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Keith Jenkins

A HISTÓRIA REPENSADA

T RA D U ÇÃ O

MAmo V I LELA

R EV I SÃO TÉ C N I CA

MARGARETH RAGO

CONTEXTO

Copyright@ 20 0 4 K e i th J e n k in s

Todos os d ir e i t os r eser v ad os. Tr a d ução a ut o r i za d a da e d i ç ã o em i ng l ê s ed i t a d a p or R o ud e d g e, membr o d a Ta y l or & Fr a n c i s G r o u p .

Tradução

M á r i o V il e l a

Revisão Técnica

M a r ga r eth R ag o

Diagramação

Fá bi o A m a nc i o

Revisão

C a mil a Ki n r ze l

Da d o s Inter n ac ion a i s de Ca t a l ogaç ã o na Pub l i c ação ( C IP)

( Câmara Bra s i lei ra do Liv r o , S P, Br as i l )

J e n k i ns, K e i t h. A Hi stória r e pensad a / K e i r h [ e n k in s, tr a dução d e M á rio Vilela, 2 . ed . - São P a u lo: C onr ex r o , 2 00 4.

B i bl i og ra fi a .

I S BN 85 - 7 244 -1 68 - 9

1. Hi s t ó ri a - E s t ud o e e n s in o. 2. Hi stó r i a - F i l oso fi a .

3. H i s t ó ri a - M e t o d o l ogi a . 4 . H i s t ó ri a - T e o r i a c r i tica. 1 . T í t u l o

0 1 - 1 280

C D D - 9 01

Í nd ice s p a r a ca t á l ogo sis t emá t i c o:

1 . H i s t ó r ia : Fil o s ofi a e t e or i a 9 0 1

Pr o i bid a a rep r od u çã o t o t a l o u p ar cia l.

O s i n fr a t o r e s s erão pr oce ssad os n a f o rm a d a l e i.

2 00 4

Todo s o s direitos desta e d i ção re serv ado s à

E D I TORA CONTE X TO (Editor a Pin s ky Ltd a .) .

Diretor editorial Jaim e Pin s ky

Rua Acopia r a,

05083

- 110

1 99 - Alto d a Lap a - S ã o Paulo - sp

PABX: (1 I) 3832 58 38 FAX: ( 1 1 ) 3 8 3 2 10 43 con te x t o@ editoracon t e x to . c o m.br www. editoracontexto.com . br

Par a Maureen , Philip e Patrick

tue é a H i stó r ia?

\1\

~~' Il"' . a pi tulo, quero te nt a r respon d er

à perg unt a qu e lh e

1111 rk . Pa ra fazer isso, vo u d e in íc i o exa min a r

o qu e a

111 1111'1:, " na teoria; depo i s, exa min a r o q u e e l a é n a práti ca;

\

I 1I , I I \ I . : , )

\ I' l I ' 'SI r o se r abrange n te

, p m fi m , juntar teoria e p r át i ca e m u ma d ef ini ção - um a

é ti c a e irônica, co n s truíd a me t odo l og i ca m e nt e

-,

o basta nt e para proporc i ona r

a

não apenas da "q u es t ão da

111 (' um r a zo áv e l conhecime nt o

111 . 1o rl a '', mas també m de a l g un s d os debates e pos i ções q u e

\ 11 I I - i a m.

I) ' fE ORIA

N o níve l da teori a , gostaria de a p rese nt ar do i s a rgum e n-

II lho

,'111

p rimeiro (que esboço n este parágra f o e d es en vo l vo

S > zu ida) é q u e a hi s t ó ri a con s titui um de nt re um a sé rie d e

.!Li ° u r , o s~ S

I 11 -m o mu n do (aq u e l a co i sa físi ca n a qua l a p a r e ntem e nt e

v v ' mo s), e l es se a p ro p r i a m

ei t o d o mundo . Em bora

esses di sc ur s os n ão

do mund o e lh e d ão todos os

i lp nif i c ados qu e t ê m . O p e d ac inh o

d e mun do qu e é o obj e t o

(1)1' . t e n dido) d e inves ti gação

1:1

'Ol1!.Q

sljsc l ! , rso está ,

d a hi s t ór i a é o passa do . A hist ó -

n u ma cate o ri a dife re n te

or t a nt o

23

da u ela sobre a ual d i scursa. O u se j a, p assado e his t ó ri a sã o coisas dif ere nt es. A d e m a i s, o p ass ad o e a h is t ó r ia n ão es t iO unidos um ao o u tro de ta l ma n e ir a que se possa t er um a , e apenas u ma l eit u ra histórica do passado. O passado e a histó - ria ex i s t e m li vres um do o u t r o; es t ão m u ito d ista n tes e nt re s i no tempo e no espaço. Isso p orque o m esmo objeto d e i n - ves t igação po d e ser interpreta d o d iferen t e m ente por d i fere n- tes prá ti cas discursivas (uma p aisagem p o d e ser lid a / in ter - pre t a d a di fere nt eme nt e por geógra f os , soció l ogos, hi s t o ri a - dores, ar t is t as , econom i s t as et al.), ao mesmo t empo q u e, em

ca d a um a dessas p ráticas , h á dif e r e nt es l e itu ras i nt er p re t a ti vas n o t e mp o e no espaço. No qu e di z respe it o à his tóri a, a h i s t o r i ogr af i a mos t ra isso m u i to b em . O pará gra f o aci m a n ão é fác il . F i z u m m onte de a firma ções ,

mas, na r e al i d a d e, t o d as g ir a m em to r n o d a d i sti n ção e ntr e p as -

sa d o e hi s t ór i a . Essa dis t i n ção é, p o rt a n to , essencia l . Se for co m- p r ee ndida , e l a e o d eba t e q u e susci t a aj u dar ã o a esc l are c e r o q u e a hi s t ó ri a é na teoria . P o r c onseguinte , vo u exa m i n ar as afir m ações que acabo d e faze r , a n a li sa n do com a l g u ma minú cia

a di fe r e n ça e nt re p assa d o e hi s t ó ri a e , depois , co n s id e r a n do a l g um as d as p ri n cipais co n se quên c i as dessa d i fere n ça . De i xe - me come ç ar p e l a id é i a d e q u e a his t ó ri a, e mb ora seja um di sc u rso sobre o p assa d o , es t á n u ma catego ri a d i fe - r e nte del e. I sso p o d e l he p a rec e r es tr a nh o , p o rque t a l ve z você n ão t e nh a no t ado essa di s tin ção a n tes ou , d o co ntr á ri o , t a l ve z a ind a n ão t enha se preo c up a d o m uit o com ela. Uma d as ra z ões para que isso aco nt eça - ou seja , para qu e e m

ge r a l a distin ção se j a deixada de l a do - é que ten d e m os a

perder de vi s t a o fato de que rea l ment e ex ist e essa d ist in ç ã o e ntre a históri a - e nt endi d a como o qu e foi e scrito / r e gistrad o

sob re o p a ss a d o - e o pró p r i o passado, pois a palav r a " hi s t ó - r i a " cobre a mb as as coisas. 1 Por ta n to, o pr e f e rív e l ser i a s e m

pr e marcar essa dif ere n ça us a ndo o t ermo " o p as sado" p ara

tud o q ue se p asso u a n tes e m tod os os lugar e s e a palav r a

"h i s torio gra fi a" p a r a a hi s t ó ri a; a qu i , " h is t o r iografia " se refere

24

I

I

I (

I

, '

I<

h i s toriadores. També m seria um bom cri t ér i o

I I .11 11) , mo o objeto da a t e n ção dos hi~tor i ~dores, a

q u a l os h ístoria d o r es o

ti i xa r a p a la v ra " História" (com H maiú~c~lo) para I I 1\ ti t o d . No entanto , é dif í c il li vrar - se do h á bito , e e~ III 1I t . il v z u se " história " para m e referir ao passa d o, a I 1 1\I 't ' l . lf i a e a a mba s as coisas. Mas l embre . q~e, ~e e q u an d ~ I I I I I i ss , es t a rei levando em co nt a t a l distin ç ão - e voce

I 1 1 11I

" IIIII!

I .t ! ' i a

orn o a maneira pe l a

I

'1.\

p r ce d e r da mesma maneira.

.

I \ I I ) p ode muito bem ser que esse es c l a r eCi m e nt o I I 1 I 1 , I l i ti n çã o entre passado e hi s t ória p a r eça CO i sa v~. I l i t , V O , A pe nse: "E d a í? Q u e i mp o rt â n c i a t em isso ? " Pe rml- 111 1 't I f e r c e r três exe mpl os d e por qu e é i m p or t a nt e e nten- I \ di s ti nçã o en tr e passado e hist ó ri a. ( ) pas sa do já aco nt ece u . El e já p asso u : e os h is t o ~i a do- I ( ' S S c onseg u em t raz ê -l o d e v olt a medlado p o r ve l ~ ul os m ui t difere nt es, d e q u e são exe mpl o os li v r os, a rti g o s,

I

I

t

11 1I

,

.

_

t i o ' ume ntários e t e . , e n ão co m o aco n teci m entos pr~se~ - I 'S. O passado j á passo u , e a h is t ór i a é o q u e ~s h ís t orí - , I I r e s faze m com e l e qu a nd o p õe m m ãos a o br a. A hi s tó r i a é o ofício dos h is t or i a dor es (e / o u d aq u e l e~ qu ~ . \ g m c omo se f ossem hi s t o ri a d ores) . Q u a n do os hi s t o ri- :1 l o r e s se enco n tra m , a prim e ir a co i sa q u e p erg unt a m 1 It 1 a os o ut ros é: "No qu e v ocê s es t ão t ra b a lh a nd ~ ? " Es se

tr a ba lho , ex p resso

v cê lê qu a nd o es tu da hi s t ó ri a . I sso sig n if i ca ~ u ~ a hi s t ó -

r i a e stá m uit o lit e r a lm e nt e, n as es t a nt es d as bl b hot e c as e l e o ut ros lu gares. Ass im , se v oc ê co m eça r a f a z e r um c ur so de hi s t ó ri a es p a nhola seisc e nti s t a ( p or exe mplo) ,

nã o v ai pr ec i sar ir ao sé culo XVII n e ~ à, Es ? a ~h a; co~ ~

a juda d e um a bibli ogra fi a , v a i, ist o s im , a blbh o t e c ~. E ali

q ue e st á a Es p a nha se i s c e ntista , ~a t a l oga d a p e lo sístema d eci m a l D ewey, pois ao nde mai s os pr ofess or e s man- d am você i r para es tud ar? C laro , você poder i a i r: - ?utr os lugares o nd e é possíve l en co nt ra r outros vest í g i os d o

e m li v ros , p er i ó di cos e t e . , e o . qu / e

25

spanhóis, M as,

aonde qu er q u e vá, sem pre terá d e I r / int 'I r t a r. Essa

l ei t ura não é espontânea

(em vários cursos, por exemp l o )

passado

- por exemp l o,

aos arquiv os

n e m n a tur a l . E l a " a pr nd ida

e in fo r m a Ia ( u s e ja,

 

dotada de sign i f i c a do)

por outr o

t

t os . J\ hi tó ria

(

h istoriogr a f i a)

é um constru c t o

I í n gü í t i co int . r t x t u a l .

2.

Digamos q u e você est e j a e stud a n d p a rt e 10 1 assa do

i

ng l ês (o séc ul o XV I , po r ex e mp l o ) n o S'

 

britâ ni -

co . Vamos i mag i nar que v o cê u

pêndio:

u m

Eng l and under th e T ud o r. , I '

undári r . n o m ado

co m - eoffr y E lto n .

5 10 ul XV I , v oc ê

f az ano t ações e m c l asse . M as, p a r a os tr a b a lh

so da revi são d a mat é ri a , u s a E lt n . N a h o r a d o e x a me,

escreve his t ória

certos as p ectos do " p assad o ". N o nt a nt ,s r i a m a i s a c er -

t ado dizer que você pass ou n ã o e m t ' r i a in g l

ing l esa , ou sej a , e t á q u a lif l ' 1 I n a a n á lise de

Na au l a em que se trata d e asp ec t

s e o g r os -

à sombra d e Elt o n . A p as a r ,

l i a p r o v a d o e m .

a, mas " l e itu -

em Geoff rey El t o n - pois , n essa f as,

r a" do p a ssado i n g l ês sen ão uma l e itur a

q

u

d

' s u a e E lto n ?

3 . Esses d ois ráp ido s exemp l os da di s tin çã o e ntr e p a sa do

e hi stór i a ta l vez f açam p arecer q u e se tr a t a d e a l go se m

maiores conseq ü ê n cias. Na r ea lid ad e , por é m, a qu e l a d i s -

tin

ç ão p o d e t e r ef e i tos en or m es. E is o u t r o e x emp l o p a ra

ilu

s t rar i sso: e mbor a milh ões d e mulh e r es tenham vi v ido

n o p ass ad o

Á fri ca, n as A m ér i cas

i s t o é , no s t ex t os

um a f r ase, f o r a m " esco ndi das da hi s t ó ri a ",

m a t ica ment e

d ores. Por co n s eguint e, as f e mini s t as

da s na ta re fa d e "fa zer as m u lh e r s v o l tar

( n a Gr éc i a , em R o m a, n a Idade M é di a , na

)

, p o u cas aparec e m

n a hi t ó r i a ,

de hi s tó r i a . As m u lh e r e s , p a r a

ita r mo s

i t e -

exc luíd as d a m aioria d o r l a t s d hi t ri a -

u S

j

,

os co n t ru t os

stã

n ga j a -

a hi s t ó - n ul he -

I ' Jl WS . u lin i l a de

ago r a

J'l1 r '11"l

r ia " , ao m esm o tem po que t a nt o h /TI n s juantc

res vêm exam in ando

q u e são

corre l a t os ao t e rn a.' N s t a a ltur a , vo .r; t a l v e z

26

pare para co n s i derar

povos, c l ass es foram e/ou são om it idos das hi stó ri a s e

por q u ê ; e q u ais poderiam ser a s conseqü ê ncias se tais

" gr up os " omitidos domin as sem o s re l atos históricos e se os gr u pos ho j e d omi n a n tes ficassem à margem.

e as

quantos outros grupos, pessoas,

Poste r iormente ,

diremos m a is sobre a import â n cia

possib ili da d es de t rabalhar a distinç ã o en t re passado e h is t ó -

outro a r gumen t o daq u e l e digo que precisamos e n-

tender que o passado

parágrafo

ria. Por o r a, e u go s tari a de anal i sar

anterior (p, 24) n o qual

e a história n ã o estão unidos um ao

ou t ro de tal modo q u e se p ossa ter uma , e apenas u ma l eit ur a

de q u a l quer fe n ô m eno ; que o mesmo objeto de inves ti gação

é p assív e l de difere nt es i nt e r pretações po r difere nt es disc ur-

âmbi t o d e ca d a u m d esses d i sc u rsos,

varia m e dife r e m no espa ç o e no _ tempo .

sos; e q u e , a t é n o

in t erpretações q u e

Para come ç ar a exemp li ficar i sso, vamos imagina r que

possamos

( não toda a paisagem,

m a i s

muito l ite -

ra lme n te) . No p rim e ir o pl a n o, es t ão várias estradí n has.

a l é m , o utra s es t ra di n h as,

ver uma paisagem

ing l esa a t ravés de u ma jane l a

po i s a j a n e l a a " enq u adra "

l a d eada s p or casas; há c a mpos on-

d ul a nt es e , n e l es, casas de faze nda . Na linh a do h or i zo nt e ,

a l gu n s q uilô m e tros ,

N o pl a n o inter m e di ário ,

cé u é de um az ul p á li do.

a

ve m os uma s u cessão de morros ba i x o s.

um a c id adezi n ha

com u m a feira . O

N ão

h á n a d a ne ssa pa is agem

g ue d i ga " eo gr a ~ a" . ~

e

nt a n to , es t á c l a r o gue u m geógra f o p ode 'u l á -l a em term os

g

e ográfic < 2 s. Ass im , e l e po d e " l er " q ue a terra

exibe prá t ica s e

pa

dr ões

d e u so es p ecíf i cos ;

as es tr adinhas

pode m t ornar - se

pa

rt e d e um a séri e d e redes de co m un i cação

l oca l e / o u r eg i-

o n a l ; as f a z e nd as e a cida d e podem ser " li das " e m termos d e

um a dis tribui ção p opu lac ion a l esp e cífi ca ; cartas top ográ fica s

po

d em map ear o t e r reno; ge ó gra f os espec i a li za d o s , exp li car

o

c lima e , d igam os, os ti p os decor r e n tes

d e ir r i gação. Dessa

man eira, o pa n orama poderia v irar o u tra coisa: geografia. De

man eir a seme l han t e , um sociólogo

poder i a pegar a mes m ~

27

pai s ag e m e e laborá-Ia em termos so c i o l ó g i cos: as p e ssoas n a c i a e poa e riam torn a r-se dados par a e s trutur as oc upa c i o n a i s , t a manh o . das unidades familiar e s e t c . , a d i s tr ibu i ç ão popul ac i o n a l , s er con s ider a d a e m te rm o s d c l asse , re nd a , id a de, s e xo; o c lima, ser vi s to como a l go q u e af t a a poss ib i- lid a de s de l a z e r ; e a ss im por diant e . O s historiadore s t a mbém c on s e g u e m tr a n f rm a r a m e s - ma pais a gem e m d i s cur s o própri o. O s at u a i s padrões e u so d a terra po e m s er compar a d os com o da fa s a nt e ri o r a o s Grandes C e rcamentos ; a p o pul ação a tu a l co m a de 1 83 1 o u 18 7 1 ; pode-se a n a li sa r c om o a pr op ri l ade f un d i á ri a e o poder político evoluír a m no d e corr er d t mp o, ex ami n a r como um peda c inho da p ais age m a d e ntr a u m pa rq u e n ac i o - nal , quando e por que a f e rr o vi a e o can a l f lu v i a l d e i xa ram de funcionar etc .

Ora dado que aqu e l e

a n o r a m a n ão t m n ada de intr - í ns e -

,

.

co que

mos ver c larament e qu e , e m b o@ o hi s t o ri ado r es e t o

óiJtrõS n ã o inventem a p a i sag e m ( t o d as aq u e l as co i sas p a re - ce m estar mes illõ á ), e les r ea lm e nt e f orm ul a m to d a s as Cãte- g o rias desc r i t ivas d ê ssa paisagem e qu a i sq u er s i g nifi c ado s q G e

s ê P o ~ dizer que ela tem . Eles elabor a m as f e rram e nt as

líticas e metodológicas para extrair dessa mat é ria-prim a a s s u as

maneira s P róprias de lê - Ia e falar a ~ respeito : o di sc ur s ~ é nesse se n iido que lemos o mundo como um texto, e tais l e itu- r a s são , p e la lógi c a , infinit a s. Não quero diz e r c om i sso q ue nós simplesmente inventamos histórias sobre o mund o o u so - b r e o p assado (ou seja, que travamos conhe c im e n to d o mu n- do ou d o p a s sado e então inventamos n a rr a ti v as so br e e l e ); mas si ~ q ue a afirmação ê mui t o mais fort e: qu o m un do o u ~ _ Rassado sempre nos chegam como n ar r a ti va e q u e n ã o _

po emoS sair essas narrativas para

ao

grite " Geogr a fi a ! ", "S o c i o l og i a ! " ; " Hi t ó ri a ! " e t c . , p o d e -

os os

~ -

v e rifi c a r s

o r r p o nd e m

mundo ou ao pa ssa o reais , pois

el as co n t i tu m a " r a l íd a -

de" . No exemp o que r ã1 T I osvendo , i s so s i g ni f i a q u a pai - ~ m ( a qual ganha signifi c ado a p e n a s q u a nd o li d a não co n -

28

se gue estab e lecer d e finitiv a ment e

g eógrafos podem interpr e tar e reinterpr e tar ( l e r e r e ler ) a pai-

sa gem at é n ã o mai s poderem , ao m e smo tempo que discor-

d a m d o que es t á s end o dito " geog r a fi ca m e nt e " . Ad e m a i s , ~ qu e a geogr a fia nem se mp re ex i s tiu co m o discur so , e nt ã o n ã o ap e n a s a s interpreta çõ e s d os geóg r a fo s tiv e r a m e c o meçar

um i a e or a m s e mpre dif e rin d o

l ê em difer e nt e ; : n e n :-

te o qu e c on s titui o di s curso n o â mbit o d o u a l tr a b a lh a m. Ou

se j a, a própri a g e o g rafia c omo man e ir a d e l e r o m ~ J 2 re c is a e int e r p r e ta ç ão i s tonaz aç ã . Q . E o m esmo s e dá c om a s o c io- l o gia e a história. Sociólogos e hi s toriador es d íf e rente s í iü er- pr e t a m de m a n e ir a di s tinta o me s mo f e nômeno , p o r meio de o utros di s cursos que est ã o sempre mud a nd o , s e mpre sendo d e compo s to s e recompo s to s , s empre p o sicion a dos e s empr e po s icionando - se , e que por isso pre c isam qu e aqueles que os u sa m faç a m uma a utocrítica constante. Nesta a ltura , v a mos e ntão presumir j á t e rmo s d e monstra- do o a rgumento d e que a história como di s curs o se encontr a numa categoria diferente daqu e la na qu a l o p assa d o est á . N o c ome ç o do capítulo, porém, eu disse qu e , n o n í vel da " teo- r ia " com r e lação à pergunta " O que ê a hi s t ó ri a ? ", eu apresen- --- ---

t a ria dois argumentos. Eis o

t a mbém o s

t a i s l e itura s;

ass im , o s

n o t e m o e es a o, m a s

ró rio s geó g raf o s e nt e n d e -

s e gund o .

Dada a distinção entre pas sa do e hi s t ó ri a, o problema para

~

historiador que de algum modo qu e r c a ptar o passado em s eu discurso histórico torna-s e est e: c omo s e conciliam aque - l a s duas coisas? Obviamente, a man e ir a com a qual se tent a e ssa conex ã o - a maneira c o m a qual o historiador tenta entender o passado - é crucial par a determinar as possibili - dades do que a história é e pode s e r, até porque a pretensão da história ao conhecimento (em v ez de considerar - se sim - ples fé ou alegação) é o que a torna o discurso que é (com isso , quero dizer que o s histori a dores não costumam consi- derar-se ficcionistas , embora possam s ê -lo sem se darem con - ta). " No entanto, s e existe diferen a entre assado e história ,

29

e

se o o b 'e t o d a i n v e s ti gação em qu e os hi s t or i adores traba -

( pe l a l ógica) q u a l q u er coisa q ue que i ra m os que e l a seja (a

lh

am es t á a u se nt e n a m a i oria e s ua s m a nif esta ç ões - ( p ois só

d i s tinção e nt re f a t o e va l o r , a l ém da circ un s t â n cia de t er h av i-

res t am ves t íg i os d o p a ssado), e n t ã o clara m en t e há todo ti o d e i m it e co nt ro ã i1 d oãSP ' fé t e n sõ e s ' q u e os hist or i a dores os-

d o ta nt as hi stór i as , po ss i b i li t a isso), n ós va m os co l ocar a q u es - tã o de co m o hi stó ri as espec í f i cas vieram a se r e l abora d as

sa

m t e r ao C o nh ec i me nt o. E, n esse c o n cil i ar o p assa do c om a

s egu nd o u m e n ão o ut ro mo l de , em termos n ão só epis t e -

hi

s t ór i a , s ur ge m ara mim três ca mp os t eórico s muit o proble -

mológ i cos , mas t a mb é m m etodológicos e id eo l óg i cos. Nesse

m

á t icos. São á r eas c8:

epis

t e m o l o gi a , na m e t o d o l o gia e da

p onto, o q u e é possív el saber e como é possíve l sa b er

i d eo l o i a, . s :a d a u ma d as q~a i s re ê i s ã se r exp li ca d a se q u er e -

i nteragem co m o p o de r . Em certo sen ti do, po r é m , i sso só

~ s

ve ~ o q u e é a hi s t ór i a.

 

a con t ece - e t ra t a-se ago r a d e a l go que prec i samos e nf a ti za r

A e i s t e m o l o

ia ( d o gr ego episteme, "co nh ec imento " ) se

_ por ca u sa da f rag Q id a d e e istem o lógica da h i stór i a . Por -

re

f ere ao cam p o fil os ófi c o d as t eori as d o co nh e cimen t o. Essa

que , se fosse p oss í ve l sa b er d e u m a vez por to das, h o je e

á r ea di z res p ei to a c om o sabe m os o qu q u e r que seja . Nesse

s empre, e n tão n ão h aver i a m a i s n ecessidade de escreve r hi s -

se

ntid o, a hi s t ó ri a i nt egra outro discur so, a fil oso fia , to m ando

t ória , po i s qu a l se ri a o pr opósito d e u m sem - número de h is -

par te n a qu es t ã o ge ral d o que é po ssív 1 sa b e r c om referên - c i a à pr ó pria área de co nh ecim e nt o d a hi s t ó ri a - o p a ssado . E a qui v o cê t a l ve z j á ve j a o tamanh o d o pr o bl m a, p o is , se e

co mpli cado ter c o nh eci m e nt o de al go qu e ex i s t e , e nt ão fica

es p ec i a l me nt e di f í c il di ze r a l g u ma cois a s o bre um t e ma e feti -

vame nt e a u se nte co m o é " o passado n a hi s t ó ri a" . Port a nto , par ec e óbv i o q u e tod o esse c onh ecimento é prov ave lm e nte c ir c unst a nci a l e e l a bor a do por hi s t o ri adores q u e tr a b a lham s o b t o d o t ip o de p res s upo sto e pre ssão, coisas q u e , é c l a ro, n ão a tu a m sob r e as p ess o as do p assado. Não obstant e, a inda

vem o s hi s tori a dor es t e ntar e m i n v oc a r a nt e n os s os o l h o s o e sp e c tro do pass a do r ea l , um p as sado obj e tiv o so bre o q u a l

~ r e l a t os

d e ir os, n a ace p ção m a i s a mpl a d a p a l avra. Pois b e m: ac ho u e tais I 2 .! : et e ns õe s à v erd a de n ã o sã o - e nun ca for a m -

R a s sív ei s de r e aliz a r:: §~ , e e u diria qu e em no ss a a tu a l s itua - .

ção i sso j á d eve ri a s er óbvi õ : c o n f or me argum nt

tul o 3 . Não obs tant e, es t á cl ar o qu e acei t ar is so - p r m itir que

d ess e s hi s t o ri a d ore s se ri a m pr ec i sos e até ve rda-

i n o ca pí -

tor i a d ore s fic are m r e p e tind o a mesmíssima c o isa

r ríes mí ssi m a ma n e ir a o t e m po t o do? A hi stória (os co nst r uct os

histór i cos , e não o " p assa d o e / o u futur o " ) p a raria. E , se v o cê a cha a b s urd a a id é i a de p a r ar a hi s t ória (o u seja, p a r ar os h i sto ri a d o r es), saib a q ue n ão é: is so é parte não ape n as d o

roma n ce

1 984 , p o r exe m p l o , m as t amb é m d a Europa d os

d a

a n os 3 0 - a é po ca e o lu ga r m ai s im ed i a t os qu e fizeram Geo r ge Orw ell c on s ider a r aqu e la idéi a . P ort a nto , a fr ag ilid a de _ e pi s t e mol óg i ca permite _ ue as inter -

pre t açõe s d os hi s t o ri a dor es se j am mul típ l i ce s ( um só p ~ssa d o , muito s hist o ri a dore s ) . Ma s o u e t or n a a história tão fr ág il e m t ~ ; - i st e mol ó gi cos ? H ã qu atro r espostas b á si cas .

\ E m prim e iro ug a r (e ago r a e u r ec orr o bas t a nt e a o s a rgu- me nt os d e D av id Lo we nth a l e m seu li vro Tbe pas t is a f ore i gn

c o unt r y), 4 n e nhum histori a dor cQ n s ~ ue aba r ca r . § _ assi m ~ C\ J -

pera r a t o talid a d e do s a cont e cim e nt os pa ~ sa<! o s,2 . orgu ~ "C?,E- t e údo " des ses aco nt ec im e nt os é p r aticame nt e ilimit a do. N ã o é p Os " síve lr e l a t a r m ?- ~ u ~ fração ~ d o 9 -u e j á · õ c~ 1 ! . e u , e o

a

d úv id a se inst a l e - a f e t a o qu e você p o d e p n a r qu e a

r e l a to d e um hi s tori a dor nun ca corr e spo nd e

e J S a t a mente ao

hi

s t ór i a sej a , i s to é , d á a você

u ma part e d a r p o t a p a r a

o

passa d o : o s imples - vo lum e d esse ú ltim o in v i a biliz a a hi s tóri a

qu

e a hi s t ór i a é e pode ser. P orq u e, ao r eco nh

r mo s qu e

to t a l . A m a i o r p a rt e d as inf o rm ações so b re o p assa d o nunca f o i

nã o s ab em o s re a l m en te, ao vermos a hist ó ri a c mo se ndo

30

r eg istr a da , e a maior p a rt e d o qu e pe rm a n e c e u é fugaz .

3

1

Em seg und o lu gar, n e nhum relato c o n s e g u e re c up era r o

p assa do t a l q u a l e l e e r a, porqu e o pas s ado s ã o ac ont e cim e n -

t os, s i t u ações e t c . , e n ão um re l a t o. Já qu e o passa d o

r e l a to s só p o d e r ão se r. c onfront a d os co m o ut ros re l a t os, nun- ~ a c om o pa ssa d o. Julg a mo s a " pr ec i são" d os re l a t os de hi s t o - ri a d o r es v i s - à - v i s as int e rpr e t açõ e s de o ut ros h istori a d o res, e n ão ex i s t e nenhuma n a r r ativ a , n e nhum a h is t ór i a " ver d ade i-

~a", qu e, a o fim

r e l a t os co m e l a - i s t o é, n ã o ex i ste nenh u m texto f u nd a m e n- t a lm e nt e " c o rreto " do qual as outras in t e rpr e t açõ e s se j a m a p e n as var i açõ e s; o qu e ex i s t e s ã o meras var i ações. O c rític o c ultur a l S teven Gile s r e su me b e m esse aspec t o, quand o co - ment a qu e o p a s s a d o é sempr e p e r ce bido por m e io d a s ca - mad as s ediment a r es d as i n terpr e t a ç ões a nt e rio r es e p o r m e io do s hábitos e c at egor i as de " l e itur a" d e s e nvo l vi d os p e l os di s -

c ur s o s int e rpr e t a ti vos ant e r i o r es e / o u a t u ais." Esse insig h t t a m-

bém nos p oss ibili ta a fir mar qu e t a l m a nei r a d e ve r _ a s c o isas

p asso u ,

n 9 s po s sibilit e co n frontar todos o s o utr os

'*' ~ udo ' d a hi s t o riogr a fi a (os h istori a dore s r, po r co n seg uint e, a ~

t o rn a o es tud o d a h istór i a ( o pa s sad o) nece s sa r ia m e nte

um

historio g rafia p as sa a ser c o n s id erada n ã o um a d e ndo ao e s - tudo da hi s t ó ri a, m a s a própri a ma t é ri a co n sti tuin te d essa última . É um c ampo ao qual volt a r e i n o cap ítu lo 2. Por e n- q u a nto , v a mo s à terceira raz ã o p a ra qu e a história se mo s tre frágil em termo s e pi s t e moló g i c o s .

Es s a r a z ã o é qu e , 0 ã o importando

o qu a nto a hist ó ria

~~ ja a utenti c ad a , a mR . ~ mente ac eit a ou v erific áve l , el a e st á

f a dada a se r um co n s tructo p ess o a l , um a m a nif estação d a perspectiva do hi s t o riad o r co m o " n a r rado r " . Ao co ntr á rio

da mem ó ri a dir e t a

p e nde d o s olho s e da voz de o u trem ; vemo s por int e r m é dio de um intérprete que s e int erpõe entr e os a co nt e ci mentos pa ssa d o s e a leitura que d e l es f aze m os . É c l ar o que, co nfor- m e diz L o wenthal , a história e s crit a r ed u z a l iberdade l óg i c a

( qu e em s i j á é susp e i t a) , a his t ór i a d e -

do hist or i a do r para esc r eve r tudo qu e lh e der n a te l ha, po is n os permit e o acess o à s s u as f o nte s. N o e nt a nt o, o pon t o de

32

vis t a e as pr e dil eçõ e s d o hi s t o ri ador a ind a m o ld a m a e s co -

p e s s o a i s de -

ter min a m co m o o int erp r e t a m os.

mos " é semp r e co n diciona d o po r n ossas pr ó pri as v i s õ es , ! l0sso pr ó prio " pr ese n te". Assi m co m o s om os produto s d o

passa do , assi m t a mb é m

u m ar t ef a to n oss() . N in g - u ém, n ã o i m p o rt a ndo qu ão im e r so

es t e j a n o passa d o, c ons e gu e despojar - s e

me nt o e d e s u as p ress up osições . " Para exp li care m o p assa-

d o e fetivame nt e r eg i s tr a d o e

do, os hi s t o ri a d ores vão a l é m

(a h is t ó ri a) é

l h a do m a terial , e no sso s pr ó pri os co n s tru c t os

9 p a s sa d o qu e "c onhe ce -

o passa d o co nh ec id o

d e se u co nh ec i-

for mulam hip ó t eses seg uind o os modos de p e n sar d o p r e- sente", diz L owe nth a l . " Maitl a nd n ota que somos m o d e rn os

e qu e n ossas p a l av r as e pens a ment os só pode m ser m o d e r-

nos . S e g und o e l e, ' j á é t a rd e dem ais par a s ermos in g le s e s me di eva i s ' i '" P o rt a nt o , ex i s t e m p o u cos l imites à influ ê n c i a

de di sc ur sos int e rpr e t a ti v o s qu e pr ocuram rec u perar o p a s-

s a d o p e l a im ag ina ção.

Kh l e bnik ov e m se u s D e c ret os

mi nh a s int ax e . " ? Ve j a m , diz o hist o ri ador , o pa s s a do ob e de -

ce ~ minh a i nt e rpr e t açã o . -

É p oss í ve l qu e is s o p a r eça um t a n to poético. Po rt a nto , ta l ve z p o s sa m o s ilustrar c om um exemp l o m a i s si mpl es e sse

" Ve j a m " , diz o poeta

r u sso Ve lemi r

a o s pl anetas, " o so l obe d e c e à -

-

-

-

-

arg um e nt o

d e qu e a s font e s i mp e d em

a l i berda d e t o t a l do

his t o riador

e, a o me s mo t e mp o, n ão f i xam as co i s a s

de ta l

m odo qu e s e p o nh a m es m o

Eis o exe mpl o : ex i s t e muit o d esacordo sob r e a s int e n ç õ e s

de Hitl e r ap ó s e l e ter c o nqui s t ado o pode r

da S e g und a Guer ra Mundi a l . N e sse campo, um a di sc ord â n c i a de long a data e muito fam o s a se d e u e ntr e A . J . P . T a ylor e H ugh T r e v or - Rop e r . Ela n ã o se b aseava n os m é rit os d ess e s

do i s hi s tori a d o r es in g l e s es . Am bos era m muit o e xperi e nt es,

am bo s tinh a m " habilid a de s", a m bos sa biam ler do c um e nto s

( e, no c a s o e m paut a, os d o i s freq u e nt e m e nte

mos). A p esa r di s s o, um n ã o co n co rda va c o m o o utro. A s - s im , e mbor a as f o nt es / aco nt ec im e nto s po ssa m simpl e sm e n-

fi m a i nf ini tas i nt e rpreta çõ e s ,

e sobr e as c a u s a s

li a m o s m es -

3

3

t e imp e dir qu e se di ga tud o q u e se queir a, el es t a mb é m n ã o i mpli ca m qu e se deva seguir um a única interpr e taç ã o . A s t rês r azões c itad a s ac im a p a ra a f rag ilid a d e e pi s t e m o -

l óg i ca d a hi s t ó ri a se b ase i a m n a id é i a d e q u e a hi s t ó r ia é

m e n os qu e o p a s sa d o - ou s e j a , a idéia d e qu e o s histori a do - r es só c on seg u e m rec up era r fr a gment o s . M a s ª qua rt a r az ã o

p e rfici a l , e você pode ir a lém e l e r L o w e nth a l e os outros .

M a s agor a pretendo seguir adiant e. P o rque, se e ss es são os

limit es epi s temol óg ico s p a ra o qu e s e pode s a ber , ent ã o e les obv i a m e nt e se int e r - r e l a c io n am co m as m a ne i r as p e l as qu aís os hi s tori a dor e s tentam d e s c ob ri r o m áx im o p o ssível . E, tanto 1)os m é todo s hist o rio g ráfi c o s q u a nt o na _ e pistemolo g i a, não

 

ex

i s t e um pr oce dimento d e fi nitivo qu e se po ss a u s ar or s er

, : e m e nf a tizar q~e, g r aças à _ po s sibilid a de d e ver as co i sas e m r e tro s p e cto, n ó s d e c e rt a man e ira sa b e m os m a i s so br e o pa s -

sa do d o q u e as 2es so a ~ qu ~ v i vera m lá. Ao tr a du z ir o p assa - d o em t e rm os m o d e rno s e u sar con h ecime nto s qu e tal ve z n ã o es tiv ess em disponíveis a nt es, o h is tori a d o r d esc obre n ã o

só o qu e f o i es que c id o s o b r e o pas s ado , m as t a mb é m " r e c o n s - titui ' ~ co i sas que , a nt es, n u n ca est i ver a m co n s tit uí d as c om o

e l e o c or ~e to; 9~ m é t o do s d os hi s t o r ia dores sã o s em R re t ã o f r áge i s ~a nto as s ua s e i s t e m o l ogias. A t é a qu i, su s tentei que a hi s t ó ri a é um d i sc u rs o e m co n s t a n -

t e tran s forma çã o c on s truído p e lo s hi s t or i a d o r es e que da e x is- tênc i a do p assa do n ã o s e deduz um a i n te rpr e t açã o únic a : mude

o

o lh a r , d es loque a p e r s pecti va , e surg i rão n ovas int e rpr e t a -

t a l . As s im , ~ p ~ s s oa s e f o r m açõ es s ociais são ca ptadas

e m

çõ

es. No e ntanto , embora

5 !. shist o ri a dor es saj b a ~ d e todas

pr o c es so s qu e só

quant o docum e nt os e o u t r os v es tí g i o d o p assa do são tir a d os

d e seus propó s itos e fun ções or i gin a i s p a r a ilu strar, p o r ex e m-

pl o, um p a dr ã o q u e n e m r e mot a m

p a r a se u s a ut o re s . C o nform e d i z L o w e ntha l , t ud o i sso é i ne- vit á ve l . A h i st ó ria sempre d á n ov a fe i çã o às co isa s. El a muda

ou e xa g e r a a s pe c t o s do pas sa d o. " O t e mpo é esco r ça d o ; o ~ _ d e talhes , se l eci on a do s e r ea l ça d os; a a ção , resumida ; as r e la- çõ es , simp li fic a das , n ã o para alterar [ d e cas o p e nsado] os a co n -

t ec im e nto s, m a s para [

E . 0 . g em s e r vi t os r e t r os p ec tiva m e nte , e n-

nt e ti n ha m s ignific a do

l dar - Ihe s signific a do . "

Até o c roni s ta mais empíri c o preci s a criar estrutur as narra-

t i vas para dar forma ao t empo e ao espa ç o . " O [ r e l ato ] pode

até ser ap e na s uma m a ldita coisa a tr ás d a o u t r a [ '

pode pare ce r s er a penas i s so, poi s a í t o d o o s i g ni f i cad o s eria expurgado d e l e. " ? E , d a d o qu e as n arra ti vas enfa ti za m os ne - xos e minimiz a m o p ape l das ru ptu r as , Low e n t h a l c on c lui que os relatos histór i co s t a l co m o o s con h e cemos p a recem

e - p er cep ti vos do q u e o p a ssado nos dá

mais abrangentes

' moti v o s par a cr e r - que t enha si d o. - Esses, portanto, são os limites epi s t e m o l óg i cos p ri ncipais (todos bem conhecidos). Eu os tracei d e m o d o r á pid o e s u -

.

.J m as n ã o

34

ess as coi sas, a m a iori a ar e ce desc o n s i de r á -I as d ~ c a s< ?pen s a-

d o e se empenha e m a lcan ç ar -ª-obj e ti v id a d e e a ve rd a de m e s-

m o as s i m . E _ es sa busc a p e l a verdade tr a nsc e nd e po s i ç õ e s ! 9~ 0- l ógi c as e / o u met o dol óg i Ass im , naquil o qu e (d e certo mod o) pode rí a m os den o mi - n a r direit a em iricist a , Geoffrey Elt o n (e m Tb e practic e of

b is to ry) afirm a no iní c i o do c a pítulo so br e p es qui s a: " O es tu -

d o d a hi s tóri a equivale a uma bu s c a p e l a

b o ra aqu e le mesmo c apítu l o se c on c lu a c om uma

r es sa l v as (" o historiador s ab e qu e o qu e es t á es tuda n do é r e al , [ mas] sabe que nun ca co n seg uir á r ec up e rar todo o real l e le sabe que o pr o ce s so d a p e squi s a e r ec onstituição h i s -

t ó ric a n ã o term i na nunc a, m as t a mb é m es t á c ôn s cio de que

is s o n ã o torna seu trabalho irr e al ou il e gítim o " ) , é óbvio qu e

tais advertências não afet a m seriament e aquel a ant i ga "busca p e la verd a de ". No que (t a mbém de certo m o do ) poderí a mos ch a ma r de

es g u e rda marx j sta 1

ve rdad e " . 1 0 E , e m-

série de

[

E. P. Thomps o n es cre v e em A miséria da

teo r i a : " Já faz a l gum tempo [

. prá t ic a m a dura l

h ist Ó r i a [ '

l , a c o ncep ç ão materialista da

.J vem ganhando a uto c onfian ça . Na qual i dade de

l , ela é ta l v ez a di s ciplina mai s forte a ter

35

s u r gido d a tr a di ç ão m arx i s t a. Me s mo nessa s úl t im as pou cas

d éc adas [

qu e s e ja m ava n ços d o con b ec i rnen t o", " Em bora Thom pso n

reco nh eça qu e i ss o n ã o q u e r di ze r qu e t a l c o nh eci m e nt o se j a p ass ív e l d e " pr o va c i e nt í fi ca " , e l e m e smo assi m o t e m p o r

.l os ava n ços t ê m s ido co nsider áve i s, e sup õe-se

L e ff, H exter

fem ini s t as, a esc ola

e st i l i s t as, os econo m e t ris t as , os estrut u ra li stas, os p ós - es trutu-

ral i s t as o u mes m o o pr óprio Marwick? Já c it a m os 2 5 p ossi bi-

é qu e,

lida d es, e tr a t a - se de um a li s ta cur t inh a ! A qu estã o

d os A nnal es, os n e om a r x i s t as, o s n eo -

O u v o cê p refer e os em p iricis t as m o d e rn os, as

co

nh ec im e n to r ea l . E , n a quil o q u e

(a ind a d e c ert o m o d o) p ode r ía m os co n s i -

mesmo se co n seg uirm os f aze r uma esco l ha , q u a i s se r ia m os c ritér i os? Como po d e r ía m os saber qual mé t o d o n os co ndu z i-

de

r a r o ce n tro e mpir ic i s t a , A . Ma r w i c k r eco nh ece

em Tbe

r ia ao p assa d o ma i s " ver d a d eiro"? Claro q ue ca d a um d esses

na t ure of h istory o q u e e l e den o m i n a a "d i mensão s ubj e t iva " dos r e l a t os h i stor i ogr á fícos . " Mas , para Ma r wick , essa dim e n-

métodos se ri a ri go r oso, ou se j a, sistemátic o e coere nt e, m as e le ta m bém reme t e ri a sem pr e a seu próprio qua d ro de r e f e -

são es t á n ão n a po s tur a i deo lógi ca d o hi s t o ri a d or ( p o r e xe m- p l o), e s im n a n a tur eza das pro vas a pre s ent a d as, po i s o s hi s - t o ri a dor es se v êe m " f o r ça dos p e l a imp e rfei ção d e s uas f o nt es

rênc i as. I sto é, e l e p o d e ri a n os di zer como a pr ese nt a r a r g u- me nt o s vá lid os se gund o s u as dir etivas , mas, da d as to d as a qu e - l as o p ções pa r a t a nto , o pr o blem a de d i s crim ina r d e a lgum a

a

ex ibir e m um grau ma i o r de i nt er pr e t a ç ã o pessoa l". A ss im

ma n e ira e ntr e 2 5 es co lh as simpl es m e nt e t e im a e m não se r

ndo , M a r w i c k · argu me nt a qu e é traba lh o d os h is t o ri a d o r es d ese n v ol ve r "sev er as regras m etodológicas " , pe l as quai s e l es possa m r e duzir s u as int erve n ções " morais " . Ma r wic k estabe - l ece a í um a co n exão com E l ton: este " insis t e e m q u e, só p o r-

se

reso lvido . T h o mpson é ri go roso, mas E lt o n t a m bé m. C o m base e m qu e va mos esco lh e r? Em Ma r w i c k? Mas po r qu e e l e? Acaso n ão se r á p ro váve l q ue , n o fim d e co n tas , esco lh a m os Thom p so n (po r exe m p l o) p o rqu e gosta m os do q u e Tho mp so n

qu

e a ex pli cação hi s t ó ri ca n ão é determi n ada por l e i s uni ve r-

f az co m se u mé t o do ? Gosta mo s d e s u as ra z ões para t ra b a lh ar

sa

i s, is s o n ão quer diz e r que e l a n ão seja r egi d a por r eg r as

c o m a hi s t ó ri a - poi s, se o utros f a t ores n ão

int erv i er em , p e l o

Re sumind o: é eng a n oso falar d o m é t o do co m o o caminh o

muito e strit as " . Par a t o do s es ses hi s toriadore s , p o rt a nto, o co nhe c im e nt o

que m a is f a r e m os n ossa esc olha?

<.: a legitimi da de ~ dv ê m de regras e procedim e ntos metod o -

pa

r a a v e rd a d e. Há um a ampla g a m a d e m é t o d os, sem q ~ l e

l óg i c os r í gid os , É is s o que limita a liberdad e interpretat iva d os hi s tori a d o r es .

ex

i s ta nenhum critéri o c on s ensu a l p a r a escolh e rmos dentr e

 

-

.

Meu a r g um e nto é dif e r e nte . P a ra mim , o qu e e m últim a a n á li s e det e rmin a a int e rpret ação es t á p a r a a l é m d o m é t o d o

e l es. Com fr e qüênci a, p essoas co m o M a r w i c k a rgument a m q u e, não o b s t a nte toda s as d i f e r e n ças metod o l óg i c as entre em pir i ci s t as e es trutur a li s t as ( por exe mpl o) , e l es es t ão de ac o r-

~

d a s pro vas - est á n a id e ologi a . P o rqu e, e mb o r a a m a i o ri a

do no fund a m e nt a l . D e no v o , p oré m , as coi sas n ã o são as -

do s hi s tori a dor e s con co rd e qu e um m éto d o ri go ro s o é im - :

portante, ex i s te o pr o bl e m a d e sa b e r a q u a l m é t odo rigor oso e l es se ref e r e m. Em Tb e nature of h is t ory, M a r w i c k passa e m

r e v i sta um a s eleção

p o demo s esc olher n osso f av orit o . Q u e m você gos t a ri a d e seg uir? H á H ege l , M a r x, D ilthe y, Web e r , Po pp e r , Hem p e l , A r o n , C olling w o o d , Dra y , O a k es h o tt , D a nt o , Ga lli e, Wa l s h , A tkin so n ,

d e m é todo s , e nt re os q u a i s (s upõe- se?

36

s im. O f a to d e o s estruturalista s c h ega r e m a e x tr e mos par a

ex plicar com muita minú c ia que n ão são empiri c istas - mai s

o fato de t e r e m formulado suas ab or d a gens esp ec ífi c as justa-

me nte par a diferenciar - se de tod o mundo - parece ter sido u m tanto d es consider a do por M arw i c k et al . Agora , qu e r o trat a r r a pid a ment e d e a pen as m a i s um ar g u -

m e nto r e f e r e nt e a o m é t o d o, um arg umento qu e a p a rece to m

37

/'

freqüê n c i a em tex t os in t rodu t órios sob r e a " n at u reza da h is - t ória " . E l e se re f ere a co n ce it os e é o seg u inte: tud o be m , ta l vez as diferen ç as metodo l óg i cas não possam ser e l imi n a- das, mas ainda assim não existe m co n ceitos fundamentais q u e todos os historiadores usa m ? E di sso não se concl ui q u e e l es tenham a l gum terreno metodo l ógico em com u m? Ora , por certo é verdade que, em todos os tipos de história, de a r amos co n t inu a m ente com os su p ostos " coI l cei t os hist ó ri - cos " ( or n ão serem denomi n a d os " co n ceitos de h istori a do - res ", e l es parecem impessoais e ob j etivos, como se pertences - sem a uma história q u e, de a l g u m modo, s u rgiu por geração espon t â nea.) E n ão é só isso: co m bas t a n te reg ul a ri dade, tais conceitos são cha m a dos os " a li cerces " da história. Trata - se de coisas como , p or exemp l o, tempo , prova/corrobora ç ão, empa t ia , causa e e f eito, co n t inu idade e mudan ç a etc, Não vo u a r g u m e n t ar q ue n ão se devam " traba l har " concei- tos , mas m e p reocu p o com o fato de que , quando se apr e - s ~ nt am 5 : sses co n ce it os específicos, têm - se a forte impressão de q u e e l es são mesmo óbvios e e ternos e constituem os co --- mp o n e nt es b á s ic os e u ni versais do conhecime nt o h i st ó r i - co. No en t a n to, isso é i rô ni co, pois uma das coisas que a

aber tur a das p e r spec ti vas h is to riog r áf i cas para h o r izo nt es mais amp l os devia t er fei t o era j us t amen t e hi stor i cizar a próp ri a

hi s t ó ri a - ve r q u e t odos os r e l a t o s h i stó r icos

n - · são pri s i o ' = -

-:;::J nei r os d o ~ m po e _ do espaço e, assi m , ve r q u e os co n cei t os Y h is t o ri og r áf i cos n ão são a li ce r ces uni ve r sa i s , mas ex pr essões l oca li za d as e partic ul ares. É f ác il demonstrar a hi s t oricização n o caso d os c o n ce it os "e m c o m um " . N um ar ti g o so b re n ovos desdobramentos n o ca mp o d a

r e fi n ados (até p or e l e m esmo) para fornecerem os " co n ce it os fundame n tais " da h i stó r ia : t empo ; prova; causa e efe i to ; co n - tinuida d e e mu d a n ça; e seme l hança e difere n ça. S t e e l ex pli ca q u e , na Ing l aterra, foram e s ses c onceitos que se tornaram a b ase do currícu l o histór i co nas e s colas e que inf l uenc i aram , e

c ontin u am inf l uencia n do , tan t o o s cursos de g r aduaç ã o q u a n to

o s istema educaciona l de modo m a is gera l . Aparenteme n te,

portan t o, aque l es " v e lh os" alic e rc e s est ã o há ce r ca de t rês d écadas ape n as , n ã o são u ni versai s e se originaram não dos métodos his t oriográf i cos em si, m as do pensamento pedagó - g ico ge r a l . Obviamente , esses a l ic e r ce s concei t uais t a mbém

s ão i deo l ógicos , p ois o q u e poderi a acontecer se o u tros fos - s em u sados para organ i zar o campo dominante - por exem - p l o, co n ce it os como es t rut u ra / agente , s obredet e rminaç ã o, con - junt u ra , desenvo l vimento des i g u a l , c entro / periferia , dominan - t e / margi n a l , base / superestr utu ra, rupt u ra , g e nea l og i a, me n- talidade , h egemo n ia, e li te, p a r ad i gm a e tc . ? É hora de abor - darmos a i deo l ogia diretamen t e . Deixe - me come ç ar com u m exemplo. N es t e ponto do tem - po e do es p aço, p ode rí a m os m u i to bem implantar em qua l- quer c u rr í c ul o ' do e n s i no m éd i o o u u niv e rsitário i n g l ês um c urso d e hi s t ó ri a qu e seria bas t a nt e "hist ó rico" (no sen ti do de que se p arecer i a co m o u t r as h is t órias) , mas no qua l a esco lh a temát i ca e m e t o d o ló g i ca ser i a feita de u ma pe r spec ti va n e- gra, marx i s ta e fe min is t a. E nt retanto, eu duvi d o qu e h a j a tal c urso e m a l g um lu ga r da In g l ate r ra . Por quê? Não p o rq ue não se j a hi s t ó ri a - e l e é - , m a s porque n a rea li dad e as fe m i- n i stas mar x i s t as n eg r as n ão t ê m poder de proporcio n a r a e sse

de in s er ção públi ca q u e existe e m n ossas i n s ti-

cu r so o tipo

hi

s t ó ri a, o p e d agogo b r i t â ni co Donald Ste e l po n dero u d e qu e

t ui ç õ es d e e n s ino . C o ntud o, s e fôssemos perg unt a r às pe ss o -

m

a n e i ra cer t os co n ce it os se t or n aram " a li cerces " , mostra nd o

a s co m po d er d e de c idir o q u e cons ti tui um "c ur ríc ul o a de -

q u e , n a d éca d a de 1960 , cinco g r a n des conceitos fora m i de n- ti f i ca d os como e l eme nto s co n s tit u ti vos d a história : o tem p o,

q u a d o" - às pe ss o as co m pod e r d e efe tu a r t ai s inclus ões e / o u exc lu sõe s - , e l as pro vave lm e n te arg um e nt a r ia m qu e a justifi-

e s p aço , a cro n o l og i a , o j u ízo mora l e o rea li smo soc i a l . 1 3 Steel ass in a l a q u e, e m 1970, esses e l ementos já haviam s i do

o

cativa p a r a t a l exc lu sã o e s t á em q u e aq u e l e c ur s o s e r ia id eo - lóg i co . O u se j a, q u e as m o ti vações de t a l hi s t ó ri a v ir ia m d e

39

preocupações alheias à história propriamente dita - que aqu e la história seria um veículo para expressar determinada posição com objetivos propagandísticos. Ora, essa distinção entre a " história ideológica" e a "história propriamente dita" é inte - ressante porque implica, e é esta sua intenção, que certas histórias em geral as dominantes) não são de modo al g üm ideológicas , nem expressam visões do passado que seiarn alheias ao tema . Mas já vimos que os signifi c ado s d ; dos às histórias de todo tipo são necessaria m : e irt e isso mesmo - sig- nifica os que vem e fora. Não significado ; - T n' trínsecos 'do passado (não mais do que a paisagem já tinha em si os nos - sos significados antes de os termos colocado lá) , . mas signifi - cados dados ao passado Ror a~ntes ext e rnos. A história nunca -

se oasta; e l â ' sempre s ; destina a algu é m .

- Por conseguinte, parece plausí ve l que a s formações so - ciais específicas querem que seus historiadores expressem coisas específicas . Também parece plausível que as posições predominantemente express a s ser ã o do interesse dos blocos dominantes dentro daquelas forma ç õ e s sociais (não que tais posições surjam automaticamente e depois sejam assegura- das para sempre, ponto - final, sem sofrerem nenhuma contes- tação) . O fato de que a história propriamente dita seja um I constructo ideológico significa que ela está sendo constante- mente retraba l hada e reordenada por todos aqueles que, _ em diferentes graus , são afetados pelas relações de poder - pois os dominados, tanto quanto os dominantes, têm suas própri - as versões do passado para legitimar suas respectivas práti- ~ s, versões que precisam ser tachadas de impróprias e assim exc l uídas de qualquer posição no projeto do discurso domi- nante. Nesse sentido, reordenar as mensagens a serem trans - mitidas (com freqüência, o mundo acadêmico chama de " con - trovérsias" muitas dessas reordena ç ões) é algo que precisa " ser continuamente e l aborado, pois as necessidades dos do- '\ minantes e/ou subordinados estão sempre sendo retrabalhadas no mundo real à medida que eles procuram mobilizar pes-

I

1

-

40

soas para apoiarem seus interesses. A história se forja em tal conflito, e está claro que essas necessidades conflitantes incidem sobre os debates (ou seja, a luta pela posse) do que é a história. Assim, nesta altura, já fica claro que responder à pergunta "O que é a história?" de modo que ela seja realista está em

substituí - Ia por esta outra.: " :~ra qu:m é a história? " Ao faz:~- \J/ mos isso, vemos que a história esta fadada a ser problema~l - , if\ ca , ois se trata de um termo e um discurso em litígio, com diferentes significados para diferentes grupos. Uns querem uma história asséptica, da qual o conflito e a angústia estejam ausentes; outros , que a história leve à passividade; uns que- rem que ela expresse um vigoroso individualismo; outros, que proporcione estratégias e táticas para a revolução; outros

ainda , que forneça base para a contra - revolução

vai . É fáci l ver que, para um revolucionário , a história só pode ser diferente daquela almejada por um conservador . Também é fácil ver que a lista de usos da história é infinita, tanto pe l a lógica quanto pela prática. Afin a l, que aspecto te- ria uma história com que todos pudessem concordar de uma vez por todas? Permita que eu ilustre esses comentários com

um rápido exemplo. No romance 1984, Orwell escreveu que quem contro l a o presente contro l a o passado e quem controla o passado con- trola o futuro. Isso parece ser também provável fora da fic - ção. Assim, as pessoas no presente necessitam de anteceden - tes para localizarem-se no agora e legitimarem seu modo de vida atua l e f u turo. (A bem dizer, dada a distinção fato/valor, os "fatos" do passado, ou tudo mais, não legitimam absoluta - mente nada . Mas o ponto é que as pessoas agem como se legi t imassem . ) Portanto, elas sentem a necessidade de enrai- zarem o hoje e o amanhã em seu ontem. Recentemente, esse ontem tem sido procurado (e achado, já que o passado se predispõe sustentar incontáveis narrativas) por mulheres , negros , grupos regionais, minorias diversas et al. Esses passa-

E por aí

41

d os sã o u sad os p a r a ex plic a r existên c i as pr ese ntes e proj e to s

futuros. R e m o nt a nd o um pouco m a i s n o t e mpo, v eremo s qu e

a c l asse t ra b a lh a d o r a t a mb é m procur o u e nr a i za r- se medi a nt e

uma tr a j e t ó ri a e l abora d a e m termo s hi s t óricos. R e m o nt a nd o

a ind a m a i s , a bur g u esi a d escobriu s u a ge n ea l og i a e c o meço u

a e l a b o r a r um a hi s t ó ri a p a r a s i (e p a r a o utr os) . Nesse se ntid o,

t o d as as c l asses e / o u g rupo s escre ve m suas res p ec tiva s a ut o - bio g r a fi as c ol e ti vas. A h is tória é a m a n e ir a p e l a qual a s p es -

soas c ria m , e m p a rt e, s u as identid a d es .

um módul o n o c u r rí c ul o escolar ou acadêmi co, e mbora p os -

sa mos v e r qu e o que ocorre ness es espaços educacion a i s

t e m import â n c i a

m e nte inter e ssa das. Mas será qu e n ão e stamos cient es di sso o t e mpo todo? N ã o

fi ca óbvio qu e um f e n ô meno "legitim ador" t ão imp ortante como '

é a história t e m r a í zes em necessid ades e pode r es r eais? Ach o

qu e sim , m as c om um a r e s s al v a : qu an d o o d i sc ur so domin a nt e

se r e fere ao c o n s t a nt e pr ocess o de reescri t a d a hi s t ó ria , ele o

A í , o

di s curso d o min a nt e pr o duz a a n ó din a r e fl exão d e que t o da

ge ração ree scr eve s u a pr ó pria histó ri a. A p e r g unt a , entretanto ,

é co mo e por qu ê . E um a re s po s t a p ossíve l , à qual Or w ell

a lude , é que

gico s do tip o " a hi s t ó ri a c omo conhecim e nt o " ( por exemplo )

qu e, em t e rm os d e pr o j e to s conflit a nt es d e legimitima çã o , sã o

n e cessário s p ara t o d as a s parte s en vo l v id as .

a exposi çã o s obr e o que a história é

na teoria . Argumentei que a história

mologia, metodologi a e ideologia. A e pi s t e m o l og i a mostra que nunca poderem os r ea lm e nte conh ece r o passa d o - que a dis- crepância entre o passado e a h i st ór i a . ( hi s toriografia) é ontológica , ou seja, está de tal maneir a pr ese nt e n a natureza das coisas qu e n e nhum esforço epistem o l óg i co, n ão importan- do quão grand e, c o n seguirá elimin á -I a. Os hi storiadores e l a - boram mod os d e tr a b a lhar para redu z ir a in f lu ê n c i a d o histori-

E l a é m uito m a i s q u e

c ru c ial para tod as aq u e l as partes divers a -

f a z de m a neir as qu e s ublimam a q ue l as n ecess i da des.

as r e l ações de poder pr o duz e m di s cur s os ideoló -

~ Agora , va m os c o n c luir

se co mp õ e de epis te-

, J

42

o r interpret a tivo , d es en v ol ve ndo m é tod os rig or o so s que eles tentam univer s aliz a r da s m a is v ariadas m a n e ir as, mas sempre

pre t e nd e nd o

a lice r c e d e h a bilidad es, co nceito s, r o tin as e pr oce dimento s

po deria permitir c h e g a r à objeti v id a d e . No e nt a nt o, e x istem

m uitas m e todo l og i as;

de con s tru çã o r ece nte e p a rcial , e eu a r g um e nt e i qu e a s dif e -

re n ç a s que ve m os

d

ses e grupo s e l a b o r a m autobiogr a fi ca m e nt e

ç

p - r e ssõ e s , p ã o e x ist e hi s tória def i niti va.

po r á rio) só é a l c an ça do

g uem silenciar outr as, s e ja pelo exerc í c i o ex plí c ito de poder,

Ao fim, a

h istória é teoria , e a t eo ria é ideologi a,

si mplesmente int e r esse

p a r a

p r õ d U zir hi s t ó ri as n a qu e l as institui ções qu e, em n oss a s o c ieda- de, sã o de s tin a d as pnn cí palmente a tal Q r o p ós it o _ - em e s p e ~ i-

asp ectos da hi s t ó ri a, a í in c luídas a s pr á ti cas co tidi a nas

to _ dos os

e a id eo l o gia é pura e

. se ja pelo ato velado d e inclusão e / ou a ne xaçã o .

a

d

qu e , se t o d os s e g uí ss em os esses m é todos , um

o s s upo s to s " a li cerces co n ce itu a i s"

são

um

es t ão lá porque a hi stó ri a é b a s i ca mente

i sc ur so em litígi o, um ( ~ a mpo d ~ b a t a lh a o nd e p esso a s, c las ~

ões d ó p a ss ado

p a r a a gradarem

s u as interpreta-

a s i m es m os. Fora dessa s

T o d o c o n se nso (tem-

quando as voze s

d o minantes conse-

material . ~ id eo l og i a p e n e tra

a I as univ ~ r s idad es . Ago ra , v amos olh a r a hi s t ó ri a c o mo part e dess e tipo d e pr á ti ca .

DA PRÁTICA

A c ima , eu a c a b e i de c o n c luir qu e a hi s t ó ri a foi , é - e será

produzida em muitos lugares e por muit as razõ es diferentes ,

e que um desses tipos de história é a pr o fi ss ional,

produzida por historiadores que ( em ge r a l ) são assalariados

e (no mais das vezes) trabalham no e n s ino superior, especial-

mente nas universidades. Em Tbe death of th e past." o histori a d o r J. H. Plumb des-

ou seja, a

c reveu tal hist ó ria pr o fis s ional de tentar estab e le c er a v erdade

( "à Elt o n ") c omo o processo

do qu e aco nteceu

no passa-

43

do e que poderia ser contra p osto aos " p assados" da m e m ória p op ul ar, do " senso com um " e d os es t e r eótipos, p a r a nos de - se mb a r açarmos d esses co n s tru c t os m a l acaba d os, mal d ige r i - d os e (para P l umb) mal co n cebidos. Em On living in an old country = Patrick Wrig h t arg um e n to u que a meta de P l umb é n ão a p enas impossíve l , po i s (como j á vimos) inexis t em ver - d ades históricas não-prob l e m áticas, mas também provavel - me nt e indese j áve l , po i s p o de m ui to bem ser que n a h istór i a popul ar (por exemp l o) h a j a v i r tud es e leituras a lt er n a t ivas q u e, d e qua n do em q u a ndo , t a l vez seja necessár i o o p or às h i s t ó r ias "ofic i a i s" . Aq u i, e le s u gere que tenhamos em me nt e o p r o cesso d e me m ó ri a do s pr o l es de 1984. W r i gh t i g u a l me n te ass in a l a qu e o único tipo de institu ição n a qual o d esarra i game nto propo s t o por P l umb po deria efe tu - a r - se é o e du cac i o n a l (e es te, p o r s u a vez, j á está in timam e nt e e nvolvido n os pr ocess o s de so c i a li zação do gênero "memór i a popular "). P orq u e , e mb ora a esmagadora maioria dos h is t oria - d o re s d e carrei r a se d ec l a r e i mp arcia l , e embora de certa ma - n ei r a e l es rea l me nt e co n s i ga m um " dístanciamento", é ai n da ass im esc l a r ecedor ver q u e e sses profissionais nem de l o n ge es t ão f o r a d o co n f lit o i d e ol ó gi co e q u e e l es a t é oc up am p os i - ções bem d omi n antes dentro d e ta l co n f l i t o - em outr as ' p a l a - v r as, é esc l a r ece d o r ve r que as h i s t órias " p ro fi ss ion ais" são ex pre ssões d e co m o as id eo logia s domin a nt es f o rmulam a hi s - t ó ri a em t e rm os " aca d ê mic os" . P a r ece bas t a nt e ó b v io que , v i s - tos s ob um a p e r spec ti va c ultur a l e "h i stórica " m a i s a mpl a, in- ves t i m e nto s in s t i tu cio n a i s multimil io n ár i os co m o a qu e le s f e i- to s em no ssas uni ve r si d a d es ( por exe m p l o) são esse n c i a i s p a r a reproduzir a pre se nt e formação socia l e, p or t a nto , est ã o n a vanguarda da s for ças da tutela cultur a l ( p a d rões aca dêm ic os) e do contro l e id eo l óg i c o. Seria certo d e sc uid o do ca mp o domi- nante se as cois as n ã o f o ssem assim .

entr e o s

interstícios d e i nt e r esses e pres sões rea i s, t a m bé m pr ec i so

lev a r em co nt a as p r essões " ac a d ê m icas", não só p or q ue é,

Dado qu e a t é ag or a tentei situ a r a hi s t ó r ia

4 4

sob r etudo , o se u ti po de H i stória que define o campo do que

esse o t ipo de

" a H i s t ór i a rea l me nt e é ", m as ai n da porq u e é

h i s t ória es tu dado no ensino médio e nos c u rsos de gradua - ção. Nestes cursos, com efeito, você é , na prát i ca , i n ic i a d o na histór i a acadêmica; você deve ficar como os pro fi ss i o n a i s. Mas como são os prof i ss i o n ais e como é que e l es p ro du zem hist ó rias? " Vamos começar assi m : a história é prod u zida po r u m gru - po de operários cha m ados hi storiadores quando e l es vão t ra - ba lh a r . É o serviço de l es . E , q u ando vão t raba l har, e l es l evam cons i go ce rt as coisas i de n t i f i cáveis . E m p r im e i ro lu gar, l eva m a s i mesmos: seus va l o r es, p osi - ções , p e r spec ti vas i d eo l óg i ca s . E m seg un do lu ga r, lev a m se u s pressupostos e pi s t e m o - lóg i cos. Es t es n em se mpre s ão co n scie nt es, mas o s hist o ri a - do r es t e r ão "e m m e n te" mane iras de adqu i r i r "co nh ec im e n- to". Aq ui , entra em ação um a gama de categor i as ( e co n ô m i - cas, socia i s, po líti cas, c ultur ais, ideo l ógicas etc.), uma ga m a de co n ce it os q u e in t egra m essas categorias (dentro da ca t e- gor i a po l ítica, por exe mpl o, p ode haver muito uso de classe, po d e r , Es t a d o, sobera ni a, l eg iti mi d ade etc . ) e am pl as press u - pos i ções sobre a co n stâ n c i a, ou n ão, dos seres hum a n os (a l go q u e, co m m u i ta f r eqüê n c i a, é irô n ica e a-historica m e nt e de- no min a d o " n a tu reza hum a n a") . Mediante o uso d essas ca t e- go ria s, con ce it os e press up osições , o histor i a d o r vai gerar h i póte ses, for mul ar a b strações e organizar e reo r ga n izar se u ma teri a l d e f o rm a a in c luir e excl u i r . O s hi s t o ri a d ores t am b é m e m pregam vocab ul á rio s p ró p ri - os de s eu o fí c i o, e es t es (co m o se não bastasse ser em in ev it a - ve lm e nte a n ac r ô ni cos) a fetam n ão apenas o que os hist o ri a - d ores v êe m , m as a m a n eI r a e l a ua l e l es vêe m . Tcl i s ca t ego - rias conc e it os e v oca bulários s ã o co ntinu a m e nte retraba l had os , mas sem el es os hi s toriadores n ão co n seg uiri a m n e m ent e nd e r o s relato s un s d os o utros , nem e l abo r ar os se u s p ró prio s , n ão imp o rt a nd o qu a nt o p ossa m di sco r dar a respe i to da s c oisas .

45

Em t e rc e ir o lu ga r , os hi s toriadores têm r o tina s e pro c edi-

mento s ( m é t o d os, n a es trita acep çã o d a p a la v ra ) para lid a r c om o m a t e rial : m o do s de verificar-lhe a o rigem , a posi çã o , a

E ssas r o tin as s e a pli ca r ão a

a ut e nticid a d e, a fid e di g nidade

todo m a t e ri a l tr a b a lhad o , mesmo que co m g r a u s v ariados d e c oncentr açã o e ri g or ( o c o r rem muito s l a p sos e de s - acerto s) .

H á aí um a ga m a d e t é cni ca s que vão d o ex t rava g a ntem e nt e

c omple x o ao pr osa i ca mente direto ; tr a t a m- se d o tipo d e pr á -

ti c a s qu e muit as ve z e s s ã o denomin a d as as " h a bilid a d es d o

hi s toriador ", t éc ni cas que , de pa s s age m , p o d e mo s v er c om o

momentos t a mb é m " p ass ageiros naqu e l a co mbina ç ão de fat o - res q u e produz e m hi s tórias . (Em outr as p a l av r as, a história n ão

é questão de " h a bilid a des ". ) Assim , munid os desses tipos d e

prát i ca, os historiadore s conseguem p ôr - se m a is diretament e a "inventar" um pouc o d e história - "pr o du z ir hist ó rias". Em quart o lugar , a o tocarem seu serv i ço d e e ncontrar m a - teria i s diversos p a r a trabalhar e " d ese n vo l ve r " , o s historiad o - res vão e vêm entr e as obr as public adas de o utr os histori a d o - re s ( o tempo d e tr a b a lh o acumul ado em l iv r os , a rtigos et c.) e o s mat e riais n ão -public a dos . E s t es , " q u ase n ovo s ", pod e m s er denominado s os v estígios d o p assa d o (as marcas que so - braram do pa ssa d o : documentos , r eg i s tro s, a rtef a tos etc . ) . Sã o um a mi s tur a d e ves tígio s conhe c id os ma s pouco u sa - do s; v estígio s n ov o s , n ã o-utilizado s e po ss i v e l mente de s co - nhecidos ; e ves tí g io s ve lhos , ou sej a, m a t e riai s que já foram us a dos , ma s que , e m v i s ta dos ve s tí g io s novo s e / ou qua se novos descob er t os , sã o agora pas s í ve i s d e in se r ção em con- textos difer e nt es d a qu e l e s que o c upa va m a nt es . O historia- dor pode, ent ã o , co m eç ar a org a niz a r t o d os es se s elementos de maneiras nov a s (e v árias ), sempre pro c ur a nd o a tão alme - jada " tese origin a l ". Ele c omeça assim a tr a n s f o r m ar os vestí- gios do que outrora foi co n creto em "pen sa m e nto concreto " , ou se j a, em re l a tos dos histor i adores. Ni sso, o hi s to r iador lite - ralmente re-produz o s vestígios do pa ssa d o num a nov a cate -

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goria. E esse a t o de tr a ns-forma ção - d o pass ado em históri a - é o tr a b a lho b ás ico d o histori a d or .

E rn q uint o

lu gar , os hi s toriad o r es , t e nd o feito s ua p es qui-

sa, pr ec i sam e nt ão co l ocá - I a po r escri t o . É aí que os fat o r es e pi s t e m o l óg i cos , m e todol ó gi cos e id eo l óg i c o s v oltam a e n- trar em ação, i nt e r-r e la c ionand o - se co m as pr á ti c as c otidi a - na s, ta l qu a l aco nt ece u dur a nt e t odas as f ases d a p es qui sa. E ssas pr essões d o co tidiano va ri a m , é c l a r o, m as a lgum as são d a da s a seg uir:

1 . A pr essão d a f a míli a e / ou d os amigos : " A h , vo c ê n ão va i

d e n ov o no fim d e sema n a, va i ? " " Será qu e d á

pr a v ocê tir a r um a folguinh a di sso?" 2 . As p ressões d o local de tr aba lh o, n o qu a l se fazem s e n - tir n ão s ó as d i ve rsas influên c i as d e dir e tores de faculd a - de, c h e f es d e d e partament o, . { : o l e ga s e políticas institu-

tr a b a lh ar

cionai s d e p es quisa , mas tam bé m ( t e nhamos a cora g em de di zê - l o) a obrigação de l ec i o n ar .

3 . A s pr essões d as e ditoras n o q u e se r efe r e a v ários f a tor es:

Ex t ensão . A s r es tri ç õe s d e t a m anho são co n s ider áve i s e t ê m se u s e f e it os . Pense qu a nt o o co nhecimento hi s - t ó ri co p o d e ri a s er diferent e se t o d os os li v ro s f osse m um t erço m a i s curto s ou qu a tr o vezes mai s longo s d o qu e o " n o rm a l " ! For m a t o . A dim e ns ã o da p ág in a, a i mp ressã o e o proje to gr á fi co, a pre s en ç a ou n ão de ilu s tr açõ es , exercício s , biblio g r a fi a, índice et c . , o fa t o de o t ex to est a r ou n ão e m f o lh as so lt as e ser ou n ão co mpl e m e nt a do por v íd e o ou so m g r a vado - tud o i sso ta mb é m t e m e feitos .

M er cad o . O que o histori a d or co n s id e rar seu mer ca d o vai influ e n c iar o que e l e diz e a m a neira pe l a qu a l e l e diz. P e nse no quanto a Revo lu çã o Francesa t e ri a de ser "diferente" para crian ças do primário ou do se c und á rio, n ã o - europeus , "es p ec ialistas em revolu - , ç ão " ou l e i g os curiosos , para c it a rmos só alguns pú - bli c o s dif e r e ntes entre s i .

47

P r azos . O t e mp o to t a l de q u e o a u to r d i spõe p a r a fazer a p esqu i sa e esc r evê - I a, ma i s a a l ocação desse tempo ( u ma vez p or semana, um se m estre de li cença, os f i ns de se m ana), afe t a, por exemp lo , a dispo n ibilidade das fontes , a co n ce n tra ç ão do his t oriador etc . Freqüe nt e -

m e n te , o t i p o d e co nd ição que a editora im p õe com

referê n cia à co n c lu são do tr ab alh o é ta m bé m crucia l .

Esti l o l i t erário . O esti l o (po l êm i co , di scurs i vo, exube- rante, peda nt e, mais as co m bi n ações de t u do isso) e

o uso gra m ati c al, si n tát i co e semâ nt ico do h isto r ia -

( d o r infl ue n c i am o r e l a t o e p o de m

se r mo di f i ca d os

para a j ustar - se às n or mas da editora , ao for m ato de um a série etc .

Le i turas c rí t i c as. As e dit ora s enviam o s o r i gi nai s para u ma l e itu ra crít i ca, e q u em a faz p ode t alvez ped i r m u da n ças d rásticas n a o r ganizaç ã o do material (este t exto, p or exem pl o, era de início duas vezes m ais l ongo) . Ta m bé m há casos em que os c h ama d os " l e i- tores c r iticos " têm interesses pes s oais em jogo. Rees c rita . Trata - se d e a l go q u e acontece em t odos os está - g io s, a t é o li vro ir p ar a a i mp ressão . Às vezes, al g um as par tes r eq u e r e m tr ês re d ações ; o u t ras vezes, são treze. Id éias bril ha n tes q ue n o c o meço parec i a m dizer t u do fi ca m enf a d o nh as e ap aga d as qu a nd o j á s e t e nt o u e scr ev ê - I as um a dúzia d e ve zes. Al é m di s so , co i sas qu e se ri a m i n cl u í d as acaba m não o sen d o , e , c om f r eq ü ê n- c ia , as q ue o são p a re cem t er s i do d eixa d as à própria sort e. Qu e tip o d e cri t é r io se fa z p rese nt e então; q u a n- do o esc rit o r "tra b alha" mat e riais lid os e a n o t ad o s ( mu i - t as ve ze s imp erf ei tam e n t e) tan t o tem p o a n tes?

E p o r

a í va i . Po i s be m : esses são aspectos ób v ios ( p e n se

qu a nto s f a t o r e s ex tern o s , o u s e j a, fatores a l heio s ao " p as s a - do ", age m sob r e você e influ e n c i a m o qu e você escreve n os traba lh os d e f ac uld a d e, p or exe mpl o), mas aqui o q u e se

d eve e n fa ti zar é que nenhum a

d e t a i s p ressões, a l iás, n e -

,

48

n h u m dos p r ocessos co m entados neste cap ítul o , age sob r e o q u e es t á se n do r e l a t ado (po r e x emplo , o p l ane j ame nt o para uso de rec u rsos h um anos na Primeira Guer r a M un dia l ). Mais uma vez, as discrepâncias entre pa s sado e presente se a l a r - gam imensame n te. Em sexto l ugar , o que se escreveu até agora foi a pro du - ção de h i s t ór i as . Mas os tex t os também precisam se r li dos - c ons u midos . Assim como se pode con s umir bo l o d as m ais difere n tes maneiras (devagar , depre ss a etc . ) e n u ma série de situações ( n o t raba lh o, ao vo l ante, e m dieta, n um casame n to etc . ) e c i rc un s t â n c i as (você j á comeu o bas t ante ? a d i ges t ão é difíc il ?) , n e nhu m a das q u ais se repete de maneira i d ên ti ca , assim t ambém o cons um o de u m tex t o se dá em contex t os que i gua lm e nt e n ão vão se r epe t ir. De ma n ei r a muit o li te r a l , não ex i s t e m duas l e i t u ras idê nti cas . (Por vezes , fazemos ano - t a ç ões à m argem d e um tex t o e , vo l ta n do a e l as tempos de- po i s, n ão co n segu i mos l e mbr ar d o q u e se t ra t ava . No e nt a n- to , são exata m e nt e as m es m as p a l av r as na mes m a pág in a . A ss im , co m o é que s i g ni f i ca d os con s ervam signif i cado?) Por - tan t o , ne nhum a l e i t u ra, a ind a q u e efe tu ada pela mesma p es - soa, é pass í v e l d e pr od u z ir os me s mos efe i tos re p e t i d ame nt e .

Isso qu e r d i ze r q ue os a ut o r es n ão t ê m como i mpi n gir s u as inte n çõ es / i nt e r pre t a ç õ es ao l e i to r . Inver s amen t e , os lei t ores

não t ê m c o mo d iscer nir

pret en d i a m . Ad e mai s , o m es m o te xto p o d e in se ri r - se prim e i - ro nu m d i scu r so a m p l o e de p ois em o u tro; n ão exis t e m l im i - tes l óg i cos , e cada l ei tu ra é u m escrito di f ere n te . Esse é o m und o do t ex to d e s co n s tru c ion is t a, um mun do n o q u a l qu a l- que r t ex to , e m o utr os co nt ex t os , po d e sig ni fica r muit as co i - sas. E stá a í " um m un do d e dif ere n ça". Co nt u d o, essas últim as o b servações parece m s u sc i ta r um pro bl ema . ( M as s er á qu e n a l e it ura s urgiu m es mo a lgum prob l e m a p a r a você ? E s e rá qu e esse se u p r ob l e m a é d if e r e n - te do m e u? ) Para m im , e l e es t á ni sto: emb o ra o q u e se di sse

ac im a p a r eça impl ica r qu e tu do é um f l u xo i nt e rpr eta t iv o , a

po r co m p l e t o tu d o q u e

os a utor es

49

realidade é que "lemos " de maneira bastante previsível . Nes- se sentido , portanto, o que vem a definir as leituras? Bom, não é um consenso detalhado sobre tudo e todos ; pois os detalhes sempre flutuam livres por aí (pode-se sempre fazer que coisas específicas tenham maior ou menor significado). Mas realmente ocorrem consensos de caráter geral . Isso acon - tece por causa do poder. Aqui , voltamos à ideologia, pois pode - se muito bem argumentar que o que impede os livros de serem usados de maneira totalmente arbitrária é o fato de que certos textos est ã o mais próximos de outros; são menos ou mais classificáveis dentro de certos gêneros ou rótulos; são menos ou mais simpáticos às necessidades que as pesso- as têm e que se expressam em textos. E assim, aprês Orwell, as pessoas encontram afinidades e referências (bibliografias, leituras recomendadas, a classificação decimal Dewey) que, em última análise, são também arbitrári a s, mas que atendem a necessidades mais permanentes de grupos e classes: vive - mos num sistema so c ial, e não a esmo. Trata-se de um campo complicado mas essencial para a compreensão, e aqui pode- ríamos mencionar textos de teóricos como Scholes Eagleton Fish e Bennett . 1 7 Poderíamos também refletir sobre como essa situação um tanto desconcertante (o texto volúvel que na teoria não pre- cisa acomodar - se, mas que na prática o faz) atende a uma aflição interpretativa que se manifesta com freqüência em estudantes. A aflição é esta: se entendemos que a história é o que fazem os historiadores ; que eles a fazem com base ~

frágeis com rovaç ~ s; que a história é inevitavelmente interpretativa; que há pelõ menos m eia dúz i a d ~ ' lados em

cada discussão e q ue,

tendemos tudo isso, então ~ pod ~ ~ - ;; = ; n uit ' ( ) " 1 ;; ' m p ~

,

,

or isso, a fiist o r iá é

r

e lativa

Se en -

"Bom, se a história ~ pa re ce s efS õ interpreta çã o e 1 1Ií 1güém

é

re ativo, para que fazer história?" Trata-se de um estado de e spírito que poderíamos chama r "desventura do relativismo" .

sa e nada rea mente, < [ :i í fã o . i ara - ü ' ê e Stl !C a ~ la?

S - ~

50

Em certo sentido, essa maneira de ver as coisas é positiva. É uma liberação, pois joga velhas certezas no lixo e possibi - lita desmascarar quem se beneficia delas. E , também em cer- to sentido, tudo é relativo (ou seja , historicista). Mas, libera- ção ou não , trata-se ainda de aI p O ue faz as essoas senti - rem-se num beco sem saída. Não há necessidade disso, en - t r etanto. Desconstruirmos 7s histórias de outras pessoas é pré-requisito para construirmos a nossa própria, de maneira que dê a entender que sabemos o que estamos fazendo - ou s eja, de maneira que nos faça lembrar que a história é sem- pre a história destinada a alguém. Porque, embora a lógica diga que todos os relatos são problemáticos e relativ ~ questão é que alguns são ominantes e outros ficam à mar - gem. m termos 1 6 g k ~ tõ a õ s S[õ a' m es m a é oisa ; ãíã 5 , f i a rea l c lade, eles são diferentes; estão em hierarquias valorativa ~ <f -

- .- :

------ ; - 7 " 7----.-

- - ' .

-

- -

( ainda que, em última aná ise, infUnda as . Por quê? Por ue o conhecimento está relacionado ao oder e porque , para atenderem a interesses dentro das formações sociais, os que têm mais poder distrib ~ e le itimam tanto

quanto po em o " con ecimento" . A forma

r ê lativism o na teoria é analisar assim o poder na prática. Por conseguinte, uma perspectiva relativista não precisa levar à desesperança. Ela é o começo de um reconhecimento geral de

de escapar ao

como as coisas parecem funcionar. Trata-se de uma emancipa - ç ão: de modo reflexivo, você também pode produzir história.

DA DEFINIÇÃO DE mSTÓRIA

Acabo de argumentar que, no geral, a história é o que os historiadores fazem. Mas então por que tanto rebuliço? A his - tória não é isso mesmo? De certa maneira, é, sim . Mas não exatamente. No sentido estritamente profissional, é bastante fácil descrever o ofício dos historiadores. O pro ema, entre -

tanto, - surge quando

ess ê · ~ig

§

e ~~ - W 2 i f Fle c~ a

i ~ ~ ~ ~

~-

- -

.•

51

se) nas relações de poder em qualquer formação social de

q u e e le se ori g ine . O u sej a, o problema

r e ntes p es soa s, grupo s e cl a sses pergunt a m: " O qu e a hi s t ó ri a significa para mim ou para nós e de que modo s e pod e usar ou abusar dela?" É então, no campo dos usos e significados, que a história ficatãõp ro b lemauca. " O qu e é a hi s tóri a ? " se torn a " P a ra quem é a história? ", como j á expliquei . O e ss en c i- al está aí . Assim , o que a história é par a mim? Eis uma defini-

E.Q.;.

sur g e quan d o dife -

.• -- - - -

-- -7 A hi s t ó ria é um di sc ur s o ca mbiant e e pr ob l e m á ti co , t e nd o c om o

pret ex t o um as pect o do

um g rupo d e tr a balh a d o re s c uja c a b eç a es t á no pr e sent e ( e qu e , e m nos sa cultura, s ã o na im e nsa maiori a historiadores a ssalaria- dos) , qu e to ca m seu o fício d e maneiras r eco nhe c ív e is un s para os

o utr os ( m a neir as qu e e s t ã o po s icion a das em t e rmos epistemológi cos , m e tod o l óg i cos, ideol óg ico s e práti co s ) e c ujos pr o duto s, um a vez

co lo c ad os em c ir c ul açã o , vêe m-s e s ujeit os a um a sé rie

a buso s que s ã o teoricam e nt e infinitos, mas qu e na r e alid a d e c orrespondem a um a gama d e bases de p o der que e xist e m naqu e - l e det e rminad o momento e que estruturam e distribuem ao longo d e um es pectr o do tipo dominant es / margin a is o s s i g nifi c a dos d as hi s tóri as produ z ida s. "

d e us os e

mundo , o p as sad o , qu e é produ z ido p o r

52

Algumas perguntas e algumas respostas

Tendo dado uma d e finição de história , quero agora trabalhá - Ia de modo que ela possa dar resposta s par a o tipo de per - gunta bá s ica que freqüentemente surge com referên c ia à na- tureza da história . Já que este é um texto curto , meus comen - tários serão breves; mas, breves ou n ã o , espero que as res - postas que vou sugerir apontem tanto uma direção qu a nto um a maneira para que surj a m outras r es po s tas , m a is sofisti- cadas , nuançadas e adequadas . Adema is, a c ho que um guia como este (uma espécie de " manual b á sico de história " ) se faz necessário, até porque , embora regularmente sejam le - vantadas questões sobre a naturez a d a história , a tendência é deixá-Ias em aberto para que po ssa m o s " concluir por nós mesmos " . Ora, eu também quero isto, mas estou ciente de que, com muita freqüência , os diversos debates sobre a "na - turez a da história " são apreendidos de modo muito vago (isto é , parece haver neles uma infinidade de e s colhas, ou seja , inúmeras ordenações possíveis dos e lementos básicos) , de forma que permanece alguma dúvida e confusão . Assim, para variar, eis a l gumas perguntas e respostas.

1 . Qu a l é a situa ç ão da verdade nos discurs ç s historio - gráficos?

53

se) n as r e l ações d e p o d e r e m qu a l q u e r

qu e e e se or i i n e.

u sej a, o pr o bl e m a

rent es pessoas, gr u pos e c l asses p erg u ntam:

sig nif ica para mim o u p a r a n ós e d e q u e

o

qu e a h is t ó ri a f i ca t ão

t o rn a " P ara que m é a hi s t ó ri a ? ", co m o já exp liqu e i . O esse n c i-

a l está aí . ~ssi m , o qu e a hi s t ó ri a é p a r a m im? E i s um a d e fini-

EQ ;

" O que a hi s t ó ri a

fo rm ação soc i a l d e

s u rg e q u a n

o

i e -

modo se p o d e u sa r

u a bu sar

d e l a? " É e nt ão, n o ca mp o

r o

dos u sos e s i g nificados,

e m a ti ca . " O q u e é a h i s t ór i a ? " se

-7 A h istó ri a é um d i sc ur so ca mbi a nt e e pr ob l e m á ti co , t e nd o co m o pr e t ex t o um as p ec t o do mund o, o p assado , que é pr o du z id o p o r um g rup o de tr aba lh ado r es cuja ca b eça es t á n o p rese nt e (e qu e, em no ssa c ultur a, são n a im e nsa m a i o ri a hi s t o ri a dor es a s sal a ri a - dos) , qu e tocam se u o fí c io de m a n e ir as reco nh ecíve i s uns p a r a os outr os (ma n e ir as q u e es t ã o posi c ion a d as em t e rm os e pi s t e mo l ó g i c o s, m e t o d o l óg i c os , id eo l óg i cos e pr á ti cos) e c uj os p r o dut os , uma vez co l ocados e m c ir c ul ação , vêe m -se s uj e it os a um a série d e u sos e ab u sos que são t eo ri ca m e nt e infi n it os , mas q u e n a r ea li dade co rr espo n d e m a uma ga m a de b ases de poder que ex i s t e m n a qu e - l e d e t e r m in ado m o m e nt o e qu e es tr u tur am e d i stri bu e m ao l o n go d e um espec tr o do tip o do minan tes / m arg i na i s os s i g nifi ca d os d as hi stórias p r od u z i das. IX

52

Alg umas perguntas e algu m a s respo stas

Te nd o d a d o um a d e finiç ã o de hi s t ó ri a, qu ero ag ora trabalh á -

I a de m o d o q u e e l a possa dar r es p os t as para o tipo d e p e r-

s ur ge co m re f e r ê ncia à n a -

t ur eza d a h istóri a. Já qu e e s te é um t ex t o c u r t o, meus c o m e n -

tár ios se r ão b r eves; m as , bre ves ou não , espero qu e as r es -

p os tas qu e vo u s u ge rir a pontem t a n to um a d ireçã o qu a nt o

mai s so fi s t i -

um a m a n e ir a p a r a qu e s urj a m ou t r as r espos t as,

g un t a bás i ca qu e fre qü e ntem e nt e

a d as , nu a n ça d as e a d e quad as .

o r no es t e ( um a es p éc ie de " m a nu a l básico d e históri a") se

s ejam l e -

va ntad as qu es t ões so bre a naturez a d a hi s t ó ri a, a tendên c i a é

de ixá-I as e m a b e rt o p a ra qu e p ossa m os " c o n c luir por n ós

mes m os" . Ora, e u t a mb é m qu e r o i s t o, m as es t o u c ient e d e

o s di v er sos d e b a t es sobre a " n a -

t ure za d a hi s t ó ri a" sã o a preendido s d e modo

A d e m ais , ac h o que um g ui a

a z n e cessá ri o, a t é p o rque , embora r eg ul a rm e nte

f

)ue, co m muit a fre qüên c ia ,

muitovago ( i st o

ou sej a,

básicos) , d e

r ma qu e p e rm a nec e alguma dúvid a e confusão . Assim, par a

" pa re c e ha ver n e l es uma infinid a d e

de es colhas ,

inú mer a s ord e n ações

f o

va r i a r, e is algum as perguntas e re s p os t as.

possíveis d os e l e mentos

1. Q u a l é a s itu ação

g r á f icos ?

da verd a d e

53

nos dis cur so s hi s t o rí o -