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Tatiana Mareto Silva / O PODER / 1

NOTA DA AUTORA

O Segredo de Esplendora – O Poder é uma obra de ficção, elaborada a partir da imaginação fértil de uma menina que não gosta de dormir. Nenhuma das personagens existe e nenhuma das cenas retratadas representa qualquer situação verídica. Qualquer semelhança com pessoas ou lugares é apenas coincidência.

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CAPÍTULO 1

Aliados

Heather estava sentada em sua cama, o olhar fixo no anel em seu dedo. Ela girava o objeto para um lado e para outro, observando que ele já estava um pouco frouxo. Ela havia emagrecido mais do que pretendia. A pedra azul da cor de seus olhos reluzia a luz artificial do quarto, e a fazia ainda mais misteriosa. A janela de madeira batia com a força do vento, que também chacoalhava violentamente as árvores do lado de fora. Sua respiração estava cadenciada e lenta. O enorme fluxo de energia que percorria seu corpo estava momentaneamente sob controle, mas ela precisava esforçar-se demais para mantê-lo daquela forma. Sua pele formigava, e ela se sentia instável. “Estúpida!”, ela esbravejou mentalmente, consigo mesma. “E você teve a coragem de dizer que sentia falta dos problemas! Estúpida!” Ela não quis dizer nada daquilo, Heather sabia. Não sentia falta de problemas, na verdade. Ela temia que eles voltassem avassaladores, como tinha acabado de acontecer. Os problemas de antes eram pequenos. Uma ascensão ali, uma excursão para o Mundo Inferior ali, uma demonstração de poderes acolá. Nada antes parecia tão ridiculamente exagerado quanto o fato de enfrentar Seraphiel de uma vez por todas; de enfrentar Esplendora e toda a mentira que foi construída e solidificada por séculos. E Heather também sabia que, daquela vez, Seraphiel tinha aliados importantes. Não apenas os Bruxos, mas Bell. A Bruxa Bell era o estopim da bomba em Esplendora, e tê-la ao lado de Seraphiel era uma péssima estatística. A garota recostou-se na cabeceira da cama. Seus pensamentos ruins precisavam ser varridos. Ela tinha que se manter concentrada. Enquanto ela cuidava dos filhos e fugia da tensão, os preparativos se iniciavam no andar de baixo. Henry ligou para Wesley e pediu que ele deixasse o Black Box imediatamente e retornasse para casa; que eles tinham algo muito importante para conversar. O vampiro mais jovem não demorou nem vinte minutos para aparecer, totalmente molhado e apavorado com o chamado apressado. Henry queria reunir os dois, Wesley e Stuart, e explicar-lhes toda a situação. Ele tinha

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muito a contar para ambos, nenhum deles aparentemente sabia da verdade. A história do nascimento dos gêmeos em Esplendora, as Profecias, a verdadeira origem de Henry. E todo o perigo que aquilo representava para eles. A justificativa de uma guerra, ele pensava. Stuart, que pretendia ver Kristen à

tarde, não teria aquela oportunidade. Ele precisaria esperar para contar a ela mais absurdos sobre sua quase vida. Mas, antes de prosseguir com estratégias, ele precisava cuidar dos que o cercavam. Era sempre a questão do tempo, e o tempo não era tão relevante para um vampiro. Ele aprendeu que o mesmo valia para Anjos seculares. Seraphiel, Bell ou qualquer outro que pretendesse atacá-los não o faria em dois dias; a situação previa uma espera de meses, talvez anos. Não havia pressa, porque aqueles seres estavam acostumados à eternidade e às coisas que não mudavam nunca. Então, não havia necessidade de pressa ou desespero; Henry tentaria manter a rotina que lhe era tão prazerosa enquanto decidia, com outros seres sobrenaturais, como seria a melhor forma de exterminar um Anjo cruel e superpoderoso.

O cheiro que entrou pelas narinas sensíveis de Heather não estava

relacionado ao clima. Nem à presença harmoniosa de seu vampiro. Aquele aroma fez com que seu corpo se agitasse e ela percebesse que estava faminta. Seu estômago protestou pela falta de alimento, fazendo um ruído próximo dos trovões que estrondavam o lado de fora. Ela sequer sabia que horas eram, mas

já devia ser tarde. Tantas coisas aconteceram, desde a saída de Stuart com as crianças até a chegada de sua mãe para uma conversa em família. Ela estava mesmo fraca, e o enfraquecimento de seu organismo era perigoso; ela podia perder o controle sobre seus poderes e aquilo poderia significar uma falha no bloqueio. Mas antes que Heather pudesse ter um ataque de ansiedade e descesse correndo as escadas para alimentar-se, a figura serena de Henry adentrou o quarto, carregando uma bandeja prateada com alguma coisa fumegante.

— Está com fome? — Ele lhe sorriu. Um sorriso típico de Henry, aquele

sorriso que sempre desarmava Heather de qualquer pretensão. Ela poderia passar o dia inteiro apenas vendo-o sorrir.

— Agora que você falou, estou faminta! — Ela agitou-se, torcendo os

lábios. Henry aproximou-se da cama e apoiou a bandeja no colchão.

— Desculpe-me por deixá-la sozinha e sem atenção tanto tempo. — Henry

beijou a testa da garota, enquanto se sentava cuidadosamente ao seu lado. — Os meninos estão bem?

— Você não precisa desculpar-se, Henry. — Heather beijou-o rapidamente

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nos lábios. — Eu não mereço que você me mime tanto, e acredito que você estivesse resolvendo questões bem importantes.

— É, já estou acostumado a mimar você. E devo confessar que adoro. —

Ele exibiu um novo sorriso, lábios comprimidos.

— Os meninos estão alimentados e dormindo. E as coisas lá em baixo? —

Heather já perguntou levando a colher de sopa à boca. Henry gostava de cozinhar para ela, mesmo não sendo o melhor cozinheiro do mundo. Seus dotes tinham limitações, mas tudo que ele fazia era com extrema atenção. Como ele sabia que Heather precisava estar forte, ele preparou uma sopa com

carboidratos e proteínas. Os pedacinhos de carne flutuavam pelo prato cheio.

Hm, isso aqui está ótimo! — Obrigado. — Henry beijou-a novamente. — Você não precisa se

preocupar com os problemas agora. Eu gostaria de pedir que sua mãe e meu pai

— o vampiro considerou alguns segundos para ter certeza absoluta se deveria continuar a usar aquela palavra — fiquem conosco mais um pouco para que

possamos avaliar a situação e compreender exatamente o que Abdiel quer fazer. Confesso que ainda não entendi o que ela pretende.

— Ora, então peça! — Heather franziu as sobrancelhas e falou, de boca cheia. — Não é coisa demais para você lidar, Henry? Como você está

enfrentando tudo isso, a chegada desse seu pai? Quero dizer, isso é problema meu, problema de minha linhagem, de

— Heather. — Ele calou sua boca com o dedo indicador em riste. — Não

diga uma insensatez dessas. — Ele a encarou com um semblante indignado. Se Heather não o conhecesse bem, ela poderia até acreditar que ele estivesse irritado. — Eu sou filho daquele Anjo de asas enormes, pai dos seus filhos, e eu te amo. Não existe possibilidade de admitir que esse também não seja meu problema. Se vocês vão enfrentar um Anjo insano e uma Bruxa cruel, eu farei parte disso tanto quanto eu fiz parte da sua ascensão, no que foi possível. Henry beijou os cabelos da garota, e depois deixou o quarto. Ele conversaria com seu pai e a mãe de Heather, e depois com seus vampiros. Havia muito a que se organizar, e os aliados que eles teriam ao seu lado. Afinal, outras entidades eram simpatizantes da história de Abdiel e deveriam ir contra Seraphiel e toda a sua busca pelo poder supremo em Esplendora. Enquanto Heather terminava sua refeição, ela acabou por se perder em uma memória, que era sempre muito boa, mas que lhe causou preocupação imediata. O Anjo Mills, que ela não via há bastante tempo, estava em Esplendora. E sozinha. Talvez sendo acobertada pelos Elfos, mas eles também poderiam correr perigo. Se Seraphiel sabia sobre Henry, era porque Anael tinha descoberto tudo que lhe

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escondiam. E, certamente, Bell também sabia, juntamente com seus Bruxos do mal. Por consequência, todos sabiam que Mills estava envolvida até o pescoço na mentira sobre a origem do vampiro de Heather. Mills precisava de ajuda, e Heather achava que ela deveria fazer alguma coisa. Apesar de não saber exatamente o que, e de não ter certeza se era capaz de fazê-lo, ela precisava tomar uma atitude e levar Mills para a Terra, onde

estavam todos. Ela precisava tirá-la do raio de ação de Seraphiel, e levá-la a um lugar onde ele não ousaria desafiá-los. Ou, ao menos, não ousaria desafiar três Anjos Superiores muito irritados. Heather não ficaria esperando que todos organizassem estratégias; ela não seria passiva e aceitaria o que lhe fosse passado. Depois de comer, foi até o quarto de William e Richard e conferiu que eles dormiam calmamente. Ela pensou em contar a Henry o que pretendia, mas não iria demorar-se. Ela não tinha tempo para demorar-se; era uma ocupada mãe que não podia afastar-se muito dos seus filhos – nem de seus novos afazeres. Em instantes, frações de segundos, Heather transportou-se para a longínqua Vanera. A habilidade de orbitar era fantástica, e ela já havia há muito dominado tudo que podia fazer – tudo que ela sabia que podia fazer. Como ela já conhecia bem o Castelo da Bravura, não foi difícil orbitar para dentro de seus portões, mais precisamente para o quarto de Bellasiel. E, para sua sorte, o Elfo estava lá, quase que como aguardando pela chegada de Heather. Se não tivesse sido pelo susto que Bellasiel teve quando viu o Anjo chegando, ela poderia mesmo acreditar naquilo.

— Bom dia, Bellasiel. É dia, certo? Bem, sempre é dia em Esplendora.

— Heather. — O Elfo encolheu-se, quase como que temendo o Anjo

híbrido. — Você

— Lamento invadir sua privacidade, Bellasiel, mas eu preciso de sua ajuda.

— Heather sentia energia correr por seu corpo, acelerada. Ela não estava

exatamente no controle de seus poderes, era como se o simples fato de estar próxima a Esplendora a descompensasse o suficiente.

— Devo preocupar-me com a sua presença aqui? Com o fato de você

carregar a tempestade com você? Heather olhou para si mesma, e ficou aborrecida com o que viu.

— Ah, eu deveria ser mais perigosa e forte na Terra. Que reação horrível,

desculpe-me. — Ela referiu-se aos raios de energia que escapavam de seus poros, inconscientemente.

— Diga, o que precisa de um simples Elfo? — Bellasiel, sempre muito tranquila, questionou.

o que faz em Vanera? Aliás, o que faz em meu quarto?

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— Seraphiel monitora Vanera ou retomou o trato feito com Raunien? — Não sabemos. Não podemos confiar em Seraphiel, não mais. —

Bellasiel coçou o queixo, pensativa. — Foi você mesma que nos ensinou isso.

— Terei que arriscar, então. — Heather sorriu. — Preciso falar com Mills,

mas acredito que ir até Esplendora seja um movimento bastante estúpido. Não quero entrar em confronto direto com Seraphiel, nem com seus Bruxos aliados; então pensei se você não poderia chamá-la aqui. Sei que é pedir demais, mas é importante. Não para mim, é importante para Mills. Bellasiel olhou para Heather com o semblante preocupado. Ela não sabia ainda se temia aquele Anjo ou o que ela representava. Os Elfos estavam cansados de intrometer-se em questões angelicais, e aquela era a mais grave de todas. Bellasiel e Raunien já tinham interferido demais no balanço entre Esplendora e Vanera, mas era pela razão certa, eles acreditavam. Enquanto Seraphiel comandasse o Conselho, tudo poderia estar em risco. O Anjo Superior era instável, e Raunien não pretendia apoiá-lo. Mas daí a ajudar Heather e quem mais fosse a atacá-lo; aquela era uma atitude que teria várias consequências. Mas a garota dizia que precisava falar com Mills para seu

próprio bem, e Bellasiel nutria grande afeição pelo anjo. Ela tinha, na verdade, que decidir entre sua amizade com Mills e a não interferência na questão entre Heather e o Conselho de Esplendora.

— Está bem, Heather. — O Elfo sorriu. — Buscarei Mills.

— Não diga que falou comigo. Nem mencione meu nome. Traga-a aqui sem dizer do que se trata; não posso bloquear a todos sem que eu esteja presente; é arriscado falar sobre mim e atrair a atenção de Seraphiel. Bellasiel fez uma reverência, referindo-se a Heather com o respeito que ela

se referiria a um líder, e deixou o seu quarto. Heather podia estar no controle de seus poderes, no controle de sua vida, no controle de suas emoções. Mas ela ainda sentia as mãos, humanas demais, suando quando estava nervosa. E estava nervosa. Talvez ansiosa. Ela sabia que algo grande, maior do que ela talvez pudesse lidar facilmente, estava para acontecer. Sabia que teria que envolver muita gente, pessoas, seres mitológicos que antes nada representavam para ela,

e que em tão pouco tempo passaram a significar tudo que tinha na vida.

Envolvê-los em algo ruim. Algo que poderia lhes custar um preço alto. Seu controle possibilitou que o céu em Esplendora se mantivesse o mesmo. Nenhuma nuvem anunciou a presença do Anjo do Apocalipse na cidade. Em pouco tempo, menos do que Heather pensou que teria que aguardar, Bellasiel adentrou novamente seu quarto com Mills flutuando atrás de si. O Anjo tinha a sua luz pouco brilhante, o manto azul celeste continha um capuz que escondia

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os cabelos pálidos e longos. Seu dedo indicador esquerdo pressionou seus lábios quando ela ergueu a cabeça, e seus olhos azuis, da cor do céu de

Esplendora, capturaram a presença de Heather. Foi uma surpresa inusitada, pois Mills havia sido compelida a seguir Bellasiel para conversar acerca de uma possível celebração para o aniversário de Raunien, que se aproximava.

— Ora vejam. — Mills deixou que seus lábios se esticassem em um sorriso

simples. Heather notou que sua pele não estava tão iluminada quanto das outras vezes que ela a havia visto. Mills parecia uma mulher, como ela nunca pareceu

antes. Era possível ver os seus olhos; ver dentro deles sem sentir-se cega pelo brilho que emanavam. — Eu estou autorizada a falar seu nome, ou pensar em você nesse instante?

— Sim, está. — Heather sorriu. — Garanto que ao meu lado a sua

imunidade ao poder de Seraphiel é plena.

— Nunca pensei que fosse querer estar imune a Seraphiel. — Mills coçou

o queixo com o mesmo indicador que ainda estava em riste. — Mas diga, Heather; por que o embuste?

— Preciso falar-lhe. É importante, muito importante. Mas não devo fazê-lo

aqui. Tive que vir buscá-la, pois se eu a chamasse não saberia se as pessoas erradas poderiam ouvir.

Anjos errados?

— Sim, esses mesmo. Bruxos talvez.

— E aonde vamos, ao Mundo Inferior? — Mills demonstrou algum senso

de humor, mas sua expressão não havia se modificado. Os dois Anjos

conversavam de frente uma para a outra, de pé. Bellasiel aguardava, pois não lhe havia sido pedido para deixar o quarto.

— Não, vamos à Terra. Tenho algo que você precisa ver para acreditar. Eu mesma precisei ver.

— Você sempre foi cética, eu não.

— Sim, mas trata-se de um assunto muito delicado e esquisito. Você

lembra quando apareceu na minha casa aquela noite e disse que minha vida toda era uma grande mentira? — Heather tentou fazer uma comparação com sua própria história. Tinha certeza que o que contaria a Mills mudaria completamente sua visão de Esplendora, talvez de toda a sua vida. Assim como aconteceu com ela, algum tempo antes. O Anjo Superior meneou a cabeça em assentimento, aguardando a conclusão do raciocínio de Heather. — Pois bem,

eu também tenho algo para mostrar que vai fazer você enxergar tudo do avesso. Mas sim, eu quero mostrar-lhe.

— Está bem, Heather. — Mills moveu os ombros. — Eu ando muito

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cansada, cumprindo as exigências suas e de seu Anjo-vampiro. Esconder tudo que sei em um canto sombrio de meus pensamentos é esgotante. Não tenho forças para discutir com você, se há algo importante a mostrar-me, faça isso. O Anjo estendeu o braço em direção a Heather, oferecendo sua mão a ela. Era como as duas se conectariam para que Heather orbitasse com Mills, exatamente até onde ela desejava levá-la. Heather entendeu os motivos pelos quais Mills estava tão pouco radiante naquele momento; ela estava esgotada. Um Anjo cansado, um Anjo que vinha sofrendo com uma batalha interna que não lhe pertencia. Heather precisava acabar com aquilo, pois Mills tinha sido sua protetora por tantos séculos que seria justo tentar retribui-la de alguma forma. Tocou o Anjo e em segundos estavam ambas no salão da casa de Henry. A aparição causou espanto em Wesley e Stuart, que estavam sentados com ele em uma discussão nada ortodoxa. Debatiam acerca de táticas de guerra, como se estivessem preparando-se para uma batalha épica. Vampiros que teriam que lutar à distância e precisavam desenvolver uma forma de contribuírem na batalha, considerando o fato de não poderem ir até Esplendora. O dia constante da cidade dos Anjos os transformaria em cinzas. E havia ainda o feitiço que

impedia os seres das trevas de subirem até Esplendora. Era impossível, portanto deveria haver algo além de cuidar dos gêmeos que eles pudessem fazer. Mas a chegada repentina de Heather, com sua mentora angelical, espantou as ideias e fez com que os vampiros se assustassem. Apenas Henry, cujos reflexos eram mais apurados, manteve-se sentado onde estava. Wesley, o mais jovem, transformou-se com o susto, e colocou-se em posição de ataque. Heather olhou brevemente em volta, quando seu corpo já estava, cem por cento, materializado no meio da sala. Apenas os vampiros presentes.

— Céus, Heather! — Foi o escândalo de Stuart. — Precisa chegar fazendo

essa algazarra? — O vampiro loiro organizou-se novamente, aproximando-se de Wesley. O novato ainda parecia assustado e demorava mais do que deveria para retrair as presas. — Desculpe, eu lá ia saber que vocês eram assim tão sensíveis? — Ela implicou, torcendo os lábios. Mills também olhou em volta e reconheceu apenas vampiros.

— O que eu devo ver que ainda não tenha visto? — Mills questionou.

— Você está apressada demais para um ser eterno. — Heather fez uma

careta. Henry ergueu uma sobrancelha e aproximou-se.

— Mills? — Ele parecia custoso a crer. — Heather, onde você esteve?

— Em Esplendora. — Mills despejou a informação.

— Em Vanera. — Heather corrigiu. — Eu fui até a terra dos Elfos, não dos

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Anjos. E vocês dois, nada de conspirarem contra mim. Henry, eu precisava buscar Mills, afinal ela é nossa única aliada naquele lugar e eu tinha que mantê-

la segura; vai que Seraphiel decide fazer alguma coisa repentina, vai que eu não consigo bloqueá-lo e Heather disse tudo aquilo de uma vez, de forma quase ininteligível. Ela ainda não tinha concluído seu raciocínio turbulento quando o vampiro segurou- a com as duas mãos e encarou seus olhos pálidos.

— Acalme-se. — Henry puxou a mulher para si e abraçou-a, beijando seus

cabelos. Ela relaxou parcialmente, calando-se. — Sim, você fez a coisa certa.

Mills precisa saber de tudo, e devemos mantê-la por perto para poder protegê-la também.

— Proteger-me do que? — Mills já parecia impaciente. Sua luz escapava

do manto azul e clareava a sala sempre muito escura dos vampiros. Os cabelos esvoaçantes indicavam que ela estava agitada.

— Onde está minha mãe? — Heather perguntou, desejando que todos

estivessem ali para poupar-lhe o trabalho de explicar a Mills o que ela mesma não compreendia. Como se suas palavras fossem ordem e como se seu pensamento estivesse sendo vigiado, tão logo Heather mencionou Abdiel, um clarão azul materializou-se na sala. Não deu tempo de Henry dizer que não sabia, nem dos demais vampiros se prepararem para mais uma invasão mítica. Em segundos, Abdiel mostrou-se em forma mais do que definida, como se ela tivesse encontrado uma maneira de controlar a luz e fazê-la transformar-se em seu corpo. Heather já tinha visto a mãe daquela maneira, mas ainda surpreendia-se com a semelhança absurda entre todos os Anjos superiores.

— Viver com Anjos é sempre uma aventura. — Stuart implicou. — Bem, já

que a conversa acabou, vou sair para ver minha namorada. Por favor, não provoquem nenhuma nevasca, eu preciso me alimentar antes. Mills levou alguns instantes para compreender que a matéria azul que flutuava ao seu redor era Abdiel. Ela não acreditou que fosse verdade até o momento em que a mãe de Heather sorriu e apresentou-se pessoalmente. Abdiel não estava preparada para expor toda a verdade para sua melhor amiga,

mas não era possível discordar da atitude de Heather. O Anjo precisava saber, além de precisar de proteção. Proteção que apenas na Terra eles poderiam proporcionar-lhe.

— Saudações, Mills. — Abdiel ergueu a mão direita, a palma em direção a

ela. Faíscas azuladas emanavam de seus olhos. – Sou eu, Abdiel. Eu sou o que Heather queria mostrar-lhe. O Anjo Mills olhou para Heather, ainda incrédulo. Sua mão ergueu-se

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lentamente, quase que mecanicamente, em direção a Abdiel. A luz branca

mesclou-se com o brilho azul até que as duas palmas se tocaram. Mills encarou a própria mão por alguns instantes, tentando fazer parecer mais simples assimilar toda aquela informação.

— Abdiel. — Ela disse, finalmente. — Mas você

— Sim, estou. Mas eu sou imortal; não se mata um imortal, não é verdade?

— Isso é bastante confuso. Se você está viva, quero dizer

você está morta.

se

você é

qualquer coisa viva, por que não retornou a Esplendora? Por que não me contatou, por que não cuidou de sua própria filha? — Eu não pude. — Abdiel baixou o olhar. A luz estremeceu-se, embaçando a imagem do Anjo. — Eu cuidei de Heather apenas quando tive

condições de fazê-lo, em sua ascensão. E pretendo cuidar agora, assim que tudo isso terminar.

— Tudo isso o que?

Abdiel encarou a amiga e contou toda a história de sua vida e morte para Mills. Enquanto Heather ouvia tudo pela segunda vez, tentando admitir a verdade em tantas impropriedades, com Henry ao seu lado. Wesley ainda não tinha tanta paciência e optou por seguir Stuart, considerando que ninguém ali precisava da presença deles. Abdiel explicou os detalhes de seu relacionamento conturbado com Jophiel, da vingança tramada por Seraphiel, da mentira que ocasionou o banimento do gêmeo de cabelos escuros; da farsa montada com a ajuda de Bell, para uni-la a Fletcher e acusá-la de traição; do assassinato de inocentes. Não era uma tarefa simples, desmistificar toda a verdade que Mills conhecia. Toda a certeza que Mills tinha sobre a sua terra, seus governantes, o Conselho que respeitava. Quando Heather disse que transformaria a sua perspectiva, ela não mentiu. Mas aquela verdade era muito dolorosa; era mais

difícil acreditar que Seraphiel era o cruel idealizador do plano que colocou fim à trindade que governaria Esplendora.

— Inacreditável. — Mills conseguiu dizer, após alguns minutos em total

silêncio e abstração. Seu corpo materializado flutuava de um lado a outro; era fácil perceber o seu nervosismo.

— Eu disse que você teria uma grande surpresa. — Heather moveu os

ombros. Henry massageava suas costas, tentando livrá-la de uma tensão reflexa.

— Como pode, Abdiel? Como pode esconder de mim

Jophiel!

— Eu não podia condená-la a essa eterna mentira, Mills. — Abdiel sorriu

para a amiga. — Saber sobre mim e Jophiel significaria sentenciá-la ao segredo absoluto, a uma vida de esgotamento. Você nunca poderia deixar que o Onisciente soubesse. Como faria isso? Você sofreria, e eu não tinha esse direito.

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Você já me conheceu amarga, infeliz, sem ele em minha vida. Eu não podia revelar o segredo que jurei guardar.

— E por que precisei saber isso agora?

— Porque chegou a hora de acabar com o reinado de meu irmão em

Esplendora. A voz grave, rouca e musical de Jophiel ecoou pelo salão. O ruído das asas se encolhendo foi sentido pelos ouvidos sensíveis dos presentes, enquanto o Anjo Negro entrava pela porta da frente. Os olhos muito azuis e profundos de

Jophiel capturaram o semblante atônito de Mills, que por um instante arregalou os olhos e permitiu que seus lábios se entreabrissem.

Hm, eu adoro causar esse efeito nas mulheres. — O Anjo Negro

zombou, abrindo-se em um largo sorriso irônico. Henry não resistiu e deu uma

risada, precisando colocar a mão na boca para abafar o ruído. Heather franziu a sobrancelha, mas também achou graça.

— Não seja ridículo, Jophiel. — Abdiel torceu os lábios. — Cumprimente

Mills; ela cuidou de Heather, foi minha melhor amiga depois do seu banimento. Vocês ainda não se conhecem, pessoalmente.

— Saudações. — Jophiel, sempre com as asas retraídas, dobrou-se para

frente, na intenção de reverenciar Mills. Ela ainda estava atordoada com a imagem impressionante do Anjo Negro em sua frente mas estendeu o braço direito, virando a palma da mão para ele. Jophiel olhou primeiro para Abdiel,

querendo ter certeza se ele podia fazer aquilo. Desde muito tempo ele não agia como um Anjo e não sabia portar-se como um há séculos. Seu modo de vida era incompatível com a sua criação em Esplendora; suas atitudes estavam completamente modificadas. Com cuidado, levou sua mão até a de Mills. Não sentiu o mesmo choque absurdo do toque de Abdiel; Mills era apenas matéria e com aquilo ele poderia lidar.

— O que houve com você? – Mills teve que perguntar. Ela precisava de todas as respostas para as perguntas que nunca fez.

— Eu sou um Anjo caído. — Jophiel encarou-a nos olhos. — E você deve ter vindo para cá para lutar ao nosso lado.

— Ainda não falei nada sobre lutar para ela. — Heather deu uma

risadinha. — Lutar? Vocês pretendem enfrentar quem? — Mills ergueu uma sobrancelha, encarando Heather.

— Seraphiel. Bell. E quem mais for necessário. — Foi Abdiel quem

respondeu à pergunta. Um instante de silêncio se seguiu, até que um choro de criança foi ouvido no andar de cima.

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— Bem, no momento eu preciso enfrentar a fome dos meus filhos. —

Heather sorriu novamente. — Por favor, expliquem a Mills toda a conversa de confronto, batalha, retomada do poder, ou seja lá o que pretendem.

— Você precisa de ajuda? — Henry perguntou, já sabendo a resposta.

— Infelizmente não; o que farei agora está fora da sua competência. Mas

sim, vá me ver daqui a meia hora. Os dois trocaram um olhar cúmplice e Heather subiu lentamente as escadas, enquanto os meninos protestavam em alta voz. O grupo remanescente teria mais do que falar, e eles sabiam que Mills era a única aliada que eles teriam em Esplendora. Talvez os Elfos pudessem ficar do lado deles, e certamente o Mundo Inferior os apoiaria. Mas ninguém no Mundo Inferior

lutaria em Esplendora, e não havia certeza se Raunien entraria naquela disputa de poder com Seraphiel.

— Está bem. — Mills voltou a flutuar, demonstrando agitação mais uma

vez. — Vocês querem um confronto físico contra o Conselho de Esplendora? Isso me parece bastante insano; até mesmo para você, Abdiel.

— Não vamos confrontar o Conselho, nem fazer nada fisicamente. —

Abdiel considerou — Na verdade, pretendo que o Conselho também se torne nosso aliado. Principalmente, conto com a inteligência de Anael para compreender o que digo.

— Anael? Acha que o Conselho vai virar-se contra seu Anjo Supremo?

— Sim, se eles ouvirem a minha história. Se acreditarem no perigo que

Seraphiel representa. Mills, Esplendora deliberou por dias sobre Heather, simplesmente por ela ter ascendido. Eles se apegam a tolas profecias e crendices contadas pelos Bruxos. Os Anjos são tolos, isso deve ser usado a nosso favor. Esplendora não me teme, e nada que Seraphiel fez pode macular a minha imagem. Espero sinceramente que isso sirva para fazer com que deem créditos à minha história. Mills meneou a cabeça em desacordo. Ela não tinha tanta esperança que o Conselho fosse admitir o relacionamento entre Abdiel e Jophiel facilmente. Para ela, não era fácil. Sua reação tranquila ao saber da verdade por trás do banimento de Jophiel e da morte de Abdiel representava a sua capacidade em assimilar o estranho; principalmente após passar tanto tempo com Heather. Nada era mais estranho do que Heather, aquela que desafiava todas as probabilidades. Descobrir que a amiga, o Anjo mais poderoso de Esplendora, tinha um relacionamento amoroso com o Anjo mais temido de Esplendora, não parecia algo tão difícil de digerir. Mas o Conselho era diferente; os conselheiros eram céticos e bitolados. Eles tinham suas concepções baseadas em crendices e

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profecias; eles sempre acreditaram no que lhes foi dito, não naquilo que vivenciaram de verdade. E o Conselho tinha por hábito eliminar o problema antes que ele se tornasse um. Ainda mais porque Jophiel não podia pisar em Esplendora.

O Anjo Seraphiel percorria as ruas de Esplendora enquanto o sol pairava

imponente no céu. Nenhuma nuvem maculava o límpido azul que tingia a cidade. Era manhã, deveria ser manhã, mas todos os dias em Esplendora eram iguais. Não havia noite, não havia escuridão, não havia breu. O manto branco, com detalhes prateados, fazia com que Seraphiel fosse quase invisível. Seus cabelos eram tão claros que facilmente poderiam confundir-se com a prata reluzente dos botões da vestimenta. Lisos e longos, os fios moviam-se conforme o movimento do corpo de Seraphiel. A mão direita posicionada em seu queixo fazia perceber que ele estava pensativo, concentrado. Sua caminhada tinha um motivo específico, e ele estava incomodado ao perceber que não conseguia atingir seu objetivo. “Onde meteu-se aquele Anjo!”, era o questionamento que

voltava a si, o tempo todo. Não havia resposta, pois era por ela que ele buscava incessantemente. Nenhum rastro da presença de Mills em toda Esplendora, nenhum sinal de sua mente em lugar algum que ele vasculhasse. Restava-lhe Vanera. Ele não queria fazer aquilo, mas sabia que Bell lhe ordenaria imediatamente. Vanera era o lugar onde Mills poderia estar, por causa de Bellasiel. Mas Seraphiel prometera não quebrar novamente o pacto; ele não podia interferir em Vanera para saber. Porém precisava encontrar Mills, já que tinha a função de monitorá-la constantemente. Ela estava ligada a Heather e à profecia do Herdeiro. Qualquer mudança em seus pensamentos ou atitudes seria motivo para providências. “Eu preciso vasculhar a mente de todos em Vanera. Preciso saber onde está Mills e o que ela está fazendo.

— Seraphiel. — A voz suave de veludo retirou o Anjo Superior de seus

devaneios. Sua mente desconectou-se de Vanera e ele precisou virar-se para

encarar aquele que lhe interpelava. — O que faz tão longe do Salão? Pensei que estaria em deliberação, hoje. Os olhos faiscantes do Anjo Anael pareciam sinceramente confusos. Seraphiel raramente vagava por Esplendora.

Anjo Anael — Ele moveu-se em reverência. — Caminhando, pela

manhã?

Dirijo-me a Vanera. Preciso encontrar-me com o Anjo Mills.

— E você sabe que ela lá se encontra? — Seraphiel ergueu uma sobrancelha. O manto de Anael era cor-de-rosa, um tom suave e quase

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translúcido. Tratava-se de um Anjo bastante feminino, um dos que mais fazia recordar as fêmeas humanas. — Caro Seraphiel, posso não ter sua Onisciência, mas tenho olhos em todos os lugares. Os Anjos a viram com Bellasiel, mas suponho que, na verdade, ela esteja em outro lugar. Quero apenas confirmar com o Elfo. — Onde? — O Anjo Superior considerou que poderia obter a tão desejada informação pelos meios lícitos. Ele não precisaria quebrar o pacto nem infringir regras, era só Anael responder-lhe. — Na Terra, Seraphiel. — Anael deu uma risada. — Para o Anjo Onisciente, você tem bem pouco conhecimento sobre a personalidade de cada um. Mills certamente visita Heather vez ou outra. Até mesmo para garantir que tudo esteja sob controle. Claro que, se ela não está em Esplendora, está na Terra com sua protegida. Seraphiel manteve as sobrancelhas erguidas, enquanto conjecturava acerca do raciocínio de Anael. Talvez aquela qualidade pertencesse apenas às fêmeas, porque Bell também conseguia ter lógica emocional. Ele não. Não era simples para ele compreender o que os Anjos sentiam, como funcionavam suas emoções. Ele sabia o que acontecia, mas não compreendia tudo ao seu redor. Tentando não demonstrar suas frustrações por ter Mills na Terra, e mais ainda por não poder pressenti-la, ele concordou com Anael acerca da sua disfunção. Ele já sabia que Heather o bloqueava, porque não havia outra explicação para não poder pressenti-la. Nenhum Anjo fugia de sua onisciência; se ele não conseguia saber de Heather, era porque ela tinha a habilidade de bloqueá-lo. Aquilo significava que, se Mills estivesse com ela, também não poderia ser vista. Fazia sentido, então. Com Mills estando na Terra, não havia nada que o Anjo Supremo pudesse fazer. Ele deveria contar a Bell, mas não havia motivos para desconfiar de uma possível conspiração. Mills era um Anjo verdadeiro e tolo, ela jamais mentiria ao Conselho ou a qualquer outro ser de Esplendora. Ela sabia da profecia do Herdeiro, sabia sobre Henry, o vampiro improvável que ameaçava mais uma vez os planos dos superiores, mas Seraphiel duvidava que Mills pudesse usar aquela informação contra Esplendora. Não ela, que sempre defendeu a cidade e tudo relacionado a ela. Não havia nada com o que se preocupar, ele informaria a Bell. Tudo estava sob controle, sob perfeito controle.

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CAPÍTULO 2

Outras Verdades

A estalagem dos vampiros nunca estivera tão movimentada. Seres mitológicos diferentes convivendo sob o mesmo teto, com os mesmos objetivos. Alguns tinham objetivos mais claros do que outros, mas por fim todos desejavam apenas uma coisa: o fim de um suplício. Abdiel queria descansar, Jophiel precisava se redimir, Henry e Heather queriam paz. Os vampiros Wesley e Stuart queriam a vida que tinham de volta, apesar de saberem que jamais conseguiriam tal façanha. O Anjo Heather surgiu para mudar as suas concepções para sempre, e não havia como voltar atrás. Eles ainda tinham que conviver com a aparência de humanidade que precisavam ter, para sobreviver na Terra. O Black Box continuava em pleno funcionamento, com Kristen à frente sempre. Os vampiros precisavam revezar com ela a gerência, porque Heather não tinha muitas condições de ficar longas temporadas no coffee shop. Aquilo a deprimia um pouco, mas ela queria acreditar que seria só até as crianças crescerem e se tornarem menos dependentes. Mills não subiu imediatamente de volta para Esplendora. Ela precisava compreender algumas coisas antes de tomar qualquer atitude. Na verdade, ela não sabia mais se teria como retornar à terra dos Anjos com tanta informação nova. Ela temia sinceramente deixar alguma coisa escapar e temia que Seraphiel descobrisse. A preocupação de Mills cresceu com as novidades sobre o Anjo Supremo. Saber que ele era tudo aquilo – que era mau, cruel e um assassino – a deixou desamparada. Ela sabia que ele era um problema, mas ainda assim ele era o Anjo Supremo de Esplendora. Ela considerava que Bell fosse a razão de sua maior preocupação; jamais suspeitou que Seraphiel havia armado uma cilada para seu irmão, uma cilada para Abdiel e que ainda havia envolvido um Bruxo da mais alta grandeza, o grande e poderoso Fletcher, em sua emboscada. E saber que Fletcher e Abdiel foram assassinados por Seraphiel era abominável demais. Mesmo que ele não tenha sujado as próprias mãos, ele havia sido o mandante. O cérebro por trás daquela coisa terrível. Não era o momento de voltar para casa, Mills tinha certeza. Ela tinha que

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ficar ali, no reduto das bestas - que já não detestava tão veemente, pois ali era seguro. Ali era confortável. Porém ela não sabia quanto tempo aquilo levaria. O tempo em Esplendora contava-se de forma diferente da Terra. Bell e Seraphiel poderiam levar anos decidindo uma estratégia, bem como Abdiel e Jophiel. Eles eram Anjos, e os Anjos eram também eternos. Depois da ascensão, não havia mais preocupações com o envelhecimento ou com qualquer outra questão temporal. Apenas os Bruxos envelheciam, mas o envelhecimento era relacionado ao uso do poder. Quanto mais poder eles usavam, mais velhos ficavam. Ainda assim, levava-se tanto tempo para um Bruxo envelhecer que Mills tentou lembrar-se de quando viu um Bruxo muito velho e não conseguiu. Não havia qualquer previsão de que o confronto fosse acontecer logo, então havia tempo o suficiente para um plano bem elaborado - principalmente se Heather, na Terra, fosse capaz de proteger a todos da onisciência de Seraphiel. De qualquer forma, ainda havia muitos problemas a serem solucionados. Os vampiros não podiam subir a Esplendora, nem mesmo Henry. Apesar de ele

ser híbrido, o sol o mataria. A Terra dos Anjos era um lugar ensolarado. Heather poderia resolver aquele problema com um pouco de concentração – ou descontrole, mas ela precisava usar o seu poder para outros fins que não transformar Esplendora em noite. Lá ela não se sentia tão poderosa quanto na Terra. Lá, seria menos eficiente se precisasse manter o clima nublado para os vampiros, mais porque o nublado não era natural em Esplendora. Teria que lutar contra a natureza, contra forças que não sabia manipular. Qualquer descuido poderia custar a vida de Henry, algo que ela jamais poderia considerar arriscar. E os pesadelos não a deixavam em paz. Enquanto lutas, batalhas e outros termos bélicos ululavam em seu cérebro diariamente, ela tinha sonhos esquisitos atrás de sonhos esquisitos; os pesadelos com os quais já devia até mesmo estar acostumada. “Você desistiria de tudo por ele?” A voz ecoava no inconsciente de Heather. Ela se debatia, presa a uma cadeira de pedra. Havia fumaça, e o cheiro de enxofre era insuportável. Parecia-se tanto com a sua

ascensão que teve certeza que estava no Mundo Inferior. “Diga, Heather

você

morreria por ele? Você está pronta para fazer escolhas?” E ela não conseguia ver ninguém. Estava sempre tudo escuro e cheirando a esgoto. Seus olhos se afogavam em lágrimas, enquanto tentava soltar-se daquele cativeiro. O cheiro lhe causava náuseas, até que uma luz brilhante se fez notar. Com a visão turva, Heather não sabia quem estava ali. Ela só tinha certeza que não era um Anjo. “Heather, tem algo que você precisa saber.” “Quem está aqui?” Ela falava, mas a sua boca não se movia. Era como se o contato com aquela entidade brilhante

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fosse telepática. Eram entidades brilhantes demais para lidar, Heather sabia. “Você não pode se esquecer, Heather. Você é uma Feiticeira. Não se esqueça disso, Heather.

— Heather? — A voz de Henry em seus ouvidos a fez despertar

parcialmente. O hálito frio seguiu-se de um beijo suave em sua orelha. Um

calafrio percorreu seu corpo, mas ela sentia-se inapta a acordar totalmente. Um sorriso esticou seus lábios. — Amor, vamos, acorde. Os lábios de Henry beijaram a sua face, e desceram para o pescoço. Ela sentiu uma pontada de dor; a dor à qual já estava acostumada. Era uma mistura boa de sofrimento e prazer. Moveu-se na cama, virando-se de frente para ele. Sem abrir os olhos, deixou que seus lábios procurassem os dele. Era uma sensação que jamais queria perder, a de beijar Henry em uma manhã qualquer.

— O que houve? — Ela sabia que Henry jamais a acordaria se não fosse

algo importante.

— Você estava tendo um daqueles pesadelos. — Ele passou o dedo pelos

olhos da jovem, recolhendo algumas lágrimas que estavam ali. — Como está se sentindo?

— Bem. — Ela sentou-se na cama, olhando em volta. O quarto era o

mesmo de sempre. A cortina selada, impedindo a entrada de qualquer luz solar. As paredes claras, em tons pastéis. Os móveis de madeira escura e tão velhos que Heather sabia que estavam ali há pelo menos dois séculos. Nada de

cadeiras de pedra, cheiros desagradáveis, pessoas embaçadas. Era apenas o seu quarto. Henry a encarava com a expressão séria que sempre a fazia sorrir. Ele era sério, austero, comedido. Sempre pensava antes de fazer qualquer coisa e sua expressão era sempre calma e compenetrada. Havia um vinco entre suas sobrancelhas, demonstrando que ele esperava alguma reação da garota. — Eu tive uma revelação interessante, agora.

— Uma revelação, em um pesadelo? — Henry recostou-se na cama, e cruzou os braços. — Que tipo de tragédia será dessa vez?

— Nenhuma tragédia. — Ela o encarou novamente. Os olhos azuis

flamejavam. Heather estava tendo uma compreensão, algo que ela não tinha parado para pensar ainda. Algo que fazia tão parte dela quanto ser um Anjo de Esplendora. Algo que ignorou, e que lhe foi pedido para não mais ignorar. — Henry, você já se deu conta de que eu sou uma Bruxa? O vampiro franziu a testa, pensativo. Seus olhos perderam-se no vazio por alguns segundos, enquanto ele processava a informação trazida por Heather, e as suas possíveis implicações. Ela era uma Bruxa, ao menos era o que ela dizia. Nada faria mais sentindo, considerando a sua origem. Se ele, Henry, era um

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híbrido de humano e Anjo, e se ele estava naquela condição anormal de Anjo- vampiro, era óbvio que Heather tinha que ser algo mais além de um Anjo. Afinal, seu pai era um poderoso Feiticeiro.

— Você não é tecnicamente uma Bruxa. — Henry considerou. — Os

Bruxos fazem pactos ruins, estão do lado sombrio, pertencem tanto às trevas

quanto eu. Por isso eles são tão poderosos no Mundo Inferior. Você quer dizer que teria dons de magia, é isso? Que, além desse poder absurdo que você carrega por ser um Anjo, você ainda seria uma Feiticeira?

— Sim, isso aí que você disse. — Heather estava ansiosa. Sua testa estava úmida, resultado do sonho conturbado que acabava de ter.

— Eu não tinha pensado nisso.

— Nem eu! — A garota levantou-se. Seus pés estavam também ansiosos;

ela não conseguia impedir-se de andar em círculos pelo quarto. — Henry, nem eu! Eu não tinha parado para considerar que meu pai era Fletcher, este que tinha tanto poder quanto Bell! Eu acho que alguém veio ao meu pesadelo contar-me isso.

— Então foi isso? — Henry relaxou um pouco. O vinco desapareceu da sua

face, que se suavizou em instantes. Seus olhos negros estavam intensos,

brilhantes. — Você teve essa revelação durante o sonho; e você sabe o que isso significa, ao menos?

— Isso significa que eu posso aprender a combater Bell! Com magia, da

mesma forma que ela combateria qualquer um de nós. Os Anjos são muito poderosos, mas até que ponto? Um feitiço de Bell impede seu pai de ir a Esplendora até hoje, e nenhum Anjo conseguiu ultrapassar essa barreira mágica. Ou seja, não dá para nenhum Anjo competir com a magia de um Bruxo da grandeza de Bell. Mas eu — Não, Heather! — Henry colocou as duas mãos na cabeça, em desalento. — Você não está dizendo essa barbaridade; não está dizendo que vai tentar lutar contra Bell só porque acabou de descobrir que você deve poder fazer feitiços que você nem sabe quais são? Ela pulou por sobre a cama, atirando-se nos braços já receptivos de Henry. Ele a sustentou imediatamente, recebendo o beijo nervoso que lhe oferecia.

Antes que ela pudesse falar qualquer coisa o quarto se transformou em energia. A claridade era tanta que nem mesmo ela conseguiu abrir os olhos. Henry puxou as cobertas para cima dos dois, e em instantes os dois Anjos estavam materializados no quarto. Abdiel e Mills, uma luz e outra matéria, mas as duas com a mesma expressão de surpresa e pavor.

— Mas o que é isso?!? Duas, agora? — Heather protestou. — Será que

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vocês um dia vão entender que não se pode invadir o quarto de um casal pela manhã?

— Heather Jane, você está fora de seu juízo se pensa que vai enfrentar

Bell. — Abdiel disse. A sua energia estava dispersa, como se fosse um canal de televisão com a recepção ruim.

— Ah bom, eu deveria bloquear vocês também! O que tem demais em

enfrentar Bell, afinal? Aliás, cogitar enfrentar Bell, diga-se de passagem, é motivo suficiente para um levante em meu quarto?

— Ela é muito poderosa. — Mills considerou, com o dedo indicador tocando os lábios. Era uma expressão de pensamento.

— Sim, e daí? Se não podemos enfrentá-la, o que vamos fazer em

Esplendora afinal? Basta ela erguer o cajado e todos serão banidos da face da Terra. Vocês morrem de medo dela, eu não. E vocês estão muito enganadas, se acham que ela vai desistir de tudo só porque vocês têm uma história. Eu não

sabia como fazer para enfrentá-la, agora eu sei, graças ao homem que apareceu em meu sonho. — Você viu Fletcher? — Abdiel tentou manter os pensamentos organizados. — Ele falou com você, disse que você é uma Feiticeira?

— Não sei se era meu pai. — Heather pensou. Aconchegou-se nos braços firmes de Henry. — Mas alguém me disse isso, em meu sonho.

— E desde quando você acredita em sonhos? — Mills deu uma risada.

— Desde que eu sou um Anjo?

— Senhoras, será que poderíamos ter essa conversa durante o café da

manhã? — Henry disse, um sorriso avassalador nos lábios. Os três Anjos viraram-se para ele, como se a rouquidão suave de sua voz fosse um comando

irresistível. — Em algum lugar no qual estivéssemos todos trajando roupas?

— Sim, claro. — Mills virou a face em constrangimento. — Não era nossa

intenção, mas os pensamentos tão claros de Heather nos fizeram

— Está tudo bem, Mills. Mas Henry tem razão. Vamos nos vestir, verei se

os meninos estão precisando de alguma coisa e já conversamos sobre essa coisa de Feiticeira. Os dois Anjos Superiores deixaram o quarto de Henry e Heather, que se entreolharam e não conseguiram evitar uma risada. Henry virou-se rapidamente por sobre Heather, permitindo que seu corpo pressionasse o dela por sobre o colchão macio, e a beijou suavemente por alguns segundos. Ela rendeu-se, acreditando que eles precisariam de mais do que alguns minutos para descer, mas ele interrompeu-se e olhou para ela, sempre a expressão medida e recatada de Henry.

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— Então, você é mesmo uma coisinha assustadora. Vamos resolver logo

isso, para que você pare de ter ideias de feitiços e enfrentamentos, porque eu tenho coisas muito mais interessantes para você fazer hoje. — E, sem mais

palavras, Henry levantou-se para procurar algo para vestir. Ele não tinha muito que escolher; suas roupas eram todas muito parecidas. Calças de tecido, camisas de botão, sempre perfeitamente alinhado. — Heather, vamos! — Ele jogou por sobre ela uma camisa de malha, enquanto a garota tinha a face apoiada em nas mãos, os cotovelos na cama, e o observava com deleite.

— Eu sempre digo; pare de ser tão lindo quando temos algo importante a fazer. Eu me desconcentro facilmente.

— Sim, claro, e como pretende lutar contra uma Bruxa poderosa sendo

assim, tão desatenta? — Você não vai estar lá. — Heather pulou novamente da cama, e uniu-se a Henry na missão de vestir-se. Foram ao quarto de Richard e William, mas os dois não estavam em seus berços. Pelo horário, era bem possível que eles estivessem já acordados e com Stuart, provavelmente. Ele era a melhor babá que Heather poderia conseguir, pois ele realmente se preocupava com os meninos e era bastante cauteloso. Além de facilmente aceitar a sobrenaturalidade dos gêmeos. E ainda tinha Kristen, que estava sempre presente ajudando com os sobrinhos. Heather precisava mesmo desgarrar-se das crianças, não era saudável ser tão exageradamente protetora. O casal desceu as escadas e encontrou os dois Anjos aguardando

ansiosamente por eles. Jophiel foi chamado para intervir e ajudar Abdiel e Mills no processo de convencimento de Heather. Ele segurava William nos braços, de forma desajeitada. O menino tinha o olhar fixo no Anjo Negro, acompanhando seus movimentos nada calculados. Apesar da semelhança física impressionante, Jophiel e Henry não eram parecidos em suas atitudes. Talvez porque Jophiel desistiu de ser um cavalheiro há séculos, e porque Henry foi criado para ser assim e apenas assim sabia portar-se. Henry moveu os ombros ao perceber a reunião familiar, querendo dizer que não havia nada que ele pudesse fazer. Os dois dirigiram-se para a cozinha, porque Heather estava faminta e precisava comer. A ferida em seu pescoço não estava bem cicatrizada e o cheiro de sangue incomodou Wesley, que estava também na sala. Ele torceu o nariz; precisava aprender a controlar a ânsia ou teria que fugir toda vez que Henry se alimentasse de Heather.

— Então. Vamos debater sobre essa sua revelação, Heather? — O Anjo

Azul flutuava pela cozinha lacrada, enquanto a garota gastava algum tempo cheirando o chá em suas mãos.

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— Não sei por que vocês acreditam que vai haver debate. — A garota

bebeu um pouco e colocou um pãozinho na boca. Henry estava sentado em sua frente; ele sempre adorou admirá-la comer. Era sempre como na primeira

vez em que ele teve tempo de observá-la. — Eu não vou discutir isso, afinal eu tenho algum poder e pretendo usá-lo.

— Nós não vamos chegar a isso. — Abdiel ainda protestava. — Não quero

enfrentamento físico.

— No final das contas, com os Bruxos é sempre físico. — Jophiel disse.

Mills e Abdiel olharam para ele, em repreensão. Ele moveu os ombros e calou- se novamente. Não era prudente desautorizar Abdiel, ela sabia vingar-se de quem lhe causava aborrecimentos.

— Vejam bem, de uma vez por todas: eu fui avisada em um sonho que eu

não posso esquecer-me de que sou uma Feiticeira. Depois de descobrir quem eu sou de verdade, acho que não seria prudente ignorar um aviso desses. E Jophiel tem razão.

— Fletcher. — A energia de Abdiel estava falhando novamente. A ventania

do lado de fora sacudia as janelas sem piedade, demonstrando a força de sua

irritação. — Agora só me faltava essa, ele resolveu aparecer para colocar essas ideias na cabeça da Micah!

— Não sabemos se foi Fletcher. — Mills coçou o queixo. — Pode ter sido apenas o subconsciente de Heather.

— Seria coincidência demais!

— Será que apenas eu vejo algo bom em Heather ser uma Feiticeira? —

Jophiel abriu a boca novamente, já sabendo que seria repreendido. Henry olhou para ele com curiosidade, tentando compreender onde estaria a vantagem em Heather ter um poder que ela desconhecia a utilidade. Dificilmente ela teria tempo de aprender a usá-lo, era como Henry pensava. — Vamos, vocês duas não entendem? Não percebem o que isso quer dizer? Heather possui a Fonte!

— Anjos não têm a menor utilidade para essa Fonte, Jophiel! — Mills

franziu a sobrancelha. — São os Bruxos que Mills interrompeu sua fala. Imediatamente, fez-se um silêncio estarrecedor na estalagem. Até mesmo Heather parou de comer. Todos chegaram à mesma conclusão, ao mesmo tempo, após a frase não terminada de Mills. Os presentes se entreolharam, como se aquele raciocínio fosse tão absurdo quanto deveria ser. Em seguida, todos olharam para Heather, que parecia culpada de algum crime hediondo. — Heather é o único Anjo que pode manipular a Fonte. — Mills reformulou e completou a sua frase. — É por isso que Bell tem tanto pavor dela,

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e é por isso que ela não queria que Heather ascendesse. Eu pensava que ela

queria roubar a Fonte! Como eu fui tola, como eu me deixei enganar todo esse tempo! Eu nunca pensei em Heather como uma parte de Fletcher, eu nunca fiz essa relação.

— Talvez ela queira roubar a Fonte, nós não sabemos como isso funciona.

— Jophiel continuou. — Só Heather tem acesso a esse poder. Até hoje nunca

existiu um Anjo híbrido de Feiticeiro, então ninguém fazia ideia das razões pelas quais havia uma enorme fonte de poder dentro de criaturas que não podiam utilizá-la. — O que é essa Fonte, afinal? — Heather decidiu inquirir. Henry mantinha-se quieto, ouvindo.

— A Fonte é exatamente o que a palavra representa. — Mills, sempre

didática, decidiu tomar para si a responsabilidade de explicar. — Uma fonte de poder extremo, que alguns Anjos carregam. Na verdade, todos nós sabemos que

a Fonte existe e podemos senti-la. Quando eu toco em você, eu sei que você

possui a Fonte. Ela é genética; passa pelas gerações. Apenas um Anjo em cada

geração pode carregar a Fonte. Era esperado fosse Abdiel, e por isso ela seria Anjo Supremo de Esplendora. Mas não foi isso que aconteceu; por algum motivo a ordem foi quebrada. A Fonte está em você.

— Só que eu não sinto todo esse poder; vocês têm certeza que isso está em

mim? Você sentiu isso, mesmo?

— Senti. — Mills sorriu. Abdiel continuava girando pela cozinha, enquanto

Jophiel divertia William em seu colo. Richard estava com Stuart ainda; as

crianças já estavam alimentadas. — E você não sente, Heather, porque os Anjos não podem usar a Fonte. Não existe catalisador que nos permita manipulá-la.

— E é aí que entra a sua esquisitice. — Jophiel, sempre delicado. — Se

você é uma Feiticeira igual ao seu pai, você pode acessar a Fonte. Por uma

ironia dos deuses, quem carrega a grande Fonte de poder não pode utilizá-la. Já os Bruxos, eles detém todo o conhecimento para usar o poder, mas não o possuem. Anjos e Bruxos, idealizados como complementos. Você é as duas coisas; você é a coisa mais surpreendente que Esplendora jamais imaginou ver.

— Heather. — Henry manifestou-se. — Você acabou de descobrir que

pode ser uma Feiticeira. Agora eles te dizem que você carrega esse tal poder. Você, até pouco tempo, temia o poder. Não sabia o que ele poderia fazer. O que pretende, com essa tal Fonte? Você nunca fez um feitiço na vida, não acha que precisa pensar um pouco antes de tomar tantas decisões?

— Sim, eu certamente preciso. — Ela olhou para ele, os lábios torcidos. — Talvez seja apenas uma informação que eu não possa usar. Eu não tenho

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ninguém para me ensinar a ser uma Feiticeira, certo? Jophiel e Mills olharam para Abdiel. Ela parou no ar, e sua expressão

denotava um pensamento profundo. O Anjo Azul absorvia todas as informações da conversa e tentava situá-las nos contextos que dominava.

— Você pode usar o livro de Fletcher. — Ela por fim disse. O silêncio antes

estabelecido se rompia mais uma vez.

— Que livro? — Heather estava confusa.

— Seu pai tinha um livro de feitiços. Acho que todo Feiticeiro tem, trata-se

uma compilação de feitiços únicos. Você pode lê-lo, talvez ele tenha algum ensinamento. Ele é guardado por Malaquias, o Bruxo. — Foi Jophiel quem explanou, daquela vez.

— Como eu disse, somos dois condenados a limpar a bagunça de Abdiel e

Fletcher. — Mills resmungou. — Mas, como faremos para recuperar esse livro?

— Basta solicitá-lo. Malaquias aguarda o momento em que Heather vai procurá-lo.

— O Bruxo espera que isso aconteça? Quero dizer, ele previu isso?

Alguém previu isso?

— Fletcher certamente previu. — Jophiel considerou. — Vocês, seres da

Luz, vivem no mundinho ensolarado de Esplendora e não percebem as coisas que estão acontecendo. Aquele Bruxo engomadinho era genial, e o grimório que ele preparou certamente é o livro mais fascinante que existe. Aposto que Bell já tentou colocar as mãos imundas nele. Mas o livro está escondido com

Malaquias, por ordens de Fletcher, desde a sua morte. E ele sabia que Heather, um dia, o procuraria. — E você sabe disso tudo como, Jophiel? — Abdiel demonstrou curiosidade.

— Eu não vivo mais em Esplendora, meu amor. — Ele sorriu. — Eu não

pertenço mais à Luz. Os seres das trevas me respeitam; eu sou o Senhor do Submundo. Que tipo de chefe eu seria se não tivesse informantes? Os presentes se entreolharam, novamente. As mulheres não sabiam que Jophiel planejava aquele momento; que ele sabia que Heather teria aquela revelação e que incentivá-la a buscar a Fonte dentro de si era parte de seu combinado com Malaquias. Ele não entendia o que o conectava ao antigo servo de Fletcher; Jophiel não era muito afeito ao Bruxo que lhe sucedeu no coração de Abdiel. Mas, talvez, ter conhecimento que ele a amou; de que ele sempre fez de tudo para protegê-la, apesar de não ter obtido sucesso, o fazia uma pessoa menos insuportável. Terminaram o desjejum sabendo que, tão logo fosse possível, o livro de

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feitiços do maior Bruxo de Esplendora estaria naquela casa, e poderia ser usado por Heather para um confronto inusitado.

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CAPÍTULO 3

Sangue Impuro

Malaquias caminhava lentamente até a estalagem. O combinado era encontrar-se com a filha de Fletcher para entregar-lhe o livro. Os planos desenvolvidos com o Anjo Negro pareciam caminhar adequadamente, pois a garota desejava descobrir sua metade Bruxa. Malaquias sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela perceberia a sua real origem, mas ele não pretendia interferir. Havia sido instruído a não interferir e sabia bem o que era temido em Heather. Porém, Jophiel pressentia um perigo iminente e queria usar o Anjo híbrido para um combate mais justo. Era o que ele dizia, ao menos; que o combate seria mais justo se ele tivesse a opção de usá-la. Ele era um Anjo, apesar de seu banimento de Esplendora. Ele não tinha conhecimento do que o Poder representava; ele apenas sabia que a Fonte estava em Heather. Malaquias não, ele sabia o que estava por vir. Não era função do Bruxo, discutir com o Senhor do Submundo ou direcionar a vontade de Heather. Ela era um Anjo ascendido e tinha pleno controle de suas escolhas. Era ela quem decidia o que fazer da vida. Se ela pretendia abrir a caixa de pandora deixada por seu pai, e desencadear o doloroso treinamento pelo qual todo Bruxo obrigatoriamente passa, era uma opção que ela mesma deveria fazer. Heather estava sozinha, sentada por sobre o capô do Audi, quando Malaquias aproximou-se. Ela mesma não queria ninguém da hospedaria por

perto, preferia fazer aquilo sozinha. Por anos, ela fez tudo sozinha. Não havia ninguém que compreendesse sua esquisitice, e sua melhor companhia era o céu estrelado. De repente, ela viu-se cercada de seres que não a deixavam um só minuto em paz. Era revigorante, às vezes, meditar sem que ninguém estivesse por perto.

— Saudações, Micah. — O Bruxo disse, em um vocabulário bastante

angelical. Heather franziu o cenho, um pouco confusa.

— Eu não nasci em Esplendora, Bruxo. — Ela disse. — Não precisa me tratar como um deles.

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— Tens razão. – Ele sorriu, mas Heather não podia ver. Malaquias usava

sempre um manto preto, opaco, cuja extensão era um capuz que cobria toda a

sua cabeça, e face. Seus cabelos ralos e parcialmente grisalhos, que mostravam um dia terem sido ruivos, escapuliam pelo capuz; mas era tudo que ela podia ver, além da pele remosa da mão que segurava um objeto marrom. – Então, filha de Fletcher, cá estou. O Anjo Negro me informou que você solicitava o livro de seu pai. Ele está certo?

— Sim, está. — Ela desceu do capô e caminhou em direção a Malaquias,

percebendo que ele não sairia do meio das árvores. — Você pode emprestar- me?

— Não. — O Bruxo disse, e Heather parou sua caminhada, confusa. Mas

logo ela pode notar um sorriso sem luz que surgia debaixo do capuz preto. — Eu não vou te emprestar porque o livro é seu, Heather Jane. Seu pai me nomeou

guardião do grimório até que eu pudesse dá-lo a você. Ele pertence a você, já era mesmo hora de você requisitá-lo. Heather estendeu a mão para pegar o livro que Malaquias lhe oferecia. Era um objeto pesado, com uma capa de couro que de longe cheirava a coisa antiga, mofo e o que mais pudesse causar uma alergia nela. Havia um enorme signo dourado preso à capa, e as páginas tinham também um traço de dourado em cada uma. Ela olhou para o livro, a face rígida.

— Este é o livro que pode mudar minha vida? — Ela considerou, passando os dedos nas palavras incrustadas no couro.

— O livro sozinho não pode mudar muita coisa, Anjo. Mas é o começo de

algo muito significativo. Se tiver dúvidas, você pode perguntar ao meu Senhor

do Submundo. E ele não souber respondê-las, ele me chamará e virei orientá-la.

— Por que vocês fazem isso? — Ela estava genuinamente curiosa. — Por

que vocês cuidam de mim, das coisas de meus pais, de tudo isso?

— Porque é nossa missão; cuidar do livro foi o que seu pai me designou.

— A sua missão eu até entendo. Mas, e Jophiel? O que ele tem a ver com

isso?

— Creio que apenas ele saberá seus motivos. Pergunte a ele e quem sabe

obterá respostas. Mas você deve considerar, criança, que talvez não haja nenhum motivo oculto. São outros que escondem os segredos que maculam Esplendora. Malaquias fez uma reverência, intencionando afastar-se. Ela não sabia ainda o que fazer, talvez devesse ler o livro imediatamente. Segurou-o na frente dos olhos e o observou, enquanto o selo de bronze brilhava reluzente sob o sol fraco. Virou o livro de um lado para outro, pressionou os dedos no fecho, e não

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obteve nenhuma resposta do metal. Com a sobrancelha franzida, Heather suspeitou que se tratava de uma tranca bastante teimosa.

— Bruxo, uma coisa. — Heather disse, e Malaquias parou sua caminhada.

— Como eu abro esse livro? Ele não se move; o selo parece inquebrável.

— Ninguém sabe abri-lo, Heather Jane. Seu pai não deixou as instruções com ninguém; esperamos que você possa fazê-lo.

Era fim de tarde, e Heather retornava de sua antiga casa. A casa que ela teve como sua por vinte e cinco anos, onde cresceu e aprendeu a adorar as estrelas. Onde moravam os seus pais adotivos humanos, que ela só foi compreender por que eram tão diferentes dela mesma quando se descobriu um Anjo. Ela ainda podia frequentar a sua casa, enquanto seus pais não percebessem que ela teria vinte e cinco anos para sempre. Após a ascensão ela não envelheceria; ela não sentiria mais os efeitos do tempo. E ela não sabia se era possível contar aos pais adotivos o que ela era. Eles nunca lidaram bem com a sua condição cientista, com o fato de ela ser muito diferente de todos os demais jovens que eles conheciam. Heather não sabia se eles seriam capazes de assimilar que a filha deles era uma entidade sobrenatural. Ela não queria desaparecer da vida deles, mas ainda considerava se devia submetê-los àquela loucura. De volta, ela trazia William e Richard em um carrinho duplo. Kristen estava com ela, mas acabou ficando com o vampiro loiro, no Black Box. A amiga era sua grande companhia humana, principalmente em razão do seu encantamento pelo soturno Stuart. O que ela tinha visto naquele vampiro desbotado era um mistério. Mas Kristen estava cada dia mais apaixonada e passando mais tempo na estalagem. Além das crianças, Heather trazia consigo o livro empoeirado. Andava com ele para cima e para baixo e nada de assumir a coragem de que precisava lê-lo. Já fazia dias, e nada. Levar os filhos para passear, com sua melhor amiga e já conhecedora da rotina das bestas, era uma opção maravilhosa. Mas voltou para casa pensativa, um tanto confusa sobre o que fazer com aquelas novidades todas. Os bebês pareciam felizes, sem notarem a ansiedade que dominava a mãe desde que ela recebera, das mãos trêmulas e grudentas do Bruxo, o livro de capa de couro e fecho reluzente. Era uma peça de antiguidade, Heather pensou. Parecia saído diretamente de uma superprodução de Hollywood, e parecia mais antigo do que Henry. Ela não teve coragem de folheá-lo, sequer de tentar abrir a tranca brilhante. A pensão estava silenciosa, como desde que os Anjos atentaram para a real

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condição híbrida de Heather. O sol se punha no horizonte, tingindo todo o céu de Graceland de um rosado sangrento. Sinal de que todos estavam calmos. O salão parecia vazio, se não fosse pelo vampiro de cabelos negros e fartos que estava sentado em um sofá marrom, olhando concentradamente para um ponto

fixo à sua frente. Sua testa estava vincada e seus olhos negros pareciam penetrar uma barreira invisível. Sem camisa, Henry parecia tão lindo que Heather não conseguia entender como as pessoas podiam acreditar que ele fosse humano. Era impossível um ser humano tão absurdamente lindo. Ela tinha certeza que aquela característica não era de um vampiro comum; Stuart e Wesley eram perfeitos, mas não tanto quanto Henry. Havia algo nele que o aproximava inexoravelmente de Jophiel, e que o tornava mais especial do que ele se julgava.

— Sozinho? — Heather perguntou, percebendo que Henry não tinha

notado a sua chegada. Situação incomum, considerando que ele a percebia com facilidade. — Um pouco. — Ele respondeu, com alguma dificuldade em

desconcentrar-se do ponto que apenas ele conseguia ver. — Heather, o que você acha que eu sou? A jovem nada entendeu. Ergueu uma sobrancelha e olhou para Henry por alguns instantes, tentando captar a essência daquele questionamento.

— Como assim, o que você é? Você é um vampiro? Henry? Um homem? marido? — Ela arriscou algumas respostas possíveis. Respostas que

Meu

Henry poderia querer que ela tivesse. Mas nenhuma delas parecia acertada para

o momento.

— Não, refiro-me à minha condição. Você é um Anjo. Um Anjo e uma

Feiticeira; você é metade sua mãe e metade seu pai. — Ele continuava

concentrado. Heather percebeu que se tratava de algo sério, pois ele raramente agia daquela forma. Henry estava com os dedos da mão esquerda esticados, posicionados como que para pegar alguma coisa abstrata que flutuava, mas Heather não conseguia ver. Foi então que ela percebeu o que ele encarava com tanta firmeza; o sol. Um pequeno raio de sol que flutuava no ar, entrando por uma fresta na cortina mal fechada. — Você acha que, dadas essas condições, eu seria metade meu pai?

— Claro que sim. — Ela respondeu, apreensiva. Ele não parecia muito

Henry naquele instante. Nada coerente e nada lúcido; era como o via. — Só de

olhar para você dá para notar que deve ser mais do que metade seu pai. Tirando

a cor dos olhos, você é idêntico a ele, Henry Austin. Isso significa que

— Eu também sou um Anjo. — Ele a interrompeu, complementando a sua

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frase. Heather torceu os lábios, mas ainda não havia conseguido entender o que Henry pretendia. — Quero dizer, eu sou metade de um Anjo. E, se eu sou um Anjo, por que eu deveria temer o sol? Ele olhou para Heather pela primeira vez, então. Seus olhos tinham um negro sombrio e mais profundo do que de costume. Havia um brilho incomum em seu olhar. Sua pele lisa e intocada não demonstrava quaisquer marcas de fome. Sim, ele estava bem alimentado. Heather sentiu uma fisgada explicativa em seu pescoço mal cicatrizado. Mas seu semblante era tão sério e preocupado que Heather não conseguiu relaxar. Os gêmeos estavam já adormecidos, e ninguém mais parecia por perto para compartilhar aquele momento de insanidade temporária de Henry.

— Henry, o sol não mata vocês, vampiros?

— Sim, o sol mata vampiros. — Ele retornou os olhos para a faixa de luz

solar que penetrava da janela não selada da estalagem. Milhares de partículas de pó dançavam um balé descoordenado, embalados pelo ar pesado do salão. Sua mão fechou-se em forma de punho, a pressão tornando os nós dos dedos esbranquiçados. — Mas se eu não for apenas um vampiro, eu não serei morto por ele.

— Sim, parece uma linda teoria. E você pretende testá-la como?

Sem que Heather pudesse pensar na pergunta ridícula que havia feito, e sem que ela pudesse suspeitar que Henry tivesse alguma coisa como aquilo em mente, o vampiro moveu-se rapidamente, esticando os dedos e levando a mão até o sol poente. Sua mão foi inteiramente envolvida pela claridade amarelada do fim de dia. Heather arregalou os olhos e correu até o vampiro, tentando empurrá-lo para longe, sem sucesso. Ela jamais seria mais forte do que ele, apesar de muito mais poderosa. Henry a envolveu com o braço direito, amparando-a antes que ela caísse ao chão por causa do impacto dos dois corpos, sem mover a mão esquerda do lugar. Um sorriso largo brotou em seus lábios enquanto observava o efeito dos raios de sol em sua pele. A moça não se virou, temendo o que seus olhos veriam. Henry levantou-se e, com Heather em

seus braços, moveu-se em direção ao sol. Ela tentou protestar e impedi-lo, mas ele aproveitou-se do fato de ser muito mais forte e concluiu sua intenção.

— Você está ficando doido? — Ela esgoelou-se, tentando em vão livrar-se

dos braços do vampiro. — Henry, sai daí! — Heather, olhe para mim. — A voz suave ecoou em seus ouvidos, exatamente como naquela manhã. — Vamos, meu amor, olhe. Heather ergueu a cabeça e permitiu-se perder nos olhos de Henry. Não havia nada diferente nele, a não ser a pequena claridade que reluzia em seus

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cabelos de ébano. A luz percorria suas costas nuas até tocar o chão. Incólume,

ele parecia. E tão lindo, cada vez mais surreal. Sorrindo, Henry deixou Heather

e caminhou lentamente até as janelas. A jovem não conseguiu esboçar reação

daquela vez, apenas assistiu a tudo assombrada. O vampiro segurou as duas metades da cortina de veludo vinho com as mãos e puxou-a para os lados, abrindo uma enorme fenda. O sol já havia quase desaparecido no horizonte, mas acertou Henry em cheio, como se estivesse mirando somente ele. Heather desabou no sofá marrom, em um misto de desespero e impotência. Mas o esperado não aconteceu. Heather tinha lido bastante sobre vampiros para saber o que acontecia quando eles se expunham ao sol. Viravam cinzas. Vampiros velhos, como Henry, queimavam tão rapidamente que pareciam mais como combustível em uma fogueira. E o que ela viu não foi nada parecido com aquilo. Henry continuava de pé, olhando para o dia se esvaindo do lado de fora da pensão, os dois braços abertos, a cabeça meio tombada para trás. Heather olhou para ele por alguns instantes, mas ele não se moveu. A gritaria entre eles fez com que o outro vampiro da casa acordasse. Em instantes, Wesley estava no salão, paralisado por causa da condição de Henry. Ele não podia interferir, pois não queria virar poeira. Foi Heather quem tomou a iniciativa de ir até Henry checá-lo. Ela caminhou lentamente, pé ante pé, os músculos trêmulos que se contraíam involuntariamente. Seu coração havia pulado uma batida ou duas e ela estava com a boca seca, preenchida por um gosto ácido e desagradável que vinha da ebulição em seu estômago. Seus braços se estenderam em direção a Henry e suas mãos tocaram as suas costas. Frias, lisas, com aquela textura confusa a qual

ela já estava acostumada. Ao senti-la tão perto, o vampiro virou-se. Ele sorria, e seu sorriso era tão autêntico que esticava todos os músculos da sua face. A tensão no salão atraiu mais seres míticos, e pouco depois Abdiel, Mills e Jophiel chegavam. Os três Anjos receberam a visão de Henry sob os raios do sol poente com a mesma surpresa dos demais, mas não precisaram ficar impotentes. Mills foi quem teve a iniciativa de correr até a janela e fechar as cortinas, escurecendo tudo do lado de dentro da estalagem. Involuntariamente, Henry envolveu Heather em um abraço e beijou seus cabelos. Ela ainda tremia, mas tê-lo em seus braços a fez mais tranquila.

— O que raios está acontecendo aqui? — Wesley berrou. Ele respirou, e

seu organismo voltou a funcionar depois de algum tempo. A conexão entre ele

e Henry era muito forte; ver o criador expor-se ao sol foi chocante demais para ele. — O que você fez dessa vez?

— Heather, amor, olhe para mim. — Henry sussurrou em seus ouvidos,

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sem prestar atenção na criatura. A garota estava abraçada a ele com tanta força que ele podia sentir suas mãos travadas em suas costas.

— Eu não sei se quero.

— Eu estou bem. — Ele deu uma gargalhada, ante a reação dela. — Era

isso que eu precisava testar. — E ergueu a cabeça, encarando os presentes. — Eu finalmente me dei conta de que sou também um Anjo. Alguma diferença isso deveria fazer, não?

— Wesley bateu na testa com a mão espalmada, copiando o

gesto do loiríssimo vampiro Stuart. — Está todo mundo doido! Todo mundo completamente insano, e vocês acabaram contaminando Henry! Eu preciso ficar longe de vocês ou eu também vou pegar essa loucura!

— Henry, o sol não te feriu? — Mills aproximou-se e tocou os braços dele, procurando marcas que sugerissem que todos estavam alucinando. — Eu conjecturei a tarde toda, enquanto todos se ocupavam com suas

tarefas. — Ele disse, afastando Heather finalmente. — Se Heather é metade uma coisa e metade outra, e se suas metades convivem em harmonia em si, eu também deveria ser assim. Provavelmente não exatamente assim, já que eu estou morto. Mas mantive minha matéria em razão dessa maldição de vampiro.

— Isso seria improvável mesmo assim. — Mills torceu os lábios, encarando

o vampiro seminu. — Afinal, sua matéria está morta e funciona alimentada pelo sangue. Se o sangue pertence a humanos, não há qualquer influência em sua

parte angelical. E se é exatamente essa parte que queima sob o sol, a parte humana.

— Mas o sangue que o tem alimentado pertence geralmente a Heather. —

Wesley também raciocinou. O Anjo Mills balançou a cabeça negativamente, ainda protestando em silêncio sobre a troca de fluídos que ela tanto reprovava. — Desde que se conheceram, ele se alimenta muito dela; mais do que o tolerável. E Heather é um Anjo, não? Isso não deveria fazer alguma diferença? Os presentes ficaram silentes mais uma vez. Era o fim de tarde de um dia tranquilo, depois de tanto tumulto que a estalagem estava vivenciando. Depois que Heather descobriu algo que já deveria saber, e que podia mudar

definitivamente a história do confronto entre eles, Seraphiel e Bell. Já era demais uma revelação complexa para uma década; eles talvez não pudessem lidar com duas. Eram coisas tão óbvias, que eles deveriam ter compreendido antes mesmo de qualquer um. Heather era, também, uma Feiticeira. Henry era, também, um Anjo. Toda discussão acerca das profecias e dos mitos de Esplendora; toda preocupação exagerada com a ascensão de Heather; toda briga inútil para que

o Anjo fosse ou não fosse para casa; nada daquilo era relevante o suficiente e

— Céus

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tudo mascarava a verdade mais óbvia. Heather era o Anjo mais poderoso de

Esplendora, mesmo com Abdiel em gozo de seus poderes. E Henry, o que ele era realmente ainda estava para se descobrir.

— Isso faz diferença. — Jophiel aproximou-se do filho, que estava parado

no meio da sala, imóvel. — Você está incólume. Sente alguma coisa? Algo que

deva relatar? E eu pensando que já tinha feito de tudo nessa vida! Henry Austin, minha maior obra prima! Uma besta que possui genes angelicais! Fantástico!

— Sinto apenas uma pequena ardência na pele. — Henry mostrou os

braços, levemente irritados e avermelhados. — Mas não parece nada demais.

Então, pai. Quer dizer você que minha habilidade com o sol agora foi toda causada por Heather? Pelo sangue dela que corre em mim?

— Creio que parcialmente. Sua matéria podre se decomporia sob o sol,

então você precisa de algo que reaviva em você a sua verdadeira origem. Você

alimentou-se dela hoje, não foi? — Jophiel sorriu, olhando para o pescoço ainda ferido do Anjo. Ela levou uma das mãos até o ferimento, como que desejando escondê-lo. Aquela marca era pessoal; era privada, não deveria ser vista por outros. Mesmo sendo tão difícil de esconder. Henry acenou com a cabeça, demonstrando que dizia “sim” à pergunta de Jophiel. — Então, é muito provável que seja o sangue dela que te permita sair ao sol, Henry Austin. Heather é um Anjo Superior muito, muito poderoso, e suas habilidades são surpreendentes. O sangue de qualquer um de nós poderia dar a você essa capacidade, principalmente o dela. Mas como somos venenosos para os vampiros, eles não podem fazer isso. Apenas você.

— Vocês são únicos em suas espécies. — Abdiel sorriu, e a luz azul

emanava dela com força. — Nunca houve um Anjo que pudesse manipular a Fonte, como nunca houve um ser das trevas imune aos Anjos. Todos ficaram em silêncio mais alguns instantes. Era bem provável que não fossem mesmo capazes de lidar com duas revelações tão importantes em tão pouco tempo. Eles precisavam digerir toda a informação que tinham acabado de adquirir. Os vampiros decidiram aproveitar o fim de tarde para dormir, e os Anjos decidiram organizar novas estratégias. Heather tinha um enorme livro empoeirado e de cheiro desagradável para ler e entender, enquanto Henry precisava assimilar o fato de que o sangue da mulher que ele amava não era apenas uma fonte de alimento, mas também uma fonte de poder.

Henry entrou no quarto do casal sobrenatural pouco depois de deixar Richard no quarto. O bebê dormia silenciosamente, como deveria ser. William estava agitado, e quem embalava o pequeno Anjo era Mills. Ela não sabia como

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sentir-se sobre o fato de que Heather repetia a história de Lailah e Gabriel, os pais de Seraphiel. Deveria haver alguma razão para que novamente Esplendora tivesse Anjos gêmeos. Aquela condição era tão rara, e Mills duvidava que pudesse ser genética. Havia uma razão, ela sabia. Precisava descobrir qual, mas ela tinha certeza que algo ainda não estava plenamente esclarecido sobre o nascimento dos gêmeos de Heather. Ela havia se mantido afastada de toda a realidade complexa daqueles dois meninos, mas estava ali, na Terra, com eles,

e não pode deixar de sentir-se enternecida. Eram lindos, os filhos de Heather.

Talvez tão lindos quanto os gêmeos originais, talvez mais. E ela não conseguiu resistir a eles. Principalmente ao sempre alerta William, que carregava inegavelmente os genes de seu pai.

O vampiro encontrou Heather sentada na cama, com o livro de Fletcher

fechado em sua frente, os lábios torcidos. Olhava para o enorme grimório e seus dedos tocavam o selo que o fechava, mas ele sabia que ela ainda não tinha lido uma página sequer. Ela estava há horas com o livro nas mãos, sem ter coragem

o suficiente para manuseá-lo.

— O livro não vai morder você, Heather. — Ele implicou, sorridente.

Sentou-se à cama, ao lado dela, e olhou-a. Heather não tirava os olhos do livro, como se estivesse hipnotizada por ele.

— Ele está enfeitiçado. — A garota disse, depois de alguns muitos minutos

em silêncio completo.

— Você não consegue abrir?

Só eu consigo abrir. — Ela virou-se para Henry, seus olhos capturando o

semblante tranquilo do vampiro. Seus lábios instintivamente se partiram em um sorriso simples, mas ela estava apreensiva. — Meu pai lacrou o livro com magia, e a única pessoa capaz de abrir esse livro sou eu.

— Como você sabe?

— Malaquias me disse que ninguém nunca soube como abri-lo. E, bem,

está escrito aqui. — Heather apontou para a capa de couro. Seus dedos tocaram nada além de couro, e Henry nada viu. Ele franziu o cenho, sabendo que

Heather precisaria explicar-lhe o que deveria estar ali. Ele pretendia deixá-la falar, porque lidar com a história dela era mais simples do que com a sua própria.

— Eu não vejo nada, meu amor. — Disse, beijando sua bochecha. — Para mim, há apenas uma capa de couro marrom, cheirando a mofo.

— Como assim, não vê nada? — Heather ergueu as sobrancelhas e virou-

se para Henry, segurando o livro na altura do peito. Era um objeto grande e pesado, cheio de poeira, mas ela tinha optado por levá-lo para a cama assim

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mesmo. — Você não consegue ler o que está escrito aqui? — Ela novamente

apontou o mesmo lugar, seus dedos encardidos. Henry torceu os lábios e pegou o livro nas mãos, aproximando-o da face. Seus olhos atentos e perspicazes vasculharam toda a extensão da capa, mas nada havia ali para ser lido. Nem por olhos de vampiro, menos ainda por olhos de Anjo.

— Não vejo nada. — Ele tinha a expressão séria. — O que está escrito?

— “Micah, esse é seu grimório. Para abri-lo, repita o que escrevi abaixo.

— Heather disse, olhando fixamente para o livro. – Acho que meu pai escrevia mal, está difícil ler essas tais palavras mágicas.

— É fascinante. — Henry sorriu. — Acho que seu pai não queria que ninguém mais lesse essas palavras.

— Por que pensa isso?

— Porque ele escreveu apenas para você, Heather. — Henry beijou-a

novamente. — Só você consegue ler; eu não acredito que esteja com problema

de vista. Mas isso é bom, significa que este livro não cairá nas mãos erradas. Pretende abri-lo agora?

— Primeiro quero discutir o que você fez hoje. — Ela colocou o livro por

sobre a mesa de cabeceira e virou-se completamente para Henry, olhando-o com alguma ferocidade. Heather estava profundamente irritada com o fato de ter chegado em casa e ter visto Henry atirando-se ao sol, testando sua capacidade de enfrentar o astro rei. — Você poderia ter-se matado, Henry Austin! — Ela protestou, batendo com um punho cerrado no peito do vampiro, coberto por uma camiseta de malha fina. Depois segurou seu braço com as

mãos e olhou a parte interna do antebraço, que tinha algumas marcas. — Você ainda está todo vermelho, veja!

— Heather. — Henry respirou fundo. — Eu sabia que nada aconteceria.

— Como sabia!? Você ficou louco, Wesley está certo.

— Eu tinha quase certeza. — Ele soltou-se e abraçou-a com força. — E eu

não sei se quero discutir isso, é uma habilidade que não me pertence. Eu só a tenho por sua causa. Mas ela poderá ser extremamente útil em batalha, e eu precisava testá-la.

— Útil? — Heather afastou-se. — Henry Austin, você está pensando em que, em lutar? — Em subir a Esplendora. Eu sou o elemento surpresa, meu amor.

Ninguém espera que um vampiro como eu possa tomar parte nesse confronto, então eu serei uma ótima arma secreta.

— E você acha que vou deixar você se arriscar assim? — Heather sentiu

mais irritação lhe percorrer o corpo. As árvores do quintal farfalhavam ao som

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do vento que as atingia com violência. — Somos fortes o suficiente para

enfrentar Bell sem você, não vou permitir que vá até o lugar mais ensolarado de todos os mundos sem necessidade.

— Não vai permitir? — Ele deu uma risada. — Heather Jane, você é

mesmo linda. — Ele beijou-a nos lábios. — Infelizmente preciso da sua

aprovação para isso. Sem seu sangue eu não posso participar do enfrentamento, e eu jamais tomaria seu sangue à força. Se você acha que eu devo ficar de fora da diversão, então serei obrigado a condescender com sua vontade.

— Eu não quero que você sofra. — Ela recostou-se em seu peito,

respirando devagar. Tentava controlar o fluxo de energia em si, para amenizar o clima. — Eu não quero que você se arrisque. Eu não quero lidar outra vez com você ferido, e se você não suportar Esplendora o elemento surpresa será um desastre. Não sou boa estrategista; eu sou uma cientista. Mas sei que não vou sacrificar você em nome dessa discussão ridícula com uma Bruxa.

— Mas você pretende enfrentá-la usando os feitiços de um livro que só

você lê, e que sequer tem coragem de abrir. Acha mesmo que não precisa de mim? Heather ergueu o olhar e encontrou-se novamente no mar tormentoso dos olhos fluidos de Henry. Ele tinha o semblante cansado, os olhos circulados por olheiras imensas, os cabelos despenteados. Ele respirava com alguma

dificuldade, e ela quase não podia ouvir seu coração bater. Era como se batesse tão devagar que se tornasse imperceptível. Seus dedos tocaram as bochechas dele e circularam seus olhos. Ela o tocava como se ele pudesse quebrar-se, como se toda a força que Henry tivesse não fosse suficiente para fazê-la acreditar que ele estava seguro. Com tantos acontecimentos e com tantas preocupações, Heather percebeu que fazia tempo que não olhava daquela forma para ele. Eles se adoravam, se amavam, passavam praticamente todo o tempo juntos, mas ela não prestava atenção nele há algum tempo.

— Você já está com fome. — Ela constatou. — Mas você estava bem, logo

mais cedo. Isso quer dizer que o sol enfraquece você. Depois de tanto tempo amando um vampiro, Henry, eu aprendi a observar as suas reações. Você teve uma experiência de sucesso, mas você pode morrer. Está fora do seu controle.

Eu, pelo contrário, tenho pleno controle do que vou fazer. Você sabe, não sabe? Que eu compreendo totalmente os meus poderes, agora? Eu só não sei manipular essa tal Fonte, mas isso é um detalhe que tenho certeza que será explicado no livro de meu pai.

— Então, minha missão continuará sendo cuidar de Richard e William? — Ele também acariciou sua face.

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— Uma missão digna, eu acredito.

— Sim, digna. — Henry moveu-se na cama, afastando-se de Heather. —

Agora vou-me. Os rapazes vão caçar alguma coisa, e, como você percebeu, devo me alimentar. — Heather fez uma careta, batendo as duas mãos no colchão. — Não seja teimosa e difícil, meu amor. Sangue humano, eu preciso. Você não pode me alimentar toda noite; se você entende tanto assim sobre vampiros, sabe disso também. E acredito que já tenhamos passado dessa fase. Você sabe que todas essas pessoas são apenas o jantar, e nada mais. Ele beijou sua testa e deixou o quarto. Ela o observou sair, o corpo movendo-se lentamente pelo espaço, as calças cinza de tecido grosso, ornadas por pequenas riscas brancas, os sapatos pretos envernizados e cuidadosamente amarrados por um laço bem feito. Henry era tão elegante que Heather custou acreditar que ele poderia alimentar-se daquela forma. A camiseta de malha fina era a única indicação de que ele não vestiria a tradicional camisa branca de botões naquela noite. Seria esperar demais, que um vampiro pudesse ter uma boa refeição trajando branco. Involuntariamente, seus lábios se partiram em um largo sorriso e ela considerou as suas prioridades. Heather tinha que desvendar os segredos de seu poder de Feiticeira, o poder que Fletcher lhe tinha deixado como herança. E aprender a manipular a Fonte, aquilo que Bell desejava e que poderia ser a ruína de todos. Apenas lidando com aquele poder absurdo ela poderia conseguir poupar os que amava. Era o momento de deixar as considerações de lado e agir, tomar para si o seu destino.

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CAPÍTULO 4

Em Nome do Pai

Stuart olhava para o teto encardido, enquanto a lâmpada fluorescente fraca, já bastante opaca, iluminava precariamente o ambiente. Ela balançava de um lado para o outro, pendurada por um fio grosso e ensebado. Seus olhos transparentes estavam fixos no movimento da luz, que ele deixava ligada apesar do cansaço que ela lhe causava. Seu diafragma subiu e desceu, movendo-se no ritmo da sua respiração regular. Uma respiração lenta, suave e quase imperceptível para os mortais. Seus dedos se enrolavam nos cachos escuros dos cabelos de Kristen, que, adormecida por sobre seu peito, enviava uma onda de calor para dentro dele. Ele precisava contar a ela. Não sabia quanto tempo eles teriam para ficar juntos. E não acreditava que fosse sobreviver ao confrontamento que era planejado em seu covil. Na verdade, Stuart tinha certeza que alguma coisa muito ruim ia acontecer, e talvez aquele fosse uma espécie de sexto sentido que Anjos possuíam. Ele era um Anjo, afinal. Um Anjo-vampiro que talvez tivesse a habilidade de andar ao sol, como seu amigo Henry, mas que jamais poderia fazê-lo porque não beberia o sangue de Heather. Talvez nem para salvar sua vida.

— O que você está pensando? — Kristen despertou e ergueu o olhar,

percebendo o semblante preocupado do vampiro. — Que eu preciso parar de trazer você a lugares como esse. — Ele franziu as sobrancelhas, vendo seu reflexo no espelho que cobria toda a parede, à sua frente. Podia ver tudo, era verdade. Ver-se deitado naquela cama pouco

confortável, enrolado em um lençol azul de algodão; Kristen meio por sobre si, meio coberta com o mesmo lençol; as suas pernas entrelaçadas. Mas não era naquilo que ele estava pensando, era também verdade.

— O que tem de mais? — Ela arrastou-se mais para cima e apoiou seus

cotovelos no peito dele. — Eu gosto de lugares como esse, desde que você esteja comigo. – Seus dedos delinearam os traços firmes e muito claros do corpo de Stuart. – A luz está incomodando você? Podemos apagá-la, não tem

Tatiana Mareto Silva / O PODER / 38

problema nenhum.

— Está tudo bem, Kristen. — Ele segurou-a com as duas mãos e a beijou.

— Mas eu preciso lhe contar uma coisa. Um segredo, na verdade. E você precisa me ouvir com atenção. Você pode fazer isso? A jovem assentiu em silêncio. Stuart era uma pessoa solene e comumente ele empregava um tom formal às conversas. Mas alguma coisa em seus olhos

azuis deu a Kristen a medida exata da importância daquilo que ele pretendia contar.

— Você sabe que eu sou uma besta. Eu não sei como você aceita isso tão

bem, porque a maioria dos humanos que já conheci teria saído correndo na primeira oportunidade. Mas eu não sou uma besta comum, eu faço parte do show de horrores que é a família de Henry.

— Não entendi. — Ela torceu os lábios.

— Eu era um Anjo, há muito tempo atrás. O pai de Henry, aquele Anjo de

asas, me transformou nisso que eu sou, para que eu cuidasse do filho dele. Para que eu lhe fizesse companhia durante a eternidade.

— Fala sério! — Kristen ergueu-se, os olhos arregalados. Stuart acomodou-

se na cama, sentando e recostando-se na cabeceira. A garota o encarava, surpresa. — Você concordou em virar um vampiro só para cuidar de Henry?

— Eu não tive escolha. — O vampiro relembrou Jophiel lhe contando a

macabra história, e resumiu-a para Kristen. Ela prestava bastante atenção, para não perder-se na explicação. — Mas, o que eu pretendo dizer é que, por algum motivo, eu me sinto ligado a essa missão. À missão de proteger Henry e de proteger Richard e William. Antes, eu pensei que fazia isso porque Jophiel prometeu-me recuperar minha memória, mas agora sei que faço isso porque sou compelido a fazê-lo. Eu não sei explicar, parece que é parte de minha natureza. —Você é uma boa pessoa, Stu. — Kristen aproximou-se e recostou-se em seu peito, novamente. A imagem dos dois no espelho embaçado do motel

barato que ficava na estrada, em direção a Point Hill, refletia a luz fluorescente. — É por isso que você se importa com eles. Mas tem algo além disso, não tem? Algo que você precisa me contar que não é o fato de ser mais esquisito do que eu já achava você. Stuart deu uma risada. Um dos motivos que o fazia gostar tanto de Kristen era exatamente aquele, ela era natural e o fazia rir. Era uma humana divertida, que o ajudou a quebrar o paradigma 'humano é alimento'.

— Sim, tem. – Ele a beijou. — Nós vamos entrar em guerra.

— O que? — Kristen sobressaltou-se. — Como assim guerra; vocês vão se alistar em um exército?

Tatiana Mareto Silva / O PODER / 39

— Henry e Heather têm uma história esquisita. Tem essa cidade dos Anjos,

Esplendora, e os governantes que mataram a mãe e o pai de Heather. Quando

eles descobrirem sobre os gêmeos, eles não vão aceitá-los. Foi o que disseram, que eles precisarão entrar em confronto.

— Isso é muito louco. Quero dizer, eu pensei que vocês iam ter uma

conversa com eles. Como sentar em uma mesa redonda e conciliar.

— Pelo visto, não há conciliação com os Bruxos.

— E, porque vocês supõem que seja impossível conciliar, vocês já vão

preparados para brigar? Como essa guerra vai ser? Aqui, na Terra? Ou nesse planeta? —Esplendora é uma estrela. — Stuart consertou. — E o confronto será lá. Eu não poderia ir, porque lá é sempre dia. Mas ficar aqui não significa

imunidade, porque os gêmeos ficarão sob a nossa guarda. Qualquer coisa pode acontecer, Kristen. E, se acontecer, eu quero que você saiba que

— Não. — Ela levou o dedo indicador direito até os lábios de Stuart e o fez

calar-se. Ele enrijeceu a expressão, encarando-a com dúvida. — Eu nem quero pensar nisso, está bem? Nada vai acontecer.

— Mas, se acontecer, — ele liberou os lábios. — eu quero que você

permita que Wesley a enfeitice.

— Como assim?

— Nós temos a habilidade de compelir vocês. Os humanos são totalmente

suscetíveis a nós; nós enfeitiçamos vocês e vocês só lembram o que queremos, só fazem o que mandamos.

— Credo! — Kristen afastou-se novamente. Ela sentiu indignação imediata ao ouvi-lo dizer aquilo. — E você já fez isso comigo?

— Sim, uma vez. — Stuart torceu os lábios. — Mas foi necessário, você

sabe. Porém, agora, eu estou falando sério. Se algo acontecer comigo, Kristen, permita que Wesley enfeitice você. Você não se recordará de mim ou de nada antes de mim, e não precisará

— De novo, não. — Ela o interrompeu mais uma vez. — Eu prefiro sofrer

por perder você a nunca ter você, Stu. — Ela sorriu e o beijou, suavemente. — Mas eu não quero pensar nisso, já disse. Você está pagando esse lugar por hora, vai querer gastá-las conversando comigo?

O cenário era o mesmo, sempre. Paredes de pedra bruta, com lodo incrustado, muito úmidas, cercavam um chão de águas fétidas e mornas. Parecia-se com aquelas em que Heather imergiu durante sua ascensão, e eram; realmente. Quase não havia luz, e o ruído de água pingando incomodava os

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ouvidos menos tolerantes. Heather estava ali, parada, de pé, observando o lugar como se ela fosse uma espectadora. Ela não fazia parte do evento, daquela vez. Não havia ninguém falando com ela, nem prestando atenção nela. As personagens do sonho estavam muito ocupadas com suas tarefas para notá-la. Não havia um juiz ou um tribunal, nem choro ou pessoas gritando. Havia um silêncio sombrio, e todos olhavam para o chão. “Você escolheria a vida dele?” Uma voz grave e cruel ecoou, mas Heather não conseguia saber de quem era. “Diga, você escolheria morrer por ele?” Mesmo sem conhecer aquela voz, Heather tentou descobrir com quem ela falava. Quem teria que escolher. Em todos os seus pesadelos, era sempre ela o alvo da voz mordaz e a escolha era sua. A voz falava diretamente com ela, antes. O juiz de cabelos loiros e olhos azuis, que a colocava em posição de decidir quem viveria e quem morreria. O juiz que se parecia muito com alguém que ela não conseguia distinguir. E então Heather sentiu a luz lhe tocar a pele, e seus olhos buscaram a sua fonte instintivamente. A imagem reluzente do Anjo de aspecto azulado olhava para baixo, os cabelos pálidos como a palha encobrindo-lhe a face. Os lábios de Heather abriram-se em uma surpresa agonizante ao perceber o Anjo Abdiel, que parecia sofrer como em um corredor da morte. “Você não tem mais tempo, Abdiel.” A voz repetiu-se. Não era possível descobrir quem falava, mas Heather já pressentia que tipo de escolha ela deveria fazer naquele momento. “Você daria a sua vida por ele?” “Sim.” O Anjo Abdiel ergueu a cabeça, os olhos faiscando. A luz azul emanava de seu corpo com bastante intensidade, e ela parecia determinada. “Faça comigo o que quiser. Mas deixe-o viver.” Os olhos do Anjo dirigiram-se para o lado, e Heather então pode ver uma figura muito pálida, vestindo apenas uma calça preta rasgada, o corpo, branco como cera, exposto, os cabelos negros e ondulados. Seus olhos se arregalaram, mas aquele não era Henry. A cor da pele estava errada, apesar da semelhança impressionante. A figura estava ao chão, desfalecida, como se estivesse morta. “Eu te amo, Jophiel.” Foram as últimas palavras ouvidas por Heather. Um estrondo ressoou pelo espaço fechado, e as paredes de pedra estremeceram. Uma luz avermelhada cortou a escuridão do lugar e ela não conseguiu ver nada, até que o clarão cessasse. O Anjo Abdiel, caído e envolvido em uma fraca luminosidade azul, foi tudo que sobrou do cenário. Nem mesmo o cheiro de esgoto tinha permanecido; tudo desapareceu da mesma forma que apareceu; em um piscar de olhos. A agonia tomou conta de Heather enquanto ela se aproximava do corpo de sua mãe, já sem vida, jogado ao chão.

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— Não! — Foi o grito que ressoou da garganta de Heather. A garota acordou suando e tremendo, como se uma descarga de adrenalina tivesse percorrido seu corpo. Seu coração batia rapidamente, fora de ritmo. Ela olhou em volta, e estava de volta em seu quarto. Sua cama, o cheiro do perfume de Henry que sempre ficava no ar depois que ele saía. Soprava uma brisa suave vinda do quintal e a claridade do dia parecia esvair-se aos poucos. Um som suave e infantil tirou Heather do modo de observação, fazendo-a virar para o lado. O pequeno William estava deitado ao seu lado, protegido por travesseiros e almofadas. Ela respirou mais lentamente, e levou sua mão para acariciar os cabelos negros e fartos do filho. Seus olhos azuis estavam sérios, mas ele movia os bracinhos em direção à mãe. Fazia algum tempo que William demandava dormir próximo a ela. Richard parecia mais independente, mas o gêmeo mais jovem era diferente. Passaram-se seis meses desde que Heather e Henry receberam a visita de Abdiel e Jophiel, e depois que a decisão de tomar Esplendora foi tomada. Seis meses desde que Heather descobriu-se uma Feiticeira, e seis meses desde que ela encontrou o grimório que Fletcher havia escrito para ela, somente. Seis meses desde que Henry descobriu-se um Anjo, e todas as potencialidades que aquilo poderia representar. O tempo na Terra passava velozmente, mas não o suficiente para seres eternos. Seis meses não era tempo algum para seres de mais de sete séculos de vida, como Abdiel e Jophiel. Não eram nada para Esplendora e seu Conselho, que ignorava as intenções de Bell e Seraphiel. Não eram nem seis dias, para quem tinha uma vida para organizar uma guerra. Era tempo apenas para os gêmeos crescerem, tornarem-se pessoas, evoluírem. Durante todo aquele tempo, Graceland entrou em um estado de hibernação. Nada mudava; nada novo acontecia. A rotina era a mesma, enfadonha e abençoada. O revezamento na cafeteria, que rendia um bom dinheiro honesto, o envolvimento natural com a família humana de Heather, alguns passeios com os amigos. Heather e Henry eram, aos olhos de uma pequena cidade, um casal normal que criava dois filhos saudáveis e lindos. Wesley continuava mais recluso, divertindo-se com a tarefa de ajudar com o Black Box. Stuart tinha Kristen, e o relacionamento deles ia muito bem, o que mantinha o Anjo próximo da amiga, sempre. Os vampiros continuavam a alimentar-se de sangue humano, tendo o cuidado de buscar presas em cidades diversas para não serem descobertos. Heather não pretendia implicar com a dieta de Henry; ele deveria fazer o que fosse necessário para manter-se forte. E continuava a fornecer seu próprio sangue, permitindo que ele enfrentasse os dias com mais segurança.

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Mills não chegou a retornar para Esplendora. Ela sabia que aquele comportamento desencadearia uma série de considerações, principalmente da parte do Conselho. Mas ela também sabia que aquilo não fazia mais diferença. Em algum tempo, a própria Abdiel pretendia subir a Esplendora e contar-lhes a verdade sobre sua trágica história. Uma história que guardou em segredo por tanto tempo, de todos. E que estava pronta para revelar, a qualquer custo, para encerrar de uma vez as mentiras na terra dos Anjos. Ela não sabia se seria capaz de retornar para casa e esconder tudo aquilo de Seraphiel. Esconder que Abdiel estava viva, se pudesse considerar que aquela condição fosse uma vida. Esconder que Jophiel estava na Terra, que tinha um filho e que esse filho tinha filhos, em uma verdadeira repetição da sua própria história. Esconder que ele era, ao invés do Anjo mais temido e mais poderoso do submundo, o Anjo mais triste e infeliz que Esplendora já gerou. Jophiel exibia uma aparência de deboche e mostrava-se sempre superior. Apoiava-se em seu sarcasmo e sua capacidade de manipular os presentes. Mas Mills pode vê-lo sem sua máscara; Mills pode ver Jophiel em sua essência. Toda vez que Abdiel passava por ele deixava um rastro de dor e sofrimento. Ela jamais poderia imaginar que o monstro das histórias de Esplendora, o Anjo Negro, o senhor do Olho de Cerno, era apenas um Anjo de coração partido e que havia perdido para sempre aquela que amava. Heather levantou-se, o bebê nos braços, e caminhou pelo quarto. Ela não deveria sequer estar dormindo àquela hora; mas sentia-se muito cansada. Ela andava esgotada fisicamente, mas a coragem para ler o livro de seu pai ainda não tinha acontecido. O grimório de Fletcher mantinha-se intocado no porão, mesmo que ela soubesse as palavras que o abririam. Ela tinha medo, do conteúdo daquele livro. Tinha medo do que poderiam fazer se soubessem que ele estava aberto. Tinha medo, simplesmente, de tê-lo. Não inicialmente, porque ela queria muito ser uma Feiticeira. Mas, à medida que os dias passavam, ela considerava o quanto aquilo poderia ser difícil. Ela já sabia, dentro de si, o quanto aquilo poderia custar algumas vidas, e vidas daqueles que ela amava. Mas, naquele instante, o grimório chamava por ela. A casa vazia, o sonho, a sensação de que aquele livro tinha que ser aberto. — Henry? — Ela disse, procurando o vampiro pelo salão. Já era noite, e ele deveria estar acordado. — Henry, você está por aí? Havia silêncio pela estalagem. Nenhuma entidade sobrenatural parecia estar próxima. Nem mesmo o pequeno Richard, que Heather também não sabia onde estava. Uma brisa fria começou a soprar pelo lado de fora, e o Anjo

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híbrido ficou confuso. Não era ela que causava a alteração climática, nem ela pressentia a presença de Abdiel. “Heather.” Uma voz grave ecoou. Tinha um tom sombrio e parecia estar muito distante. — Quem está aí? — Ela pressionou William com os braços, em um sinal de proteção. “Heather, não tenha medo.” A voz era suave. “Só você pode me ouvir, não tenha medo. Venha até o livro, Heather. Venha até o livro.

A voz desapareceu no mesmo instante em que as luzes da hospedaria

piscaram e o vento do lado de fora cessou. A moça ficou ainda parada no meio do salão, esperando que alguma coisa a mais acontecesse. Ninguém apareceu, e ela sentiu como se estivesse em um universo paralelo. Era muito estranho, aquela solidão no meio de uma casa povoada por entidades sobrenaturais. Sem medo de verificar o que havia acabado de acontecer, Heather dirigiu-se até o

porão da casa, sempre com William nos braços. Ela iria até o livro; seguiria as instruções da voz misteriosa. O menino estava quieto, observando tudo como se soubesse que algo importante aconteceria.

O grimório parecia iluminado por uma luz inexistente. Heather, passo por

passo, aproximou-se do objeto e respirou fundo. Aproximou-se e tocou a capa de couro. Calor emanava do objeto, como se ele estivesse vivo. Como se ali estivesse um organismo que demandava a sua atenção. Era hora de fazer aquilo; já tinha passado da hora. Fechou os olhos e murmurou as palavras latinas que abririam selo e liberariam todo o conhecimento do Bruxo Fletcher. William agitou-se em seus braços, e o livro tremeu. Abriu os olhos imediatamente quando sentiu que a capa parecia querer abrir sozinha, sob sua mão. E foi exatamente o que aconteceu. O livro tinha páginas amareladas escritas por uma tinta desbotada, aparentando exatamente os mais de quinhentos anos que tinha. Ela pousou os olhos na página que estava aberta em sua frente, permitindo-se ler. O prefácio era uma apresentação para Heather; uma pequena explicação dos seus poderes, do que ela poderia ser, do que ela poderia aprender com aquele livro. “Então ele sabia”, foi o que ela pensou logo de início, ao ler o manuscrito que era a única herança deixada por seu pai Bruxo. A Fonte havia herdado de sua mãe. E os poderes incalculáveis que possuía, e que apenas Heather saberia manipular. Isso se ela fosse capaz de aprender o que Fletcher havia se disposto a ensinar, mesmo que através de um livro empoeirado. Para aprender, Heather sabia que tinha que estudar. Desde que o livro foi encontrado, desde que ele foi colocado em suas mãos, ela sabia que precisava estudar - mas ainda não tinha feito nada

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daquilo. Toda a sua determinação perdeu-se quando ela considerou o quanto perigosa era aquela empreitada.

A dedicação necessária à sua nova habilidade ainda por ser descoberta

tinha consequências que Heather não estava disposta a suportar. Ela precisava afastar-se daqueles que amava, e afastar-se de sua rotina normal. Desde que

descobriu que poderia ser uma Feiticeira poderosa, ela queria tornar-se aquilo que seu pai esperava que se tornasse. Mas, como não tinha treinamento e como

o livro era muito complexo para a sua compreensão cética do mundo, Heather precisava, ela sabia que precisava; passar por uma etapa que não queria enfrentar.

O enorme livro de Fletcher mudou sozinho de página. Heather franziu o

cenho e olhou em volta, tentando visualizar quem estaria esperando por ela. Porque ela tinha ouvido uma voz. Mas não havia nenhum movimento no porão

e aquilo a fez pensar que ninguém estaria ali, além dela e do filho. Seus

sentidos se apuraram, e ela decidiu verificar que página o livro pretendia lhe mostrar. Levou os dedos até o papel enrugado e olhou com curiosidade o nome dos dois feitiços que surgiam em sua frente. Uma página, à direita, falava sobre um feitiço que apenas a Fonte possibilitaria realizar, e a outra página, à esquerda, era uma carta. Os dedos de Heather tocaram o livro, as páginas ásperas lhe arranhavam a pele, e ela pode sentir a energia fluindo dos escritos visíveis apenas a seus olhos. “Minha filha. Se você está agora lendo essas palavras, é porque eu não consegui sobreviver à fúria daqueles que anseiam desesperadamente pelo poder que não têm. Mas, se você conseguiu encontrar essa carta, talvez minha morte não tenha sido em vão e talvez você possa corrigir alguns dos erros que eu cometi. Mesmo que eu não tenha o direito de pedir-lhe que acerte por mim, Micah, você tem a chance de fazer o certo. Há muito tempo, antes de você nascer, antes que eu fosse abençoado pela oportunidade de conhecer Abdiel, eu era como esses que me destruíram. Eu era poderoso e o poder cegava-me cada dia mais. Ao menos, era meu poder. Eu o detinha, eu o manipulava com perfeição. E foi por causa desse poder que eu me permiti seduzir por Seraphiel, o Anjo mais diabólico que já existiu em toda Esplendora. Acredito que, se você está lendo meu pequeno discurso agora, é porque já sabe de toda a história – já sabe que fomos todos traídos, que Esplendora é governada por aqueles que desejam a sua destruição. Eu poderia ter evitado tudo isso, se tivesse resistido à sedução do poder. Foi apenas quando sua mãe, e toda a sua perfeição angelical, me tocou por dentro que eu descobri

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o quanto estava errado e o quanto eu tinha me aproximado de meu próprio fim. Eu não pude proteger vocês. Eu tentei, possibilitando a sua hibernação, mas eu não pude proteger vocês. Eu tive a vida ceifada antes que eu pudesse revidar. Considerando que Abdiel estaria mais segura na Terra, eu assinei minha sentença de morte. Como escrevo essas palavras agora? Eu as escrevi previamente, já sabendo o que o destino me guardava. Se algo pudesse ser modificado, se alguma das Profecias pudesse ser alterada, o grimório seria queimado, e eu teria sido, plenamente, o seu pai. Mas o inevitável estava escrito; não se pode ignorar uma Profecia, Micah. Os Bruxos podem ser supersticiosos, mas as Profecias são uma clara imagem do futuro – e o que me esperava não era glorioso. Eu pouco posso fazer por você, agora. Toda a sua formação como uma Feiticeira está em suas mãos, somente. Você só pode contar consigo mesma e com o poder que há dentro de você. Mas eu não me furtarei à missão paterna; eu posso não estar presente para você, mas você não ficará totalmente desamparada. Micah, você possui a Fonte. Eu gostaria que sua mãe tivesse sobrevivido a mim, e que tivesse podido ensinar você a ser um Anjo. Assim alguém poderia ter explicado a você sobre a Fonte. Seus poderes são infinitos; suas habilidades são incalculáveis. A Fonte é o que todo Bruxo sempre desejou possuir, mas que, pelo destino, nunca poderá ter. Apenas Anjos possuem a Fonte, mesmo que nenhuma utilidade eles tenham para ela. Mas você, Micah, você é as duas coisas. Você pode acessar a Fonte, você pode realizar façanhas que eu jamais poderia – e que nenhum outro Bruxo pode. Com ela você pode subjugar os poderes de Bell e tornar-se o ser mais poderoso e perigoso de toda Esplendora. Mas, é isso que você quer? Se você é filha de Abdiel, sei que a sua resposta será não. Você não quer esse poder, você quer viver em paz. A paz que você jamais conseguirá enquanto Bell e Seraphiel estiverem no poder. E eu sei que eles ainda estão, ou você nem mesmo teria achado o grimório. Você me procurou porque você precisa de mais do que a habilidade de fazer chover. Você precisa de mais do que ouvir os Anjos, mais do que brilhar na escuridão; você precisa das trevas em si para lutar contra o mal. O verdadeiro mal. Mesmo que você não queira, Micah, você precisa. Eu dou a você as respostas que procura. Neste livro, todas elas. Você só precisa encontrá-las, e definir quem você é. Nunca subestime seu poder, ele é inestimável. Você só precisa cumprir com o seu treinamento, e precisa fazer isso logo. Está tudo preparado para você, Micah. Tudo esperando por você, apenas.

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Decida quem você é, e seja melhor do que eu fui. Fletcher” Heather leu tudo com bastante atenção. Seus olhos estavam afogados em lágrimas que ela impedia de rolarem. Seus braços comprimiam com força demais o menino em seu colo. Aquela era a única coisa que seu pai lhe tinha deixado, e talvez a maior herança que um pai poderia deixar a um filho. E ela já sabia aquilo, mas ler diretamente que seu pai pertencia às trevas era chocante. Ela nunca o conheceu, mas era seu pai e ela não admitia que ele pertencesse ao outro lado. Ela preferia não considerar aquela hipótese. Mas ele dizia que ela precisava das trevas em si para vencer a batalha que ainda não havia sido travada e, secretamente, Heather sempre soube daquilo. Ela decidiu não procurar as respostas naquele instante, porque as perguntas eram muito confusas. Poderes inestimáveis e trevas não eram exatamente as qualidades que ela pretendia ter. Saiu do porão atordoada, mas consciente de uma realidade da qual não podia fugir. Ela não era mais somente Heather, a filha de Abdiel. Ela havia encontrado a segunda metade de si; ela era, então, Heather, a filha de Fletcher. Seu pai e sua mãe coexistiam dentro de um ser, e ela não sabia se seria capaz de lidar com tanto. Era o momento de Heather descobrir-se como um novo ser. Ela ainda tinha muito que saber sobre si.

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