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1.

TEORIAS DA VERDADE

As quatro teorias da verdade mais conhecidas são a da redundância, a


pragmática, a correspondencial e a coerencial. No que se segue quero expor
de forma crítica e comparada cada uma dessas teorias, buscando avaliar as
suas plausibilidades. Antes disso, porém, quero abordar o problema do
portador da verdade.

1. O PORTADOR DA VERDADE
O que chamamos de portador da verdade é aquilo de que mais
propriamente podemos dizer que é verdadeiro ou falso. Candidatos a
portadores da verdade são (1) pessoas ou coisas, (2) sentenças assertivas, (3)
proposições ou pensamentos, (4) crenças.

1.1 Pessoas ou coisas.


Comecemos com as pessoas ou coisas. Faz sentido dizer “Sócrates é
verdadeiro” ou “Esse diamante é verdadeiro”. Mas são esses os autênticos
portadores da verdade? Desde Aristóteles, temos o seguinte raciocínio para
mostrar que pessoas e coisas são portadores derivados da verdade. Considere
o predicado ‘saudável’. Em um sentido próprio, aquele que é saudável ou
não é o ser vivo; assim, aplicamos propriamente o predicado ‘...é saudável’ a
pessoas como João, o alterofilista. Mas podemos também dizer que um
alimento é saudável, e alimentos não são seres vivos. Por que razão? Ora, a
razão óbvia é que certos alimentos tornam as pessoas saudáveis, daí serem
eles por um processo de derivação semântica também chamados de
saudáveis. Por isso é o ser vivo, principalmente o homem, e não o alimento,

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o autêntico portador do predicado ‘é saudável’. A mesma coisa, deve
acontecer com a verdade. Dizemos que Sócrates é verdadeiro apenas porque,
por ser uma pessoa veraz, ele diz coisas verdadeiras. Dizemos que um
diamante é verdadeiro apenas porque, por ser autêntico, ele faz as pessoas
dizerem coisas verdadeiras acerca dele, como a de que ele vale dez mil
dólares. Assim, portadores próprios da verdade não são as pessoas e as
coisas, mas o que dizemos sobre as coisas.

1.2 Sentenças assertivas


Sendo assim, um candidato natural a portador do valor de verdade passa a
ser a sentença, a frase assertiva, a. Dizemos coisas como “É verdade que o
número π resulta da divisão da circunferência pelo raio” e “’Crianças são
trazidas por cegonhas’ é uma frase falsa”. Mas admitir que sentenças são os
autênticos portadores da verdade também é problemático. É razoável
admitirmos um princípio da invariância da verdade: o que é verdadeiro (ou
falso) permanece verdadeiro (ou falso); esse princípio equivale à exigência
da invariância do portador da verdade, posto que ele é o que dizemos ser
verdadeiro ou falso. Mas isso é impossível se o portador for a sentença.
Considere a sentença “Sinto dores”. Ela é falsa se proferida agora por mim.
Mas torna-se verdadeira se proferida em um hospital, por um paciente
recém-operado. A variação do valor de verdade se dá conforme apenas à
variação daquilo que a sentença diz, que é diferente no meu caso do caso da
sentença proferida pelo paciente no hospital. Considere agora o caso inverso
dos seguintes proferimentos com conteúdo idêntico: “Está chovendo”, “It’s
raining”, “Il pleut”. Se nas mesmas circunstâncias todos eles forem
proferidos, todos eles serão verdadeiros – caso esteja chovendo – ou falsos –
caso não esteja. Ora, nesse caso acontece da sentença mudar, enquanto

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aquilo que dizemos ser verdadeiro (ou falso), aquilo que é dito pelas diversas
frases de mesmo conteúdo, permanece o mesmo. Só o que é dito pelas
frases, o seu conteúdo, parece justificar a permanência do mesmo valor de
verdade.

1.3 Proposições ou pensamentos


A conclusão óbvia das considerações feitas acima é que o portador da
verdade não pode ser a sentença, mas deve ser a proposição. A proposição é
o que a sentença diz, o seu sentido, o que por ela se entende o pensa. O que a
sentença diz recebeu vários nomes na literatura filosófica: proposição,
conteúdo proposicional, conteúdo enunciativo, o sentido da frase declarativa,
o pensamento... Prefiro a palavra pensamento, pois é a que exprime o
sentido da frase declarativa de modo mais natural. Como seu introdutor
Gottlob Frege notou, quando o sentido da frase (Satz) é alterado de maneira
que possa ser relevante para o seu valor de verdade, muda também o
pensamento; logo, o sentido da frase é o pensamento 1 . Muitos sentem
dificuldade em admitir que sentidos, conteúdos ou pensamentos sejam os
portadores dos valores de verdade. A razão disso é que é difícil definir o
estatuto ontológico dessas entidades. Em geral se pensa em duas
possibilidades, uma psicológica, outra platônico-realista, ambas
inadequadas. A primeira, de que as proposições (ou pensamentos) deveriam
ser entendidas como entidades psicológicas, parece muito ruim, pois nesse
caso elas parecem depender, para existirem, da existência de sujeitos
psicológicos que as estejam pensando: uma proposição como a expressa por
“2 + 2 = 4” só existiria e só seria verdadeira enquanto alguém a estivesse
pensando... A alternativa platônico-realista para isso foi sugerida por Frege.
Para ele pensamentos são entidades abstratas, havendo um mundo de

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pensamentos atemporais (que ele chama também de eternos), imutáveis, para
sempre verdadeiros ou falsos, esperando para serem pensados por nós 2 .
Nesse caso, contudo, precisaremos superpopular o mundo com um infinito
número de entidades platônicas, pois cada sentença com sentido exprime
uma proposição.
Não creio que o dilema recém-exposto seja inevitável. Minha sugestão
começa com uma aplicação da distinção type/token para o caso: um token é
uma ocorrência de algo, enquanto um type é aquilo que é comum às diversas
ocorrências de algo, sendo algumas vezes interpretado em termos de
entidade abstrata subsistente em algum céu platônico. A palavra ‘pata’, por
exemplo, tem três ou quatro letras, dependendo de estarmos contando as
letras como token ou como type. Ela tem quatro letras-token, pois nesse caso
as duas ocorrências da letra ‘a’ são contadas; mas tem apenas três letras-
type, posto que a letra ‘a’ só exemplifica um único type de letra. Ora,
podemos entender pensamentos ou proposições em termos de pensamentos-
types, ou seja, pensamentos que venham a ser exemplificados, atualizados
como ocorrências psicológicas, ou seja, como pensamentos-token nas
mentes das pessoas. Platonistas como Frege entenderam o pensamento como
um pensamento-type em termos de uma entidade platônica abstrata. Um
pensamentos-type, no entanto, não precisa ser entendido como uma entidade
abstrata. Ele pode ser entendido como um conjunto aberto de pensamentos-
token idênticos entre si, ou seja, como um conjunto aberto de ocorrências de
conteúdos de consciência de ordem psicológica chamados de pensamentos.
Entendendo por conjunto aberto um conjunto não vazio e com um número
indeterminado de membros, basta que exista um membro, ou seja, que uma
pessoa tenha tido alguma vez um certo pensamento-token para que o
pensamento-type exista.

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Essa interpretação da noção de pensamento tem, no entanto, a seguinte
desvantagem: se um pensamento é um conjunto de pensamentos-token,
então um pensamento irá se tornar maior na medida em que for pensado por
mais pessoas, uma vez que o conjunto se torna mais extenso. Mas nosso
conceito de pensamento (ou proposição ou sentido do enunciado) não é de
algo que possui dimensão quantitativa. A objeção pode ser respondida
quando definimos um pensamento como ao menos um pensamento-token ou
qualquer outro pensamento-token similar a ele, pois nesse caso a extensão
efetiva do conjunto de pensamentos-token é abstraída. Assim, se o
pensamento expresso pela frase “O Colosso de Rodes flutua no Mar dos
Sargaços” foi pensado pela primeira vez por mim e agora é pensado também
por você, isso não aumenta o pensamento, se a existência e a medida do
pensamento for que ele é ao menos um pensamento-token realizado em
alguma mente.
Essa interpretação da noção da proposição como pensamento-type possui
conseqüências ontológicas interessantes. Onde está e quando existe uma
proposição ou pensamento, digamos, o teorema de Pitágoras? Ele não está
em uma certa mente individual, levando-nos ao contra-senso de termos de
admitir que quando a pessoa morre o teorema desaparece com ela. Também
não se trata de algo eterno ou atemporal, que sempre foi e sempre será
verdadeiro, como pensava Frege. Como sendo ao menos um pensamento-
token, o teorema de Pitágoras leva uma existência dependente de mentes,
embora não de alguma mente individual particular dos muitos que o pensam.
Como ele já foi pensado por mim e certamente também por você e por
muitas outras pessoas no passado, ele leva uma existência dispersa no
espaço e no tempo. Essa existência é dispersa no espaço ocupado pelas
cabeças dos geômetras de toda a terra e de todos os tempos, começando

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talvez na cabeça de Pitágoras e terminando algum desconhecido tempo
futuro. Contudo, diversamente do caso da interpretação platonista, ele de
fato não existia antes de Pitágoras tê-lo pensado, e finalmente deixará de
existir quando ninguém mais o pensar. Mas ninguém poderá pensar então “A
soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa existiu no
passado e agora não existe mais”, pois ao pensá-lo a pessoa atualizará a sua
existência. Apesar disso, tal pensamento não teria chegado a existir se
ninguém jamais o tivesse pensado.
Essa maneira de ver nada tem de estranha e é confirmada por nossas
intuições lingüísticas. Podemos dizer que João estava se recordando do
teorema de pitágoras, que ele acabou de pensá-lo. Nesse caso estamos nos
referindo ao pensamento-token. Mas podemos falar mais abstratamente do
pensamento expresso pelo teorema de Pitágoras e dizer que ele existe,
existiu e certamente existirá, pois foi pensado, está sendo pensado e será
provavelmente pensado, referindo-nos a ao menos um pensamento token ou
um outro similar a ele, sem considerar quem o pensou. Dizer, como fez
Frege, que tal pensamento sempre existiu, mesmo antes do ser humano o ter
descoberto, e sempre existirá, é pagar um preço ontológico desnecessário.
Uma objeção que poderia ser feita à idéia de que o portador da verdade
sejam pensamentos-type em um sentido não-platonista é a seguinte. Muitas
verdades são descobertas. Pitágoras descobriu o teorema que leva o seu
nome. Arquimedes descobriu que os corpos têm densidade específica. Mas
se algo é descoberto é porque existia antes de ser descoberto. Por
conseqüência, os pensamentos de que a soma dos quadrados dos catetos é
igual ao quadrado da hipotenusa e de que os corpos físicos têm densidades
específicas resultantes da divisão do volume pelo peso já existiam antes de
serem descobertos.

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Essa objeção resulta, porém, de uma confusão entre o pensamento como
portador da verdade e o estado de coisas ou evento, melhor dizendo, o fato
do qual ele é pensamento. Isso é claro no caso de verdades empíricas: que os
corpos físicos possuem densidades específicas é um fato que sempre existiu,
desde que existem corpos físicos com volumes e pesos... mas o pensamento
disso só veio ao mundo quando Arquimedes estava em sua banheira. Da
mesma forma, o fato expresso pelo teorema de Pitágoras sempre existiu em
espaços euclidianos (caso eles de fato sempre tenham existido), mas o seu
pensamento, a proposição, só passou a existir depois que o teorema foi
pensado por Pitágoras e desde então por muitos outros. Contudo, tais fatos
eternos ou duradouros não são os portadores da verdade mas sim aquilo que
é por eles representado em pensamentos-token. Exprimindo isso de forma
algo paradoxal: não é verdade que os corpos tinham densidade específica
antes de Arquimedes, nem que a soma dos quadrados dos catetos fosse o
quadrado da hipotenusa antes de Pitágoras, mas é verdadeiro o pensamento
de que os corpos sempre tiveram densidade específica mesmo antes de
Arquimedes, e o pensamento de que as somas dos quadrados dos catetos
sempre resultaram no quadrado da hipotenusa mesmo antes de Pitágoras.
Nenhuma verdade ou falsidade existiria se não existissem mentes para
pensá-las. Quer dizer então que antes dos seres conscientes aparecerem
sobre a terra não era verdadeiro o pensamento de que o Sol é vermelho?
Não, o pensamento não era verdadeiro, embora seja verdadeiro que o Sol era
vermelho no sentido de que se esse pensamento fosse pensado ele
corresponderia a um fato que o tornaria verdadeiro. Um pensamento que
nunca foi pensado não existe e nem é verdadeiro ou falso. O pensamento “O
Colosso de Rodes flutua no Mar dos Sargaços” certamente nunca foi
pensado antes. Mas ao pensarmos que ele nunca foi pensado já o pensamos,

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e o pensamos como certamente falso. Mesmo o pensamento “O mundo
existiria, mesmo que não existissem mentes para pensá-lo”, só é verdadeiro
porque existem mentes para pensá-lo. E se o mundo não tivesse mentes para
pensá-lo? Seria então verdadeiro que o mundo existe? Ora, por que não,
dado que acabo de admiti-lo?

1.4 Crenças
Um último candidato a portador da verdade é a crença. ‘Crença’ é um dos
termos que possui ambigüidade ato/objeto: de um lado pode designar o ato
de crer, de outro, o conteúdo da crença. O candidato plausível para o
portador da verdade seria o conteúdo da crença. Mas nesse caso estamos
outra vez falando da proposição, do pensamento, pois o conteúdo da crença
pode ser interpretado como uma representação psicológica na mente de uma
pessoa (equivalente à interpretação psicologista da proposição como
pensamento-token), como um objeto abstrato (equivalente à interpretação
platonista da natureza do pensamento) ou como o type de representações
psicológicas nas mentes das pessoas (equivalente à interpretação da natureza
da proposição como pensamento-type).
Uma vez que identificamos o melhor candidato a portador da verdade,
podemos passar à questão central sobre a verdade, que é a da escolha da
teoria da verdade mais plausível. As duas teorias que apresentarei primeiro –
a da redundância e a pragmática – são improváveis, embora o seu exame nos
permita compreender melhor alguns aspectos do problema. As duas outras
teorias – a da correspondência e a da coerência são candidatos mais
plausíveis. Minha posição final será a favor de uma teoria da
correspondência que envolva a coerência como condição de satisfação.

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2. VERDADE COMO REDUNDÂNCIA
A teoria da redundância baseia-se na constatação de que enunciados do
tipo “p é verdadeiro” podem ser substituídos por enunciados do tipo “p” sem
que nada seja perdido. Eu nada teria acrescentado à minha afirmação “Está
chovendo” se tivesse dito “É verdade que está chovendo”, além de uma
certa ênfase, de modo que o último proferimento poderia ser substituído por
“É... está chovendo” ou “Com efeito, está chovendo”. Assim, o predicado ‘é
verdadeiro’ nada parece acrescentar ao conteúdo da asserção. F. P. Ramsey,
que foi um dos primeiros a defender a teoria da redundância, considerou o
caso da asserção “Tudo o que ele diz é verdadeiro”, em que o predicado “é
verdadeiro” não pode ser elidido 3 . Contudo, essa asserção pode ser
substituida por “Para todo p, se ele afirma p, então p”, na qual o predicado
“é verdadeiro” é eliminado. Ramsey nota que embora “então p” pareça
incompleto, querendo dizer “então p é verdadeiro”, isso se deve a uma
deficiência da linguagem.
O que dizer de uma teoria como essa? Uma questão prévia é a distinção
entre (a) a contemplação de uma proposição ou pensamento e (b) o ato
judicativo, através do qual se atribui valor-verdade à proposição. A
comunicação do ato judicativo sobre uma proposição é o que chamamos de
asserção da proposição. Considere a diferença entre as sentenças:

1a Afirmo que Colombo descobriu a América.


1b Colombo descobriu a América.

Ambas exprimem a mesma proposição, o mesmo pensamento, que em


ambas é afirmado ou asserido. Mas só na primeira a asserção é verbalmente
explicitada. Normalmente as asserções são do tipo 1b, mantendo implícito o
ato assertivo, que por sua vez exprime um ato judicativo de atribuição de um

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valor-verdade à proposição expressa. Mas o que 1b significa é “Afirmo (ou
afirmamos) que Colombo descobriu a América”.
Considere agora as seguintes sentenças:

2a É possível que Colombo tenha descoberto a América.


2b ’Colombo descobriu a América’ é uma sentença sobre
um navegador italiano.

Aqui a proposição ou pensamento é apenas tomada em consideração ou


contemplada, não sendo a sua expressão sentencial acompanhada de
asserção exprimindo um ato judicativo. Frege tinha um sinal próprio para a
asserção: “├”. Devemos, pois, distinguir entre p e ├ p, quando o
pensamento expresso por p é asserido ou judicado. O sinal ├ significa algo
como “Profere-se (ou pensa-se) que é verdadeiro que...”.
Considerando o que dissemos sobre a asserção e o juízo, podemos fazer o
seguinte raciocínio. Quando dizemos que “p é verdadeiro” se reduz a “p”,
nunca estamos considerando “p” em abstração de sua asserção. “É verdade
que Colombo descobriu a América” quer dizer o mesmo que “Afirmo (ou
afirmamos) que Colombo descobriu a América”, e não apenas algo como “É
possível que Colombo tenha descoberto a América” ou “’Colombo
descobriu a América’ é uma sentença”. Por conseguinte, o que a teoria da
redundância realmente nos mostra é que “p é verdadeiro” pode ser reduzido
a “(Afirmo (ou afirmamos) que) p” ou, ainda, “(Ajuízo (ou ajuizamos) que)
p”. A conclusão a que chegamos é que aquilo que a teoria da redundância
evidencia não é que a atribuição de verdade a uma proposição pode ser
eliminada, mas que ela pode ser substituída por uma proposição judicada,
mas não explicitamente asserida. Contudo, judicar uma proposição é o
mesmo que pensar que ela é verdadeira. E asserir uma proposição é o mesmo

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que atribuir publicamente verdade a uma proposição judicada. Donde, a
teoria da redundância apenas varre o problema da verdade para baixo do
tapete da asserção. Ela só parece eficaz devido à propriedade da linguagem
de usualmente não asserir nem atribuir verdade às proposições de modo
explícito, uma vez que fazemos isso de forma demasiado freqüente e isso se
torna supérfluo. Essa é, aliás, a razão do desconforto com a tradução de
“Para todo p, se ele afirma p, então p”. Em sua última ocorrência p deveria
aparecer aqui como ├ p, ou seja, ‘p é verdadeiro’. Mas se isso fosse feito
então o contra-exemplo se manteria.

3. A TEORIA PRAGMÁTICA DA VERDADE


A teoria pragmática da verdade sugerida por William James e por outros,
se tomada em sua face de valor, diz o seguinte 4 : uma proposição é
verdadeira se houver vantagem prática em sustentá-la. Assim, para James
“Deus existe” é uma proposição verdadeira, pois é vantajoso crer em Deus.
Para responder a objeções sobre a ausência de utilidade de proposições
teóricas como “Há numerosas explosões de supernovas na galáxia Messier
83”, que por isso deveriam ser falsas, a teoria pragmática pode ser estendida,
admitindo-se que além da vantagem prática deva existir uma vantagem
cognitiva em se admitir certas proposições. Mesmo assim, a teoria – ao
menos sob a formulação apresentada 5 – é freqüemente contra-intuitiva: pode
ser praticamente vantajosa a manutenção de crenças falsas, e praticamente
desvantajosa a adoção de crenças verdadeiras, tanto em um sentido prático
como cognitivo. Como escreveu o poeta T. S. Eliot, “human kind cannot
bear very much reality”; a mente humana é por natureza voltada para o
sucesso no mundo ao seu redor e tende a admitir verdades apenas enquanto
elas servem a tal sucesso, de outro modo rejeitando-as através de

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mecanismos de defesa como o da racionalização. Finalmente, a teoria
pragmática têm conseqüências relativistas. Para muitos crer em Deus é
vantajoso. Mas para o grupo humano dos ateus é desvantajoso crer em Deus,
pois isso comprometeria a liberdade humana com idéias primitivas como as
de pecado e danação eterna. Quem tem razão? A teoria pragmática não
oferece suporte para uma decisão racional.
A conclusão é a de que a teoria pragmática – ao menos na forma acima
exposta – consiste em uma falácia causal. Tal teoria confunde a verdade com
um efeito freqüente da adoção de idéias verdadeiras, que é a utilidade. Todos
concordariam que o conhecimento da verdade freqüentemente é útil, mas
dizer que algo é verdadeiro porque é útil é confundir o efeito com a causa.

4. VERDADE COMO CORRESPONDÊNCIA


A teoria correspondencial da verdade é a mais antiga e também a mais
plausível. É a única que se encontra dicionarizada. Ela foi primeiramente
proposta por Platão no diálogo Sofista, tendo sido sintetizada por Aristóteles,
em sua Metafísica, sob o famoso dito: “dizer do que é que é e do que não é
que não é, é dizer o verdadeiro; dizer do que é que não é e do que não é que
é, é dizer o falso”. Durante a Idade Média Tomás de Aquino, em seu ensaio
intitulado Da Verdade, refere-se com aprovação a um tal de Isaac Israeli
como tendo afirmado que a verdade é a adequação da coisa ao intelecto
(Veritas est adaequatio rei et intellectus). Com isso a formulação aristotélica
foi substituida por uma outra muito mais sintética, em que a verdade é a
adequação ou correspondência do que pensamos com a realidade.
Os termos da relação expressa na definição podem ser mais precisados.
Para tal devemos substituir a palavra ‘intelecto’ por ‘proposição’ ou
‘pensamento’, ou seja, pelo nome do portador da verdade. E ao invés de

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coisa é mais correto falarmos de fato, pois não dizemos propriamente das
coisas que elas são verdadeiras, mas de um complexo que geralmente a
inclui como, por exemplo, o estado de coisa ou o fato de que o livro tem
capa azul ou de que ele está sobre a mesa. Com isso a definição
correspondencial passa a dizer que a verdade é a correspondência da
proposição, do pensamento, com o fato. A identificação entre os predicados
‘é verdadeiro’ e ‘corresponde ao fato’ é evidenciada na seguinte definição:

(Df.C) A proposição p é verdadeira = A proposição p corresponde


ao fato.

Note-se que essa definição é feita utilizando-se os predicados monádicos


‘...é verdadeira’ e ‘...corresponde ao fato’. Contudo, eles são abreviações de
predicados diádicos que relacionam a proposição p ao fato (homonimamente
referido) de que p. Portanto, a definição acima pode ser mais completamente
explicitada como:

(Df.Cr) A proposição p é = A proposição p corresponde


verdadeira para o ao fato de que p.
fato de que p

Em um exemplo: “A proposição ‘o livro está sobre a mesa’ é verdadeira


para o fato do livro estar sobre a mesa” é a mesma que a proposição “‘o livro
está sobre a mesa’ corresponde ao fato do livro estar sobre a mesa”.
Uma outra questão é a de uma explicitação adequada do sentido de termos
como ‘correspondência’ ou ‘adequação’. Uma primeira explicitação da
noção de correspondência, à qual quero me reportar aqui, foi proposta por
Moritz Schlick, há cerca de um século 6 . Schlick sugeriu a existência de um
ato de aferição de correspondência, que é um ato verificacional através do

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qual se evidencia que o conteúdo de uma hipótese é idêntico ao conteúdo da
observação que verifica essa hipótese. Essa identidade de conteúdo é a
correspondência. Suponha, por exemplo, que você leia em um jornal a frase
“Irá fazer bom tempo local amanhã”. Amanhã você sai de passeio e é
surpreendido por uma tempestade. Você pensa: “a previsão era falsa”. O que
você fez? Ora, você comparou o conteúdo da previsão com o conteúdo da
observação e percebeu que não há a esperada identidade. Então você
concluiu que a proposição “Irá fazer bom tempo amanhã” era falsa.
Buscando ser mais precisos, podemos sugerir que há aqui três momentos
a serem idealmente distinguidos: (1o) o momento de postulação de uma
hipótese “?p”, onde p indica um conteúdo proposicional e ‘?’ é o operador
que indica o caráter hipotético do que cai sob o seu escopo. (2o) o momento
da observação (ou das observações), “Oq”, onde O é o operador que indica o
caráter observacional do que cai sob o seu escopo. (3o) o momento de
verificação da correspondência, no qual há uma comparação entre a hipótese
considerada no momento (1o) e o conteúdo da observação considerado no
momento (2o), ou seja, entre ‘?p’ e Oq. Se uma identidade é verificada, ou
seja, se p = q, então podemos concluir “├ p”, ou seja, que p é uma
proposição verdadeira. Se a identidade é refutada, então concluímos que “├
~p”, ou seja, que p é uma proposição falsa. Ao menos no que concerne a
frases observacionais, a idéia de que afirmar a verdade é constatar a
correspondência entre o conteúdo de uma hipótese e o resultado de atos
observacionais parece correta.
Schlick também sugeriu um procedimento similar para as proposições de
ciências formais como a matemática, que são usualmente aceitas como
objeto da teoria coerencial. Como eu sei, por exemplo, que a soma dos
ângulos de um triângulo deve, em um espaço euclidiano, resultar em 180

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graus? Ora, eu comparo o conteúdo dessa hipótese com o conteúdo
resultante de uma prova baseada nos axiomas da geometria euclideana...
Essa prova irá dar como resultado que uma tal soma deve resultar em 180
graus.
Essa explicação de Schlick pode ser complementada por outra, qual seja,
a noção de isomorfismo estrutural, que foi resgatada na reconstrução feita
por Erick Stenius da teoria pictórica da frase desenvolvida por Wittgenstein
no Tractatus Logico-Philosophicus 7 . A noção de isomorfismo entre os
conjuntos A e B, tal como quero definir aqui, exige que (1) os elementos do
conjunto A estejam em relação biunívoca com os elementos do conjunto B,
(2) que as propriedades dos elementos do conjunto A também estejam em
relação biunívoca com as propriedades dos correspondentes elementos do
conjunto B, e (3) que as relações entre os elementos do conjunto A também
estejam em relação biunívoca com as correspondentes relações entre os
elementos do conjunto B. De tudo isso deve ser excluída a exigência de que
os elementos e as propriedades ou relações do conjunto A devam ter a
mesma natureza que os elementos, propriedades e relações do conjunto B.
Assim ‘a/b’ pode possuir isomorfismo estrutural com o fato de que o gato
está sobre o tapete, conquanto ‘a’ e ‘b’ tenham correspondência biunívoca
respectivamente com o gato e com o tapete, e conquanto a relação ‘/’ entre
‘a’ e ‘b’ também tenha correspondência biunívoca com a relação de “estar
sobre” entre gato e tapete.
Aplicando isso à sugestão de Schlick podemos dizer que o conteúdo da
observação é idêntico ao conteúdo da hipótese quando os elementos e
relações do que é observado têm relação unívoca com os elementos e
relações que constituem o conteúdo da hipótese, sejam eles quais forem. Isso
explicaria o caso paradigmático de correspondência entre hipóteses e

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observações, embora existam muitos outros casos que não parecem se apoiar
em isomorfismo estrutural, como o de proposições gerais.
Uma questão que aqui se coloca é a de se saber quais são os elementos do
conteúdo da observação ou da hipótese. Longe de optarmos por uma solução
metafísica como a de Wittgenstein no Tractatus, segundo a qual o mundo
tem apenas uma divisão em elementos simples, nós optamos aqui (inspirados
pelo Wittgenstein das Investigações) em dividir o mundo de forma múltipla,
dirigidos pelo contexto, ou seja, tendo como critério os elementos,
propriedades e relações reconhecíveis do ponto de vista das regras do jogo
de linguagem no qual a hipótese e a observação são feitas. Por isso, quando
digo que o gato está sobre o tapete, pode bem ser que os elementos
participantes do conteúdo pensado sejam representações (que não precisam
ser naturalistas) do gato e do tapete, e que a relação seja a de estar sobre.
Uma análise ulterior é injustificada.
Uma objeção comumente feita à teoria correspondencial é que
proposições só podem ser comparadas com proposições. Quando
pretendemos comparar proposições hipotéticas a observações, o que estamos
fazendo, na verdade, é comparar proposições hipotéticas a proposições
observacionais. Não rompemos, portanto, o círculo da linguagem, o que nos
sugere que a verdade deva ser realmente a coerência de nossas proposições
umas com as outras. A resposta que correspondencialistas dão a isso é de
senso comum. O conteúdo da proposição observacional é, para todos efeitos,
a realidade, tal como observada por nós. Como escreveu Schlick: “É a minha
humilde opinião que podemos comparar qualquer coisa com qualquer coisa
se assim escolhermos. Você crê que proposições e fatos estão demasiado
distantes um do outro? São demasiado diferentes? Que há uma misteriosa

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propriedades das proposições que as impede de serem comparadas com
qualquer outra coisa? Isso parece-me mais uma concepção mística?” 8

5. TEORIAS COERENCIAIS DA VERDADE


As teorias coerenciais da verdade são o mais sério concorrente das teorias
correspondenciais. Elas surgiram com filósofos idealistas como Hegel, com
a sua afirmação de que a verdade está no todo, tendo sido posteriormente
desenvolvidas, tanto por idealistas quanto por empiristas. A idéia básica é a
de que uma proposição é verdadeira quando é coerente com o conjunto de
proposições que constituem nosso sistema de crenças. Suponha que alguém
diga “Ontem à noite eu estava respirando”, ou que nos diga “Ontem à noite
eu vi um fantasma”. A primeira proposição será imediatamente admitida
como verdadeira e a segunda como falsa. Chegamos a essa conclusão, não
porque tenhamos verificado se essas proposições correspondem ou não aos
fatos, mas porque a primeira é coerente com o nosso sistema de crenças,
enquanto a segunda não.
Mas o que é coerência? Uma maneira fraca de se entender coerência é em
termos de consistência. Uma proposição p é consistente com o conjunto de
proposições {q, r, s, t} quando, sob a suposição de que essas proposições são
verdadeiras, p poderá continuar verdadeira. Isso não seria possível se, por
exemplo, p fosse a negação de q, ou se q & r implicassem em não-p.
A teoria coerentista da verdade também se encontra aberta a objeções.
Uma delas é a de que segundo ela uma proposição de um conto de fadas
pode ser verdadeira, na medida em que é consistente com as outras
proposições do conto de fadas. Podemos, além disso, ter vários sistemas
conceituais incomensuráveis entre si e, diante de uma proposição que é
consistente com um sistema e inconsistente com outro, não podemos decidir

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se ela é verdadeira ou falsa. Uma solução plausível consiste em negar que
existam sistemas conceituais completamente incomensuráveis e considerar o
sistema mais abrangente possível – o “sistema da realidade” – como
paradigmático, avaliando as proposições com relação a ele.
Exemplos de atribuições de verdade baseadas na coerência com outras
crenças são freqüentes nos tribunais, pois poucas vezes o crime é
diretamente testemunhado. O seguinte exemplo nos ensina algo sobre os
limites da teoria coerencial e sua relação com a teoria correspondencial.
Considere o caso verídico do pastor americano David, que após o seu
casamento com a senhora Rose, foi internado em um hospital com fortes
dores abdominais. Concluiu-se então que a proposição p: “A senhora Rose
envenenou o reverendo David” seria uma proposição verdadeira, pois ela se
revelou coerente com as seguintes proposições: q: foi encontrado no sangue
de David uma grande quantidade de arsênico; r: a senhora Rose tinha o
costume de preparar sopinhas para o seu marido, levando-as até mesmo ao
hospital; s: Encontrou-se traços de arsênico na dispensa da casa da senhora
Rose. E ainda t: exumaram-se os corpos dos três primeiros maridos da
senhora Rose, todos mortos por causas desconhecidas, com a surpreendente
descoberta de uma alta quantidade de arsênico em seus cabelos. A
proposição p é tornada verdadeira por sua coerência com as proposições q, r,
s..., o que pode ser entendido aqui como consistência. Um problema a ser
notado é que as proposições q, r e s são verdadeiras por serem
correspondentes à realidade, o que parece mostrar que a teoria da coerência
não se sustenta sozinha. Por isso é lícito dizer que a proposição p é
verdadeira porque corresponde aos fatos, e que sabemos disso indiretamente,
por sua coerência com outras proposições que efetivamente correspondem

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aos fatos. Assim, parece que a coerência não é uma coisa independente, mas
parte dos meios através dos quais verificamos a correspondência.
Finalmente, se seguirmos aqui o mesmo caminho pelo qual Schlick
aplicou a sua versão da teoria correspondencial às ciências formais,
concluiremos que no início temos uma hipótese “?p”, cujo conteúdo é
comparado com uma conclusão resultante das verificações de q, r, s, e t.
Indutivamente, com a conjunção q & r & s & t & s , concluímos que p. Ora,
como p como resultado de observações tem um conteúdo idêntico a “?p”,
concluímos que p é uma proposição verdadeira. A correspondência é
estabelecida indiretamente, via uma coerência da proposição em questão
com as proposições observacionais, aquelas que assumimos como
verdadeiras. Vemos que também aqui a coerência é um modo como a
correspondência pode ser evidenciada.

Notas
1
Ver G. Frege, “Uber Sinn und Bedeutung”, in Funktion, Begriff und
Bedeutung, ed. Günter Patzig (Vanderhoeck & Ruprecht: Göttingen 1980) p.
47 (p. 32 na paginação original).
2
G. Frege: “O Pensamento”, trad. port. de “Der Gedanke”, publicado como
complemento de C. F. Costa: Ensaios Filosóficos (ed. Tempo Brasileiro: Rio
de Janeiro 1999).
3
Peter Ramsey: “Facts and Propositions”, 1927. Ver também P. F.
Strawson: “Truth”, in M. P. Linch: The Nature of Truth (Bradford:
Cambridge 2001).
4
William James: “Pragmatism’s Conception of Truth” in, M. P. Linch (ed.):
The Nature of Truth (Bradford: Cambridge 2001).
5
A formulação de C. S. Peirce, por exemplo, escapa a objeções fáceis, pois
para ela verdadeira é a proposição aceita pela comunidade científica como
vantajosa em um processo histórico indeterminadamente longo (in the long
run...).

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6
Moritz Schlick: „Das Wesen der Wahrheit nach der modernen Logik“, in
Philosophische Logik (Suhrkamp: Frankfurt 1996).
7
Ludwig Wittgenstein: Tractatus Logico Philosophicus. Ver especialmente
o artigo de Stenius: “The Picture Theory and Wittgenstein’s Philosophical
Investigations”, I. Block (ed.): Perspectives on the Philosophy of
Wittgenstein (Oxford 1981). Ver também: C. F. Costa: “A Pragmática da
Relação Correspondencial”, in C. F. Costa: A Linguagem Factual (Rio de
Janeiro 1996).
8
Moritz Schlick, apud W. P. Alston, “A Realist Conception of Truth”, in M.
P. Linch (ed): The Nature of Truth, ibid. Um argumento similar é
apresentado por A. J. Ayer in “Truth”, The Concept of Person and Other
Essays (London 1984) p. 186.

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