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Fortalecimento da Capacidade Institucional da Fundação Joaquim Nabuco em processos de desenvolvimento de pesquisas na área de avaliação de olítica públicas e pesquisa-ação em Educação

Produto 2

Luiz Carlos Pinto da Costa Júnior

Dezembro/2013_

Janeiro/2014

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Apresentação

O que segue é uma proposta de documentários (justificativas, concepção & linguagem,

sinopse e argumento) direcionada a estudantes do ensino médio com vistas a tratar de questões importantes relacionadas às relações étnico-raciais no Brasil. A ideia é que os documentários formem uma trilogia, cujos filmes se detém em processos sociais de discriminação racial e exclusão, e violência contra a população afro-descendente, ao mesmo tempo em que expõe elementos da história e da cultura africana e afro-brasileira. Com isso, o conjunto de documentários procura incentivar a reflexividade entre estudantes

pré-adolescentes e adolescentes do nível médio, realçando a importância das culturas africanas na formação das identidades nacionais brasileiras; a necessidade de respeito às diferenças em todas os níveis de interação social; e incrementar os elementos para a produção de discursos afirmativos.

A unidade da trilogia portanto consiste em identificar e desconstruir arranjos sociais que

impedem o pleno desenvolvimento de cidadãos afro-brasileiros em problemáticas que atingem de forma muto especial estudantes do nível médio.

O primeiro documentário (Esclarecendo o embranquecimento – os títulos são provisórios)

tem como tema central a centenária articulação, no Brasil, entre racismo e violência de gênero em

sua incidência sobre as estudantes pré-adolescentes e adolescentes. A busca pelo

embranquecimento, com o apagamento de traços fenotípicos negros, é um dos pontos que se pretende com esse projeto tratar nesse documentário.

O segundo documentário (Crescimento econômico e relações raciais) procura contrapor

valores civilizatórios compartilhados por diversos povos africanos aos modelos que adquiriram predominância e hegemonia no projeto de modernidade que se consolidou no Brasil. A recuperação de tais valores e tradições civilizatórias deve servir como estratégia para abordar aspectos da história africana, ao mesmo tempo em que se procura com isso incentivar processos de crítica aos

históricos reflexos, sobre a população negra, do crescimento econômico. Com isso o que se procura é viabilizar a veiculação de discursos que dêem conta, a partir do olhar do afro-descendente alimentado por valores ancestrais e por sua cosmovisão correspondente, de uma realidade excludente que vem sendo gestada há quatro séculos.

O documentário O jovem candomblé procura desmistificar as práticas das religiões afro-

brasileiras entre estudantes do Ensino Médio, tendo como objetivo eliminar a discriminação no ambiente escolar e comunitário (enfim, nos espaços de interação estudantil) e incentivar relatos afirmativos, fortalecer o sentimento de pertencimento e identidade.

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Como há um unidade de intenção que se debruça sobre um mesmo universo, é interessante que o tratamento estético dado às três produções possa realçar esses elementos de conexão. A trilogia se fortalece como tal, por deter sobre problemas centrais à democracia brasileira e, no dia a dia da população afro-brasileira. Nos Argumentos são usadas fotografias e músicas extraídas do acervo da Fundação Joaquim Nabuco (relacionadas e analisadas no Produto 1) como forma de sugerir elementos do ambiente narrativo que se visualizou no processo de construção dessas propostas.

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1.

Esclarecendo o embranquecimento (título provisório)

Introdução A sistemática negação de uma justa imagem “do Outro” e a visão estereotipada dos negros são mecanismos dos mais violentos vividos na escola e fatores que concorrem para a eliminação da criança negra. Nesse contexto, os efeitos dos constrangimentos sobre a mulher negra adolescente, por combinarem disciminação racial e de gênero, são ainda mais severos. Até mesmo o rito de passagem da puberdade para adolescência está associado a uma série de mudanças que são constrangedoras tanto do ponto de vista biológico, como do ponto vista social – constituído de estereótipos, preconceitos e discriminações. E isso é percebido pelas adolescentes nessa faixa etária no que se refere, por exemplo, ao padrão de beleza. Com efeito, o ideal de branqueamento inseriu-se nos espaços escolares fazendo com que em dinâmicas de sala de aula, até alunos negros se rejeitem, como demonstra Alexandre (2006). Tratar de processos de discriminação a partir das conexões estabelecidas no convívio escolar, parece, portanto, um interessante ponto de partida para a produção de uma narrativa que interceda no universo afetivo de estudantes do sexo masculino e feminino do Ensino Médio (que, segundo o censo escolar tinha em 2011 um total de 8.376.852 alunos nas redes rurais e urbanas em meio a uma população de mais de 10,5 milhões de brasileiros com idade entre 15 e 17 anos). Segundo o Censo 2010, os estudantes de 18 a 24 anos de idade no Ensino médio correspondem a 33,8% no País. No Nordeste, essa fase escolar representa o maior percentual: 43,4%. Além disso, no Brasil, 44,2 % dos estudantes de nível médio são pretos ou pardos. Esse percentual é de 47,5% no Nordeste e de 46,9% na Região Norte, os maiores índices do País.

A produção de um documentário tratando dessa questão permite

pensar em uma educação que seja capaz de discutir em suas propostas curriculares as situações e os contextos da vida, para enfrentar o que é próprio e constituinte das vivências, instigar a participação de uma escola que deve acolher e respeitar as diversidades de classe, raça, gênero, geração e sexualidade, mas que ainda não existe para todos,

como

(MEC/SECAD).

estabelecido

nas

Orientações

e Ações

para

a

Educação

das

Relações

Étnico-Raciais

Justificativa Como é sabido, a ideologia racial particular do Brasil está baseada em algumas características próprias. Uma primeira, decorre da maneira como a nacionalidade brasileira foi formada ou imaginada: a mistura de indivíduos dissimilares em termos étnicos, provenientes de todas as partes do mundo, teria criado uma raça de criolos cuja origem étnica e racial foi subsumida, esquecida, superada, por uma nacionalidade que teria se sobreposto, plasmando e encobrido ancestralidades desconfortáveis. Com a substituição da ordem escravocrata, a cor passa a ser a marca de origem e código cifrado da raça. Uma segunda característica é a existência de uma ordem social na qual a raça (traduzida em 'cor'), o status e a classe estão intimamente ligados entre si. Nessa 'pigmentocracia', a clareza da pele está diretamente relacionada a maior status e a maior honra, enquanto a cor mais escura se associa tanto com o trabalho físico dos escravos e dos índios, quanto

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com a infâmia dos que foram conquistados. A terceira característica é o decantado mito das três raças, núcleo da poderosa construção ideológica da democracia racial e do ideal do embranquecimento, que por sua vez estabeleceu uma mediação entre as teorias racistas em voga no final do século XIX e a realidade mestiça da população brasileira. Ou seja, a doutrina liberal que se consolida ao final do Século XIX incorporava uma lógica justificadora das desigualdades pela qual a pobreza de pretos e mestiços era a prova de sua inferioridade. Além dessa condição de pobreza, o sistema também aniquilava as matrizes, vínculos e conexões com os costumes africanos. No Brasil, os brancos são os mestiços e mulatos claros que dominam e expressam os símbolos dominanes da cultura européia: religião cristã e educação

formal. Essa lógica acusa pela diferença o negro, que passa a ser diferenciado do mestiço. O negro/preto é o Outro. Aqui já se insinua a lógica da diferença, o preto verdadeiro não é (não pode ser, na tradição racialista brasileira) um homem letrado, um cristão completo, até por causa da carga de referências animistas que traz e que precisam ser acusadas, evidenciadas. Do ponto de vista da nacionalidade, o padrão imaginado para ao Brasil modelou um racismo heterofóbico, que nega a existência e condena as diferenças em relação ao padrão europeu de convivência, de sentimentos étnicos, raciais e comunitários. As regras de pertença nacional adotadas no Brasil negam estes em prol de um modelo elitista, em que a cidadania não é reconhedida a toda a população. Assim, no Brasil, o racismo é especificado pela ideia do embranquecimento em conexão com a heterofobia. A importação das teorias racialistas foi fortalecida pela noção de que o sangue branco purificava, diluía e exterminava o negro, abrindo a possibilidade para que os mestiços se elevassem ao estágio civilizado.

Se o racismo científico e o determinismo geográfico do Século XIX instilaram o sentimento

de inferioridade racial e cultural, o “embranquecimento” foi elaborado como ideal pelo orgulho nacional ferido em relação às desconfianças de que o necessário gênio industrial, econômico e civilizatório para participar do mundo moderno era inadequado (GUIMARÃES, 2009). Originalmente a ideia de embranquecimento é debitária de teses racistas (ingênuas e) cientificistas. Foi re-elaborada, sendo adaptada aos cânones da Antropologia Social: passou a significar o caminho para a mobilidade ascensional dos mestiços na hierarquia social. O caminho dessa ascensão era verificado empiricamente, ao mesmo tempo em que há uma visão racista incorporada nesse caminho, mesmo que ele se torne uma certeza incorporada pelos negros. “Embranquecimento” passou, portanto, a significar a capacidade da nação brasileira (definida como uma extensão da civilização europeia, em que uma nova raça emergia) de absorver e integrar mestiços e pretos. Tal capacidade requer, de modo implícito, a concordância das pessoas de cor em renegar sua ancestralidade africana ou indígena. Nesse contexto, podemos constatar que sendo a escola o espaço onde as relações raciais acontecem de forma intensa, a situação se torna mais agravante, uma vez que há evidências de que crianças e adolescentes negros sofrem constantemente agressões, associando por exemplo a cor da pele às condições de submissos, passivos, incapazes intelectualmente, inferiores, feios (MOREIRA,

2011).

A questão adquire ainda maior complexidade no caso da mulher, da anciã e da menina,

sempre de fora dos processos identificatórios e sobre quem convergem discriminações raciais e os efeitos do machismo. O conjunto de estigmatizações advindas da tradição racialista brasileira e as repressões de gênero permanecem como referência-problema para o contigente de mulheres negras

adolescente. O racismo, a discriminação e a violência estão presentes nas vidas das mulheres negras adolescentes, construindo-as através de mecanismos de estereotipação de um atributo tornado estigma: o traço biotípico (SILVA, 2005).

É possível verificar (cf. ALEXANDRE, 2006) como, nos espaços da escola, os alunos

percebem o colega com a pele mais escura como “diferente” e essas diferenças passam a justificar tratamentos desiguais.

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Ou seja, no espaço escolar fugir aos padrões estéticos estabelecidos remete à anormalidade e, como consequerência, à desvalorização daquele que não corresponde a ela. A aparência abre e assegura lugares para quem se enquadra nos modelos pré-estabelecidos de beleza. “Os alunos

negros são vítimas de estigmas e estereótipos dentro do espaço escolar. Isso influencia sobremaneira

a sua identidade, pois a auto-aceitação também depende das representações que os outros tem de si, nesta perspectiva, o ambiente escolar é conflituoso para esses alunos, pois são rejeitados pelos colegas”, (ALEXANDRE, 2006, p. 120). Nesse sentido, o racismo também superlativa os gêneros por meio de privilégios que advêm da discriminação e/ou exclusão social dos gêneros subalternos. É assim que uma produção áudio-visual que tematize de forma direta essa problemática ambientada na escola – e com as característiccas próprias que lhe emprestam os elementos do espaço educacional –, se alinha com a tarefa política de construir no espaço escolar uma compreensão do modo peculiar como e porque se dão relações raciais no Brasil. Isso se faz necessário para que possamos criar no espaço escolar o respeito pelas diferenças, o combate ao racismo (inclusive o institucional), a reversão de estigmas e estereótipos que ainda persistem operando no imaginário social, com repercussões danosas sobre a auto-estima e o valor social de homens e mulheres negras. Além de poder facilitar a apropriação crítica dessa realidade, o referido documentário também pode contribuir para a geração de representações positivas sobre a população afro- descendente e africana pelos próprios estudantes do ensino médio a quem se dirige o filme. Elemento esse fundamental na medida em que o racismo, em sua articulação com o sexismo, produz a estigmatização da identidade feminina negra, com repercussão em todas as dimensões da vida (SEPPIR/SECAD). O documentário, portanto, se enfileira como resultado de uma proposta de fazer circular uma imagem igualitária das mulheres de diferentes grupos raciais que rompa com os paradigmas do passado e com as injunções midiáticas do presente.

Concepção & Linguagem

Embora o documentário seja pensado para jovens de todos os gêneros do Ensino Médio, o tema central é o arranjo de racismo e violência de gênero que acomete as pré-adolescentes e adolescentes dessa fase escolar. A estratégia é tratar de forma combativa a heterofobia que demarca

o racismo brasileiro e sua articulação com o sexismo e o machismo de modo a incentivar o respeito

às diferenças, o conhecimento e valorização das referências africanas, o fortalecimento de valores relacionados à pluralidade cultural, além do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira. Como os outros documentários sendo planejados, o filme precisa estabelecer uma conexão com o seu público prioritário de modo a não afastá-lo ou dispersá-lo com discursos excessivamente técnicos. É preciso portanto tocar a vida deste espectador, fazendo uso de situações e de uma fala que se aproxime do universo compartilhado por jovens do Ensino Médio. Uma boa forma de conseguir isso é com o uso de personagens jovens – mesma faixa etária – vivenciando situações que permitam tratar da problemática mencionada. Essas situações servirão como ganchos para que sociólogos, antropólogos e historiadores, ativistas da causa negra, professores, estudantes possam compor uma narrativa que informe, discutindo, o que é racismo e sua forma no Brasil; bem como trate também de explicitar o que é machismo, como ele se manifesta e seus reflexos. As entrevistas e depoimentos devem servir como um elo narrativo direcionado a mostrar a confluência dessas duas formas de discriminação, argumentando os malefícios que, individualmente ou associadas, podem trazer não somente às meninas e mulheres negras, como também aos homens e mulheres negros ou não. Pontos que precisam ser tratados:

Explicando o racismo: a explicação converge/se direciona para a forma especifíca do racismo brasileiro e o ideal de embranquecimento – o percurso para chegar a essa condição. De como o preconceito de cor é discriminação racial. O racismo colonial. O formato do racismo pós colonial: a forma como a nacionalidade brasileira foi imaginada, os autores da ideia de

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nacionalidade que predominou e suas consequências; a existência de uma ordem social na qual a raça (traduzida em 'cor'), o status e a classe estão intimamente ligados entre si e mito das três raças, núcleo da poderosa construção ideológica da democracia racial e do ideal do embranquecimento. Do como o racismo heterofóbico brasileiro promove o apagamento das raízes, referências e vínculo com as matrizes africanas, promovendo ao mesmo tempo a negação absoluta das diferenças, que redunda em sua condenação e que por isso pressupõe uma avaliação negativa de toda diferença, implicando um ideal (explítico ou não de homogeneidade). Associar isso à discriminação sofrida por estudantes de cor negra, mestiços e seguidores de religiões de matriz africana, além de participantes de grupos culturais de matiz africana. Explicando o machismo em sua relação com o racismo. A associação entre o racismo e o machismo é o principal fator para a manutenção de mulheres negras nos estratos inferiores da

sociedade brasileira. De como a dupla subvalorização (relacionada ao racismo e ao sexismo) coloca

as mulheres negras sob um regime de desigualdade social tanto em relação aos homens negros

quanto em relação às mulheres brancas, estando assim, em geral, na base da hierarqia social que

tem como sujeito hegemônico os homens brancos. Em termos de linguagem, o documentário procurará mediar os depoimentos – que como já afirmado tratarão da convergência entre racismo e machismo e os seus efeitos principoalmente sobre os corpos, a vida social e simbólica das mulheres negras –, com narrativas míticas nas quais

os personagens centrais sejam femininas. Desse modo, procura-se introduzir referências da cultura

africana, reforçar o apelo estético e atrativo do documentário e quebrar o componente dispersivo

que falas excessivamente sérias e/ou professorais possam ter. Seria interessante que essas narrativas mitológicas fossem animadas, para reforçar ainda mais esses componentes. Em princípio, as narrativas míticas não precisam estabelecer relações de continuidade ou de explicação em relação aos depoimentos. Sua importância e utilidade está em incentivar nos estudantes do Ensino Médio a atenção e o respeito à condição feminina, o respeito à sua diferença,

a conquista de visibilidade por meio da reconciliação da ciltura com a ciência, com a Filosofia, com a Psicologia moderna e com a vida.

SINOPSE

O documentário “Esclarecendo o embranquecimento” trata da convergência de sexismo e racismo que acomete meninas, adolescentes e mulheres negras forçando-as a orientar seus percursos de vida no sentido de embranquecimento como estratégia de visibilidade de aceitação por parte da sociedade. Partindo da experiência de vida de pré-adolescentes e adolescentes negras e mestiças que já sofreram ou sofrem discriminação racial e/ou de gênero, o filme procura desconstruir a heterofobia que caracteriza o preconceito racial no Brasil e realçar, fortalecer e estimular aspectos da identidade comunitária negra. As pré-adolescentes e adolescentes que se enquadram nessa situação, levantados por meio de apuração jornalística, forma o conjunto de personagens principais, aos quais se somam pesquisadores, ativistas, gestores públicos, professores com depoimentos. As falas desses personagens são intercaladas com animações de fábulas associadas à hagiologia dos Orixás e pretendem realçar a necessidade de respeito à mulher e ao universo feminino bem como introduzir o universo da cultura africana e afrodescendente. Com exceção das fábulas, o tempo do documentário é o agora, com referências às relações contemporâneas.

ARGUMENTO

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Esclarecendo o embranquecimentoTodos os dias milhares de jovens mulheres negras precisam lidar com dois tipos de

violência que se tornaram banais no Brasil: o machismo e o racismo. São dois tipos de discriminações que atingem a população pobre brasileira com consequências muito negativas: de tão repetida e encravada nas práticas da sociedade, a associação dessas duas discriminações levam as vítimas a acreditar que são inferiores por causa da cor que possuem e por causa do sexo que têm. As consequencias implicam na banalização

da violência, de comportamentos e atitudes discriminatórias – inclusive no cotidiano

escolar; na busca por artifícios de “embranquecimento” como forma de ascenção

social e inclusão no “mundo dos brancos”; no desenvolvimento de formas de negação

do biotipo; na reprodução de estereótipos e no comprometimento da formação de uma

identidade positiva da mulher negra. Esses elementos se verificam em todos os

estratos da sociedade, inclusive na escola, um dos ambientes fundamentais de socialização da criança.

A pré-adolescência e adolescência, idades em que a maior parte dos estudantes

regulares do Ensino Médio se encontra, é fundamental desse processo de socialização

e de enfrentamento às discriminações por raça e sexo que se sucedem na vida diária –

no ônibus, na rua, no primeiro trabalho, no cinema, no shopping-center, em casa. É o

momento importante da formação de identidade e, ao mesmo tempo, de tomada de consciência dos constrangimentos impostos pelo racismo institucional (no ambiente escolar e noutras instituições que as jovens passam a se relacionar ao se aproximar da vida adulta) e pelo machismo.

Ao mesmo tempo, a ausência de referência positiva na vida da criança e da família – condição muito comum nos grupos de onde se originam as principais protagonistas do filme documentário –, no material didático e mas também nos demais espaços mencionados, esgarça os fragmentos de identidade da criança negra. Esta, muitas

vezes chega à fase adulta com total rejeição à sua origem racial, trazendo-lhe prejuízo

à sua vida cotidiana.

Se a pessoa acumula na sua memória as referências positivas do seu povo, é natural

que venha à tona o sentimento de pertencimento como reforço à sua identidade racial.

O contrário é fácil de acontecer, se se alimenta uma memória pouco construtiva para

sua humanidade.

Genericamente, os principais personagens – a serem identificados no processo de pré- produção –, são adolescentes negras e pardas, estudantes ou não, que já sofreram discriminações e cujos depoimentos ajudam a tecer reflexões sobre os tipos de violência racial e de gênro, as formas de reagir a ele, suas razões de existir e suas caracterśiticas no Brasil. De forma mais específica, personagens com vivência nas religiões afro-brasileiras, em grupos folclóricos com conexões com a Umbanda e o Candomblé, ou que apresentem traços fisionômicos, vestuais e estéticos que destoem do padrão europeu adotado pelas classes médias e altas no Brasil, são preferenciais para a tomada dos depoimentos.

Mas também oferecem boa margem de argumentação adolescentes e mulheres negras em regime de proteção governamental contra violências sofridas e ameaças recebidas decorrentes de situações de vulnerabilidade social. O que é buscado nesses depoimentos é a relação causal na qual convergem a exclusão social decorrente da cor

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da pele e a fragilidade resultante da condição feminina. Nesses casos a captação das imagens garante a integridade das entrevistadas, haja vista que estão sob proteção de sua integridade física.

Que incidente ou evento essas personagens identificam como o primeiro ou mais impactante acontecimento que impede ou constrange sua forma de viver e que elas identificam como decorrente de “preconceito de cor”? Que obstáculos mais contundentes elas encontram no dia-a-dia e que são identificados com a articulação racismo/sexismo? Que estratégias essas jovens encontram para se desenvolver intelectualmente, afetivamente, esteticamente em meio a um conjunto de limitações impostas pela articulação entre racismo e machismo? Que mecanismos a escola pode oferecer para contribuir com esse processo, que na verdade se estende por toda a vida?

Uma das contribuições no sentido da reflexão que o documentário precisa trazer é explicitar a natureza do racismo brasileiro e sua articulação já centenária com as práticas sexistas. O que caracteriza o racismo brasileiro? Como ele se manifesta? Como lutar contra ele no dia a dia? Como reagir? A quem ele prejudica?

A história condição de subalternidade de mulheres negras tem suas origens mais remotas no Brasil na relação entre senhores e escravos e escravas que demarcou todo o período colonial e que se estendeu, re-elaborada, à República. O contexto dessa relação passou de um sistema formal de suporte das atividades econômicas e cotidianas da colônia portuguesa (a escravatura) a uma condição geral da sociedade em que a marginalização da população negra no período republicano é resultado da não integração completa e afirmativa dessa população à vida nacional. O “ser brasileiro”, a nacionalidade brasileira, foi imaginada pelas elites hegemônicas que conduziram a entrada do país na Modernidade, em relação ao modelo europeu.

 
 
 
 

Acima à esquerda imagem do trabalho no eito da cana, realizado por negros e mestiços por Lula Cardos Ayres. Uma comparação interessante, à direita, que revela a continuidade das relações em imagem produzida por Victor Frond.

Emerge o rechaço aos elementos (gestuais, estéticos, biotípicos, culturais) externos e esse ideal de nacionalidade. É o elemento heterofóbico onipresente nas relações raciais no Brasil que não somente exlui e subalterniza amplas parcelas da população negra, índia e mestiça. Esse elemento também forças as “pessoas de cor” a renegar sua encestralidade africana ou indígena; procurar formas de embranquecer; naturalizar exclusões.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SANTOS, Ângela Maria dos. Vozes e Silêncio do Cotidiano Escolar – relações raciais entre alunos negros e não-negros. (Coleção Educação e Relações Raciais,4), Cuiabá: EdUFMT,2007.

SANTOS, Gisele Aparecida dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que

naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo: Edc/FAPESP; Rio de janeiro: Pallas, 2002, p.

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SCHUMAHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico. Mulheres Negras do Brasil. Rio de Janeiro:

SENAC Nacional, 2007.

SILVA, Maria Aparecida. Mulheres Negras Adolescentes no Ensino Médio: Discriminação e Desafio. Dissertação de Mestrado (Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho Unesp/CAr) Araraquara-SP,2005.

SILVA JÚNIOR, Hédio. Discriminação racial nas escolas: entre as leis e as práticas sociais - Brasileira: UNESCO, 2002.

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(Org.).

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005.

MUNANGA,

Kabengele

Superando

o

racismo

na

11

Escola.

Ministério

da

Educação,

2.

Crescimento econômico e relações raciais (Título provisório)

Introdução Tendo em vista os sinais econômicos que vem sendo registrados através de índices de

empregabilidade, investimentos estatais e privados, atividade da indústria nacional e retomada de setores econômicos (a exemplo da construção naval) torna-se interessante tratar das conexões entre o conceito de desenvolvimento, civilização, cultura e as relações raciais no Brasil. Essas conexões permitem tratar das diferentes concepçes para 'desenvolvimento' – o ponto de vista dos povos e comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e de matriz africana, por um lado; e por outro lado, as concepções alimentadas pelas corporações transnacionais e pelos seguimentos político-econômicos liberais hegemônicos da sociedade.

O tema, que é muito amplo, dá margem para se explicitar as diferenças nos valores

civilizatórios que baseiam os dois conceitos de desenvolvimento e é essa a chave para um tratamento audiovisual de aspectos da história e da cultura africana e afro-brasileira, em sintonia

com a Lei № 10.639 que altera a Lei de Diretrizes e Bases de Educação. Ou seja, o tema permite um tratamento sobre aspectos da história e da cultura africana que permitem a tomada de conhecimento e a valorização

Justificativa

É possível afirmar que tanto o crescimento econômico quanto o desenvolvimento

econômico 1 , sob o prisma do neoliberalismo, têm como reflexo o aumento da acumulação e estimulado o aumento da exclusão social e racial graças a um discurso baseado no “mito do progresso” e da implementação de políticas que incentivaram o crescimento ilimitado e a qualquer custo, tendo como resultado o aumento das desigualdades raciais e de gênero. Baseada apenas na matriz mercantil, a lógica do crescimento acentuou a exclusão de

mulheres e homens negros, desde o período colonial até o Século XXI. Baseada na “extração ilimitada dos recursos naturais”, com uma economia exportadora, com os ciclos do açúcar, dos minérios e do café, a economia colonial era guiada por valores civilizatórios que justificavam uma apropriação ilimitada e extrativista da natureza, a expropriação de homens e mulheres negros e indígenas e dos conhecimentos, técnicas e tecnologias por estes produzidos. Esse modelo também logrou o apagamento de referências étnicas milenares e o re-arranjo de organizações sociais africanas à realidade que o tráfico e a escravatura impuseram aos milhares de homens e mulheres trazidos ao Novo Mundo, com efeitos às gerações de brasileiros que se sucederam desde o Século

XVI.

Como se sabe, os diversos extratos das sociedades africanas trazidos para o Brasil dominavam modelos tecnológicos e conhecimentos essenciais para a construção do país. Mineração, siderurgia, técnicas agrícolas e de construção civil, culinária foram conhecimentos que tornaram possível grandes plantações e sua exploração; a mineração intensiva; a construção de cidades; práticas médicas e alimentares tradicionais que garantiram e garantem até os dias de hoje a sobrevivência de extensa parcela da população brasileira, historicamente ignorada pelo Estado (SEPPIR, 2013). Esse acúmulo de experiências e conhecimentos é apropriado pela lógica mercantil ou invibilizado – a depender da conveniência político-econômica específica. No que se refere aos efeitos ambientais e sociais, o crescimento desordenado adotado no Brasil desde a década 1970 impôs o uso intensivo de agrotóxicos e adubos químicos, na mecanização intensiva, com a geração de ondas de imigração e adensamento urbano, no

1 Na análise a partir da crítica ao capitalismo, desenvolvida por vários autores, há um esvaziamento do termos 'desenvolvimeno', tomado inicialmente com referência a melhorias e otimização em vários campos da atividade humana: cultura, educaçao, economia, não se resumindo a esta última dimensão. O 'desenvolvimento' perssuporia alterações nas relaçoes sociais e sobretudo nos valores em que se baseiam as escolhas das sociedades.

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recrudescimento contínuo dos problemas agrários e na perda de territórios tradicionalmente ocupados por quilombolas e indígenas, cujos efeitos se somam aos problemas já mencionados anteriormente. Mesmo nas áreas urbanas (capitais e regiões metropolitanas), o processo de crescimento tem provocado ondas sucessivas de exclusão, desterritorialização e expulsão da população negra, parda, periférica e pauperizada para regiões carentes de equipamentos e serviços sociais e culturais. Por outro lado, comunidades tradicionais têm ancestralmente a terra e outros bens naturais como coletivos, espaços de manifestação da vida, da existência e, como tal, carregam todos os valores da cultura, da ancestralidade e da história (NOGUEIRA, 2013). Por isso, os consideram e não os mercantilizam, pois, “enquanto a sociedade ocidental capitalista virou as costas para a biodiversidade, considerando-a apenas mercadoria e matéria-prima – numa perversa cotinuidade desde o perído colonial –, povos tradicionais do terceiro mundo a conservaram dentro de sua cosmovisão integradora entre natureza e cultura” (SHIVA, 2001). Essa visão aponta para uma coexistência sustentável entre meio-ambiente e seres humanos. Entretanto, o avanço do agronegócio, das mineradoras e da especulação imobiliária sobre territórios nacionais ameaça a sobrevivência social, econômica e cultural de várias comunidades, numa continuidade, também perversa, do mecanismo de exclusão e aniquilamento implantado no Brasil no Século XVI. Tais modelos, e mesmo muitos projetos ambientais, são baseados numa visão dicotômica característica da cultura euro-ocidental e têm dificuldade de conceber a coexistência sustentável entre meio-ambiente e seres humanos. Nesse contexto, as religiões afro-brasileiras que se desenvolveram sob o desígnio da Diáspora Negra fornecem um interessante ponto de análise e interpretação da relação da sociedade contemporânea com os recursos naturais, pois elas formam uma reconstituição não apenas das religiões africanas, mas de muitos outros aspectos culturais da África original – e portanto dos modos com que as sociedades africanas retiravam seu sustento da Natureza. O percurso da formação econômica brasileira até o contexto atual, portanto, servem como pano de fundo para a narrativa da formação das tradições religiosas afro-brasileiras e, a partir destas, uma interpretação do formato geral com que o Brasil passou a integrar a modernidade Ocidental.

Concepção & Linguagem O filme documentário procura debater a formação de conceitos, contrapondo os valores civilizatórios compartilhados pelos diversos povos africanos trazidos na condição de escravos ao Brasil – especialmente os yoruba e banto – àqueles modelos que adquiriram predominância e hegemonia no projeto de modernidade implantado no Brasil. Essa contraposição é uma estratégia para a produção de material de caráter didático sobre a história e a cultura africana e afro-brasileira. Neste percurso, a ideia é que essa contraposição possa incentivar processos de reflexividade sobre o contexto atual de desenvolvimento e crescimento econômico nacional orientado por um olhar que valorize alguns pilares da cultura africana, e de sua relação com a natureza circundante provedora de recursos para a vida humana. É, também, uma estratégia que procura viabilizar a veiculação de discursos que dêem conta, a partir do olhar do afro-descendente alimentado por valores ancestrais e por sua cosmovisão correspondente, de uma realidade excludente que vem sendo gestada há quatro séculos. Incentivar processos de reflexividade sobre esse contexto implica em procurar entender de maneira crítica a agudização de processos de exclusão, pauperização e subordinação de amplas parcelas da população negra, mestiça e indígena decorrentes dos projetos de modernização implementados no Brasil. Se de tais contingentes populacionais e étnicos foram aproveitados técnicas e conhecimentos fundamentais desde o período colonial, nem sempre ou quase nunca foram seguidas as premissas de relacionamento mais sadio e integrado com os recursos da Natureza.

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Essa concepção geral também abre espaço para abordar a questão de diversidade. As formas de relacionamento com a natureza herdadas das tradições africanas servirão como um contraponto às contradições do processo desenvolvimentista ocidental, ao mesmo tempo em que deverá incentivar uma reflexão sobre valores e disposições de origem africana ainda hoje vivenciadas por comunidades afro-brasileiras e presentes nas culturas brasileiras. Assim, o documentário pode contribuir com a valorização dessa relação com a natureza por parte do público de estudantes do ensino de nível médio que temos como alvo. Por extensão, tal efeito se aplica também à valorização da diversidade cultural que forma o tecido social brasileiro a partir das referências africanas. Assim, a interpretação problematizadora que esse documentário se propõe abriga a noção de que a diversidade é uma fonte de valores, posturas, práticas e visões de mundo formadoras de identidade, valorizadoras de identidade. Se o Plano nacional de implementação das Diretrizes curriculares Nacionais para educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afrobrasileira e africana indica que a “formação deve habilitar à compreensão da dinâmica sociocultural da sociedade brasileira, visando a construção de representações sociais positivas que encarem as diferentes origens culturais de nossa população como um valor”, a corrente proposta de documentário procura contribuir também com a reflexão sobre os processos de modernização da sociedade brasileira e seus reflexos à população negra, pobre e marginalizada do país sobre a qual deitaram as consequências indesejadas do crescimento econômico. Em termos de linguagem, o documentário poderá usar de uma locução-guia, que apresente o problema e convide o telespectador a considerar os efeitos que o modelo predominante de exploração da natureza produziu. Essas janelas históricas serão escolhidas em função de sua capacidade de ilustrar o argumento principal do documentário. A tal locução-guia se somarão entrevistas com pesquisadores sociais (sociólogos, antropólogos, historiadores), intermediadas por imagens (ilustrações, pinturas e fotografias, além de vídeos) que dêem conta de apresentar o contexto geral do trabalho desenvolvido por negros escravizados, mestiços e homens livres; as formas de extração de bens naturais adotado no Brasil desde o Século XVI; os reflexos (para as comunidades negras) do modelo predominante de exploração e desevolvimento adotado no País. A relação com a natureza e os valores civilizatórios sob o ponto de vista da ancestralidade africana também precisam ser ilustrados imageticamente. Assim, o que temos são duas possíveis linhas narrativas convivendo e dialogando no documentário: a que é representada pela locução-guia já mencionada e aquela linha narrativa representada pelos depoimentos de pesquisadores, líderes sociais, população. Essa convivência é complementar no sentido de dar um corpo unificado ao documentário.

SINOPSE

Filme documentário que, considerando as contribuições das culturas étnicas africanas à à língua, a culinária, a música e artes diversas, além de valores sociais, na formação no Brasil , procura discutir a formação das tradições religiosas afro-brasileiras a partir dos efeitos da economia exploratória e extrativista européia do período colonial.

Considerando os procecessos de exclusão sobre a população negra e afro-descendente resultante desse histórico e também os efeitos sobre a natureza, essa reflexão serve ao propósito de contrapor os valores civilizatórios europeus adotados no Brasil aos valores civilizatórios compartilhados pelos homens e mulheres negros escravizados trazidos ao Brasil durante o período colonial.

Essa contraposição, por seu turno, é uma estratégia para tratar da história africana, dos usos e costumes dos povos vindos ao Brasil, de sua relação com os bens disponíveis na Natureza e das formas de seu uso comum, assim como explicitar como se deu a

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Diáspora Negra em território brasileiro e seus efeitos.

Há dois personagens principais: um Estudante (negro) do ensino médio estudando história e um professor de história. O desenvolvimento da narrativa em torno do eixo principal acontece a partir dos diálogos entre os dois. O aluno toma lições em sala sobre aspectos da história brasileira e faz questionamentos que permitem a “entrada em cena” do debate sobre os valores compartilhados pelos africanos. Embora a série de ações dramáticas entre professor e aluno seja central e aconteça no “tempo presente”, são várias as ações que se darão no “tempo passado”, aqueles correspondentes a momentos da história nacional que servem para ilustrar os efeitos dos ciclos econômicos sobre a formação das tradições religiosas afro-brasileira. Os locais onde acontecem essas ações – ilustradas por meio de fotos, pinturas, ilustrações, vídeos –, estão em sintonia com momentos cruciais da história nacional: 1) Pernambuco e o ciclo do açúcar; 2) Minas Gerais e os ciclos do Ouro e das pedras preciosas; 3) São Paulo e o ciclo do café.

ARGUMENTO

Brasil colônia – 1500 ~ 1800 Naquele enorme território por explorar, úmido e misterioso, selvagem e belo, fértil e promissor, em que a ninguém era dado saber seus limites, muita terra ainda haveria de ser lavrada, e tantas ainda seriam as colheitas, e os rios por mapear, e as cidades por erguer, e os novos animais a domar. As estradas, pontes, passeios, ainda não havia; assim como por construir as casas onde Deus se esconderia da luz do dia, e os palácios de onde os homens decidiriam os destinos do novo continente. E muitas eram as plantas desconhecidas e seus usos, e ignorados os sons da noite verdíssima, e as bestas livres que ela continha.

da noite verdíssima, e as bestas livres que ela continha. Foi ainda nos anos de 1500

Foi ainda nos anos de 1500 que a população africana escravizada passou a transferir para a missão exploratória e colonialista portuguesa recursos técnicos, habilidade e a inventividade na pesca, metalurgia, construção civil, medicina, entre outros campos do conhecimento. O arsenal científico do povo africano que chegou àquelas distantes e desconhecidas terras era parte do acúmulo de conhecimentos, experiências, descobertas e decantação de modelos de desenvolvimento civilizatório muito diferentes daqueles que viriam a predominar no Brasil.

É comum se pensar na África e nos povos que de lá vieram como um só. Mas dois grandes grupos ling sticos de africanos foram trazidos a essse novo mundo: os bantos e os sudaneses e eles eram muito variados. Para se ter uma ideia, os bantos, que vieram da África Meridional (usar mapa)

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eram povos que falam entre 700 e duas mil línguas. Os bantos vieram de terras contidas hoje em Moçambique, Malauí, Zimbábue, Angola, oeste de Zâmbia, Namíbia; Zaire, Moçambique, Congo, Cabinda, Tanzânia, Zanzibar , África do Sul e Botsuana. Hoje usa-se genericamente o termo angola para todos os bantos.

usa-se genericamente o termo angola para todos os bantos. Já sudaneses vieram das regiões que hoje
usa-se genericamente o termo angola para todos os bantos. Já sudaneses vieram das regiões que hoje
usa-se genericamente o termo angola para todos os bantos. Já sudaneses vieram das regiões que hoje

Já sudaneses vieram das regiões que hoje vão da Etiópia ao Chade e do sul do Egito a Uganda mais o norte da Tanzânia (usar mapa). Conhecemos os sudaneses pelos nomes genéricos de nagôs ou

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iorubás.

Os negros escravizados vinham de onde fosse mais fácil capturá-los e mais rentoso embarcá-los. Esse comércio dependia também das condições locais das populações nativas. As guerras e disputas entre tribos e etnias, manipuladas pela coroa portuguesa inicialmente, se refletia em prisioneiros de guerra que eram escravizados.

se refletia em prisioneiros de guerra que eram escravizados. Aprisionados ainda em terras africanas, os negros

Aprisionados ainda em terras africanas, os negros faziam longos trajetos por terra até portos mais seguros, principalmente quando o tráfico passou a ser proibido. E no transporte ao Brasil, as diferenças étnicas, linguísticas e culturais desses dierentes povos eram dispersos e apagados. Depois de chegar ao Brasil, as negras e negros de mesmas origens culturais eram separados. Ou por política da Coroa portuguesa, com medo de sublevações; ou por efeito da venda separada, o que facilitou a desagregação e a dispersão dos grupos que eventualmente poderiam ter uma mesma origem.

separada, o que facilitou a desagregação e a dispersão dos grupos que eventualmente poderiam ter uma

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O efeito disso foi não ser possível ao africano manter língua e cultura originais, obrigado a viver numa miscelânea lingüística e cultural que, além de tudo, estava submetida pela cultura brasileira em formação, de língua e costumes de tradição portuguesa.

Como a economia brasileira colonial e depois imperial vai se alterando ao longo dos séculos, a demanda por escravos também vai mudando geográfica e economicamente. Assim, até a metade do século XVIII, grande parte da população negra importada destina-se aos engenhos de açúcar de Pernambuco e da Bahia.

CULTIVO DA CANA

parte da população negra importada destina-se aos engenhos de açúcar de Pernambuco e da Bahia. CULTIVO
parte da população negra importada destina-se aos engenhos de açúcar de Pernambuco e da Bahia. CULTIVO

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MINERAÇÃO

MINERAÇÃO Os primeiros africanos escravizados a chegarem ao Brasil eram bantos, seguidos mais tarde pelos sudaneses,

Os primeiros africanos escravizados a chegarem ao Brasil eram bantos, seguidos mais tarde pelos sudaneses, cujo tráfico se acentuou a partir da queda do império de Oió, destruído pelos fons do Daomé e depois dominados pelos haussás.

Os bantos foram mais usados nas atividades agrícolas e de mineração. Já as atividades urbanas, mais tardias e concentradas nas grandes capitais da costa, eram desenvolvidas pelos sudaneses. Isso se deve às mudanças de fluxo da origem do tráfico na África e em função do momento da economia colonial.

Ao longo da história agrícola colonial, o crescimento das atividades agrícolas correspondeu sempre a um maior afluxo de escravos. Foram a mão-de-obra dos campos de fumo e cacau da Bahia e Sergipe, além da cana-de-açúcar; no Rio de Janeiro foram destinados aos plantios de cana e mais tarde de café; em Pernambuco, Alagoas e Paraíba eram indispensáveis aos cultivos de cana e algodão; no Maranhão e Pará trabalharam no algodão; em São Paulo, na cana e café. Em Minas, além da mineração, trabalharam, mais tarde, nas plantações de café, também cultivado no Espírito Santo. Também estavam presentes na agricultura do Rio Grande do Sul e na mineração de Goiás e Mato Grosso. Em todos os lugares foram os responsáveis também pelos serviços domésticos, organizados no complexo casa-grande e senzala.

os lugares foram os responsáveis também pelos serviços domésticos, organizados no complexo casa-grande e senzala. 19

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À medida que cresciam as cidades, sobretudo as litorâneas, já na virada para o século XIX, desenvolveu-se um mercado de serviços urbanos desempenhado pelos africanos escravos e baseado numa nova forma de espoliação: os escravos ofereciam suas habilidades profissionais a quem delas precisava, recebendo pagamento em dinheiro, destinado ao senhor do escravo, no todo ou em grande parte. Eram os “escravos de ganho”, aos quais se juntavam os negros libertos nas ocupações de carregadores, pequenos mercadores, barqueiros de cabotagem, produtores de víveres, artesãos de todas as artes, amas e empregados domésticos, além de serviços de enfermagem, encarregados de serviços públicos, etc.

as artes, amas e empregados domésticos, além de serviços de enfermagem, encarregados de serviços públicos, etc.
as artes, amas e empregados domésticos, além de serviços de enfermagem, encarregados de serviços públicos, etc.

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as artes, amas e empregados domésticos, além de serviços de enfermagem, encarregados de serviços públicos, etc.

Século XIX Por volta de 1850, coincidiu com uma nova etapa de desenvolvimento da economia. A pujança das plantações de café nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo continuava a demandar mão-de-obra escrava. Um lucrativo comercio interno de escravos emergiu, sobretudo pelas restrições ao comércio em águas internacionais sob pressão diplomática e militar inglesas. Assim, nos 30 anos anteriores à promulgação da Lei Áurea, regiões cujas economias declinavam revendiam escravos e afrodescendentes para outras regiões cujas economias floresciam.

Esse rearranjo geográfico implicou, evidentemente, num novo emaranhado de origens, identidades e culturas, contribuindo para a formação de um amálgama cultural de caráter, digamos, nacional, em que o negro vai ficando cada vez mais distante da África e mais perto do Brasil. As inúmeras variantes culturais locais, tanto no caso dos bantos como dos iorubás ou nagôs, não sobreviveram como unidades autônomas e muitas foram totalmente perdidas no Brasil. Diferenças específicas foram apagadas, amalgamando-se em grupos genéricos conhecidos como jejes, nagôs, angola, etc.

Com o fim da escravidão, parece que a população negra, na tentativa de se integrar na sociedade brasileira, não como africanos, mas como brasileiros, teria sido levado a se desinteressar de suas próprias origens, deixando-as definitivamente para trás, esquecidas, como mais adiante aconteceria, depois de algumas gerações, com o imigrante europeu também desejoso de se tornar brasileiro, como se o passado fosse um entrave a uma nova vida, uma memória ruim, lembrança desnecessária.

O Brasil já era então um país de brancos e negros, não se sabe bem de onde vindos, que são apenas brasileiros, como os mulatos, que representam bem essa mistura.

como os mulatos, que representam bem essa mistura. Entre os africanos nascidos no Brasil há mais
como os mulatos, que representam bem essa mistura. Entre os africanos nascidos no Brasil há mais

Entre os africanos nascidos no Brasil há mais tempo, entretanto, já poucos falavam sua língua e mantinham costumes originais. No interior e nas cidades para onde a importação de africanos era mais antiga, menos vestígios culturais permaneciam intocados. Os casamentos entre nações, a miscigenação com o branco e com o índio, a adoção da cultura nacional promoveram com intensidade o apagamento das diferenças étnicas e culturais africanas. Quanto mais distante no

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tempo estamos, mais intenso terá sido o processo de absorção do africano à cultura brasileira em formação, menos marcas culturais específicas terão sobrado.

No Brasil os efeitos das prioridades da economia, dos ciclos produtivos, levou ao apagamento dos rastros étnicos das nações que vieram às terras do Novo Mundo. Os casamentos entre nações, a miscigenação com o branco e com o índio, a adoção da cultura nacional também intensificaram o apagamento das diferentes culturas africanas.

A cultura africana que assim vai se diluindo na formação da cultura nacional corresponde a um

vastíssimo elenco de itens que abrangem a língua, a culinária, a música e artes diversas, além de

valores sociais, representações míticas e concepções religiosas. [imagem]

Quanto mais distante no tempo estamos, mais intenso terá sido o processo de absorção do africano à cultura brasileira em formação, menos marcas culturais específicas terão sobrado. O efeito disso foi a dissolução de estruturas familiares e societárias ancestrais.

Nesse processo os cultos religiosos que se foram formando reproduziram não somente as religiões

africanas, mas também outros aspectos da cultura da África. Os cultos afro-brasileiros se tornaram

as principais referências desses aspectos das sociedades deixadas para trás.

Primeiro, refez-se no plano da religião a comunidade africana perdida na Diáspora, criando-se através do grupo religioso relações de hierarquia, subordinação e lealdade baseadas nos padrões familiares e de parentesco existentes na África, fazendo-se da família-de-santo, a comunidade de culto, uma espécie de miniatura simbólica da família iorubá.

ROGER BASTIDE:

as civilizações se desligaram das etnias que eram suas portadoras, para viverem uma vida própria, podendo mesmo atrair para o seu seio não somente mulatos e mestiços de índios, mas ainda europeus

Como essas civilizações lêem e interpretam os modos de desenvolvimento da civilização européia e principalmente os efeitos da Diáspora que resultaram na formação do Brasil contemporâneo? Em sua perspectiva, o que é desenvolvimento? O que é necessário para uma sociedade evoluir e se desenvolver? Qual a relação com a Natureza que isso requer?

As misturas étnicas se generalizaram em todas as partes da América, formando-se o tipo “negro”, que apagou todas as origens. Por outro lado as nações, como tradições culturais, foram preservadas na forma de candomblé no Brasil, santeria em Cuba e vodus no Haiti, cada grupo religioso compreendendo variantes rituais autodesignadas pelos nomes de antigas etnias africanas. Assim, na Bahia, temos os candomblés nagôs ou iorubás (ketu ou queto, ijexá e efã), os bantos (angola, congo e cabinda), os ewe-fons (jejes ou jejes-mahis). Em Pernambuco, os xangôs de nação nagô-egbá e os de nação angola. No Maranhão, o tambor-de-mina das nações mina-jeje e mina-nagô. No Rio Grande do Sul o batuque oió-ijexá, também chamado de batuque de nação.

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Sugestões de discos/músicas: História do Brasil - Composição de Lamartine Babo, foi gravada originalmente na
Sugestões de discos/músicas: História do Brasil - Composição de Lamartine Babo, foi gravada originalmente na
Sugestões de discos/músicas: História do Brasil - Composição de Lamartine Babo, foi gravada originalmente na

Sugestões de discos/músicas:

História do Brasil

- Composição de Lamartine Babo, foi gravada

originalmente na RCA Victor em 1933, por Almirante acompanhado pelo Diabos do Céu e lançada em discos 78 rpm (L217). Nos versos finais, Lamartine faz referência a dois grandes ídolos do público na época: a fadista portuguesa Severa e o cavalo Mossoró, ganhador do I Grande Prêmio de Hipismo do Brasil em 1933.

No mesmo ano, Mossoró venceu o Grande Prêmio Cruzeiro do Sul, no mesmo. 'Paraty', na segunda estrofe, refere-se à cachaça. No sentido da narrativa histórica mencionada acima, a música é um resumo bem humorado de um percurso que remete direta ou indiretamente

a personagens importantes da memócia coletiva

nacional: o Senhor (Ioiô), a Senhora (Iaiá), o

índio, o negro (a feijoada) e o português: na figura imaginada do descobridor, Cabral.

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Lenda do Barbado

- Composta em 1958 por Beduino Filho, a música

foi gravada por Marita Luizi (D5282). Menciona o aparecimento de um homem negro encontrado na mata morto por estrangulamento. A letra, forte, é adornada por uma melodia muito atraente e aponta para o aspecto fisicamente violento – já que de violência simbólica algumas dessas canções são pródigas – do racismo no Brasil, que vitima de forma intensa homens jovens e negros brasileiros. A referência à barba talvez se explique pelo fato de que os fios de cabelo do corpo ainda crescem durante um certo tempo após a morte do indivíduo.

Jardim da Infância

- Nessa marcha de carnaval, composta por Nelson

Ferreira, ainda em 1923 e presente no disco Carnaval – sua história, sua glória – Vol. 10 (D217), também confluem alguns elementos até aqui assinalados. O “Nós” do Jardim da Infância parece apontar para um entendimento da população nacional, de uma nação jovem que sai em festa, uma festa única como a própria nação que se está a construir.

Brasil de caboclo

-

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS NOGUEIRA, Silas. Territórios negros tradicionais. Texto produzido para o Seminário Temático Territórios Negros: Desenvolvimento e Enfrentamento ao Racismo, em preparação à III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. 2013. Não publicado.

SHIVA, Vandana. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Petrópolis: Vozes,

2011.

BAIARDI, Amilcar. Elinor Ostrom, a premiação da visão unificada das ciências humanas. Cad. CRH [online]. 2011, vol.24, n.61, pp. 203-216. ISSN 0103-4979.

OSTROM, E. HESS, C. (Orgs). Understanding Knowledge as commons - From Theory to Practice . Cambridge e London: The MIT Press , 2007.

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3.

O jovem candomblé (título provisório) Introdução

A iniciação de crianças em religiões afro-brasileiras é um tema delicado que recebe pontos

de vista diferentes e mesmo contrários até entre seguidores da religião. Entretanto, muitas crianças

seguem sendo inciadas e sua presença nas escolas é uma realidade que não pode ser ignorada. Da mesma forma não se deve ignorar a discriminação que sofrem os estudantes por suas vestes, enfeites, colares de contas, eventualmente por possuírem cicatrizes obtidas no processo de iniciação, ou simplesmente por se saber serem seguidores de um dos ramos das religiões afro- brasileiras.

Justificativa Como aponta a pesquisadora Maristela Guedes (2005), nas comunidades de terreiros existem inúmeras crianças e adolescentes. Elas ou pertencem à família do pai ou mãe-de-santo ou estão ligadas aos filhos e filhas-de-santo dos terreiros. Assim como os adultos, essas crianças são iniciadas no Candomblé, desempenham funções específicas, recebem cargos na hierarquia dos terreiros e manifestam orgulho de sua religião. Depois de um longo aprendizado, estão preparadas para receberem os Orixás. Na escola, porém, essas crianças e adolescentes são invisibilizadas e silenciadas. Em muitos casos a discriminação vem (ainda) sobretudo do ensino forçado da religião católica; ou do preconceito e falta de informação de professores, que estigmatizam a criança e o adolescente seguidor de religião afro-brasileira. Esses fatores se somam na construção de um imaginário em que o Brasil fulgura como país de uma sociedade homogênea, onde as “diferenças” são prontamente estranhadas. Acrescente-se a isso o agravante de não haver quase nenhuma bibliografia específica sobre a iniciação de crianças no Candomblé e em outras religiões afro- brasileiras que ajude o professor mais interessado e sensível a respeito. O Candomblé é uma religião familiar. Como nos informa Prandi (1996), tomando o candomblé Ketu, que serve de modelo para os demais, refez-se no plano da religião a comunidade africana perdida na Diáspora, criando-se através do grupo religioso relações de hierarquia, subordinação e lealdade baseadas nos padrões familiares e de parentesco existentes na África. A família-de-santo, a comunidade de culto, se converte no Brasil, numa espécie de miniatura simbólica da família iorubá. Nesse sentido, as crianças que professam a fé nos Orixás em geral integram comunidades familiares que vivem o dia a dia do culto. Apesar disso, a discriminação na escola subtrae instrumentos de etnicidade, autonomização social e cidadania, negando-lhes a negritude e a indianidade, enquanto impõem-lhes a branquidade. Com isso, diminui-se-lhes a auto-estima e a autoconfiança na medida em que consolidam um autoconceito negativo produzido pela na sociedade brasileira de uma forma geral. Sendo assim, a produção de um documentário que trate da questão de jovens (crianças, pré- adolescentes e adolescentes) iniciados ou não, mas cujas famílias são Candomblé, permite a introdução e o início de um aprendizado sobre as religiões afro-brasileiras; a incorporação de discursos afirmativos; o fortalecimento de sentimentos de pertença e de identidade já alimentados pela vivência comunitária fornecida pela comunidade de culto. O filme-documentário permite, sobretudo, a desmistificação de preconceitos reproduzidos no ambiente escolar com a consequente valorização de elementos da cultura afrobrasileira e da histíria africana.

Concepção & Linguagem

O filme documentário é preferencialmente direcionado aos estudantes de Ensino Médio e

procura desmistificar as práticas das religiões afro-brasileiras, tendo como objetivo eliminar a discriminação, incentivar relatos afirmativos, fortalecer o sentimento de pertencimento e de

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identidade. Na busca por essa desmistificação, será interessante o uso de relatos de crianças e adolescentes que seguem o Candomblé. A ideia com isso é uma aproximação entre o público formado por estudantes que não são dessa religião com um universo que eventualmente lhes é apresentado a partir de posturas discriminatórias geradas no ambiente familiar, religioso (igrejas), escola, comunidade de bairro, nos meios de comunicação de massa, entre outras. Aos relatos pessoais, se deve somar uma locução que guia a atenção da audiência, associada a imagens que ajudem a contar como o culto aos Orixás no Brasil passou por diversas fases: a proibição, no periodo colonial; sua associação aos santos católicos como estratégia para continuidade dos cultos; a perseguição policial no Estado Novo e depois; a relativa liberalidade por parte do Poder Público na década de 1950 e a importância que passou a incorporar nas pautas do Movimento Negro mais recentemente. Essa locução, longe de ser professoral, é de uma criança que narra, a partir de uma experiência própria de iniciada, a história de seus antepassados e de como sua crença se transformou no Brasil a partir da herança africana trazida dos homens e mulheres negros escravizados. Com isso, há basicamente duas linhas narrativas paralelas: a dos depoimentos de crianças e seus pais que seguem o Candomblé, histórias reais ambientadas no tempo e no espaço, e a de uma narrativa na voz de uma criança que resgata a história da crença afro-brasileira e de seus antepassados. Nesta, se mapeia o contexto histórico da formação, do cerco e discriminação que as religioes afrobrasileiras em geral sofreram. Um elemento a mais pontua o filme-documentário:

narrativas míticas do Candomblé que servem como contraponto poético.

SINOPSE

O documentário Jovem Candomblé procura desmistificar as imagens estereotipadas e

discriminatórias associadas ao culto das religiões afro-brasileiras e, em especial, à iniciação de crianças e adolescentes. A narrativa é focada em crianças e adolescentes que, por meio de seus

depoimentos, e também por meio de uma narrativa-guia, esclarece o que significa ser integrante de uma comunidade de culto afro-brasileiro, o percurso histórico dessas crenças no Brasil e as

dificuldades enfrentadas nesse processo. Os depoimentos são tomados contemporaneamente, e são intermediadas por um relato-guia que dá conta da trajetória dos cultos afro-brasileiros recorrendo- se para isso em imagens de acervo (retratos, desenhos, fotografias) e também arquivos musicais

que mostram como e porque os cultos afro-brasileiros foram alvo de políticas segregacionistas.

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ARGUMENTO

“O jovem candomblé”

“Na minha escola nós aprendemos o significado da bandeira do nosso Brasil: o retângulo verde simboliza nossas matas e riquezas florestais, o losango amarelo, nosso ouro e nossas riquezas minerais, o círculo azul estrelado, nosso céu, onde brilha o Cruzeiro do Sul, indicando que nascemos abençoados por Deus, e a faixa branca simboliza o que somos: um povo ordeiro em progresso.

“A gente também aprende que somos um povo novo, formado pela mistura de três raças valorosas:

os corajosos índios, os estóicos negros e os bravos e sentimentais lusitanos.

os estóicos negros e os bravos e sentimentais lusitanos. “Quem não sabe que da mestiçagem nasceu

“Quem não sabe que da mestiçagem nasceu o samba, onde a gente encontra a energia índia, o ritmo negro e a melancolia portuguesa? Quem não sabe que a mestiçagem é responsável por nossa ginga, inconfundível marca dos campeões mundiais de futebol? E ainda, há quem não saiba que, por sermos mestiços desconhecemos preconceito de raça, cor, credo e classe?

“Mas eu queria lembrar de meus antepassados e de como no nosso Brasil existe sim preconceito de cor. Primeiro eu vou me apresentar e depois falo de meus antepassados. Eu sou filha de brasileiros, seguidores de uma religião chamada Candomblé, que foi passada a meus pais pelos meus avós e aos meus avós pelos pais de meus avós. Eu e muitos amigos seguimos a mesma religião.

a meus pais pelos meus avós e aos meus avós pelos pais de meus avós. Eu

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“Na nossa religião somos como uma grande família.

“Na nossa religião somos como uma grande família. “Eu e meus amigos de mesma idade que

“Eu e meus amigos de mesma idade que eu participamos das celebrações aos nossos Orixás, que são como forças vivas da Natureza.

aos nossos Orixás, que são como forças vivas da Natureza. “Assim como noutras religiões, aprendemos a

“Assim como noutras religiões, aprendemos a respeitar os mais velhos, a valorizar a vida, a ter obrigações com nossas crenças, a ter uma mente e um corpo sadios, a trabalhar, a ensinar e proteger os mais jovens.

“Assim como noutras religiões, o Candomblé tem locais, instrumentos e adereços sagrados, cânticos, datas festivas e sagradas, liturgia e locais especiais para o culto.

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instrumentos e adereços sagrados, cânticos, datas festivas e sagradas, liturgia e locais especiais para o culto.

“Mas nossa religião é muito diferente das religiões cristãs, como a Católica e a Protestante. Cultivamos os Orixás, que são forças da natureza, expressões de um ser divino e infinito chamado Olorum.

“Apesar de ser muito bonita e ter muitos seguidores no Brasil, o Candomblé sofre muitos

preconceitos. É como se tivéssemos de ser todos iguais, com as mesmas roupas, as mesmas

religiões, a mesma cor da pele diferenças.

Mas o que nosso país tem de melhor são justamente nossas

O Candomblé no Brasil “Essa história começou há muito tempo, quando os europeus desembarcaram aqui. Aliás, é hora de começar a falar um pouco de meus antepassados e da história deles no Brasil.

“Meus antepassados vieram da África, onde havia muitas tribos diferentes, com línguas diferentes, religiões diferentes e muitos hábitos diferentes entre si. Aliás, a África não é um país como muitos acreditam. É um enorme e rico continente com muitos países diferentes entre si.

e rico continente com muitos países diferentes entre si. “O maior número de africanos é de

“O maior número de africanos é de duas regiões: das terras que hoje vão da Etiópia ao Chade e do sul do Egito a Uganda, mais o norte da Tanzânia vieram os povos que chamamos de Sudaneses. A maior parte dos sudaneses que abasteceram de escravos o Brasil, vieram pelo Golfo da Guiné. No Brasil, conhecemos pelos nomes genéricos de nagôs ou iorubás, povos de língua e cultura iorubá. A outra região fornecedora de escravos para o Brasil é a África Meridional, de onde vieram os bantos, povos que moravam em terras que vão do Atlântico ao Índico até o cabo da Boa Esperança.

[MAPA, com animação da movimentação de navios para o Brasil]

“Os principais criadores dessa religião foram os negros das nações iorubás ou nagôs e os das nações fons ou jejes.

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“Esses homens e mulheres, meus antepassados, vinham na condição de escravos. Primeiro para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar, em Pernambuco, Alagoas, Bahia. Mas depois também foram aproveitados na colheita do café, na exploração de pedras preciosas.

na colheita do café, na exploração de pedras preciosas. “Trouxeram para o Brasil muitas lembranças vivas

“Trouxeram para o Brasil muitas lembranças vivas de África, entre elas o culto aos Orixás que é o nome que damos a forças e energias da natureza: a energia do vento, do trovão, das águas das cachoeiras, dos rios, das matas, das águas do mar. Isso são os Orixás, a quem rendemos graças e oferendas. Eles estão associados à estrutura da natureza, do cosmo.

“As crenças dos meus antepassados foram aos poucos formando as religiões afro-brasileiras, como o Candomblé. Eles se apegaram a elas como forma também de resistências às condições de escravos que viviam.

“Durante muito tempo foi proibido cultivar esses seres mágicos, por isso meus antepassados encontraram uma forma de manter suas crenças vivas: encontraram as semelhanças entre seus Orixás e os santos católicos. A isso chamamos sincretismo.

“Assim, desde o início, o Candomblé e outros cultos de origem africana no Brasil sempre estiverem associados a resistência à opressão.

“Essa opressão sempre esteve ligada a uma ideia do Brasil: a de um país que precisava se modernizar, se parecer com a Europa, e para isso o ideal é que fôssemos todos os brasileiros cada vez mais branquinhos, cultivando uma religião só, sem a variedade que nos forma.

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[UM CONTO SOBRE OS ORIXÁS]

Lenda da Criação

No começo, o mundo era todo pantanoso e cheio dágua. Um lugar inóspito, sem nenhuma serventia. Acima dele havia

o Céu, onde viviam Olorum, o Deus supremo, e todos os orixás. Que às vezes desciam para brincar nos pântanos

insalubres. Desciam por teias de aranha pendurada no vazio. Ainda não havia terra firme, nem o homem existia. Olorun criou um ser, a partir do ar (que havia no início dos tempos) e das primeiras águas. Esse ser encantado, que

era todo branco e muito poderoso, foi chamado Oxalá. Logo em seguida, criou um outro orixá que possuía o mesmo poder do primeiro, dando-lhe o nome de Nanan. Os dois nasceram da vontade de Olorun de criar o universo. Oxalá passou a representar a essência masculina de todos os seres, tornando-se o lado direito de Olorun. Nanan, por sua vez, teria a essência feminina, e representaria o lado esquerdo. Outros orixás também foram criados, formando-se um verdadeiro exército a serviço de Olorun, cada um com uma função determinada para executar os planos divinos. Exú foi o terceiro elemento criado, para ser o elo de ligação entre todos os orixás, e deles com Olorun. Tornou-se costume prestar-lhe homenagens antes de qualquer outro, pois é ele quem leva as mensagens e carrega os ebós. Olorun confiou

à Oxalá a missão de criar a Terra, investindo-o de toda a sabedoria e poderes necessários para o sucesso dessa

importante tarefa. Deu a ele uma cabaça contendo todo axé que seria utilizado. Oxalá, orgulhoso por ter recebido tamanha honraria, achou desnecessário fazer as oferendas a Exú. Exú, vendo que Oxalá partira sem lhe fazer as oferendas, previu que a missão não seria cumprida, pois, mesmo com a cabaça e toda a força do mundo, sem a sua ajuda não conseguiria chegar ao local indicado por Olorun. A caminhada era longa e difícil, e Oxalá começou a sentir sede, mas, devido à importância de sua missão, não podia se dar ao luxo de parar para beber água. Não aceitou nada do que lhe foi oferecido, nem mesmo quando passou perto de um rio interrompeu a sua jornada. Mais à frente, encontrou uma aldeia, onde lhe ofereceram leite de cabra para saciar sua sede, que também foi recusado. Todos os caminhos pareciam iguais e, depois de andar por muito tempo, sentiu-se perdido. De repente, ele avistou uma palmeira muito frondosa, logo à sua frente, Oxalá, já delirando de tanta sede, atingiu o tronco da palmeira com seu cajado, sorvendo todo o líquido que saía de suas entranhas (era vinho de palma). Embriagado pela bebida, desmaiou ali mesmo, ficando desacordado por muito tempo. Exú avisou Nanan que Oxalá não havia feito as oferendas propiciatórias, por isso não terminaria sua tarefa. Ela, agindo por contra própria, resolveu consultar um babalawô para realizar devidamente as oferendas. O sacerdote enumerou uma série de coisas que ela deveria oferecer, entre elas um camaleão, uma pomba, uma galinha com cinco dedos e uma corrente com nove elos. Exú aceitou tudo, mas só ficou com a corrente, devolvendo o restante à Nanan, pois ela iria precisar mais tarde. Outros sacrifícios foram realizados, até que Olorun a chamou para procurar Oxalá, que havia esquecido o saco da criação com o qual criaria a Terra. Nanan, após terminar suas oferendas, foi atrás de Oxalá, encontrando-o desacordado próximo ao local onde deveria chegar. Ao saber que Oxalá havia falhado em sua missão, Olorun ordenou que a própria Nanan prosseguisse naquela tarefa com a ajuda de todos os orixás. E assim foi feito. Nanan pegou o saco da criação e o entregou à pomba, para que voasse em círculo. A galinha com cinco dedos foi solta, para espalhar aquela imensa quantidade de terra, e, finalmente, o camaleão arrastou-se vagarosamente, para compactá-la e torná-la firme. Quando Oxalá acordou, viu que a Terra já havia sido criada, e não o fora por ele. Desesperado, correu até Olorun, que o advertiu duramente por não ter reverenciado Exú antes de partir, julgando-se superior a ele. Oxalá, arrependido, implorou perdão. Olorun, sempre magnânimo, deu-lhe uma nova e importantíssima tarefa, que seria a de criar todos os seres que habitariam a Terra. Desta vez ele não poderia falhar! Usando a mesma lama que criou a Terra, Oxalá modelou todos os seres, e, insuflando-lhes seu hálito sagrado, deu-lhes a vida.

Desta forma, Nanan e Oxalá desempenharam tarefas igualmente importantes, juntamente com a valiosa ajuda de todos os orixás, que possibilitaram o surgimento deste novo e maravilhoso mundo em que vivemos

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Mais tarde as cidades cresceram e atraíram muitas atividades.

tarde as cidades cresceram e atraíram muitas atividades. Aí então o número de meus antepassados trabalhando

Aí então o número de meus antepassados trabalhando nas cidades aumentou. Mas, enquanto os primeiros africanos escravizados eram bantos, os que vieram para as cidades eram na sua maioria sudaneses. E à medida que o século XVIII ia acabando, os formatos da escravidão iam variando. Havia, por exemplo, os escravos de ganho, que faziam diversas tarefas nas cidades, e os pagamentos eram reveertidos na parte ou no todo para seus proprietários.

reveertidos na parte ou no todo para seus proprietários. O Estado Novo e o ideal de

O Estado Novo e o ideal de Nação brasileira

O Estado Novo e o ideal de Nação brasileira “A perseguição aos Candomblés continuou depois que

“A perseguição aos Candomblés continuou depois que deixamos de ser Colônia, depois de proibido o tráfico e depois que a escravidão foi extinta.

“Assim foi também, durante o Estado Novo, como são chamados os anos do governo do presidente Getúlio Vargas de 1937 a 1945. Esse período é muito importante para se entender as razões da discriminação aos povos de terreiro e à população negra e mestiça de uma forma geral.

se entender as razões da discriminação aos povos de terreiro e à população negra e mestiça

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“Naquela época os Candomblés e outras religiões afro-brasileiras foram muito perseguidos. Ao mesmo tempo, nesse período a ideia de um país que se diferenciava por sua mestiçagem ganhou forma e fama através de canções, por exemplo, e de grandes personagens do futebol, como Leônidas da Silva. Sermos misturados era uma solução para os desafios da integração e de construção duma nova civilização.

[canção Inspiração/ Bruno Marnet]

“Infelizmente, a repressão sobre os Candomblés era rigorosa também sobre a população negra e mestiça. Na verdade, a repressão era antes sobre a população negra e tinha como efeito os constrangimentos que os povos de terreiro sofriam.

“A figura do malandro, por exemplo, que entra na nossa memória como um negro ou mestiço e que reunia características específicas como a simpatia, a sorte, o poder de sedução, a malemolência, a ginga, a esperteza, entre outras, circula nas ruas e passa a ocupar uma posição desconfortável na vida social de um país que procura se inserir internacionalmente como República “civilizada”.

“Não é à toa que as muitas canções que faziam referência a esse personagem popular foram censuradas. E que o próprio governo orientasse autores a evitar usar o tema do malandro e ressaltar as virtudes do trabalho.

[MÚSICAS/Acervo: Quem malandro sou eu?/ Ernâni Filho Mulata de ouro / Samba de véio da Ilha do Massangano Carnavá tá aí / Alfredo Vianna e Josué de Barros]

“As religiões afro-brasileiras, com suas enormes diferenças em relação às crenças católicas, assim como os malandros, não se encaixavam na nacionalidade imaginada para o Brasil porque fugiam ao padrão de religião, raça, etnicidade e língua aceitável ao país. “Quem imaginou isso?

e língua aceitável ao país. “Quem imaginou isso? XXX [ UM CONTO SOBRE OS ORIXÁS ]

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[UM CONTO SOBRE OS ORIXÁS]

O nascimento de Iemanjá

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Obatalá, o Céu, casou-se com Odudua, a Terra. È desse encontro que se iniciam as peripécias dos deuses africanos. Dessa união nasceram Aganju, a Terra, e Iemanjá (yeye ma ajá = mãe cujos filhos são peixes), a Água. Iemanjá desposa o seu irmão Aganju e tem um filho, Orungã. De seus seios brotaram duas correntes de água que se reúnem mais adiante até formar um grande lago. E do ventre desmesurado, que se rompe, nascem os seguintes deuses: Dadá, deus dos vegetais; Xango, deus do trovão; Ogum, deus do ferro e da guerra; Olokum, deus do mar; Oloxá, deusa dos lagos; Oiá, deusa do rio Niger; Oxum, deusa do rio Oxum; Obá, deusa do rio Obá; Orixá Okô, deusa da agricultura; Oxóssi, deus dos caçadores; Oké, deus dos montes; Ajê Xaluga, deus da riqueza; Xapanã (Shankpannã), deus da varíola; Orum, o Sol; Oxu, a Lua. Durante os milhões de anos que se seguiram, antigas e novas divindades foram unindo-se à famosa Orixá das águas, como foi o caso de Omolu, que era filho de Nanã, mas foi criado por Iemanjá. Antes disso, Iemanjá dedicava-se à criação de peixes e ornamentos aquáticos, vivendo em um rio que levava seu nome e banhava as terras da nação de Egbá. Quando convocada pelos soberanos, Iemanjá foi até o rio Ogun e de lá partiu para o centro de Aiê para receber seu emblema de autoridade: o abebé (leque prateado em forma de peixe com o cabo a partir da cauda), uma

insígnia real que lhe conferiu amplo poder de atuar sobre todos os rios, mares, e oceanos e também dos leitos onde as massas de águas se assentam e se acomodam. Obatalá e Odudua, seus pais, estavam presentes no cerimonial e orgulhosos pela força e vigor da filha, ofereceram para a nova Majestade das Águas, uma jóia de significativo valor: a Lua, um corpo celeste de existência solitária que buscava companhia. Agradecida aos pais, Iemanjá nunca mais retirou de seu dedo mínimo o mágico e resplandecente adorno de quatro faces. A Lua, por sua vez, adorou a companhia real,

mas continuou seu caminho, ora crescente, ora minguante

mas sempre cheia de amor para ofertar. A bondosa mãe

, Iemanjá, adorava dar presentes e ofereceu para Oiá o rio Níger com sua embocadura de nove vertentes; para Oxum, dona das minas de ouro, deu o rio Oxum; para Ogum o direito de fazer encantamentos em todas as praias, rios e lagos, apelidando-o de Ogum-Beira-mar, Ogum-Sete-ondas entre outros. Muitos foram os lagos e rios presenteados pela mãe Iemanjá a seus filhos, mas quanto mais ofertava, mais recebia de volta.

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Nos dias de hoje “Existem muitas histórias que mostram, desde que nosso Brasil era uma colônia até os nossos dias, como a intolerância religiosa negou o direito de meus antepassados a proferirem sua fé.

“São casos como o da quebra dos Xangôs, que aconteceu no dia 12 de março do ano de 1912, em Maceió. Naquela época por questões políticas terreiros foram invadidos e objetos sagrados foram

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retirados e queimados em praça pública; pais e mães de santo foram espancados publicamente.

pais e mães de santo foram espancados publicamente. [ MÚSICA/acervo: Lenda do Barbado/ Beduino Filho Negro

[MÚSICA/acervo: Lenda do Barbado/ Beduino Filho Negro velho/ Zequinha e Ado Benatti]

“Essa intolerância ainda está viva infelizmente no dia a dia, na escola por exemplo quando meus irmãos na fé são constrangidos por nossas roupas, colares ou mesmo por usar palavras que são de nossa religião. Precisamos combater e não aceitar isso.

“Todos esses exemplos são ruins porque a força de nosso Brasil está nas diferentes formas de sermos, nos comunicamos e nos expressamos, inclusive religiosamente.

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[UM CONTO SOBRE OS ORIXÁS]

Quando se enganou a Morte

Na velha aldeia de Ifá tudo transcorria normalmente. Todos faziam seu trabalho, as lavouras davam seus bons frutos, os animais procriavam, crianças nasciam fortes e saudáveis. Mas um dia a Morte resolveu concentrar ali sua colheita. Aí

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tudo começou a dar errado. As lavouras ficaram inférteis, as fontes e correntes de água secaram, o gado e tudo o todos os bichos de criação definharam. Já não havia o que comer e beber. No desespero da difícil sobrevivência, as pessoas se agrediam umas às outras, ninguém se entendia, tudo virava uma guerra. As pessoas começaram a morrer aos montes. Instalada ali no povoado, a Morte vivia rondando todos, especialmente as pessoas fracas, velhas e doentes. A Morte roubava essas pessoas e as levava para o outro mundo, longe da família e dos amigos, tirando suas vidas. Na aldeia morria-se de todas as causas possíveis: de doença, de velhice, e até mesmo ao nascer. Morria-se afogado, envenenado, enfeitiçado. Morria-se por causa de acidentes, maus-tratos e violência. Ou ainda de fome, principalmente de fome. Mas também de tristeza, de saudade e até de amor. A Morte estava fazendo o seu grande banquete. Havia luto em todas as casas. Todas as famílias choravam seus mortos. Com toda essa situação o rei mandou muitos emissários falarem com a malvada, mas a Morte sempre respondia que não fazia acordos, que ia destruir um por um, sem piedade. Se alguém fosse forte o suficiente para enfrentá-la, que tentasse, mas seu fim seria ainda muito mais sofrido e penoso. Ela mandou dizer ao rei, por fim: “Para não dizerem que sou muito rabugenta, até concordo em dar uma chance à aldeia, basta que uma pessoa me obrigue a fazer o que não quero. Se alguém aqui me fizer agir contra a minha vontade, eu irei embora, mas só vou dar essa oportunidade a uma única pessoa. Não vou dar nem a duas, nem a três.”

E foi-se embora dali, saboreando antecipadamente mais uma vitória. Mas quem se atreveria a enfrentar a Morte? Quem,

se os mais bravos guerreiros estavam mortos ou ardiam de febre em suas últimas horas de vida? Quem, se os mais astutos diplomatas há muito tinham partido? Foi então que dois meninos, os Ibejis, os irmãos gêmeos Taió e Caiandê,

que os fofoqueiros da cidade diziam ser filhos de Ifá, resolveram pregar uma peça na horrenda criatura. Antes que toda

a aldeia fosse completamente dizimada, eles resolveram dar um basta aos ataques da Morte. Decidiram os Ibejis:

“Vamos dar um chega-pra-lá nessa fedorenta figura.”

Os meninos pegaram o tambor mágico, que tocavam como ninguém, e saíram à procura da Morte. Não foi difícil achá-

la numa estrada próxima, por onde ela perambulava em busca de mais vítimas. Sua presença era anunciada, do alto, por

um bando de urubus que sobrevoavam a incrível peçonhenta. E o cheiro, ah, o cheiro! A fedentina que a Morte produzia

à sua volta faria vomitar até uma estatueta de madeira. Os meninos se esconderam numa moita e, tapando o nariz com

um lenço, esperaram que ela se aproximasse. Não tardou e a Morte foi chegando. Os irmãos tremeram da cabeça aos pés. Ainda escondidos na moita, só de olhar para ela sentiram como os pêlos dos seus braços se arrepiavam. Mas podia-

se dizer que a Morte estava feliz e contente. Ela estava até cantando! Pudera, tendo ceifado tantas vidas e tendo tantas outras para extinguir. Nesse momento, numa curva do caminho, enquanto um dos irmãos ficava escondido, o outro saltou do mato para a estrada, a poucos passos da Morte. Saltou com o seu tambor mágico, que tocava sem cessar, com muito ritmo. Tocava com toda a sua arte, todo o seu vigor. Tocava com determinação e alegria. Tocava bem como nunca tinha tocado antes. A Morte se encantou com o ritmo do menino. Com seu passo trôpego, ensaiou uma dança sem graça.

E lá foi ela, alegre como ninguém, dançando atrás do menino e de seu tambor. O espetáculo era grotesco, a dança da

Morte era, no mínimo, patética, lá ia o menino tocador e atrás ia a Morte. Passou-se uma hora, passou-se outra e mais outra. O menino não fazia nenhuma pausa e a Morte começou a se cansar. O sol já ia alto, os dois seguiam pela estrada

afora, e o som do tambor não parava. O dia deu lugar à noite e o tambor não parava de tocar. E assim ia a coisa, madrugada adentro. O menino tocava, a Morte dançava. O menino ia na frente, sempre ligeiro e folgazão. A Morte seguia atrás, exausta, não agüentando mais.“Pára de tocar, menino, vamos descansar um pouco”, ela disse mais de uma vez. Ele não parava. “Pára essa porcaria de tambor, moleque, ou vai me pagar com a vida”, ela ameaçou mais de uma vez. E ele não parava. “Para que eu não agüento mais”, ela implorava. E ele não parava. Taió e Caiandê eram gêmeos idênticos. Ninguém sabia diferenciar um do outro, muito menos a Morte, que sempre foi cega e burra. Pois bem, o moleque que a Morte via tocando na estrada sem parar não era sempre o mesmo menino. Uma hora tocava Taió, enquanto Caiandê seguia por dentro do mato. Outra hora, quando Taió estava cansado, Caiandê, aproveitando uma curva da estrada, substituía o irmão no tambor. Os gêmeos se revezavam e a música não parava nunca, não parava nem por um minuto sequer, mas a Morte, coitada, não tinha substituto, não podia parar, nem descansar, nem um minutinho só. Ela já nem respirava: “Para, para, menino maldito.” Mas o menino não parava. E assim foi, por dias e dias. Até os urubus já tinham deixado de acompanhar a Morte, preferindo pousar na copa das árvores secas. E o tambor sem parar em nenhum momento, uma hora Taió, outra hora Caiandê. Por fim, não agüentando mais, a aparição gritou: “Para com esse tambor maldito e eu faço tudo o que me pedires.” O menino virou-se para trás e disse: “Pois então vá embora e deixe a minha aldeia em paz.” “Aceito”, berrou.

O menino parou de tocar e ouviu a Morte dizer: “Ah! que fracasso o meu. Ser vencida por um simples pirralho. ”Então

ela virou-se e foi embora. Foi para longe do povoado, mas foi se lastimado: “Eu me odeio. Eu me odeio.” Tocando e dançando, os gêmeos voltaram para a aldeia para dar a boa notícia. Foram recebidos de braços abertos. Todos queriam abraçá-los e beijá-los. Em pouco tempo a vida normal voltou a reinar no povoado, a saúde retornou às casas e a alegria reapareceu nas ruas. Muitas homenagens foram feitas aos valentes Ibejis. Mesmo depois de transcorrido certo tempo, sempre que Taió e Caiandê passavam na direção do mercado, havia alguém que comentava: “Olha os meninos gêmeos que nos salvaram.” E mais alguém complementava: “Que a lembrança de sua valentia nunca se apague de nossa memória.” Ao que alguém acrescentava: “Mas eles não são a cara do Adivinho?”

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PRANDI, Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo: a Velha Magia na Metrópole Nova. São Paulo, Hucitec e Edusp, 1991. Herdeiras do Axé: Sociologia das Religiões Afro-brasileiras. São Paulo, Hucitec, 1996.

De africano a afro-brasileiro. REVISTA USP, São Paulo, n.46, p. 52-65, junho/agosto 2000 GUEDES, Maristela - Educação em terreiros e como a escola se relaciona com crianças que praticam candomblé. Tese de Doutorado, PUC-SP. 2005

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