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Como se constrói uma crise

Alceu A. Sperança*

Bem-vindo ao curso de salafrarice.


É um curso básico, elementar, de como se tornar salafrário. Esta é
uma aula promocional. As demais vão custar os olhos da cara. Não
os da sua cara, é claro: dos otários que pagam impostos e dão duro
para sobreviver. Agora, caros alunos, vocês irão aprender como se
dar bem na vida às custas dos trouxas que trabalham.
Primeiro, você precisa ter a deliberada intenção de enriquecer sem
fazer força. Segundo, ter claro que se o seu golpe de esperteza
fracassar, você não irá para a cadeia. Muitos irão, é claro, pois no
desespero de perder os empregos vão sair protestando e aí a gente
manda nossa polícia descer o cacete no lombo deles.
Não se preocupe com as consequências, pois você terá os mesmos
trouxas que trabalharam para nos enriquecer trabalhando ainda mais
desesperadamente para pagar o custo da besteira toda. E pagarão a
conta com redobrado empenho, pois estarão escravizados pelas
necessidades decorrentes da omissão do Estado, a incompetência
dos governantes que nós financiamos e totalmente escravizados pelo
crediário.
Falso dinheiro
Os golpes sempre fracassam, como já denunciou aquele chato do
Marx. Ele descobriu nossa manobra de gerar crises para acumular
ainda mais riqueza e poder, promovendo guerras e ajustes no
volume de capital, queimando o falso dinheiro que criamos.
Queimando inclusive gente, fired (demitida) sem contemplação.
Quando o golpe fracassa – e um dia vai fracassar, pois outros
chatos tipo Marx já disseram que a sociedade não é estática e,
portanto, “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”
−, a receita é simples, vem sendo usada há séculos e foi aperfeiçoada
no crack da Bolsa de 1929, quando os trouxas de hoje ainda nem
haviam nascido.
Logo de saída, alegaremos que foi um acidente natural, como um
furacão que pegou a todos de surpresa e que vai prejudicar inclusive
a nós. Desse modo, fingimos que não criamos de caso pensado o
pandemônio todo.
Diremos que os muito ricos foram os mais prejudicados, quando é
óbvio que só foram prejudicados os que trabalham e os que
produzem coisas reais, como comida, roupas, calçados, ou prestam
serviços, distribuindo esses bens, educando, tratando doentes.
“Vontade de Deus”
Se você rouba um bilhão e a crise faz você queimar meio bilhão −
dinheiro artificial e inexistente −, você faz um instituto dizer que
perdeu a metade de tudo o que tinha. Desinformados e iludidos pela
ideologia não percebem que na verdade o trabalhador demitido é
quem perdeu tudo o que tinha, pois ele só tem, dele mesmo, a força
de trabalho.
Se algum pobre mais esperto sacar o lance e apertar muito, basta
dizer que foi a “vontade de Deus”. Pobre algum resiste a esse
argumento. Eles são muito crentes: acreditam que a máquina
geradora de crises é “liberdade” e “democracia”, veja só... Até em
nós eles acreditam!
Mas ainda não expliquei como armar o golpe. Antes de arquitetá-
lo, é preciso se certificar de que os ditadores que instrumentalizamos
para destruir a intelectualidade mais crítica e quebrar o ímpeto
rebelde da juventude já cumpriram seu papel.
Aí a gente impõe uma Constituinte, constrói uma democracia e
uma liberdade à nossa imagem e semelhança... Bem, a aula
promocional acaba aqui. As demais serão pagas com os olhos da
cara... deles, os trouxas que acreditam na gente!
*Alceu A. Sperança – escritor paranaense

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