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CARAMURU: POEMA ÉPICO

Santa Rita Durão


CANTO I
I
V
De um varão em mil casos agitado,
Que as praias discorrendo do Ocidente, Devora-se a infeliz mísera Gente,
Descobriu o Recôncavo afamado E sempre reduzida a menos terra,
Da capital brasílica potente: Virá toda a extinguir-se infelizmente;
Do Filho do Trovão denominado, Sendo em campo menor maior a guerra.
Que o peito domar soube à fera gente; Olhai, Senhor, com reflexão clemente
O valor cantarei na adversa sorte, Para tantos Mortais, que a brenha encerra;
Pois só conheço herói quem nela é forte. E que, livrando desse abismo fundo,
Vireis a ser Monarca de outro Mundo.
II
VI
Santo Esplendor, que do grão-Padre manas
Ao seio intacto de uma Virgem bela; Príncipe do Brasil, futuro dono,
Se da enchente de luzes Soberanas À Mãe da Pátria, que administra o mando,
Tudo dispensas pela Mãe Donzela; Ponde, excelso Senhor, aos pés do Trono
Rompendo as sombras de ilusões humanas, As desgraças do Povo miserando:
Tu do grão caso! a pura luz revela Para tanta esperança é o justo abono,
Faze que em ti comece, e em ti conclua Vosso título, e nome, que invocando,
Esta grande Obra, que por fim foi tua. Chamará, como a outro o Egípcio Povo,
D. José Salvador de um Mundo novo.
III
VII
E vós, Príncipe excelso, do Céu dado
Para base imortal do Luso Trono; Nem podereis temer, que ao santo intento
Vós, que do Áureo Brasil no Principado Não se nutram Heróis no Luso Povo,
Da Real sucessão sois alto abono: Que o antigo Portugal vos apresento
Enquanto o Império tendes descansado No Brasil renascido, como em novo.
Sobre o seio da paz com doce sono, Vereis do domador do Índico assento
Não queirais de dignar-vos no meu metro Nas guerras do Brasil alto renovo,
De pôr os olhos, e admiti-lo ao cetro. E que os seguem nas bélicas idéias
Os Vieiras, Barretos, e os Correas.
IV
VIII
Nele vereis Nações desconhecidas,
Que em meio dos Sertões a Fé não doma; Dai, portanto, Senhor, potente impulso,
E que puderam ser-vos convertidas Com que possa entoar sonoro o metro
Maior Império, que houve em Grécia, ou Roma: Da brasílica gente o invicto pulso,
Gentes vereis, e Terras escondidas, Que aumenta tanto Império ao vosso cetro:
Onde se um raio da verdade assoma, E enquanto o Povo do Brasil convulso
Amansando-as, tereis na turba imensa Em nova lira canto, em novo pletro;
Outro Reino maior que a Europa extensa. Fazei que fidelíssimo se veja
O vosso Trono em propagar-se a Igreja.

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IX XIV
Da nova Lusitânia o vasto espaço Já estava em terra o infausto naufragante,
Ia a povoar Diogo, a quem bisonho Rodeado da turba Americana;
Chama o Brasil, temendo o forte braço, Vêm-se com pasmo; ao porem-se diante,
Horrível Filho do Trovão medonho: E uns aos outros não crêem da espécie humana:
Quando do abismo por cortar-lhe o passo Os cabelos, a cor, barba e semblante
Essa Fúria saiu, como suponho, Faziam crer àquela Gente insana,
A quem do Inferno o Paganismo aluno, Que alguma espécie de animal seria
Dando o Império das águas, fez Netuno. Desses, que no seu seio o mar trazia.
X XV
O grão-Tridente, com que o mar comove, Algum chegando aos míseros, que a areia
Cravou dos Órgãos na montanha horrenda, O mar arroja extintos, nota o vulto;
E na escura caverna, adonde Jove Ora o tenta despir, e ora receia
(Outro espírito) espalha a luz tremenda, Não seja astúcia, com que o assalte oculto.
Relâmpagos mil faz, coriscos chove; Outros do Jacaré tomando a idéia
Bate-se o vento em hórrida contenda: Temem que acorde com violento insulto;
Arde o céu, zune o ar, treme a montanha, Ou que o sono fingindo os arrebate,
E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha. E entre as presas cruéis no fundo os mate.
XI XVI
O Filho do Trovão, que em baixel ia Mas vendo a Sancho, um náufrago que expira,
Por passadas tormentas ruinoso, Rota a cabeça numa penha aguda,
Vê que do grosso mar na travessia Que ia trêmulo a erguer-se, e que caíra,
Se sorve o lenho pelo pego undoso; Que com voz lastimosa implora ajuda:
Bem que constante, a morte não temia, E vendo os olhos, que ele em branco vira;
Invoca no perigo o Céu piedoso; Cadavérica a face, a boca muda,
Ao ver que a fúria horrível da procela Pela experiência da comum sorte
Rompe a nau, quebra o leme, e arranca a vela. Reconhecem também que aquilo é morte.
XII XVII
Lança-se ao fogo o ignívomo instrumento, Correm depois de crê-lo ao pasto horrendo;
Todo o peso se alija; o passageiro, E retalhando o corpo em mil pedaços,
Para nadar no túmido Elemento, Vai cada um famélico trazendo,
A tábua abraça, que encontrou primeiro: Qual um pé, qual a mão, qual outro os braços:
Quem se arroja no mar temendo o vento; Outros da crua carne iam comendo;
Qual se fia a um batel; quem a um madeiro, Tanto na infame gula eram devassos:
Até que sobre a penha, que a embaraça, Tais há, que as assam nos ardentes fossos,
A quilha bate, e a nau se despedaça. Alguns torrando estão na chama os ossos.
XIII XVIII
Sete somente do batel perdido Que horror da Humanidade! ver tragada
Vêm à praia cruel, lutando a nado; Da própria espécie a carne já corrupta!
Oferece-lhes um socorro fementido Quanto não deve a Europa abençoada
Bárbara multidão, que acode ao brado: A Fé do Redentor, que humilde escuta?
E ao ver na praia o Benfeitor fingido, Não era aquela infâmia praticada
Rende-lhe as mãos o náufrago enganado: Só dessa gente miseranda, e bruta;
Tristes! que a ver algum, qual fim o espera Roma, e Cartago o sabe no noturno
Com quanta sede a morte não bebera! Horrível sacrifício de Saturno.

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XIX XXIV
Os sete em tanto, que do mar com vida Desta arte armada a multidão confusa
Chegaram a tocar na infame areia, Investe o naufragante enfraquecido,
Pasmam de ver na turba recrescida Que ao ver-se despojar, nada recusa;
A brutal catadura, hórrida, e feia: Porque se enxugue o mádido vestido:
A cor vermelha em si, mostram tingida Tanto mais pelo mimo, que se lhe usa,
De outra cor diferente, que os afeia; Quando a bárbara gente o vê rendido:
Pedras, e paus de embiras enfiados, Trouxeram-lhe a batata, o coco, o inhame;
Que na face, e nariz trazem furados. Mas o que crêem piedade é gula infame.
XX XXV
Na boca em carne humana ensangüentada Cevavam desta forma os desditosos
Anda o beiço inferior todo caído; Das fadigas marítimas desfeitos;
Porque a tem toda em roda esburacada, Por pingues ter os pastos horrorosos,
E o labro de vis pedras embutido: Sendo nas carnes míseras refeitos:
Os dentes (que é beleza que lhe agrada) Feras! mas feras não, que mais monstruosos
Um sobre outro desponta recrescido: São da nossa alma os bárbaros efeitos;
Nem se lhe vê nascer na barba o pêlo, E em corrupta razão mais furor cabe,
Chata a cara, e nariz, rijo o cabelo. Que tanto um bruto imaginar não sabe.
XXI XXVI
Vê-se no sexo recatado o pejo, Não mui longe do mar na penha dura
Sem mais que a antiga gala que Eva usava, A boca está de um antro mal-aberta,
Quando por pena de um voraz desejo Que horrível dentro pela sombra escura,
Da feia a desnudez se envergonhava: Toda é fora de ramas encoberta:
Vão sem pudor com bárbaro despejo Ali com guarda à vista se clausura
Os homens, como Adão sem culpa andava; A infeliz companhia, estando alerta,
Mas vê-se, alma Natura, o que lhe ordenas; E por cevá-los mais, dão-lhe o recreio
Porque no sacrifício usam de penas. De ir pela praia em plácido passeio.
XXII XXVII
Qual das belas Araras traz vistosas Diogo então, que à gente miseranda,
Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas: Por ser de nobre sangue precedia,
Outros põem, como túnicas lustrosas, Vendo que nada entende a turba infanda,
Um verniz de balsâmicas escumas: Nem do férreo mosquete usar sabia;
Nem temem nele as chuvas procelosas, Da rota nau, que se descobre à banda,
Nem o frio rigor de ásperas brumas; Pólvora, e bala em cópia recolhia;
Nem se receiam do mordaz besouro, E como enfermo, que no passo tarda,
Qual Anta, ou qual Tatu dentro em seu couro. Serviu-se por bastão de uma espingarda.
XXIII XXVIII
Por armas, frechas, arcos, pedras, bestas; Forte sim, mas de têmpera delicada,
A espada do pau-ferro, e por escudo Aguda febre traz desde a tormenta;
As redes de algodão nada molestas, Pálido o rosto, e a cor toda mudada;
Onde a ponta se embace ao dardo agudo: A carne sobre os ossos macilenta:
Por capacete nas guerreiras testas Mas foi-lhe aquela doença afortunada,
Cintos de penas com galhardo estudo; Porque a gente cruel guardá-lo intenta,
Mas o vulgo no bélico ameaço Até que sendo a si restituído,
Não tem mais que unha ou dente, ou punho ou braço. Como os mais vão comer, seja comido.

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XXIX XXXIV
Barbárie foi (se crê) da antiga idade Mancebo era Fernando mui polido,
A própria prole devorar nascida; Douto em Letras, e em prendas celebrado,
Desde que essa cruel voracidade Que nas Ilhas do Atlântico nascido,
Fora ao velho Saturno atribuída: Tinha muito co’as Musas conversado:
Fingimento por fim, mas é em verdade Tinha ele os rumos do Brasil seguido,
Invenção do diabólico homicida, Por ver o monumento celebrado
Que uns cá se matam, e outros lá se comem: De uma Estátua famosa, que num pico
Tanto aborrece aquela fúria ao homem. Aponta do Brasil ao País rico.
XXX XXXV
Mas já três vezes tinha a Lua enchido Pedira-lhe Luís, que isto escutara,
Do vasto globo o luminoso aspecto, Da profética Estátua o conto inteiro,
Quando o Chefe dos bárbaros temido Se foi verdade, se invenção foi clara
Fulmina contra os seis o atroz decreto: De Gente rude, ou povo noveleiro:
Ordena que no altar seja oferecido Fernando então, que em metro já cantara
O brutal sacrifício em sangue infecto, O sucesso, que atesta verdadeiro,
Sendo a cabeça às vítimas quebrada, Toma nas mãos a cítara suave,
E a gula infanda de os comer saciada. E entoando, começa em canto grave.
XXXI XXXVI
Em tanto que se ordena a brutal festa, Oculto o tempo foi, incerta a era,
Nada sabiam na marinha gruta Em que o grão-caso contam sucedido;
Os habitantes da prisão funesta; Mas em parte é sem dúvida sincera
Que ardilosa lho esconde a gente bruta: A bela História, que a escutar convido;
E enquanto a feral pompa já se apresta, Félis foi o ditoso, e feliz era,
Toda a pena em favor se lhe comuta; Quem tanto foi do Céu favorecido,
Nem parecem ter dado a menor ordem, Pois em meio ao corrupto Gentilismo
Senão que comam, e, comendo engordem. Merecer soube a Deus o seu Batismo.
XXXII XXXVII
Mimosas carnes mandam, doces frutas Incerto pelas brenhas caminhava
O araçá, o caju, coco, e mangaba; Um Varão santo, que perdera a via,
Do bom maracujá lhe enchem as grutas Quando pelos cabelos o elevava
Sobre rimas, e rimas de guaiaba: O Anjo, adonde o Sol já se escondia;
Vasilhas põem de vinho nunca enxutas, E um Salvagem lhe mostra, que se achava,
E a imunda catimpuera, que da baba Quase lutando em última agonia:
Fazer costuma a bárbara patrulha, Ouve (lhe diz) o justo agonizante,
Que só de ouvi-lo o estômago se embrulha. E uma estrada de luz tomou brilhante.
XXXIII XXXVIII
Um dia pois que à sombra desejada Áureo (que assim se chama o Sacro Enviado)
Se repousam, passando a calma ardente, Encostando-se ao Velho titubante,
Por dar alívio à dor reconcentrada, Por ignorar-lhe o idioma não falado,
De ver-se escravos de tão fera Gente; No seu diz, de que o enfermo era ignorante:
Fernando, um deles, diz, que aos mais agrada E ouve-se responder (caso admirado!)
Por cantigas, que entoa docemente, Numa língua de todo extravagante,
Que em cítara, que o mar na terra lança, Que sendo em tudo extraordinária, e bruta,
Se divirtam da fúnebre lembrança. Faz-se entender, e entende-o no que escuta.

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XXXIX XLIV
Do grande Criador por mensageiro Aos primeiros acentos, que escutara,
A bênção (diz) te ofereço, homem ditoso; Guaçu (que este é seu nome) a frente empena;
Neste Mundo ignorado em o primeiro, Atenta ao que ouve a orelha, e fixa a cara,
Quer que o seu Nome escutes glorioso: Senão que co’a cabeça a tudo acena:
Do Eterno Pai, de um Filho verdadeiro, Dos olhos mal se serve, que cegara,
Do Espírito também, laço amoroso, Bem que a vista pareça ter serena;
Quer que o Mistério saibas da Verdade: As mãos de quando em quando estende, e toca,
São três Pessoas numa só Unidade. E pende atento da Sagrada boca.
XL XLV
Um só Senhor, que todo o ser governa, Bom Ministro (responde) do Piedoso
Que só com dizer seja o fez de nada; Excelso grão-Tupá, que o Céu modera,
Que à Natureza desde a idade eterna, Não me vens novo, não: que tive o gozo
Certa época fixou de ser ercada: De ouvir-te em sonho já; quem ver pudera!
Que abrindo liberal a mão paterna, Se a imagem tens, que o sono fabuloso
Toda a coisa abençoa, que é animada: Há muito, que de ti na mente gera!
Que sua imagem nos fez; e sem segundo, Serás, disse, (e na barba o vai tocando)
Quer que o homem reine sobre o vasto Mundo. Homem com barbas, branco, e venerando.
XLI XLVI
Que havendo em mil delícias colocado Louvores a Tupá, que enfim chegaste;
Nossos primeiros Pais num Paraíso, Que o caminho me ensinas, donde elejo
Por homenagem desse Império dado, Buscar logo o grão-Deus, que m’anunciaste,
Privou de um pomo com severo aviso: Que desde a infância com ardor desejo:
Que vendo o seu respeito profanado, Nunca soube, assim é, quanto contaste;
E igual satisfação sendo preciso, Mas não sei, como o que ouço, e quase vejo
No duro lenho a pôs, no férreo cravo, Sentia, como em sombra malformada;
E deu o Filho por salvar o escravo. Não que o cresse ainda assim, mas por toada.
XLII XLVII
Este do feio pois de Virgem pura, Vendo desse Universo a mole imensa,
Invocada no nome de Maria, Sem ser de ainda maior entendimento
Redentor, Mestre, e Luz da Criatura, Fabricada a não cri: que ele o dispensa,
Nasceu, pregou, morreu na Cruz ímpia: Tem, rege, e guarda, insere o pensamento:
Rompeu do abismo a imóvel fechadura; Que repugna à criatura estar suspensa,
Depois ressurge no terceiro dia; Sem último fim ter notava atento:
E ao Céu subindo enfim, donde comanda, E este Ente, que me fez um Deus segundo,
Aos fins da Terra os mensageiros manda. É o grão-Tupá, fabricador do Mundo.
XLIII XLVIII
Um destes venho a ti: lavar-te intento, Vi as chagas da própria Natureza,
Se queres aceitar meu Catecismo; A ignorância, a malícia, a variedade,
E servindo de porta o Sacramento, E bem reconheci, que esta torpeza
Incorporar-te ao santo Cristianismo. Nascer não pode da eternal bondade.
Purga o teu coração, teu pensamento, Onde, sem o saber, cri, que era acesa
Por chegar puro às águas do Batismo, Neste incêndio comum da humanidade
Onde se entras com dor do mal primeiro, Antiga chama, donde o mal nos veio;
De Jesus Cristo morrerás co-herdeiro. Crer que tais nos fez Deus... eu tal não creio.

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XLIX LIV
Também vi que o grão-Deus, que o Mundo cria, Então o bom Ministro: É justo, amigo,
Deixar nunca quisera em tanto estrago Que chores (lhe dizia) o teu pecado;
A humana Natureza; e que a mão pia Por não amar a Deus; ser-lhe inimigo,
De tais misérias ao profundo lago Se o blasfemaste; de o não ter honrado;
Havia de estender; como o faria? De não servir teus Pais; de um ódio antigo;
Suspenso fiquei sempre incerto, e vago; E se não foste honesto, ou tens roubado;
Mas nunca duvidei que alguém se visse, Se em mulher, bens, ou fama em caso feio
Que de tantas misérias nos remisse. Fizeste dano, ou cobiçaste o alheio.
L LV
E como era a maior, que experimentava, Esta a Lei santa é, que em nós impressa
O ver que livremente o mal seguia; Ninguém ofende, que mereça escusa;
Que a Suprema Bondade se agravava, Onde no que faltaste a Deus confessa,
Donde um homem de bem se agravaria: Que tanto deve quem pecando abusa:
Vendo que a afronta, que esta ação causava, Quer-se a satisfação com a promessa
Só se houvera outro Deus, se pagaria; De melhor vida, no que a Lei te acusa:
E impossível mais de um reconhecendo... Pois quem quer que pecou, que assim não faça,
Daqui não passo, e cego me suspendo. Recebe o Sacramento, mas não graça.
LI LVI
Agora sim, que entendo a grã-verdade, Eu, disse o Americano, antes de tudo
Que um só Deus se fez homem sem defeito; Amei do coração quem ser me dera:
E sendo três Pessoas na Unidade, Seu nome ignoro, mas honrá-lo estudo;
Do Filho ao Pai podia haver respeito: E com fé o adorei sempre sincera:
A Pessoa segunda da Trindade, Em certos dias recolhido, e mudo
Novo homem, como nós, de terra feito, Cuidava em venerar quem tudo impera,
A paz do homem com Deus fundar procura; Matar não quis, nem morto algum comia,
Redentor pio da mortal criatura. Pois que a mim mo fizessem não queria.
LII LVII
Este creio, este adoro, este confesso; Mulher tive, mas uma, persuadido
E esta santa mensagem venerando, Que com uma se pode; ação impura
Por meu Deus, e Senhor firme o conheço, Meteu-me sempre horror; tendo entendido,
A quem da Terra, e Céu pertence o mando: Que só no Matrimônio era segura:
Deste o Batismo santo hoje te peço, Qualquer outro prazer fora proibido,
Onde na porta Celestial entrando, Porque se em tanto abuso se conjura;
Suba o espírito à glória que deseja, Quem seguindo esse instinto do Demônio,
E com estes meus olhos ainda o veja. Se pudera lembrar do Matrimônio?
LIII LVIII
Disse o ditoso Velho; e acompanhando Nunca roubei, temendo ser roubado:
Com devoto suspiro a voz que exprime, Por conservar a fama, honrei a alheia:
Bem mostra que no peito o está tocando Não me lembra de ter caluniado,
A oculta unção do Espírito sublime: Nem de outrem disse mal, que é coisa feia;
As mãos ao Céu levanta lagrimando; E quem houvesse de outros murmurado,
E tanto ardor na face se lhe imprime, Que outro tanto lhe façam certo creia;
Que acompanhar parece o humilde rogo Não tive inveja do que alguém consiga,
Um dilúvio de água, e outro de fogo. Por ver que quem a tem, seu mal castiga.

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LIX LXIV
Enfim, corri meus anos desde a infância Disse; e cessando a voz, e a visão bela,
Sem ofender (que eu saiba) esta Lei justa, Viu da nuvem Áureo, que o rodeava,
Sem ter a coisa boa repugnância, Trasformar-se a bela Alma em clara estrela,
Tudo mercê da mão de Deus augusta. E viu que a nuvem sobre o mar voava:
Nos meus males somente a tolerância O cadáver também sublime nela,
Mos fazia passar a menor custa: Ao cume do grão-pico já chegava;
Esta a minha ânsia foi, este o meu zelo, Onde a névoa, que no alto se sublima,
Saber quem era Deus; tratá-lo, e vê-lo. Depõe como uma Estátua o corpo em cima.
LX LXV
Dizendo o Velho assim, tanto se acende, Ali batido do nevado vento,
Como se n’alma se lhe ateara um fogo: De Sol, de gelo, e chuva penetrado,
Reclina a humilde fronte, e a voz suspende; Efeito natural, e não portento
E caindo em delíquio neste afogo, É vê-lo, qual se vê, petrificado.
Corre o Ministro, que ao sucesso atende, Um arco tem por bélico instrumento,
E buscando água, que o batize logo; De pluma um cinto sobre a frente ornado:
Apenas Félis diz, eu te batizo, Outro onde era decente: em cor vermelho,
Partiu feliz dum vôo ao Paraíso. Sem pêlo a barba tem; no aspecto é velho.
LXI LXVI
Cuidava em sepultá-lo Áureo saudoso; Voltado estava às partes do Ocidente,
Porém de espessa névoa, que o ar condensa, Donde o Áureo Brasil mostrava a dedo,
Ouve um coro entoando harmonioso Como ensinando a Lusitana Gente,
Louvor eterno à Majestade imensa: Que ali devia navegar bem cedo:
E na atmosfera ali do ar nebuloso, Destino foi do Céu Onipotente,
Luz arraiando, que a alumia intensa; A fim que sem receio, ou torpe medo
Viu Félis, que na glória, que o vestia, À piedosa empresa o Povo corra;
A Graça Batismal lhe agradecia. E que quem morrer nela, alegre morra.
LXII LXVII
Que te conceda Deus, Ministro justo, Calou então Fernando, mas não cala
(Diz-lhe a Alma venturosa) o prêmio eterno; Na cítara dourada outra harmonia,
Pois vens do antigo Mundo a tanto custo Onde parece a mão, que também fala,
A libertar-me do poder do Inferno. E que quanto a voz disse, repetia:
Dos Céus em tanto o Dominante augusto, Saíra em tanto um bárbaro a escutá-la,
Que tornes manda ao ninho teu Paterno; Que encantado da doce melodia,
E sobre a névoa em nuvem levantada Toma nas mãos o Músico Instrumento,
Vás navegando pela aérea estrada. Toca-o sem arte, e falta de contento.
LXIII LXVIII
E quer na nuvem própria, que te indico, Não pode ver dos nossos o congresso
Que esse cadáver meu vá transportado, Tanta rudeza sem tentar-se a riso;
E na Ilha do Corvo, de alto pico Que por mais que um pesar se tenha impresso,
O vejam numa ponta colocado; Não dá lugar a prevenção ao siso:
Onde acene ao país do metal rico, E sendo inopinado algum sucesso,
Que o ambicioso Europeu vendo indicado, Onde é nos homens quase o rir preciso,
Dará lugar, que ouvida nele seja Tal pessoa há que chora apaixonada,
A doutrina do Céu, e a voz da Igreja. E passa do gemido a uma risada.

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LXIX LXXIV
Diogo então que dentro em si media Enquanto assim dizia o Herói prudente,
Da cruel Gente a condição danosa, Comovido qualquer do temor justo,
Não sossega de noite, nem de dia, Levanta humilde as mãos ao Céu clemente,
Antevendo a desgraça lastimosa: Vendo o futuro com pressago susto:
E vendo rir os mais com alegria, Já cuida a cruel morte ver presente;
Pela ação do Salvagem graciosa, Já vê sobre a cabeça o golpe injusto:
Estranhou-lhe o prazer mal concebido, Batem no peito; e levantando as palmas,
Arrancando do peito este gemido. Fazem vítima a Deus das próprias almas.
LXX LXXV
Oh triste condição da humana vida! Já numerosa turba às praias vinha,
Que tanto em breve do seu mal se esquece; E os seis levam ao corro miserando,
Pois vendo a liberdade enfim perdida, Onde a plebe cruel formada tinha
Sentimos menos, quando a dor mais cresce: A pompa do espetáculo execrando:
Vemos desd’ água às praias despedida E mal a gente bruta se continha,
A infeliz Gente, que no mar perece; Que enquanto as tristes mãos lhe vão ligando
E que o brutal Gentio na mesm’hora, No humano corpo pelo susto exangue
Ainda bem os não vê, logo os devora. Não vão vivo sorvendo o infeliz sangue.
LXXI LXXVI
Quem sabe, se o cuidado, que destina Qual se da Líbia pelo campo estende
Pôr-nos assim mimosos de sustento, O Mouro caçador um leão vasto,
Não é por ter de nós grata chacina Em longa nuvem devorá-lo emprende
Nesse horrível barbarisco alimento? O sagaz corvo sempre atento ao pasto:
Tanta atenção que tem, mal se combina, Negro parece o chão; negra, onde pende
Sem mostrar-se o maligno pensamento; A planta, em que do sangue explora o rasto;
Que quem os próprios mortos brutal come, Até que avista a presa, e em chusma voa,
Como é crível que aos vivos mate a fome? Nem deixa parte, que voraz não roa.
LXXII LXXVII
Tempo fora, afligidos companheiros, Tal do Caboclo foi a fúria infanda,
De levantar dos Céus ao Rei Supremo E o fanatismo, que na mente o cega,
Humildes vozes, votos verdadeiros, Faz que tendo esta ação por veneranda,
Como quem luta no perigo extremo: Invoque o grão-Tupá, que o raio emprega:
Mas vós, que agora rides prazenteiros, No meio vê-se que em mil voltas anda,
Oh quanto, amigos meus, oh quanto temo, O eleito matador, como quem prega
Que essa Gente cruel só nos namore, A brados, exortando o povo insano
Por cevar mais a presa, que devore! A ensopar toda a mão no sangue humano.
LXXIII LXXVIII
Voltemos antes com fervor piedoso À roda à roda a multidão fremente
Os tristes olhos ao etéreo espaço; Com gritos corresponde à infame idéia;
Esperando de Deus um fim ditoso, Enquanto o fero em gesto de valente
Onde a morte se avista a cada passo. Bate o pé, fere o ar, e um pau maneia:
Contrito o peito, o coração choroso, Ergue-se um, e outro lenho, onde o paciente
Implore a proteção do excelso braço; Entre prisões d’embira se encadeia;
Que o coração me diz, que por desdita Fogo se acende nos profundos fossos,
O cruel sacrifício se medita. Em que se torrem com a carne os ossos.

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LXXIX LXXXIV
Dentro de uma estacada extensa, e vasta, Seis então dos infames Nigromantes
Que a numerosa plebe em torno borda, Lançaram mão das vítimas pacientes,
Entram os Principais de cada casta E a seis lenhos fatais, que ergueram dantes,
Com belas plumas, onde a cor discorda; Atam cruéis as mãos dos inocentes:
Outros, que a grenha tem com feral pasta Postos no Céu os olhos lagrimantes
Do sangue humano, que ao matar transborda, Com lembrar-se das penas veementes,
Os Nigromantes são; que em vão conjuro Que sofreu Deus na Cruz, nele fiados
Chamam as Sombras desde o Averno escuro. Pediam-lhe o perdão dos seus pecados.
LXXX LXXXV
Companheiras de ofício tão nefando Fernando ali, que em discrição precede,
Seguem de um cabo a turma, e de outro cabo Com voz sonora a companhia anima:
Seis torpíssimas velhas, aparando Cheio de viva fé socorro pede;
O sangue sem um leve menoscabo: E quanto a dor permite, que se exprima:
Tão feias são, que a face está pintando Grão-Senhor (diz) de quem tudo procede
A imagem propiíssima do Diabo; A glória, a pena, a confusão, e a estima,
Tinto o corpo em verniz todo amarelo, Que justo dás as graças, e os castigos,
Rosto tal, que a Medusa o faz ter belo. Na dor alívio, amparo nos perigos.
LXXXI LXXXVI
Têm no colo as cruéis Sacerdotisas, Vida não peço aqui, morte não temo,
Por conta dos funestos sacrifícios, Nem menos choro o caso desgraçado:
Fios de dentes, que lhe são divisas, O que me dói, que sinto, o que só gemo
De mais, ou menos tempo em tais ofícios: É, piedoso Deus, o meu pecado:
Gratas ao Céu se crêem, de que indivisas Feliz serei, grão-Padre, se no extremo
Se inculcam por Tartáreos malefícios; For da tua bondade perdoado;
E em testemunho do mister nefando, Pelo Cálix amargo que aqui bebo,
Nos seus cocos com facas vêm tocando. Pela morte cruel, que hoje recebo.
LXXXII LXXXVII
Quem pode reputar, que dor traspassa Mas, grande Deus, que vês nossa fraqueza
A miseranda infausta companhia, No duro transe desta cruel hora,
Vendo tais feras rodear a praça, Não sofras que essas feras com crueza
Que o sangue com os olhos lhe bebia? Hajam de devorar a quem te adora:
Ver que os dentes lhe range por negaça, Porque estremece a frágil natureza,
Senão é que os agita a fome ímpia, Vendo a gula brutal, que empreende agora
E disser lá consigo: “Em poucas horas Sacrifício fazer ao torpe abismo
Sou pasto destas feras tragadoras.” Destas carnes tingidas no Batismo.
LXXXIII LXXXVIII
Mas põe-lhe a vista o Padre Onipotente, Ouviu o Céu piedoso a infeliz gente;
Da desgraça cruel compadecido; E quando o fero a maça já levanta,
E envia um Anjo desde o Céu clemente, Que esmague a fronte ao mísero paciente,
Que deixe tanto horror desvanecido; Trovão se ouve fatal, que tudo espanta:
E faça que o espetáculo presente Treme a montanha, e cai a roca ingente,
Venha por fim a ser sonho fingido; E na ruína as árvores quebranta;
Que quem recorre ao Céu no mal que geme, Mas o que mais os brutos confundia,
Logo que teme a Deus, nada mais teme. Era o rumor Marcial, que então se ouvia.

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CANTO II
LXXXIX I
Pedras, frechas, e dardos de arremesso Era a hora, em que o Sol na grã-carreira
Cobriam todo o ar; porque o inimigo, Do tórrido Zênite vibra igualmente,
Que atrás se pôs de um próximo cabeço, E que a sombra dos corpos companheira
Aguarda expressamente aquele artigo: Na terra extingue, com o raio ardente;
De um lado, e outro desde um mato espesso Quando ao partir a turba carniceira,
Ameaça o furor, cerca o perigo; Se viu Diogo só na praia ingente,
E a gente crua transformada a sorte, Entre mil pensamentos, mil terrores,
Quando cuidou matar, padece a morte. Que a dor faz grandes, e o temor maiores.
XC II
Era Sergipe o Príncipe valente Parecia-lhe ver da gente insana
Na esquadra valerosa, que atacava; O bárbaro furor, a fome crua,
Varão entre os seus bom, manso, e prudente, A agonia dos seus na ação tirana;
Que com Justiça os povos comandava: E temendo a dos mais, presume a sua:
Armava o forte Chefe de presente Quisera opor-se à empresa desumana;
Contra Gupeva, que cruel reinava, Pensa em arbítrios mil, com que o conclua:
Sobre as aldeias, que em tal tempo havia Se fugirá? mas donde? se os invada?
No Recôncavo ameno da Bahia. Porém enfermo, e só não vale a nada.
XCI III
Por toda a parte o Baiense é preso; Oh! mil vezes (dizia) afortunados,
É trucidado o bruto Nigromante, Os que entregues à fúria do elemento
Muitos lançados são no fogo aceso, Acabaram seus dias sossegados,
Rendem-se os mais ao Vencedor possante: Nem virão tanta dor, como experimento!
Ficara em vida, todavia ileso Que estavam finalmente a mim guardados
O mísero Europeu, que ali em flagrante Este espanto, este horror, este tormento!
Faz desatar o bom Sergipe, e manda Que escapei (Santos Céus!) desse mar vasto
A escravidão no seu País mais branda. Para a feras servir de horrível pasto!
XCII IV
Mas a Gente infeliz no Sertão vasto E hei de agora (infeliz!) ver fraco, e inerme,
Por matos, e montanhas dividida, Que dos meus vá fazer um pasto horrendo
É fama, que uns de tigres foram pasto; Essa patrulha vil! que agora enferme!
Outra parte dos bárbaros comida: Que me veja sem força em febre ardendo!
Nem mais houve notícia, ou leve rasto Ah! se pudera em meu vigor já ver-me!
Como houvessem perdido a amada vida; Que ardor sinto em meu peito de ir rompendo,
Mas há boa suspeita, e firme indício, E a turba vil fazendo em mil pedaços,
Que evadiram o infame sacrifício. Truncar pescoços, mãos, cabeças, braços.
V
Não pode (é certo) a débil natureza;
Porém que esperas mais, mísero Diogo?
Que pode resultar da forte empresa?
Será mal morrer já, se há de ser logo?
Faltam-me as forças sim; sinto a fraqueza:
Mas o espírito o supre, e neste afogo
Tira forças ocultas da nossa alma,
Que ela não mostra ter, vivendo em calma.

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VI XI
E como quer enfim que o mande a forte; Gupeva então, que aos mais se adiantava,
Morra-se, que talvez se não desuna Vendo das armas o medonho vulto,
O sucesso feliz, de uma ação forte; Incerto do que vê, suspenso estava,
Que acaso um temerário achou fortuna; Nem mais se lembra do inimigo insulto;
E quando irado o Céu me envie a morte, Algum dos Anhangás imaginava,
E que a Mão do Senhor meus erros puna, Que dentro do grão-fantasma vinha oculto,
Recebo o golpe, que me for mandado; E à vista do espetáculo estupendo
Morrerei, assim é, porém vingado. Caiu por terra o mísero tremendo.
VII XII
Nem deixo de esperar que a gente bruta, Caiu com ele junta a brutal gente,
Vendo o estrago da espada, e do mosquete, Nem sabe o que imagine da figura,
Não se encha de pavor na estranha luta, Vendo-a brandir com a alabarda ingente,
E força maior creia que a acomete: E olhando ao morrião, que o transfigura:
Se tomo as armas, que salvei na gruta, Ouve-se um rouco tom de voz fremente,
Escudo, cota, malha, e capacete, Com que espantá-los mais o Herói procura;
Posso esperar que um só me não resista; E porque temam de maior ruína,
E antes que o ferro, mos fomenta a vista. Faz-lhes a voz mais horrenda uma buzina.
VIII XIII
Disse; e entrando na sólita caverna, Em tanto a gente bárbara prostrada,
Cobre de ferro a valerosa fronte; Tão fora de si está por cobardia,
Um peito d’aço de firmeza eterna, Que sem sentido estúpida, assombrada,
E o escudo, onde a frecha se desponte. Só mostra viva estar, porque tremia:
Dispõe de modo, e em forma tal governa, Quais verdes varas de árvore copada,
Que nada teme já, que em campo o afronte: Se assopra a viração do meio-dia,
Nas mãos de ferro tinha uma alabarda, De uma parte a outra parte se maneiam;
A espada à cinta, aos ombros a espingarda. Assim de medo os vis no chão perneiam.
IX XIV
Saía assim da gruta, quando o monte Mas Diogo naqueles intervalos,
Coberto vê da bárbara caterva; Suspendendo o furor do duro Marte,
E no que infere da turbada fronte, Esperança concebe de amansá-los,
Sinais de fuga, e de derrota observa: Uma vez com terror, outra com arte:
A algum obriga o medo, a que trasmonte; A viseira levanta, e vai buscá-los,
Outros se escondem pelo mato, ou erva; Mostrando-se risonho em toda a parte:
Muitos fugindo vêm com medo à morte, Levantai-vos (lhe diz) e assim dizendo,
Crendo achar na caverna um lugar forte. Ia-os co’a própria mão da terra erguendo.
X XV
Mas o prudente Diogo, que entendia Gupeva, que no traje mais distinto
Não pouca parte do Idioma escuro, Parecia na turba do seu Povo,
Por alguns meses, em que atento o ouvia, O Principal no mando, meio extinto,
Elege um posto a combater seguro: Pelo horror de espetáculo tão novo
Atento a toda a voz, que ouvir podia, Tremendo em pé ficou, sem voz, e instinto,
Por escutar dos seus o caso duro, E caíra sem dúvida de novo,
Entre esperanças, e receio intenso Se nos braços Diogo o não tomara,
Sem susto estava sim, porém suspenso. E d’água ali corrente o borrifara.

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XVI XXI
Não temas (disse afável) cobra alento; O Lume da razão condena a empresa,
E suprindo-lhe acenos o idioma, Pois se o infando apetite o gosto adula,
Dá-lhe a entender, que todo esse armamento Para extinguir a humana Natureza,
Protege amigos, se inimigos doma: Sem mais contrários, bastaria a gula.
Que os não ofende o bélico instrumento, Que se a malícia em vós, ou se a rudeza,
Quando de humana carne algum não coma; O instinto universal de todo anula,
Que se a comerdes, tudo em cinza ponho... É contudo entre os mais coisa temida,
E isto dizendo, bate o pé, medonho. Que outrem por vos comer, vos tire a vida.
XVII XXII
Toma nas mãos (lhe diz) verás que nada Disse Diogo, e conduzia à gruta,
Te hão de fazer de mal; e assim falando, O Principal da bárbara caterva,
Põe-lhe na mão a partasana, e espada, Que ali seguido pela gente bruta,
E vai-lhe à fronte o morrião lançando. O lugar conhecido atento observa:
Diminui-se o horror na alma assombrada, Gupeva a tudo atende, e tudo escuta;
E vai-se pouco a pouco recobrando, Mas sempre o horror, que concebeu, conserva;
Até que a si tornando reconhece E olhando as armas, sem que a mais se arroje,
Donde está, com quem fala, e o que lhe oferece. Chega com mão furtiva, apalpa, e foge.
XVIII XXIII
Se d’além das montanhas cá t’envia Vinha a noite já então seu negro manto
O grão-Tupá (lhe diz) que em nuvem negra Despregando na lúcida Atmosfera,
Escurece com sombra o claro dia, Quando buscam sossego ao seu quebranto
E manda o claro Sol, que o Mundo alegra; No ninho as aves, e na toca a fera:
Se vens donde o Sol dorme, e se à Bahia E quando o Sono com suave encanto
De alguma nova Lei trazes a regra; Aos míseros mortais a dor modera;
Acharás, se gostares, na cabana, Mas não modera em Diogo a mordaz cura
Mulheres, caça, peixe, e carne humana. De amansar o furor da Gente dura.
XIX XXIV
A carne humana! (replicou Diogo, Por dissipar na gruta a sombra fria,
E como pode, explica em voz, e aceno) Toma o férreo fuzil, que o fogo ateia;
Se vir que come algum, botarei fogo; E vendo a rude gente, que o acendia,
Farei que inunde em sangue esse terreno. E brilhar de improviso uma candeia;
Pois se os bichos nos devem comer logo, Notando a pronta luz, que no óleo ardia,
(O Bárbaro lhe opõe com desempeno) Não acaba de o crer de assombro cheia:
A nós faz-nos horror, se eles nos comem; Crêem portanto que o fogo do Céu nasça,
E é menos triste que nos trague um homem. Ou que Diogo nas mãos nascê-lo faça.
XX XXV
O corpo humano (disse o Herói prudente) Era costume do Selvagem rude
Como o brutal não é: desde que nasce, Roçar um lenho noutro com tal jeito,
É morada do Espírito eminente, Que vinha por elétrica virtude
Em quem do grão-Tupá se imita a face. A acender lume, mas com tardo efeito.
Sepulta-se na terra, qual semente, Mas observando, sem que o lenho o ajude,
Que se não apodrece, não renasce; Em menos de um momento o fogo feito;
Tempo virá, que aos corpos reunida, O mesmo imaginou, que a Grécia creu,
Torne a noss’alma a respirar com vida. Quando viu ferir fogo a Prometeu.

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XXVI XXXI
Acesa luz na lôbrega caverna, Mas crendo rude, como então vivia,
Vê-se o que Diogo ali da nau levara; Que fosse coisa viva a Imagem Santa;
Roupas, armas, e, em parte mais interna, Que por Mãe de Tupá tudo sabia,
A pólvora em barris, que transportara, Tendo poder conforme a glória tanta;
Tudo vão vendo à luz de uma lanterna, Repete o que houve a Diogo com voz pia,
Sem que o apeteça a gente nada avara, E à Mãe de Deus o coração levanta:
Ouro, e prata, que a inveja não lhe atiça: E encostando entre os rogos a cabeça,
Naçao feliz! que ignora o que é cobiça. Faz a noite, e o desvelo que adormeça.
XXVII XXXII
Mas entre objetos vários a que atende, Já no purpúreo, e trêmulo Horizonte,
Nota Gupeva extático a Pintura, Rosas parece que espalhava a Aurora;
Que num precioso quadro, que ali pende, E o Sol que nasce sobre o oposto monte,
Representava a Mãe da formosura: A bela luz derrama criadora:
Se seja coisa viva, não entende; Ouvem-se as avezinhas junto à fonte,
Mas suspeitava bem pela figura, Saudando a manhã com voz sonora;
Digna a pessoa, de que a Imagem era, E os mortais já do sono desatados
De ser mãe de Tupá, se ele a tivera. Tornavam novamente aos seus cuidados.
XXVIII XXXIII
Esta (pergunta o Bárbaro) tão bela, Quando Gupeva manso, e diferente,
Tão linda face, acaso representa Do que antes fora na fereza bruta,
Alguma formosíssima Donzela, Convoca a ouvi-lo a multidão fremente,
Que esposa o grão-Tupá fazer intenta? Que à roda estava da profunda gruta:
Ou por ventura que nascesse dela, Posto no meio da confusa Gente,
Esse, que sobre os Céus no Sol se assenta? Que toda dele pende, e atenta escuta:
Quem pode geração saber tão alta? Valentes Paiaiás (diz desta sorte)
Mas se há Mãe, que o gerasse, esta é sem falta. Que herdais o brio da prosápia forte.
XXIX XXXIV
Encantado está o pio Lusitano Se ontem do vil Sergipe surpreendidos,
De ouvir em rude boca tal verdade; Vimos o grão-terreiro posto a saco;
E adorando o Mistério soberano, Fomos cercados sim, mas não vencidos;
Mãe ter não pode (disse) a Divindade. Não foi vitória, foi traição de um fraco.
Mas sendo Deus eterno, fez-se humano, Sabia bem por golpes repetidos,
E sem lesão da própria Virgindade, Com quanto esforço na peleja ataco;
A Donzela o gerou, que pisa a Lua, E como sem traição faria nada,
Digna Mãe de Tupá, Mãe minha, e tua. Não tendo eu armas, vêm com mão armada.
XXX XXXV
Peçamos pois, que é Mãe, que nos defenda; Sombra do grão-Tatu, de quem me ferve
Que te dê para ouvir dócil orelha; Nestas veias o sangue; de quem trago
E contigo o teu Povo recomenda, A invicta geração, que em guerra serve
Dizendo o Herói assim, devoto ajoelha. De espanto a todos, de terror, de estrago:
Gupeva o mesmo faz com fé estupenda; Porque a glória a teu nome se conserve,
E pendente de Diogo, que o aconselha, E porque a cante da Bahia o lago,
Levanta as mãos, como ele levantava; Mandas de lá de donde o Mundo acaba
E vendo-o lagrimar, também chorava. Para o nosso socorro este Imboaba.

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XXXVI XLI
Tu lhe mudaste em ferro a carne branda; Mais arma não levou, que uma espingarda;
Tu fazes que na mão se acenda, e lhe arda E posto ao lado de Gupeva amigo,
A viva chama, que Tupá nos manda; Pronto a todo o acidente, e posto em guarda,
Tupá, que rege o Céu, que o Mundo guarda. Traz na cautela o escudo ao seu perigo.
Com ele hei de vencer por qualquer banda Em tanto a destra gente a caça aguarda,
Com ele em campo armado, já me tarda E algum se afouta a penetrar no abrigo,
O cobarde inimigo, que a encontrá-lo, Onde esconde a Pantera os seus cachorros,
Vivo, vivo me animo a devorá-lo. Outro a segue por brenhas, e por morros.
XXXVII XLII
Sabeis, Tapuias meus, como morrendo Até que de Gupeva comandada,
Nossos Irmãos, e Pais, que eles matavam, Em círculo se forma a linha unido,
Postos debaixo já do golpe horrendo, Onde quanto há de caça já espantada,
Vosso nome aos vingar tristes chamavam. Fique no meio de um cordão cingido:
Também vistes na guerra combatendo, A rés ali do estrondo amedrentada,
Que estrago neles estas mãos causavam, Num centro está de espaço reduzido:
E as vezes que vos dei no campo vasto, À mão mesmo se colhe: cousa bela!
Mil e mil deles por sabroso pasto. Que dá mais gosto ver, do que comê-la.
XXXVIII XLIII
Mas não come o Estrangeiro, nem consente Não era assim nas aves fugitivas,
Comer-se carne humana; e só teria Que umas frechava no ar, e outras em laços
Outra carne qualquer por inocente, Com arte o Caçador tomava vivas:
Aves, feras, Tatus, Paca, ou Cotia; Uma porém nos líquidos espaços
Receba pois de nós grato presente, Faz com a pluma as festas pouco ativas,
De quanto houver nos matos da Bahia; Deixando à lisa pena os golpes laços.
Saia-se à caça; e como lhe compete, Toma-a de mira Diogo, e o ponto aguarda:
Prepare-se a hospedagem de um banquete. Dá-lhe um tiro, e derriba-a co’a espingarda.
XXXIX XLIV
Separa-se o Congresso em breve espaço, Estando a turba longe de cuidá-lo,
Dispõe-se em alas numerosa Tropa: Fica o bárbaro ao golpe estremecido,
Quem com taquaras donde pende o laço, E cai por terra no tremendo abalo
Onde a avezinha cai, se incauta o topa: Da chama, do fracasso, e do estampido:
Quem dos ombros suspende, e quem do braço Qual do hórrido trovão com raio, e estalo
Armadilhas diferentes; outro ensopa Algum junto a quem cai, fica aturdido:
Em visgo as longas ramas do palmito, Tal Gupeva ficou, crendo formada
Onde impróvido caia o Periquito. No arcabuz de Diogo uma trovoada.
XL XLV
Os mais com frecha vão, que a um tempo seja Toda em terra prostrada exclama, e grita
Tiro, que ofenda a fugitiva caça; A turba rude em mísero desmaio,
Ou armas (se ocorresse) na peleja, E faz o horror, que estúpida repita
Quando o inimigo de emboscada a faça: Tupá, Caramuru, temendo um raio.
E porque aos mais presida, e tudo veja, Pretendem ter por Deus, quando o permita,
À frente do Esquadrão Gupeva passa; O que estão vendo em pavoroso ensaio,
Nem fica Diogo só, que tudo via, Entre horríveis trovões do márcio jogo,
Mas segue armado a forte companhia. Vomitar chamas, e abrasar com fogo.

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XLVI LI
Desde esse dia é fama, que por nome De Tupá sou (lhe disse) Onipotente
Do grão-Caramuru foi celebrado Humilde escravo, e como vós me humilho;
O forte Diogo; e que escutado dome Mas do horrendo trovão, que arrojo ardente,
Este apelido o Bárbaro espantado: Este raio vos mostra, que eu sou filho.
Indicava o Brasil no sobrenome, (Disse, e outra vez dispara em continente)
Que era um dragão dos mares vomitado: Do meio do relâmpago, em que brilho,
Nem doutra arte entre nós a antiga idade Abrasarei qualquer, que ainda se atreva
Tem Jove, Apolo, e Marte por Deidade. A negar a obediência ao grão-Gupeva.
XLVII LII
Foram qual hoje o rude Americano, Deu logo a amiga mão com grato aspecto
O valente Romano, o sábio Argivo; Ao mísero Gupeva, que convulso
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano, No horror daquele ignívomo prospecto,
Do que outro Rei fizera em Creta altivo. Jazia sem sentido, e já sem pulso:
Nós que zombamos deste Povo insano, Não temas (diz-lhe) amigo, que eu prometo,
Se bem cavarmos no solar nativo, Que de meu braço se não mova impulso,
Dos antigos Heróis dentro às imagens, Senão contra quem for tão temerário,
Não acharemos mais, que outros Salvagens. Que sendo-te eu amigo, é teu contrário.
XLVIII LIII
É fácil propensão na brutal gente, Recobra o bom Gupeva um novo alento,
Quando em vida ferina admira uma arte, Sentindo a grata mão, que à vida o chama;
Chamar um fabro o Deus da forja ingente; Nem pode duvidar pelo experimento,
Dar ao guerreiro a fama de um Deus Marte. De quanto Diogo com fineza o ama;
Ou talvez por sulfúreo fogo ardente, Mas sempre com receio do instrumento
Tanto Jove se ouviu por toda a parte: Teme que outra vez lance a horrível chama;
Hércules, e Teseus, Jasões no Ponto E deixa-o no erro Diogo, a fim que incerto,
Seriam cousas tais, como as que eu conto. Nenhum pelo pavor se chegue ao perto.
XLIX LIV
Quanto merece mais, que em douta Lira Mas por deixar incerta a Gente infida,
Se cante por Herói, quem pio, e justo, Dá-lhe astuto o arcabuz, que não tem carga;
Onde a cega Nação tanto delira, E quem (diz) é fiel, pode com vida
Reduz à humanidade um Povo injusto? Tê-lo na mão sem hórrida descarga;
Se por Herói no Mundo só se admira, Porém se algum faltasse à fé devida,
Quem tirano ganhava um nome Augusto; Sentirá da traição por pena amarga,
Quanto o será maior, que o vil tirano, Com próprio dano seu, com mortal risco,
Quem nas feras infunde um peito humano? Relâmpago, e trovão, fogo, e corisco.
L LV
Tal pensamento então n’alma volvia Que eu acordado esteja, ou que adormeça,
O grão-Caramuru, vendo prostrada Vigia em guarda minha o fogo oculto,
A rude multidão, que Deus o cria, E a traição pagará com a cabeça,
E que espera desta arte achar domada: Quem tentasse fazer-me um leve insulto.
Política infeliz da Idolatria, Porém se eu mal não quero, que aconteça,
Donde a antiga cegueira foi causada; Pode um menino, como pode o adulto,
Mas Diogo, que abomina o feio insulto, E o mais fraco, que houver na vossa Gente,
Quando aumenta o terror, recusa o culto. Ter o trovão nas mãos, sem que arrebente.

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LVI LXI
Porém guardai-vos vós, que só no peito, Dentro da grã-choupana a cada passo
Só n’alma, que tenhais tenção malina, Pende de lenho a lenho a rede extensa:
Vereis que trovão faz por meu respeito, Ali descanso toma o corpo lasso;
E que vem no estampido a vossa ruína. Ali se esconde a marital licença:
Treme Gupeva, ouvindo este conceito, Repousa a filha no materno abraço
E humilde a fronte ao grão-Diogo inclina: Em rede especial, que tem suspensa:
Certo de não faltar na fé que rende, Nenhum se vê (que é raro) em tal vivenda,
Donde o raio, e trovão crê que depende. Que a mulher de outrem, nem, a filha ofenda.
LVII LXII
Convoca em tanto o Principal temido Ali chegando a Esposa fecundada
As esquadras da turba, então dispersa, A termo já feliz, nunca se omite
E ao grão-Caramuru pede rendido De pôr na rede o Pai a prole amada,
Que eleja casa no País diversa: Onde o amigo, e parente o felicite:
E que a gruta deixando, suba unido, E como se a mulher sofrera nada,
Onde em vasta cabana o Povo versa; Tudo ao Pai reclinado então se admite,
Nem duvide que a Gente fera, e brava Qual fora, tendo sido em modo sério
O sirva humilde, e se sujeite escrava. Seu próprio, e não das Mães o puerpério.
LVIII LXIII
No Recôncavo ameno um posto havia Quando na rede encosta o tenro infante,
De troncos imortais cercado à roda, Pinta-o de negro todo, e de vermelho;
Trincheira natural, com que impedia, Um pequeno arco põe, frecha volante,
A quem quer penetrá-lo, a entrada toda: E um bom cutelo ao lado; e em tom de verme
Um plano vasto no seu centro abria, Com discurso patético, e zelante,
Aonde edificando à pátria moda, Vai-lhe inspirando o paternal conselho;
De troncos, varas, ramos, vimes, canas Que seja forte diz, (como se o ouvisse)
Formaram, como em quadro, oito cabanas. Que se saiba vingar, que não fugisse.
LIX LXIV
Qualquer delas com mole volumosa Dá-lhe depois o nome, que apropria
Corre direita em linhas paralelas; Por semelhança que ao Infante iguala,
E mais comprida aos lados, que espaçosa, Ou com que o espera célebre algum dia;
Não tem paredes, ou colunas belas: Senão é por defeito que o assinala:
Um ângulo no cume a faz vistosa, A algum na fronte o nome se imprimia,
E coberta de palmas amarelas, Ou pintam no verniz, que tem por gala;
Sobre árvores se estriba, altas, e boas, E segundo a figura se lhe observa,
De seiscentas capaz, ou mil pessoas. Dão-lhe o nome de fera, fruto, ou erva.
LX LXV
Qual o velho Noé na imensa barca, Trabalha em tanto a Mãe sem nova cura,
Que a bárbara cabana em tudo imita, Quando o parto conclui, e em tempo breve,
Ferozes animais próvido embarca, Sem mais arte que a próvida natura,
Onde a turba brutal tranqüila habita: Sente-se lesta, e sã, robusta, e leve:
Tal o rude tapuia na grand’arca; Feliz Gente, se unisse com fé pura
Ali dorme, ali come, ali medita; A sóbria educação, que simples teve!
Ali se faz humano, e de amor mole, Que o que a nós nos faz fracos, sempre estimo,
Alimenta a mulher, e afaga a prole. Que é mais que pena, ou dor, melindre, e mimo.

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LXVI LXXI
Vai com o adulto filho à caça, ou pesca Por costumado obséquio os mais luzidos
O solícito Pai pelo alimento: Tomam Diogo nos braços; e no peito
O peixe à mulher traz, e a carne fresca, A frente lhe apertavam comedidos:
E à tenra prole a fruta por sustento: Sinal entr’eles do hospital respeito.
A nova provisão sempre refresca, Tiram-lhe em pressa as roupas, e vestidos;
E dá nesta fadiga um documento, E pondo-o sobre a rede, como em leito,
Que quem nega o sustento a quem deu vida, Sem mais dizer-lhe nada, e sem ouvi-lo,
Quis ser Pai, por fazer-se um parricida. Tudo se afasta, e deixam-no tranqüilo.
LXVII LXXII
Que se acontece que a enfermar se venha, Com maior cerimônia outra visita
Concorre com piedade a turba amiga; Festiva celebrava o seu cortejo;
E por dar-lhe um remédio, que convenha, Femínea turba, que o costume incita
Consultam-no entre si com Gente antiga: A oferecer-se honesta ao seu desejo;
Buscam quem de erva saiba, ou cura tenha, Senta-se sobre os pés, e felicita,
Que possa dar alívio ao que periga, Cobrindo o rosto a mão, como por pejo;
Ou talvez sangram numa febre ardente, Vestidas vêm de folhas tão brilhantes,
Servindo de lanceta um fino dente. Que o que falta ao valor, têm de galantes.
LXVIII LXXIII
Mas vendo-se o mortal já na agonia, Parece ser da mesa o dispenseiro
Sem ter para o remédio outra esperança, Um Salvagem, que o nome lhe pergunta:
Estima a bruta Gente; ação mui pia, Se tem fome, lhe diz; ou se primeiro
Tirar-lhe a vida com a maça, ou lança: Quereria beber? e logo ajunta,
Se morre o tenro filho, a Mãe seria Sem mais resposta ouvir, sobre o terreiro
Estimada cruel, quando a criança, A comida que trouxe em cópia munta:
Que pouco antes ao Mundo dela veio, Põe-se-lhe Uiçu de peixe, e carne crua,
Não torna ao seu lugar no próprio seio. E o mimoso Cauim, que é paixão sua.
LXIX LXXIV
Tal era o Povo rude, e tal usança Todos com gula comem furiosa,
Se lhe vê praticar no vício iluso: Sem olhar, sem falar, nem distrair-se:
Tudo nota Diogo, na esperança Tanto se absorvem na paixão gulosa,
De corrigir por fim tão cego abuso. Que mal pudera ao vê-los distinguir-se,
No lugar da cabana, em que descansa Se são feras, ou homens. Vergonhosa,
Menos da gente, e multidão confuso, Triste miséria humana! confundir-se
Põe-lhe a rede Gupeva, que o convida Um peito racional c’um bruto seio
De rica, e mole pluma entre tecida. No horrendo vício, donde o mal nos veio.
LXX LXXV
Mas eis que um grande número o rodeia Acabada a comida, a turba bruta
De emplumados feiíssimos Salvagens: O estrangeiro bem-vindo outra vez grita;
Ouve-se a casa de clamores cheia; E a tropa feminina, que isto escuta,
Costume antigo seu nas hospedagens. Cobre a face co’as mãos, e o pranto imita:
Qualquer chegar-se a Diogo ainda receia, Gupeva pois que o hóspede reputa,
Por ter visto as horríficas passagens; Causa do seu prazer, e autor da dita;
Mas mair ma apadu de longe explicam, O Sacro fogo a roda lhe ateava,
E bem-vindo o estrangeiro significam. Cerimônia hospital, que o povo usava.

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LXXVI LXXXI
Bem presumia Diogo, no que explora, Deseja vê-la o forte Lusitano;
Que algum mistério se ocultava interno; Porque interpreta a língua, que entendia;
Lembra-lhe a chama, que o Caldeu adora; E toma por mercê do Céu soberano
O fogo das Vestais recorda eterno; Ter como entenda o idioma da Bahia:
Nem duvidava que de origem fora Mas quando esse prodígio avista humano,
Costume da Nação, rito paterno; Contempla no semblante a louçania:
Trazido, se é possível que se creia, Pára um, vendo o outro; mudo, e quedo,
Na dispersão das Gentes, da Caldéia. Qual junto de um penedo outro penedo.
LXXVII LXXXII
Perguntá-lo dos bárbaros quisera; Só tu, Tutelar Anjo, que o acompanhas,
Mas como o aceno, e língua muito engana, Sabes quanto a virtude ali se arrisca,
Acaso soube que a Gupeva viera E as fúrias da paixão, que acende estranhas
Certa Dama gentil Brasiliana: Essa de insano amor doce faísca:
Que em Taparica um dia compreendera Ânsias no coração sentiu tamanhas,
Boa parte da língua Lusitana; (Ânsias, que nem na morte o tempo risca)
Que Português escravo ali tratara, Que houvera de perder-se naquel’hora,
De quem a língua, pelo ouvir, tomara. Se não fora Cristão, se Herói não fora.
LXXVIII LXXXIII
Paraguaçu gentil (tal nome teve) Mas desde o Céu a Santa Inteligência
Bem diversa de Gente tão nojosa; Com doce inspiração mitiga a chama;
De cor tão alva, como a branca neve; Onde a amante paixão ceda à prudência,
E donde não é neve, era de rosa: E a razão pode mais, que a ardente flama:
O nariz natural, boca mui breve, Em Deus na natureza, e na consciência
Olhos de bela luz, testa espaçosa: Conhece, que quer mal quem assim ama;
De algodão tudo o mais, com manto espesso, E que fora sacrílego episódio
Quanto honesta encobriu, fez ver-lhe o preço. Chamar à culpa amor, não chamar-lhe ódio.
LXXIX LXXXIV
Um Principal das terras do contorno No raio deste heróico pensamento
A bela Americana tem por filha; Em tanto Diogo refletiu consigo,
Nobres sem fasto, amável sem adorno; Ser para a língua um cômodo instrumento
Sem gala encanta, e sem concerto brilha: Do Céu mandado na donzela amigo:
Servia aos Carijós, que tinha em torno, E por ser necessário ao Santo intento,
Mais que de amor, de objeto a maravilha: Estuda no remédio do perigo,
De um desdém tão gentil, que a quem olhava, Que pode ser? sou fraco: ela é formosa...
Se mirava imodesto, horror causava. Eu livre... ela donzela... será esposa.
LXXX LXXXV
Foi destinada de seus Pais valentes, Bela (lhe disse então) gentil Menina,
Esposa de Gupeva; mas a Dama (Tornando a si do pasmo, em que estivera)
Fugia de seus olhos impacientes, Sorte humana não é, mas é Divina,
Nem prenda lhe aceitou, porque o não ama: Ver-me a mim; ver-te a ti na nova esfera:
Nada sabem de amor bárbaras gentes, Ela a frase, em que falo, aqui te ensina;
Nem arde em peito rude a amante chama; Ela, se não me engana o que a alma espera,
Gupeva, que não sente o despeito, Um fogo em nós acende, que de resto
Tratava-a sem amor, mas com respeito. Eterno haja de arder, se arder honesto.

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LXXXVI XCI
Desde hoje se a meus olhos corresponde Ter-me-ás, caro, ter-me-ás sempre a teu lado:
O meigo olhar das lúcidas pupilas; Vigia tua, se te ocupa o sono;
Se amor é... porque amor quem é que o esconde, Armada sairei, vendo-te armado;
Se por ele essas lágrimas destilas: Tão fiel nas prisões, como num trono:
Com que chamas meu peito te responde, Outrem não temas, que me seja amado:
Com mão de Esposa poderás senti-las; Tu só serás, Senhor, tu só meu dono:
Disse; e estendendo a mão, ofereceu-lha; Tanto lhe diz Diogo, e ambos juraram;
Ela que nada diz, sorriu-se, e deu-lha. E em fé do juramento, as mãos tocaram.
LXXXVII
Põe-lhe de fuga os olhos, que abaixara;
E ou de amante, ou também de vergonhosa,
Um tão belo rubor lhe tinge a cara,
Como quando entre os lírios nasce a rosa:
Três vezes quis falar, três se calara;
E ficou do soçobro tão formosa,
Quanto ele ficou cego; e em tal porfia,
Nem um, nem outro então de si sabia.
LXXXVIII
Mas refletindo logo o Herói prudente,
Fixou no coração com fé segura,
Não cumprir as promessas de presente,
Antes que lhe entre n’alma a formosura:
Rende-lhe o seu amor, mas inocente,
E faz-lhe prometer, que com fé pura,
Enquanto se não lava, e regenera,
Em continência viverão sincera.
LXXXIX
E esta fé (lhe diz) Esposa em Deus querida,
Guardar-te hoje prometo em laço eterno,
Até banhar-te n’água prometida,
Por cândida afeição de amor fraterno:
Amor, que sobreviva à própria vida;
Amor, que preso em laço sempiterno,
Arda depois da morte em maior chama;
Que assim trata de amor, quem por Deus ama.
XC
Esposo (a bela diz) teu nome ignoro;
Mas não teu coração, que no meu peito
Desde o momento, em que te vi, que o adoro:
Não sei se era amor já, se era respeito:
Mas sei do que então vi, do que hoje exploro,
Que de dois corações um só foi feito.
Quero o Batismo teu, quero a tua Igreja,
Meu Povo seja o teu, teu Deus meu seja.

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CANTO III
I VI
Já nos confins extremos do Horizonte A chuva, a neve, o vento, a tempestade
Dourava o Sol no ocaso rubicundo Quem a rege? a quem segue? ou quem a move?
Com tíbio raio acima do alto monte; Quem nos derrama a bela claridade?
E as sombras caem sobre o vale fundo: Quem tantas trevas sobre o Mundo chove?
Ia morrendo a cor no prado, e fonte; E este espírito amante da verdade,
E a noite, que voava ao novo Mundo, Inimigo do mal, que o bem promove,
Nas asas traz com viração suave Cousa tão grande, como fora obrada,
O descanso aos mortais no sono grave. Se não lhe dera o ser, quem vence o nada?

II VII
Só com Gupeva a Dama, e com Diogo Quem seja este grande Ente, e qual seu nome,
Gostosa aos dois de intérprete servia; (Feliz quem saber pode) eu cego o ignoro;
E perguntado sobre o Sacro fogo, E sem que a empresa de sabê-lo tome,
A qual fim se inventara? a que servia? Sei que é quem tudo faz, e humilde o adoro:
Deu-lhe simples razão Gupeva logo: Nem duvido que os Céus, e Terra dome,
Supre de noite (disse) a luz do dia; Quando nas nuvens com terror o exploro,
E como Tupá ao Mundo a luz acende, Deixando o mortal peito em vil desmaio,
Tanto fazer-se aos hóspedes empreende. Ameaçar no trovão, punir no raio.

III VIII
Se pecando o mau espírito solevas, Só pasmo se nos fez, como não veio,
Sucede que talvez cruel se enoje; Devendo amar o que obra de mão sua,
E como é Pai da noite, e Autor das trevas, Ao Mundo de Anhangás cercado, e cheio
Tanto aborrece a luz, que em vendo-a foge: A livrar o Homem dessa besta crua!
Porém se à Luz eterna o peito elevas, Como é possível que não desse um meio,
Não há fúria do Averno que se arroje; Com que a mente ignorante, enferma, e nua
Talvez por lhe excitar tristes idéias, Tratar com ele possa, quando é claro
Das chamas, que tiveram por cadeias. Que o Pai não deixa o filho em desamparo?

IV IX
Admira o pio Herói, que assim conheça Sinto bem remorder dentro em meu peito
A Nação rude as legiões do Averno; Lembrança, que me acusa: por mim fica
Nem já duvida que do Céu lhe desça Se mais bem do que faz, me não tem feito,
Clara luz dum Princípio sempiterno. Que é néscio quem o ingrato beneficia.
Disse-me, Hóspede amigo, se professa Outro Povo talvez mereça eleito
Este teu Povo, diz, com culto externo A assistência dos Céus de graças rica;
Adorar algum Deus? qual é? onde ande? Nem contra Deus se justifica a queixa,
Se seja um Deus somente, ou que outros mande? Que costume deixar, quem o não deixa.

V X
Um Deus (diz) um Tupá, um ser possante Mas se do Trono Celestial, e Eterno
Quem poderá negar que reja o Mundo, Apesar da malícia nos visita;
Ou vendo a nuvem fulminar tonante; Quem sabe se por zelo hoje paterno
Ou vendo enfurecer-se o mar profundo? A nosso bem mandar-te aqui medita.
Quem enche o Céu de tanta Luz brilhante? Pois creio bem que contra o fogo Averno
Quem borda a Terra de um matiz fecundo? Trazes a chama, que a do raio imita,
E aquela sala azul, vasta, infinita, Ou que vens como luz, de Etéreo assento,
Se não está lá Tupá, quem é que a habita? Por levar-nos contigo ao Firmamento.

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XI XVI
Pasmava o Lusitano da eloqüência Se o fim do inerte bruto se inquirisse,
Com tão alto pensar numa alma rude; No contexto das obras respondera,
Notando como a Eterna Sapiência Que fora feito, porque nos servisse,
A face a todos mostra da virtude. E que eterno destino não tivera:
E reputava por maior clemência, Onde era bem que a morte destruisse
Que a quem, se a fé conhece, ingrato a ilude; Quem para imortal fim nunca nascera;
Negasse Deus a luz, que os outros viam; Porque lhe dera, a tê-lo, o Céu Divino
Porque tendo-a maior, mais cegariam. Outro corpo, outra forma, outro destino.
XII XVII
Não deixa nunca os seus o Céu piedoso Que o bruto elege, pensa, que discorre
(Diogo respondeu) que à terra indigna Do que o vemos obrar fica evidente;
Manda o seu Unigênito glorioso, Mas cada espécie a um curto fim concorre,
Que ofreça, a quem o invoca, a mão benigna: Sem órgãos, e aptidão com que outro intente.
Mas se antevisse no Homem pernicioso O homem tudo quer, por tudo corre,
Uma livre eleição sempre maligna, Tem órgãos para tudo, e tudo sente;
Por dar-lhe menos pena em menor falta Infinito em pensar, e no que vejo
Em sombra, como à voz, deixa tão alta. Maior que no pensar no seu desejo.
XIII XVIII
Tendes em tanto um claro sentimento, Tudo domina só, tudo governa,
Que espírito imortal se nos concede... Sem que a outro animal servir costume;
Sim, diz Gupeva, que o decide atento, Toda outra espécie à sua é subalterna,
Quem tudo quanto sente parte, ou mede: E se imortal nascera, fora um Nume:
Mas mirando ao seu próprio pensamento, Arbítrio Universal, Razão Eterna,
Vê que a medida sempre intacto excede; Capaz de receber o imenso lume,
E sendo indivisível desta forte, E fora mais, se a morte o dissipara,
Como pode a razão sofrer a morte? Que se Céu, Terra, e Inferno aniquilara.
XIV XIX
Quantas vezes em mim, se ser pudesse, Pasmado Diogo do que atento escuta,
Um pensamento d’alma eu dividira; Não crê que a singular Filosofia
Que todo o mal enfim que o homem padece, Possa ser da invenção da Gente bruta;
Vem d’imagem cruel, que dentro gira. Mas a intérprete bela lhe advertia,
Mas a interna impressão tanto mais cresce, Que a antiga Tradição nunca interrupta
Quanto o peito ansiado mais suspira: Em cantigas, que o Povo repetia,
E vejo que há em mim mesmo oculto, e interno Desde a idade infantil todos compreendem,
Entre a mente, e a verdade um laço eterno. E que dos Pais, e Mães cantando o aprendem.
XV XX
Sendo a mente mortal, tornara ao nada, Que eram pedaços das Canções, que entoam
Ao apagar-se a luz no extremo dia; As que ouvia a Gupeva (e talvez tudo)
E antes de ser punida, ou premiada, Que em Poético estilo doces soam
Uma alma justa, ou ré pereceria; Feitas por Sábios de sublime estudo.
Sempre em desejos, nunca saciada; Que alguns entre eles com tal estro voam,
Má sem castigo; e sem fortuna pia; Que envolvendo-se o harmônico no agudo,
Sem chegar ao seu fim perder a essência... Parece que lhe inflama a fantasia
Como é crível, que Deus tem Providência? Algum Nume, se o há, da Poesia.

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XXI XXVI
Tendo Paraguaçu dito discreta, Dentro nada se vê na sombra escura;
Prossegue então Gupeva os seus assuntos: Mas no vislumbre fúnebre, e tremendo
Que se as almas morressem, que indiscreta Distingue-se com vista malsegura,
A memória seria dos defuntos? Um Antro vasto, tenebroso, e horrendo:
A que servira a Lei, que nos decreta, Ordem nenhuma tem: tudo conjura
Que no sepulcro se lhe ponham juntos Ao sempiterno horror, que ali compreendo:
Comidas, arcos, frechas? quem resiste Mutuamente mordendo-se de envolta,
A quem depois da morte não subsiste? Um noutro agarra, se o primeiro o solta.
XXII XXVII
O inimigo Anhangá, logo que deixa Se viste onda sobre onda procelosa,
A nossa alma esta carne, em fúria a invade, Quando bate escumando a areia funda,
E do mal, que cá fez, cruel se queixa, Como esta aquela engole; e mais furiosa
Até que em sombras entre, ou claridade: Montanha d’água vem, que ambas afunda:
O Rito do sepulcro expresso deixa, Tal na caverna lôbrega horrorosa
Que enterrando-se em pé, na Eternidade Onda, e onda de fogo os maus inunda:
O fim buscamos, a que Deus nos cria; Este sobe; este desce; e um cataclismo
E que antes de o alcançar, se segue a via. Alaga as nuvens, e descobre o abismo.
XXIII XXVIII
Deste princípio nasce, que com prantos Aqui o fero Anhangá caiu, (se conta)
Noite, e dia se chora o seu decesso; Quando do grão-Tupá rompia o jugo;
Louvam-se nos Congressos como Santos, E vem dos Astros, que soberbo monta,
E põe-se no sepulcro um marco expresso: A ser em pena vil, do homem verdugo:
Tantas memórias pois, ofícios tantos Ali com mão cruel, com fúria pronta
A que fim se a alma acaba, eu não conheço: Pune da nossa espécie o vil refugo;
A expiação, e obséquio era frustrado, E em vez de mãos as miserandas Gentes,
Se ela não vive, ou purga algum pecado. Enrosca em laços de cruéis serpentes.
XXIV XXIX
Costumes são da oculta Antiguidade, Ali do grão-Tupá por Lei severa,
Que o grão-Tamandaré desde alta origem No incêndio está, que o tempo não apaga,
Às Gentes ensinou, com que à piedade Quem torpe incesto faz; quem adultera;
Todas no Mundo as almas se dirigem: Quem é réu da lascívia infame, e vaga:
E quando algum conteste esta verdade, Cada um, como a culpa cometera,
Provam-na os Anhangás, que nos afligem, Tanto, e no próprio membro o crime paga:
Pedindo aos Nigromantes que a alma vendam, Fere-se a quem feriu; mas o homicida
No que uma alma imortal nos recomendam. Só porque morra mais, não perde a vida.
XXV XXX
Que é desde nossos Pais fama constante, Sentada em meio da morada horrenda,
Que aonde o Sol se põe nessas montanhas Branca de cãs, e imóvel na manobra,
Há um fundo lugar, de que é habitante Imensa sombra faz, que a cauda prenda
O pérfido Anhangá com cruéis sanhas: Dentro na boca horrível uma cobra:
Ali de enxofre a escuridão fumante Com rouca voz, e intimação tremenda
Com portas encerrou Tupá tamanhas, Ao tempo preso na vipérea dobra
Que as não pode forçar, nem todo o Inferno: Diz, retumbando em eco a cavidade:
A morte é a chave; e o cadeado é eterno. Oh vida! oh tempo! oh morte! oh eternidade!

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XXXI XXXVI
Além da grã-montanha, em que se oculta Uma ave entre outras há que se discorre,
O cárcere das sombras horroroso; Ou fama certa seja, ou voz fingida,
De mil delícias num terreno exulta Que do jardim a nós, de nós lá corre,
Quem vive justo, ou quem morreu piedoso: Como fiel correio da outra vida:
Não se acha imagem nesta terra inculta, Dizem que voa, quando algum cá morre,
Que seja sombra do País ditoso: E exprime no seu canto enternecida
O Templo ali da Paz foi levantado, O que alma passa nas eternidades,
Sempre aberto ao prazer, e à dor fechado. E que nos leva, e traz doces saudades.
XXXII XXXVII
Há do ameno jardim na vasta entrada Neste ameno jardim vivem contentes
Uma grã-porta de safiras belas, As almas, que no Mundo valerosas
Onde da etérea Luz reverberada, A Santa Lei guardaram diligentes,
Se pinta em vasto fundo um mar de estrelas; Obrando ações na vida gloriosas:
Toda ela em torno, em torno decorada Os que foram na guerra mais valentes,
De floridas belíssimas capelas: E a Pátria com ações guardam honrosas;
Junto voragem há de um precipício, E os que em bélico horror com peito forte
Que sorve a quem se encosta infecto em vício. Temem mais uma afronta, do que a morte.
XXXIII XXXVIII
Vêem-se dentro campinas deleitosas, Aqui do grão-Tupá no amado seio
Geladas fontes, árvores copadas; Conversam, dançam, jogam sem fastio;
Outeiros de cristal, campos de rosas, Uns dos males passados sem receio
Mil frutíferas plantas delicadas: Contam da crua guerra o caso ímpio:
Coberto o chão das frutas mais mimosas, Outros da própria morte o golpe feio,
Com mil formosas cores matizadas, Recordam sem pavor, contam com brio,
E à maneira, entre as flores, de serpentes Que o recordar um mal, que é já passado,
Vão volteando as líquidas correntes. Dá depois mais prazer, que então cuidado.
XXXIV XXXIX
Latadas de martírios há sombrias, Ali dos Pais as almas venturosas
Que com a rama, e flor formam passeios; Unidas sempre estão ao Filho amado;
Onde passam sem calma os claros dias, E o prêmio das fadigas laboriosas
Gozando sem temor de mil recreios: Gozam no seio um d’outro sem cuidado:
Chuvas ali não há, nem brumas frias, A Mãe abraça as filhas amorosas;
Nem das procelas hórridas receios; Como o Esposo a Consorte em puro agrado;
Nem há na Primavera, e verdes Maios Sem guerra, sem contenda, sem porfia
Quem receie o trovão, nem tema os raios. Passam tranqüila a noite, e alegre o dia.
XXXV XL
Entre o sussurro ali das fontezinhas, Mas o que é mais suave, o que é mais doce,
Harmônica se escuta a voz sonora, É gozar-se entre tanta amenidade
Com que mil inocentes avezinhas De todo o bom desejo a inteira posse;
Entoam a alvorada à fresca Aurora: Nem ter de cousa vã necessidade:
Muitas com vôos vão ao Céu vizinhas; Oh quem de tanto bem possessor fosse!
Outra segue o Consorte, a quem namora, Grato País! amável liberdade!
E mil doces requebros gorjeando, Onde por graça de Tupá infinita
De raminho em raminho vai faltando. Ninguém padece, teme, ou necessita.

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XLI XLVI
Dizendo assim, Gupeva enterneceu-se, Porém narra-me em tanto o que se pensa
Sentindo a força, que o mortal levanta Entre vós dos princípios deste Mundo:
À Bem-aventurança: comoveu-se Quando? como? por quem na idéia imensa
Também Diogo, vendo que em luz tanta Se tomou a medida ao Céu profundo?
Tão pouco de Deus sabe: a todos deu-se Qual foi o Homem primeiro, e de qual crença?
O eterno lume, cópia da Lei santa; Ou se notícia tens do Adão segundo?
Mas bem que de esplendor inunde um pego, De qual origem sois, ou de qual gente?
Quem é indigno de Deus, fica mais cego. Ou quem veio a povoar tal Continente?
XLII XLVII
Que valem (disse ao bárbaro ignorante) Memória nunca ouvi (Gupeva disse)
Jardins, flores, delícias, e prazeres, Onde o Homem nascesse; mas compreendo,
Faltando o Objeto enfim mais importante, Que houve princípio enfim que o produzisse,
Que é a face de Tupá? pois de a não veres, Que sem fim, e princípio eu nada entendo.
Todo outro bem, que gozes por brilhante, Como o criou não sei: e bem que o visse,
Por belo, por maior, que o conceberes, Não pudera entendê-lo; conhecendo
Para a nossa cobiça mal saciada, Que entre o nada, e o ser há tal distância,
É vil, é vão, é pouco, é fumo, é nada. Que a ti te creio igual nesta ignorância.
XLIII XLVIII
Finge que possa o Homem gozar junto O primeiro Homem na geral lembrança,
Destes bens cá da terra um vasto rio; A Tradição dos velhos mais antigos,
Quanto Deus criar pode, tudo e munto; Antes do grão-Dilúvio não alcança:
Quem dele não gozar, fica vazio: Sabemos só que uns homens inimigos,
Se o Mundo a uma alma basta, eu não pergunto; Do forte braço na falaz confiança,
Que ela goze infinitos, sempre eu fio; Encheram todo o Mundo de perigos,
Que qual hidropesia verdadeira, E deram causa, que o Dilúvio extenso
Quantos mais possuir, tantos mais queira. Num pego sepultasse a terra imenso.
XLIV XLIX
Toda essa glória, que me tens pintado, Do renovado Mundo o Patriarca
Sem mais que um bem do Mundo circunscrito, Desde o alto monte, onde escapou, descendo,
Não é, Gupeva meu, mais que um bocado, Depois que a grã-canoa, e imensa barca,
Para quem só se farta do infinito: Em que ao alto subiu, foi fundo tendo;
E quando tudo o mais se haja logrado, Na prole imensa dominou Monarca,
Se é um bem transitório, se é finito, E as várias Tribos dividido havendo
Em breve hás de sentir, e sem remédio Por Continentes, e Ilhas do mar fundo,
Do futuro ânsia, e do passado tédio. De toda a Gente é Pai, que habita o Mundo.
XLV L
Deus, caro amigo meu, é Deus somente Predisse o Justo Velho o grão-castigo,
Quem pode saciar nossa vontade: E os Homens exortando à penitência,
Chegar à parte aonde o ver contente, Nem à vista do próximo perigo
E vê-lo ali por toda a eternidade: Chamá-los pôde à justa obediência:
Todo o bem nele está sumo, e eminente, Cansado então Tupá da paz amigo
Honra, glória, grandeza, majestade: Do cruel latrocínio, e da violência,
Esta é, se discorres em bom siso, Quis por vingar-se o Padre Onipotente
A idéia, que hás de ter de um Paraíso. Com águas apagar a chama ardente.

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LI LVI
Faz que se abram do Céu, que águas encerra, Daqui por várias terras espalhados
As catadupas, como imensos rios, Os Homens foram, que seus netos cremos,
E que a face inundando-se da terra, Uns que a fronte de nós deixou queimados,
Se afoguem bons, e maus, justos, e ímpios: O claro Sol, que nasce em seus extremos:
Os Elementos em desfeita guerra Outros, que habitam climas apartados,
Confundem-se em medonhos desafios; Dessa cor branca, que em teu rosto vemos;
Cai um mar desde o Céu, e na mesma hora Divididos do mar, por onde as proas
Manda a terra do centro outro mar fora. Endireitam a nós vossas canoas.
LII LVII
Já rota a margem, que nas brancas praias Se sois de nós, se nós das vossas Gentes,
Às ondas posto tinha o grão-Soberano, São cousas, que nós todos ignoramos;
Passam as águas das extremas raias, Pois do paterno chão sempre contentes,
Onde se ajunta com o monte o plano: D’outras terras, e tempos não cuidamos:
O peixe nadador nas altas faias Mas vós, que os mares passeais ingentes,
No ninho está do alígero tucano: Podereis inferir, se os que aqui estamos,
E em seios as baleias ver puderas, Depois que de um Pai só todos nascemos,
Covis dos Tigres, e antros de Panteras. Com alguns entre vós nos parecemos.
LIII LVIII
Iam em tanto os Homens miserandos Que se em vós houve, ou há quem assim trate;
De um monte a outro por fugir das águas, Quem se governe assim, quem edifique,
E sem destino algum bandos, e bandos Ou quem com armas, como nos combate,
Correndo gritam com piedosas mágoas: Quem todo à caça, como nós se aplique:
E os Céus deprecam, que os escutem brandos; Se há quem devore os Homens, quando os mate;
Mas a ira de Tupá com justas fráguas A quem o feroz vulto imberbe fique,
Fulminando centelhas, e coriscos, Desde Tamandaré, que é Pai das Gentes,
Faz maiores os danos, do que os riscos. Podemos crer que são nossos Parentes.
LIV LIX
Via-se em longa tábua malsegura Conserva-se num Povo o antigo rito,
Nadar sobr’água a Mãe desventurada; Se o não altera o rito do estrangeiro;
E tendo ao colo apensa a criatura, E sempre algum vestígio fica escrito
Ora é n’água abatida, ora elevada Por Tradição do século primeiro.
Quem desde o alto das casas se pendura; Vós sabereis, se a História tenha dito,
Quem fabrica de lenhos a jangada; Que houve tempo, em que o Mundo quase inteiro,
Qual da fome mortal horror concebe, Sem sabermos uns d’outros se habitasse;
E crê que é menos mal, se a morte bebe. E como nós erramos, tudo errasse.
LV LX
Tamandaré porém de Tupá amigo, Se os mares nunca dantes navegados
Enquanto a grã-procela horrível soa, Discorrestes por climas diferentes;
Salva o náufrago Mundo pelo abrigo, Sabereis d’outros Homens separados,
Que aos filhos procurou na grã-canoa: Descobertos talvez das vossas Gentes:
E a barca por memória do castigo Que por estreitos, pode ser, gelados,
Elevada deixou sobre a coroa Transitaram nos nossos Continentes:
Das altas serras, que na fama claras, Vós direis, se Homens há na roxa Aurora
Tem nome semelhante ao das Araras. Nus, e pintados, como nós agora?

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LXI LXVI
E porque saibas mais nosso costume, A forma do governo por abuso
Onde julgues melhor da antiga origem, Anárquico entre nós sem Lei se ofrece;
Dir-te-ei como, seguindo o impresso lume, Mas nos que fazem da razão bom uso,
As prudentes Nações cá se dirigem: Justa Legislação reinar parece:
Nem do vício de muitas se perfume Nem nos tomes por Povo tão confuso,
Contra aquelas, que sábias se corrigem; Que um público poder não conhecesse;
Que também entre vós creio se escuta, Há Senado entre nós sábio, e prudente,
Quem tendo boas Leis, tem má conduta. A quem o Nobre cede, e a humilde Gente.
LXII LXVII
De Tupá, que o trovão com fogo manda, Vagamos sempre, e nunca um firme assento
Trememos, como vês, espavoridos; Nos deixam ter da caça os exercícios:
Mas quando vemos que a procela abranda, Buscamos nela os próprios alimentos,
Ficam os Homens de Tupá esquecidos: E habitamos onde a há, ou dela indícios:
E bem suspeito que ness’outra banda E estes são de ordinário os fundamentos
Suceda assim, se o horror vem dos sentidos; De ocupar-nos em bélicos ofícios:
E que entre vós também Gente se veja, Verás as Gentes em contínuo choque
Que não temem Tupá, se não troveja. Sobre a quem o terreno, ou praia toque.
LXIII LXVIII
Quem o blasfeme, afronte, ou quem o chame Em várias castas, e Nações diversas
A ser-lhe testemunha, quando mente, Dividido o Sertão vagar costuma;
Nunca se ouve entre nós com fúria infame, E bem que vagabundas, e dispersas,
E só de o imaginar se assombra a Gente. Concederam-se as Tabas de cada uma:
É raro quem o adore, ou quem o ame; Em guerra, e paz, e em sedições perversas
Mas mais raro será quem insolente Ao Pátrio nome não se nega alguma;
Tenha do Sumo Ser tão cega incúria, E se o Senado o quer, por justos modos
Que trate o nome seu com tanta injúria. Põem-se todos em paz, e armam-se todos.
LXIV LXIX
De extremo culto a Deus há pouco indício; São nos Senados membros, e cabeças
Senão é no que estimas bruto engano Os Velhos Sábios, Capitães valentes;
De fazermos cruento sacrifício, Os que têm socorrido em grandes pressas
Não do sangue brutal, porém do humano. Com conselhos à Pátria mais prudentes:
Vejo à luz da razão, que é feio vício, Destes as ordens dimanando expressas,
Que ao instinto repugna por tirano; Um só senão verá nas nossas Gentes,
Mas matar quem nos mais o crime atiça, Que rompa, não cedendo à Potestade,
Não é vítima digna da Justiça? Este laço da humana sociedade.
LXV LXX
A Justiça do Céu reconhecemos Destes uns da Suprema Divindade
Contra quem delinqüente a profanasse; Ministros são, que nos festivos dias,
Pondo suplícios contra os maus extremos, Fazendo-se qualquer solenidade,
E em justo sacrifício a pena dá-se. O Povo exortam com lembranças pias:
O malfeitor, o réu, quando o prendemos, Honram cantando a eterna Majestade,
Com Sacro rito a cerimônia faz-se: Com sons, que para nós são melodias:
Que quem no sangue ímpio a Deus vindica, Cousas, que se Anhangá corrompeu tanto,
Este o aplaca somente, e sacrifica. Vê-se que nascem de Princípio Santo.

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LXXI LXXVI
Estes Chefes do culto venerando E houvera sem prisão, que é tão suave,
Mantêm-nos a oblação do Povo crente: Dominando entre os Homens desde o Averno
São Mestres santos, e por nós orando, A discórdia cruel, e a inveja grave,
O lume da razão mostra evidente, A conter-se o himeneu no amor fraterno:
Que em tão sublime ofício ministrando, Nasce do amor a paz; o amor é a chave,
Têm direito a que o Público os sustente: É o doce grilhão, vínculo eterno,
Pois neles é mais justo que a Lei valha Que se o vil interesse algum desune,
De comer cada um donde trabalha. Os peitos abre, e os corações nos une.
LXXII LXXVII
Punimos o homicídio: quem mutila, Movidos deste fim por são costume
Quem bate, ou fere, não evita a pena: Julgaram nossos Pais na antiga idade,
A sentença ele a dá. Deve subi-la Que se ofende no incesto o impresso lume,
Qual foi a culpa, com justiça plena: Como contrário à paz da sociedade:
Quem matou, morrer deve: assim se estila E se do Céu preside o Santo Nume,
Por Lei Sagrada, que a Equidade ordena: Ao sossego da triste Humanidade;
Quem cortou pé, ou mão, braço, ou cabeça, Quem duvida que estime pouco honesto
No pé, no braço, e mão tanto padeça. Conhecer-se os Irmãos com feio incesto?
LXXIII LXXVIII
A fé do Matrimônio bem declara, Entre nós quem elege a Esposa amada,
Que o vago amor a Lei ofenderia, Pede ao Pai, ou Parente; e sem pedi-la,
Se se pudera usar sem que um casara, Não se julgara a fêmea desposada,
Quem é que neste Mundo casaria? Por deixar a família assim tranqüila:
Deve morrer quem quer que adulterara; Que se órfã fosse acaso abandonada,
Sem isso quem seu Pai conheceria? Só pertence ao vizinho o permiti-la;
E o que extermina a Pátria Potestade, E convindo ou seu Pai, ou seu Parente,
Quem não vê que repugna a Humanidade. É sem mais Matrimônio de presente.
LXXIV LXXIX
Quem Pai, ou Mãe conhece com incesto, Furto entre nós não há: de que há de havê-lo?
Ou quem corrompe a Irmã, padece a morte: O que há, come-se logo; e sem que o enfade,
Nos ofícios dos Pais é manifesto, Um tira d’outro o que acha, por comê-lo;
Que confusão nascera desta sorte: E anda ao pé da pobreza a caridade:
Ser a filha mulher, não fora honesto, A calúnia, a traição, o amargo zelo
Dominando em seu Pai, como Consorte: Tem por pena a comum inimizade:
Se o Irmão no Matrimônio à Irmã seguira, Nem há, se o entendo bem, maior castigo,
Sempre o Gênero Humano mal se unira. Que o Mundo todo ter por inimigo.
LXXV LXXX
Deve a humana geral sociedade, Outra Lei depois desta é fama antiga,
Para gozar da paz com doce laço, Que observada já foi das nossas Gentes;
Vincular dos mortais a variedade Mas ignoramos hoje a que ela obriga,
De um consórcio feliz no caro abraço: Porque os nossos Maiores pouco crentes,
Deu-nos o Céu por órgão da amizade, Achando-a de seus vícios inimiga,
Deu-nos como outra mão, como outro braço Recusaram guardá-la, mal contentes:
A Consorte, em que o amor com fé se excite; Mas na memória o tempo não acaba,
Não por pasto brutal de um apetite. Que a pregara Sumé Santo Emboaba.

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LXXXI LXXXVI
Homem foi de semblante reverendo, Os feros pois na fúria contumazes
Branco de cor, e como tu, barbado, Tomam as frechas, e bramindo atiram;
Que desde donde o Sol nos vem nascendo, (Mas quanto pelos teus, Tupá, não fazes!)
De um Filho de Tupá vinha mandado: Contra quem atirou pelo ar se viram:
A pé sem se afundar (caso estupendo!) E nem assim se mostram mais capazes
Por esse vasto mar tinha chegado; Dos anúncios de paz, que em tanto ouviram,
E na santa doutrina, que ensinava, Deixa-os Sumé, e um rio aborda cheio,
Ao caminho dos Céus todos chamava. E só com pôr-lhe um pé, partiu-o ao meio.
LXXXII LXXXVII
Com grande mágoa ignora-se o que disse; Contam (e a vista faz que a Gente o creia)
Mas não se ignora, que da santa boca Que onde as correntes d’água arrebatadas,
Um conselho utilíssimo se ouvisse Se vão bordando com a branca areia,
De plantar, e moer a mandioca: Ficaram de seus pés quatro pegadas:
Que havia de tornar, também predisse, Vêem-se claras, patentes, sem que a veia
Desde o Céu, a que amigo nos convoca, As tenha d’água no seu ser mudadas:
E na Terra, ou no Céu, que ele estivera, E enxerga-se mui bem sobre os penedos
Eu o iria encontrar, se ele não viera. Toda a forma do pé com planta, e dedos.
LXXXIII LXXXVIII
Contam que quando aos nossos cá pregava, Assim Gupeva concluiu, dizendo,
Poder mostrara tal nos Elementos, Nem mais tempo ao discurso haver podia
Que às ondas punha lei, se o Mar se irava, Por aviso, que os campos vêm batendo
E de um aceno só domava os ventos: Turba inimiga em vasta companhia:
Os matos se lhe abriam, quando entrava, Às armas, grita, às armas, e o eco horrendo,
E os Tigres feros a seus pés atentos; Retumbando nas árvores sombrias
Pareciam ouvir, como a outra Gente, Fez que as mães, escutando os murmurinhos,
Festejando-o co’a cauda brandamente. Apertassem no peito os seus filhinhos.
LXXXIV LXXXIX
As águas donde quer, em rio, ou lago, Não te espantes, diz Diogo; não alteres
Se as chegava a tocar com pé ligeiro, A paz dentro as cabanas belicosas;
Não pareciam do Elemento vago, Enquanto novas certas não souberes,
Mas pedra dura, ou sólido terreiro: Basta pôr guardas nos confins forçosas:
Só com chamar seu nome, cessa o estrago, De noite não te empenhes, se temeres
Se o furacão com hórrido chuveiro, Que te invadam com tropas numerosas,
Quando na nuvem negra se levanta, Põe-te na defensiva; e bem que freme,
Ou derriba a cabana, ou quebra a planta. Quem te busca de noite, é quem te teme.
LXXXV XC
Porém negando às pregações o ouvido, Quanto mais que o trovão nas mãos preparo
Vinha o Caboclo do Sertão mais bruto Contra teus inimigos neste afogo
Contra o justo Sumé de Deus querido Nem duvides que logo que o disparo,
A matá-lo. e comê-lo resoluto: Tudo em chamas não vá, tudo arda em fogo:
Pudera ele fazer, sendo ofendido, Disse, e ao favor saiu de um luar claro,
Que eles colhessem da cegueira o fruto; Disparando o mosquete em márcio jogo;
Mas pede só prostrado a Deus que o c’roe, E enquanto atira, todo o bosque atroa
E que a ignorância aos míseros perdoe. Pelo horror da buzina, com que soa.

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CANTO IV
XCI I
Qual dos monos talvez tropa nojosa Era o invasor noturno um Chefe errante,
Saiu do interior mato em negro bando; Terror do Sertão vasto, e da marinha,
E se a frecha um derriba, vai medrosa Príncipe dos Caetés, Nação possante,
Em fuga pelas árvores saltando: Que do grão-Jararaca o nome tinha:
Tal ouvindo a buzina pavorosa, Este de Paraguaçu perdido amante,
E o arcabuz com trovão relampagueando, Com ciúmes da donzela, ardendo vinha:
Correm, caem, despenham-se na estima Ímpeto que à razão, batendo as asas,
De que o Céu todo lhe caía em cima. Apaga o claro lume, e acende as brasas.
II
Dormindo estava Paraguaçu formosa,
Onde um claro ribeiro à sombra corre;
Lânguida está, como ela, a branca rosa,
E nas plantas com calma o vigor morre:
Mas buscando a frescura deleitosa
De um grão-maracujá, que ali discorre,
Recostava-se a bela sobre um posto,
Que encobrindo-lhe o mais, descobre o rosto.
III
Respira tão tranqüila, tão serena,
E em langor tão suave adormecida,
Como quem livre de temor, ou pena,
Repousa, dando pausa à doce vida:
Ali passar a ardente sesta ordena,
O bravo Jararaca a quem convida,
A frescura do sítio, e sombra amada,
E dentro d’água a imagem da latada.
IV
No diáfano reflexo da onda pura
Avistou dentro d’água buliçosa,
Tremulando a belíssima figura,
Pasma, nem crê que imagem tão formosa
Seja cópia de humana Criatura;
E remirando a face prodigiosa,
Olha de um lado, e d’outro, e busca atento,
Quem seja Original deste portento.
V
Enquanto tudo explora com cuidado,
Vai dar co’s olhos na gentil donzela;
Fica sem uso d’alma arrebatado,
Que toda quanto tem se ocupa em vê-la:
Ambos fora de si, desacordado
Ele mais, de observar cousa tão bela,
Ela absorta no sono, em que pegara,
Ele encantado a contemplar-lhe a cara.

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VI XI
Quisera bem falar, mas não acerta, Mas sendo de improviso em terror posto,
Por mais que dentro em si fazia estudo: E ouvindo do arcabuz a fama, e efeito,
Ela de um seu suspiro olhou, desperta; Não permite que o susto assome ao rosto,
Ele daquele olhar ficou mais mudo: Mas reprime o temor dentro em seu peito:
Levanta-se a donzela mal coberta; Convoca um campo das Nações composto,
Tomando a rama por modesto escudo; Com quem tinha aliança em guerra feito;
Pôs-lhe os olhos então, porém tão fera, E excitando na plebe a voraz sanha,
Como nunca a beleza ser pudera. Cobre de Legiões toda a campanha.
VII XII
Voa, não corre pelo denso mato Em seis brigadas da vanguarda armados,
A buscar na cabana o seu retiro; Trinta mil Caetés vinham raivosos,
E indo ele a suspirar, vê que num ato, Com mil talhos horrendos deformados,
Em meio ela fugiu do seu suspiro: No nariz, face, e boca monstruosos:
Nem torna o triste a si por longo trato, Cuidava a Bruta Gente que espantados
Até que dando à mágoa algum respiro, Todos de vê-los, fugiram medrosos;
Por saber donde habite, ou quem seja ela, Feios como Demônios nos acenos,
Seguiu, voando, os passos da donzela. Que certo se o não são, são pouco menos.
VIII XIII
De Taparica um príncipe possante, Da Gente fera, e do brutal comando
Que domina, e dá nome à fértil Ilha, Capitão Jararaca eleito veio;
Veio em breve a saber o cego amante Porque na catadura, e gesto infando
Ter nascido a formosa maravilha: Entre outros mil horrendos é o mais feio:
Pediu-lha Jararaca, vendo diante, Que uma horrível figura pelejando,
Ao lado de seus Pais, a bela filha: É nos seus bravos militar aceiro;
Convêm todos; mas ela não consente, E traz entre eles gala de valente,
Porque a mais aguardava o Céu potente. Quem só co’a cara faz fugir a Gente.
IX XIV
Ardendo, parte o bravo Jararaca Dez mil a negra cor trazem no aspecto,
D’ânsia, de dor, de raiva, de despeito; Tinta de escura noite a fronte impura;
E quanto encontra, embravecido ataca Negreja-lhe na testa um cinto preto,
Com sombras na razão, fúrias no peito: Negras as armas são, negra a figura.
E vendo a chama, o Pai, que não se aplaca, São os feros Margates, em que Alecto
Por dar-lhe Esposo de maior conceito, O Averno pinta sobre a sombra escura;
Por Consorte Gupeva lhe destina, Por timbre nacional cada pessoa
Com quem no sangue, e estado mais confina. Rapa no meio do cabelo a coroa.
X XV
Logo que por cem bocas vaga a fama Cupaíba, que empunha a feral maça,
Do Esposo eleito a condição divulga, Guia o bruto Esquadrão da crua Gente;
Irado o Caeté, raivando brama; Cupaíba, que os míseros que abraça,
Arma todo o Sertão, guerra promulga, Devora vivos na batalha ardente:
Tudo acendendo em belicosa chama, À roda do pescoço um fio enlaça,
Investir por surpresa astuto julga, Onde, de quantos come, enfia um dente;
Com que a causa da guerra se conclua, Cordão, que em tantas voltas traz cingido,
Ficando Paraguaçu ou morta, ou sua. Que é já mais que cordão longo vestido.

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XVI XXI
Urubu, monstro horrendo, e cabeludo, Nem tu faltaste ali, grão-Pecicava,
Vinte mil Ovecates fero doma; Guiando o Carijó das áureas terras;
Por toda a parte lhe encobria tudo Tu que as folhetas do ouro, que te ornava,
Com terrível figura a hirsuta coma: Nas margens do teu rio desenterras:
Monstro disforme, horrendo, alto, e membrudo, Torrão, que do seu ouro se nomeava,
Que a imagem do Leão rugindo toma, Por criar do mais fino ao pé das serras;
Tão feio, tão horrível por extremo, Mas que feito enfim baixo, e mal prezado,
Que é formoso a par dele um Polifemo. O nome teve de ouro inficionado.
XVII XXII
Fogem todo o comércio da mais Gente; Muitos destes é fama que traziam
Ou se se vissem a tratar forçados, Desde alto cerro, que habitavam dantes,
Que lhe possam chegar nenhum consente, Com pedras, que nos beiços embutiam
Senão trinta, ou mais passos apartados: Formosos, e belíssimos diamantes:
Se alguns se chegam mais, por imprudentes, Outros áureos topázios lhe ingeriam;
Como Leões, ou Tigres esfaimados, Alguns safiras, e rubis flamantes;
Mordendo investem os que incautos foram, Pedras, que eles desprezam, nós amamos:
E a carne crua, crua lhe devoram. Nem direi quais de nós nos enganamos.
XVIII XXIII
Sambambaia outra turma conduzia, O feroz Sabará move animoso
Que as aves no frechar tão certa vexa, Dos de Agirapiranga seis mil arcos;
Que nem voando pela etérea via Homens de peito em armas valeroso,
Lhe erravam tiro da volante frecha: Que de sangue em batalhas nada parcos,
Era de pluma o manto, que o cobria; Deixaram seu terreno deleitoso,
De pluma um cinto, que ao redor se fecha; Por matos densos, pantanosos charcos,
E até grudando as plumas pela cara, E ouvindo dos canhões o horrendo estouro,
Nova espécie de monstro excogitara. Passaram desde o mar às minas do ouro.
XIX XXIV
Seguem-no dez mil Maques, Gente dura, Seguia-se nas forças tão robusto,
Que em cultivar mandioca exercitada, Quanto no aspecto feio, e em traje horrendo,
Não menos útil é na agricultura, Um, que com fogo sobre o torpe busto
Que valente em batalhas com a espada: Dous Tigres esculpira combatendo:
Tomaram estes, como própria cura, Este é o bravo Tatu, que enche de susto
De víveres prover a Gente armada; Tudo, c’o grão-Tacape acometendo:
Quais torravam o Aipi; quem mandiocas; E que mil cutiladas dando espessas,
Outros na cinza as cândidas pipocas. Derriba troncos, braços, e cabeças.
XX XXV
O bom Sergipe aos mais confederado Debaixo do seu mando em dez fileiras
Consigo conduzia os Petiguares; Doze mil Itatis formados iam;
Que havendo pouco dantes triunfado, Surdos, porque habitando as cachoeiras,
Têm do dente inimigo amplos colares: Com o grão-rumor d’água ensurdeciam:
Seguem seu nome em guerras decantado Pendem os seus marraques por bandeiras
De Gentes valerosas dez milhares, De longas hastes, que pelo ar batiam,
Que do férreo madeiro usando o estoque, Suprindo nos incônditos rumores
Disparavam com balas o bodoque. O ruído dos bélicos tambores.

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XXVI XXXI
Em guerreiras colunas, feroz Gente, Jararaca no mando então primeiro,
Que no horror da figura assombra tudo, Ao Sacro, e Civil rito presidia,
Trazem por armas uma maça ingente, E no mais alto do sublime outeiro
Tendo de duro lenho um forte escudo: Entre um Senado ancião se distinguia:
Frechas, e arco no braço armipotente; Aos outros na estatura sobranceiro
Nas mãos um dardo de pau-santo agudo; Às costas de um Tapuia, que o trazia,
Sobre os ombros a rede, à cinta as cuias, De um lado a outro majestoso corre,
Tal era a imagem dos cruéis Tapuias. E com geral silêncio assim discorre.
XXVII XXXII
Quarenta mil de cor todos vermelha, Paiaias generosos, hoje é o dia,
Conduz ao campo o forte Sapucaia: Que aos vindouros devemos mais honrado;
Dez mil que têm furada a longa orelha, Em que mostreis que a vossa valentia
São Amazonas de femínea laia: Não receia o trovão, subjuga o fado:
É o amor conjugal que lhe aconselha Sabeis que de Gupeva a cobardia
A descer dos Sertões à vasta praia, Por Filho do Trovão tem aclamado,
Por achar-se nos lances mais temidos, Um Emboaba, que do mar viera,
Ao lado sem temor dos seus maridos. Por um pouco de fogo que acendera.
XXVIII XXXIII
Brava matrona de coragem cheia, Prostrado o vil aos pés desse Estrangeiro,
A quem o márcio jogo não perturba, Rende as armas com fuga vergonhosa,
Na forma bela, mas por arte feia, E corre voz que o adora lisonjeiro;
Vai comandando na femínea turba: E até lhe cede com o cetro a Esposa:
Deram-lhe o nome os seus da grã-baleia; E que pode nascer do erro grosseiro,
Nome, que ouvido os bárbaros disturba; Senão que em companhia numerosa
De namorados uns, que a tem por bela As nossas Gentes o Estrangeiro aterre,
Mas outros com mais causa por temê-la. E que a uns nos devore, outros desterre?
XXIX XXXIV
Ouve-se rouco som, que o ouvido atroa, Se o Sacro ardor, que ferve no meu peito,
Retumbando com eco a voz horrenda Não me deixa enganar, vereis que um dia
De um grosseiro instrumento, que a arma soa, (Vivendo esse impostor) por seu respeito
Com que se inflama entre eles a contenda: Se enchera de Emboabas a Bahia:
E quando o horrível som mais desentoa, Pagaram os Tupis o insano feito,
Faz que no peito mais furor se acenda; E vereis entre a bélica porfia
De retrocidos paus são as cornetas; Tomar-lhe esses estranhos já vizinhos,
De ossos humanos, frautas, e trombetas. Escravas as mulheres c’os filhinhos.
XXX XXXV
Com batalhões a espaços separados Vereis as nossas Gentes desterradas
Triplicado cordão se vê composto; Entre os Tigres viver no Sertão fundo,
E em silêncio admirável ordenados, Cativa a plebe, as Tabas arrombadas;
Ao redor vão do outeiro em meio posto; Levando para além do mar profundo
Costuma um Orador falar-lhe a brados, Nossos filhos, e filhas desgraçadas;
E ardendo-lhe mil fúrias sobre o rosto, Ou quando as deixem cá no nosso Mundo,
O ar co’a espada furibundo corta, Poderemos sofrer Paiaias bravos,
E a combater valente a turba exorta. Ver filhos, mães, e pais feitos escravos?

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XXXVI XLI
Mas teme o seu trovão: e tanto oprime Jararaca depois (que é Sacro rito)
O medo àquele vil, que não pondera Lança furioso as mãos a quanto abrange;
Que por esse trovão, que não reprime, E abrindo a enorme boca em fero grito,
Há de ver cheia de trovões a esfera? E escuma, e freme, e ruge, e os dentes range;
Que grande mal será, se o raio imprime? Como do mal Hercúleo o enfermo aflito
Se o Mundo por um raio se perdera, A convulsão a retroceder constrange:
Susto pudera ter, cobrar espanto: Depois falando aos Príncipes, bafeja,
Porém morre de medo, que é outro tanto. E o espírito de força lhe deseja.
XXXVII XLII
Eu só, eu próprio no geral desmaio Cerimônia esta foi do pátrio uso,
Ao relâmpago irei sem mais socorro; Vestígio nacional da antiga idade;
E quando ele dispare o falso raio, Que acaso corrompeu mágico abuso,
Ou descubro a impostura, ou forte morro: Tendo talvez princípio na piedade:
Será de nigromancia um torpe ensaio, Retumba do marraque o som confuso;
Com que o astuto pretende, ao que discorro, E pondo em alto o seu, com gravidade,
Fazer que a nossa tropa desfaleça, À insígnia, no chão tudo se inclina,
Antes que a causa do terror conheça. Como a final de cousa mais Divina.
XXXVIII XLIII
Que se for (que o não creio) o estrondo infando Corresponde o belígero instrumento
Do sublime Tupá triste ameaça, Da feral frauta ao bárbaro marraque;
Fará como costuma, trovejando, E promulgando a marcha àquele acento,
Que matando um, ou outro a mais não passa: Tudo em ordem se pôs ao fero ataque:
Se eu vir que o raio horrível vai vibrando, Marcham contra Gupeva, com intento
A um Homem como eu, nada embaraça: De meter nas cabanas tudo a saque;
Se for mortal quem causa tanto abalo, E porque tudo assombrem com terrores,
Por meio ao próprio raio irei matá-lo. Rompem o ar com bélicos clamores.
XXXIX XLIV
Su, valentes; Su, bravos companheiros, Em tanto no arraial do bom Gupeva,
Tomai coragem: que será no extremo? Sendo a invasão noturna rechaçada,
Embora seja um raio verdadeiro: Convocam-se reclutas, fazem leva
Se não é Deus que o lança, eu nada temo. De Tropa nacional, e da aliada.
Seja quem quer que for o autor primeiro, Enquanto Diogo, a quem a ação releva,
Como não seja o Criador Supremo, Toma na gruta a pólvora guardada,
Não há forças criadas que nos domem; E em vários fogos, que arrojou volantes,
Que sobre tudo o mais domina o Homem. Imita o raio em bombas fulminantes.
XL XLV
Disse o grão-Chefe assim, e entre os furores, Era a Bahia então, donde imperava
Com a mão, que já tinha levantada, O bom Gupeva, povoada em roda,
Bate na espádua aos Príncipes maiores, Pelos Tupinambás, de quem contava
E dá-lhes Orfu dizendo, uma palmada: Trinta mil arcos, brava Gente toda:
Uns nos outros as deram não menores, Taparica seis mil valente armava;
Que assim se incita a multidão armada: E por cumprir-se a prometida boda,
Vinguemo-nos, (gritando) companheiros, Mil Amazonas mais à guerra manda:
Bem que foram seus raios verdadeiros. Paraguaçu gentil todas comanda.

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XLVI LI
Paraguaçu, que de Diogo Esposa Já se avistava o bárbaro tumulto
(Porque mais Jararaca se confunda) Das inimigas Tropas em redondo;
Ia a seu lado a combater briosa, E antes que empreendam o primeiro insulto,
Nem teme a multidão, que o campo inunda: Levanta-se o infernal medonho estrondo:
Usa com ela a Tropa belicosa Os marraques, uapis, e o brado inculto
Da vulgar seta, do bodoque, e funda; Todos um só rumor, juntos compondo,
Leva a Amazona um rígido colete, Fazem tamanha bulha na esplanada,
E co’a espada de ferro o capacete. Como faz na tormenta uma trovoada.
XLVII LII
Com estas forças só (que mais recusa) Tu, rápido Pajé, foste o primeiro,
Sai Diogo à campanha guarnecido, De quem o negro sangue o campo inunda;
Nem sofre a forma do marchar confusa; Que com seres no salto o mais ligeiro,
Mas tudo tem com ordem repartido: Mais ligeira te colhe a cruel funda:
Outro corpo maior de que não usa Paraguaçu lh’atira desde o outeiro;
Deixa em guarda das Tabas prevenido; Chovem as pedras, de que o monte abunda;
Tupinaquis, Viatanos, Poquiguaras, E do lado, e de cima do cabeço,
Tumimvis, Tamviás, Canucajaras. Tudo abatem com tiros de arremesso.
XLVIII LIII
Não mais de duas léguas adiantando, Não ficou no combate em tanto ociosa
O arraial se alojava de Diogo; A frecha do inimigo, que o ar encobre;
Quando o ardente Planeta vai queimando Começa Jararaca a ação furiosa,
A tórrida região com vivo fogo; Dando estímulo ousado ao valor nobre:
E enquanto expira no ar Zéfiro brando, E a turba de Diogo receosa
Buscando numa sombra o desafogo, Foge do grão-Tacape, onde o descobre:
Medita a grande ação, mede o perigo, Que tanto estrago faz, que qualquer fera
Nem despreza por bárbaro o inimigo. Maior entre cordeiros não fizera.
XLIX LIV
Vê bem que espanto causa a invenção nova; Mas quando tudo com terror fugia,
Mas que o tempo consome a novidade; O bravo Jacaré se lhe põe diante:
Tem fim um peito d’aço feito à prova; Jacaré, que se os Tigres combatia,
Mas vendo do inimigo a imensidade, Tigre não há, que lhe estivesse avante.
Por mais que balas o mosquete chova, Treme de Jararaca a companhia,
Reconhece em vencer dificuldade; Vendo a forma do bárbaro arrogante,
Tendo notado já na bruta Gente, Que com pele coberto de pantera,
Que era tão contumaz, como valente. Ruge com mais furor, que a própria fera.
L LV
Pensava assim com reflexão madura, Avista-se um co’outro: a massa ardente
Quando à roda do outeiro divisava Deixam cair com bárbaro alarido;
Densa nuvem de pó, que em sombra escura Corresponde o clamor da bruta Gente,
A multidão confusa levantava: E treme a terra em roda do mugido:
Não cessa um ponto mais: tudo assegura, Aparou Jacaré no escudo ingente
E sem temer a turba que observava, Um duro golpe, que o deixou partido;
Marcha a ganhar o alto; e posto à fronte, E enquanto Jararaca se desvia,
Deu à Tropa em cordão por centro o monte. Quebra a massa no chão, com que o batia.

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LVI LXI
Nem mais espera o Caeté furioso, Muitos sem nome despojou da vida,
E qual Onça no ar, quando destaca, E a quanto encontra o ferro não perdoa:
Arroja-se ao contrário impetuoso, Qual se os cachorros perde embravecida,
E um sobr’outro co’as mãos peleja ataca: No caçador se arroja a fera Leoa;
Não pode discernir-se o mais forçoso; E entre mil dardos, de que a tem cingida,
E sem mover-se em torno a Gente fraca, Dando-lhe asas a dor, saltando voa,
Olham lutando os dous no fero abraço, E ruge, e morde, e no que encontra embarra;
Pé com pé, mão com mão, braço com braço. E onde não pode o dente, imprime a garra.
LVII LXII
Porém enquanto a luta persistia, Tal a forte donzela move a espada,
No sangue em terra lúbrico escorrega Ou talvez lança mão do dardo agudo,
O infeliz Jacaré; mas na porfia E de mil, e mil golpes fulminada,
Nem assim do adversário se despega: Rebate todos no colete, e escuso:
Sobre o chão um com outro às voltas ia; As Amazonas, de que vem rodeada,
E qual o dente, qual o punho emprega, Vendo sobre a Heroína correr tudo;
Até que Jararaca um golpe atira, Onde quer que os contrários se apresentam,
Com que rota a cabeça o triste expira. Acometem, degolam, e afugentam.
LVIII LXIII
Nem mais espera de Gupeva a Gente; Por outro lado o valeroso Diogo
Porque voltando em rápida fugida, A multidão dos bárbaros subjuga,
Deixam nas mãos do bárbaro potente E uns precipita no tartáreo fogo,
Toda a batalha numa ação vencida: Outros obriga com terror à fuga:
Não tarda mais Diogo já presente; Mas uns detêm co’a espada, outros com rogo
E tendo ao lado a Esposa protegida, Urubu, que do sangue a fronte enxuga;
Do outeiro desce, donde tudo observa, E opondo-se entre os mais a Diogo ardente,
E invade armado a bárbara caterva. Restitui a batalha, e anima a Gente.
LIX LXIV
Quem poderá dizer da turba imbele Urubu que na brenha exercitado
Quantos a forte mão talha em pedaços? Um Tigre, que na caça à mãe roubara,
Paraguaçu valente ao lado dele, Tendo-o junto de si domesticado,
Muitos mandava aos lúgubres espaços: A combater consigo acostumara:
Semeando por donde o golpe impele Lança-o a Diogo: o monstro arrebatado
Troncos, bustos, cabeças, pernas, braços; Entre as presas cruéis, que arreganhara,
Nem um momento a fraca Gente aguarda, Ia apesar dos férreos embaraços,
Vendo-a brandir a lúcida alabarda. Com garra, e dente a pô-lo em mil pedaços.
LX LXV
O membrudo Pai com três potentes Mas o Herói bem que de outros investido,
Robustos filhos degolou co’a espada; Enquanto a fera no ar saltando tarda,
E a dous nobres Caetés dos mais valentes, Tendo-se ao fero assalto prevenido,
Tendo a mão para o golpe levantada, Dispara-lhe na fronte uma espingarda:
Com dous reveses, que lhe atira ardentes, E qual raio da nuvem despedido,
Deixou pendentes no ar co’a mão cortada; Quando a fera que o ímpeto retarda,
Babu de um talho que assaltá-la veio, Trêmula ao golpe a vacilar começa,
Co’a cabeça ficou partida ao meio. Salta-lhe em cima, e corta-lhe a cabeça.

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LXVI LXXI
Ao estrépito, ao fogo, ao golpe horrendo, Já mal resiste o Caeté cercado;
À fumaça do tiro ocasionada; E o bom Gupeva, que ao rumor concorre,
Ao ver o busto sobre o chão tremendo, Um corpo de reserva trouxe armado,
E a terrível cabeça sobre a espada; Que à inclinada batalha invicto corre.
A imensa multidão que o estava vendo, Jararaca, que o pé tinha encravado,
Cai por terra sem ânimo assombrada; Vendo que outro remédio o não socorre,
E alguns, que em pé tremendo se suspendem, Por ter a vida, e liberdade franca,
Ao grão-Caramuru todos se rendem. Deixa parte do pé, e a seta arranca.
LXVII LXXII
Jararaca entre tanto que seguira Nos braços vai dos seus mal defendido;
Os que fugiram no primeiro insulto, Mas com a massa, que meneia horrenda,
Por encontrar Gupeva tudo gira, Reprime forte o bárbaro atrevido,
Que nas cabanas se emboscara oculto: Porque não haja quem se acoste, e o prenda:
Ia-o buscando o bárbaro, que ouvira E tendo a forte o caso decidido,
Daquela parte o bélico tumulto, Cede raivoso da cruel contenda;
Com tenção de expugnar a Taba ingente, E ao Sertão retirado não descansa,
Matar Gupeva, e cativar-lhe a Gente. Maquinando em furor nova vingança.
LXVIII LXXIII
Na toca algum das árvores imensas, Paraguaçu porém de glória avara
Algum em meio às ramas se escondia; Seguia na vitória o gênio ativo;
Muitos se emboscam pelas selvas densas, E incauta de Diogo se apartara,
Outro em covas profundas que sabia: Cortando a retirada ao fugitivo:
Porque andando em contínuas desavenças, Anima a multidão, que se emboscara,
Qualquer ao noto asilo recorria; Pessicava potente, por motivo,
Onde entrando o inimigo, sem prevê-lo, Se prevalece a força do contrário,
Saem de toda a parte a acometê-lo. De acudir ao socorro necessário.
LXIX LXXIV
Enquanto a selva passeava escura Este vendo a donzela valerosa
De imortais arvoredos rodeada, Turbar com fúria a Gente amedrentada,
Foi Jararaca que a cuidou segura, Desde o alto lança de árvore frondosa
Ferido sobre o pé de uma frechada: Grosso ramo, que cai de uma pancada.
Ficou-lhe a planta sobre a terra dura, Debaixo dele a Heroína valerosa,
Em tal maneira com o chão cravada, Co’grande peso pelo chão prostrada,
Que por mais que arrancá-la dali prove, Ficou falta de alento, e semiviva,
Despedaça-se o pé, mas não se move. Nãos mãos do cruel bárbaro cativa.
LXX LXXV
Corre a turba a salvá-lo, e em continente Corre a turba feroz contra a donzela,
Voam mil setas desde a espessa rama, Que depois que das armas deixa o peso,
E cad’árvore ali do bosque ingente Descobre a todos a presença bela,
Um chuveiro de tiros lhe derrama: E fica quem a prende ainda mais preso.
Cada tronco é um castelo: ao lado, e frente Da rude multidão, que corre a vê-la,
A oculta multidão bramindo clama; Há quem de a ver tão linda fica aceso,
E o resto, que em cavernas se escondia, Outro que de a ter visto em guerra armada,
Ao rumor da vitória concorria. Ainda a teme com vê-la desmaiada.

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LXXVI LXXXI
Logo que respirou, novo ar tomando, Tudo cede a Amazona, e já salvava
Sente no coração mais desafogo, Paraguaçu mortal da Gente fera,
E alento pouco a pouco vai cobrando, Quando o grão-Pessicava, que observava
Até que entrando em si, chama o seu Diogo: O estrago, que a Amazona ali fizera:
Mas na turba que a cerca reparando, Acomete o esquadrão com fúria brava,
Conhece-se cativa, e desde logo E tudo afugentando o tempo espera,
Noutro fero desmaio fica absorta, Em que a impulso do braço alcance forte
E cuida quem a vê que ficou morta. Degolar a Cotia de um só corte.
LXXVII LXXXII
Salvagem há que cuida de comê-la, Espera ela sem medo, apenas vira
Nem muito se está morta se assegura; Do bárbaro feroz o golpe incerto;
E com fúria voraz contra a donzela, E veloz a uma toca se retira,
A gula acende com a chama impura: Que tinha em duro tronco o tempo aberto:
Nem prezar-se costuma a forma bela Porém repete ali com maior ira
No fero coração da Gente dura; Pessicava outro golpe, e por acerto
E em morrendo qualquer mulher, ou homem, Na valerosa Paca imprime o tiro,
Choram muito, e depois assam-no, e comem. Que tomou com Cotia este retiro.
LXXVIII LXXXIII
Paté com este intento a degolara, Enquanto entrava o bárbaro, e na luta
Se a bela Mangarita que isto via Um, e outro se abraça; o forte Diogo
Desde o mato escondida o não frechara, Que o caso da sua bela infausto escuta,
Deixando-lhe suspensa a mão que erguia: Toma a espingarda, e parte em fúria logo:
Um troço de Amazonas volta a cara, Qual pólvora encerrada dentro à gruta,
E a peleja de novo se acendia; Quando na oculta mina se deu fogo,
Sendo Paraguaçu, que jaz no meio, Arroja penha, e monte, e o que tem diante;
O preço da vitória neste enleio. Tal se envia em furor o aflito amante.
LXXIX LXXXIV
Cotia, que marchara sempre ao lado Tinha afogado Pessicava em tanto
Da desmaiada Heroína em paz, ou guerra, A Amazona infeliz, e a mão lançava
Por vingar, ou remir o corpo amado, Já de Paraguaçu, que no quebranto
Co’fulmíneo Tacape o campo aterra: Apenas levemente respirava:
Piá, Cipó, Açu deixou prostrado, E eis que inventando Diogo um novo espanto,
E faz que a grã-Baleia morda a terra, Traz um tambor, que horrísono soava;
Baleia, que acomete vingativa, E logo que o arcabuz com bala atira,
Por guardar a donzela semiviva. Cai Pessicava, e morde o chão com ira.
LXXX LXXXV
Nem tu, Guarapiranga, à mão formosa Mais não espera a tímida manada,
Pudeste evadir na horrível luta, Ouvindo o estrondo, e os hórridos efeitos:
Que enquanto a Inúbia soas horrorosa, Quem parte logo em fúria declarada;
Com que às armas se acende a Gente bruta. E quem lhe rende humilde os seus respeitos:
Cotia com a espada valerosa, Paraguaçu porém desassombrada,
A música feral que se te escuta, Sendo os contrários com terror desfeitos,
Nos Antros retumbar te faz do Averno; Acordou num suspiro, e solta viu-se;
Melodia, que é digna só do inferno. E conhecendo Diogo, olhou-o, e riu-se.

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CANTO V
I VI
Débil em tanto a luz sobre o Horizonte, Quantos criar pudera que o servissem,
Os seus trêmulos raios apagava, Deixando de criar quem o agravasse;
E desde o Ocidental imenso monte, Onde todos a vê-lo ao Céu subissem,
A noite pelas terras se espalhava: E as obras que produz todas salvasse?
Morfeu deixando os antros de Aqueronte, Nossos pais se dos filhos tal previssem,
No seio dos mortais se derramava; Quanto fora cruel quem os gerasse?
Mas da bárbara Gente que fugia, E creremos da excelsa grã-Bondade
Só s’entregava ao sono a que morria. Que ceda a nossos Pais na humanidade?

II VII
Fatigado Diogo ao lado estava Segredos são (diz Diogo) da inescrutável
Da bela Esposa numa grã-floresta; Majestade de Deus: que saberemos
Nem ao preciso sono lugar dava Do seu modo de obrar sempre inefável,
Na atenção de a guardar da Gente infesta: Se o que somos, e obramos não sabemos?
Um do outro os sucessos escutava, Faltando-nos razão clara, e provável
Nutrindo em novo fogo a chama honesta; Nos conselhos de Deus, que ocultos vemos,
Que depois que um triunfa do inimigo, É bem que toda a dúvida se acabe,
Faz-se doce a memória do perigo. Porque ele pode mais, do que o Homem sabe.

III VIII
Ao resplendor da Lua que saía, Mas se há lugar à humana conjectura
Misturava-se o horror com a piedade, Dos possíveis na longa imensidade,
Porque em lagos de sangue só se via Não se podia achar uma criatura,
Sanguinolenta horrível mortandade: Que goze d’impecável liberdade:
O vale igual ao monte parecia, Uma firme inocência é graça pura;
E do estrago na vasta imensidade, É mercê liberal da Divindade;
O outeiro estava, donde foi o assalto, E quem em tanto a perguntar se atreve,
Com montes de cadáveres mais alto. Por que lha não quis dar, quem lha não deve?

IV IX
Não pode vê-lo a bela Americana, Desde a Origem da imensa Eternidade,
Sem que a tocasse um triste sentimento; Que tudo sem princípio ordena, e rege,
E ou fosse condição da Gente Humana, Devemos presumir da Divindade,
Ou do seu sexo um próprio movimento: Que onde o Ótimo encontra, em tudo o elege:
Chorou piedosa a forte desumana, E sendo em nós tão grande a iniqüidade,
Dos que apartados do terreno assento Não temos cousa, que a qualquer se inveje;
Jaziam, como ouvira de Diogo, Onde se os mais possíveis vendo fores,
Nas lavaredas de um eterno fogo. Nós somos os eleitos por melhores.

V X
E como (compassiva disse) é crível Embora seja assim; (disse a donzela)
Que um Deus, como me pintas, bom, e amável, Mas que culpa tem estes, que o ignoravam?
Sabendo o que há de ser, e o que é possível, Não cuida acaso Deus, ou pouco zela
Nos crie para fim tão miserável? As almas, que entre nós se condenavam?
Antevendo um sucesso tão terrível, E senão, porque causa aos mais revela
Não parece crueldade inexcusável As doutrinas, que aos nossos se ocultavam?
Dar-lhe o ser, dar-lhe a vida, dar-lhe a mente Distava mais do Céu a nossa Gente,
Para vê-los arder eternamente? Por que medeia o mar d’Este a Poente?

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XI XVI
Tornai a culpa a vós; e a vós somente Embiara, e Mexira, dous possantes
(o Herói responde assim) Se com estudo Mancebos Caetés de um parto vindos,
Procurais sobre a Terra o bem presente, Que Ainubá dera à luz tão semelhantes,
Por que não procurais o Autor de tudo? Como tenros na idade, e em gesto lindos:
Para o mais tendes lume, instinto, e mente; Muitas donzelas, que os amaram dantes,
Somente contra Deus buscais o escudo Os belos dias seus choravam findos;
Em a vossa ignorância à brutal culpa! Mitigando o desgosto de perdê-los
Essa ignorância é crime, e não desculpa. Com a intenção, que tinham de comê-los.
XII XVII
Porém já da fadiga desvelada Estes na corda têm os da Bahia,
Cerrava Paraguaçu seus olhos claros, Dispostos a morrer no torpe abuso,
Tendo-a Diogo na fé mais confirmada, De celebrar com sangue o fausto dia
Com responder prudente aos seus reparos: Das vítimas triunfais ao Pátrio uso:
Enquanto a bruta Gente aprisionada, Embiara, que com arte a pedra envia,
Mostrando-se da vida nada avaros, Muitas no Povo disparou confuso,
Dançam, e bebem com tripúdio forte, E apesar dos escudos, que põe diante,
E esperam, como boda, a cruel morte. Alguns feriu da turba circunstante.
XIII XVIII
Gupeva triunfante na grã-Taba Uma grã-pedra ao ar nas mãos levanta;
O infausto prisioneiro à morte guia, E erguendo os braços sobre a fronte a atira:
E antevendo que a vida se lhe acaba, Lança por terra alguns, outros quebranta,
A mulher cada um lhe oferecia: E esmaga com o peso o grão-Tapira:
Trazem-lhe o peixe, as carnes, a mangaba, Outras três arrojou com fúria tanta,
Brindando-lhe o licor, que a taça enchia, Que se d’atorno a Gente não fugira,
Até que quando menos se recorda, Com os tiros que o bravo lhe dispara,
Dous Salvagens o prendem numa corda. Em vingança cruel no chão ficara.
XIV XIX
Soltas as mãos lhe ficam, que meneia, Mexira noutro lado era detido
Nem o tem mais que em meio da cintura Com o duro cordão; porém sem medo,
A soga de algodão, como cadeia, Ao bárbaro Piri, que o tem cingido,
Que de uma parte, e de outra os assegura: Esmigalha a cabeça c’um penedo:
Qual Leoa feroz na Maura areia, Foge o Povo com pedras rebatido;
Quando o laço no ventre a tem segura, Mas Mexira na corda atado, e quedo,
Toda da fronte a cauda se retorce, Com três pedaços de uma ingente roca,
E ruge, e vibra a garra, e o corpo torce. Uns derriba no chão, e outros provoca.
XV XX
Muitos então da furibunda Gente Sai então Tojucane em campo ardente,
Dizem-lhe injúrias mil, com mil insultos, E ao som dos seus marraques aplaudido,
Que ele se esforça a rebater valente, Um cinto tem de plumas sobre a frente,
Sem que receie os bárbaros tumultos: Manto ao ombro de pluma entretecido:
Algum ali chegando ao paciente Tinto de negro todo, a cor somente
(Que tem por cousa vil morrer inultos) Traz natural no vulto enfurecido;
Dá-lhe um cesto de pedras recalcado, E por meter no horror maior respeito,
Com que atirando aos mais, morra vingado. Com o beiço inferior varria o peito.

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XXI XXVI
A cara, peito, braços (vista horrenda!) Dizendo assim na fronte a espada ingente,
Traz com golpes cruéis acutilados: Deixa o fero cair com golpe horrendo;
Golpes, com que o valor se recomenda, Cai por terra Embiara, ainda vivente;
Feitos da própria mão com talhos dados: Mexira morto já, porém tremendo:
Onde se a chaga apodreceu tremenda, Mordeu aquele o chão com fúria ardente,
Em meio do asco, e horror desfigurados, E em cima o matador co’pé batendo:
Vendo a Gente brutal que um não se dói, Morre, soberbo, diz, e serás vasto
Este então (que ignorância!) é o seu Herói. Para nosso troféu vingança, e pasto.
XXII XXVII
Desta arte Tojucane armado vinha, Qual se diz que a Tifeu subjuga um monte,
Posto ao vê-lo em silêncio, em pasmo tudo; Tal a planta cruel Embiara oprime;
Atira-lhe Embiara (que ainda o tinha) E como a cobra faz, se junto à fonte
Um penedo, que rompe o forte escudo: Toda em nós quebrantada se comprime:
O Tacape ele então desembainha, Retorcendo em mil voltas cauda, e fronte,
Que de plumas ornou com belo estudo, Que ergue, vibrando a língua, no ar sublime,
E encostando-se ousado à longa corda, Tal o infeliz morrendo em voltas anda,
Aos dous fortes irmãos falando aborda. E o espírito exalado às sombras manda.
XXIII XXVIII
Não sois vós (disse o bárbaro) traidores, Chega às cruentas vítimas chorosa
Os que a matar-nos com furor viestes, Femínea tropa, que com dor lamenta;
E sem respeito aos míseros clamores, E urlando todas com a voz maviosa,
Os nossos tenros filhos já comestes? Tudo vai repetindo a plebe atenta:
Somos (disseram) nós: os teus furores Depois daquela lástima enganosa,
Sem o laço, em que agora nos prendestes, Qualquer junto aos cadáveres se assenta,
Soubéramos domar: e assim cativo, E vão talhando pés, cabeças, braços,
A ver-me solto, te comera vivo. E as vítimas fazendo em mil pedaços.
XXIV XXIX
Vivo, nem morto a mim me não tocaras, Chamam moquém as carnes, que se cobrem,
Porque se braço a braço te mediras, E a fogo lento sepultadas assam;
Ou imóvel de espanto em pé ficaras, Tudo em cima com terra, e rama encobrem,
Ou de um só golpe (diz) no chão caíras: Onde o fogo depois com lenha façam:
Verias bem, se agora nos soltaras, Em tanto as voltam, cobrem, e descobrem,
Como logo (responde) me fugiras: Até que do calor se lhe repassam:
Não queira de valente ser louvado, Detestável empresa, que escondiam
Quem pretende triunfar de um desarmado. Da indignação de Diogo, a quem temiam.
XXV XXX
Esse vão pensamento melhor fora Foi avisado o Herói do ato execrando,
Que o tiveras, como eu, no campo, bravo; Horrível pasto da Nação perversa,
Mas tu (diz Tojucane) na mesma hora E a maneira oportuna meditando
Te viste combatido, e foste escravo: Da bárbara função deixar dispersa:
Como te atreves a gloriar-te agora Mil fogos de artifício ia espalhando,
Com vil jactância, com soberbo gabo? De horrível forma, e de invenção diversa:
A quem de resistir falta a constância, Treme a vil turba, e sem que a mais se arroje,
Não fica mais lugar para a jactância. Deixa o pasto cruel, e ao mato foge.

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XXXI XXXVI
Confusa a insana Gente do sucesso, São n’água, terra, e mar mui diferentes
Do grão-Caramuru temia a vista, Os Anhangás, que reinam divididos:
Foge Gupeva de terror opresso, Uns, que só no ar, e fogo são potentes,
Nem sabe, em nem que maneira ao mal resista: Causam ventos, trovões, raios temidos;
Mas o novo pavor na Gente impresso O terremoto, e pestes sobre as Gentes
Mitiga Paraguaçu, que o dano avista, Movem outros na terra conhecidos:
Se, como teme, o Povo de espantado, Este porém, que ao estrangeiro acode,
O terreno deixasse abandonado. N’água não poderá, se em fogo pode.
XXXII XXXVII
Jararaca entretanto conduzido Parece à rude Gente este discurso,
Dos bravos Caetés à Taba nota, Segundo os seus princípios concludente;
Diligente curava o pé ferido, E ouvido com aplauso no concurso,
E em reparar cuidava a grã-derrota: Votam na execução concordemente.
E havendo no conselho a liga unido, Toma a guerra portanto um novo curso,
As forças representa, os meios nota, E ao mar se envia a belicosa Gente;
E Nigromante crê por perda tanta Nem Capitão há mais, nem há pessoa,
O grão-Caramuru, que o fogo encanta. Que não se embarque em rápida canoa.
XXXIII XXXVIII
Já na grã-Taba os bárbaros se ajuntam, Chamam canoa os nossos nesses mares
Onde contra Diogo arte se estude, Batel de um vasto lenho construído,
E por Magos famosos, que perguntam, Que escavado no meio, por dez pares
Recorriam de encantos à virtude: De remos, ou de mais voa impelido:
Os Nigromantes vêm que os corpos untam, Com tropas, e petrechos militares,
E nos sussurros do seu canto rude Vai de impulso tão rápido movido,
Esperam que também ao forte Diogo, Que ou fuja da batalha, ou a acometa,
Matando privem do temido fogo. Parece mais ligeiro que uma seta.
XXXIV XXXIX
Um deles, que por sábio se acredita, Concorrendo as Nações do Sertão junto,
Não há (disse) quem possa a ardente frágua Trezentas, ou mais arma Jararaca;
Apagar no trovão, que o raio excita, E tendo escolha, porque o Povo é munto,
Lastimosa ocasião da nossa mágoa: Deixa em terra das Gentes a mais fraca.
Que se o antídoto ao fogo se medita, E sendo da Bahia tão conjunto
Mais natural não há que lançar-lhe água: O ilhéu de Taparica, este se ataca,
Dentro n’água se apaga o fogo ardente; Na esperança que Diogo acudiria,
E este é o meio, que ocorre de presente. Vendo o sogro em perigo, que o regia.
XXXV XL
Contra as vossas canoas não se atreve Repousava sem susto Taparica;
O Filho do Trovão, se desce ao porto; E confiado em Diogo, e na vitória,
Vós o vereis sem força em tempo breve Gozava de uma paz tranqüila, e rica,
Sair, qual já saiu das águas morto: Depois que a guerra terminou com glória;
Ninguém há, que não saiba como esteve, E quando a rouca Inúbia arma publica,
Quando o encontramos náufrago no porto: Tão longe tinha as armas da memória,
Nem usou do trovão, que espanta em terra, Que ignorando em sossego os seus perigos,
Nem fez com fogo n’água a horrível guerra. Nas mãos se foi meter dos inimigos.

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XLI XLVI
Prendem o inerme Chefe de improviso, Qual, se na Selva densa o fogo ateia,
Acometendo a Taba descuidada: Em colunas de fumo voa a chama,
A chama, e fumo dão infausto aviso E a lavareda, que pelo ar ondeia,
Ao bom Diogo da bárbara assaltada: Traspassando se vai de rama em rama:
Nem impulso maior lhe era preciso, Tal na Bahia de canoas cheia
Vendo a Ilha dos Bárbaros tomada: Um Dilúvio de fogo se derrama;
Ocupa em pressa as armas, e as canoas, E o bárbaro de horror, de espanto, e mágoa
Sem mais que Paraguaçu com cem pessoas. Foge à morte do fogo, e escolhe a d’água.
XLII XLVII
Vinte bombas de pólvora tem cheias, Jararaca entretanto em terra estava,
De que uma parte já das naus salvara; Donde prendera o incauto Taparica,
Quatro férreos canhões, que entre as areias E raivoso das praias observava
Por nadadores bons do mar tirara: Toda a frota naval, que em cinzas fica:
Metralhas, palanquetas, e cadeias, Foge dispersa a tropa, que levava;
Pistolas, e fuzis, que preparara; E logo que a vitória se publica,
Canoas três de pólvora, e refina, Toda a Ilha, que as armas arrebata,
Que lançar nas contrárias determina. O tímido Caeté subjuga, ou mata.
XLIII XLVIII
Forma-se em meia Lua a vasta armada, Nem já dos inimigos se descobre
Cuidando de encerrar Diogo em meio, Uma canoa só no lago ingente;
E com nuvem de frechas condensada E o mar de mil cadáveres se cobre,
A áurea luz do Sol a impedir veio: Sem que saiba aonde fuja a infeliz Gente.
Firme estava do Herói a turba irada; Que Gupeva entretanto a praia encobre,
E coalhando-se o mar de lenhos cheio, Embaraçando a fuga ao Continente;
Retumba o eco na Bahia toda Grande parte desde a água o braço estende,
Pela Gente brutal, que urlava em roda. E a liberdade com a vida rende.
XLIV XLIX
Até que a tiro os vê do bronze horrendo; Não assim Jararaca, que na praia
E sem mais esperar, dispara fogo, Põe por escudo o infausto Taparica;
Que tudo com metralha ia varrendo, E ameaça matá-lo, quando saia
E a pique dez canoas meteu logo: Em terra Diogo, que suspenso fica.
Saltam muitos de horror no mar, tremendo: Vê o transe a filha, e sobre as mãos desmaia
Alguns deixando o remo, as mãos de Diogo Do caro Esposo, e pelo Pai suplica:
Com bombas ardem, que feroz lhe lança, E vê-se Diogo em lance embaraçado,
Outros a espada de vizinho alcança. Sem saber como salve o desgraçado.
XLV L
Confusas entre si vão flutuando Atirar-lhe quisera; mas duvida,
As canoas, que a Gente não regia; Na intenção de matá-lo vacilante;
E uma vai sobr’outras embarrando Vendo do Sogro ameaçada a vida,
Na desordem, que todas confundia: E quase sem alento a Esposa amante:
As três incendiárias arrojando, Três vezes pôs a mira dirigida;
Um Dilúvio de fogo n’água ardia, Três vezes se deteve a mão constante;
Com tal fumaça nas ardentes fráguas, E em terra, e mar a um tempo a ação retarda,
Que cobrindo-se o ar, fervem as águas. Jararaca ao bastão; ele à espingarda.

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LI LVI
Que mais espero (diz) feri-lo é incerto; Nem duvidou Diogo imaginando,
Mas é claro na mão desse inimigo, Quanto domar importa a Gente bruta,
Que em qualquer caso enfim o dano é certo, Aceitar das Nações o excelso mando,
E cresce na tardança o seu perigo: E consigo prudente os fins reputa:
Disse, e toma por alvo descoberto, Ouve-se em nome seu público bando,
A fronte do contrário, e neste artigo Que a bárbara caterva humilde escuta;
Dispara o tiro, e a bala lhe atravessa Em que todo o homicídio se proíbe,
De uma parte à outra parte da cabeça. E com pena de morte a culpa inibe.
LII LVII
Cai Jararaca em terra ao mesmo instante, Julga porém ao ver inveterada
Qual penhasco, que do alto se derroca, A bárbara paixão na Gente cega,
Quando o raio, que o arroja fulminante, Que a grave pena ao crime decretada,
Desde cima o arrancou da excelsa roca: Convém dissimular, se ao caso chega:
Num rio a terra se banhou fumante A tudo a Gente bárbara humilhada,
Do negro sangue, donde pondo a boca, Só na gula cruel a emenda nega,
Morde raivoso a areia, em que caíra, Por bárbara vingança carniceira,
E o torpe alento com a vida expira. Que tanto pode a educação primeira.
LIII LVIII
Já neste tempo se encontrava amigo Não tardou logo a ocasião de vê-lo,
Taparica, e Diogo em terno abraço, Porque apenas deixara a companhia;
Vendo por terra o pérfido inimigo, O próprio Taparica sem temê-lo
Que tremendo ocupava um vasto espaço: Ao convite cruel se prevenia:
Paraguaçu, que aflita do perigo Bambu, que fora ao ponto de prendê-lo,
Sem sentido ficou no horrível passo, Quem lhe lançara as mãos com ousadia,
Torna a si do desmaio, e vê piedoso Preso em canoa o Régulo conserva,
O Pai, que a tem nos braços, com o Esposo. Por pasto infando à bárbara caterva.
LIV LIX
Alegre vem do oposto Continente Estava o desditoso encadeado,
Em canoas Gupeva a Taparica, E exposto a mil infectos que o mordiam,
Congratular-se com o Herói valente, Nem se lhe via o corpo ensangüentado,
Que morto Jararaca, em calma fica: Que todo os marimbondos lhe cobriam:
Pasma de ver o estrago a insana Gente, Corria o negro sangue derramado
Que os arcos abatendo a paz suplica; Das cruéis picaduras, que lhe abriam;
E respeitando a superior Potência, E ele imóvel em tanto em tosco assento,
Compensavam a paz com a obediência. Parecia insensível no tormento.
LV LX
Chegaram do Sertão dez mensageiros Vendo Diogo o infeliz, quanto padece
Em nome das Nações, que em guerra andavam, No modo de penar mais desumano;
Confirmando com pactos verdadeiros Maior a tolerância lhe parece,
A inteira sujeição, que ao Luso davam: Do que possa caber num peito humano:
Vem entr’eles os Príncipes primeiros, E como Autor do crime reconhece,
E com os ritos, que na Pátria usavam, Do cruel Sogro o coração tirano,
Príncipe aclamam com festivo modo Oferece a Bambu, que a morte ameaça,
O Filho do Trovão, do Sertão todo. Socorro amigo na cruel desgraça.

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LXI LXVI
Perdes comigo o tempo (disse o Fero) Impossível parece ao Sábio Herói
Ao que vês, e ainda a mais vivo disposto: O que vê, e o que escuta, e que assim possa,
A liberdade, que me dás, não quero; Quando a carne mortal tanto se dói,
E da dor, que tolero, faço gosto: Vencer-se a dor da fantasia nossa:
Assim vingar-me do inimigo espero, Magoado interiormente se condói
Disse; e sem se mudar do antigo posto, De ver, que no infeliz nada faz mossa;
As picadas cruéis tão firme atura, Mostrando na brutal rara constância,
Como se penha fora, ou rocha dura. Com tal valor tão bárbara ignorância.
LXII LXVII
Se o motivo, diz Diogo, porque temes, Tinham disposto em tanto no terreiro
É porque escravo padecer receias; As Nações do Sertão pompa festiva,
E tens por menos mal este, em que gemes, Criando Diogo Principal primeiro
Do que uma vida em míseras cadeias: Com aplauso geral da comitiva.
Depõe o susto, que sem causa tremes: Vê-se ornado de plumas o guerreiro,
Penhor te posso dar, por onde creias, E como em triunfo a multidão cativa,
Depondo a obstinação do torpe medo, E sobre os mais num Trono levantado
Que a vida, e liberdade te concedo. Cingem de pluma o vencedor coroado.
LXIII LXVIII
Aqui da fronte o bárbaro desvia A roda, como em círculo, prostrados
Dos infectos co’a mão a espessa banda; Sessenta Principais das Nações feras
E a Diogo, que assim se condoía, Em nome de seus Povos humilhados,
Um sorriso em resposta alegre manda. Submissões rendem com temor sinceras:
De que te admiras tu? Que serviria Tujucupapo, estando os mais calados,
Dar ao vil corpo condição mais branda? Grão-Filho do Trovão (disse) que imperas
Corpo meu não é já, se anda comigo, Em terra, e mar com glória combatendo,
Ele é corpo em verdade do inimigo. Tu domaste com o raio horrendo.
LXIV LXIX
O espírito, a razão, o pensamento Não te cedera não dos nossos peitos
Sou eu, e nada mais: a carne imunda A varonil constância em guerra humana;
Forma-se cada dia do alimento, Nem da morte tememos os efeitos,
E faz a nutrição, que se confunda: Se a contenda não fora sobre-humana:
Vês tu a carne aqui, que mal sustento? Rendemos-te fiéis nossos respeitos,
Não a reputes minha: só se funda Depois que o teu valor nos desengana,
Na que tenho comido aos adversários; Que em teus combates todo o Céu te assiste;
Donde minha não é, mas dos contrários. E a quem socorre o Céu, quem lhe resiste?
LXV LXX
Da carne me pastei continuamente As Nações do Sertão já convencidas,
De seus filhos, e Pai: dela é composto Põe a teus pés os arcos, e as espadas:
Este corpo, que animo de presente, Suspende o raio teu; protege as vidas
Por isso dos tormentos faço gosto. Desde hoje ao teu Império sujeitadas:
E quando maior pena a carne sente, E se tens, como creio, submetidas
Então mais me consolo, no suposto As procelas, as chuvas, e as trovoadas,
De me ver do inimigo bem vingado, Não espantes com fogo a humilde Gente;
Neste corpo, que é seu, tão maltratado. Mas faze-nos gozar da paz clemente.

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CANTO VI
I
LXXI
A teu comando estão sem replicar-te Descansava no seio então Diogo,
Os povos deste vasto Continente; Extinta a guerra, de uma paz dourada,
E farás com teu nome em qualquer parte, E o pavor do sulfúreo horrível fogo
Que te obedeça a valerosa Gente. Trazia a Gente bárbara assombrada:
Faze com o favor que haja de amar-te, As remotas Nações concorrem logo,
Como a tens com terror feito obediente; Desde a interna região mais apartada;
Que se troveja o Céu na esfera escura, E tendo-o do trovão por viva imagem,
A Luz manda também formosa, e pura. Vinha todo o Sertão dar-lhe homenagem.
II
LXXII
Não foi acaso (disse o Herói prudente, Muitos deles, dos povos subjugados,
Respondendo ao discurso) foi destino Que o efeito viram da terrível chama;
Querer o grão-Tupá que a vossa Gente Outros vinham somente convocados
A mão conheça do Poder Divino: Das heróicas ações, que conta a Fama:
Do Céu, que sobre vós brilha luzente, Trazem plumas, e bálsamos prezados,
Se receberdes o sagrado ensino; E outra rude opulência, que o povo ama,
Livres com glória do tirano Averno E com os dons da Americana Ceres,
Sobre ele reinareis num fólio eterno. Oferecem-lhe as filhas por mulheres.
III
LXXIII
Porém por serdes na ignorância rude, Era antigo dos bárbaros costume,
Incapazes de ouvir o mais em tanto, Quando algum Capitão foi bravo em guerra,
Buscai com a razão maior virtude, Ou se julgavam que o regia um Nume,
Implorando o favor do Trono Santo: Emparentá-lo aos Principais da terra:
E quando a vossa fé pedi-lo estude, Qualquer que de nobreza então perfume,
Vereis da antiga serpe no quebranto Do grão-Caramuru, que tudo aterra,
Florescer nesta Pátria d’improviso Procura, como nobre preminência,
Uma imagem do ameno Paraíso. Ter na sua prosápia a descendência.
IV
LXXIV
Disse o Herói generoso; a turba imensa Tuibaé, dos Tapuias Chefe antigo,
Em final de prazer com grata dança, Tiapira lhe oferece celebrada;
Vão em fileiras com a mão extensa, E com a mão da filha deixa amigo
Fazendo com os pés vária mudança: Uma ilustre aliança confirmada:
Uma perna bailando tem suspensa, Xerenimbó trazia-lhe consigo
E turma sobre turma em modo avança, A formosa Moema já negada
Que idéia dão dos bélicos ataques, A muitos Principais, por dar-lhe Esposo
Retumbando entretanto os seus marraques. Digno do tronco de seus Pais famoso.
V
LXXV
Os Nigromantes, que o Brasil respeita, Muitas outras donzelas Brasilianas
Um marraque descobrem venerado; A mão do claro Diogo pertendiam,
Insígnia da Nação, que ao povo aceita, Ou por prendas, que notam soberanas,
Consideram por Símbolo Sagrado: Ou por grandes ações, que dele ouviam:
O Sacerdócio, como turma eleita A todos ele deu mostras humanas
No ministério ao culto dedicado, Sem a fé lhe obrigar, que pertendiam;
Pôs o bárbaro termo à função toda, Mas por não ofender as brutas Gentes,
Bafejando nos Príncipes à roda. Trata os Pais, e os Irmãos como parentes.

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VI XI
Paraguaçu porém com fé de Esposo Dentro vêem-se magníficas Capelas,
Parecia estimar distintamente, Sustentadas de esplêndidas colunas;
Mostrando-lhe no afeto carinhoso Pelo teto entre nuvens giram estrelas,
A sincera afeição que n’alma sente: E sobre o rio a um lado tem tribunas,
Amava nela o peito valeroso, Que servindo-lhe a um tempo de janelas,
E o gênio dócil, com que à fé consente; Dão luz a todo o Templo; e quando lhe unas
Amor que ocasionou, como é costume, Quantos prodígios o lugar encerra,
Em algumas inveja, e noutras ciúme. Maravilha maior não cobre a Terra.
VII XII
Todas à bela Dama aborrecendo, Capela ali se vê de entalho nobre,
Conspiram feras em tirar-lhe a vida; Obrado com desenho estranho, e vário,
Mas ela que o projeto alcança horrendo, Onde esfigiado em mármore, se cobre
Deixar pertende a Pátria aborrecida: Um natural belíssimo Calvário:
E na viagem de Europa discorrendo, Vê-se a base da Cruz, mas nada sobre;
Deseja renascer à melhor vida; De jaspe ainda melhor que Egizio, ou Pário:
Impulso santo, que com justa idéia E ao lado um posto em proporção distinta,
Move Diogo a deixar aquela areia. Onde a Mãe, e Discípulo se pinta.
VIII XIII
Agitado do vário pensamento, Chegado Diogo a ver prodígio tanto,
Na margem se entranhou do vasto rio, Pelo estranho espetáculo suspenso,
Que invocando o Seráfico portento, Penetra-se no peito de horror Santo,
Chama de S. Francisco o Luso pio: Por não sei que Sagrado oculto senso:
E estando o Sol no seu maior aumento, Depois rompendo num devoto pranto,
Quando sitio no ardor busca sombrio, Prostrado em terra, adora o Deus imenso,
Numa lapa, que esconde alto mistério, Que quando ser ao mar, e à terra dava,
Foi achar para a calma o refrigério. O alicerce à grã-fábrica lançava.
IX XIV
Por mil passos a penha milagrosa Eis aqui preparado (disse) o Templo,
Estende em roda o giro dilatado; Falta a fé, falta o culto necessário;
Obra da Natureza prodigiosa, E quanto era de Deus, feito contemplo
Quando o Globo terráqueo foi criado: Tudo o que é de salvar meio ordinário:
Concavidade há ali vasta, espaçosa, Desta intenção parece ser exemplo
Onde tinha o Criador delineado, Este insígne prodígio extraordinário;
Com capela maior, nave, e cruzeiro, Onde parece que no Templo oculto,
Um Templo, como os nossos, verdadeiro. Tem disposto o lugar, e espera o culto.
X XV
Largo trinta e três passos se estendia Quis mostrar nesta Imagem por ventura
O grão-cruzeiro: a longitude da mole Que esta Gente brutal não desampara;
Por mais de outros oitenta discorria; E que a qualquer humana criatura
Lugar, que não pisara humana prole: O remédio da Cruz justo prepara;
O prospecto exterior de pedraria, Que a estes do seu sangue dera a cura,
O interior pavimento é terra mole: Se aos instintos, que tem, não repugnara;
De jaspe se levanta a grã-portada, Que Advogada nos deu de empresa tanta,
Entre torres marmóreas fabricada. Preparando o lugar à Virgem Santa.

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XVI XXI
Oh queira, grão-Senhor, vossa bondade E quando a tiro de canhão se via,
Suprir neles, e em mim tanta miséria; Fez que se ouvisse a formidável tromba,
Pois de todos salvar tendes vontade, E ao eco do tambor, que lhe batia,
Que por este final mostrais tão séria: Dispara ao tempo mesmo a horrível bomba:
Que se olhais para a nossa iniqüidade, Treme de espanto o bárbaro, que ouvia;
Achareis de punir tanta matéria, E este pasma, outro foge, aquele tomba;
Que a antiga culpa pelos seus abrolhos E o grão-Caramuru já divisando,
A ninguém deixa justo aos vossos olhos. Correm todos humildes ao seu mando.
XVII XXII
Dali surcando o rio caudaloso, Unidos do bom Diogo à comitiva
Vai o noto Recôncavo buscando, Socorrem com presteza a vela rota;
Por ver se inchada vela o pego undoso Onde a Gente das águas semiviva,
A rumo Oriental vai navegando: Vão leves conduzindo a praia nota:
Nem temeria o pélago espaçoso Salvou-se-lhe a equipagem toda viva;
Ir na leve canoa atravessando; E para os preparar a grã-derrota,
Se o perigo, que imenso considera, Faz que a bárbara Gente, dando ajuda
Pelo dano da Esposa não temera. À aflita multidão piedosa, acuda.
XVIII XXIII
Ergue-se sobre o mar alto penedo, Paraguaçu porém com pio aviso
Que uma angra à raiz tem, das naus amparo, Cuida em prover de roupas, e sustento;
Onde das ramas no entrechado enredo, E quanto lhe é possível de improviso,
Causa o verde prospecto um gosto raro: Restabelece-lhe as forças co’alimento,
Ali morro coberto de arvoredo, Depois que se saciaram do preciso,
A quem passeia o mar, serve de faro; Diogo que o caso seu recorda atento,
Dão-lhe nome da Costa os experientes, Logo que a turba vê contente, e junta,
Do glorioso Apóstolo das Gentes. Donde vem? aonde vão? quem são? pergunta.
XIX XXIV
Aqui vê Diogo um casco, que encalhara, Um entre outros, que o Chefe parecia,
Onde n’água se oculta hórrida penha, E sobre os mais da chusma dominava,
Porque ignorando a costa se arrojara, Depois de agradecer-lhe a cortesia
Sem que esperança de socorro tenha: Na Castelhana língua, em que falava
Vê, como a chusma em terra se salvara, Somos (disse) da nobre Andaluzia,
Que a brutal Gente a cativar se empenha; Onde o chão Hispalense o Betis lava,
E presumindo o que era, na canoa Sócios se ouviste o nome de Arelhano,
A defender os seus remando voa. E desde o Reino viemos Peruano.
XX XXV
E temendo que cedam enganados Se a Fama a vós chegou do valeroso
Ao bárbaro cruel os naufragantes; Domador das Províncias Peruanas;
Ou que fiquem sem armas cativados E se Pizarro no Orbe tão famoso
Nas mãos desses penhascos ambulantes; Não se ignora das Gentes Lusitanas:
Faz-lhes sinais, e deixa-os avisados, Fomos dele mandados pelo undoso
Fazendo ver as armas rutilantes, Grão-rio, que em correntes desce insanas,
Da areia infida, e do cruel perigo, Desde a grã-cordilheira, que iminente
E o seu socorro lhe ofrece amigo. Aqui separa o Ocaso do Oriente.

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XXVI XXXI
Novas Ilhas buscando, e novos mares Não duvideis, responde, o Herói clemente
Depois de longos dias navegamos; De achar em mim socorro poderoso;
Já com procelas, já com brandos ares, Que achais quem como vós do mar fremente
Ao conhecido Oceano chegamos: Aprendeu na desgraça a ser piedoso:
Os perigos, os casos singulares, Tendes amiga mão, madeira, e Gente,
Que por mais de mil léguas toleramos, Com que o casco, que vedes ruinoso,
Não contara, depois que no mar erro Reformando-se torne do Céu nosso
A ter o peito de aço, e a voz de ferro. À desejada Espanha, e Betis vosso.
XXVII XXXII
De sessenta, e mais línguas diferentes, Disse; e ordenando a turba Americana,
Vimos, descendo o rio, em curso imenso, Assiste o fabro na naval fadiga;
Incógnitas Nações, bárbaras Gentes, E quanto lhe permite a força humana,
E um povo inumerável, vasto, e denso: Faz que em breve o baixel seu rumo siga:
Montanhas vimos, campos mil patentes, Nem se demora mais a Gente Hispana,
E um terreno nas margens tão extenso, Que a convida a monção, e o vento obriga:
Que poderá ele só neste hemisfério Soltam a branca vela ao fresco vento,
Formar com tanto Povo um vasto Império. E vão raspando o líquido elemento.
XXVIII XXXIII
Mil vezes com canoas belicosas Felices vós, diz Diogo, afortunados,
Combatemos no rio, e mil em terra; A quem da cara Pátria é concedido,
Perseguidos de tropas numerosas, Tornar hoje aos abraços desejados,
Que ocupavam talvez o vale, e a serra: Depois de tanto tempo a ter perdido!
Nem cessava nas margens perigosas Enquanto eu nestes climas apartados
De mil bravas Nações a dura guerra, Me vejo de seguir-vos impedido;
Até que entrando nas ardentes Zonas, Que fiar temo de tão débil lenho
Chegamos à Região das Amazonas. Outra vida, quem mais que a própria tenho.
XXIX XXXIV
Discorre com furor pela ribeira, Dizendo assim, com calma vê lutando
Vasto esquadrão de tropa feminina, Formosa nau de Gálica bandeira,
Que em postura, e contenho de guerreira, Que a terra ao parecer vinha buscando,
Assaltar nossa frota determina E a proa mete sobre a própria esteira:
Sobre o sexo viril, turba grosseira, Vem seguindo a canoa, e sinais dando,
O feminino sexo ali domina, Até que aborda a embarcação veleira;
Onde o rio, porque a fama o conte, E de paz dando a mostra conhecida,
Recordamos o antigo Termodonte. As praias de Bahia a nau convida.
XXX XXXV
E já o Hispano Leão domado houvera A Gupeva entretanto, e Taparica
Das Amazonas o terreno infausto, Dava o último abraço, e à forte Esposa
Se no clima infeliz nos não morrera A intenção de levá-la significa,
De mil fadigas Arelhano exausto. A ver de Europa a Região famosa:
A Gente pois que o Capitão perdera, Suspensa entre alvoroço, e pena fica
Não podendo esperar sucesso fausto, Paraguaçu contente, mas saudosa;
Sobre este bergantim, que ali se adorna, E quando o pranto na sentida fuga
Ao Solar Pátrio, navegando torna. Começava a saudade, amor lho enxuga.

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XXXVI XLI
É fama então que a multidão formosa Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Das Damas, que Diogo pertendiam, Flutuar moribunda entre estas ondas;
Vendo avançar-se a nau na via undosa, Nem o passado amor teu peito incita
E que a esperança de o alcançar perdiam: A um ai somente, com que aos meus respondas:
Entre as ondas com ânsia furiosa Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
Nadando o Esposo pelo mar seguiam, (Disse, vendo-o fugir) ah não te escondas;
E nem tanta água que flutua vaga Dispara sobre mim teu cruel raio...
O ardor que o peito tem, banhando apaga. E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
XXXVII XLII
Copiosa multidão da nau Francesa Perde o lume dos olhos, pasma, e treme,
Corre a ver o espetáculo assombrada; Pálida a cor, o aspecto moribundo,
E ignorando a ocasião da estranha empresa, Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Pasma da turba feminil, que nada: Entre as falsas escumas desce ao fundo:
Uma, que às mais precede em gentileza, Mas na onda do mar, que irado freme,
Não vinha menos bela, do que irada: Tornando a aparecer desde o profundo;
Era Moema, que de inveja geme, Ah Diogo cruel! disse com mágoa,
E já vizinha à nau se apega ao leme. E sem mais vista ser, sorveu-se n’água.
XXXVIII XLIII
Bárbaro (a bela diz) Tigre, e não homem... Choraram da Bahia as Ninfas belas,
Porém o Tigre por cruel que brame, Que nadando a Moema acompanhavam;
Acha forças amor, que enfim o domem; E vendo que sem dor navegam delas,
Só a ti não domou, por mais que eu te ame: À branca praia com furor tornavam:
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem, Nem pode o claro Herói sem pena vê-las,
Como não consumis aquele infame? Com tantas provas, que de amor lhe davam;
Mas pagar tanto amor com tédio, e asco... Nem mais lhe lembra o nome de Moema,
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco. Sem que ou amante a chore, ou grato gema.
XXXIX XLIV
Bem puderas, cruel, ter sido esquivo, Voava em tanto a nau na azul corrente,
Quando eu a fé rendia ao teu engano; Impelida de um Zéfiro sereno,
Nem me ofenderas a escutar-me altivo, E do brilhante mar o espaço ingente
Que é favor, dado a tempo, um desengano: Um campo parecia igual, e ameno:
Porém deixando o coração cativo Encrespava-se a onda docemente,
Com fazer-te a meus rogos sempre humano, Qual aura leve, quando move o feno;
Fugiste-me, traidor, e desta sorte E como o prado ameno rir costuma,
Paga meu fino amor tão crua morte? Imitava as boninas com a escuma.
XL XLV
Tão dura ingratidão menos sentira, Du Plessis, que os Franceses governava,
E esse fado cruel doce me fora, Em uma noite clara à popa estando,
Se a meu despeito triunfar não vira Os casos de Diogo, que escutava,
Essa indigna, essa infame, essa traidora: Admira no naufrágio memorando:
Por serva, por escrava te seguira, Depois do Herói prudente perguntava
Se não temera de chamar Senhora Quem achara o Brasil, e como, e quando
A vil Paraguaçu, que sem que o creia, Ganhara no recôndito hemisfério
Sobre ser-me inferior, é néscia, e feia. Tanto tesouro o Lusitano Império?

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XLVI LI
Dous Monarcas (responde o Lusitano) Era o tempo, em que alegre ressuscita
Já sabes que no Ocaso, e no Oriente A verde planta, que murchou no Inverno;
Novos Mundos buscaram pelo Oceano, E quando a solar meta o tempo excita,
Depois de haver domado a Líbia ardente: Em que o Rei triunfou da morte eterno:
E que, onde não chegou Grego, ou Romano, Tão sagrada memória a frota incita
Passeia o forte Hispano, e a Lusa Gente; A celebrar ao Vencedor do Inferno
Que instruídos na Náutica com arte, O sacrifício, donde a fé venera,
Descobriram do Mundo outra grã-parte. A Paixão, que em tal tempo sucedera.
XLVII LII
Do Tejo ao China o Português impera, Em frondosa ramada o Lusitano
De um pólo ao outro o Castelhano voa, Um Altar fabricou no prado extenso,
E os dous extremos da redonda esfera, Donde assista ao Mistério soberano
Dependem de Sevilha, e de Lisboa: Da Lusitana esquadra o Povo imenso:
Mas depois que Colon sinais trouxera, Ao Rei triunfante do infernal tirano,
(Colon, de quem no Mundo a fama voa) Odorífero fuma o sacro incenso,
Deste novo admirável Continente E a vítima do Céu, que a paz indica
Discorda com Castela o Luso ardente. À Gente, e nova terra santifica.
XLVIII LIII
Já se dispunha a guerra sanguinosa; Notar o Americano ali contende
Porém o comum Pai aos dous intima Do sacrossanto Altar o ato sublime;
Arbítrio na contenda duvidosa, E tanto a simples Gente o aceno entende,
Que a parte competente aos Reis estima. Que parece que a ação por santa estime:
Desde Roma Alexandre imperiosa, Algum que olhava ao celebrante, emprende
Deixando ambos em paz à empresa anima, O gesto arremedar, que orando exprime,
E uma linha lançando ao Céu profundo, E as mãos une, e levanta, e talvez solta;
Por Fernando, e João reparte o Mundo. E quando o vê voltar, também se volta.
XLIX LIV
Na vasta divisão, que ao Luso veio, Como as nossas ações talvez espia
O precioso Brasil contido fica: O peloso animal, que o mato hospeda,
País de Gentes, e prodígios cheio, E quanto vê fazer, como à porfia,
Da América feliz porção mais rica: Tudo posto a observar, logo arremeda:
Aqui do vasto Oceano no meio Tal o Gentio simples parecia,
Por horrível tormenta a proa aplica Que nem um pé, nem passo dali arreda,
O ilustre Cabral com fausto acaso E ao santo sacrifício atento, e mudo,
Sobre graus dezesseis do nosso Ocaso. O que aos mais viu fazer, fazia-o tudo.
L LV
Da nova Região, que atento observa, Aqui depois que às turbas eloqüente
Admira o clima doce, o campo ameno, Dita o Sacro Orador pio conceito,
E entre arvoredo imenso, a fértil erva E a fé dispensa no ânimo valente
Na viçosa extensão do áureo terreno: Do nobre Povo a propagá-la eleito:
Coberta a praia está de grã-caterva Participa da ceia a Cristã Gente,
De incógnita Nação, que com o aceno, E o dom recebem com fiel respeito;
Porque a língua ignorava, à paz convida, E é fama que Cabral, que os convocara,
Erguendo-lhe o troféu do Autor da vida. Montando sobre um alto, assim falara.

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LVI LXI
Gloriosa Nação, que a terra vasta Terra porém depois chamou a Gente
Vais a livrar do Paganismo imundo, Do Brasil, não da Cruz; porque atraída
A quem esse Orbe antigo já não basta, Doutro lenho nas tintas excelente,
Nem a imensa extensão do mar profundo: Se lembra menos do que o foi da vida:
Neste oculto País, que o mar afasta, Assim ama o mortal o bem presente;
Tem teu zelo por campo um novo Mundo; Assim o nome esquece, que o convida
E quando tanta fé seus termos sonde, Aos interesses da futura glória,
Outro Mundo acharás, se outro se esconde. Aos bens atento só da transitória.
LVII LXII
Oh profundo conselho! Abismo imenso Observa o bom Cabral todo o prospeto
Do poder, e saber do Onipotente! Da imensa costa, e pelo clima puro:
Que estivesse escondida no Orbe extenso Pelo abordo tranqüilo, e mar quieto,
Tanta parte do Mundo à sábia Gente! Chama o seio, em que entrou Porto Seguro:
Cinqüenta e cinco séculos sem senso E olhando com saudade o doce objeto
Nas Nações deste vasto Continente, Do seu destino, se lamenta escuro,
E em tanta indagação dos sábios feita, Que pela empresa a que mandado fora,
Não cair-nos na mente nem suspeita! Não permite na Armada outra demora.
LVIII LXIII
Mas combine-se o dia, o tempo, a hora, Manda depois ao Luso Dominante
Em que a alta Providência aqui nos guia; Um aviso do clima descoberto;
Quando à ignorância Cristo o perdão ora; Nem tarda Manoel então Reinante
Quando morre na Cruz, no próprio dia: A enviar um Cosmógrafo, que experto
Na bandeira do mar triunfadora Da escola fora, que o famoso Infante
Tremulamos as Chagas com fé pia, Para a Náutica ciência tinha aberto,
E nelas quis a grei, que em sombras langue, E Américo dispõe, que ao Brasil parta,
Vir neste dia a oferecer seu sangue. De quem deu nome ao Continente a Carta.
LIX LXIV
Goza de tanto bem, terra bendita, E por ter quem aos nossos interprete
E da Cruz do Senhor teu nome seja; Do ignorado idioma a escura sorte,
E quanto a luz mais tarde te visita, Alguns em terra condenados mete,
Tanto mais abundante em ti se veja: Devidos por delito à crua morte:
Terra de Santa Cruz tu sejas dita, A vida como prêmio lhe promete,
Maduro fruto da Paixão na Igreja, Quando com peito se atrevessem forte
Da fé renovo pelo fruto nobre, A esperar no Sertão nova viagem,
Que o dia nos mostrou, que te descobre. Aprendendo os rodeios da linguagem.
LX LXV
Dizendo assim ajoelha, e Cruz em tanto Com acenos depois à Gente bruta
Sublime num oiteiro se coloca; Os seus que lhe deixava, recomenda,
O Exército formado ao sinal santo E no claro perigo, em que os reputa,
Se prostra humilde, pondo em terra a boca: Arma lhe deixa, que na guerra ofenda:
Pasma o Gentio, e admira com espanto Dá-lhe a espécie, que ali bem se comuta,
A melodia, com que o Céu se invoca, Em que possam tratar por compra, e venda;
Hino entoando à Cruz pios Cantores, Espelhos, cascavéis, anzóis, cutelos,
E respondendo as trompas, e os tambores. Campainhas, fuzis, serras, martelos.

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LXVI LXXI
Nem se demora mais a forte Armada; Dá princípio na América opulenta
E convidando o vento, estende a vela, As Províncias do Império Lusitano,
Corre a bárbara Gente amontoada O grão-Pará, que um mar nos representa,
Ao embarque nas naus da tropa bela: Emulo em meio à terra do Oceano:
E, ao que pode entender-se, magoada Foi descoberto já (como se intenta)
Por saudade, que tem de mais não vê-la, Por ordem de Pizarro, de Arelhano;
Com acenos, e voz enternecida País, que a linha Equinocial tem dentro,
Faziam a seu modo a despedida. Onde a Tórrida Zona estende o centro.
LXVII LXXII
Mais saudosos os tristes desterrados, Em nove léguas só de comprimento,
Correndo imenso risco a língua aprendem, Vinte seis de circuito se espraia
Recebendo alimentos comutados No vasto Maranhão d’água opulento,
Pelas espécies, que ao Gentio vendem: Uma Ilha bela, que se estende à praia:
Talvez os têm co’a cítara encantados; Regam-lhe quinze rios o áureo assento,
Talvez com cascavéis todos suspendem; E um breve estreito, que lhe forma a raia,
Mas o objeto que a vista mais lhe assombra Pode passar por Istmo, que a encadeia
É ver dentro do espelho a própria sombra. À terra firme por mui breve areia.
LXVIII LXXIII
Extático qualquer notando admira, O Ceará depois, Província vasta,
Dentro ao terso cristal a horrível cara: Sem portos, e comércio jaz inculta;
Pergunta-lhe quem é, como se ouvira; Gentio imenso, que em seus campos pasta,
E crendo estar no inverso o que enxergara, Mais fero que outros o Estrangeiro insulta:
De uma parte a outra parte o espelho vira; Com violento curso ao mar se arrasta
E não topando o vulto na luz clara, De um lago do Sertão, de que resulta,
Tal há que o vidro quebra, por ver dentro Rio, onde pescam nas profundas minas
Se a imagem acha, que observou no centro. As brasílicas pérolas mais finas.
LXIX LXXIV
Mas enquanto estes erram vagabundos, Da fértil Paraíba não ocorre
Américo Vespúcio, e o forte Coelho, Que informe a Gente vossa, sendo empresa
A longa costa, e os seios mais profundos Do comércio Francês, que ali concorre
Demarcavam no Náutico conselho: A lenhos carregar, que a Europa preza:
Descobridor também dos novos Mundos Não mui longe da costa, que ali corre
Foi Jaques na Marinha experto, e velho, Uma Ilha vedes de menor grandeza,
De quem já demarcado em carta ouvimos Que amena, fértil, rica, e povoada
Esse ameno Recôncavo, que vimos. É d’Itamaracá de nós chamada.
LXX LXXV
Eu depois destes na ocasião presente, A oito graus do Equinócio se dilata
Quanto o vasto Sertão nos encobria, Pernambuco, Província deliciosa,
Descobri, pondo em fuga a bruta Gente, A pingue caça, a pesca, a fruta grata,
O Recôncavo interno da Bahia: A madeira entre as outras mais preciosa:
Notei na vasta terra a turba ingente, O prospecto, que os olhos arrebata
Que mais Europa toda não teria, Na verdura das árvores frondosa,
Se da grã-cordilheira ao mar baixando, Faz que o erro se escuse a meu aviso,
Desde a Prata ao Pará se for contando. De crer que fora um dia o Paraíso.

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CANTO VII
LXXVI I
Sergipe então d’El-Rei: logo o terreno Era o tempo, em que o Sol na vasta Esfera
De que viste a beleza, e perspectiva; O claro dia com a noite iguala,
Nem cuido que outro visses mais ameno, E o velho Outono, que o calor modera,
Nem donde com mais gosto a Gente viva: De seus pâmpanos tece a verde gala:
Clima saudável, Céu sempre sereno, E quando todo o monte Baccho altera,
Mitigada na névoa a calma ativa; E os capazes tonéis na adega abala,
Palmas, mangues, mil plantas na espessura, Tocava a Franca nau do claro Sena
Não há depois do Céu mais formosura. Na deliciosa foz a praia amena.

LXXVII II
A quinze graus do Sul na foz extensa Na grã-Lutécia, Capital do Estado,
De um vasto rio, por ilhéus cortado, A ligeira falua dava fundo,
Outra Província de cultura imensa, E esse Orbe na Cidade abreviado,
Tem dos próprios ilhéus nome tomado: Enchia Diogo de um prazer jucundo;
Depois Porto Seguro, a quem compensa Templos, torres, palácios, casas, prado,
O espaço da Província limitado, O famoso Ateneu mestre do Mundo,
Outra de âmbito vasto, que se assoma, A Corte mais augusta, que se avista,
E do Espírito Santo o nome toma. Enche-lhe o coração, e assombra a vista.

LXXVIII III
Niterói dos Tamoios habitada, Paraguaçu porém, que jamais vira
Por largas terras seu domínio estende, Espetáculo igual, suspensa pára;
Famosa região pela enseada, Nem fala, nem se volta, nem respira,
Que uma grã-barra dentro em si comprende: Imóvel a pestana, e fixa a cara:
Esta praia dos vossos freqüentada, E cheia a fantasia do que admira,
Que pomo de discórdia entre nós pende, Causa-lhe tanto pasmo a visão rara,
Custará, se presago não me engano, Que estúpida parece ter perdido
Muito sangue ao Francês, e ao Lusitano. O discurso, a memória, a voz, e o ouvido.

LXXIX IV
S. Vicente, e S. Paulo os nomes deram Qual pende o tenro Infante ao colo da ama,
Às extremas Províncias, que ocupamos; Se um novo, e belo objeto tem presente,
Bem que ao Rio da Prata se estenderam Que nem a doce mãe, que ao peito o chama,
As que com próprio marco assinalamos: Nem os mimos do pai pasmado sente:
E por memória de que nossas eram, Tod’alma no que vê fixo derrama,
De Marco o nome no lugar deixamos, E só parece pelo olhar vivente:
Povoação, que aos vindouros significa, Não foi da Americana o ar diverso,
Onde o termo Espanhol, e o Luso fica. Vendo em Paris a suma do Universo.
V
Por fama que se ouviu da novidade
A admirar o espetáculo se ajunta,
Curiosa do sucesso a grã-Cidade,
E um se admira, outro o conta, algum pergunta:
Cresce o vago rumor sobre a verdade;
E a plebe, que a Diogo acode junta,
Dele, e da Esposa divulgada tinha,
Que era o Rei do Brasil, e ela a Rainha.

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VI XI
E já avistavam do Palácio Augusto O Brasil, Sire, infunde-me a confiança,
Em bela perspectiva o Régio espaço, Que ali renasça o Português Império,
E o átrio vendo de troféus onusto, Que estendendo-se ao Cabo da Esperança,
Entram do Franco Rei no excelso Paço: Tem descoberto ao Mundo outro hemisfério:
Cinge as portas exército robusto, Tempo virá, se o vaticínio o alcança,
Brilhante guarda, de que o invicto braço Que o cadente esplendor do nome Hespério
Ao lado sempre da Real Pessoa, O século, em que está, recobre de ouro,
Sustenta as Lises, e defende a Coroa. E lhe cinja o Brasil mais nobre louro.
VII XII
Era ali Cristianíssimo Reinante E Tu, que ao Luso Reino um germe Augusto
Entre os Franceses o segundo Henrique, No grão-Burgundo a propagar mandaste,
Meta então do Germano fulminante, Contempla, ó França Heróica, o Império justo,
Que opôs de Carlos às vitórias dique: Como ramo do teu, que ali plantaste:
Ortodoxo Monarca, da Fé amante, E se o inculto Brasil, se o Cafre adusto
Que faz que em toda a França imóvel fique Por teus famosos Netos subjugaste,
O antigo culto, e Religião paterna, Admite ao Trono do Solar primeiro
Que invadiu de Calvino a Fúria Averna. Este teu não indigno aventureiro.
VIII XIII
Senta-se ao Régio lado a grã-Princesa, E esta, que ao lado meu teu Cetro beija,
Formosa Lis, que do Arno Florentino Princesa do Brasil, que um tempo fora,
Trouxe a França um tesouro de beleza, No seio da Cristã piedosa Igreja,
E outro maior no engenho peregrino: Como Mãe pia regenera agora.
Formoso par, que a sábia Natureza É bem que a Mãe primeira o Brasil veja,
Não sem instinto conjugou Divino; Donde a Gente nasceu, que lhe é Senhora;
Porque roubando Henrique a dura morte, E quando a Lusitânia lhe é Rainha,
Sustente França Catarina a Forte. Tome o Brasil a França por Madrinha.
IX XIV
Ao Trono Cristianíssimo prostrado Disse o Herói generoso, e o Rei potente,
A Régia Mão dos dous Monarcas beija Recordando os anais de antiga História;
O bom Diogo, tendo a Esposa ao lado, Com vista majestosa, mas clemente,
E faz que atenta toda a Corte esteja: Deu final de agradar-lhe esta memória:
E havendo por três vezes humilhado Com sussurro entretanto a áulica Gente
A fronte aos Reis, que respeitar deseja, Celebra, como própria, a Lusa glória;
É fama, que com gesto reverente E impondo-lhe silêncio alto respeito,
Falara deste modo ao Rei potente. Respondem com os olhos, e co’peito.
X XV
Tendes a vossos pés, Sire, invocando Mongomeri, que serve na assembléia
No Trono da grandeza a Majestade, De intérprete do Rei, falou benigno;
Estes dous peregrinos, que surcando Conforme na resposta à justa idéia,
Do proceloso mar a imensidade, De que o bom Diogo se mostrou tão digno:
No Império, que regeis com sábio mando, Nem vendo a Lísia de conquistas cheia
Buscam asilo na Real piedade; Lhe inspira o impulso da ambição maligno,
E a vós, e ao vosso Reino se dirigem, A invejar-lhe já mais troféus tamanhos,
Donde tem Portugal o nome, e a origem. Que em prole sua não reputa estranhos.

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XVI XXI
Ide, disse a Rainha, o par ditoso, Depois (disse o Monarca) que informado
Que o banho santo, donde a culpa amara, De meus Ministros tenho a História ouvido,
Se apague nesse peito generoso, Como foste das ondas agitado,
Comigo a França apadrinhar prepara. Como da Gente bárbara temido:
E quando o Sol seu curso luminoso Sabendo que os Sertões tens visitado,
Três vezes repetir na Esfera clara, E o centro do Brasil reconhecido,
Será das nódoas do Tartáreo abismo Quero das terras, dos viventes plantas,
Lavada a bela Dama no Batismo. Que a História contes de Províncias tantas.
XVII XXII
Era o dia, em que é fama, que o homem feito Mandas-me, Rei Augusto, que te exponha,
De terra, foi na Estátua preciosa, (Diz cheio de respeito o Herói prudente)
Em que Deus lhe infundira no seu peito E aos olhos teus em um compêndio ponha
Do Soberano ser cópia formosa. A História natural da oculta Gente:
Dia do nosso rito ao culto eleito Se esperas de mim, Sire, que componha
De Simão, e Tadeu, quando formosa Exata narração da cópia ingente,
Entrou Paraguaçu com feliz sorte Empresa tanta é, quando obedeça,
No banho Santo, rodeando-a a Corte. Que faz que o tempo falte, e a voz faleça.
XVIII XXIII
À roda o Real Clero, e grão-Jerarca Mil e cinqüenta e seis léguas de costa,
Forma em meio à Capela a Augusta linha; De vales, e arvoredos revestida,
Entre os Pares seguia o bom Monarca, Tem a terra Brasílica composta
E ao lado da Neófita a Rainha. De montes de grandeza desmedida:
Vê-se cópia de lumes nada parca, Os Guararapes, Borborema posta
E a turba imensa, que das guardas vinha; Sobre as nuvens na cima recrescida,
E dando o nome a Augusta à nobre Dama, A serra de Aimorés, que ao pólo é raia,
Põe-lhe o seu próprio, e Catarina a chama. As de Iboticatu, e Itatiaia.
XIX XXIV
Banhada a formosíssima Donzela Nos vastos rios, e altas alagoas
No Santo Crisma, que os Cristãos confirma, Mares dentro das terras representa;
Os Desposórios na Real Capela Coberto o grão-Pará de mil canoas
Com o valente Diogo amante firma: Tem na espantosa foz léguas oitenta.
Catarina Álvares se nomeia a bela, Por dezessete se deságua boas
De quem a glória no troféu se afirma, O vasto Maranhão; léguas quarenta
Com que a Bahia, que lhe foi Senhora, O Jaguaribe dista; outro se engrossa
Noutro tempo, a confessa, e fundadora. De S. Francisco, com que o mar se adoça.
XX XXV
Prepara-se um banquete com grandeza, O Sergipe, o Real de licor puro,
Em que a cópia compita co’a elegância; Que com vinte o Sertão regando correm,
E aos dous Consortes se dispõe a mesa Santa Cruz, que no Porto entra seguro,
No magnífico Paço em Régia estância: Depois de trinta, que no mar concorrem:
Nem se dedigna a Soberana Alteza, Logo o das Contas, o Taigipe impuro,
Depois de os regalar com abundância, Que abrindo a vasta foz no Oceano morrem,
De dar Rainha e Rei, de ouvir curiosos, O Rio Doce, a Cananéia, a Prata,
Uma audiência privada aos dous Esposos. E outros cinqüenta mais, com que arremata.

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XXVI XXXI
O mais rico, e importante vegetável Nas comestíveis ervas é louvada
É a doce cana, donde o açúcar brota, O Quiabo, o Jiló, os Maxixeres,
Em pouco às nossas canas comparável; A Maniçoba peitoral prezada,
Mas nas do milho proporção se nota: A Taioba agradável nos comeres:
Com manobra expedita, e praticável, O palmito de folha delicada,
Espremido em moenda o suco bota, E outras mil ervas, que se usar quiseres,
Que acaso a antiguidade imaginava, Acharás na opulenta natureza
Quando o néctar, e ambrosia celebrava. Sempre com mimo preparada a mesa.
XXVII XXXII
Outra planta de muitos desejada, Sensível chama-se erva pudibunda,
Por fragrância que o olfato ativa sente, Que quando a mão chegando alguém lhe ponha,
Erva santa dos nossos foi chamada, Parece que do tato se confunda,
Mas tabaco depois da Hispana Gente. E que fuja o que o toca por vergonha.
Pelo Franco Nicot manipulada Nem torna a si da confusão profunda,
Expele a bile, e o cérebro cadente Quando ausente o agressor se lhe não ponha,
Socorre em modo tal, que em quem o tome, Documento à alma casta, que lhe indica,
Parece o impulso de o tomar que é fome. Que quem cauta não foi, nunca é pudica.
XXVIII XXXIII
É sustento comum, raiz prezada, D’ervas medicinais cópia tão rara
Donde se extrai, com arte útil farinha, Tem no mato o Brasil, e na campina,
Que saudável ao corpo, ao gosto agrada, Que quem toda a virtude lhe explorara,
E por delícia dos Brasis se tinha. Por demais recorrera à Medicina.
Depois que em bolandeiras foi ralada, Nasce a Gelapa ali, a sene amara,
No Tapiti se espreme, e se convinha, O Filopódio, a malva, o pão da China,
Fazem a puba então, e a tapioca, A Caroba, a Capeba, e mil que agora
Que é todo o mimo, e flor da mandioca. Conhece a bruta Gente, e a nossa ignora.
XXIX XXXIV
Chama o Agricultor raiz gostosa Tem mimosos legumes, que não cedem
Aipi por nome; e em gosto se parece Aos que usamos na Europa mais prezados,
Com a mole castanha saborosa, Gengibre, Gergelim, que os mais excedem
De que tira o País vário interesse. Mendubim, Mangalô, que usam guisados:
Ótimo arroz em cópia prodigiosa, Alguns medicinais, com que despedem
Sem cultura nos campos aparece, Do peito estilicídios radicados;
No Pará, Cuiabá, por modo feito, Tem o Cará, o inhame, e em cópia grata
Que iguala na bondade o mais perfeito. Mangarás, mangaritos, e batata.
XXX XXXV
Ervilhas, feijão, favas, milho, e trigo, Das flores naturais pelo ar brilhante
Tudo a terra produz, se se transplanta; É com causa entre as mais rainha a Rosa,
Fruta também, o pomo, a pêra, o figo Branca saindo a Aurora rutilante,
Com bífera colheita, e em cópia tanta: E ao meio-dia tinta em cor lustrosa:
Que mais que no País que o dera antigo, Porém crescendo a chama rutilante,
No Brasil frutifica qualquer planta; É purpúrea de tarde a cor formosa;
Assim nos deu a Pérsia, e Líbia ardente, Maravilha que a Clicie competira,
Os que a nós transplantamos de outra Gente. Vendo que muda a cor, quando o Sol gira.

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XXXVI XLI
Outra engraçada flor, que em ramos pende Outras flores suaves, e admiráveis
(Chamam de S. João) por bela passa Bordam com vária cor campinas belas,
Mais que quantas o prado ali comprende, E em vária multidão por agradáveis,
Seja na bela cor, seja na graça: A vista encantam, transportada em vê-las:
Entre a copada rama, que se estende Jasmins vermelhos há, que inumeráveis
Em vistosa aparência a flor se enlaça, Cobrem paredes, tetos, e janelas;
Dando a ver por diante, e nas espaldas, E sendo por miúdos mal distintos,
Cachos de ouro com verdes esmeraldas. Entretecem purpúreos labirintos.
XXXVII XLII
Nem tu me esquecerás, flor admirada, As açucenas são talvez fragrantes,
Em quem não sei, se a graça, se a natura Como as nossas na folha organizadas;
Fez da Paixão do Redentor Sagrada Algumas no candor lustram brilhantes,
Uma formosa, e natural pintura: Outras na cor reluzem nacaradas.
Pende com pomos mil sobre a latada, Os bredos namorados rutilantes,
Áureos na cor, redondos na figura, As flores de Courana celebradas;
O âmago fresco, doce, e rubicundo, E outras sem conto pelo prado imenso,
Que o sangue indica, que salvara o Mundo. Que deixam que as vê, como suspenso.
XXXVIII XLIII
Com densa cópia a folha se derrama, Das frutas do País a mais louvada
Que muito à vulgar Era é parecida, É o Régio Ananás, fruta tão boa,
Entrefechando pela verde rama Que a mesma Natureza namorada
Mil quadros da Paixão do Autor da vida: Quis como a Rei cingi-la da coroa:
Milagre natural, que a mente chama Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Com impulsos da graça, que a convida, Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
A pintar sobre a flor aos nossos olhos Que a não ter do Ananás distinto aviso,
A Cruz de Cristo, as Chagas, e os abrolhos. Fragrância a cuidará do Paraíso.
XXXIX XLIV
É na forma redonda, qual diadema As fragrantes Pitombas delicadas
De pontas, como espinhos, rodeada, São, como gemas d’ovos na figura;
A coluna no meio, e um claro emblema As Pitangas com cores golpeadas
Das Chagas santas, e da Cruz sagrada: Dão refrigério na febril secura:
Vêem-se os três cravos, e na parte extrema As formosas Guaiabas nacaradas,
Com arte a cruel lança figurada, As Bananas famosas na doçura,
A cor é branca, mas de um roxo exangue, Fruta, que em cachos pende, e cuida a Gente
Salpicada recorda o pio sangue. Que fora o figo da cruel Serpente.
XL XLV
Prodígio raro, estranha maravilha, Distingue-se entre as mais na forma, e gosto,
Com que tanto mistério se retrata! Pendente de alto ramo o coco duro,
Onde em meio das trevas a fé brilha, Que em grande casca no exterior composto,
Que tanto desconhece a Gente ingrata: Enche o vaso interior de um licor puro:
Assim do lado seu nascendo filha Licor, que à competência sendo posto,
A humana espécie, Deus piedoso trata, Do antigo néctar fora o nome escuro;
E faz que quando a Graça em si despreza, Dentro tem carne branca, como a amêndoa,
Lhe pregue co’esta flor a natureza. Que a alguns enfermos foi vital, comendo-a.

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XLVI LI
Não são menos que as outras saborosas A Copaíba em curas aplaudida,
As várias frutas do Brasil campestres, Que a Médica Ciência estima tanto,
Com gala de ouro, e púrpura vistosas, A Biciúba no óleo conhecida,
Brilha a Mangaba, e os Mocujes silvestres: A Almécega, que se usa no quebranto.
Os Mamões, Muricis, e outras famosas, A preciosa madeira apetecida,
De que os rudes Caboclos foram Mestres, Que o nome nos merece de pau-santo,
Que ensinaram os nomes, que se estilam, O Salsafrás cheiroso, de que as Praças
Janipapo, e Caju vinhos destilam. Se vêem cobertas com formosas taças.
XLVII LII
Nas preciosas árvores se conta Quais ricas vegetáveis ametistas
O cacau, droga em Espanha tão commua, As águas do Violete em vária casta,
Pouco n’altura mais que arbusto monta, O áureo Pequiá com claras vistas,
E rende novo fruto em cada Lua: Que n’outros lenhos por matiz se engasta:
A Bainilha nos cipós desponta, O vinhático pau, que quando avistas,
Que tem no chocolate a parte sua, Massa de ouro parece extensa, e vasta;
Nasce em bainhas, como paus de lacre, O duro pau, que ao ferro competira,
De um suco oleoso, grato o cheiro, e acre. O Angelim, Tataipeva, o Supopira.
XLVIII LIII
Ótimo anil de planta pequenina Troncos vários em cor, e qualidade,
Entre as brenhas incultas se recolhe; Que inteiriças nos fazem as canoas,
Tece-se a roupa do algodão mais fina, Dando a grossura tal capacidade,
Que em cópia abundantíssima se colhe: Que andam remos quarenta, e cem pessoas:
Que se a abundância à indústria se combina, E há por todo o Brasil em quantidade
Cessando a inércia, que mil lucros tolhe, Madeiras para fábricas tão boas,
Houvera no Algodão, que ali se topa, Que trazendo-as ao mar por vastos rios,
Roupa, com que vestir-se toda a Europa. Pode encher toda a Europa de navios.
XLIX LIV
O uruçu, fruto d’árvore pequena, Nutre a vasta Região raros viventes
Como lima, em pirâmide elevada, Em número sem conto, e em natureza
De que um extracto a diligência ordena, Dos nossos animais tão diferentes,
Que a escarlata produz mais nacarada: Que enchem a vista da maior surpresa:
De imortal tronco a Tarajaba amena Os que têm mais comuns as nossas Gentes,
Rende a áurea cor dos Belgas desejada, Ignora esta porção da redondeza;
O pau-brasil, de que o engenhoso Norte O boi, cavalo, a ovelha, a cabra, e o cão;
Costuma extrair cor de toda a sorte. Mas levados ali sem conto são.
L LV
Há de bálsamos árvores copadas, Todo o animal é fero ali; levado
Que por léguas, e léguas se dilatam; Donde tinha o seu pasto competente;
Folhas cinzentas, como a murta, obradas, Nem era lugar próprio ao nosso gado,
E em grato aroma os troncos se desatam: Que fora o bruto manso, e fera a Gente:
Se neles pelas Luas são sangradas: Como entre nós é o Tigre arrebatado,
E uso vário fazendo os que contratam, Cruel a Onça, o Javali fremente,
Lavram remédios mil, e obras lustrosas, Feras as Antas são Americanas,
Contas de cheiro, e caixas preciosas. E próprias do Brasil as Suraranas.

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LVI LXI
Vêem-se Cobras terríveis monstruosas, Entre as voláteis caças mais mimosa,
Que afugentam co’a vista a Gente fraca; A Zabelé, que os Francolins imita,
As Jibóias, que cingem volumosas É de carne suave, e deliciosa,
Na cauda um touro, quando o dente o ataca: Que ao Tapuia voraz a gula incita:
Voa entre outras com forças horrorosas, Logo a Enha-popé, carne preciosa,
Batendo a aguda cauda a Jararaca, De que a titela mais o gosto irrita,
Com veneno, a quem fere tão presente, Pombas verás também nesses países,
Que logo em convulsão morrer se sente. Que em sabor forma, e gosto são perdizes.
LVII LXII
Entre outros bichos, de que o bosque abunda, Juritis, Pararis, tenras, e gordas,
Vê-se o espelho da Gente, que é remissa, A Iraponga no gosto regalada,
No animal torpe de figura imunda, As Marrecas, que ao rio enchem as bordas,
A que o nome pusemos da Preguiça: As Jacutingas, e a Aracã prezada:
Mostra no aspecto a lentidão profunda; E se do lago na ribeira abordas
E quando mais se bate, e mais se atiça, De Galeirões, e patos habitada,
Conserva o tardo impulso por tal modo, Verás, correndo as águas na canoa,
Que em poucos passos mete um dia todo. A turba aquátil, que nadando voa.
LVIII LXIII
Vê-se o Camaleão, que não se observa, Negou às naves do ar a Natureza,
Que tenha, como os mais, por alimento Na maior parte a Música harmonia;
Ou folha, ou fruto, ou nota carne, ou erva, Mas compensa-se a vista na beleza,
Donde a plebe afirmou, que pasta em vento: Do que pode faltar na melodia:
Mas sendo certo, que o ambiente ferva A pena do Tocano mais se preza,
De infinitos insetos, por sustento Que feita de ouro fino se diria,
Creio bem que se nutra na Campanha Os Guarases pelo ostro tão luzido,
De quantos deles, respirando, apanha. Que parecem de púrpura vestidos.
LIX LXIV
Gira o Sareué, como pirata, Vão pelo ar loquazes papagaios,
Da criação doméstica inimigo; Como nuvens voando em cópia ingente,
À Canção da Guariba sempre ingrata Iguais na formosura aos verdes Maios,
Responde o Guassinin, que o segue amigo: Proferindo palavras, como a Gente:
Da vária caça, que o Caboclo mata, Os Periquitos com iguais ensaios,
A Narração por longa não prossigo, O Canindé, qual Íris reluzente;
Veados, Capivaras, e Coatis, Mas falam menos da pronúncia avaras,
Pacas, Teús, Periás, Tatus, Cotias. Gritando as formosíssimas Araras.
LX LXV
O mono, que a espessura habita astuto, Como Melros são negros os bicudos,
De um ramo noutro buliçoso salta; Mais destros, e agradáveis no seu canto,
E para não se crer que nasceu bruto, Na terra os Sabiás sempre são mudos;
Parece que o falar somente falta: Mas junto d’água têm a voz, que é encanto:
O riso imita, e contrafaz o luto; Os Coleirinhos no entoar agudos,
E a tanto sobre os mais o instinto exalta, As Patatibas, que o saudoso pranto
Que onde a espécie brutal chegar lhe veda, Imitam, requebrando com sons vários,
Tem arte natural, com que o arremeda. Os Colibris, e harmônicos Canários.

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LXVI LXXI
Das espécies marítimas de preço Na boca horrível, como vasta gruta,
Temos pérolas netas preciosas, Doze palmos comprida a língua pende,
Nem melhores aljôfares conheço, Sem dentes; mas da boca imensa, e bruta
Que os das ostras Brasílicas famosas: Barbatanas quarenta ao longo estende:
Âmbar Gris do melhor, mais denso, e espesso, Com elas para o estômago transmuta,
Nas costas do Ceará se vê espaçosas, Quanto por alimento n’água prende,
Madrepérolas, conchas delicadas, O peixe, ou talvez carne, e do elemento
Umas parecem de ouro, outras prateadas. A fez imunda, que lhe dá sustento.
LXVII LXXII
Piscoso o mar de peixes mais mimosos, Duas asas nos ombros tem por braços,
Entre nós conhecidos rico abunda, Que aos lados vinte palmos se difundem,
Linguados, Sáveis, Meros preciosos, Com asa, e cauda os líquidos espaços
A Agulha, de que o mar todo se inunda: Batendo remam, quando o mar confundem:
Robalos, Salmonetes deliciosos, E excitando no pélago fracassos,
O Cherne, o Voador, que n’água afunda, Chorros d’água nas naus de longe infundem;
Pescadas, Galo, Arraias, e Tainhas, E andando o monstro sobre o mar boiante,
Carapaus, Enxarrocos, e Sardinhas. Crê que é Ilha o inexperto navegante.
LXVIII LXXIII
Outros peixes, que próprios são do clima, Brilha o materno amor no monstro horrendo,
Berupirás, Vermelhos, e o Garoupa, Que, vendo prevenida a Gente armada,
Pâmpanos, Corimás, que o vulgo estima, Matar se deixa n’água combatendo,
Os Dourados, que preza a nossa Europa: Por dar fuga, morrendo, à prole amada:
Carepebas, Parus, nem desestima Onde no filho o arpão caçam metendo,
A grande cópia, que nos mares topa, Com que atraindo a Mãe dentro à Enseada,
A multidão vulgar do Chareo vasto, Desde a longa canoa se alanceia,
Que às pobres Gentes subministra o pasto. Ao lado de seus filhos a baleia.
LXIX LXXIV
De Junho a Outubro para o mar se alarga, Sobre a costa o marisco apetecido
Qual gigante marítimo a Baleia, No arrecife se colhe, e nas ribeiras
Que palmos vinte seis conta de larga, As Lagostas, e o Polvo retorcido,
Setenta de comprido, horrenda, e feia: Os Lagostins, Santolas, Sapateiras:
Oprime as águas com a horrível carga, Ostras famosas, Camarão crescido,
E de oleosa gordura em roda cheia, Caranguejos também de mil maneiras,
Convida o pescador, que ao mar se deite, Por entre os Mangues, donde o tino perde
Por fazer, derretendo-a, útil azeite. A humana vista em labirinto verde.
LXX
Tem por espinhas ossos desmarcados,
O ferro as duras peles representam,
Donde pendem mil búzios apegados,
Que de quanto lhe chupam se sustentam:
Não parecem da fronte separados
Os vastos corpos, que na areia assentam,
Entre os olhos medonhos se ergue a tromba,
Que ondas vomita, como aquátil bomba.

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CANTO VIII
I VI

Três vezes tinha o Sol no giro oblíquo Este meio portanto eu te sugiro,
A carreira dos Trópicos voltado, Que se a tua prudência hoje executa,
E três de Europa pelo Clima aprico, Verás em pouco tempo, como aspiro,
Tinha as plantas o Abril ressuscitado: Francesa pelo trato a Gente bruta:
Depois que do Brasil se tinha rico, Vive sempre brutal no seu retiro,
À França o nobre Diogo transportado, Quem ninguém comunica, e nada escuta,
Buscando nas viagens meio, e lume, Nem o Salvagem tiraras da toca,
Com que reforme o bárbaro costume. Se outro País não trata, e o seu não troca.

II VII

Mas da mísera Gente na lembrança, E em tanto que o terreno nosso habita,


Que lhe excita da Esposa a cara imagem, Transmigrada a infeliz Gentilidade,
Meditava deixar a amiga França, A Gente, que perdemos infinita,
Repetindo a Brasílica viagem: Suprirá com comum utilidade:
Na generosa empresa não descansa Assim a Agricultura mais se excita,
De instruir a rudeza do Salvagem, Cresce a plebe no campo, e na Cidade,
E cuida com razão que é humanidade, E a turba inerte, que corrompe a terra,
Amansar-lhe a cruel barbaridade. Ou se deixa emendada, ou se desterra.

III VIII

Enquanto nau, e embarque negoceia, Disse o Francês prudente, e o nobre Diogo,


Do amigo Du Plessis solicitado, Leal à amada Pátria respondendo,
Foi-lhe do Rei Francês proposta a idéia, Sábio projeto dás (replicou logo)
De erguer as Lises no País buscado: Sobre a população; nada o contendo:
Terás (lhe disse, e é fácil que se creia, Mas não posso convir no exposto rogo,
Que lho dizia do seu Rei mandado), Sendo fiel ao Rei, Português sendo,
Terás da França auxílio, e tropa imensa, Quando o Luso Monarca julgo certo
E maior que o serviço a recompensa. Senhor de quanto deixa descoberto.

IV IX

Que se o empenho te ocupa generoso Vivendo ex lege um povo na Anarquia,


De amansar do Gentio a mente ímpia, Tem direito o vizinho a sujeitá-lo,
Trazendo a França um povo numeroso, Que a Natureza mesma inspiraria,
Melhor se amansará na companhia: Ao que fosse mais próximo a amansá-lo:
Que engano fora a Europa pernicioso, Deixo que o Céu parece que o queria,
Quando Colônias derramando envia, Dando a Cabral o instinto de buscá-lo,
Extinguir sem remédio a infeliz Gente, E o ser em caso tal comum conceito,
E despovoar-se com a tropa ausente. Que quem primeiro o ocupa, tem direito.

V X

Desta arte Roma o Império seu fazia, E sem que ofenda a França a minha escusa,
Que as Colônias pelo Orbe derramando, É bem que esta conquista a Lísia faça;
Do País conquistado outras unia, Mas enquanto a Bahia o não recusa,
Com que ia a falta própria reparando: Ser-vos-á no comércio a melhor Praça:
Num século, que o bárbaro vivia, Cópia de drogas achareis profusa,
Na grã-Roma Romano ia ficando, E o lenho precioso ali de graça;
E neste arbítrio de pensar profundo, E durado eu na Pátria obediência,
Foi Mundo Roma, e foi Romano o mundo. Serei Francês na obrigação, e agência.

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XI XVI
Admirou Du Plessis no peito nobre Até que a si tornada docemente,
O generoso ardor, e o pátrio zelo, Corre a turba co’a vista em grato giro;
Que a ilustre condição no obrar descobre, E como quem esta aura ingrata sente,
Novo motivo para mais querê-lo: Rompe os longos silêncios num suspiro:
Sem mais receio que o contrário ele obre, Oh doce, (disse) oh Pátria permanente!
Na nova expedição quer sócio tê-lo; Que escuro este ar parece, que respiro!
Mas antes de embarcar-se o herói prudente, Feliz quem contemplando o Céu formoso;
Avisa o Luso Rei da empresa ingente. Vive no seio do celeste Esposo!
XII XVII
Já pelo salso Oceano navega Pasmado Diogo, e a multidão, que a ouvia,
A França nau, e o Cabo se divisa, Calam todos no assombro de admirados,
Donde à Europa no Ocaso ao termo chega, Nem já duvidam que visão seria,
Tido do antigo nauta por baliza: Em que ouvira os mistérios revelados:
A terra ali se vê, que o Minho rega, Quando ocultos segredos Deus confia,
Correndo a costa da feliz Galisa; Não devem ser (diz Diogo) propalados:
E o rumo então seguindo do Ocidente, Mas se em parte, como este, é manifesto,
Ao meio-dia se navega ardente. Temerário não sou, se inquiro o resto.
XIII XVIII
Não longe do Equador o mar cortava, Narra-nos, feliz alma, a visão bela,
Quando Paraguaçu, já Catarina, Quem sabe se por ti nos manda aviso
Como era seu costume, atenta orava, A Providência, que ao governo vela,
Implorando o favor da Mão Divina: Do mortal nos seus fins sempre indeciso:
E eis que a vista da turba, que a observava, Não nos cales em tanto o que revela
Enquanto adora a Majestade Trina, Por nosso lume, o excelso Paraíso,
Em sono fica suspendida, e absorta, E a nossos rogos com memória pronta,
E algum cuida que dorme, outro que é morta. Dizendo quanto viste, tudo conta.
XIV XIX
Brilha no aspecto um ar do afeto interno; Calaram todos com ouvido atento,
Mas em funda abstração com doce calma, Pendendo da expressão de Catarina;
Bem se lhe vê pelo semblante externo, E tomando na popa em roda assento,
Que ocupa em grande objeto a feliz alma. Dão-lho sobre um canhão, que ao bordo inclina:
Vê-se nela arraiar do lume eterno, Mandais-me (a Dama disse) que o portento
Que no Céu goza, quem já logra a palma, Haja de expor-vos da impressão divina:
Admirável vislumbre, que suspende, Quem poderá contar cousa tão alta,
E infunde um pio afeto em quem o atende. Quando o lume cessou, a ciência falta?
XV XX
Assim por longas horas abstraída Nem inculco em meu sonho um Sacro instinto,
Deixava o caro Esposo na anxiedade, Que tudo fingir pode a fantasia;
Se era sono, em que estava suspendida, Porque a imagem talvez que n’alma pinto,
Se era efeito de cruel enfermidade: Por força natural se fingiria:
Ora suspeita que perigue a vida, Pode ser, se presaga a idéia sinto,
Ora na Celestial tranqüilidade Que sem extraordinária profecia,
Crê que do claro Empíreo habitadora, Anteveja o sucesso, o tempo, e o prazo,
Imortal sobre o Céu reinando mora. E depois não suceda, ou seja acaso.

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XXI XXVI
Vi, não sei s’era impulso imaginário, Deste era prole o intrépido Fernando,
Um globo de diamante claro, e imenso; Que ali vi fulminando a forte espada;
E nos seus fundos figurar-se vário E contra a feroz Gente pelejando,
Um País opulento, rico, e extenso: Deixou a morte com valor vingada:
E aplicando o cuidado necessário, Mas da Bahia os olhos levantando,
Em nada do meu próprio o diferenço; Vi discorrer no mar potente Armada,
Era o áureo Brasil tão vasto, e fundo, Que as Ilhas ocupando, e a vasta terra,
Que parecia no diamante um Mundo. Movia no Brasil funesta guerra.
XXII XXVII
Fixo os olhos atenta no estupendo Parecia-me a frota belicosa
Milagroso espetáculo, que via, Francesa Gente, que o Brasil tentava,
E em três léguas de boca vi correndo Pedro Lopes de Sousa em furiosa
Por doze de diâmetro a Bahia. Naval batalha o mar lhe contestava:
Seis rios pelo golfo discorrendo, Noutra ação com Esquadra numerosa
Engenhos, povoações, que descobria, Luís de Melo e Silva pelejava;
Eram como ornamentos da Cidade, Cristóvão Jaques, que este mar corria,
De que se ergue no plano a Majestade. Dous navios lhe afunda na Bahia.
XXIII XXVIII
Parecia em seis bairros dividida, Era de França sim a adversa Gente;
Com duas Praças de extensão formosa; Mas por culto inimigo ao Rei contraria,
Fortaleza ali vi na barra erguida, E ao rito Calvinístico aderente,
Outra a parte de terra majestosa: Enviava ao Brasil tropa adversária:
A enseada por oito defendida, E protegida da facção potente
E outra em Taparica poderosa Com as forças, e Armada necessária,
Duas casas de pólvora, e na entrada Queriam para a infanda cerimônia
Vi-me a mim de uma delas retratada. Fabricar a Calvino uma Colônia.
XXIV XXIX
Dentro a um Templo magnífico se via Cavalheiro de Malta, e Franco nobre
De seus Prelados turma numerosa, Era Villegaignon de forte peito,
De que um às mãos dos bárbaros morria, Soldado antigo, que o valor descobre,
Outro a espada cingia valerosa: E entre os Huguenotes do maior respeito:
Muitos de alta virtude os matos via, De mil promessas o Partido cobre,
Com caridade discorrer zelosa, Havendo-o a empresa do Brasil eleito;
Sem poupar tempo, estudo, ou vida, ou gasto, E abonada de um Chefe de esperança,
Por propagar a Fé no Sertão vasto. Dá-lhe a mão a Heresia em toda a França.
XXV XXX
No grão-palácio em tintas retratados Este vi navegando o Cabo Frio,
Os que o governo do Brasil tiveram, Seguido de outras naus na forte empresa;
Os Sousas na Bahia decantados, E que tratando afável co’Gentio,
Os nobres Costas, que depois vieram: Explorava do sitio a natureza;
Mas entre outros na guerra celebrados, Mostrava aos naturais ânimo pio;
Por troféus, que vencendo mereceram, E argüindo-lho a Gente Portuguesa,
Mendo de Sá de gloriosa fama, Induz a Nação bruta a que lhe assista
Que Pai da Pátria no Brasil se aclama. Na empresa do comércio, e da conquista.

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XXXI XXXVI
Voltou a França o Cabo diligente, Entre frechas, e balas destemido
Tendo de ricas drogas carregado; Na penha o Português trepando salta;
E convocando às naus armada Gente, E deixando o Francês esmorecido,
Torna de turba ingente acompanhado: Degola, mata, fere, invade, e assalta:
Nem tarda do Sertão cópia potente Nem do antigo valor cede esquecido
De um povo, que nas armas aliado, O Francês animoso, até que falta
Por amigo estimava mais sincero, De sangue a brava Gente na contenda,
Menos inculto sim, porém mais fero. Faz a perda, e cansaço que a Ilha renda.
XXXII XXXVII
Ali Villegaignon, que ao troço aloja, Nem mais demora teve o invicto Mendo
Às Gentes do Sertão se confedera; Ao ver a Gente adversa dissipada,
E toda a costa a dominar se arroja, E a excelsa fortaleza desfazendo,
De donde os nossos expulsar já espera: A costa visitou na forte Armada:
Do seu comércio o Português despoja, E tudo ao nome seu sujeito havendo,
Na fértil Paraíba, em que útil era; À Bahia tornou, que iluminada
Nem há na costa do Brasil enseada, Entre o som do clarim, e alegre trompa,
Que o Huguenote não tenha bloqueada. Em triunfo a Mendo recebeu com pompa.
XXXIII XXXVIII
Mendo de Sá, que adverte no perigo, Mas a facção do Huguenote enfurecida
Três naus, que em guerra cuidadoso armara, Villegaignon potente ao Brasil manda,
Com oito de comércio tem consigo, Que a Ilha recobrando já perdida,
Além das que em socorro convocara: Guerra intenta fazer por toda a banda:
E por ter força igual às do inimigo, Vê-se a nossa Marinha combatida,
Sobre longas canoas, que ajuntara, E a forte Esquadra, que o Francês comanda,
Guia contra os Tamoios prepotentes Dominante no Oceano por modo,
Do bravo Carijó turmas valentes. Que impedia o comércio ao Brasil todo.
XXXIV XXXIX
Niterói se chama a vasta enseada, Mais não tolera a Lusa Monarquia,
Que estreita boca, como barra encerra, Que ao Rei Cristianíssimo aderente,
Fechando em vasto porto à grande Armada Contra a rebelde herética porfia,
Um lago, que em redondo cinge a terra: Armada põe na América potente:
Vê-se Ilha penhascosa sobre a entrada, Chefe Estácio de Sá prudente envia,
Com fortaleza, que disposta em guerra, De válidos galões com forte Gente,
Por bica dos canhões rumor fazendo, Que o Herege expulsando da enseada,
Fechava a barra ao valeroso Mendo. Deixe nova Cidade ali fundada.
XXXV XL
Era a Ilha de rochas guarnecida, Obsequioso abraçava o claro Mendo
Que em torno tem por natural muralha, O valeroso Chefe seu conjunto,
Donde a força das balas rebatida, As forças da Bahia unido tendo
Faz inútil dos Lusos a batalha: As que trouxera sobre o mesmo assunto:
Três dias foi dos nossos combatida, Contra os esforços do Tamoio horrendo
Sem que o fogo incessante aos nossos valha, Acomete o rebelde em liga junto,
Até que fatigado o invicto Mendo, Incorporando à Armada Lusitana
Invade à escala vista o forte horrendo. Vasto esquadrão da turba Americana.

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XLI XLVI
Chama-se Pão de açúcar o penedo, Era áspero o combate, e lenta a guerra,
Em pirâmide às nuvens levantado, E sem efeito o assédio ao Francês posto;
Onde de um salto tinha já sem medo E o bárbaro, embrenhado dentro a terra,
A turba militar desembarcado: Tinha emboscada ao Português disposto:
Nadava pelo mar vasto arvoredo Mendo, que n’alma o grão-cuidado encerra,
Do Gentio em canoas habitado; Tendo de Estácio socorrer proposto,
E do ardente Francês luzida tropa, Faz levas, busca naus, e a Gente incita,
Que hábil n’arte de guerra fez a Europa. E em auxílio dos seus partir medita.
XLII XLVII
Destes o Luso campo acometido Já dobra o frio Cabo a Esquadra ingente,
De dardos, frechas, balas se embaraça, E à vista do penhasco lança a amarra,
Em sombra o seio todo escurecido, Pasma o rebelde, vendo a Armada à frente
As naus ocultam nuvens de fumaça: Ocupar numerosa a estreita barra:
E ao eco dos canhões entre o ruído, Une-se a frota ali da Lusa Gente,
Tudo está cego, e surdo em campo, e Praça; E os mútuos casos vanglorioso narra
E no horrível relâmpago das peças Irmão a irmão, e o filho ao Pai, festivo
Caem por terra os bustos sem cabeças. Por ter chegado são, e achá-lo vivo.
XLIII XLVIII
Voam as naus de chamas ocupadas, Chega aos braços de Estácio o forte Mendo;
Enchendo a enseada do infernal estrondo, E por festiva salva estrepitosa,
As canoas dos nossos abordadas, Faz que vomite o bronze o fogo horrendo,
E os galeões, que em linha se vão pondo: Contra a Ilha, que avistam penhascosa:
Os golpes, que retinem das espadas, E largamente consultado havendo
O golfo, que arde em chamas em redondo, Os dous Chefes da empresa gloriosa,
Eram na terra, e mar em sangue tinto Contra o penedo tentam no mais alto,
Um abismo, um inferno, um labirinto. A peito descoberto, um fero assalto.
XLIV XLIX
Depois que largo tempo em Márcio jogo Vêem-se entre as penhas formidáveis bocas
Dura a batalha com comum perigo, De canhões, e mosquetes trovejando;
Cessando o impulso do contrário fogo, E nas quebradas espantosas rocas
Todo o estrago aparece do inimigo: Do bárbaro Tamoio o imenso bando:
Tinha cedido da contenda logo Muitos ali das ásperas barrocas
Receoso o Tamoio do castigo; Vão os nossos fuzis precipitando,
E os Franceses, que as naus mal sustentavam, Outros da rota penha em meio às gretas,
Entre as penhas o asilo procuravam. Cobriam contra nós todo o ar de setas.
XLV L
Não cessa o bravo Sá contra o Gentio, Não cessava o rebelde belicoso
E a forte tropa pelo mato avança; Com vivo fogo o assalto rebatendo,
Porque abatendo o orgulho, e insano brio, Enquanto sobe o Luso valeroso,
Se apartasse o Sertão da infame aliança: Trepando em fúria no penedo horrendo:
Nem receia o Tamoio o desafio, Quem no meio do impulso impetuoso,
Tendo no seu valor tanta confiança, Cai na ruína o próximo envolvendo,
Que fugindo da aldeia ao mato, e gruta, Quem ferido da frecha, ou veloz bala,
A liberdade ao Português disputa. Do mais alto da penha ao mar resvala.

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LI LVI
Todo o penhasco em fogo se fundia, Não desfalece o Capitão valente;
Enquanto o mar em roda em chamas ferve, E de um, e de outro lado acometido,
Entre o fracasso, e fumo que saía, Rebate as balas sobre o escudo ingente,
De nada o ouvido vale, e a vista serve: E arroja-se ao rebelde enfurecido:
A terra toda em roda estremecia; Lebrun despoja do mosquete ardente,
E sem que a água do incêndio se preserve, Com que muitos de um golpe tem ferido,
Parecia ferver do fogo insano, Outros do íngreme posto ao mar despenha,
Escondendo a cabeça o Padre Oceano. E alguns expulsa da soberba penha.
LII LVII
Qual do Vesúvio a boca pavorosa, E já fugia a tímida caterva,
Quando rios de fogo ao mar derrama, Quando Rochefocó, que a pugna iguala,
Arroja ao ar com fúria impetuosa Donde a viseira descoberta observa,
Parte do vasto monte envolta em chama: Lhe aponta desde longe ardente bala.
A cinza sobre o Céu caliginosa, Caindo o herói na espada, que conserva,
Muge o chão, treme a terra, o pego brama, Adora humilde a Cruz, e perde a fala:
E o mortal espantado, e tremebundo, Banha-se em sangue o chão, e em tanta glória
Crê que o Céu caia, e que se funda o Mundo. Regada a terra produziu vitória.
LIII LVIII
Tal de Villegaignon, na penha dura, Porque enquanto em segui-lo divertido,
Do horrífico trovão freme a tormenta, Abandona o Francês a fortaleza,
E a chama entre a fumaça horrenda, e escura Tinha parte do Exército subido,
Do infernal lago as furnas representa: A dar fim com vitória à forte empresa:
Porém do próprio fumo na espessura Admira Mendo o braço esclarecido;
A pontaria, que o rebelde intenta, E bem que do sobrinho o valor preza,
Evita o Português, que ataca incerto No juvenil ardor notou magoado
A escala vista, e a peito descoberto. O tomar Chefe as partes de soldado.
LIV LIX
E já no grão-penedo tremulavam A Pátria (o nobre Sá diz lagrimando)
As Lusas quinas pelo forte Estácio, Vítima irás da fé, da liberdade,
E as lises do penhasco se arrancavam, Vigor no sangue heróico à terra dando,
Donde a Villegaignon se ergue um palácio: Donde se erga imortal nova Cidade:
Pela roca os Tamoios se arrojavam, O caso acerbo aos pósteros contando
E o valor Luso dando inveja ao Lácio, Tenham seus Cidadãos da heroicidade
A guarnição Francesa investe à espada, Clara lição no Fundador primeiro,
E obriga em duro choque à retirada. Glória eterna do Rio de Janeiro.
LV LX
O valente Francês, que a bélica arte Tal nome deu à enseada no recordo
Já com valor na Europa professara, Do mês, que ilustre foi por caso tanto,
O peito à fuga opõe por toda a parte, E à Cidade deixou com justo acordo
E faz que volte o fugitivo a cara: A clara invocação de um Mártir Santo:
E vendo Estácio só junto ao Estandarte, E havendo as tropas recolhido a bordo,
Que por Chefe dos Lusos se declara, Descansadas do bélico quebranto,
Cuida de um golpe terminar a empresa Faz imortais no tempo transitório
No General da Gente Portuguesa. Os Correas, e Sás no novo empório.

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LXI LXVI
Em tanto do Tamoio a Gente bruta, Basta que em marcha procedais quieta,
Mais feroz sempre na Marcial contenda, E que invadindo a turba descuidada,
Contra a nova Cidade em fera luta, Não cuideis de empregar a bala, ou seta,
Movia guerra pelo mar tremenda: Mas que tudo leveis à pura espada:
Mas Mendo para a bárbara disputa E quando o vasto campo se acometa,
Faz que um Chefe Tapuia o mar defenda, Deixando-lhe às canoas livre entrada,
Araribóia aos seus nomeia a fama, Antes que o ferro vibre os seus reveses,
Martim Afonso por Cristão se chama. Desarmai, se puderdes, os Franceses.
LXII LXVII
Príncipe foi nas Tabas respeitado, Chamam corpo da guarda, onde o soldado
Que ao nome Português na guerra adicto, Costuma pôr as armas nas vigias;
Tinha com Mendo os seus capitaneado, Ali correi com ímpeto apressado,
Sempre contra o Tamoio em campo invicto: Seguindo o passo sempre das espias:
Quatro guerreiras naus tinha avançado Que nada o Francês pode desarmado,
O rebelde, depois do grão-conflito, E sem as chamas que derrama ímpias,
E em oito lanchas Ararig buscando, Ficará desde o ímpeto primeiro
Do Cabo Frio a ponta iam dobrando. Nas mãos da nossa tropa prisioneiro.
LXIII LXVIII
Saltam da noite no silêncio escuro Disse o astuto Ararig, e a lento passo
As belicosas mangas guarnecidas, Cada um pela brenha vai disperso,
De imensas chusmas do Tamoio duro, Devendo a dado tempo, e a certo espaço
Que obrar deviam na campanha unidas: Qualquer unir-se em batalhão diverso:
E enquanto tem o campo por seguro, E achando em sono descuidado, e lasso,
Jaziam pelas praias estendidas, Sem sentinelas ter, o campo adverso,
Para investir co’a luz, que já arraiava, Um a um, pé ante pé, em marcha tarda,
A aldeia de Ararig, que os esperava. Assaltam juntos a sopita guarda.
LXIV LXIX
Mas o bravo Tapuia belicoso Juntas as armas de improviso apanham,
Antevendo o descuido do inimigo, Matando as guardas meio adormecidas;
Busca o manto da noite insidioso, E depois que a armaria toda ganham,
Para investi-los no noturno abrigo: Quantos as vêm buscar perdem as vidas:
Convoca os seus guerreiros animoso; O sono com as mortes acompanham;
E sem dizer-lhes mais do seu perigo, E outros vendo sem armas as partidas,
Depois que um breve espaço os olhou mudo, Porque a causa não sabem do tumulto,
Disse cheio de ardor, batendo o escudo. Buscam as lanchas, por fugir do insulto.
LXV LXX
Su, valerosa, intrépida caterva; Araribóia, como um raio ardente,
Que esperamos no nosso alojamento? Uns dormindo degola pela areia,
Acaso até que o campo em chusma ferva, Outros sem armas, que rendidos sente,
E nos busque o Francês no próprio assento? Prisioneiros com cordas encadeia:
Sei por espia, que o seu campo observa, A fiel tropa pela praia ingente
Que dorme sobre as praias desatento, Toda deixa a campanha de horror cheia,
Onde se o surpreendermos de improviso, Cobrindo de cadáveres o plano,
Sentiram todo o dano antes do aviso. Alagado co’a espada em sangue humano.

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LXXI LXXVI
E já nos Céus risonha aparecia Nem mais a espada, e bomba pavorosa
A Estrela-d’alva as trevas apartando, Se ouvirá na Marinha, e Sertão vasto,
E com trêmula luz o incerto dia, A voz só do Evangelho poderosa,
No extremo do Horizonte ia arraiando: Simples, sem artifício, indústria, ou fasto:
Quando o estrago da noite aparecia, A semífera Gente viciosa
E preso, ou morto o Franco demonstrando, No jugo conterá de um temor casto;
Nem as lanchas se salvam, que a vazante E às mãos dos seus Apóstolos se avista,
Em seco as pôs na mão do triunfante. Com as armas da Cruz feita a conquista.
LXXII LXXVII
Não cessava Martim contra a espantada Mas vi em tanto o Lusitano Império
Multidão de Tamoios, que se embrenha; Na Líbia ardente em sangue submergido,
E deixando-lhe a aldeia derribada, E o seu domínio no Índico hemisfério
Não se lhe esconde algum no mato, ou brenha: Do Batavo nas águas invadido:
Muitos no Averno lança com a espada, E ou por descuido do governo Hespério,
Fugindo outros ao mar n’água despenha, Ou de mil contratempos combatido,
Nem fulminando a massa a algum perdoa, Cedeu no vasto mar por toda a banda
Oculto na cabana, ou na canoa. O Império do Brasil à fria Holanda.
LXXIII LXXVIII
Fez este Marte do Brasil constante Dezesseis longos séculos contando,
À Nação dos Tamoios tanta guerra, Com anos vinte quatro a vulgar Era,
Que ele só com a espada fulminante Vi a Batava esquadra o mar surcando,
Lhe extingue o nome, e despovoa a terra: Onde Wilhekens General modera:
Mais não ousa o rebelde mariante, Petre Petrid os mares assombrando,
Enquanto Araribóia no campo erra, Por Almirante aos náuticos se dera,
Desembarcar na costa, sem que o bravo Poder que à Índia navegar fingia,
O deixe combatendo, ou morto, ou escravo. E contra a expectação veio a Bahia.
LXXIV LXXIX
Vi que do excelso Trono vinha em tanto A fronte descobri da excelsa Praça,
Uma Augusta donzela adormecida, As armas governando o bom Furtado,
De quem brilhava sobre o aspecto santo Que antevendo os efeitos da desgraça,
A piedade, a abundância, a ciência, a vida: Tudo dispunha com valor frustrado:
Do seio derramava do áureo manto Convoca quanto encontra, e tudo abraça
A opulência no mundo apetecida; Por opôr-se ao perigo ameaçado;
E logo que foi vista sobre a terra, Mas dissipa-se a Gente sem batalha,
Submergiu-se no Averno a infausta guerra. Por faltar não valor, mas vitualha.
LXXV LXXX
Era a Divina paz, que o Céu nos manda, Dispunha assim o Batavo experiente,
Prêmio de um cetro, que da fé zelante Antevendo que a turba mal unida,
Propaga o santo culto, onde comanda, Sem cauta providência que a sustente,
E as Leis defende da Justiça amante: Esfriando no ardor toma a fugida:
Sem os estragos de uma guerra infanda E vendo a multidão menos freqüente,
Gozará o Brasil de paz constante, E a plebe na tardança esmorecida,
Por setenta anos de um governo justo, Quando menos o espera a chusma fraca,
Tendo tranqüila a terra, e o mar sem susto. Ocupando um castelo, o povo ataca.

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LXXXI LXXXVI
Ruiter, e Duchs com legião potente Já pela barra entrava da Bahia,
A porta invadem de S. Bento em fúria; Com sessenta e seis naus soberba a Armada,
Mas rebatidos de impressão valente, Doze mil homens de alta valentia
Cessam, fugindo da intentada injúria: Ocupavam sobre elas a enseada:
Mas tão funesto horror concebe a Gente, De tanto nome em militar porfia,
Que a guerra ignora com profunda incúria, Que a guarnição da Praça de assombrada,
Que quando faz que Ruiter não se arroje, Bem que finja valor nesta conquista,
Deixa o terreno, e do vencido foge. Antes que ao ferro se lhe abate à vista.
LXXXII LXXXVII
Furtado de Mendonça, que não vira Dispõe-se em meia lua a Armada inteira,
Já mais do medo vil a fronte escura, Cerrando a fuga ao Belga esmorecido,
Com setenta somente a face vira, Ocupa o forte exército a ribeira
E sem mais que o seu peito a Praça mura: Em dous quartéis aos lados dividido:
O amor da Pátria, que o furor lhe inspira, Mas o Batavo Quif na ação primeira,
Faz que da vida, desprezando a cura, Tendo o campo a Fadrique acometido,
Se arroje o Luso ao Batavo, que o inunda, Com sortida deixou no ardor insana
E um fira, um despedace, outro confunda. Suspensa a Lusa Gente, e rota a Hispana.
LXXXIII LXXXVIII
Mas vendo na manhã, que o Céu descobre Cheio o Belga de orgulho na ação brava,
A Cidade do Povo abandonada, Porque mais prove pela Pátria o zelo,
Nem mais que o peito de Furtado nobre Contra a Esquadra, que os muros varejava,
Com poucos dos setenta na esplanada: Em dous baixéis arroja um mongibelo:
Teme que num só peito o valor sobre, Crê que é fuga o Menezes, que observava,
E que deixando a empresa retardada, E move toda a Esquadra sem prevê-lo,
Socorro venha, donde bom partido E parece que Deus o impulso inspira,
Ao bravo Chefe se ofereceu rendido. Com que do oculto incêndio as naus retira.
LXXXIV LXXXIX
Não tarda a fama a divulgar voando Um giro a Lua fez na azul esfera,
Da Capital Brasílica o sucesso, Enquanto os Belgas de valor já faltos,
Enquanto o Belga, que lhe ocupa o mando, Ceder dispunham na contenda fera
Recolhe da vitória o imenso preço: Ao furor incessante dos assaltos:
Treme em Madri o Trono, receando E quando mais socorro não se espera,
Que o Bélgico Leão, com tanto excesso, Vendo que os mares se empolavam altos,
Prostre o de Espanha, e como o vulgo narra, Cede o Batavo humilde ao Luso Hispano
No México, e Peru lhe imprima a garra. A Capital do Império Americano.
LXXXV XC
Cobre-se o mar de Esquadras numerosas, Falando prosseguia Catarina,
Move-se a Lusa, e Hispana Fidalguia, Tendo a assembléia na discurso atenta,
Vão-se embarcando legiões famosas, Quando com fúria o bordo ao mar inclina
Todo em náutica chusma o mar fervia: A nau, batida de hórrida tormenta:
Fadrique as naus Hispanas poderosas, Tudo à manobra o Capitão destina;
Menezes as de Lísia prevenia, E vendo que onda horrível se apresenta,
Vendo-se terra, e mar no caso incerto, Lança-se o marinheiro à vela em pressa,
De petrechos, canhões, e armas coberto. Acode Diogo, e Catarina cessa.

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CANTO IX
I VI
Depois que o tempo torna bonançoso, Chamas pau-amarelo um sítio ao lado
E a noite vem tranqüila em branda calma, Da Cidade, que a frota acometia,
De ouvir o mais do sonho portentoso, Cômodo ao desembarque, e mal guardado
Se acende a todos o desejo n’alma: De Albuquerque, que as praias defendia:
E no empenho do Belga belicoso, Ali com quatro legiões formado,
Desejando escutar quem teve a palma, À bela Olinda o Batavo se envia,
Suplicam Catarina, que prossiga Onde com turmas de inexperta Gente
Na narração do sonho, e tudo diga. Se opôs o Luso Chefe ao Belga ardente.
II VII
Vi (prossegue a Matrona) em Marte duro Nem muito dura ao fogo desusado
Confundir-se o Brasil, vagar potente O tímido esquadrão da Gente Lusa,
O Batavo feroz; e o Reino escuro Que do insólito horror preocupado,
Encher Plutão da desditosa Gente: A fuga empreende em multidão confusa:
Vi descendo as Milícias do Céu puro, Um sobre outro ao fugir precipitado,
À plebe inerme com o zelo ardente, Render-se ao fero Belga não recusa;
Infundir valor tal, que conte a história E a Cidade infeliz deixando aberta,
Por milagre do Céu cada vitória. Qualquer se salva donde mais o acerta.
III VIII
Petrid e Iolo raios da Marinha, Entra o Holandês na Praça abandonada;
Com Esquadras do pélago Senhoras, E quando de riqueza a cuidou cheia,
Qualquer do lado seu queimado tinha, Em triste solidão desamparada;
Com chamas o Brasil desoladoras: E acha sem prêmio a cobiçosa idéia,
Petrid a frota que das Índias vinha Vingam nos templos a intenção malvada,
Com procelas de fogo abrasadoras, E o Altar profanam com infâmia feia,
E nas naus lavra de tesouros cheias, Tratando o pio rito, e o santo culto
Ao infausto Brasil novas cadeias. Com sacrílega mente, e horrendo insulto.
IV IX
Máquinas movem o Belga ambiciosas, Mas não sofre da fuga o torpe medo
Suprindo os gastos com a imensa prata; O valente fortíssimo Temudo;
E armando em guerra Esquadras numerosas, E tendo ao lado o intrépido Azevedo,
Ocupar Pernambuco ao Luso trata: A espada empunha, embaraçando o escudo:
Nem às forças da Holanda poderosas Ao ver do saco no funesto enredo
Opõem o Hispano com a nova ingrata, A forma do Holandês turbar-se em tudo,
Tal socorro, que a Praça na contenda Une alguns, que odiando a vil fugida,
Do grão-poder dos Batavos defenda. Dão por preço da glória a heróica vida.
V X
Rege de Pernambuco a terra extensa Ó, disse, honra imortal do nome Luso,
O intrépido Albuquerque, a tudo atento: Corações valerosos, que em tal sorte
Guarnece a Praça, os Esquadrões condensa, Fazeis da doce vida o melhor uso,
Dispõe ao fogo o bélico instrumento: Comprando a glória com a invicta morte:
Quando à maneira de floresta densa Vedes sem forma o Batavo confuso,
Se viu coberto o líquido elemento, Da valerosa espada exposto ao corte:
Onde proas setenta o mar rompiam, Corra-se às armas, que se os não vencemos,
E o Wandemburgo General seguiam. Sem a Pátria vingar não morreremos.

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XI XVI
Disse; e empregando a fulminante espada, Recobrava-se em tanto valerosa
Uma Esquadra invadiu que discorria, Do primeiro terror a Lusa Gente,
Com cálices da Igreja profanada, Que inexperta da pugna belicosa,
Que com insulto em derrisão metia: Cedera no improviso do acidente:
De uns a fronte no chão deixou truncada, E acompanhando em tropa numerosa
De outros o peito com o ferro enfia, Do intrépido Albuquerque o ardor valente,
De alguns, que insano acometendo freme, O Belga usurpador pelas ribeiras
Talhado o braço sobre a terra treme. Cercaram com redutos, e trincheiras.
XII XVII
Azevedo entre os mais, que no chão lança, Plantam depois um forte acampamento,
Tendo das balas empregado o impulso, Donde se insulte o Batavo inimigo,
Com fero golpe de alabarda alcança, Nem deixavam que um só pudesse isento
De Ruiter, que o acomete, o horrível pulso: Sair sem dano ao campo, ou sem perigo:
Despoja-o da arma, e furioso avança, Cortam-lhe o passo, e impedem-lhe o sustento,
Deixando-o em terra com tremor convulso, Nem lhe concedem no terreno abrigo;
Cornelisten derriba, e o ferro emprega E ocupando-lhe o giro dilatado,
Em Blá, que todo o chão com sangue rega. O Belga cercador deixam cercado.
XIII XVIII
Com fúria igual, e impulso destemido Dous mil dos seus guerreiros escolhidos
Invade contra o Batavo a caterva, Contra Albuquerque Wandemburgo avança;
E bem que a legião em corpo unido, Mas achavam os Lusos prevenidos
Em roda ao Luso disparando ferva: Do seu valor na nobre confiança:
Resiste o Português nunca rendido, Caíam das trincheiras rebatidos
Enquanto a vida com vigor conserva, Do fogo os Belgas, ou da espada, e lança;
Até que sobre os Belgas derribados, E sem que combatendo a mais se arrojem,
Caíram mortos sim, porém vingados. Em desordem do campo à Praça fogem.
XIV XIX
Tem por nome Arrecife um forte posto, Com quatro Companhias numa Armada
Que um Istmo separou do Continente, Socorro de Lisboa recebendo,
Donde o Castelo de S. Jorge oposto, Foi outra vez a tropa reforçada
Defende o passo ao trânsito iminente: Com Gente, e munições noutra de Oquendo:
Ali fazia aos inimigos rosto Mil mosqueteiros, tropa exercitada,
O bravo Lima, que do Belga ardente, No duro jogo de Mavorte horrendo,
Sem mais que trinta invictos defensores, S. Felice conduz Mestre de guerra;
Trezentos sacrifica aos seus furores. Mas menos apto na que usava a terra.
XV XX
Pasma de assombro Wandemburgo insano, Com socorro maior de Holanda armado
Nem pode crer, se o não convence a vista, Contra Itamaracá corre o inimigo;
Que com força tão pouca o Lusitano Duas vezes porém foi rechaçado
De dous mil Belgas ao furor resista: Com perda o Belga para o noto abrigo:
Sai com todo o poder, e ocupa o plano, À Paraíba, e Rio Grande enviado
E em forma regular tenta a conquista, Mudava de lugar, não de perigo;
E nem assim o Lima ao fogo cede, E já menos bisonha a Lusa tropa,
Enquanto auxílio ao General não pede. Põe em fuga o Holandês, se em campo o topa.

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XXI XXVI
A Wandemburgo no Holandês Império Mas logo que a manhã mostrou formosa
Sucedera Rimbach em guerras noto, Da batalha inimiga a forma unida,
Que estimando dos Belgas vitupério, Mais não sossega a chama generosa,
Ser cada dia pelos nossos roto: E investe ardente a Batava partida:
Enquanto celebrava atento, e sério Cobre os Céus a fumaça tenebrosa,
A Páscoa o campo em Procissão devoto, Perde o Hispano, e Holandês na empresa a vida,
Com todo o poder Batavo acomete, E nem este, nem o outro ali vencera,
E o campo em confusão batendo, mete. Se o temerário Roxas não morrera.
XXII XXVII
Não se interrompe a cerimônia augusta, S. Felice na guerra Mestre astuto,
Orando o Clero com o sexo pio, Sucede no governo ao bravo Hispano,
Sai o Ortodoxo contra a turma injusta, E Brasílico Fábio em tanto luto
Tomando por sagrado o desafio: Salvou na retirada o Lusitano:
E fundando no Céu confiança justa, Foi das palmas Batávicas produto
Pelejam com tal fé, com tanto brio, Governar o País Pernambucano
Que matando Rimbach em feio estrago, O Conde de Nassau, que o Belga envia,
Deram aos Belgas da blasfêmia o pago. General das Conquistas que emprendia.
XXIII XXVIII
Mas o Céu, que o flagelo destinava, Era Nassau nas armas celebrado,
Poder tão grande aos Batavos concede, Com que ilustrava o excelso nascimento,
Que nada a Vandescop, que os moderava, Príncipe então no Império respeitado,
Depois desta campanha o curso impede: Nutrindo igual ao sangue o pensamento:
Fica Itamaracá de Holanda escrava, Entrou de forte Armada acompanhado,
Desfaz-se o campo, a Paraíba cede, E no Arrecife situando o assento,
Perde-se o Rio Grande, e noutra empresa, Levantou fortes, e em Países belos
Rende o Luso o Pontal, e a Fortaleza. Guarneceu as Colônias com Castelos.
XXIV XXIX
Salva-se o resto da facção perdida, Mas aspirando a empresa memorável,
Nas Alagoas, sítio defensável, Todo o exército, e Armada prevenia,
Onde do fero Belga perseguida, E achando Pernambuco defensável,
Asilo busca a turba miserável: Invadiu no Recôncavo a Bahia:
Mas foi da Espanha em breve socorrida S. Felice com resto miserável
Com brava tropa em frota respeitável, Ali novo socorro ao Rei pedia,
Roxas de Borja a Pernambuco enviado; Quando ao bravo Nassau dispunha a sorte
De Albuquerque o bastão tomou deixado. Um Chefe nele opor prudente, e forte.
XXV XXX
Roxas pronto no obrar, posto em batalha Tudo dispunha o Conde em forma, e arte
De Vandescop as tropas investia; De rebater do Batavo a interpresa,
Mas o Belga Arquichofe a marcha atalha Dispõe pela Cidade em toda a parte
Com socorro que valido trazia: Os meios, e instrumentos da defesa:
Com tenebrosa sombra os lutos talha Faz grossas levas, e Esquadrões reparte,
A noite, que começa, à morte ímpia, E tudo preparando à forte empresa,
Dispondo Roxas em defensa armado, Nada esqueceu de quanto na Milícia
Esperar o socorro convocado. Inventa a militar sábia perícia.

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XXXI XXXVI
Entrava em tanto pela vasta enseada Dous dias na enseada por vingança
Nassau, que as praias enche da Bahia, Bate a Esquadra a Cidade sem perigo,
Com a terrível majestosa Armada, Com balas, e granadas, que em vão lança,
Que com quarenta naus linha fazia: Parecendo mais salva, que castigo:
E ao som da trompa Marcial tocada Sobreveio ao Brasil nova esperança
Em gratos ecos de hórrida harmonia, De expugnar com mais forças o inimigo;
Enche a horrenda procela em tais ensaios Mas foi o efeito das promessas vário,
A enseada de trovões, e o Céu de raios. Impedindo o socorro o mar contrário.
XXXII XXXVII
Em tanto o claro Silva que ocupava Vi neste tempo em confusão pasmosa
Do supremo governo o excelso mando, A Monarquia em Lísia dominante,
A S. Felice o posto renunciava, E a Casa de Bragança gloriosa
Ficando por soldado ao seu comando: Nos quatro Impérios triunfar reinante:
Heróica ação, que pela Pátria obrava, A Bahia com pompa majestosa
Maior perícia em outrem confessando, Festejar o Monarca triunfante,
E merecendo nela em tanta empresa E o Pernambuco de desgraças farto,
Da Corte aclamações, do Rei grandeza. Invocar Pai da Pátria D. João Quarto.
XXXIII XXXVIII
Desembarca Nassau com turba ingente Tratava o novo Rei com fé provada
Junto de Tapagipe, e emprende o oiteiro, A Batávica paz, que sem justiça,
Que nomear costuma a vulgar Gente Deixava ao mesmo tempo quebrantada
Do antigo habitador, Padre Ribeiro: O Belga injusto pela vil cobiça:
Mas S. Felice, que o anteviu prudente, Ocupa o Maranhão Batava Armada,
De posto o bate, que ocupou primeiro; E outra Esquadra em Sergipe o incêndio atiça,
E depois que seiscentos destro mata, Pertendendo ocupar com falso engano
Em grande parte o Belga desbarata. Toda África, e Brazil ao Lusitano.
XXXIV XXXIX
Largos dias Nassau bate a trincheira, Cede do seu governo de afrontado
Que lhe opôs ao Quartel Banholo à frente; O General Nassau, tornando à Holanda,
Mas o Belga em batalha verdadeira Tendo o conselho do Arrecife armado
Por muitos dias se avançava ardente: Mil artifícios de calúnia infanda:
Cobre-se a terra em hórrida maneira Nem contra os habitantes moderado
De um monte de cadáveres ingente, O duro freio no governo abranda,
Vendo os Belgas cair, sem que desista Onde a plebe agravada que o experimenta,
Nassau com tanto sangue da conquista. O jugo sacudir com glória intenta.
XXXV XL
E já desfeito o exército se via, João Fernandes Vieira foi na empresa
Ferido o Oficial, e a Gente morta, O instrumento da Pátria liberdade,
Sem que cessasse o ardor nos da Bahia, Herói, que soube usar da grã-riqueza,
Que o S. Felice rege, e o Silva exorta: Libertando o Brasil desta impiedade:
Pede tréguas Nassau nesta porfia, De amigos, e parentes na defesa
E tudo com a tropa as naus transporta, Tentou furtivamente a sociedade,
Fugindo do perigo o infausto efeito, E como a pedra a Estátua de Nabuco,
Com perda igual de Gente, e de conceito. O Belga derribou de Pernambuco.

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XLI XLVI
Nomeou Cabos, tropas, Companhias, Avistado o Negreiros, e o Vieira,
Pediu socorros, e invocou prudente, Venho (disse o primeiro) a prisão dar-vos,
Expondo do Holandês as tiranias Por haver provocado a ira estrangeira
O Governo Brasílico potente: A uma guerra, que acabe de assolar-vos:
Avisa sem demora Henrique Dias, É justo que eu também prender-vos queira,
Capitão dos Etíopes valente, Mas será (disse o herói) com abraçar-vos;
E o forte Camarão, que em guerra tanta, E assim dizendo alegre move o passo,
Com os seus Carijós o Belga espanta. E os dous recebe com festivo abraço
XLII XLVII
Ouve o Holandês com susto o movimento; Outro tanto fazia a tropa unida
E querendo oprimir nascente a chama, Ao invicto Esquadrão Pernambucano;
Com dous mil homens prevenia atento E aplaudindo a vitória conseguida,
A nova guerra, que o Vieira inflama: Detestam do Holandês o enorme engano:
Deixara o Luso Chefe o alojamento, Nem muito tarda a Gente fementida,
E os Belgas, que à cilada oculto chama, Que não abrase a Esquadra ao Lusitano,
Empenhou de um lugar nas duras rocas, Onde embarcado pela paz chegara,
A que o monte chamaram das Tabocas. Como o Batavo próprio o convidara.
XLIII XLVIII
Entre arbustos, e canas de improviso Ouvem-se em tanto os míseros clamores
Dispara o Luso sobre a incauta Gente; De turba feminina, que invocava
E precedendo o dano antes do aviso, O socorro dos seus libertadores
Desbarata o Holandês com fúria ardente: Contra o Belga cruel, que as cativava:
Suspende a marcha o Batavo indeciso, Mais não cessa o Vieira, e sem rumores
E sem ver o inimigo, o golpe sente, O Engenho, aonde incauto descansava
Até que vendo o estrago dos soldados, O Belga General cercado; bate,
Cedem o campo, e fogem destroçados. E rendendo-o à prisão, vence o combate.
XLIV XLIX
Holanda era potente, e o Luso aflito, Henrique Hus do Arrecife Comandante
Onde enchendo Lisboa de ameaças, Era o Cabo dos Belgas prisioneiro,
Por ter notícia do infeliz conflito, Blac rendido também, Chefe importante,
Meditava ao Brasil novas desgraças: Subalterno nas armas do primeiro:
Mas por guardar os seus o Rei invicto, Foge do Luso o Batavo arrogante,
Dispôs piedoso nas Províncias lassas, Espalhando os fuzis no grão-terreiro,
Providências, que à paz chamar pudessem E a chama teme, que no horrendo empenho,
O tumulto, em que os nossos permanecem. Lançara o Vieira pelo vasto engenho.
XLV L
Vão com dous Regimentos destacados Com fama de vitória tão brilhante
O Moreno, e Negreiros da Bahia Tomas as armas a plebe, e o Belga invade,
A dar paz (se é possível) destinados Serinhaem tomou, Vila possante,
Na guerra, que o Vieira então movia: O partido comum da liberdade:
Viram veigas, e campos abrasados, Segue Itamaracá com fé constante,
E o colono infeliz, que perecia, Porto Calvo, e os contornos da Cidade,
Com lástima da tropa, que observara, Deixando no Arrecife sem remédio,
Todo o estrago, que o Belga ali causara. Encerrado o Holandês com duro assédio.

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LI LVI
Mas não cessa na Holanda a companhia, Nove mil homens, tropa valerosa,
E ao numeroso exército, que ordena, E com freqüentes palmas veterana,
Sigismundo Van-Scop por Chefe envia, Manda o Batavo a empresa perigosa,
Munido em guerra de potência plena: Que à guerra ponha fim Pernambucana:
Do experto General, que desconfia Ocupa o mar Armada poderosa;
O prêmio ao valeroso, ao fraco a pena, E dominando a praia Americana,
E emprendendo com forças o combate, Usurpa em mar, e terra alto domínio,
O inimigo Vieira ou prenda, ou mate. Ameaçando dos Lusos o extermínio.
LII LVII
Abordando o Arrecife então cercado, Põe-se em campanha o Batavo terrível,
A inércia dos seus Chefes repreende, Com sete mil de veterana tropa,
Nem muito tarda, que no campo armado, Vão densos bandos do Gentio horrível,
Não saia a Olinda, que expugnar emprende: Com destro gastador vindo da Europa:
Em assalto a acomete duplicado, E estimando a potência irresistível,
E a brava tropa, que ao presídio atende, Cede ao Belga a Barreta, e quanto topa,
Com tanto alento o Batavo rechaça, Enquanto em defensiva o Luso fica,
Que ferido Van-Scop se acolhe à Praça. E o campo contra o Belga fortifica.
LIII LVIII
Sem que desista da passada instância, Sigismundo porém, que os bastimentos
Tenta de novo a empresa da Bahia; Em Moribeca assegurar procura,
Mas notando nos Lusos a constância, Dispunha ali tomar alojamentos,
Que injúria do poder lhe parecia: Estimando a vitória já segura:
Consome do Recôncavo a abundância Mas Barreto, e Vieira a tudo atentos,
Com freqüentes sortidas, que emprendia; Na justiça, que a causa lhe assegura,
E porque cresça na Cidade o tédio, Confiam que na empresa o Céu lhe valha,
Ocupa Taparica, e põe-lhe o assédio. E tudo não dispondo a uma batalha.
LIV LIX
Teles em tanto, que expulsar pertende, Nem com tanto poder Van-Scop recusa,
Sem igual força o Batavo contrário, Decidir numa ação toda a contenda,
Contra o comum conselho o ataque emprende, Antevendo, se a perde a Gente Lusa,
E tudo expõe no impulso temerário: Que outra força não tem que a guerra emprenda:
Mas vendo o Luso Rei, que a nada atende, E já na marcha a multidão confusa,
O Belga nos seus pactos sempre vário, A ação começa pelo fogo horrenda,
Manda Armada ao Brasil, que poderosa E turbando dos Belgas toda a forma,
A Batava Nação dome orgulhosa. Combatem com valor, porém sem norma.
LV LX
Teme o golpe Van-Scop, e desampara, Nos montes Guararapes se alojava
Por guardar o Arrecife, Taparica, Formado o Português, que o Belga espera;
Antevendo que a Esquadra se prepara E a escaramuça, que emprendera brava,
Contra a Praça, que auxílio lhe suplica: Traz a sítio o Holandês, que adverso lhe era:
Barreto de Meneses, que chegara Desde alto monte o Luso fogo obrava,
De novo General patente indica, Com ruína dos Batavos tão fera,
E em Pernambuco sublimado ao mando, Que ou seja ao lado, ou na espaçosa fronte,
Com prudência, e valor foi governado. Se cobriu de cadáveres o monte.

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LXI LXVI
Reúne os batalhões Van-Scop irado, Com dous mil e seiscentos veteranos
E à fronte com valor da linha posto, Faz-lhe frente Barreto, e o Belga invade,
Tenta desalojar do alto ocupado Correm de toda a parte os Lusitanos
O invicto Camarão, que lhe faz rosto: A sustentar à Pátria liberdade:
Mas com chuva de balas rechaçado, Aloja o Luso sobre os mesmos planos,
Perde três vezes o ganhado posto; Onde fora a passada mortandade;
E já ferido com mil mortos cede, O Belga na montanha se distingue,
Em vil fuga, que a noite lhe concede. Um que o estrago renove, outro que o vingue.
LXII LXVII
Noventa dos seus perde o Lusitano; Mas Brinc a tudo atento desde o cume
E enquanto o Belga se retira incerto, Com perícia guerreira ocupa o monte,
Descobre a aurora todo o monte, e plano Onde seguindo o militar costume,
De bandeiras, canhões, e armas coberto: Dá forma á retaguarda, e ordena a fronte:
Muitos ali do Batavo tirano, Nem tão ousado o Português presume,
Perdidos pela noite em campo aberto, Que em vantajoso posto o Belga afronte,
Deixa o dia, inexpertos nos roteiros, Esperando a ocasião dali oportuna,
Nas mãos da nossa tropa prisioneiros. De poder atacar com mais fortuna.
LXIII LXVIII
Horroriza-se Holanda, pasma Europa, Reconhece Barreto o sítio, e forma;
Exalta Portugal, canta a Bahia, E vendo o ardor da Lusitana Gente,
Vendo-se triunfar tão pouca tropa Que, hábil no passo, da subida o informa,
Da terrível potência, que a invadia: Faz que o bravo Vieira ataque ardente:
Nada de humano o pensamento topa, E cobrindo a invasão com sábia norma,
Que em tudo a mão de Deus clara se via, Com o fogo protege o assalto ingente,
Pois sempre elege para os seus portentos Até que por mil casos duvidosos,
Os mais fracos, e humildes instrumentos. Vê sobre o monte os campeões briosos.
LXIV LXIX
Tinha exausta a ambição, mas não cansada Nova batalha ali com fogo vivo
A cobiçosa Holanda em tal conquista; Move impávido o Belga, e firme insiste;
E para novo empenho aparelhada, E por mais que o Vieira invada ativo,
Escolhe os Capitães, e a Gente alista: Onde um corpo vacila, outro resiste:
Mas do Britano às armas provocada, Tal há que ainda combate semivivo;
Sobre interesse que mais alto avista, Tal que cadáver já na morte triste,
Suspende o influxo na famosa empresa, A terra morde, e em raiva enfurecida,
Deixando em Pernambuco a guerra acesa. Blasfemando do Céu, despede a vida.
LXV LXX
Brinc a este tempo, Coronel valente, A toda a parte voa o grão-Barreto,
Impetra de Van-Scop tropa luzida, E um anima, outro ajuda, outros exorta;
Com petrechos, e número potente, E excitando no Luso o Pátrio afeto,
Que em batalha cruel tudo decida: Incita o forte, o invalido conforta:
Cinco mil homens de escolhida Gente, Bramava o fero Brinc em sangue infeto,
De canhões, e petrechos guarnecida, Entre a Batava, turba opressa, e morta,
Põe no campo assombrado da Potência, Assalta horrendo um batalhão potente,
Igualando o valor co’a diligência. E outros reprime com ferócia ardente.

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LXXI LXXVI
Mas o invencível Camarão, que o nota Assim modera o Padre Onipotente
Um forte troço da reserva abala; Do ignorante mortal a incerta sorte,
E suspendendo a mísera derrota, Por fazer com tais casos evidente
Lança o Belga por terra de uma bala: Que não é quem mais pode o que é mais forte:
Logo o Almirante da soberba frota, Tudo rege na terra a Mão potente;
Vendo invalido Brinc cair sem fala, Dele a vitória pende, a vida, a morte;
Ocupa o mando, que já vago estima, E sem o seu favor, que o distribui,
E o Batavo à peleja altivo anima. Todo o humano poder nada conclui.
LXXII LXXVII
Não sofre Henrique Dias, que observava Triunfou Portugal; mas castigado,
Do novo Chefe a intimação constante; Teve em tal permissão severo ensino,
E de um tiro, que fero lhe apontava, Que só se logrará feliz reinado,
Derriba morto o intrépido Almirante: Honrando os Reis da terra ao Rei Divino:
Sem Comandante o Belga trepidava, E que o Brasil aos Lusos confiado,
E de um, e de outro lado vacilante, Será, cumprindo os fins do alto destino,
Uma vil fuga tímido declara, Instrumento talvez neste Hemisfério,
E o campo com desordem desampara. De recobrar no Mundo o antigo Império.
LXXIII LXXVIII
O estandarte soberbo dos Estados, Vi no sonho mil casos diferentes,
Tendas, peças, bandeiras numerosas, Que no curso virão de outras idades:
Mil e trezentos mortos numerados, Vi Províncias notáveis, e potentes,
Prisioneiros, bagagens preciosas: Vi nascer no Brasil áureas Cidades:
Muitos centos na fuga degolados, Famosos Vice-Reis, e ilustres Gentes,
A caixa militar, armas custosas, Tantos sucessos, tantas variedades,
Foram nesta ocasião de tanta glória Que somente pintado, como em sombra,
O merecido prêmio da vitória. Confunde o pensamento, a vista assombra.
LXXIV LXXIX
Cinge o Arrecife de um assédio estreito Prelados vi de excelsa Jerarquia,
Com pronta cura o Chefe Lusitano; E entre outros da maior celebridade
Mas tendo longa guerra o Belga feito, O claro Lemos, que enriqueça um dia
Era contínuo sim, mas mútuo o dano: De novas Ciências a Universidade:
Até que Jaques ao comando eleito Ele ornará depois a Academia
No campo se avistou Pernambucano, Com construções de excelsa majestade,
Conduzindo em fortuita derrota E em doutrina a fará com sábio modo
Para o Luso comércio a usada frota. O Ateneu mais famoso do Orbe todo.
LXXV LXXX
Por mar, e terra sitiada a Praça, Deu Catarina fim, e arrebatada
Depois do longo assédio de nove anos, Num êxtase ficou, vibrando ardores;
Com mil desastres fatigada e lassa, Corriam pela face em luz banhada
Cedeu todo o Brasil aos Lusitanos: Lágrimas belas, como orvalho em flores:
Mercê clara do Céu, patente graça, Fica a pia assembléia esperançada
Que a tão poucos, e míseros paisanos De outros sucessos escutar maiores;
Cedesse uma Nação, que enchia em guerra, E dando tempo ao sono milagroso,
De Armadas todo o mar, de espanto a terra. No abraço a deixam do celeste Esposo.

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CANTO X
I VI
Cheia de assombro a turba a Dama admira Das faces belas, se na terra houvera
Tornada a si da suspensão pasmosa; Imagem competente que a pintara,
E da nova visão, que ali sentira, Às flores mais gentis da Primavera
Prossegue a ouvir-lhe a narração gostosa: Pelo encarnado, e branco eu comparara:
Mais bela que esse Sol, que o Mundo gira, Mas flor não nasce na terrena esfera;
E com cor (disse) de purpúrea rosa, Não há estrela no Céu tão bela, e clara,
Vi formar-se no Céu nuvem serena, Que não seja, se a opor-se-lhe se arrisca,
Qual nasce a Aurora em madrugada amena. Menos que à luz do Sol breve faísca.

II VII
Vi luzeiros de chama rutilante Da boca formosíssima pendente
Sobre a esfera tecer claro diadema, Pasma em silêncio todo o Céu, profundo:
De matéria mais pura que o diamante, Boca, que um Fiat pronunciou potente,
Que obra parece de invenção Suprema. Com mais efeito, que se criasse um Mundo:
Luzia cada estrela tão brilhante, Odorífero cheiro em todo o ambiente
Que parecia um Sol, precioso emblema Do labro se espalhava rubicundo;
De admirável belíssima pessoa, Fragrância celestial, que amante, e pia
Que à roda da cabeça cinge a coroa. No Filho com mil ósculos bebia.

III VIII
De ouro fino os cabelos pareciam, Todos suspende em pasmo respeitoso
Que uma aura branda aos ares espalhava, O amável formosíssimo semblante;
E uns dos outros talvez se dividiam, E mais nele se ostenta poderoso
E outra vez um com outro se enredava: O Soberano Autor do Céu brilhante:
Frechas voando, mais não feririam, Pois quanto tem o Empíreo de formoso,
Do que um só deles n’alma penetrava; Quanto a angélica luz de rutilante,
Cabelos tão gentis, que o Esposo amado Quanto dos Serafins o ardente incêndio,
Se queixa, que de um deles foi chagado. De tudo aquele rosto era um compêndio.

IV IX
A frente bela, cândida espaçosa, Nas brancas mãos, que angélicas se estendem,
Cheia de celestial serenidade, Um desmaiado azul nas veias tinto,
Vislumbres dava pela luz formosa Faz parecer aos olhos, quando o atendem,
Da imortal soberana claridade: Alabastros com fundos de jacinto;
Vê-se ali mansidão reinar piedosa, Ambas com doce abraço ao seio prendem
E envolta na modéstia a suavidade, Formosura maior, que aqui não pinto;
Com graça, a quem a olhava tão serena, Porque para pincel me não bastara,
Que excitando prazer, desterra a pena. Quanto Deus já criou, quanto criara.

V X
Dos dous olhos não há na terra idéia, Mas se não se dedigna o Verbo Santo
Que astros, flores, diamantes escurecem; Por nosso amor, de um símbolo rasteiro;
Ou na beleza de mil graças cheia, Dentro parece do Virgíneo Manto,
Ou nos agrados, que brilhando oferecem: Pascendo em brancos lírios um Cordeiro:
Num olhar seu toda alma se encadeia, Os olhos com suavíssimo quebranto
E mil votos à roda lhe aparecem, Lhe ocupa um doce sono lisonjeiro,
Dos que a seu culto glorioso alista, À roda os Serafins, que o estrondo impedem,
Outorgando o remédio numa vista. Para o não despertar silêncio pedem.

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XI XVI
Aos pés da Mãe piedosa superada E depois que em festivo amigo abordo
Vê-se a antiga Serpente insidiosa, O bom Gonzales o Hóspede festeja,
De que a fronte na culpa levantada, Excitou-se nos dous claro recordo,
Quebra a planta Virgínea gloriosa: De quem o Hispano foi, quem Diogo seja:
E enroscando os mortais já quebrantada, Ambos nos braços, de comum acordo,
Ao eco só da Virgem poderosa, Um a outro mil ditas se deseja;
No mais fundo do abismo se submerge, Reconhecendo o Luso o nobre Hispano
E o feral antro do veneno asperge. Por um dos companheiros de Arelhano.
XII XVII
Ao ver beleza tanta o pensamento, Carlos o grande, o Imperador famoso
Que a linda Imagem surpreendia absorto, Grato por mim a saudar-te envia
Ouve no centro d’alma um doce acento, (Disse a Diogo o Hispano generoso,
Que o peito enchia de vital conforto: Socorrido a outro tempo na Bahia):
E como infunde às plantas novo alento Ouviu o invicto César, gracioso
O matutino orvalho em fértil horto, O teu obséquio à Hispana Monarquia,
Tal dos doces influxos na abundância E o serviço, que grande considera,
Dentro d’alma eu senti nova constância. Por mim no seu agrado remunera.
XIII XVIII
Catarina (me diz) verás ditosa E porque possa em caso equivalente
Outra vez do Brasil a terra amada; Retribuir-te aquela ação piedosa,
Faze que a Imagem minha gloriosa Salva aqui te ofereço a infausta Gente,
Se restitua de vil mão roubada: Perdida nessa praia desditosa:
E assim dizendo, nuvem luminosa, De cativeiro bárbaro, e inclemente
Como véu, cobre a face desejada; Vivia na opressão laboriosa,
E faz que na memória firme exista Até que destas armas protegida,
Entre amor, e saudade a doce vista. Remiu na liberdade a infausta vida.
XIV XIX
Assim conclui Catarina, enchendo Garcés então da Gente Lusitana
De duvidoso assombro a companhia: O mais distinto, que o discurso ouvia,
Que Imagem fosse aquela, iam dizendo, Confessa o benefício à força Hispana,
Ou qual deles acaso a roubaria? E a história de seus casos principia.
Se a Mãe de Deus mistérios envolvendo, Depois que a Gente abandonaste insana,
D’outra cópia interior o entenderia? Com teu aviso, a Lusa Monarquia
Ou queria talvez que em santo trato Gentes aqui mandou, naus poderosas,
Se restitua n’alma o seu retrato. Que as Nações sujeitassem belicosas.
XV XX
Mas vela em tanto apareceu boiante, Foi Pereira Coutinho o destinado
Que junto da Bahia o mar cortava, A fazer da Bahia a grã-conquista;
Onde em bandeira, que lançou flamante, Herói no Índico Império celebrado,
O Leão das Espanhas tremulava: Em quem nova esperança o Luso avista.
Vem à fala com salva fulminante; Tudo tinha o bom Chefe preparado,
E a Franca nau, que à terra velejava, Formosas naus ajunta, e Gente alista,
Posto à capa o Espanhol, cortês visita, E à grã-população, que meditava
E o claro Diogo a visitá-lo incita. De um sexo, e d’outro as Gentes convidava.

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XXI XXVI
E sem demora as praias ocupando, Em cuidadosa escola o temor santo,
Foi dos Tupinambás, com teu recordo, Antes das Artes a qualquer se ensina;
As potentes aldeias visitando, Dão-lhe lições de ler, contar, de canto,
Com amiga aliança em firme acordo. E o Catecismo da Cristã Doutrina:
Do Sertão vasto em numeroso bando Vendo-os o rude Pai, concebe espanto,
Desciam, festejando o nosso abordo, E pelo filho a Mãe à Fé se inclina,
Os Carijós, Tapuias, e outras Gentes, Nem de meio entre nós mais apto se usa,
Por fama do teu nome obedientes. Que aquela Gente bárbara reduza.
XXII XXVII
Gupeva, e Taparica celebrados E estes serão, se a idéia não me engana,
Entre os Tupinambás, Nação, que habita Meios à grande empresa necessários,
Os campos da Bahia dilatados, Que em breve a Gente rude fora humana,
Antes de outros Coutinho solicita: Com Escolas, e Régios Seminários:
E por vê-los contigo emparentados, Foge, sem se domar a Gente insana,
Povoar o Recôncavo medita Se em forças, e poder nos vê contrários;
Da Gente, que o teu nome reconhece, Mas educada em tenra mocidade,
Onde de dia a dia o Povo cresce. Dilataria o Reino, e a Cristandade.
XXIII XXVIII
Todo o fértil terreno utilizando, Mas no meio das belas esperanças,
Donde riqueza se oferece tanta, Com que a nova Colônia florescia,
Engenhos vai de açúcar fabricando, Move a Serpe infernal desconfianças
Aldeias, casas, máquinas levanta: Entre os Tupinambás, e os da Bahia:
E as drogas preciosas comutando, Foi a causa infeliz destas mudanças
A mandioca, arroz, e a cana planta; Um interesse vil de Gente ímpia,
Nem duvida que seja em tempo breve Que os povos ofendendo em paz amigos,
A Colônia melhor, que Europa teve. Cobriram toda a terra de inimigos.
XXIV XXIX
Escolha faz nas Tabas numerosas Gupeva foi dos seus abandonado;
Dos que acha no trabalho mais ativos; Taparica foi morto; a Lusa Gente
Mas guarda para empresas belicosas Do Gentio nos matos rebelado,
Os que em ferócia reconhece altivos: Contínua perda nas lavouras sente:
A todos com maneiras amorosas Queimada a planta foi, perdido o gado,
Propõe da Fé Cristã claros motivos; E cercado o arraial em continente,
E a condição notando em cada raça, Viu Coutinho por bárbara violência
Uns doma com terror, outros com graça. Perdido o seu tesouro, e diligência.
XXV XXX
Sabe que em Gente tal nada se colhe, Na geral aflição do Luso Povo
Depois de endurecer na idade adulta, A lugar se recorre mais tranqüilo;
Onde na puerícia os mais escolhe, Buscamos nos Ilhéus um sítio novo
Por dar-lhe em breve a educação mais culta: Contra a turba feroz, seguro asilo:
Nem dos pais violento algum recolhe; E já Coutinho se dispõe de novo,
Mas do proveito, que de alguns resulta, Vendo manso o Gentio, a reduzi-lo,
Induz a Gente bárbara que o segue, Fabricando Colônia de mais dura,
Que a prole à educação gostosa entregue. Menos fecunda sim, mas mais segura.

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XXXI XXXVI
Mas os Tupinambás, melhor cuidando, Tu, que mil vezes no remoto Oriente
Com promessas os nossos convidavam, Levantaste troféus de glória onustos;
Com mil amigas provas protestando A quem cedera o Malabar potente
De conservar a paz, que antes guardavam. Em Armadas, e Exércitos robustos:
Creu o infeliz Coutinho celebrando Tu, que foste o terror da Índica Gente,
Pactos, que segurança a todos davam; Que da Lísia humilhaste aos Reis Augustos;
E sem temor de mais, voltar queria Lá estava em tanto a tua sorte escrita
Ao Recôncavo antigo da Bahia. De vires a acabar nesta desdita.
XXXII XXXVII
E já no mar a frota se esquipava, Mais prosseguir não pode sufocado
E cada um de nós na empresa absorto, O bom Garcez em amargoso pranto;
Sem temor, ou receio só cuidava E condoeu-se Diogo, recordado
Em fazer ao Recôncavo transporto: De ver-se em outro tempo em caso tanto:
Navegamos o espaço, que distava; E havendo os naufragantes consolado:
E tendo à vista o desejado porto, Não sou (diz) insensível, que sei quanto
Com fúria o mar aos Astros se levanta, Acerbo o caso é, cruel o artigo,
Em cerração do Céu, que à vista espanta. E a piedade aprendi no meu perigo.
XXXIII XXXVIII
O ar caliginoso, e em névoa impuro Recebei entre tanto valerosos
Tirou-nos toda a vista, e sem destino Com magnânimo peito a adversidade;
Batemos cegos num penhasco duro, Conseguireis por transes perigosos
Sem termos do lugar notícia, ou tino: Fazer-vos dignos da imortalidade.
Neste momento horrível, transe escuro, Deixareis monumentos gloriosos
Suplicando o favor do Céu Divino, A uma longa, e feliz posteridade;
Vemos a nau, com hórridos fracassos, E ganhando obtereis com tanta glória
Desfazer-se na penha em mil pedaços. Um nome eterno nos padrões da História.
XXXIV XXXIX
Ficamos, como o entendes, alagados, Disse o piedoso Herói, reconhecendo
Nadando em meio da procela horrenda; Ao Hispano Monarca pelo Enviado
Uns das ondas se afogam devorados, O distinto favor, e à mercê tendo
Outros na praia em confusão tremenda: Achar memória no real agrado:
E eis que os cruéis Tupis encarniçados À nau depois os sócios recolhendo,
Com frechas se empenharam na contenda, No Recôncavo entrava desejado,
Por levar-nos da areia semivivos Onde a vista formosa da Bahia
À sorte dos seus míseros cativos. Com perspectiva amena aparecia.
XXXV XL
Muitos vimos dos bárbaros comidos, A ver na estranha nau, que Gente aporte,
Alguns dispostos ao funesto ocaso, Desde o interior Sertão turba recresce,
Aflitos todos nós, e esmorecidos, E bem que diferente em traje, e porte,
E esperando qualquer seu triste prazo: Catarina dos seus se reconhece:
Mas de ti sobre tudo condoídos, Entre aplausos recebe a Nação forte
Triste Coutinho, que no acerbo caso, O grão-Caramuru, como merece,
Depois de triunfar d’Ásia assombrada, Mostrando pelo amor, e reverência
Perdeste infelizmente a vida amada. No antigo afeto a nova obediência.

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XLI XLVI
Carrega em tanto o lenho desejado O Lusitano, e Franco Religioso
A nau de Du Plessis, que Diogo estuda, Veneraram com Fé prodígio tanto,
Que seja em toda a terra obsequiado, Lembrando-se do sonho portentoso
Dando-lhe ao talho da madeira ajuda: Com claro indício do presságio santo:
Um Carijó porém nisto empregado, Enquanto o brutal Povo numeroso
Enquanto a carga em toda a nau se muda, Tudo nota em um êxtase de espanto,
Uma Imagem roubou formosa, e bela, Até que a um Templo em pompa veneranda
Que a nau venera na interior Capela. A pia multidão a Imagem manda.
XLII XLVII
Observou-a Diogo na cabana Por santa invocação foi aclamada
Tratada dos Tupis com reverência, A Senhora da Graça, e com fé pia
Estimando-a por cousa mais que humana, Foi desde aquele dia venerada
Que excedia dos seus a inteligência: Singular Protetora da Bahia:
Surpreendeu-se da Imagem soberana Igreja primitiva dedicada
O Lusitano Herói: e à competência Em meio às trevas dessa Gente ímpia,
Com eles venerando a Mãe Divina, Memorável (se a fama é verdadeira)
Chama a vê-la a piedosa Catarina. Porque em todo o Brasil fora a primeira.
XLIII XLVIII
Pôs-lhe os olhos a Dama; e transportada: Neste festejo a plebe se entretinha,
Esta é (disse) é esta a grã-Senhora, E eis que uma salva se ouve estrepitosa
Que vi no doce sonho arrebatada, De grande Armada, que estendendo vinha
Mais que o Sol pura, mais gentil que a aurora: Galhardetes, e flâmulas lustrosa:
Eis aqui! esta é a Imagem venerada: Tudo ao rumor da frota se encaminha,
Este era aquele roubo: entendo agora: Vendo a bandeira tremular famosa,
Oh minha grande sorte! Oh imensa dita! Que no brazão das Quinas representa
Isto me quis dizer a Mãe bendita. A redenção, que o Céu na terra intenta.
XLIV XLIX
Dizendo assim com ânsia fervorosa, Era Tomé de Sousa o Comandante,
Prostrada abraça a Imagem veneranda: Que ali Governador fora mandado
Beija, aperta-a, e de gosto lagrimosa Com multidão de Gentes abundante,
Mil saudosos ais ao Céu lhe manda: Para dar forma ao povo começado:
Aqui vos venho achar, Mãe Piedosa, Num sítio com mil mangues verdejante,
No meio (disse) desta Gente infanda! Que o grão-Caramuru tinha habitado,
Infanda, como eu fui, se o vosso lume Da Colônia, que às Tabas se assemelha,
Não me emendara o bárbaro costume. O nome nos ficou de Vila Velha.
XLV L
Olha em tanto suspensa a Gente bruta; Ali por Principal constituído
E os excessos, que vê, cuidando, admira; Foi dos Tupinambás o claro Diogo;
Nem concebe nas vozes, que lhe escuta, Das Tabas do Sertão reconhecido,
Se prazer seja, se de dor suspira: Como Dragão do mar, filho do fogo:
Mas como a Imagem celestial reputa; Catarina por sangue esclarecido
Quanto à Dama piedosa obrando vira, Herda de seus Avós o Império logo,
Qualquer à imitação fazer deseja, Convocando à Bahia nesta idéia
E este a adora, outro a abraça, e aquele a beija. Dos seus Tupinambás toda a assembléia.

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LI LVI
À Taba de Gupeva já habitada, Muitos destes ali, velando pios,
Onde hoje é Vila Velha, a turba corre; Dentro às tocas das árvores ocultos,
Das outras Tabas toda a Gente armada Sofrem riscos, trabalhos, fomes, frios,
Com os seus Principais a ouvir concorre: Sem recear os bárbaros insultos:
Toda a Cidade em corpo congregada Penetram matos, atravessam rios,
À grande casa concorreu da Torre: Buscando nos terrenos mais incultos
Paço de Catarina, que na empresa Com imensa fadiga, e pio ganho
Presidia aos Tupis, como Princesa. Esse perdido mísero rebanho.
LII LVII
A seu lado Diogo, e Sousa armado, Mais de um verás pela campanha vasta
À Câmara preside da Bahia: Derramar pela Fé ditoso sangue;
O Clero santo a Deus tendo invocado, Quem morto às chamas o Gentio arrasta,
Ouviu-se dos clarins doce harmonia: Quem deixa a seta com o tiro exangue:
A tropa Portuguesa ocupa um lado; Vê-los-ás discorrer de casta em casta,
Todo o outro espaço o Bárbaro cobria: Onde o rude Pagão nas trevas langue;
E em meio a cada casta ali presente, E ao Céu lucrando as miseráveis almas,
Brilha emplumado o Principal potente. Carregados subir de ínclitas palmas.
LIII LVIII
De Varões Apostólicos um bando Com corte tanta no sublime Paço,
Tem de inocentes o Esquadrão disposto, Que a grã-Casa da Torre se apelida,
Que iam na Santa Fé disciplinando, Orando Catarina um breve espaço,
Todos assistem com modesto rosto: O Trono ocupa, e as atenções convida:
O Catecismo em cântico entoando, Tinha emplumada a fronte, e o forte braço,
No idioma Brasílico composto Como insígnia de Império conhecida,
Do Exército, que Inácio à Igreja alista, Um marraque por cetro sustentava,
Para emprender a bárbara conquista. Que toda a turba com respeito olhava.
LIV LIX
Sentiu da Pátria o público proveito Venturosos Paisanos, que o Céu ama,
O Monarca piíssimo, que impera; (Disse a Dama Real) Povo disperso,
E estes Varões famosos tinha eleito Que ele ao rebanho seu piedoso chama,
A instruir o Brasil na Fé sincera: Desde o antigo dilúvio em sombra imerso:
Eles toda a conquista houveram feito, Hoje vos quer livrar da Averna chama,
E o imenso Gentio à Fé viera, Vendo arrastrar-vos do Dragão perverso,
Se cuidasse fervente o santo zelo, Esse grão-Deus, que de uma Cruz sublime
Sem humano interesse em convertê-lo. A pena satisfaz, e a culpa oprime.
LV LX
São desta espécie os Operários santos, Da antiga Lusitânia o Rei potente,
Que com fadiga dura, intenção reta, Acompanhando o Sol no giro imenso,
Padecem pela Fé trabalhos tantos; Vai rodeando todo o Globo ingente,
O Nóbrega famoso, o claro Anchieta: Desde o aurífero Tago ao China extenso:
Por meio de perigos, e de espantos, Por ele a Fé recebe todo o Oriente,
Sem temer do Gentio a cruel seta, O Mouro cede de pavor suspenso,
Todo o vasto Sertão tem penetrado, E Europa admira pelo mar profundo,
E a Fé com mil trabalhos propagado. Que o seu Reino menor subjugue um Mundo.

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LXI LXVI
Deste grande Monarca é tanto o Império, Tempo virá, que Dama majestosa
Que aonde a própria luz não se encaminha, Por Soberana a Lísia reconheça,
Nos limites extremos do Hemisfério Época ilustre, insígne, e venturosa,
O Lusitano Exército caminha. Em que tenha uma Santa por Cabeça.
A África, e Ilhas, o Árabe Cimério, Descerá sobre o Reino a paz formosa,
Duas vezes passando a imensa linha, E com a paz fará que a glória desça;
Possui tantos Povos, que a contá-los Atlantes tendo do seu Régio Estado,
São mais que os Portugueses seus Vassalos. Quatro Sábios, e um ínclito Prelado.
LXII LXVII
Este Rei glorioso foi o eleito A tu, Monarca Justo, do Céu vindo,
Por Providência da eternal Bondade, Venha-te a palma sobre o Empíreo tarda,
A fazer do Brasil um Povo aceito, E Pai da Pátria ao Reino presidindo,
E digno de a gozar na Eternidade: Com zelo a antiga Fé nos nossos guarda:
Pudera desta Gente o forte peito, Enche o grão-nome, as portas reprimindo
Tendo n’Ásia opulenta imensidade, Do monstro Averno: que nos fundos arda;
Estes nossos Sertões trocar incultos Que deixe Portugal, que na Fé medra,
Por Nações ricas, e terrenos cultos. E Cristo firma sobre a imóvel pedra.
LXIII LXVIII
Pudera com as forças, que aqui manda, Esta insígne Progênie o Céu promete,
Com pouca utilidade, ou mais que fora, Brasil agora rude, aos teus vindouros,
Domar o roxo mar por toda a banda, O colo humilde em tanto ao Rei submete,
E o Reino todo possuir da Aurora. E oferece-lhe contente os teus tesouros:
Mas a piedade faz, com que comanda, E entre tantas Nações, que ao jugo mete
Que antepondo o Brasil a tudo agora, À sombra Portugal dos verdes louros,
Mostre aos homens, que o impulso que o domina, Sem provares da Guerra o furor vário,
É propagar no Mundo a Fé Divina. Chega ao Trono a humilhar-te voluntário.
LXIV LXIX
Generoso pensar! sagrada empresa! E se Princesa me chamais sublime
Longe da vã Política de Estado, Dos vossos Principais nascida herdeira,
Que se a Milícia, se o Comércio preza, Se ao grão-Caramuru, que o raio imprime,
Não tem da Santa Fé menor cuidado. Jurastes vassalagem verdadeira:
Mas o que rege a vasta redondeza, Ele da sujeição tudo hoje exime,
E a sorte dos Impérios tem fixado, Cedendo ao Trono Luso a posse inteira;
Lá virá tempo enfim que o zelo pague, E eu do Monarca na Real Pessoa
E em ouro o Tago do Brasil se alague. Cedo todo o direito, e entrego a Croa.
LXV LXX
Um Rei, se não me engana oculto instinto, Dizendo assim a Dama generosa,
Quando o Quarto remir as Lusas Quinas, Desce do Trono, e o esplêndido Diadema
Depois do Sexto Afonso, e Pedro extinto, Entrega ao Sousa; e toma majestosa
Abrirá no Sertão famosas Minas: Um baixo assento com modéstia extrema:
Fará de ouro Lisboa D. João Quinto, Pasma o Tupinambá, vendo a formosa
Altas disposições do Céu Divinas! Nobre Paraguaçu de claro Estema,
Pois no tremor, e incêndio, que a ameaça, Que o seu Régio marraque ao Sousa dando,
Prepara este subsídio à grã-desgraça. Despia a pompa do Real Comando.

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LXXI LXXVI
Logo o Caramuru na língua, e estilo Que o indígena seja ali empregado,
Dos naturais falando ao Chefe novo, E que à sombra das Leis tranqüilo esteja;
Posto tudo em silêncio para ouvi-lo, Que viva em liberdade conservado,
O escudo da Bahia mostra ao Povo. Sem que oprimido dos Colonos seja:
A pomba de Noé, que ao noto asilo Que às expensas do Rei seja educado
Com ramo de oliveira vem de novo, O Neófito, que abraça a Santa Igreja;
Dando a entender a paz, que à crua Gente E que na santa empresa ao Missionário
Com a Fé dispensava o Rei Clemente. Subministre subsídio o Régio Erário.
LXXII LXXVII
Este é o título (disse) verdadeiro, Por fim publica do Monarca reto,
Com que ocupa o Brasil nesta Anarquia Em favor de Diogo, e Catarina,
O muito Alto Senhor D. João Terceiro, Um Real honorífico Decreto,
A fim que em paz se tenha a turba ímpia: Que ao seu merecimento honras destina:
Porque ao supremo Ser, e Ente primeiro E em recompensa do leal afeto,
Reconheça o Sertão, sirva a Bahia; Com que a coroa a Dama lhe confina,
E porque propagada a Fé se veja Manda honrar na Colônia Lusitana,
No novo Império, que conquista a Igreja. Diogo Álvares Correa de Viana.
LXXIII
Disse Diogo, e as Quinas tremulando,
Real, Real com voz clama expressiva,
Por D. João Monarca venerando,
Príncipe do Brasil, que fausto viva.
Responde a turba os vivas replicando,
Com tão alto clamor, que o ouvido priva,
E ao rumor dos canhões, e das cornetas
Correspondem as bélicas Trombetas.
LXXIV
Então sentado sobre o Sólio ingente,
Que já desocupara a Dama bela,
Como Governador da Lusa Gente
Tomé de Sousa cortejado dela;
Toma posse legítima, e patente
Da Bahia, e Sertão, e sem querela,
Do habitante, que os campos desocupa,
Em nome dos seus Reis a terra ocupa.
LXXV
Depois ao Povo, e ilustre Magistrado
Por Leis do novo Império manifesta,
Que seja o Nome santo venerado,
Que cesse nos Sertões a Guerra infesta;
Que o Homicídio se veja castigado,
No Antropófago atroz, que a Lei detesta,
Que a Embaixada Evangélica que envia, Compilado por
Se ouça com paz; que se honre o que a anuncia.
Roberto B. Cappelletti
Setembro, 2005
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