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MANA 2(2):177-188, 1996

CONFERÊNCIA
A ESCOLA DE CHICAGO

Howard Becker*

Em 24 de abril de 1990, durante sua passado que não tem muito a ver com a
última visita ao Brasil, Howard Becker realidade. Poderíamos apenas dizer,
pronunciou, no Programa de Pós-Graduação desse ponto de vista, que a história da
em Antropologia Social (Museu Nacional, sociologia, como história das idéias e
UFRJ), uma conferência sobre a história teorias, começou, talvez, em algum
da Escola de Chicago de sociologia. Tendo momento do século XIX. Nomes como
permanecido inédita, é esta conferência os de Durkheim, Marx, Weber e outros
que Mana tem o prazer de publicar agora. são, de fato, nomes do século XX e do
Howard Becker é professor de Sociologia final do XIX.
da Universidade de Washington, Seattle, Há, contudo, pelo menos duas ou-
EUA, e autor de extensa e influente obra. tras histórias da sociologia que preci-
Dentre seus inúmeros livros destacam-se: sam ser contadas, o que deve ocorrer
Outsiders: Studies in the Sociology of simultaneamente com a história das
Deviance (1973) e Art Worlds (1982). Em idéias. Uma delas é a história da práti-
português, foram publicados: Uma Teoria ca da sociologia, dos métodos de pes-
da Ação Coletiva (1977) e Métodos de quisa e das pesquisas realizadas, por-
Pesquisa em Ciências Sociais (1993). que não se deve tomar como óbvio que
as idéias foram as forças motrizes ou a
principal realização de qualquer escola
sociológica. De um determinado ponto
Falarei hoje a respeito da Escola de de vista, que defendo com firmeza, a
Chicago, mais conhecida por seu nome história da sociologia não é a história da
do que pelo conteúdo do que efetiva- grande teoria, mas a dos grandes traba-
mente fez. Mas, quero abordar este lhos de pesquisa, dos grandes estudos
tema como uma pequena história den- sobre a sociedade. A terceira história
tro de uma história mais ampla da so- da sociologia é a das instituições e or-
ciologia. Geralmente conta-se a histó- ganizações, dos locais onde o trabalho
ria da sociologia como a história das sociológico foi realizado, porque ne-
grandes idéias sobre a sociedade e das nhuma idéia existe por si mesma, em
grandes teorias a respeito da socieda- um vácuo; as idéias só existem porque
de. Quando estudei esse assunto, ainda são levadas adiante por pessoas que
na universidade, meu professor, Louis trabalham em organizações que perpe-
Wirth, começava por Heráclito e Tucí- tuam essas idéias e as mantêm vivas.
dides, ou seja, pelos antigos gregos. Começarei pela história das organi-
Outros, mais modestos, começavam por zações. A Universidade de Chicago foi
Maquiavel ou mesmo Khaldun. No en- fundada em 1895 a partir de uma gran-
tanto, esse é um tipo de apropriação do de doação feita por John D. Rockefel-
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ler, o milionário americano que fez for- confissão protestante –, foi muito in-
tuna na indústria do petróleo ao fundar fluenciado pela idéia que tinham do
a Standard Oil. Ele devia ter a cons- que precisava ser feito, dos problemas
ciência pesada e em determinado mo- com os quais a sociedade se defronta-
mento da vida quis fazer alguma coisa va, do que teria de ser enfrentado. Os
com seu dinheiro. Uma das coisas que grandes desafios dos Estados Unidos
fez foi beneficiar a Universidade de naquela época eram a pobreza – ainda
Chicago com uma enorme doação. A hoje o principal deles – e a imigração –
Universidade começou com um peque- até o presente considerada um grande
no número de professores. Um deles, problema. Havia, ainda, outros que se
Albion Small, havia sido diretor de uma tornaram menos relevantes. Toda a
pequena faculdade do estado do Mai- questão da eugenia, por exemplo: im-
ne. Small foi o primeiro professor de pedir pessoas física e mentalmente in-
sociologia e chefe do primeiro Departa- capacitadas de se reproduzirem. Este
mento de Sociologia dos Estados Uni- era um assunto relevante naquele tem-
dos. Outras pessoas já haviam dado au- po, ainda que atualmente só escutemos
las sobre esse assunto, principalmente falar um pouco sobre isso na ciência da
William Graham Sumner, cujo livro sociobiologia, se é que esta pode ser
Folkways é comparável aos grandes considerada uma ciência.
clássicos de nossas disciplinas. Small Small reuniu ao seu redor um gru-
criou um Departamento de Sociologia po de pessoas e elas começaram não só
com a intenção de formar alunos se- a ensinar sociologia como a editar a
gundo o modelo alemão, produzindo American Journal of Sociology e a fazer
doutores e criando um grupo de profes- pesquisa – quase sempre na cidade de
sores que saísse pelos Estados Unidos Chicago. Ao produzir a revista, eles tor-
ensinando essa ciência. Ele não só fun- naram acessível ao público americano
dou o primeiro departamento como a uma boa parte da literatura sociológica
primeira revista de sociologia dos Esta- européia, principalmente da França e
dos Unidos, a American Journal of da Alemanha. Assim, as obras de Georg
Sociology – que começou a ser editada Simmel foram traduzidas antes de 1900
logo no início do século e existe até – muitos dos seus ensaios, especialmen-
hoje, sendo publicada seis vezes por te sobre a importância do número na
ano. A American Journal of Sociology é vida social e na transmissão da cultura,
uma das duas ou três maiores revistas sobre o problema do segredo e outros
dos Estados Unidos, provavelmente do foram traduzidos e vários deles publi-
mundo, na publicação de idéias e pes- cados na American Journal of Socio-
quisas sociológicas. logy. Presumo que eles tenham tido di-
Small, como muitos dos primeiros ficuldades para encontrar um número
sociólogos americanos, era pastor pro- suficiente de artigos de sociólogos ame-
testante, do tipo interessado na reforma ricanos e, por isso, fizeram traduções.
social, voltado para o equacionamento Uma das primeiras pessoas a in-
dos problemas sociais que afligiam as gressar no corpo de professores do De-
grandes cidades americanas. Seu pen- partamento de Sociologia da Universi-
samento, assim como o de outras pes- dade de Chicago foi William I. Thomas.
soas que trabalhavam com ele, e o de Mesmo que um aluno não saiba mais
estudantes que foram para Chicago – nada sobre Thomas, ele provavelmente
muitos deles pastores de uma ou outra conhece a frase que o tornou famoso:
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“se um homem define uma situação que se costuma dizer a respeito da Es-
como real, ela se torna real em suas cola de Chicago. A palavra escola gera
conseqüências”. Esta foi sua primeira muita confusão, porque é possível dis-
elaboração do conceito de “definição tinguir pelos menos dois tipos de esco-
de situação” como elemento crucial la. Recorro aqui ao trabalho de um
para a compreensão da sociedade e da estudante da Northwestern University,
ação social. Thomas, Small e outros de- Samuel Guillemard, que estudou os com-
ram início a um programa de pesquisas. positores contemporâneos e fez essa
Estudaram as comunidades de imigran- distinção. De um lado, temos as chama-
tes e a pobreza – principalmente Tho- das escolas de pensamento e, de outro,
mas, que sempre imagino como um as escolas de atividade. Uma escola de
homem muito vigoroso, corpulento e pensamento, na terminologia de Guil-
dinâmico. Ao lado do polonês Florian lemard, consiste em um grupo de pes-
Znaniecki, Thomas iniciou uma pesqui- soas que têm em comum o fato de que
sa que veio a se tornar um dos primei- outras pessoas consideram seu pensa-
ros grandes trabalhos de campo publi- mento semelhante; é possível que nun-
cados: The Polish Peasant in Europe ca tenham se encontrado, mas o que
and America reuniu um grande núme- caracteriza uma escola de pensamento
ro de entrevistas e histórias de vida de é que alguém, geralmente muitos anos
pessoas que viviam na Polônia e das mais tarde, decide que essas pessoas
que haviam emigrado para os Estados estavam fazendo a mesma coisa, pen-
Unidos. Foi publicado em cinco gran- sando da mesma maneira, que suas
des volumes que, suponho, algumas idéias eram semelhantes. É muito co-
pessoas leram. Confesso que nunca os mum na história das idéias definir esco-
li, ainda que tenha lido outros trabalhos las de pensamento dessa maneira, fre-
seus. qüentemente em relação às circunstân-
O Departamento cresceu sob a dire- cias históricas em que esse pensamen-
ção de Thomas e tornou-se muito im- to se formou. Uma escola de atividade,
portante, tendo gerado diversos depar- por outro lado, consiste em um grupo
tamentos. Alunos de Chicago foram pa- de pessoas que trabalham em conjunto,
ra outras universidades americanas, não sendo necessário que os membros
onde instalaram departamentos de da escola de atividade compartilhem a
sociologia. Em um curto espaço de tem- mesma teoria; eles apenas têm de estar
po, essas unidades também estavam dispostos a trabalhar juntos. Certas
formando doutores na disciplina: a idéias vigentes na Universidade de Chi-
Columbia University, sob a direção de cago eram compartilhadas pela maioria
Franklin Giddings, e, logo depois, Los das pessoas, mas não por todas; certa-
Angeles, Seattle, Washington e alguns mente não era preciso que todos con-
outros centros passaram a desenvolver cordassem com essas idéias para se en-
programas de pesquisa e ensino para gajarem nas atividades que realizavam.
sociólogos. Assim, em pouco tempo pro- Gostaria agora de introduzir outro
fissionais dessa área começaram a ocu- importante personagem, Robert E. Park,
par o país. Pois bem, o que é que eles que era uma pessoa muito interessante.
faziam e o que caracterizava seu traba- Ele e Thomas foram, sem dúvida, os
lho? membros mais influentes e autorizados
Quanto a isso, eu gostaria de fazer do grupo que organizou as atividades
duas distinções. A primeira é sobre o do Departamento e as manteve de pé.
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Park nasceu em Omaha, Nebraska, no prou-lhe dois ternos. Park costumava


centro dos Estados Unidos e fazia parte contar essa história como uma piada,
de uma família de ricos comerciantes. dizendo que nunca contou a Thomas
Estudou, se não me engano, na Har- que bem poderia ter comprado os ter-
vard University e depois foi para Hei- nos com seu próprio dinheiro!
delberg, onde estudou com Simmel. Ao chegar a Chicago, Park mos-
Logo nos primeiros anos deste século, trou-se uma pessoa muito dinâmica, or-
voltou de Heidelberg com um doutora- ganizando quase toda a Universidade,
do cuja tese era um ensaio sobre as pelo menos na área de ciências sociais.
massas e o público como formas dife- Parecia que ele vinha pensando há
rentes de organizar a sociedade de lar- anos no tipo de trabalho que precisava
ga escala. De volta a Harvard, lecionou ser feito. Logo em seus primeiros tem-
filosofia durante alguns anos. Todavia, pos em Chicago, Park escreveu um en-
Park parece não ter gostado muito da saio sobre a cidade, encarando-a como
vida acadêmica, ingressando, então, no um laboratório para a investigação da
jornalismo. Primeiro foi repórter, depois vida social. Ele tinha uma idéia central
editor de vários jornais americanos, sobre a história do mundo naquela épo-
chegando a ser editor chefe do Free ca, sobre o que estava ocorrendo, idéia
Press de Detroit, o mais influente jornal que resumiu ao dizer: “hoje, o mundo
da cidade. Trabalhou durante anos nes- inteiro ou vive na cidade ou está a ca-
sa profissão, tornando-se, posterior- minho da cidade; então, se estudarmos
mente, ghost writer dos mais famosos as cidades, poderemos compreender o
líderes negros da época, como Booker que se passa no mundo”. Assim, Park
T. Washington, famoso educador. Park organizou seus alunos para esse em-
escreveu ensaios e livros para Was- preendimento. O ensaio que resultou
hington, inclusive seu livro mais conhe- desse trabalho é muito interessante:
cido, The Man Farthest Down. Mais tar- consiste em uma série de tópicos, qua-
de, foi secretário executivo da Organi- se todos constituídos de perguntas cu-
zação para a Libertação do Congo Bel- jas respostas se desejava conhecer e
ga. Ele teve, pois, uma vida muito ativa que só podiam ser encontradas por
e movimentada. Escreveu e publicou meio da pesquisa empírica. Cada uma
alguns ensaios com seu próprio nome, dessas questões poderia, por si mesma,
não em revistas de ciências sociais, mas servir de base para toda uma subárea
naquelas de opinião que tratavam de de pesquisa sociológica – aliás, muitas
questões sociais. Foi desse modo que se tornaram exatamente isso. Por exem-
chamou a atenção de Thomas, que, ao plo, uma delas, que muito me impres-
conhecê-lo, sugeriu que ele talvez se sionou, observava que “na cidade, to-
interessasse em ensinar sociologia na dos os tipos de trabalho tendem a se
Universidade de Chicago e lhe ofere- tornar uma profissão, quer dizer, a ser
ceu um cargo por um ano. Há uma his- extremamente organizados, a incluir
tória engraçada sobre Park: ele era um posições socialmente definidas, a ter
homem rico, como já disse, mas se ves- regras de conduta que regulam o traba-
tia muito mal quando chegou a Chica- lho nessa ocupação”. Park cita especi-
go. Usava um terno velho e Thomas ficamente a mendicância como uma
achou que ele não tinha a aparência forma de trabalho muito organizada
adequada para um professor. Assim, nas cidades, resumindo sua posição ao
Thomas levou Park até a cidade e com- sustentar que “é muito importante e in-
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teressante conhecer a maneira como leitura do ensaio de Park sobre o ho-


todos os trabalhos são organizados na mem marginal. Pierson veio para o Bra-
cidade segundo esse modelo”. É claro sil, escreveu um livro muito conhecido
que, em certo sentido, isso se relaciona e ficou muitos anos orientando pesqui-
com o pensamento de Durkheim expos- sas em São Paulo.
to em Da Divisão do Trabalho Social, e Acredito ser correto afirmar que ca-
Park tinha consciência dessa ligação. da aluno de Park absorveu uma de suas
Sob a orientação de Park, duas ou idéias e levou-a adiante. O pensamen-
três gerações de cientistas sociais se to de Park sobre as relações sociais foi
formaram e iniciaram sua vida profis- desenvolvido por autores como Pierson
sional. Ele não teve influência apenas e Wirth, que também se interessou mui-
sobre a sociologia: os historiadores, por to pela teoria do urbanismo e pelo es-
exemplo, começaram a estudar a histó- tudo das sociedades urbanas. Um dos
ria de Chicago; os cientistas políticos, temas considerados mais importantes
as organizações políticas da cidade e a naquele tempo era o da delinqüência
natureza da máquina política local – juvenil, que afetava especialmente os
um importante estudo sobre os políticos filhos dos grupos de imigrantes de Chi-
negros em Chicago foi elaborado; os cago, que não eram criados da maneira
economistas voltaram sua atenção para que a população dominante da cidade
a economia da cidade. Quando Park considerava apropriada. Muitos deles
chegou, o Departamento era de socio- praticavam pequenos delitos e isso era
logia e antropologia, de modo que mui- tido como um grande problema. A ques-
tos antropólogos de sua geração rece- tão era considerada, em parte, como
beram sua influência, particularmente um problema de reforma: o que vamos
Robert Redfield, conhecido por seu tra- fazer com essas crianças? De outro lado,
balho sobre a cultura folk e as socieda- era tida como um problema de teoria
des camponesas. De certa forma, o tra- sociológica. Dizia-se que, se concordar-
balho de Redfield derivou diretamente mos que a sociedade é criada por pes-
da maneira como Park entendia a rela- soas socializadas e treinadas nas ativi-
ção entre a cidade e o campo. dades que a farão se mover – esse co-
Há uma longa lista de pessoas que nhecido processo circular –, então o fra-
estudaram com Park e participaram casso da sociedade em socializar ade-
desse trabalho de pesquisa, e eu gosta- quadamente muitas crianças pode ser
ria de mencionar algumas delas. Nessa um presságio de terríveis problemas
época, eles adicionaram à infra-estru- que ocorrerão, assim como um índice
tura institucional da sociologia a Uni- daqueles que já existem. Alguns alu-
versity of Chicago Press, uma editora nos de Park, como Frederic Thrascher,
que, sob a direção de Park, publicou puseram-se a estudar essa questão.
uma série de estudos na área. Muitos Thrascher escreveu um livro intitulado
dos ensaios mais interessantes de Park The Gang, que traz um subtítulo encan-
foram publicados como introduções aos tador: A Study of 1,313 Gangs. Não sei
livros da série e vários desses livros como ele conseguiu contar todas essas
eram dissertações dos alunos. Destaco, gangues!
em primeiro lugar, um nome que estou Dois outros alunos de Park, Clifford
certo ser bem conhecido aqui, o de Shaw e Henry MacKay, iniciaram uma
Donald Pierson, que estudou as rela- série de pesquisas de grande porte
ções raciais no Brasil a partir, penso, da sobre a delinqüência juvenil, cujos tra-
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ços centrais eu gostaria de ressaltar. americanas – creio que as cidades sul-


Uma das características do pensamento americanas são muito diferentes nesse
de Park – e isso se aplica à Escola de sentido – sempre foi a ocupação suces-
Chicago como um todo – era não ser siva de determinadas áreas por diferen-
puramente qualitativo ou quantitativo. tes grupos étnicos, de modo que aquela
Park era muito eclético em termos de parte da cidade se torna ponto de atra-
método. Se achasse que era possível ção dos grupos étnicos de imigração
mensurar alguma coisa, ótimo, se não o mais recente. Em uma cidade como
fosse, ótimo também. Havia ainda ou- Chicago, isso significa que, primeiro
tras maneiras de fazer essas pesquisas. vieram os imigrantes irlandeses, depois
Em certo momento, ele defendeu a os suecos, os alemães e os judeus da
idéia de que o espaço físico espelhava Europa Oriental. Cada um desses gru-
o espaço social, de modo que se se pu- pos, em épocas distintas, sofria a in-
desse medir a distância física entre fluência dos acontecimentos em sua
populações, se saberia algo sobre a dis- terra natal. Houve um certo afluxo de
tância social entre elas. É uma metáfo- imigração alemã por volta de 1848,
ra interessante, que levou ao desenvol- quando se agravou a repressão na Rús-
vimento de uma área chamada ecolo- sia – foi aí que chegou uma grande leva
gia, não no sentido que usamos hoje, de de imigrantes judeus; depois foram os
preservação do meio ambiente, mas a italianos, os poloneses etc. E era possí-
noção de ecologia na forma usada pela vel acompanhar essa seqüência por
biologia vegetal daquela época, e que meio dos dados censitários, demons-
se referia à competição pelo espaço. trando como as características de uma
Em outras palavras, os biólogos, que determinada área da cidade mudavam
estudavam a biologia no mundo e não de ano para ano, ou a cada dez anos.
em laboratório, estavam muito interes- Outra pesquisa muito importante foi
sados na concepção darwinista da ma- realizada por Robert Farisson e Warren
neira como diferentes tipos de animais Danum, que estudaram a incidência e
e plantas ocupavam o território, o espa- a localização da doença mental na cida-
ço físico. Park considerou que essa de. A pesquisa mostrou que havia um
idéia podia ser uma excelente metáfora grande número de doentes mentais em
e mandou seus alunos estudarem o determinadas áreas da cidade, embora
modo como distintos grupos se locali- a população dessas áreas se alterasse
zavam na cidade de Chicago. Naquela de modo significativo.
época, um aspecto típico das pesquisas Outra estratégia de pesquisa, ainda
era a confecção de mapas, onde se si- que no contexto de estudos quantitati-
tuavam os diferentes tipos de popula- vos, era qualitativa. Muitos alunos de
ção, grupos étnicos, raças, espécies de Park passavam um bom tempo fazendo
atividades: em que lugar da cidade, por pesquisas de natureza quase antropo-
exemplo, se concentravam as ativida- lógica em áreas da cidade, abordando
des criminosas? Como explicar esse certos fenômenos da mesma. Um dos
fato? livros mais famosos nessa linha, ainda
A partir dessas questões, Park ela- hoje publicado e lido, chama-se The
borou noções como a de região moral, Gold Coast and the Slum, que analisa
a área da cidade onde uma população uma área próxima ao centro de Chica-
se separava das demais. Uma caracte- go onde ficavam as casas mais ricas e
rística do desenvolvimento das cidades alguns dos piores casebres de toda a ci-
A ESCOLA DE CHICAGO 183

dade. Harvey Zorbaugh pesquisou essa fissional de futebol. Era também uma
área. Aliás, não tenho nenhuma dúvida pessoa muito formal, de modo que era
de que um dos resultados de todo esse engraçado vê-lo numa segunda-feira,
movimento é que Chicago passou a ser depois de um domingo de futebol, che-
a cidade mais pesquisada do mundo e gar de terno e gravata, cheio de espa-
provavelmente o será sempre. Por um radrapos por todos os lados, e dar uma
bom tempo, estudar sociologia nos aula formalíssima sobre psicologia so-
Estados Unidos era estudar a cidade de cial. Blumer é um autor de quem é mais
Chicago. C. Wright Mills, por exemplo, correto se dizer que se tratava de um
quando estudante universitário nos teórico. Embora tenha feito umas pou-
anos 30, freqüentou a Universidade do cas pesquisas empíricas – por exemplo,
Texas, em Austin. Sua família era de sobre a influência do cinema nas crian-
uma pequena cidade texana chamada ças e na moda, tendo ido a Paris para
Waco. Ele nunca tinha saído do Texas e estudar a indústria da moda –, jamais
seu biógrafo, Irving Horowitz, procurou escreveu muita coisa sobre isso. Blu-
investigar os cursos que Mills freqüen- mer, que tinha um evidente interesse
tou e os livros que leu para esses cur- em assuntos empíricos, na verdade, só
sos, descobrindo que o conhecimento escreveu sobre temas teóricos. Aliás,
de sociologia de Mills – porque seu pro- ele também esteve no Brasil, se não me
fessor tinha sido aluno de Park – con- engano no final dos anos 30, tendo per-
sistia quase inteiramente em estudos manecido aqui por cerca de um ano.
sobre Chicago. Foi isso que ele estudou Não sei bem o que fez, mas conheço o
e era isso que todo mundo estudava resultado de sua permanência porque
quando cursava sociologia na época. muitas pessoas foram para os Estados
Outra vertente explorada em Chi- Unidos estudar com ele. Seu livro foi
cago foi a de psicologia social. O filóso- publicado postumamente em 1988.
fo George Herbert Mead foi aqui muito Essa geração de cientistas sociais,
influente. Mead era um filósofo, não um que incluía Wirth, Redfield, Blumer
sociólogo, e um de seus interesses era a e outros, incluía igualmente Everett
relação entre a mente, o self e a socie- Hughes, meu professor. Também filho
dade, o que, aliás, é o título de seu livro de um pastor protestante, Hughes cos-
mais conhecido. É preciso alertar a to- tumava dizer que esse fato tinha sido
dos que desejam ler esse livro que ele muito importante em seu desenvolvi-
é praticamente ilegível. Foi todo mon- mento pessoal, pois ser filho de pastor
tado a partir de aulas proferidas por em uma pequena cidade do Centro-
Mead porque seus alunos chegaram à Oeste americano, de certo modo o afas-
conclusão de que ele jamais escreveria tava das outras crianças, principalmen-
o livro. Alguém anotava o que ele dizia te porque seus pais se mudavam muito,
e foi desse modo que o livro foi prepa- já que o pastor cuidava de muitas igre-
rado. Lê-lo é mais ou menos como ler jas. Por se tratar de um homem com
um daqueles livros repletos de anota- convicções mais liberais que a maioria
ções e comentários feitos por outras da população das cidades onde se ins-
pessoas. O aluno mais importante de talava, as pessoas vinham fazer confi-
Mead, que também tinha estudado com dências ao pastor e as crianças ouviam
Park, foi Herbert Blumer, da mesma ge- o que se dizia; daí se davam conta de
ração de Redfield, Wirth e outros. Blu- que nem tudo é como aparece à super-
mer era um homem forte, jogador pro- fície. Hughes foi para a Universidade
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de Chicago e desenvolveu as concep- alunos o leram. Esse pequeno livro tra-


ções de Park a respeito das profissões. ta de um grande número de temas, en-
Sua primeira pesquisa tratou do depar- tre os quais a estrutura econômica e a
tamento de terras da cidade, onde se distribuição ocupacional dos franceses
realizavam as transações de compra e e ingleses nos diversos tipos de empre-
venda de terras. go no Québec; além disso, estuda a ci-
Passo agora a discorrer sobre a his- dade que Hughes denominou Carton-
tória da nova geração da Escola de Chi- ville, uma pequena cidade em vias de
cago. Hughes foi para o Canadá, onde industrialização. O livro é também um
já se encontrava um ex-aluno de Park, dos grandes trabalhos sobre o processo
Carl Garson, na McGill University. Nes- de industrialização, sobre o que acon-
sa época, quando os alunos termina- tece quando se instala uma grande fá-
vam seus estudos e procuravam empre- brica bem no meio de uma antiga co-
go, um dos principais professores, como munidade tradicional, uma espécie de
Park ou Burgess, pegava o telefone, li- pequeno centro regional, que tem seus
gava para algum lugar e dizia: “nós te- próprios líderes etc., e que passa a ter
mos aqui um jovem sociólogo muito uma fábrica atraindo as pessoas do cam-
bom; acho que vocês deviam contratá- po para trabalhar na cidade, em que os
lo”, e ele era contratado. É por isso que gerentes franceses deslocam a elite fran-
sustento que a Universidade de Chica- cesa da cidadezinha e tudo o mais. É um
go era, de longe, a instituição mais im- estudo notável! Trata das conseqüên-
portante da época, na área de sociolo- cias políticas desses fatos, dos movi-
gia, nos Estados Unidos. Quer dizer, era mentos políticos no Québec e de como
a instituição número um, e a número estes são alimentados por esse tipo de
dois ficava muito atrás. Vocês podem progresso; trata da religião, do papel da
imaginar como essa situação causava Igreja Católica na província e nas cida-
ressentimentos nos outros programas, des desse tipo, e trata de muito mais.
que também formavam doutores, de No final dos anos 30, muito tempo
modo que isso só durou até o final da depois da saída de Thomas da Univer-
Segunda Guerra Mundial. Hughes foi sidade, em 1919, Park se aposentou,
para o Canadá e, de certo modo, fez o aliás de modo muito curioso. Eu já tinha
que Park tinha feito. Em pouquíssimo dito a vocês que Park era um homem
tempo, elaborou um esquema de pes- muito dinâmico. Certo dia, os cidadãos
quisas sobre o Canadá francês que ain- de Chicago abriram o jornal e se depa-
da está sendo desenvolvido. Até hoje, raram com a notícia de que um profes-
as pessoas executam as pesquisas que sor da Universidade de Chicago tinha
Hughes achava que deveriam ser fei- sido preso com uma prostituta. Park
tas: estudos sobre a distribuição da estava fazendo uma pesquisa com jo-
população, estudos de comunidade, es- vens prostitutas, moças que viajavam
tudos sobre várias profissões, sobre a pelas estradas ou iam de cidade em ci-
organização política e econômica do dade, onde quer que houvesse um acam-
Canadá francês etc. Ele mesmo escre- pamento de soldados para exercer o
veu um importante livro – a meu ver, ofício da prostituição. Park estava en-
um estudo de comunidade clássico –, trevistando uma dessas moças dentro
intitulado French Canada and Transi- de um quarto de hotel quando a polícia
tion. Publicado em 1943, ainda está à o descobriu. Ele já tinha arrumado ou-
venda e é muito lido – muitos dos meus tros problemas e então a Universidade
A ESCOLA DE CHICAGO 185

achou conveniente pedir que se apo- sidade, uma vez que o governo pagava
sentasse. Essa história, porém, tem um seus estudos e sua manutenção. Muitas
final feliz, porque Park era muito criati- pessoas de classe baixa, que nunca
vo: inventou um novo tipo de bola de teriam conseguido entrar em uma uni-
golfe que todo mundo adotou, fazendo versidade, ingressaram e concluíram a
com que ele ganhasse muito dinheiro. graduação. Muita gente passou a fre-
Não tenho provas concretas dessa his- qüentar o college ou a graduação na-
tória, mas Everett Hughes a contou pa- quele momento. Quando entrei para o
ra mim com grande convicção, e sem- Departamento de Sociologia, como alu-
pre acreditei nela. Periodicamente, no de graduação, havia muitos estu-
Park aparecia na Universidade de Chi- dantes, uns duzentos alunos. Imaginem
cago; não ia ao campus, mas ficava pe- só, apenas dez professores e duzentos
las redondezas, e as pessoas faziam se- alunos! A conseqüência disso foi muito
minários secretos com ele. Park apo- boa: embora influenciados pelos pro-
sentou-se e se transferiu para a Fisk fessores, acabávamos ensinando uns
University em Nashville, que era uma aos outros. Na minha geração, muita
universidade para negros, tendo aí per- gente se tornou famosa. O mais conhe-
manecido por muitos anos. cido de todos vocês – assim imagino
Como eu dizia, a nova geração de pois isso acontece em muitos outros
alunos de Park constituiu o corpo do- lugares no mundo – é Erving Goffman,
cente do Departamento de Sociologia que veio do Canadá em virtude, indire-
da Universidade de Chicago: Hughes, tamente, dos contatos de Hughes. Ou-
Blumer, Wirth e Redfield, que estava na tro que integrava o corpo docente na
antropologia, além de outros. Depois da época, na antropologia e na sociologia
Segunda Guerra, eles formaram uma ao mesmo tempo, era o antropólogo W.
outra geração. Mas Chicago não era Lloyd Warner, que se formara em antro-
uma instituição totalmente fechada: o pologia em Harvard e realizara uma
Departamento trouxe pessoas de fora, pesquisa etnológica clássica sobre um
entre elas William Ogburn, conhecido grupo de aborígines, os Murngin, que
por seu livro sobre mudança social. deu origem a um importante estudo
Ogburn era um homem muito alto, um sobre parentesco. De volta aos Estados
sulista muito sério, um gentleman. Ti- Unidos, em vez de prosseguir nessa
nha uma fé quase religiosa na ciência e mesma linha de trabalho, Warner dedi-
na ciência quantitativa. Por isso, é sur- cou-se a pesquisar, de uma perspectiva
preendente saber que ele foi o primeiro antropológica, as sociedades modernas.
presidente do Instituto Psicanalítico de Escolheu uma pequena cidade perto de
Chicago. Boston, chamada Newburyport, e, jun-
Falarei agora das minhas impres- to com um grupo grande de alunos,
sões acerca da vida intelectual na Uni- estudou-a durante alguns anos. Na
versidade de Chicago naquele tempo. década de 50, havia um romance muito
Quando cheguei à Universidade, de- popular, de um escritor norte-america-
pois da Segunda Guerra Mundial, o no chamado John Marquand, cujo títu-
lugar tinha mudado muito desde a últi- lo era Point of No Return. Neste roman-
ma geração de estudantes. Um dos as- ce, Marquand, que nasceu em New-
pectos dessa transformação é que após buryport, fala de um antropólogo que
a guerra homens que tinham estado no chegou para estudar a cidade. O antro-
Exército puderam freqüentar a Univer- pólogo é retratado de maneira muito
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crítica porque se, de um lado, Mar- pólogos ingleses, que usavam a metá-
quand parece admirá-lo, por outro, fora da estrutura social de modo exces-
detesta sua visão científica, distancia- sivamente reificado. Penso que para
da, da cidade. O trabalho de Warner nós, ao contrário, uma das idéias mais
resultou em uma obra intitulada Yan- importantes era a de que a organização
kee City, na verdade uma série que social consiste apenas em pessoas que
teve cinco ou seis volumes publicados. fazem as mesmas coisas juntas, de ma-
Outros pesquisadores que trabalhavam neira muito semelhante, durante muito
com Warner realizaram estudos de tempo. Ou seja, para nós a unidade bá-
comunidade em Natchez, no Mississipi, sica de estudo era a interação social,
uma comunidade muito antiga, conser- pessoas que se reúnem para fazer coi-
vadora, reacionária, onde as relações sas em comum – exemplificando com
entre negros e brancos eram as piores um tema antropológico, para constituir
de todo o país. A pesquisa foi publica- uma família, para criar um sistema de
da com o título de Deep South. Outros parentesco. Disso decorre que um sis-
alunos de Warner estudaram a comuni- tema de parentesco é formado pelas
dade negra de Chicago, principalmen- ações de pessoas que fazem as coisas
te St. Clair Drake e Horace Cayton, que que se supõe que parentes devam fa-
escreveram um livro intitulado Black zer, e que, enquanto o fizerem, teremos
Metropolis. A influência desses estudos um sistema de parentesco. Quando não
foi expressiva. o fizerem mais, o sistema de parentes-
Embora muitos de nós, alunos de co se torna outra coisa. Portanto, o que
Hughes, Blumer, Warner, pensássemos nos interessava eram os modos de inte-
que não tínhamos nada a ver com as ração, especialmente as interações re-
pessoas de nossa geração que faziam petitivas das pessoas, modos estes que
sociologia quantitativa em Chicago, permanecem os mesmos dia após dia,
mais tarde, depois que saímos da Uni- semana após semana. Às vezes, esses
versidade, demo-nos conta de que éra- modos de agir se alteram substancial-
mos mais parecidos com eles do que mente, devido a uma revolução ou
com os outros que tinham ido para desastre natural, mas, outras vezes, a
Columbia, Michigan ou Harvard. Achá- mudança se dá muito lentamente, à
vamos que, de alguma maneira, éramos medida que as circunstâncias se modi-
diferentes. Vejamos, então, em poucas ficam.
palavras, o que me parece ser esse nos- Nós éramos muito mais ecléticos em
so modo de pensar. A noção de intera- relação a métodos do que as pessoas
ção simbólica pode dar conta do que que conhecíamos e que estavam em
quero dizer, exceto pelo fato de que a outras instituições. Assim, achávamos
expressão tem muitos significados dife- que era preciso fazer entrevistas, cole-
rentes, uma série de nuanças que po- tar dados estatísticos, ir atrás de dados
dem enganar. Uma das idéias certa- históricos. Não havia nada demais nis-
mente predominantes referia-se à opo- so, tudo isso me parece puro bom sen-
sição a noções como as de organização so, mas muitas pessoas tinham uma
social e estrutura social, muito comuns espécie de apego religioso a métodos
no pensamento dos egressos de Har- de pesquisa. Entendíamos também, de-
vard ou Columbia, entre os alunos de vido à circunstância da maior parte das
Robert Merton, Talcott Parsons, bem pesquisas ter sido realizada em Chica-
como no pensamento de certos antro- go, que era fundamental compreender
A ESCOLA DE CHICAGO 187

o contexto em que se davam os fatos foi estudar uma fábrica em Chicago.


estudados. Porque quando fizemos nos- Encontrou a fábrica, começou a estudá-
sas pesquisas de doutorado, era natural la, a entrevistar pessoas e arranjou um
que as fizéssemos em Chicago, e assim emprego. Algumas coisas nessa fábrica
já dispúnhamos de uma enorme quan- lhe pareciam muito familiares, ele sen-
tidade de informações reunidas e publi- tia que conhecia a disposição física das
cadas sobre a cidade. Um exemplo mui- coisas na fábrica, como se estivesse ten-
to simples e muito engraçado: durante do uma espécie de experiência mística.
muito tempo, a cada dez anos após a Como podia ser isso? Foi então que se
realização de recenseamentos, o De- deu conta que alguns anos antes lera a
partamento de Sociologia publicava o tese de um aluno de Hughes da década
que se chamava de Local Community de 40, Donald Roy, que havia escrito
Fact Book. Neste livro, que cobria todas um importante trabalho sobre a redu-
as comunidades da cidade de Chicago ção da produção em fábricas, sobre
conforme definidas pelo censo, cada como os operários colaboravam a fim
comunidade recebia duas páginas de de obter controle sobre o sistema de
informações básicas extraídas das esta- incentivos praticado pelos empresários.
tísticas censitárias, incluindo temas co- Burawoy procurou a tese de Roy e per-
mo delinqüência juvenil, criminalida- cebeu que a fábrica era a mesma que
de, estatísticas sanitárias, tudo o que se ele estava estudando, quarenta anos
podia saber a respeito de uma determi- depois. Ele então procurou Roy, que
nada área. De modo que quando se es- não havia revelado o nome da fábrica,
tudava uma área em particular, bastava e perguntou: “a fábrica que você estu-
pegar o livro e, com dados dos últimos dou tinha tais e tais características?
quarenta anos, dispor de uma visão his- “Mas é claro!”, respondeu Roy. Desse
tórica e estatística de tudo o que se pas- modo, Burawoy teve uma excelente
sara naquela região. Também consta- oportunidade de dar uma dimensão
vam informações sobre etnicidade. Era histórica ao seu trabalho, com informa-
um recurso fantástico, mas nunca me ções que eram efetivamente de cunho
ocorreu que essa informação não exis- sociológico porque a parte histórica
tisse para todas as cidades, apenas para fora realizada por um sociólogo, o que
Chicago. Assim, quando me mudei lhe permitiu obter uma visão compara-
para São Francisco para fazer pesqui- tiva de dois momentos no tempo.
sas e quis começar um trabalho, per- Outro fato importante é que, termi-
guntei, candidamente, onde estava o nada a Segunda Guerra Mundial, a Es-
“community fact book” de São Francis- cola de Chicago, de certo modo, deixou
co: “não temos esse livro aqui, só em Chicago; o próprio Departamento vol-
Chicago”, me responderam. Bem, não tou-se, como instituição, para uma pers-
se tratava apenas dos dados estatísticos pectiva mais ligada ao survey e à pes-
das comunidades, era todo um enorme quisa quantitativa, tornando-se menos
arsenal de dados de pesquisa que aberto a estudos com abordagem antro-
podia servir de base para conferir uma pológica. No entanto, autores como
dimensão histórica ao nosso trabalho. Goffman, eu mesmo, Eliot Freidson e
Mais recentemente, esse fato gerou vários dos alunos de Hughes, Warner e
uma conseqüência muito interessante. Blumer saímos para outros centros no
Um jovem pesquisador interessado em país e começamos a ensinar. De modo
sociologia industrial, Michael Burawoy, que em determinado momento as pes-
188 CONFERÊNCIA

soas começaram a dizer: não, a Escola embaraçoso considerá-la assim, porque


de Chicago não está em Chicago, mas na verdade ela é um modo de pensar,
na Califórnia; ou então, ela está em uma maneira de abordar problemas de
Chicago, mas não na Universidade de pesquisa que estão muito vivos e pre-
Chicago e sim na Northwestern Univer- sentes em boa parte do trabalho feito
sity, do outro lado da cidade. Nesse sen- hoje em dia.
tido, a Escola tornou-se uma espécie de Gostaria de terminar com um últi-
perspectiva ou opinião global, e eu não mo comentário: antropologicamente fa-
sei muito bem se seria honroso chamar lando, descrevi minha linhagem na
essa perspectiva de teoria, ou se seria seguinte ordem: Simmel, Park, Hughes,
Becker. Muito obrigado.

Tradução: Vera Pereira


Revisão do autor

Nota

* Ao revisar a transcrição de sua conferência, Howard Becker sugeriu, em


benefício do leitor interessado, a menção de dois textos que tratam do tema aqui
abordado: Herbert Blumer, Industrialization as an Agent of Social Change: A Cri-
tical Analysis (edição e introdução de David R. Maines e Thomas J. Morrione),
New York, A. de Gruyter, 1990; e Jean-Michel Chapoulie, “Everett Hughes and
the Chicago Tradition”, Sociological Theory, 14(1):3-29, 1996.