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NÃO GOSTO DE PLÁGIO

UM BLOG DE UTILIDADE PÚBLICA CONTRA PLÁGIOS DE TRADUÇÃO


03/08/2009
um pouco de justiça

de volta das férias, o nãogostodeplágio retoma suas atividades com uma boa
notícia:

em junho já tinha sido instaurado um inquérito criminal sobre os plágios de


tradução, por determinação do ministério público estadual de são paulo.

agora em julho a promotoria de justiça do consumidor do estado de são paulo acatou


representação de joana canêdo e determinou a abertura de um inquérito civil sobre
as fraudes cometidas pela editora martin claret.

imagem: plagiarius

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17/07/2009
plágio, tolerância zero

priscila manhães, perpetuação dos segundos

POSTADO POR DENISE 2 COMENTÁRIOS


09/07/2009
colabore

17 de julho: dia do antiplágio.

dê sua colaboração, divulgue, tuíte, blogue, passe adiante.

toque de lúcio pimentel

imagem: thief and pig

POSTADO POR DENISE 2 COMENTÁRIOS


06/07/2009
17 de julho

17 de julho, dia do antiplágio. colabore.

toque dado por lúcio pimentel

imagem: till eulenspiegel

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05/07/2009
julho

o nãogostodeplágio está saindo de férias.


voltamos em agosto!

imagem: indo passear

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04/07/2009
para acompanhar
neste material de arquivo você encontra notícias, artigos e comentários em
jornais, revistas, sites e blogs sobre os plágios de tradução.

A vida de Tiago A., Pietro Nassetti, quem é você?


ABI, ABI recebe denúncia de plágio em obras literárias
Aletria, Nova Cultural é acusada de plágio
Amigos do livro, Editora plagiou traduções de clássicos
Amigos do livro, Ministério Público investiga plágios
Antonio Fernando Borges, "Histórias da Meia-Noite"
Às moscas, Tradução, sacação, traição
Blog da Redação, Editora investigada por plágio
Blog da Rouanet, Artigo publicado no blog "não gosto de plágio"
Blog da Sheyla, Direito autoral do tradutor
Blog de maurorosso, Isso é grave
Blog do C.J., Chocalho e batuques, Martin Claret e o plágio
Blog do CineSemana, Acusações de plágio e muito deixa pra lá no mundo editorial
brasileiro
Blog do Daniel, Kafkas
Blog do Galeno, Contra o plágio
Blog do Galeno, Na justiça
Blog do Galeno, Os posts que mais repercutiram
Blog do Galeno, Os posts que mais repercutiram 2
Blog do Vassil, O plágio da Martin Claret
Brasil que lê, Contra o plágio
Brasil que lê, Notícias interessantes
Cadê o revisor?, Do desjejum à ceia
Cadê o revisor?, Escândalo
Café Arte & Ofício, Bulletin Board
Café Colombo, Tradutores fazem abaixo-assinado
Caixa de Pandora, Mulheres alencarinas
Caixa de Pandora, Um requisito de cidadania
Carbonno 14, A divina comédia
CBL, Editora de SP é acusada de plagiar mais duas obras
Contraduções, Plágios e tradução
Cronópios, Peterso Rissatti, "Mãos ao alto, tradutor!"
De gustibus, Plágio, uma praga pior que a saúva?
Desciclopédia, Editora Martin Claret
Diggs, Plágio
Direito Penal, A arte de plagiar
Encontro cultural, Tradutores protestam contra plágios
Estante Virtual, Fórum
Estante Virtual, Todo livreiro deveria (2)
E-Zone online, Eu não gosto de plágio
Filisteu, Martin Claret
Filisteu, Martin Claret: bad publisher, very bad. No cookie for you
Filisteu, Três perguntas sobre a Martin Claret
Flanela Paulistana, A vida deu pra trás? Abre uma editora
Flanela Paulistana, Plágios de tradução
Folha de Pernambuco, Plágio?
Folha de S.Paulo, Crítico literário notifica editora em caso de plágio
Folha de S.Paulo, Crítico vê plágio de versão de Quintana
Folha de S.Paulo, Editora Globo pede indenização em caso de plágio
Folha de S.Paulo, Editora plagiou traduções de clássicos
Folha de S.Paulo, Ministério Público investiga plágios
Folha de S.Paulo: Nova Cultural pagou indenização
Folha de S.Paulo, Painel do leitor
Folha de S.Paulo, Plágio leva L&PM a processar editora
Folha de S.Paulo, Tradutores protestam contra plágios
Futuro do jornalismo, Plágio editorial
Gaveta do autor, Martin Claret plagiou traduções de clássicos
Gaveta do autor, Pseudotraduções: dinamite pura
Hardmob, Traduziram um livro de Machado de Assis para o... português
I don't mind a rainy day, Nunca mais vou ver tv
Imprimis, Ivan Emilianovitch, uma denúncia
Ivo Barroso, Flores roubadas do jardim alheio
Ivo Barroso, Um Cyrano sem penacho
Jane Austen em português, A palavra é... A palavra deveria ser...
Jane Austen em português, Plágio de traduções de Jane Austen
Jornal A Tarde, Os autores ainda não conhecem seus direitos
Jornal A Tarde, Tradutores são vítimas de plágio
Jornal Caiçara, Assinado: Tradutores
Jornal O Comércio, Em favor da honestidade editorial
Jornal O Globo, Muito em comum
Jornal Opção, A República da pirataria
Jornal Opção, As traduções de O Leopardo
Jornal Opção, Editora de SP é acusada de plagiar mais duas obras
Jornal Opção, Editora plagia tradução antiga de clássico
Jornal Opção, Jornal Opção denunciou plágio em primeira mão
Jornal Opção, Jornal Opção na Piauí
Jornal Opção, Pirataria em série
L&PM, Blog não gosto de plágio denuncia falsas traduções ;
L&PM, L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
L&PM, Tradutora apela ao Ministério Público contra plágios e fraudes em traduções
Leituras, Uma estadia no inferno
Lendo.org, E-books? Pirataria? Que nada, o problema está nas editoras
Lendo.org, Lista de plágios da Nova Cultural
Lendo.org, Memorial
Ler, pensar e escrever, Traduzir é criar
Ler, pensar, escrever, Não gosto de plágio ;
Li e guardei, O que foi e é notícia
Literatsi, Martin Claret na justiça de novo
Literatsi, Ministério Público investiga casos de plágio
Livraria 30porcento, Já ouvi falar de algumas péssimas traduções ... mas cópias...
assim já é demais!
Livros e afins, Notas e links
Livros e pessoas, Plagiadores
Marcelo Bueno de Paula, Assinado: Tradutores
Marconi Leal, Darwin 200 anos
Margarete de Toledo Ressurreição, Proteção autoral do tradutor ainda não é
respeitada
Maria Clara Livros, Plágio em traduções
Meia Palavra, A Terra do Cópia-Cola e o Tradutor Ninja
Meia Palavra, Plágio de tradução
Meu Jornal, Ministério Público investiga plágios
Minimalidades, Sobre o Prefeito que Enfrentou os Poderosos
Mondolivro, Plágio cultural
Monitorando, Pseudotraduções da Martin Claret
Mosaico, "Crime e castigo", de Fiódor Dostoiévski
Na prática a teoria é outra, Guerra dos tradutores
Na prática a teoria é outra, Troféu "Clássico é clássico, e vice-versa" 2008:
Pietro Nassetti
Newsletter.hette, Mais lenha na fogueira da Nova Cultural
Noves fora, Agradecimentos
Noves fora, Jane Austen em mãos erradas ,
O Comércio, Em favor da honestidade editorial
O Corvo, A indústria é pirata também
o horror, o horror
o pensador selvagem, a usucapião autoral
Observatório da imprensa, Ministério Público investiga plágios
Observatório da imprensa, O nome do tradutor
Observatório da imprensa, Plágio na Germinal
Oficina de teatro, Martin Claret
Página 9, Da Roma de Virgílio a São Luís de Odorico Mendes
Papel de rascunho, Plágios em tradução
Para Sempre Poe, O gato preto e suas aparições
Para Sempre Poe, O gato preto e suas aparições 2
Para Sempre Poe, Poe no Brasil
Penetralia, Homenagem a Pietro Nassetti, um super-homem
Perfeição, Martin Claret: pura picaretagem editorial?
PoeBrasil, Poe na mídia
Poeta Salutor, "Não Gosto de Plágios"
Ponto de Tradução, 17 de Julho, Dia Mundial do Antiplágio
Ponto de Tradução, Movimento Internacional
Ponto de Tradução, Plágio
Portal Literal, Não gosto de plágio
Portal Vitruvius, Abaixo-assinado de profissionais da tradução
Portal Vitruvis, Abaixo-assinado denuncia práticas editoriais inadequadas
Portal Vitruvius, Tradutores fazem abaixo-assinado contra plágios em traduções
literárias
Prosa online, A primeira tradução de Machado de Assis para o... português
Prosa online, Plágios, tradutores e índios
Publishnews, Clipping
Publishnews, Contra o plágio
Publishnews, Dia de comemoração para os tradutores
Publishnews, Ministério Público investiga plágios
Recanto das palavras, Editora acusada de plágio
Recanto das palavras, Novo caso de plágio em tradução
Recomende-me um livro, Atenção, leitores!
Revista Piauí, O pega-pega da Arte da Guerra
Simplicíssimo, Juventude, identidade e crise
Super Flumina, Do plágio em tradução a algumas leituras difíceis
Tal a fuga, A praga do plágio
Talqualmente, Por falar em debates interessantes
Taverna Fim do Mundo, Sobre traduções e por que eu fujo delas
The Spectacled Bear, Brazilian Translator of Jane Austen Accused of Plagiarism
Tradutor Profissional, A Denise e a metempsicose tradutória
Tradutor Profissional, Assim, não pode ficar!
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé II
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé, cada vez mais misterioso
Tradutores e Intérpretes, Nosso apoio à nossa colega Denise
Tradutores e Intérpretes, Primeiros Frutos (Não Gosto de Plágio)
Traduzindo o juridiquês, Uma tradução do Bruxo do Cosme Velho? comentários
Traduz-se, Nao ao plágio
Tribuna Impressa, Da tradução: movida a malvadezas & escândalos
União Brasileira de Escritores, UBE, Movimento Assinado-Tradutores
Veja, Ladrões criativos
Vermelho.Carne, Hoje, nosso dia!
Véspera de nada, Como se portar em uma livraria
Véspera de nada, Este blogue está em campanha
Walter Cruz, Dia do tradutor
Wikipedia, Editora Martin Claret
Zero Hora, Entrevista: Jorio Dauster, Tradutor
Zero Hora, Mundo Livro, Tradutores, traidores (literalmente)

arquivo atualizado em 05/07/09


imagem: www.sublackwell.co.uk

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03/07/2009
hard facts
leio a folha de s.paulo online. aqui na minha cidade é difícil encontrar o jornal.
então, no dia 29/6, ao ler online a matéria sobre os plágios, encomendei um
exemplar impresso, que recebi ontem. e por isso só ontem vi que a matéria também
trazia uma magnífica charge e uma vasta manchete de primeira página na ilustrada:

plágios em livros viram caso de polícia

notícia de jornal pode ser volátil, mas os fatos não são.


quem não viu a matéria, veja agora: não faz mal que saiu na semana passada - o
fato é um marco histórico, e a coisa vai longe.

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animais, irracionais
comentei antes que o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribulada, e
foi publicado na frança em sucessivas edições corrigidas e ampliadas, que variam
de 73 a mais de 500 verbetes. mostrei também que a publicação dessa obra pela
martin claret, como de hábito plagiando traduções anteriores, é além do mais uma
montagem grotesca de diferentes traduções disponíveis em português, provenientes
por sua vez de diferentes edições francesas.

uma das mais ridículas fraudes que a editora utilizou nesta obra foi o plágio do
mesmo verbete em duas traduções distintas. assim, por exemplo, o artigo bêtes
aparece na tradução de líbero rangel de tarso com o título de irracionais. já a
tradução portuguesa de bruno da ponte e joão lopes alves usa o título animais. a
editora martin claret tem o despudor de copiar ambas as traduções como se fossem
dois verbetes independentes de voltaire.

o leitor de boa fé, que naturalmente confia no livro que está lendo, chega à
conclusão de que "essa questão de crueldade contra os animais ... foi tão
veementemente combatida por VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são
dedicados dois verbetes: o primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

com suas tortuosas e sinistras táticas de anular a obra e a figura do tradutor por
trás de cópias e simulacros, fantasmas e vendilhões de carne e osso, a editora
martin claret acaba por demonstrar cabalmente que cada obra de tradução tem uma
identidade própria. diga-se de passagem que essa identidade é protegida pelo
código civil e pela legislação dos direitos autorais. e é por isso que as práticas
ilícitas maciçamente empregadas pela editora martin claret são "caso de polícia",
valendo-lhe a instauração de inquérito policial por determinação do ministério
público do estado.

seguindo o mote do duplo verbete no estropiado dicionário filosófico da editora


martin claret, apresento sua própria demonstração prática da impossibilidade de
existirem duas traduções iguais.

I.
ANIMAIS

Imbecilidade é afirmar que os animais são máquinas destituídas do conhecimento e


de sentimentos, agindo sempre de igual modo, e que não aprendem nada, não se
aperfeiçoam e daí por diante!
Talvez seja... Nesse caso esse pardalzinho que constrói o ninho em semicírculo
quando o prende a uma parede, que o constrói num quarto de círculo quando o faz
num ângulo e em círculo num ramo de árvore – faz sempre de maneira igual? O cão de
caça amestrado, que ensinaste a obedecer-te durante três meses, porventura não
estará sabendo mais ao término desse período do que sabia no início das lições?
Dedicando-te a ensinar uma melodia a um canário, será que ele repete-a logo no
mesmo instante? Por acaso não levarás um certo tempo até o animalzinho a decorar?
Veja [sic] como ele se engana, com freqüência, e só vai se corrigindo com o tempo?
Apenas por eu ser dotado de fala é que julgas que tenho sentimentos, memória,
idéias? Ora, nada te direi. No entanto, vês-me entrar em casa com um ar
preocupado, aflito, andar a procurar um papel qualquer com nervosismo, abrir a
secretária onde me recorda tê-lo guardado, encontrá-lo afinal, lê-lo
jubilosamente. Imaginas que passei de um sentimento de aflição para outro de
prazer, que sou possuidor de memória e conhecimento.
Agora, pegue [sic] esse teu raciocínio, por comparação, e transfere para aquele
cão que se perdeu do dono, que o procura por todos os lados soltando latidos
dolorosos, que entra em casa, agitado, inquieto, que sobe e que desce, percorre as
casas, umas após outras, até que acaba, finalmente, por encontrar o dono de que
tanto gosta no gabinete dele e ali lhe manifesta a sua alegria pela ternura dos
latidos, em pródigas carícias.
Esse animal, que excede o homem em sentimentos de amizade, é pego por algumas
criaturas bárbaras, que pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo ainda, para te
mostrar as veias mesentéricas. No corpo deste animal encontras todos os órgãos das
sensações que também existem em ti. Acaso ainda atreve-te a argumentar, se fores
capaz, que a natureza colocou todos estes instrumentos do sentimento no animal,
para que ele não possa sentir? Dispõe de nervos para manter-se impassível? Será
que não te ocorre ser por demais impertinente essa contradição da natureza?
Os mestres-escola perguntam todavia o que é e onde está a alma dos animais? Eu
estranho tal pergunta. Pois que uma árvore tem a propriedade de receber nas suas
fibras a seiva que nelas circula, de desabrochar os botões e criar os seus frutos,
e ainda me haveis [sic] de perguntar o que é a alma dessa árvore? A árvore é
beneficiária de alguns dons, como o animal é beneficiário de outros, dos do
sentimento, da memória, de um certo número de idéias. Todavia, quem criou todos
esses dons? Quem lhes concedeu todas essas faculdades? Só pode ser aquele que faz
crescer a erva nos campos e gravitar a Terra em torno do Sol.
Aristóteles afirmou: As almas dos animais são formas substanciais. Posterior a
Aristóteles, a escola árabe; depois da escola árabe, a escola angélica; e, depois
da escola angélica, a Sorbonne, e, depois da Sorbonne, mais ninguém no mundo.
Outros filósofos proclamam: As almas dos animais são materiais. Sem, contudo,
obter mais sucesso que os primeiros. Sempre em vão é que se lhes perguntou o que é
uma alma material. Viram-se forçados a convir que é matéria passível de sensações.
E quem foi que deu tal matéria? Trata-se de uma alma material, quer dizer, trata-
se de matéria que dá sensações à matéria – e não saem deste círculo vicioso.
Agora, prestem [sic] atenção a outros animais discutindo a respeito de animais. A
alma destes é um ser espiritual que morre com o corpo. Que provas tendes [sic]
disto? Que idéia fazeis desse ser espiritual que, por conseguinte, experimenta
sentimentos e sensações, memória, e a sua dose de idéias e de combinações de
idéias, mas que nunca poderá vir a saber o que é uma criança de seis anos? De que
forma imaginais que esse ser, que não tem corpo, pereça com o corpo? Entretanto,
de todos, os maiores animais continuam sendo aqueles que afirmaram que a tal alma
não é corpo nem espírito. Que sistema engenhoso! Nesse caso apenas podemos encarar
como espírito algo de desconhecido que não é corpo. Logo, o sistema destes
cavalheiros vem a concluir que a alma dos animais é uma substância que não é corpo
nem outra coisa qualquer que seja ainda menos que um corpo.
De onde se originam tantos e tão contraditórios despautérios? Só pode ser do
hábito que os homens sempre tiveram de examinar e definir o que é uma coisa, antes
de saber se ela existe. É costume denominar-se à lingüeta, que é a válvula dum
fole, a alma do fole. Que alma vem a ser esta? Simplesmente um nome que dei a essa
válvula, que desce, sobe, deixa entrar o ar e impele-o para um canudo, quando
aperto o fole. Pois que ali não há alma nenhuma distinta do instrumento. No
entanto, quem faz mover a válvula dos animais? Isso eu já disse: é aquele que faz
mover os astros. Deus est anima brutorum. O filósofo que fez tal afirmação tinha
razão. Todavia, não devia ter considerado o assunto encerrado.

(martin claret, capítulo 8, pp. 30-32, em nome de pietro nassetti: em verdade, uma
adulteração rude e atamancada - incapaz de se decidir entre o "tu", o "você", o
"vós" e o "vocês" - da tradução de bruno da ponte e joão alves lopes, ed.
presença, portugal, licenciada para ed. abril cultural, coleção "os pensadores",
pp. 96-97)

II.
IRRACIONAIS

Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os irracionais são máquinas
privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que
nada aprendem, nada aperfeiçoam!
Então aquela ave que faz seu ninho em semicírculo quando o encaixa numa parede, em
quarto de círculo quando o engasta num ângulo e em círculo quando o pendura numa
árvore, procede aquela ave sempre da mesma menira? Esse cão de caça que
disciplinaste não sabe mais agora do que antes de tuas lições? O canário a que
ensinas uma ária, repete-a ele no mesmo instante? Não levas um tempo considerável
em ensiná-lo? Não vês como ele erra e se corrige?
Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-
me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a
escrivaninha, onde me lembro tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria.
Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e
conhecimento.
Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com
ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento
em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua
alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias.
Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade,
pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrar-te suas veias
mesaraicas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas.
Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos
do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à
natureza tão impertinente contradição.
Perguntam os mestres da escola o que é então a alma dos irracionais. Não entendo a
pergunta. A árvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula,
de desenvolver os botões das folhas e dos frutos: perguntar-me-eis o que é a alma
das árvores? Ela recebeu estes dons. O animal foi contemplado com os dons do
sentimento, da memória, de certo número de idéias. Quem criou esses dons? Quem
lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e
gravitar a Terra em torno do Sol.
As almas dos brutos são formas substanciais, disse Aristóteles e depois de
Aristóteles a escola árabe, depois da escola árabe a escola angélica, depois da
escola angélica a Sorbonne e depois da Sorbonne ninguém.
As almas dos brutos são materiais, proclamaram outros filósofos, nem mais nem
menos felizes que os primeiros. Em vão perguntou-se-lhes o que é alma material:
precisam convir em que é a matéria que sente. Mas quem deu sensibilidade à
matéria? Alma material... Quer dizer que é a matéria que dá sensibilidade à
matéria. E não saem desse círculo.
Ouvi outra sorte de irracionais racionando [sic] sobre os irracionais: A alma dos
brutos é um ser espiritual que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que
idéia concebeis desse ser espiritual que em verdade tem sentimento, memória e sua
medida de idéias e associações, mas que jamais poderá saber o que sabe uma criança
de dez anos? Os maiores irracionais são os que aventarem não ser essa alma nem
corpo nem espírito. Aí está um curioso sistema. Não podemos entender por espírito
senão algo desconhecido e incorporal: a isso pois reduz-se o sistema desses
senhores: a alma dos seres brutos é uma substância nem corporal nem incorporal.
A que atribuir tantos e tão contraditórios erros? Ao vezo que sempre tiveram os
homens de querer saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a
lingüeta, o batoque do fole, a alma do fole. Que é essa alma? Um nome que dei à
válvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada e saída ao ar.
O fole não tem alma de espécie alguma. É simplesmente uma máquina. Quem toca,
porém, o fole dos animais? Já o disse: aquele que move os astros. Tinha razão o
filósofo que disse: Deus est anima brutorum. Mas devia ter ido mais longe.

(martin claret, capítulo 78, pp. 319-21, em nome de pietro nassetti, mas na
verdade uma cópia literal da tradução de líbero rangel de tarso, atena editora,
pp. 219-21)

BÊTES
Quelle pitié, quelle pauvreté, d’avoir dit que les bêtes sont des machines privées
de connaissance et de sentiment, qui font toujours leurs opérations de la même
manière, qui n’apprennent rien, ne perfectionnent rien, etc.!
Quoi; cet oiseau qui fait son nid en demi-cercle quand il l’attache à un mur, qui
le bâtit en quart de cercle quand il est dans un angle, et en cercle sur un arbre;
cet oiseau fait tout de la même façon? Ce chien de chasse que tu as discipliné
pendant trois mois n’en sait-il pas plus au bout de ce temps qu’il n’en savait
avant tes leçons? Le serin à qui tu apprends un air le répète-t-il dans l’instant?
n’emploies-tu pas un temps considérable à l’enseigner? n’as-tu pas vu qu’il se
méprend et qu’il se corrige?
Est-ce parce que je te parle que tu juges que j’ai du sentiment, de la mémoire,
des idées? Eh bien! je ne te parle pas; tu me vois entrer chez moi l’air affligé,
chercher un papier avec inquiétude, ouvrir le bureau où je me souviens de l’avoir
enfermé, le trouver, le lire avec joie. Tu juges que j’ai éprouvé le sentiment de
l’affliction et celui du plaisir, que j’ai de la mémoire et de la connaissance.
Porte donc le même jugement sur ce chien qui a perdu son maître, qui l’a cherché
dans tous les chemins avec des cris douloureux, qui entre dans la maison, agité,
inquiet, qui descend, qui monte, qui va de chambre en chambre, qui trouve enfin
dans son cabinet le maître qu’il aime, et qui lui témoigne sa joie par la douceur
de ses cris, par ses sauts, par ses caresses.
Des barbares saisissent ce chien, qui l’emporte si prodigieusement sur l’homme en
amitié; ils le clouent sur une table, et ils le dissèquent vivant pour te montrer
les veines mésaraïques. Tu découvres dans lui tous les mêmes organes de sentiment
qui sont dans toi. Réponds-moi, machiniste, la nature a-t-elle arrangé tous les
ressorts du sentiment dans cet animal, afin qu’il ne sente pas? a-t-il des nerfs
pour être impassible? Ne suppose point cette impertinente contradiction dans la
nature.
Mais les maîtres de l’école demandent ce que c’est que l’âme des bêtes. Je
n’entends pas cette question. Un arbre a la faculté de recevoir dans ses fibres sa
sève qui circule, de déployer les boutons de ses feuilles et de ses fruits; me
demanderez-vous ce que c’est que l’âme de cet arbre? Il a reçu ces dons; l’animal
a reçu ceux du sentiment, de la mémoire, d’un certain nombre d’idées. Qui a fait
tous ces dons? qui a donné toutes ces facultés? celui qui a fait croître l’herbe
des champs, et qui fait graviter la terre vers le soleil.
Les âmes des bêtes sont des formes substantielles, a dit Aristote; et après
Aristote, l’école arabe; et après l’école arabe, l’école angélique; et après
l’école angélique, la Sorbonne; et après la Sorbonne, personne au monde.
Les âmes des bêtes sont matérielles, crient d’autres philosophes. Ceux-là n’ont
pas fait plus de fortune que les autres. On leur a en vain demandé ce que c’est
qu’une âme matérielle; il faut qu’ils conviennent que c’est de la matière qui a
sensation mais qui lui a donné cette sensation? c’est une âme matérielle, c’est-à-
dire que c’est de la matière qui donne de la sensation à la matière; ils ne
sortent pas de ce cercle.
Écoutez d’autres bêtes raisonnant sur les bêtes; leur âme est un être spirituel
qui meurt avec le corps: mais quelle preuve en avez-vous? quelle idée avez-vous de
cet être spirituel, qui, à la vérité, a du sentiment, de la mémoire, et sa mesure
d’idées et de combinaisons, mais qui ne pourra jamais savoir ce que sait un enfant
de six ans? Sur quel fondement imaginez-vous que cet être, qui n’est pas corps,
périt avec le corps? Les plus grandes bêtes sont ceux qui ont avancé que cette âme
n’est ni corps ni esprit. Voilà un beau système. Nous ne pouvons entendre par
esprit que quelque chose d’inconnu qui n’est pas corps ainsi le système de ces
messieurs revient à ceci, que l’âme des bêtes est une substance qui n’est ni corps
ni quelque chose qui n’est point un corps.
D’où peuvent procéder tant d’erreurs contradictoires? de l’habitude où les hommes
ont toujours été d’examiner ce qu’est une chose, avant de savoir si elle existe.
On appelle la languette, la soupape d’un soufflet, l’âme du soufflet. Qu’est-ce
que cette âme? c’est un nom que j’ai donné à cette soupape qui baisse, laisse
entrer l’air, se relève, et le pousse par un tuyau, quand je fais mouvoir le
soufflet.
Il n’y a point là une âme distincte de la machine. Mais qui fait mouvoir le
soufflet des animaux? Je vous l’ai déjà dit, celui qui fait mouvoir les astres. Le
philosophe qui a dit, Deus est anima brutorum, avait raison; mais il devait aller
plus loin.

agradeço a joana canêdo o material bibliográfico.

imagens: www.counterintuitivemarketing.com; flickr, litherland, un coup de dès

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02/07/2009
os inesquecíveis
além da mais nova celebridade no hall of shame do plagiato nacional, eis a lista
dos ectoplasmas ou de gente de carne e osso que assinam os plágios e outros
embustes editoriais:

alberto maximiliano (nova cultural)


alex marins (martin claret)
alexandre boris popov (martin claret)
ana maria oliveira rosa (landmark)
carmen lia lomonaco (nova cultural)
eduardo nunes fonseca (hemus; ediouro)
enrico corvisieri (nova cultural)
fábio cyrino (landmark)
fábio m. alberti (nova cultural)
felipe padula borges (germinal)
fernando corrêa fonseca (nova cultural)
heloísa da graça burati (rideel)
irina wisnik ribeiro (martin claret)
ivan petrovitch (martin claret)
ivo de paula (pillares)
jean melville (martin claret)
john green (martin claret)
jonas camargo leite (hemus; ediouro)
jorge luís penha (martin claret)
jorge pádua conceição (nova cultural)
juan gonçalves (martin claret)
juliana borges (germinal)
leonardo codignoto (nova cultural)
leopoldo holzbach (martin claret)
marcellin talbot (martin claret)
maria cristina f. da silva (nova cultural)
mirtes ugeda coscodai (nova cultural)
nikko bushido (sapienza; jardim dos livros)
olívia bauduh (nova cultural)
pedro h. berwick (jardim dos livros)
pietro nassetti (martin claret)
roberto domênico proença (nova cultural)
roberto nunes whitaker (nova cultural)
roberto valeriano (nova cultural)
rodolfo schaefer (martin claret)
rubens eduardo ferreira frias (centauro)
silvana laplace (nova cultural)
wilson hilário borges (germinal)

imagem: http://tractatus.free.fr/

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01/07/2009
a culpa é do diagramador
a mais recente contribuição à praga do plágio nacional parece ser a da jornalista
cecília santos , vampirando marcelo hessel. não que a moça tenha se avexado muito:
diante da cópia deslavada, ela retrucou que "houve um erro na diagramação" - ah,
então tá bom.

em todo caso:

"Jornal fará retratação


Constrangido com a situação, o editor de O Estado, Antônio Téo, informa que irá
publicar uma retratação na capa do caderno de Cultura da próxima quinta-feira
(02/07) e pede desculpas aos leitores do jornal e para Hessel, autor da matéria.
'É uma situação chata. Eu nunca vi isso acontecer aqui no jornal. É um plágio, um
roubo intelectual. Eu peço desculpas aos leitores e ao jornalista que escreveu a
matéria. Não tenho o que falar. A gente não se sentiria cômodo de ter alguém
copiando o nosso material', diz."
[...]
"Segundo o editor, numa situação como essa, perdem todos. O jornalista que
escreveu o artigo, que tem o seu material roubado; a jornalista que copiou, que
coloca uma mancha em sua carreira; e o jornal, que tem a credibilidade posta em
xeque." é isso aí. e perdem os leitores também.

fonte: toque dado por rogério bettoni.

imagem: http://crizlai.blogspot.com

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30/06/2009
e assim se desbota a memória
as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções,
notas, introduções de:

adolfo casais monteiro,


antónio ferreira marques,
antônio pinto de carvalho,
araújo nabuco,
artur morão,
bandeira duarte,
bento prado jr.,
blásio demétrio,
boris schnaiderman,
brenno silveira,
bruno da ponte,
cabral do nascimento,
carlos chaves,
carlos porto carreiro,
casimiro fernandes,
e. jacy monteiro,
eça de queiroz,
eudoro de souza,
éverton ralph,
fernando de aguiar,
fernando carlos de almeida cunha medeiros,
floriano de souza fernandes,
francisco inácio peixoto,
galeão coutinho,
godofredo rangel,
guilherme de almeida (reprodução não autorizada),
helga hoock quadrado,
henrique marques ("pandemónio"),
hernâni donato,
isabel sequeira,
ivan emilianovitch schawirin (reprodução nao autorizada),
jacó guinsburg,
jaime bruna,
jamil almansur haddad,
joão lopes alves,
joão ângelo oliva neto,
joão baptista de mello e souza,
joão paulo monteiro,
joaquim dá mesquita paul,
joaquim machado,
jorge camacho,
josé augusto drummond,
josé duarte,
josé tavares bastos,
leila v. b. gouvêa,
leonel vallandro,
leonidas hegenberg,
líbero rangel de andrade,
líbero rangel de tarso,
ligia junqueira,
liliana rombert soeiro,
lívio xavier,
luísa derouet,
luiz costa lima,
manuel odorico mendes,
marcílio marques moreira (reprodução nao autorizada),
margarida garrido esteves,
maria beatriz nizza da silva,
maria francisca ferreira de lima,
maria helena rocha pereira,
maria irene szmrecsányi,
mário quintana,
milton amado,
moacyr werneck de castro,
modesto carone,
monteiro lobato,
natália nunes,
octany silveira da mota,
octavio mendes cajado,
olinda gomes fernandes,
oscar mendes,
paulo m. oliveira,
paulo rónai,
péricles eugênio da silva ramos,
ricardo iglésias,
rodrigo richter,
sarmento de beires,
sérgio milliet,
silvio deutsch,
silvio meira,
sodré viana,
suely bastos,
tamás szmrecsányi,
vera pedroso,
wilson lousada,
ymaly salem chammas.

título inspirado em daniel piza, "cultura desbotada", toque de joana canêdo

imagem: lost memories

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29/06/2009
para lembrar
segue-se uma listinha de livros com problemas de plágio e bizarrices tradutórias.
entre parênteses consta o nome do pseudotradutor.

CENTAURO
a pedagogia e as grandes correntes filosóficas (rubens eduardo ferreira frias)

EDIOURO
a cidade antiga (jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca)
a origem das espécies (eduardo nunes fonseca)

GERMINAL
oblomov (juliana borges)
mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
os sonâmbulos (wilson hilário borges)

HEMUS
a cidade antiga (jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca)
a origem das espécies (eduardo nunes fonseca)
a besta humana (eduardo nunes fonseca)
JARDIM DOS LIVROS
a arte da guerra (nikko bushido)
a vida secreta de laszlo, conde drácula (pedro h. berwick)
o essencial do alcorão (pedro h. berwick)
o essencial de jesus (pedro h. berwick)

LANDMARK
persuasão (fábio cyrino)
o morro dos ventos uivantes (ver retificação)

MARTIN CLARET - bizarrices tradutórias (fbn/isbn)


contos fluminenses (marcellin talbot)
o primo basílio (pietro nassetti)
a farsa de inês pereira (pietro nassetti)
a encarnação (pietro nassetti)
quincas borba (pietro nassetti)
papéis avulsos (marcellin talbot)
a língua e o estilo de rui barbosa (jean melville)
ressurreição (alex marins)
sonetos - bocage (pietro massetti)
o velho da horta (juan gonçalves)
marília de dirceu (pietro nassetti)
a carta de pero vaz de caminha, jaime cortesão (ed.) (pietro nassetti)
poesia de ricardo reis (marcellin talbot)

MARTIN CLARET - "tradutores" sortidos


memórias de sherlock holmes (john green)
lisístrata e as vespas (john green)
assim falava zaratustra (equipe de tradutores, 2000)
os irmãos karamazovi (alexandre boris popov)
crime e castigo (irina wisnik ribeiro e ivan petrovitch)
crítica da razão pura (rodolfo schaefer/alex marins/pietro massetti na fbn)
crítica da razão prática (rodolfo schaefer/leopoldo holzbach na fbn)
fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos (leopoldo holzbach)

MARTIN CLARET e o triunvirato tradutivo (cf. fbn/isbn)


cinco lições de psicanálise (pietro nassetti, fbn)
o corcunda de notre-dame (pietro nassetti)
a vida dos doze césares (pietro nassetti)
pensamentos - pascal (pietro nassetti)
eneida (pietro nassetti)
dicionário filosófico - voltaire (pietro nassetti)
o trovejar do silêncio (pietro nassetti)
o coração das trevas (pietro nassetti)
lorde jim (pietro nassetti)
a letra escarlate (pietro nassetti)
o pensamento de epicuro (pietro nassetti, fbn)
o caminho infinito (pietro nassetti)
gitanjali (pietro nassetti)
jesus, o filho do homem (pietro nassetti)
fábulas - esopo (pietro nassetti)
o profeta - gibran (pietro nassetti)
rubayat (pietro nassetti)
hipólito (pietro nassetti)
electra (pietro nassetti)
alceste (pietro nassetti)
arte poética - aristóteles (pietro nassetti)
belfagor (pietro nassetti)
mandrágora (pietro nassetti)
a arte de amar (pietro nassetti)
as aventuras de pinóquio (pietro nassetti)
do sofrimento do mundo (pietro nassetti)
metafísica do amor (pietro nassetti)
da morte (pietro nassetti)
o cão dos baskervilles (pietro nassetti)
as regras do método sociológico (pietro nassetti)
frankenstein (pietro nassetti)
rei lear (pietro nassetti)
cândido (pietro nassetti)
imitação de cristo (pietro nassetti)
a arte da guerra - sun-tzu (pietro nassetti)
ética a nicômaco (pietro nassetti)
as flores do mal (pietro nassetti)
werther (pietro nassetti)
o anticristo (pietro nassetti)
a ética protestante e o espírito do capitalismo (pietro nassetti)
a luta pelo direito (pietro nassetti)
do contrato social (pietro nassetti)
o discurso do método (pietro nassetti)
o manifesto comunista (pietro nassetti)
ecce homo (pietro nassetti)
o médico e o monstro (pietro nassetti)
a utopia - th. morus (pietro nassetti)
hamlet (pietro nassetti)
caninos brancos (pietro nassetti, fbn)
a república - platão (pietro nassetti)
bola de sebo e outros contos (pietro nassetti)
as aventuras de tom sawyer (pietro nassetti)
histórias extraordinárias - poe (pietro nassetti)
o jogador - dostoievski (pietro nassetti)
assim falou zaratustra (pietro nassetti, 1999)
artista da fome (pietro nassetti)
apologia de sócrates (pietro nassetti, 2001)
volta ao mundo em oitenta dias (pietro nassetti)
o retrato de dorian gry (pietro nassetti)
as viagens - marco polo (pietro nassetti)
a mulher de trinta anos (pietro nassetti)
a arte da prudência (pietro nassetti)
o lobo do mar (pietro nassetti)
o príncipe - maquiavel (pietro nassetti)
a sonata a kreutzer (jean melville)
dom quixote (jean melville, 2005)
grandes esperanças (jean melville)
germinal (jean melville)
o vermelho e o negro (jean melville)
paulo, o 13o. apóstolo (jean melville)
do espírito das leis (jean melville)
ética - spinoza (jean melville)
a cidade antiga (jean melville)
a dama de espadas (jean melville)
a filha do capitão (jean melville)
orgulho e preconceito (jean melville)
andrômaca (jean melville)
fedra (jean melville)
o tartufo (jean melville)
o sonho de uma noite de verão (jean melville)
vida nova - dante (jean melville)
da monarquia - dante (jean melville)
a gaia ciência (jean melville)
o tartufo (jean melville)
balada do cárcere de reading (jean melville)
de profundis (jean melville)
ensaios - emerson (jean melville)
otelo (jean melville)
a conduta para a vida (jean melville)
a arte da guerra - maquiavel (jean melville)
escritos políticos - maquiavel (jean melville)
as aventuras de sherlock holmes (jean melville)
antígona (jean melville)
édipo rei (jean melville)
macbeth (jean melville)
diário de um sedutor - kierkegaard (jean melville)
romeu e julieta (jean melville)
ciência e política: duas vocações (jean melville)
um estudo em vermelho (jean melville)
as minas do rei salomão (jean melville)
apologia de sócrates (jean melville, 2004)
acuso - gide (jean melville)
martin eden (jean melville)
o livro de jó (alex marins)
o livro de ouro da mitologia (alex marins)
ben-hur (alex marins)
moby dick (alex marins)
as aventuras de huckleberry finn (alex marins)
o suicídio - durkheim (alex marins)
crime e castigo (alex marins na fbn)
confissões - santo agostinho (alex marins)
crítica da razão pura (alex marins)
leviatã (alex marins)
tristão e isolda (alex marins)
thaïs (alex marins)
as mulherzinhas (alex marins)
discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (alex
marins)
o livro da jângal (alex marins)
a megera domada (alex marins)
o último adeus de sherlock holmes (alex marins)
o príncipe e o mendigo (alex marins)
segundo tratado sobre o governo (alex marins)
a ilha do tesouro (alex marins)
para além do bem e do mal (alex marins)
desobediência civil e outros ensaios (alex marins)
satíricon (alex marins)
dos deveres (alex marins)
o desespero humano (alex marins)
eugênia grandet (alex marins)
meditações - marco aurélio (alex marins)
manuscritos econômico-filosóficos (alex marins)
fedro (alex marins)
elogio da loucura (alex marins)
assim falou zaratustra (alex marins, 2002)
a fenomenologia do espírito (alex marins)
a riqueza das nações (alex marins)
o último dos moicanos (alex marins)
comédia latina - plauto, terêncio (alex marins)

NOVA CULTURAL
obras-primas:
os irmãos karamazóvi (enrico corvisieri)
suave é a noite (enrico corvisieri)
a mulher de trinta anos (enrico corvisieri)
o retrato de dorian gray (enrico corvisieri)
madame bovary (enrico corvisieri)
a divina comédia (fábio m. alberti)
cyrano de bergerac (fábio m. alberti)
os três mosqueteiros (mirtes ugeda)
ana karênina (mirtes ugeda)
ivanhoé (roberto nunes whitaker)
uma vida, maupassant (roberto domenico proença)
lord jim (carmen lia lomonaco)
naná (roberto valeriano)
tom jones (jorge pádua conceiçao)
seis personagens à procura de autor (fernando corrêa fonseca)
o falecido mattia pascal (fernando corrêa fonseca)
o morro dos ventos uivantes (silvana laplace)
contos de voltaire (roberto domenico proença)
werther (alberto maximiliano)
fausto (alberto maximiliano)
o leopardo (leonardo codignoto)
o vermelho e o negro (maria cristina f. da silva)

pensadores:
apologia de sócrates, de platão (enrico corvisieri)
apologia de sócrates, de xenofonte (mirtes coscodai)
ditos e feitos memoráveis de sócrates (mirtes coscodai)
discurso do método (enrico corvisieri)
meditações (enrico corvisieri)
paixões da alma (enrico corvisieri)
o príncipe, maquiavel (olívia bauduh)
pensamentos, pascal (olívia bauduh)

PILLARES
a luta pelo direito (ivo de paula)

RIDEEL
a luta pelo direito (heloísa da graça buratti)
acerca da verdade e da mentira (heloísa da graça burati)
o anticristo (heloísa da graça burati)

SAPIENZA
a arte da guerra (nikko bushido)

imagem: www.comcrow.com

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27/06/2009
novas edições
o jornal a folha de s.paulo, em sua matéria "Ministério Público investiga
plágios", de 26/06, informa:

"Designada para responder pela editora, a advogada Maria Luiza de Freitas Valle
Egea diz que a Martin Claret está ‘refazendo o seu catálogo, contratando
tradutores para as novas publicações, e pagando os titulares dos direitos de todas
as obras em que os problemas estão sendo detectados’. Segunda ela, a Martin Claret
já reeditou mais de 80 títulos".

fico feliz que as novas publicações passem a ser de fato traduzidas, e não apenas
copiadas. e realmente vi algumas reedições da martin claret em traduções agora
aparentemente legítimas. cheguei a comentar aqui as alvíssaras, como leviatã, o
discurso do método e elogio da loucura - embora, infelizmente, as edições
anteriores das mesmas obras continuem à venda em diversas livrarias, e os
exemplares já vendidos não tenham sido objeto de um recall, e sequer de errata ou
retificação pública.

se de um lado a declaração da dra. maria luiza de freitas valle egea sugere que a
editora está em processo de substituir as centenas de livros com problemas
autorais, por outro lado, quanto aos "mais de 80 títulos" já reeditados - estou
entendendo, naturalmente, que dra. maria luiza queira dizer reeditados de forma
legítima, e não como simples reedição ou reimpressão da obra ilícita -, fiquei
sinceramente interessada em saber quais seriam. consultei o site da martin claret,
consultei a fundação biblioteca nacional, consultei vários sites de livrarias:
espremendo todos os dados com o máximo de boa vontade, não consegui passar de 5.
a meu ver, seria de imensa utilidade para nós leitores que a editora martin claret
nos fizesse saber quais são os títulos reeditados em novas traduções e nos
informasse se os espúrios foram retirados de circulação.

imagem: http://henryfelippe.blogspot.com

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26/06/2009
ministério público investiga plágios
deu hoje na folha de s.paulo (link para assinantes fsp ou uol):

plágio vira caso de polícia.


ministério público estadual determina instauração de inquérito criminal contra
fraudes de traduções da editora martin claret.

ministério público federal analisa plágios praticados contra traduções de monteiro


lobato.

veja a matéria também no blog do galeno.

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lacunas, poe XXI

a maior parte desse material sobre edgar allan poe apresenta os resultados de uma
breve pesquisa: "o gato preto no brasil", apenas no formato livro. apresenta sua
fortuna histórica editorial, mostra suas relações com as histórias extraordinárias
e revela o equívoco que circula há mais de trinta anos entre nós: que histórias
extraordinárias seriam a tradução do original tales of the grotesque and arabesque
- com a consequente e inesperada descoberta de que as tga enquanto tal são
inéditas no brasil.

o fecho da pesquisa traz a tradução do curto, mas importante prefácio de poe à sua
coletânea de 1840. os posts subsequentes citam curiosidades, informações
específicas e variedades em geral.

diversas pessoas têm pedido autorização para utilizar o material: naturalmente


está ao dispor de todos os interessados, bastando mencionar a fonte. restaram
lacunas que não cheguei a completar, embora não sejam dados de difícil acesso.
registro abaixo o que deixei em aberto: peço que levem em conta essas falhas e, se
possível, ajudem a corrigi-las.

1. falta verificar o conteúdo e a autoria da tradução de:


- novelas de edgar allan poe, brasil américa, edição maravilhosa n. 27, 1950;
- contos, editora três, 1974.

2. falta apurar a autoria da tradução de:


- o mistério do gato preto, tecnoprint, 1954;
- histórias extraordinárias, otto pierre, 1979.

3. falta saber quem são os "outros" e quais as respectivas traduções em:


- histórias extraordinárias, tradução de "brenno silveira e outros", menção que
começa a surgir em 1972 na edibolso, e desde 1974 até 2003 nas edições licenciadas
pela civilização brasileira para o círculo do livro, a abril cultural e a nova
cultural.

4. falta verificar o conteúdo de:


- contos de horror, tradução de luiza lobo, bruguera, 1970;
- o gato preto e outras histórias, seleção, tradução e adaptação de clarice
lispector, ediouro, c. 1975;
- histórias extraordinárias, seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar
mendes e milton amado, globo, 1987.

5. o levantamento das miscelâneas que incluem o gato preto é bastante incompleto.


muito provavelmente são em número bem maior do que o apresentado.

em vista do tema restrito, alguns casos curiosos não receberam a atenção que
mereceriam. por exemplo:

- histórias extraordinárias com tradução em nome de joão teixeira de paula, na


edição da ordibra/inl (1972) sob licença do clube do livro: seria interessante
localizar alguma referência sobre essa edição do clube do livro (que não é a de
1945);

- muitíssimo interessante também seria ver melhor o percurso das novelas


extraordinárias dos anos 1920 até 1945, nas edições da garnier, o livro de bolso,
cruzeiro do sul e clube do livro.
imagem: x, google images

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25/06/2009
zumbi trapalhares IV
sobre o caso dos machados, alencares, eças etc. "traduzidos" por pietro nassetti e
quejandos, conforme cadastro na fbn/isbn, sou informada de que a procuradoria
enviou ofício ao minc pedindo esclarecimentos e recebeu resposta; enviou ofício à
presidência da fbn e recebeu resposta; juntado o expediente, enviou requisição de
esclarecimentos à editora martin claret. a ver.

em todo caso, minha petição foi contra o indiferentismo da fbn/isbn, não contra
os despautérios da martin claret. a reação da agência brasileira do isbn, perante
o problema, tinha sido simplesmente tascar uma ressalva nas fichas cadastrais:
"todas as informações contidas neste cadastro foram fornecidas pelos editores no
momento da solicitação do isbn".

ok, vá lá que os funcionários da agência tenham cadastrado roboticamente as


pérolas enviadas pela editora martin claret. mas, constatado o fato, a agência
brasileira do isbn, na fundação biblioteca nacional, teria que corrigir os dados.
ela está subordinada à agência internacional do isbn, que determina entre as
funções e responsabilidades de cada agência:

- registrar e manter dados corretos;


- corrigi-los quando estiverem errados
[cf. manual de uso, item 9.3, "isbn registration agencies"].

então tascar a frase supracitada eximindo-se de qualquer responsabilidade sobre os


dados cadastrados e continuar a mantê-los lá, como fez a agência brasileira do
isbn, parece estar em flagrante contradição com o que estabelece a agência
internacional.

de mais a mais, como leitora e pesquisadora, acho esse ponciopilatismo da fbn/isbn


inadmissível, capaz de constranger qualquer cidadão brasileiro.

imagem: lavando as mãos

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o gato pálido, poe XX

edio uro: sobre a bizarra remissão de suas histórias extraordinárias traduzidas e


adaptadas por clarice lispector ao original tales of the grotesque and arabesque
de poe, a coordenadora editorial sra. cristiane marinho informa que solicitou ao
Arquivo Geral da empresa que "disponibilize todo o material utilizado para a
produção do livro".

imagem: o gato pálido

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cortesia da casa, poe XIX
como os cotejos costumam ser muito tediosos pela parca sinonímia usada pelos
maquiadores de plantão e pelo escasso desafio que propõem à inteligência do
leitor, ofereço para a família nassetti-corvisieri-burattiana alguns exercícios
para treinar suas habilidades.

I. quando se pretende sugerir uma pátina de respeitabilidade, com um ar levemente


arrebicado:

Eis-me a ponto de redigir uma narrativa de si fantástica ao extremo e, não


obstante, de extremo desadorno, em prol da qual não antecipo e tampouco encareço
qualquer crédito. Desarrazoado, deveras, seria da minha parte esperar tal penhor
de confiança, numa instância em que o próprio testemunho dos meus sentidos é por
eles mesmos rejeitado. E no entanto desarrazoado não sou – e com grande segurança
afirmo não se tratar de um sonho. Porém amanhã hei de perecer, e hoje apraz-me
descarregar o que minh'alma oprime. Meu imediato propósito é perante o mundo expor
sem rebuços, sem delongas e sem comentários uma série de singelos eventos do meu
espaço doméstico. Nas suas consequências, tais eventos trouxeram-me terror -
tormento - destruição. Ainda assim não me abalançarei a uma explanação deles. A
mim, pouco apresentaram além de Horror – a muitos afigurar-se-ão menos terríveis
do que barrocos. Adiante encontrar-se-á porventura um intelecto com capacidade de
reconduzir minha fantasmagoria ao lugar-comum – um intelecto de maior
equanimidade, maior raciocínio lógico e muito menor suscetibilidade do que o meu,
o qual saberá discernir, nas circunstâncias que assombrado aqui pormenorizo, nada
além de uma ordinária sucessão de causas e efeitos muito naturais.
II. quando se pretende um certo tom neutro e relativamente escorreito, que não
desperte grandes objeções quanto ao literalismo:

Quanto à narrativa profundamente estranha, e todavia despojada que estou em vias


de escrever, não espero nem peço que me creiam. Louco realmente seria eu se o
esperasse, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam o que testemunham. No
entanto, louco não estou – e certamente não sonho. Mas amanhã morrerei, e hoje
gostaria de desabafar minha alma. Meu propósito imediato é colocar ao mundo,
direta e sucintamente, sem comentários, uma série de meros eventos familiares. Em
suas consequências, estes eventos me aterrorizaram – me torturaram – me
destruíram. Mas não tentarei elucidá-los. Para mim, apresentaram pouco mais do que
Horror – para muitos, eles parecerão não tanto terríveis quanto barrocos. No
futuro talvez se possa encontrar alguma inteligência capaz de reduzir meu fantasma
a uma banalidade – alguma inteligência mais serena, mais lógica, e muito menos
excitável do que a minha, a qual perceberá, nas circunstâncias que detalho com
espanto, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

III. quando se pretende um certo ar mais solto, num tom de aparência mais direta:

Para a narrativa muito estranha e, ao mesmo tempo, muito simples que vou escrever,
não peço nem espero crédito. Seria loucura minha esperar, ainda mais que nem mesmo
eu acredito nos meus próprios sentidos. Mas não sou louco – e certamente não estou
sonhando. Só que amanhã vou morrer, e hoje quero aliviar a alma. Meu objetivo
imediato é apresentar ao mundo, de maneira direta, sucinta, sem comentários, uma
série de simples acontecimentos domésticos. Em suas consequências, esses
acontecimentos me aterrorizaram – torturaram – destruíram. Mas não vou tentar
explicá-los. Para mim, são praticamente o puro Horror – para muitos, mais do que
terríveis vão parecer barrocos. Quem sabe algum dia possa surgir um intelecto que
reduza meu fantasma ao corriqueiro – um intelecto mais calmo, mais lógico, muito
menos excitável do que o meu, que veja, nas circunstâncias que detalho com pavor,
apenas uma sucessão normal de causas e efeitos muito naturais.

imagens: dragon, orgão e simplicissimo.

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cat/chat, poe XVIII
THE BLACK CAT

For the most wild, yet most homely narrative which I am about to pen, I neither
expect nor solicit belief. Mad indeed would I be to expect it, in a case where my
very senses reject their own evidence. Yet, mad am I not — and very surely do I
not dream. But to-morrow I die, and to-day I would unburthen my soul. My immediate
purpose is to place before the world, plainly, succinctly, and without comment, a
series of mere household events. In their consequences, these events have
terrified — have tortured — have destroyed me. Yet I will not attempt to expound
them. To me, they have presented little but Horror — to many they will seem less
terrible than barroques. Hereafter, perhaps, some intellect may be found which
will reduce my phantasm to the common-place — some intellect more calm, more
logical, and far less excitable than my own, which will perceive, in the
circumstances I detail with awe, nothing more than an ordinary succession of very
natural causes and effects.

LE CHAT NOIR

Relativement à la très étrange et pourtant très familière histoire que je vais


coucher par écrit, je n’attends ni ne sollicite la créance. Vraiment, je serais
fou de m’y attendre, dans un cas où mes sens eux-mêmes rejettent leur propre
témoignage. Cependant, je ne suis pas fou, — et très certainement je ne rêve pas.
Mais demain je meurs, et aujourd’hui je voudrais décharger mon âme. Mon dessein
immédiat est de placer devant le monde, clairement, succinctement et sans
commentaires, une série de simples événements domestiques. Dans leurs
conséquences, ces événements m’ont terrifié, — m’ont torturé, — m’ont anéanti.
Cependant, je n’essaierai pas de les élucider. Pour moi, ils ne m’ont guère
présenté que de l’horreur; — à beaucoup de personnes ils paraîtront moins
terribles que baroques. Plus tard peut-être il se trouvera une intelligence qui
réduira mon fantôme à l’état de lieu commun, — quelque intelligence plus calme,
plus logique, et beaucoup moins excitable que la mienne, qui ne trouvera dans les
circonstances que je raconte avec terreur qu’une succession ordinaire de causes et
d’effets très naturels.

From my infancy I was noted for the docility and humanity of my disposition. My
tenderness of heart was even so conspicuous as to make me the jest of my
companions. I was especially fond of animals, and was indulged by my parents with
a great variety of pets. With these I spent most of my time, and never was so
happy as when feeding and caressing them. This peculiarity of character grew with
my growth, and, in my manhood, I derived from it one of my principal sources of
pleasure. To those who have cherished an affection for a faithful and sagacious
dog, I need hardly be at the trouble of explaining the nature or the intensity of
the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-
sacrificing love of a brute, which goes directly to the heart of him who has had
frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man.

Dès mon enfance, j’étais noté pour la docilité et l’humanité de mon caractère. Ma
tendresse de cœur était même si remarquable qu’elle avait fait de moi le jouet de
mes camarades. J’étais particulièrement fou des animaux, et mes parents m’avaient
permis de posséder une grande variété de favoris. Je passais presque tout mon
temps avec eux, et je n’étais jamais si heureux que quand je les nourrissais et
les caressais. Cette particularité de mon caractère s’accrut avec ma croissance,
et, quand je devins homme, j’en fis une de mes principales sources de plaisirs.
Pour ceux qui ont voué une affection à un chien fidèle et sagace, je n’ai pas
besoin d’expliquer la nature ou l’intensité des jouissances qu’on peut en tirer.
Il y a dans l’amour désintéressé d’une bête, dans ce sacrifice d’elle-même,
quelque chose qui va directement au cœur de celui qui a eu fréquemment l’occasion
de vérifier la chétive amitié et la fidélité de gaze de l’homme naturel.

I married early, and was happy to find in my wife a disposition not uncongenial
with my own. Observing my partiality for domestic pets, she lost no opportunity of
procuring those of the most agreeable kind. We had birds, gold-fish, a fine dog,
rabbits, a small monkey, and a cat.

Je me mariai de bonne heure, et je fus heureux de trouver dans ma femme une


disposition sympathique à la mienne. Observant mon goût pour ces favoris
domestiques, elle ne perdit aucune occasion de me procurer ceux de l’espèce la
plus agréable. Nous eûmes des oiseaux, un poisson doré, un beau chien, des lapins,
un petit singe et un chat.

This latter was a remarkably large and beautiful animal, entirely black, and
sagacious to an astonishing degree. In speaking of his intelligence, my wife, who
at heart was not a little tinctured with superstition, made frequent allusion to
the ancient popular notion, which regarded all black cats as witches in disguise.
Not that she was ever serious upon this point — and I mention the matter at all
for no better reason than that it happens, just now, to be remembered. Pluto —
this was the cat's name — was my favorite pet and playmate. I alone fed him, and
he attended me wherever I went about the house. It was even with difficulty that I
could prevent him from following me through the streets.

Ce dernier était un animal remarquablement fort et beau, entièrement noir, et


d’une sagacité merveilleuse. En parlant de son intelligence, ma femme, qui au fond
n’était pas peu pénétrée de superstition, faisait de fréquentes allusions à
l’ancienne croyance populaire qui regardait tous les chats noirs comme des
sorcières déguisées. Ce n’est pas qu’elle fût toujours sérieuse sur ce point, —
et, si je mentionne la chose, c’est simplement parce que cela me revient, en ce
moment même, à la mémoire. Pluton, — c’était le nom du chat, — était mon préféré,
mon camarade. Moi seul, je le nourrissais, et il me suivait dans la maison partout
où j’allais. Ce n’était même pas sans peine que je parvenais à l’empêcher de me
suivre dans les rues.*

Our friendship lasted, in this manner, for several years, during which my general
temperament and character — through the instrumentality of the Fiend Intemperance
— had (I blush to confess it) experienced a radical alteration for the worse. I
grew, day by day, more moody, more irritable, more regardless of the feelings of
others. I suffered myself to use intemperate language to my wife. At length, I
even offered her personal violence. My pets, of course, were made to feel the
change in my disposition. I not only neglected, but ill-used them. For Pluto,
however, I still retained sufficient regard to restrain me from maltreating him,
as I made no scruple of maltreating the rabbits, the monkey, or even the dog, when
by accident, or through affection, they came in my way. But my disease grew upon
me — for what disease is like Alcohol ! — and at length even Pluto, who was now
becoming old, and consequently somewhat peevish — even Pluto began to experience
the effects of my ill temper.

Notre amitié subsista ainsi plusieurs années, durant lesquelles l’ensemble de mon
caractère et de mon tempérament, — par l’opération du Démon Intempérance, je
rougis de le confesser, — subit une altération radicalement mauvaise. Je devins de
jour en jour plus morne, plus irritable, plus insoucieux des sentiments des
autres. Je me permis d’employer un langage brutal à l’égard de ma femme. À la
longue, je lui infligeai même des violences personnelles. Mes pauvres favoris,
naturellement, durent ressentir le changement de mon caractère. Non seulement je
les négligeais, mais je les maltraitais. Quant à Pluton, toutefois, j’avais encore
pour lui une considération suffisante qui m’empêchait de le malmener, tandis que
je n’éprouvais aucun scrupule à maltraiter les lapins, le singe et même le chien,
quand, par hasard ou par amitié, ils se jetaient dans mon chemin. Mais mon mal
m’envahissait de plus en plus, car quel mal est comparable à l’Alcool! — et à la
longue Pluton lui-même, qui maintenant se faisait vieux et qui naturellement
devenait quelque peu maussade, — Pluton lui-même commença à connaître les effets
de mon méchant caractère.

* no texto de baudelaire consultado, a partir de "Pluton" inicia-se um novo


parágrafo.

imagens: poe; baudelaire

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24/06/2009
variedades, poe XVII
o porão da casa onde poe morou em 1843-44,
referência tão macabramente central em o gato preto.
poe e baudelaire

fascinante toque dado por joana canêdo: o primeiro contato de baudelaire com a
obra de poe foi justamente o gato preto.

em janeiro de 1847, uma moça chamada isabelle meunier (uma inglesa casada com um
periodista francês, e adepta de fourier) publicou sua tradução de the black cat no
jornal fourierista la démocratie pacifique. baudelaire ficou fascinado, e quase
quinze anos depois ainda descrevia a seu amigo armand fraisse "la commotion
singulière" que se apossou dele. já em 1848 põe-se a traduzir poe, o que vai
resultar em 1856 na publicação de suas histoires extraordinaires, que deram azo a
tanta confusão de datas, títulos e obras de poe aqui no brasil.

depois da tradução de isabelle meunier, saíram:


- a tradução de william l. hugues, em journal des faits, em 18 de abril de 1851;
- um trecho do conto que baudelaire inseriu no artigo "edgar allan poe, sa vie et
ses ouvrages", em la revue de paris, março-abril de 1852;
- a tradução de paul roger em chronique de france, 16 de novembro de 1853;
- sendo que dois dias antes tinha saído a tradução de baudelaire em le paris, em
duas partes, em 13 e 14 de novembro de 1853;
- reeditada em le pays em 31 de julho e 01 de agosto de 1854;
- por fim compilada nas nouvelles histoires extraordinaires de edgar allan poe,
pela michel lévy, em 1857. em sua tradução, baudelaire usou a versão definitiva do
conto, de 1845.

veja toda a sequência da pesquisa poe/brasil clicando na coluna à direita, desde


poe I a poe XVI.
aqui a fonte de referências. imagem: clique sobre ela.

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I fórum cbl

dia 26 de junho, a câmara brasileira do livro (cbl) realiza seu primeiro fórum de
debate permanente sobre questões relativas ao mercado editorial brasileiro. o tema
é "políticas públicas de livro e leitura", em duas partes:

- programas federais de aquisição de livros


- a questão dos direitos autorais no brasil

em vista das barbaridades que andam acontecendo no setor editorial de nosso país,
quanto a fraudes, contrafações e plágios de tradução, espero que a diretoria da
cbl e os ilustres participantes do fórum lembrem que a direitos sempre
correspondem deveres.

e que alguns dos deveres concomitantes à titularidade e exploração dos direitos


patrimoniais sobre um livro são:
- o respeito à autoria da obra, conforme determinam a constituição federal e a lda
9610;
- o respeito ao leitor da obra, conforme determinam a constituição federal e o
código de defesa do consumidor.

entendo, ademais, que ao setor editorial brasileiro, reunido em suas diversas


associações, caberia defender como ponto de honra inarredável em seu código de
ética profissional o cumprimento de tão elementares deveres.

deixo aqui meus votos de que a câmara brasileira do livro, neste seu primeiro
fórum, aborde com franqueza os problemas que têm corroído o mundo do livro em anos
recentes e, com sua política de transparência, faça por manter e aumentar sua
credibilidade junto à sociedade.

imagem: cbl

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23/06/2009
haroldo netto

in memoriam haroldo carvalho netto


(1932-2009).

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nietzche [sic]

4 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página

ISBN TÍTULO
978-85-377-0744-9
O ELOGIO DA LOUCURA (ALUNO)
978-85-377-0745-6
O ELOGIO DA LOUCURA (PROFESSOR)
978-85-377-0746-3
O PRÍNCIPE (ALUNO)
978-85-377-0747-0
O PRÍNCIPE (PROFESSOR)

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o dicionário dos duplos verbetes
o dicionário filosófico de voltaire, em sua fabulosa versão nassetti-claretiana,
comparece em programas de cursos universitários:
http://www.fafich.ufmg.br/~labfil/aulas/ciencia-e-verdade/
http://www1.capes.gov.br/estudos/dados/2002/15001016/035/2002_035_15001016011P4_Di
sc_Ofe.pdf

está presente em bibliotecas escolares:


http://esmac.phlnet.com.br/cgi-
bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=VOLT
AIRE&code=&lang=
http://200.135.4.10/cgi/Demetrios.exe/show_exemplares?id_acervo=47868

em licitações e compras do governo para uso na rede pública de ensino:


http://www.saolourencodosul.rs.gov.br/arquivos/CC_73_2008.pdf
http://intranet.itajai.sc.gov.br/arquivos/compras_de_agosto_de_2008.txt

em dissertações de mestrado e teses de doutorado:


https://www.univem.edu.br/mestrado_dir/detalhe.asp?reg=7&lng=1
http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=173
http://www.uniplac.net/mestrado/dissertacoes/educacao/mailza.pdf
http://teses.ufrj.br/ip_d/fatimarochaluizvianna.pdf
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000445520
http://www.ce.ufpb.br/ppge/Dissertacoes/dissert06/Ramses%20Nunes/DISSERTA%C7%C3O.p
df
em estudos e artigos acadêmicos ou especializados:
http://www.seer.furg.br/ojs/index.php/index/about
http://www.ajuris.org.br/sharerwords/?org=AJURIS&depto=Dep.%20de%20Publica%C3%A7%C
3%B5es&setor=Revista%20da%20Ajuris%20Eletr%C3%B4nica%20-
%20Artigos%20Internet&public=16190
http://www.fa7.edu.br/recursos/imagens/File/publicidade/midiademocracia/ARTIGO01.p
df
http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2186
http://www.amprs.org.br/arquivos/comunicao_noticia/sansroekelly.pdf
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/viewPDFInterst
itial/13617/13181
http://www.rc-pro.com.br/arquivos/DOUT/20081217_DOUT_004805.html

em artigos e posts de sites e blogs:


http://www.existencialismofilosofico.com.br/index.php?q=book/export/html/3
http://www.planetanews.com/produto/L/69650/problema-do-nexo-causal-na-
responsabilidade-civil--o-gisela-sampaio-da-cruz.html
http://www.ejesus.com.br/exibe.asp?id=3173
http://www.praetorium.com.br/v2009/artigos/87
http://www.skoob.com.br/meus_livros/mostrar/20789/7921/9176

imagem: http://animusiquesdumonde.skynetblogs.be

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22/06/2009
a mitologia tradutória
a edição centauriana de a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, do
educador polonês bogdan suchodolski, na mítica tradução de rubens eduardo ferreira
frias, foi selecionada para as compras do governo paranaense para a biblioteca do
professor:

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/destaques/bibli
oteca_do_professor.pdf

ou para a biblioteca da unesp de bauru:


http://www.biblioteca.bauru.unesp.br/aquisicoes/FC_recebimento_2008_4.pdf

é utilizada com toda a boa fé em:


http://www.concepcionistas.com.br/revista_nova/revista18/PedagogiaDaEssenciaPedago
giaDaExistencia.pdf
http://www2.faculdadeatual.edu.br/prof_andre/pedagogia/quadro_das_concepcoess_peda
gogicas.pdf
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada8/txt_compl/Leonar
do%20Sacramento.doc
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/view/22/13
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/viewFile/24/15

e em programas de curso:
http://www.pucpr.br/cursos/programas/ppge/disciplinas.php

imagem: www.elfwood.com

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suchodolski, centauro
lamentabilíssimo que a editora centauro pareça ter enveredado pelas sendas
tortuosas do plagiato.
trata-se de sua edição d'a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, de
bogdan suchodolski, 2002 (meu exemplar é da 2a. ed., 2004).

o problema começa na página de créditos, que dá como "título original: la


pedagogie [sic] et les grands courants philosophiques" e, logo abaixo, na ficha
catalográfica apresenta o "título original: pädagogik am scheideweg". mas o grave
mesmo diz respeito ao texto.

a editora centauro afirma a nós leitores que a obra foi traduzida por rubens
eduardo frias. na fundação biblioteca nacional consta o nome completo de "rubens
eduardo ferreira frias".

acontece, porém, que essa suposta tradução se revela fidelíssima cópia da tradução
de liliana rombert soeiro, publicada em portugal pela livros horizonte (1978, 2a.
ed.). o pretenso tradutor brasileiro não se peja: a literalidade vai do prefácio à
última linha da obra.

1. liliana rombert soeiro

primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito


fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico


patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários
princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos
autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito
diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois
ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das
diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um
fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram
homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões,
revelaram sempre numerosos elementos de contacto. assim, se percorrermos o extenso
conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência
princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e
de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente
homogênea, é de fato variada.

2. rubens eduardo frias:

primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito


fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico


patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários
princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos
autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito
diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois
ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das
diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um
fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram
homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões,
revelaram sempre numerosos elementos de contato. assim, se percorrermos o extenso
conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência
princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e
de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente
homogênea, é de fato variada.

1. liliana rombert soeiro:


como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da
educação como factor que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal.
a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação
sensível das
coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o conhecimento
verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Ideia só é possível como
reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar o
corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação moral
atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas, relativas
ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e, tal como
na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da observação
sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma via que
conduza das experiências da vida quotidiana ao pleno desenvolvimento da
personalidade moral.

2. rubens eduardo frias:

como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da
educação como fator que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal.
a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação
sensível das coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o
conhecimento verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Idéia só é possível
como reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar
o corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação
moral atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas,
relativas ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e,
tal como na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da
observação sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma
via que conduza das experiências da vida cotidiana ao pleno desenvolvimento da
personalidade moral.

1. liliana rombert soeiro:

vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de
coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o
caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que
transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua
existência se possa tornar fonte e matéria prima da sua essência. a educação
virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das
más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade
presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de
educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a
realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta
necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que,
por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela
educação virada para o futuro.

2. rubens eduardo frias:

vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de
coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o
caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que
transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua
existência se possa tornar fonte e matéria-prima da sua essência. a educação
virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das
más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade
presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de
educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a
realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta
necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que,
por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela
educação virada para o futuro.

imagens: http://pedagogia.br.taringa.net; capas em google images.

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21/06/2009
a divina comédia, editora nova cultural
em 2002/2003, a editora nova cultural, sob a coordenação editorial de janice
florido, lançou a coleção "obras-primas", com o patrocínio da suzano celulose e
sua ong ecofuturo. mais de vinte títulos desta coleção eram plágios, contrafações
e apropriações indébitas de traduções anteriores, muitas vezes já esgotadas.

o segundo volume das coleção "obras-primas" era a divina comédia de dante. foi
utilizada a tradução de hernâni donato, em prosa, levemente copidescada e com os
créditos atribuídos a um "fábio m. alberti". circulando em algumas centenas de
milhares de exemplares no país, fez um bom estrago na memória cultural dos
brasileiros.

foi com imensa satisfação que recebi este convite abaixo.

a editora nova cultural recolheu e tirou de circulação a edição espúria, ressarciu


a editora cultrix (detentora original dos direitos de tradução) e, principalmente,
ressarciu o autor da tradução, hernâni donato, da melhor maneira que poderia
agradar a um intelectual de seu porte: lançando uma edição comemorativa,
totalmente restaurada à forma inicial dada pelo tradutor.

o mais importante: a editora nova cultural vem a público, perante os leitores e a


sociedade, substituir abertamente, sem máscaras, sem inúteis tentativas de se
justificar, a edição fraudada anterior.

mais uma vez se evidencia a diferença de conduta da nova cultural em relação à


martin claret. se ambas plagiaram descaradamente dezenas e dezenas de antigas
obras traduzidas, no caso da martin claret só sabemos por ouvir dizer que esta fez
algum acordo "confidencial", entre quatro paredes, aqui e ali com alguma editora
lesada em relação a algumas obras. nada se sabe sobre os exemplares espúrios, que
continuam à venda, nada se sabe sobre as providências junto ao leitor, que
continua desinformado e enganado sobre a verdadeira edição.

estão de parabéns a presidência e a atual coordenação editorial da nova cultural.


tal como tiveram a desfaçatez de vir a público com uma coleção maciçamente
fraudada, agora demonstram a lhaneza de vir a público reparar o malfeito. embora
seja o mínimo que se espera, bem sabemos o quanto é raro que isso ocorra.

a hernâni donato, meus melhores votos de que sua tradução da divina comédia tenha
o reconhecimento que merece e o lugar que lhe cabe na história da recepção
literária no país.

aos leitores, minha viva recomendação: continuemos a defender nossa memória


cultural. todos só temos a ganhar.

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20/06/2009
as "deliciosas sandes de merda" de voltaire
a história engraçada que mencionei a propósito da tradução portuguesa do
dicionário filosófico é a seguinte: por alguma dessas razões editoriais obscuras,
bruno da ponte, encarregado de fazer a tradução, resolveu repassar uma parte do
serviço para luiz pacheco, fosse para ajudá-lo financeiramente, fosse por qualquer
outro motivo.

luiz pacheco, falecido no ano passado, era uma figura um tanto folclórica nos
meios intelectuais e editoriais portugueses. pois bem, então ele pegou um dos
volumes da tradução que cabia a bruno da ponte. recebeu o pagamento adiantado e,
chegada a data de entrega do material, não tinha feito o serviço. depois de muita
cobrança de bruno, luiz pacheco pegou o livro e foi datilografando conforme ia
lendo. mas estava sem dicionário ao lado e as palavras que não sabia foi
datilografando com uns palavrões em vermelho. pôs o texto no correio para o bruno,
mas esqueceu de tirar as marcações. bruno entregou o material ao editor e, como o
livro estava atrasadíssimo, foi direto da editora para a gráfica, sem passar pela
revisão.
naturalmente a gráfica iria imprimir igualzinho, pondo em itálico tudo o que
estava em vermelho. nesse meio tempo, o pacheco lembrou e foi correndo para lisboa
avisar a editora e conseguiu suspender a impressão para fazer a revisão. mesmo
assim passou uma nota de tradutor, e aqui transcrevo as palavras de luiz pacheco.

"Estava então a escrever como negro e a traduzir o Dicionário Filosófico (de


Voltaire) para a Presença, mas quem assinava a tradução era o Bruno da Ponte. Eu
tinha de o fazer porque era a única fonte de dinheiro, e numa parte ele refere-se
a um daqueles malucos profetas da Bíblia que faziam uma espécie de pão com
excremento de vaca. Eu estava chateado e o que é que fiz? Escrevi: 'Nota do
tradutor: é o que chamaríamos hoje deliciosas sandes de merda.' (risos) Esqueci-
me, e aquilo lá saiu em nota do tradutor, que era o Bruno da Ponte. Ele ficou um
bocado magoado."

eis a anedota no youtube, contada por vitor tavares.

naturalmente muita gente deplora que o bruno da ponte nunca tenha dado os devidos
créditos a luiz pacheco. por outro lado, essa edição não é tida em alta conta
entre os interessados e leitores de voltaire. veio cá parar entre nós, com vários
verbetes reproduzidos pela martin claret sob nome de pietro nassetti.

é engraçado ver algumas adaptações lusitanas, provavelmente pachequianas:

voltaire:
Médroso. — Quel est ce Tullius Cicero? Jamais je n’ai entendu prononcer ce nom-là
la sainte Hermandad
Boldmind. — C’était un bachelier de l’université de Rome, qui écrivait ce qu’il
pensait, ainsi que Julius Cesar, Marcus Aurelius, Titus Lucretius Carus, Plinius,
Seneca, et autres docteurs
Médroso. — Je ne les connais point; mais on m’a dit que la religion catholique,
basque et romaine, est perdue, si on se met à penser.
bruno da ponte:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero,
trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi
dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

pietro nassetti:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero,
trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi
dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

claro que voltaire não falou em santo antônio de pádua, o principal santo
português, e que o tradutor português quis ampliar o leque da crítica de voltaire
eliminando a referência basca. o cômico é que a claret mantenha tais alterações.
daqui a pouco algum acadêmico brasileiro vai dizer com ar muito douto: ah, aquela
passagem em que voltaire menciona santo antônio...

[a propósito, essa história me lembrou a fama do monoglota nelson rodrigues como


tradutor de harold robbins, enquanto era alfredo barcellos pinheiro de lemos,
também falecido no ano passado, que fazia as traduções. mas se o acordo satisfazia
a "todos"... e nós leitores dizemos: puxa vida, foi nelson rodrigues que
traduziu!]

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19/06/2009
dicionário filosófico, cotejo II
como disse, a martin claret, na curiosa montagem de seu dicionário filosófico de
voltaire, copiou literalmente os 73 verbetes da tradução de líbero rangel de
tarso, pela atena. conseguiu criar artificialmente uns dez verbetes inexistentes
no original, e os demais catou de outra tradução.

nessa montagem, as outras vítimas são bruno da ponte e joão lopes alves, cuja
tradução saiu pela editorial presença de portugal (1966)* e sob licença na coleção
"os pensadores", da abril cultural (o que provavelmente explica as tentativas de
maquiar a apropriação).

*aliás, há uma história engraçada sobre essa edição em portugal, que contarei em
outra ocasião.

vejamos, por exemplo, o verbete "liberdade de pensamento".

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo
dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e
que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a
ferros.
Medroso: Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar.
Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos
escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos
pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do
próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se
possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-
ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares
com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede
os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e
hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus
por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos
pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito
com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero,
trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi
dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

2. pietro nassetti:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Cem vezes mais felizes éreis sob o jugo
dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e
que, conquanto vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a
ferros.
Medroso: Que quereis? Escrever, nem falar, e nem mesmo pensar, nada disso nos é
permitido. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda
os nossos escritos. Em suma, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos
nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem
do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. O governo foi persuadido a
pensar que, se possuíssemos o senso comum, todo o Estado ficaria em combustão, e a
nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que nós, os ingleses, somos assim desgraçados, porque cobrimos os
mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da
Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas
descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que
sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por
fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Por acaso Cícero diminuiu o poder do
império romano por haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero,
trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi
dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Boldmind: Não cabe a vós acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é
divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é,
nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a
Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa
desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens
continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à
simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno
prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é
verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não vos entendo.
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores
dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar
penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente
no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus
dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por
que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a
qual está fundado? Quando vos propõem algum negócio interessante, não o examinais
demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da
nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas
vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões
consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas.

2. pietro nassetti:
Boldmind: A vós não cabe acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é
divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Sendo assim,
nada poderá destruí-la.
Medroso: Não mesmo, todavia pode ser bastante reduzida. Foi exatamente por terem
pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na
pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Contam mesmo que se os homens
continuam a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples
adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até
esse ponto, para que servirá o Santo Ofício?
Boldmind: Caso os cristãos primitivos não tivessem a liberdade de pensar, não é
verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não consigo vos entender.
Boldmind: Acredito. Dir-vos-ei em outras palavras: se Tibério e os primeiros
imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros
cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido
pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos
estabelecer os seus dogmas. Por conseguinte, se o cristianismo só se formou pela
liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria
aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está alicerçado? Sempre que alguém vos
propõem [sic] algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de
o concluirdes? Será que no mundo poderá haver maior interesse que o da nossa
felicidade ou eterna desgraça? Sobre a Terra existem cem religiões, e todas vos
condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões
consideram absurdos e ímpios. Então examinai esses dogmas.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.


Boldmind: Sois homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois
uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem
voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode
instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não
se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria
prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá
livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente,
protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a
considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se
com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que
causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que
cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião.

2. pietro nassetti:

Medroso: Mas como posso examiná-lo? Não sou dominicano.


Boldmind: Sois homem e isso é o bastante.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: Somente a vós compete aprender a pensar. Porque nascestes com espírito.
Vede que sois uma ave na gaiola da Inquisição. O Santo Ofício aparou-vos as asas
mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la.
Qualquer homem pode instruir-se. Vergonhoso é que se deposite a alma nas mãos
daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Deveis ter ousadia de pensar por
vós mesmo.
Medroso: Dizem que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria danosa
[sic].
Boldmind: Pelo contrário. No momento em que assistimos a um espetáculo, cada qual
dá livremente a sua opinião, e a paz não é perturbada; porém, se algum insolente,
protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de bom senso [sic] a
considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se
com maçãs, como já aconteceu uma vez em Londres. Grande parte das desgraças do
mundo foram causadas por esses tiranos []. Na Inglaterra, só somos felizes desde
que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião. [...]

imagem: http://tomarpartido.weblog.com.pt

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martin claret e a boa fé do leitor
no exótico expediente de tentar preencher a cota dos "cento e trinta e qualquer
coisa" verbetes duplicando o mesmo artigo em duas traduções diferentes, a martin
claret conseguiu demonstrar cabalmente um ponto fundamental: cada tradução é única
e irrepetível.

a tal ponto que leitores incapazes de colocar em dúvida a incorruptibilidade da


natureza humana acreditam que voltaire realmente quis frisar tanto seus argumentos
sobre les bêtes que escreveu dois verbetes diferentes sobre o mesmo tema: "essa
questão de crueldade contra os animais ... foi tão veementemente combatida por
VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são dedicados dois verbetes: o
primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

e naturalmente, ao transcrever a íntegra dos dois verbetes, o honesto leitor dá a


devida referência:
"ANIMAIS - Voltaire (1596-1650) (in Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin
Claret, 2004. capítulo 8, P . 30-32)" e "IRRACIONAIS - Voltaire (1596-1650) (in
Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin Claret, 2004. capítulo 78, P. 319-321)".

a dona claret devia se envergonhar de se aproveitar tão descaradamente da


confiança e boa fé das pessoas.

imagem: shunkosai, wikipedia

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dicionário filosófico, cotejo I
quanto à bizarra montagem da martin claret em sua edição do dicionário filosófico
de voltaire, duplicando verbetes iguais com traduções diferentes, picotando e
criando artificialmente novos verbetes, copiando despudoradamente traduções
anteriores, vejamos agora alguns exemplos.

trata-se do artigo sobre o caráter, com um fraseio bem peculiar em português, da


lavra de líbero rangel de tarso:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um
ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de
musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse
possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor
da natureza. podemos lá criar alguma cousa? não recebemos tudo. experimentai
animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de
gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a
cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a
natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não
vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais
emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas,
e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa
economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu
julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele
velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas
moças, perguntou-lhes colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (atena,
pp. 64-65)

pietro nassetti:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um
ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de
musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse
possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel-prazer, seria senhor
da natureza. podemos lá criar alguma coisa? não recebemos tudo. experimentai
animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de
gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderes [sic] dar
vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou
a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não
vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais
emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas,
e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa
economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu
julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele
velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas
moças, perguntou-lhes, colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?"
(martin claret, p. 69)

ou um trecho do verbete "china (da)":

- líbero rangel de tarso:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de


tecidos carecêssemos. certa erva para infundir nágua, como se nossos climas não
produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo
plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-
lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de
generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse
persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do
rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de
condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (atena, p. 106)

- pietro nassetti:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de


tecidos carecêssemos. certa erva para infundir na água, como se nossos climas não
produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo
plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-
lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de
generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse
persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do
rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de
condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (martin claret, p.
98)

imagem: plagiarius

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18/06/2009
dicionário filosófico, voltaire
o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribuladíssima, com direito até
ao índex e à fogueira. em termos extremamente resumidos, podemos dizer que ele
começou em 1764 com 73 artigos e a edição mais conhecida é a de 1767, a chamada
"sexta edição", com 134 artigos. para quem se interessar, há o ótimo prefácio do
editor beuchot, de 1829.
no brasil, a atena editora lançou em 1937 o dicionário filosófico de 73 artigos,
em tradução de líbero rangel de tarso. teve várias edições e, depois do fechamento
da atena, passou para o catálogo da ediouro, também em sucessivas edições.

em seu estilo inconfundível, a martin claret se saiu com um dicionário filosófico


de voltaire realmente engraçado.

não sei bem como ela chegou a tal resultado, e só posso especular: deve ter visto
dois exemplares diferentes e resolveu juntá-los. como sua familiaridade com
qualquer tipo de original das obras não é propriamente muito grande, ela se saiu
com 136 verbetes ou "capítulos".

esse dicionário filosófico claretiano traz os 73 artigos em cópia literal da


tradução de líbero rangel de tarso. já os outros 63, a martin claret conseguiu
acrescentar de várias maneiras.

uma delas é a multiplicação dos pães:


- pega-se um verbete só, por exemplo "economia", e desdobra-se em três:
"economia" (43), "economia doméstica" (44) e "economia pública" (45).
- o mesmo ocorre com o verbete "preconceitos", mais prolífico, que rendeu cinco
"capítulos": "preconceitos", "preconceitos sentidos" [sic], "preconceitos
físicos", "preconceitos históricos" e "preconceitos religiosos" (114 a 118).
- ou ainda convertendo a seção "exame" do artigo sobre os ídolos (69) num
"capítulo" independente (70), mesmo que fora da ordem alfabética.

outra maneira muito cômica de procurar preencher a cota dos "cento e trinta e
qualquer coisa" é repetir o mesmo verbete em duas traduções diferentes.

- pegue-se, por exemplo, "bêtes" do original e duplique-se-o em "animais" (8) e


"irracionais" (78).

- ou ainda "bornes de l'esprit humain", e ofereça-se-o ao leitor em dois verbetes


diferentes: "fronteiras do espírito humano" (61) e "limites do espírito humano"
(89).

segue abaixo o índice do dicionário filosófico da atena, na tradução de líbero


rangel de tarso.

ÍNDICE
Apresentação
Biografia do autor
1. Abraão
2. Alma
3. Amizade
4. Amor
5. Amor Próprio
6. Amor Socrático
7. Anjo
8. Antropófagos
9. Apis
10. Apocalipse
11. Ateu, Ateísmo
12. Batismo
13. Belo, Beleza
14. Bem (Supremo)
15. Bem (Tudo Está)
16. Cadeia dos Acontecimentos
17. Caráter
18. Catecismo Chinês
19. Catecismo do Japonês
20. Catecismo do Pároco
21. Certo, Certeza
22. Céu dos Antigos (O)
23. China (Da)
24. Circuncisão
25. Convulsões
26. Corpo
27. Cristianismo
28. Crítica
29. Destino
30. Deus
31. Escala dos Seres
32. Estados, Governos
33. Ezequiel (De)
34. Fábulas
35. Falsidade das Virtudes Humanas
36. Fanatismo
37. Fim, Causas Finais
38. Fraude
39. Fronteiras do Espírito Humano
40. Glória
41. Graça
42. Guerra
43. História dos Reis Judeus e Paralipômenos
44. Ídolo, Idólatra, Idolatria
45. Igualdade
46. Inferno
47. Inundação
48. Irracionais
49. Jefté
50. José
51. Leis (Das)
52. Leis Civis e Eclesiásticas
53. Liberdade (Da)
54. Loucura
55. Luxo
56. Matéria
57. Mau
58. Messias
59. Metamorfose, Metempsicose
60. Milagres
61. Moisés
62. Pátria
63. Pedro
64. Preconceitos
65. Religião
66. Ressurreição
67. Salomão
68. Sensação
69. Sonhos
70. Superstição
71. Tirania
72. Tolerância
73. Virtude
Notas

as notas e a biografia do autor também foram integralmente copiadas na edição da


martin claret, em nome de pietro nassetti.

agradeço a joana canêdo o material e grande parte da pesquisa.

imagens: http://espectorama.zipnet/; dicionário filosófico, índice ed. martin


claret; capa, sebo messias.

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abnt, consulta nacional II
a nbr 10526, cujo cancelamento está em processo de consulta nacional, trata da
editoração de traduções. é uma norma pequena, e em direta dependência da nbr 6023
(referências bibliográficas) e da nbr 10524 (preparação de página de rosto de um
livro).

basicamente ela:
- define o que é tradução integral, parcial e intermediária;
- estabelece os elementos de identificação de uma tradução (o nome do tradutor, se
a tradução é integral ou parcial; a quem pertencem os direitos de tradução e os
direitos de tradutor; e a referência bibliográfica do original, de acordo com a
nbr 6023);
- define também onde devem ficar localizados os elementos de identificação, de
acordo com a nbr 10524 (página de rosto, verso, retro);
- estabelece também meia-dúzia de coisas do tipo: datas não gregorianas no
original devem vir acompanhadas pela data gregoriana respectiva entre parênteses;
fazer conversão métrica quando necessário, e assim por diante.

[aliás, sabemos que editoras como a martin claret adoram estampar na capa os
dizeres "texto integral", por mais anos-luz que se interponham entre essa
afirmação e a realidade. o mesmo se pode dizer de editoras como a fundamento de
curitiba que, ao arrepio da lei, adoram manter o anonimato da tradução em seus
livros. essa delinquência existe, quaisquer que sejam as normas, e tem de ser
combatida em outra esfera.]

nessa proposta de cancelamento que está em consulta nacional, a nbr 10526 não será
substituída por outra. entendo que seus elementos já são ou serão contemplados em
outras normas mais abrangentes.

por outro lado, a abnt já deu início aos estudos para a revisão da nbr 6023.
pessoalmente acho que essa consulta nacional sobre a nbr 10526 é uma boa ocasião
para todos os interessados votarem e encaminharem suas sugestões, mesmo em caráter
informal, como subsídios para a reforma da nbr 6023.

o ponto principal que me parece necessário é a adequação da nbr 6023 à lei


9610/98, sobre a responsabilidade da tradução: na normalização das referências
bibliográficas, ela deve ser reconhecida como dado essencial e obrigatório, e não
complementar e opcional como é hoje.

agradeço as informações de joana canêdo, eugenio hansen e carla castilho, da


gerência do processo de normalização da abnt.

imagem: logo abnt

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17/06/2009
abnt, consulta nacional I
eugenio hansen, ofs, avisa que a abnt colocou em consulta nacional a proposta de
cancelamento da norma 10526/88, referente à editoração de traduções.

"EDITAL Nº. 06:2009


Período de 21 de maio de 2009 a 20 de junho de 2009

PROPOSTAS DE CANCELAMENTO DE NORMAS BRASILEIRAS

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) torna público que as Propostas


de Cancelamento das Normas Brasileiras a seguir relacionadas encontram-se
disponíveis em Consulta Nacional no endereço www.abntnet.com.br/consultanacional.

A Consulta Nacional é realizada inteiramente on line, sem qualquer ônus, conforme


instruções apresentadas no próprio site.

Ressaltamos que devem ser observados os respectivos prazos-limites indicados no


site.
Esta relação também é publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.).
[...]

ABNT/CB-14 – COMITÊ BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO

ABNT NBR 10526:1988 Editoração de traduções Prazo-limite 14.07.2009


Justificativa: Esta norma não é mais utilizada pelo setor."

para participar da consulta, clicar em:


http://www.abntnet.com.br/consultanacional/projetos.aspx?ID=163&Projeto=ABNT/CB-
14%20INFORMAÇÃO%20E%20DOCUMENTAÇÃO
selecionar "cancelamentos" e pedir visualização.

além de votar, você pode colocar seus comentários e/ou anexar sugestões no campo
da votação. pronto, é só enviar. meio minuto depois você recebe em seu e-mail a
cópia e número de autenticação de seu voto.

o meu, por exemplo, foi:


"Seu voto: Aprovado com observações de forma
Comentário: seria absolutamente necessário reformar a nbr 6023, nos modelos de
referência, item 7. entre os elementos essenciais está nomeado o autor. desde a
lei 9610/98, o tradutor é definido como autor de obra derivada. no entanto, a nbr
6023 indica a responsabilidade de tradução como dado complementar e não essencial.
por exemplo: 8.1.1.4. seria preciso especificar entre os dados essenciais 'autor
da obra originária' e 'autor da obra derivada', conforme estabelece a referida lei
9610/98. Com -1 arquivo(s) anexados".

amanhã volto ao tema.

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prefácio, poe XVI

minha traduçãozinha do prefácio a tales of the grotesque and arabesque, de edgar


allan poe, está disponível para download no scribd e no 4shared.
imagem: www.scriptorium.sk

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16/06/2009
brasilices, poe XV
desses dez dias de poe sobraram umas rabeiras de rascunho, que coloco aqui.

os erros de baudelaire

essa questão de atribuição pode parecer um detalhe, mas é uma coisa manhosa, a
ponto, por exemplo, de induzir um intelectual brasileiro de certo renome a afirmar
que, "ao traduzir tales of grotesque and arabesque para histoires extraordinaires,
charles baudelaire errou duas vezes. a primeira, ao trair a vontade expressa do
autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda,
por não perceber a enorme riqueza semântica do original".

o altaneiro veredito apenas mostra que quem o enunciou pouca ou nenhuma


familiaridade tem, seja com tales of the grotesque and arabesque, seja com
histoires extraordinaires. e é a nossas editoras, com suas atribuições
displicentes e equivocadas, que devemos atribuir a produção de tais pérolas do
saber acadêmico. aliás, diga-se de passagem que baudelaire é o primeiro a
reconhecer em seu prefácio a expressividade de "le titre Tales of the Grotesque
and the Arabesque — titre remarquable et intentionnel".

toque de caixa

imagino uma cena assim, na hora do fechamento do livro:


- ih meu, tá faltando o nome do original! e como se chama essa coisa?
- procura aí na outra edição.
- pô, não tem. mas aqui na página da frente o pessoal tá falando de umas histórias
extraordinárias em francês.
- francês????? mas o livro é do inglês!
- não, é que parece que um tal baú–de–láire, sei lá como se diz isso, pegou o pôu
e traduziu em francês. que nome mais esquisito.
- que nome é, então? o inglês, o inglês, não o francês.
- peraí, peraí, tô lendo.
- vai logo, tem que botar o nome de algum original aí.
- ah, achei! téles ovi de grotéski endi arabéski, acho que é isso.
- tá, tá bom, se não é, fica sendo. mas bota por escrito aqui na prova.

outra sala:
- pronto, chefe. tá qui, tudo em cima.
- acharam o nome do tal livro?
- ah, foi moleza. eu até já conhecia.
- então tá bom. deixa aí na mesa que depois dou uma olhada. tá pronto pra rodar?
- ôôô, pode mandar bala.

e o resto virou história.

e a m oda pega

dona ediouro, se faz mais de trinta anos que a sra. diz que foi a clarice
lispector que escolheu os contos do poe que vocês publicam, como é que a antologia
dela acabou virando tradução do original tales of the grotesque and arabesque?

agora, falando sério


este ano comemoram-se os duzentos anos de nascimento de edgar allan poe (1809-
1849). a universidade federal de minas gerais está organizando um grande congresso
internacional, para sempre poe, entre os dias 20 e 23 de setembro. vale a pena
conferir. tomara que a gente consiga sair dessa brincadeira de roda e comece a se
entender com as coisas.

nessa pesquisa foram muito úteis os artigos de carlos daghlian, a recepção de poe
na literatura brasileira e obras de e sobre poe em português ou publicadas no
brasil. agradeço de novo a saulo von randow jr. e a joana canêdo, que colaboraram
com coisas magníficas.

imagens: o gato assustado; o gato apavorado; o gato pálido de susto

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lendo, poe XIV

estas são algumas capas de vários livros de, com e sobre poe publicados no brasil.

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contos do grotesco e arabesco, prefácio, poe XIII

Prefácio

Ver-se-á que os termos “grotesco” e “arabesco” indicam com bastante precisão o


teor dominante dos contos aqui publicados. Mas, se durante dois ou três anos
escrevi 25 histórias curtas cujo caráter geral pode ser definido com tanta
brevidade, não é justo – ou, em todo caso, não é verdadeiro – inferir daí que
alimento um especial ou enorme gosto ou propensão por esse tipo de texto. Posso
ter escrito pensando em reeditá-los em forma de livro e, portanto, posso ter tido
a intenção de preservar, pelo menos até certo ponto, uma certa unidade de
concepção. Na verdade, é este o caso; e pode até acontecer que eu nunca mais
componha nada dessa maneira. Menciono aqui essas coisas porque sou levado a pensar
que foi este predomínio do “arabesco” em meus contos sérios que levou um ou dois
críticos a me censurar, muito amigavelmente, por algo que lhes aprouve chamar de
“germanismo” e soturnez. É uma acusação de mau gosto, e suas razões não estão bem
fundamentadas. Admitamos por um momento que as “peças de fantasia” aqui
apresentadas sejam mesmo germânicas, ou o que for. Neste caso, o germanismo é “o
estado de espírito” de agora. Amanhã posso ser tudo menos germânico, tal como
ontem fui qualquer outra coisa. Estes vários contos continuam a ser um livro só.
Meus amigos teriam igual razão em censurar um astrônomo por excesso de astronomia
ou um autor ético por tratar demais da moral. Mas a verdade é que, salvo uma única
exceção, em nenhuma destas histórias o estudioso reconhecerá as características
próprias daquela espécie de pseudohorror que aprendemos a chamar de germânico, sem
outra razão melhor a não ser porque alguns dos nomes menores da literatura alemã
passaram a ser identificados com sua tolice. Se o terror é a tese em muitas
criações minhas, digo que o terror não é da Alemanha, e sim da alma – que eu
deduzi este terror apenas de suas fontes legítimas e o conduzi apenas a seus
legítimos resultados.

Aqui há um ou dois escritos (concebidos e executados no mais puro espírito de


extravaganza) para os quais não espero uma atenção séria, e dos quais não falarei
mais. Para os outros, porém, não seria consciencioso de minha parte pedir
indulgência alegando que foram feitos às pressas. Creio que o melhor, portanto, é
dizer que, se pequei, foi deliberadamente. Estas pequenas composições são, no
principal, os resultados de um propósito maduro e de uma elaboração muito
cuidadosa.

fonte: preface; trad. informal minha.


imagem: tales of the grotesque and arabesque, 2 vols.

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poe no brasil, poe XII
depois desse longo périplo sobre poe, duas conclusões me parecem interessantes:

- a coletânea de histoires extraordinaires, tal como foi concebida por baudelaire,


é inédita no brasil;

- e, principalmente, a coletânea de tales of the grotesque and arabesque, tal como


foi concebida por poe, é inédita no brasil.

senhores editores, que tal comemorar os 200 anos de nascimento de edgar allan poe
com o lançamento desse volume, com seu belo título contos do grotesco e arabesco e
o breve prefácio do autor?

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contos do grotesco e arabesco, poe XI
se as histórias extraordinárias no brasil são tantas, em tantas edições
diferentes, variando de 6 a 17 contos, os mais variados possíveis, como se dá que
algumas delas se apresentem como tradução de um original chamado tales of the
grotesque and arabesque?

não faço ideia de como surgiu essa atribuição, e a fonte mais antiga que encontrei
para ela foi a frase, já citada: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi
publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".

a primeira incorreção desta frase, como vimos, é a data: histoires extraordinaires


foi publicada na frança não em 1848, e sim em 1856.

a segunda, e crassa, é a fantástica identificação entre tales of the grotesque and


arabesque e histoires extraordinaires.

não só nada a autoriza, como também é uma impossibilidade ontológica.

já vimos quais são os treze contos de poe que compõem a antologia baudelaireana
das histoires, e respectivas datas de redação. mas não custa repetir: histoires
extraordinaires de 1856 consiste numa coletânea traduzida de treze contos que poe
escreveu originalmente entre 1832 e 1845.

tales of the grotesque and arabesque, por sua vez, é uma coletânea de 25 contos
que poe selecionou e lançou em novembro/dezembro de 1839, com data de 1840, em
dois volumes. ela reúne contos escritos entre 1831 e 1839, que podem ser
consultados na wikisource e na edgar allan poe baltimore society.

volume I:

Morella (1835); Lionizing (1835); William Wilson (1839); The Man That Was Used Up
— A Tale of the Late Bugaboo and Kickapoo Campaign (1839); The Fall of the House
of Usher (1839); The Duc de L'Omelette (1831); MS. Found in a Bottle (1833); Bon-
Bon [The Bargain Lost] (1831); Shadow — A Parable (1835); The Devil in the Belfry
(1839); Ligeia (1838); King Pest — A Tale Containing an Allegory (1835); The
Signora Zenobia (1838); The Scythe of Time (1838).

volume II:

Epimanes (1833); Siope [Silence – A Fable] (1832); The Unparalleled Adventure of


One Hans Pfaal (1835); A Tale of Jerusalem (1832); Von Jung [Mystification]
(1837); Loss of Breath [A Decided Loss] (1831); Metzengerstein (1831); Berenice
(1834); Why the Little Frenchman Wears His Hand in a Sling (1837); The Visionary
[The Assignation] (1832); The Conversation of Eiros and Charmion (1839), e um
apêndice ao conto "hans pfaal".

não sei dizer quem era o editor da civilização brasileira ou da abril cultural à
época em que se instaurou toda essa confusão, mas uma coisa é certa: as histórias
extraordinárias não têm nada a ver com tales of the grotesque and arabesque, digam
o que disserem as referências das diversas edições, com licença da civilização,
pela abril cultural, círculo do livro após 1978 e nova cultural (e sem licença
pela martin claret) - e, surpreendentemente, também as edições da ediouro!

naturalmente todos os 25 contos de poe reunidos na coletânea de 1840 existem em


português, porém espalhados aqui e ali. no caso da edição da aguilar, que é a mais
completa, eles estão distribuídos sob várias rubricas: “contos de terror, de
mistério e de morte”, “contos filosóficos”, "contos humorísticos", "viagens
fantásticas" e "aventuras fabulosas". e só para lembrar o conto por onde
começamos, poe escreveu the black cat em 1843, razão pela qual ele não poderia
estar na companhia dos contos do grotesco e arabesco de 1840.

conclui-se que, nesse mar de sargaços, a coletânea tales of the grotesque and
arabesque, tal como foi concebida, selecionada e publicada por poe, jamais – por
incrível que pareça – teve uma única edição no brasil.

imagens: tales of the grotesque and arabesque, vol. I e vol. II.

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15/06/2009
sobra e falta, poe X
em extra & extra, sugeri que "a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso
ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires
extraordinaires".

isso não significa que não tivemos retraduções de poe a partir do francês, e pela
interposição de baudelaire, justamente. e aqui cabe acrescentar mais um dado.

além de histoires extraordinaires, baudelaire selecionou, traduziu e publicou mais


dois volumes de escritos de edgar allan poe.

- nouvelles histoires extraordinaires com 23 contos, em 1857:


Le Démon de la perversité (1845)
Le Chat noir (1843)
William Wilson (1839)
L’Homme des foules (1840)
Le Cœur révélateur (1843)
Bérénice (1835)
La Chute de la maison Usher (1839)
Le Puit et le pendule (1842)
Hop-Frog (1849)
La Barrique d’amontillado (1846)
Le Masque de la mort rouge (1842)
Le Roi Peste (1835)
Le Diable dans le beffroi (1839)
Lionnerie (1835)
Quatre bêtes en une (1833)
Petite Discussion avec une momie (1845)
Puissance de la parole (1845)
Colloque entre Monos et Una (1845)
Conversation d’Eiros avec Charmion (1839)
Ombre (1835)
Silence (1837)
L’Île de la fée (1841)
Le Portrait ovale (1842)

- histoires grotesques et sérieuses, com sete contos e três ensaios, em 1865:


Le Mystère de Marie Roget (1842)
Le Joueur d’échecs de Maelzel (1836)
Eleonora (1841)
Un Événement à Jérusalem (1832)
L’Ange du bizarre (1844)
Le Système du docteur Goudron et du professeur Plume (1845)
Le Domaine d’Arnheim (1847)
Le Cottage Landor (1849)
Philosophie de l’ameublement (1840)
La Genèse d’un poème (1850)

então, na primeira metade do século XX, antes da multiplicação indiscriminada de


coletâneas de histórias extraordinárias, houve edições brasileiras com outro
título concorrido - novelas extraordinárias:

1. melhoramentos, com tradução de afonso de taunay (192--). essas novellas


extraordinárias selecionadas e traduzidas por taunay trazem contos das três
antologias de baudelaire. são eles: o escaravelho dourado; a incomparável aventura
de um tal hans pfaal; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; hop frog; a
barrica de amontillado; a máscara da morte rubra, além do apêndice de poe ao conto
hans pfaal. o volume, ilustrado e publicado na coleção "bibliotheca da
adolescência", traz um estudo introdutório de taunay.
ricardo araújo, em edgar allan poe: um homem em sua sombra, também menciona essa
tradução de taunay, em edição de 1941.

ainda em tradução e com introdução de afonso de taunay existe uma outra coletânea
ilustrada de contos de poe. chama-se histórias esquisitas, e saiu pela
melhoramentos em 1927, também na biblioteca da adolescência.
reúne 9 contos, sendo 7 das histoires de 1856 e 2 das nouvelles histoires de 1857:
o duplo crime da rua morgue; carta roubada; manuscrito encontrado numa garrafa;
descida ao maelstrom; a balela do balão; metzengerstein; reminiscências de augusto
bedloe; o diabo no campanário; rei peste.*
* a propósito, mary del priore sugere uma hipótese instigante, relacionando o
interesse de taunay por poe e sua teratologia do brasil colonial (mary del priore,
"introdução", in taunay, afonso d'escragnolle, monstros e monstrengos do brasil,
companhia das letras, 1998).

2. garnier, sem nome de tradutor, sem data - desconheço o conteúdo.

3. o livro de bolso, sem nome de tradutor, e a indicação "tradução revista por


faria e sousa", 1941. assim a descreve cláudio weber abramo, a espada no livro:
"Além de contos, esta edição contém: uma descrição do enredo de 'O Corvo' (com o
subtítulo 'A gênese de um poema') obviamente traduzida da versão francesa de
Baudelaire e com lacunas; uma tradução de 'The Philosophy of Composition', também
obtida via Baudelaire; a tradução de 'O Corvo' por Machado de Assis, em que faltam
as três últimas estrofes".

4. cruzeiro do sul, em que faria e souza agora aparece como responsável pela
tradução, 1943. desconheço o conteúdo.

5. clube do livro (sem tradutor), 1945. curiosamente, esta coletânea também traz o
corvo: o demônio da perversidade; sombra; silêncio; william wilson; o escaravelho
de ouro; o corvo; o homem das multidões; o poço e o pêndulo; hop-frog; berenice.

eu não ficaria surpresa se as edições d'o livro de bolso, da cruzeiro do sul e do


clube do livro fossem todas elas reedições da garnier. a casa editorial a que
estava ligado machado de assis encerrou suas atividades no brasil em 1934. não
admiraria que publicasse o corvo na tradução machadiana; não admiraria que suas
novelas extraordinárias ressurgissem anos depois numa "tradução revista"; não
admiraria que o citado revisor fosse transformado em tradutor numa outra edição
posterior; não admiraria que o clube do livro reeditasse as novelas
extraordinárias da garnier simplesmente eliminando a referência ao
revisor/tradutor. são dados relativamente fáceis de levantar. talvez algum dia eu
volte a eles ou algum curioso se disponha a preencher essas lacunas.

o que quero mostrar é que, antes de proliferarem as histórias extraordinárias a


partir de 1958, surgiram no brasil coletâneas de poe baseadas nas traduções
baudelaireanas. mas, tal como nenhum edição de histórias extraordinárias
corresponde às histoires extraordinaires, da mesma forma nenhum dos conteúdos
acima apresentados corresponde a elas.

assim, creio que se desenha uma conclusão bastante sólida: histoires


extraordinaires, a específica seleta baudelaireana de contos de edgar allan poe,
jamais foi publicada no brasil.

fontes: 1857, wikisource e eapoe.org; 1865, wikisource e eapoe.org

imagens: livrarias

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a extraordinária máquina do tempo, poe IX
o equívoco que eu mencionei em extra & extra e em grotesco arabesco parece ter
percorrido um caminho meio sinuoso. vamos tentar reconstituir por partes.

a inventiva frase que encerra a apresentação de poe nas histórias extraordinárias


da abril cultural, sob licença da civilização brasileira, diz: "Em 1848, Contos do
Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por
Baudelaire".

são várias inverdades. por ora, já sabemos que baudelaire publicou histoires
extraordinaires em 1856, não em 1848.

a única razão que consigo imaginar para esse recuo de oito anos na fantasiosa
informação é que o escriba dessa edição da abril deve ter lido meio por cima em
algum lugar "baudelaire ... 1848 ... histoires extraordinaires", e se deu por
satisfeito.
eu preencheria as lacunas dessa leitura dinâmica assim: "baudelaire traduziu um
conto de poe pela primeira vez em 1848. depois de traduzir vários outros contos,
ele os reuniu e publicou num volume chamado histoires extraordinaires".

faria sentido e estaria mais de acordo com a realidade.


para quem se interessar, o primeiro conto de poe que baudelaire traduziu - em 1848
- foi mesmeric revelation, publicado em 15 de julho do mesmo ano em la liberté de
penser com o nome de révélation magnétique (ver eapoe.org).

imagem: www.macvirtual.usp.br

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14/06/2009
extra & extra, poe VIII
essa sequência de posts sobre edgar allan poe no brasil se iniciou com um cotejo
de o gato preto (brenno silveira x pietro nassetti).

aí, como neste ano de 2009 comemora-se o segundo centenário de nascimento de poe,
resolvi festejá-lo tentando rastrear os caminhos de seu black cat em nossa
terrinha. essa curiosidade resultou numa listinha das pessoas que traduziram o
gato preto no brasil; uma relação das diversas coletâneas de histórias
extraordinárias, que é onde ele mais aparece; e depois algumas andanças dele em
outras antologias.

esse levantamento inicial mostra 34 edições e/ou editoras diferentes para o gato
preto no brasil, quinze delas com o título histórias extraordinárias, em 20
traduções (se se incluir o plágio da martin claret). a tradução que aparece com
maior frequência é, de longe, a de brenno silveira, em sete editoras, seguida a
razoável distância pelas de oscar mendes com milton amado, de clarice lispector e
de josé paulo paes. estas traduções de o gato preto mais reproduzidas se
concentram em diferentes coletâneas com o mesmo título de histórias
extraordinárias: onze ocorrências.

mas, a certa altura, parece que se criou um equívoco em torno das histórias
extraordinárias. e é isso que eu gostaria de começar a abordar.

histórias extraordinárias, histoires extraordinaires

retomando, a primeira coletânea brasileira a portar o título histórias


extraordinárias foi a da cultrix em 1958, com seleção, organização e tradução de
josé paulo paes.

logo a seguir, em 1959, a civilização brasileira lançou uma coletânea com


organização, prefácio, tradução e notas de brenno silveira, com onze contos,
chamada antologia de contos de edgar allan poe.
apenas em 1970 a antologia de brenno muda de nome: ganha mais dois contos e passa
a se chamar histórias extraordinárias. a partir daí, aquela seleta inicial de
brenno vai variando, em edições com 12, 13, 16 e até 17 contos.

as histórias extraordinárias da tecnoprint/ ediouro também fizeram um percurso


movimentado, sempre em seleção, tradução e adaptação de clarice lispector: de
início surgiu um volume chamado 7 de allan poe; depois foi ampliado para 11 de
allan poe; acrescida de mais contos, a seleta surge c. 1975 como o gato preto e
outras histórias de allan poe; rebatizada, aparece como histórias extraordinárias
de allan poe, e por fim adota o nome enxuto de histórias extraordinárias.

desnecessário dizer que a fonte de inspiração para o concorrido título é a


coletânea montada por charles baudelaire, de nome histoires extraordinaires. essa
coletânea reúne treze contos de edgar allan poe, selecionados e traduzidos por
baudelaire, e que veio à luz em 1856.

os 13 contos de poe que estão reunidos nas histoires extraordinaires de baudelaire


são os seguintes:*
Double Assassinat dans la rue Morgue (1841)
La Lettre volée (1844)
Le Scarabée d’or (1843)
Le Canard au ballon (1844)
Aventure sans pareille d’un certain Hans Pfaall (1835)
Manuscrit trouvé dans une bouteille (1833)
Une Descente dans le Maelstrom (1841)
La Vérité sur le cas de M. Valdemar (1845)
Révélation magnétique (1844)
Souvenirs de M. Auguste Bedloe (1844)
Morella (1835)
Ligeia (1838)
Metzengerstein (1832)

no brasil existem pelo menos treze coletâneas diferentes com o mesmo título de
histórias extraordinárias. nenhuma delas corresponde às histoires extraordinaires
de baudelaire. em verdade, nenhuma delas (exceto a ed. escala/larousse) tampouco
pretende corresponder às histoires baudelaireanas.**

então, a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado


de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires.

vejo histórias extraordinárias no brasil, referindo-se a edgar allan poe, como um


título que se aplica a qualquer coletânea que se queira, com qualquer quantidade
de contos que se pretenda. é um bom nome, com suas ressonâncias baudelaireanas e
uma certa consagração difusa, e só: de resto, sendo uma carcaça vazia, funciona
como um vale-tudo. e justamente porque histórias extraordinárias não corresponde a
histoires extraordinaires de baudelaire, e também não corresponde a nenhuma obra
específica de poe, não existe nenhuma vinculação necessária entre o título e o
conteúdo do livro. por isso é possível proliferarem tantas antologias diferentes
com o mesmo nome.

* wikisource e eapoe.org (as datas correspondem à primeira publicação original).

** ver o conteúdo das antologias brasileiras com o nome de histórias


extraordinárias em poe V. quanto à edição da larousse, os dados parecem
improcedentes, visto que apenas dois - a carta roubada e o escaravelho de ouro -
dos sete contos do volume constam entre as treze histoires extraordinaires
baudelaireanas.

imagem: capa de histoires extraordinaires, nouv. éd. 1875.

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caçando o gato, poe VII

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13/06/2009
as andanças do gato, poe VI

outras andanças d'o gato preto


o gato preto, além de aparecer em diversas histórias extraordinárias, passeia por
outras antologias. por exemplo:

a. coletâneas de poe:
- os já referidos contos de imaginação e mistério, trad. port. januário leite,
pela annuario do brasil, 1926;
- um homônimo contos de imaginação e mistério, trad. aurélio lacerda, pela
pinguim, 1947;
- o mistério do gato preto, tradução anônima, pela tecnoprint, 1954;
- o fantasma da rua morgue, trad. frederico dos reis coutinho, pela vecchi, 1954;
- antologia de contos de edgar allan poe, trad. brenno silveira, pela civilização
brasileira, 1959;
- contos de terror, de mistério e de morte, trad. oscar mendes e milton amado,
pela globo, manancial, josé aguilar, nova fronteira;
- os crimes da rua morgue e outras histórias, trad. aldo della nina, pela saraiva,
1961; reed. como assassinatos na rua morgue e outras histórias em 2006;
- o gato preto e outras histórias de allan poe, trad. clarice lispector, pela
ediouro, c. 1975;
- contos escolhidos, trad. oscar mendes e milton amado, globo, 1985;
- o escaravelho de ouro e outras histórias, trad. josé rubens siqueira, ática,
1993;
- histórias de crime e mistério, trad. geraldo galvão ferraz, ática, 1998;
- o escaravelho de ouro e gato negro, trad. rodrigo espinosa cabral, pela rideel,
2005;
- o gato preto e outras histórias, trad. ricardo gouveia, pela scipione, 2007;
- o gato preto e outros contos, trad. guilherme braga, pela hedra, 2008.

b. sozinho:
- o gato preto, trad. bernardo carvalho, pela cosac & naify, 2004;
- o gato preto, trad. antonio carlos vilela, pela melhoramentos, 2006.

c. miscelâneas de autores:
- os mais extraordinários contos de suspense, trad. renato guimarães, civilização
brasileira, 1978;
- clássicos do conto norte-americano, trad. celso m. paciornik, iluminura, 2001
- os melhores contos de medo, horror e morte, trad. oscar mendes e milton amado,
nova fronteira, 2005;
- os melhores contos de cães e gatos, trad. celina portocarrero, ediouro, 2007.

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o gato extraordinário, poe V

o gato preto e as histórias extraordinárias

então vamos lá, por partes.

em 1944, a editora globo lançou em três volumes a obra traduzida de poe mais
abrangente de que se tem notícia no mundo. trazia a ficção completa, 34 poemas - e
mais as traduções de o corvo feitas por machado de assis, fernando pessoa e gondin
da fonseca -, vários ensaios e excertos da marginalia.

na prosa, foi um trabalho de oscar mendes com a colaboração de milton amado; na


poesia, a tradução ficou apenas com milton amado. a introdução, organização e
notas ficaram a cargo de oscar mendes.

nos anos 60 a globo licenciou a obra para a josé aguilar. de 1965 para cá, a josé
aguilar e a posterior nova aguilar vêm publicando a obra em edição amplamente
revista pelos tradutores e uma nova estruturação interna.

o gato preto está lá, classificado entre os contos de terror, mistério e morte.

desde esse lançamento da globo em 1944, o gato preto tem circulado em várias
coletâneas diferentes, com vários nomes, por várias editoras. sucede que algumas
dessas coletâneas, com diferentes quantidades de diferentes contos, trazem o mesmo
título: histórias extraordinárias. mas que isso não nos confunda: são seleções
diferentes, com diferentes tradutores e número variável de contos, os quais também
variam.

assim, por exemplo, existem:

1. as histórias extraordinárias da cultrix (1958) e companhia das letras (2008),


seleção e tradução de josé paulo paes, com 18 contos, a saber:

coração revelador; o retrato ovalado; o sistema do dr. alcatrão e do professor


pena; o gato preto; o diabo no campanário; berenice; sombra - uma parábola;
william wilson; o caixão quadrangular; a máscara da morte rubra; a queda da casa
de usher; a carta roubada; ligéia; pequena palestra com uma múmia; o barril de
amontillado; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem da multidão.

2. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1970), seleção e


tradução de brenno silveira, com 13 contos, a saber:

a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice;


manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o
mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça
com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

3. as histórias extraordinárias da ordibra/inl (1972), tradução de joão teixeira


de paula, com 16 contos, sendo: o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem
na multidão; berenice; hop frog; william wilson; silêncio; sombra; a carta
roubada; o gato preto; o poder da palavra; pequena discussão com uma múmia; o
demônio da perversidade; o sistema do doutor breu e do professor pena; rei peste;
duplo assassínio na rua morgue. traz também o corvo, a gênese de um poema, método
de composição, e a tradução d'o corvo por machado de assis.

4. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1973) em licença para o


círculo do livro, tradução de brenno silveira e outros, com 17 contos, a saber:
a queda da casa de usher; berenice; os crimes da rua morgue; o escaravelho de
ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa;
william wilson; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; o poço
e o pêndulo; nunca aposte sua cabeça com o diabo; uma descida no maelström; o
duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a aventura sem paralelo de um
tal hans pfaall.

5. as histórias extraordinárias de allan poe (seleta de c. 1975, com esse título


desde c. 1985) e as histórias extraordinárias da ediouro, tradução e adaptação de
clarice lispector, com 18 contos, quais sejam: o gato preto; a máscara da morte
rubra; o caso do valdemar; manuscrito encontrado numa garrafa; enterro prematuro;
os crimes da rua morgue; a queda da casa de usher; os dentes de berenice; nunca
aposte sua cabeça com o diabo; o duque de l'omelette; william wilson; o retrato
oval; o coração denunciador; o diabo no campanário; o barril de amontillado;
metzengerstein; ligeia; deus (revelação magnética).

6. as histórias extraordinárias da edibolso (c. 1975), tradução de brenno silveira


e outros, com 12 contos, a saber: a máscara da peste vermelha; o enterro
prematuro; a caixa quadrangular; o homem na multidão; william wilson; o poço e o
pêndulo; a queda da casa de usher; manuscrito encontrado numa garrafa; o barril de
amontillado; o gato preto; o coração revelador; berenice.

7. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1978) em licença para


abril cultural, círculo do livro, nova cultural, tradução de brenno silveira e
outros, com 16 contos, sendo:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice;
manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o
mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça
com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; o
escaravelho de ouro; uma descida no maelstrom; o jogador de xadrez de maelzel.

8. as histórias extraordinárias da globo (1987), seleção de carmen vera cirne


lima, tradução de oscar mendes e milton amado [estou ainda conferindo os títulos
desta seleta].

9. as histórias extraordinárias da martin claret (1999), em suposta tradução de


pietro nassetti, com 7 contos, sendo: o gato preto; manuscrito encontrado em uma
garrafa; os crimes da rua morgue; a carta roubada; o poço e o pêndulo; o
escaravelho de ouro; a queda da casa de usher.

10. as histórias extraordinárias da larousse (2005), em tradução de cláudia ortiz,


com 7 contos, quais sejam: a carta roubada; a queda da casa de usher; o gato
preto; o barril de amontillado; a máscara da morte vermelha; hop-frog; o
escaravelho de ouro.

11. a edição brasileira de histórias extraordinárias pela ed. américa do sul


(1988), na tradução portuguesa de luísa feijó e teixeira de aguilar, com 6 contos,
quais sejam: os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o
barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; eleonora.

essas onze coletâneas diferentes de histórias extraordinárias incluem o gato


preto.

há outras duas com o mesmo título de histórias extraordinárias, mas sem o gato
preto:

- otto pierre (1979), de tradutor anônimo, com 8 contos, a saber: os crimes da rua
morgue, o mistério de marie roget, o escaravelho de ouro, o sistema do dr.
alcatrão e do prof. pena, a verdade sobre o caso do sr. valdemar, descida ao
maelstrom, a carta roubada e metzengerstein.

- clube do livro (1988), tradução de josé maria machado, com 10 contos, a saber: o
escaravelho de ouro; o homem na multidão; hop frog; william wilson; silêncio (uma
fábula); sombra (uma parábola); berenice; pequena discussão com uma múmia; a carta
roubada; o sistema do dr. breu e do professor pena.

imagens: google images e livrarias

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o gato brasileiro, poe IV
outro dia apresentei aqui um cotejo brenno silveira x pietro nassetti d'o gato
preto de edgar allan poe. para dar um pouco de contraste, acrescentei os trechos
das traduções de oscar mendes/ milton amado e de guilherme braga.

como uma coisa leva a outra, isso acabou me despertando a curiosidade: quais
seriam outras traduções de o gato preto no brasil?

the black cat no brasil

edgar allan poe escreveu the black cat no final de 1842 ou começo de 1843. o conto
foi publicado no saturday evening post, na edição de 19 de agosto de 1843. em
1845, the black cat foi incluído na coletânea tales, publicada por wiley & putnam,
nova york.*
* para referências sobre vida e obra de poe, ver o excelente site the edgar allan
poe society of baltimore.

o conto aparece em sua primeira tradução brasileira em 1944, e tem conhecido


várias outras traduções e adaptações ao longo desses 65 anos.

arrolo abaixo os nomes dos tradutores e adaptadores, as editoras e o ano da


primeira edição que consegui localizar.

a partir do original em inglês:


- oscar mendes e milton amado, pela globo, 1944, josé aguilar, nova aguilar e nova
fronteira;
- aurélio lacerda, pela pinguim, 1947;
- frederico dos reis coutinho, pela vecchi, 1954;
- anônimo, pela tecnoprint, 1954;
- josé paulo paes, pela cultrix, 1958, e companhia das letras;
- brenno silveira, pela civilização brasileira, 1959, círculo do livro, abril
cultural, edibolso e nova cultural;
- aldo della nina, pela saraiva, 1961;
- joão teixeira de paula, ordibra/inl sob licença do clube do livro, 1972;
- clarice lispector, pela tecnoprint e ediouro, c. 1975;
- renato guimarães, pela civilização brasileira, 1978;
- josé rubens siqueira, pela ática, 1993;
- geraldo galvão ferraz, pela ática, 1998;
- celso mauro paciornik, pela iluminuras, 2001;
- bernardo carvalho, pela cosac & naify, 2004;
- rodrigo espinosa cabral, pela rideel, 2005;
- celina portocarrero, pela ediouro, 2007;
- ricardo gouveia, pela scipione, 2007;
- guilherme braga, pela hedra, 2008.

por interposição:
- annunziata capasso de filippis, pela newton compton, 1995 (do italiano, sem
indicação);
- pietro nassetti, pela martin claret, 1999 (do português, sem indicação);
- cláudia ortiz, pela escala/larousse, 2005 (do francês, com indicação);
- antonio carlos vilela, pela melhoramentos, 2006 (do espanhol, com indicação).

as traduções, em sua grande maioria, trazem o título o gato preto. as exceções são
o mistério do gato preto (tradução anônima, tecnoprint, 1954), o gato negro (josé
rubens siqueira) e gato negro (rodrigo espinosa cabral). menciono ainda a tradução
portuguesa de luísa feijó, que recebeu uma edição brasileira pela ed. américa do
sul (lord cochrane, 1988): o gato negro.

curiosidades:

- o gato preto ganha sua primeira edição brasileira em 1926, pela annuario do
brasil, numa coletânea chamada contos de edgard poe, na tradução portuguesa de
januário leite.

- a primeira tradução de the black cat para a língua portuguesa aparentemente é a


de mécia mouzinho de albuquerque, pela companhia nacional, lisboa, em 1889.

agradeço a joana canêdo, saulo von randow jr. e carlos daghlian por várias
indicações preciosas.

imagem: http://www.overmundo.com.br/
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12/06/2009
fala o combatente de primeira hora

Entrevista: Jorio Dauster, tradutor

Zero Hora — Denúncias de editoras que publicaram como suas traduções antigas com
pequenas alterações cosméticas parecem ter se intensificado nos últimos anos. Para
o senhor, episódios como esse mostram que a tradução ainda é pouco valorizada por
uma fatia do mercado editorial?

Jorio Dauster — Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras
fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive
agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de
intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões
antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os
a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado
ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura
consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a
extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções
bastardas.

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11/06/2009
um grotesco arabesco, poe III
se no brasil josé paulo paes foi o primeiro a dar a uma antologia de contos de
edgar allan poe o nome de histórias extraordinárias (1958, cultrix), alguém não
entendeu a sutileza da coisa e vinte anos depois, numa outra seleta bem diferente,
armou esse grotesco arabesco:

como foi possível chegar a essa fabulosa atribuição das histórias extraordinárias
ao "original: tales of the grotesque and arabesque", é um mistério que desafia a
inteligência.
na apresentação que abre o volume, afora algumas imprecisões ao longo do texto, a
última frase não deixa margem a dúvidas: "Em 1848, Contos do Grotesco e do
Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".

não deixa margem a dúvidas, digo eu, sobre a leviandade de quem escreveu isso. na
frase tão taxativa, somente uma coisa - e apenas implícita - é verdadeira:
baudelaire morava na frança.
muito em breve contaremos essa extraordinária história.

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10/06/2009
ever more, poe II
agradeço ao para sempre poe, com beardsley e tudo!

uma hora, só por curiosidade, vou dar uma olhada nas quinze ou mais traduções/
adaptações de o gato preto no brasil.

imagem: o gato preto

POSTADO POR DENISE 1 COMENTÁRIOS


08/06/2009
o gato preto, poe I
edgar allan poe nasceu em 1809 e morreu em 1849. este ano, portanto, comemora-se o
200o. aniversário de seu nascimento.

dentre suas dezenas de contos, escolhi o gato preto para um breve cotejo entre a
tradução de brenno silveira (civilização brasileira, 1959) e a cópia de pietro
nassetti, com ligeiras adulterações (martin claret, 1999).

além do cotejo propriamente dito, gostaria de exemplificar o que é o lavor da


tradução - as marcas distintivas, as soluções próprias, o partido adotado por cada
tradutor. para isso, apresento ainda os respectivos excertos no original, na
clássica tradução de oscar mendes e milton amado (globo, 1944) e na recente
tradução de guilherme braga (hedra, 2008). isso também permite ilustrar com maior
clareza o tipo de apropriação praticada pela editora martin claret.

I.
I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect,
between the disaster and the atrocity. But I am detailing a chain of facts — and
wish not to leave even a possible link imperfect. On the day succeeding the fire,
I visited the ruins. The walls, with one exception, had fallen in. This exception
was found in a compartment wall, not very thick, which stood about the middle of
the house, and against which had rested the head of my bed. The plastering had
here, in great measure, resisted the action of the fire — a fact which I
attributed to its having been recently spread. About this wall a dense crowd were
collected, and many persons seemed to be examining a particular portion of it with
very minute and eager attention. The words "strange!" "singular!" and other
similar expressions, excited my curiosity. I approached and saw, as if graven in
bas relief upon the white surface, the figure of a gigantic cat. The impression
was given with an accuracy truly marvellous. There had been a rope about the
animal's neck.

1. oscar mendes com milton amado


Não tenho a fraqueza de buscar estabelecer uma relação de causa e efeito entre o
desastre e a atrocidade, mas estou relatando um encadeamento de fatos e não desejo
que nem mesmo um possível elo seja negligenciado. Visitei os escombros no dia
seguinte ao incêndio. Todas as paredes tinham caído, exceto uma, e esta era de um
aposento interno, não muito grossa, que se situava mais ou menos no meio da casa e
contra a qual permanecera a cabeceira de minha cama. O estuque havia, em grande
parte, resistido ali à ação do fogo, fato que atribuí a ter sido ele recentemente
colocado. Em torno dessa parede reuniu-se compacta multidão e muitas pessoas
pareciam estar examinando certa parte especial dela, com uma atenção muito ávida e
minuciosa. As palavras "estranho, singular!" e expressões semelhantes excitaram
minha curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a
superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem fora reproduzida com
uma nitidez verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em redor do pescoço do
animal.

2. guilherme braga
Creio estar acima da fraqueza que tenta estabelecer uma relação de causa e efeito
entre a minha atrocidade e o desastre. Nada mais faço além de detalhar uma
corrente de acontecimentos – e não desejo que lhe falte nenhum elo. No dia
seguinte ao incêndio, fui visitar as ruínas. As paredes todas, à exceção de uma,
haviam desabado. Era uma parede interna, não muito espessa, próxima ao meio da
casa, e contra a qual a cabeceira de minha cama ficava encostada. Lá, o estuque
havia, em grande parte, resistido à ação do fogo – o que atribuí ao fato de que
fora aplicado havia pouco tempo. Ao redor dessa parede havia uma aglomeração de
pessoas, e muitas pareciam examinar-lhe uma certa parte com grande interesse e
atenção. As palavras “estranho!”, “esquisito!” e outras exclamações similares
despertaram-me a curiosidade. Ao aproximar-me, vi, como que gravada em baixo-
relevo sobre a superfície branca, a silhueta de um enorme gato. A representação
era de uma acuidade realmente impressionante. Ao redor do pescoço do animal, via-
se uma forca.

3. brenno silveira
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e
a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não
desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao
do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham
desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior,
situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O
reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao
fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno
dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade,
uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões
semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em
baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem
era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do
pescoço do animal.

4. pietro nassetti
Não pretendo estabelecer relação nenhuma entre causa e efeito - entre o desastre e
a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não
desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao
do incêndio, fui ver as ruínas. Com exceção de uma, todas as paredes tinham
desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior,
localizado no meio da casa, junto ao qual estava a cabeceira de minha cama. O
reboco havia aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que supus
relacionar-se ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se
reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas observavam, com especial atenção e
minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", e outras
expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se
gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco.
A imagem era de uma exatidão verdadeiramente assombrosa. Havia uma corda em torno
do pescoço do animal.

II.
Although I thus readily accounted to my reason, if not altogether to my
conscience, for the startling fact just detailed, it did not the less fail to make
a deep impression upon my fancy. For months I could not rid myself of the phantasm
of the cat; and, during this period, there came back into my spirit a half-
sentiment that seemed, but was not, remorse. I went so far as to regret the loss
of the animal, and to look about me, among the vile haunts which I now habitually
frequented, for another pet of the same species, and of somewhat similar
appearance, with which to supply its place.

1. oscar mendes com milton amado


Embora assim prontamente procurasse satisfazer a minha razão, senão de todo a
minha consciência, a respeito do surpreendente fato que acabo de narrar, nem por
isso deixou ele de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses,
eu não me pude libertar do fantasma do gato e, nesse período, voltava-me ao
espírito um vago sentimento que parecia remorso, mas não era. Cheguei a ponto de
lamentar a perda do animal e de procurar, entre as tascas ordinárias que eu agora
habitualmente freqüentava, outro bicho da mesma espécie e de aparência um tanto
semelhante com que substituí-lo.

2. guilherme braga
Conquanto eu pudesse, assim, esclarecer a meu juízo, se não de todo à minha
consciência, o estranho fato detalhado, este não deixou de causar uma impressão
profunda em minha imaginação. Por meses o fantasma do gato me assombrou; e,
durante esse período, insinuou-se em meu espírito um sentimento difuso que
parecia, mas não era, remorso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e
pus-me a procurar, nos estabelecimentos infames que eu então frequentava, um outro
da mesma espécie e de aparência semelhante, para que assumisse o seu lugar.

3. brenno silveira
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de
maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de
descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante
meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em
meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse.
Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares
que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante
que pudesse substituí-lo.

4. pietro nassetti
se bem que isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo,
de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente acontecimento que
acabo de narrar não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão.
Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse intervalo de tempo,
nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o
fosse. Cheguei realmente a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos
lugares que então freqüentava, outro gato da mesma espécie e de aparência
semelhante que pudesse substituí-lo.

III.
Finally, I hit upon what I considered a far better expedient than either of these.
I determined to wall it up in the cellar — as the monks of the middle ages are
recorded to have walled up their victims.
For a purpose such as this the cellar was admirably adapted. Its walls were
loosely constructed, and had lately been plastered throughout with a rough
plaster, which the dampness of the atmosphere had prevented from hardening.
Moreover, in one of the walls was a projection, caused by a false chimney, or
fire-place, that had been filled, or walled up, and made to resemble the rest of
the cellar. I made no doubt that I could readily displace the bricks at this
point, insert the corpse, and wall the whole up as before, so that no eye could
detect any thing suspicious.

1. oscar mendes com milton amado


Finalmente, detive-me no que considerei um expediente bem melhor que qualquer um
destes. Decidi emparedá-lo na adega, como se diz que os monges da Idade Média
emparedavam suas vítimas.
Para um objetivo semelhante estava a adega bem adaptada. Suas paredes eram de
construção descuidada e tinham sido ultimamente recobertas, por completo, de um
reboco grosseiro, cujo endurecimento a umidade da atmosfera impedira. Além disso,
em uma das paredes havia uma saliência causada por uma falsa chaminé ou lareira
que fora tapada para não se diferençar do resto da adega. Não tive dúvidas de que
poderia prontamente retirar os tijolos naquele ponto, introduzir o cadáver e
emparedar tudo como antes, de modo que olhar algum pudesse descobrir qualquer
coisa suspeita.

2. guilherme braga
Por fim, decidi valer-me de um expediente que julguei muito mais apropriado que
qualquer um desses. Resolvi emparedar o corpo no porão – como os monges da Idade
Média emparedavam suas vítimas, segundo atestam documentos.
O porão prestava-se bem a esse fim. As paredes não eram muito sólidas e
recentemente haviam sido recobertas com um reboco grosseiro, que a umidade das
paredes não deixara secar. Ademais, em uma das paredes via-se uma projeção,
motivada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora fechada de modo a confundir-
se com o restante da estrutura. Não tive dúvidas de que poderia deslocar os
tijolos da projeção, depositar o corpo lá dentro e cimentar tudo outra vez, de
modo que ninguém detectasse nenhum elemento suspeito.

3. brenno silveira
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo
na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido
construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua
extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma
saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora
tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia
facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do
mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

4. pietro nassetti
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo
na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido
construídas com muito esmero e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua
extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. De resto, havia uma
saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora
tampada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia sem
nenhuma dificuldade retirar os tijolos naquele lugar, colocar o corpo e deixá-los
do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse avistar nada que despertasse suspeita.

imagem: http://copycat.lidonet.com

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07/06/2009
toy baby grand

POSTADO POR DENISE 0 COMENTÁRIOS


06/06/2009
mutatis mutandis
anos atrás, a editora rideel moveu um processo contra a w. brasil publicidade.
motivo: a w. brasil, em uma campanha publicitária de aproximação cultural entre o
brasil e o chile, utilizou uma parte de um mapa político da américa do sul que
fazia parte de um atlas publicado pela rideel, sem mencionar de quem era a autoria
do mapa.

o juiz deu ganho de causa à rideel como vítima de contrafação e aos dois autores
do mapa como vítimas de lesão a seus direitos morais.

fico imaginando: se a rideel, como detentora dos direitos de tradução das obras de
seu catálogo, descobrisse que alguma delas foi integralmente copiada e publicada
por outra editora, mas com a autoria da tradução atribuída a outrem, o que será
que ela faria?

imagem: o globo de behaim, 1492

POSTADO POR DENISE 1 COMENTÁRIOS


05/06/2009
cachimbos lusitanos
achei muito cômica a história do blaze que virou star na versão rideel-burattiana
do conto do sherlock holmes.

também achei muito engraçada a nota de tradução que aparece no mesmo conto:

cachimbo bryer, "geralmente conhecido em portugal pela designação francesa de


'bruyère': raiz de roseira brava".
ah, ok - e no brasil, se mal lhe pergunte?

referência: conan doyle, o silver star, in a face amarela e outras histórias,


trad. heloísa da graça buratti. são paulo, editora rideel, 2002, p. 16.
imagem: magritte

POSTADO POR DENISE 0 COMENTÁRIOS


ahn?
heloísa da graça buratti, ao traduzir silver blaze de conan doyle, na coleção
sherlock holmes da editora rideel, batizou essa aventura sherlockiana de o silver
star.

vá lá que outros tradutores (hamílcar de garcia, joaquim machado) tenham escolhido


chamar o cavalo - e o conto - de estrela de prata.

agora, o silver blaze do original virar silver star em português é algo que
ultrapassa meu entendimento.

imagem: capa

POSTADO POR DENISE 2 COMENTÁRIOS


04/06/2009
a luta pelo direito, pillares
prosseguindo na luta pelo direito, de rudolf von ihering, veja um breve apanhado
das traduções, uma canja e o cotejo tavares bastos x heloísa da graça burati
(rideel). agora em 2009 a editora pillares decidiu lançar sua edição dessa obra,
com tradução em nome de ivo de paula e o famoso prefácio de clóvis beviláqua.

no brasil, uma obra passa a fazer parte do patrimônio cultural da sociedade apenas
setenta anos após a morte de seu autor. acho uma barbaridade de tempo, mas é assim
que é. com isso, o famoso prefácio de clóvis beviláqua (1859-1944) a a luta pelo
direito ainda não está em domínio público, e só é possível reproduzi-lo para fins
comerciais com a autorização de seus sucessores.

é o que imagino que a pillares tenha feito - isto é, obtido a licença da família
de beviláqua para publicar seu prefácio. o difícil de entender é a razão pela qual
a tradução pela pillares, sendo idêntica à de josé tavares bastos, aparece em nome
do jurista ivo de paula, mestre em leis e autor de várias obras jurídicas.

1. josé tavares bastos


CAPÍTULO I
Introdução
O direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de
tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o
meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele
conduz.
Eis duas questões para as quais o direito deve sempre procurar uma solução,
podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas
divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a
definição não seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os
meios para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre à
luta contra a injustiça.
A idéia do direito encerra uma antítese que se origina nesta idéia, da qual jamais
se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a
luta é o meio de obtê-lo.

2. ivo de paula
CAPÍTULO I
Introdução
O Direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de
tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o
meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele
conduz.
Eis duas questões para as quais o Direito deve sempre procurar uma solução,
podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas
divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a
definição [] seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os meios
para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre a uma luta
contra a injustiça.
A ideia do Direito encerra uma antítese que se origina desta ideia, da qual jamais
se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a
luta é o meio de obtê-lo.

1. josé tavares bastos


Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o direito se
propõe evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação, uma
negação da ordem legal, e não uma condição necessária da sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o direito;
ao contrário, trata-se aqui da luta do direito contra a injustiça.
Se, neste caso, o direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente
contra ela, renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto como o mundo, porque o direito terá de precaver-se
sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao direito, mas sim uma parte integrante
de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de direito que
estão hoje em vigor foi indispensável impô-los pela luta àqueles que não os
aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo,
pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.

2. ivo de paula
Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o Direito se
propõe a evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação,
uma negação da ordem legal, e não uma condição necessária de sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o Direito;
ao contrário, trata-se aqui da luta do Direito contra a injustiça. Se, neste caso,
o Direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente contra ela,
renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto quanto o mundo, porque o Direito terá de precaver-se
sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao Direito, mas sim uma parte integrante
de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de Direito que
estão hoje em vigor têm sido indispensáveis na [sic] luta contra aqueles que não
os aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo,
pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.

1. josé tavares bastos


O direito não é uma idéia lógica, porém idéia de força; é a razão porque a
justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o direito, empunha na
outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é o direito
impotente; completam-se mutuamente: e, na realidade, o direito só reina quando a
força dispendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que
emprega em manejar a balança.
2. ivo de paula
O Direito não é uma ideia lógica, porém uma ideia de força; é a razão porque a
justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o Direito, sustenta na
outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, e a balança sem a espada é o direito
impotente; completam-se mutuamente; e, na realidade, o direito só reina quando a
força despendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que
emprega em manejar a balança.

1. josé tavares bastos


Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que
com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito e
que é onde se ostenta menos o seu lado real, como idéia de força, do que pelo seu
lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a
todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está muito em harmonia com
a amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido; — o sentido objetivo que nos
oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida, e o
sentido subjetivo, que é, por assim dizer, — o precipitado da regra abstrata no
direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em
ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.

2. ivo de paula
Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que
com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito, e
que é onde se ostenta menos o seu lado real, como ideia de força, do que pelo seu
lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a
todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está [] em harmonia com a
amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido: o sentido objetivo que nos
oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida; e o
sentido subjetivo, que é, por assim dizer, o precipitado da regra abstrata no
direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em
ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.

1. josé tavares bastos


E é deste desenvolvimento interno que se derivam todos os princípios de direito,
que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas
relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência
aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode
dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não
lhes é dado romper os diques que impedem as águas de tomar um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem
esta força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na
natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e
no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente,
seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito,
sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base
do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente
mecânica, que consiste em substituir um para¬fuso ou uma roda qualquer usada por
outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não se pode operar sem
ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados: porque os
interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo
identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar
aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos então o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por
esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que
agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais
violenta resistência oponham a toda a tentativa de tal natureza, dando vida a uma
luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas
forças nela empenhadas, produzindo freqüentemente o mesmo resultado que o
paralelograma das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.

2. ivo de paula
E é deste desenvolvimento interno que [] derivam todos os princípios de direito,
que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas
relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência
aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode
dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não
lhe[] é dado romper os diques que impedem as águas de tomarem um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem
essa força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na
natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e
no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente
seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito,
sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base
do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente
mecânica, que consiste em substituir um para¬fuso ou uma roda qualquer usada por
outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não [] pode operar sem
ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados; porque os
interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo
identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar
aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos, então, o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por
esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que
agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais
violenta resistência oponham a toda [] tentativa de tal natureza, dando vida a uma
luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas
forças nela empenhadas, produzindo frequentemente o mesmo resultado que o
paralelogramo das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.

obs.: a edição da pillares inicia com "direito" em maiúscula, e depois vai


variando, até na mesma frase.

imagens: capa da ed. pillares; www.e-cartz.biz

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destemperos
raquel do jane austen em português deu um toque, fui lá ver.

a ridicularia do mês (ou do ano?):


Leticia Wierzchowski processa este blog (I)
(milton ribeiro)

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03/06/2009
providências rideelianas
constatei no site da editora rideel que o catálogo de suas obras de filosofia
agora está vazio. se se fizer uma pesquisa, o resultado obtido é "Total: 0". até
poucos dias atrás, podia-se pedir detalhamento de cada obra e até a foto em
destaque de cada capa.

na relação de autores, ainda constam os nomes de platão, descartes, hegel,


nietzsche, hobbes, maquiavel, campanella etc., que compunham o catálogo de obras
filosóficas da rideel - mas a pesquisa em "confira outras obras deste autor"
também resulta em "Total: 0".

isso parece indicar que a editora resolveu dar uma espiada mais atenta nesses seus
títulos.

da lista de obras cadastradas no isbn/fbn com tradução em nome de "heloísa da


graça burati" (com um "t"), o site da editora rideel manteve três obras de
shakespeare, a megera domada, as alegres comadres de windsor e medida por medida.
não conheço esses shakespeares da rideel, mas até fiquei meio curiosa em ver essas
traduções.

22 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página


ISBN TÍTULO
85-339-0723-0 ECCE HOME
85-339-0724-9 UTOPIA
85-339-0725-7 O BANQUETE
85-339-0726-5 ALEM DO BEM E DO MAL
85-339-0727-3 A ARTE DA GUERRA
85-339-0728-1 O NASCIMENTO DA TRAGEDIA
85-339-0729-X INTRODUÇÃO A HISTORIA DA FILOSOFIA
85-339-0742-7 A MEGERA DOMADA
85-339-0743-5 AS ALEGRES COMADRES DE WINDSOR
85-339-0744-3 MEDIDA POR MEDIDA
85-339-0730-3 PRINCIPIOS DA FILOSOFIA
85-339-0731-1 HUMANO DEMASIADO HUMANO
85-339-0732-X A CIENCIA GAIA
85-339-0733-8 ASSIM FALAVA ZARATUSTRA
85-339-0734-6 A REPUBLICA
85-339-0720-6 ACERCA DA VERDADE E DA MENTIRA / O ANTICRISTO
85-339-0760-5 LEVIATÃ
85-339-0769-9 A CIDADE ANTIGA
85-339-0773-7 A LUTA PELO DIREITO
85-339-0774-5 METODOLOGIA JURÍDICA
85-339-0776-1 TEORIA SIMPLIFICADA DE POSSE
978-85-339-0938-0 PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA

quanto às obras aqui cotejadas, a luta pelo direito, de rudolf von ihering [veja
aqui] agora consta como esgotada nas principais livrarias com acervo online. isso
parece indicar que o livro não está mais em circulação. por outro lado, o volume
que traz acerca da verdade e da mentira [veja aqui] e o anticristo [veja aqui], de
nietzsche, na pretensa tradução de heloísa da graça burati, ainda continua à venda
em diversas livrarias, por exemplo na fnac.

seria bom se a editora rideel se dispusesse a regularizar rapidamente seu


catálogo. fico torcendo para que a referida editora normalize tudo o mais breve
possível, retire realmente os exemplares espúrios de circulação e dê alguma
satisfação aos leitores que confiaram em suas edições.

imagem: forum 0937, google images


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ο proton pseudos

immanuel kant
sobre um suposto direito de mentir
por amor à humanidade

1. floriano de souza fernandes (editora vozes)


o filósofo francês refuta, na página 124, esse princípio da seguinte maneira: "é
um dever dizer a verdade. o conceito de dever é inseparável do conceito do
direito. um dever é aquilo que corresponde em um ser aos direitos de outro. onde
não há nenhum direito, não há deveres. por conseguinte, dizer a verdade é um
dever, mas somente com relação àqueles que têm direito à verdade. nenhum homem
porém tem direito à verdade que prejudica os outros".

o προτον πσευδοσ encontra-se aqui na proposição: "Dizer a verdade é um dever, mas


somente para com aquele que tem direito à verdade".

deve-se observar em primeiro lugar que a expressão "ter direito à verdade" é


desprovida de sentido. deve-se ao contrário dizer que o homem tem direito à sua
própria veracidade (veracitas), isto é, à verdade subjetiva em sua pessoa. pois
objetivamente ter direito a uma verdade significaria o mesmo que dizer que depende
da sua vontade, como em geral nas questões sobre o meu e o teu, que uma dada
proposição deva ser verdadeira ou falsa, o que produziria então uma estranha
lógica. (pp. 118-20)

2. leopoldo holzbach (editora martin claret)


na página 121[sic], o filósofo francês refuta esse princípio da seguinte forma: "é
um dever dizer a verdade. o conceito de dever é inseparável do conceito do
direito. um dever é aquilo que corresponde em um ser aos direitos do outro. onde
não há direito algum, não há deveres. por conseguinte, dizer a verdade é um dever,
mas somente com relação àqueles que possuem o direito à veracidade*. contudo
nenhum homem tem direito à verdade que prejudica os demais".

* na troca de "verdade" por "veracidade", leopoldo holzbach não levou em conta que
kant estabelece logo abaixo a clara distinção entre wahrheit e wahrhaftigkeit.

o προτον πσευδοσ acha-se aqui na proposição: "Dizer a verdade é um dever, mas


somente para com aquele que tem direito à verdade".

deve-se observar, antes de mais nada, que a expressão "ter direito à verdade"
carece de sentido. deve-se, pelo contrário, dizer que o homem tem direito à sua
própria veracidade (veracitas), isto é, à verdade subjetiva em sua pessoa. pois
ter direito objetivamente a uma verdade significaria o mesmo que afirmar a
dependência em relação à sua vontade, como em geral nas questões sobre o meu e o
teu, que uma dada proposição deva ser verdadeira ou falsa, o que resultaria em uma
estranha lógica. (pp. 123-24)

1. floriano de souza fernandes (editora vozes)


define-se, portanto, a mentira como uma declaração intencionalmente não verdadeira
feita a outro homem, e não há necessidade de acrescentar que deva prejudicar outra
pessoa, como exigem os juristas na definição que dela apresentam (mendacium est
falsiloquium in praejudicium alterius). pois ela prejudica sempre uma outra
pessoa, mesmo quando não um outro homem determinado e sim a humanidade em geral,
ao inutilizar a fonte do direito. (p. 120)
2. leopoldo holzbach (editora martin claret)
define-se, pois, a mentira como uma declaração intencionalmente não-verdadeira
feita a outro homem, e não há necessidade de acrescentar que deva prejudicar outra
pessoa, como exigem os juristas na definição que dela apresentam (mendacium est
falsiloquium in praejudicium alterius). pois ela sempre há de prejudicar outra
pessoa, ainda que não especificamente outro homem determinado, mas sim a
humanidade em geral, ao inutilizar a fonte do direito. (p. 124)

1. floriano de souza fernandes (editora vozes)


o "filósofo alemão" não deverá portanto admitir como seu princípio a proposição
(página 124): "dizer a verdade é um dever, mas somente com relação a quem tem o
direito à verdade". em primeiro lugar, por motivo da fórmula pouco clara do
princípio, uma vez que a verdade não é uma propriedade à qual um indivíduo tivesse
direito e pudesse ser recusada a outro. em seguida, porém, principalmente porque o
dever de veracidade (do qual unicamente aqui se trata) não faz qualquer distinção
entre pessoas, umas em relação às quais tenhamos este dever, outras para com as
quais nos possamos desvencilhar dele, porque é um dever incondicionado, válido em
quaisquer condições. (pp. 124-26)

2. leopoldo holzbach (editora martin claret)


o "filósofo alemão" não deverá, pois, admitir como seu princípio a proposição
(página 124): "dizer a verdade é um dever, mas só relativamente a quem tem o
direito à verdade". em primeiro lugar, devido à fórmula pouco nítida do princípio,
uma vez que a verdade não é uma propriedade à qual um indivíduo tivesse direito e
pudesse ser recusada a outro. em seguida, porém, sobretudo porque o dever de
veracidade (esse o nosso único tema aqui) não faz qualquer distinção entre
pessoas, umas em relação às quais tenhamos este dever, outras para com as quais
possamos dele nos desvencilhar, porque é um dever incondicionado, válido em
quaisquer condições. (p. 126)

imagem: www.haznos.org

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02/06/2009
a luta pelo direito, rideel
em a luta pelo direito, apresentei um rápido quadro das traduções desta obra de
rudolf von ihering em português, sobretudo no brasil.

em por quê? e até quando? deplorei o caminho tomado pela editora rideel, ao
publicar em 2005 uma cópia praticamente idêntica da vetusta tradução de josé
tavares bastos (c. 1909), atribuindo-a, porém, a heloísa da graça buratti.

seguem-se alguns trechos de cada capítulo a título de exemplo.

1. josé tavares bastos

CAPÍTULO I
Introdução
[...] O direito é o trabalho sem tréguas, e não somente o trabalho dos poderes
públicos, mas sim o de todo o povo. Se passarmos um golpe de vista em toda a sua
história, esta nos apresenta nada menos que o espetáculo de uma nação inteira
despendendo ininterruptamente para defender o seu direito penosos esforços, como
os que ela emprega para o desenvolvimento de sua atividade na esfera da produção
econômica e intelectual.
Todo aquele que tem em si a obrigação de manter o seu direito, participa neste
trabalho nacional e contribui na medida de suas forças para a realização do
direito sobre a terra.
2. heloísa da graça buratti

I - Introdução
[...] O direito é um trabalho sem tréguas, não somente [] dos poderes públicos,
mas sim de todo o povo. Se passarmos um golpe de vista em toda a sua história,
esta nos apresenta nada menos que o espetáculo de uma nação inteira despendendo
ininterruptamente penosos esforços para defender o seu direito, como os que ela
emprega para o desenvolvimento de sua atividade na esfera da produção econômica e
intelectual. Todo aquele que tem em si a obrigação de manter o seu direito,
participa desse trabalho nacional e contribui, na medida de suas forças, para a
realização do direito sobre a terra.

1. josé tavares bastos

CAPÍTULO II
O interesse na luta pelo direito
E assim como não é somente para defender um pedaço de terra, mas sim sobretudo a
sua existência, sua independência e honra - que um povo lança mão das armas; de
modo semelhante nas ações e nos pleitos judiciais, em que existe uma grande
desproporção entre o valor do objeto e os sacrifícios de qualquer natureza que
neles é mister despender, não se vai demandar, não se litiga pelo valor
insignificante talvez do objeto, mas sim por um motivo ideal, a defesa da pessoa e
do seu sentimento pelo direito.
Quando o que litiga se propõe semelhante fim e vai guiado por tais sentimentos,
não há sacrifício nem esforço que tenha para si peso algum, porquanto vê no fim
que quer atingir a recompensa de todos os meios que emprega.
Não é o interesse material vulnerado que impele o indivíduo que sofre tal lesão a
exigir uma satisfação, mas sim a dor moral que lhe causa a injustiça de que é
vítima.
A grande questão para ele não é a restituição do objeto, que muitas vezes é doado
a uma instituição de beneficência, a que o pode impelir a litigar; o que mais
deseja é que se lhe reconheça o seu direito. [...]
Resistir à injustiça é um dever do indivíduo para consigo mesmo, porque é um
preceito da existência moral; é um dever para com a sociedade, porque esta
resistência não pode ser coroada com o triunfo, senão quando for geral.

2. heloísa da graça buratti

II - O interesse na luta pelo direito


E assim como não é somente para defender um pedaço de terra, mas sim sobretudo a
sua existência, sua independência e honra que um povo lança mão das armas; de modo
semelhante nas ações e nos pleitos judiciais, em que existe uma grande
desproporção entre o valor do objeto e os sacrifícios de qualquer natureza que
neles é mister despender, não se vai demandar, não se litiga pelo valor
insignificante talvez do objeto, mas sim por um motivo ideal, a defesa da pessoa e
do seu sentimento pelo direito.
Quando o que litiga se propõe semelhante fim e vai guiado por tais sentimentos,
não há sacrifício nem esforço que tenha para si peso algum, porquanto vê no fim
que quer atingir a recompensa de todos os meios que emprega.
Não é o interesse material vulnerado, que impele o indivíduo que sofre tal lesão a
exigir uma satisfação, mas sim a dor moral que lhe causa a injustiça de que é
vítima.
A grande questão para ele não é a restituição do objeto, que muitas vezes é doado
a uma instituição de beneficência, a que o pode impelir a litigar; o que mais
deseja é que se lhe reconheça o seu direito. [...]
Resistir à injustiça é um dever do indivíduo para consigo mesmo, porque é um
preceito da existência moral; — é um dever para com a sociedade, porque essa
resistência não pode ser coroada com o triunfo, senão quando for geral.

1. josé tavares bastos

CAPÍTULO III
A luta pelo direito na esfera individual
Aquele que for atacado em seu direito deve resistir; — é um dever para consigo
mesmo.
A conservação da existência é a suprema lei da criação animada, por quanto ela se
manifesta instintivamente em todas as criaturas; porém a vida material não
constitui toda a vida do homem; tem ainda que defender sua existência moral que
tem por condição necessária o direito: é, pois, a condição de tal existência que
ele possui e defende com o direito.
O homem sem direito desce ao nível dos brutos, assim os Romanos não faziam mais do
que deduzir uma lógica conseqüência desta idéia, quando colocavam os escravos,
considerados sob o ponto de vista do direito abstrato, ao nível do animal.
Temos, pois, o dever de defender nosso direito, porque nossa existência moral está
direta e essencialmente ligada à sua conservação; desistir completamente da
defesa, o que atualmente não é muito prático, porém que poderia ter lugar,
equivaleria a um suicídio moral.

2. heloísa da graça buratti

III - A luta pelo direito na esfera individual


Aquele que for atacado em seu direito deve resistir; é um dever para consigo
mesmo.
A conservação da existência é a suprema lei da criação animada, porquanto ela se
manifesta instintivamente em todas as criaturas; porém, a vida material não
constitui toda a vida do homem; este tem ainda de defender sua existência moral,
que tem por condição necessária o direito: é, pois, a condição de tal existência
que ele possui e defende com o direito.
O homem sem direito desce ao nível dos brutos; assim, os Romanos não faziam mais
que deduzir uma lógica conseqüência dessa idéia, quando colocavam os escravos,
considerados sob o ponto de vista do direito abstrato, no nível do animal.
Temos, pois, o dever de defender nosso direito, porque nossa existência moral está
direta e essencialmente ligada à sua conservação; desistir completamente da
defesa, o que atualmente não é muito prático, porém que poderia ter lugar,
equivaleria a um suicídio moral.

1. josé tavares bastos

CAPÍTULO IV
A luta pelo direito na esfera social
[...] Enquanto a realização prática do direito público e do penal está assegurada,
porque está imposta como um dever aos funcionários públicos, a do direito privado
apresenta-se aos particulares sob a forma de direito, isto é, por completo
abandonada a sua prática à sua livre iniciativa e à sua própria atividade.
O direito não será letra morta e realizar-se-á no primeiro caso se as autoridades
e os funcionários do Estado cumprirem com o seu dever, no segundo, se os
indivíduos fizerem valer os seus direitos.
Mas, se por qualquer circunstância, por comodidade, por ignorância ou por medo,
estes últimos ficarem longo tempo inativos, o princípio legal perderá por esse
fato o seu valor.
As disposições do direito privado podemos, pois, dizer, não existem na realidade e
não têm força prática, senão na medida em que se fazem valer os direitos
concretos; e, se é certo que estes devem sua existência à lei, não é menos certo
que por outra parte eles lha restituem.
A relação que existe entre o direito objetivo e o subjetivo ou abstrato e concreto
assemelha-se à circulação do sangue, que partindo do coração aí de novo volta.

2. heloísa da graça buratti

IV - A luta pelo direito na esfera social


[...] Enquanto a realização prática do Direito Público e do penal está assegurada,
porque está imposta como um dever aos funcionários públicos, a do Direito Privado
apresenta-se aos particulares sob a forma de direito, isto é, por completo
abandonada a sua prática à sua livre iniciativa e à sua própria atividade.
O direito não será letra morta e realizar-se-á, no primeiro caso, se as
autoridades e os funcionários do Estado cumprirem com o seu dever; no segundo, se
os indivíduos fizerem valer os seus direitos.
Mas, se por qualquer circunstância, por comodidade, por ignorância ou por medo,
estes últimos ficarem longo tempo inativos, o princípio legal perderá por esse
fato o seu valor.
As disposições do Direito Privado, podemos, pois, dizer, não existem na realidade
e não têm força prática, senão quando se fazem valer os direitos concretos; e, se
é certo que estes devem sua existência à norma, não é menos certo que por outra
parte eles lha restituem.
A relação que existe entre o direito objetivo ou abstrato, e o subjetivo ou
concreto, assemelha-se à circulação do sangue, que partindo do coração aí de novo
volta.

1. josé tavares bastos

CAPÍTULO V
O direito alemão e a luta pelo direito
[...] A luta é o trabalho eterno do direito.
Se é uma verdade dizer: — Comerás o teu pão com o suor da tua fronte, — não o é
menos acrescentar também: — É somente lutando que obterás o teu direito.
Desde o momento em que o direito não está disposto a lutar sacrifica-se, e assim
podemos aplicar-lhe a sentença do poeta:
É a última palavra da sabedoria
Que só merece a liberdade e vida
Aquele que cada dia sabe ganhá-las.

2. heloísa da graça buratti

V - O direito alemão e a luta pelo direito


[...] A luta é o trabalho eterno do direito.
Se é uma verdade dizer: Comerás o teu pão com o suor da tua fronte, não o é menos
acrescentar também: É somente lutando que obterás o teu direito.
Desde o momento em que o direito não está disposto a lutar, sacrifica-se, e assim
podemos aplicar-lhe a sentença do poeta:
É a última palavra da sabedoria
Que só merece a liberdade e a vida
Aquele que cada dia sabe ganhá-las.

imagens: h. antunes; rideel

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01/06/2009
por quê? e até quando?
a pergunta que nunca se cala é: por quê? por que tanto plágio, tanta cópia, tanta
apropriação indevida do trabalho alheio, tanta falsa identificação?

quando saiu numa comunidade do orkut uma notícia de plágio de ivanhoé, quando
saíram aquelas famosas matérias do jornal opção e da folha de s.paulo, e então
comecei a pesquisar o tema, não fazia ideia da extensão que o plagiato de
traduções no brasil tinha adquirido nos últimos quinze anos. eu sabia de alguns
casos avulsos, como a editora germinal; quanto à nova cultural, foi um choque
descobrir o que vinha ocorrendo desde 1995, e que adquiriu uma dimensão fantástica
em 2002/2003 com o patrocínio da suzano celulose e da ong ecofuturo; sobre a
martin claret, já corriam vários boatos e em abril ou maio do ano passado comecei
a pesquisar um pouco suas edições. até o começo de 2009 eu achava que esse
fenômeno em escala industrial estava restrito à editora nova cultural e à editora
martin claret - que, juntas, respondem por milhões e milhões de exemplares
fraudados presentes em lares, escolas, bibliotecas, instituições públicas e
privadas de norte a sul do país.

então foi estarrecedor ver que o recurso ao plágio de traduções andou se


alastrando como um contágio. já apresentei os casos da landmark, da jardim dos
livros (grupo geração), da rideel e da hemus (respingando na ediouro). tirando a
hemus, os outros três enveredaram por tais rumos em data relativamente recente,
isto é, a partir de 2004/2005.

quanto à landmark e à jardim dos livros, embora ainda devam satisfações ao público
e ressarcimento aos leitores lesados, tenho a impressão de que interromperão essa
prática sem maiores traumas, e até por interesse próprio: a landmark trilhou essa
senda escusa em dois títulos, é uma editora pequena, seus donos parecem alimentar
pretensões políticas no mundo do livro, certamente não quererão ter um tal telhado
de vidro. a jardim dos livros, também pequena, agora é selo editorial do grupo
geração, ao lado da editora leitura e da geração editorial, e não creio que seus
novos sócios se interessem em preservar tais práticas.

já o caso da rideel foi totalmente inesperado e me surpreendeu muito: uma editora


de porte médio, sólida, de aparência respeitável, com vasto catálogo de obras
jurídicas, com presença marcante no mundo do livro, haja vista o cargo de
diretoria que ocupa na principal entidade editorial do país, a câmara brasileira
do livro. foi uma revelação muito contristadora e decepcionante. é um deslustro
para todo o mundo do livro - digo isso porque entendo que representantes de uma
categoria deveriam dar o bom exemplo. e digo isso não porque estaria me metendo em
assuntos de uma entidade patronal que não me diriam respeito. digo isso porque o
mundo do livro diz respeito a toda a sociedade, e as políticas de suas principais
entidades editoriais, que naturalmente estão expressas em suas diretorias, afetam
e se refletem em toda a sociedade. a cbl e demais entidades do livro carregam uma
responsabilidade muito grande, que transcende a linha empresarial adotada no
âmbito privado de cada editora. a meu ver, a cbl tem aí um pepino que terá que
resolver de alguma maneira, para proteger sua credibilidade e suas intenções de
legitimidade e transparência.

é com muita tristeza que reservo o próximo post para mais um caso da rideel,
também em nome de "heloísa da graça burati". (para os outros casos da editora
rideel, ver aqui e aqui.)

imagens: www.plagiarius.com; www.travelblog.org

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ao magnífico lorenzo

maquiavel, o príncipe, dedicatória

1. lívio xavier (atena)


ao magnífico lorenzo, filho de piero de medici

as mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as graças de um príncipe,
trazer-lhe os objetos que lhe são mais caros, ou com os quais o vêem deleitar-se;
assim, muitas vezes, eles são presenteados com cavalos, armas, tecidos de ouro,
pedras preciosas e outros ornamentos dignos de sua grandeza. desejando eu oferecer
a vossa magnificência um testemunho qualquer da minha obrigação, não achei, entre
os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que tanto estime, quanto o
conhecimento das ações dos grandes homens apreendido por uma longa experiência das
coisas modernas e uma contínua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande
diligência, longamente cogitado, examinando-as, agora mando a vossa magnificência,
reduzidas a um pequeno volume. e conquanto julgue indigna esta obra da presença de
vossa magnificência, não confio menos em que, por humanidade desta, deva ser
aceita, considerado que não lhe posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade
de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo que, em tantos anos e à custa
de tantos incômodos e perigos, hei conhecido.

2. pietro nassetti (martin claret)


ao magnífico lorenzo, filho de piero de medici

as mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as graças de um príncipe
trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou com os quais o vêem deleitar-se;
assim, muitas vezes, eles são presenteados com cavalos, armas, tecidos de ouro,
pedras preciosas e outros ornamentos dignos de sua grandeza. desejando eu oferecer
a vossa magnificência um testemunho qualquer da minha obrigação, não achei, entre
os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que tanto estime quanto o
conhecimento das ações dos grandes homens apreendido por uma longa experiência das
coisas modernas e uma contínua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande
diligência, longamente cogitado, examinando-as, agora mando a vossa magnificência,
reduzidas a um pequeno volume.
e conquanto julgue indigna esta obra da presença de vossa magnificência, não
confio menos em que, por sua humanidade, deva ser aceita, considerado que não lhe
posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade de poder em tempo muito breve
aprender tudo aquilo que, em tantos anos e à custa de tantos incômodos e perigos,
hei conhecido.

1. lívio xavier (atena)


não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou de palavras empoladas e
floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínsceo com que muitos
costumam descrever ou ornar as próprias obras; porque não quis que coisa alguma
seja seu ornato e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do
assunto. nem quero que se repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo
estado discorrer e regular sobre o governo dos príncipes; pois os que desenham os
contornos dos países se colocam na planície para considerar a natureza dos montes,
e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer
bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos
príncipes é necessário ser do povo. tome, pois, vossa magnificência este pequeno
presente com a intenção com que eu o mando. se esta obra for diligentemente
considerada e lida, vossa magnificência conhecerá o meu extremo desejo que alcance
aquela grandeza que a fortuna e outras qualidades lhe prometem. e se vossa
magnificência, do ápice da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo,
saberá quão sem razão suporto uma grande e contínua má sorte.

2. pietro nassetti (martin claret)


não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou de palavras empoladas e
floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínsceo com que muitos
costumam descrever ou ornar as próprias obras; porque não quis que coisa alguma
seja seu ornato e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do
assunto. nem quero que se repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo
estado discorrer e regular sobre o governo dos príncipes, pois tal como os que
desenham os contornos dos países se colocam na planície para considerar a natureza
dos montes, e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também
para conhecer bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer
a dos príncipes é necessário ser do povo.
tome, pois, vossa magnificência este pequeno presente com a intenção com que eu o
mando. se esta obra for diligentemente considerada e lida, vossa magnificência
conhecerá o meu extremo desejo: que vossa magnificência alcance aquela grandeza
que a fortuna e outras qualidades lhe prometem. e se vossa magnificência, do ápice
da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão
suporto uma grande e contínua má sorte.

desnecessário comentar a cópia sem rebuços.

imagem: www.defesabr.com

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31/05/2009
follow up viquiano

no post scienza nuova eu havia saudado a publicação de uma seleta dos princípios
de ciência nova, de giambattista vico, pela ícone. chegou o volume que encomendei.

na ficha catalográfica do livro consta "título original: the first new science", e
na página de rosto consta "tradução do texto original italiano: principii di
scienzia [sic] nuova", "tradutor: professor sebastião josé roque".

além dessa discrepância, há uma outra: o que os viquianos chamam de "primeira


ciência nova" é a edição de 1725. a ciência nova que acabou se firmando é de 1744,
totalmente diferente da de 1725. o conteúdo da seleta do professor sebastião josé
roque pertence não à "primeira" ciência nova e sim à de 1744.

a tradução padece de vários problemas e o resultado geral apenas confirma a alta


complexidade e árdua compreensão do texto viquiano. mas o que aqui importa é que
se trata de uma tradução de direito próprio.

imagem: frontispício da obra

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30/05/2009
pinóquio
ainda na linha dos estudos comparados, existe uma interessante dissertação de
mestrado de lucia maria pinho de valhery jolkesky, apresentada ao programa de
estudos de tradução da ufsc em 2007. chama-se legibilidade de diálogos: a
colocação de pronomes nas traduções brasileiras de pinóquio de 2002, disponível no
portal do mec.

a análise, bastante técnica, aborda três traduções de pinóquio, de carlo collodi,


a saber: de marina colasanti, de gabriella rinaldi e de pietro nassetti. são
analisados 20 excertos, e ao final há um quadro sinóptico por tradutor, além de um
breve perfil biográfico de cada um deles.

no "Anexo F – Quadro sinóptico da colocação pronominal na tradução de Nassetti",


na coluna da direita, encontram-se diversas observações interessantes sobre várias
opções pouco usuais no português do brasil, numerosas ocorrências de mistura de
tratamento de segunda e terceira pessoa, contrações de pronomes diretos e
indiretos não muito usadas em nossas bandas e outras peculiaridades.

e a dissertação traz também uma raridade, coisa que tanta gente se perguntava:
quem é pietro nassetti?
"Anexo J – Biografia de Pietro Nassetti
Pietro Nassetti nasceu em Parma, Itália, no final da 2ª. Guerra Mundial. Aos 23
anos emigrou para o Brasil, morou em São Paulo, onde se formou em odontologia pela
Universidade de São Paulo. Abriu um consultório na região do ABC paulista. Foi um
pesquisador de terapias holísticas. Na década de 80 entrou em contato com a
filosofia univérsica, uma visão de mundo holística criada pelo brasileiro Huberto
Rohden. A partir de 1996 começou a realizar trabalhos de tradução para a Editora
Martin Claret, principalmente do italiano, inglês e francês. Faleceu após longa
enfermidade em janeiro de 2005.
Informações fornecidas por Rosana Citino, Assistente Editorial, via internet, em
26/08/2005."

imagem: enrico mazzanti, pinóquio, 1883

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29/05/2009
a luta pelo direito
a luta pelo direito, de rudolf von ihering (1818-92), é daquelas obras que fazem
parte da bibliografia obrigatória de todos os cursos de direito. foi uma
conferência apresentada pelo jurista alemão em 1872, em viena, e no mesmo ano
publicada em livro. foi um tremendo sucesso e, passado pouco tempo, já era tido
como um marco na história do pensamento jurídico alemão.

sua primeira tradução para o português foi feita por joão vieira de araújo, da
chamada escola de recife, e publicada em 1885. depois saiu outra, feita por josé
tavares bastos, com prefácio de clóvis beviláqua (não sei a data certa, mas o
prefácio traz o ano de 1909). aqui na frase do dia já tem uma canja do tavares
bastos.

também em 1909 saiu em portugal uma tradução feita por joão de vasconcellos. a
principal diferença em relação às duas traduções brasileiras é que essa tradução
portuguesa tomou como base o original revisto por ihering em 1888, que eliminava
os parágrafos iniciais e trazia um prefácio todo sério, mas também muito simpático
e espirituoso. (depois, na edição de 1891, ele vai fazer alguns acréscimos finais
no próprio prefácio, muito bonitos, uma homenagem póstuma a uma amiga, frau
auguste von littrow-bischoff.)

a tradução mais corrente no brasil, seja lá por que razão for, é justamente essa
portuguesa de joão de vasconcellos (também grafado como joão de vasconcelos ou
joão vasconcelos), em incontáveis reedições pela forense. a de tavares bastos
também é bastante conhecida, até por conta da apresentação de beviláqua e da
inclusão do longo prefácio de leopoldo alas à edição espanhola - hoje em dia está
disponível para download. curiosamente, a tradução de joão vieira, nome importante
na história do pensamento jurídico brasileiro, aliás citada pelo próprio ihering
no prefácio de 1891 e que está em domínio público faz um tempão, não se encontra
disponível para download nem no portal do mec.

existem outras ainda, assinadas por: vicente sabino jr.; henrique de carvalho;
joão cretella jr. e agnes cretella; roberto de bastos léllis; richard paul neto;
mário de méroe; silvio donizete chagas; ricardo rodrigues gama; edson bini; ivo de
paula; pietro nassetti; heloísa da graça burati.

como a cultura não se constrói sozinha nem se compra em pacotinhos na esquina,


acho legal acompanhar esse desenvolvimento de nossas letras jurídicas. acho legal,
por exemplo, que já no começo de 1885 estivesse publicada em recife a tradução de
joão vieira. acho legal também que tantos juristas se debruçassem fisicamente
sobre as obras, queimassem as pestanas e pusessem isso em língua que as gentes
daqui entendiam. hoje em dia não sei se é bem assim, mas acho esses antecedentes
interessantes, até, digamos, edificantes. egrégios exemplos da construção de um
patrimônio cultural brasileiro e provas vivas da atividade das cabeças pensantes
d'antanho.

esse introitozinho é porque na semana que vem vou apresentar umas duas ou três
traduções (?) de a luta pelo direito publicadas em data recente.

imagem: wikimedia commons

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por onde anda otelo
o otelo de "jean melville", pela editora martin claret - que, como vimos, parece
uma montagem das soluções tradutórias de cunha medeiros/oscar mendes com vários
pespontos de barbara heliodora - anda trafegando um pouco pelas escolas e
bibliotecas:

www.cptl.ufms.br/ded/EncontroLetrasI/html/PDF/PDF%20ARTIGOS/221a.pdf
www.filologia.org.br/revista/37/03.htm
http://ceul.ufms.br/ded/EncontroLetrasI/html/PDF/PDF%20ARTIGOS/241a.pdf
www.michelangelo.edu.br/scripts/sqlweb/sysbweb.exe/busca_html?alias...%22MARTIN%20
CLARET%22/...
www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a213689
7.xml
www.colegiopentagono.g12.br/lista2008/lista_material_8_ano.pdf
http://www2.pucpr.br/reol/index.php/PA?dd1=442&dd99=pdf
www.bce.unb.br/documentos/Boletimv1n3-2009.pdf
www.michelangelo.edu.br/scripts/sqlweb/sysbweb.exe/dados_completos_html?codigo=449
4&alias=sysbibli
http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2405 --

imagem: www.shillpages.com

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28/05/2009
ufa, menos mau
uma das melhores coisas do mundo é desfazer mal-entendidos, penso eu.

duas obras de tradução tinham me deixado meio confusa: memórias de sherlock holmes
e aventuras de sherlock holmes, de conan doyle, publicadas pela editora martin
claret, sendo que pelo menos uma delas lhe teria sido supostamente licenciada pela
editora melhoramentos.

mas não, não é isso não. ontem recebi mensagem da editora melhoramentos,
explicando que:

"Houve um equívoco na informação enviada a respeito da cessão de direitos autorais


sobre a obra Memórias de Sherlock Holmes.
A Editora Melhoramentos não assinou nenhum contrato de cessão de direitos autorais
sobre as obras de Sherlock Holmes com a Editora Martin Claret."

que bom, um mistério a menos. o sr. joaquim machado e o sr. carlos chaves podem
continuar em paz, com seus direitos devidamente protegidos pela editora
melhoramentos, à qual agradeço a gentileza em atender a uma leitora perplexa.

agora é torcer para que a editora martin claret, por seu lado, desvende para nós
leitores os mistérios sherlockianos de john green e jean melville.
imagem: www.ontariocondolaw.com

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27/05/2009
the books

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26/05/2009
otelo comparado
mais uma para quem gosta de análise comparada.

“A thing such as thou”: a representação dos personagens negros nas traduções das
obras de William Shakespeare para o português do Brasil , dissertação de mestrado
de márcia paredes nunes apresentada ao departamento de letras da puc-rio em março
de 2007, é uma cuidadosa análise comparada de diferentes traduções brasileiras de
três obras de shakespeare.

uma delas, otelo, é estudada em sete traduções diferentes: onestaldo de pennafort,


carlos alberto nunes, cunha medeiros e oscar mendes, péricles eugênio da silva
ramos, barbara heliodora, beatriz viégas-faria e jean melville. em prosa são as de
cunha medeiros/oscar mendes, beatriz viégas-farias e jean melville.

a autora traça um perfil de cada tradutor analisado, com uma ressalva no caso de
jean melville: "Infelizmente não foi possível localizar informações a respeito de
Jean Melville, além dos títulos de livros traduzidos que constam no site da
editora [martin claret]. Embora contactada, esta não forneceu dados sobre o
tradutor".

a partir da p. 155, a dissertação se debruça especificamente sobre a análise de


otelo. reproduzo aqui os trechos selecionados pela autora. para simplificar a
leitura, eliminei a referência às páginas de cada edição e numerei de 1 a 7 os
nomes dos diversos tradutores. salta aos olhos a identidade única e inconfundível
de seis das sete traduções analisadas por márcia p. nunes. a exceção é a de jean
melville. dei destaque em alaranjado e verde às fontes a meu ver escancaradamente
utilizadas na colcha de retalhos publicada pela martin claret.

IAGO
He, in good time, must his Lieutenant be,
And I - God bless the mark!- his Moorship's Ancient. (I. i. 32-3)
As traduções são as seguintes:
1. Onestaldo de Pennafort
Valha-me Deus! Alfeireiro, só, de Sua Senhoria Amoriscada.
2. Carlos Alberto Nunes
vai tornar-se tenente, enquanto que eu – Deus me perdoe! – continuarei sendo do
Mouro o alferes.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Ele, em troca, esse fazedor de adições, será tenente quando o momento chegar; e eu
continuo alferes (Deus bendiga o título!) de Sua Senhoria Moura.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Ele é que na hora certa, deverá ser o lugar-tenente, e eu, Deus nos valha! o
alferes de Sua Senhoria, o Mouro.
5. Barbara Heliodora
Pois ele, agora, é que será tenente, E eu, por Deus, alferes do ilustríssimo.
6. Beatriz Viégas-Faria
E eu… Deus abençoando minha boa mira!..., continuo sendo o alferes de sua
majestade, o Mouro.
7. Jean Melville
Ele, em troca, será tenente quando o momento chegar; e eu continuo alferes (Deus
bendiga o título!) de Sua Senhoria Moura.

RODERIGO.
What a full fortune does the thick-lips owe,
If he can carry’t thus! (I. ii. 67-8)
O trecho foi traduzido da seguinte forma:
1. Onestaldo de Pennafort
RODRIGO (distraído) Que sorte a dele, então, se com aquelas beiçolas, consegue
abocanhá-la!
2. Carlos Alberto Nunes
Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se puder, realmente, levar isso até o
fim.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Que sorte sem igual terá o homem de lábios grossos, se conseguir levar assim essa
vantagem!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Grande sorte a daquele beiços grossos se puder alcançar vitória em tudo.
5. Barbara Heliodora
Mas que sorte total tem o beiçudo, Se ganha esta!
6. Beatriz Viégas-Faria
Se conseguir sair ileso dessa, o Lábios Grossos vai ficar devendo sua sorte ao
destino.
7. Jean Melville
Que sorte sem igual terá o homem de lábios grossos, se ganha esta!

IAGO. ‘Zounds, sir, you’re robb’d! For shame, put on your gown;
Your heart is burst, you have lost half your soul;
Even now, now, very now, an old black ram
Is tupping your white ewe. Arise, arise!
Awake the snorting citizens with the bell,
Or else the devil will make a grandsire of you.
Arise, I say! (I. 87-93)
Apresentamos agora as versões:
1. Onestaldo de Pennafort
Agora, neste instante, agora mesmo, um velho carneiro negro está cobrindo a vossa
ovelhinha branca! De pé, de pé! Mandai tocar a rebate! Despertai os burgueses de
seu ronco! Rápido! Rápido! Enquanto o diabo, num esfregar de olhos, não vos faz um
neto!
2. Carlos Alberto Nunes
Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca.
Tocai o sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do contrário, o diabo vos
fará ficar avô.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Agora mesmo, neste instante, neste momento mesmo, um velho bode negro está
cobrindo vossa ovelha branca. De pé! De pé! Despertai ao som de um sino os
cidadãos que estão roncando, ou caso contrário, o diabo vai fazer de vós um avô.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Agora, bem agora, agora mesmo, velho e negro carneiro está cobrindo a vossa ovelha
branca. Erguei-vos, ei, erguei-vos! Os cidadãos que roncam, despertai-vos com o
sino. Senão irá o demônio fazer de vós avô. Oh, digo, levantai-vos!
5. Barbara Heliodora
Neste momento um bode velho e preto cobre a sua ovelhinha; venha logo. Vá
despertar com o sino os que dormiam, senão o demo vai fazê-lo avô.
6. Beatriz Viégas-Faria
Neste instante mesmo, agora, agorinha, um bode preto e velho está cobrindo sua
ovelhinha. –Levantai-vos, rebelai-vos! – Acorde com o toque de sino os cidadãos
que ora roncam, pois do contrário o diabo vai lhe dar netos.
7. Jean Melville
Agora mesmo, neste momento, um bode velho e negro está cobrindo vossa ovelha
branca. Venha logo! Despertai ao som de um sino os cidadãos que dormem, ou caso
contrário, o diabo vai fazer de vós um avô.

IAGO. ‘Zounds, sir, you are one of those that will not serve God, if the
devil bid you. Because we come to do you service and you think we are
ruffians, you'll have your daughter covered with a Barbary horse;
you'll have your nephews neigh to you; you'll have coursers for cousins,
and jennets for germans. (I. I. 109-4)
Apresentamos agora as respectivas traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
(...) o resultado é que vereis a vossa filha coberta por um cavalo da Berberia.
Quereis que os vossos netos relinchem para vos pedir a benção? Agrada-vos uma
parentela de corcéis e ginetes? 2. Carlos Alberto Nunes
(...) quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos
netos relinchem atrás de vós? Quereis ter cordéis como primos e ginetes como
parentes?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(...) deixareis que vossa filha seja coberta por um cavalo da Barbaria? Estais
querendo ter netos que relincharão em vosso rosto! Acabareis tendo corcéis como
primos e ginetes como parentes.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
(...) tereis vossa filha coberta por um cavalo da Barbaria, tereis vossos netos
rinchando para vós, tereis corcéis por descendência e ginetes por parentes.
5. Barbara Heliodora
(...) terá sua filha coberta por um garanhão da Barbaria; terá netos que
relincham, terá corcéis por primos e ginetes por consangüíneos.
6. Beatriz Viégas-Faria
(...) terá um cavalo berbere cobrindo sua filha; terá seus sobrinhos relinchando
para o senhor; terá corcéis por primos e ginetes por parentes.
7. Jean Melville
(...) deixareis que vossa filha seja coberta por um garanhão da Barbaria? Estais
querendo ter netos que relincham! Acabareis tendo corcéis como primos e ginetes
como parentes.

RODERIGO.
Your daughter, if you have not given her leave,
I say again hath made a gross revolt,
Tying her duty, beauty, wit, and fortunes
In an extravagant and wheeling stranger
Of here and everywhere. (I. i. 134-8 )
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
Mas vossa filha, repito-o, se não lhe destes licença para tanto, cometeu uma grave
falta sacrificando honra, beleza, posição e nobreza, a um estrangeiro nômade, sem
eira nem beira.
2. Carlos Alberto Nunes
Vossa filha – de novo vos declaro – se não lhe destes permissão, mui grave pecado
cometeu, unindo o espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro
andejo e desgarrado daqui e de toda parte.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vossa filha, se não a autorizastes, continuo dizendo, tornou-se culpada de grave
falta, sacrificando seu dever, sua beleza, seu engenho e sua fortuna a um
estrangeiro vagabundo e nômade, sem pátria e sem lar.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Vossa filha, se não lhe destes vênia, repito-o, perpetrou grossa revolta, ligando
seu dever, beleza, espírito e sorte a um estrangeiro errante e instável, daqui e
de toda parte.
5. Barbara Heliodora
Sua filha (sem sua permissão, Repito) fugiu-lhe com baixeza, Ligando herança,
espírito e beleza A um estranho errante e extravagante, Sem rumo certo.
6. Beatriz Viégas-Faria
Sua filha, se é que não recebeu a sua permissão, digo-lhe mais uma vez, rebelou-se
de modo grosseiro, vinculando sua submissão, sua beleza, sua inteligência e seus
dotes a um estranho extravagante e errático tanto por aqui como em qualquer lugar.
7. Jean Melville
Vossa filha, se não a autorizastes, continuo dizendo, tornou-se culpada de grave
falta, sacrificando seu dever, sua beleza, seu espírito e sua herança a um
estrangeiro extravagante e nômade, sem pátria e sem lar.

BRABANTIO. [...] Run from her guardage to the sooty bosom


Of such a thing as thou: to fear, not to delight. (I. ii.62-71)
Comparando as traduções, temos:
1. Onestaldo de Pennafort
BRABANTIO: [dirigindo-se a Otelo]
abandonar o lar paterno e se entregar aos braços ferrujentos de um ser tal como
tu, feito para inspirar terror e não prazer!
2. Carlos Alberto Nunes
fugir de seu guardião, para abrigar-se no seio escuro e cheio de fuligem de uma
coisa como é, mais feito para susto causar do que qualquer deleite.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(…) fugido da tutela paterna para ir refugiar-se no seio denegrido de um ser como
tu, feito para inspirar medo e não deleite?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
(...) fugido ao seu abrigo para buscar o seio de fuligem de alguém como és – de
dar receio, não prazer?
5. Barbara Heliodora
Haveria jamais (pra ser chacota) De fugir da tutela pro negrume De um peito como o
teu, que só traz susto?
6. Beatriz Viégas-Faria
(...) quando é que ela teria abandonado seu pai e protetor, correndo o risco de
ser motivo de zombaria geral, para aninhar-se no peito negro de uma coisa como
tu... figura que dá medo e não prazer?
7. Jean Melville
(...) ter fugido da tutela paterna para ir abrigar-se no seio escuro de um ser
como tu, feito para inspirar medo e não deleite?

DUKE. Let it be so.


Good night to everyone. And, noble signor,
If virtue no delighted beauty lack,
Your son-in-law is far more fair than black. (I. iii. 285-8)
Comparemos agora as traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
DOGE (A Brabâncio):
Se o emblema da virtude é a alvura, eu asseguro, senhor, que o vosso genro é mais
branco que escuro.
2. Carlos Alberto Nunes
Muito nobre senhor, se de beleza a virtude não for destituída, mais belo é vosso
genro do que preto.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Nobre signior, se é verdade que a virtude possui todo o brilho da beleza, vosso
genro é muito mais belo do que negro.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
E, nobre signior Se a virtude confere formosura, Vosso genro tem mais beleza que
negrura
5. Barbara Heliodora
Seja tudo assim. Boa-noite a todos; meu nobre senhor, Se a virtude bonita é em seu
desvelo, Seu genro é menos negro do que belo.
6. Beatriz Viégas-Faria
E, meu nobre signior, se à virtude jamais faltasse encantadora beleza, seu genro
seria muito mais belo que negro.
7. Jean Melville
Nobre senhor, se é verdade que a virtude possui todo o brilho da beleza, vosso
genro é menos negro do que belo.

IAGO. (…) And what delight will she have to look on the devil?” (II. i. 216):
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
E que prazer podem os seus olhos encontrar na contemplação desse bruxo?
2. Carlos Alberto Nunes
E que deleite poderá encontrar na contemplação do demônio?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
E que prazer pode encontrar olhando para o demônio?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
E que deleite tem ela para olhar no demônio?
5. Barbara Heliodora
E que prazer terá ela em olhar para o diabo?
6. Beatriz Viégas-Faria
E que deleite pode lhe advir de encarar o demônio?
7. Jean Melville
E que prazer pode encontrar olhando para o diabo?

IAGO: Come, lieutenant, I have a stoup of wine, and here without are a
brace of Cyprus gallants, that would fain have a measure to the health
of the black Othello. (II. iii. 25-7)
Vejamos as traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
Vamos, meu tenente, tenho ali um canjirão de vinho e, lá fora, uns amigos aqui de
Chipre que, de bom grado, molhariam a garganta conosco para um brinde ao negro
Otelo.
2. Carlos Alberto Nunes
Vamos, tenente; tenho um quartal de vinho e aí fora um par de galantes chipriotas
que de bom grado beberiam à saúde do negro Otelo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vamos, tenente, tenho um cântaro de vinho e, lá fora, estão esperando uns galantes
cipriotas que ficariam bem contentes, se pudessem beber à saúde do negro Otelo.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Vamos, lugar-tenente, eu tenho duas quartas de vinho e esperando do lado de fora
há um par de bravos cipriotas que beberiam de bom grado à saúde do negro Otelo.
5. Barbara Heliodora
Vamos, tenente, eu tenho um garrafão de vinho, e aqui fora há um par de galantes
de Chipre que gostariam de beber um gole à saúde do negro Otelo.
6. Beatriz Viégas-Faria
Venha, tenente, tenho uma garrafa de vinho. E lá fora estão um punhado de galantes
cipriotas que de bom grado tomariam uma dose à saúde do negro Otelo.
7. Jean Melville
Vamos, tenente, tenho um cântaro de vinho e, lá fora, estão esperando amigos de
Chipre que gostariam de beber à saúde do negro Otelo.

IAGO: Ay, there’s the point; - as to be bold with you,


Not to affect many proposed matches
Of her own clime, complexion, and degree,
Whereto we see in all things nature tends
Foh! One may smell in such a will most rank
Foul disproportion, thoughts unnatural. (III. 3. 230-33)
Os tradutores apresentaram as seguintes versões para essa fala:
1. Onestaldo de Pennafort
Aí é que pega o ponto! Sejamos francos: recusar propostas de casamento de ótimos
partidos, de patrícios da mesma cor e meio, ao contrário do que seria natural
2. Carlos Alberto Nunes
Sim, esse é o ponto. Para falar franco convosco: recusado haver propostas de
casamento de sua própria terra, estado e parentesco, em que se achara conforme em
tudo a própria natureza
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Sim, eis aí a coisa. Assim (permiti esta ousadia), tendo recusado tantos partidos
que apareciam e que possuíam todas as afinidades de pátria, de raça e de estirpe,
para os quais vemos que tendem todas as coisas da natureza
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Sim, esse é o ponto; também (para ser ousado convosco) não querer muitas propostas
núpcias
de sua terra, cor e posição - para as quais tende a natureza em tudo – fora!
5. Barbara Heliodora
Esse é o problema; pois se ouso dizê-lo, Pois recusar tantos partidos bons, De sua
terra, compleição e grau, Para os quais apontava a natureza
6. Beatriz Viégas-Faria
Sim, esse é o ponto. Como! ... sendo eu atrevido por falar assim com o senhor...
para não desejar muitas propostas de casamento condizentes com seu próprio clima,
cor de pele, e condição social, conforme vemos ser o caso, em todas as coisas, da
tendência natural!
7. Jean Melville
Sim, eis o problema. Assim (ouso dizê-lo), tendo recusado tantos pretendentes e
que possuíam todas as afinidades de pátria, de raça e de grau, para os quais
apontavam todas as coisas da natureza, hum!

IAGO. But pardon me: I do not in position


Distinctly speak of her; though I may fear
Her will, recoiling to better judgement,
May fall to match you with her country forms,
And happily repent. (III.iii.235-9)
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
(...) recear que ela, caindo em si, comece a comparar-vos com os seus patrícios e
depois... quem sabe? Talvez acabe por se arrepender....
2. Carlos Alberto Nunes
chegue a recear que seus desejos possam vir dar de encontro a um juízo mais sadio
e com seus compatriotas confrontar-vos, levando-a, porventura, a arrepender-se.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(...) embora possa temer que sua alma voltando a inclinações mais normais, chegue
a comparar-vos com pessoas de seu país e acabe, talvez, por sentir-se arrependida.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
O que eu receio é que sua vontade, Recuando para um juízo mais maduro, Venha a vos
comparar com a aparência Dos conterrâneos dela e então arrepender-se.
5. Barbara Heliodora
(...) embora tema Que o seu desejo, pensando melhor, Recaia sobre alguém de seus
costumes, E se arrependa
6. Beatriz Viégas-Faria
Embora eu receie que a sua vontade, uma vontade inversa a um bom discernimento,
ainda venha a comparar o senhor com as formas da pátria dela e venha arrepender-
se.
7. Jean Melville
(...) embora possa temer que seu desejo, voltando a inclinações mais normais,
recaia sobre pessoas de seu país, talvez, por sentir-se arrependida.

OTHELLO.
Haply for I am black
And have not those soft parts of conversation
That chamberers have; or for I am declined
Into the vale of years- yet that’s not much - (III. iii.260-3)
Comparando as traduções, temos:
1. Onestaldo de Pennafort
Talvez por eu ser negro e não ter o falar adocicado e as maneiras suaves dos
galantes da corte... Ou quem sabe porque já vou descendo o vale inclinado dos
anos.... Mas por tão pouco
2. Carlos Alberto Nunes
Porque sou negro e de fala melíflua não disponho qual petimetre, ou porque já me
encontro no declive da idade – mas não tanto —
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Talvez porque seja negro e não tenha na conversação as formas flexíveis dos
intrigantes, ou então, porque esteja descendo o vale dos anos (embora nem tanto
assim)
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Talvez por eu ser negro e sem as qualidades agradáveis de fala e de maneiras a
serviço dos homens elegantes ou porque declinei no vale já dos anos, embora ainda
não muito,
5. Barbara Heliodora
Quiçá por ser eu preto, E faltar-me as artes da conversa Dos cortesãos, ou por
estar descendo Para o vale dos anos – mas nem tanto ...
6. Beatriz Viégas-Faria
Talvez porque sou negro, e não tenho em mim aquelas partes suaves do diálogo que
têm os galanteadores, ou talvez porque já me encontro no outono da maturidade...
contudo, ainda longe do inverno da velhice...
7. Jean Melville
Talvez porque seja negro e não tenha na linguagem as formas flexíveis dos
cortesãos, ou então porque esteja descendo o vale dos anos (embora nem tanto)...

OTHELLO
I’ll have some proof. Her name, that was as fresh
As Dian’s visage, is now begrimed and black
As mine own face. (III. iii.387-9)
Os tradutores apresentaram as seguintes versões para a fala:
1. Onestaldo de Pennafort
Quem me dera uma prova! O nome dela, que antes era límpido como a face de Diana,
se enegreceu como o meu próprio rosto.
2. Carlos Alberto Nunes
O nome dela, que era tão singelo como o rosto de Diana, ora se encontra como o meu
próprio rosto: negro e sujo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
O nome dela, que era puro como o rosto de Diana, está agora embaciado e negro como
meu rosto...
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Meu nome, que era tão viçoso como o rosto De Diana, está agora conspurcado e negro
Como o meu próprio rosto.
5. Barbara Heliodora
Quero prova: meu nome era tão claro Como o de Diana casta; e ora é tão negro
Quanto o meu rosto:
6. Beatriz Viégas-Faria
O nome dela, antes puro como a face de Diana, vejo-o agora enegrecido, escuro como
meu próprio rosto.
7. Jean Melville
O nome dela, que era puro como o rosto de Diana, está agora negro como meu
rosto...

OTHELLO
Damn her, lewd minx! O, damn her!
Come, go with me apart; I will withdraw,
To furnish me with some swift means of death
For the fair devil. (III. iii. 476-8)
1. Onestaldo de Pennafort
Antes maldita seja! Maldita! descarada! dissoluta! Vamos lá para dentro. Quero
assentar contigo um meio fulminante de dar a morte àquele belo diabo.
2. Carlos Alberto Nunes
Que baixe para o inferno essa lasciva prostituta! Que baixe para o inferno! Fica à
parte comigo; retirar-me desejo, para refletir nalguma modalidade suave de
extermínio para esse belo diabo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Oh, que ela seja condenada! Vamos, afastemo-nos daqui! Vou retirar-me para
encontrar meios de morte rápidos para o encantador demônio.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Que o inferno a leve, luxuriosa mulher à toa! O inferno a leve! A perdição a leve!
Vamos, vinde comigo à parte. Eu me retiro para munir-me de alguns meios rápidos de
morte para o belo diabo. 5. Barbara Heliodora
Maldita seja a rameira: maldita! Vamos, venha comigo e, em segredo Hei de achar
meios de matar depressa A bela infame.
6. Beatriz Viégas-Faria
Maldita seja ela, mulherzinha descarada, indecente e lasciva. Oh, maldita seja
ela! Vamos, acompanha-me, separemo-nos dos outros. Vou retirar-me para suprir
minha imaginação com alguns meios rápidos de morte para aquele lindo demônio (p.
102)
7. Jean Melville
Maldita seja a rameira! Oh, que ela seja condenada! Vamos embora daqui! Vou
retirar-me para encontrar meios de morte rápidos para a bela.

OTHELLO
This argues fruitfulness and liberal heart:
Hot, hot, and moist: this hand of yours requires
A sequester from liberty, fasting and prayer,
Much castigation, exercise devout;
For here’s a young and sweating devil here,
That commonly rebels. ‘Tis a good hand,
A frank one. (III. iv. 34-40)
As versões do trecho são agora apresentadas:
1. Onestaldo de Pennafort
Denota exuberância e prodigalidade e coração. Quente, quente e úmida! Esta mão
pede clausuras, jejuns e orações, mortificações e práticas devotas, porque está
aqui um diabrete que ao mesmo tempo arde e sua por se rebelar a todo momento. Uma
bela mão, aliás. E aberta!
2. Carlos Alberto Nunes
Isso revela desperdício e, em tudo coração liberal. Úmida e quente! Esses sinais
indicam que é preciso cercear a liberdade e, assim, impor-vos jejuns e rezas, pios
exercícios e mortificações, pois um demônio suarento aqui demora, que costuma
rebelar-se. A mão tendes muito boa,
muito franca, em verdade.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Isto anuncia liberalidade e coração pródigo. Quente, quente e úmida! Esta mão
requer o seqüestro da liberdade, jejuns e orações, muita mortificação e exercícios
de devoção, pois nela existe um demônio jovem e suarento que comumente se rebela.
É uma boa mão, e também
franca.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Isso indica fertilidade e um coração bondoso. Quente, úmida e quente. Vossa mão
requer Uma separação da liberdade; Jejum e prece austera, disciplina Devotos
exercícios. Pois aqui há um jovem diabo suado que ordinariamente Se rebela. É uma
boa mão. E livre.
5. Barbara Heliodora
Então é fértil, tem bom coração; Úmida e quente, a sua mão requer Muito controle,
preces e fastio, Com muita penitência e devoção; Pois um jovem demônio sua aqui,
Que tende à rebeldia. É uma mão boa. E franca.
6. Beatriz Viégas-Faria
Isso denuncia frutífera amorosidade e um coração liberal. Quente, quente e úmida.
Esta tua mão requer um seqüestro de tua liberdade; requer jejum e orações, muita
penitência, práticas piedosas, pois há aqui um demônio jovem que sua e transpira o
tempo todo um rebelde.
Esta é uma boa mão, de dedos francos.
7. Jean Melville
Então é fértil e tem bom coração. Quente, quente e úmida! Esta mão requer muito
controle, jejuns e preces, muita penitência e devoção, pois nela um demônio jovem
transpira e tende à rebeldia. É uma boa mão, e também franca.

OTHELLO:
O devil, devil!
If that the earth could teem with woman’s tears,
Each drop she falls would prove a crocodile. (IV. i. 234-6)
Apresentamos as versões brasileiras a seguir:
1. Onestaldo de Pennafort
Demônios! demônios! Se a terra pudesse ser fecundada por lágrimas de mulher, de
cada gota vertida brotaria um crocodilo.
2. Carlos Alberto Nunes
Oh, demônio! Demônio! Se, com lágrimas de mulher fosse a terra fecundada, cada
gota geraria um crocodilo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Ó demônio, demônio! Se as lágrimas de uma mulher pudessem fecundar a terra, cada
lágrima que ela deixasse cair viraria um crocodilo.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Oh, que demônio! Demônio! Se com pranto de mulher Pudesse a terra se fertilizar
Cada gota por ela derramada Mostrar-se-ia um crocodilo.
5. Barbara Heliodora
Oh, demônio! Se co’esse pranto ela emprenhasse a terra, Gerava um crocodilo cada
lágrima.
6. Beatriz Viégas-Faria
Oh, demônio, demônio. Pudesse a terra ser fecundada por lágrimas femininas, de
cada gota por ela derramada nasceria um crocodilo.
7. Jean Melville
Ó demônio! Se as lágrimas de uma mulher pudessem fecundar a terra, cada lágrima
que ela deixasse cair geraria um crocodilo.

OTHELLO
Was this fair paper, this most goodly book,
Made to write “whore” upon? What committed! (IV. ii. 70-1)
Transcrevemos agora as versões:
1. Onestaldo de Pennafort
Pois esse pergaminho alvíssimo, esse livro tão precioso terá sido feito para
escrever-se nele “prostituta”?
2. Carlos Alberto Nunes
Teria sido feito um tão formoso papel, tão belo livro, para nele ficar escrito o
nome “Prostituta”?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Esta página tão branca, este livro tão belo, foram feitos para que nele se
escrevesse a palavra “prostituta"?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Este belo papel, este vistoso livro, Foram feitos para escrever “rameira” neles?
5. Barbara Heliodora
Mas foi feita essa página, ou esse livro, Para se escrever “puta”?
6. Beatriz Viégas-Faria
O papel mais alvo, o livro mais formoso foram feitos para que neles se escrevesse
a palavra "prostituta"?
7. Jean Melville
Esta página tão branca, este livro tão belo, foram feitos para que nele se
escrevesse a palavra “prostituta”?

O original inglês é:
EMILIA
O, the more angel she,
And you the blacker devil! (V. ii. 132-3)
As traduções são:
1. Onestaldo de Pennafort
Ela era um anjo tão certo com sois um diabo negro!
2. Carlos Alberto Nunes
Tanto mais anjo ela é por isso; e vós demônio negro.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Oh, Por isto, mais anjo ela é e vós, mais negro demônio!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Tanto mais anjo ela, E o mais negro demônio vós!
5. Barbara Heliodora
Mais anjo então é ela, E o senhor mais negro demo!
6. Beatriz Viégas-Faria
Oh! Isso a faz o mais anjo ainda, e faz do senhor o mais negro dos demônios!
7. Jean Melville
Oh! Por isto mais anjo ela é, e vós, mais negro demônio!

EMILIA
Thou dost belie her, and thou art a devil. (V. ii. 133)
O trecho foi reproduzido da seguinte forma:
1. Onestaldo de Pennafort
Isso é uma calúnia! E tu és um demônio!
2. Carlos Alberto Nunes
Não passas de um demônio a caluniá-la!
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vós a estais caluniando! Sois um demônio!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Tu a calunias, e tu és um demônio.
5. Barbara Heliodora
Isso é calúnia e o senhor um demônio!
6. Beatriz Viégas-Faria
Isso é calúnia, e tu és o demônio!
7. Jean Melville
Vós a estais caluniando! Sois um demônio!

OTHELLO: I look down towards his feet; but that’s a fable.


that thou be’st a devil, I cannot kill thee. (V. ii. 283-4)
A fala de Otelo ficou da seguinte forma nas traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
Não tem os pés de cabra, como se diz na fábula; porém, se eu não puder matá-lo é
que é mesmo o demônio!
2. Carlos Alberto Nunes
Procuro ver-lhe os pés. Mas não... É pura fábula. Se fores o diabo, não
conseguirei matar-te.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Olho para os pés dele ... Mas isto é uma fábula. Se és demônio, não posso matar-
te.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Olho para seus pés; mas isso é fábula Se és um diabo, eu não posso te matar
5. Barbara Heliodora
Eu olhei os seus pés, mas isso é lenda; Se és o diabo, não posso matar-te.
6. Beatriz Viégas-Faria
Olho para baixo, buscando ver-lhe os pés. Mas isso não passa de fábula. Se tu
fosses o diabo, não teria como matá-lo.
7. Jean Melville
Olho para os pés dele... Mas isto é uma lenda. Se és diabo, não posso matar-te.

OTHELLO: Will you, I pray, demand that demi-devil


Why he hath thus ensnared
My soul and body? (V. ii. 298-9)
As versões do trecho são:
1. Onestaldo de Pennafort
Poderíeis saber desse monstro a razão por que me quis colher alma e corpo, em seu
laço?
2. Carlos Alberto Nunes
Perguntai, por favor, a este demônio por que a alma e o corpo me enleou a tal
ponto.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Quereis, por favor, perguntar a esse meio demônio por que enfeitiçou assim minha
alma e meu corpo?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Quereis, eu rogo-vos Interrogar a esse semi-diabo Por que ele assim enleou minha
alma e corpo? 5. Barbara Heliodora
Quer, por favor, indagar do demônio Por que foi que enredou meu corpo e alma?
6. Beatriz Viégas-Faria
Rogo-lhes: poderiam vocês perguntar a esse meio-demônio por que razão armou ele um
tal engodo para minha alma e meu corpo?
7. Jean Melville
Quereis, por favor, perguntar a esse demônio por que enfeitiçou assim minha alma e
meu corpo?

Outra alusão, mas dessa vez a Otelo ser (ou ter sido) pagão, encontra-se na
descrição que Iago faz do General como “an erring barbarian” (I. iii. 343):
1. Onestaldo de Pennafort: barbaresco nômade
2. Carlos Alberto Nunes: bárbaro errático
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes: aventureiro bárbaro
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos: bárbaro errante
5. Barbara Heliodora: bárbaro errante
6. Beatriz Viégas-Faria: bárbaro pecador
7. Jean Melville: aventureiro bárbaro

DESDEMONA:
Well prais’d! How if she be black and witty? (II. i.130)
1. Onestaldo de Pennafort
Belo elogio! E qual o que farias De uma mulher morena e inteligente?
2. Carlos Alberto Nunes
Ótimo! E se for preta e espirituosa?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Belo elogio! E se for uma dama morena e espirituosa?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Bem louvado. Mas se ela for morena e esperta?
5. Barbara Heliodora
Muito bem! E se for escura e viva?
6. Beatriz Viégas-Faria
Elogio muito bem feito! E se for negra e esperta?
7. Jean Melville
Belo elogio! E se for uma dama morena e espirituosa?

IAGO:
If she be black, and thereto have a wit,
She’ll find a white that shall her blackness fit (II. 1. 131-2)
1. Onestaldo de Pennafort
Se é morena, mas se de espírito não manca, Há de saber fazer com que a achem muito
branca.
2. Carlos Alberto Nunes
Preta e espirituosa... Que mistura! Mas um branco há de achar para a feiúra.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Se ela morena for e espírito tiver, Um branco encontrará que quadre à sua cor.
[nota do tradutor: Há aqui trocadilhos com os vários significados de fair (loura e
bela) e black (negra e morena)]
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Se for morena, mas tiver viveza a par, Encontrará um branco com quem se ajustar.
5. Barbara Heliodora
Se viva, mesmo sendo imitação, Um branco há de escolher-lhe a escuridão.
6. Beatriz Viégas-Faria
Se for negra e esperta a mulher, Esperteza ela sabe usar Para um homem branco
arranjar Que lhe esfregue a tal negra tez.
7. Jean Melville
Se ela morena for e espírito tiver, Um branco encontrará que quadre à sua cor.
[nota do tradutor: Trocadilhos com os diferentes significados de fair (loura e
bela) e black (negra e morena)]

IAGO:
She never yet was foolish, that was fair,
For even her folly help’d her to an heir. (II. i. 134-5)
1. Onestaldo de Pennafort Bela e tola, não há. Se é bela, acha um parceiro Que
logo a ajudará a arranjar um herdeiro.
2. Carlos Alberto Nunes
Mulher tonta não há, sendo bonita, Pois sabe arranjar filho e ser catita.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Mulher tola não há, se beleza ela tem, Pois mesmo tola sendo, sabe filho arranjar.
[nota do tradutor: Trocadilho quanto ao sentido de folly (estupidez e devassidão)]
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Nenhuma, se for bela, tola se mostrou, porque sua tolice herdeiro lhe granjeou.
5. Barbara Heliodora
Ser tola a moça linda eu nunca vi: A bela faz tolinhos para si.
6. Beatriz Viégas-Faria
Não existe mulher bela De tamanha estupidez Que não possa se gabar De um herdeiro
que ela fez.
7. Jean Melville
Se beleza ela tem, mulher tola não há Pois mesmo tola sendo, sabe filho arranjar.
[nota do tradutor: Trocadilho quanto ao sentido de folly (estupidez e devassidão)]

IAGO
There’s none so foul, and foolish thereunto,
But does foul pranks, which fair and wise ones do. (II. i. 139-40)
1. Onestaldo de Pennafort
Feia e tola que seja, inda assim é capaz De fazer o que a mais bonita e esperta
faz.
2. Carlos Alberto Nunes
Não há feia tão tola que não possa Nas belas e sabidas fazer mossa.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Feia ou tola não há mulher que não pratique as loucuras que a bela e sábia fazer
sabe.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Não há ninguém tão tola e feia além do mais que não faça o que a bela, o que a de
siso faz.
5. Barbara Heliodora
Nunca houve ninguém tão tola e feia que, como a bela, não armasse teia.
6. Beatriz Viégas-Faria
Não há mulher feia o suficiente e burra na medida certa que não consiga ser tão
quente como a dama mais bela e esperta.
7. Jean Melville
Não há mulher feia ou tola que não pratique as loucuras que a bela e sábia sabe
fazer.

(Márcia Paredes Nunes, pp. 170-243, passim)

POSTADO POR DENISE 4 COMENTÁRIOS


25/05/2009
snif
muita gente pensa que a oportunidade de ler uma tradução brasileira de was ist
aufklärung de kant se deve a alguém de nome "leopoldo holzbach", pela martin
claret. em verdade deve-se, até onde consigo perceber, a floriano de souza
fernandes, pela editora vozes. dê uma comparada. o triste é ver isso:

http://www.consciencia.org/a-busca-do-criterio-de-moralidade-na-reflexao-etica-de-
kant
http://www.historiaimagem.com.br/edicao3setembro2006/reflexkant.pdf
www.cchla.ufpb.br/ppgh/PPGH_2008-2_TE_Historia_e_Conhecimento_Historico.pdf
www.ufpel.tche.br/gt17/GT172955.doc
www.anped.org.br/reunioes/29ra/trabalhos/trabalho/GT08-2403--Int.pdf
http://www.joaodorio.com/Arquivo/2007/06,07/filosofias.htm
http://www.unipinhal.edu.br/ojs/voxforensis/index.php/vox_2007/article/view/12/34
http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/1884/14223/1/modelo%20completo%20da%20
dissertacacao.pdf
www.fae.edu/pesquisaacademica/pdf/primeiro_seminario/politicas_publicas_italo.pdf
http://serpensar.vilabol.uol.com.br/esclarecimento.htm

imagem: emoticon msn

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24/05/2009
was ist aufklärung
em as luzes e as sombras apresentei o cotejo de que significa orientar-se no
pensamento, de kant, na edição bilíngue da vozes e na edição da martin claret. em
as sombras e as luzes especulei um pouco sobre o grau de difusão desse texto de
kant pela martin claret.

há um outro texto de kant, que é a celebérrima beantwortung der frage: was ist
aufklärung? [resposta à pergunta: que é "esclarecimento"?], de 1783. não tenho
palavras para descrever a importância desse pequeno artigo de kant na história do
pensamento ocidental moderno. se a martin claret o apresenta em sua edição como um
opúsculo pouco conhecido (p. 97), só posso incluir essa afirmação em seu vasto rol
de desserviços prestados ao leitor.

abaixo, a tradução de floriano de souza fernandes (vozes) e a tradução atribuída


a "leopoldo holzbach" (martin claret). os itálicos na tradução de souza fernandes
seguem os itálicos originais de kant.

1. floriano de souza fernandes


esclarecimento ["aufklärung"] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele
próprio é culpado. a menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento
sem a direção de outro indivíduo. o homem é o próprio culpado dessa menoridade se
a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e
coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. sapere aude! tem coragem
de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento
["aufklärung"]. (p. 100)

2. leopoldo holzbach
"esclarecimento" [aufklärung] significa a saída do homem de sua menoridade, da
qual o culpado é ele próprio. a menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu
entendimento sem a direção de outro indivíduo. o homem é o próprio culpado dessa
menoridade se a sua causa não estiver na ausência de entendimento, mas na ausência
de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. sapere
aude! tem a ousadia de fazer uso de teu próprio entendimento - tal é o lema do
esclarecimento [aufklärung]. (p. 115)

1. floriano de souza fernandes


a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens,
depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter
maiorennes), continuem no entanto de bom grado menores durante toda a vida. são
também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em
mentores deles. é tão cômodo ser menor. se tenho um livro que faz as vezes de meu
entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por
mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso de esforçar-me eu
mesmo. (pp. 100-2)

2. leopoldo holzbach
a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens,
depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter
maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida.
são também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam
seus tutores. é tão cômodo ser menor! se tenho um livro que faz as vezes de meu
entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que
decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu
mesmo. (p. 115)

1. floriano de souza fernandes


para este esclarecimento ["aufklärung"] porém nada mais se exige senão LIBERDADE.
e a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de
fazer um uso público de sua razão em todas as questões. ouço, agora, porém,
exclamar de todos os lados: não raciocineis! o oficial diz: não raciocineis, mas
exercitai-vos! o financista exclama: não raciocineis, mas pagai! o sacerdote
proclama: não raciocineis, mas crede! (um único senhor no mundo diz: raciocinai,
tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). eis aqui por toda
a parte a limitação da liberdade. que limitação, porém, impede o esclarecimento
["aufklärung"]? qual não o impede, e até mesmo o favorece? respondo: o uso público
de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento
["aufklärung"] entre os homens. (p. 104)

2. leopoldo holzbach
para este esclarecimento [aufklärung], porém, nada mais se exige senão liberdade.
e a mais inofensiva dentre tudo o que se possa chamar liberdade, a saber: a de
fazer um uso público de sua razão em todos os assuntos. ouço agora, porém,
exclamações de todos os lados: "não raciocineis!" o oficial diz: não raciocineis,
mas exercitai-vos. o financista exclama: "não raciocineis, mas pagai!" o sacerdote
proclama: "não raciocineis, mas acredita!" (um único senhor no mundo diz:
"raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!"). eis
aqui por toda a parte a limitação da liberdade. mas que limitação impede o
esclarecimento [aufklärung]? qual não o impede, e mesmo o favorece? respondo: o
uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o
esclarecimento [aufklärung] entre os homens. (p. 117)

imagem: www.improbabilidade.com.br

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xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates

imagem: luca signorelli, dante

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23/05/2009
o nietzsche burati-rideeliano
no caso dos clássicos meio detonadões devido aos sequestros tradutórios sofridos
cá em nossa terrinha, costumo apresentar uma amostra dos estragos em teses,
artigos, ementas de curso, acervos de bibliotecas públicas, licitações, concursos
etc. dê uma olhada no arquivo à direita, "nas escolas".

para nietzsche não se sentir triste ou injustiçado por não ganhar uma listinha
toda sua, eis por onde andam acerca da verdade e da mentira e o anticristo em
plágio (ou será contrafação?)* de "heloísa da graça burati", pela editora rideel.

"Plágio: Violação da propriedade intelectual que se caracteriza pela imitação


total ou parcial de obra literária alheia, inculcando-se a qualidade de autor da
mesma. [...] Torna-se contrafação quando há reprodução fraudulenta de obra alheia
com o objetivo de lucro", Guimarães, Torrieri (org.), Dicionário Técnico Jurídico,
SP, Rideel, 3a. ed., 2001, p. 427.

www.prto.mpf.gov.br/info/info_detalhes_a.php?iid=689&ctg=&sctg
www.administradores.com.br/artigos/como_nos_tornamos_aquilo_que_somos/544/
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
14982007000200007&lng=es&nrm=iso
www.ufsj.edu.br/portal-
repositorio/File/dimap/PREGAO_40_2008_LIVROS%20MAIOR%20DESC_POR%20AREA.doc
www.comunidadeespirita.com.br/artigos/artigos2006/shakespeare%20dante%20nietzsch..
.
www.scielo.br/pdf/agora/v10n2/a07v10n2.pdf
http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=618
www.consciencia.org/niilismo-como-caminho-para-o-super-homem-em-friedrich-
nietzsche
http://dspace.lcc.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/ECAP-6ZRFJ3/1/flavio_barbeitas.pdf

muitíssimo felicissimamente, a listinha é curta, até onde consegui apurar. claro


que tem também os milhares de leitores que adquiriram e continuam a adquirir os
exemplares contrafeitos (contrafatos? contrafazidos?) - mais uma forte razão para
que o pobre do nietzsche buratiado saia de circulação, não é mesmo, dona rideel?

imagem: http://entendanietzsche.blogspot.com

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22/05/2009
o quilo de 150 gramas
alguém sabe me explicar como um texto integral de mais ou menos umas 170-200
páginas, dependendo da edição, pode caber em 33 páginas, com letra de tamanho
normal e formato pocket, e continuar se apresentando como "texto integral"?*

* por exemplo, maquiavel, a arte da guerra:


- editora escala, 174 pp.
- editora l&pm, 208 pp.
- editora martin claret, 33 pp.

imagem: http://complexus.blogs.sapo.pt

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concurso

este foi um dos ganhadores do plagiarius 2008.


se alguma editora quiser concorrer,
pode baixar aqui o formulário de inscrição.

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21/05/2009
frase do dia

RUDOLF VON IHERING, A LUTA PELO DIREITO

A irritabilidade e a ação, isto é, a faculdade de sentir a dor causada por uma


lesão em nosso direito e a coragem aliada à resolução de repelir o ataque, são o
duplo critério mediante o qual se pode reconhecer se o sentimento do direito é são
- TAVARES BASTOS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante duma ofensa ao


direito, e a energia, isto é, a coragem e determinação de repelir a agressão,
constituem os critérios pelos quais se afere a presença dum sadio sentimento de
justiça - ROBERTO DE BASTOS LELLIS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante de alguma ofensa ao


direito, e a energia, isto é, a coragem e a determinação de repelir a agressão,
ambas constituem os critérios pelos quais se confere a presença do sentimento
sadio de justiça - PIETRO NASSETTI
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