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POEMAS

ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Cláudio Manoel da Costa

Página 1
Compilado por
Roberto B. Cappelletti
Setembro, 2005

Página 2
Índice
SONETOS .......................................................................4
EPICÉDIO À MORTE DE SALÍCIO ................................18
FÁBULA DO RIBEIRÃO DO CARMO ...........................20
EULINA .........................................................................20
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

FRONDOSO E ALCINO ...............................................22


SONETO .......................................................................25
POLIFEMO ...................................................................25
BELISA E AMARÍLIS ......................................................25
PESCADORES ...............................................................27
FILENO A ALGANO ......................................................29
LISE ...............................................................................30
ANTANDRA...................................................................30
ALTÉIA ..........................................................................30
ANARDA .......................................................................31
CANÇONETAS À LIRA DESPREZO ...............................32
À LIRA PALINÓDIA .......................................................33
O PASTOR DIVINO ......................................................34
GALATÉIA .....................................................................36
ODE A MÍLTON ............................................................36

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III

Pastores, que levais ao monte o gado,


Cláudio Vede lá como andais por essa serra;
Que para dar contágio a toda a terra,
Manoel Basta ver-se o meu rosto magoado:
da Costa Eu ando (vós me vedes) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.
POEMAS
Se a quereis conhecer, vinde comigo,
ESCOLHIDOS Vereis a formosura, que eu adoro;
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;


Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.
SONETOS
I IV

Para cantar de amor tenros cuidados, Sou pastor; não te nego; os meus montados
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento; São esses, que aí vês; vivo contente
Ouvi pois o meu fúnebre lamento; Ao trazer entre a relva florescente
Se é, que de compaixão sois animados: A doce companhia dos meus gados;

Já vós vistes, que aos ecos magoados Ali me ouvem os troncos namorados,
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento; Em que se transformou a antiga gente;
Da lira de Anfião ao doce acento Qualquer deles o seu estrago sente;
Se viram os rochedos abalados. Como eu sinto também os meus cuidados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino, Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia
Para cingir de Apolo a verde rama, Firmes vos contemplastes, e seguros
Lhes influiu na lira estro divino: Nos braços de uma bela companhia;

O canto, pois, que a minha voz derrama, Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
Porque ao menos o entoa um peregrino, Que eu alegre algum tempo assim me via;
Se faz digno entre vós também de fama. E hoje os tratos de Amor choro perjuros.

II V

Leia a posteridade, ó pátrio Rio, Se sou pobre pastor, se não governo


Em meus versos teu nome celebrado; Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Por que vejas uma hora despertado Se em frio, calma, e chuvas inclementes
O sono vil do esquecimento frio: Passo o verão, outono, estio, inverno;

Não vês nas tuas margens o sombrio, Nem por isso trocara o abrigo terno
Fresco assento de um álamo copado; Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Não vês ninfa cantar, pastar o gado Dessa grande fortuna: assaz presentes
Na tarde clara do calmoso estio. Tenho as paixões desse tormento eterno.

Turvo banhando as pálidas areias Adorar as traições, amar o engano,


Nas porções do riquíssimo tesouro Ouvir dos lastimosos o gemido,
O vasto campo da ambição recreias. Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Que de seus raios o planeta louro Seja embora prazer; que a meu ouvido
Enriquecendo o influxo em tuas veias, Soa melhor a voz do desengano,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro. Que da torpe lisonja o infame ruído.
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VI IX

Brandas ribeiras, quanto estou contente Pouco importa, formosa Daliana,


De ver-nos outra vez, se isto é verdade! Que fugindo de ouvir-me, o fuso tomes;
Quanto me alegra ouvir a suavidade, Se quanto mais me afliges, e consomes,
Com que Fílis entoa a voz cadente! Tanto te adoro mais, bela serrana.

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente, Ou já fujas do abrigo da cabana,


Tudo me está causando novidade: Ou sobre os altos montes mais te assomes,
Oh como é certo, que a cruel saudade Faremos imortais os nossos nomes,
Faz tudo, do que foi, mui diferente! Eu por ser firme, tu por ser tirana.

Recebei (eu vos peço) um desgraçado, Um obséquio, que foi de amor rendido,
Que andou té agora por incerto giro Bem pode ser, pastora, desprezado;
Correndo sempre atrás do seu cuidado: Mas nunca se verá desvanecido:

Este pranto, estes ais, com que respiro, Sim, que para lisonja do cuidado,
Podendo comover o vosso agrado, Testemunhas serão de meu gemido
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Façam digno de vós o meu suspiro. Este monte, este vale, aquele prado.

VII X

Onde estou? Este sítio desconheço: Eu ponho esta sanfona, tu, Palemo,
Quem fez tão diferente aquele prado? Porás a ovelha branca, e o cajado;
Tudo outra natureza tem tomado; E ambos ao som da flauta magoado
E em contemplá-lo tímido esmoreço. Podemos competir de extremo a extremo.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço Principia, pastor; que eu te não temo;
De estar a ela um dia reclinado: Inda que sejas tão avantajado
Ali em vale um monte está mudado: No cântico amebeu: para louvado
Quanto pode dos anos o progresso! Escolhamos embora o velho Alcemo.

Árvores aqui vi tão florescentes, Que esperas? Toma a flauta, principia;


Que faziam perpétua a primavera: Eu quero acompanhar-te; os horizontes
Nem troncos vejo agora decadentes. Já se enchem de prazer, e de alegria:

Eu me engano: a região esta não era: Parece, que estes prados, e estas fontes
Mas que venho a estranhar, se estão presentes Já sabem, que é o assunto da porfia
Meus males, com que tudo degenera! Nise, a melhor pastora destes montes.

VIII XI

Este é o rio, a montanha é esta, Formosa é Daliana; o seu cabelo,


Estes os troncos, estes os rochedos; A testa, a sobrancelha é peregrina;
São estes inda os mesmos arvoredos; Mas nada tem, que ver coa bela Eulina,
Esta é a mesma rústica floresta. Que é todo o meu amor, o meu desvelo:

Tudo cheio de horror se manifesta, Parece escura a neve em paralelo


Rio, montanha, troncos, e penedos; Da sua branca face; onde a bonina
Que de amor nos suavíssimos enredos As cores misturou na cor mais fina,
Foi cena alegre, e urna é já funesta. Que faz sobressair seu rosto belo.

Oh quão lembrado estou de haver subido Tanto os seus lindos olhos enamoram,
Aquele monte, e as vezes, que baixando Que arrebatados, como em doce encanto,
Deixei do pranto o vale umedecido! Os que a chegam a ver, todos a adoram.

Tudo me está a memória retratando; Se alguém disser, que a engrandeço tanto


Que da mesma saudade o infame ruído Veja, para desculpa dos que choram
Vem as mortas espécies despertando. Veja a Eulina; e então suspenda o pranto.
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XII XV

Fatigado da calma se acolhia Formoso, e manso gado, que pascendo


Junto o rebanho à sombra dos salgueiros; A relva andais por entre o verde prado,
E o sol, queimando os ásperos oiteiros, Venturoso rebanho, feliz gado,
Com violência maior no campo ardia. Que à bela Antandra estais obedecendo;

Sufocava-se o vento, que gemia Já de Corino os ecos percebendo


Entre o verde matiz dos sovereiros; A frente levantais, ouvis parado;
E tanto ao gado, como aos pegureiros Ou já de Alcino ao canto levantado,
Desmaiava o calor do intenso dia. Pouco e pouco vos ides recolhendo;

Nesta ardente estação, de fino amante Eu, o mísero Alfeu, que em meu destino
Dando mostras Daliso, atravessava Lamento as sem-razões da desventura,
O campo todo em busca de Violante. A seguir-vos também hoje me inclino:

Seu descuido em seu fogo desculpava; Medi meu rosto: ouvi minha ternura;
Que mal feria o sol tão penetrante, Porque o aspecto, e voz de um peregrino
Onde maior incêndio a alma abrasava. Sempre faz novidade na espessura.

XIII XVI

Nise? Nise? onde estás? Aonde espera Toda a mortal fadiga adormecia
Achar-te uma alma, que por ti suspira, No silêncio, que a noite convidava;
Se quanto a vista se dilata, e gira, Nada o sono suavíssimo alterava
Tanto mais de encontrar-te desespera! Na muda confusão da sombra fria:

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera Só Fido, que de amor por Lise ardia,
Entre esta aura suave, que respira! No sossego maior não repousava;
Nise, cuido, que diz; mas é mentira. Sentindo o mal, com lágrimas culpava
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era. A sorte; porque dela se partia.

Grutas, troncos, penhascos da espessura, Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde, Querer enternecê-la é inútil arte;
Mostrai, mostrai-me a sua formosura. Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Nem ao menos o eco me responde! Mas de modo entre as penas se reparte;


Ah como é certa a minha desventura! Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde? Por que uma parte alente a outra parte.

XIV XVII

Quem deixa o trato pastoril amado Deixa, que por um pouco aquele monte
Pela ingrata, civil correspondência, Escute a glória, que a meu peito assiste:
Ou desconhece o rosto da violência, Porque nem sempre lastimoso, e triste
Ou do retiro a paz não tem provado. Hei de chorar à margem desta fonte.

Que bem é ver nos campos transladado Agora, que nem sombra há no horizonte,
No gênio do pastor, o da inocência! Nem o álamo ao zéfiro resiste,
E que mal é no trato, e na aparência Aquela hora ditosa, em que me viste
Ver sempre o cortesão dissimulado! Na posse de meu bem, deixa, que conte.

Ali respira amor sinceridade; Mas que modo, que acento, que harmonia
Aqui sempre a traição seu rosto encobre; Bastante pode ser, gentil pastora,
Um só trata a mentira, outro a verdade. Para explicar afetos de alegria!

Ali não há fortuna, que soçobre; Que hei de dizer, se esta alma, que te adora,
Aqui quanto se observa, é variedade: Só costumada às vozes da agonia,
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre! A frase do prazer ainda ignora!
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XVIII XXI

Aquela cinta azul, que o céu estende De um ramo desta faia pendurado
À nossa mão esquerda, aquele grito, Veja o instrumento estar do pastor Fido;
Com que está toda a noite o corvo aflito Daquele, que entre os mais era aplaudido,
Dizendo um não sei quê, que não se entende; Se alguma vez nas selvas escutado.

Levantar-me de um sonho, quando atende Ser-lhe-á eternamente consagrado


O meu ouvido um mísero conflito, Um ai saudoso, um fúnebre gemido;
A tempo, que o voraz lobo maldito Enquanto for no monte repetido
A minha ovelha mais mimosa ofende; O seu nome, o seu canto levantado.

Encontrar a dormir tão preguiçoso Se chegas a este sítio, e te persuade


Melampo, o meu fiel, que na manada A algum pesar a sua desventura,
Sempre desperto está, sempre ansioso; Corresponde em afetos de piedade;

Ah! queira Deus, que minta a sorte irada: Lembra-te, caminhante, da ternura
Mas de tão triste agouro cuidadoso De seu canto suave; e uma saudade
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Só me lembro de Nise, e de mais nada. Por obséquio dedica à sepultura.

XIX XXII

Corino, vai buscar aquela ovelha, Neste álamo sombrio, aonde a escura
Que grita lá no campo, e dormiu fora; Noite produz a imagem do segredo;
Anda; acorda, pastor; que sai a Aurora: Em que apenas distingue o próprio medo
Como vem tão risonha, e tão vermelha! Do feio assombro a hórrida figura;

Já perdi noutro tempo uma parelha Aqui, onde não geme, nem murmura
Por teu respeito; queira Deus, que agora Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,
Não se me vá também estoutra embora; Sentado sobre o tosco de um penedo
Pois não queres ouvir, quem te aconselha. Chorava Fido a sua desventura.

Que sono será este tão pesado! Às lágrimas a penha enternecida


Nada responde, nada diz Corino: Um rio fecundou, donde manava
Ora em que mãos está meu pobre gado! D’ânsia mortal a cópia derretida:

Mas ai de mim! que cego desatino. A natureza em ambos se mudava;


Como te hei de acusar de descuidado, Abalava-se a penha comovida;
Se toda a culpa tua é meu destino! Fido, estátua da dor, se congelava.

XX XXIII

Ai de mim! como estou tão descuidado! Tu sonora corrente, fonte pura,


Como do meu rebanho assim me esqueço, Testemunha fiel da minha pena,
Que vendo-o trasmalhar no mato espesso, Sabe, que a sempre dura, e ingrata Almena
Em lugar de o tornar, fico pasmado! Contra o meu rendimento se conjura:

Ouço o rumor que faz desaforado Aqui me manda estar nesta espessura,
O lobo nos redis; ouço o sucesso Ouvindo a triste voz da filomena,
Da ovelha, do pastor; e desconheço E bem que este martírio hoje me ordena,
Não menos, do que ao dono, o mesmo gado: Jamais espero ter melhor ventura.

Da fonte dos meus olhos nunca enxuta Veio a dar-me somente uma esperança
A corrente fatal, fico indeciso, Nova idéia do ódio; pois sabia,
Ao ver, quanto em meu dano se executa. Que o rigor não me assusta, nem me cansa:

Um pouco apenas meu pesar suavizo, Vendo a tanto crescer minha porfia,
Quando nas serras o meu mal se escuta; Quis mudar de tormento; e por vingança
Que triste alívio! ah infeliz Daliso! Foi buscar no favor a tirania.
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XXIV XXVII

Sonha em torrentes d’água, o que abrasado Apressa-se a tocar o caminhante


Na sede ardente está; sonha em riqueza O pouso, que lhe marca a luz do dia;
Aquele, que no horror de uma pobreza E da sua esperança se confia,
Anda sempre infeliz, sempre vexado: Que chegue a entrar no porto o navegante;

Assim na agitação de meu cuidado Nem aquele sem termo passa avante
De um contínuo delírio esta alma presa, Na longa, duvidosa e incerta via;
Quando é tudo rigor, tudo aspereza, Nem este atravessando a região fria
Me finjo no prazer de um doce estado. Vai levando sem rumo o curso errante:

Ao despertar a louca fantasia Depois que um breve tempo houver passado,


Do enfermo, do mendigo, se descobre Um se verá sobre a segura areia,
Do torpe engano seu a imagem fria: Chegará o outro ao sítio desejado:

Que importa pois, que a idéia alívios cobre, Eu só, tendo de penas a alma cheia,
Se apesar desta ingrata aleivosia, Não tenho, que esperar; que o meu cuidado
Quanto mais rico estou, estou mais pobre. Faz, que gire sem norte a minha idéia.

XXV XXVIII

Não de tigres as testas descarnadas, Faz a imaginação de um bem amado,


Não de hircanos leões a pele dura, Que nele se transforme o peito amante;
Por sacrifício à tua formosura, Daqui vem, que a minha alma delirante
Aqui te deixo, ó Lise, penduradas: Se não distingue já do meu cuidado.

Ânsias ardentes, lágrimas cansadas, Nesta doce loucura arrebatado


Com que meu rosto enfim se desfigura, Anarda cuido ver, bem que distante;
São, bela ninfa, a vítima mais pura, Mas ao passo, que a busco neste instante
Que as tuas aras guardarão sagradas. Me vejo no meu mal desenganado.

Outro as flores, e frutos, que te envia, Pois se Anarda em mim vive, e eu nela vivo,
Corte nos montes, corte nas florestas; E por força da idéia me converto
Que eu rendo as mágoas, que por ti sentia: Na bela causa de meu fogo ativo;

Mas entre flores, frutos, peles, testas, Como nas tristes lágrimas, que verto,
Para adornar o altar da tirania, Ao querer contrastar seu gênio esquivo,
Que outra vítima queres mais, do que estas? Tão longe dela estou, e estou tão perto.

XXVI XXIX

Não vês, Nise, este vento desabrido, Ai Nise amada! se este meu tormento,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta, Se estes meus sentidíssimos gemidos
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta, Lá no teu peito, lá nos teus ouvidos
Entre o horror de um relâmpago incendido? Achar pudessem brando acolhimento;

Não vês a cada instante o ar partido Como alegre em servir-te, como atento
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta, Meus votos tributara agradecidos!
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta, Por séculos de males bem sofridos
O raio a cada instante despedido. Trocara todo o meu contentamento.

Ah! não temas o estrago, que ameaça Mas se na incontrastável, pedra dura
A tormenta fatal; que o Céu destina De teu rigor não há correspondência,
Vejas mais feia, mais cruel desgraça: Para os doces afetos de ternura;

Rasga o meu peito, já que és tão ferina; Cesse de meus suspiros a veemência;
Verás a tempestade, que em mim passa; Que é fazer mais soberba a formosura
Conhecerás então, o que é ruína. Adorar o rigor da resistência.
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XXX XXXIII

Não se passa, meu bem, na noite, e dia Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,
Uma hora só, que a mísera lembrança Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,
Te não tenha presente na mudança, A ver, se o bruto mármore eterniza
Que fez, para meu mal, minha alegria. A tua, mais que ingrata, formosura.

Mil imagens debuxa a fantasia, Já cintilam teus olhos: a figura


Com que mais me atormenta e mais me cansa: Avultando já vai; quanto indecisa
Pois se tão longe estou de uma esperança, Pasmou na efígie a idéia, se divisa
Que alívio pode dar-me esta porfia! No engraçado relevo da escultura.

Tirano foi comigo o fado ingrato; Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,
Que crendo, em te roubar, pouca vitória, Acuses meu delírio, quando trato
Me deixou para sempre o teu retrato: De deixar nesta pedra o vulto erguido;

Eu me alegrara da passada glória, É tosca a prata, o ouro é menos grato;


Se quando me faltou teu doce trato, Contemplo o teu rigor: oh que advertido!
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Me faltara também dele a memória. Só me dá esta penha o teu retrato!

XXXI XXXIV

Estes os olhos são da minha amada: Que feliz fora o mundo, se perdida
Que belos, que gentis, e que formosos! A lembrança de amor, de amor a glória,
Não são para os mortais tão preciosos Igualmente dos gostos a memória
Os doces frutos da estação dourada. Ficasse para sempre consumida!

Por eles a alegria derramada, Mas a pena mais triste, e mais crescida
Tornam-se os campos de prazer gostosos; É ver, que em nenhum tempo é transitória
Em zéfiros suaves, e mimosos Esta de amor fantástica vitória,
Toda esta região se vê banhada; Que sempre na lembrança é repetida.

Vinde, olhos belos, vinde; e enfim trazendo Amantes, os que ardeis nesse cuidado,
Do rosto de meu bem as prendas belas, Fugi de amor ao venenoso intento,
Dai alívios ao mal, que estou gemendo: Que lá para o depois vos tem guardado.

Mas ah delírio meu, que me atropelas! Não vos engane o infiel contentamento;
Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo, Que esse presente bem, quando passado,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas. Sobrará para idéia do tormento.

XXXII XXXV

Se os poucos dias, que vivi contente, Aquele, que enfermou de desgraçado,


Foram bastantes para o meu cuidado, Não espere encontrar ventura alguma:
Que pode vir a um pobre desgraçado, Que o Céu ninguém consente, que presuma,
Que a idéia de seu mal não acrescente! Que possa dominar seu duro fado.

Aquele mesmo bem, que me consente, Por mais, que gire o espírito cansado
Talvez propício, meu tirano fado, Atrás de algum prazer, por mais em suma,
Esse mesmo me diz, que o meu estado Que porfie, trabalhe, e se consuma,
Se há de mudar em outro diferente. Mudança não verá do triste estado.

Leve pois a fortuna os seus favores; Não basta algum valor, arte, ou engenho
Eu os desprezo já; porque é loucura A suspender o ardor, com que se move
Comprar a tanto preço as minhas dores: A infausta roda do fatal despenho:

Se quer, que me não queixe, a sorte escura, E bem que o peito humano as forças prove,
Ou saiba ser mais firme nos rigores, Que há de fazer o temerário empenho,
Ou saiba ser constante na brandura. Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.
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XXXVI XXXIX

Estes braços, Amor, com quanta glória Breves horas, Amor, há, que eu gozava
Foram trono feliz na formosura! A glória, que minha alma apetecia;
Mas este coração com que ternura E sem desconfiar da aleivosia,
Hoje chora infeliz esta memória! Teu lisonjeiro obséquio acreditava.

Quanto vês, é troféu de uma vitória, Eu só à minha dita me igualava;


Que o destino em seu templo dependura: Pois assim avultava, assim crescia,
De uma dor esta estampa é só figura, Que nas cenas, que então me oferecia,
Na fé oculta, no pesar notória. O maior gosto, o maior bem lograva;

Saiba o mundo de teu funesto enredo; Fugiu, faltou-me o bem: já descomposta


Por que desde hoje um coração amante Da vaidade a brilhante arquitetura,
De adorar teus altares tenha medo: Vê-se a ruína ao desengano exposta:

Mas que empreendo, se ao passo, que constante Que ligeira acabou, que mal segura!
Vou a romper a fé do meu segredo, Mas que venho a estranhar, se estava posta
Não há, quem acredite um delirante! Minha esperança em mãos da formosura!

XXXVII XL

Continuamente estou imaginando, Quem chora ausente aquela formosura,


Se esta vida, que logro, tão pesada, Em que seu maior gosto deposita,
Há de ser sempre aflita, e magoada, Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,
Se como o tempo enfim se há de ir mudando: Que não seja funesta, triste, e escura!

Em golfos de esperança flutuando A apagar os incêndios da loucura


Mil vezes busco a praia desejada; Nos braços da esperança Amor me incita:
E a tormenta outra vez não esperada Mas se era a que perdi, glória infinita,
Ao pélago infeliz me vai levando. Outra igual que esperança me assegura!

Tenho já o meu mal tão descoberto, Já de tanto delírio me despeço;


Que eu mesmo busco a minha desventura; Porque o meu precipício encaminhado
Pois não pode ser mais seu desconcerto. Pela mão deste engano reconheço.

Que me pode fazer a sorte dura, Triste! A quanto chegou meu duro fado!
Se para não sentir seu golpe incerto, Se de um fingido bem não faço apreço,
Tudo o que foi paixão, é já loucura! Que alívio posso dar a meu cuidado!

XXXVIII XLI

Quando, formosa Nise, dividido Injusto Amor, se de teu jugo isento


De teus olhos estou nesta distância, Eu vira respirar a liberdade,
Pinta a saudade, à força de minha ânsia, Se eu pudesse da tua divindade
Toda a memória do prazer perdido. Cantar um dia alegre o vencimento;

Lamenta o pensamento amortecido Não lograras, Amor, que o meu tormento,


A tua ingrata, pérfida inconstância; Vítima ardesse a tanta crueldade;
E quanto observa, é só a vil jactância Nem se cobrira o campo da vaidade
Do fado, que os troféus tem conseguido. Desses troféus, que paga o rendimento:

Aonde a dita está? aonde o gosto? Mas se fugir não pude ao golpe ativo,
Onde o contentamento? onde a alegria, Buscando por meu gosto tanto estrago,
Que fecundava esse teu lindo rosto? Por que te encontro, Amor, tão vingativo?

Tudo deixei, ó Nise, aquele dia, Se um tal despojo a teus altares trago,
Em que deixando tudo, o meu desgosto Siga a quem te despreza, o raio esquivo;
Somente me seguiu por companhia. Alente a quem te busca, o doce afago.
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XLII XLV

Morfeu doces cadeias estendia, A cada instante, Amor, a cada instante


Com que os cansados membros me enlaçava; No duvidoso mar de meu cuidado
E quanto mal o coração passava, Sinto de novo um mal, e desmaiado
Em sonhos me debuxa a fantasia. Entrego aos ventos a esperança errante.

Lise presente vi, Lise, que um dia Por entre a sombra fúnebre, e distante
Todo o meu pensamento arrebatava, Rompe o vulto do alívio malformado;
Lise, que na minha alma impressa estava, Ora mais claramente debuxado,
Bem apesar da sua tirania. Ora mais frágil, ora mais constante.

Corro a prendê-la em amorosos laços Corre o desejo ao vê-lo descoberto;


Buscando a sombra, que apertar intento; Logo aos olhos mais longe se afigura,
Nada vejo (ai de mim!) perco os meus passos. O que se imaginava muito perto.

Então mais acredito o fingimento: Faz-se parcial da dita a desventura;


Que ao ver, que Lise foge de meus braços, Porque nem permanece o dano certo,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

A crê pelo costume o pensamento. Nem a glória tão pouco está segura.

XLIII XLVI

Quem és tu? (ai de mim!) eu reclinado Não vês, Lise, brincar esse menino
No seio de uma víbora! Ah tirana! Com aquela avezinha? Estende o braço;
Como entre as garras de uma tigre hircana Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
Me encontro de repente sufocado! A condena outra vez ao seu destino?

Não era essa, que eu tinha posta ao lado, Nessa mesma figura, eu imagino,
Da minha Nise a imagem soberana? Tens minha liberdade; pois ao passo,
Não era... mas que digo! ela me engana: Que cuido, que estou livre do embaraço,
Sim, que eu a vejo ainda no mesmo estado: Então me prende mais meu desatino.

Pois como no letargo a fantasia Em um contínuo giro o pensamento


Tão cruel ma pintou, tão inconstante, Tanto a precipitar-me se encaminha,
Que a vi...? mas nada vi; que eu nada cria. Que não vejo onde pare o meu tormento.

Foi sonho; foi quimera; a um peito amante Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Amor não deu favores um só dia, Se me faltasse a mim o entendimento,
Que a sombra de um tormento os não quebrante. Como falta a razão a esta avezinha.

XLIV XLVII

Há quem confie, Amor, na segurança Que inflexível se mostra, que constante


De um falsíssimo bem, com que dourando Se vê este penhasco! já ferido
O veneno mortal, vás enganando Do proceloso vento, e já batido
Os tristes corações numa esperança! Do mar, que nele quebra a cada instante!

Há quem ponha inda cego a confiança Não vi; nem hei de ver mais semelhante
Em teu fingido obséquio, que tomando Retrato dessa ingrata, a que o gemido
Lições de desengano, não vá dando Jamais pode fazer, que enternecido
Pelo mundo certeza da mudança! Seu peito atenda às queixas de um amante.

Há quem creia, que pode haver firmeza Tal és, ingrata Nise: a rebeldia,
Em peito feminil, quem advertido Que vês nesse penhasco, essa dureza
Os cultos não profane da beleza! Há de ceder aos golpes algum dia:

Há inda, e há de haver, eu não duvido, Mas que diversa é tua natureza!


Enquanto não mudar a Natureza Dos contínuos excessos da porfia,
Em Nise a formosura, o amor em Fido. Recobras novo estímulo à fereza.
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XLVIII LI

Traidoras horas do enganoso gosto, Adeus, ídolo belo, adeus, querido,


Que nunca imaginei, que o possuía, Ingrato bem; adeus: em paz te fica;
Que ligeiras passastes! mal podia E essa vitória mísera publica,
Deixar aquele bem de ser suposto. Que tens barbaramente conseguido.

Já de parte o tormento estava posto; Eu parto, eu sigo o norte aborrecido


E meu peito saudoso, que isto via, De meu fado infeliz: agora rica
As imagens da pena desmentia, De despojos, a teu desdém aplica
Pintando da ventura alegre o rosto. O rouco acento de um mortal gemido.

Desanda então a fábrica elevada, E se acaso alguma hora menos dura


Que o plácido Morfeu tinha erigido, Lembrando-te de um triste, consultares
Das espécies do sono fabricada: A série vil da sua desventura;

Então é, que desperta o meu sentido, Na imensa confusão de seus pesares


Para observar na pompa destroçada, Acharás, que ardeu simples, ardeu pura
Verdadeira a ruína, o bem fingido. A vítima de uma alma em teus altares.

XLIX LII

Os olhos tendo posto, e o pensamento Que molesta lembrança, que cansada


No rumo, que demanda, mais distante; Fadiga é esta! vejo-me oprimido,
As ondas bate o Grego Navegante, Medindo pela mágoa do perdido
Entregue o leme ao mar, a vela ao vento; A grandeza da glória já passada.

Em vão se esforça o harmonioso acento Foi grande a dita sim; porém lembrada,
Da sereia, que habita o golfo errante; Inda a pena é maior de a haver perdido;
Que resistindo o espírito constante, Quem não fora feliz, se o haver sido
Vence as lisonjas do enganoso intento. Faz, que seja a paixão mais avultada!

Se pois, ninfas gentis, rompe a Cupido Propício imaginei (é bem verdade)


O arco, a flecha, o dardo, a chama acesa O malévolo fado: oh quem pudera
De um peito entre os heróis esclarecido; Conhecer logo a hipócrita piedade!

Que vem buscar comigo a néscia empresa, Mas que em vão esta dor me desespera,
Se inda mais, do que Ulisses atrevido, Se já entorpecida a enfermidade,
Sei vencer os encantos da beleza! Inda agora o remédio se pondera!

L LIII

Memórias do presente, e do passado Ou já sobre o cajado te reclines,


Fazem guerra cruel dentro em meu peito; Venturoso pastor, ou já tomando
E bem que ao sofrimento ando já feito, Para a serra, onde as cabras vais chamando,
Mais que nunca desperta hoje o cuidado. A fugir os meus ais te determines.

Que diferente, que diverso estado Lá te quero seguir, onde examines


É este, em que somente o triste efeito Mais vivamente um coração tão brando;
Da pena, a que meu mal me tem sujeito, Que gosta só de ouvir-te, ainda quando
Me acompanha entre aflito, e magoado! Mais sem-razão me acuses, mais crimines.

Tristes lembranças! e que em vão componho Que te fiz eu, pastor? em que condenas
A memória da vossa sombra escura! Minha sincera fé, meu amor puro?
Que néscio em vós a ponderar me ponho! As provas, que te dei, serão pequenas?

Ide-vos; que em tão mísera loucura Queres ver, que esse monte áspero, e duro
Todo o passado bem tenho por sonho; Sabe, que és causa tu das minhas penas?
Só é certa a presente desventura. Pergunta-lhe; ouvirás, o que te juro.
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LIV LVII

Ninfas gentis, eu sou, o que abrasado Bela imagem, emprego idolatrado,


Nos incêndios de Amor, pude alguma hora, Que sempre na memória repetido,
Ao som da minha cítara sonora, Estás, doce ocasião de meu gemido,
Deixar o vosso império acreditado. Assegurando a fé de meu cuidado.

Se vós, glórias de amor, de amor cuidado, Tem-te a minha saudade retratado;


Ninfas gentis, a quem o mundo adora, Não para dar alívio a meu sentido;
Não ouvis os suspiros, de quem chora, Antes cuido; que a mágoa do perdido
Ficai-vos; eu me vou; sigo o meu fado. Quer aumentar coa pena de lembrado.

Ficai-vos; e sabei, que o pensamento Não julgues, que me alento com trazer-te
Vai tão livre de vós, que da saudade Sempre viva na idéia; que a vingança
Não receia abrasar-se no tormento. De minha sorte todo o bem perverte.

Sim; que solta dos laços a vontade, Que alívio em te lembrar minha alma alcança,
Pelo rio hei de ter do esquecimento Se do mesmo tormento de não ver-te,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Este, aonde jamais achei piedade. Se forma o desafogo da lembrança?

LV LVIII

Em profundo silêncio já descansa Altas serras, que ao Céu estais servindo


Todo o mortal; e a minha triste idéia De muralhas, que o tempo não profana,
Se estende, se dilata, se recreia Se Gigantes não sois, que a forma humana
Pelo espaçoso campo da lembrança. Em duras penhas foram confundindo?

Fatiga-se, prossegue, em vão se cansa; Já sobre o vosso cume se está rindo


E neste vário giro, em que se enleia, O Monarca da luz, que esta alma engana;
Ao duvidoso passo já receia, Pois na face, que ostenta, soberana,
Que lhe possa faltar a segurança. O rosto de meu bem me vai fingindo.

Que diferente tudo está notando! Que alegre, que mimoso, que brilhante
Que perplexo as imagens do perdido Ele se me afigura! Ah qual efeito
Num e noutro despojo vem achando! Em minha alma se sente neste instante!

Este não é o templo (eu o duvido) Mas ai! a que delírios me sujeito!
Assim o afirma, assim o está mostrando: Se quando no Sol vejo o seu semblante,
Ou morreu Nise, ou este não é Fido. Em vós descubro ó penhas o seu peito?

LVI LIX

Tu, ninfa, quando eu menos penetrado Lembrado estou, ó penhas, que algum dia,
Das violências de Amor vivia isento, Na muda solidão deste arvoredo,
Propondo-te então bela a meu tormento, Comuniquei convosco o meu segredo,
Foste doce ocasião de meu cuidado. E apenas brando o zéfiro me ouvia.

Roubaste o meu sossego, um doce agrado, Com lágrimas meu peito enternecia
Um gesto lindo, um brando acolhimento A dureza fatal deste rochedo,
Foram somente o único instrumento, E sobre ele uma tarde triste, e quedo
Com que deixaste o triunfo assegurado. A causa de meu mal eu escrevia.

Já não espero ter felicidade, Agora torno a ver, se a pedra dura


Salvo se for aquela, que confio, Conserva ainda intacta essa memória,
Por amar-te, apesar dessa impiedade. Que debuxou então minha escultura.

Em prêmio dos suspiros, que te envio, Que vejo! esta é a cifra: triste glória!
Ou modera o rigor da crueldade, Para ser mais cruel a desventura,
Ou torna-me outra vez meu alvedrio. Se fará imortal a minha história.
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LX LXIII

Valha-te Deus, cansada fantasia! Já me enfado de ouvir este alarido,


Que mais queres de mim? que mais pretendes? Com que se engana o mundo em seu cuidado;
Se quando na esperança mais te acendes, Quero ver entre as peles, e o cajado,
Se desengana mais tua porfia! Se melhora a fortuna de partido.

Vagando regiões de dia em dia, Canse embora a lisonja ao que ferido


Novas conquistas, e troféus empreendes: Da enganosa esperança anda magoado;
Ah que conheces mal, que mal entendes, Que eu tenho de acolher-me sempre ao lado
Onde chega do fado a tirania! Do velho desengano apercebido.

Trata de acomodar-te ao movimento Aquele adore as roupas de alto preço,


Dessa roda volúvel, e descansa Um siga a ostentação, outro a vaidade;
Sobre tão fatigado pensamento. Todos se enganam com igual excesso.

E se inda crês no rosto da esperança, Eu não chamo a isto já felicidade:


Examina por dentro o fingimento; Ao campo me recolho, e reconheço,
E verás tempestade o que é bonança. Que não há maior bem, que a soledade.

LXI LXIV

Deixemo-nos, Algano, de porfia; Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!


Que eu sei o que tu és, contra a verdade Parece, que se cansa, de que a um triste
Sempre hás de sustentar, que a divindade Haja de aparecer: quanto resiste
Destes campos é Brites, não Maria! A seu raio este sítio tenebroso!

Ora eu te mostrarei inda algum dia, Não pode ser, que o giro luminoso
Em que está teu engano: a novidade, Tanto tempo detenha: se persiste
Que agora te direi, é, que a cidade Acaso o meu delírio! se me assiste
Por melhor, do que todas a avalia. Ainda aquele humor tão venenoso!

Há pouco, que encontrei lá junto ao monte Aquela porta ali se está cerrando;
Dous pastores, que estavam conversando, Dela sai um pastor: outro assobia,
Quando passaram ambas para a fonte; E o gado para o monte vai chamando.

Nem falaram em Brites: mas tomando Ora não há mais louca fantasia!
Para um cedro, que fica bem defronte, Mas quem anda, como eu, assim penando,
O nome de Maria vão gravando. Não sabe, quando é noite, ou quando é dia.

LXII LXV

Torno a ver-vos, ó montes; o destino Ingrata foste, Elisa; eu te condeno


Aqui me torna a pôr nestes oiteiros; A injusta sem-razão; foste tirana,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros Em renderes, belíssima serrana,
Pelo traje da Corte rico, e fino. A tua liberdade ao néscio Almeno.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino, Que achaste no seu rosto de sereno,
Os meus fiéis, meus doces companheiros, De belo, ou de gentil, para inumana
Vendo correr os míseros vaqueiros Trocares pela dele esta choupana,
Atrás de seu cansado desatino. Em que tinhas o abrigo mais ameno?

Se o bem desta choupana pode tanto, Que canto em teu louvor entoaria?
Que chega a ter mais preço, e mais valia, Que te podia dar o pastor pobre?
Que da cidade o lisonjeiro encanto; Que extremos, mais do que eu, por ti faria?

Aqui descanse a louca fantasia; O meu rebanho estas montanhas cobre:


E o que té agora se tornava em pranto, Eu os excedo a todos na harmonia;
Se converta em afetos de alegria. Mas ah que ele é feliz! Isto lhe sobre.
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LXVI LXIX

Não te assuste o prodígio: eu, caminhante, Se à memória trouxeres algum dia,


Sou uma voz, que nesta selva habito; Belíssima tirana, ídolo amado,
Chamei-me o pastor Fido; de um delito Os ternos ais, o pranto magoado,
Me veio o meu estrago; eu fui amante. Com que por ti de amor Alfeu gemia;

Uma ninfa perjura, uma inconstante Confunda-te a soberba tirania,


Neste estado me pôs: do peito aflito, O ódio injusto, o violento desagrado,
Por eterno castigo, arranco um grito, Com que atrás de teu olhos arrastado
Que desengane o peregrino errante. Teu ingrato rigor o conduzia.

Se em ti se dá piedade, ó passageiro, E já que enfim tão mísero o fizeste,


(Que assim o pede a minha sorte escura) Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,
Atende ao meu aviso derradeiro: Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.

Lágrimas não te peço, nem ternura: Dirás, lisonjeando a dor em parte:


Por voto um desengano, te requeiro, Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Que consagres à minha sepultura. Triste remédio a quem não pode amar-te!

LXVII LXX

Não te cases com Gil, bela serrana; Breves horas, que em rápida porfia
Que é um vil, um infame, um desastrado; Ides seguindo infausto movimento,
Bem que ele tenha mais devesa, e gado, Oh como o vosso curso foi violento,
A minha condição é mais humana. Quando soubestes, que eu vos possuía!

Que mais te pode dar sua cabana, Já crédito vos dava; porque via
Que eu aqui te não tenha aparelhado? Avultar meu feliz contentamento:
O leite, a fruta, o queijo, o mel dourado; Que é mui fácil num triste estar atento
Tudo aqui acharás nesta choupana: Aos enganos, que pinta a fantasia.

Bem que ele tange o seu rabil grosseiro, Logrou-se o vosso fim; que foi levar-me
Bem que te louve assim, bem que te adore, Da falsa glória, do fingido gosto
Eu sou mais extremoso, e verdadeiro. Ao cume, donde venho a despenhar-me:

Eu tenho mais razão, que te enamore: Assim a lei do fado tem disposto,
E se não, diga o mesmo Gil vaqueiro: Que haja o instantâneo bem de lisonjear-me;
Se é mais, que ele te cante, ou que eu te chore. Por que o estrago, me diga, que é suposto.

LXVIII LXXI

Apenas rebentava no oriente Eu cantei, não o nego, eu algum dia


A clara luz da aurora, quando Fido, Cantei do injusto amor o vencimento;
O repouso deixando aborrecido, Sem saber, que o veneno mais violento
Se punha a contemplar no mal, que sente. Nas doces expressões falso encobria.

Vê a nuvem, que foge ao transparente Que amor era benigno, eu persuadia


Anúncio do crepúsculo luzido; A qualquer coração de amor isento;
E vê de todo em riso convertido Inda agora de amor cantara atento,
O horror, que dissipara o raio ardente. Se lhe não conhecera a aleivosia.

Por que (diz) esta sorte, que se alcança Ninguém de amor se fie: agora canto
Entre a sombra, e a luz, não sinto agora Somente os seus enganos; porque sinto,
No mal, que me atormenta, e que me cansa? Que me tem destinado estrago tanto.

Aqui toda a tristeza se melhora: De seu favor hoje as quimeras pinto:


Mas eu sem o prazer de uma esperança Amor de uma alma é pesaroso encanto;
Passo o ano, e o mês, o dia, a hora. Amor de um coração é labirinto.
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LXXII LXXV

Já rompe, Nise, a matutina aurora Clara fonte, teu passo lisonjeiro


O negro manto, com que a noite escura, Pára, e ouve-me agora um breve instante;
Sufocando do Sol a face pura, Que em paga da piedade o peito amante
Tinha escondido a chama brilhadora. Te será no teu curso companheiro.

Que alegre, que suave, que sonora, Eu o primeiro fui, fui o primeiro,
Aquela fontezinha aqui murmura! Que nos braços da ninfa mais constante
E nestes campos cheios de verdura Pude ver da fortuna a face errante
Que avultado o prazer tanto melhora! Jazer por glória de um triunfo inteiro.

Só minha alma em fatal melancolia, Dura mão, inflexível crueldade


Por te não poder ver, Nise adorada, Divide o laço, com que a glória, a dita
Não sabe inda, que coisa é alegria; Atara o gosto ao carro da vaidade:

E a suavidade do prazer trocada, E para sempre a dor ter n’alma escrita,


Tanto mais aborrece a luz do dia, De um breve bem nasce imortal saudade,
Quanto a sombra da noite lhe agrada. De um caduco prazer mágoa infinita.

LXXIII LXXVI

Quem se fia de Amor, quem se assegura Enfim te hei de deixar, doce corrente
Na fantástica fé de uma beleza, Do claro, do suavíssimo Mondego;
Mostra bem, que não sabe, o que é firmeza, Hei de deixar-te enfim; e um novo pego
Que protesta de amante a formosura. Formará de meu pranto a cópia ardente.

Anexa a qualidade de perjura De ti me apartarei; mas bem que ausente,


Ao brilhante esplendor da gentileza, Desta lira serás eterno emprego;
Mudável é por lei da natureza, E quanto influxo hoje a dever-te chego,
A que por lei de Amor é menos dura. Pagará de meu peito a voz cadente.

Deste, ó Fábio, que vês, desordenado, Das ninfas, que na fresca, amena estância
Ingrato proceder se é que examinas Das tuas margens úmidas ouvia,
A razão, eu a tenho decifrado: Eu terei sempre n’alma a consonância;

São as setas de Amor tão peregrinas, Desde o prazo funesto deste dia
Que esconde no gentil o golpe irado; Serão fiscais eternos da minha ânsia
Para lograr pacífico as ruínas. As memórias da tua companhia.

LXXIV LXXVII

Sombrio bosque, sítio destinado Não há no mundo fé, não há lealdade;


À habitação de um infeliz amante, Tudo é, ó Fábio, torpe hipocrisia;
Onde chorando a mágoa penetrante Fingido trato, infame aleivosia
Possa desafogar o seu cuidado; Rodeiam sempre a cândida amizade.

Tudo quieto está, tudo calado; Veste o engano o aspecto da verdade;


Não há fera, que grite; ave, que cante; Porque melhor o vício se avalia:
Se acaso saberás, que tens diante Porém do tempo a mísera porfia,
Fido, aquele pastor desesperado! Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.

Escuta o caso seu: mas não se atreve Se talvez descobrir-se se procura


A erguer a voz; aqui te deixa escrito Esta de amor fantástica aparência,
No tronco desta faia em cifra breve: É como à luz do Sol a sombra escura:

Mudou-se aquele bem; hoje é delito Mas que muito, se mostra a experiência,
Lembrar-me de Marfisa; era mui leve: Que da amizade a torre mais segura
Não há mais, que atender; tudo está dito. Tem a base maior na dependência!
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LXXVIII LXXXI

Campos, que ao respirar meu triste peito Junto desta corrente contemplando
Murcha, e seca tornais vossa verdura, Na triste falta estou de um bem que adoro;
Não vos assuste a pálida figura, Aqui entre estas lágrimas, que choro,
Com que o meu rosto vedes tão desfeito. Vou a minha saudade alimentando.

Vós me vistes um dia o doce efeito Do fundo para ouvir-me vem chegando
Cantar do Deus de Amor, e da ventura; Das claras hamadríades o coro;
Isso já se acabou; nada já dura; E desta fonte ao murmurar sonoro,
Que tudo à vil desgraça está sujeito. Parece, que o meu mal estão chorando.

Tudo se muda enfim: nada há, que seja Mas que peito há de haver tão desabrido,
De tão nobre, tão firme segurança, Que fuja à minha dor! que serra, ou monte
Que não encontre o fado, o tempo, a inveja. Deixará de abalar-se a meu gemido!

Esta ordem natural a tudo alcança; Igual caso não temo, que se conte;
E se alguém um prodígio ver deseja, Se até deste penhasco endurecido
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Veja meu mal, que só não tem mudança. O meu pranto brotar fez uma fonte.

LXXIX LXXXII

Entre este álamo, ó Lise, e essa corrente, Piedosos troncos, que a meu terno pranto
Que agora estão meus olhos contemplando, Comovidos estais, uma inimiga
Parece, que hoje o céu me vem pintando É quem fere o meu peito, é quem me obriga
A mágoa triste, que meu peito sente. A tanto suspirar, a gemer tanto.

Firmeza a nenhum deles se consente Amei a Lise; é Lise o doce encanto,


Ao doce respirar do vento brando; A bela ocasião desta fadiga;
O tronco a cada instante meneando, Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga
A fonte nunca firme, ou permanente. Em um tormento, em um fatal quebranto?

Na líquida porção, na vegetante Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora


Cópia daquelas ramas se figura Vós a vedes talvez, dizei, que eu cego
Outro rosto, outra imagem semelhante: Vos contei... mas calai, calai embora.

Quem não sabe, que a tua formosura Se tanto a minha dor a elevar chego,
Sempre móvel está, sempre inconstante, Em fé de um peito, que tão fino adora,
Nunca fixa se viu, nunca segura? Ao meu silêncio o meu martírio entrego.

LXXX LXXXIII

Quando cheios de gosto, e de alegria Polir na guerra o bárbaro gentio,


Estes campos diviso florescentes, Que as leis quase ignorou da natureza,
Então me vêm as lágrimas ardentes Romper de altos penhascos a rudeza,
Com mais ânsia, mais dor, mais agonia. Desentranhar o monte, abrir o rio;

Aquele mesmo objeto, que desvia Esta a virtude, a glória, o esforço, o brio
Do humano peito as mágoas inclementes, Do Russiano Herói, esta a grandeza,
Esse mesmo em imagens diferentes Que igualou de Alexandre a fortaleza,
Toda a minha tristeza desafia. Que venceu as desgraças de Dario:

Se das flores a bela contextura Mas se a lei do heroísmo se procura,


Esmalta o campo na melhor fragrância, Se da virtude o espírito se atende,
Para dar uma idéia da ventura; Outra idéia, outra máxima o segura:

Como, ó Céus, para os ver terei constância, Lá vive, onde no ferro não se acende;
Se cada flor me lembra a formosura Vive na paz dos povos, na brandura:
Da bela causadora de minha ânsia? Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende.
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LXXXIV
EPICÉDIO À MORTE DE SALÍCIO
Destes penhascos fez a natureza Espírito imortal, tu que rasgando
O berço, em que nasci! oh quem cuidara, Essa esfera de luzes, vais pisando
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza! Do fresco Elísio a região bendita,
Se nesses campos, onde a glória habita,
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara Centro do gosto, do prazer estância,
Contra o meu coração guerra tão rara, Entrada se permite à mortal ânsia
Que não me foi bastante a fortaleza.
De uma dor, de um suspiro descontente,
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano, Se lá relíquia alguma se consente
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano: Desta cansada, humana desventura,
Não te ofendas, que a vítima tão pura,
Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano, Que em meus ternos soluços te ofereço,
Onde há mais resistência, mais se apura. Busque seguir-te, por lograr o preço

LXXXV Daquela fé, que há muito consagrada


Nas aras da amizade foi jurada.
Parece, ou eu me engano, que esta fonte
De repente o licor deixou turvado; Bem sabes, que o suavíssimo perfume,
O céu, que estava limpo, e azulado, Que arder pode do amor no casto lume,
Se vai escurecendo no horizonte:
Os suores não são deste terreno,
Por que não haja horror, que não aponte Que odorífero sempre, e sempre ameno,
O agouro funestíssimo, e pesado,
Até de susto já não pasta o gado; Em coalhadas porções Chipre desata:
Nem uma voz se escuta em todo o monte. Mais que os tesouros, que feliz recata

Um raio de improviso na celeste A arábica região, amor estima


Região rebentou; um branco lírio Os incensos, que a fé, que a dor anima,
Da cor das violetas se reveste;
Abrasados no fogo da lembrança.
Será delírio! não, não é delírio. Esta pois a discreta segurança,
Que é isto, pastor meu? que anúncio é este?
Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio. Com que chega meu peito saudoso,
A acompanhar teu passo venturoso,
LXXXVI
Oh sempre suspirado, sempre belo,
Musas, canoras musas, este canto Espírito feliz: a meu desvelo
Vós me inspirastes, vós meu tenro alento
Erguestes brandamente àquele assento Não negues, eu te rogo, que constante
Que tanto, ó musas, prezo, adoro tanto. Viva a teu lado sombra vigilante.

Lágrimas tristes são, mágoas, e pranto, Inda que estejas de esplendor cercada,
Tudo o que entoa o músico instrumento; Alma feliz, na lúcida morada,
Mas se o favor me dais, ao mundo atento
Em assunto maior farei espanto. Que na pompa dos raios luminosa
Pises aquela esfera venturosa,
Se em campos não pisados algum dia
Entra a ninfa, o pastor, a ovelha, o touro, Que a teu merecimento o Céu destina;
Efeitos são da vossa melodia; Nada impede, que a chama peregrina

Que muito, ó musas, pois, que em fausto agouro De uma saudade aflita, e descontente,
Cresçam do pátrio rio à margem fria Te assista acompanhando juntamente.
A imarcescível hera, o verde louro!
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Antes razão será, que debuxada Cá viverá comigo a minha pena,
Em meu tormento aquela flor prostrada, Penhor inextinguível, que me ordena

Sol em teus resplendores te eternizes, A sempre viva, e imortal lembrança.


E Clície em minha mágoa me divises; Ela me está propondo na vingança

Entre raios crescendo, entre lamentos, De meu fado inflexível, ó Salício,


Em mim a dor, em ti os luzimentos. Aquele infausto, trágico exercício,

Se porém a infestar da Elísia esfera Que os humanos progressos acompanha.


A contínua, brilhante primavera Quem cuidara, que fosse tão estranha,

Chegar só pode o lastimoso rosto Tão pérfida, tão ímpia a força sua,
Deste meu triste, fúnebre desgosto, Que maltratar pudesse a idade tua,

Eu desisto do empenho, em que deliro; Adornada não só daquele raio,


E as asas encurtando a meu suspiro, Que anima a flor, que se produz em maio;
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Já não consinto, que seu vôo ardente Mas inda de frutíferos abonos,
A acompanhar-te suba diligente: Que antecipa a cultura dos outonos!

Antes no mesmo horror, na sombra escura Cinco lustros o Sol tinha dourado
Da minha inconsolável desventura (Breves lustros enfim, Salício amado),

Eu quero lastimar meu fado tanto, Quando o fio dos anos encolhendo,
Que sufocado em urnas de meu pranto, Foi Átropos a teia desfazendo:

A tão funesto, líquido dispêndio, Um golpe, e outro golpe preparava:


A chama apague deste ardente incêndio. Para empregá-lo a força lhe faltava;

Indigno sacrifício de uma pena, Que mil vezes a mão, ou de respeito,


Que chega a perturbar a paz serena De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.

De umas almas, que em campos de alegria Desatou finalmente o peregrino


Gozam perpétua luz, perpétuo dia; Fio, que já tecera. Ah se ao destino

Que adorando a concórdia, desconhecem Pudera embaraçar nossa piedade!


Os sustos, que da inveja os braços tecem; Não te glories, trágica deidade,

Que ignoram o rigor do frio inverno; De um triunfo, que levas tão precioso:
E que em brando concerto, em jogo alterno Desar é de teu braço indecoroso;

Gozam toda a suavíssima carreira Que inda que a fúria tua o tem roubado,
De uma sorte risonha, e lisonjeira. A nossa dor o guarda restaurado.

Ali, entre os favônios mais suaves, Vive entre nós ainda na memória,
A consonância ofenderei das aves, A que ele nos deixou, eterna glória;

Que arrebatando alegres os ouvidos, Dispêndios preciosos de um engenho,


Discorrem entre os círculos luzidos Ou já da natureza desempenho,

De toda a vegetante, amena estância. Ou para a nossa dor só concedido.


Ali pois as memórias de minha ânsia Salício, o pastor nosso, tão querido,

Não entrarão, Salício: que não quero Prodígio foi no raro do talento,
Ser contigo tão bárbaro, e tão fero, Sobre todo o mortal merecimento;

Que um bem, em cuja posse estás ditoso, E prodígio também com ele agora
Triste magoe, infeste lastimoso. Se faz a mágoa, que o lastima e chora.
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A lutuosa vítima do pranto Fui da florente idade
Melhor, que o imarcescível amaranto, Pela cândida estrada
Os pés movendo com gentil vaidade;
Te cerca, ó alma grande, a urna triste; E a pompa imaginada
O nosso sentimento aqui te assiste, De toda a minha glória num só dia
Trocou de meu destino a aleivosia.
Em nênias entoando magoadas
Hinos saudosos, e canções pesadas. Pela floresta, e prado
Bem polido mancebo,
Quiséramos na campa, que te cobre, Girava em meu poder tão confiado,
Bem que o tormento ainda mais se dobre, Que até do mesmo Febo
Imaginava o trono peregrino
Gravar um epitáfio, que declare,
Quem o túmulo esconde; e bem que apare Ajoelhado aos pés do meu destino.
Não ficou tronco, ou penha,
Qualquer engenho a pena, em nada atina. Que não desse tributo
Vive outra vez: das cinzas da ruína A meu braço feliz; que já desdenha,
Despótico, absoluto,
Ressuscita, ó Salício; dita; escreve; As tenras flores, as mimosas plantas,
Seja o epitáfio teu: a cifra breve Em rendimentos mil, em glórias tantas.

Mostrará no discreto, e no polido, Mas ah! Que Amor tirano


Que é Salício, o que aqui vive escondido. No tempo, em que a alegria
Se aproveitava mais do meu engano;
Por aleivosa via
FÁBULA DO RIBEIRÃO DO CARMO Introduziu cruel a desventura,
A vós, canoras ninfas, que no amado Que houve de ser mortal, por não ter cura.
Berço viveis do plácido Mondego,
Que sois da minha lira doce emprego, Vizinho ao berço caro,
Inda quando de vós mais apartado; Aonde a pátria tive,
Vivia Eulina, esse prodígio raro,
A vós do pátrio rio em vão cantado Que não sei, se ainda vive,
O sucesso infeliz eu vos entrego; Para brasão eterno da beleza,
E a vítima estrangeira, com que chego, Para injúria fatal da natureza.
Em seus braços acolha o vosso agrado.
Era Eulina de Aucolo
Vede a história infeliz, que Amor ordena, A mais prezada filha;
Jamais de fauno ou de pastor ouvida, Aucolo tão feliz, que o mesmo Apolo
Jamais cantada na silvestre avena. Se lhe prostra, se humilha
Na cópia da riqueza florescente,
Se ela vos desagrada, por sentida, Destro na lira, no cantar ciente.
Sabei, que outra mais feia em minha pena
Se vê entre estas serras escondida. De seus primeiros anos
Na beleza nativa,
Humilde Aucolo, em ritos não profanos,
EULINA A bela ninfa esquiva
Aonde levantado Em voto ao sacro Apolo consagrara;
Gigante, a quem tocara, E dele em prêmio tantos dons herdara.
Por decreto fatal de Jove irado,
A parte extrema, e rara Três lustros, todos d’ouro,
Desta inculta região, vive Itamonte, A gentil formosura,
Parto da terra, transformado em monte; Vinha tocando apenas, quando o louro,
Brilhante Deus procura
De uma penha, que esposa Acreditar do pai o culto atento,
Foi do invicto Gigante, Na grata aceitação do rendimento.
Apagando Lucina a luminosa,
A lâmpada brilhante,
Nasci; tendo em meu mal logo tão dura,
Como em meu nascimento, a desventura.
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Mais formosa de Eulina Inutilmente ao vento
Respirava a beleza; Vou estendendo os braços:
De ouro a madeixa rica, e peregrina Buscar nas sombras o meu bem intento:
Dos corações faz presa; Onde a meus ternos laços...!
A cândida porção da neve bela Onte te escondes, digo, amada Eulina?
Entre as rosadas faces se congela. Quem tanto estrago contra mim fulmina?

Mas inda, que a ventura Mas ia por diante;


Lhe foi tão generosa, Quando entre a nuvem densa
Permite o meu destino, que uma dura, Aparecendo o corpo mais brilhante,
Condição rigorosa Eu vejo (oh dor imensa!)
Ou mais aumente enfim, ou mais ateie Passar a bela ninfa, já roubada
Tanto esplendor; para que mais me enleie. Do Númen, a quem fora consagrada.

Não sabe o culto ardente Em seus braços a tinha


De tantos sacrifícios O louro Apolo presa;
Abrandar o seu nume: a dor veemente, E já ludíbrio da fadiga minha,
Tecendo precipícios, Por amorosa empresa,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Já quase me chegava a extremo tanto, Era despojo da deidade ingrata


Que o menor mal era o mortal quebranto. O bem, que de meus olhos me arrebata.

Vendo inútil o empenho Então já da paciência


De render-lhe a fereza, As rédeas desatadas,
Busquei na minha indústria o meu despenho: Toco de meus delírios a inclemência:
Com ingrata destreza E de todo apagadas
Fiei de um roubo (oh mísero delito!) Do acerto as luzes, busco a morte ímpia,
A ventura de um bem, que era infinito. De um agudo punhal na ponta fria.

Sabia eu, como tinha As entranhas rasgando,


Eulina por costume, E sobre mim caindo,
(Quando o maior planeta quase vinha Na funesta lembrança soluçando,
Já desmaiando o lume, De todo confundindo
Para dourar de luz outro horizonte) Vou a verde campina; e quase exangue
Banhar-se nas correntes de uma fonte. Entro a banhar as flores de meu sangue.

A fugir destinado Inda não satisfeito


Com o furto precioso, O Númen soberano,
Desde a pátria, onde tive o berço amado; Quer vingar ultrajado o seu respeito;
Recolhi numeroso Permitindo em meu dano.
Tesouro, que roubara diligente Que em pequena corrente convertido
A meu pai, que de nada era ciente. Corra por estes campos estendido.

Assim pois prevenido E para que a lembrança


De um bosque à fonte perto, De minha desventura
Esperava o portento apetecido Triunfe sobre a trágica mudança
Da ninfa; e descoberto Dos anos, sempre pura,
Me foi apenas, quando (oh dura empresa!) Do sangue, que exalei, ó bela Eulina,
Chego; abraço a mais rara gentileza. A cor inda conservo peregrina.

Quis gritar; oprimida Porém o ódio triste


A voz entre a garganta De Apolo mais se acende;
Apolo? diz, Apol... a voz partida E sobre o mesmo estrago, que me assiste,
Lhe nega força tanta: Maior ruína empreende:
Mas ah! Eu não sei como, de repente Que chegando a ser ímpia uma deidade,
Densa nuvem me põe do bem ausente. Excede toda a humana crueldade.

Página 21
Por mais desgraça minha, Competir não pretendo
Dos tesouros preciosos Contigo, ó cristalino
Chegou notícia, que eu roubado tinha, Tejo, que mansamente vais correndo:
Aos homens ambiciosos; Meu ingrato destino
E crendo em mim riquezas tão estranhas, Me nega a prateada majestade,
Me estão rasgando as míseras entranhas. Que os muros banha da maior cidade.

Polido o ferro duro As ninfas generosas,


Na abrasadora chama Que em tuas praias giram,
Sobre os meus ombros bate tão seguro, Ó plácido Mondego, rigorosas
Quem nem a dor, que clama, De ouvir-me se retiram;
Nem o estéril desvelo da porfia Que de sangue a corrente turva, e feia
Desengana a ambiciosa tirania. Teme Ericina, Aglaura, e Deiopéia.

Ah mortais! Até quando Não se escuta a harmonia


Vos cega o pensamento! Da temperada avena
Que máquinas estais edificando Nas margens minhas; que a fatal porfia
Sobre tão louco intento? Da humana sede ordena,
Como nem inda no seu reino imundo Se atenda apenas o ruído horrendo
Vive seguro o Báratro profundo! Do tosco ferro, que me vai rompendo.

Idolatrando a ruína Porém se Apolo ingrato


Lá penetrais o centro, Foi causa deste enleio,
Que Apolo não banhou, nem viu Lucina; Que muito, que da Musa o belo trato
E das entranhas dentro Se ausente de meu seio,
Da profanada terra, Se o deus, que o temperado coro tece,
Buscais o desconcerto, a fúria, a guerra. Me foge, me castiga, e me aborrece!

Que exemplos vos não dita Enfim sou, qual te digo,


Do ambicioso empenho O Ribeirão prezado,
De Polidoro a mísera desdita! De meus engenhos a fortuna sigo;
Que perigo o lenho, Comigo sepultado
Que entregastes primeiro ao mar salgado, Eu choro o meu despenho; eles sem cura
Que desenganos vos não tem custado! Choram também a sua desventura.

Enfim sem esperança,


Que alívio me permita, FRONDOSO E ALCINO
Aqui chorando estou minha mudança; Frondoso
E a enganadora dita,
Para que eu viva sempre descontente, Em vão te estás cansando o dia inteiro,
Na muda fantasia está presente. Alcino, em perguntar, que significa
Este, que vês cortar, triste letreiro:
Um murmurar sonoro
Apenas se me escuta; Ele não é debalde: aqui se explica
Que até das mesmas lágrimas, que choro, Tudo, quanto há de grande, novo, e raro,
A Deidade Absoluta Na pobre aldeia, e na cidade rica.
Não consente ao clamor, se esforce tanto,
Que mova à compaixão meu terno pranto. Nada pode escapar do golpe avaro...
(Diz cifra breve): agora entende;
Daqui vou descobrindo Que deste dito o assunto eu não declaro.
A fábrica eminente
De uma grande cidade; aqui polindo Alcino
A desgrenhada frente,
Maior espaço ocupo dilatado, Se o meu juízo o caso compreende,
Por dar mais desafogo a meu cuidado. Essa letra, que entalhas, e que admiro,
Com a morte de Arúncio fala, ou prende.

Página 22
Frondoso Alcino

Ah! Que arrancas um mísero suspiro O que queres dizer, eu conjeturo:


Do centro de minha alma; o nome amado No vime, e no carvalho há igual ruína:
Me faz deixar a vida, que respiro. Igual a conseqüência eu não seguro.

Alcino Aquele cai sem dano, este destina


Fatal estrago a tudo, o que está posto
Eu bem via, que estava o teu cuidado, Debaixo dele. É isto? Ora imagina.
Frondoso meu, lembrando a triste morte
Desse caro pastor, tão estimado. Frondoso

Frondoso Jove aparte de nós tanto desgosto:


Baste, para avivar nossa saudade,
E quando esperas tu, que o fatal corte, O ser cortado em flor aquele rosto.
Que de mim separou tão doce amigo,
Possa romper de amor o laço forte! Contente-se da morte a crueldade
Em nos levar com passo tão ligeiro
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Primeiro se verá nascer o trigo Uma tão bela, tão mimosa idade.
No céu; dará primeiro a terra estrelas,
Que tenha esta lembrança algum perigo. Roubou-nos um pastor, que era o primeiro
Entre os nossos do monte; ele nos dava
Alcino As justas leis no campo, e no terreiro.

Triste, e funesto caso! As ninfas belas Ele as dúvidas nossas concertava;


Do pátrio Ribeirão tanto choraram, E sendo maioral, por arte nova,
Que inda alívio não há, nem gosto entre elas. Com respeito o agrado temperava.

Os gados largos dias não pastaram; De mil virtudes suas nos deu prova;
E mugindo à maneira de sentidos, Sempre a bem dirigindo os nossos passos.
A pele sobre os ossos encostaram. Oh quanto esta lembrança a dor renova!

Os mochos pelas faias estendidos Alcino


Enchendo a terra, e céu de mil agouros,
Espalharam tristíssimos grasnidos. Ai! E com quanta mágoa nos teus braços
Eu vi, Frondoso meu, que Arúncio esteve
Os campos, que té ali se viam louros Desatando da vida os doces laços!
Com o matiz vistoso das searas,
Perderam de repente seus tesouros. Frondoso

Frondoso Meu pensamento, Amigo, não se atreve


A lembrar-se (ai de mim!) da mortal hora.
Esses sinais, Alcino, se reparas, Em que vi acabar vida tão breve.
Dizem cousa maior, que sentimentos
Consagrados da morte sobre as aras. Quem fora duro seixo, ou bronze fora,
Para animar agora na lembrança
Quando há mostras no céu, quando há portentos Aquela imagem, com que esta alma chora!
Na terra, algum segredo há, não sei onde,
Que não é para humanos pensamentos. Eu vi, Alcino, eu vi, que na mudança
Que do caduco e eterno bem fazia,
Ao meu conhecimento não se esconde A alma tinha cheia de esperança.
A grandeza do golpe: mas alcanço,
Que a tanta perda a dor não corresponde. Tudo, o que era mortal, aborrecia:
A cópia dos seus gados, o cajado,
De te buscar exemplos me não canso; (Bem que era de ouro fino) em nada havia.
Só te lembro porém, que o tronco duro
Faz mais estrago que o arbusto manso. Em vão o molestava o doce estado
Da honra, e da grandeza: a Jove entregue
O espírito seguia outro cuidado.
Página 23
Mas ai, Alcino! A voz já não prossegue; Contente-se o Mondego, que na estranha
Que tudo, o que a memória vem trazendo, Ventura de educá-lo, deu ao mundo,
Receio, Amigo, que a matar-me chegue. Quem lhe soube adquirir glória tamanha.

Alcino O fado, que conhece inda o mais fundo,


Quer, que guarde seu corpo a turva areia
As ninfas do Mondego estou já vendo De outro rio, mais triste, e mais profundo.
Descerem para nós com triste pranto.
Ou eu me engano, ou elas vêm dizendo: Do rio, que seu curso não refreia
Até chegar, onde entra a grande costa,
Se do lírio, da murta, e do amaranto Que banha do Brasil salgada veia.
Cercada deve ser a sepultura
De Arúncio, a nós nos toca ofício tanto. Rio das Velhas se chama (se reposta
Buscamos nos antigos, a pintura
Nós o criamos, com feliz ternura, Das dórcades na história se vê posta).
Dando-lhe o mel, e o leite: a nós nos toca
Mandar o corpo belo à terra dura. Os primeiros, que entraram na espessura
Dos ásperos sertões, dizem, que acharam
Frondoso Três bárbaras, já velhas, nesta altura.

De outro lado igualmente se provoca Frondoso


O Tejo (onde ele viu a luz primeira):
E as ninfas do centro úmido convoca. Das três Parcas melhor eles tomaram
O nome desse rio; se é verdade,
A mim só se me deve a glória inteira Que elas a vida humana governaram.
(Fala o soberbo Tejo) eu o demando:
Minha há de ser esta honra derradeira. Triste sejas, ó rio: a divindade
De Apolo, que em ti cria o amável ouro,
Aqui lhe estou uma urna preparando, Se aparte do teu seio em toda a idade.
Coberta de um cipreste; onde a memória
Seu nome viverá sempre guardando. Não sejas da ambição rico tesouro:
Girar se vejam sobre as praias tuas
Por mais que voe a idade transitória, Os brancos cisnes não, aves d’agouro.
Nunca se há de apagar aquele afeto,
Que de Arúncio consagro à triste história. Do inverno as enxurradas levem cruas
As sementeiras, que teus campos criam:
Durarás entre nós, Pastor discreto, Deixem só sobre a terra as pedras nuas.
Renovando a lembrança de Corino,
Que da nossa saudade é inda objeto: Os pobres navegantes, que se fiam
Dessas funestas águas, desde agora
Ele te deu o ser; tu peregrino Conheçam a traição, que não temiam.
Retrato de seus dotes, consolavas
Nosso desejo, tão constante, e fino. Alcino

Aquele caro irmão, que tanto amavas, E contra quem, Frondoso, inda em tal hora
Aônio, digo, aquele, a quem devias Se armam as pragas tuas! Um delírio
Toda a felicidade, que gozavas, Só para extremo tal desculpa fora.

Hoje lamenta teus saudosos dias; Se Jove é quem nos manda este martírio,
Hoje chora comigo: eu lhe desejo Soframos o seu golpe: ao pastor belo
Alívio a tão cansadas agonias. Derramemos em cima o goivo, o lírio.

Alcino O nosso Ribeirão traz o modelo


Do enterro, que dispõe: nós entretanto
Oh! Contente-se embora o claro Tejo Demos a conhecer nosso desvelo.
De haver ao mundo dado, quem lhe ganha
Fama, e nome a seu reino assaz sobejo. Envolto o corpo em um cândido manto,
Que distingue de Deus o brasão nobre,
Aqui se oferece para o nosso pranto.
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Enquanto pois o corpo a terra cobre, Não sei, que mais pretendes
Seguindo o teu princípio deixa, Amigo, Desprezas meu desvelo;
Que um voto lhe consagre um pastor pobre, E excedendo o rigor da crueldade,
Um voto, que se escreva em seu jazigo. Com a chama do zelo
O coração me acendes:
Não é assim cruel a divindade.
SONETO Abranda extremo tanto;
Nada pode escapar do golpe avaro, Vem a viver nos mares do meu pranto:
Alcino meu: que a Parca endurecida Talvez sua ternura
Corta igualmente os fios de uma vida Te faça a natureza menos dura.
Ao pastor pobre, ao cortesão preclaro.
E se não basta o excesso
Cresça embora esse tronco altivo, e raro, De amor para abrandar-te,
Ostentação fazendo mais luzida; Quanto rebanho vês cobrir o monte,
Viva embora entre humilde, entre abatida, Tudo, tudo ofereço;
Essa planta, a que o nome em vão declaro. Esta obra do divino Alcimedonte,
Este branco novilho,
Tudo há de achar o fim: bem que a vaidade Daquela parda ovelha tenro filho,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Em uma, e outra glória faça estudo, De dar-te se contenta,


Nada escapa à fatal voracidade. Quem guarda amor, e zelos apascenta.

Eu, que chego a pensá-lo, fico mudo;


E só tiro por certa esta verdade: BELISA E AMARÍLIS
Que, se Arúncio acabou, acaba tudo. Corebo

Agora, que do alto vem caindo


POLIFEMO A noite aborrecida, e só gostosa
Ó linda Galatéia, Para quem o seu mal está sentindo;
Que tantas vezes quantas
Essa úmida morada busca Febo, Repitamos um pouco a trabalhosa
Fazes por esta areia, Fadiga do passado; e neste assento
Que adore as tuas plantas Gozemos desta sombra deleitosa.
O meu fiel cuidado: já que Erebo
As sombras descarrega sobre o mundo, O brando respirar do manso vento
Deixa o reino profundo: Por entre as frescas ramas, a doçura
Vem, ó Ninfa, a meus braços; Dessa fonte, que move o passo lento;
Que neles tece Amor mais ternos laços.
A doce quietação dessa espessura,
Vem, ó Ninfa adorada; O silêncio das aves, tudo, amigo,
Que Ácis enamorado, Ouvir a nossa mágoa hoje procura.
Para lograr teu rosto precioso,
Bem que tanto te agrada, Principia, Palemo; que eu contigo
Tem menos o cuidado, À memória trarei, quanto deixamos
Menos sente a fadiga, e o rigoroso, No sossego feliz do estado antigo.
Implacável rumor, que eu n’alma alento.
Nele o merecimento. Que esperas, caro amigo? Sós estamos:
Minha dita assegura; Bem podemos falar: porque os extremos
Mas ah! que ele de mais tem a ventura. De nossa dor só nós testemunhamos.

Esta frondosa faia Palemo


A qualquer hora (ai triste!)
Me observa neste sítio vigilante: Não vi depois, que o monte discorremos,
Vizinho a esta praia Há tantos anos, sempre atrás do gado,
Em uma gruta assiste, Noite tão clara, como a que hoje temos:
Quem não pode viver de ti distante.
Pois de noite, e de dia Mas muito estranho ser de teu agrado,
Ao mar, ao vento, às feras desafia Que despertemos inda a cinza fria
A voz do meu lamento: Da lembrança do tempo já passado.
Ouvem-me as feras, ouve o mar, e o vento.
Página 25
Oh! não sei, o que pedes: bom seria, Corebo
Que desse qualquer bem não cobre alento
O estrondo, que talvez adormecia. Caminhas, ó Palemo, de teu dano
Como insensível: Vês, que não tem modo
Loucura é despertar no pensamento Da funesta lembrança o golpe insano.
O fogo extinto já de uma memória:
Não sabes, quanto é bárbaro o tormento. Palemo

Em nos lembrarmos da perdida glória Bem me advertes, Corebo: eu me acomodo


Nada mais conseguimos, que ao gemido Ao pensamento teu; e divertida
Dar novo impulso na passada história. Fique a memória minha já de todo.

Não se desperte o mísero ruído; Corebo


Que veremos, amigo, o desengano
De um bem caduco, de um prazer fingido. Ao cântico sonoro te convida
Esta flauta, que é fama em nós guardada,
Corebo Que foi de Alfeu um tempo possuída.

Debalde é a cautela; que o tirano, Palemo


Contínuo atormentar de uma lembrança
Não o pode abrandar o esforço humano. Eu a tomo, e com ela se te agrada,
Alterno o verso; e seja aquele, que antes
Vê, como o teu ardor em vão se cansa; Cantamos lá na nossa retirada.
E quanto mais te negas a meu rogo,
Despertas mais dos fados a mudança. Corebo

Buscar no esquecimento o desafogo Se me lembra, assim era: Vinde, errantes


É não saber, que neste infausto empenho Sombras, a sufocar-nos: porque a inveja
Se ateia da memória mais o fogo. É só fiscal dos míseros amantes.

Palemo Palemo

Diga-o minha alma: porque nela tenho Ficai, belas ovelhas: assim seja
Impressa sempre a imagem de uma dita, Convosco mais propício o duro fado;
Em que firmava o gosto o desempenho. Que pastor mais feliz vos guie, e reja.

Recompensa uma dor quase infinita Corebo


A grandeza do bem; a minha história
Deixando em vivo sangue n’alma escrita. Aqui te deixo, rústico cajado;
Que algum tempo, apesar do empenho cego,
Quero estragar mil vezes a memória, De ninguém, só de mim, foste logrado.
Meu amado Corebo, e a cada instante
Torna mais viva a imagem de uma glória. Palemo

Oh tirana pensão de um peito amante! Tu, Amarílis, adorado emprego,


Que só fora feliz, se a água bebera Toma conta de duas ovelhinhas,
(Quando perde o seu bem) do Lete errante; Que mais que todas amo: eu tas entrego.

Se na idéia pintada não trouxera Corebo


A contínua lembrança de um veneno,
Que Amor dissimulado oferecera. Verás, Belisa, entre essas prendas minhas,
Que eu teci junto às margens dessa fonte,
Ah! Que soluço, amigo, estalo, e peno; De vime desigual duas cestinhas.
Quando me lembra a hora, em que o tirano
Fado roubou-me estado tão sereno. Palemo

De ti, que ficas pois, saudoso monte,


Me despeço; e talvez sem esperança
De tornar a ver mais este horizonte.
Página 26
Corebo Corebo

Ficai-vos em pacífica bonança, Eu guiarei o gado se tu cantas:


Ó ninfas; que perdido o vosso agrado, Que prosseguindo tu, de meu tormento
Me ausento a lamentar tanta mudança. O excesso ao menos, e o rigor quebrantas.
Não me negues, se podes, esse alento.
Palemo

Adeus, pastores; vós, que em doce estado PESCADORES


Tantas vezes nos bailes, na floresta Já vinha a manhã clara
Me vistes sempre alegre, e sossegado; Dourando os horizontes,
E os empinados montes
Corebo Com a rosada luz, que os prateara,
Mostravam na campina
De vós me aparta agora a lei funesta; O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina.
E o tormento, a que esta alma está rendida,
Bem o meu sentimento manifesta. Nas ondas cintilava
O rosto luminoso,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Palemo Com que de Cíntia o esposo


À pobre terra clara luz mandava,
Hei de trazer na idéia sempre unida Formando um transparente,
A imagem de Amarílis, que venero, Na verde relva, resplendor luzente.
E que estimo inda mais, que a própria vida.
Ambos os pescadores,
Corebo Alicuto e Marino,
A quem o Deus Menino
Alegria jamais nenhuma espero; Ateou na água o fogo dos amores,
Antes nesta saudosa soledade, As redes recolhiam;
Por último remédio, a morte quero. E de bastante peixe o barco enchiam.

Palemo A praia procurando


Vinham tão mansamente,
Adeus, bela Amarílis; a vontade, Que nem o mar se sente
Por ser único bem, levo abrasada Ferido de um, e outro remo brando,
Na chama inextinguível da saudade. Quando do seu destino
Começou a queixar-se assim Marino.
Corebo
Alicuto o acompanha
Adeus, Belisa; adeus, ninfa adorada: Coa sonora harmonia,
Veja-se neste campo eternamente Que, há tempos, aprendia
A tua formosura celebrada. De um pastor, que viera da montanha;
E a seu modo vertendo
Palemo Para a ninfa do mar, ia dizendo.

Basta já de cantar: que do oriente Marino


Já rompe o Sol vermelho; e o manso gado
Os balidos esforça de impaciente. Se assim como a manhã clara, e brilhante
É da minha adorada o belo rosto,
As nuvens vão correndo; e a este lado Como naufraga o peito vacilante,
O resplendor se vê, com que a Aurora No incerto mar de um fúnebre desgosto!
Vai escondendo o rosto magoado. Eu vejo, que se alegram neste instante
Cheios de glória, de prazer, e gosto,
Das lágrimas saudosas com que chora Este mar, esta praia, esta ribeira:
Se derrama o orvalho; aves, e plantas Só não há cousa, que alegrar me queira.
Despertam, levantando a voz sonora.

Página 27
Alicuto Marino

Deiopéia adorada, a luz do dia, Qual foge o grande monstro, que o mar cria,
Como funesta nasce a um desgraçado! Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;
Quanto me foi suave a noite fria, Quando cuida, que escapa à morte fria,
Tanto o rosto da Aurora me é pesado: O alento pouco, e pouco vai deixando;
O silêncio da noite dirigia O destro pescador, que a presa fia
O sossego também de meu cuidado; Do agudo ferro, a linha então largando,
E apenas foge o horror da sombra escura, Quando de todo já exangue o sente,
Quando mais viva toco a desventura. O barco chega, e o colhe mais contente.

Marino Alicuto

Que importa, que em contínua sentinela Tal eu, doce inimiga, sem cautela
Eu ande os crespos mares descobrindo, Adorava a traição de um falso engano,
Se ingrata sempre a luz da minha estrela Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela.
Me vai desses teus olhos dividindo! Soube dissimular Amor tirano;
O vento, que suave entesa a vela, Acreditando aquela indústria, aquela
A meu ligeiro barco a estrada abrindo, Mal escondida imagem de meu dano,
Solícito me guia a esta praia; Imaginei, que o que era aleivosia,
Onde sem ver-te o coração desmaia. De um fino, e puro coração nascia.

Alicuto Marino

Três dias há, que giro, amada minha, Não de outra sorte a bárbara destreza
Desesperado nesta mortal ânsia Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,
De ver o prêmio, que guardado tinha Depois de assegurar minha firmeza,
A meu peito fiel tua inconstância. De mim se ausenta, e com rigor me mata:
Outra ventura, outra mercê convinha, Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza
De tanto amor, à fatigada instância De tua condição, que assim me trata,
E quando o não mereça na verdade, Nestas ondas em penha convertida,
Quem há, que não te estranhe a falsidade! Pague o delito de roubar-me a vida!

Marino Alicuto

Abrasadas as ondas deste pego De que serve, que eu traga do mar fundo,
Tenho já com meus ais, com meus suspiros; A preço de fadiga tão pesada,
Ele me escuta; eu cada vez mais cego Esta, que em tal excesso estima o mundo,
Acuso a sem-razão de teus retiros. Rama, que fora d’água é encarnada?
De meus males ao passo, que o navego, De que serve; que lá do mais profundo
O peso sente, e se revolve em giros; Venha oferecer-te a pérola engraçada,
E até as brutas penhas mais pesadas Se encontro sem-razões, iras, rigores?
Estão de meu tormento magoadas. Se os teus desprezos sempre são maiores?

Alicuto Marino

Qual o peixe inocente, que enganado Para trazer-te o peixe delicado,


Bebe no curvo anzol a morte feia, No rio escondo as nassas, ninfa minha;
Sem ver, que o pescador lhe tem armado E ao levantar seu peso desejado,
Escondida prisão, em que se enleia; Vejo saltar a truta e a tainha:
Ou qual o navegante, que enlevado Não me fica também no mar salgado
No canto está da pérfida sereia; O retorcido búzio, e a conchinha;
E prova sem cautela a morte dura Que supondo ser cousa, que te agrade,
Entre os penhascos, onde o mar murmura. Tudo te vem render minha vontade.

Página 28
Alicuto
FILENO A ALGANO
Em pensamentos mil eu me desfaço, Depois, Algano amado,
Ao ver traição tão bárbara, e tão crua; Que por mais verde, e plácido terreno,
Rompo o vestido, o corpo despedaço, Deixaste o sítio ameno,
Quando me lembra a falsidade tua: Onde alegre pascia o manso gado,
Loucuras mil, mil desatinos faço, Tomou minha saudade
Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua Triste posse no horror da soledade.
Corro esta praia, giro esta ribeira;
E ninguém há, que socorrer me queira. De todos os pastores
Foi mui sentida a tua ausência dura:
Marino Que o bem de uma ventura
Se se perde, inda os mesmos moradores
Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto Da choça, que os abriga,
Quase que vai passando a impaciência. Sabem sentir: oh quanto a dor obriga!

Alicuto Pouco importa a cultura,


E agudeza maior do pensamento:
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Que há de ser, se o meu mísero quebranto Que a força do tormento


Se apodera de mim com tal violência? Sobre a mesma rudeza o estrago apura;
E quem melhor discorre,
Marino É, quem buscando alívio, menos morre.

Mal haja o ter amor, que pode tanto. Talvez mais lisonjeia
Esta no meu pesar néscia jactância;
Alicuto Por ser minha ignorância
Alimento, em que a mágoa mais se ateia:
Mal haja o conhecer uma inclemência. Que a ser mais entendido,
Não fora o meu tormento tão crescido.
Marino
Não somente o efeito
Que intentar-lhe fugir é desatino. De tão ingrato mal em nós sentimos;
Mas, se bem advertimos,
Alicuto Tudo ao grande pesar ficou sujeito:
Que fez a ausência tua
Que assim o sinto eu, e tu, Marino. A saudade em nós razão comua.

Marino O rio, que algum dia


Líquida habitação das ninfas era,
Temos chegado ao porto: larga o remo; A cor, que a primavera
Salta na praia tu; que eu aqui fico; Nestes frondosos álamos vestia,
A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo, Tudo perde o seu brio:
E a quem as minhas lágrimas dedico. Não tem o álamo cor, ninfas o rio.

Alicuto Não se ouvem já sonoras,


(Quando argüindo o adúltero condena),
Não fiques não, Marino: porque temo Queixas da filomena;
Maior mágoa; que a dor, que sacrifico. E até do tempo as carregadas horas
Carreguemos o peixe; que na aldeia Correm mais dilatadas;
Talvez estejam Glauce; e Deiopéia. E parece, que a dor as faz pesadas.

Assim se acomodavam; É tudo horror; é tudo


E o peixe dividindo Uma pálida imagem da tristeza.
Entre ambos, vão subindo Habita esta aspereza
Um levantado oiteiro, a que chegavam, O fúnebre silêncio, o assombro mudo:
Deixando entanto posta Que tanto pode, tanto
No barco a vara, a rede ao Sol exposta. De tua ausência o mísero quebranto.

Página 29
Ah meu Algano caro, Eu espero, que a memória
Doce consolação do campo ameno! O conserve nestas águas,
O teu triste Fileno Por padrão dos desenganos,
Busca debalde alívio: que o reparo Por triunfo de uma ingrata.
Da saudade está posto
Na imagem só de teu alegre rosto: E na frondosa ribeira
Deste rio, triste a alma
Não só o seu alento, Girará sempre avisando,
Porém inda dos campos a alegria, Quem lhe soube ser tão falsa.
A clara luz do dia,
Das aves o canoro, e doce acento,
E quanto tem mudado ANTANDRA
Da tua ausência o desumano estado. Pastora do branco arminho,
Não me sejas tão ingrata:
Apressa, apressa o passo, Que quem veste de inocente,
Com que hoje alegras as regiões do Tejo; Não se emprega em matar almas.
Rompe já o embaraço,
Que se interpõe à vista do desejo: Deixa o gado, que conduzes;
E possa alegre ver-te, Não o guies à montanha:
Algano meu, quem sabe merecer-te. Porque em poder de uma fera,
Não pode haver segurança.

LISE Mas ah! Que o teu privilégio,


Pescadores do Mondego, É louco, quem não repara:
Que girais por essa praia, Pois suavizando o martírio,
Se vós enganais o peixe, Obrigas mais, do que matas.
Também Lise vos engana.
Eu fugirei; eu, pastora,
Vós ambos sois pescadores; Tomarei somente as armas;
Mas com diferença tanta, E hão de conspirar comigo
Vós ao peixe armais com redes, Todo o campo, toda a praia
Ela co’olhos vos arma.
Tenras ovelhas,
Vós rompeis o mar undoso: Fugi de Antandra;
Para assegurar a caça; Que é flor fingida,
Ela aqui no porto espera, Que áspides cria, que venenos guarda.
Para lograr a filada.

Vós dissimulais o enredo, ALTÉIA


Fingindo no anzol a traça; Aquele pastor amante,
Ela vos expõe patentes Que nas úmidas ribeiras
As redes, com que vos mata. Deste cristalino rio
Guiava as brancas ovelhas;
Vós perdeis a noite, e dia
Em contínua vigilância; Aquele, que muitas vezes
Ela em um só breve instante Afinando a doce avena,
Consegue a presa mais alta. Parou as ligeiras águas,
Moveu as bárbaras penhas;
Guardai-vos, pois, pescadores,
Dos olhos dessa tirana; Sobre uma rocha sentado
Que para troféus de Lise Caladamente se queixa:
Despojos de Alcemo bastam. Que para formar as vozes,
Teme, que o ar as perceba.
Enquanto as ondas ligeiras
Desta corrente tão clara Os olhos levanta, e busca
Inundarem mansamente Desde o tosco assento aquela
Estes álamos, que banham; Distância, aonde, discorro,
Que tem a origem da pena:

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E depois que esmorecidos
Da dor os olhos, na imensa ANARDA
Explicação do tormento, Aonde levas, pastora,
Sufocada a luz, se cegam; Essas tenras ovelhinhas?
Que para seu mal lhes basta
Só às lágrimas recorre, O seres tu, quem as guia.
Deixando-se ouvir apenas
Daquelas árvores mudas, Acaso vão para o vale,
Daquela mimosa relva. Ou para a serra vizinha?
Vão acaso para o monte,
Com torpe aborrecimento Que lá mais distante fica?
A companhia despreza
Dos pastores, e das ninfas; Vão porventura, pastora,
Nada quer; tudo o molesta. A beber as cristalinas,
Doces águas, que discorrem
Erguido sobre o penhasco Por entre estas verdes silvas?
Já vê, se é grande a eminência:
Por que busque o fim da vida, Ah! Quem sabe, triste gado,
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Na violência de uma queda. Onde a maior homicida


Dos corações, e das almas,
Já louco se precipita; Convosco agora caminha!
E já se suspende: a mesma
Apetência do tormento Presumir, que cuidadosa
Maior tormento lhe ordena. Vos conduz à serra altiva,
Imaginar, que à ribeira
Pastores, vede a Daliso; Vos vai levando propícia;
Vede o estado qual seja
De um pastor, que em outro tempo Não o posso, não o posso;
Glória destes montes era: Quando a conjetura avisa,
Que mal as ovelhas guarda;
Vede, como sem cuidado Quem as almas traz perdidas.
Pastar pelos montes deixa
As ovelhas of’recidas Porém se a vossa ventura
Às iras de qualquer fera. De mais nobre se acredita,
Se podeis vencer de Anarda ...
Vede, como desta rama, A condição sempre esquiva;
Que fúnebre está, suspensa
Deixou a lira, que há pouco, Ela vos conduza: os passos
Pulsava pela floresta. Segui da minha inimiga;
Enquanto para cantá-la
Vede, como já não gosta Meu instrumento se afina.
Da barra, dança, e carreira;
E ao pastoril exercício Mais que Títiro suave,
De todo já se rebela. Aqui sentado à sombria
Copa desta verde faia,
Segundo o vulto, que neste Chorarei as penas minhas.
Rústico penedo ostenta,
Cuido, que o fizeram louco Farei, com que soe o bosque
Desprezos da bela Altéia. A seu nome: esta campina,
Vereis, como só de Anarda
A doce glória respira;

Essas árvores, e troncos


Concorrendo à harmonia
Do meu canto, Orfeu nos vales,
Cuidarão, que ressuscita.

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Eu repetirei contente
A cantilena, que tinha CANÇONETAS À LIRA DESPREZO
Com Alcimedon composto, I
Quando no monte vivia.
Que busco, infausta lira,
Direi aquelas cadências, Que busco no teu canto,
Que à casca de uma cortiça Se ao mal, que cresce tanto,
Encomendou meu cuidado, Alívio me não dás?
De meu sangue com a tinta.
A alma, que suspira,
Pastora (se bem me lembra Já foge de escutar-te:
Assim meu verso dizia), Que tu também és parte
Mais branca, que a mesma neve, De meu saudoso mal.
Mais bela, do que a bonina;
II
Eu sou, quem estas ribeiras,
Sou, quem estes campos pisa, Tu foste (eu não o nego)
Atrás de uma alma, que roubas, Tu foste em outra idade
Tão presa, como rendida. Aquela suavidade,
Que Amor soube adorar;
Não te peço, que ma entregues:
Porque quem ta sacrifica, De meu perdido emprego
De meu voluntário culto Tu foste o engano amado:
Faz ostentação mais fina: Deixou-me o meu cuidado;
Também te hei de deixar.
Quero só, que ma não deixes,
Que a não desampares; inda III
Quando de Letes saudoso
Vires a margem sombria. Ah! De minha ânsia ardente
Perdeste o caro império:
Mais seguro, e mais constante, Que já noutro hemisfério
Que aquela mimosa ninfa, Me vejo respirar.
Que no côncavo das penhas,
Por lei do destino, habita. O peito já não sente
Aquele ardor antigo:
Eco serei destas rochas, Porque outro norte sigo,
Aonde os clamores firam Que fino amor me dá.
Dos corações, que se queixam,
Das almas, que se lastimam. IV

Assim, cândidas ovelhas, Amei-te (eu o confesso)


Assim clamarei: sozinhas E fosse noite, ou dia,
Correi embora contentes Jamais tua harmonia
O vale, o monte, a campina. Me viste abandonar.

Qualquer penoso excesso,


Que atormentasse esta alma,
A teu obséquio em calma
Eu pude serenar.

Ah! Quantas vezes, quantas


Do sono despertando,
Doce instrumento brando,
Te pude temperar!

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Só tu (disse) me encantas;
Tu só, belo instrumento, À LIRA PALINÓDIA
Tu és o meu alento; I
Tu o meu bem serás.
Vem, adorada Lira,
VI Inspira-me o teu canto:
Só tu a impulso tanto
Vai-te; que já não quero, Todo o prazer me dás.
Que devas a meu peito
Aquele doce efeito, Já a alma não suspira;
Que me deveste já. Pois chega a escutar-te:
De todo, ou já em parte
Contigo já mais fero Vai-se ausentando o mal.
Só trato de quebrar-te:
Também hás de ter parte II
No estrago de meu mal.
Não cuides, que te nego
VII Tributos de outra idade:
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

A tua suavidade
Não saberás desta alma Eu sei inda adorar;
Segredos, que sabias,
Naqueles doces dias, Desse perdido emprego
Que Amor soube alentar. Eu busco o encanto amado;
Amando o meu cuidado,
Se aquela ingrata calma Jamais te hei de deixar.
Foi só tormenta escura,
Na minha desventura III
Também naufragarás.
Vê, de meu fogo ardente,
VIII Qual é o ativo império:
Que em todo este hemisfério
Nise, que a cada instante Se atende respirar.
Teu números ouvia,
Ou fosse noite, ou dia, O coração, que sente
Jamais não te ouvirá. Aquele incêndio antigo,
No mesmo mal, que sigo,
Cansado o peito amante Todo o favor me dá.
Somente ao desengano
O culto soberano IV
Pretende tributar.
Se tanto bem confesso,
IX Ou seja noite, ou dia,
Jamais essa harmonia
De todo enfim deixada Espero abandonar.
No horror deste arvoredo,
Em ti seu tosco enredo Não há de a tanto excesso,
Aracne tecerá. Não há de, não, minha alma
Desta amorosa calma
Em paz se fique a amada, Meus olhos serenar.
Por quem teu canto inspiras;
E tu, que a paz me tiras, V
Também te fica em paz.
Ah! Quantas ânsias, quantas
Agora despertando,
A teu impulso brando
Eu venho a temperar!

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No gosto, em que me encantas,
Suavíssimo instrumento, O PASTOR DIVINO
Em ti só busco o alento; Fé
Que eterno me serás.
Onde, Enigma adorado,
VI Onde guias perplexo,
Confuso, e pensativo
Contigo partir quero Da minha idéia o vacilante curso?
As mágoas de meu peito;
Quanto diverso efeito, Esperança
Do que provaste já!
Que sombras, que portentos
Não cuides, que sou fero; Encobres a meus olhos,
Porque já quis quebrar-te: Ó ignorado arcano,
No meu delírio em parte Que lá dessa distância
Desculpa tem meu mal. Inspiras de teu raio esforço ativo?

VII Fé

Se tu só de minha alma Eu vejo, que rompendo


O caro amor sabias, Da noite o manto escuro
Contigo só meus dias Vem cintilando a chama,
Eterno hei de alentar. Que sobre o mundo todo a luz derrama.

Bem que ameace a calma Esperança


Fatal tormenta escura,
Da minha desventura Eu vejo, que do Oriente
Jamais naufragarás. A luminosa estrela,
Que os passos encaminha,
VIII Quase a buscar a terra se avizinha.

Clamar a cada instante Coro


O nome, que me ouvia,
Ou seja noite, ou dia, Chegai, pastores,
O bosque me ouvirá. Vinde contentes;
Que o novo sol
Bem, que a meu culto amante Já resplandece.
Resista o desengano, Oh que glória, que dita, que gosto
O voto soberano Nestes campos se vê respirar!
Te espero tributar.

IX
É esta a flor mimosa,
Não temas, que deixada Que da Vara bendita,
Te ocupe este arvoredo, Venturosa, jucunda,
Onde meu triste enredo Da raiz de Jessé brota fecunda!
O fado tecerá;
Esperança
Conhece, ó Lira amada,
O afeto, que me inspiras; É este o pastor belo,
Na mesma paz, que tiras Que o rebanho espalhado
Me dás a melhor paz. Vem acaso buscar! É este aquele,
Que por montes, e vales
Conduz a tenra ovelha,
E mais que a própria vida,
Ama o rebanho seu! É este aquele,
Que as ovelhas conhece e a seu preceito
Obedecendo belas,
Também o seu Pastor conhecem elas!
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Fé Fé

Eu o tinha alcançado, Nascido infante


De enigmáticas sombras na figura, Ao mundo aflito
Unigênito Filho Nosso delito
Do Eterno Criador. O Filho amado Paga em amor.
De Abrão o testifica;
Esperança
Esperança
Oh recompensa
Jacó o compreende, Abel o explica. Do bem perdido!
Oh do gemido
Ambas Prêmio maior!

Brandas ninfas, que no centro Ambas


Habitais dessa corrente,
Vinde ao novo sol nascente Vem, Pastor belo;
Vosso obséquio tributar. Vem a meus braços;
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Vem; que teus passos


Fé Seguindo vou.

Já do monte descendo Fé
Vem o pobre pastor: de brancas flores,
Ou já grinaldas, ou coroas tece, Mas ah! Que de prazer, e de alegria
E ao novo Deus contente as oferece. Respirar posso apenas. Todo o campo
Florescente se vê. Estão cobertos
Esperança Os claros horizontes
De nova luz, de novo sol os montes.
Já de lírios, e rosas,
Pela glória, que alcança, Esperança
Animada a Esperança se coroa;
E alegres hinos de prazer entoa. Melhor luz não espere
Ver o mundo jamais. Concorram todos
Coro A este luminoso
Assento; aonde habita
Chegai, pastores, Aquele sol, que a vida ressuscita.
Vinde contentes;
Que o novo sol Fé
Já resplandece.
Oh que glória, que dita, que gosto Vem, sol peregrino,
Nestes campos se vê respirar! De nós suspirado;

Fé Esperança

Aquele tenro, Vem, Filho adorado


Cordeiro amado, De Deus imortal.
Sacrificado
Por nosso amor, Coro

Esperança Chegai, pastores,


Vinde contentes;
Sobre seus ombros Que o novo sol
Conduz aceso Já resplandece.
O duro peso Oh que glória, que dita, que gosto
Do pecador. Nestes campos se vê respirar!

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Galatéia
GALATÉIA
Ácis Oh! Firam teus ouvidos
Meus saudosos clamores;
Galatéia adorada, Mereçam meus gemidos
Mais cândida e mais bela, Mover a sem-razão dos teus rigores;
Que a neve congelada, Já que tão docemente
Que a clara luz da matutina estrela; Sempre ao meu coração estás presente.
Mais, do que o Sol, formosa;
Não digo lírio já, não digo rosa. Vem, ó Pastor querido,
Vem, vem;
Galatéia Que em ti Amor guarda
Todo o meu bem.
Ácis idolatrado,
Pastor mais peregrino,
Que quanto ostenta o prado, ODE A MÍLTON
Quanto banha d’Aurora o humor divino; I
Pois junto às tuas cores
Não tem o prado cor, não têm as flores. Contigo me entretenho,
Contigo passo a noite, e passo o dia,
Ácis E cheia a fantasia
Das imagens, ó Mílton, do teu canto,
Ácis é, quem saudoso Contigo desço às Regiões do espanto,
Corre desta ribeira Contigo me remonto a imensa altura,
Todo o campo espaçoso, Que banha de seu rosto a formosura.
Buscando, ó bela Ninfa, a lisonjeira,
Doce vista, que tanto II
De Amor ateia o suspirado encanto.
Tamisa, que nos deste
Galatéia Dentro do seio teu alto engenho,
Que o sagrado desenho
Desde o azul império, Do divino Poema lhe inspiraste,
Que rege o áureo Tridente, Como o cofre dos males derramaste
Por todo este hemisfério, Sobre a sua fortuna? Como ao Fado
Galatéia te busca impaciente; O trazes desde o berço abandonado?
E amante nos seus braços
Te prepara de amor gostosos laços. III

Ácis Não basta além da Pátria


Peregrino vagar estranhas terras,
Vem ouvir-me um instante; No horror das civis guerras
Que em mim tudo é ternura. Ensangüentar o braço às Musas dado,
Do bárbaro Gigante Da torpe, e vil pobreza inda vexado
Não temas, não a pálida figura: Queres que gema, e conte em baixo preço
Que o tem seu triste fado, De seus estudos o cansado excesso?
Tanto como infeliz, desenganado.
IV
Vem, ó Ninfa ditosa,
Vem, vem; Sim, esta é a ventura,
Que em ti Amor guarda Estas as murtas, e as grinaldas de oiro
Todo o meu bem. Que ao século vindoiro
Hão de levar os que de Aônia bebem:
Fortuna, os teus tesoiros só recebem
Bastardas Gentes, que da tenra infância
Afagou nos seus braços a ignorância.

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V XI

Tu o sabes, ó Tejo, Estranhas maravilhas


O teu grande Camões o geme, e chora; De algum gênio mortal jamais tentadas!
Nem mais risonha aurora Idéias animadas
No Apenino esclarece ao nobre Tasso: Na mais nova, mais rara fantasia!
De porta em porta vagarosa, e lasso, Se Mílton pela mão nos leva, e guia,
Mendigando o cantor da Grega gente, Cesse do bem perdido a fatal ânsia,
O peso infausto da miséria sente. Esta é de Eden a milagrosa estância.

VI XII

Nega-lhes muito embora Musas, vós que educastes


Deusa inconstante as vãs riquezas; tudo Alma tão grande, e que a gostar lhe destes
Entre o silêncio mudo As doçuras celestes
Dos tempos jazerá; a ilustre glória, Do néctar, e da ambrósia, um novo loiro
Que os nomes encomenda a larga história Vinde tecer-lhe; e junto ao Busto de oiro
Livre de naufragar nesta mudança Mandai gravar este Epitáfio breve:
Cláudio Manoel da Costa — POEMAS ESCOLHIDOS

Os guarda. e zela na imortal lembrança. Mílton morreu: seja-lhe a terra leve.

VII

Por ela te contemplo


Calcar, ó Mílton, da desgraça o colo;
Desde o gelado Pólo
Teu nome vencedor a nós se estende,
Em nobre fogo o coração acende,
Quando nos abres a feliz estrada
Da Epopéia jamais de alguns trilhada.

VIII

A nunca ouvida língua


Das eternas celestes criaturas,
As suaves ternuras
As castas expressões dos Pais primeiros,
De incorpóreas substâncias os Guerreiros
Combates no Aquilon! tudo imagino;
Tudo é grande, ó bom Deus, tudo é divino.

IX

Voa do Estígio Lago,


Ó Espírito rebelde: um frio gelo
Me deixa apenas vê-lo!
Tenta a Equinocial, vaga os abismos,
Que horror! Entre funestos paroxismos
Talvez chego a temer, que o Monstro possa
Cantar os loiros da tragédia nossa.

Ah não: oiça-se o brado


Da Épica Trombeta: o rapto admiro,
E já no dúbio giro
Longe de me aterrar o Dragão fero,
Arrancadas montanhas ver espero
Do Trono de Sião, vingada a injúria,
Confunde-te, oh soberbo, e rende a fúria.
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Centres d'intérêt liés