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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

Centro de Estudos Gerais

Instituto de Ciências Humanas e Filosofia

Departamento de Ciência Política

Programa de Pós-Graduação em Estudos


Estratégicos da Defesa e da Segurança - PPGEST

Trabalho Final Estudos Estratégicos: Elementos de teoria e Análise.

Por: Marcelo Rocha Silva

Trabalho entregue ao Prof. Severino


Cabral, por exigência da disciplina
Estudos Estratégicos: Elementos de
teoria e Análise.

Niterói, 14 de setembro de 2009.


Este trabalho de conclusão da disciplina Estudos Estratégicos: Elementos de
teoria e Análise tem como objetivo responder, basicamente, a três questões:

I - Qual o objeto dos estudos estratégicos? Qual a perspectiva que deve prevalecer
que deve prevalecer em relação a eles? Em que sentido é, ou não, a guerra o objeto por
excelência dos estudos estratégicos? II - “Relações Internacionais e Estudos estratégicos
são dois campos de conhecimentos distintos e autônomos que se dedicam à análise de
objetos distintos”. III - A mistura entre a vontade popular e de autoridades políticas de que
as FFAA intervenham na “guerra urbana” brasileira aparentemente existe, contudo o papel
constitucional dessa instituição vem ainda sendo debatido: defesa de perigos externos?
Somente em casos específicos para a defesa interna?

Essas mesmas questões foram suscitadas pelo Professor Eurico de Lima


Figueiredo, quando este lecionou a disciplina citada anteriormente no Programa de
Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança na
Universidade Federal Fluminense, em 2008. Assim, pretendemos nessa
oportunidade refletir sobre essas importantes questões que baseiam esse curso.

Não é nosso objetivo traçar uma longa genealogia do conhecimento a


respeito dos Estudos Estratégicos (E.E.) contemporâneos. De uma maneira geral,
desejamos refletir a respeito a questão do seu objeto de estudo e sobre a sua
perspectiva que deve prevalecer para o esforço acadêmico/científico. Em seguida
tentaremos analisar as relações entre as Relações Internacionais e os Estudos
Estratégicos em suas distâncias e aproximações.

Os Estudos Estratégicos como campo de relevantes pesquisas científicas


(res)surgiram no século XX pelas incontestáveis marcas deixadas pelas guerras de
amplitude mundial (as guerras de 1919 a 1949). Dessa forma, as catástrofes e
perdas materiais e imateriais geradas pelo conflito criaram a necessidade de se
entender as dimensões e regras do fenômeno bélico nunca visto em tais
proporções.

Enquanto todas as guerras européias, entre 1802 e 1913, haviam produzido


o total de 4,5 milhões de mortos, a Primeira Guerra Mundial foi responsável por
cerca de 10 milhões de homens mortos, a maioria com menos de 40 anos de idade
(em idade produtiva); 10 milhões de refugiados; 5 milhões de viúvas; 9 milhões de
órfãos. Somente na famosa batalha do Somme, franceses, ingleses e alemães
perderam juntos, quase um milhão de homens. No plano material, a destruição
resultou, em 1920, numa significativa redução da produção industrial (de 1/4), em
relação a 1913.(1)

Nesse ínterim, Colin Gray2 escreveu: “os Estudos Estratégicos seriam um


desdobramento natural e necessário do empreendimento da cientificização da
guerra durante a Segunda Guerra Mundial, em particular das diversas formas de
otimização combatente e estratégica que associadas à Pesquisa Operacional”. Esta
experiência influenciou as forças armadas do mundo todo pensar na existência de
competências civis relevantes para seus propósitos e atividades, motivando e
adotando um convívio e acesso crescente com as competências da sociedade.

Então, foi necessário formar grupos de especialistas e pensadores que


dessem conta de entender situações das guerras travadas no passado/presente, de
maneira a contribuir ou evitar situações do uso da força. E também, explicar as
relações (de força, poder e cooperação, etc.) entre estados contemporâneos e
outros grupos e suas relações e seus respectivos interesses.

Além da fundamental participação da sociedade nos Estudos Estratégicos


havia a necessidade de os militares de conscientizarem de seu serviço para com os
civis. Para Edward Earle, a necessária subordinação dos militares aos civis ia além
do entendimento de que a guerra era importante demais para ser abandonada aos

11 http://www.cedep.ifch.ufrgs.br/Textos_Elet/pdf/WilliamsRR.II.pdf acessado em 05 de agosto de 2009.


GONÇALVES, Williams. Relações Internacionais. P. 3
2² GRAY, Colin S. apud JUNIOR, Domício Proença. Os estudos estratégicos como base reflexiva da defesa
nacional. P.33
generais, que sendo razoáveis nem mesmo desejariam tal incumbência. A
separação entre militares e civis não era apenas artificial, ela contrariava os
princípios da democracia3, e academicamente inaceitável.

Para tanto, tornou-se necessário a construção de uma linha teórica que


unisse interesses civis e militares e que pudesse adequar a necessidade na nova
“ciência” à realidade do mundo criado no pós-guerra, o mundo bipolarizado das
relações da guerra fria. As ameaças de novos conflitos na era nuclear deram a
justificativa para estudos de tamanha amplitude, num mundo governado por
interesses difusos e quase constantemente ambíguos.

Assim, naquele momento, pensar estrategicamente seria uma maneira de


sobreviver no século XX, possibilitando aos Estados manterem-se em condições de
negociar seus interesses no cenário internacional, inclusive suas demandas
projetadas ao futuro.

Mais recentemente a produção acadêmica que ocupa dos estudos


estratégicos propõe que a disciplina se defina à análise do papel do poder militar no
contexto da política internacional4, tanto em sentido estrito (forças armadas,
operações, logística), quanto em sentido mais amplo (atuação do poder militar face
à ação econômica e diplomática, tendo em vista a realização dos objetivos do
Estado), e também com o sentido mais genérico de análise conjugada do
entendimento da organização do poder militar e do poder de Estado.

Também tem relevância a perspectiva teórica que atenta para o papel que os
estados nacionais expressam na construção e utilização de suas políticas
(segurança e defesa). Assim como é notável o argumento que propõe a entender o
papel do poder militar na política internacional, concernente ao alcance de metas
dos Estados5. Trata-se de uma assertiva Clausewitziana decisiva para as potências
centrais e pouco valorizadas pelas que giram em suas órbitas.

3³ Ibidem. p.30
4 FIGUEIREDO, Eurico de Lima. Notas sobre os Estudos Estratégicos: O estado-da-arte na área.
5 FIGUEIREDO, Eurico de Lima. Op cit.
No entanto, dizer que a guerra é o objeto por excelência dos estudos
estratégico, poderia diminuir sua capacidade de atuação, seria negligenciar outras
formas de entendimento dos relacionamentos entre os estados nacionais - o que se
pode confundir com o objeto das Relações Internacionais -, mas relevante para os
Estudos Estratégicos. Seria omitir estudos a respeito de cultura, estudos históricos,
antropológicos, sociológicos, etc. que contribuem para o conhecimento de
processos que vão além do bélico, ou nele está inserido.

Para Baylis, estratégia engloba mais do que somente o estudo de guerras e


campanhas militares. Estratégia é a aplicação do poder militar para atingir objetivos
políticos, ou mais especificamente, a teoria da aplicação e prática do uso, e da
ameaça do uso da força, organizada para propósitos políticos6.

Contudo, não é o estudo meramente factual/ “acontecimental” da guerra que


estamos nos referindo, mas sim de um estudo complexo dos fatores que a envolve.

Destarte, seria esquecer o papel da diplomacia, das relações comerciais,


enfim das infinitas relações estabelecidas entre os grupos de maneira não-bélica
que ocupam os estudos estratégicos sem tocar de maneira determinística o assunto
“Guerra”. Contudo, pela gravidade e pelo seu histórico de continuidades durante os
séculos, tornou o estudo do fenômeno fundamental.

De acordo com Domício Proença Junior (7), “os Estudos Estratégicos têm por
objeto o estudo do emprego dos meios de força do Estado”, desde as forças
armadas até as polícias, para propósitos politicamente determinados. Em termos
estruturais, eles correspondem a abrangente vínculo interdisciplinar, com
contribuições das mais diversas ciências sociais e exatas – em suas vertentes
teórica e aplicada – e do estudo da dinâmica política; por isto mesmo, os Estudos
Estratégicos distinguem-se de todos estes outros campos do conhecimento.

Desta forma, os Estudos Estratégicos buscariam entender, analisar e explicar


o conjunto do conhecimento e das proposições humanas sobre os conflitos, assim

6 BAYLIS, Jonh; Wirtz, J. Et All. Introduction. In: Strategy in the Conteporary World (An Introduction to
Strategic Studies). Oxford University Press, 2002. P.3
7 JUNIOR, Domício Proença. Guia de Estudos Estratégicos. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.p.9.
como a evolução das motivações e meios de conflitos potenciais ou concretos. Para
isso, formulam e interpretam teorias que estabelecem um conjunto lógico ou sistema
de proposições sustentáveis ou plausíveis, com validade e aceitação
contextualizadas, que refletem a dinâmica interativa entre os conflitos e as
sociedades nas quais estes têm lugar.

Ainda segundo Domício Proença Júnior (8), os Estudos Estratégicos são


definidos por um conjunto de temas centrais tratados de uma maneira específica.
Em termos gerais, dizem respeito à discussão independente, distinta da expressa
nas políticas das agências governamentais formalmente responsáveis pela defesa
nacional e diplomacia, e ações militares, e ações constabulares e policiais, sobre o
uso da força, na forma de iniciativas e ações militares, diplomáticas, constabulares
e policiais.

Em outras vias, destaca-se que o pensamento estratégico deve estar atento


ao sistema mundial em que está socialmente inserido, ora em movimento de
integração, ora em processo contrário. O próprio sistema de pensamento recebe
influência desses processos, refletindo assim a inserção do próprio país em que é
produzido. Ou seja, como qualquer outro sistema de pensamento, o estratégico
sofre influências da sociedade em que está inserido. Por isso a necessidade de um
pensamento específico para o Brasil, sem se esquecer das contribuições do
pensamento estrangeiro.

Enfim, pensar estrategicamente exige considerações de várias dimensões:


num sentido micro/interno, o pensamento se volta para o estudo das forças armadas
e seu universo de atuação (observações internas, relações entre e instituição militar
com a sociedade, assuntos operacionais, as dinâmicas internas das corporações,
tecnologias e técnicas, etc.) (9); num sentido maior/externo, pesquisas que tragam
as comparações entre o uso (ou insinuação do uso) do poder e da força militar em
relação aos correspondentes de outras áreas como é a economia e diplomacia, por
exemplo.

8 Ibid, p.19.
9 FIGUEIREDO, Eurico de Lima. Op cit.
Necessariamente teríamos conclusões que auxiliariam na formatação de
políticas de Estado que reflitam o uso dos meios violentos com finalidades advindos
do plano político, em termos endógenos e exógenos.

As investigações estratégicas pretendem, então, contribuir para a edificação


de políticas de Estado, não só a partir de conceitos como dissuasão, defesa e
segurança, mas também a partir do exame das capacidades estatais que se
expressam na forma de políticas de defesa. Nos países onde são dispersos os
estudos estratégicos, contrariando a importância que eles devem ter, diminui-se a
capacidade de enfrentamento nacional aos inevitáveis desafios que irrompem no
contexto da sociedade internacionalizada.

Em suma, qualquer que seja a evolução da “arte da guerra”, decorrente das


mudanças do quadro mundial delineado no limiar do século XXI, o papel universal e
perene das Forças Armadas continua imutável - dissuadir agressões (estratégia de
defesa preventiva) e preservar a soberania nacional, e os estudos estratégicos
refletem isso.
II

A disciplina Relações Internacionais enquanto disciplina acadêmica


apresenta uma gama variada de interpretações, que partem de uma teoria que
fundamenta seu modo de refletir, assim se diferenciando de outras. Para efeito
destas linhas não recorreremos à longa genealogia do conhecimento sobre os
debates teóricos das R.I., mas apresentaremos em linhas gerais os conceitos dessa
ciência.

Phillipe Braillard e Mohamma-Reza Djalili, afirmam que “as relações


internacionais podem ser definidas como o conjunto de relações e comunicações
que os grupos sociais estabelecem através das fronteiras.”10

Michael Nicholson diz que as relações internacionais são: “relacionamentos e


interações que não podem ser observados exclusivamente no contexto de um
Estado. Estritamente, relações internacionais estuda interações sociais em
contextos onde não existe poder soberano para intermediar e que está fora de
qualquer jurisdição governamental”11.

Daniel Colard, por sua vez, afirma que “o estudo das relações internacionais
engloba as relações pacíficas ou belicosas entre Estados, o papel das organizações
internacionais, a influência das forças transnacionais e o conjunto das trocas ou das
atividades que cruzam as fronteiras dos Estados.”12

Assim, de modo estrito, o campo das relações internacionais não se atem aos
relacionamentos entre aqueles governos do mundo, como por exemplo, aqueles que
são Estados membro da ONU. Mas esses relacionamentos não podem ser
entendidos isoladamente. Eles estão fortemente conectados com outros atores
(como as organizações internacionais, corporações multinacionais, e indivíduos);
com outras estruturas sociais (incluindo economia, cultura e política doméstica); e
com as influências históricas e geográficas não determinísticas, mas relevantes.
10GONÇALVES, Williams. Relações Internacionais. P. 5
11 Ibidem, p. 5-6.
12 Ibidem, p.6.
Segundo Williams Gonçalves existe nessa disciplina uma ambigüidade. A
duplicidade é que as Relações Internacionais estudam as relações internacionais.
Isto é, a disciplina e a “realidade” buscada têm o mesmo nome. Para contornar essa
ambigüidade e, dessa forma, possibilitar o entendimento do discurso, os estudiosos
convencionaram diferenciar o nome da disciplina do nome do objeto mediante o uso
de iniciais maiúsculas para a primeira (Relações Internacionais) e de iniciais
minúsculas para o objeto do conhecimento (relações internacionais).

Como ocorre em todas as demais Ciências Sociais, parte dos estudiosos das
Relações Internacionais está permanentemente envolvida na reflexão
epistemológica sobre a definição do seu objeto de estudo, num exercício
absolutamente necessário, uma vez que a realidade está em permanente mutação,
conduzindo as mudanças de pensamento, ângulo ou enfoque.

As relações internacionais, na verdade, sempre foram estudadas. Melhor


dizendo, desde que o sistema europeu de Estados formou-se, a partir da Paz de
Westphalia (1648)13, estadistas e intelectuais em geral passaram a se dedicar à
reflexão sobre os fenômenos da paz e da guerra entre os Estados.

Um marco temporal preciso é difícil de estabelecer, mas somente depois da


primeira guerra mundial se tornou notório a existência dessa linha de pensamento
(e sua respectiva e representativa disciplina), até então estudada pelo Direito
Internacional, a Diplomacia e a História Diplomática (áreas consideradas
ultrapassadas por não produzirem naquele contexto respostas que entendessem as
novas realidades). Não se trata de uma inovação do século XX, mas sim seu
esforço pela sistematização foi novo.

Os Estudos Estratégicos enfocam também as relações de forças entre


Estados, não só em tempos de guerra, mensurando as expressões da força em
parâmetros militares/bélicos. Porque a insinuação do uso da força acontece a todo
momento e os Estados vivem em contínua disputa por representatividade e maior
capacidade de sobrevivência, competição, etc. Nesse ínterim, estratégia seria a
aplicação do poder militar para atingir objetivos políticos, ou mais especificamente,

13GONÇALVES, Williams. Relações Internacionais. p.12-13


a teoria da aplicação e prática do uso, e da ameaça do uso, da força organizada
para propósitos políticos14.

Em suma, se nos detivermos nas comparações das aproximações e


distâncias entre os Estudos Estratégicos e as Relações Internacionais, isso não
caberia nessas páginas. Tentamos então apresentar de maneira muito simplória as
duas disciplinas para avaliá-las. Concorda-se com John Baylis na afirmativa de que
os Estudos Estratégicos estão contidos num grupo/campo de estudo maior que são
as Relações Internacionais. Contudo, não se confundem por já terem, ao longo do
século vinte fincados suas bases e premissas teóricas.

III

A mistura entre a vontade popular e de autoridades políticas de que as FFAA


intervenham na “guerra urbana” brasileira aparentemente existe, contudo o papel
constitucional dessa instituição vem ainda sendo debatido: defesa de perigos
externos? somente em casos específicos para a defesa interna?

O caso brasileiro de relacionamento entre civis e militares se torna de difícil


compreensão se ainda relacionarmos a influência tem que a memória das décadas
de Regime Autoritário. Ainda há certa desconfiança quanto ao uso das FFAA
armadas muito próximas à sua própria população.

Ao que parece as questões sociais brasileiras ainda não resolvidas, ou mal


resolvidas, dão maior tempero à violência cotidiana. Várias vezes na história do
Brasil se pensou na utilização das Forças Armadas para resolver problemas sociais
históricos. Como na Proclamação da República para resolver a instabilidade e a
crise de legitimidade do Império (1889) 15, a instalação do Regime Militar (1964), e a
14 BAYLIS. Op cit. P.3
15 CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo, Cia
utilização de militares em funções e situações que as polícias deveriam estar
capacitadas e prontas para atuar: manifestações civis pacíficas ou violentas,
combate ao crime entre e intra fronteiras e/ou tráfico nas favelas ou garantia da lei e
da ordem no período eleitoral, etc.

Dos militares ouvimos tanto que estão prontos para servirem a nação em
todos os momentos e situações, quanto que não são preparados e não tem a função
de intervir em defesa interna. Nesse caso, a duvida é perigosa, é necessário definir.

A respeito da questão da “defesa interna” os anos pós regime autoritário e


pré Constituinte são exemplares (1986-1988)16. Em casos de manifestações
grevistas e das manifestações populares se requeria e se utilizava do Exército. E
muitas vezes este esteve presente, para o azar dos manifestantes e também para
essa Instituição, que sofreu riscos em sua imagem. A violência desproporcional
mostrou o despreparo para se lidar com aquelas situações (17).

No momento da redemocratização, indagava-se ao Presidente José Sarney


e seus assessores, aos chefes dos Estado- Maior das Forças Armadas (EMFA) qual
seria a futura função das FFAA na nova Carta (1988) que estava por vir, já que a
situação vivida exigia mudanças. Assim, em meio às incertezas do “por vir” dizia-se
que a manutenção do papel constitucional seria o melhor para a nação (se o
Exército não fizesse quem o faria?). Os Comandantes das Forças, General
Leônidas Pires, Brigadeiro Moreira Lima e Almirante Henrique Sabóia, pouco
divergiram, na verdade tiveram um discurso uníssono quando confirmaram as
intenções de manutenção das funções das FFAA (Garantia da Lei e da Ordem -
GLO)18. Ou seja, manteria o dever de defesa às ameaças internas - o que não se
confundiria contra o povo.

das Letras, 1987.


16 Uma breve análise dos jornais de maior circulação da época, “O Estado de São Paulo” e a “Folha de São
Paulo”, mostra o quão complicado era lidar com a situação de ter que deixar o Exército tratar das questões
civis.
17 É preciso dizer que o povo não era tratado como inimigo.
18 Pode-se definir como função das FFAA: “ defesa da Pátria e a garantia dos poderes constitucionais” artigo
142 da Constituição brasileira.
Recentemente, o mal estar causado pela declaração do General Augusto
Heleno de que a Amazônia estaria sofrendo com a falta da presença do Estado
brasileiro revela a pouca consciência e participação efetiva que os políticos e o povo
brasileiros tem pelo problema da Defesa e Segurança Nacionais. Este caso mostra
uma área sensível em que é quase indiscutível a noção de que as Forças devem
atuar, pela própria falta de recursos que os órgãos responsáveis para tal função
vivenciam. Caso que ultrapassa a simples segurança e vigilância, pois as FFAA
atuam na Amazônia (e no território nacional) em infinitas funções. Enfim, é
conhecido que a função de segurança pública e policiamento não é função das
FFAA.

Haveria ainda a hipótese o uso no policiamento, entre outros casos, diante


de revoltas, rebeliões, levantes, motins, insurgências e guerras civis. Nestes
contextos, entretanto, é raro que se questione seu uso no território do próprio país e
sobre a própria população de onde elas se originam.

As primeiras polícias surgiram de destacamentos transferidos dos exércitos,


destacamentos de cavalarias-de-carabina ou pistolas19.

Comumente, efetivos treinados exclusivamente no uso do máximo da força


para sobrepujar a resistência dos seus oponentes na guerra são mal preparados
quanto ao uso moderado da força para produzir alternativas viáveis de obediência na
paz. Acima de tudo, são efetivos despreparados para realizar uma conciliação quando
a negociação for a melhor alternativa e para moderar o seu uso da força se
necessitam tomar decisões imediatas, quando, então, podem utilizar a violência
desproporcionalmente.

Quando se confrontam com a tarefa policial, as FFAA se apóiam em


construções do seu senso comum profissional sobre o que é ou o que deve ser o
policiamento. Estas não são necessariamente convergentes com as expectativas da
sociedade sobre o que é a polícia. Assim, essa dissonância sumariza os receios do
uso das Forças Armadas no policiamento. Sem preparo prévio para o policiamento,

19MUNIZ, Jacqueline de Oliveira; JÚNIOR, Domício Proença. Forças armadas e policiamento. Revista
Brasileira de Segurança Pública. Ano 1, Edição 1, 2007. P. 50.
elas podem produzir decisões, soluções ou usos da força inapropriados. Isso pode
provocar estragos a imagem da Instituição difíceis de reverter.

É por isso que os desvios de funções das FFAA poderia se fazer “sempre que
necessário”, e principalmente em duas ocasiões: ou se prepara e faz a passagem
temporária das Forças Armadas pela tarefa policial, ou a sua conversão em polícia,
preservando outras pessoas como combatentes. Uma e outra ajudam a preservar as
Forças Armadas, afastando-as do contexto e da tentação da “tomada do poder”, pelo
menos por este caminho e do uso excessivo da violência.

É diante disso que se pode concluir sobre o que são as conseqüências


esperadas do uso das Forças Armadas no policiamento. Ou elas se tornam polícia -
com as leis e a sociedade dando respaldo, na medida em que aprendem o seu novo
e diferente ofício; ou perdem sua capacidade bélica porque, e na medida em que,
executam um novo ofício que tem aspectos que contradizem sua destinação, gerando
enorme embaraço e frustração a todos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAYLIS, Jonh; Wirtz, J. Et All. Introduction. In: Strategy in the Conteporary World (An
Introduction to Strategic Studies). Oxford University Press, 2002.

CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que


não foi. São Paulo, Cia das Letras, 1987.

CARVALHO, L. P. Macedo.O Papel das Forças Armadas: reflexões sobre política de


defesa. http://www.reservaer.com.br/est-militares/papaeldasFFAA.html acessado em
19 de agosto de 2008.

CLAUSEWITZ, Claus von. Da Guerra. São Paulo, Martins Fontes, 2003.

CONSTITUIÇÃO DA REPUBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Título V - Da Defesa do


Estado e das Instituições Democráticas. Cap. II - Das Forças Armadas (arts. 142).
FIGUEIREDO, Eurico de Lima - “Relações Internacionais e Estudos Estratégicos:
como esses conceitos se complementam? Texto apresentado no IV Encontro da
ABCP, PUC/RJ, Julho de 2004.

_________________. Notas sobre os Estudos Estratégicos: O estado-da-arte na


área.(mimeo inédito).

GONÇALVES, Williams. Relações Internacionais.

MUNIZ, Jacqueline de Oliveira; JÚNIOR, Domício Proença. Forças armadas e


policiamento.Revista Brasileira de Segurança Pública. Ano 1, Edição 1, 2007.

JUNIOR, Domício Proença & DUARTE, Érico Esteves. Os estudos estratégicos como
base reflexiva da defesa nacional. Rev. bras. polít. int., ene./jun. 2007, vol.50, no.1,
p.29-46. http://www.scielo.br/pdf/rbpi/v50n1/a02v50n1.pdf (acessado em 05 de
agosto de 2008).

JUNIOR, Domício Proença. Guia de Estudos Estratégicos. Rio de janeiro: Jorge


Zahar Ed., 1999. DA