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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

HISTÓRIA DA FILOSOFIA II - FILOSOFIA MEDIEVAL

2013/2 – ATIVIDADE DE RECUPERAÇÃO

Aluno: Márcio de Azeredo Pereira

1. Visto que dizemos de modo impróprio que há três tempos, como é possível redefiní-los segundo Agostinho?

Agostinho parte do princípio de que, ao pensar no passado, vê “suas imagens no presente” e igualmente, ao projetar um futuro, pode somente experimentar tais

“premeditações” no presente. Assim, “se o futuro e o passado existem, [

que estejam, não existem nem como futuro, nem como passado, mas apenas como presente”. Agostinho propõe, então, a redefinição dos tempos passado, presente e futuro como “presente do passado”, “presente do presente” e “presente do futuro”, respectivamente.

onde quer

]

2. Quais quatro interpretações da Idade Média o autor de “O (pre)conceito de Idade Média” cita? Caracterize-as brevemente:

Hilário Franco Jr., em seu livro “A Idade Média – O nascimento do Ocidente”, descreve quatro interpretações comuns sobre o período tradicionalmente chamado de Idade Média:

1. Interpretação do Renascimento / Iluminismo: caracteriza-se pela acepção da Idade Média como “Idade das Trevas”, que se opunha à então nova era moderna do saber, das “Luzes”. Nesta comparação, a língua do período medieval era considerada um latim “bárbaro”, enquanto sua arte era tida como “grosseira” (o nome “gótico”, atribuído à arte medieval, foi dado por Rafael Sanzio e era empregado, então, como sinônimo de “grosseiro”). Outro ponto de crítica relevante era a hegemonia do clero e da nobreza então vigente, que contrastava com o domínio burguês nascente na Era Moderna. Emblematicamente, o nome dado ao período imediatamente posterior à Idade Média por esta historiografia foi o de “Renascimento”, acentuando a acepção do medievo como um tempo de interrupção do progresso humano.

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2. Interpretação Romântica: Enquanto movimento de reação ao racionalismo moderno, o Romantismo do século XIX inverteu a valoração sobre o período medieval. A crítica ao racionalismo, motivada pela constatação de seu papel nas grandes guerras européias, bem como a necessidade de resgate dos nacionalismos, levou os Românticos a reler o período medieval enquanto um período de maior integridade moral e humana, simbolizados em valores como a fé, a autoridade e a tradição. Ao mesmo tempo, identificava-se no medievo uma maior conexão com as sensações, os sonhos e as paixões humanas. Para o autor, no entanto, mesmo a exaltação romântica do período medieval constitui uma interpretação inadequada, uma vez que sua idealização também implica na distorção e incompreensão de suas reais características.

3. A leitura do século XX: Franco Jr. apresenta o século XX como o período de emergência de uma historiografia mais preocupada em compreender que em julgar a Idade Média e que, portanto, visa mais identificar a coerência interna de seus eventos que em avaliar seu valor dentro de uma ideia de “progresso humano”. A Idade Média se torna, então, o principal objeto de experimentação e desenvolvimento de novas técnicas em Historiografia – o que trouxe como revés, por outro lado, um certa ausência de consenso quanto à sua periodização. Franco, no entanto, propõe a subdivisão da Era em três períodos: a Alta Idade Média, marcada pela sobrevivência resquicial das instituições romanas; a Idade Média Central, auge do Feudalismo; e a Baixa Idade Média, período de surgimento incipiente das formas sociais que, mais tarde, dariam origem às instituições modernas.

4. A Idade Média segundo seus contemporâneos: Franco Jr. tece, por fim, considerações quanto aos possíveis elementos de auto-imagem experimentados pelos próprios homens do medievo. Para o autor, são relevantes pelo menos duas vertentes de interpretação: a clerical, marcada pela mitologia cristã, e a pagã ou pré-cristã, em que vigorava principalmente a idéia de um tempo cíclico. Franco Jr identifica, aqui, uma mescla idiossincrática entre estas duas vertentes, que se expressa principalmente na apropriação, pela igreja cristã, de eventos cíclicos próprios do paganismo, transformados nas comemorações de Natividade, Paixão e Ressurreição do Cristo. A estas somam-se, naturalmente, preocupações tipicamente cristãs tais como a aproximação do Apocalipse e a periodização sêxtupla da História, implementada pela Igreja como forma de alusão à criação do mundo em seis dias, narrada no Livro do Gênesis.

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3. Discorra sobre as reflexões de Agostinho apresentadas no Livro XI das “Confissões”, ressaltando o que mais lhe chama a atenção:

Parece-me notória a conclusão de Agostinho quanto ao enigma que se dispõe a

solucionar, isto é, a natureza do tempo: a de que passado, presente e futuro “existem

em outra parte”. Trata-se, pois, de uma conclusão

“internalista” ou “subjetivista”, que retira do tempo qualquer materialidade ou ontologia externos ao homem: o passado seria composto de “memórias”, o presente de “percepções”, e o futuro de “esperança”.

em nossa mente, e não [

]

A conclusão de Agostinho quanto à Natureza do tempo conflita, no entanto, com sua acepção de que “o presente não tem duração alguma”. Esta acepção leva Agostinho ao enigma de como seria possível a mensuração do tempo se esta é, necessariamente, realizada no presente – que, por sua vez, não comportaria em si qualquer movimento, inclusive o de medição, uma vez que não possuiria qualquer extensão. “Meço o tempo, eu o sei; mas não o futuro, que ainda não existe, nem o presente, porque não tem duração, nem o passado, porque não existe mais. Que meço eu então?” Ante este paradoxo, Agostinho pode fazer pouco mais que implorar sabedoria e iluminação à divindade e resignar-se, por fim, à sua incapacidade de resolver o enigma de forma satisfatória.

Considerando o apelo pessoal do enunciado devo admitir que, aqui, fui tentado a recorrer à concepção budista de tempo: a de que o presente, inversamente a não ter qualquer duração, é na verdade eterno. É esta concepção que, associada à natureza psicológica do tempo identificada por Agostinho, poderia resolver seu enigma: o tempo é medido psicologicamente, sempre no presente, mas dependendo pelo menos da memória para computar o início de sua medição, ou da expectativa de um intervalo pelo qual a medição se estenderá no futuro.

Apesar das limitações inevitáveis quando considerado o contexto histórico de sua produção, a contribuição de Agostinho parece ainda assim valiosa no sentido de que parece antecipar o movimento moderno da filosofia em direção à experiência subjetiva. Neste sentido, ela anteciparia em alguns séculos proposições tão influentes quanto o cartesianismo ou a “virada fenomenológica” iniciada por Kant, e que desembocaria mais tarde em contribuições tão relevantes quanto as de Husserl, Heidegger ou Sartre.

FLORIANÓPOLIS, 10 DE DEZEMBRO DE 2013.

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