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1

Introdução
O presente trabalho trata da conquista espanhola de territórios e povos americanos.
Com ênfase nos aspectos histórico e jurídico, a explanação focará nos avanços conquistados
por Frei Francisco de Vitória, ilustre pensador de Salamanca, e seus reflexos para o status
dos índios e do Direito Público Internacional.
A Reconquista, a expansão ultra-marina e a invasão à américa foram os eventos que
culminaram na prática escravagista de Colombo e toda a questão jurídica que se encerra na
caracterização dos índios como súditos da coroa espanhola.
Contudo, a figura da guerra justa foi amplamente manipulada para legitimar a
dominação do povo e sua consequente escravização. Vitória, com base num pensamento
tomista, usa do Direito das Gentes e inova ao estabelecer um novo universo jurídico de
pactuação da maioria.
Portanto, o trabalho versa a respeito da lógica aplicada por Francisco de Vitória, bem
como as razões que caminharam para a construção da problemática enfrentada.
1. O Aspecto Histórico
A Reconquista
A Reconquista, grande movimento dos reinos critãos na Península Ibérica em regiões
dominadas pelos mouros, foi uma das situações que podemos eleger como precedente
adequado da conquista do continente americano
1
.
Ao longo da fronteira entre cristianismo e islã, a Reconquista foi uma guerra que
ampliou os limites da fé e uma busca por expansão territorial, que foi conduzida e
regulamentada em meio a um processo que obtinha vassalos e vastas áreas de terra. Guerra
de fronteira, consistiu na tática de ataques rápidos e específicos, na busca por saques fáceis –
opotunidades de lucro no resgate e escambos – e de recompensas mais intangíveis, como
honra e fama.
Além da migração de rebanhos e pessoas de encontro com novos lares e pastagens, a
Reconqista englobou um processo de povoamento e colonização controladas, com base na
fundação de cidades, amplas extensões territoriais sob garantia real.
Portanto, conquistar podia significar colonizar, mas também assaltar, saquear e
seguir adiante. No primeiro sentido, conquistar é a primazia pela ocupação e exploração da
terra. A conquista no segundo sentido concebia o poder e a riqueza de uma forma muito
menos estática – em termos de posse de objetos de fácil transporte, como ouro e pilhagem
2
.


1
Cfr. ELLIOTT, John Huxtable. A Conquista Espanhola e a Colonização da América in: BETHEL, Leslie (org.);
AMAZONAS LEITE DE BARROS, Mary; LOPES, Magda (trads.). História da América Latina: América Latina
Colonial. 2. ed. 2. Reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. 1 v. p. 135.
2
Id. Ibidem. p. 138.
2


A expensão marítima
A Reconquista foi interrompida mas não concluída ao atingir seus limites naturais na
própria Península Ibérica. À medida que foram alcançados os limites da expansão internas,
as forças dinâmicas da sociedade ibérica medieval começaram a buscar novas fronteiras no
além-mar – os catalães e os aragoneses principalmente na Sicília, na Sardenha, no norte da
África e no leste mediterrâneo; os castelhanos, na África e nas ilhas do Atlântico
3
.
O movimento expansionista dos ibéricos no século XV foi um reflexo ao mesmo
tempo de aspirações especificamente ibéricas e de aspirações européias mais gerais do final
da Idade Média. A Península Ibérica, com sua proximidade da África e sua longa costa
atlântica, estava geograficamente bem situada para assumir a liderança de um movimento de
expansão para o oeste, numa époce em que a Europa estava sendo bloqueada em suas
fronteiras orientais.
A expansão ultramarina foi além da construção de postos de comércio
4
como
aconteceu com os portugueses nas ilhas do Atlântico. Para instalar plantações de cana-de-
açúcar, como nos Açores, foi necessário colonizar. No caso, o método mais barato do ponto
de vista da coroa portuguesa era delegar a responsabilidade do povoamento e
desenvolvimento de territórios a particulares, que seriam recompensados com amplos
privilégios. Esse sistema, pelo qual o donatário era também o capitão e comandante,
mesclava elementos capitalistas e senhorial-militares da sociedade mediterrânea medieval.
Foi empregado pela coroa portuguesa no século XV para desenvolver Madeira e Açores e
em 1534 seria estendido ao Novo Mundo, quando Dom João III dividiu a linha costeira em
doze capitanias.
Por conseguinte, no final do século XV, quando os castelhanos voltaram sua atenção
para os novos mundos, tinham os precedentes portugueses e suas próprias experiências na
reconquista para basear suas estratégias. Podiam comerciar ou podiam invadir; podiam
estabelecer ou seguir adiante. A escolha que fizessem seria determinada em parte pelas
condições locais – a facilidade da ocupação, a natureza dos recursos a explorar – e em parte
pela combinação específica de indivíduos e interesses que sustentavam e controlavam as
expedições de conquista
5
.
Muita coisa dependia, inevitavelmente, do caráter do comandante e do tipo de apoio
que era capaz de obter. O conquistador, embora extremamente individualista, nunca estava
só. Fazia parte de um grupo sob o comando de um caudillo, um líder. O caudillo tinha a um
mesmo tempo de atender às exigências de seus financiadores e satisfazer as expectativas do

3
Id.
4
O aspecto mais característico do estilo de português de expansão foi a feitoria, o posto de comércio
fortificado. O uso da feitoria tornou possível prescindir da conquista e colonização em larga escala, e deu aos
portugueses dos séculos XV e XVI a oportunidade de estabelecer sua presença em vastas áreas do globo sem
a necessidade de penetrar muito no interior dos continentes. Era um estilo de colonização que Colombo, com
sua formação genovesa e sua experiência portuguesa, chegou a conhecer bem e que lhe proporcionaria um
modelo óbvio quando chegasse às ilhas do mar dos Caraíbas. Id. p. 141.
5
Id. p. 142.
3


grupo não menos individualista de homens que se haviam colocado temporariamente sob
seu comando. Consequentemente, a tensão era parte integrante de toda expedição de
conquista – tensão quanto aos propósitos e objetivos e quanto à distribuição dos espólios.
A presença de um Estado intrusivo seria fundamental para todo o desenvolvimento
da empresa ultramarina de Castela. A ocupação das Canárias, um ponto de parada natural na
rota para as Índias, ilustra a conjunção entre interesse público e privado que havia
caracterizado a reconquista e viria a caracterizar também a empresa da América. O domínio
sobre as ilhas pertencia à coroa , que desse modo devia autorizar todas as expedições de
conquista. Nessa ocasião, a coroa também participou do financiamento do empreendimento,
mas Fernández de Lugo, nomeado pela coroa adelantado de Las Palmas, fez seu próprio
contrato particular com uma companhia de comerciantes sevilhanos. Antes de partir uma
expedição, era assinado um contrato formal, ou capitulación, entre a coroa e o comandante,
em termos análogos aos de contratos semelhantes feitos durante o processo da reconquista.
Nessas capitulaciones a coroa se reservava certos direitos nos territórios a ser conquistados,
ao mesmo tempo em que garantia privilégios e recompensas específicos ao comandante e
aos que se associassem a sua companhia.

Novo Mundo
Em 3 de agosto de 1942, quando Colombo partiu do porto andaluz de Palos, já estava
obviamente antecipado que, se alcançasse as “Índias”, ele estabeleceria um comércio de
entreposto no estilo português em benefício da coroa de Castela. Porém, as notícias que
trouxe ao retornar – a revelação do que pareciam ser novas ilhas e novos povos suscitou
importantes questões sobre direitos às terras e sobre o tratamento a ser dispensado aos
habitantes.
Os Reis Católicos se dirigiram ao papado – segundo o precedente estabelecido pelos
portugueses que haviam assegurado uma doação formal do papa de direitos de soberania “do
cabo do Bojador até Guiné e além” – e obtiveram direitos em “todas e quaisquer ilhas e
continentes, encontrados ou a encontrar” na área além da linha de demarcação que foi
formalmente ajustada entre as coroas de Portugal e da Espanha no Tratado de Tordesilhas
em 1494
6
.
A coroa, depois de procurar assegurar sua primazia na arena internacional, buscou
também garantir a primazia na aventura de Colombo. Dessa forma, já em 1493, novos
elementos entravam em cena para modificar ou transformar a empresa original das Índias. O
comércio e a exploração continuaram sendo componentes importantes do empreendimento;
e a instalação de uma colônia permanente nas Antilhas estava em estreita sintonia com o
estilo genovês-português de atividade ultramarina, como já era praticado em Madeira e ao
longo da costa da África. Mas as antigas tradições castelhanas da reconquista também
tendiam a afimar-se, em parte pelo fato de que o mundo recém descoberto das Antilhas
parecia densamente povoado por uma população não cristã que possuía objetos de ouro.

6
Id. p. 149
4


Em meio à diversidade de opções que estavam a seu alcance, Castela caminhava para
uma que significava a conquista em larga escala na tradição peninsular medieval – a
afirmação da soberania, o estabelecimento da fé, a imigração e colonização, e um domínio
amplo da terra e do povo.
Os espanhóis retornaram às Antilhas com ideias bem definidas. Queriam sobretudo
ouro. Contudo, a quantidade de ouro que deveria provir do escambo com os índios revelou-
se bastante desapontadora, e Colombo, ansioso por justificar os investimentos a seus
soberanos, tentou completar a insufuciência com outra mercadoria, os próprios índios. Ao
enviar índios caraíbas à Espanha para serem vendidos como escravos, Colombo colocou de
forma aguda a questão do status a atribuir à população indígena
7
.
Em 1500, os espanhóis declaram os índios “livres e não sujeitos à servidão”,
equiparando-os aos súditos de Deus e da coroa. Entretanto, ainda era possível escravizar os
índios mediante a “guerra justa”, que tornava-os escravos legítimos.
Passada a primeira fase da conquista militar, o regime de trabalho adotado para o
trabalho dos índios foi principalmente o de encomendas.
Portanto, os espanhóis apresentaram dois tipos de reações perante os índigenas:
consideram-lhes iguais no plano divino e estatal, sugerindo uma postura assimilacionista;
Por outro lado, consideram-lhes inferiores, quando sua vontade foi imposta pelo simples uso
da autoridade e violência
8
.

2. O Aspecto Jurídico: Os Títulos Espanhóis
A juridicidade da operação de conquista do continente americano pelos espanhóis foi
fixada antes mesmo da própria ocupação
9
. A Bula Inter Caetera outorgou soberania,
jurisdição e domínio à coroa espanhola sobre o Novo Mundo, com a contrapartida do envio
de “varões” capazes de instruir os habitantes na fé católica. A contestação portuguesa
encerra, aparentemente, o assunto em 1494 no Tratado de Tordesilhas.
Os espanhóis, usaram de ferramentas jurídicas para consolidar e justificar sua dominação
e exploração sobre os habitantes locais. O trabalho forçado foi juridificado. Além do
trabalho escravo, destacam-se as encomiendas, um regime de cobrança de tributos traduzido
por JUAN DE SOLÓRZANO RANGEL:

“La encomienda está baseada en dos supuestos: el indio es hombre libre, no
objeto de esclavitud, pero es vasallo de la corona, a la que debe pagarle tributo.
El indio encomendado paga ese tributo debido al Estado, al encomendero que,

7
Id.
8
MOREIRA DA SILVA FILHO, José Carlos. Da “Invasão” da América aos Sistemas Penais de Hoje: O Discurso da
“Inferioridade” Latino-Americana in: WOLKMER, Antonio Carlos (org.). Fundamentos de História do Direito. 4.
ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2007. p. 277.
9
FERNANDES PIRES, Sérgio Luiz. O aspecto jurídico da conquista da América pelos espanhóis e a
inconformidade de Bartolomé de Las Casas in: WOLKMER, Antonio Carlos (org.). Direito e justiça na América
indígena : da conquista à colonização. Porto Alegre : Livr. do Advogado, 1998. p. 64.
5


por merced real, recibe ese beneficio en compensación de los servicios que ha
prestado a la Corona. Ahora bien, ese tributo es pagado por los indios en
especie, es decir con el producto de sus campos o en servicios personales o
trabajo en las tierras o minas de los encomenderos. La encomienda no implica,
entonces, ni propriedad sobre los indios (vasallos libres), ni propriedad sobre
sus tierras; sino usufructo de su trabajo, obtenido por productos de la tierra de
los indios o de las faenas realizadas por éstos en las propriedades (plantaciones
o minas) de los encomenderos. Estos, a su vez, tienen la carga de cristianizar a
los indios y de protegerlos”.
10


Pode-se perceber que a soberania estatal atrelada à concessão da igreja e o status do
indígena eram os temas centrais da época.

Francisco de Vitória
A Escola de Salamanca torna-se o centro do debate filosófico, teológico, jurídico e
político a respeito do status e tratamento dos indígenas e, num certo sentido, torna-se a
precursora do jusnaturalismo moderno, mesmo que ainda esteja ligada à escolástica e ao
tomismo. Francisco de Vitória, teólogo e frade dominicano, é considerado fundador e
símbolo máximo da escola
11
.
Coube a Francisco de Vitória a capacidade de formular o Direito Internacional Público.
Frade dominicano e professor da Universidade de Salamanca, soube descrever o declínio da
autoridade papal nas relações internacionais, mas sem superar sua cosmovisão cristã e
tomista, onde a figura de Cristo é o princípio e o fim
12
.
A discussão de Vitória recai na avaliação da licitude das guerras contra os índios, tendo
em vista que a “guerra justa” era uma prática de escravização. Conclui que todos os títulos
apresentados pelos espanhóis para se apropriarem da América até então eram ilegítimos
13
e
apresenta aqueles que estariam legitimados.

Guerra justa
O confroto da teologia, e sua mensagem pacificadora, e a prática violenta da guerra
parecem ser inconciliáveis. Santo Agostinho coordena a relação entre fraternidade e a
legítima defesa contra a injustiça praticada. De acordo com o pensador, a guerra é necessária
e justa quando serve para vingar a injustiça, e acima de tudo obter a paz
14
. Posteriormente,

10
LA TORRE RANGEL, Jesus Antonio de. El uso alternativo del derecho por Bartolomé de Las Casas.
Aguascalientes: Universidad Autonoma de Aguascalientes, 1991, p. 20-21. In: WOLKMER. Ibidem. p. 67.
11
LIMA LOPES, José Reinaldo de. O Direito na História: Lições Introdutórias. 4. Ed. São Paulo: Atlas, 2012. P.
169-171
12
Cfr. RUIZ, Rafael. Francisco de Vitória e os direitos dos índios americanos: a evolução da legislação indígena
espanhola no século XVI. Porto Alegre: Editora PUCRS, 2002. p. 8.
13
Id. Ibid. p. 171.
14
Cfr. NIGRO MAZON, Regina Bárbara. Frei Francisco de Vitória: Sua contribuição ao direito internacional no
concernente à “releccio de indis” e “releccio de jure belli”. São Paulo: USP, 1985. p. 122-124.
6


seguindo o mesmo raciocícninio, Santo Tomás de Aquino estabeleceu os requisitos da
guerra justa: a autoridade legítima; a justa causa; a reta intenção
15
.
Vitória permanece fiel à tradição sem abandonar os aspectos e questões de seu tempo
– cabe destacar a surgimento do Estado Nacional, que diverge do pensamento escalonar e
corporativista do pensamento medieval
16
– e aplica o instrumental supracitada para avaliar a
legitimidade dos títulos espanhóis na conquista do Novo Mundo.

Autoridade
Autoridade do Imperador
Doutor em artes e teologia pelo Colégio de São Clemente de Bolonha, além de ter
estudado direito e filosofia na Universidade de Bolonha
17
, Juan Gines de Sepúlveda afirma
que o imperador possui um dever de conquistar as Índias e um mandato de Jesus Cristo,
através da Igreja, para propagar a fé
18
. Esta seria a justificativa legitimadora da conquista
espanhola
19
.
De acordo com Vitória, o título que fundamenta a autoridade do imperador deve
respeitar a distinção entre a ordem civil e a ordem eclesiástica das coisas. Sem se anularem,
mas de forma complementar – o lícito não pode ser incompatível com a lei de Deus –, essas
eram as duas ordens jurídicas na concepção de seu tempo
20
.
De origem natural e divina – criação de Deus –, e humana – relacianada aos diferentes
povos e tempos –, a natureza do poder estaria além da vontade humana. Dessa forma, todos
os reis, imperadores e príncipes dos povos são soberanos em mesmo grau de hierarquia e
importância. Surge aqui a ordem internacional de nações independentes e sem direito de
superposição de uma frente a outra. Contrário ao imperialismo, Francisco de Vitória
estabelece os pilares do internacionalismo
21
. Destarte, na ordem natural, não há poder
soberano superior a outro poder soberano
22
.

15
Id. Ibid. p. 124.
16
Cfr. LIMA LOPES. Ibidem. p. 164-165; NIGRO MAZON. Ibidem. p. 176-181.
17
MOREIRA DA SILVA FILHO. Ibid. p. 287.
18
NIGRO MAZON. Ibidem. p. 50-52.
19
Na concepção de Sepúlveda, a conquista configura ato emancipatório, pois permitiria ao índio, tido como
bárbaro na concepção aristotélica, sair de sua barbárie. E para a realização desse feito admitiria-se o uso da
guerra justa. Curioso perceber que nesta visão o índio é duplamente culpado: por ser inferior e rejeitar a
cultura superior. MOREIRA DA SILVA FILHO. Ibid. p. 287; Cfr
20
GONZALEZ, Rafael Ruiz. Francisco de Vitória e a liberdade dos índios americanos: a difícil implantação dos
direitos humanos na América Latina. São Paulo: USP, 1991. p. 48.
21
Francisco de Vitória entende que o Direito das Gentes possui conotação mundial, sendo que suas
obrigações constituem um pacto do orbe ou sua maior parte. Além disso, considera que o Direito das Gentes
estabelece a lei e a justiça entre todas as pessoas e países. Sua finalidade é a consecução do bem comum da
humanidade. O bem comum do orbe é o elemento determinante das práticas interestatais. VITÓRIA,
Francisco de. Os índios e o direito da guerra: de indis et de jure belli relectiones. Rio Grande do Sul: Unijuí,
2006. p. 20-24; Vitória vai interpretar a tradição tomista do Direito das Gentes tornando-o um Direito Positivo
cuja as normas não podem ser abolidas da mesma forma que as do Direito Positico, pois o pacto do orbe
7


Pelo direito divino, o imperador não encontra conclusão diversa, pois seria impossível
provar que Cristo teria atribuido soberania universal sobre questões temporais a Carlos V,
ou seja, seria inadmissível utilizar da lei divina como título legítimo. Quanto ao direito
positivo, não havia herança, compra ou eleição ou jurisdição capaz de ceder a América ao
Imperador
23
.

Autoridade do Papa
No campo do poder eclesiástico, as Bulas Papais seriam outros títulos que legitimariam a
conquista espanhola. A principal questão é avaliar se conferem além do poder espiritual a
aquisição da soberania da América.
O requerimiento foi um texto elaborado pelo jurista Palacio Rubis em 1514. Deveria ser
lido a toda comunidade indígena prestes a ser invadida. Primeiramente, anunciava ser Jesus
Cristo “senhor supremo” ou “chefe da linhagem humana”. A partir disso: Jesus transmitiu
seu poder a São Pedro, que por sua vez o transmitiu ao primeiro Papa, e, assim por diante, o
poder dos sucessivos Papas estava justificado. Como o última Papa conferiu o continente
americano aos espanhóis e parte aos portugueses, estaria justificada a possessão do rei da
Espanha sobre aquelas terras. Aos índios era dada uma oportunidade de acatar à dominação
e não sofrerem com o direito dos espanhóis de escravizá-los. Caso contrário, seriam
severamente punidos e escravizados
24
.
Pecebe-se que os espanhóis utilizavam da Bula como título de aquisição de soberania.
Por isso, Vitória examina a autoridade temporal do Pontífice romano
25
.
Primeiramente, não sendo mestre temporal do mundo, o Papa não pode pretender tal
poder de outorga pelo direito natural, divino ou positivo. Mesmo que Cristo tenha possuído
este poder temporal, não haveria como tê-lo transmitido ao Papa sobre os infiéis
26
.
Na hipótese contrária, na qual o Papa tem poder universal, não poderia transmitir aos
príncipes seculares, pois comprometeria seus sucessores de forma contrária ao princípio de
que um Papa não pode ser inferior ao seu predecessor.
Por fim, não possuindo poder temporal sobre os bárbaros ou outros infiéis e estando seu
poder epiritual restrito à Igreja, não há como o Papa delegar tais poderes, sem contrariar a
regra jurídica de que “nemo plus iuris ad alium transferre potest quam ipse habet”
27
.
Portanto, para Vitória, a Bula estabelece o monopólio espanhol para o ensino do
Envagelho na América. Dessa forma, Vitória descaracteriza todo o discurso traduzido no

confere ao Direito das Gentes o status de algo que “é direito natural ou deriva do direito natural”, ou seja, é
algo pactuado pelos homens, porém de elevada autoridade. Id. p. 18. Tal raciocínio deriva da tradição tomista
que hierarquiza as leis em: lei eterna, do divino; lei natural, manifestação da lei eterna no homem; lei divina
positiva, lei de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. Id. p. 17.
22
GONZALEZ. Ibid. p. 49.
23
NIGRO MAZON. Idid. p. 52-53.
24
MOREIRA DA SILVA FILHO. Ibid. p. 284.
25
GONZALEZ. Ibid. p. 59-64.
26
GONZALEZ. Ibid. p. 52.
27
D. 50.17.54
8


requerimiento e estabelece uma das formas com que os espanhóis poderiam se dirigir
legitimamente à américa.

A justa causa
Fundamentado no Direito Natural, no Direito das Gentes e na concepção do orbe, a
reparação de injustiças entre as nações é legitimada pela guerra justa. Para saber qual a
causa justa, o Príncipe deve se aconselhar com pessoas independentes e criteriosas, o que
garantiria uma manifestação de opinião sem paixões, buscando pela certeza da
inevitabilidade do conflito e da proporcionalidade da guerra em relação à injustiça sofrida,
segundo Vitória
28
.
Com isso, a violação ao direito natural de convivência e direito de evangelização, com
base no dever de defender os inocentes – direito natural de solidariedade ou intervenção
humanitária – legitimar-se-ia a guerra contra os indígenas e a presença espanhola
29
.
Dessa forma, Vitória legitimou um tipo de guerra que possibilitou o aprisionamento dos
derrotados e sua mercantilização como escravos. Indiretamente, a prática escravistas
reconquistou sua força na cobiça do conquistador e incapacidade e desinteresse de
fiscalização da coroa.

A reta intenção
Para que haja uma guerra justa é necessária uma conduta que almeja o bem público, pois
esta é precisamente a finalidade da guerra justa.
Tal classificação é fundamental, pois uma guerra pode ser dirigida pela autoridade
competente, de justa causa, mas, se não conduzida de maneira a conformar a paz, será,
contudo, uma guerra injusta.
Cabe ressaltar que tal conceito é construido não para justificar a guerra em si mesma,
pois não é, legitimamente, um fim, mas um meio para a paz.

Bartolomé de Las Casas
Las Casas defende que a cobiça e ambição degenerou os conquistadores, pois
cometeram maldades conra os índios
30
. Trata os índios como dotados naturalmente de
virtudes cristãs
31
, sendo obedientes e pacíficos.
Frei Bartolomé polarizou índios e espanhóis na dualidade fiel/infiel. Nessa divisão
maniqueísta, ao índio recaí o pólo valorizado fiel, aos que comandavam as encomendas e
realizavam guerras, o desvalorizado pólo do infiel
32
.
Além disso, Las Casas relativiza a noção de barbárie. Para contra-argumentar
Sepúlveda e com base no próprio Aristóteles, subdivide o conceito em: (i) natureza

28
Cfr. Supra nt. 20.
29
LIMA LOPES. Ibidem. p. 172.
30
LAS CASAS, Fray Bartolomé de. Tratados. 1. ed. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1997.
31
Cfr. MOREIRA SILVA FILHO. Ibid. p. 287
32
Id. p. 288.
9


irracional, feroz, cruel e de entendimento confuso; (ii) aqueles que são cruéis, ferozes e anti-
sociais em função dos maus costumes e não possuem leis nem regras; (iii) Aquele que
carece da fé cristã; (iv) impossibilidade de comunicação. O motivo que os gregos tiveram
para chamar outros povos de bárbaros foi a má pronuncia da língua grega. Deste modo, os
índios, também consideram os espenhóis como bárbaros. Além de pronunciar mal a língua
ameríndia, os espenhóis eram ferocíssimos, duríssimos, enquanto que os índios não
apresentavam o estudo das letras, mas possuíam reinos, obediência, regiam-se por leis e
justiça
33
.
Dessa forma, Bartolomé de Las Casas deslegitima qualquer título de privação de
liberdade índigena. Tendo em vista o uso desvirtuado da guerra injusta e os efeitos das
encomiendas, eleva a defesa aos índios a todos os extremos.
TODOROV combate a visão de Vitória como um defensor dos índios, pois o impacto
de seu discurso tem papel diverso das intenções de seu sujeito: com o pretexto de um direito
internacional fundado na reciprocidade, fornece, na verdade, uma base legal para as guerras
de colonização
34
.
Por outro lado, Las Casas defendeu-os ao extremo, chegando mesmo a propor o fim
do domínio na América e da prática de guerra contra os colonos que quisessem
permanecer
35
.

3. Conclusão
A reconstrução do aspecto histórico evidencia as origens de certas práticas institucionais
do processo de dominação da América. Mais que isso, a análise da Reconquista esclarece o
pensamento religioso e territorial que preenchiam o imaginário das cúpulas de poder de
Madrid.
Com a expansão territorial conquistando os mares, a empresa de exploração
mercantil se estruturou e conquistou novas facetas jurídicas. A chegada no Novo Mundo foi
capaz de rememorar as práticas de expulsão dos Mouros. Porém, nessa nova situação, o uso
da força de trabalho local foi algo em frequente debate.
Francisco de Vitória se mostrou hábil em desconstruir o discurso papal-imperial
representado em Sepúlveda, que o utilizava para legitimar a guerra justa e a relação de
submissão imposta aos índios.
O uso da doutrina clássica da guerra justa, a evolução da concepção de direitos
naturais e o desenvolvimento das concepções de Estado nacional e soberania possibilitaram
ao Frei a capacidade de pré-inaugurar uma nova era do pensamento jurídico. Apesar de
preso às finalidades Cristãs, que sempre direcionavam seu pensamento, Vitória foi capaz de
perceber e garantir um discurso próprio aos Monarcas, diferentemente do costume medieval
verticalizado, com a adoção do conceito horizontal do orbe.

33
Id. p. 290, nt. 36.
34
TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.
147.
35
MOREIRA DA SILVA FILHO. Ibid. p. 290.
10


Dessa forma, Francisco de Vitória foi capaz de reconstruir um pensamento a respeito dos
índios, sua natureza e direitos. Com isso, modificou o status jurídico daqueles povos e
tornou injustificada muitas das formas de exploração.
11


BIBLIOGRAFIA
ELLIOTT, John Huxtable. A Conquista Espanhola e a Colonização da América in: BETHEL, Leslie (org.);
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