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Fariseus e Saduceus

J. C. Ryle
(1816 – 1900)

“E Jesus lhes disse: Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus” (Mateus 16.6).

Toda e qualquer palavra dita pelo Senhor Jesus é cheia de profunda instrução para os
cristãos. É a voz do Sumo Pastor. É a grande Cabeça da Igreja falando a todos os seus
membros — o Rei dos reis falando a Seus súditos — o Dono da casa falando a Seus
servos — o Capitão da nossa salvação falando aos Seus soldados. Acima de tudo, é a voz
dAquele que diz: “Porque eu não tenho falado por mim mesmo, mas o Pai, que me
enviou, esse me tem prescrito o que dizer e o que anunciar” (João 12.49). O coração de
todo crente no Senhor Jesus deveria arder no peito quando ouve as palavras do seu
Mestre: ele deveria dizer: “É a voz do meu amado!”1 (Cantares 2.8).
E cada palavra proferida pelo Senhor Jesus é de imenso valor. As Suas palavras de
doutrina e ensino são preciosas como ouro; preciosas são todas as Suas parábolas e
profecias; preciosas são todas as Sua palavras de conforto e de consolação; preciosas, e
não menos importantes, são todas as Suas palavras de cautela e advertência. Não
devemos apenas ouvi-lO quando Ele diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados”; devemos ouvir também quando Ele diz: “Tende cuidado e guardai-
vos”.
Vou concentrar minha atenção, agora, a uma das mais solenes e enfáticas advertências
que o Senhor jamais pronunciou: “Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos
saduceus”. Por meio deste texto pretendo levantar um farol para todos que desejam
salvar-se, para preservar algumas almas, se possível, de naufragar na vida. Nossos
tempos exigem em alta voz esse tipo de farol: os naufrágios espirituais dos últimos vinte
e cinco anos têm sido lamentavelmente numerosos. Os vigias da Igreja deveriam levantar
claramente a voz agora, ou então calar-se para sempre.

I. Em primeiro lugar, peço a meus leitores que observem quem eram as pessoas a
quem a advertência foi dirigida.
Nosso Senhor Jesus Cristo não estava falando a homens mundanos, descrentes, e
profanos, mas falava a Seus próprios discípulos, Seus companheiros e amigos. Ele Se
dirigiu a homens que, com exceção do apóstata Judas Iscariotes, eram retos de coração
aos olhos de Deus. Ele falou aos doze apóstolos, os fundadores da Igreja de Cristo, e os
primeiros ministros da Palavra da salvação. Foi a eles que Ele endereçou a solene
advertência do nosso texto: “Vede e acautelai-vos”.

1 Tradução Brasileira da Bíblia (Bíblia Online da SBB, versão eletrônica).


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Esse acontecimento traz em si algo extraordinário. Talvez fosse nosso parecer que os
apóstolos tivessem pouca necessidade de uma advertência dessa espécie. Não tinham
eles deixado tudo por Cristo? Tinham, sem dúvida. Não tinham eles enfrentado
dificuldades por Cristo? Tinham, sim. Não tinham eles crido em Jesus, seguido a Jesus,
amado a Jesus, quando quase todo o mundo se mostrava incrédulo? Tudo isso é
verdade; e contudo foi a eles que Jesus dirigiu a advertência: “Vede e acautelai-vos”.
Talvez pensássemos que de qualquer maneira os discípulos tivessem pouco a temer do
“fermento dos fariseus e dos saduceus”. Eles eram pobres e iletrados, a maioria
pescadores ou coletores de impostos; não tinham interesse de seguir os ensinos dos
fariseus e dos saduceus; sua tendência era mais contra do que a favor dos fariseus e dos
saduceus; absolutamente nada os atraía para eles. Tudo isso é a mais absoluta verdade;
contudo foi exatamente para eles que foi feita a solene advertência: “Vede e acautelai-
vos”.
Há um conselho muito útil aqui para todos que sinceramente professam amar o Senhor
Jesus Cristo. Ele nos diz em alta voz que os mais eminentes servos de Cristo não se
encontram além da necessidade de advertências, e deveriam estar sempre vigilantes. Ele
nos mostra claramente que o mais santo dos crentes deveria andar humildemente com
seu Deus, e vigiar e orar para não entrar em tentação, e ser surpreendido pelo pecado.
Não há ninguém que seja tão santo, que não possa cair — não de forma definitiva, não
de tal forma que não haja mais esperança, mas para o seu próprio prejuízo e
desconforto, para o escândalo da Igreja, e para o triunfo do mundo: ninguém há que seja
tão forte que não possa, por certo tempo, ser vencido. Os crentes, embora escolhidos
por Deus Pai, embora justificados pelo sangue e pela justiça de Jesus Cristo, embora
santificados pelo Espírito Santo — os crentes são ainda meramente homens: estão ainda
no corpo, e permanecem ainda no mundo. Eles estão sempre próximos da tentação:
estão sempre sujeitos a julgar mal, tanto na doutrina como na prática. Seu coração,
embora renovado, é muito débil; seu entendimento, embora iluminado, continua ainda
muito turvo. Eles deveriam viver como aqueles que habitam em campo inimigo, e cada
dia revestir-se da armadura de Deus. O diabo não dá trégua: nunca descansa nem dorme.
Lembremo-nos da queda de Noé, e Abraão, e Ló, e Moisés, e Davi, e Pedro; e,
lembrando-nos deles, sejamos humildes e cuidadosos, para não cairmos também.
Creio que estou autorizado a dizer que ninguém precisa mais de advertências do que os
ministros do Evangelho de Cristo. Nosso ofício e nossa ordenação não são seguro
contra erros e enganos. A verdade é que as maiores heresias se introduziram na Igreja de
Cristo por meio de homens ordenados. A ordenação não preserva nem confere
nenhuma imunidade contra o erro e a falsa doutrina. A própria familiaridade que temos
com o Evangelho muitas vezes cria em nós uma mente insensível. Somos capazes de ler
as Escrituras, e pregar a Palavra, e dirigir cultos públicos, e dirigir o trabalho de Deus
com o espírito seco, duro, formal, insensível. A nossa própria familiaridade com as
coisas sagradas, se não vigiarmos o coração, haverá de nos desviar. Nas palavras de um
antigo escritor, “Em nenhum outro lugar se encontra a alma de um homem em tanto
perigo como no escritório de um ministro”. A História da Igreja de Cristo contém
muitas provas tristes de que até mesmo os ministros mais distintos podem, por certo
tempo, desviar-se. Quem nunca ouviu de Cranmer a desmentir e retroceder das opiniões
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que de forma tão decidida defendeu, embora, pela misericórdia de Deus, tenha voltado
novamente a sustentar uma gloriosa confissão no final? Quem nunca ouviu de Jewell a
assinar documentos que ele desaprovava inteiramente, e de cuja assinatura mais tarde se
arrependeu amargamente? Quem não sabe que muitos outros podem ser citados, que,
numa ocasião ou outra, foram vencidos de falhas, caíram em erro, e se desviaram? E
quem não conhece o triste fato que muitos deles jamais retornaram à verdade, mas
morreram duros de coração, e sustentaram seus erros até o fim?
Essas coisas deveriam nos tornar humildes e cautelosos. Elas nos orientam a desconfiar
de nosso próprio coração e a orar para sermos guardados de cair. Hoje, quando somos
chamados de forma especial a nos apegarmos firmemente às doutrinas da Reforma
Protestante, sejamos cautelosos para que nosso zelo pelo protestantismo não nos inche e
nos encha de orgulho. Não digamos nunca em nossa arrogância: “Eu nunca haverei de
cair nos mesmos erros do catolicismo romano ou da nova teologia: eu nunca vou
concordar com as idéias deles”. Lembremo-nos de que há muitos que começaram bem e
correram bem por certo tempo, e contudo mais tarde se desviaram do caminho certo.
Sejamos cuidadosos para sermos tanto homens espiritualmente corretos como
protestantes, e tanto verdadeiros amigos de Cristo como inimigos do anticristo. Oremos
para sermos guardados do erro, e nunca esqueçamos que até mesmo os doze apóstolos
precisaram ouvir da parte da Cabeça da Igreja estas palavras: “Vede e acautelai-vos”.

II. Em segundo lugar, proponho-me a explicar quais são os perigos contra os quais
nosso Senhor alertou os apóstolos. Ele disse: “Vede e acautelai-vos do fermento dos
fariseus e dos saduceus”.
O perigo a respeito do qual Ele os alerta é a doutrina falsa. Ele não diz nada a respeito
da espada da perseguição, ou sobre o amor ao dinheiro, ou sobre o amor ao prazer.
Todas essas coisas sem dúvida são perigos e armadilhas a que estavam expostas as almas
dos apóstolos; mas contra essas coisas nosso Senhor não levanta aqui a voz de
advertência. O Seu alerta se restringe a um único ponto: o “fermento dos fariseus e dos
saduceus”. E não somos deixados na dúvida quanto ao que nosso Senhor queria dizer
com “fermento”. O Espírito Santo, poucos versículos mais adiante do nosso texto,
claramente nos diz que fermento era a “doutrina” dos fariseus e dos saduceus.
Vamos tentar entender o que se pretende dizer quando falamos da “doutrina dos
fariseus e dos saduceus”.

(a) A doutrina dos fariseus talvez possa ser resumida com três características: eles eram
formalistas, veneradores de tradições, e justos aos próprios olhos. Eles atribuíam tanto
peso às tradições humanas que na prática consideravam-nas de maior importância do
que os escritos inspirados do Antigo Testamento. Eles davam excessivo valor à
severidade com que seguiam os requisitos cerimoniais da lei mosaica. Eles davam muita
importância ao fato de serem descendentes de Abraão, e intimamente se gloriavam:
“Nós temos Abraão como nosso pai”. Iludiam-se, porque tinham Abraão como pai, que
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não corriam perigo de ir para o inferno como os outros homens, e que o fato de serem
seus descendentes era uma espécie de garantia para o céu. Atribuíam grande valor a
lavagem de mãos e purificações cerimoniais do corpo, e criam que o mero tocar em uma
mosca ou mosquito mortos os poluía. Eles davam grande importância aos aspectos
exteriores da religião, e a coisas que podiam ser vistas pelos homens. Alargavam os seus
filactérios, e encompridavam as franjas dos seu vestuário. Orgulhavam-se de prestar
grandes homenagens aos santos já falecidos, e de ornamentar os túmulos dos justos.
Eram extremamente zelosos em fazer novos convertidos. Orgulhavam-se de terem
domínio, status e preeminência, e de serem chamados pelos homens de “Mestre,
mestre”. Essas coisas, e muitas outras semelhantes a essas, eram a prática dos fariseus.
Todo cristão bem instruído pode encontrar essas coisas nos Evangelhos de Mateus e de
Marcos (Veja Mateus 15 e 23; Marcos 7).
Lembre-se de que eles, o tempo todo, enquanto praticavam o que acabamos de citar, não
negavam formalmente nenhuma parte das Escrituras do Antigo Testamento. Mas eles
introduziram, acima dele, tanta invenção humana que, na prática, puseram as Escrituras
de lado, e as enterraram sob suas tradições. Essa é a espécie de religião a que o nosso
Senhor se referiu aos Seus apóstolos: “Vede e acautelai-vos”.

(b) A doutrina dos saduceus, por outro lado, pode ser resumida com outras três
características: livre-pensamento, ceticismo e racionalismo. O credo deles era muito
menos popular do que o dos fariseus, e, por isso, os vemos mencionados menos vezes
nas Escrituras do Novo Testamento. Pelo que podemos julgar do Novo Testamento,
parece que eles sustentavam a doutrina da inspiração gradual; eles sempre atribuíam
maior valor ao Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento) em
comparação com as outras partes do Antigo Testamento, isto se não desconsideravam
por completo essas últimas.
Eles não criam nem na ressurreição, nem em anjos, nem em espíritos, e tentavam
dissuadir as pessoas de crer nesses fatos por meio de questões difíceis. Temos um
exemplo da maneira em que eles argumentavam no episódio em que eles propõem ao
nosso Senhor o caso da mulher que teve sete maridos, quando os saduceus perguntam:
“Na ressurreição, de quem dos sete será ela mulher?” Dessa forma, ao apresentar um
absurdo religioso ridicularizando as suas principais doutrinas, eles provavelmente
pretendiam levar as pessoas a desistir da fé que haviam recebido das Escrituras.
Lembre-se, todo esse tempo, não podemos dizer que os saduceus eram totalmente
pagãos: eles não o eram. Nem podemos dizer que eles negavam a revelação: eles não
faziam isso. Eles observavam a lei de Moisés. Muitos deles se encontravam entre os
sacerdotes nos tempos descritos no livro de Atos dos Apóstolos. Caifás, que condenou o
nosso Senhor, era saduceu. Mas o efeito prático do ensino deles era abalar a fé que as
pessoas tinham na revelação, e jogar uma nuvem de dúvida sobre a mente das pessoas, o
que era apenas um pouco melhor do que o próprio paganismo. E de todo esse modo de
doutrina — livre-pensamento, ceticismo e racionalismo — diz o nosso Senhor: “Vede e
acautelai-vos”.
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Agora surge a questão: Por que razão nosso Senhor Jesus Cristo fez esse alerta? Ele
sabia, sem dúvida, que dentro de quarenta anos as escolas dos fariseus e dos saduceus
estariam completamente acabadas. Aquele que sabe todas as coisas desde o princípio,
sabia perfeitamente bem que em quarenta anos Jerusalém, com seu magnífico templo,
seria destruída, e os judeus seriam dispersos pela face da terra. Por que, então, nós O
encontramos fazendo esse alerta sobre “o fermento dos fariseus e dos saduceus”?
Eu creio que nosso Senhor fez essa solene advertência para o benefício perpétuo da
Igreja, que Ele veio estabelecer na terra. Ele falou com conhecimento profético. Ele
conhecia bem as mazelas a que está sujeita a natureza humana. Ele anteviu que as duas
grandes pragas da Sua Igreja na terra seriam sempre a doutrina dos fariseus e a doutrina
dos saduceus. Ele sabia que essas doutrinas se assemelhariam a duas grandes rochas,
entre as quais a Sua verdade seria perpetuamente comprimida e machucada até que Ele
venha a segunda vez. Ele sabia que sempre haveria, entre os que se professam cristãos,
os fariseus em espírito, e os saduceus em espírito. Ele sabia que os seus sucessores
jamais haveriam de faltar, e que jamais se extinguiria a sua geração, e que, embora não
existam mais os nomes fariseus e saduceus, contudo os seus princípios haveriam de
existir sempre. Ele sabia que, durante o tempo em que a Igreja existir, até o Seu retorno,
haveria sempre alguém que faria acréscimos à Palavra, e alguém que haveria de excluir
algo da Palavra, alguém que a desmereceria por meio de adição de outras coisas, e
alguém que a sangraria até a morte ao subtrair dela as suas principais verdades. E essa é a
razão por que nós O encontramos fazendo esta solene advertência: “Vede e acautelai-
vos do fermento dos fariseus e dos saduceus”.
E agora surge a questão: Será que nosso Senhor Jesus Cristo tinha boas razões para fazer
esse alerta? Eu apelo a todos que conhecem alguma coisa da História da Igreja — não
havia, de fato, uma razão para isso? Eu apelo a todos que se lembram do que aconteceu
logo depois da morte dos apóstolos. Não lemos que na primitiva Igreja de Cristo
surgiram dois partidos distintos; um que sempre se inclinava para o erro, como os
arianos, sustentando menos que a verdade, e o outro que sempre se inclinava para o
erro, como os adoradores de relíquias e adoradores de santos (da igreja católica romana),
sustentando mais do que a verdade como a encontramos em Jesus? Não vemos nós a
mesma coisa surgindo mais tarde, na forma do catolicismo romano? Essas coisas são
antigas. Num artigo breve como este me é impossível entrar em maiores detalhes sobre
o assunto. São coisas muito bem conhecidas de todos que têm familiaridade com os
registros históricos. Sempre houve esses dois grandes partidos, o partido que representa
os princípios dos fariseus, e o partido que representa os princípios dos saduceus. Por
isso nosso Senhor tinha boas razões para dizer a respeito desses dois grandes princípios:
“Vede e acautelai-vos”.
Mas eu desejo apresentar o assunto com mais detalhes agora. Peço a meus leitores que
considerem se advertências desse tipo não são especialmente necessários em nossos dias.
Temos, sem sombra de dúvida, muito que agradecer aqui na Inglaterra. Fizemos grandes
avanços nas artes e nas ciências nos últimos três séculos, e temos muitos costumes e
demonstrações morais e religiosas. Mas eu pergunto a qualquer pessoa que consegue ver
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além das portas da sua própria casa: não estamos vivendo em meio aos perigos de
doutrinas falsas?
Por um lado, temos entre nós um grupo de homens que, intencionalmente ou não,
facilitam as coisas para a Igreja de Roma (catolicismo) — uma escola que afirma extrair
seus princípios da tradição primitiva, os escritos dos Pais, e a voz da Igreja — um ensino
que fala e escreve tanto acerca da Igreja, do ministério, e dos sacramentos, que fazem
deles algo semelhante à vara de Arão que engoliu tudo o mais do Cristianismo, um
ensino que atribui grande importância às formas exteriores e cerimônias religiosas, a
gestos, posturas, mesuras, cruzes, água benta, lugares de honra para os clérigos,
vestimentas sagradas, incenso, estátuas, faixas, procissões, enfeites, e muitas outras coisas
semelhantes a essas, a respeito das quais não se encontra uma só palavra nas Escrituras
Sagradas para dizer que têm lugar na adoração cristã. Refiro-me, é claro, à escola dos
clérigos chamada Ritualista. Quando examinamos os procedimentos dessa escola, só se
pode chegar a uma conclusão. Eu creio que, qualquer que seja o significado e a intenção
dos seus mestres, embora sejam devotos, zelosos, e se neguem a si mesmos (como
efetivamente muitos deles agem), recai sobre eles o manto dos fariseus.
Por outro lado, temos uma escola de homens que, intencionalmente ou não, facilitam as
coisas para o Socinianismo, uma escola que sustenta estranhos pontos de vista sobre a
absoluta inspiração das Sagradas Escrituras, e estranhos pontos de vista sobre a doutrina
do sacrifício, e sobre a Expiação de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, estranhos
pontos de vista sobre a condenação eterna, e do amor de Deus pelo homem, uma escola
forte em negar, mas muito fraca em afirmar, hábil em suscitar dúvidas, mas impotente
em removê-las, esperta em perturbar e abalar a fé das pessoas, mas impotente para
oferecer um descanso firme para elas. E, quer os líderes dessa escola queiram isso ou
não, eu creio que sobre eles recai a capa dos saduceus.
Essas coisas soam como rudes, cruéis. Ficamos livres de muita encrenca se fecharmos os
olhos e dissermos: “Eu não vejo perigo nenhum”, e, por não ver, não acreditar que o
perigo exista. É fácil tapar os ouvidos e dizer: “Eu não escuto nada”, e, por não ouvir
nada, não se assustar com nada. Mas nós sabemos muito bem quem são os que se
regozijam com as coisas que temos de deplorar em alguns lares da nossa própria Igreja.
Nós sabemos o que o católico romano pensa; sabemos o que os socinianos pensam. O
católico romano se regozija com o florescimento do catolicismo; o sociniano se regozija
com a multiplicação de pessoas que sustentam esses pontos de vista sobre a expiação e a
inspiração, que vemos espalhadas na atualidade. Eles não se alegrariam dessa forma se
não vissem progresso no seu trabalho, e a sua causa sendo promovida. Eu creio que o
perigo é muito maior do que somos capazes de supor. Os livros que se lêem em muitos
lares são extremamente prejudiciais, e o tom do pensamento sobre assuntos religiosos,
especialmente das pessoas que ocupam posições de destaque, é profundamente
insatisfatório. A praga se espalhou. Se amamos a vida, devemos examinar nosso próprio
coração, e provar nossa própria fé, e certificar-nos de que estamos firmes no
fundamento certo. Acima de tudo, deveríamos nos acautelar de não ingerir o veneno da
doutrina falsa, e fazer tudo para retornar ao nosso primeiro amor.
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Eu sinto profundamente a angústia de falar abertamente desses assuntos. Eu sei muito


bem que falar com clareza sobre doutrinas falsas é muito impopular, e que aquele que
fala deve resignar-se com ser considerado como alguém sem caridade, muito incômodo,
e de mente muito estreita. Há milhares de pessoas que jamais conseguirão distinguir as
diferenças que existem na religião. Para a maioria das pessoas, um clérigo é um clérigo, e
um sermão é um sermão; e, se porventura existe alguma diferença entre um ministro e
outro, ou entre um sermão e outro, elas são inteiramente incapazes de entender essa
diferença. Eu não posso esperar que essas pessoas aprovem qualquer alerta que se fizer
sobre doutrinas falsas. Eu preciso adequar minha mente à sua desaprovação, e tenho de
lidar com isso da melhor forma que puder.
Mas eu peço a todo leitor da Bíblia intelectualmente honesto e não preconceituoso que
se volte para o Novo Testamento e veja o que vai encontrar ali. Ele haverá de encontrar
muitos alertas claros contra as doutrinas falsas:
“Acautelai-vos dos falsos profetas” (Mateus 7.15).
“Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas”
(Colossenses 2.8).
“Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e estranhas” (Hebreus 13.9).
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de
Deus” (1 João 4.1).
Ele haverá de encontrar grande parte de várias das epístolas inspiradas expondo a
doutrina verdadeira e alertando contra os falsos ensinos. Eu me pergunto: como é que
um ministro que toma a Bíblia como regra de fé pode esquivar-se de fazer alertas contra
erros doutrinários?
Finalmente, peço a todos que percebam o que está acontecendo na Inglaterra neste
exato momento. É verdade ou não é, que centenas de pessoas abandonaram a Igreja
Oficial e se transferiram para a Igreja de Roma (igreja católica romana) nesses últimos
trinta anos? É verdade ou não é, que centenas de pessoas permanecem conosco mas
que, no coração, são pouco melhores do que os católicos? É verdade ou não é, que
milhares de jovens, tanto de Oxford como de Cambridge, se veem seduzidos e
arruinados pela debilitante influência do ceticismo, e perderam todos os princípios
positivos da religião? Zombarias nos jornais religiosos, declarações em alto e bom som
contra as “denominações”, frases altissonantes e ambíguas sobre “pensamento
profundo, visão alargada, nova luz, manejo livre e sem restrições das Escrituras, e a
estéril fraqueza de certas escolas de teologia” são o que compõem o Cristianismo de
muitos dessa nova geração. E contudo, em face desses fatos notórios, as pessoas gritam:
“Fique quieto quanto às doutrinas falsas. Deixe-as pra lá!” Eu não posso calar a boca. A
fé na Palavra de Deus, o amor às almas dos homens, os votos que fiz quando fui
ordenado — tudo isso me constrange a testemunhar contra os erros de hoje. E eu creio
que aquilo que nosso Senhor disse se aplica exatamente aos nossos dias: “Vede e
acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus”.
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III. A terceira coisa para a qual pretendo chamar sua atenção é o nome peculiar que o
nosso Senhor Jesus Cristo dá à doutrina dos fariseus e dos saduceus.
As palavras usadas por nosso Senhor foram sempre as mais sábias e as melhores que se
poderiam usar. Ele poderia ter dito: “Vede e acautelai-vos da doutrina, ou do ensino, ou
das opiniões dos fariseus e dos saduceus”. Mas Ele não disse assim. Ele usou uma
palavra de significado especial — Ele disse: “Vede e acautelai-vos do fermento dos
fariseus e dos saduceus”.

Ora, todos nós sabemos qual é o verdadeiro significado da palavra fermento. O fermento é
adicionado à massa de farinha quando se faz o pão. Esse fermento é uma porção mínima
da farinha a que é misturado; nosso Senhor queria que soubéssemos que é exatamente
assim que o começo da falsa doutrina é ínfimo se comparado ao corpo do Cristianismo.
Ele age silenciosa e sossegadamente; é exatamente assim, diz o Senhor, que agem as
falsas doutrinas no caráter da massa toda com a qual são misturadas; exatamente assim,
diz o Senhor, as doutrinas dos fariseus e dos saduceus viram tudo de cabeça para baixo,
uma vez que são admitidas na Igreja ou no coração do homem. Prestemos atenção a
esses pontos: eles lançam luz em muita coisa que vemos em nossos dias. É de grande
importância acolher as lições de sabedoria que a palavra fermento contém.
A falsa doutrina não se apresenta aos homens cara a cara, e proclama que é falsa. Ela não
toca trombeta diante de si, nem se esforça abertamente para nos desviar da verdade
como ela é em Jesus. Ela não se achega aos homens à luz do dia para chamá-los a se
renderem. Ela se aproxima de nós discretamente, quietamente, traiçoeiramente, de forma
aceitável, e dessa forma desativa as suspeitas do homem, e o demove da posição de
alerta e defesa. É o lobo em pele de cordeiro, e Satanás vestido de anjo de luz, que
sempre se têm mostrado os mais perigosos inimigos da Igreja de Cristo.
Eu creio que o mais poderoso defensor dos fariseus não é o homem que honesta e
abertamente pede que você venha e se junte à igreja de Roma. É o homem que diz
concordar com você em todos os pontos da sua “doutrina”. Ele não vai recusar nenhum
dos pontos de vista evangélicos que você sustenta; não exige que você faça nenhuma
modificação; tudo que ele pede é que você “adicione” alguma coisa a mais ao que você
crê, para tornar perfeito o seu Cristianismo. “Creia-me”, diz ele:
Nós não queremos que você desista de nada. Queremos apenas que você passe a
sustentar alguns pontos de vista claros a respeito da Igreja e dos sacramentos.
Queremos que você adicione às suas atuais opiniões um pouco mais a respeito das
funções dos ministros, e um pouco mais a respeito da autoridade episcopal, e um
pouco mais a respeito do livro de orações, e um pouco mais a respeito da necessidade
de ordem e de disciplina. Queremos apenas que você adicione “um pouco mais”
dessas coisas ao seu sistema religioso, e assim você estará perfeitamente certo.
Mas quando alguém fala com você dessa forma, é hora de lembrar o que nosso Senhor
disse: “Vede e acautelai-vos”. Esse é o fermento dos fariseus, contra o qual devemos nos
levantar e nos acautelar.
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Por que estou dizendo isso? Eu o digo porque não há segurança contra a doutrina dos
fariseus, a não ser que resistamos aos seus princípios assim que se apresentam:

1. Começando com “um pouco mais a respeito da Igreja” — Um dia você pode chegar a
pôr a Igreja no lugar de Cristo.

2. Começando com “um pouco mais a respeito do ministério” — Um dia você pode
honrar o ministro como “o mediador entre Deus e o homem”.

3. Começando com “um pouco mais a respeito dos sacramentos” — Um dia você pode
chegar ao ponto de rejeitar completamente a doutrina da justificação pela fé sem as
obras da lei.

4. Começando com “um pouco mais de reverência pelo livro de orações” — Um dia
você pode colocá-lo acima das Escrituras Sagradas do próprio Deus.

5. Começando com “um pouco mais de honra aos bispos” — Você pode, por fim,
recusar a salvação a quem não pertença a uma Igreja Episcopal.

Vou contar-lhes uma velha história. Vou assinalar caminhos que foram trilhados por
centenas de membros da Igreja da Inglaterra nos últimos anos recentes. Eles começaram
encontrando falhas nos reformadores, e acabaram engolindo os decretos do Concílio de
Trento (Concílio doutrinário da Igreja católico-romana). Eles começaram reclamando
das coisas como estavam, e acabaram por juntar-se formalmente à Igreja de Roma. Eu
creio que quando ouvimos pessoas nos pedindo que “acrescentemos um pouco mais” a
nossos bons, velhos e claros pontos de vista evangélicos, deveríamos ficar alertas.
Deveríamos lembrar o aviso do nosso Senhor: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus”.
Eu considero que o mais perigoso defensor da escola dos saduceus não é a pessoa que
lhe diz abertamente que ele quer que você deixe de lado alguma parte da verdade, e que
se torne um livre-pensador e um cético. Mas é a pessoa que começa sutilmente com
insinuantes dúvidas a respeito da nossa posição quanto às coisas religiosas, dúvidas sobre
se devemos ser tão positivos ao ponto de dizer “isto é verdade, e aquilo é falso”, dúvidas
sobre se devemos pensar que estão erradas as pessoas que diferem das nossas opiniões
religiosas, uma vez que elas podem estar, afinal, tão corretas como nós mesmos estamos.
É o homem que nos diz que não deveríamos condenar os pontos de vista de ninguém, a
fim de que não erremos por falta de amor. É o homem que sempre começa falando de
uma forma vaga sobre Deus ser um Deus de amor, e aconselha que talvez devêssemos
crer que talvez todos os homens, qualquer que seja a doutrina que professam, no final
haverão de ser salvos. É o homem que está sempre nos lembrando que deveríamos
tomar cuidado com a forma que consideramos os grandes intelectos (embora esses
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sejam deístas e céticos) que não pensam como nós, e que, afinal, “grandes mentes são
todas, de uma forma ou de outra, ensinadas por Deus”!
É o homem que está sempre batendo na tecla das dificuldades da inspiração das
Escrituras, e levantando questões sobre se todos os homens não serão salvos no final, e
se porventura não estão todos certos aos olhos de Deus. É o homem que coroa sua
agradável conversa com algumas tranquilas zombarias contra o que ele gosta de chamar
de “pontos de vista ultrapassados” e “teologia de mentalidade estreita”, e “inveja cega” e
a “falta de liberalidade e amor” dos nossos dias. Mas quando alguém começa a falar
dessa forma, é hora de vigiar e nos acautelar. Aí é hora de lembrar as palavras de nosso
Senhor Jesus Cristo: “Vede e acautelai-vos do fermento”.
Pergunto outra vez: Por que estou dizendo isso tudo? Eu o faço porque não existe
seguro contra o saduceísmo, como também não existe seguro contra o farisaísmo, a não
ser que resistamos aos seus princípios no seu estado inicial. Começando com uma vaga e
despretenciosa conversa sobre “amor”, você pode acabar dando na doutrina da salvação
universal, enchendo o céu com uma multidão mista de maus e bons, e negar a existência
do inferno. Começando com umas poucas frases sonoras sobre intelecto e luz interior
no homem, você pode acabar negando a obra do Espírito Santo, e sustentar que Homer
e Shakespeare foram tão inspirados quanto Paulo, e dessa forma descartando a Bíblia.
Começando com alguma mirabolante e mística idéia de que “todas as religiões contêm
mais ou menos uma porção de verdade”, você pode acabar negando completamente a
necessidade das missões, e achar que o melhor que se pode fazer é deixar os outros em
paz.
Começando por indispor-se à “religião evangélica” como ultrapassada, de mente estreita
e separatista, você pode acabar rejeitando as principais doutrinas do Cristianismo — a
expiação, a necessidade da graça, e a divindade de Cristo. Eu repito que estou-lhe
falando algo que não é novo: estou-lhe dando apenas um vislumbre do caminho que
multidões de pessoas têm trilhado nesses últimos anos. Essas multidões estiveram,
noutros tempos, satisfeitas com a teologia de Newton, Scott, Cecil, e Romaine; e agora
imaginam que encontraram um caminho melhor nos princípios propostos pelos teólogos
da escola do caminho largo! Eu penso que não existe segurança para a alma humana a
não ser que nos lembremos da lição envolvida nestas solenes palavras: “Vede e acautelai-
vos do fermento dos saduceus”.
Acautelemo-nos do elemento traiçoeiro da doutrina falsa. À semelhança do fruto que
Eva e Adão comeram, à primeira vista ela parece agradável e boa, algo desejável. Não se
vê a palavra “veneno” escrito nela, de forma que as pessoas não ficam com medo. Como
uma moeda falsificada, ela não contém o aviso: “Coisa ruim”. Ela se passa por
verdadeira porque se parece muito com a verdade.
Acautelemo-nos contra “os primeiros indícios” da doutrina falsa. Toda e qualquer
heresia tem o seu início por meio do afastamento da verdade. Basta uma pequena
semente de erro para dar origem a uma grande árvore. São as pequenas pedras que
edificam o majestoso edifício. Foram as pequenas tábuas que deram origem à grande
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arca que transportou Noé e sua família nas águas do dilúvio que cobriu o mundo. É o
pequeno fermento que leveda toda a massa. É a omissão ou a adição de um pequeno
item da prescrição do médico que estraga o remédio todo, fazendo dele um veneno. Não
toleramos calados uma pequena desonestidade, ou uma pequena fraude, ou uma
pequena mentira; dessa mesma forma, jamais permitamos que uma pequena doutrina
falsa nos arruíne, pensando que “é só uma coisa pequenina” que não pode nos causar
dano. Aos gálatas parecia que não estavam fazendo nada muito perigoso quando
começaram a guardar “dias, e meses, e tempos, e anos”; contudo Paulo disse a eles:
“Receio de vós...” (Gálatas 4.10,11).
Finalmente, acautelemo-nos contra a suposição de que “de forma alguma nos
encontramos em perigo”. “Nossos pontos de vista são saudáveis; nossos passos são
firmes; talvez os outros possam desviar-se, mas nós estamos a salvo!” Centenas de
pessoas pensaram dessa mesma forma, e acabaram terminando mal. Na sua
autoconfiança, lidaram com pequenas tentações e pequenas formas de doutrina falsa; na
sua prepotência, aproximaram-se demais do perigoso precipício; e agora estão perdidos
para sempre. Eles cederam ao engano, acabaram crendo na mentira. Alguns deles oram à
virgem Maria, e se curvam diante de imagens. Outros estão-se desfazendo de uma
doutrina após a outra, desistindo de todo tipo de religião, a não ser uns farrapos de
deísmo. É impressionante a visão, no livro O Peregrino, que descreve a Montanha do
Erro como “muito íngreme” e, “quando Cristão e Esperançoso olharam para baixo,
viram no sopé da montanha vários homens que se rebentaram ao despencar lá do topo
dessa montanha”. Nunca, nunca esqueçamos o alerta para nos acautelarmos do
“fermento”; e, se pensamos estar em pé, cuidemos para não cair!

IV. Em quarto e último lugar, proponho-me a sugerir alguns meios de proteção e


tratamentos contra os perigos do momento — o fermento dos fariseus e o
fermento dos saduceus.
Eu percebo que todos nós precisamos mais e mais da presença do Espírito Santo em
nosso coração, para guiar, ensinar, e nos guardar sadios na fé. Todos nós temos de vigiar
mais, e temos de orar para sermos mantidos de pé, e preservados de quedas e desvios.
Contudo, há certas verdades essenciais que, em dias como os nossos, estamos de forma
especial obrigados a conservar bem vivas na mente. Há ocasiões quando uma
determinada região é invadida por alguma epidemia simples, quando os remédios que
sempre funcionaram adquirem um valor especial. Há lugares onde um tipo incomum de
malária se manifesta, onde os remédios que são valiosos em qualquer outro lugar, ali são
mais valiosos do que nunca em consequência dessa moléstia incomum. Eu acredito que
dessa mesma forma há tempos e épocas na Igreja de Cristo quando somos obrigados a
intensificar a ênfase sobre certas verdades fundamentais e essenciais, a fim de agarrá-las
com mais firmeza do que normalmente, a fim de imprimi-las em nosso coração, e não
deixar que nos escapem. Pretendo apresentar essas doutrinas de forma ordenada, como a
grande prescrição contra o fermento dos fariseus e dos saduceus. Quando Saul e Jônatas
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foram mortos pelos arqueiros, Davi ordenou que os filhos de Israel recebessem
instruções para saberem usar o arco e a flecha.

(a) Em primeiro lugar, se nos quisermos manter sadios na fé, temos de prestar atenção à
nossa doutrina da “depravação total da natureza humana”. A depravação da natureza
humana não é uma doutrina fácil. Ela não é parcial nem superficial, mas é a radical e
universal corrupção da vontade humana, do intelecto, dos sentimentos, e da consciência.
Nós não somos meros pobres e coitados pecadores aos olhos de Deus: nós somos
pecadores culpados; somos pecadores e fizemos por merecer esse nome: merecemos
com justiça a ira e a condenação de Deus. É minha convicção pessoal que há muito
poucos erros e doutrinas falsas cujo início não esteja associado a um ponto de vista
distorcido sobre a depravação e a corrupção da natureza humana. Uma compreensão
errada de uma doença sempre acarretará orientação errada sobre o remédio necessário. A
compreensão errada da depravação da natureza humana sempre haverá de trazer consigo
a compreensão errada do grande tratamento e da cura dessa depravação.

(b) Em seguida, temos de prestar atenção na doutrina da “inspiração e autoridade das


Escrituras Sagradas”. Temos de manter com firmeza, mesmo à vista de todos os que se
opõem, que a Bíblia toda nos foi dada pela inspiração do Espírito Santo, que ela é
totalmente inspirada, e não uma parte mais do que a outra, e que há um imenso abismo
entre a Palavra de Deus e qualquer outro livro deste mundo. Não devemos temer as
dificuldades que existem no caminho da doutrina da absoluta inspiração. Talvez haja
coisas elevadas demais para serem compreendidas: ela é um milagre, e todos os milagres
são necessariamente misteriosos. Mas se nos recusarmos a crer em qualquer coisa até
que tenhamos condições de explicar tudo, haverá bem poucas coisas que poderemos
crer. Não é preciso temer todos esses ataques produzidos pela crítica contra a Bíblia.
Esse julgamento contra a Palavra do Senhor já vem acontecendo desde os dias dos
apóstolos, mas ela jamais deixou de apresentar-se como ouro, incólume, imaculada.
Não precisamos ficar apreensivos por causa das descobertas científicas. Os astrônomos
podem varrer os céus com seus telescópios, e os geólogos podem escavar até o centro da
terra, e nunca jamais abalarão a autoridade da Bíblia: “A voz de Deus e as obras das
mãos de Deus nunca jamais serão encontradas em contradição mútua”. Não precisamos
ficar apreensivos com as investigações dos viajantes. Eles nunca jamais haverão de
descobrir qualquer coisa que contradiga a Bíblia de Deus. Eu estou certo de que, se um
homem se dispuser a escavar cem cidades de Nínive, não encontrará jamais nem uma
simples inscrição que seja contrária a um simples fato registrado na Palavra de Deus.
Além do mais, temos de sustentar com firmeza que essa Palavra de Deus é a única regra
de fé e prática, que tudo quanto não está escrito nela não pode ser requerido de homem
nenhum como algo necessário à sua salvação, e que embora se admita que podem surgir
novas doutrinas, se elas não estão na Palavra de Deus, não são dignas de nossa atenção.
Não importa quem está falando, quer seja um bispo, um arquidiácono, um deão, ou um
presbítero. Não importa se a idéia é bem apresentada, com eloquência, de forma
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atraente, ou por imposição, e de tal forma que você seja ridicularizado. Nós não
haveremos de crer nela a não ser que se prove pelas Escrituras Sagradas.
Em último lugar, mas não menos importante, temos de usar a Bíblia crendo de fato que
ela foi dada por meio de inspiração. Temos de usá-la com reverência, e lê-la com o
carinho com que leríamos as palavras de um pai ausente. Não devemos nos surpreender
se encontrarmos no livro inspirado pelo Espírito de Deus algum mistério. Temos, antes,
de lembrar que na natureza há muita coisa que não conseguimos entender; e que, assim
como acontece no livro da natureza, assim acontecerá sempre no livro da Revelação.
Devemos nos aproximar da Palavra de Deus no espírito de piedade recomendado pelo
Lorde Bacon, muitos anos atrás. “Lembre-se”, disse ele, a respeito do livro da natureza,
“que o homem não é o mestre, mas é o intérprete desse livro”. E da forma que lidamos
com o livro da natureza, assim temos de lidar com o Livro de Deus. Temos de nos
aproximar dele não para ensinar, mas para aprender, não como quem o domina, mas
como um humilde aluno, procurando compreendê-lo.

(c) Outro ponto: temos de prestar atenção à nossa doutrina a respeito da “expiação e do
ofício sacerdotal de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. Temos de sustentar
ousadamente que a morte de nosso Senhor na cruz não foi uma morte comum. Não foi
a morte de alguém que morreu como Cranmer, Ridley, e Latimer, como mártir. Não foi
a morte de alguém que morreu apenas para nos dar um poderoso exemplo de auto-
sacrifício e auto-negação. A morte de Cristo foi uma oferta a Deus do Seu próprio corpo
e sangue (de Cristo), em benefício do pecado e da transgressão do homem. Essa morte
foi um sacrifício de apaziguamento; um sacrifício tipificado em cada oferta da lei
mosaica, um sacrifício que produziu poderosa influência sobre toda a humanidade. Sem
o derramamento desse sangue não poderia haver e nunca jamais haveria de ocorrer
nenhuma remissão de pecados.
Além do mais, temos de sustentar ousadamente que esse Salvador crucificado está
assentado para sempre à mão direita de Deus, para interceder por todo aquele que por
Ele se achega a Deus; que Ele ali representa e suplica por aqueles que colocam nEle a
sua confiança; e que Ele não delegou — a homem nenhum, nem a nenhum grupo de
homens na face desta terra — o Seu ofício de Sacerdote e Mediador. Nós não
precisamos de ninguém mais além dEle mesmo. Não precisamos da Virgem Maria, não
precisamos de anjos, de santos, de sacerdotes, de nenhuma pessoa ordenada ou não
ordenada, que precise se interpôr entre nós e Deus, além do único Mediador, Cristo
Jesus.
Além disso, temos de sustentar ousadamente que a paz da consciência não se adquire
por meio da confissão a um sacerdote, e por meio da absolvição do pecado recebida de
um homem. Essa paz só se consegue quando se vai ao grande Sumo Sacerdote, Cristo
Jesus; por meio da confissão a Ele, não a um homem; e pela absolvição que somente Ele
concede. Ele que é o único que pode dizer: “Perdoados são os teus pecados; vai em
paz”2.

2 Lucas 7.48-50.
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Em último lugar, mas não menos importante, temos de sustentar ousadamente que a paz
com Deus, uma vez obtida pela fé em Cristo, deve ser preservada, não por meio de
meros atos exteriores de adoração cerimonial, não por receber o sacramento da Ceia do
Senhor todos os dias, mas pelo hábito diário de olhar para o Senhor Jesus Cristo pela fé,
comendo do Seu corpo pela fé, e bebendo pela fé do Seu sangue. Foi a respeito desse
comer e beber que nosso Senhor disse: aquele que come e bebe haverá de constatar que
a Sua carne é verdadeira comida e o Seu sangue é verdadeira bebida3. John Owen
declarou, muito tempo atrás, que se existe algo a que Satanás mais do que tudo deseja
pôr fim, é o ofício Sacerdotal de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Satanás sabe
muito bem, disse Owen, que esse é o “principal fundamento da fé e da consolação da
Igreja”. Concepções corretas a respeito desse ofício são de importância fundamental em
nossos dias, se queremos que os homens não caiam no erro.

(d) Preciso mencionar mais um remédio. Temos de prestar atenção à nossa doutrina
sobre “a obra de Deus o Espírito Santo”. Tenhamos bem claro em nossa mente que o
Seu trabalho não é uma operação invisível e incerta no coração, e que onde Ele está, Ele
não está oculto, não deixa de manifestar-Se, não passa despercebido. O orvalho, quando
cai, não deixa de ser percebido, ou quando existe vida numa pessoa isso não deixa de ser
percebido por sua respiração. É assim também com a influência do Espírito Santo.
Ninguém tem direito de reivindicar essa influência a não ser que os seus frutos, os seus
efeitos experimentais possam ser vistos na sua vida. Onde Ele está, haverá sempre uma
nova criação, uma nova fé, uma nova santidade, novos frutos na vida, na família, no
mundo, na Igreja. E onde não se veem essas novas coisas, bem podemos dizer com
segurança que ali não existe a operação do Espírito Santo. Estes nossos tempos exigem
que estejamos todos atentos quanto à doutrina da obra do Espírito. Madame Guyon
disse, muito tempo atrás, que talvez chegasse um tempo quando os homens tivessem de
ser mártires por causa da obra do Espírito Santo. Parece que não está muito longe esse
tempo. De qualquer modo, se há uma verdade na religião que tem sido motivo de
desprezo mais do que qualquer outra, essa verdade é a obra do Espírito.

Quero enfatizar a enorme importância desses quatro pontos a todo leitor do nosso
artigo:
(a) Uma clara visão da pecaminosidade da natureza humana;
(b) Uma clara visão da inspiração das Escrituras;
(c) Uma clara visão da Expiação e do ofício Sacerdotal de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo;
(d) Uma clara visão da obra do Espírito Santo.
Eu acredito que doutrinas estranhas a respeito da Igreja, do ministério, e dos
sacramentos, a respeito do amor de Deus, da morte de Cristo, e do castigo eterno —
não encontrarão ponto de apoio no coração que está doutrinariamente sadio quanto a

3 João 6.55.
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esses quatro pontos. Creio que são quatro grandes meios de proteção contra o fermento
dos fariseus e dos saduceus.
Pretendo concluir agora meu estudo com algumas observações à guisa de aplicação
prática. Meu desejo é tornar o assunto todo útil àqueles que lerem este texto, e prover
resposta às questões que talvez possam surgir em algum coração. O que haveremos de
fazer? O que você aconselha para tempos como os nossos?

(1) Em primeiro lugar, peço a cada leitor que se certifique se já se reconciliou


pessoalmente com Deus. Afinal, essa é a coisa principal. De nada adiantará pertencer a
uma boa igreja, se a pessoa mesma não pertence a Cristo. Uma pessoa não será
beneficiada em coisa nenhuma se intelectualmente for sadia na fé, e aprovar a sã
doutrina, mas se ela não tiver o coração sadio (regenerado). É esse o seu caso, leitor?
Você pode afirmar que o seu coração está correto aos olhos de Deus? Ele foi renovado
pelo Espírito Santo? Cristo habita em seu coração pela fé? Oh! Não descanse, não
descanse enquanto você não pode responder satisfatoriamente a essas perguntas! A
pessoa que morre sem se converter, mesmo que tenha as mais adequadas e sadias
crenças, está tão perdida para sempre como o pior dos fariseus ou dos saduceus que já
viveram sobre esta terra.

(2) Em segundo lugar, imploro a cada leitor que deseja uma fé sadia, que estude
diligentemente a Bíblia. Esse livro bendito nos foi dado para ser uma lâmpada para
nossos pés, uma luz para os nossos caminhos. Ninguém que leia esse livro com
reverência, suplicando a ajuda de Deus, com humildade, e regularmente haverá de se
perder no caminho para o céu. É por meio desse livro que se deve avaliar cada sermão,
cada livro religioso e cada ministro.
Você quer saber o que é a verdade? Sente-se confuso e desconcertado com a guerra de
palavras que ouve por todo lado a respeito da religião? Quer saber o que é que você deve
crer, e o que você deve ser e fazer, a fim de ser salvo? Pegue a sua Bíblia, e pare de dar
ouvidos aos homens. Leia a sua Bíblia com sincera oração para que o Espírito Santo o
ensine; leia-a com honesta determinação de viver conforme ela ensina. Faça isso
constante e perseverantemente, e você verá a luz: você será preservado do fermento dos
fariseus e dos saduceus, e será guiado à vida eterna. Comece a fazer isso sem demora. É
essa a forma de conhecer a verdade de Deus.

(3) Em seguida, aconselho a cada leitor que tem razões para considerar-se sadio tanto
naquilo que crê como no coração, que preste atenção à proporção das verdades. O que
eu quero dizer é que se deve ter cautela para dar a cada verdade do Cristianismo o
mesmo lugar e posição em nosso coração que essa verdade recebe na Palavra de Deus.
As coisas que devem vir primeiro não devem ser colocadas em segundo lugar, nem as
que estão em segundo lugar devem ocupar o primeiro lugar em nossa religião. A Igreja
não deve ser colocada acima de Cristo. Os ministros não devem ser exaltados acima do
lugar designado por Cristo para eles; os meios de graça não devem ser considerados
16

como fins em vez de meios. É de grande importância dar atenção a esse ponto: os erros
que surgem da negligência disso não são nem poucos nem pequenos. Aqui reside a
tremenda importância de estudar toda a Palavra de Deus, sem nada omitir, evitando
parcialidade ao ler uma parte mais do que a outra. Eis o valor de possuir bem claro na
mente o sistema do Cristianismo.

(4) Em seguida, imploro a cada servo genuíno de Cristo a não deixar-se enganar pelo
disfarce com que as falsas doutrinas muitas vezes se insinuam em nossas almas em nosso
tempo. Acautele-se de pensar que um mestre de religião merece confiança porque,
embora sustente alguns pontos de vista falsos, ele contudo “ensina um bocado de
verdade”. Esse é exatamente o tipo de pessoa que causará dano a você: o veneno é
sempre mais perigoso quando é servido em pequenas doses e misturado a comida
saudável. Acautele-se de ser enganado pela aparente honestidade de muitos dos mestres
que sustentam e propagam falsas doutrinas. Lembre-se de que zelo e sinceridade e fervor
não são, de forma nenhuma, prova de que uma pessoa está trabalhando por Cristo e que
por isso merece nossa confiança.
Não há dúvida de que Pedro estava sendo profundamente sincero quando disse a nosso
Senhor: “Tem compaixão de ti, Senhor”, para que Cristo não fosse para a cruz; contudo
nosso Senhor lhe disse: “Arreda, Satanás!” Saulo, sem dúvida, era sincero quando
perseguia os cristãos por todo lado; contudo ele o fez na ignorância, e o seu zelo não era
com entendimento. Os autores da Inquisição Espanhola sem dúvida eram sinceros, e
pensavam estar realizando a obra de Deus ao queimar vivos os santos de Deus; contudo
na verdade eles estavam perseguindo os membros de Cristo e andando nos passos de
Caim. É uma terrível verdade que “o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2
Coríntios 11.14). De todos enganos que existem nesses últimos tempos, nenhum é maior
do que a idéia de que “se uma pessoa é séria em sua religião, com certeza essa deve ser
uma boa pessoa”! Acautele-se desse terrível engano; acautele-se de ser desviado por
“pessoas sérias e sinceras”! A seriedade e a sinceridade são, em si mesmas, excelentes
coisas; mas tem de ser seriedade conforme Cristo e conforme toda a Sua verdade, ou
essa seriedade e sinceridade não servem para absolutamente nada. As coisas que são
altamente consideradas entre os homens são, muitas vezes, abomináveis aos olhos de
Deus.

(5) A seguir, aconselho a todo verdadeiro servo de Cristo a “examinar o próprio


coração” com frequência e com cuidado, para saber como se encontra diante de Deus.
Essa é uma prática útil em todo o tempo: e é especialmente recomendada para os nossos
dias. Na época da grande praga que assolou a cidade de Londres, as pessoas percebiam e
davam importância aos menores sintomas que lhes apareciam no corpo, de uma forma
que nunca antes haviam reparado. Uma mancha aqui ou ali, que em tempos de saúde
ninguém pensaria que fosse alguma coisa, recebia profunda atenção quando a praga
estava dizimando as famílias, derrubando um após o outro! Assim deve ser conosco,
nestes tempos em que vivemos. Devemos vigiar nosso coração com atenção redobrada.
Devemos gastar mais tempo em meditação, auto-exame, e reflexão. Vivemos numa
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época apressada, agitada: se quisermos ser preservados de quedas, temos de arranjar


tempo para estar com frequência sozinhos com Deus.
(6) Para encerrar, encorajo a todos os verdadeiros crentes a batalhar, “diligentemente,
pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”4. Não há porque nos
envergonharmos dessa fé. Estou firmemente persuadido que não existe sistema que
infunda vida, sistema tão bem projetado para despertar os que dormem, que convença
os indecisos, e edifique os santos, como esse que se chama sistema Evangélico do
Cristianismo. Onde quer que seja pregado com fidelidade, e transmitido com eficiência, e
consistentemente adornado pela vida daqueles que o professam, ele é o poder de Deus.
Talvez alguns falem mal dele e zombem; mas isso acontecia também no tempo dos
apóstolos. Talvez ele seja promovido e defendido de forma deficiente por muitos dos
seus advogados; mas, no final de tudo, os seus frutos e resultados merecem o mais alto
louvor. Não há nenhum outro sistema religioso que chega a esse tipo de resultado. Em
nenhum outro lugar há tantas almas convertidas a Deus como nas congregações onde o
Evangelho de Jesus Cristo é pregado em toda a sua plenitude, sem mistura da doutrina
dos fariseus e dos saduceus. Nós não somos chamados, de forma nenhuma, para ser
meros polemistas; mas nunca nos devemos envergonhar de dar testemunho da verdade
como ela é em Jesus, e sustentar ousadamente a religião Evangélica. Nós temos a
verdade, e não precisamos ter medo de afirmar isso. O dia do juízo haverá de mostrar
quem está certo, e é a esse dia que com ousadia podemos apelar.

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Há mais de um século, J. C. Ryle foi o líder do partido evangélico da Igreja da Inglaterra.


Sua estratégia foi encorajar os conservadores a permanecer na igreja em vez de
abandonar o barco e deixar que os liberais executassem seu programa sem nenhum
impedimento.
J. C. Ryle é mais bem conhecido por seus escritos claros e vívidos a respeito de temas
práticos e espirituais. Seu grande alvo no ministério era encorajar a vida cristã séria e
viril. Mas ele não era ingênuo quanto à forma em que isso deveria ser feito. Ele
reconhecia que, como pastor do rebanho de Deus, tinha a responsabilidade de guardar
as ovelhas de Cristo e alertá-las toda vez que via o perigo aproximar-se. Os seus
comentários perspicazes são tão sábios e relevantes hoje como o foram quando os
escreveu. Os seus sermões e outros escritos têm tido amplo reconhecimento, e a sua
utilidade e impacto se estendem até os nossos dias, da mesma forma que o fizeram na
Inglaterra daqueles dias.
Tony Capoccia

[Texto transcrito por Tony Capoccia, no site www.biblebb.com]

Tradução: Helio Kirchheim

4 Judas 3.

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