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XXII REUNIÃO ANUAL DA ANPOCS CAXAMBU, MG, 27-31 de outubro de 1998 GRUPO DE TRABALHO: RELIGIÃO E SOCIEDADE

RELIGIÃO E MERCADO NO CONE-SUL: AS RELIGIÕES AFROBRASILEIRAS COMO NEGÓCIO.
Ari Pedro Oro Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo: Esta comunicação versa sobre a interpenetração existente entre religião e economia no processo de transnacionalização das religiões afro-brasileiras para os países do Prata. Com efeito, a difusão dessas religiões para a Argentina e o Uruguai a partir do Rio Grande do Sul não consiste somente na transnacionalização de um saber religioso pois junto dele há toda uma gama de bens econômicos, portadores de significado simbólico para os membros daquelas religiões, que são também exportados. Dessa forma, a expansão das religiões afro-brasileiras para alem das fronteiras nacionais reverte em beneficios econômicos tanto para agentes e empresas nacionais (pais-de-santo, fábricas e floras), que administram, fabricam e vendem serviços, objetos e utensílios econômicos para o desempenho da religião, quanto para empresas estrangeiras (santerias) que os importam e revendem. Assim sendo, a expansão e a reprodução das religiões afro-brasileiras no âmbito do Cone-Sul constitui também uma importante atividade econômica pois aumenta a renda dos seus promotores (pais-de-santo empresários), gera empregos nas fábricas e no comércio e arrecada divisas para os Estados e países implicados. A comunicação procurará descortinar o lugar e o sentido que o econômico ocupa para os agentes sociais e as empresas implicadas no processo de transnacionalização religiosa afro-brasileira no Cone-Sul.

A difusão das religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul para o Uruguai ocorreu a partir das décadas de 50 e 60 e para a Argentina em meados dos anos 60 e 70, há

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vários anos, portanto, antes da implementação da política de integração regional com a formação do Mercosul (Segato, 1991)1. Na década de 80, porém, com o ingresso da região na “era da globalização” e contando com condições históricas peculiares, a propagação religiosa se acelera, não somente com o deslocamento contínuo de pais e mães-de-santo gaúchos para a Argentina e o Uruguai e de cidadãos destes países para o Rio Grande do Sul, mas também com o incremento do comércio de exportação e importação de bens e produtos religiosos afro-umbandistas2. Isto significa que, em parte, a globalização dinamizou uma prática religiosa e comercial já existente, mas que, também, ela contaminou, até certo ponto, com a racionalidade utilitária do pensamento economicista, empreendedores e pais e mães-de-santo engajados no processo de transnacionalização religiosa. Isto, aliás, não é novo pois Bastide, em seu tempo, já havia notado que “... o advento da economia capitalista, com a aspiração do lucro, introduziu-se também na macumba, em certos candomblés ou xangôs, com o fito de comercialização” (Bastide, 1971:317). No entanto, relativamente aos pais e mães-de-santo gaúchos, como tentaremos mostrar neste texto, malgrado a influência da lógica capitalista - isto é, da busca do lucro e da acumulação do capital - é a “lógica dos terreiros” que, em última instância, orienta a aplicação dos recursos por eles auferidos em suas viagens internacionais. O objetivo deste texto é, portanto, analisar a interpenetração existente entre religião
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As origens do Mercosul remontam aos esforços de integração empreendidos pelos governos do Brasil e da Argentina após o retorno da democracia, em 1985. O encontro de Iguaçu, em novembro de 1985, pelos presidentes J. Sarney e A. Alfonsin, constitui a primeira iniciativa visando criar o Mercosul. Em novembro de 1988 os mesmos presidentes assinaram o Tratado de Integração, Cooperação e Desenvolvimento. Em 1990, os dois presidentes convidam o Uruguai, o Paraguai e o Chile para se associarem ao projeto. Os dois primeiros aceitam. O tratado de constituição do Mercosul foi assinado em março de 1991 em Assunção, com a presença dos presidentes dos quatro países membros. Em verdade, as relações platinas ocorrem também com terreiros e pais e mães-de-santo de outras regiões do Brasil. A propósito de São Paulo, por exemplo, escreve R. Prandi: “Muitos dos pais e mães-de-santo de São Paulo viajam constantemente para os países do Cone Sul...” (Prandi, 1991:204). R. Segato também refere que há na Argentina uma relação genealógica com uma família de santo do Rio de Janeiro - fundada pelo Pai Tancredo da Silva Pinto, que criou uma variante do culto denominado Omolokô, “que foi maciçamente adotada na Argentina” – e uma família de santo que se diz descender da Mãe Menininha do Candomblé do Gantois da Bahia (Segato, 1991:262). Hoje, na Argentina, admite-se que teria oficialmente cerca de 1.000 terreiros, enquanto que no Uruguai em torno de 300, sendo 250 somente em Montevidéu.

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e economia no processo de transnacionalização religiosa afro-brasileira do Rio Grande do Sul para os países do Prata. Por transnacionalização entendo, com Badie e Smouths, “toda relação que, por vontade deliberada ou por destino, se constrói no espaço mundial alem do quadro estatal nacional e que se realiza escapando ao menos parcialmente do controle ou da ação mediadora dos Estados” (Badie e Smouths, 1992). Trata-se, a economia, de uma dimensão geralmente deixada de lado quando se analisa a transnacionalização religiosa esquecendo-se, como ocorre na difusão das religiões afro-brasileiras para os países do prata, que o econômico, direta ou indiretamente, acompanha e é parte integrante do processo. Aliás, a análise da própria economia dos terreiros, como lamentava Bastide em seu tempo3, parece ainda aguardar novos estudos, malgrado os excelentes trabalhos sobre o tema realizados por autores como Dantas (1979), Brandão (1986), Vogel e outros (1988) e Prandi (1991). O texto está dividido em duas partes. Na primeira, analiso o lugar e o sentido que o econômico ocupa para as mães e os pais-de-santo gaúchos que participam do processo de propagação religiosa para os países do Prata. Na segunda, apresento elementos sobre a produção de artigos religiosos afro-umbandistas, sua comercialização e exportação de Porto Alegre para os países do Prata. Os dados resultam de entrevistas realizadas com 13 pais e mães-de-santo de Porto Alegre que participam do processo de transnacionalização4, com uma dúzia de pais e mães argentinos e uruguaios, e com proprietários e funcionários de fábricas e de “lojas de umbanda” de Porto Alegre, Buenos Aires e Montevideu5.

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“Infelizmente, a economia das seitas africanas é pouco conhecida, e não dispomos do orçamento estabelecido por qualquer delas” (Bastide, 1971:319). A lista não é exaustiva e não está completa. Mas, sem dúvidas, os atuais agentes mais importantes do processo de difusão das religiões afro-brasileiras para os países do Prata estão contemplados na amostra. Neste texto, a maioria dos depoimentos apresentados permanecerão impessoais, uma vez que houve um acordo com os informantes no sentido de mantê-los no anonimato quanto às suas posições pessoais.

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Tais lojas são chamadas de “floras” no Rio Grande do Sul e de “santerias” nos países do Prata.

Agradeço ao estudante de ciências sociais da UFRGS e bolsista PIBIC, Valdir Pedde, pela inestimável colaboração prestada por ocasião da pesquisa de campo realizada em Porto Alegre.

o perfil dos promotores da circulação transnacional de bens e serviços religiosos afro-brasileiros de Porto Alegre para a Argentina e o Uruguai6. já falecidos. No atual meio religioso afro-brasileiro gaúcho e platino é dupla a importância atribuída aos pais e mães mencionados. Mais precisamente. Wilson (Avila) da Oxum (1935-1998). Joao Cleon Melo Fonseca (pai Cleon de Oxalá). Entre os primeiros merecem destaque cinco nomes.e 5 ialorixás. como veremos. a saber: . Por um lado. Horacina Pinto Cunha (mãe Horacina 6 Informações complementares sobre esses pais e mães-de-santo constam em outro texto. . Jorge Verardi (pai Jorge de Xangô). Distingo os pais e mães históricos. por outro. são 8 babalorixás.4 1 . dos atuais. a saber: Ana da Silva (mãe Ana de Obaluaiê). Os promotores da transnacionalização religiosa afro-brasileira para os países platinos Apresento. Hipólita Osório Lima (Mãe Teta de Oxalá) (? –1998) e especialmente João (Correia de Lima) do Bará (? .1979) e Luiz (Antônio da Silva) do Bará (1913-1980). José Vinicius Galhardo Pasos (pai Vinicius de Oxalá) e Sebastião Madeira de Lima (pai Sebastião de Oxalá) .Ailton Ferreira de Albuquerque. Clementina Alves Ignaci (mãe Santinha de Ogum). identifiquei em Porto Alegre 13 pais e mães-de-santo que se desempenham enquanto agentes religiosos que mantém relações e vínculos com a Argentina e o Uruguai. (pai Ailton da Oxum). apresentado nas VIII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina. considerados no meio batuqueiro gaúcho e platino como pais fundadores do processo expansionista religioso afro-brasileiro do Rio Grande do Sul para os países do Prata. são considerados inauguradores de prestigiosas linhagens religiosas internacionais. São eles: Romário (Almeida) de Oxalá (1915-1989). São Paulo. USP. Astronogildo Barcellos (pai Pirica de Xangô). 22-25 de setembro de 1998. Herculano Teodoro Nogueira (pai Herculano de Oxalá). são tidos como modelo de comportamento e exemplo de conduta. sobretudo no tocante ao distanciamento do econômico e na concepção da propagação internacional da religião afrobrasileira como uma atividade missionária. Jorge Antônio Soares (pai Jorge do Bará). Relativamente aos atuais. inicialmente.

em janeiro de 1997.) Fazem comércio da religião”. 8 . numa extremidade . evidentemente. A religião ficou desmoralizada”. A faixa etária dos referidos pais e mães varia entre 33 e 79 anos de idade. encontrando-se. 6 mil para aprontar um filho. e pai Ailton (Albuquerque) da Oxum. para a América do Norte e a Europa. um que já o faz há quase 30 anos e outro que iniciou há 6 anos. porém. a mais alta comenda do Estado.. bem como no Uruguai e na Argentina. foi recentemente manchete em vários jornais e revistas nacionais e italianas quando. no sentido negativo do termo. Quatro deles são presidentes de federações religiosas afro-brasileiras. Eles querem visar a parte financeira. A média de tempo de contato da maioria deles com os platinos se situa entre 10 e 15 anos. inaugurou em Roma um terreiro de um filho seu. as religiões afro-brasileiras são via de regra referidas simplesmente pelo termo religião. Todos são donos de terreiros em Porto Alegre e se dedicam exclusivamente à religião7. Jorge Verardi a Afro-Bras e Ailton Albuquerque o Órgão Superior Estadual dos Cultos Afro-Brasileiros e Exubandeiros (OCECAE). 5. É um comércio. com filhos e consequentemente deslocamentos. 7 No Rio Grande do Sul. Alguns mantém inclusive relações estreitas entre si. com três exceções que seguem o rito Cabinda. inclusive.5 de Oxalá). As críticas mútuas são constantes e o tema da exploração econômica é o preferido nestas ocasiões. As declarações abaixo refletem um discurso recorrente neste sentido: “há pessoas sérias dentro da religião mas a maioria são charlatães. Dois foram distinguidos pelos governos locais com comendas e títulos: pai Cleon (Fonseca) do Oxalá com a medalha “Negrinho do Pastoreio”. Ieda Maria Viana da Silva (mãe Ieda de Ogum) e Nilza Terezinha Marques (mãe Nilzinha de Iemanjá). Como já escrevi outras vezes. Herculano de Oxalá preside a Afro-Rito. Os 13 pais e mães se conhecem. a utilização rio-grandense do termo religião por parte dos membros das religiões afro-brasileiras provem desde a década de 30 e historicamente constituiu uma estratégia posta em prática para se opor à acusação sofrida de serem membros de uma seita. Candomblé Angola e Ijexa/Gege. Este último. ou seja. nascido em Pelotas em 3/11/1945. “a religião vai bem” etc. Todos seguem o ritual Gege. sendo comum as expressões: “eu sou de religião”. Tem pessoas que cobram 4. com o título de cidadão de Porto Alegre. o que não significa suas relações sejam sempre cordiais e amistosas. Jorge (Verardi) de Xangô e Ailton (Albuquerque) da Oxum8. “Nós temos pais-de-santo sentado no trono (. Aí fazem qualquer coisa. Sebastião de Oxalá a Congregação Espiritualista de Umbanda do Rio Grande do Sul. Três possuem uma carreira internacional. São eles: Cleon (Fonseca) do Oxalá..

1996. a racionalização (construção de mito) motivada por demanda de legitimação. sugiro que a ênfase posta hoje pelos pais gaúchos sobre a perseguição religiosa é tanta que se tornou um dos mitos fundadores da expansão religiosa afro-brasileira para os países do Cone-Sul. sobretudo a Porto Alegre. e do reconhecimento oficial da sua condição de sacerdote junto a uma federação local. entre outros. na Argentina. à condição de “heróis fundadores” que tiveram que vencer inúmeras dificuldades. de outro lado. na busca de iniciação religiosa junto a um renomado pai ou mãe-de-santo. inclusive o aparato policial e as resistências legais. c) como resultado de relações familiares e amistosas entre babalorixás onde uns encaminham outros para atuarem no Uruguai ou na Argentina. uns mais do que outros. de um lado. que teve como consequência perseguições perpetradas pelas autoridades policiais locais contra as práticas públicas da religião. . para a qual concorreu inclusive a força policial. 1992 e Concone. vinham ao Rio Grande do Sul. no Uruguai. A frequência das viagens para os países platinos (nos primeiros anos de ônibus e 9 Relativamente à perseguição e estigmatização dos cultos afro-brasileiros no Brasil. e Uruguaiana e Paso de los Libres. como geralmente ocorre quando se se reporta aos inícios de religiões e à constituição de locais de romaria e de peregrinação. a imbricação existente entre mito e história. cujo sentido é auto-elevar-se. 1996. Negrão. Sem desconsiderar a pouca tolerância religiosa que de fato ocorreu sobretudo na Argentina.6 De uma forma geral. as mães e pais são quase unânimes em afirmar que foram tempos muito difíceis devido à discriminação religiosa sofrida sobretudo na Argentina. para implantar a religião nos países platinos9. e. especialmente o sacrifício de animais e as oferendas em espaços externos aos terreiros. Maggie. Ao se referirem ao início de sua atuação nos países platinos. argumentam os pais e mães referidos que os primeiros contatos com os países platinos ocorreu dentro de uma das três situações seguintes: a) como resposta a uma demanda platina de legitimação religiosa decorrente de sociedades nacionais adversas e intolerantes à prática religiosa afro-brasileira. em outras palavras. Esta situação revela. ver. b) como consequência da ação religiosa afro-brasileira realizada nas cidades gaúchas fronteiriças como Santana do Livramento e Rivera.

Bastide. como dizia R. fax e mesmo internet por parte de alguns deles. que é dupla. sobretudo telefone. especialmente os que constituem o baixo clero. É importante frisar. não configurando isso porém uma obrigação penosa. 60 e 70 – aumentou na década de 80 e arrefeceu na década de 90. alem de sacerdotes. Segundo. As religiões afro-brasileiras são bastante dispendiosas financeiramente para os seus membros e para quem delas se aproximam.isto é. como veremos. a caridade e a cooperação são constantes no interior dos terreiros. anos 50. “O candomblé é uma religião de deuses ricos para fiéis pobres. Igualmente. mas. o candomblé lança mão também da ajuda mútua para que o iniciado seja capaz de juntar os tópicos da ‘lista da obrigação’” (Prandi.cada orixá pessoal é único -. Mas. varia segundo os pais e mães e os países. sendo os iniciados em geral pobres ou muito pobres. nesta religião de deuses ricos e fiéis pobres. Ele joga aí com uma contradição. Especialmente o candomblé (e também o batuque) é. “uma religião de deuses ricos para fiéis pobres”. direta ou indiretamente podem ser consideradas como religiões pagas (Pierucci & Prandi. nesta religião de deuses ricos. 1996). é uma religião de deuses ricos na medida em que as obrigações que lhes são devidas envolvem somas consideráveis de recursos financeiros. que a frequência foi menor no início . alem do seu . 1971:318). Prandi. convencional ou celular. como refere R. um “privilégio que não é concedido a qualquer um” (Bastide. porém. Primeiro. de uma forma geral. que se nos últimos anos diminuíram as viagens acentuou-se o contato com os platinos mediante o uso da tecnologia. 1991:150-160). precisam se desempenhar enquanto micro-empresários para constituir um fundo econômico capaz de garantir a infra-estrutura e o funcionamento do terreiro. Tudo envolve algum custo. 2. Ora. e não contando com um corpo doutrinário que privilegie o altruísmo. Diga-se de passagem todos os 13 pais e mães referidos possuem telefone.7 hoje majoritariamente de avião). O lugar e o sentido do econômico para os promotores do processo de transnacionalização religiosa afro-brasileira para os países platinos. primando pela personificação . infere-se. os pais e mães-de-santo.

os platinos que chegaram a Porto Alegre nas décadas de 60 e 70. com o passar dos anos eles começaram a pressionar os pais para efetuar um aprontamento mais rápido. É recorrente nesta religião o fato de que dificilmente os pais e mães-de-santo vão obter dentro do próprio terreiro. e mesmo alguns atuais. Ao contrário. apesar de se dedicarem inteiramente à religião e de participarem do circuito religioso platino. os que procederam a uma alteração quanto ao tempo destinado à iniciação. todos os recursos necessários para a reprodução da religião.. com os seus filhos-de-santo. Hoje sabe-se que as mães e os pais históricos. presidente da federação Afro10 “Casa aberta” é uma expressão êmica e se refere aos indivíduos que uma vez iniciados e tendo recebido todos os axés. procuraram se manter “fiéis à tradição” não encurtando o tempo de aprontamento dos filhos platinos. por razões econômicas. também ocorre nos dias atuais. Porém. tipo intensivo. i. isto é. Isto não quer dizer. de doações espontâneas para si ou suas entidades. os clientes.. constituem seu próprio terreiro. Neste caso. Mesmo assim. mais irá atrair clientes e consequentemente aumentar a sua receita. Igualmente. Ora. a parte financeira mais importante é obtida fora do terreiro. a tal ponto de que a maioria deles faleceram pobres. como aliás. e. como veremos. passaram também a estipular um preço fixo para execução da mesma. na troca de serviços rituais com pessoas que não pertencem à comunidade religiosa. Mas. tendo seus próprios filhos. i. solicitaram que a tradição fosse “reinventada” e adaptada à sua realidade de estrangeiros que podiam se fazer presente na capital gaúcha somente de tempos em tempos e não por muito tempo. Diferentemente foi o comportamento dos pais e mães históricos. tendo um calendário litúrgico anual. para se iniciarem na religião. como refere pai Herculano Nogueira. que não foram alvo de uma economia carismática. procederam a uma monetarização dos rituais que obedecia as leis do mercado. Ou seja. e. recebendo as pessoas para consultas.8 próprio sustento e o de sua família. especialmente os rituais constantes do calendário litúrgico. . quanto mais prestígio público detiver um pai ou uma mãe. mesmo no tocante aos custos da iniciação e ao tempo requerido para tal. foram integrados neste mesmo modelo de reprodução religiosa. os platinos que possuíam casas abertas10 solicitaram aos pais e mães gaúchos que se deslocassem para lá para atuarem religiosamente. Ou seja. porém.

habiendo perdido su colorido original la mayoría de la figuras puestas como adorno en las paredes. como testemunha mãe Ana da Silva. tocando religião. não estavam cobertos de jóias. Fazia para quem tinha. Esta era a roupa do dia-a-dia dele”. refere R. varias de las imágenes del altar (. Maria Ester de Nanã. tocava três.um dos expoentes máximos do processo de propagação da religião para a Argentina e o Uruguai . a fazer caridade para crianças carentes. Sobre mãe Teta de Oxalá. P. El próprio local de culto tiene una apariencia pobre y envejecida. Também Pernambuco Nogueira reconhece que Luiz do Bará realizava um belo trabalho assistencial: “Ele atendia todo pessoal pobre do Camaquã”.. que visitou-a nos últimos anos de sua vida: “Mãe Teta vive en un nivel económico restringido. Diga-se de passagem que alem de auferirem parcos benefícios econômicos no desemprenho religioso. Era a cesta básica que ele fazia todos os meses. 1993:75).9 Rito: “Os pais que já foram. Andava de chinelo. onde atendiam centenas de pessoas diariamente. a argentina Maria Ester Gonzalez. Igualmente. filha-de-santo de Luiz do Bará. e a situação em que vivia.assim se pronuncia Adalberto Pernambuco Nogueira. numa casa antiga. que já morreram. filha biológica de Luiz (Antônio da Silva) do Bará: “Meu pai era dedicado exclusivamente à religião. calça de riscado e camisa de física. E essa era a vida dele. caindo aos pedaços. Eles não fizeram comércio da religião. quatro vezes por ano.) muestran desgaste y cascaduras” (Hugarte. O natal das crianças pobres ele fazia naquele canto ali. Hugarte. fala de sua abnegação: . Ficava alto de presentes para as crianças.. eles deixaram como herança a casa da residência. que eu assisti aos últimos minutos da vida deles. Especificamente sobre o pai João (Correia de Lima) do Bará . para quem não tinha ele trabalhava igual”. Não tinham carro. sentados no trono”. pouco mais que um casebre. alguns pais e mães históricos realizavam serviços assistenciais. não construíram edifício. presidente da União de Umbanda do Rio Grande do Sul: “Ele morava no Mont Serrat. Ele tinha o gabinete médico e dentário para pessoas carentes.

Não entendo este critério que eles usam. infelizmente são meus irmãos. botavam sangue na cabeça. Eu não faço isso. Vejamos alguns depoimentos: “Tem pai-de-santo e mãe-de-santo que iam para a Argentina. Eu posso atender milhares de pessoas mas eu faço a obrigação para uma pessoa se acaso é necessário e ponto final. Vai alem do ritual. Negrão em relação à . sobretudo de “aprontamento”. “Hoje pais-de-santo que estão indo lá (Argentina/Uruguai). davam búzio. 11 Por isso. “Eu posso dizer com muito orgulho. mas de filhos não”. Nunca me exigiu nada. O ritual é a confirmação que tu sabes até aquele degrau”.10 “Foi uma personalidade que quando alguém não tinha e era preciso fazer. Vão lá (Argentina/Uruguai) numa semana e aprontam. Eu mesma não tinha um tostão e ele botou tudo e eu fui dando como podia. exploram financeiramente. “Tem pai. Nunca. Tudo o que eu tenho não foi a Argentina que me deu. No entanto. A última vez. não. já aprontava. O dinheiro que eu trouxe foi dos meus fregueses. a pessoa nem conhecia a religião e já botavam no chão. eu sou uma ialorixá que entrei na Argentina ajudando e até hoje estou ajudando. mesmo os pais e mães que se pronunciam contrários ao pagamento por suas atividades religiosas. Eles (argentinos) acham que a pessoa que não cobra nada. 500 filhos. Botar para dizer que tem 300. ele fazia. Não importava se tinha dinheiro ou não. pode-se aplicar também para o Rio Grande do Sul a afirmação de L. Ele sempre dava caridade”. não sabe nada. Aprontam como pai-de-santo. Aprontamento não é fazer o ritual. Alem disso. como muitas pessoas se deslocam para o exterior em busca realmente do setor financeiro”. Eu entrei na Argentina fazendo caridade. Aprontam as pessoas que estão abrindo casas sem saber o que é que vão fazer. Estão aprontando em um mês. de alguma forma se beneficiam economicamente pois não desprezam as doações voluntárias dos fiéis e clientes e não realizam nenhuma viagem para os países do Prata com despesas próprias11. “Não fui em nenhum dos países à busca de dinheiro. Jamais vou me prevalecer da minha religião. Também alguns pais e mães que participam atualmente da transnacionalização religiosa expressam sua aversão em relação às mudanças das regras da tradição e à monetarização dos rituais. eu não sei como é que eles fazem. Isso redunda muito mal para o nosso nome na Argentina”. mas eu tenho que falar. já dava faca. que não cobra muito. quando justamente é o contrário”. a última viagem que eu fiz para a Argentina eu não ganhei 200 dólares.

pagam agora (quando se aprontam).). no Uruguai custa 15. Um pai. Em relação à remuneração financeira obtida no exercício religioso platino diz ele que a receita de cada viagem “varia do tipo de trabalho que tu vais fazer. esclarece um terceiro pai-de-santo. as casas de seus filhos abertas no Prata constituem verdadeiras “filiais” pois abrem uma nova frente de “trabalho”. outro faz (.. 5 6 mil para aprontar um filho argentino”. Por isso o pai-de-santo cobra bem por ocasião do aprontamento porque sabem que dificilmente vão ter outra oportunidade de cobrar”. poucos são os pais e mães que assumem terem adaptado as práticas religiosas segundo os interesses dos platinos e sobretudo que dispensaram especial atenção ao econômico. Hoje eu não critico mais porque se eu não faço. . não somente para com seus filhos mas principalmente para com clientes. para tu ganhares algum dinheiro tens que suar”. O pagamento. os verdadeiros culpados são eles que querem muito mais do que eles podem ter”. Sobre o custo de um aprontamento. Os argentinos cobram 50 dólares num jogo de búzios.. precisa ser efetuado à vista: “os argentinos são assim: se tem que pagar. assume esta posição. Diz ele em relação ao aprontamento rápido: “Eu era um grande crítico em relação aos pais que aprontavam rápido. ele vai fazer igual. Há dois anos atrás eu ficava cinco dias e fazia em média 5 a 6 mil dólares. Outro pai afirma que “tem pessoas que cobram 4. Mas. No Uruguai é outra situação socio-econômica. no máximo 20 dólares. Tudo depende do tempo que tu ficas.11 Por outro lado. 1996:356). Vai dar dinheiro para outro. depois não pagam mais. e como não poderia deixar de ser. Não vamos evitar que as pessoas se aprontam. radicando aqui uma importante fonte de divisas. Para os pais e mães-de-santo que estabelecem o econômico como uma das suas motivações religiosas. No Uruguai. continua o mesmo pai: “o axé varia muito de acordo com o pai-de-santo e o preço varia segundo o poder aquisitivo da pessoa que está fazendo a obrigação”. Umbanda em São Paulo: “São poucos os terreiros que não cobram de alguma forma e sob nenhum pretexto” (Negrão.

O período áureo das relações religiosas internacionais platinas. com isto eles também reúnem pessoas que queiram consultar comigo. Como diz um antropólogo argentino. sempre tem para mim atender. que se estende até 1985. Sou chamado”. no prelo). Observei in loco que na atualidade eles escolhem uma casa de um filho seu. conforme os pais e mãesde-santo. o crescimento do número de terreiros e o incremento das relações religiosas com o Brasil ocorre também neste período mas as condições políticas deste país são diferentes da Argentina. 1998. “o retorno à vida democrática em 1983 possibilita um boom da religião. não boto na televisão. Então eu fico à disposição deles lá. 1992:72). Portanto. Eu atendo as pessoas para poder aguentar a viagem. Outro pai comprova ser esse o procedimento mais usual. Nesses “bons tempos”. . se cotizarem e levarem o pai de santo lá. para tirar algum tipo de proveito. para eles. Tendo geralmente boa infra-estrutura. de Mãe Inês de Oxalá. como vimos. na ocasião em que na Argentina inicia o processo de redemocratização do país.12 Um pai relata como “funciona o negócio”: “Eles (argentinos/uruguaios meus filhos) se reúnem e resolvem chamar o pai. É assim que a gente trabalha”. posto que “muitos templos que funcionavam clandestinamente passam a fazê-lo publicamente” (Carozzi & Frigerio. Pi Hugarte. como referem alguns pais e mães. em Buenos Aires ou Montevideu. em 1984 e 1985” (Frigerio. posto que. ali se estabelecem e atendem os seus filhos e clientes. Já no Uruguai. a maior difusão da religião coincide com o período ditatorial. fica mais fácil se juntarem. muitos clientes. ou a cada mês ou mesmo a cada 15 dias. Buenos Aires. as viagens aconteciam a cada 3 meses. é importante notar o papel de mediação que as “filiais” platinas executam entre os pais e mães gaúchos e os novos clientes. de maior fluxo religioso e receita financeira nada desprezível. situa-se na década de 80. Então. Claro. Agora cada vez que eu vou à Argentina na casa de um ou de outro. Não boto anúncio no jornal. segundo R. embora prossiga após ele. isto é. ou cada 2 meses. para servir como uma espécie de “quartel-general”. Esse importante período das relações religiosas internacionais platinas ocorre. Diz ele: “A primeira casa que abri lá foi em San Martin. pois. Ela me apresentou muita gente. Eu atendo os clientes que eles (os filhos) me conseguem para poder aguentar a viagem.

que vão se impondo religiosamente e assim ocupando espaços antes detido pelos brasileiros . Era só chegar lá dizer: eu sou o pai tal e aí eles caíam como patinhos. a partir de 1985. de desvinculação institucional com as federações brasileiras. embora não tenha diminuído o interesse pela mesma.e das críticas platinas de que são alvo.13 Segundo aquele autor. No entanto. pois. alem de serem acusados de . De fato. que 3 ou 4 pais-de-santo de Porto Alegre realizam constantes viagens para a Argentina e o Uruguai e se beneficiam economicamente. segundo eles. A situação deles está muito difícil do que a nossa. mas o nosso país também está passando por isso (. gaúchos principalmente. e. “Hoje está muito difícil lá (Argentina). mas variável segundo os países. com a proibição de suas atividades. a partir do início desta década ocorreu um refluxo das relações internacionais acompanhado de uma diminuição de viagens e de redução do benefício econômico. aplicação generalizada dos métodos de terrorismo de Estado. que atuam na Argentina foram alvo de uma campanha de “corte do cordão umbilical” com o Brasil. vai ficando cada vez mais difícil vir fazer as obrigações aqui”. Vejamos alguns depoimentos: “A situação econômica dessas pessoas (argentinas) mudou muito. perseguição e amedrontamento da população com a compreensível sequela de desânimo e desmobilização para amplos setores” (Hugarte. Em segundo lugar. o afrouxamento das relações religiosas platinas resulta da concorrência que os pais e mães gaúchos sofrem de parte dos seus colegas locais . “Em termos financeiros para eles (argentinos) está bem mais difícil do que para nós. 1993:98). os brasileiros. neste clima social platino favorável da década de 80. sobretudo argentina. ilegalidade das instituições políticas e sindicais. Hoje não”. O esfriamento das relações religiosas platinas deve-se. a maior procura da religião no período ditatorial está relacionado com a “queda contínua do salário real. É. Para eles. Não está tão fácil como quando eu iniciei”. que reduziu os investimentos das pessoas na religião. Antes era muito mais fácil.. à crise econômica platina. i. Hoje não se ganha mais dinheiro na Argentina. “A Argentina está passando por uma situação econômica muito difícil. Fazem 5 anos que eu estou indo lá só para ver meus filhos”.).. em primeiro lugar.

dinheiro. 12 Estes três depoimentos foram retirados de Frigerio. Basicamente nós brasileiros buscamos a religião. . la gente lo toma como um meio para vivir. como eles. a questão econômica como alvo principal de suas críticas. mas sempre colocam o material em primeiro lugar”. Vão para a televisão. estão fazendo associação contra os brasileiros. o que revela ser o tema da exploração econômica “bom para criticar”. Eles querem se aprontar rápido para ser pai-de-santo e ganhar dinheiro. hoy en dia. a fé. Apesar disso. Eles (pais-de-santo argentinos) são muito carinhosos. . “La culpa de que la religión esté mal aqui en Argentina es de los brasileños. Ninguém quer ser filho. já querem trabalhar. es un problema de negócios. “En Brasil no se practica la religión como se debe. Chamam os brasileiros de tudo. 1993:100. Eles não sabem que fazem mas estão dando uma de galo. que le enseñan mal a la gente. una especie de negocio” (Pai Adrián). Os portoalegrenses mais atuantes no processo de transnacionalização. já querem ganhar o seu axé de búzios. Eles se preocupam mesmo é com a parte material. Eu acho que a coisa ficou mais para o lado comercial”. cobrándole dinero” (Pai Luis. Vienen acá y sin fundamento hacen hijos de santo. A primeira coisa que eles querem é ganhar dinheiro. por sua vez. “O que está acontecendo agora é que alguns argentinos prontos por alguns paisde-santo que não são do meu conhecimento estão fazendo uma campanha muito grande contra os brasileiros. As pessoas querem entrar na religião já ganhando seu axé de faca. São uns vivos. Mas a visão deles é buscar a parte material. Ouçamos alguns depoimentos: “Yo me he cansado de decir que acá en Argentina hay tantos babalorixás mejores. Só querem dinheiro.14 priorizar o econômico acima de qualquer coisa. Mas são pais-de-santo que não tem o fundamento que os pais-desanto brasileiros que iniciaram na Argentina. Nesse ano que passou (1996) houve muita campanha contra os brasileiros mas que não chegou a nos atingir diretamente”. más buenos que tal vez en Brasil. Vejamos três depoimentos neste sentido: “De uns tempos para cá as coisas deram uma desvirtuada muito feia. reagem contra a concorrência religiosa platina e elegem. respeitadores. eu acho que eles têm bastante fé. Eles estão nisso para ganhar dinheiro. num programa de rádio). Los nuevos. solo por la plata” (Mãe Graciela)12. “Todos os argentinos e uruguaios querem ser pais-de-santo. entendeu? Porque eles estão visando unicamente o dinheiro. Eles não. Ganhar dinheiro.

materiais e simbólicos. não se percebe que tenham investido no consumo (pessoal) de bens. moribundos. dar mais e maiores festas (inclusive algumas com sacrifícios de dezenas de animais. realizar trabalhos de assistência social (em favor de crianças carentes. Mas. Este fato revela que está em jogo uma disputa de poder pela ocupação do espaço religioso afro-brasileiro e pelo exercício legítimo da prática religiosa naquele país. mais do que outros. Senão vejamos. viagens internacionais de turismo. tal como refere R. E isto deve-se a uma razão prática. comem e bebem e a gente que que bancar tudo”. Ou seja. Prandi para alguns terreiros paulistas. Cabe agora a pergunta: enriqueceram os pais e mães-de-santo que claramente se beneficiaram economicamente de suas práticas religiosas platinas? A resposta é preferencialmente negativa. mesmo bovinos). não parece ter havido um aproveitamento econômico pessoal. É certo que aplicaram parte dos benefícios no seu próprio sustento e de seus familiares bem como na manutenção e funcionamento da sua casa (de religião). e os seus colegas deste país. dá para se perceber que eles conseguiram constituir um capital financeiro que lhes permitiu reformar ou ampliar os seus terreiros (que se colocam entre os maiores da capital gaúcha). no mínimo materialmente. 13 Explica um pai-de-santo de Porto Alegre que “quando eles (os platinos) vem para festas. dos pais e mães-de-santo gaúchos que possuem filhos e mantém relações sobretudo com a Argentina. visando. senão a maioria. .15 Essas acusações e desqualificações mútuas revelam que de fato existe uma nítida rivalidade e uma relação conflituosa entre alguns. hospedar e arcar com as despesas de visitantes platinos13. constituir “um fundo econômico que facilita. que na sociedade capitalista constituem símbolos de status e de riqueza tais como: carro do ano. darem maior valor ao econômico no desempenho de sua atividade religiosa. ficam na tua casa. em última instância os pais e mães em questão aplicaram na própria religião (terreiros/rituais) os benefícios econômicos alcançados na sua atuação religiosa platina. arcar com as inúmeras despesas que asseguram a infra-estrutura dos terreiros. Mas. recordo que conflito há também entre os próprios pais e mães gaúchos que participam do circuito platino de bens e serviços religiosos afro-brasileiros especialmente em razão de alguns. imóveis. etc. Por um lado. idosos). Por outro lado.

Em primeiro lugar. Neste caso. vivendo num meio sócio-religioso altamente concorrencial e competitivo. embora sempre haja exceções.segundo a qual o econômico é orientado pela religião (Vogel e outros. acumulado (Prandi. Ou seja. símbolos diversos. fiéis à tradição . . os pais e mães-de-santo investem seus rendimentos preferencialmente nos símbolos de prestígio internos ao próprio meio e não nos indicadores de prestígio externos aos terreiros. numa religião em que o dispêndio material é muito grande e decididamente muito significativo” (Prandi. Senão vejamos. 1991:229). sobretudo as suas formas mais tradicionais. doces e salgadas.muitos rituais necessitam de animais a serem sacrificados assim como comidas . alem de “frentes” compostas de bandejas repletas de comidas. 1987). A produção e a comercialização de bens simbólicos afro-brasileiros A reprodução das religiões afro-brasileiras. requer a presença de mercadorias diversas. objetos e bens simbólicos de várias espécies.a iniciação de um filho-de-santo comporta vários rituais e obrigações que exigem uma lista considerável de mercadorias. o destino dado ao lucro financeiro platino obtido por alguns pais e mães-de-santo gaúchos obedece preferencialmente a lógica do terreiro e não da sociedade capitalista inclusiva que conduziria ao enriquecimento pessoal puro e simples. a conquista de maior prestígio. 1991:104). Em segundo lugar. retribuição e oferta aos próprios orixás dos benefícios alcançados por seu intermédio.16 a sua realização como líder religioso de seu grupo de adeptos. . conforme a tradição religiosa. dependendo da disponibilidade financeira de cada um (Vogel e outros. alem do preço do axé do agente que os ministra.pautam seu comportamento segundo a lógica do pacto e da troca com os orixás e de acordo com a concepção de que o axé é um valor que pode ser incrementado.os pegis e congás. como geralmente ocorre nesse meio religioso. requerem velas. Portanto. imagens. Mas deve-se também a razões simbólicas. a titulo de ilustração: . 1987) . 3.

. não só saberem a Nação nelas cultuadas. relação entre líderes religiosos.e. alem dos mercados da Bahia. Ou seja. antigo proprietário de uma das floras localizadas em nosso Mercado municipal. É o caso de Madureira no Rio de Janeiro. portanto. no mercado “faziam ponto os sacerdotes de Ifá. 1996:28). Recife. Efetuavam-se transações visando à aquisição de animais destinados ao sacrifício ou de materiais religiosos não fabricados na região. encaminhá-los aos Templos. Neles ocorrem várias trocas. está situado no Largo Glênio Peres. terreiros e seus rituais. os Babalawos. inclusive na Africa14. . 15 16 Segundo Adalberto Pernambuco Nogueira.17 diversas oferecidas às entidades e a todos os participantes. . Belem. tinham condições de. pelos pedidos formulados pelas Casas.. parecendo-nos que o velho Bandeira. Hoje.os “trabalhos”. Assim sendo.) os proprietários (dessas casas) eram pessoas ligadas intimamente ao culto. ações ritualísticas realizadas em favor das entidades. não somente econômicas. Por isso. no centro da cidade. etc.a participação em rituais requer dos seus membros o uso de uma indumentária própria. alem dos seus membros se abastecer dos bens necessários à prática religiosa . aguardando consulentes para. no referido 14 Na Africa. Este mercado existe na capital gaúcha desde 1869. como também avaliarem a competência dos seus dirigentes com referência às mais variadas cerimônias a serem efetuadas. a fim de ouvirem Ifá. mesmo que não iniciadas. se necessário.. Tais operações eram efetuadas no sistema do escambo ou pela aquisição em moeda corrente. esta religião tão absorvente de elementos materiais esteve tradicionalmente vinculada ao mercado. comportam sempre uma lista de bens necessários à sua execução. não nos esquecendo de que esta era representada pelos caw ris. Ora. cujas cores e tecidos mudam segundo o ritual e as entidades homenageadas. aqui mais conhecidos por búzios” (Nogueira. A flora mais antiga ali existente data de 1912. Ele cumpre funções econômicas. mas também sociais e religiosas. Nele surgiram as primeiras casas especializadas na venda de artigos de religião da capital gaúcha16. é o caso de pedras e ervas – obtém informações importantes acerca da religião. nas principais capitais brasileiras o mercado constitui um importante lugar para os membros das religiões afro-brasileiras encontrar os bens necessários para a feitura das obrigações. Em Porto Alegre o mercado religioso afro-brasileiro iniciou no Mercado Público Municipal15. o Orixá do Destino e. No contexto africano. do mercado municipal da Lapa. em São Paulo. embora não só lá. ocorrências e eventos. independentemente do grau de vínculo que tenham com a casa e com a religião. Hoje já não se encontram mais pessoas com tais qualidades. foi o último remanescente do grupo” (Nogueira.. i. “Antigamente (.embora nem tudo o que é requerido na religião possa ali ser encontrado pois nem tudo passa por uma operação comercial. o mercado está na origem de muitas cidades. da adivinhação. 1996:24).

45. Em duas observações de campo realizadas no referido bairro. na medida em que a religião vai se difundindo na Argentina e no Uruguai. . ou alem. Mas. e os pais e mães gaúchos quando se deslocavam para lá deviam levar consigo quase tudo do que necessitavam.18 mercado há um total de cinco floras em funcionamento17. há 26 anos. que funciona há 32 anos. na Rua Cuzco. logo surgiram também santerias mistas. N. Tais lojas constituem o lado da economia formal de uma religião caracterizada por atividades econômicas escondidas. em novembro de 1997 17 Elas localizam-se nas bancas N. há cerca de 150 estabelecimentos que comercializam artigos religiosos. as floras. há 20 anos e N. que colocaram à disposição dos clientes produtos católicos e afro-umbandistas e mesmo. Assim sendo. também floras ou santerias com produtos afro-brasileiros começam a se instalar naqueles países. Mas junto com. bens e símbolos esotéricos em geral. i. ou seja. 15. a maioria deles não possui nenhum vínculo com a religião constituindo-se as floras numa exclusiva atividade comercial. 1991). Retomando o tema da transnacionalização religiosa afro-brasileira do Rio Grande do Sul para a Argentina e o Uruguai. O mesmo. Hoje. 49. à margem do sistema (Aubrée. em Buenos Aires a maior concentração de santerias se encontra no bairro Liniers. ocorre nos países do Prata. das lojas situadas no mercado. dos quais em torno de um terço são especializados em produtos religiosos afro-brasileiros. e. segundo dados obtidos junto à Secretaria Municipal de Indústria e Comércio. Na cidade de Porto Alegre. submersas. por uma economia informal (Prandi. enquanto estabelecimentos comerciais que atendem às demandas por artigos religiosos. 37. Ainda segundo o levantamento realizado junto aos proprietários das floras locais. havia nesses países uma carência quase total dos bens necessários ao desempenho da religião. As primeiras santerias ali instaladas visavam atender às necessidades e demandas dos devotos católicos. sobretudo no Rio Grande do Sul. no limite entre a capital e a Província de Buenos Aires. N. em frente e nos lados da igreja católica e santuário de São Caetano. é fácil entender que nos primeiros tempos em que o processo fora desencadeado. invisíveis. 1987). os platinos deviam se abastecer dos mesmos no Brasil. como veremos. vão surgindo em outros pontos das cidades. em algumas. No entanto.

contei 25 santerias. “o primeiro supermercado de artigos religiosos do Uruguai”. em anexo. localizadas num raio de 400 metros do santuário católico18. alugando um antigo cinema. nas demais podem ser encontrados artigos que respondem às necessidades de católicos. ainda. a maior concentração das santerias da capital uruguaia se encontra na rua Fernandez Crespo. Obviamente que. Inútil dizer que santerias são também encontradas em outros bairros de Buenos Aires e mesmo na área central da cidade. o que revela o interesse argentino pelos bens religiosos em geral e pelos afro-brasileiros em particular. a poucas quadras da R. a incidência de santerias parece ser menor do que em Buenos Aires. especialmente de Porto Alegre. Neste caso foi esta igreja que se instalou. de Montevideu. em torno à sede da Igreja Universal do Reino de Deus. afro-umbandistas e místico-esotéricos em geral. há 86 anos. São Paulo. Rio de Janeiro e Bahia. Folheando três edições do jornal Atabaque19. em Montevidéu. cuja especificidade radica no fato de que elas se encontram ao lado e em frente a sede central da Igreja Universal do Reino de Deus. porém. topei com a publicidade de 13 santerias e 2 granjas. fundado em 1997. dada a polissemia de sentidos a eles atribuídos. e da Rua Fernandez Crespo. Segundo observei em novembro de 1997. No princípio do aparecimento das santerias platinas. surgiram fábricas locais de vários produtos 18 há 15 anos e banca A. 19 É um jornal afro-umbandista. onde foram as santerias (afro-umbandistas) que se instalaram em torno de um santuário católico já existente. diferentemente de Buenos Aires. Fernandez Crespo. um croquis da disposição das santerias no bairro Liniers. Em Montevideu. Com o passar dos anos. são procurados por membros de diferentes religiões. a santeria Yemanjá constitui.19 e junho de 1998. em Buenos Aires. muitas vezes. Seis santerias vendem exclusivamente artigos católicos. próximo à igreja de São Caetano. Vide. . são os mesmos símbolos religiosos que. de circulação mensal. onde contei 5 santerias. em meio às santerias pré-existentes. Em Montevideu. editado pelo “Templo Umbandista Caboclo Sete Flechas Reino de Omulu”. segundo seus proprietários. os produtos comercializados provinham todos do Brasil.

em Montevideu. há três granjas especializadas em fornecer animais e aves para o consumo na religião. chapéus e capas para exus e pombagiras. Para os proprietários de santerias platinas. como Rosenir C. livros. Bará. encontrei um folhetim publicitário com os seguintes dizeres: “Venta de animales BENGUELA. Somos gente de religion trabajando para usted. tambores. já na Província de Buenos Aires. Hoje a situação é mais ou menos semelhante no Uruguai e na Argentina: as fábricas locais abastecem o mercado interno com a maior parte do consumo de velas. 09 42 95 67”. Há também produção local de defumadores. azeite de dendê. Nas imediações de Buenos Aires. Crespo. . Peixoto. de diversas cores e tamanhos. Todos los animales para su obligación gallos y gallinas de campo. localizada no número 1783 da F. luvas. fluídos e alguidares. em veludo. Mas. de cor preta e vermelha. da fábrica Tupã Indústria e Comércio. com entrega a domicílio20. Nela estão expostos axós.20 religiosos. Pedidos al te. como “La Boutique de la Casa de las Velas”. alem de orixás. Em algumas santerias de Buenos Aires pode-se eventualmente encontrar axós vindos diretamente da República do Nigéria. e especialmente defumadores e fluídos. também asseguram que é incomparável a qualidade dos produtos brasileiros (gaúchos) em relação aos fabricados em outras partes do Brasil e na Argentina. pavos. Pretos Velhos e Caboclos. Há inclusive manequins destas entidades ostentando as vestimentas21. Entrega a domicilio sin cargo. como de Exus e PombaGiras. Já em Buenos Aires as vestimentas ritualísticas não são encontradas nas santerias mas confeccionadas pelos próprios membros da religião ou por modistas comuns22. Evidentemente que os proprietários de fábricas em Porto Alegre. há criadores de animais destinados para a religião. Iemanjá e Oxalá). a qualidade dos produtos brasileiros é superior aos seus: as imagens são mais belas. como também na Província de Buenos Aires. Em Montevideu. puntualidad y fundamento. e de algumas imagens (especialmente de Ogum. Oxum. custa 140 dólares. discos e fitas cassete. No resto do Brasil a produção é 20 Em uma santeria da F. Toda esta indumentária é confeccionada por um costureiro local. a importação do Brasil continua. 21 22 Nesta boutique uma capa para exu. objetos em metal. Crespo. Na capital uruguaia pode-se também encontrar santerias especializadas em indumentárias religiosas. os defumadores não desmancham e queimam melhor. seriedad. Diz ele: “Nosso produto do Rio Grande do Sul é qualidade. patos. especialmente o rosto. É o caso de imagens. palomas y 4 pies.

segundo a qual os produtos exportados/importados precisam passar pela fiscalização fito-sanitária para averiguar a composição e assegurar a qualidade dos mesmos. A partir de novembro de 1997. aquilo não é defumador. afirmou a proprietária de uma santeria argentina. Constróem. Mas. Com efeito. já existente para as exportações para outros continentes. Mesmo assim. agora para Ogum Indústria e Comércio. por sua vez. a inscrição “made in Brazil” é o maior marketing possível. neste ramo de comércio. há razões simbólicas importantes que asseguram a procura platina por produtos brasileiros. pelas razões acima apontadas. Naqueles países. a partir daquela data entrou em vigor uma exigência legal. Ernani Ernesto Agiova. desta forma. e Chama Dinheiro para outra.21 feita para “combate”. a legislação do Mercosul introduziu um complicador que afetou as exportações de artigos religiosos. A Hana Noka foi revendida e seu novo proprietário mudou a razão social para Nagô Indústria e Comércio. por isso não tem qualidade”. Ambas são empresas que surgiram com o desmembramento da empresa pioneira no ramo no estado do Rio Grande do Sul: a Livraria e Flora Olímpia. Já os defumadores deles é uma coisa. porém. encareceu ainda mais a importação platina dos produtos religiosos. Como isto tem um custo23. mudou novamente de nome. os produtos nacionais são procurados. É o caso especialmente da Comercial Hana Noka e da Tupã Indústria e Comércio. Foi nas décadas de 70 e 80 que a empresa se firmou no mercado nacional e internacional com o nome Hana Noka que. que o atual proprietário. Quando seu proprietário faleceu. assim. . Literalmente uma coisa. alem destas razões práticas. Atribuem a eles maior eficácia. Há hoje em Porto Alegre importantes indústrias que exportam seus produtos religiosos para os países platinos. Desmancha. justamente por serem produzidos no país em que a religião se estruturou. aberta ainda na década de 40. uma representação de que os produtos brasileiros são portadores de mais axé do que os nacionais. “Os produtos brasileiros tem encanto”. para uma parte da família. seus filhos desmembraram a Olímpia em Hana Noka. “Na Argentina eles sabem que produto brasileiro é sinônimo de qualidade. parece que é feito com bosta de vaca”.

Menos o pó-de-madeira. segundo os proprietários gaúchos. sendo esta a ordem de volume de exportação. A ele seguem fluídos. “limpa tudo no lar”. 23 No Brasil hoje o custo de cada análise fito-sanitária é de 116 reais. cremes. afirma que foi quando ingressou na umbanda que “deu o estalo desse negócio”. 25 tipos diferentes de sabonetes sólidos e 10 tipos diferentes de pembas. talco. pembas25. Rosenir Carlos Peixoto. que mudou sua razão social para Tupã Indústria e Comércio. A Hana Noka possui hoje 10 empregados enquanto que a Tupã 8. na lista dos produtos da Hana Noka constam: 44 tipos diferentes de defumadores em tablete. são os defumadores24. “contra olho e inveja”. tornou-se mais tarde atacadista e em 1987 adquiriu a fábrica Tupã deixando a flora para seu irmão. tais como: “abre caminho da sorte”. permanece como a “marca” da empresa. alem de produtos destinados a quase todos os orixás cultuados no batuque. No entanto. 17 tipos diferentes de perfumes de 40 ml e 2 de vidro grande. Há finalidades recorrentes impressas nos rótulos de todos esses produtos. A Hana Noka iniciou a exportação na Argentina ainda na década de 60 e incrementou nas décadas de 70 e 80. de queimar até o fim. A composição dos defumadores é basicamente pó-de-madeira. segundo a secretária executiva da empresa. giz. Contrariamente à Hana Noka. O proprietário da primeira não se diz membro da religião e considera a sua atividade exclusivamente como negócio. banhos. o restante é importado de Rio e São Paulo. 10 tipos diferentes de talcos grandes e 2 pequenos. Chama Dinheiro. 13 tipos diferentes de potes de cremes atrativos. 25 A título de exemplo. perfumes. em 1987. 24 Há uma gama bastante diversificada de defumadores pois se destinam para atender aos mais variados objetivos. “chama freguês”. A segunda empresa. O restante é destinado para a Argentina. As exportações também ocorrem para Portugal. o carro-chefe da produção. Em ambas as empresas. Já Peixoto é participante da Umbanda. sabonetes. foi adquirida pelo atual proprietário. “pega homem”. Aliás. a produção da Tupã é majoritariamente colocada no mercado interno. “chama dinheiro”. breu e outras essências. baralho. em volume aproximado de 70% do total. “pega mulher”. a Chama Dinheiro. . Suíça e Argentina. Uruguai e em menor volume para o mercado interno. cujo “segredo” reside no fato. “atrai amor”. Portugal absorve 50% de toda a produção. incenso. anelina. Hoje. 20 tipos diferentes de fluídos com caixa e 8 sem caixa. 24 tipos diferentes de banhos líquidos sem caixa e 8 com caixa. realizada para cada tipo de produto exportado.22 permanece como “marca” da empresa até os dias atuais. Abriu inicialmente uma flora para varejo.

colocam os produtos nas lojas. Iemanjá e São Jorge. inaugurada em 1987. Neste estado há ainda fábricas de gamelas. ainda. Como se vê.20 reais e revendem pelo dobro do preço de fábrica. de São Paulo. e Bazar Flor da Agua Grande. em Buenos Aires. da Tupã são duas santerias atacadistas: a Casa São Jorge e Ana Maria Lobos. Há diferentes kits: contra feitiços. Importa especialmente do Rio de Janeiro miçangas. o custo da dúzia dos defumadores é de 3. abre caminhos. Porém. Uma outra adaptação e invenção argentina consiste na fabricação neste país de “kits magia”. Mesmo nos produtos desta empresa destinados a países como a Argentina consta o nome do importador português. Ambas as empresas produzem um defumador específico para o mercado argentino. É o defumador para São Caetano. que distribui os produtos para outros países da Europa27. velas26. vestimentas religiosas e imagens. o mercado religioso afro-brasileiro do Rio Grande do Sul não é auto-suficiente. as finalidades dos kits magia são as mesmas constantes nos artigos produzidos nas fábricas brasileiras. harmonia familiar. 27 O nome do português figura na própria embalagem dos produtos da Hana Noka.23 Há. produzidos por Merlin Mundo Esotérico. quartinhas (alguidar). mas nenhuma delas realiza exportações. adaptaram uma prática própria da lógica religiosa afro-umbandista à devoção de um santo católico popular argentino. saúde. Ou seja. búzios e vidros (taças e copos) e imagens de São Paulo. a parte mais expressiva da produção (cerca de 85%) é destinada para a Itália e Portugal. 26 A indústria gaúcha Coinvel. no Rio Grande do Sul duas outras fábricas no mesmo ramo: Província Indústria e Comércio de Artigos Religiosos e Safiotti. sobretudo da fábrica “Imagens Bahia”. As fábricas gaúchas Hana Noka e Tupã vendem para atacadistas que. A maior importadora argentina e uruguaia dos produtos da Hana Noka é a Herboristeria Pampeana Ltda. da cidade do Porto. Para eles. contra inveja. exporta velas para os países do Cone-Sul desde 1995. do Rio de Janeiro. lava-casa. A exportação para Portugal é feita através do atacadista português Antônio Alberto da Silva Alves. 7 poderes. . No entanto. por sua vez. Segundo o proprietário da Tupã. a colocação do seu produto no Brasil e no exterior ocorre via dois grandes atacadistas: Casa Neilomar Artigos Religiosos. Esta última fez a primeira importação da Tupã há quatro anos no valor de 30 mil dólares. na condição de importador exclusivo dos seus produtos. ambas do bairro Liniers. Santo Antônio.

Alem da venda regularizada para o exterior. No entanto .e da mesma forma como vimos acima em relação aos depoimentos dos pais e mães-de-santo gaúchos . foram os “sacoleiros” os maiores propagandistas dos seus produtos pois colocaram-nos nas floras e terreiros platinos e estes. Adriano Peixoto. . da Tupã. tudo envolto em plástico transparente. o recolhimento dos encargos fiscais. Segundo Peixoto. é muito grande. ambas as fábricas. Como já indicamos nas páginas precedentes. na santeria Casa de Velas. produtos religiosos que são revendidos sem. como consta no rótulo dos mesmos. que transportam sobretudo para Buenos Aires e Montevidéu.24 Todos os kits obedecem a um mesmo modelo: são compostos de sete velas coloridas (menos para Oxalá que são todas brancas). ou “pirangueiros”. agê (chocalho). uma chave. Atribuem a queda das vendas. tambor.também os proprietários das empresas gaúchas referidas reiteram que nos últimos anos houve uma diminuição da exportação para os países platinos. como fazem os pais e mães-de-santo. em Montevidéu. a procura dos kits de “rituales de magia blanca”. Igualmente. dono da fábrica Tupã. também efetuam a venda para “sacoleiros”. guias (imperiais) e gamelas. fitas cassete. esperei durante quarenta minutos até que uma das 4 vendedoras se liberasse para poder conversar comigo. Aberta há um ano. bem como algumas floras de Porto Alegre que vendem no varejo e no atacado28. é irmão de Rosenir Peixoto. à crise socioeconômica por que passam aqueles países. Ao preço de 2 dólares a unidade. Seu proprietário. porém. é tida como o primeiro supermercado da Umbanda no Estado. possuindo. garantem os vendedores das santerias. brasileiros e argentinos. localizada na Av. A título de ilustração menciono que na tarde de segunda-feira dia 11 de novembro de 1997. como já indicamos. há. à semelhança dos 28 O maior atacadista de Porto Alegre é a Flora São Sebastião. outras razões implicadas no arrefecimento do circuito religioso e comercial gaúcho para os países do Prata. localizada ao lado da Igreja Universal. Nesta santeria. um serviço de tele-entrega. ou azeite. Levam especialmente imagens. o afrouxamento das relações religiosas e comerciais com os brasileiros não significa que a religião tenha diminuído sua importância nos países platinos. inclusive. com instruções de uso e finalidade no verso. Bento Gonçalves. ou pequeno vidro com sementes. num segundo momento. obviamente. entraram em contato com ele para efetuar pedidos dos seus produtos. Prova disso é o aumento sempre crescente de novos terreiros e a procura por artigos religiosos nas santerias portenhas.

não se declaram membros da religião e concebem sua atividade como um mero negócio. concerne o fato . e onde o dinheiro. alguns proprietários de santerias locais. onde as mercadorias (religiosas) são redutíveis a quantificações financeiras. embora não façam parte da religião. da mesma forma que os gaúchos. No entanto. Fizera exclusivamente porque percebera que se tratava de um filão econômico florescente naquele início da década de 80. nesse ramo de comércio são geralmente os clientes que instruem os proprietários e vendedores. ao lado da porta de entrada se localiza um aparelho contendo fichas numeradas que os clientes retiram para serem atendidos quando seu número for chamado. e outra lógica do balcão para fora. Assim sendo. Mesmo assim. período que. neste caso exclusivamente argentina. Pode-se aplicar aqui a mesma observação feita por Rubem Cesar Fernandes sobre a relação entre comércio e religião verificada no santuário de Bom Jesus de Pirapora. a lógica do mercado prevalece na perspectiva dos vendedores mas não dos fregueses. talvez menos ainda. entra em outra lógica. como vimos. Neste caso. como resultado dos anos de contato com esse meio religioso. constitui um símbolo de troca de outra ordem (Fernandes.25 estabelecimentos comerciais bastante concorridos. aos poucos vão dominando os seus códigos simbólicos e conhecendo-a. onde a mercadoria possui um significado para os fregueses regido por outros valores. em Pirapora como no Mercosul. asseguram que nos últimos anos diminuiu o investimento financeiro das pessoas na religião em relação aos anos passados. mesmo que elevado. Outra característica portenha. 1982). contrariamente ao usual onde são os comerciantes que informam e instruem os fregueses. Não possuía nenhum vínculo com a religião. as religiões afrobrasileiras deslancharam na Argentina. proprietária de uma santeria em Liniers. Ana Maria Lobos. estima que a diminuição nos últimos três anos gira em torno de 30%. Essa é uma característica das santerias portenhas e também gaúchas: cerca de 70% dos seus proprietários e funcionários. cujas mercadorias obedecem a outro sistema ordenador de valores. Esta proprietária instalou sua santeria em 1982. Há uma lógica para dentro do balcão.

E. cartas. Crespo a média era de 3 funcionárias em cada uma delas. portanto. fotógrafos. A maioria das floras portoalegrences possuem 2 funcionários em cada uma delas. Já nas 5 santerias montevideanas da rua F. também de Porto Alegre. . situações raras em que um pai-de-santo é dono de um terreiro e ao mesmo tempo proprietário de uma flora. há que se contabilizar os empregos e ocupações indiretas. costureiras. inclusive. Há. A mesma constatação de chefes de terreiro terem seus próprios negócios – lojas de umbanda. no Rio Grande do Sul e nos países do Prata. autores de livros e de músicas. fato este não observado nem em Montevideu nem em Porto Alegre. possui 10 empregados e mais cerca de 30 pessoas que depositam nele produtos que confeccionam para serem comercializados. As duas fábricas mencionadas de produtos religiosos de Porto Alegre engajam formalmente 18 empregados. Por exemplo: as 25 santerias de Liniers possuem em média entre 2 e 3 atendentes cada uma. fora outros das demais santerias espalhadas pela cidade e por outras cidades do interior do país. para São Paulo (Prandi. oferecem aos clientes a possibilidade de uma consulta de búzios. pais-de-santo e tamboreiros. Na capital uruguaia. alem de vender produtos religiosos. Alem disso. mapa astral. O supermercado da Umbanda São Sebastião. etc. Outra característica das floras/santerias que aponta para a sua importância econômica reside no número expressivo de empregos que produzem. Seriam ao menos 15 empregos somente nesta rua. alem dos empregos diretos. criatorias de caprinos. porém. floriculturas. aviários. etc. primordialmente. onde as santerias/floras constituem. etc – fora feita por Prandi. entre 50 e 75 empregos diretos garantidos somente nas santerias referidas. ao custo médio de 30 dólares cada uma. como escritórios de contabilidade. Desta forma. que de alguma forma também se beneficiam economicamente da religião. 1991). gráficas. folhetins e cartas de visita.26 de que a maioria das santerias. em suma de material de divulgação e propaganda de terreiros. em Porto Alegre. aviários. pode o cliente se abastecer alem dos produtos da religião de um sem número de folhetos. Seriam. uma atividade complementar aos terreiros e estão à serviço deles. há tamboreiros e criadores de animais destinados aos rituais que dependem diretamente da religião. artesãos. para aumentar sua receita. as santerias por um lado contribuem para a divulgação da religião mas por outro firmam-se como concorrentes dos terreiros. cinegrafistas.

como uma fonte de renda. então. pode ser fixado nas décadas de 70 e 80 (Parker.vinculado. como se as religiões afro-brasileiras dispusessem de mecanismos que constrangissem os seus líderes religiosos que despontam economicamente a investir os benefícios na própria religião (terreiro. Lehmann para explicar a atual difusão mundial do pentecostalismo . mesmo que isso se passe num contexto social capitalista. portanto. mais do que nunca. Assim sendo . na Argentina. para a América Latina. e à ditadura militar. neste caso o local se articula com o universal.27 Conclusão A título de conclusão gostaria de frisar alguns pontos: Em primeiro lugar. Em segundo lugar. família religiosa). por outro lado.seja tentando obter uma melhor relação com as entidades espirituais. no Uruguai – e. pela valorização atribuída ao econômico. é a religião que. embora religião e economia (mercado/dinheiro) se influenciem mutuamente. paradoxalmente. 1997).a compreensão da propagação das religiões afro-brasileiras para os países do Prata passa. rituais. Neste caso. o dinheiro é aplicado segundo critérios internos ao mundo batuqueiro. inocula o econômico conferindo-lhe sentido e significado. os pais e mães-de-santo que conseguem um lucro financeiro em suas atividades religiosas platinas tendem a aplicá-lo na própria religião.permeado de concorrência e competição .como indica D. Em outras palavras. para . em ultima instância. sobretudo ao retorno da democracia. seja visando alcançar maior status e conquistar maior prestígio no meio batuqueiro . pela referência ao nível global (Lehmann. pois. Tudo se passa.cujo desencadeamento. 1997) – ocasião em que os ventos neoliberais parecem ter contaminado. acompanhou a onda mais geral da globalização . sugiro que a aceleração da difusão das religiões afro-brasileiras para os países do Prata ocorrida na década de 80 por um lado contou com um momento histórico propício . de alguma forma. alguns pais e mães-de-santo gaúchos que passaram a conceber as religiões afro-brasileiras como um produto nacional de exportação e.

assim como fazem também outras religiões30. 15/07/1998. asseguram empregos. isto é. enquanto forma pragmática de contato e permuta com o sagrado. p. não institucional. revelando. bem como no Brasil. 1987) e atuam ativamente para aliviar a crise do desemprego nos países platinos. as religiões afro-brasileiras constituem. 89).28 conseguir ainda mais benefícios dos orixás e/ou para alcançar maior prestígio social. a “economia” está intimamente imbricada à “religião” e à “política”. 1991). as floras e santerias servem muito bem para o tipo de religiosidade 29 Lísias Nogueira Negrão menciona. e o Rio Grande do Sul tem dado a sua contribuição. não dependente de federações ou diretamente de terreiros.12. Ou seja. A título de exemplo. as floras e santerias tem gerado um espaço de circulação comercial própria. Nela referia. carreiam divisas para os países implicados. templos e bancos evangélicos são responsáveis por 600. Em terceiro lugar. Assim sendo. Prandi. as religiões afro-brasileiras. escolas. salvo raras exceções. porém.80. como observou R. Bahia e Rio de Janeiro29. Trata-se de um comércio ao mesmo tempo agregado e paralelo à transnacionalização religiosa afro-brasileira. Em quinto lugar. isto é. maior poder no interior do campo religioso. qual um “fato social total”. no Brasil e no exterior. diretos e indiretos. de 28. para os pais e mães-de-santo gaúchos cuja motivação financeira integra o conjunto dos sentidos da sua atividade religiosa transnacional. Igualmente. que em Buenos Aires as santerias ao mesmo tempo em que contribuem para a reprodução da religião e dos terreiros também são seus concorrentes. o que rendera a importância de 600 000 dólares no ano” (Negrão. as exportações de bens e produtos religiosos afro-brasileiros tem gerado divisas para o país. por exemplo. a revista VEJA. geram comércio e indústria. defumadores e fluidos perfumados para os países do Cone Sul do Continente.000 empregos em todo o país” (Veja. adapta-se como uma luva numa sociedade em que o consumo está plenamente racionalizado (Prandi. que a racionalização da magia. 30 . diz o autor. ao lado de São Paulo. canais de televisão. uma reportagem publicada no Jornal do Brasil. diferentemente de Montevidéu e de Porto Alegre onde elas estão a serviço da religião e dos terreiros. “sobre a exportação de sabonetes. até certo ponto. estratégias de inserção social e econômica (Aubree. Em quarto lugar. informou que “editoras bíblicas. 1996:133). em recente reportagem intitulada “salvos pela palavra”. Vale recordar. intitulada “Umbanda começa a dar divisas para o Brasil”.

necessários para a reprodução da própria religião que precisa do consumo para atualizar e expandir sua cultura espiritual. pois elas colocam à disposição uma grande gama de bens que os indivíduos imaginam serem úteis para alcançar a sua segurança pessoal. porém. as floras/santerias seriam locais de expressão e reforço de valores de uma cultura e de uma religião. programas televisivos. suas trajetórias.29 bastante individualizada que caracteriza a modernidade. Neste caso. arranjos e significados diferentes segundo as instituições religiosas. De acordo com a Folha de São Paulo de 17/05/1998. 32 Segundo o Jornal Zero Hora. para resolver seus problemas ou mesmo fortalecer o seu eu interior. aquelas igrejas brasileiras estão vivendo uma crise financeira. lembro que a interpenetração entre religião e economia é uma constante histórica na maioria das religiões do mundo capitalista. até aquele ano a igreja fundada por Edir Macedo era detentora de um capital de 400 milhões de dólares. locais. as igrejas católica e luteranas estão passando por uma importante crise financeira32 enquanto que igrejas neo-pentecostais como Universal do Reino de Deus. edição de 19/4/1995. precisam da mercadoria para produzir significados espirituais e mesmo morais” (Amaral. como “religiões pagas”. Ocorre que enquanto essas últimas já surgem. ocasionando problemas para algumas instituições religiosas e favorecendo outras. No atual mundo em processo de globalização. embora tradicionais. de Porto Alegre. tipo Walter Mercado. 1998. sucessos empresariais e controvérsias. posto que a ajuda internacional é atualmente destinada para a África e o leste europeu. 1998)31. Enfim. possuindo. precisam (ainda) se adaptar (melhor) à sociedade capitalista e à economia de mercado. ver Gutwirth.estilos feiras mundiais de indústria e comércio . por isso mesmo. parece que as fronteiras entre as duas dimensões se tornaram mais fluídas. as primeiras. de certo modo.que vem se multiplicando com sucesso no mercado da Nova Era. usando a mídia impressa e eletrônica. Para uma análise atual da “saga dos televangelistas” norte-americanos. Como as verbas estão diminuindo bastante. 33 .. de 3/5/1998. fatura anualmente 150 milhões de dólares. os televangelistas norteamericanos. a maior parte da verba para sustentação bem como para empreendimentos sociais dessas igrejas provem do exterior. de forma semelhante aos adeptos da Nova Era que “. sem falar na Igreja da Unificação do reverendo Moon e nos videntes e personagens esotéricos televisivos. Assim.. 31 Daí a realização de festivais . estão conseguindo construir verdadeiros impérios econômicos33. Segundo a revista Veja. o empresário esotérico porto-riquenho Walter Mercado.

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