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5TO. TOMAS DE AQUINO

-

QUESTOES DISCUTI DAS SOBRE A VERDADE

CQUESTAO PRIMEIRA)

Tr ad u ção d e L UI Z J OA O B A R A Ú NA

A R T I GO P R I M E IRO

Q ue é a ve rd a d e ?

I -

TESE: PAR CER I A Q U E o VERDAD IRO É E XATAME TE o ME MO QUE O E TE.

1 . ~iz Ago tinho no livro do

S

oli l á quios

(ca p ítulo V) que " o verdadeiro

é aquilo que é " .

Ora, aqui l o que é outra coi s a não é en ã o o ente . Lo g o, o v e rdadeiro

é e x a r a rn e nr e a m es m a

o t eo

que o ente,

2. Todavia, objetar - se - á

que o verdadeiro

e o ente s e equivalem ,

i m

egundo o s s upo s to s,

diver ificando -

aquilo que é ignificado ou expre ss o pela s ua definição. Ora,

nho (na pa

definiçõe . Logo , vi to que tanto o verdadeiro

" aquilo que é ", parece que ambo s

e identificam no conc e ito.

e porém, segundo o conceito.

i to

e re ponderá:

aquilo que

depoi

de

o conceito de cada coi s a é

é , é de i g nado por Ago ti rejeitada s alguma outra n o fato de s er e m ambo

agem citada) como a defini ç ã o do verdadeiro ,

como o ente con co rdam

3. lém d i

o , toda s a s coi s a s que s e diferenciam

pelo conceito e t ã o uma para a outra de t a l

modo, que uma dela e pode compreender

nas, afirma que e pode compreender

em a outra. D aí qu e B o ê ci o , n o Li v ro Sob re a s S e ma -

epare dEle

que Deu s é ou exi te me mo que a int e li gê ncia

a

ua bondade. O ra, o ente de forma alguma pode s e r compreendido ,

e de l e

e s epa r ar o verda -

de

iro , vi s to que

o ente e compreend e

como ent e p e lo fato

de e r v e rdadeiro.

Lo g o, o verd a deiro

e

o ente não e diferenc i am quan t o ao conceito .

 

4.

l é m di

o s e o verdadeiro

não for a me s ma coi s a

que o ente nec e

ariamente

erá uma

di s po i ç ã o do ente . O ra , o verdadeiro

não pode s er um a di s p os ição

do ente .

â o é uma di p o s ição que corrom p e

totalmente o ente, p oi do contrár i o

s eguiria o eguinte:

é verdade i ro

morto lo g o

ou tire algo

forma como não procede dizer: o dente s dele s ão branco,

deiro é uma di po i ç ã o que limite ou e s pecifique

l ogo é um não - ente, da me ma forma como s e impõe a conclu ão : e s te homem e s tá

o erdadeiro é uma di s po ição que diminua o ente

logo é ente, da me ma

não é mai um homem . Tam p ouco

d ele, p oi s do contrár i o

não s egui r ia o eguinte: é ver d adeiro,

logo ele é branco. Tampouco o verda -

não s eria

o ente , poi , s e o for a, o verdadeiro

conver ível com o ente . P or con s eguinte

5.

lém di

o , aquela

o ver d a d eiro e o ente s ão exatamente coi a cuja di s po iç ã o é a me ma s e equivalem .

a me m a coi a. O ra , o v er d a d e iro

e

o ente t ê m a me ma di s po i ção. L ogo , s ão a me s ma coi a. Com efeito , afirma - s e no livro II d a Me ta fisic a (Ari tóte l e s, texto 4 ): " A di s po iç â o de uma coi a n o ser é como a ua d i s po i ção na verda d e ' . Logo o ve rd adeiro e o ente s e equivalem completamente.

. o ver d adeiro

que o ente, pela

e o ente e equi -

va l e m tota l me n te .

t

ão d iferem pela e s ência, vi to

e diver ificam em virtude de ou -

6

lém di s o, toda

a coi a que não

e equivalem , diferem entre

i d e al g uma forma. O ra

e o e n te n ão d iferem entre

i de maneira alguma .

ua própria natureza, é verdadeiro . Tampouco

teriam que concordar

ras diferença ,poi

em algum g ê nero . Logo, o verdadeiro

7. Além d i s o,

e o verdadeiro

e o ent e não f o em exatamente

a me s ma coi a, nece

aria -

pelo Filó ofo ( ri tó t e -

mente o verdadeiro

les) , q ue no l i vro IV da Me taf isica (comentá r io 27 ) afirma:

acre centaria alguma coi a ao ente . I to é evidenciado

o de fi nirmo o verdadeiro, dizemo

26

SANTO TOMÁS

s e r e l e a q u i lo qu e é; ou , ent ã o , não s er ele aquilo q ue não / é " . Portanto , o verda d e iro inclui tanto

o e n te co m o o n ão-e n te. Logo , o verda d eiro nad a acres centa ao ente , e con s eqüe n tem ente p arece

i de n tif i car - s e tota lm e n te com e l e .

I

I -

C ONT R ATE S E:

P AR E CERIA Q U E o VERDADEIRO NAÕ É A ME S MA COISA QUE ENTE .

1 . A t auto l ogia é u ma re p et i ção i núti l . O ra, s e o ver d adeiro fo ss e a mes ma coisa q u e o ente ,

s eri a uma tauto l ogia, p o r q u anto s e afirma q u e " u m e nt e é verdadeiro ". O r a , é fals o d ize r q ue tal

a f i r m ação con s titu i uma ta u to l ogia. L og o , o verda d e i ro e o en t e não ex p rim e m exata m e n te a

me s m a coi s a.

2 . Alé m di s s o, o ente e o bom s ão co n ve r s ív e is. O ra, o ver d ade i ro n ão é co n ve r s ível com o

bo m , vi s to qu e um a c oi s a p ode s e r ve rd a d e ir a s em s er b oa ; p or exe mplo, o f ato ex p re ss o n e s ta

pro p o s i ç ão: est e ho m e m e s tá f or n i c a nd o . L ogo , ta mp o u co o ver d ade iro é c o n ve r síve l c o m o e nt e .

3. A l ém di ss o , B oécio a fi r m a n o li vro Sob re a s S e m an a s: "Em to d a s a s criatur a s, o s e r ( esse)

dif e r e d a q u i l o que é (quo d est )" . Or a, o v er d a d e iro s e g u e o s e r d a s co i sa s . L o go, o v er d a d eir o s e

di f e r e n c i a , na s c riatur a s, d a quilo qu e é . Or a, a q ui lo que é , eq u i va l e ao e nte. E m c o n se qü ê ncia , o

v

erd a de i r o , no s s ere s c r i a d os, s e dif e r e nci a do ente .

4.

A l é m di ss o , to d a s a s co i s a s q ue estã o um a p a r a a o utra d a mes ma f o rma qu e a a nt e rior

e

s t á p a r a a p os te r ior n ecessar i a m e nt e s e dife re nci a m e n t r e s i . Or a, co m O ve rd a d e iroe o e nt e é i s t o

qu e oco rr e, p o r q u a nt o , s e gu nd o se l ê n o li v r o S o b re a s Ca us a s ( p ro p o s ição 4 .") , a p r ime ira d a s

c

o i s a s c ri a d as é o ser . E o Co m e nt a d or ( d e A r i stó te les , isto é , Aver r oes o u I b n Ro s h d) , ao g l osar

o

ref er id o li v r o, di z: " Tud o o q u e se a fi r m a r p a r a a l é m d o ente s ão pr e di ca d o s o u info rmações q ue

s

e a di c i ona m ao e n te" e , p o r c o n segu int e , lh e são p os teriores. Logo, o ver d a de i r o e o e n te se d i fe-

r

e n ciam u m d o outro.

S. A l ém di ss o , a s co i sas que s e pre d i c am em c o m um d a causa e d os efeitos, id entificam -se

e n t r e s i m a i s n a c a u s a d o que no s efeito s, e, sob retudo, id entif i cam-se mai s ao s erem pred i ca d a s

de D e u s d o q ue ao serem pred i ca d a s d os s ere s cr i a dos . O ra , em D e u s os qu atro e l emento s,

s ab e r , o ente, o u n o, o ver d a d eiro e o b om, s e a p ropri am ou pred i ca m d a f orma s eguin te: o ente

pertence à essê n cia, o u no à ' p e ssoa do P a i , o ve r dade i ro

à p e ss oa do Fi lh o , o b om à pes s oa d o

a

Es p írito Santo . O r a , a s p e ssoa s divina s n ão s e d iferenc i a m ape n a s lo g icarnente, m a s rea lme n te, e

p or co n segu i nte u m a n ão pode s er p re d ica d a da outra . L ogo, com muito m a i or ra z ão s e deve di z er

que o s quat r o conce i to s m e nci o n ado s n ão p ode m di s t i ng ui r-s e a p ena s l og i ca m en t e.

III -

R E S P OS TA A ' QUES T AÕ ENUNC I A D A.

Ass i m como n a s d e m o n s tr a çõ e s é nec e ssár i o o p e r a r u ma r edução a u m c e rto n ú m e r o d e

p ri n c ípi o s ev i d e n t e s à int e li gê n c i a, o m e s m o o cor re ao i nve s tiga r mos o qu e é um a d ete rmin ada

co i sa. D o c ontr á ri o se c h ega ri a, ta nt o e m u m c as o c o mo em o utro , ao i n f inito , o q ue t or n ar i a

t ota l m e nt e im p o ss í ve i s a ci ê ncia e o co n h e cimento d as cois as .

Or a , a prim e ira coi s a qu e a inte li gê ncia co n c e b e como a m ais c o nhecid a , e à q ua l s e r e du z

tudo , é o e nt e, conform e a f i rm a Av ic e n a n o in íc i o d a s u a Me tafisi ca ( l ivro I , capít u l o IX ) . D a í qu e

ne cess a r i a m e nte to d o s o s outr os conc e it o s d a i nt e li gência s e o bt ê m p or a djunção a o e n te.

Or a , ao e n t e não s e p o de acre s c e nt a r al go à m a n e i ra d e um a natu rez a estr anha , a s s im co m o ,

por exem plo , a d i f ere n ça e s p ecí fic a se a cr esce nt a ao gê n ero, o u o a c i d ente a o s ujeit o, u ma ve z q u e tod a naturez a é esse n c i alme nt e u m e nt e . R azão p e l a qu al o F i l ó s o fo de m on s tra (na Metaf i s i ca ,

liv ro ill . com entário 1 0) qu e o e nt e não p o d e ser um gê n e r o e q ue s ó s e p o d e af irmar q ue ce r tas

c oi sas são passív ei s de s er acre s cen t adas ao s e r , n o s enti d o d e q ue ex p r i mem um d eter mina d o

m o d o do m esmo , mo do que não está exp r ess o n o pr ó prio ter m o ente.

A adju nção ao ent e pode ocorrer de d ua s mane i ra s .

A p i r n e i ra e dá qua ndo o mo d o ex p re s so con s titu i um certo modo e s p ecial do ente , p oi s há

g rau difere m d o e nt e, e d e acordo com ele s exis tem gênero s d iver s o s d e cois a s. Po i s a s ub s-

tân ' a não a c r e nt a a o er q ua lquer diferença q ue pude ss e s ignif i car a l g uma natureza s o m ada

QUESTÕ E S DISC U T I D A S S OBR E A VE RDA D E

27

ao ent e . O t ermo s ub s t â n cia

de s i g n a ante s um c e rto modo pecu l iar do ente , i st o é , o que é em vir -

com o s outro s gênero s .

ao e n te o c orre q uando o m o d o expre ss o c om p ete a ca d a s er

de de si me s mo. O mes mo acontece

A s egu nd a ma n eira d e a dj u nção

e m ane i r a

o nvé m a todo ente co n s i derado em s i me s mo ; s e g und o , e n qu a nto convém a todo ente em relação

g eral . E s t e mod o p o d e s er compr ee ndid o

d e dua s m a n e i ra s :

p r im e i ro. e nqua nt o e l e

c

a o utro . No p r im e ir o c as o, i s to s i g ni fica q u e o m o d o ex prim e n o e n te a l g o de m a n e ir a a fi r m a tiva

ou negat i v a . Ora , n ã o exi s te nen h uma a f irm a ção

ent e , a não s er a s u a própri a e ss ência , e m v i r tude d a q ual s e denomina

po s i tiva e a b s ol u ta que s e po ss a a tribuir a cada

ente . As s im é que s e d á o

or ne d e co i sa, a q u a l s e d i f e r encia d o ente , con f orme en s ina Av i cena no i n í c i o d a M e t af isic a , p e l o

' ato de que o e nt e de ri va d a atu alid a d e

d o s er, a o p a ss o qu e o te r mo co i s a ex prim e a " qü id id a d e "

r

qu iddi ta s ) ou " en t i d a d e "

do

ente. A n e g ação , porém , que convém d e m a ne i ra ab s oluta a to d o

ente

;. a i nd i visã o . E s ta s e exprim e pelo termo " un o" , v i s to que o uno outra c o i s a não é s enão um

ente

i

n divi s o .

 

S e , con tud o , o mo d o d o ente f o r e n te nd ido

n o s egun do s en tid o , i s to é, s eg und o a re l a ç ão d e

à out r a , i s t o p o d e ocorrer de doi s modo s. P rimeiro, conforme a divi s ão ou di s t in ç ão de

s ign i f i ca mai s o u

é e m

m a co i s a

ma co i sa d a outra: é o q ue s e expre ss a no termo " al g o ", q u e e tim o l og i c a m ente

u

m enos " o u tra c oi s a " (ali u d quid). Por co n s e g uin te ,

s

a ss im c o mo o e n te s e diz uno , e nqu a n t o

i mes m o i n div i s o, d a me s m a fo r m a s e d enomina a l go, en q u a nto s e d i s ti n g ue de out r o s .

A o ut r a maneira é s e g undo a concor d â n c i a

de um ente com o outr o . E i s to só é p oss í v el s e

s

e

cons idera alguma coi s a a p ta a co n cordar

co m todo e q ua lqu e r e n te . T a l é a al m a, q ue e m cer t o

s

e

nt ido é tu d o , co nf o rm e s e af i r m a na o br a So br e a Alma ( li vro Ill , texto 37) .

A al ma

o nco rd â ncia

é d otada de u ma facu l dade c o gnosc i ti va

e ou tra ten d e nc i a l (appetitiva), s endo que a

do e nte com a facu l d a de t e ndenci a l

s e exp r i me com o t erm o " o bem " (bonum) , con -

fo rme e s tá dito no li v r o da Étic a : " O b e m é a q u i l o a qu e te n de m tod as as

t

ida, a co nc or d â n ci a

do e n te c o m

a i n te li gê n c ia ( f ac uld ade co g n osc i tiva )

coi s a s" . E m c o n t r ap a r - e s t á ex p res s a no te rm o -

"v

erda d e ir o " .

C o m e f e i t o, to d a cog n ição

s e efet u a m e di a nt e um a a ss e me lh ação

do s uje it o q u e

co

nh e c e c om a coi s a con h ecida , de tal m a n e ir a q u e a a ss e m e l h aç ã o

f o i d e nominad a

c au s a d a c og-

nição, ass i m co m o a vi s ã o a p ree nd e a co r pe l o fato d e to rn a r- s e capaz di s t o p e l a i mage m d a re s-

pe c t iva cor . Em co n s e q ü ê n ci a ,

e n t r e o o b -

corre s pon d e r a e s t e , corres p ond ê nci a

a p r ime i r a

re l a ç ã o

do ente com o i ntelecto

con s i s t e no fa t o de aq uel e

que s e d e nomi n a ass emel h ação o u co n c o rd â ncia

je

to e a i n t e li gê n cia ,

s e n do ni s to qu e s e co n cre ti za

f or m a lment e

o c o nc e i to d e ver d a d e .

P

o r c o n s e g uin t e ,

o qu e o ver d a d e i r o

entr e a c o i s a

e a i nte l igênc i a, co n co r d â n c i a

a c re s c e nta

ao e n te é a c o n cor d â n c i a

ou a ss eme lh ação

d a q ual deri va a co g nição d a coi s a , como f i co u exp l a-

na

do . A ss im , po i s , a e n t i d a d e d a co i sa a n tece d e a e s f era d a v er d a d e , ao p ass o qu e a cog n i ç âo

co

n s ti t ui um certo efeit o d a ve rdad e .

C onforme qu anto ex pu se m o s, exi s te um a trí pl i c e di v i s ão d a ve rd a d e e do ver d a d e i ro.

A primeir a te m c o mo c r i tério aquilo que antecede a ve rdade e no qual s e f u nd a menta o

verd ad e iro. É a ss i m q ue Ago s ti n ho

é"; e Av ic e n a (Meta f i s i c a, li v r o X I , c a p ít ul o Il ) : "A ver d a d e d e cada c o i s a é aq u ela pr o p r i e d ade

do s e u se r q u e fo i e s ta b e l ecida

s

o c o n ceito de ve r da d e ir o.

(So l i l ó q uios, c a pítu l o V ) d e fi ne : " O verda d eiro

é a q ui l o que

é a in divi -

p a r a e l a " . O utr os h á q ue ass i m d e f i n e m : " O ve r d a de i r o

fo rm al m e n te

ão d o e n t e e d aqu i l o qu e é" .

A ' s e g u nd a d e fi n i ção b a s e ia - s e n a qui lo q ue c o n s t i tu i

A ss im d i z I s a qu e: " A v e rd a d e c o n s i s te n a

q

ret id ã o , perce p t í ve l exclu s i va mente ao

a

s s em el h ação

d a co i s a co m a in t e li gê n c i a ",

e nqu a n to

u e An s e l mo (So b re a Ver dad e , cap í tu lo X I I ) oferece a s eguint e def i n i ç ão: "A ve rd a de c o n s i s te na

e s pírito ". Com efeit o, é de sta r etid ão que s e f a l a no s entido

d

e u m a certa asse me lh a ção ,

co n fo r me diz o Fi l ó s ofo (Me tafisi ca, li v r o IV , co m e n tá r i o

27 ) , que

d

i

zemo s n a d e fini ç ã o d o ver d a d e i ro ,

q u e é aquil o q ue é , ou q ue não é a quil o qu e n ã o é .

A t e r ce ira de f i n iç ão da ve rd a de e d o ve r dad e iro

b a s e i a - se

n o e f e it o qu e seg u e . N e s t a l i nha

H i l â ri o a f i r ma: " O v erd a deiro

d e i r a R e l i g i ão, c a p í t ul o XXXV I ) :

é o e nte q u e s e re ve la e se e x plica " . E Ag o s t in ho

" A v e r d a d e é a q u i l o atra v é s do

(So b r e a V e rd a -

q ua l s e reve l a a qu i lo qu e é". O u

28

S A NTO T O MÁ S

IV -

R ES P OSTA AOS ARGUM E TOS DA TES E .

1 . Com a ci t a d a d ef i niç ã o A g o s tinho

quer de f in i r o v e rdadeiro

como s endo aquilo que t em

fu

n damento n a rea lid a d e, s em querer nega r qu e o ver d a d eiro s e d ef i ne pela conformi d a de

entre a

c

oi s a e o inte l ecto . Em outro s t er m o s, dir - se - á q ue , ao af i r m ar q u e " o ve r da d e ir o

é a qu i l o qu e é ",

o

ve rd a d e i ro

n ão s e ente nd e aqui enquan t o

s i g ni f i c a o ato de s e r , ma s enquanto é a d e s i g nição d o

inte l e c to comp os t o,

o u s e j a, e n q u a n to

s i gn i fica a s imp le s a fir mação

d a pr o p o s ição,

d e f orma qu e

o

s en ti d o é : o ver d a d eiro

é aquilo que é , ou seja , pred i can d o - se

o ente de a l guma coi s a q u e é. D e s -

tarte , a d ef i n i çã o d e Ago s t in h o coin cid e pr a t ica m ente c om a d e f mição aci m a c i tada do F il óso f o.

2 . A r e s p o s ta s e d e d uz do q u e j á fo i exp l anado (no item Ill ) .

de

d uas ma n e ir a s . Pr i m e i ro, n o se ntid o de q ue s e co mp ree nd e uma coi s a, s em co m pree n der a outra . É o q u e

aco n tece com as co i s as que s e dife r e n cia m sem a o ut ra.

3

. A a fir m ação

d e que um a coi sa p ode se r e n t e n dida

s e m a outr a pod e s er compr ee n d ida

a p e n a s p e l a r azão : um a co i sa

pod e s e r c omp ree nd ida

. No s e g undo s e n tido , o conhecimento

de ta l m odo , q u e um a é conhec i da

co nh e c i d o sem o ver d adei r o ,

gência ou com e l a não co n corda r .

me n te tam b é m o ver d adeiro,

c ame n te o int e l ecto o p e r a n te , nada p o d e co nh ecer.

de uma coi s a s em o co n hec i me n to

da ou tr a s e ent en de

s em que

a outra ex i s ta . Ne s te s egundo o ente não pode s er

se n ão corres p on d er

à i n t el i -

pois o ente não po d e s er con h ec id o

I sto não s i g n if ic a q u e que m con h ece o e n te con h ece nece ss aria -

a ss im co m o nem todo aque l e q ue con h ece o e n te con h ece automati -

e todavia p e r ma n ece

de p é q u e s em o i n te l e c to agent e o h o m em

4

. O ver d a d e i ro

é u ma di s po s i ção

do e nt e , não n o s e n t id o d e a c r esce n tar -lh e

a l g um a na t u re -

za , n em n o s e nt id o d e ex p rim i r alguma m o d a lid a d e

q u e s e e n co n tr a

não é n eces s á r io

e

s pecia l do ente , ma s e nqu a nto co n s ti tu i al g o

pe l o t er m o en t e. Logo,

no ente de ma n e ir a ge r a l , e n o en t a nt o não é ex pli cita d o

que s e trate de u m a dispo s ição

que corrom p e o ente, ou que tire a l g o d e l e, ou q ue

o

li mi te .

5

. D i s po s i ção

n ão s e e n te nd e a qu i n o se n tido d e q ual i dade,

ma s e nq ua n to impl i c a uma ce r ta

or

dem. Uma vez q u e o en t e n o s e n tido m ais p e r fe i to é aq u i l o q ue const itui

cau s a d o s e r de outro s,

e

o ve rd adei ro

n o s e nt i d o m a i s p e rf eito é a quil o q ue con s t itu i ca u s a d a ver d ade de out r os, c o n c lu i

o

Fi l óso f o q u e a orde m d e u ma coi s a n o se r é a me s ma que a ordem d e s ta

coi s a q u anto à verdade.

Is

t

o no sen t i d o d e qu e , l á on d e se enco nt ra o s er na sua m a i or pl en itud e, a l i t a mb é m está o ver d a-

d

em se u s con c eit o s a m esma

s

ei r o n a acepção m ai s p l e n a

e à in te l igência

do t ermo . Ta l acontece, não porque o ente e o v er d adeiro con s tit u am

d e as s eme lh a r -

co i s a, m a s por q ue , s e alg um a c oi s a tem a capaci d ade

ou de con c or d ar

co m ela , isto a c ontece na me d ida e m q ue p artic ip a d o ente.

Co n s e qü e n te m e n te ,

o c o nc ei t o d e ver d a d eiro

s egue

o conceito de e n te, se nd o logicamente

po s te -

ri

o

r a e le . 6. O ente e o ve rd ad ei ro

d i s tinguem - se

tam b ém pe l o fato d e o c onceito de verdadeiro

poder

c on t e nh a tudo o qu e

s e e n cer ra no d e e nt e . O ente e o ve r da d ei r o

ça s o p o s tas.

de c erta m aneira, se p re-

di ca do não- ente , i s t o é , enq ua n to o n ão - e nt e é ap r een d i d o

da M etafisic a (t e x t o 2) , o F i l ó s o f o a fi r m a q u e tanto a negação c omo a p rivação do e n te se d e n o- minam e nt e s . T am b é m Avicena d iz , no irúcio da Metafisica, q u e não se p ode fazer u ma enu n cia -

ção a não s er do ente, visto que , n eces s ariame n te,

de v e s er apreen dido

qu e , no l ivro IV

encerrar a l go qu e não s e contém n o d e en t e , em b o r a o c on c e it o d e ver d a d e i ro

não s e diferenci a m nem p ela e ss ência nem p o r diferen -

e l a int e l igênc i a . D aí

aq u i l o acerca de q u e se f az a l g um a p ro p os iç ã o

7 . O ver d a d e ir o nada acresce n ta ao e n te, p ois o ente, compree nd ido

p

p e l o inte l ecto . D ond e s e infe r e que tod o v e rdadeiro é de a l g um modo um en t e.

- R ESPO STA A OS ARGUME N TOS DA CONTR A TES E.

e

i r o

1

. A o deno m i nar- s e

u m s er

v e r da d ei r o, não s e incide e m ta u tologia ,

p oi s com o termo verda -

e x pr i me al g o que não e s tá a inda con tid o no t e rmo ente . A razão da não - tautologia

não

QUESTÕES DISCUTIDAS S O BRE A V E RDADE

29

2 . Em bor a s e j a um m a l e s t e homem est a r fornic a nd o, tod av i a, p e lo f a t o d e po ss u ir alg o d o

en te, con a tur a lm e nt e t e m c a p a cid a de de e s t a r e m conformidade com a inte ligê ncia , e p o r iss o con -

tém a n oção de ve r dadeiro . Por con s e g uinte , n ã o u l t r apa ssa o e nt e nem é por e l e ultrapa ss ado .

3 . Qu a ndo s e a firm a qu e " o e nte dif e re d a quilo qu e é", di s tin g u e - se o a t o de se r d a quilo a

qu e c ompe te e s te a to . Or a , o conc e ito de en te t o ma- se do a to de s e r , e n ão d a qui l o a qu e c o mpete

o

a to d e ser, e p or c on s eg u i n te o a r gume nt o n ão p ro c e d e .

4

. O v erd a d e ir o é p o s ter i or ao ente , n o s e n ti d o d e qu e o conc eito de ver d a d e i ro di fere do d e

e

n te d a m a n e ir a a cima e x po s ta .

5. O a r g umento apre s ent a tr ês f a lha s.

a ) Em b ora a s t r ês p e s s oa s divin as se diferenciem e n t re s i po r d istinção re a l , a s cois a s a pro - pri a da s a cada pe ss o a n ã o dif e rem r eal m e nte , ma s a pena s n a o rd em ló g ica.

b ) Emb o r a as tr ê s pe ssoa s se di s tin ga m r ea lm e n te uma da outra , tod avia n ã o s e di s tin g uem

d o ente . L og o , ta mp ouco o ver d a d e iro a trib uí d o à p essoa d o Filho se di s tin g u e r ealm e n te d o e n te

qu e e s tá d a p a rte d a e ssê nci a.

c ) Emb o r a o ent e, o v e r d a d e i ro , o un o e o bom s e i d e n tifiq ue m , e m D eus , m a i s d o qu e n as

coi sas cri a d a s , n ã o é n ec e ssá rio qu e , pelo fato d e se dis t in g uirem lo g ica m e nt e e m Deu s , n a s cria - tur as se di s tin ga m t a mb é m r e alm e n te. I s to a contece com a quelas cois a s que pelo s eu pr ó prio con - ceito n ão s e ident i f i cam , tai s como a s a b edor i a e o pod e r , o s quais , embora e m De u s con s tit uam

um a s ó coi s a , na s c r i a tur a s s e di s tin g uem r e almente. Or a , o ente , o ver d a deiro , o bom e o uno ,

pel o se u c o nc e i to , se id e ntif i c a m. D a í que , o nd e qu er qu e se encon t r e m concr e t iza do s , c o n sti tuem

r e a lmente um a só c o i sa, e mb ora s eja m a i s per fe it a a unid a de quand o s e e ncontra m e m D e u s do

qu e qu a ndo se en co n t r a m na s cr i aturas .

A R TIGO SE GU NDO

A verdade encontra-se primariamente na inteligência ou nas coisa s ?

I

-

T E S E: P A R ECE RI A

Q U E A VE RD A D E S E E NCON TRA PR IMA RI AMENTE

C O I SA S , E NAÕ N A I N T EL I GENC I A .

NAS

1 . Conform e ex pu semo s no a rti g o I , o ve rdadei r o é c o nver s ív e l co m o e nt e . O r a , o e nt e s e

e n co ntra ante s de tudo for a d a int e li gê ncia . Lo g o , t a mb é m o ve rd a deiro s e enc o n tra a nt es f o r a d a inte li gê nci a , ou s eja , na s pr ó pr ia s co i s a s.

2. Al é m di sso , a s c oisas n ão e stão n a i nt e l igên c ia p e l a s u a es s ê n cia, m a s p e l a s ua imag e m

( sp e ci es ), c o mo se l ê n o li v r o Ill d a o br a S o bre a A lma ( c o men t á rio 38). S e a v e rdad e s e e nc o n -

t r asse pr i mari a mente n a int el i gê n c ia , a verd a d e n ã o c o n s tituiria a essê nc ia da coisa m a s ap e n as

u m a s emelhança ou ima g em d e l a , e o v e rd a d e iro seria apena s uma imagem d o e nte e x i s tente fora

do intelec t o . Ora, a ima ge m da coi s a , que exi s te na i n tel igên c i a, n ã o s e p r e dicaria d a co i sa exis - tente fora d a intelig ê nci a , como t a mb é m n ã o seri a conver s ív e l com e l a . Por tant o , t a mpouc o o ve r - dadeiro s eri a c o n v ersí v e l com o ent e, o qu e é f a l so.

qu al e s tá. S e ,

p o rtanto, a v erda d e est i vesse ant es n a i nt e l igê n c i a d o qu e n as c o i s as , o juízo so br e a ver d a de o cor -

r e ria s e g undo o p a rec e r d a i n te l igê ncia. C o m o que se voltar i a ao erro do s f ilóso f o s a n tigos, seg undo o s qu a i s tud o o que a l g uém opina é v erdadeir o, e du as af irmaçõe s con t r adit ó ria s s eria m

ve rdadeira s ao mesmo tempo . Or a, i s to é absurdo.

4 . A l ém di ss o , s e a v erd a de r e s i d i sse primariame n t e n a i n t eli g ênc i a , seri a nece ss ário que

um a coi sa que per te nc e à compreen são d a v e rd a de f i ze sse p a rte d a d e finiç ão d a própria verd a d e .

:3 . A lé m di ss o , tud o a quilo que e s t á em a l g um a co i s a

é p os t e r io r à co i sa n a

O

ra, A gost inho recu s a ta i s definiç õ e s da ve rd a de no l iv r o d os S o l i l ó quios ( liv r o 11, c a p í tulo s IV

e

V); por e x emplo , a s eg u i n te: " Verd a dei ro é a quil o qu e é co r no a p a r e c e" . Com e f e i to , s e e s t a de f i -

niç ão f oss e c or ret a, n ão s er i a ve rd a d e ir o o qu e nã o a p arece. O ra , ist o é fa l so e m s e tra t a ndo d a s

30

SANTO TOMÁS

p e drinha s mai s e s condida s que s e encontr a m na s entranhas d a terr a . A g o s tinho rejei t a também

es ta definiç ão: " V e rdadeiro é a quilo que é t a l qu a l ap a r e ce ao s uj e ito co g n o s cente , se e s te qui s er

e puder conhecer " . Com efeito , s egundo e st a definição , uma cois a deixaria de s er v erdadeira, s e o

s

outras d e f i n i çõe s da ver d a d e , na s q u ai s s e coloca sse a l g uma referência nece ss á r i a à inte l i g ência . Por con s e g uinte , a v erdade nã o e s tá prim a riamente na in tel ig ê ncia .

u j eito co g n osce n te não q u i s e sse o u n ão p ude sse co n hecê - I a . O mes mo aconteceria com qua i squer

II -

CONTRATESE

A I NTEL I G Ê NCIA,

P ARECERIA

QU E A VERDADE

E NAO NAS CO I SAS .

RESIDE P R I MARIAMENTE

1 . O Filó s ofo af i rma no li v ro VI d a Metafisica (coment á rio 8 . °) : " O verdadeiro e o fa l so

e

xi s tem s ó na inte l igênc i a " . 2. A l é m di s s o , a ve rd a d e co n s i s te n a confo rmid a d e e ntre a coisa e o i n telecto. O r a, esta

c

onformidad e s ó p ode re s i d i r no inte l ecto. Lo g o, também a ve rd ade só pode re s i d i r na

i

nteligênc i a.

Ill -

R ESPOSTA

A ' QU E STAO

EN U NCIADA .

Quando s e p r edica al g o de al g uma c o i s a an t e s da s outra s , nã o é nec e ss á r i o q u e o o bjeto ao

q

u al s e a tribui ante s o predicado comum s eja a cau s a do s out r o s , s enão que a cau s a é aquilo n o

q

ual s e encontra primeiro a noç ã o com pl eta de s te p r edicado comum.

A ss im , por exem pl o , a s a nid ade é p redica d a ante s de t u do do a n i m a l , n o q u al p or pr i m eir o

s e v er if ica o co n ceito com pl eto de s a ni dade , e m bora ta m bém o remédio s e pos s a q u a lif i car como

s a di o , pelo fato de gerar s anidade . Con s eqüentemente, já que o v e r d a deiro s e predica de muita s cois a s , em s entido primário e em s entido s s ecundário s, nece ss ariamen t e s e p r e dica priori t aria -

m en t e daquilo em q u e a noção de verdade s e e n contr a em s ua plen i tu d e. Ora, o c omp l emento o u pl e n i tud e de qu a lqu er m ovimen t o é con s t i t u íd o p e l o s e u fim ou

t e r mo. O mov i mento da faculdade cogno s cit i va encon tr a o se u termo na inte l igência , p oi s a co i s a

co

nh ecida de v e necess ariamente encontrar - s e n a inte l i g ência que conhece , s e g undo o modo carac-

t

er íst i co d e s ta última. Ao c o n t r á rio , o term o d a faculd a de tenenci a l s ão a s cois a s , razão pela qu a l

o

Fi l ós ofo, em s ua obra Sobre a Alma ( l ivro Ill , comentár i o 54 e s e g uinte) , estabele c e um c e rto

ci

rcu ito n o s a t o s da alma e d a in te l igê n c i a , no s ent id o de que o o bj eto q u e e s tá fora da i n t e l igên c ia

põ e em m ov imento a inte l igência; o objeto conh e c i do , por s u a v ez , desperta a facu l dade tenden -

c i a l ( app et i t iva), e e s ta faz c o m que a intelig ê nci a ret o me ao objeto , do qu a l partiu todo o mo v i -

m e nt o d o process o cogno s citiv o .

E j á qu e o b e m. co n form e fic o u d e m o n s trad o n o a rti go a nterior . e s t á co r re lac io n a d o à fac ul -

d a de tend e ncia l , ao passo q ue o ve rd ade i ro se re l ac i ona com a intel i g ência , af i rma o Fi l ósofo

Met afis i c a , l i vr o V I , c o m e nt á r i o 9 . ") q u e o bem e o m a l s e e n c o ntra m n a s cois a s, a o pa s s o qu e

o v e rd adeir o e o fal s o re s idem n a intel i g ê nc ia . Ora , uma c o i s a só s e diz ve rdadeir a na medida em

e co ncorda com a i n tel i gência que a conhece. Po r c o n s eguinte, o ver da deiro s e encontra primei-

r a m ent e na i nte li gê nci a , e só d epois n a s coi s a s .

o d a via , cu mp re notar q ue uma é a re l ação que o objeto tem com o co n hecimento p r ático e

urr a a q ue tem com o c o nhecimento t e óric o . O conhecimento prático cau s a a s cois a s, razão pela

q u al co n s t i t ui a medida da s coi s a s q u e v ê m a s er por obra dele . Ao contrár i o , o conhecimento t e ó-

r i c o . pelo f ato d e receber d a s coi s a s, é d e ce r ta ma n ei r a movido pela s p rópria s coisa s, s e nd o por -

e s ta s q u e con s ti tu em a medi d a de l e . D aqui s e conc l u i que s ão a s cois a s da n a tureza , d a s

T

-::Jai a no s s a intelig ê ncia haure o s eu conhecimento , qu e con s tituem a m e dida do no ss o intelect o , form e s e af i rma no livr o X da M et afi s i c a (c o ment ár io 9 .° ). E s tas, porém, deriv am a s ua med i -

=- ca i nt e l i g ência de Deu s, no qual tudo e s tá encerrado , da me s ma f or ma q ue tudo o q u e con s titui to da mente h u m ana se e n co n tra n a intel i gê n cia do artífi ce. As i m , poi s , a inte l igência de Deu s con s t i tui a m edida d e tudo , n ã o po d endo , por é m , s e r me- _ c o me n s urada p or nin gu ém e por n a da , ao pa ss o qu e a s cois a s da natur e za s ão a o mes mo

m en s u rantes e comen s ur a da s . A o contrário, a no s s a inteligê nc i a é comen s urada ; é tam -

QUESTÕES DISC U TIDAS SOBRE A VERD A D E

31

eng enh o human o .

m com e n s u r an t e ,

n ã o por é m e m rel a ç ã o à s co i s a s cri a da s ,

m a s em re l a ç ão ao s pr od ut os

d o

P

or t anto ,

o o b je t o n at ur a l

está c olo c a d o

en tr e duas int e li gê n cia s

e s e d e n om in a v er da d ei r o

s

eg und o a s ua c onformidad e

c o m a mba s . Se g undo a conf o rm i dad e

c o m a in t eli g ê n c i a

divin a, a

c

oi

s a criad a s e denomina v erdadeira , n a m e dida em que cumpre a f un ção para a q ual f o i d e s t i -

n ada p e l a in t e l igência di v ina , como demon s tr am An se lm o ( S o b re a Ver dad e) , A go s t in ho (Sobre a

a

n a medida em

V er dad e ira R e ligiã o, c a p ít ulo XXX I )

o nf ormid a de

e d enomin a m

u a p a recem diver s amente

e A vi cen a,

c o m a definiç ão

a c im a r eferida . S eg und o

c

qu e é ap ta a f or n e c er p or s i m e s m a um a ba s e pa ra u m jul g amen to

s

o

c o m a inteli g ência humana , a coi sa criada s e denomina v erdadeir a,

aq ue la s c o i s a s qu e t ê m a ptid ã o p a ra a par e n ta r e m

cor r eto. An a l ogame n te, f al sas

al g o que n a re a lidade n ão s ão ,

do que na realidade s ão , s e g undo o que afirma o quint o li v r o da Meta -

f ísi ca (co m e ntá r i o 34 ) .

A pr i m e ir a a c e pçã o d a ver dade r e si de n a coi s a an t e s da seg unda, v i s t o que a c o nf or midad e

c o m a inteli g ênci a

me s m o qu e não hou ves s e int e li gê n ci a

ras,

g

divin a é ant e rior à conformid a de

com a me nt e humana. Con s eqü e ntemente,

a d e n o min a r - s e ve rdad ei -

hum an a , as cois a s c o n ti nu ar i a m

e m r e la ç ã o à m ent e di v ina . Se , p oré m, p o r um a hip ót e s e imp o ss íve l , n ã o e xi s tis s e ne m a int e li-

não teria s entid o al g um f a l a r de verdade .

ê n c ia humana nem a divina , já

I V ~

R ES PO S T A AO S ARG U M E TOS DA TESE .

1. Se g undo quant o ac im a ex pl a n a mo s , a v erdad e se predica pr i m a riamente

da in t eli gê n cia

que conh e ce, e só d e p o i s do o bje to o u co i s a q ue c o n corda

q u e em ambo s o s s en t id os o v erdad e ir o é con v er sív el com o en t e , embora de maneira di v er s a , ou

s

t o d o s er co n co rd a c o m a i nt e l igê n c i a d iv in a e p o d e f a z e r c om que a in te l i g ênc i a h um an a co n co rd e

c

equ i v ale a o ente que re s ide fora do int e lecto na linha d a p r edica ç ã o,

o u d a pe rt in ê nci a

neces s ariament e um ente , e vice -ve r sa.

qu e a to d o con he c im e n to verd ad e i ro cor re s po n d e

c om a in te li g ên cia c og n o s c en te ,

s end o

eja: ao pr e dica r - s e

o m el e, e v ice - v er s a .

das coi s a s , o v erdadeiro

equi v al e ao ent e na linha d a p re dicação ,

s e entender c o m refer ê ncia

um a ve z que

já n ão

Se , po r ém , o verdadeiro

à intelig ê nc ia ,

ma s n a linha da s e melhan ça

com u m , i s t o é , n o s en tid o de

2

. A re s po s t a s e g ue do p o nt o a cima.

3.

A quil o q ue re s ide num outr o s er só dep e nd e del e qu a ndo é ca u s a d o

p or d e r iv aç ão

dos

s eus pr i n c í pio s.

Assi m , p o r e xe mpl o , a lu z , qu e é p roduzid a

n o ar por f at o r es a ele e xt rí n s e c o s

-

no ca s o , o s ol -,

d e p e n d e ma i s do m o vi m e nt o

d o s o l d o qu e d o ar. Ana l o g arn c nt c.

a ve rd a d e ,

p

r o du z id a

n a int e li g ê n cia

p e l a s co i s a s cr i a d a s,

não de p e nd e d o jul ga m e n to

d a al m a, e s i m d a p ró -

p

r i a exi s t ê n c ia

d a s co i sa s . Em o ut ro s t e rm o s : um a pr o p o s iç ão

é ver d a d e i ra

o u f a l s a , na m e did a

em < ; lu ea c o i s a f o r um ent e ou um n ã o - e nt e. O m e mo se d á com o co nh e cim e n t o .

4. a s re ferida s pa ssage n s, A g o s tinho

fa l a d aquela v i s ã o d a intel igê nc ia human a , d a qual a

V Erd ade da coi sa n ã o de p e nde. E fe t i va ment e , exi s te m mu i t as

nossa i nt e li g ência . Contudo ,

d

a

to ma r -s e q u a lqu e r coi s a . C o n s e q ü e nt e men te ,

co i s as qu e nã o sà o a pre e ndida s

p e la

nada ex iste qu e n ã o po ss a ser apreendido ,

em ato , pel a inteli gê ncia

ivi na , e em pot ê nci a ,

pelo in t ele cto hum a no ,

v i sto qu e o int e lecto age nt e se define co m o se ndo

n a d e fini ção d a coi s a ve rdad e i ra

qu el e qu e p o d e f az er tud o, e o int e lecto p os s ível s e defin e com o s end o aq u el e que é pa ssív el d e

p o d e e ntr a r a' v f sÍi o

at ua l (e m a t o) d a int e l igê nci a di v in a, ao p as s o qu e a v i s à o da int e li gê nc ia hu man a s ó p o d e e n t r a r

e for e n te n d id a na l i n h a d a p otê nci a , confo r m e s e ev i de nc ia d o q ue foi e xpo s to a c ima ( n o i tem I II

d e s t e artig o) .

QUESTÕES DISCUTIDAS S O B R E A VERDADE

49

s oa s ; a ss im é, por exemplo , q u ando di ze mo s q u e o P a i e o F ilh o s ão i g u a i s . Entendid a n e s te s enti - do , a concord â ncia ou igualdade implic a um a diferença r e al entr e o s doi s termo s da r e laç ã o . E m outros casos, po r ém, o s termo s conformidade e i gu a ld a de não implic a m nenhuma diferença r ea l , m as apen as uma d is ti n ç ã o r a ciona l. A ssim , p o r exemplo , quando afirma mo s que a sa bedoria e a bondade de Deu s s e identificam . Por con s eguinte , a concord â nc i a ou identid a de não imp l ica nece ssa r iamente um a dife r e n ça entre as pe s soas . O r a , tal é a d iferença exp r essa p e l o t ermo ve r da - de, q u a n do a defi nimo s como a confo r mid a de-concordâ n c i a - ig u a l d a de e ntre a inte l ig ê ncia cogno s cente e a e ssê ncia de D eu s.

3 . Se bem que a v e r dade s e ja concebida pel a inteligê ncia, tod av i a o t e rmo ve rd a de n ão expr i -

me o conceito de conc e pção , como a contece com o term o palavra . P o r con s e g uinte , n ão e x i s t e a

s emelhança invocada pe l o argumento .

ARTIGO O ITAV O

T od as a s verda de s d er i vam da Ver d ade Primeira?

I

-

T E S E :

A O P ARE C ERI A Q UE TOD A S A S VERD A D E S D E R I V AM DA V E R D AD E PRI ME IR A .

l . É v erd a deiro que e s te homem co m e t e fo rnic a ç ão. O ra, i s to n ã o proced e d a V e rd a de Pri- meira. Logo , nem toda ve r dade deriv a da Verdade P r ime i ra .

2. Ao arg u mento ac i ma p o d e -s e ob j e t a r , porém , qu e a verda d e do s i n a l ou d a i nt eligência ,

e m v i rtude da qual isto s e denomina v e rdadeiro , procede de Deu s, n ã o porém a verdade em virtu-

de da qual s e r e f e re à coi s a . A i sto s e r es ponde : a l é m d a Verd a de Primeira n ã o ex ist e a pen as a v e r d a d e do s in a l ou do

intelecto , ma s t a mb é m a v e rd a d e da c o i sa. Po r tanto , s e a v erd a de ac i ma ( e ste home m come te fomic a ção) não procede de D eus no q u e s e r efere à cois a , e s t a verdade da cois a não d erivará de De u s, e a s s i m se g u e a me s ma concl u são , i s to é, que n e m todas a s verdades derivam d e D eu s.

3. A l ém di ss o , s e g ue: E s te homem comet e fornicação . Lo g o , é v erd a de que e s te homem co -

m ete fornicaç ã o , p a r a que se o p e r e a de s c i da d a ve rd a d e da propo s ição p a r a a v erd a de do a f irm a -

d o, a qu a l exprime a verd a de da co i sa. Con s eqüentemente , a mencion a da v erd a de con s i s te no f a to

de que e s te determin a do a to s e c o mbina com e s te dete r m i nado s ujeito . O ra , a v erdade do afirma d o não d eriv a rá d a co m bi n ação d o citado ato com o s u jeito , a não ser q u e se e n tenda a co m bi n ação

do ato feito imora l men te . Logo , a verdade d a coi s a s e verif i ca não s ó em re l ação à pr ópria es s ên - ci a do ato , ma s tam b ém quant o à imoralidade . Or a, o mencionado ato (fornicaçã o) , con s i d erado

d

o ponto de v i s t a da imoralid a de , d e f o rm a al g um a proc e d e d e Deu s . Lo go, n e m todas a s v erd a-

d

es deri v am d e D e u s .

4.

A l ém di ss o, An s e l mo (Sobre a Verdad e , capítulo I V) afirma que um a cois a s e de n omin a

v

er d adeira en q uanto é t al c omo deve ser . En t re os modo s segundo o s q u ais se pode d i z er q u e a

c oi s a d eve s er , A n se l mo cita um modo , s egundo o q u a l se diz que a cois a deve s er , pelo fato de

que aco nteceu com a perm i s são de Deu s . Or a, a permi ss ão de D e u s s e es tende tamb é m à imo ra li- da de d o at o. Logo , a v erdade d a coi s a englob a a mencio n a d a imora l id a de . O ra , a re f erid a imor a li-

da de d e modo al g u m procede de Deu s . Logo, nem toda s as verdad es deriva m de Deu s.

5 . Ao ar g umento acima pode - s e objetar : a ssim como a imorali dade ou a priva ção de alguma

c oi s a não s e de n o m inam e nt e s no s enti d o a d equa d o , mas apena s n o s e n t i do a n a l ógico , d a mes ma

f o rma s e di z que o mencionado ato cont é m a v er d ade em s entid o adequado , mas a pena s com

r estr iç õ e s. O ra, t a l verdade tom a da em sen t ido a n a ló g ico nã o d eriva de D e u s. A i s to s e pode r espond e r: O conceito de v e r dad e iro a cre s c en t a a o d e ente a re l a ç ã o com a

i nte li gê ncia. Ora, a pri v ação ou a imoralidad e , emb o r a não se j a m em s i ente s pura e s imple s -

me n t e , todav i a sã o apre e ndida s pelo inte l ecto , pura e s impl es mente . Po r con seg u i nte, aind a q u e

n ão s ejam e n te s no s enti d o a d equa d o d o ter m o ; co n s titu e m ve r dad e em se ntido pró p r i o.

50

SANTO TOM Á S

6. A l é m d i sso , t ud o a quil o qu e é ente a p e n as em se n tido a n a l óg ico pode s er re d uzid o a a l go

que é ente pur a e s imple s ment e, e m sen ti d o pr ó pr i o . Ass im, p o r e x emplo , o a fir m a r q ue e s te cid a - dão etíop e é b ranc o p o r c a u sa d os d e nt es b r anc os se r e duz a a firmar q u e os d ente s de s t e c idadão etíop e são b rancos . C o n s eqüenteme n te, se u ma v e r da d e , pe l o f ato de s er t al em s entido a n a l óg i co , nã o d e r ivasse d e D eu s, d ev e r-se-i a c onc luir també m q ue n e m todas a s ve rd a d e s d enomi n a d as tai s pur a e s imple s m e nt e pr o c e dem de D e u s . O q u e seri a a b s urdo.

7. A l ém di ss o , a qu i l o qu e n ão é cau s a de u ma cau s a , tamp ou c o é c au sa d o e f eito , a ss i m

como D e u s n ão é a ca u sa d a i m oral i dade , por não ser ~ ca usa da d ef i c i ê ncia no livre a rb ítrio , d a qu a l pr ové m a i m ora lid ade . V r a , a ssim c o m o o s e r é a ca u sa d a verdade c o a p a n a s p r o p o s içõe s

af irm a ti vas , d a m e s m a fo rm a o n ão -s e r é a ca u s a d a s propo s i çõe s n eg a tiva s . Log o , j á qu e D eu s não é a causa d o q ue é n ão - ente , conforme af i rma Ago s tinh o no l i v ro LXXXIII d a s Q uestões

( q ue s t ão 2 1 ) , c o n c lui- s e q u e D e u s não é a cau sa d a s p r opo s içõ es ne g ativ as. L og o, n e m t oda s as verd a d es d e ri va m d e D e u s .

8 . A l é m d i ss o , Ago s ti nh o a fir ma n o l ivro d o s So lil óqu io s ( l ivro li, cap í tu l o V) q u e é ve rd a - dei r o aqui l o que aparece ta l como de fato é. O ra , uma deter min a d a a ção m á a p a rece a I co mo d e fato é . L ogo , e s ta deter m i n a d a a ção má é v erda d e i ra . Or a, ne n hum mal v em de D eu s . Lo g o , n e m

t ud o o qu e é ve rd a d e iro d e ri va de Deu s .

li - ,

CO N T R A T E SE :

PROCED E M D A VERDAD E PRIM E I R A.

P A R E CERI A

Q UE TOD A S A S VE RD A D E S

1 . A pr o p ós it o d a p assa g e m d a Pri me ir a E p ís t o l a d e São P a ul o ao s Cor ínti o s, ca p í tulo X II,

ve r s í cu l o 3 ( " i n g u ê r n , fa l an d o s ob a ç ã o d ivi n a , p ode d i z er : ' J es u s s eja mald ito ', e n i nguém pod e

d iz er: ' J es us é o S e nhor ' , sen ão s ob a ação d o Es p íri t o Santo" ) , af i rma Ambró s io : " Tudo o q u e é ver d a d e ir o , p o r qu e m qu er qu e s e j a dit o , p ro c e d e do E s p íri to Sa n to " .

2 . A l ém d i s s o , to d a b on d a d e cria d a p ro c e d e d a Primei ra B on d a d e Incri a da , qu e é D e u s. Logo, p e l a me s m a ra z ão toda ver d a d e proce d e da Verdade P rimeira , q u e é D eu s.

3 . A l é m d isso, o conce i t o d e verdade s e e f e ti va na inte lig ência . O ra, to d a i n teligência deriv a

d e Deu s. L o go , tod a v e r dad e d e r iv a d e Deu s.

4. Alé m di s so, Ago s tin ho a f ir ma n o li vro do s So l i l óquio s ( liv r o II, capítu l o V) que ver d a -

d eiro é a q uilo q ue é . Or a , to d o s er deriva de Deu s . Logo, toda ver d ade provém d e D e u s.

5 . Alé m d i sso, d a mesm a for m a que o un o é conver sível com o e n te, a ss im tam bém ac o n t e c e

c om o ve r da d e ir o. Or a , t o d a uni da d e pr oce d e d a U nid a d e P rime i ra . L ogo , t a mb é m t oda ve rd a d e

d eriva d a V erd a d e Pr i me i r a.

I II -

R E SP OSTA

A ' QUESTAÕ ENUNC I A D A .

C o nf o rm e acima exp u sem os, n as c oi s as c ri a d a s a ve rd a d e se e nc o nt ra tanto n a s p r ó pr ias coi-

s a s co m o na inte l ig ê nc i a. Nest a úl tima , enqu a nto co n corda com a s co i sas q ue chega a con h ecer;

na s co i sa s, e nqu a n to co n c o r d am com a inte l igê n c i a d iv i na , a q u al co n s t i tu i a medid a d as mes m a s,

assi m como a arte criador a human a é a medida de to da s a s s u a s p rod uçõ e s . D e c er t o m o d o a v e r -

d

a d e re s i d e ta mb ém n a s c o i s a s cria da s, e nqu a n to têm a p t id ão p a r a p r o du z i r uma co mpree n são

v

e rdade i ra no i n t e l ec t o h um ano , o qual te m na s coi s a s a s u a medida co m e n s u r a n te (Metafisica ,

i vro X , comen tár i o 5.°). A coisa , e x i stente fora 0 0 intelecto , m e d ia nt e a s u a forma imita (re ali za) o modelo - projeto criador da intel i gê n cia d e D eu s . É precisa m ente em vi r tu d e d e s ta c o nf ormid ade com o pro j eto - modelo divi n o que a c o i s a é capaz de pro d uzir uma comp ree n s ão v e r dadeira d e si mes m a , s en d o também graç a s à s u a f orma qu e t oda c oi s a tem o s e r . P o r i sso a ver d a d e das co i sa s i n c lui e m se u

l

c

on ceito o ser ( e nt i t a s) da s m esm a s, acre s ce n ta nd o- lh e a ind a a r e laç ão d e c onfo r mid ade - co n -

c

ordância com o i n te lec t o d i v i no o u h u m a no.

A o c o ntrário , as n e g açõe s e privaçõe s, qu e e x i s tem fora do i n tel ecto e da alma , não po s su e m

f o r m a al g u ma , através da qual pud essem imitar - real i zar o m o delo - pro j eto d o pl a n o c r iado r d e

De us ou p ro d u zi r a compr een s ão d e s i m e s m a s n o es píri to hu man o. Qu a ndo estão e m con fo rmi - dade com a noss a i nteligên ci a , i s to e s tá funda d o na intel i g ê nc i a , que a pre e nde o s e u s en t ido .

QUES T Õ E S D I SC U T I D A S SOBRE A VERD A D E

51

E m con s eqüên ci a ,

ao fa l ar - s e d e um a p edra ve rd a d e ir a

e d e um a cegueir a ver d adeira , o b s er -

var-s e-á qu e a ve rd a d e não s e pr e dic a d a m e s m a f o rm a n o s doi s c aso s . A ve rd a d e qu e se pr e dic a

da p e dra cont é m e m s e u se ntido o s er d a pedr a , a c res cen ta ndo

rel ação q u e é cau s a d a p e l a pr ó p r i a p e dr a, u ma vez qu e e s ta p o s s u i al g o qu e torna p o s s íve l a m e n -

c i onada

a r e l ação d a

ceg u eira com a inte l igência cog n oscente . O ra, e s ta re l ação não tem nenhum fundame n to da p arte

da ceguei r a ,

ceg u e ir a p o ss u a em s i me s m a .

C omo r e s ult a d o te m o s o s egu in te : a ve rd a de qu e s e e nc o n t r a n a s c o i s a s cri a d a s não pod e

co

con h ec im e nt o , b e m como a co nf o r m idad e

coi s as . Tu do i s to pr ovém de D eu s, uma vez q ue d e D e u s d er i va t a mbém a fo r ma d a s coi s a s , atra -

n

a i s t o a r ela ç ão c om a int e li gê nci a,

da ce g ueira. P oi s tal ve rd a d e

não s e b a s eia e m algo q ue a

c o m o d a s

r e l ação. N ã o a co n tece o m es m o com a ve r da d e pre dic a d a

ão in c lui e m s i a p rivação ,

n a q u a l con s i s te a c egueira, ma s inclui tão- s ome n t e

d a c e g ue i ra

com o i n te le cto

p oi s a c onfo rmid a d e

mpr ee nd er

e m s i o ut ra c oi s a s en ão o s e r d a r e s pe ctiva

d o c o n he ci men t o

co i sa, e a s ua c o nformid a d e

co m a s coi s a s ou a s pri vaçõe s

vé s d a q ual s u b s i s t e a menciona d a

a p r ó pr ia v erdade , como o bem o u o v a l o r q ue é pr ó p r i o d a in t e l i g ê n ci a,

da Ét i ca (capí t ul o s VI e X ) , isto é , que o v a lor de ca d a co i s a co n si s t e no s eu a g i r p erfeito .

conformidad e - concor d â nci a,

como de D eu s p rovém outros s im

s egundo s e lê no li vro VI

Or a , n ão ex i s te nenhu m ou t ro agi r p e r fe i to d a in te l igê n ci a ,

a n ão s er o fato de e l a c on h ece r

a ve rdad e . A s s im , é na ver d a d e q u e co n s i s t e o va l o r d a int el i gê n c i a .

f o rm a proc e dem

Or a, j á qu e to do o b e m e t o d a

d e D e u s , dev e - se af irm a r se m re ser v as que tod a ve rd a d e te m a s u a ori g em e m

D

e u s .

 

IV -

R E SPOSTA AOS ARG U M E N TOS DA T E S E .

Tu d o o qu e é ve rd a d eiro

que es te h o m e m c om ete f o rnic ação

n ão af irm a m o s i s t o

no s en tid o de qu e a i m o r. a lid a d e p re s e n te no ato d a forni cação

da

co n s egui n te , a conc lu s ão que s egue do ar g u mento n ã o é " A for ni caç ã o de s te homem pro c e d e d e

D e u s" , ma s " A v erdade d es te ato p r ocede de D e u s " .

P o r

d e ex por ( p o nt o Ill ). C o m e feito , ao di ze rm os qu e a fo rnic a çã o

e s tar i a in c l uí d a no conceito d a ver -

I

. Ao a r gu m e n t ar - s e

a ss i m -

p rocede de D e u s ; o r a , é v er d a d e ir o

-

ocorre um a fa l á ci a, co nforme s e d ed u z d o qu e aca b a mo s

é ve rd a d e ir a ,

d e s te ato com a i n te li gê n c i a.

d e. O verd a de i ro ,

n o c a s o , d e s i g na a p ena s a co nf ormi d a de

2

. Co n fo rm e

s e ev i denc i a da n o ss a ex p o s i ção p reced e nt e , a im or a li dade

e o ut r a s d e f i c i ê nc ia s

n

d

D e u s.

ã o en c e rram

e fici ê ncia s

a ver d a d e d o m e s m o m o d o qu e as o u t r a s co i s as. P or i ss o , em b o r a a ver d a de da s

e m s i m es m as d e r ive m d e

p ro ced a

de Deu s , di s to n ã o s e inf e r e qu e a s d e fi c i ê nci a s

3 . S egun d o o F il ó s o f o n o

li vro

VI d a Me tafi s i ca (comentário

8 . °) a ver d ade n ão co n s i s t e n a

co m p o s i ç ão ou com bi nação qu e res id e n a s co i sa s , ma s na combinação o p era d a pela i n t e li gê nc i a.

d e e s t e ato ( f or ni cação) , conjun t a -

Ap l icando

men t e com a s u a q ualificação

Mora l , qu e t r ata d o b e m e d o m a l . A ver d a d e , n o ca s o , co n s i s t e no f ato d e o ato p ratica d o

ao pr e s ente c a s o : a ve rd a d e n ã o con s i ste no f a to

imo r a l , i ner ir ao s ujei t o que o prat i ca , vi s to q ue ta l d iz re s p eito à

p elo

s

uj e it o e sta r em conformid a de c o m o c o n hec im e nt o d a int e li gê nci a qu e o a p ree nd e.

4. O b o m , o d ev ido , o r e to e t o d a s as out r a s n o ç õe s c o ng ê ner es n ã o t ê m a m es m a r e l a ç ã o e m

s

e t rata nd o

d a p er m i ss ão

div i n a e d e o ut ro s s in a i s d a vo nt a d e de D eus . Ne s te úl t im o c a s o a s

me n c i ona d a s

d a v ontade . A s s i m , quando s e d i z q ue D e u s or d ena honrar o s p ai s, a q u al i ficaç ã o

t a nto à hon r a p r e s tada a o s p a i s c omo ao própr i o D e u s p r e s c re v er

Ao contr á r i o , de D eus p er miti r ,

L o g o, é b o m o fa to d e D e u s p e rmitir a o h ome m c om e t e r ato s i m o r a i s . Di s t o n ão s eg u e, t o da v i a ,

q u e a im oralid a d e c om o ta l e n ce r re q ua l q u e r ret id ão o u b on d a d e . 5. A r e s p o s t a s e d e d u z d o po n to I V.

noçõe s refe r e m -s e tanto à q u i l o que r ec ai s o b o at o d a v ontade como ao p ró p r i o ato

d e " bo m " cab e

q u a n d o s e trat a de perm i ss ão ,

a qual i f i cação

e s te dever de honrar o s pai s .

de " bom " r efere - s e a p en as ao

ato

e não ao q ue recai s o b a p e rm i s s ão ,

i s to é, o a to q ue é per mi tido

p o r D e u s .

6 . A verd a de exi s tente n a s ne g aç õe s e n a s def i c i ê n c i a s

redu z -s e à verd a de p ura e s i m p l e s-

o que p r oc e d e

m e nte , ver d ad e que r e s ide n a inteli g ê nc i a e q u e d e ri v a d e D e u s . Co n s eqüentemente ,

52

SAN TO T O MÁS

7 . O não -se r não con s t i tu i a c a u s a d a verdade

ort a nto ,

da s p rop os içõe s

n eg ativa s , c o mo s e as produ -

com o não - ente

não

zi ss e no intele c to . É a p r ópr i a i nteligênci a que faz i s to , p ondo- s e em conform id ade

que e s tá fora da i n tel i gê n cia .

ciente da verd a d e , mas an t e s cau s a exemp l a r . O r a , o argumento

e xemplar eficien te.

P

o não - s er e x i s t ente fora d a inteli g ência

é cau s a efi -

aduzid o s u p õe h a v er causal i dade

8 . E m bora o mal em s i me s mo não proceda de D eu s, prov é m de Deu s, s im , o fato de a aç ão

má ser julgada tal qual de fato é . Por con s eguinte ,

a c i ta d a ação é m á der i va de D eu s .

A

R T IGO

a v erdade em vi r tude da qual é v erd a deiro

N O N O

A v erdade existirá no s sentidos?

que

I - T ES E: PAR ECERIA N AÔ EX I ST I R VER D A D EN O S SENT I DOS .

1. An s e lm o a firm a n o li v r o S obre a Ve r d a de (ca p ítu l o XII) qu e a ver d a d e c o n s i s te na r eti-

da

dão, p e rc e pt íve l ex clu s i va m en t e

i n t e l igê n c ia . L ogo, a ver d ad e não re s ide n o s s e nt i d o s .

à in te l igê n c i a .

O ra, o s s e n t id o s n ão pe r ten c e m

à na tu reza

2 . A l é m di s s o , n o l ivro LXXXIII

d a s Q uestões ( q u e s tão S. " ) , Ago s t inh o d e m o n s t r o u

verda d e do c o r p o n ã o é conhec id a

e xpo s ta s m a i ac im a . Logo, a verdade não r e s ide no s s enti d o s.

p e l o s s en t ido s , s en d o qu e a s razõe s por ele i nvoca d as

qu e a foram

II - CONTRATESE: P AR EC ERIA QUE EXISTE VERDADENOS S E NTIDOS .

Efeti va m e nte , no liv r o Sobr e a Verdadeira Religião ( c a pí t ul o X XXVI ), Ago s t i nho afirma que a verdade é aq ui lo mediante o q u a l s e revela aquilo que é . Or a, aquilo que é aparece não s ó

à i n te l igênc i a m as também a o s s en t ido s . L o go , a ve r d ade re s ide também no s s ent i do s.

III - RESPOSTA A ' Q UE S T A - OE U NCIADA.

A verdade e s tá t a n to na inte l i g ência como no s s en t ido s , ainda q ue de maneira dive r s a .

Na i nte li gê n c i a ,

a ver d ade r e s i d e como alg u ma coi s a q ue r e s u lta da a ti v ida d e d o i nte l e c to, e

re s u l ta d a ati v i d a d e do o s eu ser . A ver d a d e é

como a l go q ue é con h ec i do a t ravés da inte l ig ê n c ia .

inte l e c to, enquanto o j u í z o da intelig ê nc i a

conhecid a

pel o i nt e l e cto, en q ua n to

Com efeito , a verdade

d i z res p ei t o à c oisa c on f o r me

e s te r ef l ete s o b re o seu pró pr io ato. I s to , n ão ape n a s e nqu a n to

a

inte li gên ci a

c onh e c e o s eu p r óprio a to,

ma s també m enq u a nt o

Conhece . a r elação d o a to c o m a

co

i s a . Or a , i s to s ó p o de ser c o nh e cid o se s e c o nh ece a -pr ó pri a n at ur eza

d o a t o, e i s to, p o r s u a vez ,

s

inclin ada a co l ocar-s e e m conf o rmid a d e

i nt e lig ê nc i a a pr e ende a ve rd a d e e nq ua n to ref l e t e s o b re s i m e s ma.

qu a l p or natu r eza e st á

ó po d e s er co nh e cid o

s e s e c o nh e c e a n at u reza

d o p r in c ípio a ti v o , qu e é a pr ó p r i a i n teli gê n c i a,

a

c o m as c o i s a s . É p o r i s t o qu e a

O ut r a é a m aneira segu nd o a q u al a verd a d e r e s ide n o s s ent id os. Ne l e s a ver d a d e s e e n co n tra

c o mo algo

que o j uí z o

que res ult a d a ativ i da d e do s me s mo s , poi s a verda d e e s tá d os mes m o s d i z re s p e i to às co i s a s.

n o s s e n t i do s , na m ed i da em

Con t u d o , a v erdade não se encontra no s s en tid o s como a l g o que foi c o n h ecido por ele s . Po i s ,

q u a n d o o conh e ci mento

es

d e a t ra v és d a qua l julga

e stá ag i n d o, n ã o co n hece

s

A ra zã o

se n sit i vo em i te u m juízo correto s obre a s coi s a s , é i m portante

ao contr á rio do conheciment o

intelect i vo -

P oi s, embo r a a faculd a d e

notar que

t e c o n he c i men t o

s en s i t i v o -

não conhece a verda -

corre t amente .

a s u a pr ó pr i a natu r e z a , e c o n s eqüentemente

s en s itiva conheça e sai b a q u e também não a natureza do

e u ag ir e a s r e laç ões deste últ imo com as co i s a s, e por con s e g uinte também não a s ua v erdade.

di o e st á no s eg u i nte : o qu e é mai s perf e i to d e nt r o da e s fera do s s ere s, como a s s ub s t â n -

cias espir i rnai

, volt a à sua pr ó pri a e s s ê ncia com um r eg r e ss o completo . Com ef e ito , pa r a que a l -

QU E STÕES D I SCUTID A S SOBRE A VERDADE

53

u m a coi s a pos s a c o nh ece r a l go q ue es t á for a d e l a, n e c e s s ita d e c er ta f o r m a sa ir d e s i me s m a ; no

g

m

mes ma , visto que o a to d e c o n he c er es t á a mei o ca minh o e ntr e o e l e m e nt o co g n os c ent e

me n t o con h e cid o. A m en ci o n a da

o mento,

p o r é m , e m qu e tom a c o n s ci ê n cia

d e qu e es t á co nh e c e nd o,

j á com e ç a a vo lt ar para s i

e o e le - co nhec e a

vo lt a s e compl e t a e nqu a nt o o elem e n to cog n o s c ente

ua própria essê nc ia.

onh ece a s u a p ró p r i a e s sênc ia vo l ta à s u a p ró pri a e s sê n cia e m um r egr e s so c om p l et o .

P o r i sso s e l ê no li v ro Sob re a s Cau s a s ( pr o p os iç ão

15) qu e a q u el e que

O c onhecim e nto

se n s i tivo, p or se r o que ma i s do que tod os s e a proxima

d o con he ciment o

p r ó prio d as s ub stâ n c i as

apenas o qu e c ai s o b o d o m í ni o dos sen tido s , m a s t a mb ém o f a to de es t a r e m a ç ão. T od av i a , a s u a

volta à p r óp ri a

co nh ece a s ua p rópr i a e ssê n c i a . P a r a Avice n a , a r azão di s t o e s t á no f a t o d e o co nh ec im e n to

t i v o s ó s e p o der efetu ar a tr avés de um ó r g ã o corpo ra l. Or a, é imp ossív el qu e um ó r gã o se inte r p ô -

nh a e ntr e a cap ac id ade co g n o s c it iva

d

to m ar co n s c i ê nci a

s e n s i -

se n s it i vo n ã o

es pir it u ais ,

come ç a, s i m, a vo lt a r à s u a p ró pria essê nc i a , p o i s n ão c o nh e ce

p o rqu a nto o co nh eci men to

es s ê ncia

não ch ega a co mpl e t ar- s e,

d o s s e n ti d os e e l a m e s m a . Co m efe it o , a s po t ê nc i a s n a tu rai s

e s ti tuí d as d e s e n s ibil i d a d e

de f o rm a a l g um a p o d e m vo l ta r a si m e s ma s, p o i s não s ão ca p aze s d e

d e e s t a rem ag indo . As s im , po r exe mp lo , o fo g o não s ab e qu e aquec e .

A s r e s po s t a s ao s a r g umen tos

d

a t e s e e d a co nt ra t e s e

s eg u e m d o q ue a c a b a m os

d e ex p or .

ARTIGO D É CIMO

E x istirá alguma coi sa falsa?

I - TESE: P ARECE RI A NAO H AVE R NA D A QUE SE J A FAL S O .

1. Seg und o Ag o s tinh o,

n o li vro do s S o lil 6 qui os ( l iv r o 11 , ca p ít ul o

V)

, ver d a d e i ro

é a qu ilo

u e é. Logo , fa l so é a qu i l o q ue n ão é . O ra, te q ue s e j a f a l so.

a quil o q u e nã o é, n ão é c oi sa a l g uma. Logo, n a da e x i s -

g

2 . A i s t o se p o de ria o bjet a r : o ver dad e ir o

é um a dif ere nç a qu e e s p e cifi c a o e nt e, e p o r con s e -

u int e , a ss im c om o o ver d a d e ir o

é aquilo q u e é ; d a m e s m a for m a o fa l s o .

 

Re pl i c a -s e

a i sto: ne n h um a

di fe r e nç a d iv i s i va é con v er sí vel

co m aq u il o de que é dif ere nça.

O

r

a, o ve r dad e iro

é co n vers í v el c o m o en te, co nf o rme

fic o u

dit o. L o g o, o v e r d a d e ir o

n ão é um a

dif ere nça d i vis i va d o e n te , p ara q ue a l gu m a co isa po ss a di ze r -s e f a l s a .

3 . Além di sso , a v e r d a d e é a co nf o rmid a d e

d a c oi s a c om o int e l e ct o . O r a , tod as as c o i s a s

e

é n a inteli g ê n c i a di v in a . Logo , t od as as c oi s a s s ão v er d ad e ira s, e con s eqü e ntem e nte

st ão e m co nf or mid a d e c om a int e li gênc i a

di vi na , vi s to qu e nad a p o de se r e m s i dif e r e nte d o que

n a d a é fa l so .

4 . A l é m di s s o , t od a v erd a d e e n cer r a a ve rd a d e a se u mod o. C o m efeit o, um h o m e m s e d e n o -

f or m a d e h o m e m. Or a, nã o e x i s te n e nhuma c o i s a

u e não po ss u a a l g um a f orm a, v i s t o qu e t o d o s er p roce d e da fo rm a. Lo go, t o d a s a s c oi s a s s ão

e rd ade i ra s , e co n s e q üente ment e

es t á par a o f a l s o da m es m a f or m a q ue o b om p ar a o ma u . Ora ,

no bom , co m o a fi r -

a m Dio ní sio ( S o br e os N om es D ivinos, c a p í tulo I V) e Agos tinh o . Logo , s e a f al si dad e r es idi s s e

Or a , i s to pa re c e im p o ss íve l , p oi s ,

m

v

i na v e r d a d e ir o

p el o f ato d e ter a v er dad e ir a

n a d a exi s te q u e s eja fa l s o .

5

. A l é m di s s o , o ve r d ad e i ro

iá qu e o ma u r e s id e n as c o i s a s ( q ue s ão em s i boa s ) , o m a u s ó s e co n c r et i z a

as co i s a s, s eg ui r - s e - i a qu e e l a s ó s e co n c r et i za

n o ver d a d eiro .

- ass i m fora, u m a e m e s m a c oisa s eria v e r d ade ir a

e f a l s a , o qu e é impo ss íve l.

6 . A l é m di s s o , Ago s tin h o,

n o l i vro do s So l ilá q u io s ( l ivro 11, cap ítul o I) , f or mul a a s e g ui n te

bj eçã o . Se uma coi s a s e d e nomin a fal s a ; Is t o a c o nt ec e o u po rqu e é sem el h an te o u porqu e é d ess e -

f a l so, v i s to não

l ha nte. S e for por s er desse m e lh an t e,

n a d a e x i s t e qu e nào s e possa d e nomin ar

a av er na da que não s eja d es s e m e lh a nt e

d e a l g um a c o i sa . S e for p or se r se melh a n te ,

t od as a s

s

is a s recl a mam se r ve r dad e i ra s

e e nco n tra r fa l si d a d e nas coi sa s.

pelo fa t o d e serem s eme l hante s .

L o g o , d e man ei r a al g uma p o d e -

54

II -

CONTRATES E :

SAN TO TO MÁS

PAR E C E R I A

HAVER COISAS FALSAS .

\ . OS So l ilóquios ( l i v r o lI , c a pí t u l o V) , Ago s tinho d á a s eg uinte d ef i n ição d e rabo : " Fal s o

é aquilo que se conforma em s er apena s seme l h a nça de a l g uma cois a , não ch ega ndo a s er aquilo

d e qu e tr a z a s emelhança. Ora , t od a coi sa cri a da traz a s eme lh a nça d e Deu s . Logo , uma v ez que nenhuma coi s a criada chega a s er igu a l a Deu s, parece qu e tod a criatura é fals a ".

2. Al é m di ss o , af i r ma A g o s tinho no livro Sobre a Verdad e i r a R e l i gião (capítulo XXXIV ):

" T o do co r p o é um corpo verdadeiro e uma unidade fa l s a " . Afirma s er uma fals a unidad e , pelo

fato de o corpo im i tar a unidade , sem chega r a c on s tituir uma v erdad e ira unidade. Ora , j á que

toda coi sa cri ada , em qualquer um a d as s ua s perfeiçõe s , imita a perfeição de D eu s e no en tanto

di s ta infinitamente d ela, p a rece que toda criatura é fal s a.

3 . Além di s so , a s sim como o ver d a d e i r o é conver s ível com o ente , d a mesma forma o b om .

O ra, o fat o d e q ue o bom é conver s ív e l com o ente não impe d e q ue a l guma co i s a s e j a m á . A n a lo-

ga m ente , t a mp ouco pelo f a to d e o ver d adeiro s er co n ver s ível com o ente i mpede q u e a l guma cois a

s ej a fal s a .

4. No li vro S o b re a Verda d e (capítu l o s I I e XI) , A n s e l mo af i rma que a verdad e de uma

pr opo s i ção é dupl a . A p r im e ir a s e ve ri f ic a q u an d o a p ro p o s ição s i g ni f i ca r ea lme nt e o q ue es tá d e s -

ti na d a a s i g nifi car : p or exem pl o , a pr o p osi ção - S ócr a t es es t á se n tad o - s i g ni f i ca qu e Sócrates

es tá s e nt a d o , qu er o e s t ej a, q u e r n ã o. A seg u n d a ve r d a d e s e ver ifi ca qu a n do a pro p o s i ção s i g ni f i c a

a quil o para o q u e f o i for mul ada. Com efe it o , a p ro p o s ição é f ormul ada p ara s i g n i f i car o s er , qu a n - do es te é r e almente ; e , s e g undo i s to , a enunciação se diz verd a deira em se nt id o próp r io . Lo go, e m virtude da me s ma ra z ão , toda coi s a s e de n o m i n ará v erdadei r a quan d o cump re a q u i lo p a ra o que

ex i st e , e f a l sa, quando não o cumpre. Ora , to d a cois a que n ão atin ge o s e u f i m (fa l h a n o atin g i - mento de s u a meta) n ã o cumpre a qui l o p a ra o q ue ex i s t e . Lo g o , j á qu e exis tem muit a s c o i sas ass im , p a rece que h á muit a s co i s a s f a l s a s .

III - RESPOSTA A ' Q UE ST A O ENU NCIAD A.

A s s i m co mo a ve r d a d e c o n s i s te n a c o nf or mid a d e d a co i s a com o conhec i men to . a s s i m a f a l -

s id a d e co n s i st e na n ã o- co nfo r midade e ntr e o conhecim e nt o e a c o i sa . O ra, a c oi sa ( obj e t o do conhecimen t o ) é comp a r a d a t an to c o m a in te li gê nc i a divin a como c o m a hum a n a, s eg u ndo e xp u-

s emo s a cim a (artigo s V e VIII ). E m relaçã o com o i ntelecto d i vino , a co i s a é comp ar ad a como o

e lem e nto c o men s urado com o s eu c r i t ério comen s ur a nte, n o qu e conc e rne a o qu e é pr e dicad o

po s itivamente d a s co i s a s ou a o que nel as s e e ncontra . P o i s t od as e s t as cois a s p rocedem do pl a no

c r i a dor d o e s pírito de D e u s.

A co i s a é também comp a r a da com a in t e l i g ênci a divin a c om o o e l emento conhecid o com o

eleme n to cogno s ce n te. Ne s s e s e ntid o , a s p r ópr i a s n e g açõe s e defeito s e stão e m conformid a de c om

a

inte li g ênc i a d e D e u s , v i s to q ue Ele conhec e toda s e ss a s d e f i ciê n c i a s, e m bor a não se ndo E l e a

ca

u s a d a s me s ma s. Ne s te s entido é ev id ent e qu e t u d o e s tá e m con f o r mid a d e co m a i n teligência

d iv in a, d e s d e qu e perm a neça na e x i s t ê n c i a, s o b q u a lqu er forma qu e s e j a, m es m o s ob o a s pec t o d e

pr i vação o u d e d e feit o. Em r e s u l tân c ia di s to , é tam b é m p a t ente qu e toda e qu a l qu er c o i s a é s e mpre

verd a d e i ra, s e co mp a r ada c o m a i nt e l i g ê n c ia d i vina, n o di z er de An s e lmo no livro So b r e a Verda -

d e (capítu l o s V II , V I II , XI e XVI). Por con s eg uint e , ex i s te ver d ade e m to d o s o s e n tes , p oi s aqui

est ã o as coi s a s qu e se encontram na Ve r da d e Sup r ema . Em co n s eqü ê nc i a , n e nhuma cois a pod e s e r falsa, se c om p arada com a inte li g ê nc i a d e D eu s.

Q ua ndo, poré m , as coi s a s s ão com p ara d a s co m a i n teli gê n cia h um a na , então , s im, v e rif i c a -se

por vezes u m a de s conformid a de entre a coi s a e o conhecime n to , di s co r d â ncia que d e cer to modo

é causada pela p rópria coi s a. Com efeito , a coi s a provoc a na i n teligê ncia um co nh ecim e nto d e s i

m e s m a a través d a quilo que d el a ap a r e ce extern a me n t e , vi s to qu e o n osso conhec i ment o c om e ç a

pe los en t ido s, c ujo o bjet o natur a l são as qu a lidade s s en s ívei s . Por i ss o se l ê no prim e iro liv r o

S

obre a Al ma ( comentá r i o 2. °) que o s a cid e n t e s contribu e m muito p a r a o conhecimen to d a qui l o

q

u e c o nstitu i u ma determ i na d a coi sa. P or con s e g uin t e , qu a nd o e m um a c e rta cois a a pa re c em

e

xtername n te qualid ade sen s íve i s as qu a is d e n o t a m um a natu reza qu e não lh es c o r re s pond e ,

QUESTÕES DISCUTIDAS SOBRE A VERD ADE

ne s te cas o dize m o s que esta coi sa é fal s a . Nest a l i n ha , o Fi l ó s of o afir m a (Metafis i ca , livro VI, capít ulo V , coment ár io 34 ; li v ro IV, comentár i o 2 7 ) que fa l s o é aquilo que, conatu ra lmente , ou apare ce d i v ers ament e do que é n a rea lid a d e, ou pa r ece s er uma co i s a q ue n a realidade não é. Por exe mplo , ou r o fa l so é aq u e l ec u ja cor e outro s a c i dente s con g ênere s ap ar ecem extern a mente como sen d o de ouro, por é m a s u a natur e za inter n a n ã o l he s corre s ponde . To davia, se é verdade que a p r ópri a coi s a é cau s a da fa l s idad e gerada na a lma h uman a, não

é v erd a de que o s eja po r nece ssidade , como s e a co is a g er asse nece ssar iamente o juízo fa l s o d a nossa inteli g ênci a. Com efeito , t a nto a verdade como a fals idade t ê m a s ua sede a n tes de tu d o no

ju l ga m e nto dado pe l a inteli g ênci a. Ora , a inte l igência , ao emitir u m juízo s obre a s cois a s , não é

pass iva , ma s an t e s ativa , a o m eno s d e certo mo d o. Por i ss o , a co isa não s e de n omina f a lsa p elo fat o d e s empre p r ovocar um juízo fa l s o, mas pelo fato de que conatura l mente t e nd e a provocar um

ta

l juízo at r avés do que dela aparece e xternam e nte. Uma v ez que , como já d iss emos (neste artigo ,

e

no s artigo s V e VIII), o e ssencial é a co m p a ração da cois a com a i n tel igência d ivina , deve-se

af irmar q ue , com re s peito ao inte l ecto de Deu s , toda co i s a é em s i ver d adeira . Ao co n trário, a

com p a r a ç ã o (d a coi sa ) com a inteli g ência h u man a é a cidental: em re l ação a ela , a cois a não s e

p o de d e nominar s e m pre a bsol u t a men t e ve r dadei r a . Em co n s eqüênci a , em s i (si m pliciter l oquendo) toda coisa é ver d adeira e ne n h u m a· é f a l s a.

Con f orm e a s circun s tância s, porém (s e cun d um quid), i s to é , com referência ao no ss o inte l ecto ,

c e r t as coi s a s s e d enominam f a l s a s .

E m razão di ss o , im p õe - s e re s ponde r aos arg u mento s de amb as a s p a rte s.

IV -

R E SPOS T A AOS ARGUM EN TOS DA TE S E .

1 . A d e f i niç ã o " Verdad e ir o é a qui l o qu e é " n ã o e x prim e com perfeiç ão o conc e ito de verd a -

d e , ma s a p e na s d e maneir a, di ga mo s a s s im , materia l , enquanto o s er s ignifrca a afirmação d a propo s i ção , o u s e j a: verdadeiro é aqui l o que s e d enom i na e s e con h ece t a l como re a lmente é.

A n a l ogamente s e diz que fal s o é aqui l o q u e não é , n o s e n tido de que n ã o é na r e a lidade tal co m o

se d i z e s e ente n de s er . O ra, i s to pode acontecer n a s coi sas.

2 . O verdadeiro, em s e fal a ndo com propriedade de termo s, não pode s er uma diferença

es p ecífica do en t e , poi s e s t e n ã o po ssui dife r enç a e s pe c ífic a, como e s tá demon s tra do no livro 111

da M etafisica (co m e n tá r io 10). Todavia , um a coi s a ve r dad e ira é , em re l ação ao ente, como um a diferença e s pe c íf i ca, como o bom , i s to é, enquanto ex prim e a cerca do ente a l go que n ã o e s t á

express o ne s te termo . Sob e s te a s pecto o co n ce i to de e n te é i ndetermin a d o com re s peito ao verda -

d e iro . A s s im s endo, o conceito d e v e rdad e iro está para o e nte como a diferença e s pecíf i ca para o

g ênero.

3 . É n ece ssá rio admitir a r azã o invocad a, poi s a firm a a conformid a de d a cois a em orde m ao

in t electo divino (e neste sentido n e n huma coi sa pode s er f a l sa ) .

4 . Se bem q u e t o d a coi s a po s s ua alg u m a form a , todav i a nem to d o s po ss uem aquele tipo de

forma cujo s in d ícios a p a recem exte rn amente a t rav é s d e qua lidade s se n s í v eis; e ne s t e se ntido a

c oi s a se d e nomina f a l s a , e nqu a nto de per s i é capa z d e, ou mes mo t ende a prod u z i r um j uí z o f a l s o

n a inteli gê ncia humana .

5 . U m a coi s a exi s tente fora da inte l igênc i a de n omina - s e fals a - conforme ac ima demon s -

tramo s (po n to Ill) - pelo f ato de tender a p r od u z i r u m j u ízo fa l so ao se r apreendida p e l a inteli-

g ê n cia. Por conseg uinte , o que s e denomin a f a l s o , n e c essar i a mente é um e nte. Con se qüente mente ,

j á q u e todo ente, e nq u anto ta l , é ver d adeiro , nece ssa ri amen te a fals id a de exis tente n as coisas fun - da - se na verd ade . Por i sso Ago s t i nho di z n o l ivro d os Sol i lóquio s (c a pítulo X) que o a t o r qu e em

uma tr a gédia repre s enta pe ssoa s v e r dadeira s no p a lco n ã o s eria f a l s o se n ã o fo ss e um v e rdad eir o

a tor . A n a l o g a m e nt e, um cava l o pin t ado num quadro não s eria um ca v alo f a l s o s e n ão f o s s e m e r a pintur a . Di s to não s eg u e que o s contraditó r ios s ejam verd a deir os, poi s a a firma ção e a n e gaç ã o ,

e nquanto e x p r e ss a o v e r d adeir o e o f a l s o , n ã o s e r e ferem à mes ma c o i sa.

6 . Um a co i s a s e denomina fal s a na m e dida em que t en d e a eng a nar . Quando digo enganar,

t e nciono ex pr essar a l g u m a ação que in c l ui def i ci ê n c i a . O ra , nad a tende a ag ir s enão e nqu a n to é

um ente , e toda def i ciê n cia é u m n ã o - ente . Ora , tod a cois a , enquanto é u m e nte, e nc e r r a s eme -

5

6

SANTO T O MÁ S

lhanç a d e verd a d e, ao p a s so que , e n quanto n ão o é, c a r e c e de s emel h anç a co m a ve rd a d e . P o r i ss o,

q u a n do digo e n ga n ar , s e i s to se r efe ri r à ação, te m a sua orige m da semel h a n ça; se, porém, se refe -

ri r à de f ic iên c ia, n a qu a l co n s i s t e f ormalme n te o c o ncei t o de fa l sid a d e , p rové m d a d es s er n e lh ança.

É p or esta razão que , n o l i vro S o b re a Ver d ade i ra Reli g ião (livro U do s S ol iló q ui o s , c a p ítul o XV ), Agos t i nh o afirm a que a fa l s i d a d e s e o r igina d a d e sse m el h ança .

V -

R ES PO S T A

A O S ARGUM E NTOS D A CONT R ATESE.

L A i ntel igê nc ia não co s t um a s e r eng an ada po r to d a e qu a lquer s e melh a nç a , mas a p ena s

por um a grand e s eme l h a n ça, na qual a d e sseme lh a n ça é di f i cil men te i d e ntificáv e L C o n fo r me a

s e melhan ça f o r maior ou men or, a in t e ligê n cia s e e q u i v oca s eg un do a c a pac idad e mai o r ou m e n o r

qu e tem d e di s c e rniment o para d escob ri r a s e melhan ça. T amp o u co s e d eve co n s id e r a r falsa um a

co i s a qu e p o d e i nduzir a um e rr o in s i g nif ic an t e , ma s apena s um a co i s a qu e ten de a ind u zir ao e r ro

muita s p e s so a s , e pe ss o a s s ábia s . Ora , a s c oisas c r iada s, e mb o r a traga m em s i m e s mas u ma c er t a

s e melhança de Deu s, toda v i a a pre s ent a m t a mb é m de ss emelh a nça s muito g rande s em r elaçã o a

D

e u s, de modo que a s emelhança s ó p o de induzir a o erro pe ssoas mu i to t olas . C o n s eqüentemen t e ,

a

in v ocada s emelhança e de ssemelh a nç a d as coi s a s criada s em relaç ã o a D e u s n ã o a u t o r i za a co n -

c

luir que t oda s a s coi s a s criada s dev a m denominar - s e fals a s .

2.

Ex i s tia , no temp o de A g o s tinho , quem acredita ss e que Deu s tem corpo . E , já que D e u s é

a

unid a de mediante a qual toda s a s c o i sas s ã o un a s, acreditavam qu e o corpo é a própria unidade ,

d

ev ido à pr ó pri a s emelhan ç a da unidade . Port a nt o, A g o s tinh o denomi na uma falsa unida d e

e

nqu a n to indu z iu ou pode aind a in d u z ir a l g un s ao er ro de pen s a r q ue ele co n s titui um a u n idad e.

3

. E x is t e u ma dupl a p e rf ei ç ão : a a ssim chamada perfeiçã o prim á ria e a p e r f eição

s

e cund á r ia .

A p e rfeiçã o p r im á ri a é a qu e l a for m a d e to da e qualq uer cois a , em v i rtud e d a q u al ela é u m

e n te . E s ta perfei ção, n enh uma co i s a a p e r de , enq ua n to s ub s i stir. A p er f eição s ec u n d ár i a c o n s i s te

n a op eração , a qual con s titui a final ida d e da co i s a , o u s e ja, a q u ilo e m fo r ç a d o qual se a tin ge o

fim . E s ta p erfeiç ão , p or ve z e s, a coi s a a per d e . Or a , o co n ce i to d e ve rd a d eiro der i va d a p e rfe i ção

pr im á r ia d a s co i s a s . Co m ef ei to, p elo fato d e a co i s a p o ss u i r a s u a forma , r e a liz a o m o d elo d a

inte l igê n cia divina e p ro d u z o conhe c imento d e s i m esm a n o inte l ecto h umano . O conceito d e bo n -

d ade p rovém d a p e r f e i çã o s ecundár ia. É por i sso que o mal s e encontra s em mai s na s p ró p ria s coi-

s a s, ao p a ss o que o f al so n ão.

4. Se gu ndo o Fil ósof o , n o li vro I fl d a É ti c a (Met af isic a , l iv r o VI , c o m e ntár i o 8 . ° ) , a v erda d e

é a met a e o pr i meiro valo r d a inteli gê nci a, v i s t o que e s ta só é p e r fe ita qu a n do o que ela c on ce b e

é v e r da de i ro. Ora, j á q u e a e n u ncia ção é a e x pr ess ã o d o conhecimento da i nt eli gê ncia , p o r i ss o a

ve r da de c on s ti tu i o s eu fim. Na s o u t ra s c oi s as, por é m , n ã o é a ss i m . L ogo, deve - s e ne ga r a pari-

d a de i n vo cada no arg ument o. O fato de u m a c o i s a n ão cumprir ce m p o r cento o f im p ara o qu a l ex i s te , n ão autoriza a denomin á - I a f a l s a.

ARTIGO ONZE

Existirá falsidade nos sentidos?

I -

T ESE : NA-O PA R ECE RI A

EXIS TI R FA L SI D A D E N O S SENT I DOS.

L A i nt eligênc i a é s em pr e re t a , confor m e se diz no l i v r o Ill da o b ra Sobre a A l ma (co m en -

t á r io 1 5 ) . O ra, o i n tele c to c o n s tit u i a p ar t e s u p erior n o h omem . L o g o , tamp o u co a s ou t ra s p a r tes

comportam falsi dade , a ssim co m o no mun d o d o s s er e s s u per i ore s a s co i s a s infe r iores e s t ã o di s- pos t a s s eg un do as su per i ore s. Logo, ta mb é m o s s entido s, q ue con sti tuem a p a r te infe r ior da alm a,

s empre s e r ã o r etos , e c o n s eqüe n tement e n ã o há n ele s fa ls id a d e.

Q UE STÕES DISCUTIDAS SOBRE A VERDAD E

57

XXXIII ) : " O s p ró pr i o s ol h o s não no s e n ganam, p o i s s ó pode m tra n s m iti r - n o s o q ue l h e s ve m d as

is as. S e t o d os o s sent i d o s d o c or p o tra n s m it em s impl esme n te o que lhes ve m d a s c o i s a s, n ã o s ei e ma is p o de r í a mo s e xi g ir dele s". L ogo, não e x i s te f a l s idade n os s entid os .

3 . A l é m di s s o , di z A n s e l mo no li vro S ob r e a Ve r d ad e (ca pítul o V I ): "A cr e dito qu e a v erd a de a fals idade não s e encont r a nos s e n tido s, mas no no ss o j u í z o " . Logo, n ão e x i s te f a l sid a d e no s senti d os .

11 -

Co TR A TESE : P ARECER I A

Q U E PODE HAVER FALSIDA D E N O S SENTI D OS.

1 . A n s el m o afirm a o s eg u i n te : " A v erdad e r e s id e n os n os s os s en t ido s, mas não pura e

si m p l e s me n te , v i s t o qu e a s c o i s a s por v e z es en g anam ".

2 . Além d i s so, no d ize r de A gostinho n o li v r o d os S ol iló q u i os ( cap í tu l o X V ), c o s tuma deno-

min ar-s e f al so o qu e e s t á mu ito l o n ge d e vero s si m i lh ança, p o r ém ap r e s en ta a lg um a s eme l hança

m o v er d a deir o. Ora , o s s entido s t ê m cert a s emelh a nça de a lg um as cois as qu e n ã o s ã o a ssim na real idade, Ass im , por v eze s a contece que o s olho s en x er ga m du as cois a s onde s ó exis te uma. Lo g o , ex i st e fals id a de n os sen t id os .

3. Ao arg u m en to a c i m a s e p o der ia o bjetar . O s s en tid os não s e en ga nam na s c oi s a s s en sív e is

r ó pri a s d a s ua e s fera , ma s enganam - s e acerca d a s coisa s comun s.

A i s t o s e pode replica r. Sempre que os s entidos ap r eendem uma coisa de maneira diferente

o q ue ela é n a r eal id a de , a a pre e n s ã o é f al sa. Or a , q u and o um c o rp o b r anc o é en x er g ado atr av é s

d e u m v idro v erde , o s s en t id os tê m um a apre e n são d o o bjet o d i ferente d o que ele é, po i s o en x er -

g am v erd e ; e o julgarã o verde , s e não houve r um ju í z o s uperior q u e de s cubra a fals idad e. Portan- to, o s sen tid os en g anam -s e tam b ém na s coi s a s s en sí vei s que s ão pr ó pria s à s ua e s fera .

III -

R ES POS TA A ' Q UEST AÕ ENUNC I A D A.

O no s s o conhecimento , que parte da s coi sas , s eg ue e s t a ordem: principia nos s en t ido s e

co m ple t a - s e na intelig ê ncia , de forma qu e os s en ti d os co rp orais se situam de certa man e ira a mei o

c a minho en tr e a s coi s a s e a int eli gê ncia . C o mp a r a d o s às c o i sas, são como que alg o de e s p i ritu a l -

i nt e l e ct ual; comparado s ao conhec i mento e s piritual , s ão como que cois a s . Em c o n s eqüência , diz-

s e qu e há fal s idade nos s entido s, em uma dupla acepção .

Pri m e ir a men t e , conform e a relaç ã o d o co nhec i ment o se n s i t i vo ao conh e cim e n t o e s p i ritu a l -

i n t el e ct ual . N es t a acepçã o , o s sen tid o s s e den o min am v erdad e iros o u fals o s como um a c o i s a , na

m e di da em que pr ov ocam u m ju í zo co r reto ou f a l s o n a inte l i gê n cia. Em s e g undo lugar , conforme a re l a ção do s s entido s com a s cois a s . Ne s ta acepção se diz q u e

a v er d a de e a fal s idade e s t ã o n o s s entid os da me s ma f or ma q u e na i n t eli gência , i s to é , enquanto

s e j ulga q ue al guma c oisa é o q ue é, ou não é o qu e nã o é .

S e, port a nt o, f a l a rm o s do s s entid os c o nforme a p r ime i ra a cepç ão, d i r -se - á qu e em c erta acep - ção exi s te fal s idad e no s s ent i do s, e m o utr a n ã o . Com efe i to , o se ntido huma no é uma coisa em s i me sma , e ao me s m o t empo é algo qu e re me te para o utra c o i sa.

P or c ons eguinte , se o s senti dos f ore m co m p a r a do s à in teligê ncia, enqu a n to c o i sa, ne s t e s enti -

do n ã o exi s te fal s idade alguma em compa r ação com o intelecto . Poi s, conforme for a s en sa ção

qu e os s entido s r ecebem d as coi s a s, e s t a me s ma s en saç ã o t r an s mitem- n a à inte l i g ê ncia. Por i ss o

a f i r ma Ag o s tinho no l i vro Sob re a Ver dad e ira R e l ig iã o (c a p í tulo X XX V I, p e l o f im; X X X VIII ,

p elo mei o) que o s s entid os n ã o p od em tr a n s m i ti r o u t r a cois a s en ão a re aç ão q ue lh e s pro v o ca m as coi s a s.

S e, p o r é m , o s s entido s f orem comp ara d os à i nteli gê ncia, enquanto con stituem algo que reme -

t

e a out r a c o i s a, ne s te c aso po r vezes r e pre s e ntam as c o i s a s d e m an e i r a d i fe re n t e do qu e na r ea l i -

d

ad e es t as são , de nomin a m - se f a l sos, e nqu an t o c o n a tur a lme n t e ten de m a pr ovo c a r um j u ízo fals o

n

a int e l igência, e mbora não o f aç a m nece s s a riamente , como di ss emo s, a liás, tamb é m d a s cois a s .

C o m e feito , o juí z o qu e a inteli gê nc ia em i te a c er c a d a s c o isa s, e m i te- o tamb é m s obre a quilo que

l he é ofere cid o p el o s s e n t id o s . D e s t ar t e , o s s e ntid o s , quan d o co m parado s c o m a in teligê nci~ i ' " s e m-

p re prov o cam u m ju ízo c o r r et o e m r e l a ção à s u a p r ó p r i a d i s p o s ição , nã o , p o rém, em re l a ç ã o à

58

S A NTO TOMÁ S

P

o r c onseg u i n t e ,

se o s sen t i d os s e c o n s i dera m

e nqu a nt o co mp a r a d o s

co m a s co i sa s, d eve - se Or a , n a inte l igê n c i a

d i zer qu e n ele s h á f a l s i d a d e e ve rd a d e d a m e s ma m a n ei r a qu e n a i nte li gênc i a .

a

ver d a d e e a f a l s id a d e se e nc o nt ra m prim ár i a e o r ig i nar i amen t e

n o ju ízo d a at i v i da d e d e s í n t e s e

e

de a n á l i s e do inte l ec t o; n a for m a ç ão

da s qü id id a d es,

p oré m , só a t ravé s da r e l ação . co m o j u í zo

que re s ult a d a men ci on a d a

co m o a l go q u e lh e s é pr ó pr io , e nq ua nt o

To d av ia , e nqu a nt o os se ntid o s a pr ee nd e m

s enti d o p ró pri o , m as s ó s eg und o a r e l ação c o m o ju ízo q u e d eriva d a m en ci o n ad a

s e ja , enqu a n t o de t a l apre e n são é n at ur a l qu e s i g a t a l juíz o.

for m a ç ão. P o r i ss o se fala, n o s se ntid os , d e ve r dade e de f a l s idad e

e mi te m j u ízo s s obr e o q ue p e r te nc e à e s fe r a d o s e n s íve l.

c o i sas sen s íve i s , n ão s e fala d e v e r d a d e e f al s i d a d e n o

f or m aç ã o; o u

O ju ízo de um de ter m i n a d o

·s e nt i d o s o br e c e rt as coisas se ve rific a n a tur a l me nt e ;

con tr á ri o,

p o r exe m -

o juí zo de um dete r mi - qu e no h o m e m é feita

pl o, o juíz o so b re os d a d os s e n s iti v o s qu e Ih e s s ão pr ó p r io s. A o

n ad o se n t ido a c er c a d e outr a s c oi s a s s e f az m e di a nt e um a ce rt a comp aração

p e l a fo r ça c og n os citi va ,

o ju ízo i n st in t i v o. C on s e qü e nt e m e nte ,

s o br e d ado s s en s iti vos acid e nt a i s.

a qu a l é a pot ê nci a d a part e se n s iti v a , e m lu g a r da qu a l , nos a n i mai s . est á

o s s entid os e mitem juí zo s so b re d a d o s se n s iti vos c o mun s e

O ag i r n atur a l de ca d a co i s a , p o r é m , s e re a li za s e mpr e d a m es m a m a n ei r a, se n ão f o r imp e -

did o p o r a l g o d e a c i d e nt a l ,

P or co n s e qü ê n cia, o ju íz o q u e um d e t e rm i n a d o

s ão

mi ss ão . E m s e trata nd o,

vezes s e e n ga n a m .

p or exe mpl o, a l g um a d e ficiê nci a i nt e rna o u a l g um o b s t á cul o

a n ão ser qu e h aja um o b s t á cul o

c o m u n s e do s a cid e n ta i s,

e x t e rno .

s e nt i do f o rmul a s ob r e o s d a d os s en s iti vos qu e lh e

no órgão o u no m e i o de t ra n s-

o s s e ntid o s p o r

pr ó prio s é se mpr e ve rd a dei r o ,

p o r ém, do s d a d o s s e n sitivo s

De s t a rt e, torn a - se

e vid e nt e e m qu e se n t id o p o de o c or r e r f a l sida d e n o jul ga m e nt o f o rmul a d o

pe lo s s e ntid os . No q u e c o n cern e à a p ree n s ão po r p a rt e d o s s e n t ido s, impo rta s a b er qu e ex i s te um a c e r ta

força a p reen s i va, q ue a pr ee nd e

m e nte para i s t o , qu a nd o

a pree nd e a i m agem se n s ív el d as c oi sas,

o s s e nt i d os a pr eend e m

m e n to no ó r gão o u n a tr a n s mi s são.

rent e d o qu e é , p orq u a nt o

p e l a f a l s i -

Fi l ó s ofo a firm a n o li v r o IV d a s u a Metafisica (co m en t ár i o

f o r ça, qu e

Po r i sso, a n ão s er que h aja a l g um imp e di -

a c o i sa di f e -

e l a a u se nt e . Ne s t a linh a o

a coi s a co m o pre s e nt e,

a i magem s e nsíve l d as co i s a s como um s ent id o cr i a d o e s p ecia l -

Ex i s t e t a mb é m

u m a ou tr a

a coi sa s e n s í ve l e s t á p re s ent e .

qu a nd o es t as est ão au se nt e s : t a l é a im ag i nação .

se mpr e a c o i s a c o m o é n a r ea lid a d e,

a

p ree nd e

Ao c o ntr á ri o, a im ag ina çã o v i a d e r e gr a - apr ee nd e

es t a nd o

3 4 ) qu e a res p o n s a b ilid a d e

d a d e n ão ca b e a o s s e ntid o s, m a s à f anta s i a .

IV -

R E SPOSTA AOS ARGUM E NTOS D A TE S E .

1. N o mu ndo do s se r es s up e r io r es,

e s t e s n a da r e ce b e m d o s inf e r i ore s , m as é o i n verso qu e

c or r e . Ao c o ntr á r i o ,

o

Po r c o n s eg uint e,

em se t r a t a nd o

do h o m e m , o i n te l e ct o , qu e é s up er i or, re cebe do s s e n t id o s.

a p ar id a d e in vo c a d a pelo argu men t o n ão e xi s t e .

A re s p o s ta ao s o utr o s a r g um e n to s

a rti go.

s e d e d uz fac ilm e nt e d o q ue ex pu s e m o s n o po nt o III d e s t e

ARTIGO DOZ E

Exist i rá fa ls idade na in tel i gênc i a?

I -

1 . O in te l e c t o te m d ois m o d o s d e op e r a r : um é a qu e l e m e d ian t e o qu a l fo r ma a s qüidid a de s

TESE : N A Õ P ARECE RI A HAVE R FALSI D A D E NA INTE LI GÊN CI A .

das c oi sas , e n e st a o p eraçã o

( comentário 21 );

aq u í nã o há falsi dad e, s egun do se d e m o n s t ra p or Agos tinh o no li v r o S o bre a Ver dade ira R e lig i ão

c om o di z o F iló so f o n o li v r o I I I So b re a A lma

n

ão h á f als id a d e,

o o ut ro é a qu e l e m e di a nte o qu a l o p era a s í n te s e e a a n á l i s e, s e nd o qu e t a mb é m

Q U ESTOES DI SC U TI D AS

2. Lê - e em Ago tinho, no livro LXXX III

OBR E A VER D AD E

da

Questões (que tão 31,

59

ubque tão 22): "Se

_

é

m e engana

é porque não entende aquilo em que e en g ana". Logo, a inteligência é s empre

adei r a , e con eqüentemente não pode haver fal s i dade nela .

 
 

3

.

I Gazal i (teó l o g o árabe) af i rma: " D e dua , uma: ou compreendemo s

uma

coi a como

a

é . ou não compreendemo

" . O ra , rodo aquele que compreende

uma coi a como

ela é, com -

e

en

d

e de modo verdadeiro.

Logo , o intelecto é s empre verdadeiro ,

e porta n to

nã o exi s te

fal s i -

e

n ele.

 

rr - Co TRATE E: P ARECER I A E X I TIR FALS I DADE A r

~

TELlG { CIA .

P o i o Filó s ofo a f irma , no l ivro 1I I S obre a Alma (coment á rio

21 ), que , onde ex i te combina -

ào o u s ínte s e da s c oi s a s apreendida s (no intelec t o s inteti z ante )

eiro e o f a lo. L o g o, e xi te fal idade na int e l i g ência .

ali já exi s tem me s clado

o verda -

III- Rl : : s P O

T A A ' Q E TAO E . UI C I AD .

 

O

t er m o intele c t o o u inteli g ência , pela ua p ró pria etimolo g ia

s ignif i ca que e l e co n h ece o ín -

timo da

coi s a ,

po i s o la t im in t ell i gere equ i va l e a in t us legere, ou eja , "ler dentro " . O

e n tido s

e

a ima g inação apreendem a p ena

o

ac i dente s externo,

ao pa s o que a intel i g ência ,

e s ó e l a,

pen etra até à e ência das coi a .

para a l ém d i ss o , a i ntel i g ência ,

o pera de muita s ma n e i ra s atravé s do raciocínio e da pe qu i a.

Toda v i a,

partindo

da

e s ê nc i a

da s coi a

apr e e n dida s .

O termo inte l ecto ou inteli g ênc i a pode r e ve tir dua ace p çõe s .

)

o primei r o

entido , a i nteli g ência

s e e n te n de apena s em relação àqu i lo de que pro ém

orig inariamente

a de s i g nação.

e s ta acepção fa l amo de " inteli g ência "

e de "compreende r "

no

e

n t ido pr ó prio , quando apreendemo

a qüididade

da

coi s a s, ou então, quando conh e cemo

o

q

u e é im e diatamente

conhec i do em uma coi a , ao co n hecermo

a s ua qüididade . Tai s

ão o s pri -

meir os prin c ípio s que com p reendemo s

tão logo apreen d emo s

o s termo.

P or i s o denomi n a -

e a

i

nteligência o hábito do s pr i ncípio s .

 
 

A

qüid i dade de uma coi

a con s titui o objeto p róprio da inteli g ência. P or con s e g uinte,

a s im

como a apree n ão s ens itiva

forma é empre verdad eiro o conhecimento

( Sobre a Alma, l i vro Il l , comentário 26) .

Todavia acidental mente pode oco r rer fal s idade também aqui, i s to é enquanto a intel i gênc i a opera uma í nte e ou uma aná l i s e [ai a .

do s d ados s e n s i tivo s e s pecíf i co s

intelectua l

é s empre verdade i ra ,

da me ma

na apreen

ão daquilo que al g uma coi a é

I s to pode acontecer de dua mane i ra.

A prime i ra , qua n do a inteligência

aplica a defi ni ção

de uma coi a à outra:

p or exem pl o ,

ao a n o. O u , e n tão , q ua nd o

tomand o a defini ção de

a inteli g ência comb i na parte s de uma

nindo o a s no como um ser irracional e imortal .

's er vivente r acional e mortal '

e ap l icando - a

defin i ção que não s e podem combinar;

por exemplo , def i -

om efeito, o juízo ' um s er irraciona l

D aqu i

ção fal a.

e deduz que uma defi ni ção

E te dup l o modo de ver i f i ca r- e [ai

e i mortal " é falo.

ó p ode er fal a na medida em que im p lica uma a fi rma -

idade na i nte li gência humana é mencionado

no l i vro V

da Metafisic a (texto 34).

n alogame n te, também no te r reno do primeiro

princípio s não exi te

en

g ano. Em co n seqüê n c i a

s e a intel i gênc i a

e e n te n der no s eu s e n tido orig i nário

de 'ler dentro " não

pode exi s tir fal s i d ade ne l a.

B ) Todavia , a i nteligência

pode er e n te n dida

também n o s entido comum , i to é, enquanto

abarca rodas a s o p eraç õ e s

tai s como o opinar e o raciocinar .

e ta acepção pode haver [ai i dade no intelecto .

unca, porém , haverá fal s idade

ção ao primeiro s p ri n c í pio s

e f i ze r de modo correto.

e a redu -