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A Cena
no Café
Braga e Coimbra
mindelact09
imagens de um festival
À conversa com
Walter Cristóvão
editorial
É uma das notícias deste cenaberta: Abel Neves venceu a III edição do Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva. A discrição com que o acontecimento foi divulgado nos órgãos de comunicação social dos dois países, para além de particularmente injusta para o premiado, é um bom exemplo da forma como as relações de cooperação cultural entre os países de língua portuguesa têm sido pensadas e concretizadas.
Nos anos de 2005 e 2006, foram assinados cinco acordos, programas e proto- colos de cooperação cultural entre Portugal e o Brasil, envolvendo os Ministérios
dos Negócios Estrangeiros e da Cultura dos dois países, bem como instituições que deles dependem: o Instituto Camões e o Instituto das Artes, do lado português, e
a Funarte, do lado brasileiro. Os objectivos, comuns a todos os documentos, são
claros: “encorajar o diálogo cultural bem como o intercâmbio, a circulação, a in-
vestigação e a produção artística”. Quatro anos depois, seria útil avaliar a execução concreta destes acordos, para além das boas vontades formalmente expressas. E perceber que a instituição de um Prémio, por importante que seja, parece real- mente pouco para tanta preparação anterior e tantas declarações de intenção. Mas
é ainda mais intrigante que, havendo um resultado concreto destas parcerias, ele
seja tão timidamente divulgado por quem o cria e não sejam aproveitadas todas as suas potencialidades. Uma co-produção entre Portugal e o Brasil, a partir de um texto seleccionado por um júri luso-brasileiro, patrocinado por instituições oficiais, deveria ser um acontecimento ímpar na vida teatral dos dois países, capaz de dar visibilidade e de incentivar outras formas de intercâmbio e de cooperação, deveria ter um efeito galvanizador e assumir-se como projecto exemplar.
Ao nível multi-lateral, a situação não difere muito. As cimeiras dos Minis- tros da Cultura dos países da CPLP são momentos-chave para a definição e a prossecução de uma estratégia cultural comunitária. Desde 2000, os Ministros reuniram-se oficialmente por seis vezes. Dessas reuniões resultaram sempre decla- rações oficiais. Na primeira delas, realizada no Estoril, em Maio de 2000, convocada pelo ministro português Manuel Maria Carrilho, foi mesmo assinado um importante Plano de Acção (transcrito nas páginas deste cenaberta), com medidas sectoriais consideradas fundamentais para “o fomento dos intercâmbios culturais, o reforço dos laços históricos e a promoção de iniciativas comuns que valorizem o espaço de expressão linguística comum a que pertencem”. Passados sete anos, na última des- tas cimeiras, na cidade da Praia, os responsáveis pela Cultura dos países da CPLP reconheciam, no entanto, as “dificuldades diversas constatadas na implementação das Declarações de Estoril a Bissau” e voltavam a apresentar como projectos várias das iniciativas consideradas prioritárias em 2000. Assim, a pequena história destas cimeiras acaba por ser um clarificador diagnóstico.
Como uma das instituições que há largos anos trabalham na concretização de circuitos de intercâmbio, de co-produções, de planos de formação, de redes es- táveis de cooperação, atrevemo-nos a apontar uma das principais razões para esta discrepância entre os discursos oficiais e as condições e a atenção que são dadas aos agentes no terreno. A actuação dos organismos responsáveis pela aplicação das medidas politicamente enunciadas faz-se demasiadas vezes de costas voltadas para aqueles que as podem tornar concretas – no caso, os artistas e as estruturas de criação. Sem eles, sem o seu envolvimento activo, não adiantará nunca pensar-se em estreitar laços culturais.
É por isso que, na altura em que retomamos a nossa actividade regular e em que, por coincidência, vários dos países da CPLP estão a iniciar novos ciclos políti- cos da sua vida democrática, organizamos em Coimbra o Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. Para que, com o contributo de todos, através de um indispensável diálogo entre decisores políticos e agentes culturais actuantes e situados no terreno, possamos começar a construir uma muito concreta, possível e frutuosa comunidade cultural de língua portuguesa.
Cena Lusófona
A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:
cenaberta ficha técnica
Director António Augusto Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Bap-
tista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | Revisão Sofia Lobo
| ISSN 1645-9873 | N.º 8 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber |
Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Tel. e Fax (+351) 239 836 679
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cenaberta 2
cenaberta
Dezembro 2009
Encontro Internacional sobre políticas de intercâmbio
Dez. 3 4 5 6 COIMBRA
O intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa tem sido objecto de várias resoluções oficiais, projectos de intervenção e iniciativas pontuais. Permanece, contudo, a sen- sação de que há muito por fazer na aproxima- ção e no inter-conhecimento entre os agentes
culturais dos diversos países e na capacidade de articular meios e vontades em nome deste in- teresse comum. Quando caminhamos para a celebração do 15.º aniversário da CPLP (em 2011), e num mo- mento em que vários dos oito palcos lusófonos (aos quais se junta, como parceiro privilegiado,
a Galiza) estão a iniciar um novo ciclo político
(Angola, Portugal, Guiné-Bissau e Moçambique),
a Cena Lusófona promove um encontro entre
responsáveis institucionais e agentes culturais,
ciente do papel relevante que o teatro pode de- sempenhar também enquanto instrumento de promoção da língua portuguesa. Tal como a Cena Lusófona, várias outras estruturas e personalidades têm desenvolvido projectos nesta área ao longo dos últimos anos. Por razões várias, o diálogo regular entre elas (condição basilar para uma intervenção susten-
tada, capaz de produzir resultados duradou- ros) nem sempre tem sido possível. Por outro lado, subsiste um grande desconhecimento, por parte das instituições oficiais, do trabalho que tem sido feito no terreno, mesmo, por vezes, dentro dos próprios países de onde emanam os projectos. O objectivo deste encontro é contribuir para ultrapassar estes constrangimentos. Sem o carácter oficial das cimeiras de Estados, mas com a vantagem de juntar à mesma mesa res- ponsáveis políticos, artistas e outros agentes com experiência no terreno, ele constitui uma oportunidade para que nos possamos ouvir mu- tuamente. A partir deste conhecimento refor- çado, e num contexto de diálogo informal, acre- ditamos que é possível realizar uma verdadeira reunião de trabalho, centrada não nos grandes princípios e estratégias de actuação, mas nas possibilidades concretas de articulação que es- tão ao alcance de todos. Uma tentativa, se quisermos, de descobrir os pequenos mas efectivos passos que temos de dar para conferir sentido e aplicabilidade aos compromissos que ciclicamente são assumidos.
A Cena Lusófona
Tal qual a CPLP, a Cena Lusófona nasceu também em 1996, na sequência de um programa de intercâmbio concebido
a convite do Governo Português.
Quisemos construir um programa inte- grado, capaz de encontrar âncoras em parceiros locais, de fomentar a partici- pação de todos os envolvidos, de criar raízes. Trabalhando com todos os países da CPLP, a Cena tem desenvolvido diversas actividades: circulação de espectáculos, planos continuados de formação, re- conhecimento e apoio à qualificação de espaços cénicos nos países africanos, constituição de Centros de Intercâmbio Teatral, edição e divulgação da drama- turgia de língua portuguesa, constituição de um Centro de Documentação e Infor- mação especializado, investigação sobre a tradição oral, organização de um festival itinerante pelos vários países, lançamento de pontes para o diálogo entre o uni- verso lusófono e a Galiza; a constituição, enfim, de uma comunidade cultural de
língua portuguesa, como base imprescin- dível para o inter-conhecimento, para a identificação das especificidades de cada caso, para a reciprocidade, para o tra- balho conjunto, para a cooperação e para
a solidariedade.
cenaberta 3
cenaberta
Declaração do Estoril
No âmbito do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, cenaberta publica a “Declaração do Estoril”, assinada em 2000, no final da primeira Reunião dos Ministros da Cultura da CPLP.
Os Ministros da Cultura da Comunidade dos Países de
Língua Portuguesa (CPLP) reunidos a convite do Governo Português, no Estoril, nos dias 5 e 6 de Maio de 2000:
a) Conscientes que a cultura de cada povo constitui a
força estruturante da sua identidade própria, formando
a consciência colectiva que lhe assegura continuidade
histórica e forjando o seu modo de percepção da vida e do mundo;
b) Tendo em conta que os povos que representam
partilham de uma herança histórico-cultural e linguística que os une, feita de um percurso comum de vários séculos que originou um património material e imaterial que urge
preservar, valorizar e difundir;
c) Cientes de que um tal património, tanto no que tem
de comum, quanto na sua imensa diversidade, representa um potencial decisivo para o aprofundamento e consolida-
ção das relações entre os povos, num espírito de com- preensão e tolerância, bem como para a afirmação desta Comunidade noutras áreas do Mundo;
d) Considerando ainda que a cultura deve constituir um
direito fundamental, cujo exercício se torna tanto mais importante, quanto é certo que contribui activamente
para o desenvolvimento da personalidade humana, para a
transmissão e aprofundamento de conhecimentos, saberes
e competências, para o respeito mútuo, bem como para
a concretização do pluralismo, da responsabilidade, da cidadania e da vivência democrática;
e) Certos também de que as actividades culturais cons-
tituem hoje importantes factores de desenvolvimento social e económico, pelo impacte directo e indirecto na criação de riqueza e de emprego;
f) Considerando que o fenómeno de globalização das
economias, a par dos avanços muito significativos das
tecnologias de informação e comunicação, podem diluir as matrizes culturais mais profundas, atentando contra uma diversidade que se impõe salvaguardar;
g) Decididos pois a contrariar um tal risco, através do
fomento dos intercâmbios culturais, do reforço dos laços históricos e da promoção de iniciativas comuns que
valorizem o espaço de expressão linguística comum a que pertencem.
Declaram:
1) O seu firme propósito em contribuir para que a CPLP
reforce a sua dimensão cultural, à qual se comprometem a
dar visibilidade acrescida, procurando para tanto associar aos seus esforços a acção da sociedade civil.
2) O seu empenho em levar a cabo iniciativas destina-
das a promover e valorizar a língua portuguesa, enquanto vasto património comum, intensificando as diligências com vista à sua utilização mais ampla e frequente em organiza- ções internacionais, bem como a sua cooperação com outras línguas nacionais de Estados-membros da CPLP.
3) O seu compromisso quanto à criação de redes e
parcerias transnacionais que desenvolvam projectos de
colaboração no domínio da cultura, contribuindo para uma política de cooperação eficaz e de longo prazo.
4) O seu propósito em envidarem esforços junto dos
membros competentes dos respectivos Governos no sen-
tido de ser facilitada a circulação de intelectuais, criadores, artistas e outros agentes culturais, dentro dos limites dos respectivos compromissos internacionais.
5) O seu empenho em diligenciar juntos dos membros
competentes dos respectivos Governos, bem como junto de órgãos dos espaços de integração a que pertençam,
no sentido de se reduzirem os obstáculos alfandegários à circulação dos bens culturais, no quadro das respectivas vinculações internacionais.
6) O seu acordo em concederem aos investigadores
e estudiosos do espaço da CPLP que se encontrem no
respectivo território, condições de acesso às fontes documentais, bem como aos bens culturais pertencentes às colecções públicas, idênticas às de que beneficiam os seus cidadãos.
7) A sua intenção de enfatizarem no plano interno o potencial das artes e da cultura, na sensibilização das gerações mais novas para a importância da protecção e promoção das respectivas identidades culturais. 8) O seu desejo de conferir uma nova dimensão estra- tégica à cooperação no sector cultural, aprofundando e desenvolvendo relações cada vez mais estreitas nesta área, num espírito de igualdade, respeito e tolerância. 9) A sua disposição em promoverem fora das suas fron- teiras acções conjuntas de difusão dos valores culturais comuns. 10) O seu propósito em diligenciarem junto de organiza- ções internacionais, incluindo as instituições financeiras, no sentido da obtenção de financiamento para a recuperação e valorização do património comum que se encontra ameaçado.
Plano de acção
Os Ministros da Cultura da CPLP manifestam ainda o seu profundo regozijo pela participação neste encontro de um representante de Timor-Leste, e afirmam a sua intenção de iniciar uma política de cooperação com o futuro Estado como forma de garantir a realização dos desígnios comuns. Acordam ainda em aprovar o Plano de acção anexo à presente Declaração, que reflecte a sua intenção de levarem a cabo, no mais curto espaço de tempo, efectivas acções de cooperação no domínio cultural. Mandatam, por último, o Ministro da Cultura de Portugal, com a colaboração do Secretariado Executivo da CPLP, para transmitir a presente Declaração à próxima Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, a decorrer este ano no Maputo.
Os Ministros da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reunidos a convite do Governo Português, nos dias 5 e 6 de Maio de 2000, no Estoril, com o objectivo de consolidarem e desen- volverem os laços que os unem no domínio cultural, decidem:
I – APROVAR O PRESENTE PLANO DE ACÇÃO, DESTINADO A PROMOVER AS SEGUINTES ACÇÕES COMUNS DE COOPERAÇÃO NO DOMÍNIO CUL- TURAL. I.1. – De âmbito global
a) a realização de reuniões anuais dos
Ministros da Cultura dos países da CPLP, em regime rotativo, determinando-se no final de cada reunião o local de realização da seguinte;
b) a instituição do dia 17 de Julho, data da
proclamação da CPLP, como o Dia da Cul- tura Lusófona, e a sua comemoração anual, incluindo diversas manifestações culturais concertadas entre os Estados-membros da
Comunidade, nomeadamente a leitura de um clássico da literatura em Português, em todos os Estados-membros da CPLP;
c) a realização regular de estudos e en-
contros técnicos, no âmbito das estruturas existentes em cada país, que sustentem as
decisões políticas a adoptar nas reuniões de carácter ministerial;
d) o reforço da colaboração institucional
entre as diferentes entidades por si tute- ladas;
e) a criação, pela CPLP, com a colabora-
ção com cada um dos Ministérios da Cul- tura, de uma página na Internet dedicada à
literatura e demais manifestações culturais dos Estados-membros desta Comunidade;
f) o funcionamento do Secretariado Exe-
cutivo da CPLP como elemento de ligação entre os Ministérios da Cultura dos vários países, encarregando-o desde já da prepa- ração da próxima reunião dos Ministros da Cultura em parceria com as entidades do país anfitrião;
g) a nomeação em cada Ministério da
Cultura, no prazo de 15 dias, da entidade ou do responsável pelo acompanhamento e implementação do Plano de Acção agora aprovado;
h) a inclusão de Timor-Leste em todos
os projectos a desenvolver no âmbito do presente Plano de Acção. I.2. – De âmbito sectorial I.2.1. A criação de um Fundo, denominado Fundo Cultural-CPLP, o qual poderá inte- grar, para além dos Ministérios da Cultura da CPLP, outras entidades de natureza pública e/ou privada, destinado a financiar:
a) Na área do Património
l acções de recuperação, salvaguarda e valorização do património móvel e imóvel,
representativo do passado histórico-cul- tural comum, aberto também à formação no âmbito da conservação e restauro, e que envolvam entidades de pelo menos três Estados-membros da CPLP;
l acções de cooperação no domínio do Direito do Património, nomeadamente
com a finalidade de combater o tráfico ilí- cito de bens culturais. b) Na área do Livro e das Bibliotecas
l edição e aquisição de livros para difusão
em bibliotecas públicas ou outras unidades documentais e que promova um maior conhecimento e intercâmbio das literatu- ras e culturas no espaço de língua portu- guesa;
l o estabelecimento de parcerias que possibilitem e dinamizem a participação de autores de língua portuguesa em feiras do livro e festivais internacionais;
l a criação de um projecto de apoio à ampliação de conteúdos em língua por- tuguesa, em linha, referentes às temáticas do livro e das bibliotecas, estabelecendo múltiplas ligações entre si, por forma a incrementar o acesso à informação biblio- gráfica e cultural de língua portuguesa em rede, sob coordenação técnica de Portugal em parceria com o Brasil.
c) Na área do Cinema e do Audiovisual
l projectos nas áreas da produção, dis- tribuição, promoção e formação nestas áreas, bem como acções de conservação
e restauro de obras cinematográficas, que
envolvam entidades de pelo menos três Estados-membros da CPLP. Com vista à instituição deste Fundo, é criada uma comissão técnica, constituída pelos responsáveis ou entidades a nomear,
nos termos da alínea g) do ponto I.1 do presente Plano de Acção, que, até ao final de Novembro de 2000 deverá elaborar
o projecto de regulamento, que incluirá
nomeadamente a proposta orçamental, a identificação das prioridades sectoriais e os valores percentuais a definir para cada sector, o seu modo de funcionamento e de gestão, os critérios de elegibilidade
dos projectos a financiar e a forma do seu financiamento. A referida comissão traba- lhará igualmente na elaboração do cro- nograma relativo à aplicação do presente plano de acção. I.2.2. Na área das Artes do Espectáculo e das Artes Visuais
l a criação de uma Bienal de Criadores de expressão portuguesa, de natureza temáti-
ca, em regime de rotatividade entre todos
os países da CPLP, incluindo a instituição de um Prémio na respectiva área, devendo os respectivos regulamentos e modos de funcionamento estar definidos até ao final de Dezembro de 2000. A primeira edição desta Bienal terá lugar em Cabo Verde, no segundo trimestre de 2001, e será dedi-
cada à Música;
l a criação de um Programa de Itinerân- cias que deverá envolver projectos de pelo
menos três países da CPLP e que deverá viabilizar não apenas a circulação das obras
e de valores culturais revelados na Bienal
de Criadores, mas também outras obras representativas da criação artística dos vários países da CPLP;
l a continuação do seu apoio ao Projecto Cena Lusófona.
I.2.3. Na área dos Direitos de Autor e Di- reitos Conexos
l o estabelecimento de um programa de apoio à elaboração de legislação e forma-
ção de técnicos, a coordenar por Portugal em parceria com o Brasil, devendo o seu modo de concretização e financiamento estar definidos até ao final de Dezembro de 2000.
II – NO CUMPRIMENTO DO PLANO DE
ACÇÃO ORA APROVADO:
l realizar, a convite do Ministro da Cultura
do Brasil, a próxima reunião dos Minis-
tros da Cultura no primeiro semestre de 2001, no Rio de Janeiro, comprometendo- -se a enviar ao Secretariado Executivo da
CPLP, até finais do corrente ano, propostas para a agenda dessa reunião;
l promover, por ocasião dessa segunda Cimeira, uma mostra de livros de autores Africanos e de Timor-Leste de expressão portuguesa, acção que se integra nos esfor- ços a desenvolver desde já de maior pro- moção e divulgação desta literatura.
Os Ministros da Cultura tomaram conheci- mento e encorajam a realização do primei- ro encontro de escritores e editores da CPLP, iniciativa do Secretariado Executivo desta Comunidade. Finalmente, em face do pedido apresen- tado pelos representantes de Timor-Leste, foi decidido conceder um apoio excepcio- nal à constituição da biblioteca central de Dili, suportado pelo Brasil, por Portugal e pelos demais Estados-membros da CPLP que tenham disponibilidades para o fazer.
Estoril, 6 de Maio de 2000.
cenaberta 4
* a confirmar
cenaberta 5
cenaberta
"Auto da Paixão", Comédias do Minho
"Sizwe Banzi est mort",Dankun &Théatre Bouffes du Nord
João Branco e Juventude em Marcha: encerramento
"As Novas Estátuas"
mindelact
imagens de um
fotografia de Augusto Baptista
No encerramento do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, João Branco, coordenador do evento, mostrava-se satisfeito com os resultados. Esta 15.ª edição, nas suas palavras, cons- tituiu o apogeu de um caminho, encetado em 1995, que progressivamente se foi iluminando. Um a um, chamou ao palco os elementos da equipa organizadora: da Produção ao Som, da Bilheteira ao Protocolo, Secretariado, Grafismo, Formação… Uma vintena de quadros, nem tanto, que tudo puseram de pé. De 10 a 20 de Setembro, pelos palcos da cidade do Mindelo, em São Vicente, Cabo Verde, passaram destacados grupos da cena nacional cabo-verdiana e da cena internacional, en- riquecendo a Programação Principal do Mindelact, avaliada pela organização como a me- lhor de sempre. Pelo Festival Off passaram vários grupos oriundos de diferentes ilhas do país. Houve Teatrolândia, Teatro de Periferia, Teatro de Rua, Formação. Muito público, salas cheias. E foi tempo de evocação de Isabel Alves Costa, prestigiada figura da cena portuguesa, que tão cedo a morte roubou ao teatro. O que foi o Festival e, sobretudo, qual o ponto de situação da cena cabo-verdiana no actual momento, estes são temas a abordar na próxima edição da revista Setepalcos, toda ela cen- trada no teatro em Cabo Verde, à semelhança de outros números temáticos já publicados, dedicados ao teatro no Brasil, ao teatro na Galiza. E enquanto Setepalcos chega e não chega às bancas, neste interim, cenaberta abre-se às imagens do Festival.
cenaberta 6
"No Inferno", Grupo de Teatro do Centro Cultural Português
"Chuva Brava", Juventude em Marcha
09
festival
grupos participantes
Angola
Miragens Teatro (Prémio Copaca- bana do Mindelact 2009)
Bélgica
Cie. Mossoux Bonté
Sikinada - Companhia de Teatro (Santiago) TIM – Teatro Infantil do Mindelo (S. Vicente)
Espanha
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Brasil |
Carlos Martinez |
|
Companhia Anjos Pornográficos Companhia e-Teatro |
Enano |
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Mali |
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Cabo Verde Adriano Reis e Luciano Lopes (Cabo Verde/Portugal) Craq’Otchod (S. Vicente) Flávio Hamilton e Valdemar Santos |
Dankun & Théatre Bouffes du Nord (Mali/França) Moçambique |
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(Cabo Verde/Portugal) |
Mutumbela Gogo |
|
Grupo de Teatro do Centro Cultural Português (S. Vicente) |
Portugal |
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Grupo Dja D’Sal (Sal) Grupo Nova Casa (Boavista) |
Comédias do Minho Staticman |
|
Juventude em Marcha (Santo Antão) OTACA - Oficina de Teatro e Comuni- cação de Assomada (Santiago) |
República Checa |
|
Sara Estrela (Cabo Verde/Brasil) |
Serge Art |
Dezembro 2009
"Escuta aqui, seu ladrão", Sikinada - Companhia de Teatro
"4&30", Miragens Teatro
"Boka Noti", Otaca
"Hora Minguarda", Grupo Nova Casa
"Cordá Dja D'Sal", Grupo Dja D'Sal
cenaberta 7
cenaberta
À Conversa com Walter Cristóvão
No Mindelact 2009, Festival Internacional de Teatro do Mindelo (Cabo Verde, 10 a 20 de Setembro), cenaberta cruzou-se com o grupo angolano “Miragens Teatro”. Em alta nesta edição do Mindelact, ao “Miragens” foi dado destaque de abertura no programa anunciador do evento; ao “Miragens” foi atribuído o “Prémio Copacabana 2009”, distinção especial consagrante dos muitos anos de participação do grupo no Mindelact, a reconhecer o empenho teatral dos seus actores e a marca do seu jovem director. De ficção, realidade, do seu “Miragens Teatro” e da cena em Angola nos fala Walter Cristóvão.
O “Miragens Teatro” nasce onde, quando?
O grupo nasce no dia 7 de Junho de 1995, na
comunidade católica de S. Luís, no município do Rangel, Bairro do Rangel, em Luanda.
Quantos elementos tem hoje o grupo? Nós somos oito rapazes e cinco raparigas, com uma média de idades de 28 anos.
Há uma estimativa do número de gru-
pos que existem em Luanda? Nós estamos agora a ver se conseguimos fazer um levantamento. Fala-se em 200/300 grupos. E
eu desconfio que seja este número. Há uns anos
atrás, fui presidente de júri dum festival de teatro que se realiza de dois em dois anos, ao nível da
igreja católica. O primeiro festival foi em 2003 e tinha cerca de 40 grupos. Em 2005 apareceram mais sete, oito, mas são grupos que ficam só ali, quer dizer, eles fazem um teatro mais à luz da Bíblia, ao nível da Igreja. Depois há os profa- nos, aí cerca de 150. E eu falei na religião só na vertente católica, não sei o que se passa com os outros ramos religiosos. É provável que existam outros grupos.
Salas de espectáculo, há o Avenida…
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O |
Avenida foi demolido e vai ser reconstruído. |
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O |
Nacional precisa de obras. |
Portanto, salas neste momento em Luanda? Neste momento, temos o salão da LAASP (Liga Angolana de Amizade e Solidariedade para com
os Povos), na Vila Alice, e o anfiteatro da escola Njinga Mbandi, que foi remodelado e agora tem estado a servir o teatro. O espaço Elinga,
na Mutamba, está ameaçado, diz-se que vão lá
construir um shopping, com uma sala de teatro. Mas não é uma informação oficial, é o que se ouve. Existe ainda a sala do Centro Recreativo Kilamba, ao Rangel. Foi erguido, igualmente, um novo anfiteatro, mesmo nas barbas do nosso local de ensaios e tudo indica que seremos os gestores, mas só para o ano.
Quer dizer, ao mesmo tempo que há a emergência de tanto grupo, não há salas? Exacto. Mas surgiu uma sala nova no município do Cazenga, o município que tem mais gente em Luanda, entregue à Associação Cultural de Globo Dikulu, que promove um festival. Embora o Cazenga tenha uma vertente muito pejorativa: a delinquência. É um município com índices de delinquência muito elevados, e isso afasta as pessoas. E os grupos conceituados não querem lá ir.
Como estamos de formação teatral? Em termos de formação, o Ministério, pela primeira vez depois de 1995, mandou três ele- mentos fazerem um curso superior a Cuba, no sentido de reforçarem a estrutura em Luanda. Felizmente, um desses três elementos, o José Teixeira, é membro do “Miragens”, está lá há dois anos. Uma menina é do “Etu-Lene”, chama- -se Marcelina Boneca, o Afonso Zamunda é do grupo de teatro “Danda Mulundo”. Lá dentro fazem-se formações…
Lá dentro, em Luanda? Sim, em Luanda. Olha, outro problema é a formação estar concentrada em Luanda, é uma coisa que nós também temos estado a criticar. Contratam-se brasileiros, vão para lá, ficam
Walter Cristóvão, director do "Miragens Teatro"
duas semanas, fazem uma formação, regressam. Mas esta formação, nos últimos dois anos, não aconteceu mais de quatro vezes. O “Horizonte Njinga Mbandi” fez duas formações de três meses cada.
Há toda uma amálgama de problemas
que é preciso resolver. A começar por onde?
O que eu acho ser urgente é o aparecimento de
pelo menos duas salas na capital e uma forma- ção descentralizada de Luanda. Eu até já fiz uma proposta para que houvesse formação regional. Falta ao Ministério investir do ponto de vista estratégico naqueles que terão mais um pouco de conhecimento para estes promoverem formações regionais.
Referes-te ao Ministério da Cultura? Sim, claro. Falta muito isso. A Dr.ª Rosa Cruz e Silva substituiu o ministro Boaventura Cardoso, mas nós vemos que o teatro continua a ser o parente distante.
Quanto a formação, achas que existem hoje em Angola elementos capazes de serem os agentes dessa acção?
O que acontece hoje em Luanda? Por exemplo,
o "Miragens" fez “4&30”. Os outros, aquilo que
acham ser novo, também querem fazer
não está bem é, por exemplo, vir alguém de Portugal, de Moçambique, do Brasil, fazer for- mação em Angola e ficar um mês, quinze, vinte dias – o que não é suficiente – e só em Luanda. Importante seria que o Ministério subvencio- nasse a vinda de formadores por períodos mais alargados para trabalharem em Luanda, em Ben- guela, no Huambo, onde há tradição de teatro, assim cresceríamos mais. Nós trabalhámos com Jacques-Henri Delcamp, um professor francês que foi levado pela Alli- ance Française. Ele ficou quatro meses em Luanda e aprendemos muita técnica. Com a presença do Jacques em Luanda mudou muito o teatro. A vinda de profissionais por temporadas dilatadas a Angola far-nos-ia muito bem.
Qual a relação entre os grupos? Ao nível de grupos nós vamos trocando conversas, vamos saindo a passear, a jogar uma
bola, a assistir a espectáculos, a fazer críticas, sugestões. É assim que a gente vai andando. Depois temos a Associação Angolana de Teatro,
da qual eu já fui secretário-geral há quatro anos,
mas agora pode dizer-se que a associação não faz o que devia fazer. Devia fazer associativismo, mas faz mais o papel de uma agência promotora de actividades.
O “Elinga Teatro” entra também nesse círculo de relações? Nós sempre pensámos que uma forma de crescer seria com o “Elinga”. Quando começá-
mos em 1995, já o “Elinga” estava muito longe.
Já nós nos admirávamos só de ouvir e ler. Mas
nunca houve essa fusão. Embora tenha de re- conhecer que o José Mena Abrantes sempre se mostrou disponível, embora muito limitado pela actividade dele. Na minha óptica, o “Elinga” de-
veria atrair mais os grupos, como fez de forma excelente quando comemorou 20 anos [2008].
O que
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O |
Festival Internacional que então promoveu |
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foi |
extraordinário, foi um espaço de troca de |
experiências muito forte.
Vocês têm instalações próprias, uma sede? Não. Se tudo correr bem, no próximo ano vamos começar a trabalhar no processo de arranjar uma sala para nós. Além do “Hori- zonte Njinga Mbandi”, que tem um espaço próprio, o que acontece em Luanda? Os grupos exibem-se num sítio e depois têm de recolher as coisas. Nós tivemos de alugar uma casa em que guardamos o nosso material técnico. Mas um escritório far-nos-ia mais sólidos, com mais estratégias de trabalho.
No caso concreto das peças que vocês constroem e levam a palco, são peças que resultam muito dos acontecimen-
tos sociais, das coisas que ocorrem, ou vocês vão buscar as histórias aos livros, a textos publicados? De onde surge a inspiração, o enredo?
É mais no quotidiano. O quotidiano é a base
fundamental da criação do teatro em Angola. Só dois grupos é que se baseiam mais na literatura.
Que grupos são? Temos o “Elinga” e temos um grupo que surgiu fruto de uma fracção – vamos assim dizer – do “Horizonte Njinga Mbandi”, “O Dadaísmo”. “O Dadaísmo” tem o apoio directo de uma pessoa que foi o secretário-geral da União de Escritores Angolanos, Botelho de Vasconcelos.
E o “Elinga” trabalha à base da literatura do José Mena Abrantes.
Vocês próprios andam atentos em busca de histórias do quotidiano? Por exemplo, agora há um problema em Luanda que tem a ver com a morte de oito jovens. Al- guém telefonou à polícia e disse: – Há um grupo de delinquentes, reunidos no sítio tal. A polícia foi lá e jogou bala. Aquilo comoveu o país e nós estamos agora a fazer a recolha. Somos muito deste tipo de grupos, vamos onde está o foco da atenção, puxamos a história, fazemos.
Vão onde há fogo, que é o caso da peça “4&30”, inspirada num acontecimento real.
A queda do edifício de 12 andares, em que
estava instalada a Direcção Nacional de Inves-
tigação Criminal, na fatídica madrugada do dia 29 de Março de 2008, e em que se perderam muitas vidas.
Uma peça que vocês têm represen- tado em muitos sítios de Luanda? Esta peça chama a atenção para a falta de estruturas teatrais. Nesta altura, nós não con- seguimos levá-la para além da Liga Angolana de Amizade e Solidariedade com os Povos. Posso dizer que continua a ser a peça mais procurada em Angola neste momento. Nós exibimos e nunca há espaço para as pessoas. A sala está sempre cheia, há sempre gente a querer ver e a não conseguir.
Para além de Cabo Verde, levaram o espectáculo a Portugal. Levámos o espectáculo a Portugal, ao Festival de Almada. A crítica foi muito favorável, o espectáculo teve grande aceitação.
O “Miragens” não assume um teatro eminentemente político, de evoca- ção do passado colonial, dessa pesada memória da história angolana? Não é a nossa vertente. Nós estamos agora a tentar fazer uma peça que se chama “A História das Histórias”. Queremos fazer esta peça, estamos a fazer recolhas. Mas as nossas preocupações são mais sociais, não muito no contexto político. Passamos um bocado ao lado da vertente política, embora haja pessoas que vêm com subjectividades: – Vocês queriam era dizer aquilo…; – Eh pá, se chegaste até aí é uma
leitura tua.
Versão integral da entrevista em cenaberta on-line:
www.cenalusofona.pt/cenaberta
MIRAGENS TEATRO Bairro Nelito Soares Rua do Complexo IGCA LUANDA Angola www.miragensteatro.org info@miragensteatro.org
cenaberta 8
Dezembro 2009
A Cena no Café
BRAGA
Um projecto multifacetado
“São Tomé era irmão de Santo António. Um dia um irmão foi falar com a mulher do outro e o apaixonado não gostou. Então fez o mesmo. E o outro também não gostou. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Taparam a estrada que os unia com mar". Assim nas- ceram as ilhas de São Tomé e Príncipe. Esta e outras histórias, contadas n'A Brasileira, Braga, na noite de 9 de Novembro, foram o mote da primeira sessão de A Cena no Café fora de Coimbra.
AntónioAugusto Barros,Rui Madeira e Rogerio Boane falaram para uma sala cheia. Houve informação, discussão e muitas his- tórias. As primeiras de todas chegaram de longe, da ilha do Príncipe. Na projecção de um documentário de Ivo Ferreira – “Con- tadores de Histórias do Príncipe” – parti- lharam-se narrativas, crenças, tradições de um povo que resiste à morte da memória.
Histórias de reis, animais, princesas, gigan-
tes, de irmãos que se zangam e tantas outras,
que sobrevivem a gerações e ensinam que “em África a oralidade tem um peso enor- me. Mas as pessoas morrem e com elas estas histórias. Um dos nossos objectivos é registar, em todos os países, os contadores de histórias”. Palavras de António Augusto
Barros: “Começámos pelo Príncipe. Está em processo de montagem o documentá-
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rio |
sobre São Tomé e já está projectado o |
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da |
Guiné-Bissau". Importante também é o |
facto de todos estes documentários serem falados em crioulo. Para além do português, “existem as línguas maternas que estão a desaparecer e é necessário preservar. São
tesouros culturais que se estão a perder”.
O mais importante não será exportar o
português para outros países, acrescentou, mas sim fazer um esforço para aprofundar conhecimentos de cada realidade diferente da nossa. O interveniente seguinte foi Rogerio Boane. Hoje actor profissional da Compa- nhia de Teatro de Braga, Rogerio veio para
Portugal depois de ter sido escolhido em Moçambique,numa oficina de teatro.“Eu era bailarino. Entrava em danças teatrais em que contávamos uma história de uma forma tra- dicional, misturando canto e dança. Escolhe- ram-me porque tinha uma grande carga de tradição no que fazia e isso interessou-lhes”. Convidado para um estágio internacional de actores em 2000,Rogerio juntou-se a outros jovens seleccionados, noutros países, pelo mesmo processo.“Através desse encontro”, diz,“descobri como somos diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais! Encontrei as se- melhanças,a normalidade dentro das nossas culturas muito diferentes. O que a Cena Lusófona me fez foi mudar-me da dança para o teatro e dar-me a oportunidade de conhecer outras culturas e outros países”. Quanto ao futuro, o actor não hesita:“Voltar a Moçambique, levar a minha experiência e poder ajudar!”. Coube a Rui Madeira abordar outro projecto da Cena Lusófona: o inventário dos espaços cénicos nos países africanos de língua portuguesa.“Dos tempos do colonia- lismo aos dias de hoje, muito se construiu e destruiu. É importante saber que salas exis- tem para se poder trabalhar, em que estado estão, que condições têm para montar um espectáculo. Serve também de alerta para que as entidades competentes de cada país
se agarrem à sua reconstrução”.
COIMBRA
Arquitectura e antropologia
“Tudo na arquitectura é um acto de poder. Sobre
o meio, sobre a Natureza, sobre os materiais. É sem- pre um acto de domínio”. Conclusão de José António
Bandeirinha n'A Cena no Café dedicada à arquitectura
e antropologia realizada no dia 16 de Novembro, no
Café-Teatro do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. O inventário de espaços cénicos feito pela Cena Lusófona foi apontado como um paradigma das relações entre estas disciplinas.
Com o pretexto de servir como "ape- ritivo" aos Colóquios de Outono da Univer- sidade de Coimbra (23 e 24 de Novembro), este encontro juntou os arquitectos José António Bandeirinha e Paulo Providência com os antropólogos Nuno Porto e Sandra Xavier para debater os cruzamentos entre arquitectura e antropologia. “A arquitectura tem-se apropriado do discurso da antropologia ao tentar aproxi- mar-se das realidades sociais. O que é que os antropólogos pensam desta aproximação ao seu discurso? Até que ponto a hetero- -identidade corresponde à auto-identidade das disciplinas?”, uma pergunta de Sandra Xavier. “Na minha opinião, a arquitectura aproxima-se da antropologia quando preten- de estudar realidades não arquitectónicas”, concluiu. José António Bandeirinha, por seu lado, viajou por momentos marcantes da relação entre as duas disciplinas. Primeiro por uma fase de “namoro”, em que “a an- tropologia ensinou à arquitectura que não podia existir sem a construção social que lhe está subjacente. Mais tarde vem a fase do questionamento, de um ataque mútuo. Agora existem as duas, centradas em si próprias, com um certo amadurecimento que lhes permite fazer as duas coisas em simultâneo, namorar e criticar”. O arquitecto conimbricense exempli- ficou com o inventário dos espaços cénicos da Cena Lusófona: “Os arquitectos foram chamados para criar uma base de dados de
espaços teatrais dos países lusófonos. Logo nos deparámos com situações ímpares:
como é possível fazer um levantamento des- te tipo no Príncipe, por exemplo, onde há o “Auto de Floripes” em que os actores são os habitantes e o palco a rua,a cidade? Como li- dar com estas realidades como arquitectos? Optámos por inventariar todos os espaços onde há o hábito de fazer teatro”, explicou José António Bandeirinha, concluindo que:
“Para essas inquietações foi sempre precio- síssima a presença dos antropólogos. Este é um belíssimo exemplo de colaboração entre arquitectura e antropologia”. Paulo Providência lançou algumas leituras sobre o modo como as disciplinas se complementam: “A antropologia tem interesse para a arquitectura quando esta se encontra em período de crise, quando deixa de acreditar nas formas. Então os arquitec- tos procuram olhar as coisas de outra forma. Por outro lado, a arquitectura tem uma aspiração muito antiga, a de ser considerada uma ciência. Quer ser rigorosa, ter leis que prevejam as formas, que a relacionem com a sociedade. Que tipos de habitação para que tipos de homem, de culturas?". Nuno Porto lembrou a definição de Malinowski, centrando a questão na relação entre indivíduos:“a antropologia é a ciência do sentido de humor”. E para haver humor, rematou Nuno Porto,“é preciso não estar
sozinho”.
cenaberta 9
cenaberta
cenas
breves
Brasil
Alberto Guzik lança biografia de Naum Alves de Souza
“Imagem, Cena, Palavra” é o título da recente
biografia do dramaturgo brasileiro Naum Alves de Souza. Escrita por Alberto Guzik e editada pela Imprensa Oficial, foi lançada em São Paulo,
no passado mês de Outubro.
Artistas, escritores e políticos encheram a sala do centro comercial Frei Caneca, num ambiente in- formal e agitado. Na mesma ocasião, foi apresen- tado um outro livro, “Teatro de Alberto Guzik”.
O autor partilhou no seu blogue o entusiamo e
a honra que sentiu: “Fiquei honradíssimo com a edição de minhas peças, assim como estou muito feliz porque a biografia do Naum tornou-se um livro lindo, que faz jus a esse criador ímpar, um ser de talento tão gigantesco quanto sua sensi- bilidade”. Para além de escritor e dramaturgo, Alberto Guzik é crítico teatral, actor, encenador e pro- fessor. Mestre em teatro pela Escola de Comuni- cação e Artes da Universidade de São Paulo. Faz actualmente parte da companhia de teatro Os Satyros. Guzik acompanha desde há muito o trabalho de Naum Alves de Souza: em 2005, escreveu o prefá- cio do livro “Teatro”, editado pela Cena Lusófona, que reúne todas as peças de Naum escritas até
àquela data.
Angola
Luandino apresenta em Portugal “Livro dos Guerrilheiros”
tação: Portimão, Lisboa, Ponta Delgada, Serpa, Póvoa do Varzim, Braga, Leiria, Castelo Branco e
Vila Franca de Xira foram algumas das outras ci- dades visitadas. Luandino Vieira, recorde-se, recusou receber o Prémio Camões que lhe foi atribuído em 2006, alegando “motivos íntimos e pessoais”. Mais tarde, em entrevistas concedidas a alguns jornais cul- turais, diria que recusara o prémio por se con- siderar um escritor morto e que este deveria ser atribuído a alguém que continuasse a escrever. Acabou por publicar ainda mais dois títulos em
2006.
Nascido em Ourém mas residente em Angola desde muito novo, Luandino foi combatente do MPLA, preso pela PIDE na década de 50 e conde-
nado a mais de dez anos de prisão.
Brasil
Boaventura de Sousa Santos homenageado pelo Governo brasileiro
O sociólogo português Boaventura de Sousa
Santos foi distinguido, no passado mês de Outu- bro, pelo Governo brasileiro com a Gran-Cruz
da Ordem de Mérito Cultural 2009.
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O escritor angolano Luandino Vieira apresen- |
Criada em 1995, a Ordem do Mérito Cultural é a mais alta comenda do Governo Brasileiro
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tou no dia 15 de Setembro, na Livraria Alme- dina, em Coimbra, a sua obra mais recente, “Livro dos Guerrilheiros”. |
atribuída a personalidades e instituições que se destacam pelas suas contribuições à cultura brasileira e mundial. |
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José LuandinoVieira, um dos mais importantes es- critores africanos, passou por Coimbra com o seu “Livro dos Guerrilheiros”, obra com que inter- rompe um período de “hibernação” editorial. Pires Laranjeira, professor da Universidade de Coimbra que fez a apresentação do livro, sa- lientou na obra de Luandino Vieira o “discurso angolanizado, de sintaxe diferente do português europeu” e a forma como ela apresenta “casos de opressão social e política e de enfrentamento de mundos culturais diferenciados”. Na sessão de apresentação do livro em Coimbra, |
Boaventura de Sousa Santos, doutorado pela Uni- versidade de Yale, é Professor Catedrático da Fa- culdade de Economia da Universidade de Coim- bra, Distinguished Legal Scholar da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É Director do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e do Centro de Docu- mentação 25 de Abril da Universidade de Coim- bra. Para além da sua carreira académica, Boaventu- ra de Sousa Santos tem-se distinguido pelo seu envolvimento em vários movimentos sociais de |
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na |
Almedina Estádio, Luandino Vieira respondeu |
carácter emancipatório, tanto em Portugal como |
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às |
perguntas dos leitores e participou numa con- |
em África e na América-Latina. |
versa sobre a sua vida e o seu percurso literário, internacionalmente reconhecido.
A iniciativa integrou o ciclo “Comunidade de
Leitores”, uma organização da livraria Almedina,
da professora da Faculdade de Letras da Universi-
dade de Coimbra Ana Paula Arnaut, do Centro de Literatura Portuguesa e da Ideias Concertadas. Com “O Livro dos Guerrilheiros” editado este ano pela Editorial Caminho, Luandino Vieira tem
viajado por todo o país em sessões de apresen-
Portugal
Mês de São Tomé e Príncipe na Galeria de Santa Clara
A Galeria-Bar de Santa Clara, em Coimbra, dedicou a sua programação de Novembro ao
arquipélago de São Tomé e Príncipe.A progra- mação incluiu uma exposição de artistas plásti- cos são-tomenses, conferências e a mostra e venda de livros de autores deste país.
Inaugurada a 7 de Novembro, a iniciativa decorreu
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ao |
longo de todo o mês, incluindo a exposição |
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“6 |
expressões são-tomenses”, com obras dos ar- |
tistas Estanislau Neto, Ismael Sequeira, Le-Brimet, Plácido Vicente e Yolanda Esteves. Na “mostra de autores” são-tomenses estiveram
representados os escritores Alda Espírito Santo, António Bondoso, Armindo Vaz de Almeida, Au- gusto Nascimento, Carlos Graça, Fernando de Macedo, Gerhard Seibert, Nocência Mata, Kath- leen Becker, Olinda Beja e Sacramento Neto.
Como conferencistas, participaram Augusto Nas- cimento, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa (“Controvérsias em torno da história de São Tomé e Príncipe”); Jorge Castilho, jornalista (“Um turista em S.Tomé
e Príncipe”); e Gerhard Seibert, investigador do
Centro de Estudos Africanos do ISCTE (“São Tomé e Príncipe: da “Independência Total” à de- pendência sem fim à vista”).
Finalizou esta iniciativa uma sessão de leitura de poesia de Armindo Vaz de Almeida e de Alda Es- pírito Santo, por Carolina S.
A Cena Lusófona associou-se a esta actividade,
disponibilizando ao público os seus livros “Ima- ginário do teatro angolar”, de Fernando de Mace-
do, e “Floripes Negra”, de Augusto Baptista.
Portugal
Abel Neves vence Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia
O dramaturgo português Abel Neves foi galar- doado com o Prémio Luso-Brasileiro de Dra- maturgia António José da Silva pela sua peça “Jardim Suspenso”. O Prémio é uma iniciativa conjunta do Instituto Camões e da Funarte – Fundação Nacional de Arte do Ministério da Cultura do Brasil.
Abel Neves
A atribuição do prémio foi decidida por um júri
luso-brasileiro de que fizeram parte Carlos Paulo, Gonçalo Amorim, João Paulo Cotrim e Rui Pina Coelho, do lado português, André Luiz Antunes Netto Carreira, Cristina Sobral Correa Jesus, Re- nato José Pecora e Tarciso de Souza Pereira, do
lado brasileiro.
O Prémio de Dramaturgia António José da Silva
tem o valor monetário de quinze mil euros e garante a edição da obra premiada, a cargo das entidades que promovem a sua atribuição, em Portugal e no Brasil. O texto vencedor será tam- bém representado nos dois países, numa parceria estabelecida entre a Funarte, a Direcção-Geral das Artes e o Teatro Nacional de D. Maria II. Em Portugal, o espectáculo será apresentado na Sala Estúdio do TNDM II de 29 de Abril a 30 de Maio de 2010. De acordo com uma nota do Instituto Camões, o Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva visa incentivar a escrita dramática em todos os seus géneros e o aparecimento de novos dramaturgos de língua portuguesa, reforçando as parcerias de desenvolvimento e cooperação cul- tural entre Portugal e o Brasil. Abel Neves nasceu em Montalegre em 1956. Dra-
maturgo, poeta e romancista, com vasta obra em Portugal e muitas colaborações no estrangeiro, é autor das peças para teatro “Amadis”, “Anákis”, “Touro”, “Terra”, “Medusa”, “Atlântico”, “Finis- terrae” e “Arbor Mater”, “El Gringo”, “Lobo-
Wolf”, “Inter-rail”, “Além as Estrelas são a nossa Casa”, e, mais recentemente, “Nunca estive em Bagdad” e “Este Oeste Éden”. Autor, também, de textos para televisão, publicou o seu primeiro romance, “Corações Piegas” em 1996, seguido de “Asas para que vos quero” (1997). Em 1998 publica o livro de poesia “Eis o Amor a Fome e
a Morte” e em 2002 um volume de ensaios, “Al- gures entre a resposta e a interrogação”.
A obra de Abel Neves está representada na co-
lecção “Cena Lusófona” com a peça “Supernova”,
editada em 2000.
Espanha
Feira Galega das Artes Escenicas
A Cena Lusófona esteve representada na Feira Galega de Artes Escenicas, realizada em San- tiago de Compostela de 19 a 23 de Outubro passado, com organização da Agência Galega das Indústrias Culturais (AGADIC). Mais de uma dezena de espectáculos foram contrata- dos para digressão em 2010, com especial preferência pelo teatro para o público infantil.
A Feira mantém a sua característica de “espaço de
mercado”, permitindo a programadores de toda
a Espanha e de Portugal o contacto com as mais
recentes criações teatrais galegas e a contratação
de algumas delas.
Cinco espaços da cidade acolheram vinte com- panhias galegas num evento destinado aos produ-
tores, distribuidores e demais agentes culturais de toda a Península Ibérica.
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O |
Auditório de Galicia concentrou uma vez mais |
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as |
principais actividades da Feira: aí estiveram ins- |
talados o gabinete de coordenação, os stands das companhias de teatro, as mesas de debate e dois
dos principais palcos do encontro, as salas Mozart
e Ángel Brage. A programação alargou-se, no en-
tanto, a mais salas da cidade de Santiago: ARTeria Zona Noroeste, Salón Teatro, Sala Nasa e Teatro Principal. Do balanço final da iniciativa deste ano resulta- ram duas apostas. Para além de se ter confirmado que o teatro para o público infantil é o género eleito para representar fora da Galiza, ficou tam- bém decidido que a AGADIC investirá cerca de 130 mil euros na distribuição dos 14 espectáculos galegos de teatro e dança que foram contratados por redes, festivais e espaços cénicos de comu- nidades autónomas e de Portugal. Contas feitas, em 2010 teremos companhias galegas a actuar na Andaluzia, Aragão, Valência, Castela-A-Mancha, Castela e Leão, Euscadi, Madrid, Múrcia, Navarra e
nas localidades portuguesas de Abrantes, Águeda,
Estarreja, Moita e Palmela.
Portugal
CTB e A Escola da Noite estreiam co-produção
A Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite, de Coimbra, estrearam, em co- -produção, o espectáculo “Sabina Freire”, de Manoel Teixeira-Gomes.
cenaberta 10
DR
Dezembro 2009
Homenagem a um dos mais interessantes políti- cos portugueses da Primeira República, cuja obra literária permanece demasiado desconhecida, a peça “Sabina Freire” estreou no Theatro Circo de Braga. No passado dia 19, mudou-se de armas
e bagagens para Coimbra, onde permanece para
uma temporada no Teatro da Cerca de São Ber- nardo até dia 3 de Dezembro. A digressão nacio- nal, que se prolongará pelo ano de 2010, arranca em breve. Encenado por Rui Madeira, director artístico da Companhia deTeatro de Braga, o espectáculo está integrado nas Comemorações do Centenário da
Meridional apresenta Contos em Viagem Brasil – outras rotas
O espectáculo do Teatro Meridional "Contos
em Viagem Brasil - outras rotas", em cena em
Lisboa até 19 de Dezembro, reúne textos de Adélia Prado,Affonso Romano de Sant’Anna, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Lêdo Ivo e Mauro Mota.
Definindo o Brasil como um “território imenso
e grandioso, feito de paisagens plurais, múltiplas especificidades e uma magnificente produção literária”, o Teatro Meridional escolheu “viajar através de lugares que têm mais perto ou mais longe o Rio S. Francisco ou, como popularmente
é chamado, o Velho Chico”. Um rio que atravessa
cinco Estados – Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. “Foi da produção literária dos autores que nasceram nestes lugares que orga- nizámos a OutraViagem: a das palavras”, escrevem Miguel Seabra e Natália Luiza, responsáveis pela direcção artística do projecto. Com encenação de Miguel Seabra, “Contos em viagem Brasil – outras rotas” tem interpreta- ção de Gina Tocchetto (texto) e António Pedro (música). O espaço cénico é de Jean-Guy Lecat e os figurinos de Marta Carreiras. Estará no Centro Cultural do Cartaxo a nove de Janeiro, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão a 29 de Ja- neiro e emViseu nos dias 26 e 27 de Fevereiro no
Teatro Viriato.
Seiva Trupe comemora meio século de carreira de Júlio Cardoso
Estreia no próximo mês de Janeiro o espectáculo
comemorativo dos 50 anos de carreira do actor Júlio Cardoso – “Eu Sou a Minha Própria Mulher”,
de Doug Wright, com encenação de João Mota.
Júlio Cardoso
A obra foi escrita por um dos autores contem-
porâneos mais premiados, o norte-americano
Doug Wright, que obteve com esta peça, entre outros, o Prémio Pulitzer para Teatro e o Prémio Benjamim H. Danks da Academia Americana de Artes e Letras. Doug Wright inspirou-se na vida de um travesti alemão, personagem verídica, nascida como Lo- thar Berfeld, que reinventou a sua identidade e se assumiu como Charlotte von Mahlsdorf.
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A |
peça conta a história deste travesti que nasceu |
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e |
cresceu na Alemanha Oriental, montando e |
preservando um museu fantástico e mantendo um cabaret clandestino na cave desse museu. O
museu ainda existe e está aberto ao público – Mu- seu Gründerzeit. Doug Wright transformou a curiosa história em “Eu Sou a Minha Própria Mulher”, peça escrita para um único actor interpretar não só a per- sonagem principal, como as quase 30 outras que atravessam a acção.
A Seiva Trupe vai apresentar este espectáculo
comemorativo de Júlio Cardoso no Teatro do Campo Alegre, no Porto, nos meses de Janeiro
e Fevereiro, seguindo depois em itinerância pelo
Rui Madeira ganha Prémio Santareno
O actor e encenador Rui Madeira, director
artístico da Companhia de Teatro de Braga e
vice-presidente da Cena Lusófona, recebeu a 22
de Novembro o “Prémio Santareno de Teatro
– Especial”, atribuído pela Câmara Municipal de Santarém e o Instituto Bernardo Santareno. A distinção premeia “o prestigiado percurso de décadas, como actor e encenador”.
Rui Madeira
Para além de Rui Madeira, o júri decidiu premiar este ano, na mesma categoria, o encenador Joa- quim Benite (director da Companhia de Teatro de Almada) e o actor António Júlio. Na categoria de peças de teatro inéditas, o vence- dor foi o escritor Domingos Lobo, com a peça
"Não deixes que a noite se apague".
Últimas aquisições do Centro de Documentação da Cena Lusófona
A Cidade: uma trilogia
Lula Anagnostáki, Colecção Livrinhos de Teatro da
Cotovia / Artistas Unidos, 2008.
A dirección de actores
Dani Salgado, n.º 7 da Colección Breviarios, Editorial Galaxia e IGAEM, 2006.
A estátua perdida (Peça de teatro em cinco
actos) Raul Mendes Fernandes, Ed. Ku Si Mon, 2008.
A Expresión dramática na educación: Ar-
gumentos para situar a expresión dra- mática no centro do currículo Gavin Bolton, n.º11 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009.
Almas Cativas e Poemas Dispersos Roberto de Mesquita, Ed. Município de Lajes do Pico,
2007.
Almeida Garrett, Retrato Paratextual com Teatro ao Fundo Iolanda Ogando, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral
Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña,
2009.
As aventuras de Nhu Lobo
Armindo Martins Tavares, Ed. Instituto Politécnico de
O Eunuco de Inês de Castro: Teatro no País
dos Mortos Armando Nascimento Rosa, Ed.Casa do Sul, 2006.
O Fidalgo Aprendiz
D. Francisco Manuel de Melo, Ed. Biblioteca – Arquivo
Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego- -Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2007.
O herói Incómodo: Utopia e Pessimismo no
Teatro de Hilda Hilst Alva Martínez Teixeiro, Ed. Biblioteca – Arquivo Tea-
tral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Portu- guês, Francês e Linguística da Universidade da Coruña,
2009.
O rapaz da última fila – Palavra de Cão Bu- cha e Estica Juan Mayorga, Colecção Livrinhos de Teatro da Coto- via / Artistas Unidos, 2008.
O Teatro em Angola, Vol. I e II
José Mena Abrantes, Ed. Nzila, 2005.
Ofícios do livro Coord. António Manuel Ferreira e Maria Eugénia Pereira, Ed. Universidade de Aveiro, 2007.
Palabra e acción. A obra de Manuel Lorenzo no sistema teatral galego Roberto Pascual, n.º 7 da Colección Máscaras, Edito- rial TrisTram, 2006.
Peças Escolhidas, Vol. II Henrick Ibsen, Ed. Cotovia, 2008.
Peças Escolhidas, Vol. II Carlo Goldoni, Ed. Cotovia, 2009.
Pílades
Pier Paolo Pasolini, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007.
Poética
Aristóteles, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2007.
Relación de notícias sobre o teatro nos fon- dos da Biblioteca – Arquivo Teatral Fran-
cisco Pillado Mayor (1882-1975) Laura Tato Fontaíña, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña,
|
Lisboa, 2008. |
2009. |
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As |
Presidentes – Peso a mais, sem peso: sem |
Teatro |
forma
Werner Schwab, Colecção Livrinhos de Teatro da Co- tovia / Artistas Unidos, 2007.
Augusto Abelaira Coord. Paulo Alexandre Pereira, Ed.Universidade de Aveiro, 2008.
Calderón
Pier Paolo Pasolini, Colecção Livrinhos de Teatro da
Cotovia / Artistas Unidos, 2007.
Comida – Casas – Repartição Miguel Castro Caldas, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2008.
Crime e outras peças Peter Asmussen, Colecção Livrinhos de Teatro da Co- tovia / Artistas Unidos, 2006.
Desejo e outras peças Josep M. Benet i Jornet, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007.
Desmedida: Luanda São Paulo – São Fran- cisco e volta Ruy Duarte de Carvalho, Ed. Cotovia, 2006.
Do canto ao conto: Estudos de Literatura
Portuguesa
António Manuel Ferreira, Ed. Til-Fragmentos de edu-
cação, 2006.
Doutor, por favor, máteme com xeito Xosé Teixeiro, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francis- co Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês e Linguística da Universidade da Coruña, 2009.
Dramaturxia. Teoría e Práctica Afonso Becerra de Becerreá, n.º 9 da Colección Bi- blioteca de Teatro, Editorial Galaxia e IGAEM, 2007.
Escrever a ruína Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, 2006.
Hamelin
Juan Mayorga, Colecção Livrinhos de Teatro da Coto-
via / Artistas Unidos, 2007.
Introdución á linguaxe musical Mónica Groba Lorenzo, n.º 8 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galaxia e IGAEM, 2006.
Lilás
Jon Fosse, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia /
Artistas Unidos, 2006.
Lusofilias Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, Dep. de Línguas e Culturas, 2008.
Manual básico de iluminación escénica António López-Dávila, n.º 9 da Colección Breviarios, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009.
Manual de práctica teatral feminista Elaine Aston, n.º 10 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galaxia e AGADIC, 2009.
José Maria Vieira Mendes, Ed. Cotovia, 2008.
Teatro de rua: olhares e perspectivas Org. Narciso Telles e Ana Carneiro, Ed. E-papers,
2005.
Teatro occidental: unha historia teatral desde a escenografía Anne Surgers, n.º 12 da Colección Biblioteca de Teatro, Editorial Galáxia e AGADIC, 2009.
!Todo o mundo a escena¡ A economia do teatro: unha ferramenta de xestión no sistema teatral galego Francisco J. Sanjiao, n.º 8 da Colección Máscaras, Edi- torial TrisTram, 2007.
Tomaz de Figueiredo Coord. António Manuel Ferreira, Ed. Universidade de Aveiro, 2007.
Turandot, Vol. I e II Carlo Gozzi, Ed. Biblioteca – Arquivo Teatral Francis- co Pillado Mayor, Dep. de Galego-Português, Francês
e Linguística da Universidade da Coruña, 2007.
Um Carvalho – Inglaterra: uma peça para
galerias
Tim Crouch, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia
/ Artistas Unidos, 2008.
Vésperas da Virgem Santíssima – Brilhare-
tes
Antonio Tarantino, Colecção Livrinhos de Teatro da Cotovia / Artistas Unidos, 2007.
Xestión de proxectos e producíon de es-
pectáculos
Francisco Oti Rios, n.º 8 da Colección Breviarios, Edi-
torial Galáxia e IGAEM, 2006.
Publicações Periódicas
(números mais recentes)
Folhetim, Teatro do Pequeno Gesto (Rio de Janei- ro-Brasil), n.º 27 (Jan-Jul/2008).
Adágio, CENDREV – Centro Dramático de Évora, n.º 43 (2.º Semestre de 2007).
Repertório, PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas da Universidade Federal da Bahia, n.º 12 (2009).
Urdimento do Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas (Universidade do Estado de Santa Cata- rina), n.º 11 (2008).
Casahamlet , n.º 11 (Maio/2009).
Sinais de Cena, Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 11 (Junho/2009).
6
Forma
(Dezembro/2008).
Artistas Unidos, n.º 20 (Dezembro de 2007).
Breve,
Universidade
de
Aveiro,
n.º
cenaberta 11
cenaberta
Dezembro 2009
ROSTOS DA CENA
Rogerio Boane
Integrante do elenco de "Quem Come Quem" e hoje na Companhia de Teatro de Braga, o moçambicano Rogerio Boane saltou da dan- ça para o teatro. Pés em Portugal, "é aqui onde eu tenho de ficar a aprender", sonha regressar a Maputo "para criar abertura, trabalhar a sério. A sério, no sentido: com uma encenação a sério, com um cenário a sério, luzes a sério".
Nascido em 1978, Maputo, Moçambique, muito jovem ainda Rogerio Boane saltitou entre grupos de teatro, viveu fugazes experiências de palco. Desses tempos guarda memória do grupo Xitlhango.Aos 18 anos ingressa no Grupo de Canto e Dança Milorho, revela as suas invulgares capacidades de bailarino. Em 1999, o Grupo de Canto e Dança Milorho designa Rogerio Boane para participar, em Maputo, num workshop da Cena Lusófona: um encontro marcante na vida do actor, então com 21 anos. Este workshop, dirigido por Stephan Stroux, visava a escolha de um representante moçambicano no espectá- culo “Quem Come Quem”, integrado no projecto Viagem ao Centro do Círculo, co-produção da Cena Lusófona,A Escola da Noite, Companhia de Teatro de Braga e Teatro Vila Velha (Brasil). “Eu era bailarino, mas como já tinha uma pequena experiência de palco no grupo Xitlhango, e os outros eram só bailarinos, fui considerado a pessoa mais indicada para
fazer esse workshop de teatro”. Os convites foram dirigidos
a todos os grupos de Moçambique,“o que contribuiu para
diminuir rivalidades, aproximar os grupos e os actores, misturar actores e bailarinos”. Foram muitos e qualificados os participantes no work- shop,“trinta e tal pessoas”, segundo as contas do Rogerio, “todas a concorrerem para um sonho. E estavam lá actores profissionais, com carreira de teatro. No fundo, o que
eu queria era estar ali com aqueles actores profissionais, começarmos juntos. Normalmente, quando íamos para um espectáculo em que entravam os actores mais velhos, nós fazíamos uma pequena parte e, de repente, estávamos na estreia. Quase não havia contacto com eles, eles com as suas horas de ensaio…” O workshop durou cerca de duas semanas, Rogerio foi
o eleito. E logo viaja para Portugal, instala-se em Coimbra.
“Mais precisamente viemos para a Tocha. Foi lá onde nos encontrámos todos: os angolanos, os brasileiros, santo- menses, todos os actores escolhidos. Os nossos primeiros ensaios foram lá. Ensaiávamos, dormíamos, tudo lá. Foi mesmo intensivo”. Da Tocha a preparação do "Quem Come Quem" ru- mou para Coimbra, para A Escola da Noite. Após a estreia no Teatro Gil Vicente, seguiram-se apresentações em Braga e no Porto (Palácio Cristal).“A ideia era que o espectáculo entrasse em digressão por todos os PALOP, mas por razões que me ultrapassam ficou só em Portugal”. Terminado o "Quem Come Quem", Rui Madeira, director da Companhia de Teatro de Braga (CTB), convida Rogerio Boane para integrar o próximo espectáculo da companhia.“Eu disse que sim, mas que teria de ir a Moçam- bique carregar as baterias. Estava na Europa há 3 meses
Além do mais não estava ainda convencido de que era ac- tor”.A adensar as dúvidas: "A Gaivota".“Eu assisti a algumas peças deles, foi 'A Gaivota', fiquei com medo: muito texto, meu Deus, eu não sou capaz, falar, falar, decorar”. Em Moçambique, um telefonema do Rui Madeira decide-o:“Na altura ele disse que precisava de um bailarino. Essa parte é que me convenceu. E peguei e vim e fiz o meu primeiro espectáculo cá:“Uma Comédia na Estação”. Não mais parou. Entre muitas outras representações, levou a palco as peças "A Estalajadeira", de Carlo Goldoni, "Doroteia", de Nelson Rodrigues, "A Vida como Exemplo", de Alexej Schipenko, "As Bacantes", de Eurípides. Neste caldo teatral, nas reviravoltas de Maputo a Braga, a Cena Lusófona surge na vida de Rogerio Boane como o eixo em que giram as mudanças, tal qual o actor confia ao cenaberta:
Como achas que o projecto Cena Lusófona mar- cou a tua vida de actor?
A Cena Lusófona abriu-me oportunidades únicas e, de uma
maneira directa ou indirecta,tem acompanhado o meu proces-
so criativo, a minha evolução teatral.Tenho vivido e convivido imensamente com pessoas do espaço de língua portuguesa,
não só aqui em Portugal, também no Brasil, onde já estive. E
há muitas propostas para Angola, CaboVerde, S.Tomé. Só que
existem aquelas barreiras que têm dificultado, mas isso são
coisas mais da produção e da falta de apoios à Cena.
Mas de 2000 em diante ingressaste na Companhia de Teatro de Braga… Claro que nestes últimos anos este plano de intercâmbio teatral lusófono tem sido muito concretizado no âmbito da Companhia de Teatro de Braga, e por força do director Rui Madeira.
Com a tua vida de actor hoje estabilizada, pro-
jectos? Eu sempre tive uma ideia, desde que vim para Portugal: voltar
a Moçambique. Depois de me sentir formado, sinto-me em dí-
vida para com o meu país, gostaria de dar uma certa formação.
Em Moçambique não temos Escolas deTeatro. Mesmo eu, hoje
actor profissional,a minha escola é a vida.Em Moçambique não
há Escolas de Teatro, nem formadores.As pessoas formam-se
através de workshops, depois vão-se integrando em grupos e vão fazendo. Alguns tiveram a oportunidade de participar numas co-produções,fizeram algumas peças cá,depois voltam
a Moçambique, mas não conseguem continuar.
Como queres desenvolver essa formação teatral em Moçambique?
A minha ideia é dar uma formação continuada ou, na medida
do possível, criar uma Escola de Teatro em parceria com a Cena Lusófona. Estando lá podia ser um veículo. Conheço as pessoas, conheço as dificuldades mesmo do terreno e a Cena viria com um projecto mais elaborado, que eu não tenho capacidade para fazer as coisas muito apuradas, orçamentos, acções,o que se podia ou não fazer,e também convidar actores
e directores daqui para irem para lá.
Sonho de envergadura… Nisso tudo eu seria um instrumento de campo. Eu queria ir mesmo ao campo encontrar aquelas pessoas que estão a fazer teatro e falar, assim de igual, sem ir lá como uma pessoa mais, que lhes transmite umas quantas coisas mas que depois eles não conseguem implementar, aquilo fica-lhes só na cabeça mas não funciona lá, que a realidade é outra. É preciso criar abertura, não só formar, criar espaços em que os grupos de teatro possam ir para esses espaços e trabalhar a sério. A sério, no sentido: com uma encenação a sério, com um cenário
a sério, luzes a sério.
Com mais organização? Nós lá fazemos tudo, como aqui numa certa altura os actores eram luminotécnicos, eram tudo, faziam tudo. Lá os grupos fazem tudo, trabalham para terem um sustento, e são obriga- dos a submeterem-se a projectos como o da embaixada de não sei o quê que apoia sobre a malária, então fazem teatro sobre a malária, a cooperação tal apoia sobre a fome, então fazem uma peça sobre a fome… Falta implementar o teatro que existe no Mutumbela Gogo. Os outros grupos encenam assim textos mais mediáticos. Agora falta trabalhar mesmo textos a sério.
Esse teu projecto é coisa para curto prazo ou propósito de velho actor em final de carreira?
É uma coisa que eu alimento dentro de mais alguns bons anos.
É um projecto mais de maturidade, aí já não sei se fico lá, se
fizer falta no projecto ficarei lá; mas também não gostaria de
estar desligado da Cena Lusófona, porque vou precisar de uma ligação mesmo com Portugal.
Ultimamente tens ido a Moçambique?
Já lá não vou há quatro anos. Quando eu estava a dançar, quan-
do era bailarino e não sabia se queria ser actor ou bailarino, regressava sempre uma vez por ano. Ia dar espectáculos com
a minha companhia, para manutenção, para ganhar energias.
A partir do momento em que escolhi ser actor, que decidi ficar aqui e continuar a minha carreira no teatro, já não tinha motivos, e então decidi ficar aqui. Que ir lá para carregar tea-
tro, não vale a pena. Agora é aqui que eu tenho de aprender,
é aqui onde eu tenho de ficar a aprender.
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