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“Eles estão em toda parte”, “Eles estão entre nós”,

“Eles..., SOMOS NÓS”...

HARDLEVEL: A MORTE GANHA


UM NOVO NOME
À Donizete Lima e Lohana Meira, pelo apoio e constância.
CAPÍTULOS:

I. EMBATE...................................... 8
II. UM NOVO EMBATE......................... 14
III. A MORTE INESPERADA...................... 21
IV. O CÓDIGO..........................................
26
V. O NOVO NAMORADO DE LETÍCIA....... 42
VI. AS TRÊS PESSOAS HIPNOTIZADAS...... 50
VII. ÍRIS BRAINVICH................................. 58
VIII. AS PIRÂMIDES IRMÃS......................... 64
IX. A ÚLTIMA PROFECIA DE AMANTTINIS 73
X. O COVIL DAS COBRAS......................... 75
XI. “DEMINSTIFUS MALÉFIQUIS PODERES!”. 82
XII. ENQUANTO HOUVER BEM... O MAL NÃO
PODE DOMINAR...................................
85
PRÓLOGO
RÚSSIA, 2000

Um homem alto, alvo, com cabelos castanhos-mel, olhos verdes, corpulento, e


um tanto giboso, se encarrilhava em direção ao fim de uma rua sem-saída.
Trajava um garboso terno vermelho, descomunal com a camisa preta sem
ornatos.
Seu rosto pálido e suas olheiras profundas denunciavam, irrefletidamente, suas
noites sem dormir. Ele parecia rastear à procura de algo, e tanto sua pressa como
nervosismo eram fartamente aparentes.
O céu já estava da cor do ébano, e havia uma névoa gélida suspensa no ar; exceto
o homem, não havia ninguém próximo dali num raio de quinhentos metros.
Ele deu mais cerca de oito passos, e rodopiou parando abruptamente voltado à
direita, onde passou a esquadrinhar de modo esmerilhado um largo edifício de
aparência velha.
–É aqui – sussurrou a ele mesmo.
O homem se aproximou dos portões e abscindiu, sem maiores dificuldades, as
correntes do cadeado que o cerravam. Conseguia ser mescladamente silencioso e
implacável; e, por incrível que pareça, não levantava nenhum tipo de burburinho.
Nos jardins da dependência pôs-se a andar ainda mais rápido, até se encontrar
defronte à porta, mas desta vez sem nem se preocupar com a surdina de sua tarefa
e a derrubar num barulho estridente e penetrante.
Seu trabalho seria efêmero. Por isso, não precisava mais contribuir com o tempo.
Entrou no local e o silêncio o acompanhou por alguns cômodos, até que, de um
deles, surgiram duas mulheres que correram céleres em sua direção; uma delas
velha de cabelos grisalhos e rebeldes, e a outra, um tanto franzina, mui
aparentemente próxima dos trinta anos.
– “Menino mau, MENINO MAU” – rosnava a mulher velha em russo,
parecendo muito mais querer brincar do que livrar-se da ameaça que brotara
arrombando a porta.
A outra mulher, parecendo em alto grau mais sã que a velha, estraçalhou um
antigo vaso artesanal nas costas do homem.
–Maldita! – o homem urrou em tom abespinhadiço, a jogando contra a parede
chapiscada da saleta escura em que se encontravam.
A mulher caiu, desacordada, e o homem continuou a se mover apressadamente
pela casa; quem ele caçava se deparava em algum lugar por ali.
Correu até onde havia uma luz acesa, um pouco depurada por cortinas azuis
contidas no compartimento.
Tudo indicava a nova bifurcação da casa como sendo uma cozinha, pois o chão
de soalho, e as paredes chapiscadas foram substituídas por pisos e pavimentos
ladrilhados. A pia de granito abrolhava no cerne; e a geladeira vermelha e feia era
mais uma das várias peças reliquiosas da morada.
Havia um outro homem às costas do invasor nesta mesma pia, provavelmente
preparando um lanchinho fora de hora. Todo o local era tão grande, que
seguramente ele não ouvira nada da balbúrdia do intruso com as mulheres que
tentaram atacá-lo.
Num gesto rápido e imperioso, o invasor burlesco agarrou o homem da pia pelos
cabelos e virou-o, como se quisesse ver sua face a fim de realizar alguma
recognição.
–Não é quem procuro – reclamou o homem invasor, soltando as madeixas do
infeliz que se apoiava na pia.
–Socorro! SOCORRO!! – ele berrou em russo, como a velha, encarando lívido
e de olhos arregalados os olhos verdes e miúdos do homem invasor.
–Não... GRITE. – Pediu, virando o pescoço do outro, que caiu morto no chão
gelado da cozinha.
O invasor demonstrava estar ainda mais desesperado, pelo que acabara de fazer,
pelo que fizera antes, ou, talvez, por nenhum dos motivos anteriores. Mas devia
achar-se neste momento muito próximo do que fora buscar. Se ainda houvesse
alguém ali, não estaria acordado.
Subiu as escadas de madeira do casarão, que rangiam por estarem quase podres.
Eram ladeadas por um corrimão mogno, perceptivelmente mal-lustrado, que o
levou até nove portas jeitosamente enfileiradas. Todas trancafiadas.
Contudo, havia uma chave, de cor prata-ferrugem grande e esférica, pregada na
parede ao lado da primeira porta. E o homem parecia sentir que aquela era uma
chave-mestra, porque a pegou e deu início a abri-las misoginamente, uma a uma.
Após a sexta delas, ele parou de modo imediato, pois já não era mais necessário
continuar: estava ali quem ele procurava.
A arquitetura rústica do local novamente presente nos quartos, de modo abeatado.
Como se tudo no recinto necessitasse rememorar a antiguidade. As paredes com
tijolos à vista davam ao ambiente uma mescla de amável e lúgubre.
Mas este último quarto se diferenciava algo dos outros pelo candeeiro ao pé da
cama que iluminava, apesar da luz um pouco fraca, excelentemente o rosto do
indivíduo deitado. O que dava a certeza ao outro de que estava prestes a cumprir
sua obrigação.
–É você... – clamava contente o invasor, que demonstrava em suas pálpebras
quase mortas haver tido muito trabalho, até que enfim chegasse ao homem na
cama. – Levante-se. – Ordenou estranhamente cândido, quando seus lábios já se
achavam ao pé do ouvido do outro. – Levante-se! É uma desonra matar alguém
deitado!!!
Bem como os berros de grande sonoridade do invasor fossem um relógio
despertador, o homem que jazia em seu leito, acordou.
–Creio que você seja... Bóris Brainvich – asseverou o homem invasor,
encrespando os lábios para simular um sorriso nefasto e sombrio.
–E que você seja Amanttis – respondeu o homem chamado Bóris, até agora o
único morador do lugar a falar a mesma língua do estranho.
–Como você... Ah, sim... Os presságios de meu irmão... – continuou, com um
grande nível de desprezo em sua voz. – Muito bem, antes de seu terrível fim, por
favor me diga: Onde está sua linda filha?
–Nunca “irrei” lhe dizer, seu monstro! – bradou, com um sotaque russo inegável,
deixando a conversa que começara tenra, muito invasiva.
–Bóris, Bóris, Bóris... Vou deixá-lo escolher: morrer rápida e agradavelmente, se
me contar onde a garota está; Ou morrer sofrendo humilhantemente, do modo
que nenhum homem honrado gostaria de morrer...
–Eu “prefirro” morrer por minha filha – teimou Bóris, que estava disposto a
não se deixar intimidar perante Amanttis.
–Seja como quiser... – rebateu, cortando a conversação ao virar-se de costas.
Numa fração de segundos, em um afoito pensamento, Bóris sentiu que o
momento era ligeiramente oportuno para se rebelar contra a autoridade que
Amanttis tentava cominar-lhe. Não obstante, antes que pudesse pensar em
qualquer impulso adverso, Amanttis girou outra vez a ele, e, investindo, acertou
um murro em seu estômago.
Bóris perdeu o ar.
–Vamos, caro Brainvich... você não tem escolha... conte logo onde sua filha
está...
–Não, NÃO!! – Exclamava o agredido firmemente, agora cuspindo sangue.
–Meu irmão está a protegendo, não está? Por isso ainda não pude encontrá-la –
Amanttis concluiu, com um dedo ameaçadoramente gesticulando-se a poucos
centímetros do rosto de Bóris.
–Você nunca “conseguirrá” encontrá-la. Nunca... Ela está num lugar muito
“segurro”...
–Está “segurra”, está “segurra”... – disse Amanttis debochando do sotaque
grosseiro de Bóris. – Idiota! – intumesceu, dando um novo murro no homem.
Agora em seu nariz.
–AHH!!! – gemeu de dor Bóris, que agora já não era mais capaz de esboçar
sequer reação.
–Vamos! Levante-se, seu nojento! Ainda quer mesmo proteger sua filha?
–Sim...
Com ódio pela birra mentecapta de Bóris, Amanttis atingiu seu rosto com um
chute, o que o fez permanecer no chão. Inda se não bastasse, susteve o único
tranco do homem, na tentativa de levantar-se novamente.
Massageando seu punho de ataque com ligeira delicadeza, agachou-se até estar
na mesma altura de Bóris, proferindo em tom temível:
–Olhe, Bóris, eu tentei facilitar o máximo as coisas para você. Mas você não quis
me ajudar. Então eu não vejo escolha, senão...
–Você pode me matar, continuar a me “torturrar”, mas não “terrá” nada que saia
daqui... Da minha boca – rematou, chupando um pouco do sangue que escorria
por seu nariz.
Amanttis olhou para o homem com olhar de reprovação, baixando os ombros e
sacudindo o rosto com muita força.
–Eu não queria fazer isso... Eu queria matá-lo de forma normal, como os
humanos devem fazer... – disse, retirando um objeto dourado e pontiagudo do
bolso. – Ham... Adeus, BÓRIS BRAINVICH.
Ele encostou a porta levemente e deu um empurrão no outro, que caiu por sobre
suas mãos, desmantelado.
O instrumento brilhante foi alocado por Amanttis nas costas do pobre e derruído
Bóris, e, no momento em que fez isso, o objeto alvitrou sugar energia do
ambiente, pois luzes do lustre no teto e no candeeiro se apagaram.
Houveram gritos.
Celeumas.
Berros agonizantes.
E apenas uma pessoa saiu vívida e veloz daquela casa.

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EMBATE
1.
BRASIL, 2019
‘E stava frio. Porém, frio nenhum impediria que Christian Salém realizasse seu
sonho...
O jovem rapaz de cabelos negros e sedosos (não por cuidado, pois Christian não
dava a mínima a eles), olhos castanho-escuros e um cavanhaque para provar que
já passara dos vinte, estava encasacado da cabeça aos pés.
Mesmo com uma touca, o vento glacial e cortante parecia resvalar em seu
cérebro e continuar a flutuar por sob o ar, enquanto corria para que não pudesse
se atrasar para o grande dia: o dia de lançamento do game em alta definição mais
esperado de todos os tempos: HARDLEVEL.
Até então, hard (como vinha sendo chamado) dividia opiniões.
Na realidade, a divulgação do produto não haveria sido tão ampla pelo mundo
não fosse o vídeo que supostamente “vazou” – a despeito de muitos julgarem ter
sido jogado de modo intencional – na internet, que seria da desconhecida
empresa fabricante do jogo para comerciais.
Hardlevel possuía holografia; por isso, o fato de avocar tantas atenções para si
próprio quando visto por milhares de pessoas ao redor do planeta.
Claro que também existiam aqueles que davam pouco crédito ao vídeo, que podia
muito bem ter sido produzido por alguma pessoa criativa que lidasse bem com
computação gráfica e um tanto de ilusão ótica. Mas quando o Brasil foi
anunciado como sendo o primeiro país do mundo a receber a novidade (assim
como num teste de mercado: se funcionasse aqui, iria para o resto do mundo) os
rumores foram substituídos por empolgação e possibilidade de que o novo
videogame superasse as expectativas.
Dava orgulho a informação que o país recebera.
Era uma prova de dever cumprido, para alguns. O alarmante crescimento em
meio aos anos com certeza foi um dos pontos principais para a decisão, deixando
países como Estados Unidos e Japão seriamente para trás.
Christian Salém era um dos irrequietos pela inovação, que, por contar com fontes
superiores as da maioria da população, conhecia a respeito da veracidade dos
fatos a tempos. Por isso, quando sobrestou seus passos em frente à loja, reluzia
extasiação...

***

...Há meses guardava dinheiro para isso.


Estava suado e ansioso quando chegou... meteu a mão no bolso, pegou a carteira,
e segurou-a como se sua vida dependesse disso...
A loja Gameshow, uma das maiores do país e quiçá a primeira do mundo a
receber a novidade, estava insofismavelmente magnífica e primorosa dominando
toda a quadra com suas dimensões volumosas. Sua porta espelhada de puro
quartzo deslizou transversalmente quando Christian se aproximou.
Todos os outros produtos lúdicos que a loja tinha a oferecer estariam poupados:
Hoje, excepcionalmente, todas as atenções estariam voltadas para um único
invento: hardlevel.
À medida que adentrava a loja, o rapaz começou a notar pendência entre a noite
friorenta para o ambiente com perfeita calefação do ar-condicionado. Além de
aconchegante, a Gameshow impetrava ser mais bela por dentro que por fora: as
paredes eram pintadas com um amarelo-ouro, por ora chamativo, porém
delirante. Nelas ainda haviam porta-postêrs luminosos que exibiam banners de
novos jogos. O corredor também não deixava de ser encantador, mas demasiado
extenso, o que começava a encher-lhe a paciência.
No entanto, inopinadamente, abrolhou uma nova entrada a direita, com um cartaz
que indicava:

VENDAS DE HARDLEVEL AQUI.


Podia ouvir-se um grande falatório detrás das paredes do cartaz, e um misto de
ânsia e júbilo já se comungavam nele.
Era mesmo inexplicável como podia estar tão feliz; e mais inexplicável ainda
como podia um homem com mais de duas décadas de vida ser dono de uma
paixão tão exagerada por videogames...
Christian adentrou no saguão da loja, e um brilho ofuscante atingiu seus olhos.
O rapaz ouviu uns certos ruídos que se pareciam muito com reclamações pela luz
repentina, mas continuou andando; protegendo a vista com o antebraço.
Estava inteiramente decidido a permanecer peregrinando com o braço sobre o
rosto, a menos que algo ou alguém o obrigasse a parar: o que realmente
aconteceu.
Em sua marcha compelida, esbarrou em determinada coisa tão forte e sólida, que
o derribou de súbito ao chão.
Ainda estonteado com o baque, Christian permaneceu remanso e sentado por
alguns instantes. Foi quando a luz foi diminuindo, e ele guinou impetuoso e
sobressaltado ao ver que tropeçara num brutamontes com um punho maior que
seu rosto.
–Cê tá querendo furar fila, né mano?! – esfumaçava raiva um homem
asselvajado, que devia ter mais de dois metros.
–Eu?... Não...
–Então o que que tú tá esperando pra ir lá pro fim da fila, mané? – guinchou o
homem, que parecia que iria engolir Christian cada vez que abria a boca.
–Eu sei, eu...
–Eu não quero saber! Furador de fila vai lá pro final, irmão!! Ou eu te quebro...
–Tá bom... Eu tô indo, já mesmo... – acautelou Christian bem rapidamente,
porque além do homem não deixá-lo falar, parecia almejar bater nele de qualquer
forma.
Afastando-se do início da fila acentuadamente rápido, pode assistir todos o
mirarem com antipatia, como se ele realmente tivesse tentado furar alguma fila.
Recolheu poupando a carteira nova e cuidadosamente ao bolso, e já tendo lidado
com uns vinte olhares de indivíduos, uma outra voz, um pedacinho mais
amigável, o fez parar.
–Salém?
–Jonas? O que cê tá fazendo aqui, cara?
–Ora, o mesmo que você... – contrapôs, de modo inócuo.
–Quer dizer que você também resolveu vir no lançamento, cara?
–Infelizmente. Se arrependimento matasse... – frustrou-se Jonas, também muito
jovem, demasiado esbelto com seus cabelos loiros esturricados que lhe davam ar
de elegante.
–Não fala assim, Jonas... Tenho certeza que a espera biruta vai valer a
recompensa...
–Tomara viu... Mas, mudando de assunto, foi você quem levou a bronca por furar
fila lá na frente? Daqui de onde eu tô não deu pra ver direito...
–Eu não tava furando fila, Jonas! – disse, evidenciando que era ele mesmo. – Foi
aquele cara que disse, não sei o...
–O Anderson?
–Eu não sei o nome dele, só sei que é um covarde desmedido! Só porque é um
pouquinho forte, pensa que...
–Ô Salém, mas peraí, você vai ir lá pro fim da fila mesmo, como o Anderson
pediu?
–Pra começo de história, eu pensei que seria o primeiro a chegar aqui, mas parece
que já tem mais de cinquenta pessoas aqui dentro, rapaz!... – observou,
parecendo nervoso – Então eu vou ter que ir lá pra trás mesmo, cheguei cedo,
mas mesmo assim me dei mal, então não tem outro jeito...
–Tem sim... – disse, enfiando a mão no bolso.
–Jonas..., isso é pomada de invisibi...
–Cala a Boca! – Jonas sussurrou. – Se me descobrirem com isso aqui eu vou
preso, esqueceu?!... – reivindicou ao amigo, dando uma discreta olhadela para
trás com intuito de ver se chamara alguma atenção.
–Mas e eu por acaso posso saber qual é o planinho genial?
–Claro: vá até lá atrás e passe a pomada. Um dedo já basta. Tchau.
Christian pegou a pomada se movendo calmo demais até que fosse o último da
fila. Passou-a, e notou que a pigmentação de sua pele, e até suas roupas,
perderam a cor.
–Já cheguei – Christian segredou ao ouvido esquerdo de Jonas, logo que voltou.
–Já? Que rapidez...
–Vai logo pra trás!
–Ah... desculpa... – balbuciou Jonas, indo ligeiramente para trás.
–Hum... Agora sim... – o rapaz fez uma longuíssima pausa – Jonas, agora eu fico
visível de novo em quanto tempo? É a primeira vez que eu uso isso sabe... –
arguiu, colocando o potinho pequeno e simpático da pomada no bolso da camisa
que Jonas usava.
–Não sei...
–O quê?! Não sabe? Como assim...
–Fala baixo... eu tô brincando... quantos dedos você passou?
–Um. Como você mesmo pediu... – falou Christian, assustado.
–Então mais uma meia-hora. Olha, as roupas aparecem primeiro, então quando
começarem a ficar visíveis, eu te aviso.
–Tá bem. Mas, e as pessoas? Não vão perceber quando eu ficar visível?
–Daqui a meia-hora? Não... – Jonas garantiu tranquilo. – Agora só faça o favor
de ficar um pouco quieto, porque aí sim vão começar a desconfiar.
–Deixa comigo...
Jonas não voltou a falar, e Christian também procurou permanecer em silêncio
por alguns minutos.
Alguns minutos... Alguns minutos sublimemente agonizantes para Christian.
Conservar-se quieto enquanto invisível talvez fosse tarefa simples para qualquer
um; mas para Christian, os poucos momentos que conseguiu, pareciam longos
como uma eternidade.
O fato explicava ainda mais sua ânsia vitalícia com o lançamento. Era
imensuravelmente grande. Era entediamento demais para aguardar por mais
tempo parado.
Por isso o rapaz não se viu em outra posição senão a de declarar:
–Jonas...
–Que foi, meu? Você tava quietinho, e já voltou a falar...
–Espera aí, só me escute um momento. Você acha que ainda tenho mais um vinte
minutos de invisibilidade?
–Por aí. Um pouco mais, um pouco menos...
–Olha Jonas, sinceramente, eu já não aguento mais ficar aqui parado esperando,
se eu estou invisível. Eu posso entrar lá dentro, e ver o que estão fazendo que
ainda não começaram as vendas.
–Pode, claro. Mas eu não me arriscaria.
–Mesmo assim eu vou.
–Tá bom. Tchau...
Christian foi andando imperceptível e pé ante pé por entre as pessoas na fila. Às
vezes, até esbarrava em alguém, mas como estava invisível, desconfiavam
sempre de quem estivesse mais perto.
–Ei, seu descarado! – berrou uma mulher, dando um tabefe num garotinho às
suas costas quando um braço encostou em sua cintura.
O garoto ficou pasmo e atípico; mas decidiu não responder a moça porque não
fazia ideia do que ela estava falando.
Christian soltou uns risinhos abafados, e continuou andando, agora de costas para
ainda poder prosseguir comboiando de perto a bronca e tanto que a mulher dava
no desafortunado infante.
–Sua mãe não te deu educação não, moleque atrevido?!
–Mas eu...
–Não venha se desculpar não, você...
Christian ria tanto, mais tanto, que não percebeu que as pessoas começavam a
olhar para ele indiscretamente, e um simpático rapaz tentava passar-lhe alguma
mensagem. Infelizmente, ele não deu atenção, e esbarrou num brutamontes no
início da fila...
–Você de novo, rapaz! – vociferou o mesmo cara mal-encarado e robusto da
entrada de Christian no local; que, sem razões aparentes, parecia vê-lo
nitidamente...
O rapaz olhou para suas mãos e tomou o susto do ano: já estava visível.
–Ah, não... – exasperou Christian, funesto.
–Ah não, é?! Agora eu te pego...
Porém, antes que o sujeito encorpado pudesse laborar, um barulho metálico de
algo se fendendo surpreendeu a todos.
–Aí galera, a porta abriu! – Alguém gritou.
Não foi preciso dizer mais nada: a vultosa multidão se desfez em poucos
segundos, e todos começaram a correr irrefreavelmente para adentrar no interior
do salão, onde seriam feitas as vendas do burocrático produto que atendia pelo
nome de hardlevel.
Christian aproveitou o tumulto para correr também, e se safar, desta vez por
muito pouco, do acometimento raivoso e desembestado do homem.
Contudo, antes que qualquer um tivesse a chance de botar os pés no outro
compartimento da loja, saíram cerca de oito ou nove homens do lugar, todos
armados com *high-techs, que eram as novas armas governamentais cedidas à
grandes corporações que recebiam aturadas multidões, com objetivo de conter
essas grupos amontoados que sempre se acumulavam para compra de algum
produto.
Essas armas exerciam uma hegemonia sobre os corpos, identificando indivíduos
com sistema nervoso alterado e os imobilizando através de cápsulas que iam
direto ao cérebro, contraindo os músculos. Quando a tonalidade cerebral se
normalizasse, o conteúdo líquido contido na cápsula e a própria cápsula se
dissipariam e desmanchariam na massa craniana, sem causar nenhum dano. Pelo
menos, era o que diziam. Mas na realidade ninguém gostava de levar tiros na
cabeça assim, de bobeira...
A permanência de todos paralisados (inclusive Christian e Jonas) foi longa.
Entanto, depois de um tempo até considerável aquele apinhado de gente foi
voltando ao normal.
– Agora esses malditos têm high-techs... – Jonas se indignou.
–Isso é ideia do governo, Jonas... – informou Christian, chacoalhando um pouco
a cabeça para se livrar da tonteira que as high-techs causavam.
–Você já sabia disso?
O rapaz assentiu, e ao mesmo tempo pediu para que Jonas fizesse silêncio, pois
um homem bem-trajado e sem high-techs, acabara de sair porta a fora.
– “A compra do game hardlevel será feita individual e... Civilizadamente.
Portanto, queiram voltar à fila anterior” – Esta foi a recomendação do subgerente
da loja, um cara gordo e alto atrás de uma camisa branca perfeitamente passada,
e a gravata azul-anil listrada de preto.
Como que por milagre, a fila regressou ao padrão primário, e agora sim não
havia nada que impedisse o início das vendas.
Alguns já estavam furiosos, mas já havia sido comprovado que inquietação não
resolveria ninharias. Por isso, todos emudeceram de uma hora pra outra, como se
uma assembleia relâmpago houvesse acabado de ser realizada.
–Estamos quase lá... – observou Jonas, tinindo empolgantemente, quando a fila
começara a andar.
–Quase?... – questionava Christian verificando a mesma.
A verdade é que a espera ainda se prolongaria por um considerável período; e
uma verdade ainda mais evidente é que nem o primeiro cliente, o de corpanzil
bombado, saíra da loja.
A segunda pessoa entrou, a terceira, quarta... e a fila foi vagarosamente
diminuindo.
Até que o primeiro comprador saiu da sala de vendas...
–É impressionante! – fez questão de salientar o homenzarrão que despontou entre
a multidão, o primeiro a adquirir o game.
Todos na fila passaram a olhar tensamente curiosos para o novo jogo, que era
holográfico e portátil, como nos comerciais que foram do You Tube para a T.V.
Vinha acompanhado de um tipo de “capacete” que provavelmente deveria ser o
objeto que ativava o cenário digital que hard tinha a oferecer. O prometido, é que
o game transporta o dono à cena do jogo, literalmente. Ou seja, permite ao
jogador interagir com o cenário tridimensional, como se fosse real.
O sujeito fortíssimo passava por todos radiante como um menino, aguilhoado
com o capacete em seu rosto, soltando contagiantes risinhos de prazer.
Alguns ficavam abismados observando-o passar. Parecia mesmo se versar de um
videogame tremendamente formidável.
A superioridade de crianças na fila conversavam tumultuadas com seus
respectivos colegas. Talvez estas seriam as férias mais divertidas de suas vidas...
Mas a pergunta veraz a ser feita, era: Será mesmo que o jogo seria tudo o que
parecia ser?... Ou não? Será que, talvez, todas aquelas pessoas estivessem
esperando por algo que podiam muito bem gostar, como do mesmo modo não...
Ainda era muito cedo para afirmar que a minoria de adultos a média de
adolescentes e a máxima de crianças aprovariam o invento. A única coisa clara
como a parafina era que o possível parecia impossível. E o que todos na fila ainda
tinham a fazer, era esperar.

***

–Próximo! – resmungou um funcionário da loja. Parecia meio nervoso.


Era a vez de Christian. Friccionava as mãos sobre o rosto, freneticamente.
Mesmo aos vinte e dois, as espinhas ainda o incomodavam. Tirou a carteira do
bolso, e pagou com 3 *Cartões Grandes.
–Que cor prefere? – indagou o vendedor em um tom morbidamente automático,
mostrando as três opções de cor de hardlevel: Prata, preto, e azul.
–Preto.
–A cor mais pedida. Não duvido que acabe em menos de vinte minutos. Vamos
ter de encomendar mais da fábrica que o produz...
O gerente estendeu o produto a Christian, junto à nota fiscal.
–Obrigado.
–Obrigado a você rapaz, e... Bom Proveito...
–Será bom... – titubeou Christian, passando para fora da loja.
–Próximo!
Jonas ingressou na nova área da loja, e Christian ficou do lado externo o
esperando.
–Ele é menor que na T.V.... – censurou Jonas, desbriado, enquanto os dois
caminhavam juntos pelo dia pulcro que clareava-se muito rapidamente.
–Ah, Jonas... Pare com isso... O que esperava também? Algo que minha mãe
vivia dizendo era: Nunca acredite em imagens de propagandas. São sempre
enganosas...
Jonas deu uma risadinha forçada.
–Você já testou o cenário dele? O vendedor me disse que ele se aciona ao pôr o
capacete.
–Ainda nem tirei da caixa – replicou, em tom despreocupado.
–Nossa!... Esse nem parece o rapaz viciado em videogames que eu conheço
desde a segunda série...
–Abro a caixa só quando chegar em casa.
–Por que isso? Alguma superstição? Ha, ha... Sobre essa aí nunca ouvi falar...
–Não, não é superstição nenhuma. Eu só quero me... Surpreender com esse
jogo...
–Puxa... Que profundo... – divertia-se Jonas com o modo de pensar do colega. –
Então é melhor eu ir logo embora, porque estou morrendo de vontade de jogar!...
–Não exagere, rapaz... Eu não estou te dispensando também... – respondeu
Christian, categórico.
–Não cara, eu tenho que ir indo mesmo... Meu carro está num estacionamento
bem ali na frente. E você, tá a pé?
–A minha casa é na outra esquina, Jonas! – relembrou Christian.
–Caramba Salém... realmente fazia um bom tempo que a gente não se via... –
revelou Jonas, apesar de sua casa também não ser tão longe dali.
Os dois divertiram-se. Mas três anos não eram nada curtos.
–Então tá, cara. A gente se vê – disse Jonas.
–Pode acreditar...
Após um aperto de mão, Christian desceu lenta e ansiosamente as ruas do parque
ecológico, próximo à sua casa, enquanto, a algumas esquinas dali, Jonas entrava
em seu discreto Chevrolet.
Os dois colegas, não muito chegados um ao outro, nem imaginavam que iam ter
de se encontrar novamente...

2. Um Novo Embate

Já eram sete e cinquenta da noite de sábado.


A prodigiosa lua minguante brindava a noite estrelada.
Um bonito parapeito à rua Eurico Dutra, próxima ao parque ecológico, debruçava
umas cortinas que esvoaçavam devido ao fato de a janela se achar aberta,
recebendo um vento contundente em seu peitoril.
Christian Salém passara muito tempo ocupado dormindo e comendo,
praticamente as únicas coisas que fez em seu laborioso dia de folga.
O rapaz pedira uma pizza de Baiacatu, que estava com uma quantidade
exagerada de pimenta; acabou por causar-lhe uma indigestão, o vinculando a
permanecer deitado o resto do dia, deixando inclusive de recostar as vidraças da
casa.
Ainda um pouco inconstante e descorçoado, se recostou no dossel de sua cama e
pegou uma caixeta media e retangular em sua mesinha-de-cabeceira.
A abriu, tomando cuidado com a embalagem, para que não fosse maltratada no
ato.
A caixeta resguardava três objetos: um videogame, um pequeno capacete preto
com um visor diáfano, e um manual de instruções tão grande quanto um livro.
Sem utilidades no momento, capacete e manual foram deixados de lado. O
interesse era o videogame, que era um console também preto, bonito, que possuía
apenas um botão, bem em seu centro, com uma inscrição de “On/Off” aquém
dele.
Era daqueles objetos que de bater o olho percebe-se que esbanjam tecnologia,
design bem bolado, arquitetado.
Quando o botão foi pressionado, algo estranho invadiu o corpo de Christian
Salém. Um leve arrepio, que foi do dedo até a ponta do pé.
Todavia, o rapaz não deu a menor bola para o simples choque, quando viu o
menu holográfico do hard abrir-se à frente de seus olhos, superlativamente
excitante escrito em português. O entusiasmo era tanto, que ele até leu em voz
alta:

BEM VINDO AO MUNDO “HARDLEVEL”

°Iniciar Jogo
Modo Carreira
Cenário Digital
Vs Computador
Batalha
Opções

Rapidamente, com a haste cilíndrica de metal que acompanhara o produto,


Christian tocou no menu opções que surgira à frente de seus olhos.
Com tanta força, que tomou outro choque.
–Ah! – O rapaz gritou. O segundo havia sido perceptível e intenso. Mais que o
outro.
Ao mirar com zanga o videogame, pôde ler o seguinte:

ATRIBUTOS do GUERREIRO

Força:
Magia:

Vidas:

FASES do JOGO
Fácil°
Difícil°
Muito Difícil°
>>>>>>>>>>

Após as devidas reparações no menu opções, sem querer usar novamente o


lapisinho de metal, Christian tateou com o dedo, muito enternecido, no menu
retornar, mas não suportou: Uma sensação horrível dominou-o, a ponto de
formigar todo seu braço esquerdo. O rapaz atirou ao chão o maldito game com
uma força, ao menos, exacerbada...

***

... Enquanto cuidava do braço recém-dormido, o telefone tocou. Era uma amiga,
de nome Melissa. Ou melhor, era mais que uma amiga... Se assemelhava mais a
uma namorada, no entanto nenhum dos dois jamais tocou neste assunto. A garota
adorava ir à shows, e, a cada semana, fazia um novo convite para uma ida a dois,
que nunca havia sido recusada.
Porém, pela primeira vez, Christian rejeitou o convite.
–Me perdoe Melissa, mas eu não estou com cabeça pra isso hoje, e ainda preciso
resolver um assunto aí que me aconteceu... Então me desculpe, mas não tenho
como ir – explicou o rapaz, em tom tenro e amável.
–O que é em Cris?... Você tá com outra, é? – replicou Melissa, sem a mesma
fleuma.
–Como assim, com outra? Eu nem...
Melissa cortou.
–Como assim o quê?! Você tá muito em cima do muro, garoto! Quer saber..., me
esquece, tá bem?! Você não tem meu número mesmo...
–Mas... peraí... Eu só...
E desligou.
Simplesmente.
Sem mais nem menos...
Christian, claro, não entendeu nada.
Ficou atônito. Bravo, até, emburrando-se por bons instantes; quem sabe,
experimentou da mesma sensação do garoto que levou aquela mãe-bronca na
loja, também sem saber de que se tratava e ficar tão pávido quanto ele.
Depois de esquecer um pouco o assunto, alongou o braço praticamente
recuperado da dor e guardou o hardlevel na caixa.
Tramitou descortês até chegar a seu carro, e se dirigiu novamente a loja
Gameshow.

***

–Amigo, o videogame tá com defeito – disse Christian, manifestando-se


descontente com os serviços da loja ao rememorar as dores anteriores.
–Me deixe ver – sugeriu o vendedor.
O homem retirou o videogame da caixa, e o ligou.
–Ai! – Exclamou o próprio vendedor, arrufado. – Você derrubou água aqui,
rapaz?
–Não.
–Não?... – perguntou novamente erguendo as sobrancelhas, como num clichê de
vendedores desconfiados.
–Não. – Christian voltou a subscrever.
–É só o joystick com defeito, ou o capacete também?
–Não sei, viu... Nem cheguei a testar o capacete. Vim logo que tentei jogar o
videogame.
–Eu troco os dois pra você – afirmou o vendedor, condizente ao que prometiam.
–Tá bem.
Christian entregou a nota fiscal do produto, e aguardou a troca sentado num dos
confortáveis banquinhos almofadados da loja, que esta noite, curiosamente, já
estavam vazios.
O caixa da loja introduziu-se num corredor escuro, e um sensor de calor cuidou
de acender as luzes no momento em que ele passou.
Porém, sabe-se lá por que motivos, o homem não trocou o videogame de
Christian; voltou com o mesmo, apenas o empacotando outra vez com intuito de
ludibriar astutamente o rapaz.
–Aqui está, meu caro... – disse o vendedor, soberano com sua ligeira esperteza. –
Este já é o novo pacote do hard, e o lacre é bem firme, então tente soltá-lo com
um facão quando chegar à sua casa...
–Tá bom – iludiu-se Christian, sem suspeitar de exatamente nada.
–Tchau, tchau, jovem, volte sempre! – deliciou-se o caixa, que não havia
devolvido a nota fiscal, e estava quase rindo na frente do garoto.
–É. Valeu...
Não com a mesma alegria do vendedor, Christian saiu da loja com cara de poucos
amigos, e entrou em seu carro.
“Que dia infeliz”, ele pensou consigo mesmo. Saiu andando a esmo por alguns
instantes, avançando pela noite insensível com seu Croma potente.
Se alojava nele uma espécie de hibridez que nuançava opacidade e exaustão.
E nada poderia impedi-lo de se sentir tão mal. Há dias se achava assim, mas
disfarçava tão bem que ninguém desconfiava de nada.
Explicar porque ele não sabia. Porque ele, um jovem com uma vida das mais
perfeitas, se sentia indisposto daquele jeito.
Quando acostou à sua casa e levou o carro até a garagem, entrou péssimo.
No ensejo, ele avaliou que uma boa noite de sono resolveria tudo. Por isso deitou
na cama imediatamente, mas não conseguiu dormir na primeira tentativa.
Deu uns murros no travesseiro até que ficasse mais confortável, e finalmente sua
mente sossegou e parou de atormentá-lo um pouco, deixando que seus sentidos
adormecessem.
Apenas na hora em que ele realmente pegou no sono, o despertador tocou.
–Droga!... – Chiou. Seu grito ecoou. Saiu bufando pela casa, e reclamando
consigo mesmo. Estava bem melhor após a noite, não bem-dormida, mas, pelo
menos, suavizada.
Odiava morar sozinho. Mas a casa vazia e silenciosa começou a se tornar algo
tão corriqueiro, que ele nem mais reparava nisso.
Fazia um belo domingo lá fora, e tudo parecia calmo demais...
“Tâ, tâ”... O terrível som de sua campainha anunciava que havia alguém a
porta rasgando o silêncio, há pouco instaurado.
Quando a abriu, deparou-se com um homem alto e louro, com expressões um
tanto vazias, dono de um Chevrolet discreto...
–JONAS! Mas que... Surpresa!! A que lhe devo esta visita? – inquiriu Christian,
em tom amigável.
–Assuntos, amigo, assuntos...
Christian franziu a testa, pois não compreendeu bulhufas da colocação de Jonas.
Mesmo assim, abriu a porta e ele entrou rapidamente.
–Sente-se – ofereceu Christian. – Quer tomar alguma coisa?
–Não, obrigado – redarguiu o rapaz, sentando-se numa poltrona de couro
vermelha, à frente de onde Christian ficou.
–E então Jonas, o que te traz aqui? – perguntou Christian, intrigado mesmo sem
denotar isso.
Já eram quase catorze anos de uma amizade completamente estranha, em que,
ambos, quase nunca se visitavam, com exceção da memorável infância; pois os
dois iam se afastando cada vez mais enquanto cresciam.
Jonas respirou fundo antes de responder a pergunta de Christian:
–É algo com o hard.
–O quê? Já está em alguma fase avançada?
–Não, não é isso. Eu estou começando a achar que esse videogame é...
Diabólico...
–Diabólico?!...Como assim, cara? Não estou entendendo...
Christian pode perceber um leve suspiro do amigo quando continuou.
–Periodicamente, enquanto jogava, sentia que o videogame levava um pedaço de
mim. Como se estivesse me... SUGANDO!
Christian susteve-se para não rir.
Mas a conversa parecia séria demais para gozações.
–Ô Jonas... Mas... Isso é impossível! Um videogame sugar o... Espírito de um
indivíduo!! Não acha que está exagerando? Só um pouquinho...
Jonas o fitou como se desejasse que o mesmo acontecesse a ele, para que pudesse
sentir o que o amigo tentava provar.
–Christian... Ainda estou me perguntando o que vim fazer aqui. Pensei que você
ia tentar me ouvir, mas, pelo que vejo, você é exatamente como os outros.
–O que quer dizer com esse... Outros? – Christian interrogou, antiquado.
–Os outros a quem contei sobre isso. Bem, acho que então é melhor eu ir indo,
antes de me decepcionar mais...
Houve uma pausa onde Jonas olhou rapidamente para Christian, e se levantou.
–Então porque veio aqui? Se já sabia o que eu ia fazer...
Jonas parou antes de abrir a porta, e recuou novamente para o colega.
–Porque, por ser tão bobo, achei que você acreditaria em mim!
Antes de Jonas se voltar mais uma vez à saída da casa, Christian mandou:
–Me faça um favor, vai. Senta de novo aqui... eu odeio falar sentado com alguém
de pé...
Jonas fez cara de desgosto, mas se sentou de novo.
–Se eu não tivesse pedido dispensa do trabalho, eu voltaria agora mesmo... –
Jonas falou, mas tão baixinho que Christian disfarçou não ter ouvido.
–Tudo bem. Suponhamos que você foi mesmo “sugado” pelo videogame. Mesmo
que eu ache isso um pouco impossível...
Jonas lançou-lhe um olhar ferino.
–Tá bom... Eu vou acreditar por um momento que isso realmente aconteceu... –
disse Christian, com muito esforço. – Vamos lá: Neste momento, vamos pensar
que Eu sou Você. E estou jogando meu hardlevel quando... Espera aí, como você
sentiu que estava sendo sugado?...
–Ele tentava tirar algo de mim... eu não sei explicar como e porque, mas há
alguma nesse videogame que não era para estar lá... – afiançou Jonas, sua voz
estava trêmula.
Christian não sabia muito ao certo o motivo, mas a história engraçada começava
a dar-lhe arrepios...
–Bom Jonas... pra ser sincero, eu também tive uma experiência estranha com o
hard. Tomei alguns choquinhos desagradáveis, mas era só defeito. Eu até já
troquei na loja. Mas no seu caso, eu não sei. Me parece que..
–Christian, estou bem.
–O que disse? – perquiriu Christian, pesquisando e tentando ler as expressões do
amigo, os músculos do rosto diferentes de antes, mais... Seguros.
–Eu estou bem! Isso tudo não passou de uma brincadeira. Olhe pra mim, eu estou
ótimo!
–Mas...
–E você caiu direitinho, amigão!
Christian olhou estranhamente para Jonas. Tanto sua voz como fisionomia
completamente dessemelhantes de quando chegou...
–Sinceramente, agora eu já não acredito que tudo isso seja uma brincadeira!
Você...
–Pois foi! – rebateu Jonas, ignorando a frase que Christian não conseguiu
terminar. – Bom, eu já vou indo, porque estou... Atrasado pro trabalho...
–Disse o quê? Atrasado pro trabalho? Eu lembro de ter te ouvido falar que pediu
dispensa hoje...
–Não, mas... Eu tenho que ir. – estabeleceu Jonas, sem ao menos responder a
pergunta de modo refletido.
E, sem mais, se levantou e saiu da casa.
Christian achou todo o episódio muito estranho. O amigo havia tido alterações de
humor: de completamente confuso e temeroso, partiu para um tão alegre,
folgazão (como Christian, sinceramente, nunca o viu) que parecia estar
embriagado. E Christian sabia – pois, apesar dos poucos contatos que foram
tendo através dos anos, ele conhecia o amigo há mais de dez anos –, com toda a
convicção do mundo, que aquilo não era uma brincadeira. Não era.
Havia alguma coisa errada com Jonas.
E ele iria passar a limpo toda essa história.

3. A Morte Inesperada

Ele ainda estava um pouco atordoado com toda esta história envolvendo
hardlevel, porém, se encontrava atrasado para o emprego. Ele sentia que ser dono
de uma famigerada video-locadora como a sua era algo inconcebível para alguém
tão jovem como ele. Chamava-se J.S.V. Chamou-se, mais bem dizendo, Sétima
Arte, mas após a morte de seu pai, há três anos, a mudança para José Salém
Vídeos veio a calhar. Uma homenagem; ato excessivamente parafraseado em
muitas arestas por aí, mas sua forma de respeitar todo o trabalho que seu pai fez,
e que se precipitou sobre ele, o caçula dos filhos.
Com uma pressinha, o rapaz pegou um hambúrguer requentado que “dormiu” no
microondas, saiu veloz até o carro e o comeu enquanto dirigia até a locadora.
Christian se envolveu em seus pensamentos. Por alguns breves momentos, de
João Rodrigues Prestes à Avenida Euclides, ele repassava pesaroso em sua mente
o estranho fato que presenciara a pouquíssimos momentos. Era muito estranha a
história de Jonas, muito...
–Puxa, mas que demora em Salém! – Se arriscou em arquejar o mais autoritário
dos funcionários logo que o chefe chegou, sem receios de sua resposta.
Christian, apesar disso, não disse nada. Passou por todos eles, e apenas abriu a
porta.
O interior da locadora era de bom gosto. Donairoso e amoldado. Chegava a ser
aconchegante. O requinte em cada quina acúleo e vértice, em cada cômodo em
que se dividiam os variados gêneros de filmes. As prateleiras, que mesmo sempre
sendo esvaziadas, dificilmente não se encontravam cheias dos mais diversos
lançamentos.
A loja era dona de muitos clientes, a maioria deles, já assíduos. Um pouco da
notoriedade era devida às interessantes promoções, sim, que a elevavam a um
alto grau de primor. Algumas já antigas, da época de seu pai, outras recentes que
ele mesmo e seus funcionários planeavam durante o ano, mas todas congruentes.
Uma delas, imutável e invencível, consistia no seguinte: O cliente com o maior
número de locações no ano tinha direito a cinco grátis no fim dele.
Em outras palavras, o bom trabalho que só crescia ia prosperando cheio de
dedicação, que é o sinônimo e a chave para o bom negócio. Seu pai deu início ao
que acabou tornando-se o grande ganha-pão dos Salém, e Christian estava apenas
continuando. Sua única falha o relacionando a ele, era a falta de amizade quanto
a seus empregados. Aliás, ele tentava. Mas embora tentasse, não adiantava em
nada. Não se dava bem com ninguém em seu ambiente de trabalho.
Todos ali dentro adoravam seu pai, José Salém. Mas tinham sumo conhecimento
– pois por já estarem a par da informação, já que o próprio já os tinha informado
– de que quando ele viesse a falecer Christian o substituiria. E quando isso
aconteceu, bem antes do previsto, ficaram completamente abalados. Dois até se
despediram...
Mas ainda que o gerenciador Christian Salém ansiasse por mandar todos embora,
não podia fazer isso.
Não queria fazer isso.
Aí o coração falava mais alto que as decisões convenientes a ele mesmo: o que
seria de alguns, ou melhor, de todos eles? Provavelmente, não encontrariam um
outro emprego, o que acarretaria alguma falta financeira em suas famílias;
Christian era forte. Poderia muito bem suportar algumas briguinhas aqui, e outras
ali.
Além do mais, seu pai em vida ficaria muito desapontado em demitir quaisquer
de seus amigos, a não ser por motivos austeros.
Quem sabe se contado a alguém, o modo de pensar do chefe despertasse algum
tipo de curiosidade por parecer copiosamente paspalhão. Mas, em sua mente,
algo o implorava para que não despedisse nenhum desses pobres coitados..., por
isso, toda vez que surgiam benditas brigas ele dizia a si mesmo: “Tenha
Piedade”...
...E, até hoje, seu plano da piedade nunca dera errado. Até Hoje...
–AH... Cala a boca, Salém, eu já não te mandei calar!! – exigiu irritado o mesmo
funcionário que tratara o chefe mal na entrada, nervoso com uma repentina
ordem, que acabou num bate-boca.
Christian tentou o plano da piedade, mas não deu nada certo:
–Senhor Lemos – disse Christian, sempre muito educado, até com o mais reles
empregado.
–Fala, seu mané!... – respondeu, olhando para os colegas, que pareciam não
apoiar a ousadia.
–Está despedido.
–Perdão?
–Está despedido! – Christian incrementou rispidez em sua voz.
–Mas... Senhor Salém, eu...
–Sem mais, Senhor Lemos. O senhor não é mais meu funcionário.
–Eu... Eu...
–Guarde suas palavras, por favor, Senhor Lemos.
Lemos vistou o chefe com olhar de remorso, e se ateve como o mesmo pediu.
Não desejou nem ficar até o fim do expediente; destituído de suas funções, foi-se
embora, prometendo voltar no dia seguinte para buscar a quantia em dinheiro que
era sua por direito.
–Desacato... não será mais aceito! – brandiu Christian logo depois da saída de
Lemos.
Um cliente entrou, meio desorientado, durante a repreensão do chefe. Dois ou
três funcionários foram atendê-lo, para quebrar um pouco o clima.
–Se houver algum problema, José... Avise aos outros que estarei na minha sala.
O silêncio cuidou de se acomodar entre os serviçais da loja, salvo aqueles que
atendiam ao cliente chegado há pouco.
Agora Christian, confortavelmente assentado na poltrona-trono que já pertencera
a seu pai, estava prestes a estrear, finalmente, seu hardlevel.
Seu amor por jogos era incondicional. Ainda mais uma novidade, uma nova
tecnologia. Por isso Christian adorava tanto videogames. Era quase como um
instinto: um impulso dificílimo de se controlar.
O retirou da caixa, cintilante como um curumim, e o ligou.
–AH!!! – O mesmo choque que o invadiu na primeira vez que o ligou, voltou a
ele...
...TOC, Toc, toc.
–Entre.
–Algum problema, senhor? – investigou um de seus funcionários, apreensivo.
–Não, não. Meu grito foi muito alto?
–Foi sim Sr.
–Me desculpe Elias. Volte ao trabalho.
–Sim senhor.
Elias fechou a porta levemente, e saiu a passos largos.
Christian voltou os olhos para o videogame. O seu Ódio Contra a Máquina
estava se intensificando. Já era a segunda vez que ocorrera o mesmo problema.
Nervosíssimo, o rapaz guardou o videogame na caixa e começou a pensar no
exato momento em que fez a suposta troca na loja. Ia voltar lá. E ia agora.
–Mas... Senhor Salém!... Quem vai gerir a loja no seu lugar... Enquanto estiver
fora?
–Você. Pode fazer isso por mim, Marcos?
–Eu?! Claro!! – surpreendeu-se Marcos.
A gentileza de Marcos foi respondida com um sorriso discreto e rápido, que
quase passou despercebido.
Entrando no carro e ligando com pressa a chave de ignição, o rapaz deslizou até a
Gameshow.
Ficou inconformado à medida que se ia se aproximando, porquanto o quarteirão
da loja se encontrava lotado. Voltou algumas quadras, e guardando o carro no
estacionamento mais próximo dali.
A tarde muito formosa e quente exigiu seu ray-ban, que normalmente penava no
porta-luvas do rapaz nestes mesmos meses todos os anos.
A temperatura agradável, gostosa, normalmente atraía multidões para o centrão
de São Paulo.
Exatamente por isso, Christian achou muito curioso o fato de a rua estar tão
inóspita.
O percurso do estacionamento até a loja, mesmo sendo curto (não passavam de
três quadras), reservou-lhe uma surpresa nada deleitável.
Enquanto manejava o aparelho defeituoso, alguém o surpreendeu:
–Ei... me passe o seu hardlevel, ou eu enfio esta faca nas suas costas – silvou
uma voz desconhecida, demasiado ameaçadora.
Christian sentia a lâmina cortante da faca tão colada em sua pele, que ele tinha
absoluta certeza que qualquer movimento brusco a alojaria dentro de seu corpo.
–Espere rapaz... não vamos nos...
–Me passe... Agora! – irritou-se o ladrão, que parecia não querer rodeios. No
entanto, seu tom de voz parecia ainda mais baixo.
–Claro – acalmou Christian. – Mas seria mais fácil se você tirasse essa faca das
minhas costas. – sugeriu.
Christian sentiu, lentamente, o instrumento cortante se afastar de sua pele. No
mesmo momento, uma mão se estendeu até onde ficou bem visível à seus olhos.
–Quando eu disser três..., você vai colocar o seu hardlevel em minhas mãos...
Sem Gracinhas...
Christian não fez nada senão assentir.
–Um... Dois...
–PARADO AÍ, SEU IDIOTA! – Urrou outra voz desconhecida, as costas de
Christian.
Mas era tarde demais: Christian já havia posto o videogame nas mãos do ladrão,
que saíra correndo tão velozmente, que driblou fácil o policial que tentara
impedi-lo...
***

–... Me perdoe, jovem. Eu não consegui pegá-lo... – desolou-se o policial, um


tanto velho, insatisfeito com ele mesmo. – Bandidinhos de uma figa! Aproveitam
a falta de movimento para praticar seus desprezíveis atos!
–É tudo assim mesmo... Mas não se culpe nem se incomode, viu? O senhor fez o
que pôde. Eu mesmo vi...
–É... fiz sim... Falando nisso, você não quer ir prestar nenhuma queixa na
polícia? Se quiser, eu te acompanho... – pediu o policial.
–Não, não é necessário. Muito obrigado, Senhor...
–Nélson. William Nélson – respondeu o policial, enxugando o rosto suado com
um pano sujíssimo, que parecia já ter sido usado várias vezes.
–Policial Nélson, o senhor por acaso sabe o motivo daquele tumulto, bem ali? –
questionou Christian apontando para a próxima esquina, onde havia um
conglomerado contornando toda a loja Gameshow.
–Ah sim, meu caro... – o velho policial parou por um momento, provavelmente
para respirar – A loja FALIU.
–O quê? – Christian insistiu, por ser estranha a seus ouvidos a última palavra que
ouvira.
–Faliu, Quebrou, Acabou, ou seja lá qual outro sinônimo você queira usar...
–Não, não pode ser... A Gameshow?... Você sabe... Por quê?
Contaram-me que os fabricantes desse “hardilével” – o policial deteve-se
novamente – É assim que chamam o joguinho, não?
Christian concordou para que o policial pudesse prosseguir.
–Então, como eu ia dizendo, o fabricante desse videogame, não mandou novos
exemplares do jogo aí para a loja. No entanto, a clientela o procurando não
acabou mais rapaz! Soube que não iam a loja procurando... Outras Coisas.
Apenas esse hardilével. Só ele... Aí aconteceu que os pedidos foram aumentando,
aumentando, e os “hardiléveis”, diminuindo. Até que a loja decretou a falência.
–Quer dizer que eles não tinham mais hardlevels?
–Não. Desde ontem à tarde, comentaram no meu bairro, que fica a umas duas
esquinas da loja.
–Mas ontem mesmo ele foi lançado! – Christian exclamou surpreso, em tom
sutural.
–Pois é. Não durou nem um dia...
–Puxa vida... pelo menos isso pode explicar meu videogame... – Christian
recordou o momento em que o vendedor fingiu ter pego outro hard na despensa
da loja.
–Como disse?
–Não... nada... Mas, e o senhor?... É mesmo um policial? – mudou de assunto o
rapaz.
–Na verdade... Não. Não sou mais. Ah sim... o meu uniforme não é?... –
continuou William, quando percebeu que Christian fitava suas vestes, sem
compreender – É emprestado!... Custou um certo tempo até que o pessoal do
departamento me deixasse vestir isto aqui novamente... – comentou, orgulhoso
do fardo azul que vestia.
–Então o senhor não é policial. Mas, por que você...
–Não, não sou. Agora sou apenas um “ajudante da lei”. Assim como creio que
você seja, e que a maioria das pessoas deveriam ser...
–Mas eu não entendo porque o senhor ainda anda com esse uniforme. Já não é
um pouco... Arriscado, para alguém como o senhor?
–Arriscado? Creio que não, meu rapaz. Não são as pessoas que estão dentro dele
que precisam se sentir em perigo, e sim as que estão fora, e não cumprem as
normas.
–“Se é assim que pensa”... – sibilou Christian, em voz substancialmente baixa.
–Disse algo?
–Eu? Não...

...Num lugar assaz distante dali, a tarde já começava a findar e o céu nebuloso,
vestido de nanquim enigmático começava a surgir. A agradável praça central, um
pouco apinhada de gente, punha-se lentamente a ser evacuada devido ao tempo
encoberto. Porém, no meio de todos, Jonas Anderson tentava gritar...
“Socorro! Aqui, Socorro!”... embora gritasse muito, ele não saberia explicar se
questionado porque seus gritos saíam... Abafados.
Estava no meio de um aglomerado de pessoas, mas parecia estar invisível.
Ninguém o ouvia ou via; Jonas estava... MORTO.
Há pouco tempo atrás, ele viu seu corpo levantar do banco onde estava sentado,
jogando o game hardlevel, e sair andando, sem ele. Jonas tentou segui-lo, mas ele
se perdeu em meio a multidão.
O rapaz não tinha ideia de como havia acontecido isto: como sua alma havia sido
separada de seu corpo. Mas, consigo, havia um pequeno palpite, sobre quem
havia cometido horrenda maldade: Hardlevel.

4. O Código

Christian Se Despediu do excêntrico velhinho que usava roupa de policial, e


conferiu no relógio que já eram incríveis sete da noite. Ainda teve tempo de
voltar a sua locadora e trabalhar até as nove, o horário em que fechava.
–Até amanhã senhor Salém, e obrigado... – agradeceu Marcos, que ficara um
pouco mais do que os outros funcionários resolvendo um problema no retro
projetor que passava trailers de filmes na locadora.
–Obrigado pelo quê, Marcos? – quis saber Christian.
–Por acreditar em mim... – expôs, grato.
Christian ficou feliz e inseguro por alguns instantes, até que respondeu:
–Isso não foi nada... E pode acreditar que esta não será a última vez que eu vou
precisar de você gerenciando a loja em... Então, até amanhã, Marcos!
–Até, senhor – Marcos redarguiu, empolgado.
Enquanto os dois se afastavam, Christian ainda ofereceu:
–Você quer uma caroninha? Se quiser, vamos...
–Não é necessário senhor. Meu ônibus vai passar em menos de dez minutos.
–Você é que sabe...
–Não precisa. – Obstinou Marcos, ainda estranhando um pouco a mudança de
postura do chefe.
–Tudo bem, se cuide em rapaz! – rematou Christian, impassível.
–Pode deixar...
Ele entrou no carro, e ligou o rádio para ouvir algo enquanto dirigia. Sentiu-se
afortunado e jovial. Se havia despedido alguém no dia de hoje, pelo menos
começara a condescender em amizade com algum funcionário.
Atingiu os portões de sua residência na rua Jamil Martins número mil e cento e
doze, mais conhecida por se localizar próxima ao parque ecológico.
Enfiou o carro de modo expresso na garagem para cruzar o gramado correndo, a
fim de se abrigar contra o frio abaixo das cobertas aconchegantes de sua cama.
Entretanto, por incrível que pareça, sempre que tentava fechar os olhos, se
lembrava de Jonas.
Ele recordou que devia uma ao amigo. Prometera a si mesmo averiguar toda a
estranha constituição ligada a hardlevel... Mesmo com o forte vento que se
comprimia no vitrô de seu quarto, e com a ligeira sensação de que hoje teria uma
ótima noite de sono...

***

O closet abarrotado de roupas que Christian quase nunca usava.


Decidiu saborear umas delas, nesta noite friorenta.
Quando se encarou novamente no espelho, casaco, cachecol, calças de linho.
Estava completamente vestido para penetrar no crepúsculo.
Ligou para uma outra pessoa, pois tinha de ter certeza que a rua e o número que
tinha do amigo ainda eram os mesmos, pois ele obviamente poderia acabar dando
com a cara na porta. Era esmo que ele acreditava que Jonas não tivesse mudado
de casa até então. Mas preferia prevenir que remediar.
Pegou as chaves do carro, e saiu.
Começara a chover enquanto Christian dirigia, e foi necessário que ele ligasse os
pára-brisas, pois além da chuva, uma densa névoa colava em seus vidros.
Ele esperava que a mãe de Jonas ainda estivesse bem acordada, porque ele
odiaria ser desagradável numa álgida noite de inverno...
–Senhora Anderson?
A mãe de Jonas apertou os olhos, afundou os óculos no rosto, e viu que era a
pessoa que ela realmente imaginara que fosse.
–Christian?... Eu... Não acredito... Entre, filho!!!
–Me perdoe o incômodo, Sra. Anderson. Tanto tempo que nós não nos vemos, e
eu venho aqui num horário destes...
–Incômodo? Não diga isso, Christian! Eu estou completamente lisonjeada em
recebê-lo! Quanto tempo, querido!... – exclamou a Senhora Anderson, que
mesmo já passando das dez da noite, parecia extremamente contente com a visita
imprevista. – Entre filho, entre! Está muito frio para ficarmos parados aqui fora,
não acha? – perguntou num tom amável enquanto espaçava a porta para que
Christian pudesse entrar.
–É, está sim...
O rapaz adentrou o mesmo antigo doce lar da família Anderson, e apreciou ao
entrar a suntuosa lareira de mármore ao centro, que mesmo um tantinho gasta
permanecia imponente como peça principal da sala. Um confortável estofado
verde-abacate coberto de almofadinhas de diversas cores disputava a primeira
posição com a lareira, e as cortinas brancas de renda terminavam por deixar tudo
angelical.
A Senhora Anderson convidou-o a sentar-se, trazendo uma bandeja com alguns
sanduichinhos e duas xícaras de chá de erva-cidreira.
–O Jonas não está? – averiguou Christian de modo prospectivo, percebendo a
ausência de uma xícara.
–O Jonas... ainda não chegou – disse a Sra. Anderson, jogando os cabelos louros
e engraxados como o do filho para trás dos rosto – Ele saiu logo pela manhã...
mas não voltou até agora.
–Você já ligou pra ele? – perguntou Christian tomando uma boa dose de chá.
–Sim. Ninguém atende... – Ela olhou para o quadro onde o filho sorria, e
continuou – Algo Aconteceu. Ele nunca fez isso. Nunca...
–Senhora Anderson, contate a polícia – sugeriu Christian, preocupado.
Mas quando ele disse isso, a porta se abriu às suas costas.
–Filho! – bradou a Sra. Anderson – Onde esteve?!
–Por aí – respondeu Jonas, mas a resposta não agradou em nada sua mãe. De um
pulo, ela saiu do sofá e foi até seu filho, parado ao pé da escada.
–Jonas... olhe para mim. OLHE PARA MIM! – ordenou a mãe, quando o filho
parecia ignorar seu pedido. – Enquanto estiver sobre este teto, você nunca...
Nunca mais irá fazer isso. Você me entendeu?
–Claro... – contrapôs, parecendo irônico.
Jonas parecia evitar o olhar da mãe. Subiu as escadas e nem falou com Christian,
como se não o conhecesse. A Senhora Anderson se virou, e percebeu que havia
gritado com o filho na frente de Christian.
–Oh, Christian... perdão por isso... eu não deveria ter falado assim com ele, e...
–Não Senhora Anderson. – Christian começou com seriedade. – A senhora está
mais do que certa de brigar com ele. Ele é quem não devia ter te preocupado
desse jeito! Será que não se lembra da ocasião em que perdeu o pai num acidente
de carro, e...
A Sra. Anderson quase chorava.
Mas nem se tratando tanto disso, quem era ele para se atrever a tocar no assunto
da morte de seu marido? Quem?
Envergonhado com sua própria petulância, o rapaz e pensou em algo rápido para
que pudesse sair da sala.
–... Eu vou falar com ele... – sugeriu, se retirando alcantilado.
... “TOC, toc, TOC”...
–Jonas, posso entrar?
–Sim. – Uma voz antipática se fez ouvir do lado de dentro da porta.
Quando Christian a abriu, contemplou o quarto mais bem-arrumado que já vira
na vida. Realmente, era possível perceber uma notável diferença entre a infância
de Jonas e a fase adulta.
O garotinho desarrumado parecia ter se tornado um homem dos mais asseados.
Christian procurou recordar as várias vezes que o amigo era repreendido por sua
mãe pelo quarto tumultuado.
“O Seu Quarto não é assim, né Christian?”
“Não” – Ele sempre dizia. Embora nunca fosse verdade...
–Christian?
O rapaz voltou ao quarto.
–Fale.
–Fale você. Por que veio aqui? – perguntou Jonas, ranzinza.
–Ora essa, eu fiquei preocupado com você, depois que foi a minha casa e falou
tudo aquilo...
–Eu estou bem.
–Está? – questionou Christian, recognitivo.
–Estou.
–Por que veio tão tarde? Quando eu cheguei, sua mãe estava morrendo de
preocupação.
–Eu tive um... Compromisso. – Apesar de curto, Jonas respondia torpe em
demasia.
–Sua mãe disse que você não atendia o celular – Christian contra-atacou.
–Estava desligado.
–Não faça mais isso, Jonas. É o meu conselho a você. Não tem ideia do quanto
sua mãe ficou nervosa.
–Isso não importa.
–O que disse?
–O que importa é que estou bem – continuou.
Christian não estava conseguindo compreender o amigo. Ele parecia tão...
Insensível...
–Jonas, acho que você precisa ficar um pouco sozinho.
–Concordo Plenamente.
Neste momento, ele sentiu vontade de dar um soco em Jonas. Antes de tudo
queria ajudá-lo, mas o amigo não dava à mínima.
Desceu sem se despedir e deu um forte abraço na Sra. Anderson, pois ele sabia
que, por sua vontade, nunca mais botaria os pés naquela casa.
Saiu em dualidade com a escuridão friorenta até que chegasse a seu carro, quente
e confortável.
Eram dez, quase onze da noite e ele outra vez a porta de sua casa. Até então, não
havia tomado conhecimento de que demorara tanto na casa de Jonas.
Graças à decisão de ir à casa do amigo, sua insônia estava de volta.
Algumas horinhas de sono eram insolvíveis para um dia produtivo em seguida,
mas ele não tinha um pingo de vontade de deitar, e já sentira que teria dificuldade
em dormir como no dia anterior.
Passou a examinar a cobertura ornamental de sua cama, cilíndrica e franjada em
forma de caracol, e acabou ressonando guturalmente...

***

–Por que você morreu, Susane? Também foi por causa do hardlevel? – Jonas
indagou a uma mulher que acabara de chegar, também em espírito, na praça onde
se reuniam.
–É... acho que sim... – a mulher chamada Susane respondeu, muito por ainda não
saber de nada.
–Todos nós – começou Jonas, havia seis ou sete pessoas detrás dele, que senão
crianças, adolescentes – ao que tudo indica, morremos por causa do hardlevel.
–Mas... e agora? Não há como voltar? Perdemos nossos corpos e não podemos
mais recuperar? – questionou a mulher, em tom amofinado.
–Há... uma hipótese...
–E qual é? – quis saber Susane.
–Existe um código, para que façamos conexão com alguém que esteja vivo. É um
ótimo modo de termos alguma chance de voltar.
–Perdão. Eu não entendi nada do que disse... – a mulher contou, sem se
envergonhar.
–Porque nem eu sei muito bem o que estou dizendo... – declarou Jonas. – Foster,
explique a ela, por favor.
Um homem senil saiu da escuridão.
–Você também jogava... Hardlevel? – interrogou Susane, parecendo surpresa
com o fato de alguém idoso se interessar pelo jogo.
–Sim. Não é só porque sou velho que não posso gostar de um videogame novo,
que parecia inteligente – alegou Foster, desaprovando o julgamento da moça.
–Ele foi o primeiro a chegar aqui, Suzanne. E conhece coisas que ainda não
sabemos – Jonas esclareceu a moça.
O rapaz olhou para Foster novamente como se fosse um sinal para que ele
pudesse começar a falar.
–Bem, então a início de explicação, eu creio que já não sejamos os únicos
afetados pelo videogame.
–Afetados? Estamos mortos, não estamos? – interrompeu Susane, abismada.
–Deixe ele falar! – sugeriu uma garotinha trigueira de olhos castanhos-areia, que
também chegara há pouco tempo.
–Bom, como eu dizia, não somos os únicos afetados – repetiu Foster a palavra
que incomodou Susane. – Na verdade, presumo que não somos nem dez por
cento deles. Como vêem, estamos em pleno centro da cidade. Só não podem ver-
nos, ou sentir-nos... – explicou Foster, dando um soco no rosto de um homem que
passava, mas ele não o sentiu. – Acredito que o hardlevel seja um tipo de...
Transferidor.
–Transferidor? Como assim? – questionou um garoto que também estava com o
grupo, absorto nas informações que Foster passava a eles.
–Não sei se sentiram o mesmo que eu, mas havia algo estranho dentro do
videogame.
–“Algo Estranho” – repisou Susane em tom francamente irônico. – Pode ser
mais específico, Sr. Sabichão?...
–Havia VIDA na máquina! – respondeu Foster excelso e aborrecido com a moça.
Susane o olhou sovada e perplexa.
–Isso é Impossível!
–Não, não é, Susane. Infelizmente é verdade – divulgou Jonas, desenredado.
–O código que o rapaz Jonas falou, só pode ser feito por uma pessoa. Temos
apenas que nos preocupar em garantir que nenhuma outra o esteja usando no
momento, senão, pode dar... Errado.
–E como ele pode ser feito? – questionou um garoto baixo de cabelos pretos e
impugnados, referindo-se ao código.
–Teremos que esperar cinco pessoas passarem, e cada uma delas terá um
número marcado bem aqui – disse Foster, apontando para a região da testa. –
Quando todas passarem, juntamos os números e vemos o resultado: esse é o
código.
–E como você sabe de tudo isso? – intrigou-se Susane, novamente.
–Leitura.
–Leitura? – retiniram todos ao mesmo tempo.
–Pra ser mais exato, Relatos Secretos de Bóris Brainvich, de Íris Brainvich.
Todos permaneceram olhando-lhe enfadados, mas ele não continuou a falar.
Apenas voltou a se sentar no banco metálico onde estava exatamente quando o
chamaram.
–Então todos vocês estão esperando esses números – perguntou Susane em tom
presunçoso.
–Sim – Jonas rebateu.
–E encontraram quantos?
–Nenhum.
–E se esses números não existirem? Se não chegarem até nos?
–Existem Susane. Foster disse que existem – respondeu a garotinha morena.
Mas Susane possuía um defeito grave: contestar tudo o que lhe era apresentado.
De modo súbito, após a frase da garota, ela explodiu:
–Isso é uma tremenda LOUCURA! Como vocês podem acreditar no que esse
velho decrépito está dizendo! – exclamou, com Foster tão afastado, que não
podia nem ao menos se defender. – Ele não sabe o que diz! Está baseando tudo
no livro idiota que leu!!
Todos olhavam para ela com ar de desaprovação ao que dizia. Perdendo espaço, a
moça decidiu recuar:
–Qual é, gente... Era só uma piada...
–Não era. Piadas têm graça.
–Por favor, pessoal... Não queira polemizar discutindo. E você Susane, se não
acredita nas palavras de Foster, pode sair daqui. Vá procurar outro grupo.
Realmente parece loucura, mas...
–Um número! – alguém berrou.
Todos viraram os olhos imediatamente para onde o rapaz abalizara. Realmente,
uma mulher passava a frente deles. E existia um número marcado em sua testa: 8.
–... É a nossa única chance... – Jonas finalizou sua frase.
–Oito. Número oito... – disse o mesmo rapaz, tentando memorizá-lo.
O jovem Jonas Anderson agora sabia que todos, em especial a desconfiada
Susane, acreditariam pelo menos um pouco no que Foster procurava afirmar. Ele
não fazia ideia de como o velho conhecia tantos segredos, mas sabia que ele não
mentia, como Susane insistia em procurar provas concretas contra. Na verdade,
até ele, às vezes, se sentia um tanto incrédulo em analogia as revelações de
Foster, por nunca ter ouvido falar de algo parecido; Mas não estava pouco
ligando para isso. Contanto que conseguisse seu corpo de volta, tudo estaria
bem...
...Conforme a noite abatia-se, Jonas percebia que, ainda que sem corpo, sentia
sono. Alguns do grupo já roncavam audivelmente, mas um par de olhos negros
insistia em permanecer vividamente aberto.
–Não vai dormir, garoto? – interrogou o dono dos olhos ao examinar a face
sonolenta, obviamente em alma, de Jonas.
–Não. Eu vou ficar aqui acordado com você – determinou Jonas, decidido.
Foster não disse nada; mas ficou admirado com a decisão desvanecedora de
Jonas, pois todos estavam dormindo.
–Bom Foster, enquanto não temos nada pra fazer, vamos nos conhecer melhor,
não é? – sugeriu Jonas, amigável.
–Claro! Já estava quase dizendo o mesmo – confessou Foster, embora, pelas
circunstâncias, não parecesse ser verdade.
–Eu sou Jonas Anderson, e tenho vinte e três anos. Trabalho, quer dizer,
trabalhava... É a força do hábito né...
Foster riu.
–Como eu dizia, trabalhava numa empresa de contabilidade, e ainda morava com
a minha mãe... E isso até que me deixa um pouco preocupado. Eu fico
imaginando como ela deve estar...
–Ela deve estar bem... – Foster começou.
–Tomara.
–... Se você não tiver retornado para casa – rematou. – É claro que, por ser um
garoto inteligente, você sabe que estou falando do seu corpo, não é?
–Claro.
Foster percebeu o olhar de preocupação de Jonas referente à sua mãe, e quis
mudar de contexto rapidamente, na tentativa de que ele esquecesse um pouco o
assunto.
–Você já falou um pouco sobre você, garoto, então agora é minha vez – afirmou
Foster com um sorriso nada empolgante. – Eu sou Samuel Foster, nascido no dia
dezesseis de agosto de mil novecentos e cinquenta e sete. Fui aposentado por
invalidez do meu serviço no exército quando, após um tiro, perdi completamente
os movimentos da perna esquerda.
–Então você...
–Sim. Precisei amputá-la – respondeu Foster, prevendo a pergunta de Jonas – Eu
usava uma perna mecânica no lugar dela. Eu...
–Foster...
–Espere, me deixe terminar, garoto...
–Foster! – Jonas bradou exageradamente arisco. – Um número!
Os dois estavam sentados cara a cara, de modo que um via a praça, e o outro, a
rua. A escuridão estava aliciada com um tempo nubífero, por isso era tão difícil
enxergar.
Mas Jonas o viu. Ali estava ele, cravado na testa de um homem que vinha
apressado, e corria tanto, que parecia estar fugindo de alguém.
–É! É um dois! – contra-atacou Samuel ao virar-se ligeiro para a praça, o local
onde Jonas vigiava.
–Eu acho que não era um dois... – avisou Jonas, momentos depois de o homem
passar por eles.
–Então vá atrás dele! – ordenou Samuel.
–O quê?...
–Vá... Atrás... Dele!... AGORA!!!
Foster não precisou nem terminar a frase porque Jonas saiu em disparada atrás do
homem. Se sua vida realmente dependia desses números, ele não hesitaria em tê-
los. Estava no encalço do sujeito desconhecido, quando ele dobrou uma esquina.
Jonas arquejou, extenuado, e também entrou na mesma rua. Parou, e examinou
todos os cantos dela, mas o homem não estava lá... havia desaparecido... Mas...,
para onde teria ido? Era um beco sem-saída, ele não poderia ter ido a lugar
algum, e...
–AHH!!!
Jonas sentiu algo transpassar sua alma. Era o homem. Ele parecia ter tentado
agarrá-lo, mas, sem sucesso.
O rapaz correu como nunca correra em vida até se distanciar razoavelmente do
homem misterioso.
...O que será que ele queria? O que viera buscar? Será que, de alguma forma, ele
sabia da presença de Jonas ali?...
Essas eram algumas das perguntas pendentes enquanto o rapaz corria, mesmo
dispnéico.
Um.
O número era um.
E não dois, como Samuel pensara.
Jonas desconhecia a razão pela qual o homem pulou sobre ele, mas sabia que ele
não pretendia algo bom.
Retornou a praça trazendo o verdadeiro número, e o sol se pôs de vez no céu
azul...

***

...Pih, Pih, Pih,...


O despertador já cortava o silêncio há quase cinco minutos.

“Indistinguivelmente, o som do relógio se uniu ao som das vozes em seu


sonho, e ele percebeu estar atrasado”...
... Jonas dizia: “Saia daqui”, “ Eu estou bem” ,“ Não preciso da sua
ajuda”...
–Cale a boca, JONAS! – O grito de Christian conseguiu ser mais sonoro e
intenso que o próprio despertador.
O rapaz se levantou, abalado e com frio (havia dormido apenas com um
edredom, enquanto um vento tempestuoso golpeava as vidraças mal-fechadas de
seu quarto), voltando-se os olhos sorrateiramente ao relógio, conferindo que já
devia ter saído de casa há quinze minutos. Se arrumou, comeu algo, e saiu calmo.
Por mais que procurasse se tranquilizar, ele sabia que por estar preeminentemente
mal, qualquer episódio de discórdia, mínimo que fosse, acabaria com seu lado
emocional. Egressou de sua casa com seu mesmo sofisticado carro preto,
tentando, no caminho, responder algumas perguntas que tinha sobre Jonas. Por
que o amigo fora tão rude com ele? Por que o tratara tão mal? Não haviam sequer
razões para isso.
Nenhuma delas...
Ele chegou à locadora cumprimentando um por um seus funcionários, que
pareciam estar fazendo um bom trabalho nesta manhã. Pediu perdão a todos pelo
modo que vinha tratando-os; admitindo que não estava sendo um bom chefe.
–Se eu estivesse em seu lugar eu não diria isso, senhor... – reprovou Marcos –
Seu pai infelizmente faleceu, mas agora, você é nosso chefe!
–Eu sei, Marcos... mas não é só porque sou chefe que devo me sentir superior a
todos vocês... – acrescentou.
Christian podia ser o que fosse na vida, mas algo que parecia passar de modo
patogênico em toda a sua geração era a humildade. Se hoje a família de Christian
era abastada em finanças, foi porque ontem foram humildes. A simplicidade era
algo que sempre esteve, e, se dependesse de Christian, sempre ficaria detrás dos
portões da família Salém...
–Eu tenho que ser honesto, senhor... – começou Jorge, também funcionário –
Você é um chefe, mas não se encaixa muito bem nesse perfil. Eu preferia mesmo
o seu pai... – confessou.
Christian ficou com uma cor escarlate cálida; mas não respondeu nada a Jorge.
–Porém, depois do que nos disse, eu aprendi a vê-lo com outros olhos... – Jorge
terminou.
Christian sorriu, e deu um espontâneo e gratuito abraço no funcionário.
–Obrigado, Jorge... Obrigado a todos vocês! – exclamou. – Hoje teremos muito
trabalho, pessoal! Temos muito o que fazer!
–Claro, senhor! Estamos todos prontos! – respondeu um deles, exultante com o
novo chefe.
E o dia foi muito agradável. Após fazer as pazes com todos, Christian pôde
trabalhar melhor em sua própria empresa.
O funcionário despedido, Erick Lemos, voltou à locadora. Conversou com
Christian em sua sala, e saiu normalmente, sem causar nenhum tipo de confusão.
Até passou pela cabeça do rapaz readmitir Erick, mas ele sentiu que não era a
coisa certa a se fazer.
Não era orgulho, nem muito menos prepotência. O problema era que além das
discussões com Christian, Erick também aventava com os próprios colegas de
trabalho.
–Rapazes, eu gostaria de informar-lhes que vocês vão ter novos companheiros de
trabalho. Ou melhor, companheiras...
–Ah, Salém! Até que enfim uma mulherada aqui na loja! Já tava pegando mal pra
gente!... – Elias chacoteou.
–É... ao todo são seis que vão fazer entrevista comigo essa semana, mas eu
preciso de apenas três...
–Beleza, então até semana que vem essa loja já vai estar de cara nova...
–Espero que sim, Marcos...
Das moças para entrevistas, apareceram apenas duas no primeiro dia.
Christian gostou de ambas: as achou simpáticas, bonitas, e se decidiu por
contratá-las. Mas o problema é que se todas fossem assim, ele iria acabar ficando
indeciso entre elas, e os funcionários homens...
Teve fim mais um dia de trabalho, e Christian se despediu cordialmente de todos
os funcionários.
Ele estava tão bem que decidiu pegar alguns filmes em sua locadora para ver se
podia ficar ainda melhor.
Seus planos para esta noite eram somente assisti-los; primeiro pôs um de
faroeste, não muito empolgante, e acabou pegando no sono enquanto
acompanhava...

***
Chovia Granizo. Mas, mesmo sem pele, Jonas podia senti-la, flagelando-
lhe, enquanto perseguia o dono do quinto número.
Os dois que antecederam esse haviam sido fáceis, passaram andando. Mas este
pequeno garoto cismara em correr tanto quanto o homem com o número 1.
Jonas o acossava há mais de dez minutos, e toda vez que se aproximava, o garoto
dobrava a rua. Foram parar numa alameda escura e suja, com árvores tão grandes
e frondosas que a deixavam mais escura e sombria do que parecia ser.
Já em seu encalço, o garoto parou, alcantilado, e começou a olhar para o lugar
onde Jonas estava. Um horrível frisson o invadiu quando o garoto perguntou:
–Quem é você?
Jonas suspirou por um momento, e viu o número 6 gravado em sua testa.
–Meu nome é Jonas, e... estou morto.
–Por que está me seguindo?
Por mais incrível que possa parecer, Jonas não sentiu ilícito contar ao garoto tudo
o que lhe havia acontecido.
–Você está LOUCO! Eu não tenho número nenhum gravado na testa!! – berrou o
menino, quando Jonas terminou de contar toda a indigesta história.
O rapaz resolveu não discutir com o garoto, porque afinal, ele não tinha nada a
ver com este acontecimento. Seria muito melhor ainda deixá-lo fora disso, onde
exatamente estava quando começou a conversar com Jonas.
Despediu-se do menino com apenas um aceno de mão, e avançou em direção a
praça onde todos do grupo o aguardavam, a espera do número. Quando estava
prestes a cruzar a rua, o garoto disse:
“ESPERE”
Bem como Jonas volveu-se novamente, viu dois pares de olhos encararem os
seus. Um o enfrentava firmemente; mas, o outro, não tinha muito foco; Jonas
sabia ainda estar invisível a ele.
–Ali papai, “Olhe”... – dizia o garoto, apontando insistente para onde Jonas
estava.
–Eu não o vejo, filho – respondeu o homem, enquanto Jonas pregava os olhos no
número Um, repousado em sua testa.
–ELES contaram que ele diria que temos números marcados na testa. E ele disse,
papai, ele disse...
–Filho, eu quero que me diga exatamente aonde ele...
–Papai! Ele está... CORRENDO!!!
Jonas saíra em disparada dali. Ele sabia que existia alguém por trás de tudo isso.
Alguém que queria impedir que usassem o código...
–MAIS RÁPIDO, PAPAI! Mais Rápido!!
Apesar de muito assustado, Jonas Anderson não olhava para trás. Ele sabia que o
pai do garoto estava extremamente próximo. Pelo menos isso poderia elucidar o
pulo do homem sobre ele na tentativa de apanhá-lo, um dia antes. Mesmo que
considerasse impossível a hipótese do homem conseguir pegar-lhe, não queria
arriscar. Não Podia arriscar... Ele corria de modo contemporizado, pois estava
perdido. Nunca andara por aquele bairro, então estava procurando ao menos
despistar o garoto e seu pai.
–JONAS, AQUI!
O rapaz olhou para o lugar de onde surgiu a repentina voz, e viu um velho de
cabelos e barbas que pareciam revestidos com uma camada prata dentro de um
tipo de incubadora.
–Que diabos é isso?...
–É um esconderijo, ora! Agora entre e cale a boca, porque o garoto pode nos
ouvir – advertiu o mesmo velho.
“Jogue o cubo PAPAI! Jogue o CUBO Agora!!!”
“Onde ele está, filho?!?”, Jonas sentiu a voz rouca do homem se aproximar mais
e mais do lugar que ele se encontrava.
“Eu... NÃO SEI!... Ele SUMIU!!”
“Mas que Droga! Quase o pegamos!”
“Ainda podemos pegá-lo! Vamos por ali...”
E os sons dos passos do homem e do garoto começaram a se distanciar dali.
–Eles já foram – informou Samuel, abrindo a portinhola do lugar onde se
escondiam.
–Você ainda não me explicou o que é isso – obstinou Jonas, apontando firme para
o artifício de onde saíram. – Eu nunca vi um troço desses na minha vida!
–O problema... – principiou Samuel Foster – É que você não está vivo... Você se
esquece disso? – indagou, olhando de maneira especiosa para Jonas.
Jonas não respondeu, pois odiava se sentir diminuído, ou ignorante. E no
momento, ele se sentia exatamente assim.
–Quem eram eles? O garoto e o homem?– perguntou Jonas após eles já haverem
percorrido duas esquinas, e ele sentir-se mais seguro de si mesmo.
–Bom, Jonas, eu quero que saiba que não sou nenhum expert formado em
“defesa contra alienígenas ou outros perigos alheios”. Eu fui em vida uma pessoa
normal, que por ter tido um tempo de vida maior que o seu, aprendi coisas mais
que você. Por isso e por muitas outras coisas, eu posso concluir que o menino e o
homem já sabem de toda a história envolvendo o hard; talvez até saibam mais
que nós. Alguém que queria nos deter usou-lhes na esperança de que pudessem
nos pegar. Esse alguém, Jonas, está com medo que o nosso plano dê certo...
Os dois cortaram outra esquina, e finalmente avistaram a praça de bancos
metálicos.
–Jonas... eu cheguei a uma decisão... – revelou Samuel, antes que pudessem se
encontrar com o grupo.
–Qual? – quis saber Jonas em grande afã.
Samuel parou subitamente de falar. Ele abriu seus lábios novamente quando já
estavam em frente ao grupo.
–Esta Noite, a conexão será feita – declarou Samuel, a todos que podiam ouvi-lo.
–E quem vai fazê-la? Você é?... – Susane instigou.
–JONAS.
–Eu? – indagou Jonas, em tom de surpresa.
–Por que ele? – se exaltou novamente Susane, que parecia condenar seriamente a
decisão.
–Porque ele foi o único a correr atrás dos números. Foi o único a ficar acordado,
os esperando, enquanto vocês dormiam. Foi o único que correu riscos por aqui.
Só por isso... – explanou Foster imensuravelmente claro.
–Mas... Foster! Não pode ser ele! Se isso realmente for verdade, todo o meu
futuro vai estar nas mãos de um... Moleque!
–MOLEQUE?!? Olha aqui, senhorita “SE METE EM TUDO”, eu...
–Acalme-se Jonas. E, Susane, será ele. Não há mais o que contestar – disse
Samuel quando todos os outros faziam sinal de apoio a Jonas. – Você já sabe com
quem irá estabelecer a conexão?
“Christian”, Jonas pensou. O único que poderia crer nessa história.
–Jonas?...
–Christian.
–Quem é Christian?
–Um grande amigo.
–Certo. Então, antes de começarmos, devemos ponderar um pouco sobre o que
você irá falar a ele. Já tem alguma idéia? – Foster questionou.
–Hum... sim.
–E o que é?
–Bom, eu vou tentar dizer a ele que estou morto, e que preciso de sua ajuda para
voltar à vida – sugeriu Jonas. – E também que ele precisa encontrar meu outro
eu e descobrir tudo o que conseguir.
–Bem lembrado! – contrapôs Foster, aprovando-o com um sorriso. – Acho que se
você também tiver a oportunidade, fale para ele procurar sobre um escritor
chamado Bóris Brainvich.
–Lá vem ele com essa história de “Brainviqui” de novo... – zumbiu Susane com
os garotos que estavam ao seu lado.
–Pode deixar Samuel – asseverou Jonas.
Samuel Foster olhou circunspeto para Jonas e articulou:
–Você está pronto?
–Sim.
–Então podemos... Começar.
–Quando você quiser...
–Você tem que imaginar firme o lugar para onde você vai, está bem? Você vai
parar exatamente no lugar onde está pensando.
–Está bem.
–Tem alguma pergunta?
–Não.
Samuel pediu para que Jonas entrasse num círculo riscado no chão. Ele entrou, e
Foster começou a proferir os números do código: 8, 1, 3, 9, 6. Cada vez mais
rápido, cada vez em outras línguas...
...E a praça começou a girar. Jonas via borrões na escuridão; acenando-lhe e
desejando boa sorte...
–Espere! Eu tenho uma pergunta!...
Tarde demais. Jonas já estava fora da praça.
–Queria saber quanto tempo eu fico assim... – disse, quando seu corpo parecia,
de alguma forma, restituído a sua alma.
Jonas estava numa casa grande e desarrumada. As luzes estavam acesas em cada
um dos cômodos, com exceção da sala. Nela, o televisor estava com a imagem
congelada, provavelmente após o fim de algum filme. O rapaz se aproximou mais
da sala, e viu restos de pipoca esparramados pelo tapete. No entanto,
rapidamente, sua atenção se desviou da pipoca para um rapaz de cabelos negros,
que roncava ruidosamente...
–CHRISTIAN!...
O rapaz, porém, nada ouviu. Estava absorto em sonhos, e pela primeira vez na
semana estava tendo um bom sono.
Jonas tomou parte do tempo que tinha para refletir sobre algumas idéias. Foster
não lhe dera muitas instruções sobre o que fazer. Nem menos lhe falara sobre o
tempo que possuía para realizar o trabalho. Em outras palavras, Jonas teria que
agir rápido, e sozinho...

***

Christian dormia como uma pedra. Jonas apreciava os curiosos minutos que
pareciam devolver-lhe seu corpo. Já tentara acordar o amigo gritando, mas ele
nem ao menos se movia. Estava quase desistindo e imaginava que a qualquer
momento tudo começaria a girar novamente e ele estaria de volta à praça, quando
o inesperado aconteceu: no momento em que ele resolveu encher um balde
d’água e jogar em Christian, o amigo acordou na mesma hora, de um susto, e
passou a fitá-lo, com olhos tão vermelhos quanto o fogo.
–Mas O QUÊ?
Christian e Jonas estavam frente a frente. O primeiro rapaz muito mais confuso
que o segundo.
–Jonas, o que você tá fazendo aqui?! – rufou Christian, com os olhos numa cor
rubro-escaldante.
– Acalme-se Christian, tenho uma longa história pra te contar...
E Jonas explicou-lhe tudo. Desde sua fatídica morte até como chegara ali.
–ISSO É RIDÍCULO! – pulsou Christian completamente esbodegado.
–Christian, acredite em mim, pelo menos por um instante! – Jonas implorou.
Christian, porém, o olhava com suspeição.
–Você quer saber do dia em que o visitei pela última vez, não é?... Porque mudei
de idéia tão rapidamente. É porque aquele já não era mais eu. Quer dizer, no
começo era, depois a outra coisa dentro do meu corpo já estava começando a me
dominar...
Christian fez cara de pasmo.
–Mas.. Eu te vi! Na sua casa! E você foi completamente grosseiro comigo!!
–Aquele não era eu, Christian! Você ainda não entendeu?! Alguém tomou meu
corpo!! – gritou Jonas em tom excedido – Mas... você me viu na minha casa?
Quer dizer, meu corpo, eu estou pegando o hábito do Foster...
–Sim. Eu fui à sua casa te visitar depois do dia que veio aqui – suscitou Christian
um pouco mais calmo, mas ainda espantado de modo desmedido.
–Está entendendo melhor agora? Você foi a minha casa e conversou com alguém
que está no meu corpo, mas que não sou eu...
–Isso é impossível, Jonas!
–Christian. É a segunda vez em menos de uma semana que eu ouço você dizer
que algo é impossível. E, por incrível que pareça, eu tenho certeza que você é a
única pessoa que pode me ajudar. Não tenho ideia do que tinha naquele
videogame, mas era maligno. A propósito, desfaça-se do seu o mais rápido
possível.
–O meu foi roubado.
–Roubado?
–É. Esse videogame virou uma febre imediata Jonas. Eu vejo todos os dias nas
ruas pessoas com o hardlevel, por todos os cantos que olho. Comigo foi só um
roubo, mas vi na T.V. um dia desses um assalto numa loja de games e adivinhe
apenas o que roubaram: hardlevels. Sinceramente, acho que até mesmo já
mataram por esse jogo.
–Isso porque ele é viciante Christian! É normal alguém se interessar por um
videogame, mas não é normal não conseguir parar de jogá-lo! Você não chegou a
jogar o seu por ele estar com defeito, não é mesmo?
–É.
Os dois se entreolharam por ínfimos momentos, e sem entremeios, Jonas foi
direto ao ponto:
–Bem, amigo, tenho que contar-lhe logo a razão de eu ter vindo até aqui, pois não
sei quanto tempo ainda possuo...
–Como eu posso vê-lo? – impugnou Christian, intrigado.
–Christian, eu ainda não sei explicar muito bem, só quero que ouça o que eu
tenho a...
–EU NÃO CONSIGO ACREDITAR NISSO, JONAS! NÃO CONSIGO!! É
TUDO MUITO... Muito...
–CHRISTIAN!
O rapaz se calou no mesmo momento.
–Eu sei que é difícil entender, mas você acha o quê?! Que estou mentindo pra
você! Por que faria isso? Não é uma brincadeira um tanto sem nexo? – interrogou
Jonas, surreal e evasivo. – Eu dependo de você, amigo. A minha vida depende
disso...
–Me perdoe. É que é muito difícil acordar com um balde de água na cara, e
depois ouvir uma história dessas... – confessou Christian. – O que eu tenho que
fazer?
–Eu quero que comece a se relacionar com o meu outro eu, enquanto vejo o que
consigo descobrir. E, dentro de alguns dias, vou tentar falar com você
novamente. Outra coisa: preciso que você procure um livro pra mim de um
escritor chamado Bóris Brainvich. Não me disseram o nome, mas sei que você
vai conseguir encontrá-lo...
–Eu admito que ainda esteja meio perplexo... Mas vou te ajudar, amigo. Eu vou.
–É muito bom ouvir isso, Christian.
Os dois amigos só não cederam a um amplexo porque seria impossível.
–Quando tempo você ainda tem? – interpolou Christian, desairoso.
–Não sei. Mas ainda devo ter muito... por quê?
–Porque você está... SUMINDO!...
–Sumindo?
–Olhe Suas Mãos!
Jonas olhou. Sua mão direita estava completamente aspirada; e a esquerda, sem
dois dedos.
–O que... Que é ISSO!
Jonas olhava agora para o lugar onde estaria seu dedo indicador, e seu corpo
começava a ser tragado com mais rapidez.
–Christian, faça tudo o que eu te pedi! – exclamava ao amigo, conturbado.
–Mas O Que Está Acontecendo, Jonas?
–Eu não sei! Eu não sei!!! – reiterava, desesperado.
–No segundo que se sucedeu, Jonas pôde perceber que o amigo não podia mais
vê-lo. Mas ele ainda estava ali...
DE REPENTE, tudo começou a girar. De novo...

***

Quando os vultos e borrões começaram a sumir, deram lugar a um quarto azul-


marinho, totalmente coberto por livros. A cama, a mesa-de-cabeceira, e o guarda-
roupa espelhado estavam perfeitamente alinhados de um modo que no centro
pudesse estar à mostra um caríssimo tapete turco.
SENÃO Pelo tapete, Jonas não reconheceria seu próprio quarto, por se achar mil
vezes mais bem composto que o tradicional. Parecia estar sendo muito mais
frequentado e arrumado do que quando o rapaz esteve vivo.
SUBITAMENTE, a porta fendeu-se. E Jonas se desesperou quando o viu
correndo em direção a ele mesmo...
Mas... o que teria acontecido? O que o levara a seu próprio quarto? Ele não sabia
explicar. Apenas fechou os olhos e esperou pelo pior. Sentiu uma mão agarrar-
lhe, mas tudo voltou a girar...
***

JONAS... Você está... BEM?... – questionou uma garotinha sardenta de cabelos


ruivos que o olhava, apreensiva.
Jonas estava estatelado no chão da praça de bancos metálicos, e todos
silenciaram no mesmo momento em que ele surgiu.
–Nenhum pouco... – o rapaz conseguiu responder a garota, com um certo esforço.
–Saiam da frente! – rosnava um velho, distinguindo-se dos outros.
Jonas olhou para o lado de onde emanava a voz, mas permaneceu no chão.
–Ele tocou em mim – relatou Jonas, quando viu os olhos seguros de Foster
arrostarem-lhe. – A pessoa que está em meu corpo... Eu queria saber Foster, com
que espécie de ser-humano estamos lidando. Como fizeram isso, e por quê...
Samuel olhou o rapaz com grande veemência, abaixando as sobrancelhas,
arrependido:
–Jonas... eu tenho que te contar uma coisa que todos aqui já sabem...
–O quê? – questionou Jonas, esbaforido.
–Não são pessoas, assim como nós, que tomaram nossos corpos. São...
Extraterrestres...
A face em espírito de Jonas ficou atarantada.
–Como aliens..., você quer dizer? – perguntou Jonas, em tom obsequioso.
Foster aderiu.
–Por que não me contou isso antes? Que tinha um alienígena dentro do meu
corpo?! – esbravejou Jonas, de modo instantâneo.
–Porque você não...
–Que droga Foster! Eu fiquei lado a lado com um alien, e você...
–Você não acreditaria! – revogou Samuel. – Você pensa ser fácil chegar e falar a
alguém que há um alienígena em seu corpo? Não, não é tão simples como
parece!!
–E por que eles invadiram nossos corpos? – Jonas perguntou ainda alterado.
–Eu não sei Jonas. Eu não sei... eu li muito, mas os livros não diziam nada sobre
isso... – O que temos que fazer agora é nos acalmar e pensarmos juntos no que
devemos...
–O que conseguiu? – perguntou Susane de modo muito bruto, obstruindo
indiscretamente o diálogo.
Todos silenciaram para ouvir a resposta de Jonas, que já estava regenerado e
bem.
–Eu falei com o meu amigo, e pedi para ele se aproximar do meu outro eu e ver o
que consegue descobrir – respondeu Jonas, com a conversa agrestemente parva
no mesmo patamar da de Susane.
–Bravo! – gritou Samuel, que parecia mais querer conter uma possível briga do
que realmente elogiá-lo. E, ao seu gesto, todos começaram a aplaudi-lo – Com
exceção de Susane...
–Não, não, não!!! – protestou a mulher. – Vocês, sinceramente, acham que o
plano mixuruca desse garoto louco vai nos ajudar? ACHAM???
–Jonas, não dê ouvidos. Ela está assim desde que você saiu – confidenciou
Samuel ao rapaz.
–Correção, Foster: ela está assim desde que chegou aqui...
–Não quero que briguem, tudo bem?
–Pode deixar – respondeu Jonas em inteira concordância.
–Vamos, me respondam, alguém acha? – questionou outra vez Susane, se virando
especialmente para os garotos e garotas que estavam presentes no grupo.
–EU ACHO – revelou Henrique, um garoto tímido que também estava com o
grupo.
–O que disse, garoto? – perguntou Susane, que esperava que alguém concordasse
com ela e ocorreu o contrário.
–Eu também acho! – reforçou a garotinha de cabelos ruivos.
–Todos nós achamos! – findou Foster. – Agora vamos parar de discutir por coisas
bobas, e continuar a trabalhar. Afinal, vocês não querem voltar a seus corpos?

5. O Novo Namorado de Letícia

Christian acordou atordoado com a noite curiosa do dia anterior. Cada vez
que o caso de Jonas parecia mais real, se tornava ainda mais bizarro.
Hoje o rapaz não iria para o trabalho. Precisou incomodar Marcos às seis da
manhã para avisá-lo de que ele cuidaria da locadora por um tempo, até então,
indeterminado. Pediu também que Marcos desse o endereço de sua casa para as
mulheres que ainda precisassem ser entrevistadas para o emprego. Estava
tomando todas essas medidas que pareciam muito drásticas para que não fosse
necessário conciliar o caso encoberto do amigo com seu emprego, o que poderia
acabar deixando-o ainda mais estressado.
Ainda espregiçava-se gostosamente, confortabilíssimo nas cobertas suntuosas de
sua cama enquanto o dia lá fora começara cálido outra vez.
O momento era oportuno para visitar a casa de Jonas. Antes que pudesse voltar a
esfriar e a chover, e sua visita se tornasse inadequada...
–Christian querido, o que faz aqui tão cedo? – a mãe de Jonas perguntou, em tom
amável.
–Eu preciso muito falar com o Jonas... Sra. Anderson.
–Ele ainda deve estar dormindo... Mas vá lá, você é amigo dele. Pode subir, bata
na porta até alguém abrir...
–Obrigado, Sra. Anderson – Christian respondeu, franco.
–Não há de quê, querido...
Christian subiu as escadas balaustradas até o quarto de Jonas, mas um impulso o
tomou: ele não bateu na porta. APENAS A ABRIU. Deparou-se com Jonas lendo
um livro fino, que foi fechado paralelamente a sua chegada. O rapaz procurou
memorizar o nome do autor que ele trazia em sua capa vermelha, escrito em
letras garrafais: Bóris Brainvich. Acima do nome do autor ainda vinha escrito:
“As Três Pessoas Hipnotizadas”.
–O que faz aqui, Christian? – perguntou Jonas num tom tão perverso que
Christian poria em prova conhecê-lo mesmo se não soubesse da história que
envolvia hardlevel.
–Me desculpe Jonas... é que sua mãe me disse que você já estava acordado, e que
eu poderia entrar sem bater...
–Tá. O que quer?
–Como, o que quero Jonas? – disparou Christian, tentando parecer natural. – Não
posso nem te visitar mais que você vem com toda essa sua educação?
–Me deixe viver! Você vem pra cá demais, e isso não é normal!
Christian sentiu que a pessoa no corpo de Jonas possuía um diálogo realmente
estranho.
–Que livro é esse? – Christian mudou levianamente de assunto, apontando para o
livro vermelho debaixo do braço de Jonas.
–Vá embora.
–Não, eu quero saber que livro é esse...
–Vá embora, por favor. Eu... não estou bem. Vá logo...
Christian olhou no fundo dos olhos de Jonas.
–Está bem, tchau.
Ele desceu as escadas em passo acelerado.
–Senhora Anderson, me perdoe pelo incômodo, eu...
–De maneira alguma filho, volte quando quiser! – ofertou a Sra. Anderson,
sorridente como sempre.
–Tudo bem – prometeu.
Um casalzinho apaixonado passava cantarolando pela rua logo quando Christian
deixou a casa dos Anderson.
Sem querer, ele ficou-os analisando por um momento, e acabou percebendo que
era Melissa.
Melissa, a última garota que lhe dera um fora feio...
O rapaz entrou inconformado em seu carro como se a garota o tivesse traído, mas
eles nem estavam...
De uns tempos pra cá, Christian Salém não vinha possuindo muita sorte com
mulheres. Talvez não fosse tanto uma questão de sorte, tendo mais a ver com sua
falta de tempo. Trabalho com certeza era uma das razões; acabava corroendo-lhe
o dia, e assim impedia relacionamentos.
Mas isso não era uma desculpa sensata para alguém como ele. Podia encontrar a
garota que quisesse, se quisesse. Mas neste momento da vida, não era o assunto
de suas maiores preocupações.
Um dia, o destino fluiria, conspirando a seu favor, e a pessoa apropriada
certamente aparecia.
Dirigindo refletindo. Com a mente divagando. Uma das coisas que ele melhor
fazia na vida era matutar, elaborar coisas.
No momento, estava contente pelo bom início da ajuda sigilosa ao amigo Jonas.
Podia ainda não ter descoberto nada muito proveitoso, mas deixara o sujeito, não
muito amistoso, numa posição desconfortável quando questionado sobre o tal
livro com o nome que Jonas dissera: Bóris Brainvich. Sentia que estava muito
próximo de descobrir que segredos o envolviam.
Deflagrando até sua moradia, cuidou de despir a jaqueta xadrez quente que usava
(apesar do calor, ventava como nunca), aproveitando o raro tempo acessível em
frente à seu novo computador, que apresentava uma curiosa tela com formato
ovóide, inovação no escopo microprocessadores.
Ao passo que começava a ler certas manchetes numa página eletrônica de
tablóides, uma o impressionou logo quando bateu os olhos:

HARDLEVELS ROUBADOS NO RIO DE JANEIRO


Assalto em loja de videogames carioca!

O magazine Jogos e cia., famoso por ser um dos primeiros receptores


do game hardlevel no país, foi surpreendido nesta madrugada,
quando seis assaltantes invadiram a loja.
O que os bandidos não esperavam era que encontrariam dois lojistas
preparando uma oferta para o dia. Um deles foi ferido apenas por
uma coronhada, e o serviço médico já avisou a imprensa que o
homem acertado certeiro na cabeça se encontra em ótimo estado de
saúde; Já o segundo, ferido à bala durante o roubo, corre risco de
vida.
Mais informações sobre o caso, vide Jornal do Cidadão, “o jornal do
povo”.

Era de abismar.
Horrorizar.
Deixar pasmo.
“Como era possível uma coisa dessas?”, Christian imaginava. “Mas que
videogame epidêmico, devasso, vício de louco”.
Devia estar sendo um impacto vergonhoso contra o Brasil, agora com a notícia
do roubo provavelmente sendo exportada por todo o planeta...
O assunto até o deixara raivoso.
Mas antes que desligasse o computador que só veio lhe trazer notícias ruins,
alguém bateu em sua porta. Christian já foi abri-la estressado, afinal, havia uma
campainha, o que não dava a ninguém motivos para bater na porta forte desse
jeito. Porém, quando a entreabriu, suas ofensas a pessoa falharam. Do lado de
fora da residência, ele se deparou com a pessoa que mais amava no mundo.
–MÃE?!?
–Olha aí o meu garoto, como é lindo não é, Syd? – perguntou a mãe do rapaz,
que era alegre e jovem. Seus cabelos pretos fluidos eram partidos ao meio e
jogados por sobre seus ombros. Usava uma japona preta que a cobria por
completo.
–É... – concordou um homem com um rosto chupado e um bigode horrível, ao
lado de sua mãe.
–Querem... Entrar? – Christian perguntou, sem jeito, na verdade querendo
convidar a ingressar à sua casa apenas sua mãe.
–Claro filho! Me ajude com as malas no carro...
Sua mãe se virou, e Christian se aproximou dela antes do homem.
–Quem é esse cara, mãe? – cochichou ao pé do ouvido dela.
–Ah, sim! Deixe-me apresentá-los – pediu, numa voz que conseguia ser maviosa
e aguda ao mesmo tempo. – Filho, este é meu novo namorado Sydney, e Syd,
este é meu filho, como eu já tinha lhe dito, inclusive.
–Muito prazer! Sua mãe comentou muito bem de você!... – revelou Sydney, com
a mão estendida para um cumprimento.
–Prazer... – proferiu forçado Christian, apertando brevemente a mão do homem.
Por sua cara, ele não havia gostado do tal Syd.
Pegaram as malas no carro, e voltaram para sua casa.
–Está fazendo muito frio por aqui, não filho?
–Pois é. É o mês, né. Falaram que está sendo o julho mais frio do século... Bom,
liguem a T.V., eu vou ver algo para comermos...
Christian se afastou um pouco e sua mãe interpolou:
–Você ainda tem uma plasma, filho? Elas já saíram de moda...
–Estão um pouco defasadas, mas eu continuo adorando T.Vs de plasma, são mais
bonitas que essas novas que andam saindo...
A mãe de Christian não respondeu e o rapaz chegou trazendo um vasilhame
repleto de hambúrgueres e fritas, e três copos de refrigerante.
–Ainda comendo esses lanches né filho? Eu já lhe falei que faz mal a saúde... –
recriminou sua mãe, ao vê-lo depositando o pote de hambúrgueres e os copos por
cima da mesa de vidro ao lado do sofá.
–Mãe, fique quietinha e coma, vai... você vai gostar... – garantiu Christian,
enquanto abria as persianas para que a pequena quantidade de luz que estava lá
fora pudesse entrar.
Sua mãe comeu os hambúrgueres com desgosto, e Sydney se empanturrou de
tudo, como se nunca houvesse comido aquilo. Após uma rápida arranjada nos
objetos da casa, o rapaz sentou-se para conversar com a mãe.
–E então, mãe? Você não estava em Nova York? – quis saber Christian,
encabulado com sua volta relâmpago.
–Estava. Mas não gostei dela. Das pessoas, dos costumes. E é uma cidade muito
feia, Christian. Suja demais. Prefiro visitar cidades da Itália...
–É mais suja que São Paulo?
–É.
Ele não falou nada. Mas duvidava que existisse lugar no mundo mais sujo que
São Paulo...
–E a sua casa no Rio? Como está, mãe?
–Eu vendi.
–Vendeu? Mas você tinha posto ela a venda por acaso?
–Não, mas apareceu por lá um senhor obstinado em comprá-la por um preço
irresistível.
–Mãe, aquela casa valia pelo menos cem mil cartões grandes.
–Eu a vendi por cento e noventa. E comprei aquele novo modelo do Fusion lá
fora.
Christian ficou perplexo.
–Mas... Mãe! Você estava tão bem por lá!! Vai morar aonde agora?
–Não sei... Aqui? – sugeriu.
–AQUI? – Christian repetiu um tanto zombeteiro. Sydney fez cara feia. – Tá
bem.
–É mesmo filho?
–Claro mãe.
–AH... Me dá um abração aqui, Chris! É só por alguns dias, até eu e o Sydney
encontrarmos alguma casa aqui por perto de você...
–O quê? Você vai morar com ele? – perguntou Christian, sem medo da careta que
ele poderia fazer desta vez.
–Filho... Claro que vou! Eu ficarei aqui no máximo uns cinco dias, até
encontrarmos uma casa pra gente por aqui... – disse, atribuindo um novo abraço,
agora em Sydney.
–Que bom, mãe... – dissimulou Christian, que sabia que, por enquanto, a melhor
resposta era a que a agradasse mais, pois sua mãe ficava ainda mais decidida
quando contrariada. – E vocês estão namorando há quanto tempo?
–Dois meses.
–Dois... MESES?
–É. Filho, não era pra você estar trabalhando? – questionou sua mãe, transitando
de assunto – Quando cheguei, fui direto a locadora, mas me falaram que você não
iria trabalhar hoje...
–É. Foram uns negócios aí que eu estou tentando resolver – respondeu,
aparentando não querer contar a sua mãe sobre a estranha história que ele já
estava inserido.
–Certo – Sua mãe parou de falar e ficou o observando. – Vou sair um pouco com
o Syd, dar uma passeada pela cidade. Quando voltarmos, a gente conversa
melhor...
–Letícia – chamou Sydney, antes que Christian pudesse falar algo.
–Fale, querido.
–Onde é o banheiro?
–Não, eu não sei. Onde é Chris?
–Segunda porta a direita.
O homem se levantou e saiu da sala. Christian aproveitou a ausência de Sydney
para falar com a mãe.
–Letícia Nunes Salém, olha onde você está se metendo, em... namorando com um
cara há dois meses e já quer morar com ele?
–Christian, eu...
–Me escuta mãe. Isso não está certo. Eu sei que eu não mando na sua vida, mas
tome cuidado. Sei que ainda sente muita falta do papai, mas não é assim que vai
esquecê-lo. Por favor, não tome decisões precipitadas.
–Ah filho... não exagere...
–Não estou exagerando, mãe. E você sabe que eu não estou.
Christian escutou os passos de Sydney e parou de falar no mesmo momento. Sua
mãe se levantou e se dirigia a porta quando parou, ao olhar para uma das bolsas
que trouxeram.
–Christian! Eu já estava me esquecendo! O Sydney trouxe um presente pra você,
não é mesmo, Syd?
–É! Espere só um minuto! – O homem foi até uma maleta vinho e pegou um
embrulho grande e redondo.
–Abra querido! – disse sua mãe, quando o presente já estava em suas mãos.
Ele rezou para que não fosse o que ele imaginava, mas era: um hardlevel novinho
em folha.
–Abra logo a caixa, Chris! – pediu Letícia, apreensiva.
O rapaz abriu e contemplou com aversão o mefistofélico videogame. Ele sabia
que alguém com desígnios malignos estava restringindo cada vez mais o caminho
para alguma conquista. E agora, sua mãe também corria perigo.
–Fiquei sabendo que a única empresa que o vendia aqui faliu, não foi? Esse aí
compramos na nossa passada rápida pelo Rio de Janeiro. Falando nisso, isso aí
virou uma mania por lá, viu?!
–Não vai jogar? – perguntou Sydney, em tom turbulento.
–Não. Agora não – respondeu Christian, guardando o videogame novamente na
caixa.
–Também soube que até agora apenas o Brasil o recebeu né Chris. Acho que já
sabia disso, não é? – questionou Letícia, evasiva. – Eu sei que você adora
videogames, e foi só eu dizer isso pro Syd, que ele veio com um destes...
–Hum. Muito bom. – Christian oscilou e pensou rápido no que podia dizer –
Acho que esse videogame não vai para outros países – conjeturou aleive, sabendo
que o que dizia não era verdade.
–Vai sim! – replicou Sydney como se o tivessem ofendido.
–Mas já começou a ser exportado? – averiguou, pois começara uma questão que
lhe acarretara curiosidade.
–Não. Estima-se que dentro de um mês.
Christian suspirou aliviado. Esta ameaça não poderia se alastrar por todo o
planeta. Não agora...
–Mas jogue logo esse jogo, Christian. Você vai gostar muito...
As últimas palavras de Sydney caíram como uma bomba. Mas o rapaz ainda não
conseguia acreditar que o que passava por sua cabeça pudesse ser verdade.
–Sydney, você já jogou hardlevel? – indagou pausado e plácido, como se uma
pergunta favorável fosse digna de uma resposta equiparada.
–Já. E só posso assegurar que é um jogo muito bom. É interessante e...
Surpreendente...
–Ah, não!
–O que foi filho?
–Estou ansioso para jogá-lo! – mentiu. Christian começou a perceber que a
gravidade do problema era grandiosa. Mas ele tinha certeza que sua mãe não
creria na história nefasta que tinha para contar.
–Mãe... a senhora nunca chegou a jogar este jogo, não é mesmo?
–Claro que não, filho. Você sabe que nunca gostei dessas coisas...
–Continue não gostando... – sibilou baixinho.
–Isso não é muito difícil – respondeu, empós entender o que o filho havia dito. –
Mas então Chris, nós vamos indo, acho que vamos indo sair um pouco.
–Tudo bem. Você tem algum celular contigo?
–Não, mas tenho um MP15.
–Então tá. Eu já tenho o número dele. Se divirtam – disse, com um sorriso
fingido de canto de boca – Qualquer coisa me liga, mãe...
–Tá bom filho – disse, dando-lhe um beijo no rosto.
–Depois, eu também dou uma passada por lá.
Sua mãe concordou com um gesto carinhoso, e eles saíram. Christian odiou com
derradeira exatidão o momento quando Sydney colocou seu braço sobre os
ombros de sua mãe... Ele nunca chegou a gostar dos novos namorados dela, mas
desta vez o caso era condizente a sua visão paradoxal deles...
Christian ficou reparando pela vidraça escurecida do quarto de hóspedes os dois
se distanciarem. Foi quando viu seu amigo, Jonas Anderson, agora em uma de
suas exauríveis e raras aparições pela rua. Se atemorizou quando viu que ele se
aproximava de sua casa, porém depois desceu outra rua e se afastou dali.
Assuntou no mesmo instante em que já não via mais o amigo que era a hora certa
para agir. Pegou novamente a jaqueta quente e entrou no seu carro dirigindo
apressado até a casa dos Anderson.
Quando a Sra. Anderson novamente o atendeu, e novos pedidos de desculpa
foram proferidos, ele precisou sustentar uma mentira para conseguir o que queria.
–Sra. Anderson, eu vim apenas buscar uma mochila que esqueci quando passei
por aqui hoje – articulou Christian, que veio planejando o que iria dizer enquanto
conduzia seu carro.
–Tudo bem Christian. Entre – obtemperou a Sra. Anderson, que, por alguma
razão, não parecia tão bem como nos dias anteriores.
–Muito obrigado, Sra. Anderson. Acho que eu devo tê-la deixado no quarto do
Jonas. Ele está aí?
–Não, não está. Mas pode ir lá encima. O quarto é dele, mas a casa é minha...
–Novamente, eu agradeço Sra. Anderson.
–Não há de quê, querido!
Christian subiu as escadas até o quarto do amigo, e entrou sorrateiramente.
Fechou as janelas, e acendeu a luz. Não podia esconder a pitada de nervosismo
que o envolvia, mas estava tentando ser bastante rápido em seu ato enérgico.
Começou, obviamente, a partir da estante de livros: nenhum deles possuía uma
capa vermelha e um autor chamado Bóris Brainvich. Depois foi ao guarda-roupa:
também nada. Embaixo de sua cama muito menos. Sua procura estava sendo
inútil e não surtira nenhum préstimo.
Espaçou uma pequena fenda na janela, e viu que Jonas estava chegando. Em
exorbitante desespero, Christian começou a revirar todo o quarto, cuidando de
alinhar tudo novamente onde estava, até que o encontrou. Estava ali, embaixo do
tapete, e por ser tão fino, ele pisara no livro sem se dar conta logo quanto entrou.
Num rápido estímulo o rapaz jogou o livro pela janela, e só não se jogou junto
porque provavelmente quebraria a perna pela altura considerável. Esperou o
baque do livro ao chão do lado de fora da casa, e desceu as escadas velozmente,
dando de cara com Jonas.
–O que faz aqui? – questionou Jonas, num tom friamente horripilante.
–Ele veio buscar a bols...
–Isso! Isso mesmo! – ratificou Christian, atalhando tardiamente que a Sra.
Anderson parasse de falar.
–Buscar a... Bolsa? – perguntou, olhando de sua mãe para Christian. – Que
Bolsa??
–Que eu pensei ter esquecido aqui, mas não. Não está aqui... – Christian tentava
pronunciar formalmente cada palavra. Mas não estava nenhum pouco seguro de
quaisquer delas...
–Você não veio com bolsa nenhuma aqui hoje... – falou Jonas, eriçando as
sobrancelhas.
–Não?! Então está explicado... me perdoem o desconforto, eu peço novamente
minhas sinceras desculpas...
–Querido Christian! Não precisa se culpar! É normal nos equivocarmos às
vezes... – amparou a Sra. Anderson.
–É... – ele deteve-se brevemente – Essa é minha deixa, não é? Já vou indo, um
abraço e muito obrigado!
–De nada querido! – respondeu a Sra. Anderson sutilmente frugal.
Jonas, porém, não fez nada senão entregar um sorriso atrofiado.
Christian saiu pela porta ainda dando um breve aceno, e pegou conciso o livro
debruçado no gramado da família Anderson, correndo o mais rápido que pode até
seu carro. Decidiu de última hora ir constatar se tudo corria bem com sua mãe, e
saiu apressado. Sabia que encontrá-la em pleno centro não seria tarefa das mais
simples; e inclusive precisou percorrer um largo caminho a pé até chegar onde
ela estava.
–Filho! Estava nos procurando?... – indagou sua mãe, ao ver Christian se
aproximando ofegante.
–Estava – admitiu. – Vocês andam, em? – disse o rapaz, enxugando um punhado
de suor que escorria por seu rosto.
–Ah, Chris... Não precisava vir... – respondeu sua mãe, que parecia preocupada
pelo cansaço do filho.
–E aí? Jogou o hardlevel? – inquiriu Sydney, oportunista.
–Ah, sim, claro! – contou Christian caluniosamente.
Sydney abriu um sorriso.
–E já está sentindo algum efeito?...
–O que disse?
–Quero dizer, você está gostando do jogo? – pigarreou o homem, tentando
desconversar o que acabara de falar.
–Sim, estou... – Christian restabeleceu, sacando muito bem o que Sydney tentara
encobrir em frases reformuladas.
–E esse livro em sua mão? Como se chama? – Sydney tentou mudar de assunto
logo quando ocorreu-lhe a primeira idéia.
Christian não havia percebido, mas saíra com o livro nas mãos, ao invés de
deixá-lo na segurança de seu carro. Graças a isso, teria que pensar em algo para
satisfazer a bisbilhotice de Sydney.
–Se chama... “O Observador”. É o novo livro daquele autor que surgiu, o...
Ernesto F. Nunes.
–Ah, é o novo livro do Ernesto, filho? Depois eu quero dar uma olhada nele.
Você sabe que adoro livros dele...
–Tudo bem, mãe.
–Eu também posso vê-lo? – perquiriu Sydney, em tom pueril.
–Claro. Depois vocês podem até lê-lo juntos... – prescreveu Christian apertando
um pouco o passe, pois Sydney e sua mãe andavam equivalentemente rápidos.
–Eu queria ver ele... Agora...
–Agora? – vacilou Christian afastando o livro de Sydney, como se isso
significasse um não.
–Filho! Olhe a educação... – repreendeu Letícia, ao ver Christian não querer
apresentar o livro a Syd. – Dê logo o livro a ele!
Mas Christian não obedeceu à mãe. Tentou ignorar e continuar andando.
–Você vai me deixar ver o livro, ou não? – questionou Sydney, parecendo
intransigente.
–Não...
–O que está havendo, Christian?
–É... Olhem! – Christian apontou para a próxima esquina, onde se dispunha um
palco com alguma banda que começara a tocar no exato momento em que ele
abalizou. Ele sabia que sua mãe tinha uma grande queda por música. E sabia
qual seria sua reação.
–Vamos, querido! – coagiu Letícia correndo e dando pulinhos joviais, segurando
o braço de Sydney e o puxando, forçado.
–Claro querida... – respondeu o homem, dando uma última e rabugenta olhadela
para Christian, que conseguira o que queria.
–Mãe! Eu vou deixá-los a sós! – Christian teve que gritar, pois o som já estava
briosamente alto.
–Tá bom filho! É um grupo muito legal! – exclamou Letícia, dançando e
obrigando Sydney a fazer o mesmo, estendendo o dedo polegar até que Christian
percebesse um sinal de positivo.
–Ela vai ficar bem... – disse Christian a ele mesmo, sorrindo.
Saiu em franco abarcamento dali, sempre se esgueirando para trás a fim de
conferir se Sydney não o estava seguindo. Afinal, uma tênue altivez, pode
complicar a qualquer um. O rapaz atingiu o ponto onde se achava seu carro, e
guiou-o tão velozmente que parecia estar nas gravações de algum thriller
hollywoodiano. Avançou os jardins de sua residência trazendo o livro em suas
mãos, e, ao entrar, se sentiu decidido a lê-lo. Jonas não podia... esperar. O tempo
era ruidosamente curto. E sabe-se lá o que estava no corpo de seu amigo iria
tomar nota do sumiço do livro. E quando descobrisse, Christian com certeza seria
um dos suspeitos. Ele ainda desconhecia quase todos os mistérios envoltos à
história de Jonas. Todavia, teria que decifrá-los sozinho. Ainda não sabia como
faria isso, ou que perigos corria, mas algo dizia que este livro responderia tudo...

6. As Três Pessoas Hipnotizadas

A inscrição na capa do livro parecia ter sido feita de forma buril. Com algum
objeto de metal que fosse sólido o bastante para emprestar firmeza às mãos de
quem o fez. Christian abriu o livro, e sua asma o atacou: ele estava
completamente coberto por poeira, como se há tempos não estivesse sendo
folheado. Uma estranha insígnia que se assemelhava muito a uma esfinge estava
repousada em sua primeira página, mas Christian não quis gastar muito tempo
com ela. Pulou logo para a segunda e tossiu mais um pouco antes de começar a
ler:

Proêmio

1. A Invasão
“Conta o conto que eles virão. Sim, virão e tomarão nossos corpos. Serão muitos, e
organizarão um método para realizar seus intuitos maléficos. Começarão num lugar, e se
expandirão lentamente por todo o planeta. Será como uma estratégia da mais ordinária
guerra; unir-se ao inimigo, e destruí-lo de dentro para fora.

2. As Três Pessoas Hipnotiza das


Os seres Extra-terrestres, que até então nos desconhecem tanto quanto os conhecemos, nunca
conseguirão invadir nosso mundo sem nenhum tipo de... Subsídio.

“Então são extra-terrestres”, Christian falava sozinho, ponderando numa leve


pausa. “Jonas não contou sobre isso”..., completou, e prosseguiu sua leitura.
Reza a lenda, que Três Pessoas serão hipnotizadas para que eles possam obter maior chance
de domínio sobre nós. Não se sabe quando ou como essas pessoas serão hipnotizadas, mas
elas serão.

3. Como Ser á nosso fim,


E o n ovo início para el es

Antigos relatos indicam algum lugar nas Américas como sendo o primeiro território a ser
incorrido. Não foi possível especificá-lo, mas haverá um objeto, que proporcionará a invasão.
Seus corpos são inferiores aos nossos, entretanto, suas tecnologias e inteligência são
incrivelmente esmagadoras.

–O objeto usado é o hardlevel! E o país invadido é o Brasil! – concluiu Christian,


triunfante.
O rapaz lia e relia o início, para que cada frase dele pudesse penetrar e
permanecer viva em seu cérebro. Começara a achar ainda mais interessante, pois
vinha entendendo muito bem tudo o que era-lhe transmitido em palavras escritas.
Leu todas as suas curtas vinte e uma páginas de modo auspicioso, esperando que
pudesse encontrar mais alguma contundente revelação. Porém Bóris Brainvich
não fazia coisa nenhuma, senão enrolar o leitor com os mesmos eventos que
citara logo em seu proêmio, como se não tivesse mais nada a dizer, como se mais
nada lhe tivesse sido declarado...
Christian fechou o livro e se sentiu cansado. Deitou no sofá e o ficou analisando,
acima da mesinha de vidro.
–Ei! – ele gritou, pegando o livro novamente.
Havia um certo volume na contracapa do mesmo, o que na hora chamara a
atenção do rapaz. Ele o abriu, e viu que a contracapa havia sido costurada por
dentro, manual e disformemente. Estourou a costura com uma tesoura e teve uma
surpresa: havia um jornal velho e embolorado, dobrado várias e várias vezes até
que coubesse ali dentro. O texto redigido falava acerca de Bóris Brainvich.

Matéria escrita por: Imelda Zimmermman


Adaptada ao português por: Henrique Sobrado
Foto da capa por: Andréas Zhirkov
Os Grandes e Patéticos escritores russos, parte 3

Olá. Para quem ainda não me conhece sou Imelda Zimmermman. Se


você atua na área do jornalismo me sinto quase certa que já ouviu
falar de mim. Eu estou sendo bastante badalada devido ao prêmio
Pulitzer que ganhei pela minha primeira matéria sobre escritores
russos. Como deu tão certo, decidi continuar, incrementado um tanto
de sátira, como viram em “Grandes escritores russos, parte 2”. Agora,
já na parte, me senti incomodada ao ler Bóris Brainvich, que para
quem teve a sorte de não conhecê-lo, foi um escritor horrendo que
assolou nosso país. Eu gostaria agora de atribuir-lhes tudo o que
descobri sobre ele.
Bóris Mavilyenko nasceu em Petersburgo, no dia quatro de agosto de
mil novecentos e sessenta e oito. Começou a apresentar problemas
mentais logo aos seis anos, mas seus pais faleceram em seguida num
acidente de carro, e ao invés de ser tratado, foi acabar parando num
orfanato, só a início, para verem como a família amava o garotinho
problemático.
Aos dez anos ele piorou, e sua convivência social com os outros já
estava totalmente afetada. Mesmo assim, continuo dizendo, medidas
não foram tomadas e o garoto produziria agravantes rudimentos no
futuro...
Ele acabou sendo adotado por uma família norueguesa, mas que
morava na Rússia, de sobrenome Brainvich. Aí sim recebeu o carinho
e a paz que precisava, melhorando suas condições mentais e sua
capacidade de relacionamento com outras pessoas.
Já aos dezesseis anos, Bóris Mavilyenko Brainvich era uma pessoa
nova tanto no nome como na vida. E quando terminou os estudos,
decidiu, estimulado pelo ambiente sadio de sua casa, se encaminhar
para a parte de humanas.
Ao todo não sei lhes dizer, mas me contaram que Bóris fez desde
Ciências Sociais até Literatura. Mas, sinceramente, ele deveria ter
escolhido outra profissão para trilhar, porque escritor não batia muito
com seu jeito destrambelhado!
Mas fazer o que, não é mesmo? Lá ia Bóris aos vinte e dois anos de
idade escrevendo seu primeiro livro: “A vida do homem que não
queria morrer”, que contava detalhadamente a história de um garoto
com psicose que cresce apenas em tamanho. Cá entre nós, acho que
nesse livro ele se refere a ele mesmo...
Não preciso nem falar que o livro foi um desastre tremendo é claro,
afinal, o que se esperava de um doido varrido como Bóris atacando
como escritor?
Mas então, dois anos depois, foi lançado o livro menos esperado de
todos os tempos: “O Sol”, uma outra investida sem sucesso de Bóris
Brainvich. Contudo, desta vez, conseguiu ainda a façanha de ser
menos lido que o primeiro: apenas sessenta e duas cópias vendidas
por toda a grande Rússia.
Antes de surgir um terceiro livro de Bóris, a bela atriz de teatros
Kemberly Reily casou-se com ele. Com certeza, não era pelo dinheiro,
pois Bóris não era um escritor russo dos mais rentáveis... Devia
realmente existir amor na jogada.
A terceira obra de Bóris finalmente chegou às livrarias. No auge do
lixo de seus trinta anos, tivemos que aguentar o “As Três Pessoas
Hipnotizadas”, o livro mais patético do escritor (por isso o nome
alterado da matéria). Ainda hoje não se sabe por que, apesar do
fracasso de vendas na Rússia, o fiasco ainda chegou a ser escrito
para a América do Sul.
Eu – e o resto da Rússia – desconhecia o fato de um escritor que não
possuía a mínima amplitude em seu próprio país querer exportar seu
mais novo e falho para outros países.

–Porque ele queria nos informar, sua safada cara-de-pau! – exclamou


Christian, como se Imelda estivesse ali na sala com ele. Continuou lendo, mas
sem esconder o nervosismo a cada novo ataque da mulher.

Mas não havia exatamente nada que justificasse as ações de


Brainvich. Ele era imprevisível...
Por isso, quando soube da notícia, mandei traduzirem minha matéria
em português e espanhol, junto com seu livro. Seu terceiro e
derradeiro livro. A propósito, eu o li, e me sinto culpada por isso. Um
livro horrível. Imaginação pura. Digno de Bóris Brainvich. Narrava
uma história (sempre contada através de mitos ou lendas que nem ao
menos existem) que seres extra-terrestres invadiriam a Terra.
Anos depois, Bóris fez um pronunciamento acerca de seu terceiro
livro: Disse que os relatos contidos nele realmente não eram lendas, e
sim que havia mantido contato com um E.T. Porém, teve muito medo
de relatar antes que o escrevia era real, porque uma informação tão
invasiva chocaria seus leitores.
Que Leitores? Não chocaria ninguém, Bóris, sabe muito bem disso.
Mas a declaração pareceu ser o fim da picada para sua amada
esposa, Kemberly, pois ela decidiu, dizendo que era tudo por amor,
interná-lo no velho abrigo psiquiátrico Groulenhouse.
O que aconteceu, porém, foi que semanas após sua internação, Bóris
apareceu morto misteriosamente, e ninguém no lugar sabia explicar o
que realmente acontecera. Sua morte encheu de comoção o coração
de sua esposa, que se suicidou horas depois de saber da notícia.
O casal deixou uma única herdeira (herdeira? Herdou dívidas das
editoras e tudo o mais), Íris Brainvich, que ficou sob a guarda dos
avós. Porém, a menina misteriosamente desapareceu.
Bem, eu chego sozinha a conclusão de que toda a história inventada
de invasão alienígena não passou de um golpe de marketing, afinal,
vocês estão vendo algum alien por aí? Se algum dia verem, me
avisem...”

–Descarada! Quem deu o golpe de marketing foi você!! Nem sabia o motivo dele
mandar o livro para cá e decidiu mandar junto sua matéria?! Por ganância, não é?
Ganância!!! – Christian protestava completamente inconformado de a mulher
estar criticando um homem morto... Que não estava ali para se defender...
Ele terminou de ler a abominável matéria de Imelda, mas ainda não conseguira
parar de olhar para a foto da família Brainvich, posta bem abaixo da matéria.
Podia se ver Bóris, no centro, com um maxilar pronunciado, olhos azuis, e um
sorriso contagiante. Kemberly à direita de Bóris, com cabelos ruivos, nariz tênue
e incontroversamente escarpado. Na extrema-direita, havia uma garotinha
angelical. Tinha os olhos claros do pai combinados aos cabelos vermelho-vivos
da mãe. Era a garotinha Íris, que somados aos seus prováveis dois anos e meio da
fotografia, devia se encontrar com vinte, vinte e um anos em média.
Christian continuou observando desajustado a foto, e lágrimas arredias e
inexplicáveis tentavam evadir-se por seu rosto. “Será que este será o fim da
humanidade?”, ele matutava, entoando um canto solfejante e sofredor, porém
mudo. “E ninguém, ao menos, dera conta disso?”...

***

Um cão vira-lata examinava um pacote de salgado descartado na cabeceira da


esquina, e Letícia regressava à casa do filho, ao lado de Sydney, pela rua quase
vazia que começara a escurecer.
–E aí Syd? O que achou do meu filho?
–Eu não sei. Senti que ele não gostou de mim...
–Não, Sydney... Tente entendê-lo... Ele perdeu o pai, e não foi nada fácil. Nem
pra mim, nem pra ele...
–Mas, não sei por que, sinto que ele está... estranho. Tentou até esconder aquele
livro de mim, você viu?
–Vi sim.
–Por que ele fez isso?
–Não sei Syd, mas deve ter sido sem querer. Meu filho não é de agir assim,
grosseiro...
–É. Pode ser. Mas eu ainda acho que ele não gostou de mim...
–Não fale assim querido. Tente se apegar mais com ele.
–Vou tentar...
Enquanto discutiam, abrolhava ao fim da rua um ruflado indivíduo, que vinha
numa velocidade estridente.
–AFASTE-SE DELA, SEU NOJENTO! – berrou Christian, segurando firme sua
mãe pelo braço, e a puxando para perto de si.
–O que é isso, Chris! O que é isso?!
–Esse cara não é o que parece ser, mãe! Ele é um... Ele é um... ALIENÍGENA!
Sydney começou a rir.
–Do que está falando, filho? Você está louco?!
Christian olhou trepidante para a mãe. Ela nunca o chamara assim.
–Vamos, mãe! Você tem muito o que saber!
Ignorando o olhar convulsivo do homem, virou correndo, apertando sua mão
sobre o pulso da mãe para levá-la forçada.
Sydney pulou sobre seu corpo, o impedindo de prosseguir, derrubando-o com
força ao chão.
–Maldito! Você sabe!
Inerte e pálido enquanto prensado no chão, o pobre rapaz lutava para se
desvencilhar dos braços firmes que o estrangulavam, mas, sem triunfo algum. Ele
sentia que ia ser morto pela agonia, e não pelos braços enrolados em seu pescoço,
quando, de repente, Sydney o soltou. Voltando-se para frente, viu sua mãe, com
um tijolo de construção em suas mãos.
–Que diabos aconteceu aqui?? – sovou Letícia, obrigada a desmaiar seu próprio
namorado na rua monótona.
–É uma longa história, mãe. Venha comigo... – contrastou Christian, se erguendo
e acetinando o pescoço.
–Mas, filho! Vamos deixar o corpo dele aqui? Na rua?!
Christian olhou para um terreno baldio ao lado de onde estavam e disse:
–Eu tenho uma idéia melhor...
Saiu andando apressado dali com sua mãe.
–Não achei que foi uma boa idéia jogá-lo lá, filho. E quando ele acordar?
–Não sei. Só sei que vamos ter que nos proteger...
–Tudo bem. Desembuche logo que história é essa de alienígena.
–Eles estão entre nós, mãe! – revelou Christian assustado e andando muito
veloz, ainda segurando o braço da mãe.
–Como assim? Então Sydney é um alienígena desde que comecei a namorar com
ele?
–Desde que ele começou a jogar hardlevel.
–Não estou entendendo, filho! Você está querendo me dizer que esse tal de
hardlevel...
–É a porta de entrada deles para o nosso mundo.
–Mas... Alienígenas? Eles não existem...
–Você consegue me explicar então o que aconteceu lá atrás?
Letícia ficou em silêncio.
–Não, não consigo. Syd estava mesmo estranho depois desse jogo, mas como eu
iria desconfiar de uma coisa dessas...
–Mãe, eu peço desculpas pelo seu namorado. Realmente não sei se voltar a vê-lo.
–Christian, então o Brasil foi o primeiro país escolhido por eles?
–Isso mesmo.
–Por quê?
–Eu não sei, mãe. Eu não sei – declarou Christian, ao chegar e abrir rápido a
porta de sua casa. – Entre.
Letícia estava muito assustada, mas talvez Christian estivesse mais que ela.
–Como vou conseguir dormir esta noite! Nós estamos correndo perigo, não
estamos, filho?
–Devemos estar... O grande problema que idealizo comigo, é que qualquer um
pode ser um alien. Qualquer um... – dizia Christian temeroso, olhando para o
lado de fora, que se denegria de nanquim.
O rapaz e sua mãe ficaram juntos encostados na janela, observando a lua ser
coberta pelo nimbo estrelado. Algumas horas se passaram, e Christian começou a
apresentar sonolência.
–Acho que temos que dormir, não é mesmo querido? – disse sua mãe,
percebendo o filho com o nariz grudado na vidraça gelada. – Infelizmente a noite
está caindo, e devemos descansar um pouco, apesar da ameaça...
–Eu concordo. Você não tem nenhum receio mãe? De eu dormir também? Se
quiser, eu fico acordado...
–Não, filho, durma. Não há problema algum.
O rapaz saiu da sala e aprontou o quarto de hóspedes para a mãe. Foi até seu
quarto e deitou-se fadigado como um carteiro após um dia laborioso.
Não demorou muito para que Christian dormisse. Dormisse de modo tão intenso
a ponto de nem se lembrar de travar a guilhotina da janela, ou entregar a porta
uma mera encostada.
Dormiu, e de repente algo se aproximou lenta e desconexamente. Como se
soubesse o que ocorreria nos próximos instantes, ele abriu os olhos, assustado,
mas era tarde demais: alguém o apunhalara.
–Ah! – ele gritava a sete ventos, segurando a faca posta em seu peito.
Acendeu o abajur, e viu o agressor recuando, como se estivesse arrependido do
que acabara de fazer.
–Mãe?... Por que você... Por quê!!!
Christian acordou de uma pancada, coberto por suor e com o coração aos pulos.
Havia tido um sonho. Um sonho agudamente perturbador.
Se levantou e foi até o quarto de sua mãe. Ela dormia inocente debruçada na
almofada macia de penas de avestruz.
Ele tinha medo. Mais medo que acontecesse algo com sua mãe do que com ele
mesmo. Não sabia nem que riscos corria, muito menos ela. Por isso e por todos
os motivos do mundo tinha que protegê-la. Protegê-la de qualquer perigo que
pudesse vir a afrontá-la. Não tinha poderes para isso, mas tinha o amor. E mesmo
se perdesse a vida, estava disposto a resguardá-la com seus dois braços...

7. Íris Brainvich

O local era muito sujo. Parecia uma prisão sem grades. A sala desordenada que
se juntava a cozinha recebia um odor forte e nauseante que borbulhava do fogão
encardido. A meia-luz, dois homens conversavam. Iluminados apenas pela chama
acesa de uma vela num castiçal.
–Mas, mestre, fiz tudo o que me pediu! – respondeu em gritante desespero um
jovem baixinho e sardento, prosternando-se ao outro.
–Não importa! O tempo que lhe dei foi suficiente para encontrar a garota! É
inadmissível que vinte anos depois ela ainda esteja viva!! – exclamou o homem
que era chamado de mestre, encostando um objeto dourado no rosto do rapaz
curvado a seus pés.
–Não! – berrou o jovem quando algo muito parecido com um carbúnculo brotou
em sua pele. A ferida começou a se alastrar perspicazmente até que ele caiu,
gemendo e contorcendo-se, soltando uma espuma de saliva pelo canto da boca.
–Idiota – disse o mestre olhando nervoso e com cara de desprezo para o jovem
rapaz caído e deformado no chão. – Me fez perdê-lo por motivos fúteis... Mas
você sabe que sua morte não foi improfícua. Não posso permitir a queda de toda
nossa oligarquia. Não desta vez...

***

A alvorada linda como há muito tempo não se via, e Christian fazia força para
desejar não ir chefiar sua empresa numa formosa ocasião como esta. Se
perguntava como estariam as coisas sem ele, se estavam lidando bem com sua
ausência. Agora sim iria ficar sem ir ao emprego por tempo mais indeterminado
ainda, pois não queria tirar os olhos de sua mãe nem por um instante.
Um dos privilégios de se morar próximo ao parque ecológico, é a sinfonia
delicada, misturada com os mais diversos acordes, dos bem-te-vis, tuiuiús e
demais aves do céu, formando um espetáculo magistral.
Letícia acordava preguiçosamente enquanto Christian preparava algum lanche
que não fosse ou guardasse semelhança alguma com hambúrgueres. A cozinha
planejada tinha uma bela mesa dobrável que praticamente não tinha utilidade por
falta de visitas, e por ele adorar comer no sofá assistindo a qualquer porcaria que

passasse na T.V. Por equivaler a uma das coisas que sua mãe reprovava e muito
ser tomar café-da-manhã em frente à televisão, ele a abria tão orgulhosamente.
–Dormiu bem, mãe? – perguntou Christian abrindo um sorriso, quando Letícia
entrou na cozinha.
–Sim filho. Mas eu ainda não pude esquecer tudo o que houve ontem.
–Mãe... Tente se acalmar um pouco. Vamos, sente aqui para comer. Eu bati uma
vitamina de morango com leite, e aqui tem pão, geléia, e frutas...
–Me perdoe filho. Eu não quero comer nada.
–O quê? Por que, mãe? Você tem que comer alguma coisa, não pode ficar sem se
alimentar! Vai se sentir mais mal ainda...
–Sei disso, filho. Mas ainda não esqueci o Sydney, eu... O amava!
–Mãe. Por favor. Eu quero que você...
–Tem alguém na porta.
–O que foi?
–Alguém acabou de bater na porta – Letícia avisou outra vez.
Christian olhou para a mãe imaginando que ela apenas tentou interrompê-lo. Mas
ao chegar à porta, ela realmente estava certa: à soleira, uma mulher muito
inquieta estava no outro sentido dela.
–Mãe, eu estou entrevistando algumas mulheres para preencherem vagas de
emprego lá na locadora, e acabou de chegar uma agora. Eu vou conversar
rapidamente com ela aqui na sala, e quero que você coma alguma coisa, tá bem!
–Tá, filho. Vou tentar fazer um esforço.
Christian sorriu outra vez para a mãe, e abriu a porta.
Uma moça linda de modo indiscreto, com cabelos ruivos cacheados e olhos azuis
penetrantes. Seu corpo esguio era delicado e formoso ao mesmo tempo, e seu
rosto transparecia uma meiguice que excedia qualquer melindre. Christian ficou
entorpecido a observá-la, como se ela fosse uma doce substância química, a mais
doce que já vira. Atribuindo um sorriso débil e equiparado em higidez e
contentamento, sem saber o que dizer.
–Ham... Crreio que você é Chrristian Salém, nón?
–Sou... Sou sim... – respondeu Christian, sem nem ao menos perceber a
pronúncia desajeitada do português que a moça possuía. – Entre...
–Clarro, prreciso falarr urrgentemente com você.
A moça entrou rápida, ainda dando uma última olhadela para a rua.
Sentou delicadamente, antes que fosse convidada, e disse não mais tão
prazenteira:
–Chrristian, que bom que lhe encontrrei. É muito imporrtante tudo o que tenho
parra lhe dizerr...
–Sim. Quero que me conte primeiro porque o interesse no trabalho. Você já tem
experiência em video-locadoras? Já trabalhou com algo parecido? E acredito que
você não seja brasileira... Não é mesmo?...
–SHTÓ SKAZAL? Querro dizer, o que disse?
–Se já trabalhou em uma video-locadora antes...
–Video-locadorra? Eu nón sei de que está falando...
–Não sabe? Como assim?... Não te informaram que o trabalho era numa...
–Esperre, Chrristian. Acho que ainda nón me aprresentei. Sou Írris Brrainvich.
–Íris, você quer dizer? Íris Brainvich?
–Isso mesmo.
Christian ficou pasmo. Não sabia se era exclusivamente por estar cara a cara com
a garotinha russa da foto ou pelo perfume almíscar que ela utilizava, que
dominou o ar por completo.
–Você... Por que você está aqui?
–Chrristian – a moça titubeou um pouco antes de prosseguir – Você foi a pessoa
escolhida parra destrruir uma ameaça que veio à Terra. Os...
–Eu já sei. Alienígenas.
–Já sabe? – Íris intrigou-se.
–Sim. Eu li o As Três Pessoas Hipnotizadas, de Bóris Brainvich.
–Meu pai.
–Isso. Acho que é sim. Pelo que descobri...
–Bem, entón você já sabe do perrigo que nós serres-humanos corremos.
–Sim.
Ela deu um sorriso e mostrou dentes perfeitos.
–Eu vim prronta parra contarr a você tudo sobrre a invasón, mas você já sabe...
Entón eu posso pularr parra a prróxima parrte...
Na verdade, Christian nem mostrava ansiedade em saber o que ela iria falar;
contanto que ela continuasse a falar...
–... Você foi o nomeado parra defenderr o planeta – revelou Íris, parecendo
agitada outra vez – Defenderr o planeta dos alienígenas.
–Espere aí, Íris... Como é que eu vou fazer isso? – interrogou Christian, achando
um pouco patético tudo o que ouvia.
–Você tem que virr comigo.
–Como é que é?
–Venha comigo. Eu prreciso te mostrrar o que deve fazerr.
Christian ainda não havia encontrado as palavras certas para negar o convite da
“quase” desconhecida. Ele só ficava assim, sem jeito, quando terminava com
alguma garota bonita, ou conversava com alguma garota bonita...
–Olha Íris, é uma longa história. Não é só porque é a primeira vez que eu estou te
vendo na minha vida!... minha mãe está aí, e ela não...
–Sua mãe é Letícia Salém e seu namorrado, Sydney Campos, virrou um
alienígena. Disso, pelo menos, eu já sei.
–Como sabe?
–Eu te conto no caminho. Chame sua mãe parra irr conosco. Não há nada parra
esconderr dela.
–Está bem. – cedeu Christian, com toda a inocuidade do mundo. – Mãe!
–O que foi, filho? – indagou Letícia surgindo na sala logo após ser chamada.
–Preciso que vá comigo até um lugar. Não quero te deixar sozinha aqui.
–Tá – ela respondeu, olhando desde os olhos azuis e penetrantes de Íris até os
castanhos e conhecidos do filho.
–Entón é melhorr irmos...
–Claro Íris.
O rapaz abriu a porta e a primeira a sair foi a própria moça.
–Você veio... a pé?
–A pé querr dizerr caminhando?
–Sim Íris. Quer dizer – respondeu Christian, que, apesar de cômico, sabia que ela
falava sério.
– Entón sim...
–Vamos com meu carro.
Christian foi até a garagem e pegou seu Croma.
Ambas entraram, e enquanto dirigia averiguou:
–É muito longe daqui, Íris? – disse Christian, indo à direita, onde ela mesma
pediu.
–Muito menos que imagina...
–O que disse?
–Pode parrar. É aqui – relatou a moça, apontando para uma bela casa de vidro.
–Quem mora aí? Você?
–Sim.
Saíram dirigindo-se a residência.
–Nossa... E eu sempre quis saber quem era o dono desta mansão... – declarou
Christian entrevistas, enquanto a moça abria a porta da residência com uma
chavinha pequena.
–Mansón?... O que é isso?
–É o tipo de casa que você tem...
Íris ainda o observava equivocada, mas ele parou de falar. Entraram no lugar e a
vista de dentro era ainda mais vislumbrante: a claridade batia diagonalmente e se
arquivava de um borne formoso e escopo. Devia ser muito prazeroso a alguém
acordar todos os dias com todo aquele fulgor do raiar.
–Íris, não é? – sua mãe finalmente disse alguma coisa, pois fora a conversa antes
de saírem, ela ficou em silêncio por um tempo considerável.
–Isso, senhorra Salém...
–Onde é o banheiro? – inquiriu Letícia, mas, pela primeira vez na vida, Christian
desconfiou dela ter perguntado isto apenas para admirar boa parte da casa...
–No fim do corredor, a primeirra porrta a esquerrda.
–Obrigada, Íris...
–De nada.
Letícia abrira espaço para que Íris e o filho ficassem sozinhos novamente.
–Você ainda não me contou como sabe sobre a minha mãe... – argumentou
Christian adentrando até um tanto incivil, mas de modo muito inocente, na sala
de estar da casa antes da própria Íris.
–Eu...
–Íris!... O que é isso!!
Christian ficou impressionado com o que seus olhos viam. Antes pensou ser um
bicho de pelúcia um pouquinho descuidado sobre o sofá da moça. Mas, de
repente, o bicho piscou e deu uma breve espreguiçada. O rapaz deu uma
cambalhota, uma pancada para trás, tomando um susto danado. Uma “criatura-
verde”, pequena, de visual maltratado, e um rosto completamente disforme.
O rapaz estava prestes a espancar o ser frágil, que, pelo menos aparentemente,
não seria capaz de se defender.
–Chrristian! Nón faça nada! Ele é... Um amigo...
–Amigo?! Não parece... Eu não confio em “coisas verdes”, Íris, desde um
tempão, quando comecei a me abarcar na literatura, lendo meus primeiros livros
de ficção... – disse Christian, parecendo esperto.
Christian e o ser verde se encararam por raros momentos, até que um deles foi
atravancado por uma voz graúda, que se assemelhava a de um barítono.
–E aí? Vai ficar só me olhando e nem se apresentar? Porque, sem ofensas, até
agora não vi nada de literário em você, como disse aí, se ostentando o máximo
que pôde...
Christian ficou completamente atônito e em estado de choque. Estava olhando
para uma coisa verde falante.
–Vamos Chrristian, nón seja mal-educado... Cumprrimente Amanttinis!
–Amanttinis? Quem é Amanttinis? Esse bicho que fala?...
–Bicho que fala uma ova, rapaz! Você sabe em frente a quem está neste
momento?!
–Ham... Uma criatura verde falante?
Amanttinis vistou-o anuviado e nervoso.
–Você tem muita sorte. Eu não quero machucá-lo, senão você já estaria morto...
No mesmo momento, Christian se acovardou. Que infortúnios poderiam sair
dali? Do diálogo entre ele e um... Um...
–Você está falando sério?
–Se Amanttinis está falando sérrio, Chrristian?
Íris e Amanttinis o arrostaram ao mesmo tempo.
–Clarro que nón! – Íris terminou. – Ele cuida de mim desde que eu erra uma
crriançinha!
Christian estava no meio de estranhos. Estranhos que pareciam tratá-lo com um
ligeiro vilipêndio. Com certeza, Íris era a menos estranha na sala.
–Bom, rapaz, já que você não quis se apresentar eu mesmo nos apresento. Eu sou
Amanttinis, um dos reis dos Ericlashivas que vocês comumente chamam de
alienígenas. A propósito, não gosto desta alcunha. Não sei de onde vocês a
tiraram, mas ela não bate bem em meus ouvidos... E você é Christian Salém. Um
homem de vinte e dois anos que tem uma vida humana feliz. Ainda faltam-lhe...
–Alto lá, prezado Amanttinis!... Como você sabe tanto sobre mim?
–Humanos... Eu vou precisar falar novamente que eu não sou humano para você
poder entender? Não somos iguais a vocês, Christian. Somos diferentes.
Christian parecia começar a contrair interesse na conversa. Mas ainda
preocupava-se com outra coisa.
–Eu vou ver se está tudo bem com a minha mãe. Ela está demorando, não
acham?
–Chrristian, pode deixar que eu vou ver. Fique aí – sugeriu Íris, empurrando seus
ombros para que ele voltasse a se sentar.
–Tá bem...
O alienígena continuou.
–Então, Christian, me deixe esclarecer algumas coisas que poderão responder a
algumas perguntas que você deve estar tendo. Como já disse sou um dos reis dos
Ericlashivas. Meu irmão, Amanttis, é o outro. Quando nossos pais morreram,
deixaram a insigne herança que possuíam e a única que precisávamos: uma
pirâmide pequena e dourada, que lhes conferiam alguns poderes.
–Poderes? Que tipos de poderes? – Interrompeu Christian, curioso e atento a cada
vírgula.
Íris e sua mãe entraram na sala.
–Ela se perrdeu pela casa... – Íris contou – Já expliquei tudo o que está
acontecendo parra ela.
–Me permita continuar Íris.
Íris acedeu com um gesto prosaico.
–Que poderes, você perguntou, não foi? São poderes que a pirâmide atribui a
cada um que a possui. Na nossa terra, apenas a linhagem nobre pode tê-la, e os
poderes apenas podem ser usados a favor do povo. Nossos pais sabiam que nós
dois éramos os herdeiros legítimos, e por sermos gêmeos, concordaram no
tocante de deixar-nos assumir juntos o reinado. Eles morreram quando eu e meu
irmão tínhamos dezesseis anos de idade. Mas antes de falecerem, dividiram a
pirâmide em duas partes para que eu e ele pudéssemos dirigir o país desfrutando
ambos do mesmo elemento que era nosso por direito.
–Espera aí. E o que tudo isso tem a ver com a invasão de vocês ao nosso planeta?
–Um pouco de calma, por favor, dispendioso rapaz. Estou tentando elucidar tudo
o mais resumidamente possível, se você me permitir...
–Tá bom. Continue então.
–Eu convivi com meu irmão Amanttis. Pude ver exatamente como ele crescia,
cada vez mais ambicioso, querendo conquistar tudo que podia com sua audácia
eufórica. O poder que a pirâmide lhe conferiu era forte demais, e sua cobiça era
grande demais. Eu sabia que isso traria sérios problemas no futuro... – o
extraterrestre fez uma interpelação. Parecia repassar os fatos em sua mente –
Num certo dia, meu irmão acordou infeliz com o corpo inerme que tínhamos. Ele
dizia que, com nossos poderes, poderíamos ter o corpo que quiséssemos, ou
melhor, o corpo de quem quiséssemos. Como podem ver em mim mesmo, nossa
estrutura corporal é mortiça e frágil. Essa era a única coisa em nós que ainda era
inferior. Para meu irmão, porque para mim e para todos a vida já era boa demais
para maiores questionamentos. A angústia de Amanttis de sempre querer algo
mais originou uma revolta, que infelizmente foi muito bem aceita por nosso
povo. Teria acontecido a vinte anos atrás, se eu não tivesse impedido.
–E como você impediu?
–Relatando a um humano, chamado Bóris Brainvich. Bóris era um escritor, e ele
mesmo sugeriu escrever tudo o que lhe disse para que pelo menos algumas
pessoas pudessem ser alertadas. Meu irmão ficou furioso quando soube que
frustrei os planos dele, e depois disso nunca mais voltei à meu planeta. Cometi o
que lá chamam de “pecado indefensável”. Passei o resto da minha vida a proteger
Íris, que estava sendo seriamente procurada por ele, devido a um de meus últimos
presságios que chegaram a seus ouvidos ter sido que a filha de Bóris poderia
impedir seus planos...
–Presságios? Você tem... Presságios?!
–Esse é o meu poder. O poder que o meu pedaço de pirâmide me conferiu. A
capacidade de prever acontecimentos. Amanttis recebeu um poder que o ajudou
muito em sua investida de invadir a terra: hipnotismo. Ele tem a capacidade de
hipnotizar pessoas, qualquer uma, com um simples olhar. Abusando de seus
poderes, ele propôs um plano ao povo. Nele, três humanos hipnotizados já eram
suficientes para que ele alcançasse seu pernicioso objetivo de chegar a Terra em
total segurança.
–Então você está querendo me dizer que o seu irmão faz parte deste tipo de...
Conspiração?
–Christian, você não entendeu nada do que eu venho lhe contando? Meu irmão
não faz parte, ele é a própria conspiração! Acima de qualquer ressalva, Amanttis
é o principal e específico culpado de tudo que está acontecendo.
–Entendi. Mas me surgiu uma curiosidade: no seu país vocês devem falar
português, não? Porque o seu é extremamente bom...
–Ha ha, muito engraçado, mas lá nós não falamos português não. Esqueci de te
contar que nós alienígenas, modéstia parte, somos seres muito mais inteligentes e
adiantados, adiantados mesmo, acho que anos-luz a vocês, em tecnologia.
Aprendemos a língua de vocês em três anos.
–Três anos? Você acha isso pouco? Com três anos eu também já sabia falar... – o
rapaz caçoou.
–Você já falava todas as línguas do seu planeta em três anos?
Christian ficou boquiaberto e espantado.
Amanttinis o arcou com uma face risonha e continuou.
–Bem, eu tenho que terminar de explicar-lhe, pois tenho certeza que ainda deve
estar muito confuso. Quando Amanttis hipnotizou três humanos, finalmente foi
possível adentrar em segurança no planeta Terra. Cada alien projetou o seu
próprio videogame, escolhendo a dedo o corpo do ser - humano que iria dominar.
Quase todos que eu pude observar, optaram por corpos de garotos e garotas
jovens, com pouquíssimo tempo de vida, mas eu escolhi você.
–Eu? – questionou Christian, olhando no fundo dos olhos do alien.
–Sim, você. E eu fui o único que criei um videogame com defeito, de modo
proposital. Contei a meu irmão que não tolerava o plano desde o início, mas ele
não me deu ouvidos. Até que tive a visão...
–Que visão?
–Que se eu não o obedecesse, e, mesmo que às escondidas tramasse algo para
impedi-lo, ele não conseguiria terminar o que começou. Minha estratagema vem
dando muito certo, agora que eu e Íris temos a pedra angular do nosso
planejamento.
–E quem é?
–Ora, é você, Christian!
–Eu? Mas...
–Você foi o único até agora que jogou o videogame e não perdeu seu corpo. Você
é a pessoa da minha visão. A única pessoa que pode impedir tudo isso!!
–Eu não posso não! – bradou Christian em tom irritadiço. – Aqui no meu planeta,
Amanttinis, não é só aparecer com uma história maluca, querer que eu acredite
em tudo, e ainda por cima participe da trama! Você está louco! Você é um
alienígena! Eu não confio em você!!
–E nos humanos? Você confia?! – cortou Amanttinis em tom contundente. – Pois
pelo pouco que conheci a raça de vocês são tão inconfiáveis quanto nós podemos
ser. Eu podia muito bem estar em seu corpo neste momento, nós não estaríamos
aqui tendo essa conversa, e com certeza seria o fim da humanidade. Sim, eu traí a
confiança do meu irmão, para ajudar uma raça que eu nem ao menos conhecia.
Então se você, que é um humano, não quer defender seu próprio povo, eu desisto.
Christian estremunhou. Mas por dentro. Olhou de Íris para sua mãe, que fez um
sinal de que o filho deveria obedecer ao alienígena.
–Eu acho que lhe devo desculpas.
–Não brinque... Eu respeito seu ceticismo, Christian. É de complexa
decodificação tudo isso, mas...
–Eu aceito sua proposta.
Amanttinis transcendeu um olhar de dever cumprido. Avistou sua operação
fruindo.
–Tudo bem.
Ainda tem algo que quer muito saber, Christian?
O rapaz pensou rapidamente, entrevendo os pensamentos.
–Por que um... Videogame? Algo tão... inocente...
–Justamente pela última palavra que disse. Inocente. Significa corpos em sua
maioria jovens, o que não conseguiríamos com um cigarro, por exemplo. O
videogame holográfico é algo ingênuo e viciante ao mesmo tempo.
“Como alguém pode planejar tamanha truculência? Como? Como pode alguém
pensar em tirar a vida de crianças, de adolescentes... Eles não eram humanos,
apesar de humanos serem capazes de atrocidades maiores que essas”...
Sem querer, Christian acabou chorando. Chorando por quê?
Por todos os sofrimentos do mundo.
O inofensivo e bondoso Amanttinis, já ganhando a confiança de Christian,
levantou-se com extrema dificuldade do sofá para que pudesse entregar uma leve
carícia no buço do rapaz.
–Está vendo, Christian! Isto o diferencia do meu irmão. Seu amor! Ele não quer
saber de nada senão de si mesmo. Em minha opinião, ele está pouco ligando para
os outros alienígenas. Ele não possui um pingo de altruísmo. E você sim, você
possui, por isso pode derrotá-lo!
–Eu estou pronto para o que der e vier – garantiu Christian, olhando para o porto
seguro que o panorama de sua mãe lhe apresentava.
Os vidros temperados com uma cor ouro traziam um brilho descomunal ao rosto
do rapaz.
–Que bom. Que bom que passou a entender, amigo Christian. A sua vida, neste
momento, é a mais importante de todas neste mundo. Você está pronto para que
eu possa prosseguir para a parte final?
–SIM...

8. As Pirâmides Irmãs

Uma mulher morena e de rosto enxovalhado esperava por algo sentada num
banco do extenso parque do Ibirapuera.
De repente, à sombra da marquise dum edifício, surgiram três pessoas
encapuzadas e uma delas, ao aproximar-se, desvencilhou a capa do rosto com
extrema ligeireza, mostrando uma fisionomia petulante, segura, de olhos verdes e
argutos, uma barba rala que começara a crescer a pouco, e cabelos castanho-
brilhantes penteados para trás com perfeita exatidão.
–Tirem logo a capa, inúteis! – ordenou o homem, e dois garotinhos surgiram
detrás delas.
Do meio de uma moita de azaléias pularam mais dois, que correram com pressa
até onde os outros estavam.
Um deles, alto e de nariz turvo sobre os lábios grossos, começou:
–Estamos seguros?
–Totalmente.
–Olhe mestre, eu sou Eklinis, e...
–Vamos cortar as apresentações – o homem de olhos verdes parecia impaciente. –
Contem logo tudo o que conseguiram.
Todos ficaram em silêncio, como se não tivessem ouvido a última frase do
homem.
–Contem inúteis, eu quero resultados! Um por então irá falar qualquer progresso
que teve!!
Ele coleou primeiro a mulher, com um olhar áspero e seco, e ela respondeu na
mesma hora:
–Eu encontrei outros de nós! Dezenove no total!
O homem fez uma cara de desgosto.
–Muito bem. É aceitável. Alguém mais?
–Eu consegui nosso esconderijo chefe, se esqueceu?
–É verdade, Jungnis. Você também cumpriu com seu dever.
Antes que qualquer outro pudesse falar, um garoto gritou:
–Eu encontrei o abrigo de Íris e de seu irmão!
–O que disse?
–Sei onde Amanttinis se esconde!
–Não acredito!...
Um riso gracioso e excitadamente sinistro saiu da garganta do homem.

***

Christian já havia depositado grande confiança em Amanttinis, e o mesmo dera


conta disso. O jovem rapaz sabia que iria lutar contra forças inimagináveis, talvez
insuportáveis, mas sua fé era suficiente para prosseguir lutando.
Amanttinis se mostrou surpreso no diálogo descontraído, pois pensava que
Christian não compreenderia uma vírgula do que ele viera dizer. Ao saber da
história de Jonas Anderson ficou ainda mais impressionado, muito interessado no
tópico que o jovem amigo do rapaz morreu devido ao videogame e utilizou um
tipo de código para realizar conexão com ele.
–Eu criei este código! E ele foi escrito por Íris num livro que acabou sendo
chamado de Relatos Secretos de Bóris Brainvich, pois eram algumas coisas mais
que Bóris não pode escrever em vida.
–Isso quer dizer que alguém morto leu o livro!
–É, quer dizer...
O alienígena tinha uma aparência apavorante para Christian, mas alguma coisa,
talvez seus olhos, resplandeciam-lhe pureza.
–Christian, todo o meu trabalho, todo o meu empenho, e toda minha dedicação
em tentar ajudar a humanidade, se resume a isso...
Amanttinis pegou um embrulho num papel branco, bonito, e retirou um objeto
dourado, flamejante, e com luz própria. Uma pirâmide partida ao meio jazia nas
mãos verdes de Amanttinis.
–Pegue-a.
Porém, antes que Christian pudesse fazê-lo, Amanttinis recomendou:
–Use o papel. A pirâmide pode estranhar você.
–“Estranhar”? Como assim?
–Se incomodar. Por você nunca tê-la tocado, por ser um humano, e por outros
motivos mais.
–Tá bem.
Christian colocou a pirâmide em suas mãos, com o papel devidamente asseado
nela como Amanttinis pediu.
–Isso é lindo, Amanttinis...
–É, eu sei. Mas muito perigoso quando usado para o mal.
Aquém do furacão de perguntas que colimavam suas idéias sobre Amanttis, o
rapaz escolheu a cardeal:
–Amanttinis... Depois de tudo o que me disse, surgiu-me a seguinte idéia: por
que Amanttis simplesmente não hipnotizou Bóris? Ele poderia conseguir tudo o
que queria, inclusive Íris, e você...
–Ele não fez isso... Porque sabia que eu preveria tudo o que ele pudesse fazer.
Naquela época, eu podia prever o que quisesse! Apenas pensava em certa pessoa,
e podia ver qual seria seu futuro. Agora, meus poderes abateram-se juntos
comigo...
–Não fale assim, Amanttinis... Você ainda deverá viver muito...
–Nón, ele nón vai, Chrristian. Seu fim está muito prróximo.
Íris acariciou o rosto do alienígena que praticamente a ensinara a viver.
Letícia pareceu querer falar algo:
–Se seu fim está próximo, como...
–AH!
Amanttinis bambeou e caiu ao chão, segurando sua cabeça com muita força.
–O que foi! O que está havendo, Íris?!
–Ele está tendo uma visón...
–Mas..., é assim? Ele sofre tanto para...
–Vocês têm que sair daqui!
–Porr que, Amanttinis? O que você viu?
–Não há tempo para perguntas Íris, vão agora!
Num gesto imperioso, Íris agarrou Letícia e Christian pela munheca puxando-os
com eficácia.
Amanttinis ainda parecia compungidamente esfalfado, mas Íris mesmo assim o
deixava lá, sozinho, caído e definhando no chão da casa de vidro.
–Íris, não podemos deixá-lo! Ele irá morrer! Temos que protegê-lo!!
Christian se desvencilhou dos braços da moça e voltou à casa aos pulos, com um
imo enérgico e latejante.
–Vamos, Amanttinis, vamos!
Christian começara a erguer no ar o corpo de pouco peso de Amanttinis para que
pudesse levá-lo consigo, para que pudesse tirá-lo dali...
–Meu irmão está vindo, Christian, vá embora!
–O quê?
–Meu irmão! Ele irá me matar! Eu não posso mais impedir, saia logo daqui! Você
é a única esperança do seu planeta!!
Christian não conseguia ouvir e aceitar aquelas palavras, ao mesmo tempo. Não
queria obedecê-las. Queria salvá-lo também, salvar o extraterrestre que
conhecera e confiara em poucas horas...
–Vá embora agora, Christian! Ele já está muito próximo!!!
Amanttinis se lançou dos braços firmes de Christian para o chão outra vez.
–Íris tem todas as outras informações que você precisa! Quero que vá neste
momento, senão nada do que lhe disse valerá a pena!
O rapaz olhou pela última vez dentro dos olhos consolantes de alguém que
parecia plácido demais mesmo ciente de sua própria morte.
–Adeus, Amanttinis. Sua morte não será em vão!
E saiu fechando a porta com grande destreza.

***

Um carro grande e desatinado vinha cantando os pneus pelas vielas. Rumava em


alta velocidade em direção a uma casa de vidro.
Extrapolou os cento e noventa por hora numa pista lotada, passando por vias e
avenidas dispostas de muitos carros. Até que chegou num bairro pacato,
iluminado e limpo, parando com pressa na esquina.
Apenas um homem com um elevado corpanzil e olhos verdes e sutis saiu do
carro. Entrou fácil na porta apenas encostada e deu de cara com um horrendo
anão verde, distendido no chão.
–Eu esperava por você, irmão...

***
Christian dirigia tremendo. Sua mãe, a seu lado, queria confortá-lo, mas não
sabia o que dizer.
Enfim chegaram à casa do rapaz, e ele estacionou o carro em sua garagem.
Permaneceu lá, sentado, e todos dentro dele fizeram o mesmo.
–Droga! – ele exclamou, dando um soco no painel.
–Calma, filho. Estamos todos bem...
–Bem? Estamos todos bem? Mãe, há uma ameaça terrível aí fora e quem foi
chamado para destruí-la? Não, não foi nenhum herói de história em quadrinhos,
nem um personagem de filmes de aventura, foi um homem que ainda é um guri!
–Não diga isso filho, você...
–Não mãe. Não quero conselhos. Só quero paz. Paz para refletir sobre todo esse
pandemônio. Não sei ainda quais serão minhas peripécias para vencer tudo isso...
–Chrristian. Acho que é melhorr entrrarmos. Nón é tón segurro aqui forra.
–Vamos.
O rapaz levantou-se flébil e Letícia colocou suavemente as mãos sobre seus
ombros, como se isso o fizesse se sentir mais alentado. Íris apanhou as chaves
com a mulher e abriu a porta.
Uma subvenção provinha da pirâmide. A pirâmide dourada em seu bolso, que ele
retirou e vislumbrou com a mão protegida pelo papel branco. Era a segunda vez
que ele a colocara em sua mão em magros minutos, e era a segunda vez que ele
se sentia inteiramente revigorado neste dia. Aquele objeto, um triângulo vivo
quebrado medialmente parecia ser vitalizante, restaurador. E aquele objeto, de
certa forma, o ajudaria a salvar o planeta. Mas, e o seu estado moral? Será que
ele se encontrava pronto para tal proeza?
Todos na sala pareciam repudiar qualquer tipo de amálgama; Letícia era a mais
silenciosa da sala, seguida de perto por Íris, que parecia esperar o momento
propício para falar. Quando Christian lhe entregou uma visada favorável ela deu
início a suas palavras:
–Chrristian. Temos que começar a agirr logo, parra que seu amigo, seu
namorrado, Letícia, e todos os outrros que perderram os corpos possam voltarr a
viverr.
–Sim. O que temos que fazer?
–Irr até o esconderrijo de Amanttis e seus comparrsas.
–E você por acaso sabe onde é o tal esconderijo?
–Sim. Cerrta vez, Amanttinis me mandou seguirr um alienígena. Acabei dando
num beco escurro, e a residência que vi, bateu com uma de suas visóns em que
ele via seu irrmão entrrando no mesmo lugarr. Só poderremos irr até ele quando
você exercerr total domínio sobrre a pirrâmide.
Christian assentiu ao que a moça disse, e olhou novamente para o poliedro em
suas mãos. Decidiu tirar o pano que o resguardava.
–Nón faça isso, Chrristian!
Ele não obedeceu, e viu sua mãe e Íris trepidantes com que consequencias sua
poderia acarretar. A pirâmide, porém, não produziu nenhum efeito adverso,
moldando-se perfeitamente a suas mãos como provavelmente acontecia com
Amanttinis.
–Então o que estamos esperando? Preparem-se, vamos agora mesmo!

***

Fora dos limites da cidade, os olhos cansados de Amanttinis examinavam


minuciosamente seu irmão ao volante, e três bestas em corpo humano que
sorriam para ele. Só olhava, porque sua boca estava amordaçada e seus pulsos
amarrados com um material similar a cilício.
Estava sonolento como se tivesse sido anestesiado, mas permanecia lúcido. Não
queria perder nada que lhe fariam.
Aqueles monstros cruéis. Eram seus concidadãos. Eram, mas seu nojo atroz por
eles era maior que tudo e todos.
Amanttis parou o carro de modo brusco, e Amanttinis só pode ter certeza de que
estava a centenas de milhas da urbe.
Os que se encontravam no banco de trás com Amanttinis sentiram no mesmo que
deviam pegá-lo. Mas Amanttis alertou:
–Me dêem as honras, por favor. Vocês não são tão puros assim para tocar na
divindade, num dos reis dos Ericlashivas.
Abriu a porta do carro, e pegou Amanttinis em seus braços, como um filho. O
pequeno alienígena amordaçado só pode mirar com os olhos seu irmão,
esperando cada ato sórdido que emanaria dele.
Entraram todos os cinco, Amanttinis levado no colo, dentro de um solo verde,
terreno grande, abandonado. Havia muita lenha e um pote com álcool. A
vegetação acabava no lugar onde estavam acavalados os gravetos.
Sem explicação fidedigna, o local parecia preparado para um verdadeiro martírio.
Amanttis jogou seu irmão na terra como se jogam entulhos no lixo. Ele troçava
incomensuravelmente ao dizer:
–Está na hora do show!...

***

As coisas mudaram muito no grupo criado por Foster e Jonas desde que Susane
decidiu deixá-los. A moça alegou dever a decisão da saída ao fato de, segundo a
própria, ninguém gostar dela ali; e por Jonas e Samuel quererem “mandar” em
todos.
Porém, de uma forma geral, cada um deles individualmente, cada qual com seus
graus, estavam descrentes de que pudessem retroceder a existência, ter de volta
seus corpos, suas famílias, suas afeições...
Era desesperante para qualquer um deles imaginar que não poderiam mais voltar,
mortos de forma tão ingrata.
Foster permaneceu por dias compenetrado em sabe-se lá o quê. Afastado dos
outros, cada um estava mais desordenado que o ulterior.
E certos dias se passaram depois que Susane se foi.
–Sabe de uma coisa, Jonas...
–O quê, diga lá.
–Eu já desisti há muito tempo de lutar por nossas vidas. Estamos mortos, cara.
Mortos! Acabou! Foi muito estranho o modo como acabou, mas infelizmente o
fim chegou para nós.
–Não fale assim, Henrique. Você tem uma vida toda pela frente ainda garoto!
Não pode ceder, assim...
A menininha de cabelos castanhos falou:
–Eu também já desisti. O Fábio desistiu, a Luísa, a Susane, que inclusive foi
embora, até o Foster desistiu. O cara se isolou e não quer mais a presença de
ninguém!
–Não fale isso, Bella. Não podemos perder as esperanças.
–Jonas, pare, por favor! Eu acho que até esse grupo já não faz mais sentido! Se
estamos mortos, o que acha de separar-nos?! Vou embora agora mesmo!
–Você? Eu que estou fora daqui! – imprecou Fábio, nervoso.
–Eu também vou sumir por aí – avisou Henrique.
–Sumir por aí?! Vocês são... Crianças!!
–Crianças... Estamos mortas, então não há problema nenhum...
Os três pequeninos se levantaram, saindo de seus respectivos bancos, dividindo-
se e sumindo em poucos instantes.
Jonas não acreditou. Mas também não os chamou de volta. Sabia que aquela
garotada era impertinente e teimosa. Principalmente teimosa. Por isso deixou-os
ir. Provavelmente eles estavam certos. Não havia mais esperanças...

***

Ele nunca havia se sentido tão bem em sua vida até o célebre momento em que a
pirâmide estava em suas mãos, despida de qualquer coberta.
Antes mesmo que eles pudessem realizar qualquer intrépida decisão, Íris passou-
lhe escritos que Amanttinis deixara a ele:
Querido Christian, se você tem este
bilhete em mãos, eu já não devo mais
estar entre vocês. Quero que saiba que a
pirâmide que lhe entreguei é um objeto
de extremo poder. Peço que vá atrás de
meu irmão, com grande cautela, e nunca,
de forma alguma, o deixe possuí-la. Será
o fim de tudo se Amanttis conseguir
minha parte da pirâmide. Meu irmão não
sabe, pelo menos por enquanto, que você
a possui. Ele não sabe quem é você, o
que faz, e isso é um ponto a seu favor. O
seu objetivo para restabelecer tudo, é
conseguir o outro pedaço de pirâmide, o
de meu irmão. Por isso precisa ir até ele.
É a única forma de destruí-lo, e por fim
nessa história de uma vez por todas.
Lembre-se, meu irmão sentirá, sem
querer, minha falta. Somos gêmeos, pode
ser que isso o ajude muito.
Quando você tiver os dois pedaços de
pirâmide em seu poderio, deve uni-las e
proferir as seguintes palavras:
”Deminstifus Maléfiquis Poderes”. É o
encanto que quebra todo o mal. Que
destrói meu irmão e meu povo.
Você é a intervenção, do bem contra o
mal.
Adeus, Christian, sei que vai de conseguir.
Tenha uma boa vida.
–O que é que está escrito aqui? Deminstifus Maléfiquis Poderes?
–Isso. Você tem que decorrar.
–Claro. Pode ter certeza que isso aqui nunca mais vai sair da minha cabeça...
–Tomarra.
Íris olhou para Christian com um olhar sereno e compassivo, como o de um anjo.
Letícia não fazia nada senão examinar a afinidade na troca de olhares que os dois
tinham.
–Íris, você saberá guiar-nos exatamente até o local?
–Sim Chrristian.
A moça e o rapaz se levantaram, mas Letícia permaneceu sentada.
–Eu não vou, filho.
–Perdão? Acho que não compreendi, mãe.
–Eu não vou com vocês. Não é pelo perigo, e sim porque quero descansar,
sobrestar um pouco essa psicose...
–Mãe, você não pode ficar sozinha aqui! Eu não vou permitir...
–Christian, isto não é tão perigoso quanto pensa. Eu vou ficar aqui, sob custódia.
Não há alienígenas com corpos humanos invadindo casas e matando pessoas,
pelo que eu saiba. É um tipo de conflito interno.
–Mãe...
Íris interrompeu os movimentos de Christian em discórdia a Letícia.
–Ela está cerrta, Chrristian. Não fique tão prreocupado. Sua mãe estarrá mais
segurra aqui do que indo conosco.
–Está bem, então. Vamos.
Christian deu um largo abraço em sua mãe. Foi seguido por Íris.
–Feche tudo, mãe. Tudo. Ainda tem aquele seu namorado, ah droga! E se ele vir
aqui?!
–Pare filho, pare!...
O rapaz calou-se e se virou. Mas antes de sair disse:
–Eu vou voltar, mãe. Você vai ver.
Letícia queria chorar, mas esperou que seu filho batesse a porta para que pudesse
fazer isso.
–Eu sei que vai voltar, Christian. Eu sei...

9. A Última Profecia de Amanttinis

Todos os alienígenas estavam reunidos, como se a ocasião carecesse de um


ajuntamento extra-oficial.
O céu cor-de-rosa começava a caiar o sol. A vários metros do chão havia sido
erguida uma grande fogueira.
–Morra Amanttinis! Não precisamos mais de suas visões!
–Você não sabe o que está fazendo..., irmão. Eu não vivo sem você, muito
menos... Você sem mim... – Respondeu Amanttinis, ofegante.
–Cale a boca! – Disse, acertando um outro intermitente chute no estômago do
irmão, ainda caído e sem atuação, com seu frágil corpo alien. – Não é mais
necessário que acreditemos nas tolas superstições de nossos pais!
–Faça o que quiser irmão... Porém, você perderá no final.
–... O que disse?...
Amanttinis sorriu, e seu sangue verde e viscoso escorreu por seus lábios.
–Ah, maldito! – Guinchou Amanttis, e ergueu o irmão, moribundo, no ar. –Estão
vendo esse asqueroso? Ainda por cima, disse que destruiu a sua pirâmide para
tentar me impedir. Vocês acham que isso vai me impedir? Acham? – Rugiu para
todos os aliens ali presentes. – Ele vai morrer. E morrer... QUEIMADO!!!
O olhar de aspiração se fez no rosto de Amanttis. Com extrema brutalidade e
inclemência subiu o corpo do irmão à fogueira a pouco aceso e depositou-o nela.
–... MORRA, MALDITO. – Cochichou Amanttis ao pé-de-ouvido do irmão.
Amanttinis permaneceu em silêncio por alguns instantes, no centro do fogaréu.
Porém, quando o fogo começava a corroer-lhe a pele, ele berrou de dor.
–Morra! Morra!! Morra!!!
–AHHHHHH! – Os gritos ardentes de agonia de Amanttinis faziam quase todo o
ambiente, com exceção de Amanttis, se calar.
–Isso tudo está acontecendo porque você não me obedeceu..., TOLO!! Não é
mais rei nenhum! Agora é um simples e bucólico alien!!!
Com os últimos sopros de vida que lhe sobravam, Amanttinis declarou:
–Amanttis, só quero que saiba que... Você não será capaz de destruir este povo! –
Todas as suas forças se resumiam a estas palavras – Alguém já sabe sobre seu
plano... E ele será a intervenção... Irá te aniquilar, e aniquilar a todos vocês
exatamente como fazem comigo!...
–Isso é dificílimo a esta altura, seu estúpido! Quem é este humano? QUEM?...
–Não é você quem irá encontrá-lo..., ELE... Irá te encontrar... E minha última
profecia se cumprirá, Amanttis... Se cumprirá...
E, dizendo isto, o rosto de Amanttinis caiu sobre seu peito... E nunca mais se
levantou.

***

O tráfego estava horrível, e, para piorar as coisas, Íris mal sabia para onde o
estava levando.
–Chrristian, acho que entrramos na pista errada de novo...
–Ah, não... De novo, Íris? Vou ter de dar a volta.
–Nón, tem um desvio, bem ali...
Íris indicou a placa que recomendava o desvio na pista.
Um turbilhão de adágios passava pela cabeça de Christian, como num lampejo,
enquanto volvia o volante do carro. Várias lembranças invadiam sua ponderação.
Sua infância, Jonas Anderson, sua mãe... Pensava em que iria fazer, como iria
lutar contra o poder do perverso Amanttis, o alienígena incorporado em humano.
O maldito matara o pai de Íris, e provavelmente, a esta altura, seu próprio irmão.
–Chrristian.
–Fale.
–A pirrâmide está com você?
–Sim. Segura em meu bolso.
A temperatura ia caindo, o dia ganhando muita bruma, e o logradouro que agora
entraram era feio, e tão coberto por cedros que o céu deixava o ambiente ainda
mais enegrecido.
–Parre.
–O que você disse?
–Ham... Pare.
Christian acuou.
–Íris, você viu o que acabou de falar?
–Pare.
–Isso mesmo! Pare! Você não puxou o erre!
–Chrristian, não há tempo parra brrincadeirras. O lugarr é aqui
10. O Covil das Cobras

A casa era muito feia. O local era mambembe. Talvez o esconderijo mais
discreto e sujo da cidade.
O calçamento desgastado da rua, as casinhas desagrupadas, o rio sujo que corria
ao lado delas. Com todo o progresso que os dois mil e dezenove anos da
humanidade tinham, aquilo era tudo de mais vergonhoso que o homem poderia
gerar. E trazia a triste conclusão de que o avanço trazia ainda mais pobreza para
o mundo.
Por precaução, Íris pediu que Christian estacionasse o carro esquinas antes.
O rapaz saiu andando impaciente. Sentia-se como um cantor ansioso e
acovardado, prestes a sua estréia nos palcos.
Íris segurava sua mão, de um modo muito forte, mas mesmo assim confortante, e
ele desejou que ela não a soltasse nunca mais.
Eles seguiam pela rua recém-escura, respirando a força o ar fétido do local, que
era ainda pior pelo rio coberto de esgoto que desembocava por ali.
Chegaram quando Íris apontou.
E era um espaço horrendo.
Um matagal alto no lugar onde devia se encontrar um canteiro bem aparado.
Mirtáceas mortas se espalhavam como um formigueiro. O gradeado coberto por
ferrugem estava escancarado, como se uma visita já fosse esperada.
–Temos que entrrarr, Chrristian.
O rapaz concordou com a cabeça, mesmo sem haver concordância com sua
mente.
Entraram.
“Repugnante ideia”, Christian pensou.
Havia uma piscina grande, ampla, que até agora era o item mais limpo da casa.
Por dentro, era mais miserável que por fora.
O local cheirava absinto.
Havia uma mesinha de granito para refeições, onde se encontrava aluá posto em
jarras.
Um candelabro prata iluminava nada. A casa estava vazia. Completamente.
Christian e Íris andavam com açodamento em território inimigo. Procuravam à
pirâmide. Tinham a esperança de que Amanttis a tivesse deixado lá, só...
De repente, barulhos. Conversas. Se aproximavam mais e mais da saleta imunda.
–Eles chegarram...
Íris e Christian subiram escadas como num instinto; chegando a uma altura
considerável, uma saliência se precipitava no teto.
–É um sótão, Íris! Vamos entrar!...
Christian levantou a moça para que pudesse introduzir-se no compartimento,
encaixado na armadura do telhado. Íris o ajudou logo depois.
Deixaram uma pequena fresta, para que pudessem enxergar tudo abaixo deles.
Entraram cerca de oito pessoas: em sua maioria, crianças pequenas.
–Vocês viram aquilo?! Ele tentou botar medo em mim!
–Será, majestade? Será que ele não falava sério?
–Falar sério? Me poupe, Derinslink. Não tem como aquilo ser verdade. Um
humano vai me abater como? Você viu o que ele disse? Que destruiu sua
pirâmide para que eu não pudesse pegá-la, a maior asneira que poderia ter
feito...
–Mas e Íris, mestre? Não pode ser um perigo a mais? O senhor não se lembra da
visão que ele teve, há alguns anos?
–Íris... – um riso debochado e cheio de cinismo saiu do homem de olhos verdes –
Íris já deve estar... Morta. Como pode alguém simplesmente sumir! Vamos, me
diga! Há muito tempo que ela não dá as caras, e nenhum de vocês a encontrou.
Inclusive, recebi de meus apontamentos a notícia de que Amanttinis nunca esteve
com ela.
–Mestre, quer dizer que conseguimos! Seu irmão era o único que ainda podia nos
impedir!
–Claro imbecil, agora deduziu isto? Eu sabia que nosso plano não iria falhar! Sou
um gênio, não sou? Exclusivamente graças a mim, vocês vão viver com corpos
muito melhores! Nossas vidas serão mais longas, mais longas que as dos próprios
humanos...
Christian nunca vira Amanttis na vida, mas podia afirmar com grande certeza que
era o alto de olhos verdes, o mais audaz e cínico da sala.
–E se o seu irmão não destruiu a pirâmide dele? E se...
–Bobagem. Já sei o que vai falar. Que ele entregou a pirâmide a Íris. Impossível.
Improvável.
–Senhor, temos apenas um problema.
–O quê?
–A falta de seu irmão. Ela pode matá-lo.
–Outra bobagem. Bobagem sobre bobagem... Isso é apenas uma lenda, querido.
Uma historinha mitificada. Cortando este assunto inculto, quero informar-lhes
que vamos realizar uma grande reunião, nesta noite. Já avisei todos que os quero
aqui, até o fim do dia.
Um garotinho que sentado numa poltrona carcomida apenas observava a
conversa, decidiu participar.
–Mestre, temos outro problema.
–O quê.
–VISITAS!
O garoto pegou um cabo de vassoura e bateu com força na portinhola do sótão. O
cabo bateu em cheio no rosto de Christian, e o soalho podre desabou no mesmo
momento.
Íris e Christian caíram sob o galpão de granito.
–Ora, ora, ora, se não são Íris Brainvich e... e... Quem é esse garoto?
–Não sei mestre. Nunca o vi.
O garotinho deu uma mexida com o cabo no rapaz que tombou de mau jeito e
estava muito zonzo.
Íris se levantou aérea após a queda, tateando Christian exasperadamente; sem
saber se o mais certo era tentar protegê-lo ou acordá-lo. Desequilibrada pelo
nervosismo, decidiu optar pelo mais sensato:
–Chrristian! Acorrde! Acorrde agorra!!
–Ham... Íris...
Amanttis foi até os dois. Virando o rosto da moça delicadamente, colocou seus
olhos nos dela.
–Tem os olhos do seu pai, garota. Os mesmos.
–Você o matou! – berrou Íris com ódio, se abdicando de seus braços num
rebento.
–Você tem que culpar meu irmão, mocinha. A culpa é toda dele, foi ele quem
envolveu seu pai nesta história. Bóris não estaria morto hoje, não fosse
Amanttinis.
–Mentirroso! O culpado de tudo é você!!
Amanttis soltou uma risadinha impudica.
–Até seu sotaque, querida... Ele é idêntico ao de seu pai! Vocês poderiam ser
irmãos gêmeos, não pais e filhos...
Christian acordou. Levando a mão a cabeça doída pode catalisar rapidamente o
ambiente. Prorrompeu de modo espontâneo, quando viu Amanttis próximo de
Íris.
Amanttis, por sua vez, julgou a ação indecorosa como um gesto educado de
felicitação.
–Que personagem singular... Já sei quem você deve ser... Só pode ser...
Christian não queria mesmo saudações. Pulou por cima do rei dos alienígenas, e
deu insistentes socos nele, até que arrancar o sorriso fingido de sua cara. Queria
encontrar a pirâmide, mas os outros aliens o seguraram, impedindo de prosseguir
e revidando os murros com extrema violência.
–Nón facon isso! Parrem Agorra!
–Você é louco, garoto? – questionou Amanttis, enxugando uma pontinha de
sangue que escorria pelo canto da boca. – Meu irmão lhe mandou fazer isso? Um
humano inofensivo, contra mim?!
A ferocidade contra Christian, à esta altura, já chegava a ser covarde.
Imobilizado e vulnerável, ainda assim tentava se defender. Evitou um chute
segurando o pé do agressor, mas um deles puxou pelo pescoço deixando-o livre
para o assalto dos outros.
Íris lacrimejante, segura por outros dois.
–Parrem, vocês vón matá-lo!!
Amanttis encarou-a com um olhar alegórico, dizendo:
–Me dêem ele aqui. Vocês são cruéis demais para matar alguém...
Os servos obedeceram prontamente, soltando o ensanguentado Christian Salém.
–Você gosta de nadar, rapazinho?
Christian cuspiu sangue no desprezível quando se agachou até ele.
–Isso deve significar um sim... – riu-se Amanttis, limpando o rosto.
Puxou Christian como uma marionete até a arena principal: a piscina.
A platéia se sentou ao redor dela como se um espetáculo circense estivesse
prestes a começar.
Dos olhos de uma única pessoa escorriam lágrimas, que queimavam-lhe o rosto.
–Nón! Mate-me entón! – Gritava a pobre Íris – Ele nón merrece isso!!
–Íris, querida, sei que damas são sempre as primeiras, mas vou abrir uma
pequena exceção desta vez. Vai ser rápido, e você é a próxima... Vamos começar
então rapaz? Hoje a fila está grande...
Amanttis jogou Christian na piscina, e pulou logo depois.
O rapaz queria nadar, ou afundar, tudo ou qualquer coisa que pudesse afastá-lo
do perigoso Amanttis. Mas seu corpo linfático pelas agressões não o permitiria.
Ele já estava acabado...
Amanttis não perdeu tempo, e submergiu o rapaz na água, jugulando-o e tentando
afogá-lo.
–Como é seu nome, meu caro?
Christian estava tonto, e via apenas um borrão de olhos verdes perguntando seu
nome.
–Como é seu nome! Eu quero saber!!!
Ele decidiu usar palavras que nunca usara em sua vida.
–Vai se danar.
–IDIOTA!!
Amanttis o sufocou novamente, segurando-o dentro das águas clorais da piscina.
Os pulmões do rapaz retorcendo-se em busca de oxigênio, seu fôlego baixando à
ritmos alarmantes.
–Hum! – pulsou Christian novamente com toda a força quando foi precipitado
outra vez para fora d’água. Puxava todo o ar que podia puxar, mas que não
pautava nada. Seus sentidos tentavam fazê-lo permanecer com os olhos
arregalados, tentavam fazê-lo entender, mas ele se sentia enfraquecido,
entorpecido, sentia-se morrer.
–Solte-o, Amanttis! SOLTE-O AGORRA!!!
–Acalme-se querida. Já é quase sua vez...
–Nón, Nón, Parre, PARRE!!!
–Inúteis, contenham essa garota. Não estão vendo que estou ocupado?!
Após a ordem, Íris parou de gritar.
As mãos sujas e firmes de Amanttis trouxeram Christian de volta a superfície por
mais uma vez.
–Um garoto tão bonito... Por que quis me impedir? Por quê? Quis ouvir as
palavras de meu irmão, não foi?... TOLO. Tanto quanto ele.
Dizendo isto o pôs de volta na água, alucinadamente.
Afogamento.
Jeito deplorável de morrer. Não que todos não sejam, mas, este era pior. Este era
rude, banal, feio...
Os aliens riam como se um malabarista realizasse suas mais ousadas acrobacias.
As principais, as finais.
Christian não compunha mais nenhum tipo de resistência. Estava perdendo os
sentidos, e, naquele momento, mal sentia as mãos estáveis e imundas que
agarravam seus cabelos. Parecia esperar tranquilo por seu fim certo.
Com os olhos ofuscados pela dormência frígida de sua mente, viu alguma coisa
brilhar em seu bolso. Tanto, que o fez lembrar de tudo. O fez retomar seus
pensamentos e procedimentos. O fez pegá-la e erguê-la bem no alto, apesar de
suas mãos enfraquecidas.
Num fremido extraordinário, Amanttis o soltou, se repelindo do objeto como o
cervo escapa de um leão furioso.
–CRETINO!
Amanttis caiu no mesmo momento que Christian se restabeleceu, saindo da
piscina intensamente bem, como se nada tivesse padecido. Como se seus
sofrimentos fossem nulos com a pirâmide aquiescida em suas mãos.
–Só mesmo um ser como você poderia planejar isso. Somente alguém com mal
no coração para arruinar a vida de bilhões de seres humanos ingênuos, vitimados
por um videogame!
Christian destemido, e com o poder da pirâmide, mas apesar disso o pararam.
Amanttis saía com muito esforço da piscina, tentando apoiar-se sobre suas mãos,
enquanto Christian bateu os olhos assustados em algo.
–NÃO!!!
Íris Brainvich dependura numa mirtácea velha e encolhida, com as vestes
vermelhíssimas de um sangramento no ventre.
Com toda a robustez do mundo, Christian soltou-se dos aliens que o barravam, e
chutou a árvore com tanta força que um grosso cipó soltou sua prisioneira, que
foi escorregando suavemente aos braços do rapaz.
Naquele momento, ele esqueceu de tudo. Tudo o que tinha que fazer. O que tinha
que cumprir.
Seu objetivo, no momento, era salvar a vida de Íris.
–Não o deixem fugir! Peguem-no!!!
Os berros injuriados de Amanttis de nada adiantaram: Christian disparou em
velocidade até encontrar-se fora dos limites da casa; Íris em seu colo, perdendo
muito sangue.
Ele corria.
Corria sem olhar para trás. Já próximo de seu carro pegou a chave em seu bolso
com uma das mãos, e o abriu.
Seu sangue fervia em suas veias, enquanto dirigia frenético.
Seus pensamentos pareciam anestesiados, paralisados pelo tormento que a falta
da garota poderia lhe trazer.
Neste exato momento, ele descobriu que a amava. A amava desesperadamente...
–Vai ficar tudo bem. Aguente Íris. Aguente, por favor – Christian falava a uma
Íris desmaiada devido à diminuição de coagulação sanguínea, acariciando seus
cabelos com terno amor.
Íris estava ficando pálida, e Christian sentiu que não podia mais continuar.
Parou.
Mas não podia, estavam vindo...
Correu a um posto de gasolina, o estabelecimento mais próximo de onde estava.
Íris quase morta em seus braços.
–Eu preciso de um pano! Alguma coisa!
Um homem na conveniência do posto correu assustado para socorrer a moça.
–Espere, senhor! Espere!
O coração de Christian palpitava na mesma instância que o de Íris parava.
Em desesperante agonia, ele rasgou sua camiseta, e tentou estancar o sangue com
ela.
–Aqui está senhor!
O homem surgia trazendo gaze e um tecido branco e limpo.
Parecia tarde demais. Parecia o fim.
Íris Brainvich já devia estar morta.
Christian fechou seus olhos, e algo passou por sua cabeça.
“Não”... “Será que seria possível”?, “Será que...”
Ele não quis esperar por mais nem um minuto. Tirou a pirâmide do bolso e
colocou no ventre de Íris, onde seu sangue não parava de escorrer.
Houve um silêncio. O homem do posto olhou assustado para Christian, como se
ele tivesse terminado de matá-la ao colocar um objeto pontiagudo em seu
abdômen. Christian impaciente e esperançoso ao mesmo tempo, mirando a
primeira mulher que realmente amara em sua vida, entregue e frágil em seus
braços, com a vida por um fio.
–Han... – Íris suspirou numa lufada, voltou à vida. O coração de Christian ficou
mais calmo.
Ela olhava do rapaz para o homem do posto, sem saber o que acontecia.
–O que é esse negócio que você pos na...
–SHU... – disse Christian, mandando-o fazer silêncio. – Ela está melhorando.
Vou levá-la até um... Íris, o que está fazendo!
Íris começara a remover a pirâmide da barriga, e Christian se assombrou
instantâneo ao ato.
–Você não pode tirá-la, Íris! Você perdeu muito sangue, e pode acabar...
–Chrristian, vou terr que correrr riscos. Você vai prrecisarr dela – avisou Íris
estendendo a pirâmide que estava saturada pela cor vermelha viva.
Christian ficou de joelhos, ao lado da moça, no chão.
–Íris, eu não quero mais saber de nada, de ninguém, eu só quero salvar você!
–Nón diga isso, Chrris. Irrei ficarr bem. Grraças a você. Você me prrotegeu...
E, dizendo isto, os lábios dos dois se entrelaçaram, num beijo eterno, intenso,
total...
–Íris... Eu...
Com delicadeza, Íris encostou a mão nos lábios do rapaz, detendo sua fala.
–Agorra vá Chrristian. Vá salvarr o mundo...
11. “Deminstifus Maléfiquis Poderes!”

Amanttis estava nervoso. Um calafrio humano passou por ele no momento em


que pensou que o rapaz que escapara com Íris agora poderia ser uma ameaça. A
única ameaça, agora.
Ele precisava por um fim nele.
Só ele.
Num duelo de um contra um.
“Que vença o melhor”...

***

Íris ficou sob conta do dono do posto de gasolina até que mandassem uma
ambulância. Mesmo sem acreditar em exatamente nada do que o rapaz disse, o
dono do posto aceitou ajudar, abrigando a moça ali até que chegassem.
Christian esperava voltar, se conseguisse cumprir seu objetivo, para se certificar
o hospital que Íris havia sido internada.
Ele desvaneceu-se pela avenida, andando em marcha lenta nas ruas agora vazias,
esperando o momento em que se encontrassem novamente: Amanttis e ele.
O rapaz não tinha mais medo. Era movido pelo amor, pelo bem, pela fé. Se
morresse, iria morrer defendendo sua vida e a de todos com toda sua coragem...
Entrou numa ponte. Edificada sobre arcobotantes fincados na terra do rio abaixo
dela, e com pouca iluminação.
Apertou os olhos, pois além da falta de luminosidade da plataforma a noite
começava a enevoar-se.
Muito de repente, houve um baque. Algo chocou-se contra ele. Seu carro guinou
violentamente, colidindo com um poste. O air-bag inflou.
Sua cabeça doía e parecia crescer por dentro, parecia querer explodir.
Saiu do carro sobressalente, catalisando cada corpo escuro na plataforma.
Viu o tamanho do problema: Seu carro perdeu o controle logo após um outro que
bateu contra o dele. Era grande como um furgão, o carro do provocador do
acidente. Mas estava vazio. A ponte estava vazia. Ali só haviam dois carros e um
homem...
Inesperada e assustadoramente, um vulto começou a recortar-se. Não era só
Christian quem estava ali. Alguém corria em sua direção.
Amanttis...
...
Esta seria a peleja final. Alguém sairia vivo, e outrem, morto.
–Será seu fim, querido – um homem alto, forte, e de olhos verdes que andava
tranquilo e sem amparos na ponte monótona. – Christian Salém, um jovem
homenzinho que perdeu sua vida por... Por... Por querer salvar o mundo!
–Você está sozinho, seu covarde?
–COVARDE? Você está me chamando de covarde?! Pois saiba que avisei meus
cidadãos que viria sozinho, que não precisaria da ajuda deles. Você é que não
passa de um...
–Amanttis, cale-se, por favor. Covardia é seu segundo nome. Invadir um planeta
sem ultimatos, sem avisos. Isso é desonroso, fraco, infame. Você é um tirano!
Amanttis riu.
–Você acha mesmo que isso vai me... Comover?! Que isso vai me fazer te dizer:
“É verdade, Christian, vou desfazer tudo o que realizei, meus atos errados e
infames”... Ainda não percebeu que não me importo com vocês?! Pelo pouco que
os conheci, vocês nem mesmo merecem o corpo que tem!!
–Só por que não merecemos você julga ser direito seu tirá-los de nós? Se você
acha ou não acha, o problema é todo seu, Amanttis, mas você não passa de um
mero coadjuvante neste universo para querer fazer o que faz! Você não é nenhum
deus!!
–Cale a boca!
Nenhum dos dois descontinuou seus passos, muito menos Christian.
Sua seiva o induziu até que ficassem face a face, olho no olho.
O rapaz o encarou, pensando rápido em algo que pudesse fazer. O som que ele
emitia, de dentes roçando, rangendo, era nervoso, como o som de ondas ferindo a
areia.
–E Amanttinis? Você o matou, não foi?
–Foi, foi sim. Por quê?
–Porque vocês são gêmeos. Gêmeos sentem falta um do outro.
Amanttis riu novamente.
–Você é muito sarcástico, garoto. Chega a ser pungente... Mas eu não vim aqui
para brincadeiras.
Veloz e execrável como o bote de uma cobra, Amanttis ergueu Christian pelo
pescoço.
O deixando completamente sem revide.
–A pirâmide! Me dê!!!
–Cale a boca! Nunca irei te dar!...
Amanttis a viu. Sorriu novamente. Ela brilhava no bolso de Christian.
Jogou o rapaz ao chão como um brinquedo descartado, mas ele não desmaiou.
Tentou se arrepanhar, mas Amanttis cravou-o, prendendo-o com seu sapato de
couro duro sobre a garganta.
–Não imaginei que seria tão fácil... – zombou Amanttis, curvando-se e
recolhendo a pirâmide de seu irmão – Amanttinis não lhe ensinou nada? Diga?!
Ah, sim, não pode falar...
Amanttis retirou seu pé do pescoço do rapaz.
Christian passou delicadamente a mão pela goela tentando suavizar a dor, e
mirou Amanttis, lamentando o desacerto.
–Acabou. Fim. E os Ericlashivas foram felizes para sempre... Também, eu
aguardava um adversário à minha altura, mas esperar o que de humanos? Além
de burros não passam de uns fracotes... Meu irmão me falou antes de morrer:
“Ele será a intervenção, a intervenção...” Confesso que até temi por alguns
momentos, mas até agora, o pobrezinho não interveio em nada!...
Christian Salém falhou. Derribado e desistido em frente à ineficácia de seus
esforços.
O mundo estava perdido...
Amanttis soltou uma gargalhada fantasmagoricamente diabólica. Retirou sua
pirâmide do bolso, mas antes de juntá-las, um rapaz exonerado de opções, gritou:
–Você matou seu irmão Amanttis, seu próprio irmão! Por causas errôneas!!
Amanttis mirou-o com arrogância e menoscabo. Estava descomposto por dentro,
não queria transmitir isso. Acabou desordenando-se, ajoelhado e diminuído...
Sem explicação aparente, Amanttis caiu. Os dois pedaços de pirâmide rolaram à
seu lado. Ele estava enfraquecido, não conseguia pegá-las. Suas mãos
restringidas e frouxas...
–O quê... O que está acontecendo???
Christian Salém ainda no chão, também sentia dores que com certeza advieram
póstumas a briga no esconderijo. Uma bola de chamas parecia se espalhar por
dentro de sua cabeça. Mas seu furor superava tudo.
Ele se alçou erguendo, e apanhou os dois pedaços de pirâmide.
–Garoto? Garoto, o quê... O que fez?!!
A voz de Amanttis estava de uma rouquidão tremenda, e seu corpo, amolecido
como uma polpa gelatinosa.
Christian parecia pela primeira vez sobreposto à forte frieza e autoconfiança do
alienígena. Com a maior das pachorras e presenças, principiou:
–Uma parte de você está fraca. Não está, Amanttis?
–Cale a boca! Eu não...
–Você matou seu irmão por motivos impuros. E seu ato pecaminoso foi
desprezível...
–Isso não é verdade, seu maldito! Eu não sei, você fez alguma...
–Claro que é verdade! – a voz mais acentuada e repreendedora que Christian
revelou em toda sua vida. – Você sabe que é verdade.
A ponte começava a ficar mais habitada. Haviam outros indivíduos, aliens, nela.
Numa célere perspicácia, eles vinham.
–Não pode fazer isso! Eles estão chegando! Vêm me ajudar!!!
–Não posso fazer isso?... Eu posso!
Os alienígenas vieram com tanta presteza que um deles até conseguiu tocar em
Christian, tentar agarrar seus braços, tentar impedir que...
–DEMINSTIFUS MALÉFIQUIS PODERES!
–Não!!!
Uma centelha de fogo verteu da pirâmide dourada. Fez a noite em luz, de modo
literal.
Arfando pelo poder tremendo erguido em suas mãos, Christian se esquivava dos
diversos aliens que começavam a cair por terra, derrotados...
–AHH!!! Eu estou... EU ESTOU!...
Amanttis estava morrendo. Perdendo o corpo roubado. Ele e os alienígenas
começaram a arrazoar dialetos estranhos, que o rapaz não podia entender.
O espectro deles sobrenadou acima dos corpos, e, lenta e horrivelmente,
começava a desfazer-se em fuligem.
Christian no meio da tola de fogo arreganhada na ponte viu a pirâmide
primeiramente fender-se em uma lasca, e depois estilhaçar. Acabrunhar no ar,
junto aos aliens.
A luz fusca momentânea começou a desaparecer rapidamente, da mesma forma
que apareceu. E Christian Salém estava feliz. Estava feio, sujo, mas feliz por ter
acabado com uma pútrida armação detrás de um videogame...
Este era o fim. O desfecho. O planeta havia sido salvo por um homem jovem,
um humano comum, como qualquer outro, com uma baita dor de cabeça...
...
Íris não aceitara ir ao hospital quando ambulância e maqueiros chegaram de
prontidão. A moça iria permanecer ali, esperando ele. Ela pensava seriamente em
jamais sair daquele local enquanto Christian não regressasse.
Estava confiante de que o rapaz tivesse findado seu trabalho. O trabalho que fora
destinado a fazer. Desbaratar um plano tão bem organizado como este era tarefa
difícil, para apenas uma pessoa. Mas ela sabia que Christian Salém, apesar de
normal, era inteligente, forte, bondoso. Ela também o amava...
Estava redondamente entristecida por não ter podido ajudá-lo até o fim, por sua
incapacidade de saúde, mas tinha adquirido uma confiança absoluta em Christian
desde que o conheceu, desde a primeira vez que o olhou em seus olhos...
Ela queria que ele voltasse, não só pelo mundo, mas por ela. Queria dizer a ele
tudo o que sentia.
–Chrristian!!!
–Ei mocinha! Não pode ficar correndo assim, desse jeito!
Nada podia pará-la. Ela correu para um Fiat Broma preto, deformado por
determinado incidente, e pulou nos braços de seu eleito. Um homem com as
vestes imundas e rasgadas, sorrindo e abraçando aquela verdadeira fortaleza de
mulher, a mulher que conheceu em circunstâncias curiosas, a mulher perfeita
para ele...
–Eu te amo, Chrristian, eu te amo...
–É você, Íris... É a mulher da minha vida...
Apaixonadamente, aqueles dois jobilíssimos adultos não sabiam o que fazer além
de abraçarem-se ou beijarem-se desesperadamente, era o mesmo...
12. Enquanto houver bem... O mal não pode
dominar

Dois Dias Depois...

Um dia de glória. Aquele, um dia para ser lembrado para o resto da vida de
Christian, de Íris, e de todo o público ansioso para assistir o pronunciamento do
homem que salvou a vida da humanidade...
O prefeito de São Paulo aprontou o comunicado de Christian Salém, um homem
que vencera um ardiloso plano contra os humanos.
A declaração seria na praça principal da cidade, e seria televisionada por todo o
mundo.
Christian nunca foi famoso como atores de sucesso, que sempre aparecem
causando alvoroço, mas neste momento haviam bilhares de olhos atentos a ele.
Nunca foi um escolar galanteador como Jonas Anderson, sorridente no meio da
platéia na praça entupida de gente, mas estava com a garota mais bela que já vira
em sua vida; Nunca foi o “queridinho” da família, mas todos ainda vivos –
incluindo Sydney, que só ficou com uma enorme dor de cabeça depois da
tijolada, e seu irmão mais velho que se fora para a Islândia há vários anos –
estavam ali, chorando orgulhosos pelo parente.
–Senhoras e senhores de todo o mundo... Tenho aqui a minhas costas talvez o
homem mais corajoso que este mundo já concebeu. O homem que arriscou sua
vida, para nos defender. Ele lutou por amor! Por amor a mim, a vocês, a todas as
pessoas do mundo. Mais dia menos dia, nosso fim chegará, é verdade. Mas este
garoto e seu amor pela humanidade impediram que as vidas fossem-nas tiradas
pelo mal! Christian Salém, por favor, todos querem ouvi-lo...
O prefeito saiu do púlpito exageradamente ditoso, dando altivos e simpáticos
tapinhas nas costas de Christian, colocando sobre seu peito uma medalha grande
e dourada.
O rapaz abraçava duas mulheres: sua mãe e namorada. Foi com elas para falar
àquela multidão.
Não fez nenhuma preleção planejada. Todas as falas do discurso, ao avesso de
decoradas, sairiam de seu coração.
–Meus amados, não pensem que fiz tudo o que fiz, sozinho. A primeira pessoa a
quem devemos tudo isso, é Deus. Ele move tudo. Nada seria possível sem Seu
auxílio. Outras pessoas que contribuíram comigo, foram estas duas mulheres a
quem estou abraçado. Minha mãe, tão sem querer como eu, se envolveu nessa
história, e ao contrário do que muitas fariam, ela me apoiou! Íris, essa
maravilhosa mulher que eu pretendo me casar, foi quem propiciou tudo isso. Eu
nada teria feito sem ela!
O silêncio respeitável das pessoas era lindo. Todas gratas por um jovem de vinte
e dois anos.
–E eu não posso me esquecer de citar Bóris Brainvich, o pai de Íris. Um humano
sensacionalmente intrépido, que morreu por defender sua filha, e por saber
demais. Eu não o conheci em vida, mas sei que um dia ainda vamos nos
encontrar e eu vou poder dizer-lhe o quão agradecido sou por tudo o que ele fez.
Por fim, mas não menos importante, tenho que contar a vocês sobre alguém que
muitos mal possuem conhecimento de ter existido nesta história. Um ser que nem
ao menos é humano. O nome dele é Amanttinis. Sabem, acho que se alguém
devesse ganhar algum mérito com tudo isso, não sou eu. É ele. O alienígena que
se revoltou contra seu próprio povo, para nos ajudar. O seu auxílio é a parte
principal disso tudo.
A multidão, vidrada, não era capaz de tirar os olhos do rapaz. Ele hesitou por
leves momentos, pensando em coisas que não viria a falar.
“Talvez Amanttis estivesse certo”, ele maquinava. Talvez, os aliens merecessem
mais os nossos corpos, a nossa vida, o nosso mundo, mais do que nós mesmos.
Às vezes os seres-humanos conseguem ser tão egocêntricos com seus próprios
irmãos, com seu próprio ambiente, que nossa vida muitas vezes se torna
imerecida...
Apesar disso, pela enésima vez na história da humanidade, a virtude superara
atos vis, a honra destroçara a indecência, o bem vencera o mal.
Christian olhava entusiasmado para todas aquelas pessoas. Feliz por sua bravura.
Sua valentia fora além de tudo.
Ele cingiu sua mãe e sua namorada num abraço ainda mais apertado e caloroso, e
findou:
–Queridos, só quero dizer que a vocês que se quiserem recordar esta memorável
data, não lembrem-se de mim, lembrem-se por favor, para o resto de suas vidas,
de Amanttinis, o compassivo ente que traiu seu povo, para nos proteger.

UMA SALVA DE PALMAS EMERGIU DA MULTIDÃO ’


Por: BRUNO SOL
888[HARD]888

Conteúdo adicional:

VOCABUHARD

É um pequeno vocabulário formulado sobre alguns