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TESTE DE PORTUGUÊS – 11ºANO

Após a leitura atenta do texto, dá respostas cuidadas e completas


às perguntas que se seguem.

TEXTO:
Somos todos culpados

Um conhecido industrial da cortiça comprou uma herdade no Alentejo, no


pós-25 de Abril. Na primeira visita que fez ao lugar na companhia da
esposa, apontou o dedo para o horizonte e indicou o lugar onde haveria de
plantar sobreiros. A esposa contestou, argumentando que os sobreiros
demoram décadas a crescer. O empresário rematou o diálogo dizendo que
30 anos é apenas uma pequena fracção de tempo na história da sua
família. Os sobreiros foram plantados e deram origem a uma história que
se conta quando se discute o drama que todos os verões se abate sobre as
florestas nacionais. Se fôssemos um país com visão a prazo, se os
dirigentes políticos das últimas décadas tivessem olhado para a floresta
como um investimento de tempo longo, que exige paciência, manutenção
e ordenamento, talvez não vivêssemos o desespero destes dias. Talvez
250 mil hectares de pinhal não tivessem sido varridos do mapa nos últimos
40 anos, talvez pudéssemos estar a usufruir das benesses do «petróleo
verde» que muitos economistas nos anos oitenta garantiram ser um dos
esteios do futuro económico do país.
O que aconteceu foi exactamente o contrário. Ninguém foi capaz de olhar
para a floresta para além do horizonte próprio do ciclo político. Realizaram-
se centenas de seminários, redigiram-se milhares de papéis com
brilhantes diagnósticos, promoveram-se presidências abertas e chegou-se
até a aprovar por unanimidade uma lei de bases do ordenamento florestal
no Parlamento. Mas sempre que chegou a hora de lançar políticas, sempre
que se teve de mexer com interesses, a burocracia do Estado e o interesse
político minaram o processo. Hoje, com milhares de pessoas aflitas pelo
avanço das chamas e centenas de proprietários desolados com as perdas
dos seus investimentos fazemos o que é habitual fazer: procurar culpados,
sem reflectir que a nossa propensão para viver o curto prazo e a nossa
impaciência para investir no futuro são a matriz genética da negligência
com que os poderes públicos olham para a floresta.
Só isso pode explicar um absurdo: o de um país pobre que todos os anos
pelo Verão vai desbaratando o seu mais importante recurso natural
renovável, a base de uma das suas mais competitivas indústrias que em
2001 rendeu 2,7 milhões de euros. Temos o essencial: clima óptimo, 25
milhões de hectares incultos, indústria e saber fazer. Falta-nos o acessório:
incentivos para investir em bens que demoram anos a gerar lucros,
reformas que promovam o emparcelamento das propriedades e que
penalizem os produtores negligentes, mudanças políticas que libertem a
excelente tecnocracia da administração florestal do monstro burocrático
em que se transformou o Ministério da Agricultura. Deixado, assim, sem
dono político, sem estratégia nem investimento, o pinhal que herdámos
continuará a arder sem controlo. Nesta tragédia repetida até à náusea
todos os verões, só a exemplar entrega e abnegação dos bombeiros fica
bem na fotografia.

In Público, 3/8/2003

1. O texto apresentado é iniciado por uma breve narrativa. Explica a


função dessa narrativa. [15 pontos]
2. Refere as críticas que o autor dirige às políticas portuguesas seguidas
durante os últimos quarenta anos. [15 pontos]
3. Enumera as orientações políticas fundamentais, segundo o artigo, para
pôr cobro à tragédia dos incêndios. [15 pontos]
4. «... a exemplar entrega e abnegação dos bombeiros fica bem na
fotografia.» (l. 58 e 59)
Comenta o sentido produzido pela metáfora presente na frase transcrita.
[20 pontos]
5. Interpreta o sentido da afirmação: «... a nossa propensão para viver o
curto prazo e a nossa impaciência para investir no futuro são a matriz
genética da negligência com que os poderes públicos olham para a
floresta. (l. 37 a 40). [20 pontos]
6. Num texto constituído por sessenta a cem palavras, identifica as razões
que levam o autor do texto a atribuir-lhe o título “Somos todos culpados”.
[25 pontos]

II

1. De acordo com o respectivo contexto, indica o valor das expressões


extraídas do texto. Regista, na folha de resposta, ao lado do número da
frase, a alínea correspondente. [20 pontos]

1.
“por unanimidade” (l. 28 e 29)
a) por votação geral
b) com o consenso de todos
c) por voto secreto
2.
“excelente tecnocracia” (l. 52)
a) tecnocracia optimizada
b) tecnocracia constrangedora
c) tecnocracia generalizada
3.
“monstro burocrático” (l. 53)
a) fantasma da burocracia
b) monstro administrativo
c) animal fantasmagórico
4.
“repetida até à náusea” (l. 57 e 58)
a) repetida exaustivamente
b) repetida com frequência
c) repetida inúmeras vezes

2. Faz corresponder a cada um dos quatro elementos da coluna A um


elemento da coluna B, de modo a obter afirmações verdadeiras. Escreve,
na folha de resposta, ao lado do número da frase, a alínea correspondente.
[20 pontos]

A B
A. o enunciador visa estabelecer
conexões de consequência.
B. o enunciador estabelece
1. Com o uso da expressão
conexões de causa.
«... para além do horizonte
C. o enunciador visa expressar
próprio do ciclo político.» (l.
semelhança.
24 e 25),
D. o enunciador visa restringir
2. Com o uso da expressão
uma ideia que considera
«Mas sempre que chegou a
relevante.
hora...» (l. 30 e 31),
E. o enunciador visa indicar
3. Com o uso da expressão
determinada ordenação.
«Só isso pode explicar...» (l.
F. o enunciador visa manifestar a
41),
ideia de oposição com o referido
4. Com o uso da expressão
anteriormente.
«... só a exemplar entrega...»
G. o enunciador visa restringir um
(l. 58),
elemento importante.
H. o enunciador retoma uma ideia
já expressa para manifestar a sua
concordância.
III

O conteúdo das publicidades, veiculadas pelo conjunto imagem/texto,


comunica mensagens sobre o produto, ora incidindo nas suas qualidades –
utilidade, fiabilidade, segurança, autenticidade, preço... –, ora associando-
o a valores. No primeiro caso, trata-se de publicidades que tranquilizam o
consumidor; no segundo, de campanhas que afastam o consumidor do seu
universo quotidiano e o fazem sonhar: criando um universo mítico, estas
publicidades apresentam quase sempre um mundo de sucesso, perfeito,
ideal, exótico, e põem em cena personagens que suscitam um desejo de
identificação no consumidor.

Mariel Morize-Nicolas – dir., Français 3, Parcours méthodiques,


Paris, Hachette – Education, 1999

Num texto bem estruturado, constituído por duzentas a trezentas palavras,


apresenta uma reflexão sobre a tese relativa ao conteúdo das
publicidades, exposta no texto acima transcrito. Para fundamentar o teu
ponto de vista, deves recorrer, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando
cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo. [50 pontos]