega, com seu avental de pano verde e mais umas mulheres indistintas, desaparecendo aos saltos; e eu, afinal, pude sentar-me na

cadeira gótica reservada aos que faziam a primeira comunhão. assim que fiquei sozinha, reapareceu mlle devoidy.

— entre; eu já a tinha visto, mas não podia fazer sinais diante de

tanta gente

se me permite, não me desagradaria sentar-me um

como não houvesse outro refúgio senão o lugar a que se habituara

com mais fidelidade, deixou-se tombar na sua cadeira de trabalho.

— agora vai melhor! sorriu-me, com um ar feliz:

— ela vomitou tudo, a senhora sabe? tudo mesmo.

— tudo o quê?

— o que tinha tomado, ora essa! uma coisa para se matar; uma porcaria repugnante.

razões

mas, qual o motivo? ora, o motivo. a senhora quer sempre que lhe apresentem trinta ela deixaria uma carta para o velho gros-yeux.

o motivo? ora, o motivo. a senhora quer sempre que lhe apresentem trinta ela deixaria uma
o motivo? ora, o motivo. a senhora quer sempre que lhe apresentem trinta ela deixaria uma

uma carta? mas o que tinha para confessar?

gradualmente, mlle devoidy recobrava o sangue frio e o seu tom desembaraçado e irônico:

— não se pode esconder nada à senhora! confessar, ela confessava

tudo. confessava: "meu geo querido, não zangues comigo. perdoe-me por deixar--te. na vida e na morte, sou tua georgina fiel". ao lado disto havia outro papelucho que dizia: "está tudo pago, menos a lavadeira que, na quarta-feira, não tinha troco." passou-se isto lá pelas duas e

um quarto, duas e vinte parou de falar, ergueu-se:

— espere, sobrou café.

— se é para mim, não, obrigada.

— É principalmente para mim — disse ela.

vi surgir a popular panacéia, com o aparelha-mento do culto: o bule de esmalte azulado, duas xícaras ornamentadas com uma imagem

grega vermelha e dourada, e um açucareiro de vidro retorcido. fielmente, o odor da chicórea os escoltava, lembrando incômodos

rituais, velórios, partos difíceis, palavras a meia voz, enfim, uma toxicomania ao alcance de todos

— pois então — tornou mlle devoidy — às duas, duas e um quarto,

bateram à minha porta. era o velho gros-yeux, todo atrapalhado, que dizia: "não viu se minha mulher desceu?— não, disse eu, mas pode ter descido sem eu ver. — É, disse ele, eu já devia estar na rua, mas na hora de sair quebrei um vidro de hipossulfito. veja como estão as minhas mãos. - - que desgraça - - disse eu. — sim — disse ele — preciso de um trapo e os trapos estão no quarto de dormir, no armário embutido detrás da cama. — se é só isso — disse eu — não mexa em nada que vou buscar um. não é só isso — disse ele — é que o quarto de dormir está fechado a chave e nunca é fechado a chave. olhei para ele e, não sei o que me passou pela cabeça, levantei-me, quase que o derrubando e fui bater na porta do quarto. ele me dizia: mas, o que tem

a senhora? o que tem a senhora? e eu respondia: — e o senhor, então? não olhou para a própria cara? lá estava ele, de mãos afastadas, cheias de hipossulfito. voltei aqui e apanhei a machadinha de cortar cavacos para acender fogo. a fechadura e os gonzos — garanto-lhe eu —

saltaram de um só

essas portas não valem

bebeu alguns goles de café morno.

— vou mandar pôr uma corrente de segurança na minha — disse

ela. — agora já sei como é frágil uma eu esperava que retomasse o fio da história, mas mlle devoidy estava brincando, distraída com a pazinha de metal com que catava pela toalha as pérolas chamadas sementes; parecia não ter mais o que dizer.

— então, mlle devoidy?

— então, o quê?

— ela, mme armand

. estava no quarto?

— naturalmente que estava! sobre a cama. em sua própria cama. e

de meias de seda e sapatos elegantes, de cetim preto, com um pequeno

bordado em azeviche. aquilo é que me espantou, aquelas meias e sapatos. espantou a tal ponto que, enquanto enchia a bolsa d'água quente, disse ao marido dela: "por que diabos ela se pôs na cama de

meias e sapatos?" ele explicou, soluçando: "É por causa dos calos e do

terceiro dedo do pé, que é acavalado

É tão cuidadosa

com sua pessoa

mlle devoidy espreguiçou-se, bocejou e pôs-se a rir. — ah!, bem se pode dizer que os homens ficam aparvalhados em circunstâncias como estas. aquele, então! só o que sabia era chorar e "

foi sorte eu agir depressa •—

acrescentou cheia de si. afinal, ela está salva! mas o doutor camescasse, que mora no onze, só lhe permite, até nova ordem, um pouco de leite com água mineral. mme armand engoliu veneno suficiente para matar um regimento e parece que foi isto o que a salvou. o velho gros-yeux está de plantão ao lado dela. vou lá dar uma olhadela. a senhora voltará? traga-lhe um buquêzinho de violetas, será mais alegre do que se o tivesse de levar ao cemitério de montparnasse. eu já estava na calçada quando, tarde demais, veio-me ao espírito uma pergunta: por que teria mme armand querido morrer? percebi, ao mesmo tempo, que mlle devoidy esquecera de o contar. nos dias que se seguiram, pensei muito na mulher do fotógrafo e em seu acidente abortado. por extensão, pensei na morte e, por exceção, na minha morte. se eu morresse no bonde? e se morresse durante um jantar na cidade? medonhas eventualidades, mas tão pouco prováveis que logo as abandonei. nós, mulheres, raramente morremos fora de nossas casas; quando uma dor nos derruba, como os cavalos

repetir: "querida, queridinha

pés descalços, nem mesmo eu "

não queria que lhe vissem os

dormia de meias

aos quais se mete um tocha acesa sob o ventre, achamos sempre a força de correr à nossa toca. em três dias, perdi o gosto de escolher a morte mais agradável. e, no entanto, são bonitos os funerais no campo, especialmente em junho, por causa das flores. só que as rosas logo

estava nisto quando um bilhete de mme ar-

mand com boa ortografia e uma letra linda, eriçada que nem um cãozinho tenerife — lembrou-me a "boa promessa" e convidou-me para "o chá". no último patamar, cruzei com um casal de idade madura, que saía do atelier do fotógrafo; iam de braço dado, ele, envergando sua jaqueta debruada e sua gravata de plastrão e ela, toda de faille preta. o velho gros-yeux é que os vinha acompanhando e eu procurei os sinais de suas fogosas lágrimas nas suas pálpebras grossas. ele me fez uma

murcham com o calor

saudação entendida e jovial. — as senhoras estão no quarto. mme armand ainda sentia certa fadiga generalizada e achou que a senhora desculparia de a receber assim, intimamente guiou-me através do atelier, dizendo uma palavra cortês a propósito de minhas violetas — "são tão distintas as violetas de parma" — e deixou-me à entrada do quarto desconhecido. cá em nosso estreito planeta, só temos escolha entre duas espécies de universos desconhecidos. uma delas nos tenta — ah!, que sonho viver ali! — a outra é-nos irrespirável, sem reservas. em questão de mobiliário, uma certa ausência de feiúra me faz maior mal que a própria feiúra. o conjunto do aposento em que mme armand saboreava sua convalescença não continha monstruosidade alguma mas me

forçou a baixar os olhos e eu não acharia prazer algum em o descrever. meio estendida, ela repousava sobre a cama feita, a mesma cujos lençóis havia desfeito, para morrer. sua solicitude, ao acolher-me, tê- la-ia posto em pé, não fosse mlle devoidy, que a reteve com seu pulso firme de anjo da guarda. era novembro e o calor pálido da rua não chegava até ali. mme armand protegia-se do frio com uma coberta pequena, vermelha e preta, feita de crochê, de um ponto chamado tunisino. não gosto de ponto tunisino. mme armand, porém, estava com boa cara, as faces menos áridas e os olhos mais brilhantes que nunca. a vivacidade de seus movimentos deslocou as cobertas, mostrando dois pés finos, calçados de sapatos de cetim preto e bordados — como mos havia descrito mlle devoidy — de contas de azeviche. -— mme armand, um pouco de calma, por favor — ordenou gravemente o anjo da guarda. — mas eu não estou doente — protestou mme armand. — estou sendo mimada, isso sim. meu exô paga-me uma arrumadeira para a manhã, mlle devoidy nos faz um bolo quatre-quarts e a senhora me traz umas violetas soberbas! vida de preguiçosa! querem provar uma geléia de groselha afromboesada, com o quatre-quarts? £ o último

vidro do ano passado e, sem me gabar

este ano, eu não consegui

acertar a receita; também as ameixas na aguardente, eu acabei este ano estraguei sorriu, como quem faz uma fina alusão. por causa do brilho sem variedade de seus olhos pretos, fazia-me lembrar sempre não sei que pássaro; agora, porém, era um pássaro tranqüilo, descansado, dessedentado sabe-se lá em que sombria

— neste negócio, entre mortos e feridos, todos se salvaram —

concluiu mlle devoidy. saudei com uma piscadela de cumplicidade aquela sentença vinda

diretamente da nossa terra natal e saudei também, uma depois da outra, uma xícara de chá bem preto e um copo de vinho com gosto de alcaçuz. o que não tem remédio, remediado está. não me sentia à vontade. não é assim às pressas que a gente se acostuma a evocar, sob

a luz franca de uma tarde, um suicídio ainda da véspera, transformado,

é verdade, em purgativo — mas preparado para que a suicida não

voltasse a si. tentei acertar o passo com a gente da casa, gracejando.

— quem acreditaria que a encantadora senhora aqui diante de nós é

a mesma que se mostrou tão pouco razoável, outro dia? a encantadora senhora acabou seu triângulo de bolo, antes de fingir

certa confusão e responder, duvidosa e coquette:

muita coisa eu poderia

dizer a respeito disso mlle devoidy cortou-lhe a palavra. ao que parecia, seu primeiro

salvamento outorgara-lhe autoridade militar.

pouco