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História do saber lexical e

constituição de um léxico brasileiro

1
USP – UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
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FFLCH – FACULDADE DE FILOSOFIA,


LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
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Humanitas FFLCH/USP – impresso em julho/2002

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José Horta Nunes e Margarida Petter
(Orgs.)

História do saber lexical e


constituição de um léxico brasileiro

2002

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO • FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

3
Copyright © 2002 dos autores

É proibida a reprodução parcial ou integral,


sem autorização prévia dos detentores do copyright

Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de Filosofia, Letras


e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

N 972 Nunes, José Horta


História do saber lexical e constituição de um léxico brasileiro /
José Horta Nunes, Margarida Petter. – São Paulo: Humanitas / FFLCH
/ USP: Pontes, 2002.

253 p.
ISBN 85-7506-066-X (Humanitas)
ISBN 85-7113-154-6 (Pontes)

1. Lingüística (História) 2. Língua Portuguesa (Brasil) 3. Lexico-


logia 4. Lexicografia I. Título II. Petter, Margarida
CDD 410

Esta publicação foi paga, parcialmente, com verba PROAP

HUMANITAS FFLCH/USP
e-mail: editflch@edu.usp.br
Telefax.: 3091-4593

Editor Responsável
Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento

Coordenação Editorial e Capa


Mª. Helena G. Rodrigues – MTb n. 28.840

Projeto Gráfico e Diagramação


Marcos Eriverton Vieira

Revisão
organizadores

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SUMÁRIO

Apresentação ................................................................................................... 7

DICIONÁRIOS
Dicionários portugueses, breve história ........................................................ 15
Telmo Verdelho
A formação e a consolidação da norma lexical e
lexicográfica no português do Brasil ............................................................ 65
Maria Tereza Camargo Biderman
Um espaço de enunciação para dizer
os brasileirismos ............................................................................................ 83
Sheila Elias de Oliveira
Dicionarização no Brasil: condições e processos ......................................... 99
José Horta Nunes

CONSTITUIÇÃO DE UM LÉXICO BRASILEIRO


Termos de origem africana no léxico do português do Brasil .................... 123
Margarida Petter
Palavras de origem africana no português do Brasil:
do empréstimo à integração ........................................................................ 147
Emilio Bonvini
Novas leituras sobre o Brasil: a construção de um
saber lexical no processo de escolarização indígena .................................. 163
Maria Aparecida Honório
Palavras de origem indiana no léxico da língua portuguesa –
categorias topológicas dos processos de empréstimo vocabular ................ 191
Mário Ferreira

CONCEITOS E TECNOLOGIAS
Os conceitos de neologia e neologismo segundo as obras
lexicográficas, gramaticais e filológicas da língua portuguesa .................. 203
Ieda Maria Alves
Um pouco da história da análise informatizada do léxico no Brasil .......... 223
Zilda Maria Zapparoli 5
APRESENTAÇÃO

O saber lexical é um dos mais antigos de que temos conhecimento.


Ele remonta a três milênios a.C., quando apareceram as primeiras listas de
palavras na Babilônia (Auroux, 1992). As pesquisas realizadas no projeto
História das Idéias Lingüísticas no Brasil, que deram origem a esta publi-
cação, trabalham a história desse saber, objetivando mostrar seu modo de
aparecimento no Brasil, seu desenvolvimento, suas transformações. Para
isso, considera o papel de teorias, instituições, obras, autores e aconteci-
mentos relacionados à produção de saber lexical. Este é considerado em
suas diversas formas históricas de manifestação: listas de palavras, comen-
tários, descrições lexicais, dicionários, teorias, conceitos, disciplinas, etc.
O projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil (HILB) é coor-
denado no Brasil por Eni P. Orlandi (Unicamp) e Diana L. P. de Barros
(USP), e na França por Sylvain Auroux (ENS). O objetivo geral é o conhe-
cimento da história do saber metalingüístico no Brasil e da constituição de
uma língua nacional. Neste livro serão apresentados resultados de uma das
linhas de pesquisa do projeto, denominada “constituição de um léxico bra-
sileiro”. Durante a primeira etapa do projeto, sediada na Unicamp, alguns
trabalhos se dedicaram à história dos dicionários brasileiros. Nesse senti-
do, a contribuição de Francine Mazière, participante do projeto no lado
francês, foi decisiva para impulsionar as pesquisas da equipe brasileira, já
que desenvolvia há algum tempo estudos sobre a história dos dicionários
franceses. Nesta segunda fase do projeto, dando continuidade aos traba-
lhos, formou-se um subgrupo com o objetivo de compreender a constitui-
ção de um léxico brasileiro. Além de pesquisas sobre os dicionários, inclu-
íram-se aí os estudos da formação do léxico na relação do português com
outras línguas (africanas, indígenas, indianas), e a constituição de discipli-
nas. A participação de pesquisadores da USP, que se inseriram nesta fase
do projeto, foi fundamental para a ampliação do campo de pesquisa.
Participam deste livro os seguintes membros do projeto: Margarida
Petter (USP) e Emilio Bonvini (CNRS), que estudam a relação do portu-
guês com as línguas africanas, Mário Ferreira (USP), que estuda a incor-

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poração de termos de línguas indianas no português, Zilda Maria Zapparoli
(USP), que elabora uma história dos estudos informatizados do léxico no
Brasil, José Horta Nunes (UNESP), que realiza uma análise discursiva do
dicionário, Maria Aparecida Honório (Pós-Doutorado/USP), que estuda o
saber lexical em situações de contato do português com línguas indígenas
e Sheila Elias de Oliveira (UNICENTRO/doutoranda pela Unicamp), que
realiza uma análise enunciativa do dicionário.
Contamos também com alguns colaboradores externos, aos quais
aproveitamos a oportunidade para agradecer a generosa contribuição. Os
trabalhos destes renomados especialistas em lexicologia, lexicografia e ter-
minologia trazem subsídios de fundamental importância para a reflexão
que vem sendo efetuada no projeto. São eles: Telmo Verdelho (Universida-
de de Aveiro, Portugal), Maria Tereza Camargo Biderman (UNESP) e Ieda
Maria Alves (USP).
Segundo a perspectiva sustentada no projeto, a produção de idéias
lingüísticas é remetida à sociedade e à história, de maneira que o saber
lingüístico não é considerado independentemente das formações sociais e
das instituições a ele relacionadas. Objetiva-se mostrar a especificidade
dos saberes metalingüísticos que aparecem ou são introduzidos de deter-
minada forma no território brasileiro, com especial atenção à constituição
da língua nacional. Para pensar este fato, opera-se com o conceito de hi-
perlíngua (cf. “L´hyperlangue brésilienne”, Langages 127, 1997; e Auroux,
“Língua e hiperlíngua”, Línguas e Instrumentos Lingüísticos, 1998), que
se define pela estruturação de um espaço/tempo por competências indivi-
duais, relações de comunicação em certos contextos, instrumentos lingüís-
ticos (como gramáticas e dicionários), atividades sociais. Os trabalhos deste
livro trazem mais elementos para compreender a estruturação da hiperlín-
gua brasileira.
Os textos aqui apresentados reúnem-se em três seções temáticas. Na
primeira seção, temos trabalhos voltados para o estudo dos dicionários.
Como eles aparecem no Brasil? Qual a relação com os dicionários portu-
gueses? Quais os autores, as obras, instituições, as teorias, os aconteci-
mentos relacionados? Sem o conhecimento sobre os dicionários portugue-
ses, não é possível compreender a constituição histórica dos dicionários
brasileiros. O texto de T. Verdelho traz uma contribuição admirável nesse
sentido, com uma breve história dos dicionários portugueses, em que apre-
senta um levantamento comentado das obras lexicográficas, desde os di-
cionários bilíngües latino-portugueses até os diversos tipos de monolín-

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gües. Em seguida, M. T. C. Biderman aborda o caso brasileiro, mostrando
a formação e a consolidação de uma norma lexical no Português do Brasil,
com especial atenção ao papel que os dicionários aí desempenham. Para
isso, trata no período colonial da emergência da variedade brasileira do
português, passa pelo surgimento da identidade nacional a partir de mea-
dos do século XIX e aborda a publicação de obras lexicográficas sobre o
português brasileiro, desde os pioneiros até a atualidade.
A relação entre a lexicografia portuguesa e a brasileira é de identi-
dades e diferenças. Se, por um lado, houve uma série de empréstimos de
dicionários portugueses, sobretudo desde o Moraes (1789), houve também
um processo de diferenciação que conduziu ao estabelecimento de uma
lexicografia própria. Grande parte desse processo desencadeou-se a partir
da discussão sobre os brasileirismos. Sheila E. de Oliveira trata de um
momento de conflito na divisão entre português do Brasil e português eu-
ropeu. Ela mostra, por meio de uma detalhada análise enunciativa, de que
modo um lexicógrafo português, Cândido de Figueiredo, toma como obje-
to os brasileirismos nos prefácios e posfácios de seu dicionário, desde a
primeira edição, em 1899, até a última edição em vida do autor, em 1925.
Um dos pontos observados por Oliveira nessa enunciação é a redução das
diferenças históricas às geográficas, com a oposição entre a língua de civi-
lização (a de Portugal) e a língua considerada sem civilização (do Brasil).
Completa essa seção o estudo acurado de José Horta Nunes sobre
a história da constituição do dicionário monolíngüe no Brasil. O autor
apresenta os momentos dessa dicionarização e analisa as condições de
sua produção, decorrentes, a seu ver, dos seguintes fatores: territorialidade,
administração do território, urbanização, institucionalização, contatos lin-
güísticos, identidade nacional, influência de teorias, domínios conexos e
tecnologias. Nunes alerta para o fato de que a forma do dicionário nunca
coincide com as condições que a determinam e que os sentidos por ela
produzidos estão sempre abertos à interpretação. Lembra que, na “unidade
imaginária” do dicionário monolíngüe, inscreve-se “uma série de relações
entre as línguas (de inclusão, exclusão, confronto, absorção, filiação, etc.),
que convém explicitar e não apagar”.
A segunda seção aborda a relação do português com outras línguas
e reflete sobre o papel de dicionários, comentários e descrições lexicais na
constituição de um léxico brasileiro. Margarida Petter faz um levantamen-
to dos registros do passado que nos informam sobre a presença de línguas
africanas no Brasil. Em seguida, aborda os registros lexicográficos em di-

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cionários gerais, dicionários especializados e dicionários etimológicos, além
de comentar os estudos especializados. A autora mostra como os “termos
de origem africana” estão presentes nesses materiais e como eles são con-
siderados, especialmente por meio das noções de brasileirismos e africa-
nismos. E. Bonvini, tratando igualmente da presença de termos de origem
africana (sobretudo de origem banto), observa-os, de um lado, como em-
préstimos, e de outro, como termos integrados ao português do Brasil. O
período examinado vai do século XV ao XVIII. Bonvini questiona a utili-
zação do termo “influência” para se referir aos termos lexicais de origem
africana e levanta, com base na observação de dados, algumas hipóteses
para explicar a multiplicidade de variantes dos empréstimos.
O texto de Maria A. Honório traz uma reflexão sobre como o léxico
é significado na produção textual de professores Sateré-Mawé. Nesta si-
tuação, é estabelecida uma relação entre a língua indígena e a língua portu-
guesa. Para compreender os materiais resultantes desta situação de conta-
to, a autora considera diversos trabalhos sobre línguas indígenas desde a
época colonial, dentre os quais, dicionários bilíngües e monolíngües que
introduzem termos indígenas. Operando o conceito de gramatização, Ho-
nório aponta uma fase atual deste processo, marcada pelo aparecimento de
novos sujeitos da história (os índios como sujeitos da escrita), o que traz
conseqüências tanto para a constituição do léxico do português, como para
o das línguas indígenas nessa situação de contato.
A partir de uma perspectiva metodológica de confronto dinâmico de
línguas em contato, Mário Ferreira realiza um estudo das palavras indianas
incorporadas ao léxico da língua portuguesa, identificando mecanismos
semânticos de empréstimo vocabular. Ferreira estipula três categorias ti-
pológicas relativas ao processo de incorporação, pela língua portuguesa,
de bases lexicais indianas: as categorias de reiteração, reconfiguração e
dispersão semânticas, entendidas como graus progressivos de maior ou
menor convergência interidiomática. Analisando obras de autores portu-
gueses dos séculos XVI e XVII, Ferreira mostra que ocorrem diferentes
processos de incorporação, conforme o domínio lexical. Por exemplo, os
referentes do universo material dos objetos exercem forte coerção de iden-
tidade sobre os vocábulos vernáculos, ao passo que os referentes ideológi-
cos encontram resistência à reconstrução e incorporação.
Na terceira seção temos, inicialmente, o texto de Ieda M. Alves,
que, depois de apresentar as primeiras atestações dos termos neologia e
neologismo, mostra como esses conceitos têm sido abordados nas obras

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filológicas, gramaticais e lexicográficas em língua portuguesa. Alves enfa-
tiza que o enfoque desses conceitos é, não raro, acompanhado de critérios
de aceitabilidade, particularmente no que concerne aos neologismos por
empréstimo. Em seguida, Zilda M. Zapparoli elabora um histórico da aná-
lise informatizada do léxico no Brasil, fazendo considerações sobre dois
programas de computador para análise lingüística – WordSmith Tools (WS
Tools) e Stablex – e sobre o uso que alguns pesquisadores brasileiros, per-
tencentes a duas instituições – PUC/SP e USP/SP – fizeram ou vêm deles
fazendo para as análises informatizadas do léxico.
O saber lexical, em suas diversas formas, constitui-se através de
processos históricos, muitas vezes de longa duração. Acreditamos que esta
publicação traz avanços para a compreensão do aparecimento, do desen-
volvimento e das transformações desse saber no Brasil. De início, porque
realiza uma série de apontamentos documentais e bibliográficos, alguns
dos quais raramente mencionados na literatura. Depois, porque apresenta
reflexões que levam em conta a especificidade do léxico enquanto saber
histórico, produzido por e para sujeitos em determinadas circunstâncias.
Salientamos, por fim, que nesta fase do projeto História das Idéias Lin-
güísticas há o objetivo de abordar questões de ética e política lingüística.
Nesse sentido, acreditamos que o livro traz elementos para se pensar o
fazer lexical: por quê fazer um dicionário, para quem? Para que serve des-
crever o léxico de uma língua? Que línguas são incluídas ou excluídas para
isso? Quais as condições e as conseqüências do aparecimento de conceitos
e disciplinas ligadas ao léxico? Em que medida tais práticas estão relacio-
nados com as políticas: com o Estado, com a institucionalização dos sabe-
res, com as normatizações, com a formação de uma língua nacional? Por
fim, considerando-se a historicidade desses processos, o que fazer daqui
em diante?

José Horta Nunes


Margarida Petter

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Dicionários

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DICIONÁRIOS PORTUGUESES, BREVE HISTÓRIA

Telmo Verdelho
Universidade de Aveiro

Introdução
A lexicografia começou a estruturar-se como disciplina linguística
desde a primeira metade do século XVI, em vários centros humanísticos
europeus. Foi inicialmente motivada pelas solicitações do ensino do latim
como língua não materna, e encontrou na técnica tipográfica uma condição
determinante para a sua configuração e difusão.
Podemos todavia recuar a génese dos dicionários para as escolas
medievais de latim. Desde o século XI produziu-se, sobretudo na Itália,
uma espécie de pré-lexicografia que foi rapidamente divulgada entre as
escolas monásticas de toda a Europa. Em Portugal conservam-se testemu-
nhos manuscritos do Elementarium (c.1050) de Papias, que pode ser con-
siderado como o primeiro arquétipo dos dicionários modernos; do Liber
derivationum (fins do séc.XII) de Hugúcio de Pisa; do Catholicon (1286)
de João Balbo; e de outros textos medievais com informação lexicográfica,
essencialmente latina, mas que serviram de referência para o aparecimento
dos primeiros glossários das línguas modernas (Verdelho 1995, 137).
A emergência da escrita entre os vernáculos europeus, desde a re-
cuada Idade Média, paralelamente à escolarização do latim, deu natural-
mente origem à dicionarização das línguas vulgares. Gerou-se em primei-
ro lugar uma espécie de lexicografia implícita que tecia os próprios textos
e facilitava a compreensão do vocabulário característico da escrita, forço-
samente mais amplo e menos quotidiano do que o da língua oral. Os textos
que dão testemunho das primeiras tentativas do uso da escrita em vernácu-
lo português e ainda quase toda a produção textual subsequente, até aos
tempos modernos, vêm marcados por esse esforço metalinguístico de cla-
rificação e autodescodificação, próximo da informação lexicográfica. Mui-

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tos textos medievais portugueses parecem ser construídos com a preocu-
pação de fornecerem um fácil acesso à significação do seu próprio léxico,
apresentando um estilo parafrástico, enquadrado por muitas palavras re-
dundantes e frequentemente entretecido por verdadeiras definições
lexicográficas. Os exemplos mais elucidativos poderão recolher-se nos tex-
tos jurídicos de Afonso X, tais como as Partidas e o Foro Real traduzidos
do castelhano logo nos primeiros séculos da escrita em língua portuguesa
(Ferreira 1980 e 1987).
Os textos da Casa de Avis, e muito especialmente o Leal Conselhei-
ro de D. Duarte, oferecem também bons exemplos do fundo pré-diciona-
rístico que acompanhou o início da memória textual portuguesa. O Leal
Conselheiro apresenta-se mesmo como obra de tipo paralexicográfico nas
declarações introdutórias do próprio autor (“E filhayo por huu A B C de
lealdade”) (Verdelho 1995, 172).

Lexicografia latinoportuguesa
Glossários bilingues medievais

O simples desenvolvimento do exercício da escrita não podia deixar


de suscitar uma necessária reflexão gramatical e uma consequente produ-
ção metalinguística, com natural relevo para a elaboração de tipo lexico-
gráfico. Juntamente com a emergência da escrita vernácula, o confronto
com o latim, muito especialmente na instância escolar, deve ter provocado
imediatamente o aparecimento de glossários e outros materiais de apoio à
intercompreensão das duas línguas, exercitando a sua equivalência lexical.
A língua portuguesa, pelo menos desde o século XIII, ao mesmo
tempo que tinha acesso à sistematização da escrita, começou a ser utili-
zada numa produção pré-lexicográfica, baseada em listagens glossarísticas
medievais bilingues (latim-vernáculo) que eram já utilizadas por outras
línguas vulgares da Europa, desde a mais remota Idade Média, como auxi-
liares da escolarização do latim. Estes vocabulários escolares, preferenci-
almente baseados no “corpus” lexical do texto bíblico, eram organizados
por áreas temáticas ou por categorias gramaticais e aproximavam-se já da
ordenação alfabética. (Riché 1979, 232).
Entre o espólio paleográfico português hoje conhecido guarda-se
apenas um pequeno texto residual e notícia de outro. É o pouco que resta

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do muito que poderá ter sido a pré-lexicografia medieval portuguesa. O
documento conservado é um manuscrito alcobacense (códice CDIV/286),
que se encontra na Bibl. Nac. de Lisboa e que foi publicado por Henry
Carter (1953). Compõe-se de uma listagem quase alfabética de cerca de
3000 verbos latinos, transcritos pelo início do séc. XIV, a que foram acres-
centadas, por outra mão e eventualmente já no séc. XV, as formas equiva-
lentes em português. O “corpus” lexical português apresenta cerca de 1100
verbos diferentes com um total aproximado de 3.000 ocorrências. É um
documento importante para a história da técnica lexicográfica e sobretudo
para a história da língua portuguesa. (Verdelho 1995, p. 196-213).
Mais antigo do que este monumento da lexicografia portuguesa se-
ria um “Vocabulário em 4º, que fora escripto pelos anos de 1170; ordenado
por alfabeto dava as significações dos nomes Latinos em Portugues”
(Boaventura 1827, p. 74). Barbosa Machado, no t. III da sua Biblioteca
Lusitana (1752) atribui mesmo a Frei Martinho de Arraiolos, “Monge
cisterciense que floreceo no anno de 1170”, a autoria deste Vocabularium
alphabetica methodo digestum significatione nominum latinorum adhibita
e acrescenta “conserva-se na Biblioteca M.S. do Real Convento de
Alcobaça”. O ms. era já lastimavelmente perdido quando Fr. Fortunato de
São Boaventura se lhe refere em 1827.

As origens renascentistas da lexicografia portuguesa

Jerónimo Cardoso

A lexicografia da língua portuguesa, como a dos restantes vernáculos


europeus, nasceu dos vocabulários bilingues que puseram em confronto o
latim e as línguas vulgares. Por sua vez, a maior parte destes textos foram
elaborados tomando como fontes de referência os grandes monumentos da
lexicografia humanista e em especial: a obra de Nebrija (1492); o dicionário
publicado a partir de 1502 sob o nome de Ambrósio Calepino; e o Tesouro
da língua latina de Robert Estienne (1531). Os dicionários portugueses dos
séculos XVI e XVII inserem-se também nesta genealogia lexicográfica, com
especial dependência em relação aos textos de Nebrija e de Calepino.
Os dicionários do humanista Jerónimo Cardoso (c.1500-c.1569)
(Teyssier 1980) especialmente o Dictionarium ex Lusitanico in Latinum
Sermonem (1562) marcam o início da dicionarização da língua portuguesa.

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Neste dicionário Cardoso promoveu a primeira alfabetação do “corpus”
lexical vernáculo e deu assim origem, com maior ou menor interferência, a
todos os subsequentes dicionários do português, repercutindo-se efectivamen-
te na técnica dicionarística, no levantamento das unidades lexicais, na
referenciação do seu valor semântico, e na fixação da sua imagem ortográfica.
A obra de Cardoso poderá ter sido precedida por outras tentativas de
elaboração lexicográfica e de ordenação alfabética do vocabulário portu-
guês. Temos notícia de um Dictionarium Lusitanum et Latinum atribuído a
Francisco Sanches de Castilho († 1558) que estaria pronto para impressão
à data do falecimento do autor. O nome do ortografista Duarte Nunes de
Leão (c.1530-c.1608) aparece também associado a um “Vocabulario
Portuguez muy copioso com declaração da Origem de cada Vocabulo, e de
que lingoa emanou” (Machado 1966, t. I, p. 738), e há ainda notícia vaga
de outros manuscritos (Verdelho 1995, p. 377 e s.) mas até ao presente
nenhum desses textos foi encontrado e não foi possível recuar para além de
1562 o início da alfabetação do português.
O pequeno dicionário de Cardoso deve ser assim considerado como
o padrão inicial da lexicografia do português. Não obstante a modéstia das
suas dimensões, oferece um “corpus” lexical interessante e muito signifi-
cativo para a época, composto por cerca de 12.100 formas diferentes, dis-
tribuídas por um pouco mais de 12.000 entradas a que foram ainda acres-
centadas 728 na segunda edição (1569).
Sendo embora um dicionário bilingue, apresenta, para além das equi-
valências latinas, uma abundante informação lexicográfica no respeitante
à língua vernácula. Salientaremos alguns aspectos que exemplificam o es-
forço de elaboração de uma primeira metalexicografia portuguesa.
– As entradas em português desdobram-se frequentemente em pares
sinonímicos do tipo:
abafar s. cobrir....,
abarregado s. amancebado,
abater s. mingoar,
abominar s. amaldiçoar,
bisauoo ou bisdona,
boauentura ou dita.
– Alarga-se o âmbito da explicitação esclarecendo casos de polisse-
mia ou salientando os valores semânticos determinados pelo contexto:

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abito s. costume, Abito de frade...,
acordar-se... Acordar do sono... Acordar ao que dorme Acordar I.
auer conselho....
– Fornecem-se indicações de tipo gramatical:
Alemão...
Alemoa, molher dAlemanha...
Alemanisca cousa....
– No âmbito da informação gramatical, podemos notar a indexação
dos adjectivos pela particula “cousa”, utilizada com valor estritamente me-
talinguístico, servindo assim para destacar cerca de um milhar de adjecti-
vos.
A obra lexicográfica de J. Cardoso deu origem, já em edição póstu-
ma (1569/70), a um conjunto dicionarístico, preparado por Sebastião
Stockammer, onde se atestam cerca de 24.000 formas diferentes do fundo
lexical português, inseridas num corpus bilingue, latino-português e portu-
guês-latino. Este texto foi reeditado mais de uma dezena de vezes, até ao
fim do século XVII, com algumas variações ortográficas, mas sem altera-
ções significativas, no que respeita ao corpus linguístico português. Serviu
de manual escolar e teve uma decisiva importância como fonte de referên-
cia para o vocabulário da língua vernácula durante uma longa sesquicentúria,
até aos alvores do séc. XVIII, assistindo à leitura latina, facilitando a tra-
dução e modelando a escrita portuguesa.

Agostinho Barbosa

Nas origens da lexicografia portuguesa devem ainda incluir-se to-


dos os restantes dicionários bilingues (latim – português e sobretudo por-
tuguês – latim) publicados até ao século XVIII.
O primeiro de entre eles, de Agostinho Barbosa (1590-1649) (Bar-
bosa 1611, edição única), para além do seu “corpus” latino ser autorizado,
oferece muitos exemplos de acumulação sinonímica na parte portuguesa e
uma frequente textualização das entradas, com prejuizo da ordenação alfa-
bética (“/Despontar, i. rebotar, ou desfazer, ou tirar a ponta... /Despor, aliàs
ordenar... /Despor aruores... /Desposição boa, i. saude... /Bem desposto, i.
estar bem desposto, & ter saude... /Bem desposta cousa, i. que tem saude...
/Má, ou roym desposição, aliàs pouca saude... /Mal desposta cousa, aliàs

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doentia, & que tem pouca saude... /Bem desposta cousa do corpo, aliàs
bem feyta do corpo... /Desposição do corpo...”) (col. 378).

Amaro Reboredo

Deve também incluir-se, entre a lexicografia das origens, a obra de


Amaro Reboredo (Lisboa, Pedro Craesbeeck, 1621, 444 ps) publicada no
âmbito de um manual escolar para o estudo do latim, com o título Raizes da
lingua latina mostradas em hum tratado, e diccionario: isto he, hum
compendio do Calepino com a composição, e derivação das palavras, com a
ortografia, quantidade e frase dellas. Trata-se de um dicionário Latim / por-
tuguês / espanhol (transparece uma certa indecisão na escolha do título – o
termo “dicionário” não estava ainda optado para designar este instrumento
metalinguístico). A nomenclatura do Calepino é enquadrada em famílias de
palavras ligadas pelas raizes latinas de modo a descodificar-se a sua signifi-
cação sem recorrer à forma equivalente portuguesa. Muitas entradas não têm
glosa portuguesa, no entanto, os artigos com correspondência vernácula apre-
sentam, por vezes, uma acumulação sinonímica muito informativa e outros
aspectos com interesse para a história do léxico português. Exemplo:
– “FELIX ... Ditoso, venturoso, prospero, bem afortunado. Hisp.
Dichoso prospero, &c.”;
– “VER, veris. Verão, primavera, isto he, Março Abril e Maio. Hisp.
Verano, primavera.
Esta obra oferece-nos o primeiro convívio lexicográfico entre o por-
tuguês e o castelhano, correspondendo certamente a uma conjuntura
interlinguística de dominação por parte da monarquia dual (entre 1580 e
1640). Ainda que de modo pouco sistemático, as equivalências castelhanas
aparecem em anotações esporádicas e muito abreviadas.

Lexicografia dos Jesuítas

Entre as origens da dicionarística portuguesa é devida especial refe-


rência à produção lexicográfica dos Jesuítas. Desde a sua instalação em
Portugal, nos meados do séc. XVI, empenharam-se na produção de ma-
nuais escolares, especialmente voltados para a formação linguística, e cria-
ram assim uma estudiosa escola de gramáticos e dicionaristas. Entre eles,

20
avultam os dicionaristas das línguas de missão, no Brasil e no Oriente (lem-
bre-se, a título de exemplo, a laboriosa investigação dicionarística publicada
no Japão (Dictionarium, Amacusa 1595; Vocabulario, Nagasaqui 1603), e
além destes, no quadro mais específico da lexicografia latino portuguesa,
temos notícia de trabalhos de Fernando Pires, António Velez, Manuel de
Gouveia, Manuel Barreto, Bento Pereira, Matias de S. Germano, António
Franco e José Caeiro. Alguns dos seus textos mantêm-se manuscritos e
aguardam um estudo que os apresente ao público e que aprecie o seu inte-
resse para a história da língua e da cultura portuguesa. É o caso do Vocabu-
lario Lusitanico Latino de Manuel BARRETO (c. 1561-1620), “compos-
to na Provincia de Japão”, concluído em 1607, que se guarda manuscrito
em 3 volumes na Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa.
A obra mais representativa da dicionarística dos Jesuítas ficou conheci-
da pelo título de Prosódia publicada desde 1634, em sucessivas reedições até
1750 sob a referência autoral de Bento Pereira (1605-1681). Era um volumoso
manual escolar composto por um dicionário amplíssimo de latim-português,
ao qual se juntou, a partir de 1661, um dicionário de português-latim Tesouro
da língua portuguesa (que fora primeiramente publicado autónomo em 1647)
e ainda um conjunto de textos paralexicais (Frases portuguesas a que corres-
pondem as mais puras e elegantes latinas; Adágios portugueses com seu latim
proverbial correspondente; e uma Tertia pars selectissimarum descriptionum,
quas idem auctor vel olim a se compositas, vel a probatissimis scriptoribus
emendicatas alphabetico ordine digessit) que serviam para aprendizagem es-
colar e para exercitação da escrita e da oratória.
Neste conjunto deve salientar-se o Tesouro, como fonte de referên-
cia para a fixação da nomenclatura lexical portuguesa. Revisto e ampliado
em sucessivas reedições durante o século XVII, fixou-se a partir de 1697,
com mais de 20.000 entradas, prefigurando já toda a capacidade de inova-
ção do vocabulário moderno (Verdelho 1987). O Tesouro tornou-se uma
importante referência normativa para a língua portuguesa; contribuiu cer-
tamente para modelar a tradição ortográfica, e foi o primeiro “corpus” do
léxico português formado a partir do património textual. Na 1ª. ed. cita-se
um elenco de fontes textuais (“Authores portugueses os quaes todos se
leram pera fazer este Vocabulario”), onde se nomeiam, entre outros, Camões,
João de Barros, Diogo Bernardes, Heitor Pinto, Duarte Nunes de Leão,
João de Lucena, Bernardo de Brito.
Os Jesuítas publicaram ainda dois pequenos dicionários escolares.
O primeiro foi acrescentado, como anexo, em várias edições da Gramática

21
de Manuel Álvares, desde o final do séc. XVI, com o título de Index totius
artis, atribuído a António VELEZ (1545-1609). O segundo, com o título
de Indiculo Universal, (editado em 1716) é um texto onomasiológico tra-
duzido e adaptado do francês para português (Pomey / Franco), e integra-
se numa galeria pouco preenchida na dicionarística portuguesa, de voca-
bulários, ou nomenclaturas breves, de tipo enciclopédico, onde avulta a
Amalthea (1673) de Frei Tomás da Luz (c. 1633-1713).

O vocabulário de Bluteau
Entre os vocabulários bilingues de origem renascentista e os dicio-
nários monolingues modernos, situa-se a obra mais monumental da lexico-
grafia portuguesa, o Vocabulario Portuguez e Latino (R.Bluteau 1712/28)
que ao longo de 10 volumes “in folio”, confeccionados com especiosas
encadernações e grande requinte tipográfico, recolhe um abundantíssimo
corpus lexical português, com uma pormenorizada explicitação referencial
e semântica. O latim é objecto de uma informação muito sumária e tão
pouco significativa, no conjunto da obra, que pode ser considerada essen-
cialmente monolingue.
O autor, Rafael Bluteau (1638-1734), nasceu em Londres, de famí-
lia francesa, teve formação francesa e italiana (doutorou-se em Roma),
beneficiando de uma enriquecedora experiência de multilinguismo. Envia-
do para Portugal aos 30 anos como clérigo teatino aprendeu muito rapida-
mente a língua portuguesa e começou a usá-la numa intensa actividade
oratória. Tornou-se um dos arautos da vernaculidade e da normalização
lexical e ortográfica, (Prosas portuguezas 1728).
O Vocabulário vem também acompanhado por uma alargada refle-
xão de tipo teórico, apresentada em textos introdutórios e posfaciais em
que se repercute o pensamento linguístico e a prática lexical da época.
Entre outros aspectos salientaremos: a entronização das variedades linguís-
ticas “nobres” autorizadas pelos bons escritores e pelo prestígio da corte;
uma certa relativização do nacionalismo linguístico (todas as línguas “tem
singulares excellencias, & cada nação lhe parece o seu idioma melhor de
todos” – Prologo “ao leitor estrangeiro” –, Bluteau corrige a opinião da
“maior parte dos estrangeiros” que então, na Europa, consideravam que o
português não era “lingoa de por si”, mas apenas uma “corrupçam do Cas-
telhano” que não justificaria um investimento dicionarístico, e acrescenta:

22
“As lingoas Portugueza & Castelhana são duas irmaans, que tem alguma
semelhança entre si, como filhas da lingoa Latina; mas huma & outra logra
a sua propria independencia & nobreza, porque nem do Portuguez se deri-
va o Castelhano, nem do Castelhano descende o Portuguez.” – ib.); o apro-
veitamento da tradição lexicográfica portuguesa (“Neste exercicio glorio-
samente se ocuparam os Barbosas, os Cardosos, os Pereiras” – ib.),
juntamente com um amplo reconhecimento da bibliografia europeia da épo-
ca, anotada num “Vocabulario de vocabularios” (Suplemento, parte II 1728,
535-548); uma síntese crítica da teorização lexicográfica do tempo, com
decidida opção por um modelo de dicionário autorizado, locupletíssimo
(dando entrada a todas as terminologias técnicas e a um leque amplo de
variedades – regionais, cronológicas e sócio-profissionais), mas sem per-
der as características de um dicionário essencialmente de língua, com re-
cusa da informação característica dos dicionários de história e de nomes
próprios.
O Vocabulário actualizou e aumentou cinco vezes mais aproxima-
damente o “corpus” lexical português até então dicionarizado (Verdelho
1987, 163), e passou a constituir uma referência obrigatória e quase defini-
tiva para toda a lexicografia subsequente.
A melhor síntese crítica do Vocabulário encontra-se na “Planta”
introdutória do Dicionário da Academia apresentada (1780) pelo académico
Pedro José da Fonseca. Depois de louvar a obra e de a escolher como fonte
privilegiada para o empreendimento da Academia, censura nela os pontos
seguintes: “o titulo deste mesmo Vocabulario, a redundancia da sua prolixa
erudição, a falta de innumeraveis vocabulos Portuguezes, e de autoridades,
que na maior parte das suas accepções qualifiquem os mesmos, que traz,
finalmente a mà eleição dessas taes poucas autoridades sem critica nem
graduação (...) hum sem conto de definições ou explicações de termos por
vários modos defeituosas, muitas etymologias erradas ou pouco seguras,
havendo outras certas ou mais provaveis, e não menos citações de Autores
Portuguezes impropriamente allegadas, ou em confirmação de significa-
do, para que não servem, ou pelo modo viciado, com que estão transcritas;
além de outros defeitos assàs notaveis ainda naquillo mesmo que
directamente toca à lingoa Portugueza.” (Diccionario 1793, p. III).
Correspondendo a uma intenção do próprio Bluteau, e aproveitando
materiais deixados, depois da sua morte, foi decidida a publicação de um
Complemento do Vocabulario portuguez de Bluteau que chegou a ser par-
cialmente impresso sob a orientação e revisão de José Caetano (1690-post

23
1757). Todo esse material terá desaparecido, incinerado sob os escombros
do terramoto de 1755. L.A. Verney considerando o vulto e a pouca funcio-
nalidade do Vocabulário, sugeria, em 1747, que “seria necessário que al-
gum homem douto abreviasse o dicionário do P. Bluteau e o reduzisse à
grandeza de um tomo em folha, ou dois em 4º” (Verney 1949 (1747), I,
128). António de Morais Silva encarregar-se-ia desta tarefa.

Tentativas de elaboração enciclopédica


A acumulação enciclopédica precede a elaboração dicionarística na
tradição greco-latina e mantém a sua especificidade ao longo da idade média
e durante a idade moderna e contemporânea, até aos nossos dias, com in-
tensificada emergência a partir do séc. XVIII. Todavia, as suas caracterís-
ticas para-lexicográficas conduziram a uma certa convergência entre a pro-
dução dicionarística e a indexação enciclopédica, suscitando mesmo a
publicação de dicionários enciclopédicos ou universais (cf. 6).
Em Portugal foram conhecidas enciclopédias medievais escritas em
latim, delas se guardam testemunhos manuscritos entre o espólio alcoba-
cense da Biblioteca Nacional, e em outros fundos bibliográficos. Alguns
desses textos repercutiram-se na língua portuguesa em obras didácticas
como as da Casa de Avis, mas não é conhecida entre nós produção enciclo-
pédica própria, até ao final do século XVII, se exceptuarmos o projecto
apenas esboçado e inacabado de Rodrigues Lobo (c. 1575-1621), que en-
saiou na Corte na Aldeia (1619), uma tentativa de roteiro do saber global
do seu tempo. A primeira publicação caracterizadamente enciclopédica foi
escrita por Fr. Fradique Espínola (falecido em 1708 em idade muito
provecta) com o título Escola Decurial de Varias Lições. (em 12 vols. ou
partes: I-1696; II-1697; III e IV-1698; V e VI e VII-1699; VIII-1700; IX-
1701; X-1702; XI-1707; XII-1721; reeditadas entre 1733/36).
Ao longo do séc. XVIII, além da reedição da Escola Decurial, fo-
ram publicadas em Portugal outras tentativas enciclopédicas que, integran-
do-se ainda na sequência das compilações eruditas medievais, acrescen-
tam já algum saber reconhecido durante os sécs. XVI e XVII. Entre essas
obras deve destacar-se a de Fr. João Pacheco (1677 – post 1747) Diverti-
mento erudito para os curiosos de noticias historicas, escholasticas e
naturaes, sagradas e profanas, descobertas em todas as idades e estados
do mundo ate o presente de que foram publicados 4 tomos (I-1734, II/III/

24
IV-1738) de um conjunto previsto de 8, (parte do ms. inédito – segundo
Inocêncio Silva, vol. 3, p. 430 – subsistirá ainda na Biblioteca Nacional).
Muitas séries onomásticas publicadas por Fr. João Pacheco, sobre vários
domínios da realidade, foram integralmente compendiadas no Vocabulário
de Bluteau.
O mais completo projecto enciclopédico, elaborado em português
no século XVIII, é devido ao oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804),
com o título Recreação Filosófica. Publicado o primeiro volume em 1751,
prolonga-se por mais uma dezena de volumes até ao início do século XIX,
com reedições dos primeiros, correspondendo certamente a uma apreciá-
vel solicitação do público. Trata-se de uma obra de divulgação, redigida
segundo o modelo platónico em diálogo, que tem por objecto a instrução
sobre “omni re scibile” (“a matéria é tão dilatada que não tem outros limi-
tes senão os do universo”), e por motivação a valorização da língua portu-
guesa na sua adequação para o conhecimento científico, “que não é menos
abundante, nem menos propria para explicar estas matérias do que a latina
ou francesa. (...) Nunca me agradou a opinião de alguns que fazem as ciên-
cias anexas a algum idioma: Sempre julguei que a verdade era natural de
todo o mundo: os povos ainda os mais rudes e barbaros a entendem; e não
são outra cousa as ciências mais que o descobrimento da verdade” (Recre-
ação, t. I, texto introdutório “Aos que lerem”).
Estas súmulas eruditas que se encontram quase totalmente esqueci-
das, na memória cultural portuguesa, dão testemunho de um horizonte cien-
tífico e cultural interessante, cheio de informações insuspeitadas e indis-
pensáveis para o estudo da diacronia lexical, especialmente na incorporação
e aportuguesamento dos vocabulários técnicos e científicos.

Lexicografia moderna bilingue portuguesa


Na segunda metade do século XVIII e especialmente no fim do sé-
culo, começaram a surgir os primeiros dicionários modernos monolingues
portugueses. Num ambiente de verdadeira efervescência lexicográfica (em
que se vinha desenvolvendo também uma nova lexicografia bilingue que
punha o português em contacto com as línguas europeias, nomeadamente
o francês, o inglês e o italiano), são publicados os dicionários de Bernardo
Bacelar (1783), de Morais Silva (1789), da Academia das Ciências de Lis-
boa (1793), a par de um conjunto de vocabulários especiais, ortográficos

25
(J. M. Madureira Feijó 1734, 39, 81, etc.; L. Monte Carmelo 1767; J. P.
Freire da Cunha 1769) de arcaismos (Viterbo 1798), de arabismos (Sousa
1789), e ainda outros expressamente orientados para o apoio à prática retó-
rica e literária, dicionários poéticos (C. Lusitano 1765, Diccionario
Exegetico 1781), de sinónimos (Bluteau 1712-1728, Suplemento, vol. 2;
Saraiva 1821) e de rimas (Guerreiro 1784).
5.1. O franciscano Bernardo de Lima e Melo Bacelar (ou Bernardo de
Jesus Maria c.1736 – p. 1787) usou pela primeira vez em Portugal o
título moderno Dicionário da língua portuguesa. Trata-se, todavia,
de uma obra falhada, que não contribuiu de modo apreciável para a
modernização da lexicografia do português. O autor fundamentou o
trabalho numa reflexão teórica que repercute o pensamento linguís-
tico da época, valorizando a pesquisa lexical sobre todos os textos
documentais do património escritural da língua, mas essa informa-
ção não transparece de modo nenhum ao longo do dicionário. Pelo
contrário, não se fornece qualquer indicação textual ou histórica para
o “corpus” recolhido, a não ser uma abundante e inconsistente eti-
mologia grecizante, com base no pressuposto preliminarmente afir-
mado, de que o português tem a sua origem na língua grega. Esta
perspectiva vicia grande parte da descrição etimológica e semântica
do dicionário. O aspecto mais inovador encontra-se na tentativa de
sistematizar a apresentação e ordenação da nomenclatura através de
uma rigorosa segmentação morfémica. De resto, a obra apresenta
ainda outras características que seriam muito louváveis (tais como a
leveza e funcionalidade do volume e a abundância do “corpus”, o
mais copioso até então recolhido), se a selecção, fundamentação e
redacção lexicográficas tivessem suficiente qualidade. O Diccionario
de Bacelar, não obstante a sua originalidade, ocupa um lugar mo-
desto e pouco lisonjeiro na história da lexicografia portuguesa.
5.2. António de Morais Silva (1755-1824) é um nome predominante e
tutelar na história da lexicografia portuguesa. A sua obra, em suces-
sivas reedições, acompanhou a língua em Portugal e no Brasil (Mo-
rais Silva era natural do Rio de Janeiro), ao longo de dois séculos,
como a mais importante referência para o uso lexical. Na sua pri-
meira edição, o Dicionário da língua portuguesa foi dado ao públi-
co em 1789 como se se tratasse de uma reedição actualizada e redu-
zida de dez a dois volumes, da obra de Bluteau (“composto pelo
Padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio

26
de Moraes Silva”). Só na 2. ed. (1813) M. Silva se atribui a plena
autoria mas, na realidade, a identificação da sua autoria é incontes-
tável desde a primeira edição. É uma obra muito diferente da de
Bluteau na sua concepção, nos seus objectivos, no tratamento do
“corpus” e até na própria fundamentação lexicográfica.
Estamos perante o primeiro dicionário moderno da lexicografia por-
tuguesa. M. Silva elimina um pouco mais de um quarto das entradas
de Bluteau, correspondentes à nomenclatura enciclopédica, onomás-
tica e histórica do grande Vocabulário, e acrescenta aproximada-
mente um terço de entradas (cerca de 22.000) inteiramente novas,
recolhidas em autores “portugueses castiços e de bom século pela
maior parte”, configurando assim, no espaço linguístico português,
um modelo de dicionário de língua autorizado, com exclusão da
informação bilingue e da informação histórica e enciclopédica em
geral.
Pela boa doutrina e pela funcionalidade da apresentação, o Diccio-
nario de M. Silva teve uma rápida e copiosíssima divulgação ainda
em vida do autor, e depois, sempre sob a sua designação autoral,
preencheu a mais importante sequência editorial dicionarística por-
tuguesa (cf. 6). Tornou-se assim, um testemunho privilegiado da
evolução do vocabulário português e simultaneamente um factor de
referência e de padronização.
5.3. A Academia Real das Ciências de Lisboa, motivada, desde a sua
instituição (1779), para os estudos da língua, determinou como um
dos seus “utilissimos intentos, que a composição de hum Diccionario
da mesma lingoa fizesse parte dos seus primeiros trabalhos”. Em
sessão de 4 de Julho de 1780 foi apresentada a “Planta para se for-
mar o Diccionário”, e o primeiro tomo, que haveria de ficar único
(com a nomenclatura começada por A-, terminando em “Azurrar”),
foi publicado em 1793.
Entre os académicos que mais eficazmente participaram na sua com-
posição, destacam-se três professores do Colégio dos Nobres: Pedro
José da Fonseca (1737?-1816), que fora já o dicionarista encarrega-
do de produzir os dicionários que deveriam substituir a Prosodia,
suprimida pela reforma escolar pombalina, Bartolomeu Inácio Jor-
ge (professor de filosofia e estudioso da literatura portuguesa e lati-
na), e Agostinho José da Costa de Macedo (1745-1822). O primeiro
escreveu os textos introdutórios, onde se explicita o “desenho, a or-

27
dem, contextura e materia do Diccionário “, e foi também o princi-
pal coordenador da selecção e do tratamento do “corpus”; o último
foi o responsável “in totum” pela compilação e redacção do Catálo-
go dos autores e obras que se lerão e de que se tomarão as autori-
dades para a composição do Diccionario da Lingoa Portugueza.
Trata-se de uma abundante recolha e apreciação bibliográfica (pro-
longa-se por 150 páginas “in folio”) sobre os autores “classicos”
portugueses e as suas obras, até ao final do séc. XVII. Segundo o
testemunho de Inocêncio, são “triviaes os erros, lacunas e confu-
sões de toda a espécie” neste Catálogo, e o seu autor limitou-se “a
extrahir servilmente da Bibliotheca de Barbosa os nomes dos
escriptores e indicações das obras” (I. Silva 1858, vol. 2, 55).
O Diccionario da Academia dá testemunho de um saber lexicográ-
fico moderno, apoiado em boa reflexão teórica, esclarecida pela ex-
periência portuguesa e estrangeira. Oferece, além da copiosa no-
menclatura de “vocabulos puramente Portuguezes” (Base VIII),
rigorosamente alfabetados, uma boa estruturação dos artigos cor-
respondentes a cada entrada. Compõem-se da classificação grama-
tical, com informações complementares sobre o género, o número,
as irregularidades e as regências dos verbos; indicação sobre o uso
ou variedade (“facultativa, forense, mechanica, de provincia, vul-
gar, comica, proverbial, antiga ou antiquada”); a “definição, expli-
cação ou descrição”; a etimologia; as variantes ortográficas (inclu-
indo as variantes diacrónicas); a textualização autorizada; a abonação
de epítetos para os substantivos, e de advérbios de modo (em -men-
te) para os verbos; e, “no fim de cada vocabulo”, acrescentam-se
“os Adagios ou Proverbios, que lhe tocarem” (Base XVII) (Casteleiro
1981).
O Diccionario da Academia é o mais significativo empreendimento
da exercitação normativa sobre a língua portuguesa, foi suscitado
num momento de teorização linguística intensa, de teor nacionalis-
ta. O purismo, a defesa e o enriquecimento do idioma pátrio domi-
nam o pensamento linguístico do final do séc. XVIII. O bom uso e
as boas palavras portuguesas polarizam o convívio arcádico e ocu-
pam as actividades da Academia das Ciências, que promove, a pro-
pósito, vários concursos, não só para a elaboração da gramática filo-
sófica, mas também para a pesquisa lexical e lexicográfica que devia
acompanhar a elaboração do grande Dicionário. Sirva de exemplo,

28
o trabalho de António das Neves Pereira († 1818) Ensaio critico –
“Sobre qual seja o uso prudente das palavras de que se servirão os
nossos bons Escritores do Seculo XV, e XVI; e deixarão esquecer os
que depois se seguirão até ao presente” (Pereira 1793).
5.4. No âmbito deste pensamento linguístico se enquadram também os
vocabulários ortográficos acima referidos, bem como a obra de Rosa
Viterbo e os vocabulários poéticos e para-literários, que merecem
aqui um breve apontamento.
O Elucidario (cf. Viterbo 1798/1799) de Fr. Joaquim de Santa Rosa
de Viterbo (1744-1822) feito com base (inconfesso furto) nos ms.
de Fr. Bernardo da Encarnação (Fiúza 1965, 53 e s.), é um valioso
(apesar de incompleto) dicionário do português arcaico, compilado
para facilitar a leitura do texto antigo documental. Forma, junta-
mente com a obra (ainda actual) de Fr. João de Sousa (1734-1812),
Vestigios da língua arábica em Portugal, ou Lexicon etymologico
de palavras e nomes portuguezes, que tem origem arabica (1789) o
primeiro conjunto de lexicografia de tipo filológico, testemunhando
igualmente o interesse desta época pelos estudos lexicográficos e
metalinguísticos.
Sumamente interessantes, pela sua originalidade dicionarística e pelo
seu interesse linguístico, são os vocabulários feitos para socorro da
prática literária.
O Diccionario poetico (1765) de Cândido Lusitano (nome arcádico
de Francisco José Freire 1719-1773) prolonga na língua portuguesa
a tradição dos dicionários de sinónimos e de epítetos latinos (no-
meadamente o Gradus ad Parnassum) que lhe serviram de modelo
e também de fonte para numerosas formas que transfere do latim ao
português, contribuindo para acentuar a latinização da língua e da
poesia portuguesa (Verdelho, E. 1983).
Entre os dicionários para-literários do séc. XVIII tem sido esqueci-
do o Diccionario exegetico (1781), “dado ao publico por hum
anonymo” e que pode quase certamente ser atribuído ao tipógrafo e
editor Francisco Luís Ameno (1713-1793). Trata-se de um dicioná-
rio in 8º pequeno, com cerca de 6.000 entradas distribuídas ao longo
de 296 páginas, mais 15 com uma breve colecção de “Adagios
selectos da lingua portugueza”. A nomenclatura foi cuidadosamen-
te escolhida, segundo previne o autor no “Prolegomeno”, entre os
“vocabulos menos vulgares”, “os vocabulos mais castigados e de

29
que so usão os Doutos”. A par dos numerosos latinismos, grecis-
mos, tecnicismos (sobretudo no âmbito da terminologia da retóri-
ca) este vocabulário oferece-nos o mais significativo produto da
teorização linguística e poética daquele tempo, com grande relevo
para o critério purista e para a valorização da literariedade ao nível
da selecção lexical. Não teve reedições mas parece que era obra
muito procurada ainda no séc. passado (I. Silva 1858-1958, vol. 2,
135).
O Diccionario de consoantes (1784) de Miguel do Couto Guerreiro
(c. 1720-1793) é também um dos dicionários especiais auxiliares da
exercitação literária, que começaram a aparecer na lexicografia por-
tuguesa, a partir desta época. O apoio à prática versificatória era até
então procurado em obras estrangeiras, e nomeadamente no tratado
e glossário do espanhol Rengifo de que se conhecem exemplares
em bibliotecas portuguesas. O Dic. de rimas de Guerreiro vem inte-
grado num conjunto editorial com o título Tratado da versificação
portugueza, composto por três partes: um texto breve introdutório,
sobre a técnica versificatória, segue-se o dicionário que se estende
ao longo de 440 páginas (in 8º pequeno), e completa o volume um
breve texto posfacial, em verso, sobre a teoria poética. As listas in-
findáveis de formas (mais de 30.000), subordinadas pela sua estru-
tura rimática, poderão fornecer preciosas informações para a histó-
ria do vocabulário e do universo poético e também para a história da
língua, nomeadamente no que respeita à inovação e à criatividade
lexical. Sirva de exemplo o conjunto de formas subordinadas à rima
-ismo que anda pela meia centena. Este paradigma flexional iria de-
senvolver-se sobretudo no séc. XIX.
A lexicografia de apoio à exercitação poética foi preenchida nos
sécs. XIX e XX pela edição de vários dicionários de rimas (Eugénio
de Castilho, Costa Lima, Visconde de Castelões, Duque-Estrada,
Guimarães Passos – os dois últimos brasileiros) mas, até ao séc.
XIX, parece ter sido muito escassa a sua produção em Portugal. Do
final do séc. XVIII, ou um pouco antes, guarda-se manuscrito (Bibl.
Geral da Univ. de Coimbra, ms.1082) um rimário feito sobre toda a
obra de Camões (Verdelho 1984, 185).
Neste conjunto de lexicografia para-literária, caberá ainda uma re-
ferência aos dicionários de sinónimos que entraram no espaço me-
talinguístico português pela mão de Bluteau. Este notável patrono

30
da dicionarística portuguesa acrescentou à parte II do Suplemento
do Vocabulário (1728), um Vocabulario de Synonimos, e Phrases
Portuguezas composto por mais de 2.000 entradas. Bluteau reper-
cutiu em Portugal modelos recolhidos no contacto com o espaço
cultural das suas raizes (nomeadamente dos franceses: A. de
Montméran – Synonymes et Epythètes -1645, e Girard – Justesse de
la Langue Française. Traité de Synonymes -1718) e deu assim ori-
gem a uma especialização lexicográfica que tem uma assinalável
importância para a exercitação literária em língua portuguesa e que
foi continuada pelas obras do Cardeal Saraiva (1821), de José da
Fonseca e Inácio Roquete (1830/1850, teve numerosas reimpressões
até à actualidade), de Eduardo de Faria / Lacerda (1849/58), João
Felix Pereira (1885) e vários outros (Verdelho, E. 1981). Os dicio-
nários de sinónimos são expressamente orientados para o apoio à
escrita elaborada, literária ou para-literária. São obras “que o ho-
mem de bom gosto poderá consultar com fruto, e em que o literato e
o escritor público acharão mais recursos para variar a frase e dar
elegância ao estilo, do que em nenhum outro escrito deste género”
(Roquete, Introdução ao Dic. de Synonymos).

Lexicografia monolingue dos séculos XIX e XX


A produção lexicográfica monolingue portuguesa do século XIX
foi bastante abundante, sem todavia atingir um nível de qualidade e quan-
tidade comparável ao de outras línguas europeias. Numa apreciação glo-
bal, pode caracterizar-se pelos seguintes aspectos:

1) presença tutelar do dicionário de Morais Silva, que teve 7


reedições ao longo do século (1813, 23, 31, 44, 58, 77/78, 91),
sempre “acrescentadas e melhoradas”, segundo a declaração dos
editores, e que serviu de fonte e de modelo teórico para os res-
tantes dicionários ;
2) divulgação do dicionário de língua e sua adequação a manual
escolar;
3) aparecimento de alguns grandes dicionários portugueses;
4) escassa renovação teórica e insuficiente pesquisa lexicográfica
no âmbito da língua portuguesa.

31
6.1. O Dicionário da língua portuguesa composto por António de Mo-
rais Silva, ofereceu à lexicografia portuguesa um característico di-
cionário de língua, que se manteve até ao presente como exemplar
manifestação de uma persistente tradição lexicográfica voltada para
a recolha do léxico patrimonial e para a verificação do seu uso auto-
rizado. As sucessivas reedições limitaram-se a actualizá-lo com
acrescentos no domínio da nomenclatura e com mais algumas cita-
ções de novas palavras e frases que o “uso moderno dos bons escri-
tores de todo o género” foi adoptando. O autor participou neste pro-
cesso enriquecedor e actualizador, de maneira exclusiva até à 2a.
ed. e, de modo mais indirecto, na 3a. (1823), que saiu “mais correcta
e accrescentada de cinco para seis mil artigos” sob a revisão de Pedro
José de Figueiredo (1762-1826), e na 4a. (1831) que, saindo embora
póstuma, foi “reformada, emendada e muito acrescentada” com base
em manuscrito do próprio M. Silva, e “posta em ordem, correcta e
enriquecida de grande numero de artigos novos e dos synonimos”
por Teotónio José de Oliveira Velho (1776?-1837?). Estes reeditores,
que participaram de maneira activa no processo de mutação política
vivido em Portugal a partir de 1820, deram ao Dicionário um valor
testemunhal sobre a importante renovação do léxico da vida públi-
ca, das ideias e das instituições portuguesas.
O Dicionário de M. Silva, com um formato sempre volumoso, divi-
dido em 2 grossos tomos, deveria ser um livro caro, pouco acessível
ao público em geral e de manuseio pesado. Não deixou mesmo as-
sim de ter uma larga recepção como se pode constatar pelo reconhe-
cido sucesso editorial. e por testemunhos frequentes entre os escri-
tores e publicistas do séc. XIX (nomeadamente por Camilo Castelo
Branco) que o designavam simplesmente por “o Morais”, num pro-
cesso de antonomásia que revela bem a supremacia desta obra no
panorama dicionarístico português. Entretanto, a par deste e de ou-
tros dicionários de vulto, novas exercitações de lexicografia mono-
lingue são procuradas num mercado que se alarga consideravelmente
ao longo do séc. XIX, acompanhando a democratização da frequência
escolar e a generalização da comunicação pela escrita, com especial
relevo para a literatura romanesca e para o jornalismo.
6.2. Os dicionários práticos, funcionais e de fácil utilização, instituíram-
se, a partir do início do séc. XIX, como livros escolares e manuais
auxiliares do uso quotidiano da língua. O primeiro publicado em

32
Portugal foi o “Novo Diccionario da Lingua Portugeza, composto
sobre os que até o presente se tem dado ao prelo, accrescentado de
varios Vocabulos extrahidos dos Classicos Antigos, e dos Moder-
nos de melhor nota, que se achão universalmente recebidos. Lisboa,
na Typografia Rollandiana. 1806. Com Licença da Meza do De-
sembargo do Paço.” O autor anónimo, claramente motivado pelo
sentido prático da sua obra, esclarece, num breve prólogo (cabe na
página inicial), que, “seguindo o exemplo de bons Diccionaristas”,
omitiu neste dicionário “as numerosas citações e allegações que
occuparião huma boa parte do seu volume”, e limitou-se a “dar a
cada vocabulo as significações proprias e translatas, que se achão
em nossos classicos e são conhecidas dos eruditos”. Elaborou assim
um volume in 4º pequeno, que não vai além das 850 páginas, (não
tem numeração de página) e que oferece cerca de 30.000 entradas,
distribuídas, com grande legibilidade, em duas colunas. O anonima-
to poderá justificar-se pela indissimulável proximidade em relação
ao texto de M. Silva. Este dicionário teve pelo menos duas reedições
(1817 e 1835) e deu verdadeiramente início à lexicografia portugue-
sa monolingue de uso geral.
Nas origens da lexicografia monolingue portuguesa podem ainda
incluir-se: uma Encyclopedia Portugueza (1817) por N.P.O.S.D.E.S
(Nicolau Peres ?) que não passou do 1º.tomo; um Diccionario Uni-
versal da Lingua Portugueza “Por uma sociedade de Literatos” ini-
ciado em 1818 e retomado em 1845 e que ficou igualmente inacaba-
do (cf. infra, 6.3.1); e um Diccionario geral da lingua portugueza
de algibeira “por tres Literatos Nacionaes” (1818-1821). Esta obra
sofreu o desapreço de Inocêncio (cf. I. Silva, vol. 2, 136) e prova-
velmente também do público, porque foi necessário relançá-la com
o rosto de uma 2ª. edição fictícia datada de1839. Trata-se em todo o
caso de um interessante documento lexicográfico, pela época em
que foi feito, pela renovação e originalidade da nomenclatura (com
espaço criterioso para a erudição, para os tecnolectos e para a neologia
em geral), pela precisão das definições e até pela redacção dos arti-
gos.
A produção de dicionários portugueses transferiu-se entretanto, na
sua maior parte, e durante várias décadas, para França, e mais preci-
samente para Paris, procurando, provavelmente, suprir a ausência
de recursos tipográficos suficientes para corresponder em Portugal

33
à crescente solicitação deste género de textos. Esta circunstância
coincide com a estadia em França (onde já viviam ou passaram a
viver) alguns dos mais operosos dicionaristas portugueses, em con-
dições de alargado contacto com a lexicografia estrangeira e de ine-
vitáveis influências sobretudo francesas. Ali surgiram os decisivos
modelos dos dicionários práticos, publicados por José da Fonseca e
por Roquete, entre outros, e o primeiro dicionário etimológico da
língua portuguesa, assinado por Constâncio. Francisco Solano Cons-
tâncio (c. 1772-1846), que publicara já 4 eds. de um dicionário
bilingue (franc.-port. e port.-franc., 1811/20/28/34), editou também
um Novo diccionario critico e etymologico da Lingua Portugueza
(1836), um dic. “mais amplo, completo e util que os ja existentes,
posto que menos volumoso, e mais comodo no preço” (do texto
prefacial “Advertencia”). Trata-se de um volume in 4º grande, com
perto de mil páginas, que, na realidade, excede um pouco a expecta-
tiva de um dicionário prático, quer pela sua configuração, quer pe-
las características da sua composição e pelos elementos de informa-
ção linguística que valoriza, especialmente a abundante acumulação
sinonímica (“com reflexões criticas”), que preenche as glosas, e so-
bretudo a análise etimológica. Sobretudo neste aspecto, o dicionarista
revela um bom conhecimento da lexicografia europeia do tempo (a
própria designação de “etimológico” começa a aparecer em dicio-
nários franceses da década de 30). Cita na “Advertencia”, aludindo
à dificuldade de estabelecer boa doutrina etimológica, a obra do “pro-
fundo Horne Tooke” que “nem sempre acertou com a verdadeira
origem das vozes” e os “Diccionários inglezes de Johnson, e o re-
cente de M. Webster, em Francez a obra de Court de Gébelin e o
Diccionario de M. Dubois de Roquefort, o italiano da Crusca, assim
como o allemão de Wachter, e os trabalhos dos eruditissimos R. e H.
Etienne e do celebre Vossio.” Todavia, o trabalho de Constâncio
marca, neste ponto, e de um modo geral no respeitante à formação
das palavras, uma apreciada inovação na história da lexicografia
portuguesa. Sendo uma obra mista entre o prático e o erudito, pode
considerar-se, em todo o caso, mais próxima do dicionário manual,
e assim foi interpretado pelo público, visto que a solicitação comer-
cial lhe garantiu mais de uma dezena de edições (quatro até 1852).
A obra mais divulgada da lexicografia portuguesa parisiense e que
pode ser tomada como referência modelo dos dicionários práticos,

34
escolares, foi o Diccionario da Lingua Portugueza de José da Fon-
seca, “feito inteiramente de novo e consideravelmente augmentado,
por J.-I. Roquete”, publicado em 1848. José da Fonseca (c.1788-
1866) assinara já antes (Paris 1829) a publicação de um Novo Dic-
cionario da Lingua Portugueza, recopilado de todos os que até o
presente se tem dado a luz”. Este dicionário foi reproduzido em va-
rias reimpressões sem alteração (1830, 1831, 33, 36, 40, 43) e acom-
panhado, a partir de 1833, por um Diccionario de Synonymos, do
mesmo autor como se fosse um 2º.vol. de uma única obra. Mas foi
certamente José Inácio Roquete (1801-1870), apresentado como
segundo autor, o principal responsável pela qualidade e funcionali-
dade do novo dicionário, publicado a partir de 1848, juntamente
com o 2º vol. – Diccionario dos synonymos, poetico e de epithethos
da lingua portugueza. Os dois volumes mantiveram sempre uma
certa autonomia. O 2º. tem sido profusamente reeditado até aos nos-
sos dias, mas o 1º., que especialmente agora nos interessa, parece
ter sido a obra que melhor correspondeu ao uso quotidiano, à solici-
tação popular e à institucionalização do estudo da palavra, no ensi-
no secundário liceal. O seu espaço de recepção alargou-se muito
para além dos “amantes da Litteratura Portugueza” (que os editores
do Dic. de M.Silva identificavam como seus destinatários ), e, se-
gundo o esclarecimento do autor, no “Prologo”, passou a integrar “o
homem de sociedade, o estadista, o orador parlamentar, o advoga-
do, o publicista, o commerciante, o estudante de humanidades que
não têem tempo para longas investigações”. Todos estes devem dis-
por “d’um diccionario que lhes explique succintamente a significa-
ção das palavras portuguezas, e em que achem promptamente o que
basta para bem conhecer a sua lingua e evitar frequentes erros”.
Roquete assumiu no “Prologo” da sua obra, a concepção do manual
essencialmente utilitário : “Se o primeiro livro d’uma nação é, como
disse um sabio francez, o diccionario de sua lingua, o livro de mais
geral utilidade sera um diccionario manual em que, sem omittir ne-
nhum dos vocabulos antigos e modernos, que são verdadeiramente
da lingua, se offereção aos nacionaes em volume commodo e porta-
til todas as accepções de bom cunho, desembaraçadas de muitas
antiquadas e obsoletas que tanto pejão os diccionarios maiores, e
que o illustrado uso tem reprovado como superfluas e de mao gos-
to”. O Dicionário de Roquete, com as suas 50.000 entradas, com a

35
simplificação dos artigos, com uma renovada informação gramati-
cal (que inclui, entre outros aspectos, os regimes e as conjugações
dos verbos irregulares), com uma opção ortográfica moderna e exem-
plar, com um preço certamente acessível (visto que foi reimpresso
durante anos sucessivos, pelo menos até 1875), tornou-se o mais in-
fluente modelo para esta abundante produção dicionarística, que ge-
neralizou o uso do dicionário na escola, em casa e nos locais de traba-
lho. Eça de Queirós, dizem, manuseava o “Roquete” com assiduidade.
Ainda em Paris, entre 1858 e 1879, foi impresso e reimpresso, em
formato de bolso, um “Novo diccionario portatil da lingua portugue-
za, compilado dos diccionarios mais modernos”, sob a direcção de
Miguel Martins Dantas († 1910). Trata-se de um dicionário de sinóni-
mos. Os artigos são preenchidos de modo esquemático com equiva-
lências sinonímicas, recorrendo raramente a uma simplificada redacção
lexicográfica para explicar as palavras de significação gramatical.
A tradição dos dicionários de língua breves e leves teve, no final do
século passado e no início do presente, um renovado impulso, espe-
cialmente motivado pela discussão ortográfica, pela actualização dos
estudos filológicos e linguísticos, e sobretudo pelo incremento da
escolarização. A par da designação geral de “Dicionários da língua
portuguesa”, apresentam em subtítulos um conjunto de qualifica-
ções que apontam no sentido da valorização das informações lin-
guísticas (“etimológico”, “morfológico”, “ortoépico”, “ortográfico”,
“prosódico”), da sua orientação escolar (“académico”, “elementar”,
“do estudante”, “escolar”) e da sua acessibilidade comercial (“po-
pular”, “portátil”, “prático”). Poderão citar-se, neste âmbito, entre
vários outros, os trabalhos de António José de Carvalho (?) e João
de Deus (1830-1896), Francisco Adolfo Coelho (1847-1919), Agos-
tinho de Campos (1870-1944), Francisco Torrinha (1879-1955),
Augusto Moreno (1870-1955).
6.3. A divulgação do dicionário de língua e a sua adequação ao uso quo-
tidiano e à exercitação escolar, constitui o facto mais relevante na
história da lexicografia portuguesa dos séculos XIX e XX. O dicio-
nário, omnipresente e sempre disponível, instituiu-se como texto
fortemente padronizador da língua e como chave de acesso à signi-
ficação de um vocabulário cada vez menos apoiado pela aprendiza-
gem do latim, e cada vez menos imposto como exercício de memó-
ria, na programação escolar.

36
A democratização do dicionário não esgotou, todavia, a reelaboração
e o aprofundamento da pesquisa lexicográfica sobre a língua portu-
guesa. Em Portugal surgem, a partir da segunda metade do séc.XIX,
alguns dicionários que, sem atingirem dimensões impressionantes,
podem ser considerados grandes, tendo em conta o espaço editorial,
científico e nomeadamente o modesto investimento filológico no
âmbito dos estudos da língua portuguesa. Entre eles, além do dic. de
M. Silva, acima referido, podem incluir-se o Novo diccionario da
lingua portugueza (1849) de Eduardo Faria e a correspondente
sequência editorial de José Maria de Araújo Correia de Lacerda; o
Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza
(1871/74) iniciado pelo Dr. Frei Domingos Vieira; o Diccionario
Contemporaneo da Lingua Portugueza (1881) feito sobre um plano
de Francisco Júlio Caldas Aulete; o Diccionario Universal Portuguez
Illustrado (1882ss.) editado por Henrique Zeferino de Albuquerque;
o Novo Diccionario da Lingua Portuguesa (1899) por Cândido de
Figueiredo; o Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa
(1948/52/58) por Artur Bivar; e o Grande Dicionário da Língua Por-
tuguesa (1949/59) sob o nome autoral de António de Morais Silva.
Estudos monográficos sobre a elaboração destes dicionários (até
agora quase totalmente inexistentes), e em especial sobre os proble-
mas suscitados pela sua dispendiosa confecção material, muito po-
deriam contribuir para o esclarecimento da história da tipografia
portuguesa e para a compreensão do ambiente cultural e em espe-
cial da linguisticografia. Estas obras, ainda que possam ser relacio-
nadas com modelos da lexicografia estrangeira, afirmam uma certa
originalidade no espaço linguístico português. Têm entre si valor
desigual e características muito diferentes, e pode dizer-se, numa
apreciação global, que preenchem com bastante mérito, a lexicogra-
fia de uma língua que não chegou a produzir, durante dois séculos,
um dicionário completo de academia.

Dicionários universais

Entre o conjunto de obras citadas, a que oferece menos originalida-


de é o dic. universal, editado por H. Z. de Albuquerque, coordenado e
revisto primeiro por Francisco de Almeida (1838-1918) e a partir do 2º

37
tomo por José Fernandes Costa Júnior (1848-1920), é um trabalho de tipo
enciclopédico, como o título indica, e não especificamente linguístico. Foi
elaborado segundo o plano do Larousse, traduzindo em grande parte o tex-
to francês. Teve todavia, a colaboração de “principaes escriptores” portu-
gueses (entre os quais Camilo C. Branco que louvou publicamente a reali-
zação) e brasileiros. Por sua vez, a informação linguística, lexicográfica e
gramatical, parece bastante criteriosa e abundante, com algum excesso de
terminologias técnicas. A relação com os dicionários Larousse continuar-
se-ia, na lexicografia portuguesa com o Novo Diccionario Encyclopedico
Luso-Brasileiro organizado e publicado pela Livraria Lello em 2 vols. e
com muitas reedições.
Outros dicionários universais foram publicados em Portugal. Al-
guns ficaram incompletos, mas reuniram ainda assim, um material lexico-
gráfico considerável. O primeiro de entre eles foi o “Diccionario Univer-
sal da Lingua Portugueza, no qual se acham: -1º Todas as vozes da lingua
portugueza antigas e modernas, accentuadas segundo a melhor pronuncia,
com as diversas accepções, etc. -2º os nomes proprios da fabula, historia e
geographia antiga. -3º todos os termos proprios das artes, sciencias, officios,
etc. -4º a etymologia das palavras, etc.” (Lisboa, na Imp. Régia, distribuído
por cadernos, com interrupções entre 1818 e 23) parece ter terminado na
letra E- (“Ezteri...” p. 895). Dizia-se feito “por uma sociedade de litteratos”
e julga-se que a edição foi inicialmente empreendida por Nicolau Perez
(espanhol) e continuada por Inocêncio da Rocha Galvão († c. 1864 no Rio
de Janeiro).
Um segundo Diccionario Universal da Lingua Portugueza começou
a ser publicado em 1844, (Lisboa, tip. António José da Rocha), por iniciativa
do editor José António Coimbra, e sob coordenação e redacção de Pedro
Ciríaco da Silva († c. 1856) que tinha já colaborado no de 1818. A obra foi
distribuída em “cadernetas” soltas com grandes interrupções até, pelo me-
nos, 1859. Terá terminado pela letra L-, aquém das 1800 páginas.
O dicionário de Eduardo de Faria (1823-1860?) anunciava-se tam-
bém como um dicionário universal, logo na página de rosto, em que, a par
da informação linguística, naturalmente predominante (completada por um
dic. de sinónimos anexado a quase todas as edições), se acrescentava tam-
bém, além das terminologias técnicas e científicas, uma nomenclatura
toponímica – “Contendo todas as vozes da lingua portugueza, antigas ou
modernas, com as suas varias accepções, acentuadas conforme à melhor
pronuncia, e com a indicação dos termos antiquados, latinos, barbaros ou

38
viciosos. – Os nomes proprios da geografia antiga e das principais terras
de Portugal. – Todos os termos proprios das sciencias, artes e officios, etc.,
e sua definição analytica.” A informação enciclopédica era muito diminuta
nesta primeira edição. Todavia, a obra, não obstante a inospitalidade críti-
ca com que foi recebida, beneficiou de uma importante e inopinada divul-
gação com 7 reedições entre 1849 e 1874 (uma no Brasil). Correspondendo
à crescente procura do público pela informação histórico-literária (verifi-
cava-se, nesse tempo, uma grande rarefação e carência de lexicografia en-
ciclopédica em Portugal, até Garrett foi convidado, em 20/1/1843, para
cooperar na feitura de uma enciclopédia), os editores alargaram a nomen-
clatura histórica, literária, e enciclopédica em geral, com prejuízo da infor-
mação linguística. Nas últimas duas edições, assinadas por D. José M. A.
A. Correia de Lacerda, (que reelaborara já grande parte do texto de Faria,
desde a ed. de 1858) a obra passou mesmo a ser apresentada com o título
de “Diccionario Encyclopedico ou Novo Diccionario da Lingua Portu-
gueza, para uso dos portuguezes e brazileiros, o mais exacto e mais com-
pleto de todos os Diccionarios até hoje publicados.” E. de Faria (sem es-
crúpulos de atribuição de autoria e de propriedade literária, segundo a
opinião dos seus contemporâneos) compôs um característico dicionário de
acumulação de nomenclaturas, como ele próprio confessa no “Prologo”:
“Reuni todos os Diccionarios Portuguezes que pude alcançar e tomando
por base o melhor de entre elles, acrescentei-lhe todos os termos que não
continha e que achei nos outros”. Os artigos não têm citações, mas ofere-
cem, por vezes, boas análises do espectro semântico dos lexemas. A obra
foi muito censurada por jornalistas e estudiosos do tempo (entre outras
“accusações gravissimas” considerou-se o trabalho “uma compilação feita
ao acaso”, denunciou-se o excessivo aproveitamento do francês Bescherelle,
anotaram-se “definições confusas, muitas vezes defeituosas nas significa-
ções dos vocabulos, e disparatadas quasi sempre nas dos termos technicos
ou scientificos; contradições flagrantes nas etymologias; etc.”; cf. I. Silva
1858-1958, vol. 2, 222), mas não deixou de marcar uma forte presença no
espaço dicionarístico português, e pode ser tomada como um excelente
repositório para a história da língua e do vocabulário da técnica e da ciên-
cia nos meados do séc. XIX.
A última grande tentativa portuguesa de elaboração de um dicioná-
rio universal teve lugar ja no inicio do séc. XX. Trata-se da Encyclopedia
Portugueza Illustrada dirigida por Maximiano Augusto de Oliveira Lemos
(1860-1923). Ao longo de 11 grandes volumes dá entrada a uma larga no-

39
menclatura linguística com indicação de muitas etimologias, com registo
de frases fixas e com bastantes abonações.
As últimas grandes tentativas portuguesas de elaboração de grandes
dicionários universais tiveram lugar já no início do séc. XX. Salientamos
entre eles a Encyclopedia Portugueza Illustrada (cf. Lemos s. d.) dirigida
por Maximiano Augusto de Oliveira Lemos (1860-1923). Ao longo de 11
grandes volumes dá entrada a uma larga nomenclatura linguística com in-
dicação de muitas etimologias, com registo de frases fixas e com bastantes
abonações. Com o mesmo número de volumes, foi publicado em fascícu-
los, ao longo da 2a década, e destinado a um público popular, um Dicciona-
rio Universal Illustrado Linguistico e Encyclopedico, dirigido por Eduar-
do de Noronha, em que são predominantes a informação e nomenclatura
enciclopédicas (cf. Noronha s. d.).
Poderá ainda acrescentar-se uma referência à Grande Enciclopédia
Portuguesa e Brasileira que é também um dicionário de língua e que ini-
ciou a publicação em 1935, prolongando-se por 40 volumes até 1960.

Dicionario tesouro de Domingos Vieira.

A obra mais volumosa, de mais trabalho original e mais especifica-


mente linguística, entre a lexicografia portuguesa do séc. XIX, é o Grande
Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza pelo Dr. Frei
Domingos Vieira († 1854), publicado em 5 vols., no Porto, pelos livreiros
Ernesto Chardron e Bartolomeu H. de Moraes, 1871 (aliás 1872), 1873, e
1874. O manuscrito de D. Vieira foi retomado, concluído e preparado para
publicação por um conjunto de colaboradores, entre os quais foram dados
a conhecer os nomes de Adolfo Coelho (1847-1919), já então conceituado
como um dos “introdutores da ciência filológica em Portugal”, e de Teófilo
Braga (1843-1924).
O dicionário apareceu a público, anunciado como um trabalho de
ciência renovada. O 1º tomo abre com dois importantes textos de informa-
ção teórica e histórica, de cada um destes autores, respectivamente: “Sobre
a lingua portugueza” e “Sobre litteratura Portugueza”. No início do 2º tomo,
de modo a “não engrossar” a introdução do 1º, apresenta-se uma
“Chrestomathia historica da lingua portugueza”. Estes textos, ainda que
apresentados com uma certa autonomia em relação ao “corpus” lexicográ-
fico, pressupõem entre os objectivos da organização do dicionário, um es-

40
clarecido predomínio da componente linguística e simultaneamente a es-
colha do texto patrimonial, com relevo para o literário, como fonte privile-
giada para a pesquisa e caracterização do fundo lexical da língua portugue-
sa. A nomenclatura aparece multiplicada com formas flexionadas de vários
lexemas, documentadas frequentemente em extensas textualizações literá-
rias. Um verbo, por exemplo, pode dar lugar a uma série de entradas, a
partir das suas flexões, para além da forma do infinitivo, que se distribuem
pela respectiva ordem alfabética, com as suas glosas plenas de abonações
de “bons autores”.
Também esta obra suscitou ásperas dissensões no ambiente cultu-
ral português, mas a maioria dos literatos receberam-na auspiciosamente.
Camilo C. Branco é um dos apologistas, observa que Fr. D. Vieira deixa-
ra o trabalho apenas bosquejado “e muito longe da sua plenitude em rela-
ção a este nosso tempo muito mais exigente em estudos filologicos do
que na epoca em que o douto frade organisava o seu vocabulario” e acres-
centa, justificando a excessiva extensão das transcrições que autorizam
algumas formas: “Quem procura aquilatar o valor proximo e remoto da
propriedade de um termo, de certo se não enfada com vel-o repetido e
abonado com a authoridade de vários authores. Esta satisfação é uma das
grandes benemerencias do Grande Diccionario”. (Primeiro de Janeiro
1875, 1 de Abril).
Entre as críticas da época, além da incriteriosa aceitação de formas
“hapax” como “abrixa” e “agudar”, a que mais avulta é a que lhe atribui
uma excessiva dependência da informação etimológica alheia e das defini-
ções do francês Littré.
O Grande Dicionario de D. Vieira, no que respeita à sua técnica
lexicográfica, sofre de uma certa disformidade na selecção e estruturação
da nomenclatura e no equilíbrio das citações (tão extensas que, mais do
que um dicionário, parece às vezes uma antologia literária), e ainda neste
aspecto, o que mais lhe retira modernidade e lhe prejudica o seu aproveita-
mento actual é a deficiente qualidade e a insegurança no que respeita à
lição do texto patrimonial citado nas abonações. Os autores estavam con-
dicionados por um leque de edições pouco cuidadas sob o ponto de vista
filológico, e em número relativamente reduzido, se atendermos ao espaço
escritural da língua portuguesa entretanto recuperado.

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Dicionario contemporaneo Caldas Aulete.

Publicado em 1881, em Lisboa na Imprensa Nacional, o “Dicciona-


rio Contemporaneo da Lingua Portugueza – Feito sobre um plano inteira-
mente novo”, foi o primeiro grande dicionário do séc. XIX que se manteve
no mercado até à actualidade. Foi na sua maior parte elaborado por António
Lopes dos Santos Valente (1839-1896), dando seguimento a um plano de
Caldas Aulete (1823-1878) que faleceu quando a redacção do dicionário que
ele dirigia tinha apenas chegado ao final da letra “A”. O seu nome ficou
todavia a prevalecer como referência autoral. No texto introdutório (23 pági-
nas longas), sob o título de “Plano”, Caldas Aulete esboça uma incipiente
reflexão lexicográfica que merece leitura, sobretudo pelo diagnóstico crítico
sobre “o estado em que se acham os estudos da sciencia lexicologica” portu-
guesa. Trata-se de uma análise breve e não sistemática, nela se comparam
excertos dos dicionários de Roquete, de Lacerda e de Morais, e se recolhem
ainda muitos exemplos de erros de nomenclatura e de definições deficientes,
repetidos em sucessivas edições, visto que os “diccionarios portuguezes ge-
ralmente adoptados no uso e no ensino são machinalmente copiados uns dos
outros” (p. I). Este texto prefacial de Aulete (suprimido em todas as edições
subsequentes), define alguns objectivos do trabalho e adianta esclarecedoras
informações sobre as suas características, nomeadamente no que respeita ao
âmbito muito alargado da sua nomenclatura. Não se trata de “um diccionario
exclusivamente classico”, limitado aos “vocabulos abonados pelos mestres
da lingua”, pelo contrário, acolhe “os neologismos sanccionados pelo uso e
pela necessidade, e os termos technicos, que, com o desenvolvimento da
instrucção publica, tem passado para a litteratura e para a linguagem da con-
versação” e também “os archaismos, que com mais frequencia se encontram
nos classicos dos seculos XVI e XVII, e aquelles que são radicais de pala-
vras derivadas existentes na lingua actual” (p. I). Na explicitação do “plano”,
o autor distingue 4 “secções “ ou parâmetros lexicográficos (p. XVI/XXIII).
1) A “formação” das palavras, que inclui a via popular, a via literá-
ria (erudita), e ainda os estrangeirismos, os neologismos resul-
tantes do percurso histórico da língua, a onomatopeia, e as ter-
minologias da ciência e da técnica. A propósito da “formação”,
reflecte-se também sobre a analogia e sobre a etimologia.
2) A “orthografia” que se pretende predominantemente “fonética”
para as “palavras populares” e “etymologica” para os “termos de
origem erudita e historica”.

42
3) A “pronunciação”, para a qual se invoca a autoridade de António
J. Viale e Gonçalves Viana, e que se baseia no princípio simplista
e tradicional, lapidarmente enunciado: “São as pessoas eruditas
e illustradas da corte as que dão a lei e estabelecem o typo da
mais aprimorada pronunciação das linguas”. Parece ter tido es-
cassa repercussão na feitura do dicionário .
4) A “significação” que se limita a uma brevíssima reflexão sobre
as variações diacrónicas e estilísticas.
Além destes aspectos, o “plano” acrescenta ainda algumas orienta-
ções para o tratamento da restante informação de índole gramatical e lexi-
cográfica.
O dicionário de Caldas Aulete pode caracterizar-se em relação à
dicionarística do seu tempo, por uma importante actualização da nomen-
clatura lexical da língua portuguesa, por um esforço de rigor na utilização
e nas referências das abonações, pela informação etimológica e gramatical
e por uma cuidadosa classificação das variedades diacrónicas, geográficas
e estilísticas. O seu mérito pode em parte ser aferido pelo sucesso editorial.
Teve as três primeiras edições em Portugal (1881, concluída por Santos
Valente; 1925, sob a direcção de J. Timóteo da Silva Bastos; 1948/52,
actualizada por Vasco Botelho de Amaral e Frederico Guimarães Daupiás)
e, pelo menos 5 edições no Brasil, a partir de 1958, consideravelmente
aumentadas.

O Novo diccionario da lingua portuguesa de Cândido de Figueiredo

Publicado justamente no fim do século, completa o ciclo dos dicio-


nários de acumulação, que se caracterizam pela excessiva valorização da
quantidade da nomenclatura. Neste dicionário, segundo o testemunho do
autor, na “Conversação preliminar”, retomam-se muitos textos do patri-
mónio escritural português ainda inexplorados pelos dicionaristas anterio-
res, especialmente de autores de teatro (António Prestes, Jorge Ferreira de
Vasconcelos, Simão Machado), de autores modernos (José Agostinho,
Castilho, Latino, Herculano, Camilo) e outros (“Só em Antonio Vieira, se
me depararam mais de quatrocentos vocabulos, que eu nunca vira em di-
cionarios. Em Gil Vicente e Filinto, mais numerosa foi ainda a
colheita”.”Conversação preliminar” VIII). Cândido de Figueiredo (1846-
1925) alargou consideravelmente o espaço de inventariação do léxico por-

43
tuguês, pesquisando, além dos clássicos e das palavras de boa nota, todos
os arredores marginais da língua culta comum (“nada desperdicei do que
fui colhendo: arcaismos e neologismos, derivações violentas e até erroneas,
termos de significação duvidosa ou obscura, tudo alphabetei e reproduzi,
julgando cumprir um dever”, ib. VIII). Especialmente abundante foi a re-
colha de vocabulário coloquial e popular (“a linguagem popular mereceu-
me longos e especiais cuidados, que reverteram na colheita de mais de
quatro mil vocabulos e locuções, que não andavam nos diccionarios”, ib
VII); de regionalismos (“provincianismos” na terminologia do autor); de
“brasileirismos”; e de terminologias da “technologia scientifica”.
A abundância da nomenclatura, que logo na primeira edição se ele-
vava a cerca de 110.000 entradas, distribuídas a duas colunas por dois vols.
com 781 e 860 páginas (“muito mais de quarenta e quatro mil vocabulos,
que não entraram nos mais recentes e menos imperfeitos dicionarios da
lingua” – vol. 2, 879), é acompanhada pela ausência quase geral de cita-
ções e por uma grande simplificação dos artigos, mantém todavia a infor-
mação gramatical e etimológica. O redactor socorre-se de uma tabela de 237
classificadores ou descritores, explicitados na “Chave de signaes e abrevia-
turas” apresentada no início do 1º. volume, para facilitar a estruturação da
glosa. Cândido Figueiredo retocou e ampliou ainda o seu dicionário nas edi-
ções seguintes (2-1913; 3-1920/22) até à 4a. publicada já postumamente, em
1926, mas ainda “corrigida e copiosamente ampliada” pelo autor, de modo
que atingiu para cada volume 1110 e 1014 páginas com mais de 136.000
entradas e ainda dois apêndices onomásticos: um “Indículo alphabético de
vários nomes geográphicos” e um “Appendículo alphabético de vários no-
mes próprios pessoais, antigos e modernos”. A obra foi ulteriormente revista
e acrescentada por J. Guimarães Daupiás e teve já cerca de 30 eds..

Dicionário geral e analógico da língua portuguesa de Artur Bivar

O Dicionário geral e analógico de Artur Bivar (1881-1946) foi pu-


blicado postumamente, sob a coordenação de Manuel dos Santos Ferreira
e Maria Vitória Garcia dos Santos Ferreira. Compõe-se de duas partes
publicadas separadamente mas planeadas para serem utilizadas de modo
interligado. A primeira é o “dic. geral”, que ocupa dois grossos volumes de
cerca de 1500 p. cada um (1948 e 1952), e que retoma, com leitura e redacção
cuidadas, a nomenclatura e a substância lexical dos dicionários de Cândido

44
Figueiredo e de Caldas Aulete. É um dicionário que pode ser qualificado
de tradicional. A segunda parte é o “dicionário analógico”, um grosso vo-
lume de cerca de 1800 p. (1958), que oferece, de modo inédito na história
da lexicografia portuguesa, uma tentativa de hierarquização semântica do
“corpus” lexical. A estrutura lexicográfica aproxima-se de um classifica-
dor enciclopédico. Todo o universo verbalizável, é organizado em grandes
âmbitos semânticos (“noções gerais” / “matéria” / “matéria e espírito – o
homem” / “espírito”) que se subdividem em capítulos, secções e alíneas,
num processo de análise e de crescente atomização, partindo do geral para
o particular, de modo prático e sem constrangimento de doutrinas lógicas
ou filosóficas. As definições breves são acompanhadas pela acumulação
de formas semanticamente relacionadas: sinónimos, parassinónimos,
hiperónimos, antónimos, etc. “Em vez de traduzir palavras por outras pala-
vras, numa sequência de puras tautologias inventariadas alfabeticamente,
o dicionário analógico ordena o seu recheio por famílias de ideias, sugerin-
do ao mesmo tempo as expressões que as traduzem em todas as modalida-
des. Partindo da ideia para a palavra, resolve uma dificuldade muito maior
e mais frequente que a de seguir da palavra para a ideia. O processo de
agrupamento utiliza a analogia – daí lhe vem o nome, a analogia de caracter
semântico, dispondo em torno de uma ideia central todas as que lhe estão
ligadas por conexão, quer dizer pelas relações de contiguidade espacial e
temporal, de sinonímia e antonímia, de variação, de tantas outras cujos
liames a psicologia estuda no capítulo “associação de ideias” (Gaspar Ma-
chado, “Prefácio”). O dicionário analógico é indexado por uma numeração
que se encontra referenciada nos artigos e nas acepções do dic. geral, per-
mitindo uma fácil remissão entre as duas partes.
Este dicionário parece particularmente adequado para o apoio à ela-
boração de texto escrito. Todavia, a sua volumosa configuração, devida
sobretudo ao excessivo peso das terminologias técnicas e científicas, difi-
culta o seu manuseio e retira-lhe grande parte da funcionalidade que costu-
ma caracterizar os dicionários deste género. E assim, não obstante a sua
originalidade, tem sido uma obra sem sequência editorial e, ao que julga-
mos, com escasso aproveitamento.

Grande dicionário da língua portuguesa – António de Morais Silva


A “10a. edição revista, corrigida, muito aumentada e actualizada”
(12 vols. 1949-59) do Grande dicionário da língua portuguesa constitui

45
uma das últimas e, até ao momento, a mais importante realização da dicio-
narística portuguesa. Foi levada a cabo por Augusto Moreno (1870-1955,
assinala-se o seu falecimento a partir do vol. IX), José Francisco Cardoso
Júnior (1884-1969), teve também a seu cargo a “secção lexicográfica” da
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) e José Pedro Machado (1914,
que foi o mais operoso dicionarista português do século XX), retomando a
obra do velho mestre do séc. XVIII, e acumulando a informação de grande
parte da lexicografia subsequente. Colige uma abundantíssima nomencla-
tura (306.949 entradas), e assume-se como um dicionário geral da língua
portuguesa, autorizado e acentuadamente histórico. Oferece ainda a mais
completa análise de acepções e a mais extensa recolha de “unidades
vocabulares compostas”, conjuntos locucionais, sintagmas fixos, formas
proverbiais, etc.. O aspecto mais meritório deste empreendimento é justa-
mente o da textualização sistemática e medianamente rigorosa do léxico
português, variando e referenciando as abonações, recolhidas num alarga-
do património escritural pancrónico, em que abundam também os autores
modernos, portugueses e brasileiros. O XII volume compõe-se de uma
“Adenda” onde se reedita o Epítome de Gramática Portuguesa de António
de Morais Silva, seguido do texto do Acordo Ortográfico de 1945 e de uma
série de vocabulários com destaque para o Vocabulário Onomástico e para
uma Adenda de Novos Vocábulos e Sentidos Novos em Vocábulos
Registados. A obra esgotou-se com relativa rapidez no mercado livreiro
(teve uma tiragem de 5.000 exemplares) e não foi reeditada. Sob pretexto
de manuseabilidade, foi lançada a público uma versão parcial, designada
“compacta” (“Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa. Edição
compacta do texto fundamental do Grande Dicionário da Língua Portu-
guesa, segundo a 10a. edição revista...”) que é pouco menos que uma frau-
de editorial, porque se excluíram dela totalmente as abonações, mantendo
uma configuração de 5 pesados volumes com uma nomenclatura entumes-
cida por uma grande quantidade de vocabulários especializados, de utili-
dade duvidosa, e que lhe retiram funcionalidade. Esta edição teve, entre-
tanto, varias reimpressões.

Dicionário da Academia (1976: vol. I, A-Azuverte)

Com a 2ª ed. do Dicionário da língua portuguesa, a Academia das


Ciências de Lisboa iniciou, em 1976, uma nova tentativa de publicação de

46
um dicionário autorizado, institucional, da língua portuguesa. Tal como
em 1793, este empreendimento, ambiciosamente concebido, não passou
do 1º. vol. (678 p.) e foi suspenso antes de entrar na letra “B”. O plano fora
apresentado por Jacinto do Prado Coelho, em Sessão Plenária da Acade-
mia (9/7/59), e foi depois inserido, com algumas alterações, entre os textos
introdutórios do volume. Previa a elaboração de um “dicionário selectivo”
da língua portuguesa contemporânea (sécs. XIX e XX), constituído por 3
vols. duplos, num conjunto de 6 tomos. Ficou como texto documental,
juntamente com toda a obra, a testemunhar, pela sua expectante incomple-
tude, a necessidade, até então não preenchida, de um dicionário da língua
portuguesa contemporânea, “literária e corrente” e de um “dicionário da
língua literária clássica” que servisse para manter a intercomunicação com
o património literário português, um “dicionário académico” que “deveria
utilizar largamente as autoridades da língua para abonar e concretizar o
mais possível as acepções, os valores estilísticos e as circunstâncias contex-
tuais do emprego” (p. XII). Um novo projecto do dicionário da Academia,
coordenado por Malaca Casteleiro, foi entretanto concluído e publicado
em 2001 com o título: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea
da Academia das Ciências de Lisboa.

Dicionários de especialização linguística e outros aspectos


da lexicografia atual
A lexicografia portuguesa é uma das mais modestas entre as gran-
des línguas europeias. Não foi considerada, nesta resenha panorâmica, a
produção do Brasil, que deve ser também apreciada como um contributo
interessante para ampliar o espólio dicionarístico da língua portuguesa.
Actualmente, o trabalho lexicográfico, em Portugal, como um pouco por
todo o mundo, está implicado num processo de grandes transformações,
condicionadas pelo rápido desenvolvimento das tecnologias de pesquisa e
de tratamento informático. Entretanto a especialização das ciências da lin-
guagem tem propiciado novas vias de análise do “corpus” léxico-gramati-
cal, e tem dado lugar a uma elaboração dicionarística diversificada em fun-
ção de objectivos específicos. A investigação lexicográfica tem sido
orientada no sentido de produzir múltiplos instrumentos de apoio à escola-
rização da língua, ao estudo da sua história, ao levantamento das seriações
e dos sistemas paradigmáticos, ao reconhecimento estatístico do vocabulá-

47
rio mais frequente do uso comum, e ainda a um renovado acesso ao patri-
mónio escrito e nomeadamente ao texto literário, indexando de modo exaus-
tivo o “corpus” lexical de vários textos, de modo a facilitar a sua análise
histórica, estilística e poética, detectando incidências e coincidências até
ao nível dos microsignificantes. No âmbito desta diversificação fecunda,
ainda que muito menos ampla do que seria de esperar, devem referenciar-
se alguns trabalhos que se destacam pela sua divulgação ou pela sua origi-
nalidade e pelo seu interesse científico.
7.1. A ortografia, a uniformização e fixação das soluções ortográficas, e
o apoio ao ensino e à pratica normalizada, preenchem o domínio
mais abundante da lexicografia linguística especializada portugue-
sa. A demora em instituir um código ortográfico oficial e legalmen-
te sancionado (a primeira lei ortográfica portuguesa é de 1911), e as
sucessivas discussões e alterações a que foi sujeito, até ao presente,
explicam bem a dificuldade em induzir uma consciência linguística
uniformizadora ao nível da prática individual da escrita. Assim, até
à reforma ortográfica de 1911, publicaram-se listas e vocabulários
ortográficos propondo soluções optativas de escrita. A obra mais
completa, mais bem fundamentada, e que teve mais influência na
ulterior oficialização da ortografia, foi o Vocabulário ortográfico e
ortoépico da língua portuguesa (1909) de Aniceto dos Reis Gon-
çalves Viana (1840-1914) que apresenta ao longo das suas 900 p.
cerca de 80.00 formas, acompanhadas de uma esquemática infor-
mação gramatical e de eventuais indicações ortoépicas.
Entretanto, merecem também citação, neste âmbito, pelo seu inte-
resse metalexicográfico, obras como: o Diccionario da maior parte
dos termos homonymos... (1842) de António Maria do Couto (1778-
1843); a Chave dos dicionarios (1892), “por meio da qual se podem
procurar todas as palavras nos dicionarios , e se obtem a ortografia
dos vocabulos em todas as linguas, segundo o plano de P. Boissière,
adaptada à indole e usos nacionais”, por A. P. do Amaral; e ainda o
Diccionario Homophonologico da Lingua Portuguesa (1901), “(uni-
co no genero em Portugal). Colligido, coordenado, annotado e exem-
plificado, em harmonia com os mais recentes trabalhos orthoepicos,
glottologicos, orthographicos, etymologicos, linguisticos, onoma-
tologicos e logotechnicos”, por Augusto Pinto Duarte Vasconcelos.
São trabalhos expressamente destinados a superar a relativa anar-
quia ortográfica que dificultava o acesso aos próprios dicionários.

48
Depois da reforma ortográfica de 1911, a Academia das Ciências de
Lisboa publicou, sob a direcção de Francisco da Luz Rebelo Gon-
çalves (1907-1982), um cuidadoso Vocabulário Ortográfico da Lín-
gua Portuguesa (1940). Regista, na primeira parte, cerca de 140.000
entradas de vocabulário comum, com a respectiva informação gra-
matical e algumas indicações ortoépicas, na segunda parte acres-
centam-se 17.000 entradas de nomes próprios. Este vocabulário foi
aceite como referência normalizadora para a fixação da nomencla-
tura em quase todos os dicionários escolares e práticos publicados
após a sua divulgação. A Academia publicou ainda, na sequência de
uma recomendação da Conferência Luso-Brasileira (Protocolo de
encerramento de 6 de Outubro de 1945, nº 3), um Vocabulário Orto-
gráfico Resumido da Língua Portuguesa (1947, reed.1970), aceite
também pela Academia Brasileira de Letras, que deveria constituir
“o inventário das palavras básicas da Língua e o prontuário das alte-
rações da escrita portuguesa consequentes do entendimento a que se
chegara”.
7.2. A história da língua suscitou um bom número de trabalhos de índo-
le lexicográfica. Entre eles devem lembrar-se os dicionários etimó-
logicos de Antenor Nascentes (1932), de José Pedro Machado (1952-
59, revisto e melhorado na 2. ed. 1967), de António Geraldo da Cunha
(1982, 2. ed. 1986), e ainda o incompleto dicionário de Augusto
Magne (1950-54), as anotações históricas de Ramón Lorenzo Sobre
cronologia do vocabulário galego-português (1968), e o Dictionnaire
Chronologique Portugais (1976) de Dieter Messner. Seria oportuno
acrescentar aqui, se não foram tão numerosos, a notícia dos glossá-
rios que têm acompanhado a edição de textos medievais e clássicos.
Em todo o caso, espera-se que os recursos técnicos da moderna lexi-
cografia tragam a este domínio, uma rápida melhoria de produção,
em quantidade e qualidade e um fácil acesso aos materiais elabora-
dos. Ainda neste âmbito, deve assinalar-se a próxima apresentação
do dicionário do português medieval coligido por António Geraldo
da Cunha e precedido pela publicação parcial do Vocabulário Histó-
rico-cronológico do Português Medieval, será certamente a mais
completa e a mais documentada informação sobre o léxico do por-
tuguês medieval.
7.3. Dicionários paradigmáticos ou morfológicos pode ser a designação
adoptada para as obras de teor lexicográfico que hieraquizam o voca-

49
bulário por classes de palavras, por categorias gramaticais ou por
outros subsistemas morfológicos. Para o português, os mais divul-
gados, até ao momento, têm sido os dicionários de verbos (Lopes
1983; Nogueira 8a.1986), mas devem incluir-se também os dicioná-
rios de rimas (Guerreiro 1784; Castilho 1874; Lima 1904?/1914;
Castelões 1951 – cf. E. Verdelho 1990), os dicionários inversos (Wolf
1971; Pardal ...), os de monossílabos (Casanovas 1968). Especial
referência é devida ao Dicionário Morfológico da Língua Portu-
guesa (Evaldo Heckler, 1984) que oferece o mais completo levanta-
mento de “famílias de palavras” na língua portuguesa (“85.456 pa-
lavras classificadas em 5.489 famílias de cognatos”).
7.4. O Português fundamental (1984-1987) corresponde a um projecto
de pesquisa lançado pelo Centro de Linguística da Universidade de
Lisboa, com base na metodologia utilizada para a elaboração do
Francês Fundamental. Foi iniciado em 1969 e apresentou a público
os primeiros resultados, um Vocabulário de 2217 palavras, em 1984,
seguidos da publicação de textos complementares: Métodos e Do-
cumentos, vol. z1: Inquérito de Frequência (1987), vol. 2: Inquérito
de Disponibilidade (1987). Trata-se de uma investigação inteiramente
nova, em Portugal, sob o ponto de vista lexicográfico, porque aceita
parâmetros essencialmente estatísticos de qualificação e de selecção
do “corpus”, e porque toma como objecto de observação e de análi-
se a língua comum, em realizações predominantemente oralizadas,
e não tanto o léxico textualizado em realizações escritas e geral-
mente literárias. Para além dos objectivos pedagógico-didácticos que
nortearam a composição e delimitação do pequeno vocabulário fun-
damental, a massa de dados recolhidos para este projecto, vem cons-
tituindo uma fonte inexaurível, e desde então indispensável, para
qualquer empreendimento no âmbito da lexicografia geral da língua
portuguesa.
7.5. A lexicografia linguístico-literária que oferece o levantamento exaus-
tivo do “corpus” lexical de textos literários, ou de toda a obra dos
autores, é ainda incipiente, no espaço da língua portuguesa, e está
muito distante dos níveis quantiosos de produção que os novos re-
cursos da informática vem oferecendo em outras línguas. Temos
notícia de muitos trabalhos parciais que foram abandonados ou se
encontram inacabados e não foram ainda divulgados. Sirva de exem-
plo a obra de Camões, que, na sua totalidade, foi objecto de uma

50
alfabetação e indexação exaustivas, concluídas em 1985, por inicia-
tiva de Aires do Nascimento, e todo esse conjunto de dados ficou
sem receber publicação. Foi justamente sobre a obra de Camões,
mais precisamente sobre Os Lusíadas, que se realizaram os princi-
pais trabalhos de lexicografia linguístico-literária da língua portu-
guesa. Entre muitos outros (Verdelho 1984), salientam-se: o Dicio-
nário d’Os Lusíadas de Afrânio Peixoto (1924), o Índice analítico
do vocabulário de Os Lusíadas de António Geraldo da Cunha (1966,
2a. 1980), o Rimário de Os Lusíadas de Judith Brito de Paiva e
Sousa (1948, 2a. 1983) e o Índice Reverso de Os Lusíadas (Verde-
lho 1981). Além dos trabalhos referentes à obra de Camões deve
citar-se também um estudo pioneiro, ainda que muito parcelar, apre-
sentado por Jean Roche: Sobre o vocabulário da poesia portuguesa
(Paris 1975) em que se efectua um tratamento estatístico do vocabu-
lário de 26 autores, de Sá de Miranda a Carlos Queirós.

Conclusão
A actividade lexicográfica recobre hoje múltiplas modalidades de
serviços linguísticos e condiciona a escolarização da língua, a sua disponi-
bilidade e o seu funcionamento a todos os níveis de comunicação. Todavia,
o acompanhamento lexicográfico dos idiomas, progressivamente alargado
e intensificado, parece corresponder, não tanto a um acerbamento do pro-
cesso de comunicação verbal, mas sobretudo a uma instrumentação do di-
cionário como chave hierarquizadora de toda a informação, e a uma cres-
cente ampliação do “corpus” lexical, ultrapassando cada vez mais as
capacidades de memória dos falantes. Na realidade, os dicionários surgi-
ram inicialmente e desenvolveram-se, em todos os grandes idiomas mo-
dernos, sobretudo como instrumentos passivos, originariamente bilingues
em parceria com o latim, chaves de descodificação e de aprendizagem,
apoiando a escolarização da língua, e especialmente a escrita e a leitura.
Todavia, logo de início serviram também como instrumentos da estratégia
activa da comunicação, apoiando a produção retórica e literária. Na histó-
ria das lexicografias clássicas e modernas, muitas das obras mais interes-
santes foram coligidas sob o signo da erudição linguística, e confessada-
mente motivadas pelo enriquecimento da língua e da expressão, mais do
que pela simples necessidade de acesso ao entendimento das palavras. No

51
português essa tradição dicionarística foi também medianamente cultiva-
da. A lexicografia de ilustração e de socorro ao ornamento escritural em-
parceirou sempre com os dicionários práticos, que se limitavam a dar aces-
so à compreensão e ao uso normal. O primeiro dicionário monolingue
português, lançado como volume autónomo e de manuseio aprazível, foi
um dicionário poético (Lusitano 1764), um dicionário activo, promotor da
ornamentação e da elegância.
A lexicografia portuguesa, no entanto, pelas suas modestas propor-
ções, assume neste aspecto uma escassa representatividade. Foi condicio-
nada pela urgência das necessidades básicas do ensino da língua. Assim, o
uso intenso do dicionário monolingue desenvolveu-se em Portugal, com o
início da escolarização da gramática do português (manual de A. José dos
Reis Lobato – 1770/72), e verifica-se também que o aumento da produção
dicionarística (que oferecia apenas acesso à significação e a uma norma
ortográfica) acompanhou, a par e passo, o alargamento da instrução públi-
ca e a democratização da escrita. Em todo o caso, a lexicografia linguísti-
co-literária ocupou um lugar muito importante na história da produção dos
dicionários de língua portuguesa e das outras grandes línguas.
Actualmente, as exigências da comunicação essencialmente infor-
mativa, deixam pouco espaço para o cultivo da memória linguística erudita
e ornamental. A procura lexicográfica actual é sobretudo determinada pe-
las necessidades elementares de descodificação e de aramazenagem do
conhecimento. Os dicionários são acumuladores de informação e agentes
passivos da comunicação verbal e, nesta condição, são cada vez mais in-
dispensáveis e necessários em maior número. O alargamento dos espaços
de interacção nas comunidades humanas e as dominantes científica e tec-
nológica da civilização moderna, implicam as línguas em processos de
especialização, e de classificação e designação, produzindo quantidades
imensas de nomenclaturas, terminologias e inúmeros outros “corpus”
lexicais particularizados. A lexicografia da língua portuguesa enfrenta nesta
conjuntura uma perplexidade igual à que preocupa todas as grandes lín-
guas e que atinge todo o processo de comunicação verbal do Planeta.
Entretanto, para além desta babel tecnológica e científica, a língua
portuguesa enfrenta também muitos outros problemas que resultam da sua
dispersão geográfica e internacional, da relativa marginalidade económica
do seu suporte demográfico e de uma tradição de escasso cultivo diciona-
rístico. Por estas e outras razões, carece urgentemente de uma decidida e
ampla pesquisa lexicográfica que lhe permita, pelo menos, a renovação e a

52
elaboração desde a origem, de equipamento dicionarístico no domínio da
língua histórica; do português moderno e contemporâneo; dos dicionários
práticos; dos vocabulários escolares; dos glossários de paradigmas grama-
ticais; das linguagens especializadas etc.. O idioma português se pôde fun-
cionar e servir durante os primeiros três séculos da sua história de língua
escrita, sem dicionários, não pode agora, sem prejuízo grande da sua funci-
onalidade e do seu enquadramento nacional e internacional, descurar a sua
elaboração lexicográfica, instituindo-a, se tanto for necessário ao nível da
responsabilidade dos estados.

Bibliografia

Bibliografia dos principais textos lexicográficos da língua portuguesa

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64
A FORMAÇÃO E A CONSOLIDAÇÃO DA NORMA LEXICAL E
LEXICOGRÁFICA NO PORTUGUÊS DO BRASIL

Maria Tereza Camargo Biderman


Universidade Estadual Paulista (UNESP)

O período colonial: a emergência da variedade brasileira do


português
Nos primeiros séculos da colonização no Brasil processa-se lenta-
mente a aculturação dos nativos por meio do idioma português, quando os
jesuítas ensinavam os índios a falar português. O padre Anchieta informa-
va seus superiores em Lisboa sobre o ensino do português aos índios, espe-
cialmente aos meninos, dizendo que eles aprendiam bem o português (Sil-
va Neto, 1976: 32). Contudo, nestes primeiros séculos, a língua portuguesa
encontrara em terras brasileiras um forte concorrente, o Tupi, uma língua
franca, empregada em grande parte do território brasileiro. Essa língua
geral era indispensável para a comunicação com os indígenas. Por outro
lado, não só eles eram muito numerosos mas eram também os que conhe-
ciam o país, levando assim vantagem sobre o colonizador português.
A língua geral, falada em toda a costa brasileira, “era simples e de
reduzido material morfológico; não possuía declinação nem conjugação”
(Silva Neto, 1976: 50). Os jesuítas usaram-na como instrumento de evan-
gelização dos indígenas. Diz Teodoro Sampaio (1987: 69):

Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas fala-


das na colônia era mais ou menos de três para um, do tupi para o portu-
guês. Em algumas capitanias como S.Paulo, Rio Grande do Sul, Ama-
zonas e Pará, onde a catequese mais influiu, o tupi prevaleceu por mais
tempo ainda. (...) Mas naqueles tempos, quando o desbravamento dos
sertões apenas começava e as expedições para o interior se sucediam
(...) o tupi era deveras a língua dominante, a língua da colônia. Chega-
ra até mesmo a ser aprendido pelos negros escravos.

65
Outro fator bastante importante que, nos primeiros séculos, concor-
reu para a expansão do idioma tupi, convertendo-o numa língua franca, foi
a implantação das bandeiras. Partindo do litoral rumo à conquista do ser-
tão, essas entradas e bandeiras conduziam um verdadeiro exército de ho-
mens que falavam a língua geral.

As bandeiras quase só falavam o tupi. E se, por toda a parte onde pene-
travam, estendiam os domínios de Portugal, não lhe propagavam, to-
davia, a língua, a qual, só mais tarde se introduzia com o progressos da
administração, com o comércio e os melhoramentos (Sampaio, 1987:
71).

Os bandeirantes iam nomeando, com vocábulos tupi, os acidentes


geográficos que descobriam e os povoados que fundavam (Oliveira, 1999:
61). Juntamente com os topônimos,

... a incorporação de vocábulos indígenas ao léxico do português do


Brasil foi motivada pela necessidade imperiosa de nomear uma reali-
dade até então desconhecida (Oliveira, 1999: 61).

Silva Neto acha, e talvez com razão, que Teodoro Sampaio e todos
que o endossaram, exageraram; de fato, não possuíam muitos testemu-
nhos e documentos fidedignos. Mas Teodoro Sampaio se respalda em
testemunho do Padre Vieira de 1694, que afirmara que a língua que se
falava era a dos índios e que o português os meninos iam aprender na
escola. Pelo testemunho de Vieira e de outros, S.Paulo seria um dos luga-
res onde a língua geral perdurou por mais tempo e onde haveria maior e
mais profundo entrosamento entre colonos portugueses e índios, sobre-
tudo tupis. O governador do Rio de Janeiro recomendava a el-rei que
enviasse sacerdotes que soubessem a língua dos índios em 1698, dada a
sua importância como veículo de comunicação. “Chegara até mesmo a
ser aprendido pelos negros escravos, falando eles desembaraçadamente a
língua geral” (Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará, apud Sil-
va Neto, 59).
Há outros testemunhos mais. Domingos Jorge Velho, o bandeirante
que ajudou os portugueses a destruir o quilombo de Palmares em Alagoas,
em 1695, precisava de um intérprete por não falar bem o português.
Contudo, não era apenas em S.Paulo que se falava a língua geral,
mas também no Maranhão e no Espírito Santo e até o final do século XVIII.
Em 1815 informava Koster, um viajante inglês:

66
Todos os indígenas em Pernambuco falam o português, mas raros o
pronunciam bem. Há sempre um leve acento que faz descobrir ser o
interlocutor um indígena, mesmo que se ouça sem querer notar (apud
Silva Neto, 1976: 33).

Vieira também comentava sobre a maneira como os índios falavam


a língua portuguesa que “a pronunciavam ou mastigavam a seu modo”.
Vieira constatara ainda a interferência dos idiomas nativos sobre o portu-
guês.
Sérgio Buarque de Holanda julgava que a decadência da língua ge-
ral começara a intensificar-se por causa de maciça imigração de portugue-
ses para o Brasil, atraídos pela descoberta das minas gerais. Nos primeiros
sessenta anos do século XVIII, teriam emigrado de Portugal e das ilhas do
Atlântico cerca de 600 mil pessoas, em média anual de 8 a 10 mil (Fausto,
1996: 98). A Coroa portuguesa chegara até a estabelecer normas para a
emigração, preocupada com o grande êxodo populacional. Além da imi-
gração proveniente da metrópole, ocorria também migração interna no Brasil
em decorrência da corrida do ouro em demanda a Minas, a Goiás e a Mato
Grosso.
O processo “civilizatório” iniciado pela Coroa e por Pombal amplia
a presença da burocracia oficial, dos militares bem como a expansão do
clero. São criados governos municipais em Minas e em outras capitanias.
Preocupada com os vazios demográficos, a Coroa Portuguesa inicia
a política de ocupação e colonização. Usando de incentivos, Pombal teria
promovido o povoamento do Brasil e uma urbanização sem igual no perío-
do colonial. O Marquês fizera de seu irmão, Mendonça Furtado, governa-
dor do Pará na segunda década do séc. XVIII, incumbindo-o de iniciar um
programa de civilização na Amazônia, urbanizando as vilas. A coroa revi-
talizava assim o programa de imigração que promovera anteriormente com
açorianos no Maranhão e no sul do Brasil. Conseqüentemente, o recensea-
mento de 1776 registrou 319 769 habitantes em Minas Gerais (Silva, 1994:
547). Desse total a maioria eram negros escravos (52%); brancos (22%) e
pardos (25%).
Em 1828 o viajante Hercule Florence informava que o tupi já não
era falado pela maioria da população em S.Paulo; mas que ouvira testemu-
nho de que 60 anos antes (1768) as mulheres conversavam nesta língua
(apud Silva Neto, 1976: 55). No Rio de Janeiro e em Pernambuco extin-
guira-se há mais tempo o uso da língua geral.

67
Tanto o índio como o negro aprenderam o português por necessida-
de, mas deixaram marcas profundas na língua falada no Brasil.
Muitos negros que chegaram ao Brasil nos primeiros séculos da co-
lonização, provavelmente já falavam um dialeto crioulo-português, pois o
português foi língua franca nas costas africanas nos séculos XV, XVI e
XVII (Silva Neto, 1976: 38). Não há documentos, porém, desse linguajar
dos negros nos primeiros séculos. Como se sabe, na nascente sociedade
brasileira, os negros tiveram convivência mais íntima com os brancos no
interior da casa grande e as crianças brancas cresciam brincando junto com
as negras. Esse é um dos fatores que contribuiu para o surgimento de uma
sociedade híbrida no Brasil.
Por outro lado, os colonos portugueses tinham vindo de todos os
pontos de Portugal. Apesar de o Brasil ter sido povoado por portugueses
originários de regiões muito diversas, admite-se que o português já apre-
sentasse notável unidade no século XVI.
Quanto ao vocabulário, os colonos portugueses foram enriquecendo
seu vocabulário acrescentando-lhes vocábulos designativos de seres, coi-
sas e fatos sociais americanos.
O desaparecimento paulatino do tupi começou a intensificar-se quan-
do a coroa portuguesa passou a proibir o uso da língua geral: em 1717,
1722 e 1727 “ordens régias determinavam que os missionários ensinassem
português aos índios” (Silva Neto, 1976: 59). Em 1754 o uso da língua
geral foi proibido pelo Marquês de Pombal com a determinação de que se
só se falasse português na colônia. Mas o português não se impôs aos nati-
vos de modo violento. Impôs-se por causa de seu prestígio e por represen-
tar uma civilização mais avançada que a dos aborígenes. E também porque
era a língua da escola, da administração e da comunicação com o resto do
mundo, pois foram eles, os portugueses, a ponte entre o Brasil e o resto da
humanidade. Entretanto, os idiomas indígenas deixaram profundas marcas
no português, sobretudo no léxico.
A importação de escravos africanos para o Brasil que se iniciara no
século XVI, continuaria até meados do século XIX. Nesses quatro séculos
quatro milhões (ou mais) de africanos das mais variadas culturas e línguas
ingressaram no Brasil. Muitas foram as línguas e culturas africanas trazidas
pelos escravos: iorubá (ou ioruba) e nagô (da Nigéria), gege (do Daomé),
mina (da Costa do Ouro), mandinga e haussá (da Guiné e da Nigéria),
línguas bantus (de Angola e do Congo), quicongo, cabinda, etc. Na forma-
ção da sociedade e da cultura brasileiras foi enorme a influência africana

68
nos costumes e na cultura em geral (cozinha, religião, música, atitudes). É
difícil precisar a extensão da influência das línguas africanas na formação
do português brasileiro, porque não existem pesquisas profundas a esse
respeito, sendo Renato Mendonça um dos primeiros a tratar cientificamen-
te esta questão (A influência africana no português do Brasil, 1935). O
fato é que a influência dos idiomas africanos sobre o português brasileiro
foi muito grande, sendo que essa influência exerceu-se com certeza no
vocabulário, sendo grande o número de africanismos no português do Bra-
sil.
Nesta primeira fase da história do português brasileiro deve-se su-
por a existência de uma situação de bilingüismo que não foi ainda estudada
pelos pesquisadores.

O surgimento da consciência nacional e da identidade lin-


güístico-cultural brasileira
Os precursores

Nos meados do século XIX começara o debate sobre a identidade


do português brasileiro. Os escritores românticos, sobretudo José de Alen-
car, reivindicavam para os brasileiros autonomia lingüística, cultural e lite-
rária. Movidos por um profundo nacionalismo, os românticos empenha-
ram-se na defesa dessa autonomia.
Como informa E. P. Pinto (O Português do Brasil) Alencar se re-
fere a um português alterado, transformado, chegando a falar de um “cis-
ma gramatical”. Sem ter disso consciência, o romancista estava, de fato,
propugnando o direito dos brasileiros de escreverem conforme a norma
brasileira, abandonando a norma européia. Ele afirmava que tinha o di-
reito de escrever adotando o uso popular brasileiro. De fato, porém, a
causa de Alencar era “muito mais a da liberdade do artista em matéria de
língua, que a independência da variante brasileira ...” (Pinto, 1978:
XXVIII). Contudo, Alencar continuava a valer-se dos dicionários publi-
cados em Portugal que retratavam o português europeu e mesmo das gra-
máticas tradicionais, para defender-se de acusações de incorreções em
seus livros.
Crescia progressivamente a consciência da identidade brasileira
manifesta na produção literária autóctone, bem como se avolumava o de-

69
bate sobre a personalidade própria do português brasileiro. A questão dos
neologismos foi o ponto central das polêmicas da segunda metade do sécu-
lo dezenove. Assim, o vocabulário típico do Brasil estava no centro do
debate. Mas o que os intelectuais brasileiros desse período defendiam real-
mente era o uso de neologismos brasileiros, lexias essas que se situavam
no nível do signo, ou seja, palavras designativas de referentes e conceitos
brasileiros. Assim esses intelectuais não “abriam mão do pressuposto do
Brasil ser reduto de vernaculidade” (Pinto, 1978: XXXI). Também não
aceitavam a “pecha de incorreção lançada pelos portugueses aos escritores
brasileiros” (Pinto, 1978: XXXII).
“A designação da língua do Brasil, incerta como a sua vigência,
oscilava entre dialeto brasileiro (Alencar, Macedo Soares, Araripe, Rome-
ro), luso-brasileiro ( Macedo Soares, Batista Caetano, Paranhos da Silva),
luso-americano (Romero), neoportuguês (Araripe), brasileiro (Macedo
Soares), enfim, o “nosso idioma”... (Pinto, 1978: XXXII). E língua brasi-
leira (Macedo Soares, Dicionário).
Vejamos o que diz Macedo Soares:

Em geral , falamos esse dialeto, mas procuramos escrever um portu-


guês que às vezes não é entendido, porque... digamos com franqueza:
o português de Portugal não é inteiramente a língua do Brasil, e é raro
escrever bem não sendo na própria língua (Soares, 1954: XX).

Macedo Soares designa o português do Brasil às vezes como diale-


to, às vezes como língua brasileira. Esse lexicólogo e lexicógrafo, embora
trabalhando empiricamente, dedicou-se à pesquisa de campo, recolhendo
regionalismos vocabulares no Paraná, Minas e São Paulo.
José Veríssimo, menos exaltado que os demais, enunciava o concei-
to de uma norma culta, padrão para a fala e para a língua escrita: “Nada
obsta, porém, que haja um tipo, padrão geral da boa linguagem portuguesa,
obrigatório para todos os que se prezam de cultos, e principalmente obri-
gatório para aqueles que escrevem”, pois, “que devemos escrever como
falam os cultos é uma regra que ninguém desconhece.” (Pinto, 1978: XLIII).
Na segunda metade do século XIX a consciência da peculiaridade
do nosso léxico levou alguns estudiosos a organizarem e publicarem cole-
tâneas vocabulares de caráter regional tais como:

Coleção de vocábulos e frases usados na província de São Pedro do


Rio Grande do Sul de A. Pereira Coruja (1852);

70
Vocabulario Brazileiro para servir de complemento aos diccionarios
da lingua portuguesa de B.C. Rubim (1853);
Vocabulario indigena em uso na Provincia do Ceará de P. Nogueira
(1887);
Diccionario Brazileiro da Lingua Portugueza de A. J. Macedo Soa-
res (1888);
Vocabulario dos termos technicos de construção naval [ anexo de:
Ensaio sobre as construções navaes indigenas no Brasil) de A. A.
Camara (1888);
Vocabulário sul-riograndense de Romaguera Corrêa (1889);
Dicionário de vocábulos brasileiros de Beaurepaire-Rohan (1889).
De fato, porém, a primeira tentativa de descrever o vocabulário bra-
sileiro foi feita por Antônio Joaquim Macedo Soares. Ele seria o primeiro
dicionarista a descrever o português brasileiro se sua obra tivesse sido pu-
blicada integralmente no século dezenove. Contudo, só a primeira parte,
até a letra C, foi publicada em 1888. Seu dicionário contém definições
claras e precisas bem como informações de natureza fonética e etimológi-
ca. A posição nacionalista de Macedo Soares que pugnava pelo reconheci-
mento da individualidade do português brasileiro está evidente nesta pas-
sagem: “... no Brasil (...) todos (...) falamos e escrevemos nesta nossa língua
que os críticos de Lisboa censuram” (Soares, 1954: XXI). Afirma ainda no
Prólogo da 1ª parte do dicionário, publicada em 1888, que “já é tempo dos
brasileiros escreverem como se fala no Brasil”. Desde os tempos em que
fora juíz no interior do Paraná, Macedo Soares começara sua recolha de
vocábulos e expressões brasileiras, pretendendo preencher a lacuna relati-
va a nosso léxico, que não era contemplado pelos dicionários produzidos
em Portugal. Infelizmente, a publicação desta obra ficou inacabada. O di-
cionário completo só será publicado em 1954-1955 pelo Instituto Nacio-
nal do Livro. Da letra C em diante, o material recolhido por Macedo Soa-
res foi compilado por seu filho, Julião Rangel de Macedo, que preparou os
originais deste dicionário publicado em dois volumes já nos meados do
século XX. O repertório dessa obra não é grande: cerca de 4.000 verbetes.
Citarei dois verbetes para mostrar como Macedo Soares foi cuidadoso em
seu trabalho lexicográfico, embora não se possa aceitar integralmente suas
afirmações sobre as palavras-entrada aqui citadas.

andar de déu em déu loc. pop. Andar de festa em festa; passar a vida
aqui e ali em pagodes; suciar todos os dias. “Isto vai de déu em déu. E

71
assim domingos passemos; De modo que sempre busquemos Diverti-
mentos.” SR. I, 154 | | ETIM. Curiosa tradução pop. do hino festivo Te
Deum laudamus da igreja, onde o ac. lat. te converteu-se na prep. port.
de ; déum- déum- déum, repetido pelos cantores no coro, passou a déu-
em-déu-em -déu , pela transformação da termin. um na prep. em; e
laudamus verteu-se por lá vamos na boca de uns; e andamos na de
outros. | | Geogr. R. Jan. SP. Min. etc.
caipira s2., 1º morador de fora do povoado; gente que não vive na
sociedade mais culta das vilas e cidades. “Em Pernambuco, chama-se
aos homens da roça, do campo ou mato, matutos; o mesmo é em
Alagoas. O matuto é o caipira de S.Paulo e o tabaréu da Bahia.” J.Aug.
da Costa RBr2. IV, 348. “Vem peludo como um caipira.” Red. Brasil
28 jul. 83 “Na roça, entre caipiras e matutos, é conhecida a interj. ehá!
E outros cacoetes em que se ouve essa inspiração de sons.” B.Caet.
Ens.Sc. 1,57. “Um caipira nobre não recua.” Aparte à conferência de
J.Patroc. ap. JC. 15 out. 88 | | 2º fig.. inculto, grosseiro, de maneiras
acanhadas. | | Etim. tp.-guar.: s.caá mato + s. ïpïr = ïpï princípio, base;
adj. primitivo, oriundo: filho do mato, originário da roça. Batista Cae-
tano traduz caipira pele tostada, de cai queimado + pir pele; ou então,
o homem corrido, envergonhado, abatido, submetido, de cai vergo-
nhoso, acanhado, medroso. ABN. VI, 12. Rejeitamos a segunda expli-
cação porque os brasis, muito precisos na nomenclatura, não tinham
em conta qualidades morais, que os induzissem a designações de obje-
tos caracterizados por elas. E a primeira por se não adaptar o nome à
coisa. Caipira nunca significou trigueiro, moreno, fusco etc. ½½ Geogr.
e SIN. 1º baiano, Piauí; caboclo 5º (?) , caburé, Goiás, M. Gr.; cabra,
Ceará; casaca, Piauí; gaúcho, guasca, RGS; matuto, R. Jan..Pern.,
Paraíba, RGN; restingueiro, mandioqueiro, roceiro, R. Jan.; tabaréu,
R. Jan., Bah., Serg.; tapuia, Pará, Am. Em Port. campônio, camponês.
2º peludo. Min.

No início do século XX intensificaram-se as publicações de estudos


e glossários sobre o léxico brasileiro. A famosa obra de Teodoro Sampaio
O tupi na geografia nacional veio à luz em 1901. A ela se segue em 1905
Chermont de Miranda,que publicou um glossário de 340 vocábulos de ori-
gem tupi, peculiares à Amazônia e especialmente à Ilha de Marajó.
Em 1915 Rodolfo Garcia publicou um Dicionário de Brasileiris-
mos. Peculiaridades pernambucanas. Garcia busca distinguir os vocábu-
los em 4 categorias: 1) luso-brasileiros; 2) panamericanos; 3) pan-brasilei-
ros; 4) locais ou regionais. Na primeira categoria situam-se os termos que
já estavam em desuso em Portugal mas continuavam correntes no Brasil.
A segunda categoria inclui termos que designam elementos da flora e da

72
fauna americana entre outros. Entre os vocábulos pan-brasileiros ressalta-se
o papel irradiador da Bahia e do Rio de Janeiro em função do papel político
que estas regiões exerceram como centros do governo geral. Por fim o autor
dá destaque aos termos usuais em Pernambuco. Fez questão de afirmar que,
no capítulo relativo aos elementos da fauna (aves por exemplo), buscou in-
cluir a designação científica do referente para melhor identificá-lo. Para abo-
nar serviu-se de jornais e escritores pernambucanos. Cf. exemplário de ver-
betes descritos e abonados no seu dicionário: atocaiar, azeite-de-dendê,
azucrinar, bafafá, baita, bangüê, bate-boca, biboca, branca e branquinha
(aguardente de cana), cafajeste, calango, capoeira, carne-de-sol ou car-
ne-do-sertão, coivara, coroca, cuia, cururu, embaúba, embromar, farofa,
frevo, galpão, gambá, garapa, guandu, guará, guarantã, guaxuma, ingá-
cipó, inhame, jaburu, jabuti, jaçanã, jacarandá, jagunço, etc.
Em 1937 Pereira da Costa publicou seu excelente trabalho: Vocabu-
lário Pernambucano de 755 páginas, obra bem documentada que conta
com registros autênticos das duas primeiras décadas do século XX. Este
vocabulário é ainda mais abrangente do que o de R. Garcia. Os verbetes
têm uma definição detalhada, tendo como fontes as melhores obras
lexicográficas que o precederam, assim como referência circunstanciada
de numerosos autores do período colonial e daqueles que descreveram as
peculiaridades do dialeto brasileiro e da nossa cultura. Há também uma
abundante abonação, sobretudo de publicações pernambucanas, já que o
dicionarista pretendia registrar as idiossincrasias do dialeto pernambucano.
Alguns verbetes são tão extensos que ocupam uma página e meia ou mes-
mo duas. Citarei dois exemplos para ilustrar pelo menos:

Bafafá – azáfama, confusão, agitação, reboliço. “Ninguém mais recei-


os tenha de haver grande bafafá” (Lanterna Mágica n. 459 de 1895).
“Com a morte do caixeiro andava o boticário num bafafá desesperador.”
(A Pimenta n. 30 de 1902). “A orquestra executou o sinal para uma
quadrilha. Foi um bafafá de todos os diabos.” (Idem, n. 57)1

O verbete transcrito, a seguir, foi reduzido para não estender demais


este texto:

Frevo – efervescência , agitação, confusão, reboliço; apertão nas reu-


niões de grande massa popular no seu vai-vem em direções opostas,

1
Atualizei a ortografia por não me parecer essencial mantê-la para os objetivos deste traba-
lho.

73
como pelo carnaval, e nos seus acompanhamentos de procissões, pas-
seatas e desfilar de clubes carnavalescos. “ O apertão do frevo, nesse
descomunal amplexo de toda uma multidão que se deslisa, se cola, se
encontra, se roça, se entrechoca, se agarra.” (Jornal do Recife, n. 65 de
1916) “O frevo que mais consola,/ O que mais nos arrebata,/ É o frevo
que se rebola/ Ao lado de uma mulata (Diário de Pernambuco, n. 66
de 1916). Etc.

A “língua brasileira” ou a norma brasileira

Nos contínuos e intensos debates sobre a individualidade do por-


tuguês brasileiro foi-se formando um pensamento crítico a respeito da
língua, que se consolidou, pouco a pouco, na primeira metade do século
XX.
No início do século XX recrudescera a polêmica sobre a questão da
“língua brasileira”. Formaram-se partidos pró e contra, tanto entre os es-
critores como entre os gramáticos e filólogos. Na contra-corrente, em 1922,
em meio aos grandes debates nacionalistas a respeito da “língua brasilei-
ra”, o lingüista Antenor Nascentes, com grande clarividência, se posicio-
nava: o português brasileiro não é uma língua distinta do português euro-
peu como afirmavam nacionalistas como Monteiro Lobato, Mário de
Andrade e outros, mas apenas uma variedade da língua-mãe. O capítulo
inicial da obra O linguajar carioca de 1922 chama-se “O dialeto brasilei-
ro”. Endossando a posição de Nascentes, lembremos que o português do
Brasil constitui uma variedade do português no plano da norma e, não, do
sistema, sobretudo no domínio do léxico, área em que as duas variedades
do português mais se diferenciam.
Em 1922 Monteiro Lobato publicara um artigo sobre “O dicionário
brasileiro” em que ele debatia a autonomia do português brasileiro de modo
belicoso, como era de seu estilo. Contudo, reconhece que, em matéria de
dicionários, os brasileiros dependiam totalmente de Portugal, razão por
que era urgente produzir um dicionário sobre o português brasileiro que
ele chamava de “língua brasileira”. Como se celebrava então o centenário
da Independência do Brasil, ele proclamava que a comemoração mais sig-
nificativa desta data nacional seria a elaboração e publicação de um Dicio-
nário Brasileiro. Esse feito realmente consolidaria a proclamação da inde-
pendência do Brasil (Pinto, 1981: 58-61).

74
A publicação de obras lexicográficas sobre o português bra-
sileiro. Das obras pioneiras ao novo milênio
Dado o papel do dicionário em relação à norma social, por registrar
a linguagem aceita e valorizada na comunidade dos falantes e também por
ser o depositário do acervo lexical da cultura, ele é uma referência básica
para uma comunidade. Por isso o dicionário é um instrumento indispensá-
vel e imprescindível na fixação do léxico de uma língua e ferramenta fun-
damental na consolidação de uma língua escrita e literária. Por essas ra-
zões, durante um século, a sociedade brasileira ansiara por um dicionário
que registrasse o seu léxico e a sua norma.
Na 1ª sessão da Academia Brasileira de Letras em 1898, Machado
de Assis já programava a elaboração de um dicionário de brasileirismos.
Na cerimônia de instalação da ABL, em seu discurso inaugural, Joaquim
Nabuco afirmava a profunda diversidade das variedades do português bra-
sileiro e do português europeu.
Em 1926/27 a Academia Brasileira de Letras começara a imprimir e
a rever a primeira parte de um manuscrito incompleto, relativo a esse dicio-
nário de brasileirismos, elaborado por acadêmicos. Entretanto este projeto
não logrou a aprovação da própria ABL e não foi publicado. Posteriormen-
te houve tentativas sucessivas e frustradas de retomar o empreendimento,
sem jamais se lograr publicar o dito dicionário.
Um problema correlato – o da fixação da forma gráfica, ou seja, a
ortografia – também se inclui entre os primeiros desiderata da ABL
propugnado por José Veríssimo em uma de suas primeiras sessões. Em
1901 Medeiros e Albuquerque propôs à ABL que nomeasse uma comissão
para elaborar um projeto de Reforma Ortográfica. E Rui Barbosa elaborou
um substitutivo ao projeto de Medeiros e Albuquerque no intuito de “pôr
ordem em sua grafia.” A ortografia, porém, ainda percorreria um longo
caminho até fixar-se em 1943.
Em 1924, Laudelino Freire, neófito na ABL, apresentara um projeto
para a elaboração do “Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”. Nessa
proposta afirmava que a produção de um dicionário é tarefa básica que
incumbe a uma academia da língua como se constata na história de outras
academias como a francesa, a italiana (Accademia della Crusca). Para Freire,
mais importante que fazer um Dicionário de Brasileirismos, o desideratum
de Machado de Assis, seria elaborar uma obra maior, um dicionário do
idioma. Como o projeto da ABL não avançava, Laudelino Freire decidiu,

75
de motu proprio, elaborar um dicionário com a colaboração de vários
filólogos, dispensando o aval da ABL. Concluída a obra, ela foi publicada
em 5 tomos sob o nome de Grande e Novíssimo Dicionário da Língua
Portuguesa (1939-1944).
Este dicionário prima pela riqueza vocabular, com a inclusão de
muitas locuções e expressões, neologismos e termos técnicos, além de ou-
tras qualidades como numerar as acepções das palavras-entrada. Entre ou-
tros problemas apresenta o de não ter cuidado com a inclusão de vocábulos
meramente virtuais e não documentados na língua. Na Introdução de seu
dicionário diz Laudelino Freire que “... o Brasil, país civilizado e de vida
mais que quatro vezes secular, ainda não possui o seu dicionário, sendo um
dos poucos ou talvez o único nestas condições.” Embora o Grande e No-
víssimo Dicionário buscasse preencher uma lacuna cultural brasileira, de
fato tentou atender a consulentes do Brasil e de Portugal, ignorando o pro-
blema posto pelas divergências existentes entre as duas variedades do por-
tuguês, tanto no domínio lexical, onde elas são mais abundantes, como
também no gramatical e sintático. “Feito principalmente para brasileiros,
este dicionário não precisa da indicação de brasileirismo para conhecimen-
to da linguagem falada no país. Além disso, não é fácil definir o que seja
brasileirismo.” Entretanto, incluiu um grande número de brasileirismos em
sua obra. Convém lembrar que gramáticos e livros didáticos da época (dé-
cada de 30, 40) inseriam brasileirismos na seção destinada a “Vícios de
Linguagem”. Laudelino Freire indicou os vocábulos usados em Portugal
como lusitanismos, bem como os do português da África e da Ásia. O
dicionário procurou padronizar a ortografia, usando a grafia resultante do
acordo de 1931, de que Laudelino Freire fora relator. Este dicionário, com
suas virtudes e defeitos, não chegou a ocupar o lugar que poderia ter ocupa-
do, devido talvez ao fato de ser um dicionário volumoso em cinco tomos e,
logo, caro, não satisfazendo às condições do momento no que concerne cus-
to de produção e dificuldade de distribuição. Não teve uma segunda edição.
Entrementes, a ABL ainda não cumprira um dos fins que constava
do 1º artigo de seus Estatutos – a produção de um dicionário. Afrânio Pei-
xoto propõe em 1940 que a Academia incumba um especialista da elabora-
ção do dicionário. Escolheu-se o já então renomado filólogo, Antenor Nas-
centes, para esta missão. Foi alocada uma verba de 60 contos para cobrir as
despesas da elaboração do dicionário e escolhido como modelo o dicioná-
rio da Real Academia Espanhola (DRAE). Em 1943 Nascentes entregou o
manuscrito à Academia Brasileira de Letras, o qual foi aprovado para pu-

76
blicação. Passaram-se ainda anos até que este dicionário fosse publicado –
1961-1967 – em 5 volumes. A nomenclatura do dicionário de Nascentes
totaliza aproximadamente 100.000 verbetes. Não há abonações; quando
necessário para o entendimento da definição, o dicionarista cria exemplos,
que são, porém, raros. No que concerne os brasileirismos, Nascentes usou
como fontes de informação os pesquisadores que o antecederam. Apesar
das muitas qualidades deste dicionário, ele também não teve grande fortu-
na. Primeiro porque foi publicado muitos anos depois de concluído e não
há nada que envelheça mais do que o léxico; segundo porque resultou em
obra volumosa e o público comprovadamente prefere compulsar uma obra
lexicográfica em apenas um volume e que lhe custe menos.
Em 1938 publicou-se o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua
Portuguesa (PDBLP), em um volume, uma obra de porte reduzido, na sua
macroestrutura e na sua microestrutura. Ora, esse modesto dicionário veio
preencher a lacuna ressentida pelos brasileiros em relação à sua variedade
lingüística. Foi um sucesso editorial desde o início. Vejamos rapidamente
o conteúdo deste obra. Tinha 1045 páginas incluindo mais de 72.000 ver-
betes, pouco elaborados, contendo informações sucintas sobre o lema; em
geral, apenas a definição. A grafia já era simplicada; os autores indicaram,
porém, a grafia etimológica como em: hipo (hippo) primeiro elemento de
vários compostos; hipo (hypo) pref. gr.; hipocampo (hippocampo); hipo-
condria (hypocondria); hiperglicemia (hyperglycemia), etc. Lembre-se que
este dicionário é anterior à reforma ortográfica de 1943. Há um grande
número de termos técnicos e científicos da medicina, da botânica, etc. Os
autores preocuparam-se com suprir a ausência do léxico típico do Brasil de
que se ressentiam os consulentes brasileiros dos dicionários de língua por-
tuguesa. Assim, encontramos um grande número de entradas relativas não
só à realidade brasileira (fauna, flora,costumes, cultura em geral) mas tam-
bém o registro de usos e expressões típicas do Brasil. Vou elencar uma
pequena lista destas palavras-entrada (verbetes) só para fornecer um indi-
cador do estilo da nomenclatura:

• abalador (que comove), abará, abaúna, brocador, bugreiro, caipira,


caipora, danado (hábil, esperto), daninhar, debenturagem, debenturar,
debochar (zombar), deboche (troça, zombaria), jangada, jirau, jururu,
leva-e-traz, mamulengo, matuto, molecote, moleque, muque, pagé, pé-
de-boi, pé-de-moleque, perrengue, pindaíba, potoca, pussá, quebradei-
ra, ranzinza, resfriadeira, retovo, roceiro, samburá, sertão, sertanista,

77
sítio (chácara, fazendola), sitiante, tapera, terçado (facão), tijuco, tora,
troço, ubá, umbanda, viralata, zumbi;
• termos designadores de referentes da fauna: acará (cará), bororó (vea-
do), itapema (ave), jacu, jacundá (peixe), jaó (ave), jararaca, juriti,
macuco, maritaca, muriçoca, maruím, periquito, piaba, saúva (saúba),
suçuarana, tanajura, tapir, tatu, teiú, tico-tico, tuiuiú, urubu, etc.
• as expressões idiomáticas registradas são poucas; por exemplo: dar bolo,
dar quinau, dar murro em ponta de faca, dar o fora, dar o desespero,
fazer arte, tocar fogo na cangica, virar bicho, uma ova ! etc.

A segunda edição do PDBLP tinha pouco mais de 1084 páginas e


teve uma tiragem de 50.000 exemplares. A 3ª edição de 1942, mais aumen-
tada ainda, já contou pela primeira vez com a colaboração de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira, que acabou por se tornar seu principal reda-
tor. A Nota dos Editores diz o seguinte:

“O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa é uma obra


que já se incorporou ao patrimônio da cultura nacional de que se pode
considerar, nas suas ambições limitadas, um índice realmente expres-
sivo. Não se planejou, de fato, senão para ser um “pequeno dicioná-
rio”, de fácil manuseio e ao alcance de todos os que se interessam
pelo estudo da língua portuguesa falada no Brasil. Não tendo preten-
sões a obra de erudição, fartamente documentada, eliminou desde a
primeira edição as palavras e expressões arcaicas como as citações
de exemplos colhidos nas fontes clásicas e destinadas a esclarecer o
emprego dos vocábulos, nas diferentes fases de evolução da língua e
da literatura. Que a idéia de um PEQUENO DICIONÁRIO genuina-
mente brasileiro, atendia a uma aspiração geral e já estava amadure-
cida para ser posta em execução, basta para prová-lo o extraordinário
êxito que logrou, atingindo, nas suas três edições, cem mil exempla-
res em quatro anos.”

Sucederam-se inúmeras edições dessa obra que os brasileiros aco-


lheram como o seu dicionário.
O PDBLP foi um fenômeno editorial para o Brasil rural e atrasado
de então. Na época da publicação da 1ª, 2ª e 3ª edições a população brasi-
leira não totalizava 45.000.000 pessoas. Foram seus redatores: Hildebrando
de Lima, Gustavo Barroso, Manuel Bandeira, José Baptista da Luz, Antenor
Nascentes, C. Mello-Leitão, Francisco Venâncio Filho, C. Delgado de Car-
valho e José Baptista da Luz e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, além
de outros colaboradores nas edições posteriores.

78
A última edição, a 11ª, de 1967, interrompeu a carreira vitoriosa do
PDBLP porque os militares fecharam a editora que o publicava – a Editora
Civilização Brasileira.
Julgo que o PDBLP está na gênese do Novo Dicionário da Língua
Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira cuja primeira edição
é de 1975. Quando não mais se publicou o PDBLP, os brasileiros se viram
novamente órfãos de um dicionário de sua variedade lingüística. Assim, o
Aurélio pode ocupar a lacuna deixada pela morte do PDBLP, o que explica
em parte o grande sucesso desse dicionário. O Aurélio vem sendo um cam-
peão inconteste como o dicionário padrão da sociedade brasileira. Ates-
tam-no não só as diversas edições do dicionário geral, o grande Aurélio
(1986, 2000) e as duas versões informatizadas, mas e sobretudo, os mi-
lhões de exemplares do Mini Aurélio vendidos para as escolas. Não vou
tratar dos demais dicionários que se publicaram no século XX com menor
sucesso que o Aurélio: o Michaelis/Melhoramentos em suas várias gran-
des edições, particularmente a última de 1999 e de sua versão informatizada.
Vários outros dicionários concorrem hoje no mercado, particularmente os
minis, que disputam encarniçadamente um espaço no panorama educacio-
nal do Brasil, pois seu valor como obra de referência é reduzido.
Aurélio B. de H. Ferreira fundamentou-se certamente nos originais
do PDBLP. Contudo, ampliou consideravelmente as informações contidas
nos verbetes sobretudo com respeito aos verbos e substantivos de alta fre-
qüência, palavras geralmente polissêmicas. Esse tipo de verbete inclui abo-
nações dos autores brasileiros registrados no rol das referências.
Quanto à questão do vocabulário típico do português brasileiro, as-
sunto de maior importância, conviria ressaltar que Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira foi responsável pelos brasileirismos na 6ª e 9ª edições do
PDBLP. Ora, no dicionário conhecido pelo seu nome, o Aurélio, dos
115.243 verbetes da edição de 1996, 24.632 entradas são rotuladas de bra-
sileirismos. Portanto, quase um quarto do dicionário.
A tese de doutoramento de Ana Maria P. P. de Oliveira (UFMGS)
intitulada O Português do Brasil: Brasileirismos e Regionalismos exa-
minou bem esta questão. Esse minucioso estudo, baseado em extensa pes-
quisa por minha orientada, centrou-se no dicionário Aurélio, extraindo dele
todos os verbetes rotulados com estas marcas sociolingüísticas. Pela análi-
se dos dados tentou-se extrair os critérios adotados por Aurélio na sua
classificação. Constatamos que muitos senões existem neste dicionário
quanto a essa matéria, não sendo o menor deles, o próprio critério de brasi-

79
leirismo. De um modo geral, Aurélio classificou como brasileirismos os
signos que nomeiam os referentes da fauna e da flora do Brasil. Freqüente-
mente trata-se de indigenismos. Ora, um problema de grande relevância
são as fontes em que Aurélio recolheu os regionalismos que registrou. Re-
colheu-os provavelmente em vários vocabulários regionais, publicados nos
séculos XIX e XX e já referidos. Não se pode ter certeza porque Aurélio
não registrou as suas fontes quanto a este tópico. A proeminência dada por
Aurélio aos brasileirismos em seu dicionário, pode ser atribuída à proble-
mática que povoou os debates sobre a identidade do português brasileiro
desde a segunda metade do século XIX até a primeira metade do século
XX e ao ideal lingüístico e lexicográfico da sua geração.
A sociedade brasileira ainda não possui um dicionário geral do por-
tuguês do Brasil elaborado dentro de critérios lexicográficos científicos e
baseado em sólida teoria lexical. Além do Aurélio, os dois outros dicioná-
rios gerais que aspiravam à exaustividade – o Michaelis e o recém-publi-
cado (2001) Dicionário Houaiss – carecem dessa fundamentação lingüís-
tica. Para a difícil empreitada de elaborar um thesaurus do português
brasileiro contemporâneo seria necessário reunir uma grande equipe de
especialistas com boa formação lingüística e com bons conhecimentos de
Lexicologia, Lexicografia e Terminologia. Tal equipe deveria ser assesso-
rada por especialistas em informática que pudessem ajudar na elaboração
de programas de computador que fornecessem suporte ao lexicógrafo na
seleção dos lemas e no tratamento de questões complexas como a identifi-
cação de unidades complexas e a sistematização das acepções de lexias
polissêmicas. De fato, o computador constitui uma ferramenta básica e
imprescindível para se fazer um bom dicionário. Além disso, tal obra de-
veria basear-se em um grande corpus da língua falada e escrita (com pre-
dominância desta última), corpus esse que representasse todas as varieda-
des de discurso, ou seja os mais variedados gêneros, bem como uma vasta
e diversificada recolha de textos técnicos e científicos para poder integrar a
gigantesca pletora de terminologias que caracterizam o léxico do portu-
guês brasileiro contemporâneo.

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80
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Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. [Organizado por Hildebrando
Lima e Gustavo Barroso. Inteiramente revista e consideralvelmente aumentada
por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira]. 6. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Civi-
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Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. [Organizado por Hildebrando
Lima e Gustavo Barroso. Inteiramente revista e consideralvelmente aumentada
por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira]. 9. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Civi-
lização Brasileira, 1951.

81
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velmente aumentada por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira / com a assistên-
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O Português do Brasil. Textos críticos e teóricos. 2- 1920-1945. Seleção e apresenta-
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SOARES, A. J. Macedo. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. 2 volumes. São
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82
UM ESPAÇO DE ENUNCIAÇÃO PARA DIZER
OS BRASILEIRISMOS*

Sheila Elias de Oliveira


UNICENTRO (Doutoranda – Unicamp)

Uma enunciação portuguesa sobre os brasileiros


Na segunda metade do século XIX, inicia-se a gramatização1 brasi-
leira da língua portuguesa. Até o final dos anos 30 do século XX, esta
produção é marcada pela caracterização de uma diferença entre o portu-
guês brasileiro e o europeu.2 Neste movimento, a categoria dos brasileiris-
mos se sobressai como um lugar de especificidade lingüística brasileira: na
lexicografia, são publicados dicionários de brasileirismos, como os de
Macedo Soares e de Beaurepaire-Rohan,3 de 1888 e 1889, respectivamen-
te; nas gramáticas, dois exemplos de sua inclusão são as de Pacheco da
Silva Jr.: a Grammatica Historica da Lingua Portugueza, de 1879, e a
Grammatica da Lingua Portugueza, de 1887, em co-autoria com Lameira
de Andrade, as quais, segundo Guimarães (2000), os integram como fato
lingüístico que configura um sujeito coletivo brasileiro que dá novo senti-
do à língua portuguesa.

* Esta reflexão se constrói como parte de minhas pesquisas de doutoramento, financiadas pe-
las bolsas concedidas pela Capes tanto para o percurso realizado na Unicamp como para o
estágio na ENS/LSH de Lyon.
1
Por gramatização, Auroux (1992: 65) entende “o processo que conduz a descrever e a ins-
trumentar uma língua na base de duas tecnologias, que são ainda hoje os pilares do nosso
saber metalingüístico: a gramática e o dicionário”.
2
Ver a esse respeito a periodização dos estudos do português do Brasil realizada por Guima-
rães em Guimarães e Orlandi (orgs.), 1996: 127-38.
3
Pode-se antever o conflito de que tratarei aqui na semântica da própria nomeação dos dois
dicionários: o de Soares – Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – afirma um lugar
brasileiro de fala sobre a língua portuguesa; já o de Rohan – Dicionário de Vocábulos Brasi-
leiros – afirma uma especificidade vocabular brasileira, sem sequer nomear a língua com a
qual estes vocábulos são postos em relação, seja de pertencimento, seja de oposição.

83
Interessa-me aqui, como parte deste momento em que os brasileiris-
mos são argumento para a afirmação da identidade lingüística brasileira,
tomá-los enquanto objeto de uma enunciação portuguesa. O locutor é Cân-
dido de Figueiredo, lexicógrafo que os inclui em seu dicionário. O dizer
deste autor sobre a língua portuguesa e os brasileirismos será analisado no
prefácio do seu Novo Diccionário da Língua Portuguesa, presente desde a
primeira edição, de 1899, e nos posfácios que acompanham as outras edi-
ções em vida do autor: de 1913, 1922 e 1925.
Parto da consideração de que os dizeres se dão em espaços de enun-
ciação, tal como estes são definidos por Guimarães (2002: 21):

espaços de funcionamento de línguas, constituídos pelo equívoco pró-


prio do acontecimento entre a deontologia que organiza e distribui os
papéis sociais dos falantes e o conflito que os redivide segundo os
direitos ao dizer e aos modos de dizer.

A partir daí, entendo que os brasileirismos, ao passo que afirmam


um lugar de identidade lingüística brasileira, instabilizam uma certa nor-
matividade de sentidos da língua portuguesa, dos quais elenco os que me
parecem mais importantes na enunciação do lexicógrafo português: 1. en-
quanto língua do povo português – e isto em um momento histórico em
que as línguas nacionais são fator importante de identificação de um povo
e seu país; 2. enquanto língua de colonizadores, aí entendidos: 2.1. um
direito superior ao dizer a/sobre a língua e por essa via sobre seus falantes;
2.2. o prestígio de uma língua também medido pelo número de seus falan-
tes, o que sinaliza a importância da unidade lingüística entre estes.
Este conflito está no cerne da divisão entre português do Brasil e
português europeu. Quando o direito à palavra sobre a língua portuguesa
começa a se dividir, quando o direito a diferentes modos de dizer a/da
língua começa a se afirmar, há uma enunciação portuguesa que se significa
neste fato lingüístico-político. E é como gesto próprio do político que Fi-
gueiredo inscreve seu dizer neste espaço enunciativo. Concebo o político
aqui tal como caracterizado por Guimarães (2002: 17), “pela contradição
de uma normatividade que estabelece (desigualmente) uma divisão do real
e a afirmação de pertencimento dos que não estão incluídos”. Ao predicar
a língua portuguesa e os brasileirismos, Figueiredo reafirma um certo
pertencimento dos portugueses em relação ao saber a/da língua. Será ana-
lisado o modo como estes sentidos se tecem nos fios da argumentação nas
diferentes cenas enunciativas.

84
As cenas são “especificações locais dos espaços de enunciação” e
“se caracterizam por constituir modos específicos de acesso à palavra dadas
as relações entre as figuras da enunciação e as formas lingüísticas” (Gui-
marães 2002: 28). As figuras da enunciação são: o Locutor (L), que se
representa como o “eu” da enunciação; o locutor-x, lugar social do qual
fala L (nas cenas aqui analisadas, o de lexicógrafo português); e o enuncia-
dor, lugar de dizer que pode ser individual, universal, genérico ou coletivo.
A imbricação do político na enunciação da forma específica como
Guimarães o formula diz respeito a sua concepção do dizer como históri-
co, este tal como definido na Análise de Discurso Francesa. Assim, o
agenciamento da língua e dos sujeitos na enunciação se sustenta em posi-
ções no interdiscurso, em formações discursivas determinadas.4 É, então,
uma abordagem da relação constitutiva entre a divisão dos falantes na enun-
ciação, a textualização do dizer e sua sustentação histórica que será reali-
zada nas análises que seguem.

A unidade dividida – conversação preliminar / primeira edi-


ção (1899)
Vejamos alguns excertos do prefácio de 1899, mantido nas edições
em vida do autor:

1 “Mas o português não é sómente a língua de Portugal e de suas pos-


sessões: 2 fala-o uma grande nação, que se emancipou da nossa velha
soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que levámos a civili-
zação europeia aos sertões da América do Sul” (1899, apud 1939:
1322).
3 “Succede porém que o português do Brasil não é precisamente o por-
tuguês europeu: recebeu numerosos termos da população indígena, e
o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da moderna
linguagem brasileira. 4 Ora, desde que um diccionário é destinado a
todos os povos que falam português, não pode prescindir dos termos
brasílicos, que são inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada
além do Atlântico” (1899, apud 1939: 1322).

4
Segundo Pêcheux (1975: 160), uma formação discursiva é aquilo que, numa formação ideo-
lógica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determina o que
pode e deve ser dito.

85
5 “Note-se entretanto: nem todos os termos, a que eu apponho a nota de
brasileirismos, e que como taes são considerados pelos mais conspí-
cuos vocabularistas, como Beaurepaire-Rohan, provieram dos Tupis
ou foram criados por brasileiros. 6 Muitos dêlles são velhos portugue-
sismos, que partiram daqui com os descobridores e colonizadores das
terras de Santa Cruz, e que lá vivem e prosperam ainda, sendo aqui já
esquecidos ou mortos.” (1899, apud 1939: 1322)
7 (...) A geriza, o agir, o faneco (pedaço de pão), a alfafa ou alfaifa, o
guaiar, etc. são bons e velhos vocábulos portugueses, de que nós nos
esquecemos quási, mas que os Brasileiros, para vergonha nossa, sa-
bem alimentar e prezar. 8 Sob êste ponto de vista, a inscripção de
muitos vocábulos brasileiros equivale, creio eu, á rehabilitação públi-
ca de alguma coisa, injustamente condemnada pela ingrata pátria...”
(1899, apud 1939: 1323).
9 (Referindo-se à dificuldade ortográfica dada a ausência de escrita
tupi) Sobretudo longe do Brasil, não é nada fácil decidir qual das va-
riantes de um vocábulo brasílico é a exacta ou, pelo menos, a preferí-
vel. Em taes condições, julgo que andei bem avisado, registando as
variantes que se depararam, e remetendo o leitor para a fórma vocabular,
que mais corrente se me afigurava. 10 A exegese dos eruditos brasi-
leiros, – que os há e muitos, – poderá resolver a dúvida em última
instância, e os seus acórdãos acatarei como devo. (1899, apud 1939:
1323, em nota da segunda edição).

Eu, nós, todos – a divisão das figuras da enunciação

Nas diferentes cenas enunciativas, também nos posfácios, Cândido


de Figueiredo fala do lugar social de lexicógrafo português. Este lugar de
locutor, cuja legitimidade para falar sobre a língua é instabilizada pelo es-
paço de enunciação em que se inscreve, é reafirmado na própria enuncia-
ção do lexicógrafo, marcadamente na divisão do enunciador.
Este desliza entre três formas, que produzem sentidos diferentes na
enunciação: a primeira, a universal, que faz com que os argumentos pas-
sem como verdades encadeadas no fio do dizer, é a predominante: um exem-
plo é a predicação da língua em 1: “fala-o uma grande nação, que se eman-
cipou da nossa velha soberania, mas que não enjeitou o idioma, com que
levamos a civilização européia aos sertões da América do Sul”. O apaga-

86
mento da historicidade deste enunciado pode ser pontuado na contraposi-
ção entre as designações “civilização européia” e “sertões da América do
Sul” ou ainda na relação “se emancipou...mas não enjeitou o idioma”, que
apaga as razões históricas da inscrição e da manutenção do português como
língua oficial do Brasil.5
A segunda forma que toma o enunciador é a individual, que aqui
produz o efeito de afirmação do lugar de saber do locutor sobre a língua; as
ocorrências são: em 5: “termos a que eu aponho a nota de brasileirismos”;
em 7: “equivale, creio eu...” e em 9: “julgo andei bem avisado”. Há ainda
uma ocorrência em 10: “e os seus acórdãos acatarei como devo”, na qual
este uso tem um funcionamento especial: o de afirmar o direito do locutor
pela afirmação do direito do erudito brasileiro. Isso porque a afirmação
única de acatamento dos acórdãos dos eruditos brasileiros no que respeita
à ortografia de termos tupis tem como efeito a restrição do direito à palavra
destes ao que é indígena, àquilo na língua que não é comum aos portugue-
ses.
Finalmente, o enunciador toma a forma da coletividade dos ‘portu-
gueses’, ‘povo português’, assumindo um ‘nós’ que faz face a um outro na
relação com a língua: os brasileiros. As ocorrências são as seguintes: em 1,
“com que levamos a civilização européia...”; em 7, “bons e velhos vocábu-
los portugueses de que nos esquecemos quase”. Este efeito de uma coleti-
vidade portuguesa em relação a um ‘outro’ brasileiro é reforçado pelas
referências espaciais, que tomam como ponto de origem Portugal, relacio-
nando os dois países; são elas: em 2, “levamos”; em 4, “além do Atlânti-
co”; em 6, “daqui/lá /aqui”; em 9, “longe do Brasil”.
Tem-se, então, três movimentos principais na divisão das figuras da
enunciação: 1. o efeito de “textualização da verdade”; 2. a afirmação do
lugar social do locutor enquanto lugar de direito à palavra sobre a língua,
com a restrição deste direito para o erudito brasileiro; 3. a divisão entre um
‘nós portugueses’ e um ‘outro’ brasileiro. Vejamos como estes movimen-
tos significam nos fios da argumentação na relação com as predicações da
língua portuguesa e dos brasileirismos.

5
Lembre-se aqui do édito do Marquês de Pombal, de 1757, que obriga o ensino do português
nas escolas, e da discussão legislativa sobre o nome da língua – ‘brasileira’ ou ‘portuguesa’
– nos anos 30 e 40 do séc. XX. (Sobre esta discussão, v. Dias (1996).

87
Entre a civilização e o sertão – a língua reescriturada

Já no enunciado que introduz o dizer sobre os brasileirismos, a lín-


gua aparece nomeada: “o português”. O sentido deste nome vai se tecendo
pelas predicações que recebe:
1. não é somente a língua de Portugal e de suas possessões/2. fala-o uma
grande nação, que se emancipou da nossa velha soberania, mas que
não enjeitou o idioma com que levamos a civilização européia aos
sertões da América do Sul/3. o português do Brasil não é precisamen-
te o português europeu/3a. recebeu numerosos termos da população
indígena, e o tupi entrou como elemento constituinte no organismo da
moderna linguagem brasileira/4. português/ 4a. linguagem portugue-
sa, praticada além do Atlântico
A predicação está sendo aqui considerada como um procedimento
de reescritura (Guimarães, 1998: 4), pelo qual a estabilização entre as for-
mas se faz a partir da deriva dos sentidos, do trabalho histórico do equívo-
co na língua. Como tal, a relação predicativa não se restringe aos limites da
frase; ela é concebida como passível de se dar em qualquer ponto do texto.
Vejamos, então, como os sentidos vão derivando e produzindo efeitos na
argumentação.
Neste conjunto de predicações, a orientação argumentativa predo-
minante é a que vai em direção à unidade da língua portuguesa. Tem-se aí
o espaço enunciativo de divisão da língua produzindo sentidos. Observe-
mos em mais detalhe como este espaço vai se inscrevendo na enunciação.
A construção 1 significa a mudança de uma normatividade – a de
que o português é a língua de Portugal e de suas possessões – formulada
pela sua negação parcial, por meio de não somente. A afirmação da eman-
cipação da “grande nação” brasileira sinaliza o litígio, a necessidade de
redivisão da língua e de seus falantes.
Em 2, a unidade lingüística é afirmada em dois movimentos: o pri-
meiro, a partir da construção em ‘mas’: “se emancipou mas não enjeitou o
idioma”, que tem como argumento predominante a não rejeição do idio-
ma 6 pela nação brasileira; o segundo, pela predicação da língua como o
idioma com que Portugal trouxe a civilização ao sertão brasileiro. Tem-se
aí o argumento da oposição entre a língua civilizada e a língua bárbara,

6
Refiro aos estudos do mas realizados por Anscombre e Ducrot (1983).

88
largamente utilizado na Idade Moderna na oposição entre as línguas euro-
péias e as indígenas das colônias.7 Este argumento é reforçado na predicação
3, em que a divisão da língua é formulada nas designações “português do
Brasil” e “português europeu”; é a assimetria morfológica e semântica en-
tre os dois especificadores – não se tem ‘do Brasil’ e ‘de Portugal’ mas ‘do
Brasil’ e ‘europeu’ – que faz significar a mesma direção de valorização da
língua de civilização. Tanto mais porque a justificativa apresentada para
esta divisão logo em seguida (em 3a) é a entrada da língua indígena – o
tupi – na linguagem brasileira.
Junta-se a esse argumento em favor da unidade do português a ca-
racterização da relação lingüística entre Portugal e Brasil como um deslo-
camento geográfico; este sentido já está em 2, na representação de uma
língua que é levada da civilização para a barbárie; e também em 4a, na
designação “linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico”.
Já se pode observar que a afirmação da unidade lingüística se for-
mula de maneira tal que a relação entre falantes portugueses e brasileiros é
construída de forma assimétrica: entre bárbaros e civilizados, entre os que
estão lá e os que estão cá, com os que foram e não são mais possessão
portuguesa.
Na direção dessa assimetria, cabe remarcar a especificidade semân-
tica que aqui adquire o uso de ‘linguagem’, em 4a: “linguagem portuguesa,
praticada além do Atlântico” e em 3a: “moderna linguagem brasileira”.
Este vocábulo, usado somente para designar a língua do Brasil, significa
em oposição à “língua”, usado para designar a língua de Portugal ou a
unidade entre as duas. Para esta língua que é definida como um desloca-
mento espacial do português europeu, “linguagem” significa modo de fa-
lar, um “regionalismo”, como será formulado mais adiante.

Os brasileirismos – entre tupinismos e portuguesismos


Vejamos como as predicações da língua entram em relação com as
dos brasileirismos, abaixo:

7
Este tratamento do outro como bárbaro, sabemos, tem sua origem documentada na Grécia
Antiga, onde todos os povos que não falavam grego assim eram considerados. O interessan-
te é que etimologicamente ‘bárbaros’ eram aqueles que não falavam, já que não falavam o
grego e, portanto, não produziam nada além de ruídos (v. Calvet, 1987), o que nos mostra
como a questão do direito à palavra se inscreve na memória dos dizeres sobre a língua e das
políticas sociais.

89
3. numerosos termos da população indígena/ 3a. o tupi entrou como cons-
tituinte da moderna linguagem brasileira/ 4. termos brasílicos, que são
inseparáveis da linguagem portuguesa, praticada além do Atlântico/
5. nem todos os termos, a que eu aponho a nota de brasileirismos, e
que como tais são considerados pelos mais conspícuos vocabularistas,
como B-R, provieram dos Tupis ou foram criados por brasileiros/ 6.
velhos portuguesismos, que partiram daqui com os descobridores e
colonizadores das terras de Santa Cruz, e que lá vivem e prosperam
ainda, sendo aqui já esquecidos ou mortos/ 7. bons e velhos vocábulos
portugueses de que nos esquecemos quase mas que os brasileiros para
vergonha nossa sabem alimentar e prezar/ 8. a inscrição de muitos
vocábulos brasileiros equivale à reabilitação de alguma coisa injusta-
mente condenada pela ingrata pátria/ 9. Sobretudo longe do Brasil,
não é nada fácil decidir qual das variantes de um vocábulo brasílico é
a exata ou, pelo menos, a preferível/ 9a. registando as variantes que se
depararam e remetendo o leitor para a forma vocabular que mais cor-
rente me afigurava

Este conjunto de predicações estabelece uma divisão entre os bra-


sileirismos: 3, 3a, 4, 9 e 9a os significam como termos do tupi; já 6, 7 e 8
como termos outrora utilizados em Portugal e que os brasileiros “reabili-
taram”. O enunciado 5 realiza a transição entre os dois tipos, ao mesmo
tempo formulando a única inclusão de uma possibilidade de criação bra-
sileira: “ou foram criados por brasileiros”, que não é repetida, desenvol-
vida ou exemplificada, como são as dos outros dois tipos. A divisão dual
entre os brasileirismos é ainda reforçada pela especialização dos sentidos
entre ‘brasílico’ referindo-se ao que é do tupi, e ‘brasileiro’ ao que é do
português, em “termos brasílicos” (4)/ “vocábulo brasílico” (9) e “vocá-
bulos brasileiros (8)”. Constrói-se a imagem de um sujeito de língua bra-
sileiro que não cria, apenas recupera portuguesismos ou integra tupinis-
mos.
Nesta direção, o encadeamento das predicações concernentes aos
portuguesismos significa em uma contradição: é justamente o movimento
de enaltecimento do povo brasileiro x depreciação do povo português que
esvazia o sentido de um sujeito lingüístico brasileiro criador. Isso porque
este movimento (predicações 6, 7 e 8) se constrói pelo enaltecimento da
recuperação de vocábulos portugueses pelos brasileiros.

90
Os efeitos da espacialização geográfica da diferença

Os diferentes lugares em que o espaço enunciativo de litígio portu-


guês do Brasil/português de Portugal significa na enunciação de Figueire-
do estabelecem uma direção que se sustentará ao longo dos posfácios: a
afirmação de uma unidade lingüística contraditória, no interior da qual se
constrói uma hierarquia entre falantes brasileiros e portugueses.
Nas predicações da língua portuguesa e dos brasileirismos, a diferen-
ça entre a língua do Brasil e a de Portugal é reduzida ao geográfico; dessa
forma, a primeira é significada como uma “linguagem”, um modo de falar
da “língua” européia. A partir deste argumento, podem-se caracterizar os
brasileirismos sem a especificidade de uma identidade lingüística brasileira,
divididos entre tupinismos e portuguesismos. O próprio geográfico se cons-
trói sobre um sentido de assimetria entre os falantes, espacializados entre a
“civilização européia” e os “sertões da América do Sul”. Une-se a língua,
hierarquizando-se o direito à palavra nela e sobre ela, seja pelos falantes
comuns, seja pelos eruditos. Eis os discursos colonizador e eurocêntrico pro-
duzindo efeitos nesta redivisão da língua para reafirmar uma certa
normatividade: a de que os brasileiros falam a língua do povo português.

Uma política que se explicita: palavras finaes – segunda e


terceira edições
Passemos às predicações da língua nos posfácios de 1913 e 1922:

11 (Referindo-se à necessidade de apresentar a ortografia mais usual


em Portugal e no Brasil) “E falo do Brasil, porque em Portugal não
podemos nem devemos escrever só para Portugueses: 12 há além do
Atlântico vinte milhões de indivíduos, que falam a língua portuguesa
/ e a quem não podemos insular dos escrúpulos e cuidados que nos
merece o idioma commum” (1913, apud 1939: 1342).
13 “A minha terra e ao Brasil, especialmente aos homens de letras e
sciências, consagro, nesta obra, o produto de largos annos de trabalho
e o documento de minha inteira dedicação ás letras e á língua do povo
português” (1913, apud 1939: 1343).
14 “...alguns e desambiciosos serviços prestei devotàdamente á língua de
Portugal e do Brasil” (1922, apud 1939: 1346).

91
No posfácio da segunda edição (enunciados 11 e 12), uma mudança
na textualidade aumenta o grau de explicitude da política que vinha se
delineando em relação ao instrumento lingüístico. Esta mudança consiste
em dois movimentos: 1. passa-se do predomínio do enunciador universal
ao do enunciador individual; 2. introduz-se no dizer uma justificativa para
se falar do Brasil em um dicionário de Português feito em Portugal, qual
seja, a de que os brasileiros não podem ser insulados pelos portugueses dos
cuidados e escrúpulos com o idioma comum. Nessa formulação, o dizer
sobre a língua vem dos portugueses para os brasileiros e o efeito de redu-
ção da diferença lingüística entre os dois países ao geográfico persiste,
pelas locuções “em Portugal” e “além do Atlântico”. Este efeito de assime-
tria entre falantes brasileiros e portugueses se reduplica, ainda, na contra-
dição entre a dedicação da obra a dois países: “à minha terra e ao Brasil” e
a afirmação dos serviços prestados a um só povo concernido pela língua:
“às letras e à língua do povo português” (enunciado 13).
A redução ao geográfico, tendo como ponto de origem Portugal,
reafirma a divisão dos falantes entre portugueses e seu ‘outro’ brasileiro.
Na divisão das figuras da enunciação, as formulações em que aparece o
enunciador coletivo contribuem para este efeito. Este lugar de dizer está
nos enunciados 11 e 12, em duas ocorrências entrecortadas pela entrada
única do enunciador universal: “porque em Portugal não podemos nem
devemos escrever só pra Portugueses” / “há além do Atlântico vinte mi-
lhões de indivíduos, que falam a língua portuguesa” / “...e a quem não
podemos insular dos escrúpulos e cuidados que nos merece o idioma co-
mum”. Na predicação universal, por sua vez, é enfatizada a quantidade de
falantes no Brasil; este dizer entra em relação parafrástica com a designa-
ção “uma grande nação” do prefácio e sinaliza a importância de se manter
a unidade da língua num país grande e já populoso como este.
Nos dois posfácios, a afirmação da unidade lingüística entre Brasil
e Portugal se marca nas designações anafóricas do nome da língua: em 12,
“o idioma comum”; em 14, “a língua de Portugal e do Brasil”.
As ocorrências do enunciador individual são: “e falo do Brasil”, em
11; “consagro, nesta obra” / “minha inteira dedicação”, em 13; “prestei
devotadamente”, em 14. O funcionamento de afirmação do lugar de lexi-
cógrafo português se mantém, mas a direção desta afirmação muda em
relação ao prefácio: se lá a ênfase se põe sobretudo no respaldo que este
lugar social imprime ao locutor, aqui está no respaldo que o trabalho indi-
vidual deste último imprime ao lugar de lexicógrafo português. Tal mu-

92
dança, junto ao predomínio do enunciador individual, compõe um movi-
mento em que o locutor se atribui cada vez mais autoridade.
Os posfácios de 1913 e 1922 apresentam, então, algumas regulari-
dades em relação ao prefácio estruturadas a partir da afirmação da unidade
assimétrica da língua. Nesta direção argumentativa que se repete, a política
para o dicionário calcada na assimetria entre os falantes é mais explícita.
Na distribuição das figuras da enunciação, a predominância do enunciador
individual é indício do aumento na autoridade atribuída pelo locutor a si
próprio. Este efeito se acentua no posfácio de 1925.

Os brasileirismos como regionalismos – as últimas palavras do auctor


sôbre a quarta edição

O posfácio da última edição em vida de Figueiredo é também lugar


de justificativas e de predomínio do enunciador individual. A auto-atribui-
ção crescente de autoridade pelo locutor é acentuada com o direcionamen-
to da interlocução: antes o locutor se dirigia ao leitor do dicionário de for-
ma geral; agora há um interlocutor específico – os críticos à forma de
inclusão dos brasileirismos no dicionário. Desse modo, o litígio do direito
à palavra entre falantes brasileiros e portugueses é aqui mais explícito.

15 “Assim é que esta quarta edição do Novo Diccionário da Língua Por-


tuguesa, afora várias e indispensáveis correções, regista pela primeira
vez muitos centenares de vocábulos, colhidos uns em obras de escri-
tores exemplares, e recebidos outros da linguagem falada de differentes
regiões de Portugal e do Brasil” (1925, apud 1939: 1347).
16 “A propósito de linguagem regionalista, verifica-se, sem vaidade, que
nenhum diccionário além do meu registou coisa que se parecesse com
mais de dez mil brasileirismos, a que deu cabida em o Novo Diccioná-
rio da Língua Portuguesa” (1925, apud 1939: 1346).
17 E contudo, havendo-se nos últimos tempos publicado, em revistas e
opúsculos, algumas colleções de vocábulos numerosos, que os res-
pectivos colleccionadores averbam de brasileirismos, não tem faltado
quem me accuse de não registar mais espécimes da linguagem brasi-
leira, chegando a inventar disparatadamente má vontade minha para
com o Brasil, onde certamente não há dois homens sensatos que tal
disparate perfilhem.

93
18 “As responsabilidades do diccionarista não são coisa que se ponha de
lado, para lisonjear seja quem fôr. Ora, se o autor do presente diccio-
nário reproduzisse cègamente quanto tem visto em revistas e opúscu-
los com a designação de brasileirismos, seria um grande Marcelo para
os colleccionadores, mas teria lavrado a mais formal condemnação da
sua própria obra” (1925, apud 1939: 1346).
19 “De facto, entre os próprios pontífices das letras brasileiras ainda não
se estabeleceu acôrdo sôbre o que deva entender-se por brasileirismo,
sendo portanto naturaes e legítimas, em tal assumpto, quaisquer hesi-
tações de quem não é pontífice nem ao menos propheta menor” (1925,
apud 1939: 1347).
20 “Succede até que, sem sombra de dúvida, numerosos vocábulos, que
se registam como brasileirismos, são meras expressões da linguagem
geral, conhecidíssimos do povo português”.
21 Muitos outros supostos brasileirismos são outras tantas corruptelas de
vocábulos do uso geral; e, se tivéssemos de registar num diccionário
da língua as corruptelas de tal género, seriam taes e tantas as que se
poderiam colher em todas as regiões portuguesas e brasileiras, que o
vocabulário geral ficaria apoucado e afogado em meio a essas escurri-
lidades.
22 “O diccionarista aceitou e registou quanto a tal respeito não lhe ofere-
cia dúvidas, importando-se pouco ou nada de quem as não tivesse nos
muitíssimos casos em que êlle as tinha” (1925, apud 1939: 1347).

Nestas predicações dos brasileirismos, há dois movimentos argu-


mentativos. Nos enunciados 15 e 16, o locutor se vangloria da grande quan-
tidade de brasileirismos de seu dicionário. O enunciado 17 tematiza as crí-
ticas recebidas justamente em sentido contrário, ou seja, pelo baixo número
de brasileirismos incluídos. A partir deste enunciado de transição, os se-
guintes se dirigem a justificar a posição do autor.
Na divisão das figuras da enunciação, os lugares de dizer indivi-
dual, universal e coletivo estão novamente presentes. O enunciador indivi-
dual é marcado pela 1ª e a 3ª pessoas do singular: em 16, “nenhum dicioná-
rio além do meu”; em 17, “não tem faltado quem me acuse” / “má vontade
minha para com o Brasil”; em 18, “se o autor do presente dicionário”; em
19, “quaisquer hesitações de quem não é pontífice nem ao menos profeta
menor”; em 22, “o dicionarista aceitou e registrou” / “muitíssimos casos
em que ele as tinha”.

94
As predicações acima, à exceção de 17, em que não há tal explicita-
ção, fazem referência ao lugar social do locutor, seja como lexicógrafo
(16, 18, 22) ou como português (19). Esta relação entre o lugar de dizer e o
lugar social produz um efeito de reafirmação da legitimidade deste último.
Ao mesmo tempo, nesta representação do enunciador individual em 3ª pes-
soa, o ‘eu’ do locutor significa tomado pelo seu lugar social de dizer. Um
‘eu’ que fala representando no dizer o lugar que lhe permite falar, e não
mais simplesmente o de indivíduo. Num duplo movimento, este ‘eu’ se
respalda no lugar que lhe autoriza o dizer, atribuindo autoridade a este
lugar e, por essa via, a si próprio enquanto locutor.
O efeito de auto-atribuição de autoridade pela afirmação do lugar so-
cial do locutor no jogo entre a primeira e a terceira pessoas se repete em duas
marcas que transitam entre o lugar de dizer individual e o coletivo: se há uma
coletividade significada, não é mais a dos portugueses, como até então; é
justamente a dos lexicógrafos, representada entre a 3ª pessoa do singular e a
1ª do plural: “as responsabilidades do dicionarista não são coisa que se po-
nha de lado” (18); “se tivéssemos que registrar num dicionário” (21).
As três ocorrências do enunciador universal, por sua vez, se dão em
lugares que significam a assimetria entre os falantes na direção de esvazi-
amento de um caráter lingüístico brasileiro. Em 15, é formulado o sentido
de ‘linguagem regionalista’, designação que aparece em 16; em 20, o sen-
tido é o de repetição de termos usados em Portugal; e, finalmente, em 21, o
sentido é o de corrupção da língua portuguesa. Vejamos em mais detalhe
como as designações dos brasileirismos, ditas do lugar do universal ou
não, compõem o quadro de assimetria entre os falantes:

15. muitos centenares de vocábulos, colhidos uns em obras de escritores


exemplares, e recebidos outros da linguagem falada de differentes re-
giões de Portugal e do Brasil/ 16. linguagem regionalista/ 17. algumas
colleções de vocábulos numerosos, que os respectivos colleccionadores
averbam de brasileirismos/ 17a. espécimes da linguagem brasileira/
18. quanto tem visto em revistas e opúsculos com a designação de
brasileirismos/ 19. o que deva entender-se por brasileirismo/ 20. nu-
merosos vocábulos, que se registam como brasileirismos, são meras
expressões da linguagem geral, conhecidíssimos do povo português/
21. Muitos outros supostos brasileirismos são outras tantas corruptelas
de vocábulos do uso geral/ 21a. as corruptelas de tal género, seriam
taes e tantas as que se poderiam colher em todas as regiões portugue-

95
sas e brasileiras/ 21b essas escurrilidades/ 22. quanto a tal respeito
não lhe oferecia dúvidas.

Há nestas designações três movimentos semânticos. Num primeiro


movimento, os brasileirismos são significados como regionalismos (em 15
e 16), o que reforça o sentido do português do Brasil como um desloca-
mento geográfico do português da matriz.
O segundo movimento pode ser observado em 17, 18, 19 e 22: põe-
se em dúvida quais elementos podem ser identificados como brasileiris-
mos. O lugar da dúvida é também o lugar instituído de saber sobre a lín-
gua, pois quem a formula são os colecionadores de brasileirismos, o
dicionarista, os pontífices das letras brasileiras. Faz-se aí uma nova divi-
são: o povo diz na língua, mas o dizer sobre ela é restrito ao especialista.
No terceiro movimento, a dúvida cede lugar à certeza. Em 20, 21,
21a e 21b, o locutor toma a palavra sobre os brasileirismos e os redivide
entre “meras expressões da linguagem geral, conhecidíssimos do povo
português” e “corruptelas de vocábulos do uso geral” / “escurrilidades”. A
primeira designação significa os brasileirismos enquanto portuguesismos.
A segunda não é restrita aos brasileirismos, mas se aplica aos regionalis-
mos (aí incluídos os de origem portuguesa), os quais põe em um lugar
marginal em relação a uma certa norma lingüística. Entre a primeira e a
segunda designação, uma regularidade semântica: de um lado, brasileiris-
mos não brasileiros; de outro, regionalismos não regionais, ambos pendu-
rados nas arestas da norma lingüística portuguesa.
Neste posfácio, a explicitação do litígio entre falantes do português
põe de forma decisiva a afirmação da unidade lingüística assimétrica. Os
brasileirismos, designados como regionalismos, deslizam entre portugue-
sismos e corruptelas de vocábulos do português. E até o falante erudito e o
ordinário, mesmo portugueses, são divididos, quando se restringe ao pri-
meiro o direito às dúvidas e certezas sobre a língua e, por essa via, ao lugar
de saber sobre ela.

A velha voz se reinscreve


Nas diferentes cenas enunciativas analisadas, a divisão dos lugares
de dizer significa a tríade entre o lugar da verdade (universal), o das comu-
nidades dos portugueses e dos lexicógrafos (coletivo) e o do locutor en-

96
quanto fonte do seu dizer (individual). Esta divisão funciona de modo a
legitimar a autoridade do locutor enquanto lexicógrafo português na toma-
da da palavra sobre a língua portuguesa e os brasileirismos.
Ancorado nestes lugares, ao predicar a língua e os brasileirismos,
Cândido de Figueiredo realiza uma redivisão do acesso à palavra entre falan-
tes brasileiros e portugueses, redivisão esta imposta pelo litígio português do
Brasil/português europeu. Há, então, em sua enunciação, um movimento de
afirmação da supremacia portuguesa sobre a língua falada no Brasil, em duas
instâncias: a primeira, que toca ao especialista, diz respeito ao lugar de
saber e de deliberação sobre a língua relacionado à definição e manutenção
da norma; a segunda, que toca ao falante comum, está ligada ao lugar da
criação lingüística, de um caráter subjetivo de povo marcado na língua.
Neste movimento, o locutor reduz as diferenças históricas entre a
língua do Brasil e a de Portugal ao geográfico. Definida pelo mero deslo-
camento espacial, a mesma língua integra o diferente, sem recusar o anti-
go, sem criar o novo. Isto porque geografia e cultura estão imbricadas: em
Portugal, há uma língua de civilização, há uma civilização para a língua;
nos sertões da América do Sul, não há civilização, portanto não há povo ou
tampouco saber legitimado. A palavra do brasileiro é significada como a
de um outro, indígena ou português, sempre inferior, sempre nas bordas da
norma portuguesa.
Os brasileirismos, desse modo, que na enunciação dos estudiosos
brasileiros constituem uma diferença lingüística utilizada como argumento
para a afirmação da identidade nacional, no dizer do lexicógrafo português
são um alheio que o brasileiro interioriza na justa medida que lhe permite a
sua inferioridade enquanto sujeito de língua. A “grande nação que se eman-
cipou da velha soberania portuguesa”, sua língua, seu povo são aqui defi-
nidos ainda pela velha voz soberana inscrita no velho discurso colonizador
eurocêntrico...

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GUIMARÃES, E. “Sinopse dos estudos do português no Brasil”. In: GUIMARÃES,
E. e ORLANDI, E. (orgs.) Língua e Cidadania – o português do Brasil. Campi-
nas: Pontes, 1996, p. 127-38.
______. “Textualidade e enunciação”. In: Escritos, 2. Campinas: Labeurb/Unicamp,
1998.
______. “Os estudos da significação no Brasil: uma história entre o natural e o históri-
co no século XIX” in: Línguas e Instrumentos Lingüísticos, 4/5. Campinas: Pon-
tes, 2000, p. 7-18.
______. Semântica do acontecimento – um estudo enunciativo da designação. Campi-
nas: Pontes, no prelo.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso – uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni P.
Orlandi et al. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.

98
DICIONARIZAÇÃO NO BRASIL: CONDIÇÕES E PROCESSOS

José Horta Nunes


Universidade Estadual Paulista (UNESP)

Como mostram Auroux (1992) e Schlieben Lange (1993), uma sé-


rie de trabalhos têm sido dedicados nas últimas décadas à história do saber
lingüístico, não somente para legitimar uma certa teoria, mas para com-
preender os processos envolvidos na produção desse saber, em suas diver-
sas formas. Acompanha tal movimento um interesse em discutir questões
teóricas e metodológicas.1 Dentro dessa perspectiva, e em relação com a
análise do discurso, alguns trabalhos abordam o caso brasileiro, procuran-
do levar em conta o papel de teorias, acontecimentos, instituições ligados à
produção de saber lingüístico, especialmente na forma de gramáticas e di-
cionários (ver Auroux, Mazière, Orlandi, 1998 e Orlandi, 2001). Dentro
dessa perspectiva, vamos nos ater neste artigo a questões relacionadas à
dicionarização, ou seja, à descrição e instrumentação da língua na base do
dicionário.
Em trabalhos anteriores, ligados ao projeto História das Idéias Lin-
güísticas no Brasil, tenho analisado de uma perspectiva discursiva a produ-
ção de um conjunto de dicionários no Brasil desde a Época Colonial até o
século XIX (Nunes, 1996, 1998). Considerando o dicionário como um objeto
discursivo, conforme a perspectiva de Mazière (1997), procuro explicitar
as condições de sua produção em determinadas conjunturas, relacionando
as formas dicionarísticas às condicionantes históricas. Proponho agora re-
tomar alguns passos percorridos, trabalhando os resultados dessas análises
em vista de uma história da dicionarização. Acrescento para este artigo
alguns elementos relativos ao século XX. As reflexões que seguem não

1
Encontramos discussões a esse respeito nas revistas Histoire Epistémologie, Langage (Presses
Universitaires de France, Paris) e Historiographia Lingüística (J. Benjamins, Amsterdan). No
Brasil, desde 1998, temos a revista Línguas e Instrumentos Lingüísticos (Pontes, Campinas).

99
têm nenhuma pretensão de exaustividade quanto à listagem de obras, auto-
res, acontecimentos, etc. O que se tem em vista é o modo de construir
interpretações trabalhando-se as séries de condições históricas relativas à
produção lexicográfica.
Para se compreender a historicidade dos dicionários, propomos le-
var em conta as condições específicas de sua produção. Daí resulta uma
escrita atenta aos fatores históricos que fazem aparecer o saber lexical na
forma do dicionário. Nesta escrita, efetua-se uma remissão do texto lexi-
cográfico a suas condições de produção, de modo que o saber lexical não é
tomado independentemente dessas condições, como um saber ideal ou atem-
poral. Esta maneira de ler o dicionário, com base na análise do discurso,
tem conseqüências produtivas, a nosso ver, para a história do saber lexical,
incluindo-se aí a construção das periodizações e a interpretação dos fatos
ligados à dicionarização.
Compreender a história da dicionarização nos traz elementos ainda
para abordar questões de ética e de política lingüística, levando-se em con-
ta os processos de produção dos dicionários, com os diversos fatores só-
cio-históricos aí envolvidos.

O dicionário: um saber histórico


Os historiadores das ciências da linguagem têm refletido sobre seu
objeto, revendo trabalhos já realizados, propondo novas abordagens,
retornando a mesmas questões sob outras perspectivas, levantando novos
fatos. Um dos pontos que resultaram disso foi o questionamento do que
sejam as ciências da linguagem. A posição que sustentamos aqui, com base
em Auroux (1992), é a de que o saber lingüístico é um produto histórico,
localizado em um tempo e em um espaço:

Todo conhecimento é uma realidade histórica, sendo que seu modo de


existência real não é a atemporalidade ideal da ordem lógica do
desfraldamento do verdadeiro, mas a temporalidade ramificada da cons-
tituição cotidiana do saber (Auroux, 1992: 11).

Ainda conforme Auroux, a origem do saber metalingüístico não


concerne a um acontecimento, mas a um processo num intervalo tempo-
ral aberto, às vezes longo, e ela pode ser espontânea (como as tradições
hindu, chinesa e grega) ou resultar de uma transferência tecnológica (como

100
a tradição latina, a gramática hebraica, o estudo dos vernáculos euro-
peus, ameríndios, africanos). Ao tratar da questão da origem e do desen-
volvimento do saber lingüístico, Auroux sustenta a tese de que “a escrita
é um dos fatores necessários ao aparecimento das ciências da lingua-
gem”. Assim, o saber metalingüístico pressupõe a escrita, cujo advento
corresponde à primeira grande revolução tecnológica das ciências da lin-
guagem, iniciada em 3.000 a.C. A segunda grande revolução seria a da
“gramatização”, ou seja, o “processo que conduz a descrever e a instru-
mentar uma língua na base de duas tecnologias, que são ainda hoje os
pilares de nosso saber metalingüístico: a gramática e o dicionário”. Tal
processo avança amplamente no século XVI: “o Renascimento europeu é
o ponto de inflexão de um processo que conduz a produzir dicionários e
gramáticas de todas as línguas do mundo na base da tradição greco-lati-
na”.
O dicionário, segundo Auroux, é um “instrumento lingüístico”, e
como tal ele “prolonga a fala natural”, dando acesso a formas que não
figuram na “competência” de um locutor. Trata-se de um “instrumento tec-
nológico” que não corresponde a algo que estaria inscrito na mente do
sujeito, mas a algo que lhe é exterior. Quanto à sua constituição histórica,
Auroux considera os processos, de longo prazo, que levaram ao apareci-
mento e ao desenvolvimento de tais instrumentos. Assim, por exemplo,
foram necessários séculos para a passagem das primeiras listas de palavras
(a partir de 3.000 a.C.) aos glossários medievais e depois aos dicionários
monolíngües das línguas nacionais a partir do século XVI.

Processos de dicionarização no Brasil


Como aparece um saber dicionarístico no Brasil? Esta questão sus-
cita uma série de apontamentos, conforme um ou outro critério. Se consi-
deramos a unidade da palavra, desde os primeiros relatos de viajantes te-
mos um saber que se volta para os termos empregados no Brasil, sejam as
nomeações em língua portuguesa, desde Caminha (1500), sejam termos
indígenas traduzidos e comentados, desde Pigafeta, em 1519, como aponta
Neiva (1940). Se consideramos a forma acabada do dicionário, os bilín-
gües português-tupi foram os primeiros a aparecer, na Época Colonial (séc.
XVI-XVII). Se consideramos o dicionário monolíngüe, o de Moraes (1789)
foi o primeiro a ser amplamente utilizado, inaugurando a série de trans-

101
ferências2 de dicionários portugueses, que seguirá com Aulete (1881), Fi-
gueiredo (1899) e outros. Ainda quanto ao monolíngüe, se consideramos a
produção local, destacam-se na segunda metade do século XIX os dicioná-
rios de complemento, como o de Costa Rubim (1853), os de regionalis-
mos, como o de Antônio Coruja (1856) e os de brasileirismos, como os de
Macedo Soares (1888) e Beaurepaire Rohan (1889). Se temos em vista,
finalmente, o dicionário brasileiro de língua portuguesa, podemos indicar
nas décadas de 1930 e 40 o aparecimento dos primeiros dicionários de
língua portuguesa apresentados como brasileiros: Lima e Barroso (1938) e
Freire (1939-43). Se levamos em conta ainda outras tipologias (etimológi-
cos, escolares, literários, etc.), teremos uma série de outros critérios e obras.
Para nossos objetivos neste artigo, vamos nos ater ao caso do dicionário
monolíngüe, procurando explicitar elementos de sua constituição em um
processo histórico. Trataremos de outras formas textuais (relatos, listas,
dicionários bilíngües) apenas na medida em que elas participam do proces-
so de dicionarização do monolíngüe. Pois nesse processo, tanto os relatos
de viajantes quanto os dicionários bilíngües serviram de matéria prima para
a constituição dos monolíngües.
Do ponto de vista em que nos situamos, o saber lexicográfico resul-
ta de um longo processo de instrumentação, cuja origem não está em um
acontecimento isolado, mas em uma série de fatos inter-relacionados. Com
relação às formas textuais, podemos resumir os momentos de dicionarização
nos seguintes itens:

a) transcrição e comentário de termos;


b) listas temáticas de palavras;
c) dicionários bilíngües;
d) dicionários monolíngües.

A fim de comentar estes itens, apresentamos no quadro abaixo algu-


mas séries de fatores que indicam acontecimentos, instituições, autores,
teorias, obras ligados à produção dicionarística. Consideramos em sua in-
terpretação dois períodos de dicionarização, que correspondem a proces-

2
Segundo Auroux, uma tradição lingüística pode se originar de forma espontânea ou resultar
de uma transferência tecnológica (A revolução tecnológica da gramatização, 1992: 21).
3
Utilizamos aqui a distinção de Auroux entre exo-gramatização e endo-gramatização: “Por
definição, o processo de gramatização que nos interessa aqui corresponde pois a uma trans-
ferência de tecnologia de uma língua para outras línguas, transferência que não é, claro,

102
sos distintos de gramatização. No primeiro, predomina a exo-gramatiza-
ção,3 com a produção de listas de palavras e dicionários bilíngües. No se-
gundo, predomina a endo-gramatização com a produção de dicionários
monolíngües:4

nunca totalmente independente de uma transferência cultural mais ampla. Importa levar em
conta a situação dos sujeitos que efetuam a transferência, segundo eles sejam ou não locuto-
res nativos da língua para a qual ocorre a transferência. Falaremos respectivamente de
endotransferência e de exotransferência. Lingüisticamente teremos igualmente ou uma
endogramatização ou uma exogramatização (A revolução tecnológica da gramatização, 1992:
74).
4
Consideramos aqui a predominância desses processos em determinadas conjunturas. Não se
deve perder de vista, no entanto, que fatos de endo-gramatização ocorrem desde a Época
Colonial. É o caso, por exemplo, em relatos de viajantes, de listas de palavras e definições de
termos portugueses utilizados no Brasil. Do mesmo modo, fatos de exo-gramatização, como
a dicionarização de línguas indígenas, continuam durante o século XIX e XX, e até a atuali-
dade.

103
104
PROCESSO DE
GRAMATI- EXO-GRAMATIZAÇÃO ENDO-GRAMATIZAÇÃO
ZAÇÃO
Expulsão dos
ACONTECI- Descoberta Colonização Jesuítas Obriga- Independência República
MENTOS toriedade do Monarquia
estudo do
português
Reinos Companhia de Jesus Academias IHGB ABL Editoras
INSTITUI- Universidades Bibl. Nac. Escola Ampliação da
ÇÕES portuguesas Escola pública Pública rede escolar
Universidades
G. Barroso e
M. Soares, H. Lima,
AUTORES Viajantes Missionários jesuítas Moraes G. Dias, B. Rohan L. Freire,
Viajantes E. F. França, B. da C. Rubim, A.Nascentes,
Antônio Coruja A. B. Holanda,
A. Houaiss
TEORIAS Gramática Latina Gramática Geral Gramática Gramática de Lingüística
Histórica Língua Sincrônica
Nacional
Listas de Dicionários bilíngües Port.-Tupi Dic. Dic. Bil. Dic. de Bras. Dic. Monol.
OBRAS palavras Monolíngüe Tupi-Port. Dic. Bras.
Comentários Port. de Complem. e
de regionalismo

1547 1757 1822 1889 1938 2001

1500 1600 1700 1800 1900 2000


A lista que segue complementa o quadro, apresentando datas e fatos
relacionados à dicionarização no Brasil:5

1500 Descoberta
1549 Chegada dos jesuítas
1585 Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry
1587 Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa
1621 Vocabulário da Língua Brasílica, anônimo-jesuítas
1724 Fundação da Academia Brasileira dos Esquecidos
1757 Promulgação do Édito dos Índios (obrigatoriedade da língua portu-
guesa)
1759 Expulsão dos jesuítas
1789 Dicionário da Língua Portuguesa, de Antônio de Moraes e Silva
1808 Chegada da Família Real
Estabelecimento da Imprensa
Fundação da Biblioteca Nacional
Primeiros jornais brasileiros: Gazeta do Rio de Janeiro, Correio
Brasiliense
1822 Independência do Brasil
1837 Fundação do Colégio Pedro II, início da escola pública
1838 Fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
1839 Revista do IHGB
1852 Coleção de Vocábulos e Frases usados na Província de São Pedro
do Rio Grande do Sul, de Antônio Álvares Pereira Coruja.
1853 Vocabulário Brasileiro para servir de complemento aos dicionários
da língua portuguesa, de Braz da Costa Rubim
1858 Dicionário da Língua tupi chamada língua geral dos indígenas do
Brasil, de Gonçalves Dias
1859 Chrestomathia da Lingua Brazilica, de Ernesto Ferreira França
1865 Léxico de brasileirismos anexo ao romance Diva, de José de Alencar.
1888 Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de A. J. de Macedo
Soares
5
Para a feitura desse quadro recorremos parcialmente a algumas periodizações já realizadas,
especialmente as que se encontram em S. Auroux, F. Mazière e E. P. Orlandi (“L´hyperlangue
brésilienne”, Langages 130, Larousse, Paris, 1998) e em E. Guimarães (Sinopse dos estudos
do português no Brasil, in Língua e cidadania, E. Guimarães e E. Orlandi (Orgs)). Em nosso
caso, limitamo-nos à dicionarização.

105
1889 Proclamação da República
Dicionário de Vocábulos Brasileiros, de Beaurepaire-Rohan
1897 Fundação da Academia Brasileira de Letras
1937 Fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP
1938 Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de H. Lima
e G. Barroso
1939 Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de L. Freire
(1939-44)
1943 Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa
1961 Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes, pela ABL
(1961-67)
1965 A Lingüística é introduzida no currículo dos cursos de Letras
1969 Dicionário Melhoramentos da Língua Portuguesa, Editora Melho-
ramentos
1975 Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio B. de Holanda
2001 Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto Antônio Houaiss
Nos relatos de viajantes, aparecem os primeiros comentários sobre
termos utilizados no Brasil: nomeações em português e termos indígenas
traduzidos e comentados. Ainda nos relatos aparecem listas de palavras
organizadas tematicamente, pequenos glossários e verbetes de tipo enci-
clopédico. Os bilíngües português-tupi dos jesuítas inauguram os dicioná-
rios de língua e realizam a primeira alfabetação (colocação em ordem alfa-
bética) do português em dicionário brasileiro. Note-se que essa alfabetação,
que podemos apontar no Vocabulário na Língua Brasílica (século XVI,
provavelmente, ou início do XVII) se dá muito proximamente à primeira
alfabetação em Portugal, que, conforme Verdelho (1995), ocorre com o
primeiro bilíngüe português-latim, de Jerônimo Cardoso (1562). Assim,
enquanto em Portugal tínhamos a relação português-latim, no Brasil era
trabalhada a relação português-tupi.
A passagem da exo-gramatização à endo-gramatização na segunda
metade do século XVIII constitui uma virada. O dicionário de Moraes marca
uma mudança significativa devido a vários fatores: expulsão dos jesuítas,
influência da Gramática Geral, obrigatoriedade do estudo do português, sur-
gimento de novas instituições, como as academias, e de um contingente de
brasileiros que realizava estudos em Portugal. A partir daí, esse dicionário e
em seguida outros que o seguirão servem de referência para a produção bra-
sileira. Ele permite a partir daí que se observem as semelhanças e diferenças,

106
as “faltas” e “omissões”, desencadeando-se assim a produção de dicionários
brasileiros. Quanto aos bilíngües, há uma tendência de inversão da ordem:
de português-tupi (ordem utilizada pelos jesuítas) para tupi-português, de modo
a definir os termos do tupi que passam a ser considerados do português bra-
sileiro. Surgem, em seguida, primeiramente os dicionários de complemento,
de regionalismos e de brasileirismos durante o século XIX, e em seguida
os dicionários brasileiros de língua portuguesa no decorrer do século XX.

Condições de produção dos dicionários brasileiros


Uma posição historicista coloca que o saber é um produto histórico,
resultante de uma série de causas e que pode ser situado em determinadas
conjunturas espaço-temporais. Como afirma Auroux:

Que todo saber seja um produto histórico significa que ele resulta a
cada instante de uma interação das tradições e do contexto. Não há
nenhuma razão para que saberes situados diferentemente no espaço-
tempo sejam organizados do mesmo modo, selecionem os mesmos fe-
nômenos. É o reconhecimento deste fato que constitui nossa posição
resolutamente historicista, ao mesmo tempo que fornece o interesse
heurístico de todo trabalho histórico (Baratin & Desbordes, apud
Auroux, 1992: 14).

Este posicionamento conduz a dizer que temos no Brasil um modo


específico de organização do saber dicionarístico, que se dá em um certo
contexto e em um certo espaço-tempo. Ainda conforme Auroux, “as cau-
sas que agem sobre o desenvolvimento dos saberes lingüísticos são extre-
mamente complexas. Pode-se notar conjuntamente: a administração dos
grandes Estados, a literalização dos idiomas e sua relação com a identida-
de nacional, a expansão colonial, o proselitismo religioso, as viagens, o
comércio, os contatos entre línguas, ou o desenvolvimento dos conheci-
mentos conexos como a medicina, a anatomia ou a psicologia.” (Auroux,
1992: 28). A partir da perspectiva discursiva em que nos situamos, acres-
centamos que as determinações causais estão relacionadas com as condi-
ções de produção do discurso: quem produz o dicionário, como, onde, para
quem, em que circunstâncias? Analisando o caso brasileiro, levantamos as
seguintes condições de produção: a territorialidade, a administração do ter-
ritório, a urbanização, a institucionalização, os contatos lingüísticos, a identi-
dade nacional, a influência de teorias, os domínios conexos, as tecnologias.

107
a) territorialidade
O saber lingüístico toma formas específicas conforme o território
em que aparece, estabelece-se e transforma-se. No Brasil, com o descobri-
mento e a colonização, o contato dos europeus com uma natureza e socie-
dades específicas levam ao aparecimento de formas dicionarísticas singu-
lares. A questão da referência logo se coloca, com os processos de nomeação,
tradução, glosa, definição, ou seja, as formas lingüístico-discursivas que
estarão na base do texto dicionarístico. Decorre daí o aparecimento e a
circulação de “nomes do Brasil”, com seus diversos modos de definição e
explicação. Tal fato se dá juntamente com a literalização dos nomes de
línguas indígenas e a textualização na forma de relatos. Esses nomes ainda
não estão organizados alfabeticamente; eles aparecem pontualmente nos
discursos ou ordenados tematicamente, na forma de um saber enciclopédi-
co, que trata da natureza, do índio, das situações de colonização. A territo-
rialidade se relaciona a um real que constantemente clama por sentidos, e
cuja interpretação estabelece limites espaço-temporais nos quais se inse-
rem os sujeitos. Na Época Colonial, a dicionarização realizou-se nas re-
giões de fronteira ou contato. A região da “costa do Brasil” era apontada
pelos jesuítas como local de gramatização, em que sujeitos europeus e ín-
dios se relacionavam. Podemos dizer que as diversas frentes de contato
vão definindo as formas de territorialidade.6

b) administração do território
Do fator (a) decorre um segundo, que é a administração do territó-
rio, nas suas diversas maneiras de realização: colonização, governo, Esta-
do. Acompanha esse fator um outro que lhe está relacionado, a saber, a
institucionalização. Tais fatores colocam em pauta a questão da unidade/
diversidade de línguas e a definição de políticas lingüísticas, das quais
resultam determinadas formas dicionarísticas. Parece bastante plausível re-
lacionar algumas formas dicionarísticas a formas de administração do ter-
ritório. Assim, nos governos coloniais, com a política lingüística da colo-
nização, temos os dicionários bilíngües, que serviram como instrumentos
de catequese e colonização. Com o Estado Monárquico, no século XIX, e o
objetivo de atribuir uma identidade e uma história aos habitantes do Brasil,

6
Sobre as diversas formas de contato e a relação com a produção de saberes lingüísticos no
Brasil, ver ORLANDI Eni Puccinelli. (1990), Terra à vista, Cortez: São Paulo/Unicamp:
Campinas.

108
temos os dicionários bilíngües do “tupi antigo”. Com a República, os di-
cionários de brasileirismos, que tomam por objeto a fala do “povo brasilei-
ro”. E com as transformações da República no século XX, os dicionários
brasileiros de língua portuguesa, em que são introduzidos mais amplamen-
te elementos socioculturais relativos ao Brasil.

c) urbanização
Desde a Época Colonial, os dicionários aparecem em núcleos for-
madores de cidades. É o caso de Piratininga (atual São Paulo), onde os
jesuítas implantaram suas escolas; e de Salvador que, com a chegada de
escravos, aumenta sua população (ver nota 9 mais adiante). No século XVIII
e mais ainda no XIX, com o crescimento urbano em algumas localidades,
ampliam-se fatores decorrentes desse fato: escolarização, instituições ad-
ministrativas, ampliação da cultura letrada e do público leitor. O olhar ur-
bano, em oposição ao rural, pode ser notado desde o dicionário de Coruja
(Coleção de Vocábulos e Frases usados na Província de São Pedro do Rio
Grande do Sul). Publicado em 1852 pelo IHGB, suas definições, repletas de
locativos, apresentam uma distinção entre o campo e a cidade: o dicionário
de regionalismo é construído a partir de uma posição de lexicógrafo que
observa tanto o campo quanto a cidade, como se vê nos seguintes verbetes:
Peão, s. m. homem ajustado para fazer o serviço do campo: esta designação se
entende até aos escravos exclusivamente ocupados no serviço das estâncias.
Perneira, s. f. espécie de bota de couro cru garroteado, que os cavaleiros
usam no campo, e que tiram inteiriça da perna do potro; pelo que também
chamam botas de potro.
Pingo, s. m. vulg. diz-se de um bom cavalo; que bonito pingo! rebenqueia
o pingo, etc. usa-se tanto na campanha, como nas cidades.
Pracista, adj. (deriv. de praça) o que vivendo no campo, mostra mais al-
guma civilização por ter feito viagens às cidades e ter nelas praticado com
pessoas de educação.
O dicionário constrói assim uma imagem da cidade enquanto lugar
de civilização e de escolarização, em oposição ao campo, onde encontram-
se moradores e trabalhadores. Deste modo, a dicionarização vai confor-
mando a imagem de um “sujeito urbano escolarizado”.7 Outro momento

7
Retomamos aqui a expressão utilizada por C. Pfeiffer (2001). Refletindo sobre as relações
língua/Estado, civilidade/não-civilidade, sujeito/espaço, unidade/dispersão, escolarização/

109
que podemos apontar é o do Rio de Janeiro de finais do século XIX. O
dicionário de M. Soares (1889) introduz uma série de discursividades pró-
prias do contexto urbano: instituições públicas, administração, comércio,
espaço público, jornalismo, sujetividade urbana. O lexicógrafo, portanto,
volta-se mais decididamente para a observação das práticas urbanas. O
século XX foi palco de uma urbanização sem precedentes, da qual decor-
reu uma ampliação da rede escolar, o aparecimento de universidades, o
surgimento de editoras e a conseqüente ampliação do público letrado. Po-
demos considerar esse fator uma das causas do aparecimento dos primei-
ros dicionários brasileiros de língua portuguesa, com a produção diciona-
rística de grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo.

d) institucionalização
As formas administrativas e a urbanização são acompanhadas de
processos de institucionalização. A Companhia de Jesus, na Época Coloni-
al, é a primeira instituição a produzir dicionários: os bilíngües português-
tupi. Tal produção acompanha o aparecimento e o declínio dessa institui-
ção, respectivamente em 1547 e 1757. Na primeira metade do século XVIII
surgem as primeiras academias brasileiras, que, apesar de não produzirem
dicionários, tiveram um papel regulador no estabelecimento do português
de Portugal.8 Elas surgem sob a influência do Iluminismo, que acarretou
igualmente mudanças no sistema escolar e no estabelecimento de institui-
ções jurídicas. Note-se que nesse período as universidades portuguesas ti-
veram um papel importante na formação das elites brasileiras. Não parece
fora de propósito associar esse fator à formação do dicionarista Moraes,
que deixa o Brasil em 1774 rumo a Portugal. Lá faz um curso jurídico na
Universidade de Coimbra. Em seguida, elabora seu dicionário, publicado
em 1789 em Lisboa. No Brasil Monárquico, a Biblioteca Nacional (1808)

urbanização, Pfeiffer estuda a constituição no Brasil de um sujeito urbano escolarizado: “o


processo de escolarização e o de urbanização funcionam, ambos, como instrumentos, do
Estado, de normatização, estabilização, regulamentação dos sentidos do sujeito e dos senti-
dos para o sujeito ocupar a cidade.” (Cidade e sujeito escolarizado. In Cidade atravessada:
os sentidos públicos no espaço urbano, Eni P. Orlandi (Org.). Campinas: Pontes, 2001).
8
B. Mariani mostra que as academias que surgiram no Brasil no século XVIII tiveram uma
função reguladora que levou a combater a língua geral e defender o português: “Les académies
fonctionnent comme des ‘pré-institutions’, dont la fonction régulatrice majeure serait de
mettre en oeuvre l´écriture d´une histoire officielle du Brésil, en utilisant le portugais de la
métropole comme instrument permettant d´éviter toute ‘échappée” de sens.” (Langages 130,
Paris: Larousse, 1998, p. 84).

110
e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) promoveram a pro-
dução e publicação de dicionários bilíngües, dentre os quais os de Gonçal-
ves Dias (1858) e Ferreira França (1859). Tais obras trazem como marca a
colocação do português em uma ligação histórica com o “tupi antigo”. O
IHGB segue até o período republicano, quando promove a publicação de
dicionários de brasileirismos. Com a República, surge a Academia Brasi-
leira de Letras (1897), cujo dicionário, depois de muitas discussões e pro-
jetos, fica pronto em 1943 e é publicado em 1961-1967 (o de Antenor
Nascentes). A ABL teve um papel fundamental na formação de lexicógra-
fos, na concepção de projetos dicionarísticos e na normatização ortográfi-
ca. Podemos apontar ainda uma passagem da concepção histórica e regio-
nal dos dicionários, que prevalecia com o IHGB, para uma concepção que
tende para o dicionário da língua geral tomada em sincronia. A escolarização
é um fato importante. No Colégio Pedro II, em finais do século XIX e
início do XX, atuaram alguns dicionaristas. Mencione-se, na primeira me-
tade do XX, Antenor Nascentes. A ampliação do ensino escolar nesse pe-
ríodo levou à produção de dicionários compactos e adaptados ao contexto
brasileiro. Concorreu também para este fato a consolidação de um merca-
do de livros. O aparecimento de editoras nas décadas de 30 e 40 abre cami-
nho para as publicações independentes e para a série de dicionários de
nomes próprios. Segundo H. Pontes (1989: 364), com a Revolução de 30,
uma nova configuração “se expressou nos mais variados setores da vida
cultural do país: na instrução pública, nas reformas do ensino primário e
secundário, na criação de novas faculdades e das primeiras universidades
brasileiras, na produção artística e literária, nos meios de difusão cultural
e, sobretudo, na ênfase aos estudos e ao conhecimento da realidade nacio-
nal”. Nessa nova configuração, as editoras ocuparam um lugar significati-
vo, com a publicação de estudos sobre a realidade nacional. Dentre tais
editoras está a Civilização Brasileira. Fundada pelo acadêmico Gustavo
Barroso, ela publica o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portu-
guesa, do próprio G. Barroso e de H. Lima. Este pequeno dicionário, com
definições breves e sem exemplos ou citações, teve grande sucesso edito-
rial, inaugurando a série de dicionários brasileiros de língua portuguesa.
De 1939 a 1944, a editora A Noite publica no Rio de Janeiro o Grande e
Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de Laudelino Freire. Men-
cionemos ainda, dentre outras, a editora Delta, do Rio de Janeiro, que pro-
move edições brasileiras do dicionário de C. Aulete (1958, 1970, 1980), a
Melhoramentos, de São Paulo, que publica seu dicionário desde 1969, atual-

111
mente denominado Michaelis, e a editora Nova Fronteira, do Rio de Janei-
ro, que desde 1975 publica o Aurélio. Ainda na série das instituições, te-
mos também nas décadas de 30 e 40 o aparecimento das universidades,
com a fundação das faculdades de Letras (em 1937, surge a Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras da USP). As conseqüências desse fato come-
çam a aparecer nas últimas décadas. Podemos mencionar, com relação aos
dicionários gerais, a elaboração em curso do Dicionário de Usos do portu-
guês Contemporâneo (ver Borba, 1997), realizada com base em um corpus
eletrônico da língua escrita.

e) contatos lingüísticos
O contato entre europeus e índios motivou as primeiras produções
lexicográficas no Brasil. Em um meio multilíngüe ocorre um processo de
exo-gramatização, com as línguas indígenas sendo dicionarizadas por fa-
lantes europeus. Ainda que pouco documentado, podemos apontar um pro-
cesso semelhante com relação às línguas africanas.9 Com as medidas pom-
balinas, a política monolíngüe se estabelece e temos a introdução do primeiro
dicionário do português, seguida da endo-gramatização brasileira. Nesse pro-
cesso, as diferenças lingüísticas passam a ser tratadas como diferenças inter-
nas: regionalização, “influência” de outras línguas (sobretudo indígenas e
africanas) no português brasileiro, reconhecimento dos brasileirismos. As
semelhanças e diferenças entre o português brasileiro e o português de Por-
tugal também levam a certos projetos lexicográficos e modos de inclusão/
exclusão. Com respeito aos contatos do português com outras línguas, tais
como as de imigrantes, parece-nos que seria pertinente um estudo da histó-
ria dos dicionários bilíngües, bem como do modo como os monolíngües
tratam tais línguas. É interessante notar ainda, após o período de diferen-
ciação/identificação em relação ao português de Portugal, um movimento
de ampliação com relação aos demais países de língua portuguesa.10

9
E. Bonvini e M. Petter, analisando a documentação sobre as línguas africanas no Brasil,
indicam a existência do Vocabulário Português-Angolano, redigido por Pedro Dias em 1694.
O mesmo autor também publica, em Lisboa, em 1697, Arte da língua de Angola, em que
descreve a língua quimbundo, falada em Salvador por escravos originários de Angola
(Portugais du Brésil et langues africaines, Langages 130, Paris: Larousse, 1998).
10
Analisando diversos dados sobre os contatos culturais e lingüísticos Brasil/África, M. Petter
mostra que a edição de 2000 do Aurélio passa a incluir angolanismos, cabo-verdianismos,
guineensismos, moçambicanismos e santomensismos. (A constituição do léxico nacional:
problemas de línguas em contato, trabalho apresentado no XLIX Seminário do GEL, Marília,
2001).

112
f) identidade nacional
A atribuição de uma identidade nacional constitui um fator motivador
da produção de dicionários. Podemos remeter os dicionários bilíngües tupi-
português da Época Imperial aos processos de identificação do brasileiro
que tomaram o índio como antepassado deste. Gonçalves Dias, autor do
Dicionário da Língua tupi chamada língua geral dos indígenas do Brasil,
foi encarregado de elaborar uma história das línguas indígenas e elegeu o
tupi como língua dos antepassados brasileiros. Ressalte-se dessa produção
o aparecimento de reflexões etimológicas que ligavam termos do tupi anti-
go a termos do português brasileiro. Desta maneira, os termos tupi vão
sendo incorporados ao português. Outro momento associado à identidade
nacional está na produção de dicionários de brasileirismos, no final do
século XIX, quando se buscava uma identidade para o povo brasileiro, não
apenas pela influência indígena, mas por diversas condições sociais. As
conseqüências disso são observáveis na constituição da nomenclatura des-
ses dicionários, com a inclusão de uma série de termos relativos à conjun-
tura brasileira: designativos de raça e grupo social, termos culturais, ter-
mos do cotidiano das cidades. Os movimentos nacionalistas na década de
20 também estão na base de construções de identidade nacional. Podemos
afirmar que isso levou à introdução, nos dicionários de língua portuguesa
feitos no Brasil, de elementos culturais próprios desse contexto.

g) influência de teorias
Examinando a produção dicionarística brasileira, é possível em gran-
de escala relacioná-la com teorias lingüísticas desenvolvidas em conjuntu-
ras determinadas. Os dicionários muitas vezes não explicitam as filiações
teóricas, sobretudo quando não apresentam prefácios ou indicações de fi-
liações. Resta ao analista o procedimento de detectar as teorias implícitas.
Considerando-se estas condições, vamos indicar a influência de cinco gran-
des correntes teóricas. A primeira é a da Gramática Latina. Os dicionários
bilíngües jesuítas tinham uma forma muito próxima da gramática. Grande
parte dos verbetes trazia comentários gramaticais, com presença marcante
da Gramática Latina, que serviu de base também para a elaboração da gra-
mática de Anchieta. Há uma intertextualidade visível entre esta gramática
e o Vocabulário na Língua Brasílica.11 Desenvolveu-se aí um saber con-

11
Ver J. H. Nunes (Dicionário e instrumentos lingüísticos no Brasil: dos relatos de viajantes
aos primeiros dicionários, tese de doutorado, Unicamp, 1996).

113
trastivo entre a língua indígena e a língua portuguesa, tendo a Gramática
Latina como metalinguagem teórica. A marca mais flagrante desse saber
está na reflexão sobre as partes do discurso no interior dos verbetes do
VLB. Com a virada que consistiu na interrupção da produção jesuíta e no
empréstimo do dicionário de Moraes, sai de cena a Gramática Latina e
entra a gramática geral ou filosófica. Tal influência é explicitada a partir da
segunda edição, quando se introduz nos preâmbulos desse dicionário uma
gramática com base na Gramática Geral. A relação pode ser observada na
mudança estrutural da obra, que elimina os comentários etimológicos que
havia em Bluteau e torna as definições menos extensas, além de deixar o
dicionário mais compacto. Com isso, segue o modelo iluminista da “clare-
za” e “concisão”, passando do dicionário de grandes autores ao dicionário
do “modo de pensar”. Em meados do século XIX, a influência da lingüís-
tica histórica se faz observar nos dicionários bilíngües tupi-português e na
relação que se estabelece entre o tupi antigo e o português, relação apoiada
pela corrente romântica. Note-se que os dicionários de G. Dias e F. França
foram publicados em Leipzig, onde vigorava o comparatismo alemão. No
caso dos dicionários tupi-português, ocorreu menos uma genealogia das
línguas,12 mas uma explicação histórica que incluiu a construção de um
saber etimológico ligando o tupi antigo ao português falado. No final do
século XIX e entrando pelo XX, temos a influência da gramática da língua
nacional. A defesa da língua nacional tem como conseqüência imediata a
modificação da nomenclatura dos dicionários, com a inclusão de brasilei-
rismos nos dicionários portugueses e a elaboração de dicionários de brasi-
leirismos. A questão semântica também é colocada, ressaltando-se os ca-
sos de homonímia e polissemia. Estabelecem-se ainda marcações de
domínio (brasileirismo, regionalismo, popular, etc.). No século XX, os es-
tudos sincrônicos tiveram uma grande influência, cujas conseqüências ain-
da estão em curso. Podemos apontar o aparecimento dos dicionários
monolíngües como reconhecimento de uma língua brasileira, com uma
fonética, uma morfologia, uma sintaxe, uma semântica, embora na polê-
mica sobre o nome oficial da língua tenha prevalecido por razões diversas
o nome “língua portuguesa”.13 Acompanha esse processo uma separação
mais delineada entre o dicionário de definição e o dicionário histórico ou

12
Uma reflexão sobre a genealogia das línguas encontra-se nos vocabulários comparativos de
línguas indígenas elaborados por Martius.
13
A esse respeito ver L. F. Dias (Os sentidos do idioma nacional. Campinas: Pontes, 1996).

114
etimológico: os dicionários de brasileirismos, como os de Soares (1888) e
Rohan (1889), dedicavam um espaço significativo para a etimologia, en-
quanto os dicionários brasileiros de língua portuguesa limitam esse espaço
à indicação da origem.14

h) domínios conexos
O saber lexicográfico se constitui na relação com diferentes domí-
nios conexos, tais como ciência, literatura, história, religião, mídia, etc..
Por isso, ele se apresenta com diversas configurações conforme as alianças
e fronteiras que se estabelecem entre esses domínios. Na Época Colonial,
os relatos traziam uma forma de conhecimento que aliava ciência, política,
religião, descrição de costumes, compondo um saber enciclopédico que
serviria em seguida de fonte para a lexicografia. Com os jesuítas, a relação
com a religião determinou em grande medida as formas lexicográficas.
Assim, temos na nomenclatura do VLB a presença de um vocabulário reli-
gioso e de cenas enunciativas próprias da situação de catequese. Em Moraes,
o domínio jurídico ganha terreno, o que acarreta, além da mudança na for-
ma da definição, como apontamos no item anterior, a inclusão ou atualiza-
ção do vocabulário das instituições, dos sujeitos e das concepções jurídicas
e políticas, com as modificações discursivas que daí decorrem. Enquanto
no Moraes o jurídico ganha espaço, nos bilíngües publicados pelo IHGB o
dicionário está aliado à história, tal como promovida pelo Estado Monár-
quico. Assim, o binômio direito/história funciona distribuindo as signifi-
cações em espaços discursivos específicos. O discurso da história, no en-
tanto, começa a declinar na segunda metade do século XIX, enquanto os
domínios da sincronia (estudos da língua falada, ciências socias, folclore,
além de diversas áreas científicas) passam a se estabelecer. As conseqüên-
cias dessas transformações se observam na produção dicionarística do sé-
culo XX: definição de termos em uso no Brasil, introdução e acréscimo de
acepções científicas, marcação de domínios (brasileirismo, regionalismo,
folclore, familiar, vulgar, coloquial, gíria, etc.), transcrição fonética.15 Ou-
tro domínio que a partir do século XIX começa a ser introduzido é o do
jornalismo. O dicionário de Soares (1888) inclui, entre suas fontes, vários

14
Note-se que o recém-lançado Dicionário Houaiss da língua portuguesa não segue esse pro-
cedimento, dedicando mais espaço aos comentários etimológicos, introduzidos no interior
dos verbetes.
15
No Dicionário da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes (1961), editado pela Academia
Brasileira de Letras, apresenta-se uma transcrição fonética dos termos.

115
jornais em circulação no país. Tal procedimento se intensifica no século
XX, não apenas com o jornalismo, mas também com outras formas de
mídia, de modo que no prefácio do dicionário de Ferreira (1975) aparece,
dentre as caracterizações da língua a ser dicionarizada, a seguinte: “língua
dos jornais e revistas, do teatro, do rádio e televisão”. A literatura teve um
papel importante na produção brasileira a partir da elaboração de léxicos
anexos a romances, como em Diva de José de Alencar (1865). A introdu-
ção mais sistemática da literatura brasileira nos dicionários gerais, no en-
tanto, precisou esperar o decorrer do século XX, com os dicionários brasi-
leiros de língua portuguesa. Isto ocorreu juntamente com a introdução de
diversos aspectos culturais relativos ao contexto nacional. Também no sé-
culo XX, as diversas ramificações da ciência ganham espaço no dicioná-
rio, fato que leva à ampliação de definições científicas, com marcações de
domínios de especialidade. A distinção ciência/literatura traça suas fron-
teiras, de maneira que estas duas tendências concorrem na elaboração de
projetos lexicográficos.

i) tecnologia
A questão da técnica pode ser considerada ao menos de duas for-
mas. A primeira diz respeito à técnica textual através da qual o dicionário
se constitui. Incluímos aí as operações de alfabetação, disposição em colu-
nas, recursos gráficos, numeração das acepções, marcações de domínio,
etc. A segunda concerne à tecnologia de escrita e impressão. Incluímos
nesse caso as técnicas manuscritas, as de impressão e mais atualmente as
de informatização. De fato, essas duas formas da técnica estão estreita-
mente relacionadas, mas vamos comentar aqui apenas a segunda. Os dicio-
nários dos jesuítas, produzidos no período entre 1549 a 1759, eram manus-
critos. Como se sabe, a Imprensa no Brasil só é introduzida com a vinda da
Família Real em 1808. Este fato explica a existência, na Época Colonial,
de várias versões manuscritas de um mesmo dicionário (caso do VLB), a
variação ortográfica e algumas diferenças de um manuscrito a outro. A
introdução da Imprensa, no século XIX, possibilita a publicação de dicio-
nários: primeiramente os bilíngües português-língua indígena e em segui-
da os de brasileirismos. Tais publicações ocorrem em instituições ligadas
ao Estado, tais como o Instituto Histórico e Geográfico e a Biblioteca Na-
cional. Como vimos no item “institucionalização” mais acima, as editoras
não estatais passam no século XX a ter um papel importante na publicação
de dicionários, isto é, o domínio da técnica alcança outros lugares que não

116
os diretamente ligados ao Estado. Na segunda metade desse século, quan-
do tem início a informatização, novas possibilidades técnicas aparecem,
cujas implicações apenas começam a se apresentar. Uma delas é a constru-
ção de corpora eletrônicos a partir dos quais se pode produzir uma série de
dicionários. Editoras e universidades preparam seus bancos de dados em
vista dessas novas condições tecnológicas. Mencionemos a esse respeito o
Centro de Estudos Lexicográficos (CEL) da UNESP, campus de Araraqua-
ra, onde foi construído e está sendo ampliado um corpus da língua escrita
que compreende literatura romanesca, jornalística, dramática, técnica e
oratória. Uma das conseqüências mais visíveis da informatização nos di-
cionários é a mudança nas formas de busca. Ultrapassando os limites da
ordem alfabética, temos várias outras possibilidades, como a busca em sub-
domínios, por segmentos da palavra-entrada, pelo texto dos verbetes, por
autor citado, etc.

Dicionarização: interpretação, ética e política


Considerar o dicionário como um objeto histórico nos leva a dizer
que sua constituição é determinada por uma série de fatores causais, que se
podem explicitar analisando-se as condições de sua produção. Este seria
um primeiro ponto a se considerar nas práticas éticas e políticas ligadas à
análise e produção de dicionários. É a partir da analise dessas condições de
produção e das periodizações e interpretações daí resultantes, que pode-
mos falar em uma “tradição lexicográfica”, ou antes, em uma história da
dicionarização, tendo por objeto um conjunto polêmico de saberes consti-
tuídos na base do dicionário e ligados a determinadas conjunturas sócio-
históricas. Esta perspectiva conduz também a questionar a evidência das
formas dicionarísticas, abrindo-se espaço para sua interpretação. Tal inter-
pretação não estaria nunca estabelecida de uma vez por todas, mas sempre
sujeita a retomadas e reconstruções. Como afirma Pêcheux (1988: 293-
304), ao trazer Lacan para refletir sobre a relação sujeito/ideologia, “só há
causa daquilo que falha”. A forma dicionarística, tal como construída pelo
sujeito lexicográfico, nunca coincide com as condições que a determinam.
Daí o fato de que os sentidos que o dicionário produz sempre podem ser
outros, estando abertos à interpretação.
O segundo ponto que gostaríamos de levantar diz respeito à oposi-
ção unidade/diversidade. Vimos que o dicionário monolíngüe constitui-se
como resultado de uma política lingüística que, enquanto trabalhava o do-
mínio do português brasileiro, muitas vezes silenciava outras línguas fala-

117
das no território. Refletindo sobre questões de ética e política lingüística,
Orlandi coloca que “ao invés de considerar uma oposição estrita entre uni-
dade e diversidade, consideramos essa relação como uma relação necessá-
ria e dinâmica. As políticas lingüísticas são o lugar material de realização
dessa relação historicamente necessária em uma sociedade como a nossa”
(Orlandi, 1998: 13). Uma das conseqüências desta reflexão para a concep-
ção do dicionário monolíngüe parece-nos ser a de considerar a relação di-
nâmica entre as línguas no interior mesmo do dicionário de “uma língua”.
Apesar de o dicionário monolíngüe apresentar uma unidade imaginária (no
caso, do português brasileiro), de fato há inscrita nele uma série de rela-
ções entre as línguas (de inclusão, exclusão, confronto, absorção, filiação,
etc.), que convém explicitar e não apagar.
Concluindo, diremos que a busca das causas da dicionarização é
também um trabalho político da memória e do esquecimento16 da(s)
língua(s), tais como produzidas e instrumentadas pelos sujeitos em deter-
minadas conjunturas. Do nome próprio de autor às diversas formas de re-
presentação coletiva ou institucional do dicionário, o lugar do lexicógrafo,
assim como o do próprio objeto-dicionário, constitui-se no interior de uma
série de fatos inter-relacionados, cuja historicidade procuramos explicitar.
Realizamos, desse modo, um trabalho de atualização da memória do saber
dicionarístico, sem negar os gestos de interpretação aí envolvidos, mas sim
reconhecendo-os como tomadas de posição na própria construção da(s)
história(s) da dicionarização.

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16
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do político” (O chapéu de Clémentis. Observações sobre a memória e o esquecimento na
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120
Constituição de um
léxico brasileiro

121
TERMOS DE ORIGEM AFRICANA NO LÉXICO DO
PORTUGUÊS DO BRASIL

Margarida Petter
Universidade de São Paulo (USP)

Introdução
A diversidade do léxico do português do Brasil foi notada pelos
primeiros viajantes e tornou-se matéria de estudo lingüístico no século XIX.
Os primeiros trabalhos sobre a diferença entre o português de Portugal e o
português brasileiro (PB) observaram que a variedade nacional se distin-
guia da língua da antiga metrópole pela incorporação de termos de origem
indígena e africana, decorrente do contato dos falantes de línguas diversas
e da necessidade de denominar realidades novas encontradas na América.
Segundo Arthur Neiva, os brasileirismos – como tais peculiaridades passa-
ram a ser reconhecidas – surgem logo nos primeiros trabalhos escritos sobre
o Brasil e talvez os primeiros vocábulos registrados sejam os que constam da
lista de doze palavras colhida por Pigafetta, cronista da expedição de Fernão
Magalhães, em 1519, entre as quais estão: pindá “anzol, gancho, fisga, gar-
ra” e ui “farinha” (Neiva, 1940: 3, apud Theodoro Sampaio).
Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, a língua portuguesa já
havia entrado em contato com as línguas africanas, como se observa em
documentos portugueses dos séculos XVI e XVII (Bonvini, 1996) que re-
velam o uso de termos emprestados principalmente do quimbundo, refe-
rentes à escravidão, ao tráfico, à vida militar e ao quotidiano. No Brasil,
talvez um dos registros mais antigos do uso de palavras oriundas de lín-
guas africanas seja o de Piso (1957 [1658], apud STUTZ, 2001), que apon-
ta o emprego de nomes de animais e vegetais trazidos pelos africanos:

Como os europeus um dia transportaram para a América as plantas e


sementeiras que julgaram lucrativas, assim os africanos, entre as ervas

123
úteis para aqui trazidas, cuidadosamente cultivam ainda a chamada pelos
lusitanos Belingela, e pelos angolenses africanos Tonga ou Macombo,
bem como as duas outras Quigombó e Sésamo. Segue-se a primeira e
mais preciosa espécie africana Quigombó, a que os lusitanos deram o
nome bastante apropriado de Quigombó de cheiro, isto é, cheiroso, por
causa da semente moscada. [...] A Segunda árvore Quigombó, chama-
da Quigombo pelos íncolas, em toda parte, e pelos angolenenes
Quillobo. [...] A quarta era trazida pelos etíopes, daquela parte da Áfri-
ca denominada Congo, erva chamada Girgilim pelos lusitanos, sem
nome entre os indígenas, é considerada por nós uma espécie de sésamo.
(Piso, 1957[1658]: 441-5)

A menção de palavras africanas em textos com objetivos variados,


como o supra citado – parte de uma obra de história natural – e em outros
trabalhos, como relatos de viajantes, revela, principalmente, a preocupa-
ção com o referente, o interesse em retratar o novo, o original. Embora não
seja explícita nesses textos uma intenção lingüística, as citações de termos
vindos da África constituem uma fonte importante para a história do regis-
tro do contato cultural e lingüístico ocorrido no Brasil: ao mesmo tempo
em que consignam o conhecimento e o uso dos termos, indicam os interes-
ses e as apreciações dos falantes. Ao lado desses documentos, encontram-
se os registros lingüísticos intencionais, representados por textos orienta-
dos pela identificação e busca de traços africanos na realidade nacional:
listas lexicais, léxicos e dicionários especializados. A investigação desse
material permite identificar os interesses de seus autores, articulados ao
contexto da época em que foram produzidos e nos leva a questionar os
resultados e a metodologia utilizada na elaboração de tais registros. Este
texto analisará, sem pretender a exaustividade, trabalhos que registraram a
presença de termos oriundos de línguas africanas no léxico do português
do Brasil (PB), situando-os no contexto histórico e analisando a contribui-
ção que deram ao conhecimento do que passou a ser identificado como
“africanismos” no PB.

Vestígios de línguas africanas no Brasil


Nenhuma língua africana é falada, atualmente, no Brasil. Temos al-
guns registros do passado que nos informam indiretamente que tal prática
deve ter ocorrido em lugares e situações especiais. No século XVII, 1697,
publica-se em Lisboa a Arte da lingua de Angola, oeferecida a Virgem

124
Senhora N. do Rosario, Mãy & Senhora dos mesmos Pretos, pelo P. Pedro
Dias da Companhia de Jesu (como aparece no frontispício). Seu autor,
português de origem, vivia no Brasil desde a infância; era jesuíta, jurista e
médico. Trata-se de uma gramática da língua quimbundo, a primeira gra-
mática sistemática dessa língua. Destinava-se a facilitar o trabalho dos je-
suítas que lidavam com os negros, com o objetivo de facilitar-lhes o apren-
dizado dessa língua. Esse trabalho testemunha o emprego corrente naquela
época de uma língua africana, o quimbundo, pelos escravos oriundos de
Angola. Não se sabe se tal língua era falada em outras localidades e por
falantes não africanos. No entanto, há um fato importante que pode levar a
conclusões mais abrangentes: o trabalho de Pedro Dias foi redigido em1694
(publicado em 1697), data bem próxima à da destruição de Palmares (1695).
Poderia, então, ter sido o quimbundo, como pensam muitos estudiosos, a
língua africana utilizada naquela comunidade constituída em sua maioria
de negros fugitivos (Bonvini & Petter, 1998: 75).
No século XVIII, em 1731/1741, Antonio da Costa Peixoto redige,
em Ouro Preto, um manuscrito sob o título Lingoa gªl de Minna, traduzida
ao nosso Igdioma, por Antonio da Costa Peixoto, Curiozo nesta Sciencia,
e graduado na mesma faculdade:E.º. – título que aparece no frontispício
da Obra Nova da Língua Geral de Minna. Esse documento retrata uma
situação lingüística particular, resultante da concentração, no quadrilátero
mineiro de “Vila Rica – Vila do Carmo – Sabará – Rio dos Montes”, de
100.000 escravos – regularmente renovados durante um período de 40-50
anos – originários da costa do Benim (designada “Mina” e situada, grosso
modo, entre Gana e Nigéria). Essa situação deu origem a um falar veicular
tipologicamente próximo das línguas africanas dessa mesma costa, desig-
nadas hoje como gbe, do grupo “kwa”, do phylum Níger-Congo. No sub-
grupo gbe há uns 50 falares, dos quais os mais conhecidos são o ewe, o fon,
o gen, o adja, o gun e o mahi.
Esse manuscrito do século XVIII, só publicado em 1945, em Lis-
boa, é o documento mais importante e “precioso” sobre as línguas africa-
nas no Brasil, porque testemunha a existência de uma língua veicular afri-
cana designada como Língua Geral, provavelmente em referência à língua
geral indígena (Bonvini & Petter, 1998: 75-6).
No século XIX, duas obras revelam a existência de um plurilingüis-
mo africano no Brasil. A primeira, divulgada em primeira mão por Bonvini
(2001: 397-8), dá conta de um trabalho do início do século – Atlas
etnographique du globe, de Adrien Balbi (1826: 226), que apresenta um

125
quadro de três listas de 26 palavras, conforme a ortografia portuguesa, de
três línguas do grupo banto: ‘masanja’, ‘tzochoambo’, ‘matibani’, a pri-
meira falada em Angola – um falar quimbundo de Cassanje, conforme
Bonvini – as duas outras de Moçambique (chwabo e inhambane, provavel-
mente). Essas palavras foram recolhidas por Maurice Rugendas junto a
escravos brasileiros. Balbi lamenta não poder apresentar palavras de ou-
tras línguas coletadas por Rugendas (‘mina’, ‘molua’, etc.), por ter perdido
o manuscrito. O segundo texto, de Nina Rodrigues, é do fim do século XIX
(1890; 121-52), traz um quadro sinótico de 120 palavras de cinco línguas
africanas, faladas ainda correntemente na Bahia em sua época: “grunce”
(gurunsi), “jeje” (maí?) (ewe-fon), “haussá”, “kanuri” e “tapa’ (nupe). Nina
Rodrigues não faz um inventário completo, porque não menciona o quim-
bundo, língua usada em alguns cultos na Bahia, cuja existência é mencio-
nada por Rugendas.
A partir de então, nenhuma notícia se encontra sobre outras situa-
ções em que línguas africanas fariam parte da prática lingüística brasileira.
No século XX, na década de 80, após a “descoberta” do Cafundó, em 1978,
são publicados trabalhos sobre duas comunidades negras rurais isoladas –
Cafundó e Tabatinga.
O Cafundó foi pouco a pouco desvendado e divulgado em artigos
publicados em revistas especializadas, de 1978 até 1982. Em 1996, Vogt e
Fry organizam todo o material produzido, apresentando-o no livro Cafundó:
a África no Brasil: linguagem e sociedade .
A “língua do Cafundó”, cupópia ou falange, denominações pelas
quais é conhecida, não é uma língua africana, corresponde ao emprego de
termos de origem banto (quimbundo e quicongo, na maioria) na sintaxe do
português local, o dialeto rural de Salto de Pirapora, na região de Sorocaba
(SP). Seu uso cumpre uma função de língua especial, secreta, que permite
a comunicação somente entre os conhecedores da “língua”, afastando os
estranhos a seus “segredos”. Sua vitalidade está ameaçada pelo emprego
mais freqüente do português pelos mais jovens, que desconhecem os pou-
co mais de 167 termos “africanos” que a constituem. Esses termos são
apresentados num glossário, no final da obra, com a análise de seu étimo
africano provável e o registro dos casos de uso em outras regiões (Patrocí-
nio e Milho Verde).
Em 1998, Sônia Queiroz publica Pé preto no barro branco: a lín-
gua dos negros da Tabatinga, texto de sua dissertação de mestrado defen-
dida em 1983. Analisando a “língua da costa”, denominação pela qual tam-

126
bém é conhecida essa expressão lingüística, em referência à costa africana,
e comparando-a à do Cafundó, com quem compartilha – além do uso como
forma de “ocultação” – muitos elementos lexicais e gramaticais, a autora
conclui que a Língua do Negro da Costa funciona como “um sinal diacríti-
co que marca o grupo de negros da Tabatinga por oposição aos brancos do
centro da cidade” (1998: 106). Os 169 termos “africanos” que a consti-
tuem são apresentados num glossário, acompanhados de seu étimo e da
indicação dos casos de registro feito por outros autores.
Se nos voltarmos para as comunidades religiosas, representadas so-
bretudo pelas comunidades-terreiros de candomblé, encontraremos vários
trabalhos de cunho antropológico e sociológico, principalmente, que abor-
dam, indiretamente, a linguagem utilizada nos cultos e que registram, num
glossário em anexo, as palavras de origem africana, com o respectivo sig-
nificado em português. Essas obras são importantes porque confirmam o
uso de termos já identificados em trabalhos lingüísticos e sugerem, muitas
vezes, novos vocábulos não registrados.
Dentre os trabalhos de cunho lingüístico e etnológico destacam-se
os textos de Yeda Pessoa de Castro (1968, 1978, 1980, 1998), que anali-
sam a contribuição africana no português do Brasil e, com maior profundi-
dade, a presença de línguas africanas na Bahia.
Em 1989 publica-se a dissertação de mestrado de Ruy Póvoas, sob
o título A Linguagem do Candomblé – níveis sociolingüísticos de integração
afro-portuguesa. Nessa obra o autor demonstra com detalhes como se dá a
interação entre o português e o nagô (iorubá) no candomblé, a partir de
pesquisa de campo em Itabuna, Ilhéus e na Baixada Fluminense. Destaca
as funções que desempenha cada idioma, as interferências mútuas, no campo
léxico e semântico, sobretudo. Embora o nagô seja a língua-alvo de todos
os adeptos do culto, o que ocorre é que a maioria dos fiéis utiliza o portu-
guês coloquial, com alguns elementos do léxico nagô. Por outro lado, mes-
mo o nagô das situações especiais não é uma língua plenamente africana,
já que sofre muitas interferências do português. Seus usuários privilegia-
dos não possuem competência lingüística para utilizá-lo fora das situações
rituais. O que permanece da língua africana é o léxico, que o autor apresen-
ta sob a forma de glossário, em que as entradas lexicais estão em nagô, na
ortografia atual do iorubá, seguidas da grafia em português e do seu signi-
ficado.
De línguas plenas, documentadas nos séculos XVII e XVIII (quim-
bundo e ‘língua de mina’, respectivamente), as línguas africanas transfor-

127
maram-se, no Brasil, em línguas especiais – secretas ou rituais – que resis-
tem hoje como um repertório lexical, cujo uso e difusão para outros domí-
nios lingüísticos só ocorre com os termos utilizados nos cultos religiosos.

As primeiras notícias sobre africanismos


Os primeiros registros lexicográficos da peculiaridade do PB são
publicados na segunda metade do século XIX (cf. Biderman, neste volu-
me). São vocabulários, dicionários do português de uso geral no país ou
em alguma região do Brasil.
Nessas obras a maioria dos vocábulos específicos ao Brasil são de
origem indígena, ou correspondem a usos diferentes dos de Portugal, iden-
tificadores de uma marca nacional brasileira, atendendo ao objetivo ex-
presso de seus autores, que trabalhavam em sintonia com o momento his-
tórico de consolidação da individualidade brasileira. Essas palavras passam
a constituir os brasileirismos – termo que passou a rotular as inovações
lingüísticas do PB desde o dicionário de Moraes e Silva, de 1789, persis-
tindo até hoje como uma classificação para verbetes nos dicionários de
língua. Nesse contexto, as palavras de origem africana surgem como uma
subcategoria dos brasileirismos, concorrendo em situação desfavorável com
os termos de origem tupi (indígena), em razão da inferioridade numérica
dos africanismos registrados e do fato de ser a realidade nativa o foco do
interesse dos estudiosos, preocupados, também, em valorizar o elemento
indígena, símbolo da nacionalidade, provedor de sentidos e nomes diferen-
tes para aprender.
Macedo Soares (1888, 1943) destaca-se entre seus contemporâneos
pela extensão e profundidade de seu trabalho lexicográfico e pela defesa
do “dialeto brasileiro”, reconhecendo que:

o elemento negro não deixou de contribuir, posto que mais parcamente


ainda que o índio, para a formação do dialeto brasileiro (1943: 60)

No estudo “Sobre algumas palavras africanas introduzidas no por-


tuguês que se fala no Brasil”, quarto capítulo da obra supra citada (1943),
Macedo Soares apresenta termos de origem africana, discute sua etimolo-
gia e algumas vezes contraria interpretações de certos termos, dados como
de origem indígena, argumentando em favor de sua procedência africana,
como tanga, justificada por uma longa explicação (p. 54-6).

128
Também as gramáticas do final do século XIX incluíam brasileiris-
mos, como as obras de Pacheco Silva: Grammatica Historica da Lingua
Portugueza (1879) e Grammatica da Lingua Portugueza (1887), que apre-
sentavam como tópicos de estudo provincianismos, brasileirismos, indige-
nismos e africanismos (Orlandi & Guimarães, 1998: 16). O registro desses
termos em obras não lexicográficas demonstra a importância que o léxico
representava como forte argumento da defesa da originalidade do PB.

Africanismos: estudos especializados


No século XX assiste-se à abertura de um debate mais organizado
sobre a presença africana no PB. Em 1933, publicam-se as obras A influên-
cia africana no português do Brasil, de Renato Mendonça, e O elemento
afro-negro na língua portuguesa, de Jacques Raimundo. Os dois trabalhos
retraçam o itinerário da origem dos africanos transplantados para cá, de
origem banto e sudanesa, e apresentam uma relação de aspectos do PB que
consideram de origem africana, identificados na fonologia, na morfologia
e na sintaxe. Embora não tenham expressamente um objetivo lexicográfico,
apresentam glossários que ainda hoje, apesar de bastante restritos, são re-
conhecidos como uma fonte importante sobre termos de origem africana.
O trabalho de Mendonça (1933) teve uma segunda edição, aumen-
tada e ilustrada, em 1935, e outra em 1974, que reproduz ainda uma classi-
ficação de línguas africanas já superada pelos trabalhos de Greenberg (1963).
A obra contém um glossário com 375 termos de origem africana que, se
apresentam étimos africanos discutíveis (iorubá ou quimbundo, unicamen-
te), revelam, no entanto, um aspecto positivo: a indicação do contexto so-
ciocultural de uso dos itens compilados.
Raimundo (1933) identifica 309 palavras de origem africana pre-
sentes no PB, e acrescenta ao seu levantamento 132 topônimos. Da mesma
forma que Mendonça, a etimologia de todos esses itens lexicais é encon-
trada nas línguas iorubá e quimbundo, predominantemente. Em 1936, o
mesmo autor oferece na obra O Negro Brasileiro e Outros Estudos, uma
lista aumentada de termos considerados de origem africana.
Outros trabalhos, indiferentes à defesa da participação africana no
PB, apontam, também, a presença em nosso léxico de palavras de origem
africana. Mário Marroquim considera ter sido numerosa a contribuição para
a língua do nordeste, principalmente na denominação de objetos e coisas

129
africanas que passaram a batizar acidentes geográficos (1934: 155-6). Xavier
Marques afirma que “elementos tupis e africanos resvalam pelo léxico,
produzindo uma ou outra alteração morfológica e deixando imune a sinta-
xe da língua” (1933: 65).
João Ribeiro, no seu texto “A língua nacional”, que teve primeira
publicação em 1921 e segunda em 1933, reconhece que a língua nacional
é essencialmente a portuguesa, mas enriquecida e livre em seus movi-
mentos. Não elenca termos de origem africana, cuja origem reconhece
ser difícil remontar, mas observa a presença cultural dos negros, que trou-
xeram para o Brasil muito de sua literatura popular. Apresenta um estudo
semântico de provérbios brasileiros que têm correspondente africano,
afirmando que não é só a presença de palavras de origem africana que
atestam a identidade, mas o fato de que há provérbios semelhantes na
África.
Nesse período surgem os primeiros trabalhos especializados no
rastreamento de africanismos, como se observa nos títulos das obras que se
publicam a partir de então:

• 1934 – Africanismos na linguagem brasileira, de Nelson Senna;


• 1936 – Os africanismos no dialeto gaúcho, de Dante de Laytano;
• 1938 – Africanos no Brasil. Estudos sobre os Nêgros Africanos e In-
fluências Afro-Nêgras sobre a Linguagem e Costumes do Povo Brasi-
leiro, de Nelson Senna;
• 1944: O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, de Aires da Mata Ma-
chado Filho;

Nos anos que se seguem são publicados poucos títulos sobre a pre-
sença africana no PB, refletindo o declínio do interesse pelo debate da
especificidade da língua nacional, em cujo bojo se inseria a investigação
sobre as línguas africanas no Brasil.
Na década de 70, surgem três trabalhos:

• 1974: Répertoire des Vocables Brésiliens d’Origine Africaine, de J. P.


Angenot, J. P. Jacquemin e J. Vincke;
• 1976: De l’intégration des apports africains dans les parlers de Bahia,
au Brésil, de Yeda Pessoa de Castro;
• 1977: Dicionário de cultos afro-brasileiros, com origem das palavras,
de Olga Gudolle Cacciatore.

130
Destacam-se, dentre esses, dois trabalhos publicados desenvolvidos por
africanistas que introduzem nova abordagem metodológica, fundamentada na
pesquisa de campo no Brasil, de cunho lingüístico e cultural, confrontada à
realidade atestada atualmente na África. Ambos foram produzidos na Uni-
versidade Nacional do Zaire (atual República Democrática do Congo):

• 1974 – Répertoire des Vocables Brésiliens d’Origine Africaine, de Jean-


Pierre Angenot, Jean-Pierre Jacquemin e Jacques L. Vincke. Trata-se
de um levantamento lexical efetuado a partir de fontes escritas disponí-
veis na época. Registra 1 500 palavras, além de muitas formas varian-
tes e topônimos. Apresenta na introdução o estado em que se encon-
tram as pesquisas dos africanismos e esboça uma metodologia apropriada
para o domínio banto, em particular.
• 1976 – De l’intégration des apports africains dans les parlers de Bahia, au
Brésil, de Yeda Pessoa de Castro. É uma tese de doutoramento ainda inédi-
ta, defendida na mesma Universidade do Zaire. A autora tem outros tra-
balhos publicados (1967, 1968, 1978, 1980) sobre a presença de línguas
africanas no Brasil e de sua participação na constituição do PB, baseada
em pesquisas de campo realizadas na região do Recôncavo Baiano. Em
seus trabalhos a autora defende a importância da presença banto:

A antigüidade dessa presença favorecida pelo número superior do ele-


mento banto na composição demográfica do Brasil colonial, tanto quan-
to por sua concentração em zonas rurais, isoladas e naturalmente con-
servadoras, onde o recurso de liberdade era a fuga para os quilombos,
foram importantes fatores de ordem social e geográfica que tornaram a
parte da influência banto tão extensa e penetrante na configuração da
cultura e da língua representativas do Brasil que aportes de origem
banto terminaram integrados ao patrimônio nacional como símbolo de
brasilidade (1998).

Após um novo e longo silêncio, publicam-se novos trabalhos espe-


cializados na identificação de africanismos no PB:
• 1991: Dictionary of African Borrowings in Brazilian Portuguese, de
John Schneider
É o mais recente e completo sobre os empréstimos de línguas afri-
canas no português do Brasil. Reúne 2500 entradas lexicais, incluindo de-
rivados e compostos que se formaram a partir da integração completa do
africanismo no português do Brasil. Sua listagem leva em conta os africa-

131
nismos presentes no Novo Dicionário Aurélio (1978), além de extensa pes-
quisa bibliográfica sobre o tema. Segundo informa na introdução (1991:
XI–XIII), para elaborar o dicionário o autor considerou, também, outras
fontes escritas e orais.
As entradas datadas são, na maioria, recolhidas do Dicionário Eti-
mológico Nova Fronteira, (Cunha, 1982). Schneider faz uma ampla com-
pilação da etimologia a partir da consulta de diversas obras, sem assumir,
no entanto, a defesa de nenhum étimo; afirma claramente que a responsa-
bilidade é do autor que a propõe. No caso de a fonte citada ser um dicioná-
rio de língua africana, a semelhança encontrada na forma e no significado
resulta de sua própria investigação, sem qualquer interferência dos autores
dos dicionários citados. A informação etimológica é bastante completa,
indica a família ou grupo lingüístico e língua específica de que provém o
vocábulo. Quando não dispõe de dados sobre a etimologia, o autor sim-
plesmente registra o termo com sua definição, evitando discutir o grau de
certeza a respeito de sua proveniência; visto estar implícita sua origem
africana pela inclusão na obra.
Alguns verbetes são acompanhados da indicação “Braz.”, brasilei-
rismo, com a informação do local onde seu uso é mais corrente. A pronún-
cia de todos os itens lexicais é indicada por uma transcrição fonética parti-
cular, seguindo uma convenção inusitada para alguns sons, como, por
exemplo, a transcrição da nasal palatal (nh, ortograficamente) transcrita #.
Há alguns aspectos da organização e do conteúdo de sua extensa
lista de empréstimos que podem ser questionados:
• a multiplicação de verbetes: indicando a polissemia do termo, caso de
chocho (1 entrada como substantivo e 7 como adjetivo), ou refletindo a
instabilidade da fala pela notação de formas variantes, como: quezila,
quezília, quijila, quizília;
• a etimologia controversa de alguns termos, com forte evidência de tra-
tar-se de tupinismos, como beiju e tipóia, entre outros, considerados de
origem tupi, tanto por Buarque de Holanda Ferreira (1978) como por
A. G. Cunha (1982), mas incluídos por Schneider entre os termos de
origem iorubá e banto, respectivamente;
• a não inclusão de muitos termos que têm origem africana reconhecida
pelos textos consultados, como abadá , afonjá, etc.
Apesar das ressalvas, esse dicionário destaca-se por demonstrar bom
conhecimento sobre as línguas africanas, baseado na compilação extensa

132
de obras de lingüistas africanistas, dicionaristas, folcloristas, antropólogos
e estudiosos de religiões afro-brasileiras (Petter, 2001).

• 1994, Nouveau Dictionnaire Etymologique Afro-Brésilien: afro-


brasilérismes d’origine ewe-fon et yoruba, de Lébéné Philippe Bolouvi
O autor propõe desenvolver um estudo etimológico criticando o que
já foi feito e apresentando uma reflexão atual sobre a problemática da lin-
güística afro-brasileira numa perspectiva negro-africana. Seu estudo en-
volve três das línguas da África Ocidental, duas do grupo gbe – ewe e fon
– e uma do grupo benuê-congo, o iorubá. Seu objetivo não é apenas o
levantamento correto do étimo, mas também o resgate da história a partir
do léxico, permitindo que os afro-brasileiros restabeleçam os laços com
seus ancestrais africanos (op. cit. p. 3). As explicações etimológicas são
baseadas em dados obtidos em pesquisa de campo no Brasil (Bahia e
Maranhão) e na África (Golfo do Benim). As fontes dos verbetes registrados
são escritas: o repertório lexical de Yeda Pessoa de Castro (1976, tomo 2);
uma lista lexical de Sérgio Ferretti, glossário anexo a sua obra Querenbentam
de Zomadonu, um estudo antropológico da Casa da Mina (1986); o voca-
bulário de cinco línguas africanas de Nina Rodrigues (1922, 5ª ed. 1977:
143-6) e as listas lexicais inéditas do Projeto LAB do Departamento de
línguas vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia,
de 1983, que contêm palavras e frases em língua africana, com o significa-
do em português, coletados em Salvador e, segundo o autor, também pre-
sentes no levantamento de Pessoa de Castro.
Na introdução, há comentários de ordem lingüística sobre caracte-
rísticas fonológicas e morfossintáticas das línguas africanas e as conseqü-
ências de sua transposição para o léxico do PB. São, na maioria, observa-
ções pertinentes que podem corrigir e explicar muitas das supostas origens
apresentadas para muitos vocábulos, como a aparente homofonia, gerada
por termos africanos idênticos no nível segmental, mas portadores de tons
diferentes que se perderam no português, mas que os distinguiam como
unidades lexicais diferentes na língua de origem. Entre as observações lin-
güísticas, no entanto, há um sério equívoco de ordem histórica, no tópico
“problème de segmentation”, onde o autor critica a dificuldade de segmen-
tação dos constituintes que as línguas africanas apresentaram aos estudio-
sos brasileiros. O questionamento é pertinente, mas os textos utilizados
para ilustrar o fato situam-se em épocas diversas das apresentadas. Cita
Nina Rodrigues (1890, 1932) como “contemporâneo” de Antonio da Costa

133
Peixoto, autor do manuscrito sobre a lingua de mina, de 1933 e 1941(!)
(Bolouvi, 1994: 14). O manuscrito é do século XVIII, 1731/1741.
Os 439 termos consignados pertencem aos mais diversos campos
semânticos, mas a terminologia concentra-se nas religiões africanas, lugar
de manifestação, conservação e de difusão do legado lingüístico negro-
africano, conforme o autor (p. 9), que concorda com a maioria dos estudio-
sos africanistas que vêem na religião o foco de irradiação e transmissão do
léxico de origem africana no PB.
A entrada de cada verbete é constituída pela palavra grafada em
português, seguida de sua transcrição fonética, acompanhada, eventual-
mente, de outras formas variantes de grafia ou de pronúncia. Após a de-
finição são apresentadas as informações etimológicas (Et.), com a indi-
cação da língua fonte; a forma escrita atual (visto que as três línguas
africanas, ewe, fon e iorubá possuem escrita ortográfica); a transcrição
fonética; os sentidos originais na situação africana, quando diferentes
dos significados assumidos em português. Para um número significativo
de entradas são oferecidas informações de ordem histórica ou sociolin-
güística (Hist). Alguns itens lexicais são acompanhados de informações
a respeito de seu estatuto lexicológico atual no Brasil (Lex.) a partir de
dados fornecidos por dicionários brasileiros. A rubrica NB precede parti-
cularidades a respeito de alguns itens em que pode haver confusões na
análise da palavra, seja por se encontrar semelhanças fonéticas ou se-
mânticas.
Apesar de algumas restrições quanto à grafia e à definição dos itens
lexicais em português, a obra tem o mérito de esclarecer o étimo de muitos
vocábulos e de corrigir muitas impropriedades e falsos conceitos sobre as
línguas africanas.

• 1993-1995: Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes


O autor compartilha a mesma visão de Pessoa de Castro quanto à
precedência e importância da presença banto no Brasil; insiste no registro
de termos associados a práticas religiosas que é por muitos considerada
exclusivamente de origem iorubá. Consigna todos os inquices “divindades
dos cultos de origem banta correspondentes ao orixá nagô” (p. 131) e traz
informações detalhadas sobre outros elementos do culto Angola. Há um
levantamento exaustivo de vocábulos oriundos de línguas do grupo banto
presentes no PB, a partir de “suspeitas” (cf. p. 21) sobre a possível origem
banto de palavras com as seguintes características:

134
a) iniciadas com sílabas: ba, ca, cu, fu, ma, um, qui, como: candango,
curinga, etc.;
b) presença dos grupos consonantais mb, nd, ng, etc., no interior dos
vocábulos, como sunga, catinga;
c) terminadas em aça, ila, ita, ixe, ute, uca, etc., como cafute, bazuca.

Esse critério – partir da forma da palavra, prioritariamente – levou à


supervalorização da presença de termos de origem africana (banto): 5 122
verbetes, e à inclusão de muitos itens lexicais com justificativas etimológicas
pouco convincentes, como no verbete:

MANO, s.m. Tratamento respeitoso entre os antigos sambistas cario-


cas “Mano Elói”, “Mano Décio”, etc. Possivelmente, do umbundo
omanu, homem; se não estiver na acepção de “irmão” (p. 162).

O autor apresenta hipóteses etimológicas para a maioria das entra-


das lexicais, a partir de pesquisa em dicionários de quimbundo, quicongo,
umbundo, ronga, suaíli, macua e outras línguas do grupo banto. Incorpora
em seu trabalho o conhecimento especializado que se acumulou na área,
desde os primeiros trabalhos sobre brasileirismos, de Beaurepaire-Rohan
(1889), Macedo Soares (1889); passando pelos estudos sobre a presença
africana de Jacques Raimundo e Renato Mendonça, considerando até os
trabalhos sobre o léxico de Angenot et alii (1974), Pessoa de Castro (1976)
e Schneider (1991), ao lado de estudos sobre cultura e religiões africanas.
Seu esforço de compilação é notável, pois reuniu todas as informações
disponíveis; sua busca por novas fontes etimológicas, no entanto, nem sem-
pre chega ao mais provável étimo africano; o afã de justificar qualquer
“suspeita” de termo banto leva o autor a desconsiderar fortes evidências de
que o vocábulo tenha outra origem.
A coletânea de vocábulos é apresentada como um universo lingüístico
próprio do PB, em geral, sem qualquer informação sobre o domínio de uso
das unidades lexicais, sejam os diferentes registros – linguagem ritual, fa-
miliar, coloquial ou formal – seja a identificação dos locais de uso. Tam-
bém não há menção sobre a vitalidade do termo: se está em desuso ou se é
de emprego corrente. A omissão desses dados contribui para criar a falsa
ilusão de que o contato das línguas africanas com o português do Brasil
não se condicionou às circunstâncias da história e que o resultado desse
encontro permaneceu imutável, em qualquer região do país e em todas as
situações de comunicação.

135
Africanismos nos dicionários etimológicos do português
Dentre os poucos dicionários etimológicos da língua portuguesa fi-
gura com destaque a obra Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
de José Pedro Machado (1ª ed. 2 vol., 1952-1959, 2ª ed. 3 vol. 1967-1973,
3ª ed. 5 vol. 1977), publicado em Lisboa e citado por todos os trabalhos da
mesma espécie que surgiram posteriormente. No Brasil, o trabalho mais
recente e completo é o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de
Antônio Geraldo da Cunha (1ª ed.1982, 2ª ed. 1986).
O dicionário de A. G. Cunha, apesar de informar na introdução que
pairam ainda muitas dúvidas “em torno das origens e da história de boa
parte de nosso vocabulário”, procura oferecer um amplo registro do léxico
português, com a inclusão de “inúmeros termos de procedência arábica,
(...)muitas centenas de vocábulos oriundos dos idiomas indígenas da Áfri-
ca, da Ásia e da América, introduzidos na língua portuguesa a partir da
segunda metade do século XV...”, apresentando para todos os vocábulos
estudados – nem sempre com étimo identificado – a data provável de sua
primeira ocorrência na língua portuguesa.
Para a datação dos termos o autor procurou ampliar os dados forne-
cidos pelas poucas obras disponíveis sobre o português, baseando-se no
Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, consultando outras obras
para períodos específicos e completando com referências, entre outras, do
dicionário de Morais (5ª e 6ª edições, principalmente), citações de Domin-
gos Vieira (1871-1874) e suas próprias pesquisas. Não faz nenhuma men-
ção a dicionários de línguas africanas, mas apresenta, num Suplemento
anexado à segunda edição, a indicação de textos-fontes das datações, onde
se incluem obras sobre a África. Estão aí relacionadas duas obras impor-
tantes: de António Oliveira de Cadornega, História Geral das Guerras
Angolanas, [Tomos I e II: texto de 1680; Tomo III: texto de 1681] e Arqui-
vos de Angola. Publicação oficial editada pelo Museu de Angola, 2ª série.
Vol I. Luanda, 1943 (Petter, 2001).
Não estão explicitamente indicados os africanismos, mas pode-
mos identificá-los por meio de algumas indicações: (i) a definição- que
revela o uso em “cultos afro-brasileiros”; (ii) a datação, que remete a
obras publicadas no Brasil ou (iii) a referência explícita ao fato de o vo-
cábulo, apesar de ser documentado em textos quinhentistas, ter-se difun-
dido intensamente no período colonial, em razão do convívio dos bran-
cos com os africanos.

136
Os termos de origem africana constituem um total de 191 entradas.
Desse total, praticamente a metade (96) tem sua ascendência comprovada
pela identificação de seu étimo (60 do quimbundo, 24 do iorubá e os res-
tantes de topônimos ou línguas isoladas). Os demais (95) – de étimo inde-
terminado – possivelmente, provavelmente de origem africana, talvez se-
jam oriundos de alguma língua africana.
Dois aspectos apresentados pelo dicionário de A G. Cunha: incerte-
za quanto à atribuição de origem africana a grande parte do léxico e reco-
nhecimento de duas línguas africanas como maiores fontes provedoras de
empréstimos – quimbundo e iorubá – serão reiterados nos dicionários ge-
rais da língua portuguesa.

Africanismos nos dicionários gerais da língua portuguesa pu-


blicados no Brasil
Os dicionários gerais do português vão refletir na sua elaboração o
estado do conhecimento sobre a participação das línguas africanas na cons-
tituição do léxico nacional. Seria de esperar que os trabalhos especializa-
dos, embora de qualidade desigual, e o avanço dos estudos sobre as línguas
africanas fosse incorporado a esses repertórios mais amplos do léxico de
uma língua. Entretanto, há o desconhecimento dessas novas pesquisas e
repetem-se as mesmas informações do passado. Dentre as muitas publica-
ções do gênero, duas obras foram selecionadas para análise: o Novo Auré-
lio, século XXI (1999) e Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001),
por serem as mais completas e de maior difusão no país.
No Novo Dicionário Aurélio, edição de 86, há 159 termos com étimo
identificado, sendo 148 do quimbundo e 11 do iorubá, além de alguns ter-
mos de origem ambígua: 4 do cafre e 5 do daomeano. Também são reco-
nhecidos 5 luso-africanismos (Bonvini, 1994). Outros 104 verbetes apare-
cem matizados por expressões modalizadoras ou por pontos de interrogação:
“do africano”, “do africano?”, “de origem africana” – “de origem africa-
na?” “de origem africana decerto” – “de possível origem africana” – “de
provável origem africana” – “talvez de origem africana” (Petter, 2000):
A edição XXI inclui, ao lado do português do Brasil e de Portugal, o
português da África, identificado regionalmente como: angolanismo, cabo-
verdianismo, guineensismo, moçambicanismo e santomensismo. Compa-
rada à edição anterior, a atual revela um melhor conhecimento das palavras

137
de origem africana, observado na ampliação do número de verbetes, na
correção de algumas definições, na inclusão de novos étimos, reconhecen-
do outras línguas africanas além do iorubá e do quimbundo, e no ajuste de
etimologias equivocadas encontradas no dicionário de 86. Persistem, ain-
da, as mesmas incertezas na atribuição de origem para a maioria dos verbe-
tes da versão anterior, porém as expressões modalizadoras adquirem mais
uniformidade, resumindo-se a duas etiquetas: de origem africana ou de
origem africana, possivelmente.
O termo africanismo, embora permaneça definido pelo dicionário
da mesma forma que em 86, “palavra ou expressão oriunda de alguma das
línguas africanas”, é empregado como rubrica para identificar somente os
verbetes que contenham palavras usadas no continente africano: 26 itens,
dos quais 22 são palavras do português com um uso diferenciado e 4 ape-
nas são oriundos de línguas africanas. Do total, 17 têm também o uso com-
provado no Brasil, sendo, então, classificados como africanismos e brasi-
leirismos. Dentre esses figuram papai, pau, pilão, moleque. As demais
palavras de origem africana empregadas no Brasil aparecem sob a rubrica
de brasileirismo ou, simplesmente, têm seu étimo africano reconhecido,
sem nenhuma outra categorização.
Os angolanismos, cabo-verdianismos, guineensismos, moçambica-
nismos e santomensismos recebem apenas a identificação da região onde
são de uso corrente, não se apresentam sob a rubrica genérica de africanis-
mos. São termos de origem diversificada: africana, portuguesa, brasileira
(tupi) e indiana, entre outras.
As referências etimológicas apresentam um progresso em relação à
edição de 86. Foi acrescentado um repertório maior de línguas fornecedo-
ras de empréstimos; além do quimbundo e iorubá, estão consignados ter-
mos oriundos do hauçá, jeje, umbundo, quicongo, fon, ewe.
O Novo Aurélio século XXI registra um número expressivo de lín-
guas africanas, ausentes na edição anterior. Encontram-se termos referen-
tes às denominações das quatro famílias (PHYLA) lingüísticas africanas:
níger-congo, nilo-sahariana, coissã (khoisan, para os lingüistas africanistas)
e camito-semítica (afro-asiática, na denominação mais atual) como tam-
bém designações individuais de línguas pertencentes aos diferentes gru-
pos, como uolofe, ibo, ijó, igala, diúla, nupê, songai, tapa, hutu, axanti,
entre outras. Tal fato é notável, pois revela um melhor conhecimento do
universo lingüístico africano, desconhecido e raramente referido de forma
correta até em manuais de lingüística geral.

138
A grafia adotada não obedece a critérios uniformes. Muitas vezes
são consignadas várias formas, como hauçá, haúça, haussá, haússa. Ou-
tras vezes nota-se incoerência na atribuição do acento da palavra e do tim-
bre vocálico em português, como no aportuguesamento da forma utilizada
por africanistas, nas denominações das línguas: senufo, dyula, nupe, ijo,
que se tornaram em português: senufo, diúla, nupê, ijó: não se justifica a
escolha de acentos em posições diferentes, como também não se explica a
escolha do timbre dos nomes oxítonos.
A forma aportuguesada dos etnônimos e glossônimos foi inspirada
na obra A enxada e a lança, de Alberto da Costa e Silva (1996), que tam-
bém serviu como única fonte para as abonações dos termos referentes a
línguas e povos africanos.
O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa também define afri-
canismo como “palavra, construção ou expressão tomada de empréstimo
de qualquer das línguas africanas”, mas incorpora o sentido não explícito,
porém depreendido pelo uso da rubrica ‘africanismo’ na classificação dos
verbetes no Novo Aurélio: “qualquer fato de linguagem (fonético, mórfico,
sintático, lexical) privativo do português de alguma das ex-colônias portu-
guesas na África, em contraste com o de Portugal ou do Brasil; os fatos
lexicais distintivos do português da África, não usuais em Portugal ou no
Brasil” (op. cit. p. 107). Para brasileirismo Houaiss oferece uma definição
extensa: “em sentido lato, qualquer fato de linguagem (fonético, mórfico,
sintático, lexical, estilístico) próprio do português do Brasil; sob o ponto
de vista lexical, palavra ou locução (dialetismo vocabular) ou acepção
(dialetismo semântico) privativa do português do Brasil” (p. 507).
As categorias de brasileirismo e africanismo raramente coincidem
nos dois dicionários. Para o Novo Aurélio, capiango, “gatuno hábil e astu-
to”, termo de “origem africana”, sem outra indicação etimológica mais
precisa, é brasileirismo e africanismo. Houaiss considera o vocábulo como
um brasileirismo somente, cujo étimo é o quicongo kapiangu (cf. Nei
Lopes).
As fontes utilizadas por Houaiss para estabelecer a datação e a eti-
mologia dos vocábulos são bastante amplas, incluindo até a 3ª edição do
dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. No que concerne es-
pecificamente às línguas africanas, além de vários arquivos e livros de
poucos autores africanos, foram referidas apenas cinco obras: O negro na
civilização brasileira (1956), de Artur Ramos; Dicionário Banto do Brasil
(1993-1995), de Nei Lopes; Dicionário de cultos afro-brasileiros (1977),

139
de Olga Cacciatore; Os falares africanos na Bahia (no prelo), de Yeda
Pessoa de Castro e Dictionnarie bilingue portugais-français – Guinée-
Bissau (1996, 2 vol.) de Jean Michel Massa.
A datação dos vocábulos, quando disponível, informa o primeiro
registro conhecido ou estimado da palavra, indicando a fonte ou a primeira
obra lexicográfica que a registrou. O dicionarista procurou indicar o étimo
próximo dos vocábulos do português e, em alguns casos, também o remo-
to, mostrando os elementos mórficos que o constituem. Para a grafia dos
étimos de origem africana foi adotado um sistema de transliteração, para
tentar resolver as oscilações existentes nas fontes consultadas. A grafia
dos etnônimos e glossônimos baseia-se em dois critérios: em alguns casos
segue-se a convenção internacional, como para a família lingüística Khoisan
e o grupo Kwa, mas também se informa que há as formas portuguesas
coisã e cuá; em outros casos adota-se a forma aportuguesada já existente
(ou propõe-se uma nova), indicando inclusive algumas variações para ela,
como ioruba, iorubá, iorubano (subs. e adj.).
Também se observa insegurança na indicação de muitos étimos, in-
dicados pelas expressões: etimologia provavelmente africana, de origem
controversa, de origem obscura, ou simplesmente etimologia africana. Em
muitos desses casos, sem comprometer-se com a informação, o dicionário
apresenta um autor que “sugere” um étimo, como:

sambango- aquele que é fraco, que não tem forças Etim prov. de ori-
gem africana; Nei Lopes sugere o umbundo samba ‘pobre, carente,
mendigo’ + -ngo ‘ordinário’.

O procedimento de transcrever a etimologia apresentada por outros


autores, mesmo que nem sempre referidos, é a norma geral dos dicionários
gerais, o que comprova não ter havido nova pesquisa na área dos termos de
origem africana por parte dos lexicógrafos.
Entretanto, apesar de um critério pouco rigoroso na escolha das fon-
tes e de não haver investigação inédita, há verbetes bem documentados, no
Dicionáio Houaiss, como o referente a quizila , em que se indica a data e a
fonte do primeiro registro (1681. Cf. AOCad. – [António Oliveira de Ca-
dornega. História das Guerras angolanas]), o étimo – quimbundo kijila,
os diferentes significados e as formas variantes seguidas das fontes históri-
cas. Apresenta-se até uma informação discordante: Silveira Bueno consi-
derava o termo uma criação portuguesa e não africana.

140
Considerações finais
O registro em obras lexicográficas das palavras do PB provenientes
de línguas africanas, desde o final do século XIX até meados do século
XX, esteve associado à reivindicação da identidade da língua nacional.
Embora fossem ‘termos estrangeiros’ do ponto de vista do português euro-
peu, constituíam, na perspectiva brasileira, ao lado dos indigenismos, os
brasileirismos, contribuindo com sua parcela de originalidade para a defe-
sa do argumento da autonomia do português do Brasil. Assim como os
africanos se incorporaram à paisagem americana no século XVII, sendo
considerados como habitantes naturais da América – haja vista pinturas
seiscentistas –, as unidades lexicais africanas também são percebidas como
autóctones pelos defensores do PB.
À medida que estudos especializados se desenvolviam – Mendonça
(1933), Raimundo (1933), Nelson Senna (1934), Dante de Laytano (1936),
e outros – os termos de origem africana foram ganhando autonomia, cons-
tituindo uma classe importante entre os brasileirismos, distinguindo-se como
africanismos. Ainda que continuassem a instrumentalizar os defensores da
diferença do PB em relação ao português europeu, há uma mudança de
perspectiva: o foco da atenção não é mais o brasileirismo do PB, mas a
presença africana nessa variedade de português. A partir de então desen-
volve-se o argumento da africanidade do PB, que inspirou muitos traba-
lhos, como as publicações recentes de Bolouvi (1994) – sobre os afro-
brasileirismos oriundos do contato com as línguas da África Ocidental – e
de Nei Lopes (1993-1995) – sobre a presença preponderante das línguas
do grupo banto no léxico do PB.
Outros estudos, de cunho não lexicográfico, também vão atuar na
investigação da África no Brasil, como os trabalhos de Vogt e Fry (1996) e
Queiroz (1998), que vão trazer elementos empíricos que mostram traços
da presença dos povos bantos ainda presentes em algumas comunidades
rurais. Em contrapartida, os estudos sobre as religiões africanas no Brasil,
como o de Cacciatore (1977) e Póvoas (1989) vão revelar a apropriação da
cultura e das línguas africanas da África Ocidental, pela reelaboração e
recriação dessa herança, que vai produzir uma mescla lingüística afro-bra-
sileira especializada no uso ritual.
Os deslocamentos de sentido manifestados na percepção atual dos
africanismos nos dicionários – de ‘estrangeiros’ ao português europeu, mas
‘elementos da nacionalidade’, no português brasileiro, a entidades autôno-

141
mas brasileiras ou afro-brasileiras – refletem as condições sócio-históricas
do período de total independência política e cultural em relação à ex-me-
trópole, momento em que a identidade lingüística não é mais questionada
nem questionável a partir da diferença lexical. Hoje, o debate lingüístico
focaliza, preferencialmente, os traços distintivos da sintaxe do PB.
Os dicionários gerais da língua portuguesa de Ferreira (1999) e
Houaiss (2001) vão refletir as oscilações de sentido na percepção que se
tem hoje dos termos de origem africana no PB: africanismos ou brasileiris-
mos? Apesar da incoerência entre a definição da entrada lexical africanis-
mo e o uso da rubrica “africanismo” como uma categoria identificadora da
etimologia do termo, as palavras oriundas de uma língua africana em uso
no PB não são classificadas como africanismos, nos dois dicionários; são
brasileirismos; são identificados como “africanismos” somente os termos
próprios do português da África. Muito embora a análise seja semelhante,
deve-se ressaltar que Houaiss apresenta maior coerência, pois acrescenta,
explicitamente, na definição de “africanismo” a acepção de “fatos lexicais
distintivos do português da África, não us. em Portugal ou no Brasil”, ao
lado do sentido amplo de “palavra, construção ou expressão tomada de
empréstimo de qualquer das línguas africanas”.
Excetuando-se alguns itens lexicais preferencialmente utilizados no
contexto religioso afro-brasileiro, os “termos de origem africana” não são
mais percebidos como africanismos, ou seja, estrangeirismos, pois, na sua
maioria, estão totalmente integrados ao português brasileiro: participaram
da constituição do PB e adquiriram cidadania brasileira, formando uma
parcela importante dentro da pluralidade de fontes do léxico do português
brasileiro. Entretanto, os “termos de origem africana” em uso no PB recla-
mam, ainda, uma investigação lingüística mais atenta e criteriosa, que não
se limite a repetir sem discutir as informações obtidas em autores do passa-
do.

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145
PALAVRAS DE ORIGEM AFRICANA NO PORTUGUÊS DO BRASIL:
DO EMPRÉSTIMO À INTEGRAÇÃO

Emilio Bonvini
Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS)

O presente texto propõe-se a tratar da presença de termos oriundos


de línguas africanas no português do Brasil de um duplo ponto de vista:
esses termos são antes de tudo empréstimos feitos às línguas africanas, em
seguida, eles foram formalmente integrados gradualmente ao português do
Brasil. Mais precisamente, propõe-se examinar os termos de origem banto
que se considera pertencer aos empréstimos mais antigos e melhor integra-
dos. Com esse objetivo, será focalizado o período que vai do século XV ao
XVIII, inclusive. Com base nessas observações, formulam-se hipóteses
sobre a identificação da língua de origem. Por outro lado, não está no obje-
tivo deste trabalho tratar dos empréstimos feitos a partir das línguas da
África Ocidental. Esses, por mais numerosos que sejam, são geralmente
mais recentes, menos integrados à língua portuguesa e, sobretudo, empre-
gados no âmbito de uma língua de especialidade, a saber, a língua ritual de
vários cultos afro-brasileiros, em particular os candomblés.

Preliminares
O texto de M. Petter, aqui publicado, dá uma visão de conjunto dos
trabalhos que se consagraram ao levantamento sistemático dos termos oriun-
dos de línguas africanas, atestados no léxico do português do Brasil. Retraça,
além disso, o histórico da problemática suscitada pela presença desses ter-
mos, considerados ora como ‘brasileirismos’, ora como ‘africanismos’, e
às vezes também como testemunhas de um impacto (« influência ») no
português falado no Brasil e que teria chegado a abalar a identidade desse
último.

147
Aqui uma precisão se impõe: o emprego do termo ‘influência’ a
propósito dos termos lexicais de origem africana é metodologicamente ina-
dequado e contestável, pois esses termos são, em qualquer situação, em-
préstimos, e resultam, por isso, de um fenômeno sociolingüístico consecu-
tivo aos contatos de línguas. Nesse contexto, eles fazem parte de uma troca
bilateral entre as línguas em presença. Mais precisamente, para os termos
aqui focalizados, deve-se supor que, durante essa troca bilateral, os locuto-
res de origem africana certamente trouxeram termos de línguas africanas,
mas ao mesmo tempo apropriaram-se de uma terminologia portuguesa en-
quanto aprendizes do português. Contrariamente às aparências, não se tra-
ta de forma alguma de «influência» de língua « fonte » (aqui, línguas afri-
canas) sobre uma língua « alvo » (o português do Brasil). Se se insiste em
utilizar um conceito de preponderância (peso, poder, pressão ?) é antes o
inverso que se deveria focalizar: tratar-se-ia antes da capacidade da língua
portuguesa apropriar-se dos termos necessários a sua própria expressividade,
seja qual for sua origem (Bonvini & Petter, 1998: 79-80). Mas isso não é
totalmente correto, porque se constata na África, para a época considerada,
o mesmo processo que conduziu as línguas africanas a apropriarem-se de
uma terminologia portuguesa, com uma única diferença: nos países de
dominância portuguesa (antigas colônias portuguesas) esse processo bila-
teral não deixou de coexistir. É preciso acrescentar, também, no caso do
Brasil, que essa bilateralidade de contatos « línguas africanas – português »
operou-se de forma simultânea e conjunta, embora em graus diversos no
tempo e no espaço, paralelamente a outros contatos lingüísticos, dos quais
o principal mas não exclusivo é manifestamente o que se operou entre as
línguas ameríndias, tupi-guarani em particular, e o português. A esse res-
peito cabe destacar que, por mais numerosas que sejam, as palavras de
origem africana são claramente em número inferior às de origem indígena.
(Bonvini, 1997: 294).
Uma outra observação que se impõe é o fato que o processo dos
empréstimos, estreitamente ligado aos contatos de línguas, diversificou-se
conforme o espaço e o tempo. Existe uma cronologia dos empréstimos e
uma geografia também. No caso do Brasil, no que se refere aos contatos
‘línguas africanas – língua portuguesa’, seria muito restritivo considerar
somente o período da escravidão propriamente dita, ou ainda somente o
espaço exclusivamente brasileiro. O que ocorreu no Brasil é apenas uma
parte de um processo mais amplo. Contatos regulares entre línguas africa-
nas e a língua portuguesa precederam ou acompanharam, na África ou fora

148
da África, o fenômeno do empréstimo, de maneira que hoje se deve levan-
tar a hipótese de que certos empréstimos atestados no Brasil são de fato
apenas empréstimos de segunda ou talvez terceira geração. Em nome mes-
mo da história, torna-se indispensável relacionar os empréstimos atual-
mente atestados no português do Brasil aos processos análogos anteriores
ou concomitantes, que aconteceram tanto em Portugal quanto na África, e
para esta conforme as épocas e os lugares. Com efeito, os dados históricos
parecem mostrar que o processo do empréstimo diversificou-se, conforme
as épocas e em importância, diferentemente na África ocidental e na Áfri-
ca austral. O objeto deste artigo limitar-se-á essencialmente ao emprésti-
mo às línguas do grupo banto.
Uma última observação toca o próprio empréstimo, mais exatamente
sua identidade e seu futuro enquanto empréstimo, quando ele deixa de ser só
e simplesmente um termo da língua de partida para se inserir progressiva-
mente numa outra língua. É todo o processo da integração da palavra em-
prestada na língua que a toma emprestado que se faz de modos muito diver-
sos, de acordo com as palavras, as circunstâncias e, também para a mesma
palavra, conforme as épocas, resultando em formas muito variadas que tes-
temunham uma integração progressiva e mais ou menos completa.

Histórico do recurso aos empréstimos de línguas africanas


no português do Brasil
O fenômeno do empréstimo das línguas africanas atestado no Brasil
é somente o resultado de um processo que começou no exterior do Brasil e
que foi progressivamente se instalando em Portugual a partir do século
XV, paralelamente e de modo concomitante às descobertas do contiente
africano e das línguas africanas (Bonvini, 1996). Esse processo prosseguiu
ao longo dos séculos seguintes. O levantamento dos empréstimos efetuados
nesse primeiro período não foi ainda estabelecido de uma maneira siste-
mática com base em documentos disponíveis (relatos de viagens, crônicas,
textos literários, peças de teatro...). A título exploratório e de forma pano-
râmica, levantamos pessoalmente, por exemplo, em João de Barros, na 1a
Decada (1552) os termos ‘banzeiro’ (fol. 27, col.1), fulo (fol. 66, col. 2),
furna (fol. 11 col. 1) e mozimos (fol. 193, col. 3), na 3a Decada (1563) os
termos ganda (fol. 53. col. 3), inhame (fol. 255, col. 3), moxâma (fol. 70,
col. 4) e muxama (fol. 67, col. 4).

149
É possível estabelecer um primeiro inventário desses empréstimos
no dicionário de Bluteau (1712). Encontram-se 91 termos, dos quais 15
que ele estima serem originários de Angola (bumba, candonga,
candongueiro, catinga, macaco, marakutâ, minha minha, moxinga,
mubango, palava’, pombeiro, quîgila, quiminha, quiseco, quitumbata), 7
termos como atestados no Brasil (beijú, cacimbas, macuma, maribonda,
mazombo ~ muzombo, mocama’os e molêque) e 4 termos como tendo uma
origem castelhana (cogoté, mochila, mondongo, mondongueira), mas que
figuram hoje entre os termos considerados como originários de línguas
africanas. O que é mais surpreeendente é o fato de aparecerem por volta de
70 termos do inventário de Bluteau ainda hoje na maioria dos dicionários
do português falado no Brasil ou nos repertórios especializados das pala-
vras de origem africana constituídos a partir do início do século XIX. Como
interpretar essa passagem de 7 a cerca de 70 termos? Seria devido a uma
informação insuficiente da situação brasileira por parte de Bluteau, o que é
bem possível, ou seria o resultado de um crescimento real do número de
empréstimos realizados no Brasil depois do aparecimento da obra de
Bluteau ? Mas então como prová-lo? Uma terceira hipótese ou melhor uma
interrogação, no entanto, merece ser apresentada: esse crescimento não
seria antes o resultado de uma miragem ligada a um processo de fabricação
de dicionários ? Com efeito, em 1789, Antonio Morais Silva publica em
Lisboa sua primeira edição (redigida fora do Brasil) de seu Diccionario da
Lingua Portuguesa, que será objeto no século XIX de edições sucessivas
(1813, 1823, 1831, 1844, 1858, 1877, 1890) e que servirá amplamente de
referência a partir de então. Para nosso propósito convém citar o título
completo da primeira edição: Dicionario da lingua Portugueza composto
pelo padre D. Raphael Bluteau, reformado, e acrescentado por Antonio de
Moraes Silva Natural do Rio de Janeiro. Ora, nessa primeira edição, Moraes
Silva retoma a quase totalidade dos termos de Bluteau (1712), acrescen-
tando somente uma dezena de novos termos atestados no Brasil, dos quais
três são formas derivadas: bugiganga, cachaça, cafuné, calhambola,
encafurnar-se, mamona, mandingueiro, marimbar, matombo, mogangueiro,
mucama e parapanda. Assim, não é inconcebível pensar que, a partir des-
sa data, termos que até então faziam parte do estoque lexical comum de
empréstimos atestados no português de Portugal tenham sido contabilizados
como pertencendo ao português do Brasil, o que é contrário à realidade, já
que esses mesmos termos foram emprestados numa época anterior e não
no Brasil.

150
No que se refere aos empréstimos feitos às línguas da África austral
atestados no português falado em Angola, a documentação é mais extensa
e testemunha ao mesmo tempo a extensão e a consolidação de um processo
de recurso ao empréstimo às línguas africanas pelo português, mas dessa
vez realizado em Angola.
B. Heintze (1985: 114-30) reuniu uma importante documentação
referente aos vocábulos africanos atestados nos textos relativos à Angola
para o período de 1622-1635. Seu levantamento comporta 105 termos, dos
quais 16 somente figuram entre os atestados no Brasil (cf. Novo Aurélio-
Século XXI): casimba, fuba, ganga, infuca, libambo, macota, macuta, malafo
(marafa, marafo), *moleca, moleque, *pombeiro, querimbo (carimbo),
quilombo, quitanda, senzala, tanga e zimbo, dos quais 2 (casimba e mole-
que) foram reconhecidos como tais por Bluteau (1712).
O segundo texto comportando um número significativo de termos
(161) emprestados às línguas africanas é o de A. de Oliveira Cadornega
(1680: 611-22). Trata-se, na maioria, de termos do vocabulário militar.
Desses, 15 são igualmente atestados no Brasil, às vezes sob uma forma
aproximativa: ambundo, banzar, calunga, casima, fuba, ganga, gonges,
libambos, makaia, macotas, mucama, pombeiro, quilombo, quitanda, zombi.
Os termos novos em relação aos precedentes são: ambundo, banzar, calunga,
gonges, makaia e zombi. Nenhum termo militar, no entanto, chegou ao
Brasil.
O terceiro texto que convém levar em consideração é a obra de G.
A. Cavazzi (1687, 2:469-482) que apresenta o duplo interesse de compor-
tar um vocabulário muito extenso e ter sido escrito em italiano. Assim,
torna-se interessante ver quais são os termos emprestados às línguas afri-
canas locais e que se encontram eventualmente no Brasil. Trata-se de um
vocabulário com temas muito variados (botânica, zoologia, dados etnográ-
ficos e históricos), mas onde predomina entretando a terminologia da reli-
gião tradicional. É constituído de 349 termos. Dentre esses, somente 16
termos coincidem, com algumas variantes, com os que são atestados no
Brasil. Trata-se de: badé, bolo, cacimbas, calunga, fuba, ganga, ganga--
ia-nzumba, libata, macota, marimba, moringa, mulemba, quijila, quilom-
bo, zambi-a-mpungu, e zimbo. Nessa lista, badé, bolo, ganga-ia-nzumba,
libata, marimba, moringa, mulemba, quijila, zambi-a-mpungu, represen-
tam uma terminologia nova em relação aos aportes precedentes.
O último documento que importa considerar é o de E. A. Silva Corrêa
(1782). Apresenta a vantagem de ter sido escrito por um brasileiro que

151
viveu em Angola. O levantamento sistemático dos termos utilizados foi
efetuado por M. A. F. d. Oliveira (1983: 273-91). Contam-se 89 termos.
Com 20 termos inventoriados, é sem nenhuma dúvida o repertório que
contém o maior número de empréstimos atestados no Brasil: aloá, calham-
bola, cubata, entanga, fuba, ganga, libata, libambo, macotas, macuta,
milongo, mucambas, pango, pumbeiros, quilombo, quitanda, quitandeira,
sanzala, tungas, zimbo. Notam-se em particular os termos aloá, calham-
bola, cubata, milongo, pango, quitanda, quitandeira e tungas. A respeito
de aloá, é interessante destacar que o autor faz uma distinção entre a forma
utilizada em Angola e a que vigora no Brasil. Ele nota com efeito que em
Angola « reduzem o Milho em hua bebida fermentativa, a G. dão o nome
de Oállo », enquanto que « no Brasil se tem apurado melhor esta bebida
extraida de Arròs, e temperada com assucar, a G. o vulgo em lugar lhe
chama Aloá » (Silva Corrêa, 1782: I, 130, n. 2). O termo quimbundo é
uâlua «garapa, cerveja» (Assis Junior, 1941).
Esses quatro documentos, mas sobretudo o de E. A. Silva Corrêa
(1782) têm em comum o fato de comportar um número significativo de
termos atestados ainda hoje no português falado em Angola como: arimo,
banza, bondo, cacimbo, ginguba, etc.
Nesse sobrevôo do conjunto dos documentos que cobrem o período
que vai do século XV ao XVIII, parece que o processo dos empréstimos às
línguas africanas começou muito cedo em Portugual. Ele prosseguiu em
seguida em Angola com um crescimento regular de termos emprestados,
todavia segundo modalidades distintas. Em Angola, o crescimento dos ter-
mos emprestados ocorreu paralelamente à necessidade de dispor, confor-
me as épocas, de vocabulários cada vez mais especializados: militares, re-
ligiosos, mas também vocabulário ligado ao tráfico. Entretanto, os termos
de especialidade desapareceram à medida que a necessidade desta especi-
alização diminuía com o tempo, a ponto de cessar totalmente. Apenas o
vocabulário ligado às necessidades quotidianas, mais restrito em número,
manteve-se até nossos dias. Constata-se, também, que entre os termos
emprestados em Angola durante esse período, somente um número bem
reduzido foi exportado para o Brasil. Trata-se de termos preferencialmente
ligados à vida quotidiana, dos quais alguns, entretanto, fazem referência à
religião ou ao tráfico.

152
Integração formal dos empréstimos no português do Brasil
Como o recurso ao processo de empréstimo efetuou-se em épocas e
lugares diferentes, é útil ver, com base nos mesmos documentos, como se
operou a integração na língua portuguesa dos termos emprestados.
Uma primeira dificuldade foi a da integração das classes nominais,
que caracterizam os substantivos das línguas do grupo banto e cujo suporte
formal (« classificador », ou « morfema de classe ») de tipo afixal, é um
prefixo (« prefixo nominal »), diferentemente de outras línguas africanas
com classes, pertencentes a outras famílias, onde o suporte pode ser de tipo
prefixo e sufixo, ou sufixo somente. Essas classes se deixam agrupar ge-
ralmente duas a duas (« gênero »), em oposição binária, em relação com
um valor semântico específico, principalmente o número, embora não ex-
clusivamente, o que significa que há habitualmente um prefixo de singular
distinto do de plural. O número de classes varia entre 12 ou 14 e 20 confor-
me as línguas. A título de exemplo, o quimbundo comporta 18 classifica-
dores distintos, agrupados em 9 « gêneros » (Bonvini, 1996b: 80) : 1 mu-/
2 a- (mùtù « pessoa »/ àtù « pessoas ») ; 3 mu-/4 mi- (mùxì « árvore »/
mìxì « árvores ») ; 5 di-/6 ma- (dìzwì « língua »/ màzwì « línguas ») ; 7 ki-
/8 i- (kìnù « pilão »/ ìnù « pilões ») ; 9 i- ou ø/10 ji- (hòmbò « cabra »/
jihòmbò « cabras ») ; 11 lu- (lùmbù « parede ») ; 12 ka-/13 tu-(kàmbwà
« cãozinho »/ tùmbwà « cãezinhos ») ; 14 u-(ùkàmbà « amizade ») ; 15 ku-
(kùyà « ir ») ; 16 bu- (bùlù « no céu »)/ 17 ku-( kùkù « por aqui ») / 18 mu-
(mùbàtà « em casa »).
É com relação a sistemas classificadores desse tipo de línguas que
foi feita a adaptação ao português dos termos emprestados das línguas afri-
canas do grupo banto. Daí o interesse de tentar compreender o mecanismo
de integração, ao menos em suas grandes linhas, tal como se efetuou em
diferentes épocas e em lugares diferentes como evocamos. É evidente que
para restituir a forma original, importa analisar cada empréstimo caso a
caso.
O trabalho de Bluteau (1712) é um pouco posterior ao de Cadornega
(1680) e ao de Cavazzi (1687). Com relação às palavras de empréstimo
que ele contém, nota-se que os prefixos nominais são geralmente respeita-
dos, mas são prefixos já desconectados de sua função inicial de « classifi-
cadores ». Por exemplo, Bluteau cita duas formas que não vão juntas
(« mazombo » ou « muzombo ») e ele não reconhece a função de pluralizador
do prefixo /ma- / porque ele acrescenta regularmente o sufixo /-s/ do por-

153
tuguês para a formação do plural tanto para as formas do singular
(muchindos, cacimbas) quanto para as do plural (marimbas). Observa-se
também o emprego do derivativo /-eiro/ (banzeiro, candongueiro) e a con-
cordância com o gênero feminino para ‘marimbondo’: « maribonda :
Especie de vespa do Brasil ».
Nos textos recolhidos por Heintze (1985), que são mais antigos de
quase um século em relação à obra de Bluteau (1712), constatam-se os
seguintes fatos: a) tendência a pronunciar as vogais fechadas /i, u/ como
meio-abertas /e, o/, em sílaba não acentuada: bambes (no lugar do
quicongo mbámbi ‘fronteira’), moenho (ao invés do quimbundo muénhu
[mwènyù]‘alma’), querimbo (em vez do quimbundo kirímbu ‘marca, si-
nal’). Cabe notar que quando se trata de passar do português ao quicongo
o movimento é inverso, as vogais meio-fechadas são pronunciadas fe-
chadas: ‘cobre’ > kobidi (quicongo) ou cobre > kóbiri (quimbundo) (Bal,
1979: 63); b) tendência a substituir a consoante nasal /N-/ por uma vogal
protética seguida de –n: infuca, emfuca (no lugar do quicongo: mfuka
‘divida’) ; c) emprego preferencial da forma do plural no lugar do singu-
lar: quimbundo macota (mákota) (em vez de rikota ‘o mais velho de uma
linhagem’).
Em Cadornega (1680), encontram-se as mesmas tendências (engoma,
no lugar do quimbundo ngoma ‘tambor’), mas com mais dois fatos novos,
embora não sistemáticos: a) perda (aférese) do prefixo de classe: emprego
de duas formas possíveis para o singular do substantivo, uma com o prefi-
xo de classe, a outra sem o prefixo de classe: ditemo ou temo ‘enxada’,
difuta ou futa ‘pêgo’, entambi ou tambi ‘enterro’1 ; b) adjunção mais fre-
qüente, senão sistemática, da marca do plural português /-s/ aos substanti-
vos plurais da língua africana, o que implica o não reconhecimento dos
morfema do plural de classe: Ambundas (no lugar de Ambundu ‘nome de
povo’), macotas (no lugar de makota ‘os mais velhos de uma linhagem’),
malungas (no lugar de malunga ‘argolas de ferro’).
Quanto a Cavazzi (1687), encontramos quase os mesmos fenôme-
nos, exceto a marca do plural do português /-s/ que é freqüentemente subs-
tituída pela do italiano /-e, -i/: cassimbe (ao invés de cacimba), makoti (ao
invés de makota). Um fenômeno inesperado é o acento que muito freqüen-
temente o autor nota sobre a última sílaba de certas palavras: mbulú (ao

1
Nota-se o fenômeno inverso para as palavras portuguesas emprestadas do quimbundo: gaio-
la > Ngaiola, garfo > Ngalufu.

154
invés de mbulu ‘chacal’). Não se pode deduzir nada de verdadeiramente
significativo dessa grafia. Trata-se de uma maneira de notar o tom alto
próprio das línguas africanas, ou se trata antes do que se convencionou
chamar ‘deslocamento de sílaba do acento da palavra’ (acutização) que se
constata, por exemplo no Brasil, em alguns termos emprestados das lín-
guas africanas ? Nada permite fazer essa afirmação.
A obra de Silva Corrêa (1782) confirma e amplia os diversos proce-
dimentos de integração dos empréstimos, sobretudo para as formas do plu-
ral (libongos, pl. de lubongo, ‘paninho de palha’; mucambas, pl. de múkâma,
‘escrava que é amásia do seu senhor’). Mas o que é novo nesse autor são
dois procedimentos: a) uma diferenciação maior dos derivados: cambola-
dores (do quimbundo rikómbo ‘capataz’), empacasseiro (do quimbundo
pakása ‘búfalo’); b) emprego do singular da forma original do plural do
substantivo emprestado (isto é, com o prefixo de classe do plural), e acrés-
cimo a essa mesma forma do sufixo do plural do português /-s/ parar ex-
pressar o plural: malunga2 (pl. de rilúnga) ‘argola de ferro que prende as
mãos a uma comprida corrente’ (sg.) e malungas3 ‘finas argolas de cobre,
prata, ouro e ferro’ (pl.).
Esse último exemplo é típico da integração total da palavra empres-
tada.
Em conclusão, pode-se afirmar que, nos traços essenciais, o proces-
so de integração ao português de palavras emprestadas das línguas africa-
nas de tipo banto foi progressivamente se implantando e chegou ao seu
término em Angola mesmo, e antes do século XVIII. Em seguida, esse
processo foi mantido e também consolidado no Brasil, principalmente por
dois aportes maiores: um se situa no plano semântico, graças a uma espe-
cialização da significação de partida da palavra, e também, às vezes, gra-
ças à adoção de uma significação nova; a outra diz respeito ao plano for-
mal, graças à profusão de formas derivadas, como:

Calunga > calungage(m): ‘vagabundagem’ ; calungueira: ‘barcos de pes-


ca’ ; calungueiro: ‘pescador de pargo’ ; encalungar: ‘lançar uma sorte’.
Moleque > molecada, molecagem, molecão, molecar, molequear,
molequeira, molequice, molequinho, molecòrio, molecote,
emmolecar-se.

2
‘Argola de ferro G. prende as maons a huma comprida corrente’ (I, 96, n. 2).
3
‘Humas malungas’ (I, 280, n. 1).

155
Origem dos empréstimos
A presença no Brasil de empréstimos de línguas africanas traz à
baila o problema de sua origem, o que implica a identificação da língua de
partida e, tanto quanto possível, o reconhecimento do país de origem. Essa
identificação torna-se difícil porque as fronteiras lingüísticas antigas não
coincidem mais obrigatoriamente com as atuais. Quanto às fronteiras polí-
ticas, elas submeteram-se a mudanças freqüentes ao longo dos séculos.
Apesar de numerosos escritos consagrados hoje ao problema dos
empréstimos (cf. nesta publicação o texto de M. Petter) os resultados são
pouco satisfatórios. Há muitas razões para isso. As principais, além de um
certo amadorismo, são de duas ordens: por um lado a incerteza que pesa
sobre os dados levantados no Brasil, em particular a ausência de um inven-
tário sistemático de empréstimos cobrindo toda a extensão do país, mas
também a não distinção, que é no entanto necessária, entre os termos usu-
ais, integrados, hoje, totalmente no estoque lexical do português do Brasil,
falado ou escrito, e os termos de especialidade, notadamente os atestados
nos cultos ditos afro-brasileiros ; por outro, a insuficiência de conhecimentos
diretos dos dados lingüísticos do continente africano. Esse comporta com
efeito uma realidade lingüística movediça e diversificada, constituída por
um número considerável de línguas e variantes dialetais (por volta de 2000,
segundo o último levantamento do Summer Institut of Linguistics (SIL)
(Grimes, 1996), mesmo se esse levantamento é às vezes discutível no deta-
lhe). Muitas dessas línguas estão além de tudo em via de desaparecimento
rápido, em conseqüência do fenômeno de urbanização, notadamente nos
países ditos ‘Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa’. Esse fenô-
meno se acelerou e ampliou após os deslocamentos maciços de popula-
ções, ligados às guerrras e cuja duração se prolongou por muitas décadas.
Nesse contexto muitas línguas desapareceram ou desaparecem, sobretudo
as minoritárias e que nunca foram objeto de descrição sistemática. Toda-
via, com base em textos antigos, é possível identificar um certo número de
termos que se encontram atualmente no Brasil. Alguns deles são comuns a
extensas zonas geográficas e lingüísticas. É o caso das línguas do grupo
banto. Outros são limitados a zonas areais mais restritas.
É importante enfatizar uma característica dos empréstimos atesta-
dos no Brasil e que nos parece importante: os empréstimos se apresentam
muitas vezes com numerosas variantes. Haja vista os exemplos seguintes
tirados de Angenot, Jacquemin, & al. (1974):

156
aluá = aruá: bebida de milho cozido, arroz ou cascas de abacaxi, fermenta-
da.
andaro = undaro = undaru = ondara = anduro: fogo.
birimbau = berimbau = marimbau = marimba: instrumento musical.
bongar = pongar: buscar, procurar.
caçula = caçulo = caçulê: filho mais novo.
cacunda = cacundo = carcunda = corcunda: bossa, protuberância nas costas.
cafife = cafifa = canfinfa: azar.
calunga = carunga = calungo: mar, peixe, morte.
canjerê = canjirê = conjerê = canjira: dança negra de caráter religioso.
canzaca = casaca = canzá = ganzá = cassaca: instrumento musical.
dengo = dongo = dengue = ndengue = ndongo: choradeira, manha, faceirice.

Poderíamos multiplicar à vontade esses exemplos.


Como explicar essa multiplicidade de variantes ? Aparentemente,
nenhum estudo foi feito a esse respeito. Pode-se, entretanto, emitir algu-
mas hipóteses. É possível, certamente, atribuir essas variantes ao fato que
elas resultam essencialmente de uma transmissão oral. Por isso, desde o
ponto de partida, elas teriam sido submetidas aos acasos de uma pronúncia
e de uma percepção individuais e, em conseqüência, elas se teriam fixado
em favor de um contexto coletivo, de tipo religioso (cultos ditos ‘afro-
brasileiros’), ou lúdico (‘capoeira’, ‘carnaval’…) ou eventualmente pro-
fissional (exploração agrícola de matérias-primas – ouro, diamantes). Nes-
sa eventualidade, torna-se então difícil fazer uma escolha entre as variantes
e a seleção de uma delas no lugar de outra corre o risco de ser fundamenta-
da em critérios estatísticos ou subjetivos.
Pode-se, também, formular uma segunda hipótese: muitas dessas
variantes – mas seguramente não todas e uma verificação caso a caso se
impõe nesse domínio – seriam o testemunho de uma forma lingüística que
teria existido numa língua africana previamente, antes de sua adoção pela
língua portuguesa, uma espécie de fóssil lingüístico que testemunharia a
origem lingüística que lhe é específica. A consideração da forma brasileira
permitira remontar até a especificidade da língua fonte (língua, dialeto ou
falar). Uma comparação formal com outras variantes do mesmo tipo, para
outras formas emprestadas, e sobretudo uma comparação efetuada in loco,
em terra africana, com as formas atestadas, principalmente antigas, mas
também atuais, poderia confirmar ou contestar essa hipótese. No caso de

157
confirmação, seria então justificável falar de origem a respeito de tal ou tal
empréstimo.
É essa segunda hipótese que estimamos útil explorar. A título de
exemplo, serão examinadas aqui duas séries de variantes atestadas no Bra-
sil e que correspondem cada uma a um empréstimo distinto, mas que são
na realidade relativamente próximos no plano semântico:

aluá = aruá: bebida de milho cozido, arroz ou cascas de abacaxi, fermenta-


da.
marafo = marufo = marafa = malafa = malavo = malavra = maluvo =
maruvo: bebida alcoolizada, vinho de palma.

Se se observa a realidade africana, principalmente a das línguas de


tipo banto, constata-se que essa duas séries partilham a noção semântica de
‘vinho de palma’, como aparece claramente em diferentes documentos
antigos. Entre as diversas raízes das línguas banto que correspondem a
essa noção, encontram-se duas séries de termos cujos radicais se aproxi-
mam daqueles atestados no Brasil (Cf. Johnston, 1919 e 1922, exceto para
os nomes de línguas e sua classificação que atualizamos):
a) -rwa, -arwa, -lua, -alwa ; essas formas são atestadas como radicais prin-
cipalmente nas línguas que pertencem aos seguintes grupos: -rwa: Haya-
kwaja (J.20 – Tanzânia) ; -lua: masaba-luya (J.30 – Uganda, Quênia) ;
-arwa: Chokwe-Luchazi (mbunda) (K.20 - Angola, Zaire, Zâmbia ); -
alwa: cokwe-lukazi (ganguela) (K 20 - Angola, Zaire, Zâmbia); luba
(ciluba) (L. 30 – Zaire) ; salampasu-ndembo (lunda) (K 30) (Zaire, An-
gola, Zâmbia).
As duas últimas formas concernem diretamente ao Brasil, onde elas
são atestadas com um acento no final e cuja explicação seria ou uma
reminiscência do tom alto nas línguas africanas de onde provêm (in-
felizmente, a documentação em nosso poder não permite afirmá-lo com
clareza), ou uma outra causa e que seria estrangeira às línguas africanas.
Em qualquer desses casos, o tipo de empréstimo representado pelas
duas últimas formas teria sido realizado a partir de línguas situadas
preferencialmente na parte leste de Angola, ou ainda nos países imedi-
atamente limítrofes num eixo norte – sul.
b) -lovu, -luvu, -lufu, -lavu, -lafu, -rafo ; essas formas são atestadas prin-
cipalmente nas seguintes línguas: -lovu: subia (K.40 – Zâmbia,
Botswana,) ; -luvu: Chokwe-Luchazi (cokwe) (K.10 - Angola, ex-Zaire,

158
Zâmbia ); mbundu (quimbundo) (H. 20 – Angola); luba (ciluba, kanyoka)
(L 30 – ex-Zaire) ; -lufu: mbundu Sul (nkumbi, nyaneka) (R 10 – An-
gola) ; songye (L.20 – ex-Zaire) ; -lavu: kongo (kisikongo) (H.10 - An-
gola) ; -lafu: sira (lumbu) (B. 40- Congo) ; Luba (hemba) (L.30 – ex-
Zaire); -rafo: Chokwe-Luchazi (Mbunda) (K.10 - Angola, ex-Zaire,
Zâmbia ); -rufu : ; salampasu-ndembo (lunda) (K 30) (Zaire, Angola,
Zâmbia).
Deve-se notar que quase todos os empréstimos que correspondem à
segunda série são também oriundos de línguas que se encontram na maio-
ria em regiões situadas no eixo norte-sul do leste de Angola, ou incluindo
países imediatamente limítrofes, ex-Zaire (RD Congo) e Zâmbia em parti-
cular.
Dessas formas, as que são atestadas no Brasil são : -luvu (maluvo) ,
-lavu (malavo), -rafo (marafo) e –rufu (marufo). É preciso, provavelmen-
te, incluir aqui a forma maruvo como realização possível de maluvo. Em
contrapartida, convém excluir as formas que terminam em /-a/ (marafa,
malafa, malavra) dos empréstimos que inventoriamos para Angola, pois
essa terminação é estrangeira aos substantivos das línguas africanas de tipo
CVCV correspondente à raiz focalizada. O sufixo /-a/ ‘singular feminino’
manifesta um grau suplementar de integração ao português, provavelmen-
te a partir do decalque de garapa ‘bebida feita de cana, caldo da cana des-
tinado à destilação’ ou cachaça ‘pinga’. Sua presença no Brasil, pelo me-
nos para marafa e malafa, poderia ser interpretada como uma integração
de segunda geração, ou melhor, um empréstimo de segunda geração. Não
parece ser o mesmo o caso de malavra que indica antes uma corrupção da
palavra resultante de uma pronúncia deformada.
A eventualidade da existência de um empréstimo de segunda gera-
ção no Brasil não deve ser excluída e ela tampouco é surpreendente. O
exemplo citado acima referente a macota [Do quimb. mákota, ‘os maio-
res’., mas que no Brasil corresponde a ‘S.m. Bras. Com o sentido de «ho-
mem de prestígio e influência», «o maior de todos, o mais importante»]
tenderia a prová-lo. Com efeito, esse termo já era atestado, como assinala-
mos, em Cadornega (1680), como seria também um século mais tarde em
Silva Corrêa (1782). Nos dois autores, entretanto, a forma era /macotas/, o
que correspondia melhor ao sentido de /makota/ que é em quimbundo a
forma do plural de /dikota/ ‘mais velho’. A forma atual do singular /macota/
atestada no Brasil, enquanto empréstimo, é assim ela própria uma forma

159
derivada de um empréstimo mais antigo, um empréstimo de segunda gera-
ção e, a esse título, é significativo encontrá-la no historiador brasileiro de
Angola, Silva Corrêa (1782).
Como mostra este breve ensaio, a utilização judiciosa das variantes
de empréstimos que encontramos no português falado no Brasil permite
chegar a sólidas hipóteses sobre a origem dos empréstimos oriundos de
línguas africanas, sobretudo as que são do tipo ‘banto’. Esses empréstimos
apresentam a vantagem de serem mais amplamente atestados e também
mais antigamente integrados. Este trabalho, entretanto, assenta-se sobre
duas condições prévias: por um lado, um levantamento sistemático de to-
das as formas de empréstimos atestadas no Brasil e, paralelamente, um
conhecimento aprofundado e extenso das línguas faladas na África.
Esta abordagem não exclui os casos de ambigüidade, ela pode, ao
contrário, colocá-los em evidência. É o caso quando um dado termo pode
ser interpretado como procedente de um empréstimo de uma língua africa-
na ou de um empréstimo da língua tupi. Veja-se o seguinte exemplo: for-
malmente, /mulungu/ [Do tupi murun’gu.] pode tanto ser uma palavra de
origem banto quanto tupi, com uma única diferença, o acento, que não é o
mesmo para cada uma das línguas : /mu’lungu/ (banto) no lugar de /
murun’gu/ (tupi) ; /r/ et /l/ são intercambiáveis em muitas línguas africa-
nas. No plano semântico, as duas origens também são possíveis, já que o
Novo Aurélio século XXI dá três acepções diferentes, duas indígenas e uma
africana : «1. V. corticeira. 2. V. flor-de-coral. 3. Espécie de ingome, de
origem africana, que produz sons retumbantes». Não é de espantar que
essa semelhança formal tenha sido fonte de confusão desde a partida e que
ela tenha causado uma espécie de « leitura » bi-direcional: o indígena bra-
sileiro interpretando a palavra africana segundo o modelo tupi, o africano
interpretando a palavra tupi conforme o modelo banto. A hesitação do lo-
cutor encontra-se com a do descritor de hoje face a essa palavra estrangei-
ra. Uma verdadeira análise sistemática dos dois tipos de empréstimo traria,
a nosso ver, um esclarecimento importante sobre os contatos de línguas no
período da escravidão e, finalmente, sobre a identidade lexical do portu-
guês falado atualmente no Brasil.

160
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91.

162
NOVAS LEITURAS SOBRE O BRASIL: A CONSTRUÇÃO
DE UM SABER LEXICAL NO PROCESSO
DE ESCOLARIZAÇÃO INDÍGENA1

Maria Aparecida Honório


Universidade de São Paulo (Pós-doutorado/USP)

Com o intuito de contribuir com os estudos sobre a constituição do


léxico no Brasil, focalizaremos, neste nosso trabalho, o processo de gra-
matização brasileira2 do português e das línguas indígenas, tendo em vista
a história de contato. Considerando que a construção dos saberes sobre as
línguas no país foi sendo produzida a partir de um trabalho duplo – o de
leitura de arquivo e o de coleta de dados in loco –, analisaremos, em pri-
meira instância, as condições históricas que possibilitaram a construção de
unidades lingüísticas imaginárias.
Posteriormente, procuraremos compreender de que modo o léxico
vem sendo significado nas práticas atuais de produção da escrita pelos in-
dígenas. Refletiremos, neste caso, sobre a produção textual de professores
Sateré-Mawé,3 caracterizada pela retomada do léxico indígena (ou de ori-
gem indígena) em seus textos produzidos em português.
Da perspectiva que procuraremos analisar a questão, que é discursi-
va, este tipo de produção caracteriza uma nova fase de construção de saber
sobre o léxico brasileiro. Observando seu modo de aparecimento no fio

1
Este trabalho representa um diálogo de algumas das reflexões produzidas na pesquisa pós-
doc (USP) no âmbito do Projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil com os resulta-
dos da pesquisa desenvolvida no projeto recém-doutor (UFSCar).
2
Entendendo gramatização como o processo que conduz a descrever uma língua na base de
duas tecnológicas, a gramática e o dicionário (Auroux, 1992).
3
Na literatura recente esta grafia ainda não está totalmente padronizada. Encontramos: Satere-
Maue, Sateré, Satere-Mawe, Satere Mawe. Estamos adotando a grafia utilizada com mais
freqüência pelos próprios professores indígenas desta etnia.

163
discursivo, procuraremos então compreender o funcionamento do léxico em
relação a outros campos de memória: o dos missionários e o dos viajantes.
Conforme já observou Nunes (1996), os relatos de viajantes e mis-
sionários produzidos no período colonial contribuíram para a construção
de um léxico brasileiro. Em suas descrições sobre o país, uma infinidade
de itens lexicais das línguas faladas na Costa – de origem Tupi4 – serviram
de base para a produção de instrumentos lingüísticos: gramáticas e dicio-
nários. Esta produção, caracterizada como uma extensão da relação do
falante com a língua (Auroux, 1992) mobilizou as práticas linguajeiras no
país, redefinindo o espaço enunciativo brasileiro.
Os instrumentos lingüísticos, produzidos nos primeiros séculos de
colonização, favoreceram a expansão de um certo conhecimento sistemati-
zado sobre a língua, ao mesmo tempo em que trabalharam a normatização
e a redução do uso de outras línguas indígenas. As línguas faladas por
grupos Tupi passaram a ser representadas, após o contato, por uma grande
unidade imaginária, o Tupi jesuítico.5
As primeiras décadas de contato europeu com a diversidade lingüís-
tico-cultural brasileira foram marcadas pela necessidade de aprender as
línguas faladas neste território, condição para as práticas expansionistas.
Esta tarefa centrou-se na figura do língua: pessoas enviadas ao Brasil para
aprenderem a língua dos índios e servirem de guias nas expedições portu-
guesas. Com a entrada da Companhia de Jesus no país, foram os jesuítas
que passaram a exercer este papel. Neste caso, a aprendizagem da língua
vinculou-se às práticas de catequese. É neste contexto que se produzem os
primeiros instrumentos lingüísticos, em meados do século XVI, a Gramá-
tica de Anchieta – Arte da língua mais usada na costa do Brasil (1595), o
Vocabulário na Língua Brasílica e o Dicionário Português-Brasiliano (anô-
nimos). Com estes instrumentos criam-se condições para o aparecimento
de uma literatura jesuítica baseada no Tupi ‘colonial’.
Em relação aos dicionários bilíngües do período imperial, sua pro-
dução foi marcada por um trabalho de intertextualidade: a leitura de arqui-

4
Considerando as línguas de origem Tupi em oposição às línguas Tapuyas, os viajantes e
missionários passaram a designá-las “língua da terra”, “língua brasílica”, “língua dos brasis”,
etc., processo que propiciou a construção de uma imagem de língua indígena única, unívoca.
5
O Tupi-jesuítico representa, segundo Câmara (1978), o trabalho de literatura missionário
escrito na língua mais usada na costa do Brasil. Podemos dizer que este trabalho produziu o
que Orlandi & Souza (1988) designam de uma língua imaginária: aquela fixada na sua sis-
tematização, em oposição à língua fluída, que escapa dos sistemas e fórmulas.

164
vo referida aos discursos dos viajantes e missionários, por parte de estu-
diosos vinculados a institutos históricos, em particular, o Instituto Históri-
co Geográfico Brasileiro (IHGB).
Conforme já analisou Nunes (1998), muitos itens lexicais presen-
tes nos textos dos relatos foram incorporados nos dicionários, explicitando
um certo modo de ‘ler o arquivo’:6 a retomada do léxico, não se restrin-
gindo à mera cópia de manuscritos da época colonial, foi significada por
procedimentos de acréscimos, notificações, explicações, atualizando o
léxico com vistas a produzir uma certa história do Brasil, fundamentada
no discurso imperial. Nesta prática lexicográfica constrói-se um saber
sobre o léxico organizado pela relação palavra/palavra, em oposição ao
saber produzido nos dicionários jesuíticos, centrado na situação de enun-
ciação.
Veremos, em nosso trabalho de análise sobre a produção escrita dos
professores Sateré-Mawé, que a retomada de alguns itens lexicais em seus
textos, já presentes no discursos de viajantes e missionários, configurará
um novo modo de produção de sentidos sobre o léxico brasileiro. Esta
produção, organizada por uma outra perspectiva enunciativa, expõe o léxi-
co a um outro olhar.
Ainda no século XIX, paralelamente a este tipo de produção, cons-
truída na base da exogramatização,7 um outro conjunto de produção lexi-
cográfica brasileira começa a organizar-se: são os dicionários de ‘brasilei-
rismos’,8 para servir de ‘complemento’ aos dicionários de língua portuguesa
(Nunes, 1998).
Estes dicionários contemplam uma série de palavras de origem Tupi
incorporadas no português e significadas como especificidades do portu-
guês do Brasil. Esta produção marca um certo tipo de trabalho de leitura de
arquivo, que caracteriza a endogramatização: gramatização do português

6
Entendemos estes trabalho de leitura de arquivo, tal como concebido por Pêcheux (1994:
57): leitura de um campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão. Lei-
tura esta que implica gestos de interpretação sobre o arquivo; práticas de exclusão, desloca-
mentos, silenciamentos de sentido.
7
Consiste na transferência de uma tradição lingüística no processo de gramatização de uma
língua desconhecida. Para melhor compreensão deste processo, ver também conceito de gra-
matização (Auroux, 1992).
8
Câmara (1978) aponta como principal causa do brasileirismo ‘a separação geográfica da
língua portuguesa, distribuída em dois territórios isolados, de que resultou a não-coincidên-
cia absoluta de evolução.’ (p. 67).

165
feita por falantes brasileiros (idem, ibidem, 238).9 Nesta produção, a ques-
tão da língua é orientada enquanto signo de nacionalidade. (Orlandi & Gui-
marães, 1998).
Observa-se, na segunda metade do século XIX, a retomada de tra-
balhos sobre a linguagem oral, pelas expedições científicas promovidas
pelo IHGB. São publicadas nesta época lendas, mitos, descrições
etnográficas não só do Tupi antigo, mas também estudos da Língua Geral
Amazônica (Nheengatú ou tupi moderno) e de outras línguas indígenas. É
deste período a iniciativa de descrição do tupi moderno, com destaque para
os trabalhos de Gonçalves Dias (Vocabulário da língua geral usada hoje
em dia no alto Amazonas, 1852, e Dicionário da língua tupi chamada lín-
gua geral dos indigenas do Brasil, 1858), Couto de Magalhães (O Selva-
gem, 1867) e Barbosa Rodrigues (Poranduba Amazonense, 1887).
Não obstante, a produção lingüística dirigida às línguas indígenas
ocupa, no contexto da gramatização do português, um lugar marginal,
quando não voltados à formação da língua nacional. Propagam-se, nesta
época, “as abordagens sociológicas que vêem nas manifestações popu-
lares e no folclore um outro sentido de nacionalidade” (Nunes, 1996:
62).
No processo de consolidação do desenvolvimento social, produzido
pela Revolução de trinta, as produções IHGB são relidas – especialmente
as obras de Gilberto Freyre –, em favorecimento da construção de uma
identidade brasileira. Dentro deste quadro, as teorias sobre a questão racial
tornam-se obsoletas; “era necessário superá-las, pois a realidade social
impunha um outro tipo de interpretação do Brasil” (Ortiz, 1994, p. 40).
Neste período, são reeditados ainda alguns relatos, como por exemplo as
Duas Viagens ao Brasil (1557), de Staden, com anotações e revisões do
léxico feitas por Theodoro Sampaio, que dialogando com sua própria obra
– já publicada na Revista do Instituto: O Tupi na Geographia Nacional
(1901) – e outros cronistas, produz um trabalho de releitura.
No início do século XX, outras missões católicas, com destaque para
as salesianas – em contato com povos indígenas da Amazônia desde 1916
–, realizam trabalhos de caráter etnográfico no Alto Rio Negro, coletando
material lingüístico que, arquivado por algum tempo, seria retomado mais

9
De acordo com análise de Nunes (1997), neste quadro inserem-se os trabalhos de Beaurepaire-
Rohan (Dicionário de Vocábulos Brasileiros) e Macedo Soares (Dicionário Brasileiro da
Língua Portuguesa).

166
tarde na produção de instrumentos lingüísticos das línguas faladas naquela
área: Pequena Gramática e dicionário da língua Tucana (s/d); Gramática
e dicionário Tucano (Frei Antonio Jaconi, 1947). A gramatização desta
língua indígena favoreceria a redução da diversidade lingüística da região.
Falantes de várias línguas da família Tucano (Dessana, Wanano, Tuyuka,
bem como a própria língua Tucano e o Nheengatú, dentre outras lá faladas)
passariam a organizar-se a partir de uma nova unidade imaginária: o Tuca-
no ‘oriental’10 ou geral. Estas missões atuariam também na escolarização
indígena, pela presença das chamadas escolas das missões, caracterizadas
como escolas agrícolas.
Pararelamente à atuação dos salesianos, oficializa-se, em meados
dos anos cinqüenta, a entrada de missões protestantes, principalmente na
região amazônica. As Novas Tribos do Brasil, representadas pelo SIL,11
produzem um volumoso material de descrição lingüística e instituem, com
autorização do Estado o ensino bilíngüe em área indígena.
A produção destes instrumentos serviu de base para novas produ-
ções dos missionários: tradução do Novo Testamento em línguas indígenas
e material lingüístico-pedagógico, que caracterizarão um certo tipo de es-
cola: a escola para índios.
A partir da década de oitenta, um número expressivo de organiza-
ções indígenas no país12 surgirá como movimento de resistência a esta
política de línguas e ensino. Estas organizações, tomando a escola como
palco político, criarão condições para o aparecimento da escola dos índios.
Serão símbolos desta nova escola, a figura do professor indígena, e os li-
vros didáticos produzidos pelos índios. Constituídos como sujeito bilingües,
os professores indígenas passam a fazer a ‘releitura’ do Brasil. Mobiliza-
dos por um outro tipo de política, diferente daquela dos intérpretes do pe-
ríodo colonial, estes novos atores sociais ressignificam o léxico, funda-
mentados em outros campos da memória.

10
Ramirez (1997) divide as línguas da família Tukano em três grupos: Tukano ocidental (dia-
letos: orejón, sekoya, siona, koreguaje), Tukano central (kubewa), Tukano oriental, em que
se incluem as línguas mencionadas no texto, além de outras.
11
O SIL, hoje denominada Sociedade Internacional de Lingüística, compõe um grupo de mis-
sionários americanos, ligados a uma vertende evangélica fundamentalista.
12
Atualmente, o Amazonas conta com mais de 50 organizações indígenas, representando vá-
rias etnias. Surgindo em defesa da autonomia dos povos indígenas, terá na Escolas seu lugar
de atuação. Sobre essa atuação ver Honório (2000), Silva (1998).

167
Políticas lingüísticas: as línguas que falam e calam
A partir de 1988, com a garantia do ensino das línguas indígenas
aos índios, pela nova constituição brasileira, a escolarização indígena pas-
sa a ser incorporada na LDB (1996). O Estado, determinando que a educa-
ção escolar indígena deve ser inter-cultural e bilingüe, 13 institui a
obrigatoriedade do ensino em língua portuguesa e também em língua indí-
gena ou ‘materna’: “O ensino fundamental regular será ministrado em
língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utili-
zação de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.”
(Constituição, 1988).
Este tipo de discursividade, atravessado pelo imaginário de que para
ser índio é preciso falar uma língua indígena, produz uma injunção políti-
ca, desconsiderando o real histórico de cada povo indígena em particular,
com seus projetos políticos específicos.14 Se é certo que a garantia oficial
do ensino das línguas nas escolas indígenas constitui um avanço, a
obrigatoriedade do ensino bilingüe, tendo o português como ‘centro’, cons-
titui a contradição deste avanço.
Segundo Auroux (1992) “A velha correspondência uma língua, uma
nação, tomando valor não mais pelo passado mas pelo futuro, adquire um
novo sentido: as nações, transformadas, quando puderam, em Estados, es-
tas vão fazer da aprendizagem e do uso de uma língua oficial uma obriga-
ção para os cidadãos” (p. 49).
No embate entre duas línguas, circunscrito neste atual contexto de
ensino bilingüe, tem-se, de um lado, o sólido terreno da língua nacional, e,
de outro, não importa qual língua, desde que indígena ou materna. Esse
discurso, garantindo ‘para sempre’ o lugar da língua, a portuguesa, reduz o
campo das línguas indígenas que falam no mesmo povo.
Lá mesmo onde a nação se une – na língua – é o lugar de separação.
Esta disjunção no fio discursivo, polarizada na relação LP/LI apaga o fato
de que falam-se línguas. Explicando. No Brasil, há comunidades indíge-

13
Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar Indígena, II – Princípios Gerais,
1993.
14
Sabemos que nem todos os povos indígenas têm interesse em alfabetizar-se em língua indí-
gena ou em português. Os Yanomami, por exemplo, há pouco tempo, defendiam a escrita
somente em português, preferindo manter-se na posição de sociedade de tradição oral. Já os
Waimiri-Atroari defendiam o ensino do português somente como língua instrumental, alfa-
betizando-se somente na sua língua indígena.

168
nas que falam mais de uma língua indígena, e mesmo, mais de uma língua de
nação – situação característica dos povos dos Alto Rio Negro – e, ainda, há
aquelas que, mesmo falando somente uma língua indígena, falam diferente.
Em relação aos Sateré-Mawé, sabemos que muitos deles falam, além
da língua SM, o Nheengatú, que, neste caso, é apagado no espaço escolar.
Soma-se ainda o fato de que o Estado, ao administrar uma unidade de es-
crita para a língua Sateré-Mawé, também tem operado de modo excludente.
A maior parte dos livros escritos pelos Sateré-Mawé, tanto em língua indí-
gena quanto em português, tem sido produzida pelos professores da região
do Marau, nos cursos de formação promovidos pela Secretaria da Educa-
ção – o Projeto Pira-Yawara/Programa de Capacitação de Professores
Indígenas Satere-Mawe. Ressalta-se também que a área do Marau conta
com apoio lingüístico direto. Este fato tem provocado embates entre pro-
fessores das duas áreas geopolíticas (a área do Andirá e a do Marau). Um
desses embates tem sido apresentado como razão aparentemente técnica,
dissimulando as razões sócio-políticas que o determinaram: a discórdia
dos grupos acerca da ortografia que vem sendo fixada nesta escrita. Um
exemplo: o emprego do ‘j’, cristalizado na escrita Novo Testamento na
Língua Sateré-Mawé (SIL) sob a forma do ‘u’.
Conforme adverte Mori (1995), é importante levar em conta, nas
políticas de definição de ortografia, não só os princípios técnico-científi-
cos, mas, prioritariamente, as reivindicações sociopolíticas das nações in-
dígenas, porque fala-se o Sateré-Mawé, mas fala-se diferente.15
A despeito do que diz o professor Enilson Wapixana: “...o Brasil é
uma nação constituída por muitos povos de diferentes etnias, com histó-
rias, saberes, culturas e línguas próprias...” (RCN/Indígenas, 1998), é ainda
relevante analisar, do ponto de vista da política de línguas, de que modo
vem se dando a ‘negociação’ dessa diversidade na unidade.

A nova escola e a produção de novos instrumentos


Como vimos, a nova conjuntura de escolarização indígena, garanti-
da pela Constituição e LDB, cria condições para uma extensa produção de

15
A reflexão sobre situação sociolingüística dos povos indígenas está presente nos Referen-
ciais Curriculares Nacionais/Indígenas. No entanto, conforme reflete Orlandi em seu artigo
“Ética e Política Lingüística (1998), faz-se necessário analisar também esta questão em rela-
ção à unidade lingüística do Estado brasileiro.

169
textos de caráter pedagógico por parte dos professores indígenas, no pro-
cesso de sua formação: serão publicados livros didáticos em versão bilín-
güe, em língua indígena ou em português.
Este fato nos permite considerar este tipo de produção como parte
do processo de endogramatização brasileira, que funciona em duas dire-
ções: na endogramatização do português e na endogramatização das lín-
guas indígenas.
No que diz respeito ao material que analisaremos, observamos que
a presença de palavras em língua indígena no texto em português configu-
ra-se como um certo saber metalingüístico e, neste sentido, estenderemos
o conceito de instrumento lingüístico proposto por Auroux (1998) para a
produção lingüístico-pedagógica dos professores indígenas.16
Nesta fase, emerge um outro ‘leitor’ do/no Brasil: os escritores indí-
genas, bilíngües. A presença do léxico indígena na língua é significada não
mais em razão da construção de uma nacionalidade. O surgimento do léxi-
co de outras línguas indígenas na língua portuguesa é trabalhado como
necessidade simbólica de distinção das diversidades na diversidade: trata-
se de mostrar a especificidade de cada língua indígena falada em território
brasileiro pela própria unidade lingüística do país. E neste jogo entra em
questão: que línguas são representadas pelo léxico nesta escrita em língua
portuguesa?
O processo de gramatização passa então a desestabilizar o sentido
do português como unidade: a diversidade, representada pelo léxico das
diferentes línguas indígenas, reinterpreta os ‘brasileirismos’. Os sentidos
das palavras de origem Tupi incorporadas no português migram (Orlandi,
1996). Este léxico funciona aqui como lugar de indistinção entre o que é
próprio da(s) língua(s) indígena e o que é próprio da(s) língua portuguesa
do Brasil. Tanto o português, quanto o Tupi, enquanto línguas imaginári-
as, começam a ceder espaço para as línguas fluidas – a língua Sateré-Mawé,
no caso específico – ainda não cristalizadas, produzindo deslizes.
Na atual política de línguas e ensino, em que professores indígenas,
transformados em escritores de livros didáticos em português, retomam a

16
Auroux (1992) considera como instrumento lingüístico as gramáticas e dicionários. Acres-
centamos os livros didáticos de ensino de línguas como instrumentos lingüísticos próprios
deste processo de endogramatização brasileira tendo em vista que, tal como assinala o pró-
prio autor, ‘deve-se fazer começar a gramatização com o aparecimento do primeiro saber
metalingüístico de uma língua dada (por exemplo, quando se começa a citar palavras ou
expressões em um texto de uma outra língua) p. 73.

170
produção lexical indígena, os modos de dizer o mesmo começam a produ-
zir diferenças: movimentando a língua, introduzem um novo capítulo na
história da escrita no Brasil. Na escrita desta história, em que surgem ou-
tros modos de ler o arquivo, o homem pode desviar o caminho.

Alguns pressupostos: histórias e idéias


Concebemos esta fase de produção lingüística, promovida pela es-
colarização indígena, como parte do processo de endogramatização no
Brasil, caracterizada pela produção de livros didáticos por parte de um
outro falante brasileiro: os falantes nativos das línguas indígenas e do por-
tuguês do Brasil, sujeitos bilíngües.17
No momento em que a questão enunciada pelo Estado é reconhecer
e ‘preservar’ a diversidade lingüístico-cultural do país, a estabilização de
sentidos para o que é próprio das sociedades indígenas e o que é próprio
das não indígenas encontra um terreno movediço. Neste espaço de defini-
ção de limites está em jogo a relação de confronto entre as línguas indíge-
nas, já que o ensino do português funciona, imaginariamente, como lugar
estabilizado. Que língua indígena ensinar? Que concepção de língua (ma-
terna) tem determinado a ‘escolha’ da língua a ser ensinada? E, finalmente,
que língua se está ensinando e o que se está ensinando/produzindo por essa
língua?
Importante aqui pontuar que, até onde se tem acesso, as sociedades
indígenas ainda não produziram dicionários monolíngües em línguas indí-
genas. O que se tem são, ora textos com características predominantemen-
te descritivas – aqueles que descrevem principalmente a natureza (fauna e
flora) e objetos da cultura material; ora textos de natureza narrativa – que
se desdobram em dois tipos: aqueles que priorizam os temas do cotidiano e
outros que narram lendas/mitos indígenas. Observa-se ainda o fato de que,
em alguns casos, esta produção tem sido representada através de algumas
formas textuais específicas: em forma de poema e de história em quadri-
nhos. A exemplo, temos, na língua SM: Poesias Satere-Mawe (1998), or-
ganizada pelo modelo canônico da poesia, e Satere-Mawe – mowe’eg hap

17
É importante distinguir que grande parte destes ‘autores’ (os professores indígenas) perten-
cem a uma nova geração de índios que cresceu em ambiente bilíngüe. É uma geração de
jovens, que foi alfabetizada nas duas línguas – indígena/português.

171
(1997) e Satere-Mawe mowe’eg hap (1998), cartilhas que contêm histórias
em quadrinhos.
Um dos problemas que nos colocamos, em termos de políticas de
línguas, é quem define, e como se define as línguas indígenas a serem ensi-
nadas e o que ensinar em cada língua, neste novo contexto do ensino bilín-
güe. Quanto ao primeiro questionamento, este embate, em muitos casos,
tem sido regulado pelo imaginário nome do povo/nome da língua. Em rela-
ção ao povo Sateré-Mawé, em que encontramos comunidades em diferen-
tes situações sociolingüísticas,18 a prática do bilingüismo, sendo homoge-
neizada para todos, produz como efeito, ora a poda do excesso (de línguas),
ora o plantio da (língua que) falta.
Num território em que o real é interditado, o simbólico e o imaginá-
rio trabalham na definição do que é próprio do político. A ordem do dis-
curso, de que trata Foucault (1970), aqui funciona não só na relação entre
o que pode ou não ser dito, mas em que língua se pode dizer “o que pode
ou não ser dito”.
Mas é justamente pelo jogo entre um dizer e/sobre o outro, uma
língua e/sobre a outra que surgem vestígios de resistência indígena, possi-
bilidades de deslizes: as práticas de línguas (escrita, oral) vão deslocando
sentidos sobre que língua se fala, quem fala o quê. Lugares indistintos
entre uma língua e outra, um dizer e outro, vão trabalhando a constituição
de um léxico brasileiro. As línguas silenciadas adquirem voz naquilo que é
próprio da língua e do sujeito, a incompletude. Porque históricos.
Da perspectiva da Análise do discurso (AD), a língua, enquanto lu-
gar do simbólico, é o lugar, irremediavelmente, da incompletude, e é este
espaço de falta (lugar em que a língua pode “falhar”) que se abre como
possibilidade para outros dizeres a serem incorporados.19 Esses lugares são
marcados, na produção lingüística que analisaremos, pelas modalizações

18
Em algumas aldeias Sateré-Mawé a comunidade é falante da língua SM e do português, em
outras, a língua mais falada é a portuguesa, em outras o Nheengatu ‘mistura-se’ com o SM.
Caso semelhante é o dos Ticuna, do Médio e Alto Solimões. Em visita a algumas de suas
aldeias no Médio Solimões (1998), identificamos um contraste: em uma das aldeias todos
eram monolíngües em português; não havia nenhum falante da língua Ticuna, em outra rela-
tivamente muito próxima, a maioria deles só falava em Ticuna.
19
Orlandi (1996) ao formular a questão da abertura do simbólico na relação paráfrase (repeti-
ção) e polissemia (diferença), considera estes eixos como constitutivos da produção de sen-
tidos. Pensar desta posição é considerar a dimensão discursiva da língua e não a língua como
sistema abstrato. É desta tomada teórica que também entendemos a relação entre línguas. A
outros, como os WA, a língua portuguesa interessa como língua estrangeira.

172
autonímicas (Authier, 1998). Funcionamento que projeta outros dizeres,
outros modos de significar o léxico brasileiro nos textos em português.
Segundo Authier (idem), a modalização autonímica, concebida como
reflexividade metaenunciativa, concerne a um elemento do dizer uma ou-
tra maneira de dizer. Neste processo, “as formas de representação dos fa-
tos de não-coincidência enunciativa manifestam – não de modo intencio-
nal – “a negociação obrigatória de todo enunciador com o fato das
não-coincidências fundamentais que atravessam seu dizer” (negrito do au-
tor). Esta negociação, derivando de um trabalho de ‘denegação’, circuns-
creve o diferente (outra língua, outro dizer) no um, pela emergência de um
sujeito metaenunciativo, constituído, ilusoriamente, como aquele que con-
trola o seu dizer.
Analisando a presença do outro, deste campo teórico, explicitaremos
o funcionamento do léxico no processo de produção de sentidos, tendo em
vista a presença de outras línguas na língua e de outros dizeres na língua,
que configuram um espaço de não-coincidência.
Observaremos o modo de aparecimento de novos discursos sobre o
léxico, explicitando, ao mesmo tempo, os procedimentos de construção do
saber lexical no Brasil produzidos pelos viajantes e missões salesianas,
que contribuíram para a fixação de uma imagem do Tupi como língua ge-
ral.
Neste momento em que outros falantes reivindicam o reconheci-
mento de outras línguas, o jogo entre o geral que homogeneiza e o especí-
fico que separa, parece-nos um lugar privilegiado para compreendermos
de que perspectiva se organiza aquilo que estamos entendendo como novo
espaço de produção lingüística brasileira, marcado pelo aparecimento de
escritores indígenas. Interessa-nos explicitar, neste espaço de línguas em
contato, os modos de significar os termos indígenas relativamente ao por-
tuguês. Que discursos têm determinado este retorno do dizer sobre o léxi-
co, e que efeitos se produzem?
Para compreendermos os efeitos de sentido produzidos pelo/no lé-
xico, no cruzamento de discursos, analisaremos os textos que se caracteri-
zam pela presença de modos de dizer as línguas na língua: nomeando,
traduzindo. Um dos pressupostos que nos orientará é o de que “há limites
muito frágeis e nuançados entre línguas diferentes em situação de contato,
o que resulta na presença de toda forma de mistura em seus modos indis-
tintos” (Orlandi, 1998: 7).

173
Estaremos ainda considerando o léxico presente nas produções dos
professores indígenas como discurso (Maziere, Collinot, 1990, 1987), tal
como vem sendo desenvolvidos no Projeto História das Idéias Lingüísti-
cas, particularmente pelos trabalhos de Nunes (1996, 1998).
Refletiremos sobre essa produção lingüístico-pedagógica como um
acontecimento (Pêcheux) que faz parte das políticas de línguas e de ensino
(Projeto HIL), procurando identificar os modos de ressignificação do por-
tuguês e das línguas indígenas, no processo instaurado pelo confronto en-
tre a unidade e a(s) diversidade(s) lingüística brasileira, representado neste
espaço enunciativo particular.
Procuramos contribuir com o conhecimento do português do Brasil,
através da análise de processo enunciativo de designação, lugar no qual a
nomeação e a referência fazem parte de sua significação.
Preocupa-nos, nesta medida, entender a relação do sujeito com a
língua pautados em uma perspectiva discursiva de compreensão do papel
das línguas (indígenas) e da língua no processo de identificação do sujeito
como índio brasileiro. Esta tomada de posição leva em conta a necessidade
de se incluir o histórico e o político no âmbito das políticas de ensino de
línguas. Implica considerar a língua no âmbito da vida social (Projeto His-
tória das Idéias).

O processo de escolarização dos Sateré-Mawé: entre velhas


e novas instituições
Na história da educação escolar indígena, o ensino do português
começou a fazer parte de uma política explícita do governo brasileiro, legi-
timada pelo Decreto Pombalino (1757),20 que assinalou sua obrigatoriedade
nas escolas, ao mesmo tempo em que proibiu o uso da língua geral.21
Em 1852, Gonçalves Dias, convidado a fazer um levantamento so-
bre os programas educacionais desenvolvidos na província do Amazonas,
conclui que as escolas deveriam insistir no ensino da língua portuguesa na
região, tendo em vista sua fraca difusão entre os habitantes.

20
Sobre a política pombalina, ver Mariani, Langage 130, (1998).
21
Para uma compreensão do funcionamento desta designação, ver Horta & Borges, Langage
130, 1998 e Rodrigues, Línguas nº 1 (1998).

174
Os projetos de educação dos salesianos, implantados no Amazonas
a partir de 1915, e apoiados pelo Estado brasileiro, também tinham como
prerrogativa a imposição da língua portuguesa e de padrões culturais euro-
peus. A história de escolarização dos Sateré-Mawé (doravante SM) é for-
temente marcada pela presença dessa missão católica, ainda atuante na área.
Em meados da segunda metade do século, a missão evangélica No-
vas Tribos do Brasil inicia seu trabalho de evangelização em área indíge-
na, através da introdução do programa de Ensino Bilíngüe. Alguns estudos
sobre esta língua, encaminham sua instrumentalização. O SIL, através do
trabalho de seus missionários-lingüistas,22 produz descrições gramaticais
e o Dicionário Sateré-Português/Português-Sateré (1982). Este material
irá servir de base para a tradução da Bíblia em língua SM: em 1986 é
publicado o Tupana Ehay – Satere Mawe Pusupuo: o novo testamento.
Nesta mesma década, materiais lingüístico-pedagógicos produzidos
pelos salesianos também são publicados, com o apoio da Secretaria da
Educação do Estado do Amazonas: a Cartilha Sateré-Mawé e o livro As
Bonitas Histórias Sateré-Maué, ambos em versão bilíngüe.
Neste discurso que ‘promove’ o encontro de línguas, as culturas se
movimentam. Mas a direção deste percurso não é ao acaso. Na descrição
histórica sobre os Sateré-Mawé, em Bonitas Histórias, nomes e sentidos
para os deuses são enunciados. O léxico, na busca de sinonímias ou equi-
valentes, funde imagens, produzindo o efeito sincrético. Nomes são re-
ditos, em nome do ‘eterno’ retorno ao Universal.

O termo animista para a ciência da fenomenologia religiosa refere-se


aos povos que acreditam na presença (criadora-protetora e mantenedora)
do espírito (Man) em tudo o que vive, cresce e movimenta-se. Este
espírito universal é também chamado Ser Supremo que para os Sateré-
Maué tem o nome de Tupana da Tradição Tupi (Tupã-Tupana é a força
do trovão um Deus forte e poderoso), mas os nomes e atributos de
Deus mais usados nos mitos da criação e das origens da tribo são
WASSIRI-ANUMAWATO. (As Bonitas Histórias, p. 11)

Na definição do termo ‘animista’, retomadas do dizer não referem-


se ao próprio termo; este é remetido ao referente: “os povos que acredi-

22
Sobre a relação entre NTB e SIL ver Orlandi (“Os falsos da forma”, em Palavra, Fé, Poder,
1987), e Tese de Doutorado de M. C. Drumond Barros (Unicamp, 1994). Atualmente, outras
igrejas protestantes, como a Igreja Batista e a Assembléia de Deus vêm provocando divisões
entre o povo Sateré-Mawe em função das filiações religiosas. (Ver Honório, 2000)

175
tam...”. As retomadas se dão no léxico do domínio religioso, que é traduzi-
do/nomeado em LI, procedimento que trabalha o efeito de equivalência
lexical palavra/palavra: espírito (Man), ser supremo, que para os Sateré-
Maué tem o nome de Tupana da Tradição Tupi (Tupã-Tupana é a força do
trovão um Deus forte e poderoso), Tupana, Deus, Wassiri-Anumawato. O
efeito de unidade é construído pela circularidade que, ao procurar aproxi-
mar sentidos, pelos nomes, confunde palavras e coisas: xamada X, que
para SM tem o nome de Y (Y é X), mas os nomes...são Y. O científico,
representado pela ciência da fenomenologia, funciona como pretexto para
a construção de um discurso religioso fundado na unidade cristã que, ao
redizer o nome, ‘engole’ a diferença.
Esta determinação do discurso religioso na produção de um saber
lexical sobre as línguas indígenas é substituída por outra, quando então o
Estado assume oficialmente a educação escolar indígena (em 1993). Às
margens, o trabalho das missões continua.
Em 1996, o IER/AM-Instituto de Educação Rural do Amazonas23
implanta um programa específico de capacitação de professores índios di-
rigido aos SM – o Projeto Pira-Yawara –, nível de 1º grau. Como já mos-
tramos anteriormente, neste novo contexto de escolarização, os professo-
res indígenas têm produzido volumoso material lingüístico-pedagógico,
através de cursos de formação. São publicados, em 1998, pela Secretaria
da Educação do Estado, vários livros na língua Sateré-Mawé e em portu-
guês. Neste cenário, em que escritores indígenas são legitimados,24 inten-
sificam-se as produções monolíngües ao lado das versões bilíngües. Os
textos em português projetam a expansão de leitores: os próprios SM e
outros falantes do português (índios e não-índios). Neste processo, cons-
trói-se, ainda, o sujeito bilíngüe no Brasil.
O material que iremos analisar corresponde aos textos escritos em
português pelos professores indígenas e inseridos nos livros da série Seres
Vivos, organizados em três volumes – Nossas Árvores/O Guaraná, Nossas
Aves/Animais da Floresta, Nossos Peixes/Pequenos Animais –, e o livro
Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir.

23
Atualmente IERI-AM, Instituto de Educação Rural e Indígena do AM), órgão ligado à Se-
cretaria Estadual de Educação.
24
Recentemente, a UFMG inseriu na lista de livros de literatura obrigatórios para o vestibular o
livro “Shenipabu Miyui: história dos antigos” (2000), em versão bilíngüe, coordenado pelo
Professor Joaquim Mana Kaxinawá, e escrito por vários professores indígenas. Este livro foi
publicado pela Organização dos Professores Indígenas do Acre, em parceria com a Ed. UFMG.

176
Consideramos que a produção destes textos, mobilizada pela me-
mória histórica (das línguas, dos povos), reorganiza as fronteiras entre
uma língua e outra, instituindo novas relações entre povos, sujeitos, lín-
guas, enfim, diferentes modos de ler o arquivo lingüístico-cultural brasi-
leiro.
O aparecimento de outras línguas indígenas, além do Tupi, no dis-
curso de nomeação sobre as coisas do país, reorganiza as relações entre
sujeitos e línguas, representando, na perspectiva que estamos procurando
pensar a questão, uma outra fase do processo de gramatização do portu-
guês do Brasil.25
A constituição de um novo espaço de produção lingüística se mate-
rializa na produção de instrumentos lingüístico-pedagógicos, nesta fase atual
de escolarização indígena. Nesta produção, a presença do léxico indígena
(ou de origem indígena) nos textos escritos em português aponta lugares
de deslocamento de sentidos, lugares possíveis de construção de uma his-
tória do Brasil vista de outra perspectiva: a indígena. Neste percurso, abrem-
se possibilidades de historicização do índio.
Trata-se de compreender o sentido das diversidades na diversidade,
tanto em relação às línguas indígenas faladas no país – cerca de 170 –,
quanto ao modo de falar essas línguas na língua. Práticas que convocam à
(re)construção de nossa identidade lingüística, tirando a língua e nós mes-
mos do lugar.

Modos de inscrição do sujeito da nomeação


Estas condições de produção de escrita, marcam o aparecimento de
formas de nomeação que reconfiguram o espaço enunciativo26 brasileiro.
Novos percursos metaenunciativos vão emergindo: as palavras, os nomes,
os sentidos ‘já-ditos’ escorregam sobre as ‘coisas’ do Brasil. O sujeito da
enunciação, desdobrado em outros não descreve as coisas a saber; antes,
constrói imagens que se configuram como tentativa interminável de pro-
dução de coincidências entre palavras e coisas. E de que modo o faz? Tran-
sitando nas redes da memória, vai tecendo uma nova trama com o mesmo
fio, o da memória.

25
Sobre este assunto ver Orlandi e Guimarães (1998), Langages, e outros textos.
26
Sobre este conceito, ver Guimarães (1994, 1997) e Honório (2000).

177
Concebendo, como Pêcheux (1969) que o discurso é sempre rela-
ção, remetendo a outro, como diferença, observamos que, no texto de Staden
(1557), o sujeito da enunciação, ao construir seu discurso, explicita uma
não coincidência-enunciativa, ‘mostrando-nos’ a heterogeneidade que cons-
titui seu dizer. A diferença é trabalhada no interior de uma grande unidade
de sentido: a do colonizador europeu. A visibilidade das coisas é parame-
trizada pelo de fora: nomes, medidas, categorias do velho mundo desfilam
no discurso de produção de uma transferência lingüístico-cultural ampla.
No discurso do descobrimento, visões de similares aproximam as coisas
de ‘cá’ com as coisas de ‘lá’:

Avía alguns [peixes] tambem do tamanho de arenques, que tinham azas


de ambos os lados como as dos morcegos; (Staden, 1892, p. 269, grifo
nosso)
Em uma noite, quando estavamos acampados no lugar xamado Ubatuba,
apanhamos muitos d’esses peixes brati, os quaes são do tamanho dos
salmões. (1892, p. 317, grifo nosso)
O seo idolo é uma especie de cabaça, quazi do tamanho de uma medida
de meia canada: é ôca, adaptam-lhe um cabo, abrem-lhe uma fenda a
similhança de boca, e depois põem-lhe dentro pedras miudas; com o
que produzem certo ruido, quando cantam ou dansam. A este instru-
mento denominam tamaracá, e cada omem tem o seo. (Staden, 1892,
p. 345, grifo nosso)

Na construção de imagens sobre o espaço o locutor expõe ainda o


confronto entre sujeitos da nomeação. Em sua enunciação, entram em cena
dois sujeitos da nomeação: locutores indígenas e locutores europeus. Na re-
gência destas vozes, o maestro organiza os nomes dos lugares descobertos:

Estaes no porto, que os Indios xamam Xerimirin, e para que compre-


endaes melhor acrescentarei, que os seos primeiros descobridores de-
ram-lhe o nome de bahia de Santa-Catarina. (idem, p. 278)
São Vicente é uma ilha mui proxima do continente, a qual tem 2 aldei-
as; uma é pelos Portuguezes xamada São-Vicente, e pelos Indios
Orbioneme... (idem, p. 283)
Um navio francez entrou na bahia, que os Portuguezes xamam Rio de
Janeiro, e os Indios Iterrone. (idem, p. 315)
Quando xegaram a um dia de distancia do sitio, onde contavam de-
zembarcar, ocultaram-se nos bosques perto de uma ilha, a que xamam
Meienbipe, e os Portuguezes dão o nome de São-Sebastião. (idem, p.
317)

178
Desde a (des)coberta, os índios já não podem mais nomear sozi-
nhos. Diríamos que o discurso da descoberta institui um lugar a partir do
qual se pode nomear. A clareza do novo mundo parece só ser possível pelo
retorno aos nomes do mundo cristão, ou melhor, pelo retorno ao centro.27
Locutores ocidentais ‘importam’ de seu país para o Brasil os nomes já-lá:
Santa-Catarina, São-Vicente, São-Sebastião. Neste jogo paralelístico de
topônimos os santos (re)batizam os ‘lugares próprios do indígena’. A voz
do outro é falada, para, em seguida, ser apagada. Com este procedimento,
sacralizam-se os nomes, afugentando os ‘espíritos’ que obscurecem o pa-
raíso.
E de que modo os sujeitos indígenas, agora investidos de ‘responsa-
bilidade’28 do dizer, trabalham este domínio da memória? De que modo
estas vozes ecoam (ou não) neste sujeito bilíngüe, representado como pro-
fessor indígena, autor de textos?
No caso específico da designação da fauna marítima aquele que diz
‘eu’ (SM), assume a responsabilidade pela nomeação: x nós chamamos de
Y. O outro, marcado pela modalização autonímica (itálico), não tem o ‘di-
reito’ de nomear. Neste espaço de enunciação, a diferença é trabalhada ora
em relação ao não índio (‘o brasileiro’), ora em relação a outros grupos
indígenas (não Sateré-Mawé). Os nomes vão sendo enunciados: a) pelo
locutor-universal, (x xamado Y) b) pelo locutor-indígena em 3ª pessoa (para
x os SM deram o nome de Y). Neste orquestramento de vozes, o europeu
perde seu lugar de centro do dizer: já não diz quem nomeia e nem é dito
como aquele que nomeia.
A nomeação ora se universaliza, ora se particulariza, no dizer deste
novo sujeito da enunciação. A busca de palavra(s) para a ‘palavra’ e para a
‘coisa’ dá-se de retomadas, ressignificações, tensões internas. Este jogo
abre fissuras no outro e no um.
A diferença na unidade é trabalhada nesta nova discursividade não
mais pelo confronto dentro/fora do Brasil. O que está em jogo são as dife-
rentes vozes e línguas brasileiras ditas da perspectiva de dentro do país.

27
Tendo em vista o discurso das ‘des-cobertas’, Orlandi (1990) analisa que os europeus, ao nos
construírem como o seu “outro”, posicionando-se sempre como o “centro”, produzem nosso
apagamento.
28
Contrapondo-se à posição benvenistiana que concebe o sujeito como o responsável e dono
do dizer, a análise do discurso, teoria a qual nos filiamos, interpreta este lugar enunciativo
como um efeito, lugar necessário para que o sujeito falante possa se constituir como tal, e
assim, sem o saber, repetir o dito, na ilusão de ser o centro.

179
Nos enunciados marcados por procedimentos metaenunciativos de nomea-
ção, este processo se formula no jogo parafrástico entre nomes. As coisas e
os nomes das coisas em língua indígena têm neste espaço enunciativo seu
lugar garantido pelo discurso bilíngüe:

Os peixes sem escamas nós chamamos de pira sym’i ou peixes lisos.


(Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 12)
Ele recebe vários nomes, como: traíra, bongo, trangola e na nossa lín-
gua chamamos de tere’yra. (Seres vivos/Nossos Peixes, p. 20)
Eles se locomovem através de suas nadadeiras e de sua cauda que nós
sateré-mawé chamamos de huwaipype. (Seres Vivos, Nossos peixes, p.
12)

Nestas relações parafrásticas, a explicitação dos diferentes modos


de nomear a mesma ‘coisa’ substituem as diferentes vozes (de lá e de cá)
que nomeiam as mesmas coisas.
Se no discurso ocidental a relação era: uma ‘coisa’/vários sujeitos
para nomeá-la, o discurso indígena organiza uma outra relação: ‘um sujei-
to que nomeia (indígena)/’várias línguas’.
Poderíamos dizer que esta produção lingüística por parte dos pro-
fessores indígenas começa a organizar uma espécie de bilingüismo ‘inter-
no’, tecido pelas relações entre as línguas (e as vozes) do Brasil. Espaço
que projeta possibilidades de novas relações sinonímicas no português do
Brasil.
O sujeito da nomeação ganha corpo social na construção de um sa-
ber etnográfico e enciclopédico que se estrutura pelas marcas de subjetivi-
dade, configurando um lugar enunciativo diferente daquele dos viajantes e
missionários. A imagem do país se constrói pelos confrontos internos,
referenciados pelos dêiticos:

Este peixe é muito encontrado nos rios e igarapés da nossa região. Ele
recebe vários nomes: ... (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 20, grifo nosso)
Os nossos rios possuem vários tipos de peixes: peixes com escamas e
peixes sem escamas (Seres Vivos/Nossos Peixes, p. 12, grifo nosso).

A questão do domínio territorial investe-se aqui de um outro senti-


do, diferentemente daquele circunscrito pela cenografia do relato. Em
Staden, a posse de terra era enunciada do interior do discurso de coloniza-
dor. Desta perspectiva, o sujeito da enunciação emergia em um espaço

180
‘preciso’: a localização do sujeito se construía por parâmetros ocidentais:
unidades de medidas, nomes universais: estavamos a quazi 23 milhas de
uma ilha xamada São-Vicente, e o paiz abitado pertencia ao rei de Portu-
gal (Staden, 1889, p. 276). As ‘novas descobertas’ (da ciência iluminista)
favoreciam a ‘conquista’.
Nos textos dos SM a cena muda de lugar: é enunciada a posse indí-
gena, da perspectiva indígena. Nesta discursividade, o conhecimento dos
nomes ‘santos’ dado aos lugares vai sendo substituído pelo conhecimento
da geografia física específica; designações que particularizam os lugares
da região relativamente ao universo espacial indígena (igarapés, várzea,
etc) vão significando diferentemente a terra (re)descoberta. As escalas dos
viajantes (léguas, medidas) e a relação terra firme/água (mar/rio), come-
çam a ser substituídas por relações terrestres internas, expandindo os limi-
tes da terra ‘firme’ em terrenos movediços.

O papagaio se reproduz através de ovos, nos buracos das árvores que


ficam às margens dos rios. (Seres Vivos – Nossa Aves, p. 24)
O tucano é encontrado nas matas altas e baixas. (Seres Vivos – Nossas
Aves, p. 22)
E na nossa língua chamamos tere’yra. O bongo se reproduz através de
ovas. Eles costumam desovar nas cabeceiras dos igarapés. (Seres Vi-
vos/Nossos Peixes, p. 20)

Procedimentos de referencialização espacial explicitam-se nas mar-


cas de subjetividade que configuram a instância da enunciação. Nos enun-
ciados que seguem, o ‘aqui’ configura-se como uma relação entre as diver-
sidades na diversidade. Ou seja, ao dizer ‘aqui’, o sujeito da enunciação
está se posicionando em relação a uma divisão dentro da própria unidade
territorial dos povos Sateré-Mawé. Desta posição, o confronto interno ter-
ra indígena/terra não-indígena, desloca-se para um outro confronto inter-
no, circunscrito do interior da área SM: a área do Marau e a do Andirá.29
Fala-se de uma outra unidade em divisão.

Aqui no rio Marau, para construção de casas, nós Satere-Mawe, toma-


mos as seguintes providências...(Os Sateré-Mawé e a Arte de Cons-
truir, p. 26, grifo nosso).

29
Os SM organizam-se socialmente em duas grandes áreas, delimitadas pelos rios que lhes dão
nome: Área do Marau e Área do Andirá. Estas duas áreas em conjunto representam o territó-
rio SM demarcado, diga-se, oficializado pela FUNAI como área Sateré-Mawé.

181
Este peixe é chamado de acará-pucu. Nós pegamos muito cará-pucu
com malhadeira durante à noite e nesse tempo de vazante dá muito
aqui no rio Marau. (Seres Vivos – Nosso Peixes, p. 28)

Organizando os domínios pela enunciação: o natural e o cul-


tural
Refletindo sobre os lugares enunciativos em relação aos domínios
lexicais, poderíamos sintetizar as regularidades encontradas nos textos SM
da seguinte forma: diríamos que a fauna e a flora são convocadas à nome-
ação, enquanto que a cultura material sucumbe à tradução.30
Como já vimos nos enunciados das análises anteriores, a nomeação
de alguns elementos da fauna marítima, tematizada em um dos livros (Se-
res Vivos – Nossos peixes) funciona pela figura do locutor-indígena (em 1ª
pessoa). Já em relação aos itens lexicais concernentes à flora, embora não
tematizados como título, são recortados no fio do discurso pela voz do
locutor universal:

A flecha nós fazemos de uma planta chamada flechal. (A Arte de cons-


truir, ‘A construção de Arco’, p. 25)
A peneira é feita de um vegetal chamado waruma (arumã). (A Arte de
construir, ‘A construção de Arco’, p. 9)

Quanto aos procedimentos de tradução, que organizam os sentidos


do mundo cultural, encontramos funcionamentos que configuram imagens
diferenciadas de tradutor, construindo leitores também diferenciados: a)
aquele que mobiliza a tradução organizando, no fio discursivo, uma espé-
cie de dicionário bilíngüe palavra/palavra (LI/LP); b) aquele que traduz
um termo em LP a partir de um tradutor virtual que ‘explica’ o termo pela
palavra equivalente em LI. Neste mecanismo, mobilizam-se expressões do
tipo ou seja. Estes discursos marcam a presença de leitores ‘do léxico’ para
quem não basta saber o português. Em alguns casos (5 e 6) é preciso saber
um certo tipo de português (o ‘brasileiro’) e uma certa língua indígena.

30
Nos estudos que estamos realizandos dos relatos de Staden, notamos uma outra regularida-
de, presente na reedição de 1930: os locutores indígenas são postos em posição daquele que
nomeia o domínio do natural (fauna, flora) somente quando a retomada do dizer é legitima-
da da perspectiva do discurso testemunhal-sensorial: Há também umas raízes a que chamam
Jettiki, que têm bom gosto. (p. 176).

182
(1) Pensando no futuro de seus filhos é recomendado que as meninas
aprendam o preparo dos fios de algodão para a fabricação de yni (re-
des). Tipos de redes: yni tig (redes pintadas), sahu ape’i (casco de tatu)
(Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir, p. 8)
(2) Para se tecer o panaku é preciso descascar o cipó titica. Parte-se
com a ajuda do kyse (faca) em três partes, e só se aproveita as costas do
cipó, que é a parte lisa (idem, p. 13).
(3) O tronco é partido bem ao meio com o ywyhap (machado) (p. 32).
(4) Para fazer yara (cascos) e apukuita (remos), temos que ter mate-
riais apropriados (idem, p. 32).
(5) Serve de apoio para colocar a cuia onde é ralado o guaraná, ou seja,
o sapo (idem, p. 11).
(6) Para construção de casco usamos as seguintes ferramentas: ywyhap,
kyse’yp (terçado)...(idem, p. 32)

Um outro tipo tradutor também emerge nestes textos: aquele que


organiza os sentidos através de relações de similitude. Mobilizam-se ex-
pressões espécie de, tipo de, ‘aproximando’ palavras desconhecidas com
sentidos conhecidos. Neste caso, o sentido não se esgota na palavra, ou
melhor, a estabilidade designativa se constrói (ilusoriamente) pela explica-
ção dos termos. Aqui, o outro para quem se traduz é aquele que desconhe-
ce tanto o português do Brasil (‘brasileirismo’) quanto a língua indígena.
Este jogo parafrástico explicita um processo de endogramatização afetado
pela memória ocidental. Fala-se de dentro para fora, em que o fora, nesta
conjuntura, configura um espaço enunciativo marcado pelas relações in-
ternas.

A gy’i (taquara), que é um outro tipo de bico de flecha, é feito de taboca.


(idem, p. 23)
Panaku (jamaxim) – É uma espécie de bolsa onde os antigos Sateré-
Mawé carregavam suas bagagens. Algumas pessoas ainda usam o
panaku hoje em dia. (idem, p. 13)
Patrona (poko) – Patrona ou poko é uma espécie de bolsa muito usada
pelo povo Sateré-Mawé para guardar cartucho, esqueiro, tabaco, fós-
foro, balas de chumbo, um pouco de farinha e outros produtos. (idem,
p. 14)

Contrapondo ainda estes procedimentos de tradução àqueles produ-


zidos no contexto das missões salesianas, observamos um mecanismo se-

183
melhante aos descritos acima. A retomada do dizer, operando aqui pela
descrição, satura a palavra. Este funcionamento se dá tanto nos enunciados
narrativos quanto descritivos. Na passagem da narração oral para a escrita
produz-se um gesto de interpretação em que a tradução marca-se por uma
outra estrutura lingüística, os sintagmas nominais.

Você o guaraná, vai estar presente quando tomar sapo (guaraná ralado
na água) (As Bonitas Histórias, p. 40, texto narrativo, negrito do au-
tor).
Quem te conhecer irá fazê-lo na cuia em cima do patavi (suporte em
fibras vegetais da cuia do guaraná) (As Bonitas Histórias, texto narra-
do pelos SM, p. 41, negrito do autor).
No poder divinatório os pajés consomem bebidas como o caxiri (man-
dioca fermentada com mistura de outras ervas), tarubá (bebida fermen-
tada do mato) e guaraná (As Bonitas Histórias, texto narrado pelos
SM, p. 14, negrito do autor).

A tradução, produzida da perspectiva do discurso religioso, trabalha


a ‘unificação’ dos leitores, transformando a palavra em ‘palavras’: sintagmas
nominais descritivos. Aqui, a garantia da unidade não está nas mãos do
Estado. Está nas mãos de ‘Deus’, pai de todos. A fala do padre salesiano,
autor do livro, é ilustrativa:

Este trabalho foi motivado pelo grande respeito e amor aos patrimôni-
os humano e cultural da humanidade, ameaçados de extinção não só
física-cultural mas também pelo esquecimento (Apresentação, As Bo-
nitas Histórias, Pe. Henrique Uggé).
Que o índio, o caboclo e o branco descubram novos laços de encontro
através do intercâmbio cultural. E que o único Deus e Pai de todos os
povos e nações seja a fonte de união e paz universal (Apresentação, As
Bonitas Histórias, Pe. Henrique Uggé).

Relação entre línguas: confrontos


A imagem do Tupi como língua imaginária, cristalizada, sem sujei-
ção à história, começa a ser desconstruída pelos novos escritos. A presença
do léxico indígena nos textos dos professores indígenas produz como efei-
to um espaço indistinto entre o que é e o que não é Tupi. A diferença é
trabalhada, tanto em relação ao português, quanto em relação às línguas de

184
origem Tupi. A língua Sateré-Mawé, classificada como pertencente às lín-
guas da família Tupi-Guarani (Rodrigues, 1998), (con)funde-se com o
Nheengatu (Tupi Moderno) nesta relação de pertencimento lexical.
Mais do que responder à questão este léxico representa qual lín-
gua?, interessa-nos explicitar o funcionamento deste léxico na língua, já
que, do nosso ponto de vista, as palavras de todos e de todas as línguas
transitam na língua pelas imagens que se constroem delas, significando a
partir de certas condições de produção. Léxico Tupi, Sateré, Português?
Bem, essa verdade ‘original’ já não mais nos pertence. Falamos por ima-
gens, usamos e mencionamos palavras outras determinados por certas re-
presentações de língua. Do ponto de vista discursivo, que é o nosso, essas
representações imaginárias da(s) língua(s) que falam no sujeito são cons-
truídas a partir de um conjunto de discursos possíveis definidos a partir de
certas condições de produção. (Pêcheux, 1993 [1969]).
Analisando a produção SM deste lugar argumentativo, entendemos
que o sentido do léxico é produzido não pela literalidade, mas pelas rela-
ções entre o ‘inventário’ lexical de cada língua e as representações imagi-
nárias construídas pelos discursos postos em funcionamento.
A presença do léxico de origem Tupi, ora funciona como memória
de língua indígena ora como memória de língua portuguesa. Os títulos in-
seridos no livro Os Sateré-Mawé e a Arte de Construir, apresentados em
versão ‘bilíngüe’, materializam o confronto entre memórias de línguas.
Neste espaço de relação, funciona mais o discurso imaginário do que o
empírico. As palavras transitam de uma língua a outra, e, neste trânsito,
deslocam-se sentidos. Analisemos alguns destes enunciados que represen-
tam os títulos:

1) Peneira – (panane)
2) Paneiro – (yt’a)
3) Panaku – (Jamaxim)

Tal como os títulos estão apresentados no Sumário e no início de


cada texto, o primeiro item estaria representando as palavras em português
e o segundo seu equivalente em língua indígena. Mas como se estaria pro-
duzindo a significação dessa(s) língua(s), como processo de fixação das
palavras nas línguas?
Considerando o modo de organização dos títulos como gesto de lei-
tura que fixa o ‘diferente’ como se fosse o ‘mesmo’, o que funciona, em

185
termos de sentido, é a relação LP/LI como fato discursivo, e não como
dado empírico. Trava-se um confronto entre memórias em que vestígios de
escrita indígena se manifestam: no item (3), funciona a norma da língua
indígena; substitui-se o c pelo k. No Aurélio Sec. XXI este item, designado
como ‘brasileirismo’ aparece lexicalizado como panacum [var. de panacu].
Em relação a outra palavra do par (jamaxim), se no texto SM ela
funciona como LI, configurando a relação LP(panaku)/LI(jamaxim), no
Dicionário do Tupi Moderno31 dialeto Tembé-tenê-téhar, o sentido destas
palavras reorganiza-se pela relação sinonímica: tem-se a diversidade (de
formas) na unidade da língua indígena. Diferentemente do Aurélio, em que
o termo aparece como ‘brasileirismo’, importa aqui distinguir o Tupi ‘ge-
ral’, do ‘específico’, falado em uma certa região. A língua, neste caso, é a
língua indígena. O conflito é no interior da língua indígena.

JAMAXIM: manaku – panacu (Restivo)


Panaku ~ panaku ~ panakú (Restivo)
Zamati (idem): zamatzi

Analisando um outro conjunto de títulos, novas leituras vão se dan-


do: que imagens essas seqüências produzem sobre as línguas? Qual é a
língua?

1) Banco – Amyap
2) Akari bodó – wakari
3) Tipiti – Mohoro

A evidência de que se sabe que língua se fala, sendo trabalhada da


perspectiva indígena, estaria sendo produzida pelo apagamento do sentido
de que fala-se a mesma língua mas fala-se diferente. Pensando na organi-
zação textual, tal como se apresenta pelos títulos, de que lugar enunciativo
akari bodó estaria sendo significado como termo da língua portuguesa?
Nesta nova conjuntura de escolarização indígena, marcada pela
oficialização do ensino bilíngüe, a interpretação dos itens lexicais estaria
sendo determinada pelo imaginário falou língua indígena é índio (orien-
tando a interpretação LP/LSM). Discurso que predomina sobre um outro:
um povo/uma língua (que orientaria a leitura LP/LI). Neste tipo de funcio-

31
Dicionário do Tupi Moderno: dialeto Tembé-tenê-téhar do alto do rio Guarupi, de Max H.
Boudin, 1978.

186
namento, está em jogo explicitar que o índio sabe uma língua indígena
(nomear em léxico indígena, traduzir termos indígenas para o português).
E aqui não interessa colocar em questão se ele sabe em que língua ele fala
e as línguas que falam nesta língua. O saber sobre está apenas em constru-
ção.
Na discursividade indígena os diferentes nomes disponíveis circu-
lam em terreno movediço. Nesta divisão, o particular, transitando na uni-
dade, redefine o próprio na relação com as outras línguas brasileiras e com
o outro brasileiro (outros índios e não-índios).
Entre sons, letras e palavras, presentes nos diferentes instrumentos
lingüísticos, gestos de interpretação se produzem. Estes gestos explicitam
menos a evidência do Tupi que empiricamente se fala (Língua Geral ou
línguas da família Tupi, em que a Sateré-Mawé é uma delas) e mais os
efeitos produzidos nesta nova ordem32 das línguas. No discurso da ciência,
baseado em vários critérios taxionômicos, o mesmo movimento que pro-
duz a divisão das línguas, produz sua unificação. É assim que as línguas,
aprisionadas em seus nomes e classificações, são menos ouvidas e mais
julgadas. O surgimento de novos fatos lingüísticos são lidos, muitas vezes,
por velhos paradigmas: classificações são fixadas pela evidência da trans-
parência dos conceitos.
O que mobiliza a classificação? O que permite as várias tornarem-
se uma? Se considerarmos que o real das línguas está no nível do
inalcançável, o que está em jogo nesta determinação são as relações de
poder, o próprio domínio do político, em que a ciência e a escola tem seu
lugar de responsabilidade. Nesse campo, o imaginário é mais real do que
se possa imaginar. Línguas, dialetos, brasileirismos; que falem então ou-
tros olhares brasileiros sobre os fatos.

Conclusão
A análise dos instrumentos lingüístico-pedagógicos produzidos pe-
los professores indígenas Sateré-Mawé permitiu-nos identificar dois mo-
dos de funcionamento discursivo relativamente à construção de um saber
sobre o léxico no Brasil: o de nomeação e o de tradução, constituindo-se a
partir de novos lugares de interpretação.

32
Sobre ordem e organização ver Orlandi (1996).

187
Os processos metaenunciativos, instaurados no espaço de confronto
entre sujeitos e entre línguas, começam a orientar uma outra leitura do
léxico brasileiro, da perspectiva da(s) diversidade(s).
Do ponto de vista da História das Idéias, este acontecimento expli-
cita uma nova fase da endogramatização brasileira, marcada pelo apareci-
mento de outros sujeitos da história, organizando a unidade na dispersão
necessária que o constitui (sujeito/língua). O processo de formação dos
índios como ‘brasileiros’ e como sujeitos da escrita cria condições para
novas leituras do/no Brasil, mobilizando a própria escrita da história do
país.
Esta prática institucionalizada produz outro efeito: projetam-se no-
vos leitores. Novas relações sinonímicas vão desestabilizando os sentidos
dicionarizados.
Neste espaço de significação, as delimitações imaginárias ganham
outros contornos, pelos modos de circulação das palavras no espaço enun-
ciativo. Ressignifica-se a língua pela relação com as línguas, no espaço
multilíngüe brasileiro. O sentido da diversidade também desliza: na con-
juntura atual, marcada pela forte presença de movimentos indígenas, que
coloca os povos indígenas em novos confrontos, a diversidade não é mais
concebida como um bloco homogêneo; apresenta-se como diversidades. O
Estado, por seu turno, tem procurado controlar esse real transformando o
multilíngüe em vários blocos bilíngües, determinados por um lugar co-
mum: a língua portuguesa.
Esta prática nos leva a pensar na emergência de se considerar, nas
políticas de línguas e ensino, outros leitores ‘nossos’ do arquivo brasileiro,
postos em cena nesta nova conjuntura de escolarização brasileira.

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189
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190
PALAVRAS DE ORIGEM INDIANA NO LÉXICO DA LÍNGUA
PORTUGUESA – CATEGORIAS TOPOLÓGICAS DOS PROCESSOS
DE EMPRÉSTIMO VOCABULAR

Mário Ferreira
Universidade de São Paulo (USP)

Não obstante numeroso e diversificado, o rol de palavras indianas


incorporadas ao léxico da língua portuguesa constitui, no domínio dos es-
tudos lingüísticos, objeto de investigação ainda pouco explorado, mormente
no que respeita à identificação dos mecanismos semânticos de empréstimo
vernacular. Com efeito, embora já mapeado (sobretudo, nas obras de Dal-
gado [1919/1921] e Nimer [1943]), o léxico português oriundo de línguas
indianas não tem sido estudado na perspectiva metodológica – potencial-
mente produtiva – de um confronto dinâmico de línguas em contato, a qual
supera, neste sentido, a mera identificação das bases etimológicas no âm-
bito das línguas confrontadas e estipula, como foco de análise, o estudo de
interseções nem sempre contíguas ou simétricas entre visões de mundo e
os sistemas de designação que lhes correspondem.
O presente artigo, adotada a perspectiva de método referida, tem
por objetivo estipular três categorias tipológicas, relativas ao processo de
incorporação, pela língua portuguesa, de bases léxicas indianas – a saber,
as categorias de reiteração, reconfiguração e dispersão semântica, aqui
entendidas como graus progressivos de maior ou menor convergência inte-
ridiomática. As palavras estudadas pertencem, sem exceção, a obras de
autores portugueses redigidas nos séculos XVI e XVII.1

1. É quantitativamente numeroso o rol de palavras do português que de-


rivam de línguas indianas. No Glossário luso-asiático, de Sebastião

1
Não obstante tal recorte, ver, adiante, a nota 5.

191
Rodolfo Dalgado (1919/1921) – obra que constitui trabalho de refe-
rência fundamental –, contam-se, no universo de 5640 vocábulos
elencados, pelo menos 2150 palavras cujo étimo deriva de idiomas
indianos.2 São múltiplos os campos semânticos configurados pelos
vocábulos em estudo, abrangendo eles domínios diversos, como os do
mundo material, os das instituições sociais e os dos conceitos éticos e
metafísicos. Como um todo, tais empréstimos vocabulares dão conta
do intenso processo de interação cultural havido entre as civilizações
em contato.

Eis uma diminuta seleção de vocábulos, referidos por alguns pou-


cos campos semânticos:

elementos do mundo vegetal: cânfora, do sânscrito [= scrto.]


karpura;3 bogari (espécie de arbusto ornamental), do scrto. mugdara,
pelo concani mogri; bangue (espécie de cânhamo de que se extrai o
haxixe), do scrto. bhangâ, “cânhamo”; copra (amêndoa de uma es-
pécie de coco oleaginoso), do scrto. kharpara, através do hindustani
khopra; angelim (espécie da família das leguminosas), do tâmil anjili;
jaca, do malaiala chakha; bétele (planta aromática da família das
piperáceas), do malaiala vettila; rota (junco-da-Índia), do malaiala
rotan;
elementos do mundo mineral: coríndon (sexquióxido de alumí-
nio), do sânscrito kuruvinda, “pedra semelhante ao rubi”, através do
tâmil kurundan;
elementos do mundo animal: cauri (pequeno molusco gastrópode),
do hindustani kauri; meru (veado), do scrto. mrga, “gazela”; mandali
(cobra venenosa), do tâmil mandali;
alimentos: açúcar, do scrto. çarkara, “grão de areia”; açúcar cândi,
do concani khadî sâkar; canja, do malaiala kanji; caril, do concani
kadhi; nele (tipo de arroz com casca), do malaiala nel;

2
Entre estes, destacam-se o hindi, o hindustani, o malaiala, o marata, o tâmil – e, sobretudo,
o sânscrito, base lexicogênica, por sua vez, dos idiomas referidos.
3
Na transcrição das palavras indianas, empregam-se caracteres redondos nos vocábulos em
itálico ou – pelo critério contrário – caracteres itálicos em vocábulos em redondo, para assi-
nalar, quando necessário, uma distinção diacrítica. Assim, em mandali, o [n] e o [d] redon-
dos marcam, respectivamente, a nasal dental cacuminal e a dental surda cacuminal, por opo-
sição à nasal dental [n] e à dental surda [d]. O acento circunflexo indica o alongamento das
vogais.

192
tecidos: cáqui, do urdu kâkî; chita, do scrto. citra, “matizado”;
objetos: palanquim, do scrto. palyanka, “assento para o corpo”;
andor, do scrto. hindola, “balanço processional”, pelo malaiala
andola; rovô (instrumento de tortura = ferro-caldo), do concani ravó;
medidas: mercar (medida de secos e molhados), do tâmil marakhâl;
aná (moeda particionária da rúpia), do hindustani ânâ; raja (moeda
do Malabar), do malaiala râja;
qualificações de casta: brâmane, do scrto. brâhmana; chátria, do
scrto. ksatriya; vaixiá, do scrto. vaiçya; sudra, do scrto. çûdra; bogar
(casta de pedreiros), do marata bogâr;
qualificações funcionais: cornaca (guia e tratador de elefantes), do
cingalês kuruneka; bico (monge budista), do scrto. bhiksu, pelo páli
bikku); painim (aguadeiro do campo), do concani pâhanî; rajava,
“bailarina”, do malaiala râchau; neiquebari (chefe de aldeia), do
scrto. nâyaka, pelo marata nâyakavâdî;
conceitos do domínio religioso: deva (divindade masculina), do
scrto. deva, “deus”, “o que brilha”; carma (a ação e sua conseqüên-
cia), do scrto. karman, “ato”; avatar (reencarnação divina), do scrto.
avatâra, “descida”; saniássi (asceta), do scrto. sannyâsin;
domínios diversos: cama, camão (aldeia), do scrto. grâma, pelo
tâmil kâman; bolca (imposto incidente sobre pérola pescada), do
tâmil valakku; bangalô, do concani bangló.

Por pequena que seja esta amostra, que não recupera decerto os cam-
pos semânticos possíveis da lista,

(...) permite ela entrever o intenso processo de interação cultural havi-


do entre as civilizações em contato. É lícito com efeito afirmar que a
riqueza das trocas interidiomáticas – desdobradas sobretudo no âmbito
da representação do mundo material – denuncia o processo de circula-
ção dos signos – das palavras e das coisas, pode-se dizê-lo –, no domí-
nio da interação entre o colonizador e o colonizado. É lícito também
afirmar que os processos de reconfiguração semântica havidos na rela-
ção entre os idiomas testemunham a incapacidade da civilização por-
tuguesa de aferir com parâmetros neutros de referência os traços sim-
bólicos das culturas do Oriente. (Ferreira [2000: 431]).

2. Toda interação interidiomática, sabe-se, desdobra-se no âmbito de com-


plexo processo de configurações semânticas, no qual exercem papel
diretivo os vetores de designação, comandados pelas coerções do uni-

193
verso material simbolizado e pelas injunções dos eixos de valores ide-
ológicos. No caso do rol em estudo, articula-se ele, de modo bastante
evidente, no espaço de interseção de dois universos díspares e assimé-
tricos, marcados pelo contraste de eixos opositivos diversos, como,
para citar apenas três, e assumindo a perspectiva portuguesa, cristia-
nismo X hinduísmo, metrópole X colônia, civilização X barbárie, ade-
mais das oposições entre os sistemas de designação inscritos nas lín-
guas em confronto. Parece correto – estabelecido tal confronto de
valores – estipular que a construção dos empréstimos vernaculares se
efetua, de acordo com uma convergência maior ou menor dos traços
semânticos das bases léxicas, no percurso língua de partida → língua
de chegada.
3. Propõe-se, nestes termos, estabelecer uma gradação tipológica das pa-
lavras em estudo, em consonância com o grau aferido de interseção
interidiomática, conforme as descrições a seguir.
3.1. Reiteração semântica. Sob tal tipo, integram-se os empréstimos
construídos em conformidade com estrita reprodução dos vínculos
entre significado e referente do vocábulo de partida, apresentando o
vocábulo vernáculo procedimentos diversos de acomodação fonéti-
ca. Enquadram-se na categoria palavras designativas de significados
ausentes do léxico português e desprovidas de vocábulo próprio cor-
respondente. No que segue, uma amostra de tais palavras, organizadas
por campos semânticos e acompanhadas das indicações etimológicas
e das abonações textuais:

elementos do mundo vegetal:


nele (arroz em casca, não polido), do malaiala nel [Ab(onação):
(1687)4 “(...) crendo que quem lhe fizer sacrifício de casca de nele marî
(nele he arroz com casca), e de azeyte de coco, fará logo acordar.” – Queiroz
(1912: 7)];
maçoi (árvore cuja casca aromática se emprega na produção de
fármacos), do malaiala masui [Ab.: (1560) “Em Amboino ha muitos
Christãos do nosso tempo, e muito maçoi, que parece canela braua.” –
Rebello (1839: 190)];

4
Os números entre parênteses indicam a data de redação (efetiva ou provável) do texto trans-
crito.

194
ola (folha de palmeira), do malaiala ola ou do tâmil olei [Ab.: (1561)
“A necessidade nos ensinou a buscar de outra parte ola, que achámos mui-
to boa, e que é uma folha como de espadana, com que nestas partes costu-
mam cobrir as casas.” – Henrique Dias, História trágico-marítima (1561:
III, 86), apud Dalgado (1921: s.v.];

elementos do mundo animal:


mandali (cobra venenosa), do tâmil mandali [Ab.: (1516) “Ha outra
sorte de cobras muyto mais peçonhentas, ha que hos Indios chamaom
mandalis; que saom tam uenenosas, que em mordendo mataom, sem ha
pesoa ha que mordem em lhes chegando poder mais falar, nem fazer geito
de morrer.” – Duarte Barbosa, Livro de relação (: 217), apud Dalgado (1921:
s.v.)];
meru (veado de grande porte), do sânscrito mrga, através do concani
merûm [Ab.: (1609) “Ha muitos merús, que são como asnos, mas tem cor-
nos, e unha fendida, como veados, cuja carne he muito boa para comer.” –
Santos (1891: I, 128)];

elementos do mundo mineral:


quiniguilão (safira de cor escura), do malaiala karin-kallu-nîlam [Ab.:
(1616) “Achase igualmente em Ceilão outra especie de safiras não tão gran-
des, a que chamão queniguilam” – Duarte Barbosa, Livro (1616: 341), apud
Dalgado (1921: s.v.)];

nomes de medidas:
mercar (moeda particionária da rúpia), do tâmil marakkâl [Ab.:
(1554) “Cada cota tem 24 mercares, medidas da terra; e d’outros mercares,
mais pequenos, 32 fazem hua cota. E manteya e azeite huum mercar tem 2
½ canadas.” – Livro dos pesos (1554: 36), apud Dalgado (1921: s. v.)];
roio, do marata kirâya (imposto anual sobre colheitas) [Ab.: (1635)
“Tomando por achaque um certo foro chamado roio, que os nossos costu-
mavam pagar ao Melique, dos palmares que tinham nas suas terras.” –
Bocarro (1876: XIII, 17)];

nomes de objetos diversos:


manchua (embarcação provida de um mastro com vela quadrada),
do tâmil mañji (ou do marata manchvâ) [Ab.: (1539) “Se embarcou logo

195
com trinta soldados no batel, e em manchuas em que os inimigos vierão.”
– Pinto (1983: cap. 40)];
pataca (faixa de seda, utilizada à volta do pescoço), do sânscrito
pattika, através do hindustani pattakâ [Ab.: (1552) “A pedraria das ore-
lhas, barrete da cabeça, pataca, cingida, e bracelletes dos braços, e pernas,
erão estas cousas de tão grande estima que não avião inueja as joyas dos
nossos.” – Barros (1982: I, v, 5)];
rabana (instrumento de percussão, provido de pequenos tímbales
de ferro), do malaiala rabâna [Ab.: (1613) “E as donzellas chamadas vajanas
são bailadeiras e cantoras de canto brando e suave que bailão e cantão com
armonia ao som de attambores ou rabanas, com que são muy apraziveis
aos malayos nobres.” – Manuel G. de Erédia, Declaraçam de Malaca (1613:
fl. 31), apud Dalgado (1921: s.v.)];
pataia (caixa de madeira, utilizada para guardar cereais diversos),
do malaiala pattâyam [Ab.: (1525) “E umas pataias, em que se recolhe
bate, que tambem são de sua alteza.” – Botelho (1868: 216)].
3.2. Reconfiguração semântica. Enquadram-se neste tipo os empréstimos
vernaculares que reiteram a relação entre referente e significante do
vocábulo de partida, conferindo-lhe, contudo, novo recorte de signifi-
cado. A reconfiguração do sentido do vocábulo de chegada resulta da
reorientação ideológica dos estímulos do contexto cultural observado,
e envolve estratégias semânticas diversas. Entre estas, destacam-se,
no percurso de construção dos empréstimos, a translação de contextos
(assim, do sagrado para o profano ou do profano para o sagrado) e a
redução ou ampliação dos campos semânticos (decorrentes, estas, da
impermeabilidade, maior ou menor, dos valores axiológicos dos idio-
mas em contato). Eis alguns exemplos:
mali (jardineiro, ortelão), do sânscrito mâlin, através do hindi mâli.
Em hindi, mâli designa o devoto (principalmente, dos cultos visnuítas)
encarregado de adornar, com flores e confeitos, seguindo procedimentos
estipulados tradicionalmente, o espaço sagrado de manifestação (avatâra)
ou de contemplação (darçana) duma dada divindade. Observa-se que, na
palavra portuguesa, se apaga a referência ao cunho ritualístico da ação do
agente, conservando-se apenas o traço “cuidado com flores num jardim”.
[Ab.: (1563) “Os que nós chamamos ortelãos, que são os que cultivão as
ortas e pomares, chamão elles malis” – Garcia da Orta, Colaçom, LIV,
apud Dalgado (1921: s.v. mali)];

196
pandito (médico). Do hindi pandit, que designa, especificamente, o
homem de casta brâmane, versado na tradição textual da seita à qual per-
tence e encarregado de difundi-la, como um mentor, aos discípulos que lhe
são confiados. O sentido da palavra portuguesa reduz a função multiforme
do pandit à de um conselheiro médico, cujos saberes são, no mais das
vezes, postos sob suspeição. [Abs.: (1663) “Ha na India alguns Bramenes
medicos, e são chamados panditos” – Godinho (1663: 25); (1673) “Fingi
pois estar doente com febre, trouxeram-me logo um pandito ou medico
gentio, que sem custo achou o meu pulso alterado, e tomando como verda-
deira a febre que eu fingira, me mandou sangrar” – Dellon, Narração da
inquisição (1673: 129), apud Dalgado (1921: s. v.)];
andor. Do sânscrito hindola, “balança ou liteira ornados, em que se
carregam no crepúsculo imagens de Krsna, por ocasião do Festival do Ba-
lanço, no mês çravana [= estação das chuvas]” (cf. Monier-Williams [1899:
s.v. hindola]), através do malaiala andola, “base com que se conduzem
imagens de divindades (sobretudo, Krsna e Râma)”. Observa-se que a pa-
lavra portuguesa (na medida em que designa o palanquim em que se con-
duzem imagens de santo) incorpora os traços semânticos da forma e da
função do objeto indiano, o qual se translada para o universo das práticas
cristãs, reconfigurando-se o contexto de manifestação da sacralidade (com
efeito, hindola é transporte de divindades afetas a ritos de fertilização, re-
alizados para benefício das terras e das mulheres, e estranhos, por conse-
guinte, aos sacramentos cristãos); assinale-se também que a homologação,
válida na língua portuguesa, mas não no malaiala, entre andor = “base para
conduzir dignatários”, constitui processo de apagamento do valor semânti-
co básico do vocábulo indiano;
canja. Do malaiala kañji, “sopa de arroz”. Reconfiguração por acrés-
cimo: a palavra portuguesa conserva os traços “caldo quente + arroz”, es-
pecíficos da culinária predominantemente vegetariana do Malabar, com a
junção do traço “carne de galinha”, próprio da culinária onívora portugue-
sa;
neiquebari (chefe de aldeia, arrecadador de impostos). Do sânscrito
nâyaka, “chefe de aldeia, encarregado da posse do bastão (danda) da or-
dem”, pelo marata nâyakavâdi. Exemplo de apagamento de traços semân-
ticos (no caso, referentes à função do brâmane, regente de aldeia, que re-
presenta a ordem, simbolizada pela posse do bastão da lei) e de fixação
redutiva de sentido (por meio da qual o chefe de aldeia é assemelhado a um
arrecadador de impostos). [Ab.: (1553) “E o modo entre si de se partir este

197
foro, he que os neiquebaires cabeceiras de aldeia que vem da linhagem dos
mais principaes daquella pouoação, fazem cada anno lançamento por todolos
moradores” – Barros (1982: II, v, 1)].

3.3. Dispersão semântica. Classificam-se aqui, por fim, os empréstimos


em que a reconfiguração semântica, apontada em 3.2., reordena o si-
gnificado do vocábulo, para além do campo de sentido do signo de
partida. Trata-se de palavras vinculadas amiúde ao campo da ética e
da religião, nas quais, de modo claro, se revelam as dificuldades de
interação entre as culturas em contato. Exemplos:

ramerrão (ruído monótono e continuado); ramerrameiro (retrógra-


do; oposto ao progresso). Da expressão sânscrita râma râma, “Ó Râma! Ó
Râma!”, invocação ao protagonista do épico Râmâyâna, celebrado como
avatara de Visnu, utilizada, por toda a Índia, como forma cortês de sauda-
ção, através da fórmula pan-indiana Râm Râm. Processo evidente de dis-
persão semântica, marcado pelo apagamento, no substantivo vernáculo, do
conteúdo devocional da expressão indiana e pela projeção, no adjetivo, do
traço de “contrário ao progresso”, como característica daquele que, ao con-
trário do falante português, emprega a fórmula de cortesia;
saniassi (asceta). Do sânscrito samnyâsin, “aquele que renuncia ao
mundo”, adjetivo que designa o homem, devoto ou não, e não necessaria-
mente pertencente à casta dos brâmanes, que renuncia aos vínculos de per-
tença à sociedade constituída, passando a viver de modo errante, em busca
de saberes diversos. O estado de samnyâsin representa um estágio de vida
(a saber, o quarto, abraçado por muitos indianos, sobretudo após a maturida-
de) e não consiste em escolha exclusiva de uma ordem religiosa, entendida
esta no sentido de organização dogmática e institucional. A imprecisão na
definição do termo, conforme se pode observar nos textos portugueses,
denuncia a ausência de quadro referencial adequado para a compreensão
do significado do termo indiano. [Ab.: (1608) “Na outra casa mora o padre
Roberto Nobili (...) o procedimento seu he (quanto no exterior se pode
compadecer com nossa santa religiam) ao modo dos sacerdotes daquela
gente, que elles tem por santos, e a que chamam gorús, que he o mesmo
que mestres e saniassa, que he o mesmo que homens santos e recolhidos.”
– Fernão Guerreiro, Relaçam Annual (1608: 84), apud Dalgado (1921: s.v.);
(1687) “Fazem cortesia aos seus mestres espirituaes, e aos seus saniazos,
que neste Industan são seus religiosos.” – Queiroz (1912: 62)];

198
paracxati (mulher suprema). Do sânscrito paraçakti, força material
feminina – complementar de purusa, o princípio masculino puro, não con-
dicionado –, responsável pelo desdobramento das potencialidades do mun-
do manifesto. Na abonação abaixo, como na de saniassi, nota-se a impro-
priedade do recorte do vocábulo, decorrente da assimilação paraçakti =
mulher, com o que o conceito indiano, metafisicamente complexo, fica
privado de seu sentido nuclear. [Ab.: (1687) “Dizem em seus Vedaos, que
ouue hua mulher chamada paracxati, que vai excelentissima, e superior
potencia, a qual teue três filhos.” – Queiroz (1912: 61)];
rocossa (demônio). Do sânscrito râksasa, nome de uma subclasse
de divindades noturnas, que se ocupam com transtornar a realização de
ritos, assediar seres humanos e perambular em cemitérios. Nas abonações
do termo, constata-se a redução dispersiva da palavra indiana, transposta
em vernáculo nos moldes da demonologia cristã e, nesta perspectiva, asso-
ciada à necromancia. [Ab.: (1687) “Ali se exercitarão de tal modo na ne-
gromancia, que forão reputados por demonios, e por esta causa chamão
aquela terra Rocosabumi, que quere dizer terra habitada dos demonios.” –
Queiroz (1687: 6)].

4. Postuladas tais categorias, parece ser lícito estabelecer que o processo


de incorporação, pela língua portuguesa, nos séculos XVI e XVII, de
vocábulos de origem indiana, resulta da seleção dos estímulos semân-
ticos das palavras de partida, configurando-se os empréstimos, em graus
maior ou menor de fidelidade, de acordo com as coerções dos referen-
tes observados. Cabe, neste sentido, propor que os referentes relativos
ao universo material dos objetos, devido à sua relativa neutralidade
axiológica, exercem forte coerção de identidade sobre os vocábulos
vernáculos, ao passo que os referentes próprios do universo ideológi-
co encontram forte resistência no que respeita à sua reconstrução e
incorporação interidiomática. Pode-se, por fim, propor que o eixo rei-
teração–dispersão semântica, nos termos de classificação propostos, e
em função do índice de permeabilidade das línguas em contato, expli-
ca a desproporção, no rol de palavras portuguesas em estudo, dos vo-
cábulos referentes aos campos das coisas e seres (bastante numero-
sos), relativamente àqueles próprios do domínio dos valores (escassos
ou quase ausentes).5

5
A tipologia proposta neste escrito refere-se, como se assinalou, ao processo de incorporação
vernacular havido, na língua portuguesa, nos séculos XVI e XVII. Diversa é a tipologia de

199
Referências bibliográficas
BARROS, João de. Décadas. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1982.
BOCARRO, António. Década 13 da História da Índia. Lisboa: Academia Real das
Sciencias, 1876.
BOTELHO, Simão. O tombo do Estado da Índia. Lisboa: Academia Real das Sciencias,
1868.
DALGADO, Sebastião Rodolfo. Glossário luso-asiático. Coimbra: Imprensa da Uni-
versidade, vol. I, 1919; vol. II, 1921.
FERREIRA, Mário. “Considerações sobre o léxico indiano na língua portuguesa –
Uma questão de línguas em contato”. In: Estudos lingüísticos. Assis: n. XXIX, p.
429-36, 2000.
GODINHO, Manuel. Relação do novo caminho que fez por terra e mar vindo da Índia
para Portugal no ano de 1663. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1974.
MONIER-WILLIAMS, Monier. A Sanskrit-English Dictionary. Oxford: Clarendon
Press, 1899.
NIMER, Miguel. Influências orientais na língua portuguesa. São Paulo: [edição do
autor], 1943, 2 vols.
PINTO, Fernão Mendes. Peregrinações. Lisboa: Imprensa Nacional, 1983.
QUEIROZ, Fernão de. Conquista do Ceylão. Coimbra: Imprensa da Universidade,
1912.
REBELLO, Gabriel. Informação das cousas de Maluco. Lisboa: Academia Real das
Sciencias, 1839.
SANTOS, João dos. Ethiopia oriental. Lisboa: Bibl. de Clássicos Portugueses, 1891.

empréstimos, no que respeita à incorporação de termos indianos, ocorrida a partir de 1950.


Em função, mormente, dos movimentos de contracultura da época, marcados por forte in-
corporação de conceitos e práticas orientais, a tipologia dos empréstimos inverte os padrões
aqui propostos, na medida em que predomina a reconfiguração semântica, de cunho positi-
vo, de vocábulos pertinentes ao domínio religioso. Alguns exemplos: nirvana – do scrto.
nirvâna, “extinção”, designativo, no budismo, do estado de consciência marcado pela au-
sência de conteúdos ideativos, e ressignificado como “estado beatífico de máximo gozo ou
prazer”; ioga – do scrto. yoga, designação genérica de práticas diversas, que visam à inte-
gração da matriz fenomênica no princípio incondicionado, ressignificado como “prática físi-
ca objetivando o relaxamento físico e psíquico”; guru – do scrto. guru, “mentor [religioso de
um discípulo]”, ressignificado como designação de todo e qualquer orientador; carma – do
scrto. karman, “ação ritual que causa uma reação cósmica”, ressignificado como “causa-
razão pretérita de uma situação existencial – sobretudo dramática – presente. Exemplo de
dispersão semântica: marajá – do scrto. mahârâja, “grande regente”, designação do chefe
religioso e administrativo de uma unidade política, incorporado, a partir dos anos 1980,
como designativo do funcionário público que aufere, de modo escandaloso, vencimentos
vultosos.

200
Conceitos e tecnologias

201
OS CONCEITOS DE NEOLOGIA E NEOLOGISMO SEGUNDO AS
OBRAS LEXICOGRÁFICAS, GRAMATICAIS E FILOLÓGICAS DA
LÍNGUA PORTUGUESA

Ieda Maria Alves


Universidade de São Paulo (USP)

Primeiras atestações dos termos neologia e neologismo


A respeito das primeiras atestações do termo neologismo, Giraud
(1974, p. 200) informa-nos que o termo alemão Neologismus e em seguida
o inglês neologism designaram por muito tempo uma nova doutrina, inspi-
rada sobretudo em Spinoza e propagada pelos teólogos racionais, assim
chamados por Leibniz. Segundo essa doutrina, deve-se confiar apenas na
razão e admitir nos dogmas religiosos somente o que ela reconhece como
lógico e adequado, de acordo com a nova luz (lumière nouvelle).
Machado, em seu Dicionário etimológico da língua portuguesa
(1989, vol. 4, p. 207), escreve que o termo português neologismo é atesta-
do no século XVIII, em Filinto Elísio. Cunha (1982, p. 547) data também
desse século a atestação do termo. Já neologia, segundo esse Autor, é data-
do de 1853. Em francês, néologisme nasceu no século XVIII para designar
uma afetação mundana quanto à maneira de expressão e o termo néologie,
alguns lustros depois, foi criado para designar a arte de inovar segundo o
progresso das idéias (Deroy, 1971, p. 5). Jean Giraud (op. cit, p. 200-1)
especifica os primeiros empregos de: néologue, em carta datada de 06-11-
1723, escrita por J.-B. Rousseau ao abade d’Olivet; néologique, em
Dictionnaire néologique, publicado em 1726 por Pierre-François Guyot
Desfontaines e Jean-Jacques Bel; néologisme, em L’ennuyeux persiflage
et le néologisme (Le pour et contre), vol. 6, p. 1735; neólogien, sinônimo
efêmero de néologue, em Le sage (La valise trouvée), datado de 1740 (cf.

203
também Guilbert (1977, p. 113-5). Segundo o Dictionnaire de l’Académie,
que registra néologisme e néologie na edição de 1762, “La néologie est un
art. Le néologisme est un abus” (Teppe, 1964, p. 357).

Neologia e neologismo segundo os dicionários da língua por-


tuguesa
Os conceitos de neologia e de neologismo transparecem em nossas
obras lexicográficas. Os termos não são registrados por Bluteau (1712-
28), porém um século depois já encontramos neologismo no Diccionario
da lingua portugueza (1813, vol. 2, p. 340), de Moraes Silva, que o define
como “o uso frequente de palavras novas”.
Os dois termos são também definidos pelo Grande diccionário
portuguez ou Thesouro da lingua portugueza, de Frei Domingos Vieira
(1871-4, vol. 4, p. 425): neologia – “invenção ou introducção de termos ou
locuções novas em um idioma”; neologismo – “innovação de palavras e
phrases”; assim como neologo – “o que usa com frequencia de termos
novos; o que affecta uma linguagem nova”. A introdução desse dicionário,
escrita por Adolpho Coelho, também faz menção ao fenômeno neológico:

Ao passo que as linguas perdem palavras muitas novas vão apparecendo


n’ellas. O neologismo é uma outra phase da sua metamorphose. Em
cada uma das linguas modernas há hoje milhares de palavras que em
vão se buscarão nos escriptores dos seculos precedentes. Essas pala-
vras saem ou 1) do fundo de cada lingua, isto é, são produzidas por
novas combinações de seus elementos proprios, ou 2) são tiradas já
formadas das linguas classicas ou produzidas pelas combinações
d’elementos principalmente d’essas linguas (o grego e o latim), o que
se dá principalmente na technologia scientifica, ou 3) são introduzidas
das outras linguas modernas. (Adolpho Coelho, 1871-4, vol. 1, p. XXV)

A 10a edição do dicionário de Morais Silva (1949-59, vol. 7. p. 246)


registra os termos neologia e neologismo, porém atribui-lhes uma relação
sinonímica, sem distinguir o processo do produto: neologia – “invenção,
introdução, emprego de termos novos; o mesmo que neologismo”. No ver-
bete referente a neologia é citado Mário Barreto (Novíssimos estudos, cap.
25, p. 323), que emprega o termo com o significado de “palavras novas”:
“...à espera de outras ideas novas, inventos e descobrimentos, e por conse-
guinte, de outras palavras novas ou neologias”. O termo neologismo alude

204
também ao emprego das palavras: “emprego de palavras novas ou palavras
desviadas do seu sentido natural ou do seu uso vulgar”. Outros termos da
mesma família etimológica constituem entradas no referido dicionário: de
caráter nominal (neológico, neologista, neólogo, neologófobo), verbal (neo-
logismar = “fazer neologismos”) e adverbial (neològicamente).
O Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, de Laudelino
Freire (1957, vol. 4, p. 3592), também não distingue neologia de neologis-
mo, ou seja, o processo do produto: neologia – “o mesmo que neologis-
mo”; neologismo – “palavra ou frase nova, ou palavra antiga com sentido
novo”. A distinção entre os dois termos vai transparecer na obra de Caldas
Aulete (1970, vol. 4, p. 2491): neologia – “introdução de palavras novas
ou de novas acepções, introdução de doutrinas novas numa ciência”; neo-
logismo – “palavra ou frase nova numa língua, doutrina nova”. Além dos
termos da mesma família etimológica apresentados como entradas na 10a
edição do dicionário de Morais Silva, Caldas Aulete introduz neologofobia,
que representa o “sentimento de aversão ao neologismo” e ainda neologo-
filia, a doutrina do neologófilo, ou seja, aquele “que gosta de neologis-
mos”. O Novo dicionário da língua portuguesa, de Ferreira (1986, p. 1189),
apresenta a mesma distinção: neologia – “emprego de palavras novas, ou
de novas acepções”; neologismo – “palavra, frase, ou expressão nova, ou
palavra antiga com sentido novo”. O dicionarista registra ainda, no verbete
relativo a neologismo, a acepção “nova doutrina, sobretudo em teologia”,
acepção que já transparecia no termo alemão Neologismus e no inglês
neologism.
O Dicionário Houaiss da língua portuguesa (2001, p. 2009) registra
– além de neologia, neologismo, neológico, neólogo, neologista e neolo-
gismar – o adjetivo neologizante e o verbo neologizar, sinônimo de neolo-
gismar.

Neologia e neologismo segundo as obras gramaticais e filo-


lógicas da língua portuguesa
Gramáticos e filólogos portugueses e brasileiros referem-se ao ter-
mo neologismo, opondo-o, muitas vezes, ao arcaísmo. Assim, neologismo
é o contrário de arcaísmo, pois consiste no emprego de palavras novas,
criadas pela ciência e organizações modernas, como autódromo, telégrafo,
velocímetro... (Almeida, 1952, p. 418). Para Silveira Bueno (1954, p. 248),

205
neologismos e arcaísmos resultam da necessidade de expressão dos grupos
sociais: o neologismo nasce quando se tem necessidade dele; quando a
necessidade já não existe, a unidade lexical desaparece (cf. também Albu-
querque, 1940, p. 36; R. Vasconcelos, 1900, p. 95).
A definição do termo neologismo está sempre vinculada a uma tipo-
logia, ou seja, são os tipos de formação neológica que vão determinar o
conceito desse termo. Procurando, assim, determinar o que é um neologis-
mo, vários estudiosos estabeleceram também uma tipologia neológica.
Coelho (1874, p. 50; 1881, p. 33) refere-se aos neologismos for-
mais, que começam a ser empregados em uma língua, e aos semânticos,
para os quais um significado novo é atribuído. R. Vasconcelos (op. cit., p.
85) denomina neologismo de vocábulo a introdução, no acervo lexical do
idioma, não somente de uma nova formação vernacular, mas também de
uma unidade lexical de origem estrangeira. Considera ainda o neologismo
de significação, o neologismo de caráter semântico. A esse respeito, Al-
meida (1919), que também distingue o neologismo de palavra e o neolo-
gismo de sentido, escreve:

Devemos distinguir entre o neologismo de palavra e o neologismo de


sentido. O apparecimento de uma palavra nova na vida historica da
lingua é phenomeno já estudado; estudamos agora a innovação de sen-
tido ou a addição de sentido novo em palavras já existentes, que é o
que denominaremos neologismo semantico. (Almeida, 1919, p. 261)

Horta (s.d., p. 30) divide igualmente os neologismos em formais e


semânticos (neologismos de vocábulo e neologismos de sentido ou semân-
ticos) e, quanto à origem, classifica-os em científicos (constituídos por ele-
mentos gregos ou latinos para as formações técnico-científicas), literários
(elementos novos, introduzidos na língua por via literária) e populares (cria-
dos pelo povo). Essa mesma divisão transparece em Silveira Bueno (1963,
p. 215-6), que ainda os classifica em neologismos completos, que inovam
quanto à forma e ao significado, neologismos incompletos, os que apenas
introduzem um novo significado, e neologismos estrangeiros, os proveni-
entes de um outro idioma (cf. também Silveira Bueno, 1939, p. 29-30).
Maciel (1922, p. 262-4) e Pereira (1933, p. 189), levando em conta
apenas as inovações formais, classificam os neologismos em intrínsecos
(formados no âmbito da própria língua) e extrínsecos (provenientes de um
outro sistema). Já Rodrigues Lapa (1968, p. 44), de forma análoga a Vas-
concelos e Horta, considera neológicas as criações formais e semânticas,

206
enfatizando que a língua não cria, mas sobretudo transforma, operando
com o material já disponível no sistema.
Considerando apenas a fonte dos neologismos, Albuquerque (1940,
p. 35) classifica-os em científicos ou literários (como também Carneiro
(1957, p. 15)), se formados por sábios ou literatos, e em populares – os que
contribuem preponderantemente para o aumento do acervo lexical –, quando
formados pelo povo. Estudando apenas os neologismos de cunho literário,
Pádua (1949, p. 145-55) distingue os criados pela busca do ineditismo e do
valor expressivo (estreloso, ruflante) dos provenientes da necessidade de
expressão da língua (açucenal, violinar). Coutinho (1958, p. 360) inclui
ainda a gíria entre as fontes de criação neológica. Extrapolando o âmbito
do léxico, Mattoso Câmara (1977, p. 175-6) inclui entre as inovações neo-
lógicas não apenas as lexicais, mas também as de caráter sintático.
Essas buscas de caracterização do conceito e da tipologia neológica
não chegaram, no entanto, à constituição de uma teoria. Na verdade, os
estudos sobre a neologia lexical ganharam um grande impulso graças aos
estudos efetuados, sobretudo, por lexicólogos franceses – Matoré (1952) e
Guilbert (1975) – e pelo canadense Boulanger (1979), que têm definido o
conceito de neologismo por meio de uma oposição entre aspectos formais
e semânticos. Assim, segundo Boulanger, neologismo constitui uma uni-
dade do léxico, palavra, lexia ou sintagma, cuja forma significante ou a
relação significante / significado não estava realizada no estágio imediata-
mente anterior de um determinado sistema. Neologismo constitui, assim,
uma unidade lexical de criação recente, uma acepção nova atribuída a um
elemento existente, ou então uma unidade recebida de um outro código.
De acordo com essa definição, o Autor estabelece três tipos de neologismos:
formais – criados com base na derivação, composição, formação por siglas,
redução de palavras ou ainda na criação de um radical inédito; semânticos –
resultantes de um novo significado atribuído a um significante já existente;
por empréstimo – oriundos da adoção de uma unidade lexical estrangeira.

Aceitabilidade do neologismo e conservadorismo lingüístico


Sabemos que, uma vez criada, a unidade lexical pode ou não ser
incluída no acervo lexical do idioma. O processo de difusão do neologis-
mo possui um caráter social, e vários fatores contribuem para a aceitação
ou não da nova unidade lexical. O filólogo Silva Neto (1970, p. 5), men-

207
cionando Schuchardt, lembra-nos de que em toda inovação lingüística deve-
se distinguir a criação e a coletivização, pois a “mudança depende da su-
cessão e da combinação da iniciativa individual com a aceitação coletiva”.
A integração das unidades lexicais neológicas à língua suscita uma
outra controvérsia: renovação lexical versus conservadorismo lingüístico.
Saussure, no Cours (1969, p. 108-9), caracteriza o signo linguístico
como imutável e, ao mesmo tempo, mutável. Na verdade, os dois fatos são
solidários: o signo muda porque ele se fundamenta sobre o princípio da
continuidade; desse modo, o que determina toda alteração é a persistência
da matéria antiga e, assim, a infidelidade ao passado é relativa.
A renovação neológica das línguas sempre sofreu reações puristas,
que, com base na tradição das línguas, manifestam-se contrariamente ao
emprego de neologismos ou aceitam-nos sob certas condições.
Na língua portuguesa, o emprego de neologismos tem suscitado di-
ferentes posições, ora favoráveis, ora desfavoráveis.
Alguns autores enfatizam que as inovações vocabulares freqüente-
mente resultam de uma necessidade das línguas (Oiticica, 1933, p. 20;
Barreto, 1954, p. 91). A esse respeito, lemos em Carneiro Ribeiro (1919):

Como os turbilhões concebidos por Descartes, as línguas estão em


movimento perpétuo; não param nem se fixam em sua marcha: sua lei
é a mobilidade perenne, que as faz revolutear, como as ondas do ocea-
no, agitando-as sempre lenta e surdamente, é verdade, mas de modo
fatal. (Carneiro Ribeiro, 1919, p. 221-2)

Outros as caracterizam como condenáveis, se podem ser substituí-


das por elementos já introduzidos no acervo lexical do idioma (Carreiro,
1918, p. 135; Nascentes, 1930, p. 89; Austregésilo, 1936, p. 156; Joaquim
Ribeiro,1964, p. 93).
Lemos, assim, em Mário Barreto (1914):

Admitamos as palavras novas que forem necessárias; mas condene-


mos os inventos de palavras inúteis. Não basta que os neologismos não
sejam contrários á analogia: podem ser inatacáveis no ponto de vista
gramatical, não pecar pelo lado morfológico, e, não obstante, são de
rejeitar por supérfluos totalmente. (Barreto, 1914, p. 317)

Observa-se, assim, a polarização já mencionada por Matoré (1952,


p. 88), em relação ao francês, a respeito do neologismo: ora uma criação
necessária, ora uma criação de luxo.

208
Os primeiros gramáticos da língua portuguesa pronunciaram-se de
maneira favorável ao emprego de neologismos. Fernão de Oliveira, autor
de nossa primeira gramática, editada em 1536, refere-se às dicções novas,
“aquelas que novamente ou de todo fingimos ou em parte achamos”. Cita o
latino Quintiliano, para quem achar novos vocábulos constitui um perigo,
pois, se são bons, não há louvor, porém, se não prestam, são um motivo de
escárnio. Por essa razão, as dicções novas devem ser formadas com muitos
resguardos e seu uso deve ser aprovado pelos que mais sabem (1975, p.
95-7).
Duarte N. de Leão, na Origem da lingua portugueza, cuja primeira
edição data de 1606 (1945, p. 235-6), escreve que umas inovações vocabu-
lares são voluntárias, enquanto outras são necessárias, “por a invençaõ das
cousas, a que he necessario darlhe seus vocabulos. De que temos exemplo
nos muitos que os Latinos tomaraõ dos Gregos, por as artes e disciplinas
que delles receberaõ, como se ve na medicina, que, sendo em arte, & me-
thodo pelos Gregos, & mui ignorada dos Romanos. Veo a elles & delles a
nos cõ grande enchente de vocabulos de doeças, como paralysis, erysipelas,
apoplexia, epilepsia, chiragra, podagra, arthiris, ischias, icteros /.../ &
infinito numero de vocabulos outros, que, soo de doeças particulares de
olhos, dizem que ha perto de cento”.
No Methodo grammatical para todas as lingvas (1619), de Roboredo,
lemos:

Se se imita a frase Grega discordante de outra lingva se diz Grecismo,


Hellenismo, ou Antiptosis: a qual figura alguas vezes he solecismo em
outra lingva: como na Latina. (Roboredo, 1619, p. 76-7).

Esse mesmo autor refere-se, na Porta de lingvas (1623), à organiza-


ção de um vocabulário, que na primeira parte apresentará derivados e com-
postos e, na segunda, abrangerá

as palavras raras, e Gregas já entrodozidas na lingva Latina, e as Ec-


clesiasticas, e as de Dereitos, Filosofia, e Medicina, e as barbaras, e
novas. (Roboredo, 1623, Dedicatoria)

Trabalhos gramaticais e filológicos posteriores referem-se também


ao emprego de unidades lexicais neológicas.
Em Noções de grammatica portugueza, cuja primeira edição data
de 1887, Pacheco da Silva e Lameira de Andrade aceitam as inovações

209
lexicais, considerando-as uma conseqüência das mudanças pelas quais passa
uma língua. Lemos, assim, na mencionada obra:

2. – Não bastava ao portuguez as expressões, idéas e imagens recebi-


das do latim pela tradição oral; outras idéas agitaram-se no espirito
popular, e força foi augmentar o vocabulario. O lexico está sempre em
mobilidade: ora registra palavras novas, ora apresenta-as sob novos
aspectos.
3. – Muitos são os factores neologicos, os centros formadores de pala-
vras: a politica, a moda, o quartel, as officinas, a lavoura, ... Tudo con-
corre para opulentar o vocabulario e renoval-o. “São tantos os centros
de neologismos quantos os grupos naturaes de pessoas e de ocupa-
ções.” (1887, p. 349) 1

O mesmo ponto de vista é manifestado por Said Ali (1930a, p. 298).


Souza Lima (1937, p. 277) aceita igualmente as criações lexicais, resguar-
dando-se, no entanto, o fato de que sejam adequadas às regras de formação
da língua portuguesa.
Diferentemente dessas manifestações, Julio Ribeiro, em sua Gram-
matica portugueza (1914), condena o emprego de unidades lexicais neoló-
gicas:

A mania do neologismo é das mais detestaveis. O neologismo só se


justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma desco-
berta que tambem é nova, para um novo instrumento, ou então quando
vem apadrinhado por um nome respeitado na lingua. Os neologistas
não passam de deturpadores da lingua. (Ribeiro, 1914, p. 353)2

Reação purista contra os empréstimos


A história da língua portuguesa mostra-nos que a reação contra o
emprego de neologismos tem sido dirigida mais particularmente contra os
empréstimos, as unidades lexicais importadas de outros sistemas lingüísti-
cos. Se, de um lado, sabemos que o acervo lexical do português se enrique-
ceu por meio de empréstimos íntimos – de substrato (línguas ibéricas pré-
românicas), de superstrato (elementos germânicos) e de adstrato (elementos
árabes, africanismos e tupinismos) – e culturais (sobretudo elementos do

1
Cf. Pinto (1978, p. 277-87), a respeito dos mesmos autores.
2
Cf. Leão (1961, p. 46-7), em relação ao mesmo autor.

210
provençal, do francês, do italiano e, mais contemporaneamente, do inglês),
devemos também reconhecer que os empréstimos franceses foram cultu-
ralmente muito importantes a partir do século XVIII (Mattoso Câmara,
1975, p. 198-201), como reflexo da influência que a França exercia sobre
nossos costumes, particularmente no Rio de Janeiro.
Holanda et alii (1971, p. 153), Debret (1975, p. 126) e Freyre (1977,
p. 57) relatam-nos, a esse respeito que, no início do século XIX, a rua do
Ouvidor, na referida cidade, era comumente comparada à rua Vivienne, de
Paris, por causa de seu comércio bem-sortido de artigos de procedência
francesa. Corroborando essa afirmação, encontramos em Renault (1969)
vários anúncios escritos em francês referentes a atividades (comércio,
governantas, aulas particulares) desenvolvidas no Rio de Janeiro.
Essa relevante influência francesa suscitou, como conseqüência, uma
atitude denominada purista:

A attitude hostil, e não raro exagerada, contra os vocabulos que che-


gam por via franceza deve-se á reacção purista de alguns escriptores
de fins do seculo XVIII e principios do seculo XIX, impressionados
com o gosto que se vinha tomando pelo falar do civilisado povo d’além-
Pyreneus. Termos francezes sem necessidade alguma se iam já substi-
tuindo a expressões usadas desde tempos immemoriaes. (Said Ali,
1930b, p. 120).

À guisa de exemplo, citaremos algumas vozes, portuguesas e brasi-


leiras, que se insurgem contra essa influência francesa, sobretudo nos sé-
culos XIX e XX.
Trabalhos específicos sobre os empréstimos do francês, os galicis-
mos, foram escritos: Glossario das palavras e frases da lingua franceza,
que por descuido, ignorancia, ou necessidade se tem introduzido na locu-
ção portugueza moderna; com juizo critico das que são adotaveis nela, de
Fr. Francisco de São Luiz (1827); Gallicismos, palavras e frases da lingua
franceza introduzidas por descuido, ignorancia ou necessidade na lingua
portugueza, de Norberto Silva (1877); Diccionario de gallicismos, de Carlos
Góis (1920); Gallicismos, de Laudelino Freire (1921); Galicismos léxicos
e fraseológicos, de Leonardo Pinto (1936); Galicismos, de Tenório de Al-
buquerque (1937), entre outros. Apesar da controvérsia, os autores que se
manifestaram contra os galicismos em geral aceitam uma parte deles, con-
siderada necessária para nomear novos referentes (cf. também Costa, 1908,
p. 185-9; Albuquerque, 1937, p. 22; Bouchardet, 1939, p. 82-4).

211
Nesses trabalhos, encontramos manifestações específicas sobre de-
terminadas unidades lexicais emprestadas do francês: Tullio (1874, p. 3-
16) classifica barricar como um galicismo desnecessário, aceita ascen-
dente mas rejeita ataque; Castro Lopes, autor de Neologismos indispensaveis
e barbarismos dispensaveis com um vocabulario neologico portuguez
(1909), trata como indispensáveis os empréstimos avalanche, cache-nez,
ouverture, entre outros, porém condena adresse, debutar, festival, marron;
Figueiredo (1924, p. 55) propõe ramo de flores e ramilhete em lugar do
francês bouquet; Nunes (1928, p. 7-24) rejeita destacar, destaque, gesto, o
verbo abandonar-se com o significado de “dar-se”, “entregar-se”...; Cam-
pos (1938, p. 82-4, p. 125-30; 1944, p. 61-6) mostra-se indignado com o
emprego de crèche e étape; Fernandes (1947, p. 124-32) combate alta cos-
tura, calembour, chauffeur, controle, matinée, soirée; Machado Filho (1965,
p. 65) aceita o emprego de boîte – ou a forma adaptada buate –, posto que
o português não dispõe de uma unidade lexical correspondente.
Em sua obra Os estrangeirismos (1913) assim se manifesta Cândi-
do de Figueiredo sobre os galicismos:

Há galicismos, que no decurso dos séculos têm passado para o domí-


nio da nossa língua e fazem hoje parte integrante dela; há galicismos,
que vão entrando na língua por conveniência ou necessidade
indeclinável; há galicismos, que são inúteis ou dispensáveis, por ter-
mos no erário da nossa linguagem moéda correspondente; e há tam-
bém galicismos absolutamente disparatados ou ridículos, procedentes,
quase sempre, do influxo da moda ou da sombra da ignorância. (Fi-
gueiredo, 1913, vol. 1, p. 7)

Gramáticos e outros estudiosos da língua também opinam a respeito


de galicismos desnecessários. Pereira, por exemplo (1958, p. 273-4), in-
surge-se contra o emprego de galicismos léxicos (abat-jour por quebra-
luz, sombreira ou pantalha; afixe por edital; nuança por matiz...) e de
galicismos fraseológicos (boa manhã por madrugada; feito sobre modelo
por feito conforme o modelo). O mesmo é observado em Almeida (1967, p.
463-6), que classifica tanto os galicismos léxicos (afixe em lugar de edital,
chefe-de-obra por obra-prima...) como os sintáticos (guardar o leito por
estar de cama, mais eu penso, mais me convenço por quanto mais penso,
mais me convenço...) entre os vícios de linguagem.
Sequeira (s.d., p. 10-3) considera aceitáveis as unidades lexicais estran-
geiras desde que esses elementos sejam despojados de “todo o exotismo foné-
tico”. Propõe, para isso, regras de aportuguesamento dos estrangeirismos france-

212
ses: o fonema final -e fechado passa a -a nas palavras femininas: bayonnette >
baioneta; o sufixo -ette passa a -eta... (cf. também Torrinha (1952, p. 293).
Seguindo as orientações de Gonçalves Viana, que em seu Vocabulá-
rio ortográfico acolheu apenas os estrangeirismos aportuguesados, C.
Michaëlis de Vasconcelos (1932, p. 152) condena igualmente os galicis-
mos que não são recomendados por esse lexicógrafo, pois podem ser subs-
tituídos por elementos vernáculos: português sobrescrito, entrevista, pre-
conceito, lenço de pescoço... em vez dos francesismos enveloppe,
rendez-vous, parti-pris, cache-nez.
Em relação ao inglês, a proposta de substituição de football por
ludopédio (composição com base no latim ludus, i, e pes, pedis), por
Kubitschek (1922, p. 135-9), tem bastante repercussão mas não é aceita
pelos falantes de nosso idioma, que apenas aportuguesaram essa unidade
lexical designativa do mais popular esporte brasileiro.
Alguns autores mostram-se tão indignados com o uso de estrangei-
rismos, sobretudo os de origem francesa, que apelam até para a falta de
patriotismo por parte dos divulgadores desses elementos (Vasconcellos,
1926, p. 357; Nogueira, 1934, p. 174; Vaz, 1959, p. 55). Dentro dessa at-
mosfera purista, é proposta em Portugal, em 1943, a criação de um Institu-
to da Língua Portuguesa, que, entre outras finalidades, deveria proteger a
língua portuguesa contra o uso abusivo de estrangeirismos (Boléo, 1944,
p. 1-87; Amaral, 1944, p. 59; 1950, p. 567-84).
Algumas vozes insurgem-se contra essas manifestações puristas,
como R. Vasconcelos (1900, p. 119) e Said Ali (1930ba), que assim resu-
me o longo período do purismo:

Veio porém no seculo XVIII a campanha exagerada contra o que o


idioma vinha recebendo da civilisação de França. Desorientaram-se
então os criticos sobre a noção de classicismo e deram ao vocabulo
“pureza” a estreita e absurda accepção de linguagem que se contenta e
satisfaz, durante trezentos ou quatrocentos annos consecutivos, com
elementos domesticos e vocabulario recebido dos escriptores da renas-
cença. Deu-se assalto a uns poucos de gallicismos grosseiros; mas ao
mesmo tempo outros muitos, bem necessarios, penetravam
subrepticiamente na lingua portugueza. /.../ Era assim que se provava a
pureza e a riqueza. Nem por isso vieram mais abundantes as idéas e
mais puras, nem se fez mais energica a frase, nem o estilo mais elegan-
te. Mas a lingua portugueza, apesar das extravagancias e caprichos de
alguns, e das torturas que padeceu, continuou lentamente a progredir
como dantes. (Said Ali, 1930a, p. 314-5)

213
A partir de meados do século XX, a influência francesa vai cedendo
lugar à do inglês, ocasionada, sobretudo, pelo desenvolvimento crescente
das ciências e das técnicas nos Estados Unidos da América. Com a impor-
tação de tecnologias e de produtos, termos ingleses são também importa-
dos. A reação contrária ao emprego de estrangeirismos tem-se voltado,
então, para o inglês, conforme lemos em Malanga (1969):

O tema é vasto. /.../ Assim, por uma questão de síntese e de respeito ao


amável auditório, procurarei focalizar apenas um aspecto da defesa da
língua, e justamente aquele que me parece mais importante: o abuso de
estrangeirismos, notadamente de anglicismos. /.../ A inquietação que
me torturou, por muitos anos, poderia ser resumida na seguinte frase:
Haveria em português termos equivalentes aos usados pelos publicitá-
rios brasileiros para se expressarem em relação a assuntos técnicos, ou
precisariam continuar a servir-se, por empréstimo, de vocábulos ingle-
ses. (Malanga, 1969, p. 87)

Já na década de 90, escreve José Pedro Machado, nas Notas soltas


que introduzem a obra Estrangeirismos na língua portuguesa (1994, p. 9),
que se deve combater o estrangeirismo desnecessário, quando realmente
desnecessário, “que o é quando houver no nosso léxico elemento capaz de
com exatidão designar a mesma idéia, sem o perigo de se confundir com
outro vocábulo local”. Deve-se também mencionar o Projeto de Lei 1 676,
de 1999, de autoria do deputado federal Aldo Rebelo, que, atualmente em
tramitação, “dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da lín-
gua portuguesa e dá outras providências”.
A lexicografia em língua portuguesa mostra-nos, igualmente, evi-
dências dessa reação purista.
Em uma análise que efetuamos com seis dicionários de língua edita-
dos no Brasil ou que tiveram uma edição brasileira entre 1957 e 1975 (Alves,
1984), pudemos observar que o empréstimo inglês ou francês é diferente-
mente considerado segundo o lexicógrafo. Freire (1957), Caldas Aulete
(1958) e Silveira Bueno (1972) revelam-se bastante contrários ao emprego
de unidades lexicais estrangeiras, sobretudo francesas. Alguns exemplos:
Freire propõe a substituição dos galicismos abajur por abaixa-luz, alparluz,
bandeira, guarda-luz, guarda-vista, lucivelo, lucivéu, pentalha, quebra-
luz, refletidor, sombreira ou tapa-luz; acerelado por acerado; abatis por
estacada, talas ou abatida. No Dicionário contemporâneo da língua por-
tuguesa, de Caldas Aulete, lê-se em alguns verbetes uma observação de
caráter prescritivo: debutar – “galicismo inútil”; detalhar – “galicismo

214
unanimemente repelido pelos puristas mas de grande vulgaridade na lín-
gua”; detalhe – “galicismo condenado pelos puristas mas de grande vulga-
ridade na língua”. O mesmo ocorre com O novíssimo dicionário da língua
portuguesa, de Silveira Bueno. Dentre os galicismos considerados conde-
náveis pelo Autor estão: complô, constatar, controle, descontrolado,
desilusionar, destacar, destaque, detalhar, detalhe.
De maneira contrária a esses lexicógrafos, Oliveira (1967), os auto-
res do Grande dicionário Melhoramentos (1975) e Ferreira (1975) demons-
tram uma tendência mais descritiva em relação aos elementos estrangei-
ros, sobretudo o último lexicógrafo, que em nenhum verbete referente aos
empréstimos franceses ou ingleses emprega os termos metalingüísticos
galicismo e anglicismo – em muitas obras definidos preconceituosamente
–, preferindo assinalar a origem (francesa, inglesa ou outra) das unidades
lexicais emprestadas.3
Apesar dessas manifestações puristas, pode-se afirmar que, no de-
correr do século XX, a reação contra o emprego de neologismos vai-se
tornando menos acentuada do que em épocas anteriores. Assim, tomando
como parâmetro a literatura, diz-nos Pinto (1988, p. 21) que, se os neolo-
gismos constituem um traço marcante da literatura desse século, “o que
ocorreu foi a dessacralização do vocábulo. Enquanto no século XIX os
escritores que se atreviam a inovar nesse terreno, e não detinham a autori-
dade de um Rui Barbosa, eram obrigados, como Alencar, a ‘legitimar’
suas criações mediante malabarismos gramaticais e filológicos, e a justifi-
car a necessidade de importar palavras, os escritores do século XX não se
preocupam, quer com os gramáticos, que já não os censuram, quer com o
público, que os aceita sem a menor restrição”.

Considerações finais
Concluímos este estudo, em que expusemos as concepções de
neologia e neologismo apresentadas por diferentes estudiosos da língua
portuguesa, citando as palavras do lexicólogo francês B. Quemada (1971,
p. 137-8), que nos lembra que uma língua de cultura, moderna, necessari-
amente científica e técnica, não pode ver na neologia lexical apenas um
mal inevitável. É a primeira condição a partir da qual o idioma pode per-

3
Cf. também Alves (2000).

215
manecer um instrumento de comunicação nacional, mesmo internacional,
e não ser apenas uma língua viva. Deve até considerar a criatividade lexi-
cal como parte responsável pela sua riqueza imediata, como o sinal evi-
dente de sua vitalidade. Uma língua que não conhecesse nenhuma forma
de neologia seria uma língua morta e, em suma, a história de todas as nos-
sas línguas constitui a de sua neologia.
Desse modo, podemos concluir, com Quemada, que a criação neo-
lógica é parte da história das línguas e constitui uma evidência inequívoca
de vitalidade, essencial para suprir as necessidades e as condições de co-
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221
UM POUCO DA HISTÓRIA DA ANÁLISE INFORMATIZADA DO
LÉXICO NO BRASIL

Zilda Maria Zapparoli


Universidade de São Paulo (USP)

No contexto de contínuas e aceleradas mudanças, vividas pela Era


da Informação, a absorção das novas tecnologias, como não poderia deixar
de ser, também se faz presente nas Ciências Humanas, embora mais tardia
e lentamente do que nas Ciências Exatas, exigindo do pesquisador um novo
tipo de posicionamento frente ao seu objeto de estudo.
As mais diversas áreas beneficiam-se, atualmente, dos recursos que
a Informática coloca à sua disposição. Também nos estudos da linguagem,
são indiscutíveis as vantagens da utilização do computador no armazena-
mento, processamento e recuperação quantitativa e qualitativa de informa-
ções, sobretudo em tarefas em que se manipulam grandes volumes de dados.
A pesquisa à base de textos informatizados facilita e otimiza a bus-
ca, organização e análise de dados lingüísticos, tornando, por conseguinte,
mais rápido e seguro o acesso ao material de análise. A exploração de
grandes quantidades de dados textuais em formato eletrônico (corpora ele-
trônicos) mediante programas de análise lingüística abre ilimitadas possi-
bilidades aos estudiosos da linguagem e impõe novas diretrizes ao ensino e
à pesquisa de línguas naturais nos mais diversos campos de investigação,
desde o léxico e a gramática até o processamento de língua natural e o
ensino virtual.
Apesar disso e embora cada vez mais cresça o uso do domínio da
técnica informática relacionada à análise lingüística, a aplicação de novas
tecnologias na lingüística ainda é incipiente no Brasil, sendo o tratamento
informatizado do léxico o mais privilegiado entre nós.
Para o tratamento e análise do léxico, objeto deste artigo, as tecno-
logias computacionais constituem indispensáveis recursos. Mesmo as pes-

223
quisas baseadas em corpora eletrônicos, gerados em computadores de grande
porte, os chamados mainframes, já representaram um avanço significativo
em relação ao trabalho moroso, cansativo e pouco seguro de compilação e
análise manuais de corpora.
Na década de 1970, o tratamento computacional de nossas pesqui-
sas para o doutorado – Análise do comportamento fonológico da juntura
intervocabular no português do Brasil (variante paulista): uma pesquisa
lingüística com tratamento computacional – foi desenvolvido em compu-
tadores de grande porte, o que exigiu uma equipe de profissionais da com-
putação – analistas de sistemas (para a definição do modelo lógico e fun-
cional do sistema de informação e especificação do conjunto de programas
a serem executados pela máquina), programadores (para a elaboração e
codificação de programas numa determinada linguagem), operadores (para
a operação e supervisão da máquina através de comandos ao sistema ope-
racional), perfuradores de cartões (para a transcrição dos dados ou infor-
mações para cartões perfurados a partir de planilhas ou documentos ma-
nuscritos, elaborados pelo pesquisador) –, além de estatistas (para a
definição de testes estatísticos apropriados a cada procedimento de análi-
se, a partir de programas especialmente desenvolvidos para pesquisas em
Ciências Humanas, mas não para o tratamento de línguas naturais). Acres-
cente-se que o tratamento computacional foi executado em computadores
diferentes – Borroughs B-6700, IBM/370-155 e IBM/3- modelo 10 –, por-
que em três centros de processamento de dados – Centro de Computação
Eletrônica da USP, Centro de Processamento de Dados do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares do Estado de São Paulo (IPEN) e Cen-
tro de Processamento de Dados da Pontifícia Universidade Católica de
Campinas –, em virtude do volume grande de dados para processamento
em relação à limitada cota de que o pesquisador dispunha na USP e da
necessidade de programas estatísticos adequados ao tratamento dos dados,
como o SPSS (Statistical Package for Social Sciences) e o SAS (Statistical
Analysis System).
Após mais de cinqüenta anos da invenção dos primeiros computa-
dores eletrônicos de grande porte e mais de vinte anos da criação dos
microcomputadores PC – Personal Computers –, cada vez menores e mais
potentes, o lingüista conta com programas de análise lingüística, especial-
mente desenvolvidos para o trabalho com textos, extremamente interativos
e amigáveis, e que integram recursos informáticos, matemáticos e estatís-
ticos. Com seu computador pessoal e com um programa para análise lin-

224
güística, dá conta, sozinho, do trabalho que, na era dos mainframes, exigia
uma equipe. Além disso, a utilização da técnica informática, matemática e
estatística relacionada à análise lingüística garante maior confiabilidade às
análises dos dados de suas pesquisas.
Para o manuseio de bases de dados textuais, o pesquisador tem, pois,
à sua disposição, uma variedade de programas de computador, que facili-
tam o estudo e a aplicação dos dados informatizados. Há programas dispo-
níveis que são indexadores, produzem concordâncias e servem para a bus-
ca textual – permitem a indexação das palavras de um texto, ou seja, a
identificação de sua localização no texto, a recuperação por listagens em
forma de concordâncias (o conjunto de ocorrências de cada palavra, em
ordem alfabética, com seu contexto imediato e sua localização). Possibili-
tam, também, a busca de colocados (de combinações de palavras) e de
padrões de colocados, bem como a pesquisa de grupos de palavras (com o
uso de coringas e expressões lógicas, é possível a busca de palavras que
guardam alguma relação). Os programas ainda permitem um tratamento
quantitativo dos dados e alguns, quantiqualitativo.
Ao longo dos últimos anos, vimos realizando um trabalho de levan-
tamento desses programas. Entre outros, podemos relacionar: Folio Views,
Kwic-Magic, MicroConcord, Mini-Concordancer, NoteBuilder, Stablex,
TACT, The Etnograph, Hyperbase, Varbrul, WordCruncher, WordSmith
Tools.
Alguns desses programas, relacionados a seguir, foram objeto de
palestra-demonstração por pesquisadores brasileiros na Oficina de Traba-
lho realizada no dia 25 de março de 1994, na FFLCH/USP, sob nossa coor-
denação juntamente com a da Profª Leila Barbara (PUC/SP), por recomen-
dação do Seminário sobre a Informatização de Acervos da Língua
Portuguesa, UNICAMP, coordenação de Ataliba Teixeira de Castilho, 4 e
5 de outubro de 1993:

– Folio Views (Folio Corp., Provo, Utah): Francisco da Silva Borba,


UNESP/Araraquara;
– MicroConcord (Mike Scott e Tim Johns, Oxford University Press, 1993):
Heloísa Collins, PUC/SP;
– NoteBuilder (Pro/Tem Software Inc.): Leland Emerson McCleary,
FFLCH/USP;
– Stablex (André Camlong e Thierry Beltran, Univ. de Toulouse II, ver-
são 1.0 para Macintosh, 1991): Zilda Maria Zapparoli, FFLCH/USP;

225
– TACT (John Bradley, Univ. de Toronto, Canadá): Ivone Isidoro Pinto,
UFRJ;
– The Etnograph (John Seidel, Rolf Kjolseth e Elaine Seymour, Univ. da
Califórnia, 1985): Roxane Helena Rodrigues Rojo, PUC/SP;
– Varbrul (David Sankoff e Susan Pintzuk): Ruth E. Lopes Moino, UFSC;
– WordCruncher (Electronic Text Corporation de Provo, UT): Leland
Emerson McCleary, FFLCH/USP;
– Wordlist Suite (Mike Scott, versão 1.0, 1994): Heloísa Collins, PUC/SP.

Não é objetivo deste artigo fazer uma retrospectiva sobre corpora


do português do Brasil, nem sobre pesquisas do léxico baseadas em corpus
para a geração de glossários e de dicionários de freqüência, aspectos já
contemplados no trabalho de Berber Sardinha (2000): numa retrospectiva
da Lingüística de Corpus, o Autor relaciona os principais corpora compi-
lados, ou em compilação, da língua inglesa, francesa, alemã, chinesa e
portuguesa, bem como programas de computador disponíveis para sua aná-
lise e exploração, dando relevo ao processamento da língua inglesa.
As investigações do léxico no Brasil vêm sendo especialmente agraci-
adas pelo uso dos novos recursos. Neste artigo, damos, portanto, uma aten-
ção especial a trabalhos que usam o instrumental computacional com vis-
tas a investigações do comportamento do léxico, tecendo considerações
sobre dois programas de computador para análise lingüística – WordSmith
Tools (WS Tools) e Stablex – e sobre o uso que alguns pesquisadores bra-
sileiros, pertencentes a duas instituições – PUC/SP e USP/SP –, fizeram ou
vêm deles fazendo para as análises informatizadas do léxico.
Trata-se de programas desenvolvidos especialmente para análise lin-
güística e que reúnem recursos computacionais, matemáticos e estatísticos
num só aplicativo, podendo, assim, ser manipulados pelo próprio pesqui-
sador a partir de um computador pessoal. São programas que fazem mais
do que um tratamento meramente quantitativo de textos, pois já realizam
uma análise preliminar dos dados a partir de um tratamento quantiqualita-
tivo, de forma a submeterem ao analista informações em bases seguras,
porque pautadas em procedimentos objetivos, para a sua tarefa de interpre-
tação a partir dos pressupostos teóricos adotados.
Assim sendo, esses programas respondem, de forma satisfatória, às
necessidades do pesquisador cujo objeto de trabalho é o texto, por possibi-
litarem não somente a busca, organização e quantificação, mas também a
análise de dados lingüísticos.

226
As informações apresentadas a seguir retratam as vozes dos pesqui-
sadores que serão citados, aos quais agradecemos o envio dos relatos sobre
seu conhecimento e uso de programas de análise lingüística para os estu-
dos do léxico. Em vários momentos, reproduzimos seus textos, por veicu-
larem, de forma mais fiel, os seus discursos, e, pois, o que significam suas
experiências.
O programa de análise lexical WS Tools, de autoria de Mike Scott
(Mike.Scott@liv.ac.uk), da Universidade de Liverpool, e publicado pela
Oxford University Press há cerca de sete anos, é distribuído via World Wide
Web (www.liv.ac.uk/~ms2928). Disponível para PC/Windows 3.x, 95, 98,
NT em sua terceira versão, pode ser aplicado a texto em formato ASCII e
ANSI, bem como SGML e HTML. Possui interface gráfica. A quarta ver-
são para Windows 95, 98 e NT está em andamento.
WS Tools começou a ser disponibilizado aproximadamente em 1995,
quando era composto por ferramentas separadas – Wordlist, Concord,
Keywords. Hoje, consiste num conjunto integrado de recursos para análise
lexical: três ferramentas (as três citadas, que ainda são o centro do progra-
ma) e quatro utilitários (Splitter, Text Converter, Dual Text Aligner, Viewer),
que, juntos, disponibilizam dezessete instrumentos de análise.
Segundo Berber Sardinha (2001: 17),

o programa coloca à disposição do analista uma série de recursos, os


quais, se bem usados, são extremamente úteis e poderosos na análise
de vários aspectos da linguagem. Entre esses aspectos, estão a compo-
sição lexical, a temática de textos selecionados e a organização retóri-
ca e composicional de gêneros discursivos.

Enfatiza

(...) a contribuição que as concordâncias (disponibilizadas pela ferra-


menta Concord) podem trazer para a análise da padronização, central à
Lingüística de Corpus, bem como à aplicação pedagógica da pesquisa
baseada em corpus.

Cada um dos recursos do programa é usado para tarefas específicas


de análises de textos:

– Wordlist: gera listas de palavras em ordem alfabética e em ordem de


freqüência, e listas de estatísticas dos textos (dimensões e densidade
lexical);

227
– Concord: ferramenta, por excelência, para análise lexical, cria concor-
dâncias das palavras de busca (listas de palavras em contexto), gera
listas de colocados (listas das palavras que ocorrem à esquerda e à di-
reita da palavra de busca selecionada, em ordem de freqüência), listas
de padrões de colocados (frases comuns), listas de agrupamentos lexicais,
e exibe um mapa gráfico que mostra onde a palavra ocorre no corpus;
– Keywords: lista palavras-chave de um dado texto através de compara-
ções entre listas de palavras de arquivos diferentes quanto à sua fre-
qüência relativa, procedimento que permite a caracterização de um tex-
to ou de um gênero. Exibe um mapa gráfico que mostra onde cada
palavra-chave ocorre no corpus;
– Splitter: divide grandes arquivos em diversos menores;
– Text Converter: recurso de procura e substituição, reformata um núme-
ro grande de textos; indicado, por exemplo, para a mudança de acento
de caracteres, retirada de espaços, etc., podendo, também, ser usado
para renomear arquivos;
– Dual Text Aligner: alinha dois textos, possibilitando a sua comparação
por períodos ou parágrafos;
– Viewer: exibe o texto de origem.

O programa permite a configuração para línguas diferentes, bem


como a abertura de janelas com textos de diferentes línguas, o que facilita,
por exemplo, a comparação de palavras cognatas. Conta, ainda, com menu
de ajuda, que inclui uma introdução geral ao conjunto de recursos e instru-
ções pormenorizadas com exemplos para cada um dos procedimentos do
programa.
Mike Scott lecionou no Programa de Pós-Graduação em Lingüísti-
ca Aplicada ao Ensino de Línguas (LAEL) da PUC/SP durante os anos da
década de 1980. De volta à Inglaterra, continuou mantendo vínculo com a
PUC/SP por meio do projeto DIRECT – Development of International
Research in English for Commerce and Technology, (http://lael.pucsp.br/
direct) –, criado em 1991 por convênio entre a PUC-SP/LAEL e a Univer-
sidade de Liverpool/AELSU, voltado à análise do discurso empresarial de
relevo para o Brasil, oral e escrito, em língua portuguesa e em língua ingle-
sa. Visita, com freqüência, o Brasil.
Em função disso, o programa tem uso particularmente intensivo no
LAEL, sendo seus principais disseminadores os professores Heloísa Collins,

228
Leila Barbara e Tony Berber Sardinha, que o vêm utilizando desde sua
criação, em pesquisas individuais e de equipe, com publicações nacionais
e internacionais delas decorrentes, além de trabalhos de orientação de mes-
trado, doutorado e iniciação científica.
Tony Berber Sardinha, PhD pela Universidade de Liverpool e pro-
fessor do Departamento de Lingüística da PUC/SP e do LAEL, é especia-
lista de renome em Lingüística de Corpus, usuário do programa desde o
início e seu grande divulgador junto a colegas e alunos que desenvolvem
pesquisas sob sua orientação. É com satisfação que, em seu relato, fala-nos
da sua experiência de trabalho com o autor do programa: “(...) tive a felici-
dade de trabalhar com o prof. Mike Scott tanto no Brasil quanto em Liver-
pool, na Inglaterra (durante meu PhD)”.
Berber Sardinha disponibiliza, em seu site – http://lael.pucsp.br/~tony
–, vários textos de sua autoria que tratam do WS Tools e de como ele pode
ser usado:
Trazem noções introdutórias ao programa:

– WordSmith Tools. Computers & Texts, 12: 19-21. Oxford, 1996. [tif]
– Search tools for corpus exploration. I Encontro de Estudos de Corpus.
São Paulo, USP, 1999. [pdf]
– Usando WordSmith Tools na investigação da linguagem. DIRECT
Papers 40. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSU-
University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x.
– Using KeyWords in text analysis: Practical aspects. DIRECT Papers
42. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSU-University
of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x.

Trazem noções avançadas do programa:

– O banco de palavras-chave. DIRECT Papers 39. São Paulo, LAEL-


PUC/SP / United Kingdom, AELSU-University of Liverpool, 1999,
ISSN 1413-442x.
– Um ponto de corte generalizado para listas de palavras-chave. DIRECT
Papers 41. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United Kingdom, AELSU-
University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x.
– A influência do tamanho do corpus de referência na obtenção de pala-
vras-chave. DIRECT Papers 38. São Paulo, LAEL-PUC/SP / United
Kingdom, AELSU-University of Liverpool, 1999, ISSN 1413-442x.

229
Mostram aplicações do programa:

– Semantic prosodies in English and Portuguese: a contrastive study.


Cuadernos de Filología Inglesa, 9, 1: 93-110. Spain, Murcia, 2000. [pdf]
– Word sets, keywords, and text contents – an investigation of text topic
on the computer. DELTA, São Paulo, v. 15, n. 1: 141-9, 1999. [html]
– Computador, corpus e concordância no ensino da léxico-gramática da
língua estrangeira. In: As palavras e sua companhia: o léxico na apren-
dizagem das línguas, Leffa, V, 45-72. Pelotas, RS: EDUCAT, Universi-
dade Católica de Pelotas, 2000. [pdf]

Sob a orientação de Heloísa Collins, Leila Barbara e Tony Berber


Sardinha, pós-graduandos do LAEL usaram ou vêm usando WS Tools para
o processamento dos dados de suas dissertações e teses; as já concluídas
estão disponíveis no site http://lael.pucsp.br. Relacionamos, a seguir, algu-
mas delas:
Alice Cunha de Freitas, Doutorado, América mágica, Grã-Breta-
nha real e Brasil tropical: um estudo lexical de panfletos de hotéis, 1997.
Orientadora: Heloísa Collins.
A pesquisa integra o Projeto DIRECT e situa-se no âmbito do Ensi-
no de Línguas para Fins Específicos. Tem por principal objetivo descrever
os padrões léxico-gramaticais de panfletos de hotéis produzidos no Brasil,
Estados Unidos da América e Grã-Bretanha. O corpus assim constituído
possibilitou uma análise contrastiva em função de contextos culturais dife-
rentes, bem como do inglês como língua materna ou como língua estran-
geira, a partir das informações obtidas pela aplicação dos recursos do WS
Tools – palavras-chave, concordâncias e colocações. A observação de pa-
drões léxico-gramaticais regulares e recorrentes permitiu estabelecer a con-
figuração lexical do gênero Panfletos de Hotéis, ao lado de diferenças de-
terminadas pelo fator sociocultural.
Tais Bittencourt da Rocha Bressane, Mestrado, Construção de iden-
tidade numa empresa em formação, 2000. Orientadora: Heloísa Collins.
Integrado ao Projeto DIRECT, o trabalho analisa, a partir de uma
reunião administrativa, a construção de identidade numa empresa por meio
de escolhas léxico-gramaticais. Para a atribuição de uma identidade para o
grupo e para cada participante, o programa WS Tools foi utilizado no
seccionamento topical (tópicos e subtópicos) e na busca de unidades léxi-
co-gramaticais.

230
Maria Eugênia Batista, Mestrado, E-mails na troca de informação
numa multinacional: o gênero e as escolhas léxico-gramaticais, 1998.
Orientadora: Leila Barbara.
Inserido no Projeto DIRECT, o estudo tem por objetivo a análise
dos aspectos léxico-gramaticais da linguagem veiculada em 203 mensa-
gens eletrônicas em inglês, produzidas por funcionários de uma empresa
multinacional do ramo eletroeletrônico e automação na comunicação in-
terna com seus colegas na Europa, América do Norte e América Latina.
Para a análise dos dados, adota-se a abordagem sistêmico-funcional de
Halliday e os pressupostos metodológicos da Lingüística de Corpus a par-
tir da aplicação do WS Tools. Na configuração do gênero e-mail de troca de
informação, observaram-se aspectos das modalidades da linguagem escri-
ta e falada, formal e informal.
Maria Silvia Fernandes da Silva, Mestrado, Análise lexical de fo-
lhetos de propagandas de escolas de línguas e as representações de ensi-
no, 1999. Orientadora: Leila Barbara.
Vinculado ao Projeto DIRECT, em um corpus constituído de 79 fo-
lhetos, o estudo analisa o discurso de propagandas de escolas de línguas,
com a intenção de verificar a sua visão do processo de ensino-aprendiza-
gem. As informações obtidas pela aplicação do WS Tools são analisadas
com base nos pressupostos teóricos de Halliday.
Marcia Costa Bonamin, Mestrado, Análise organizacional e léxico-
gramatical de duas seções de revistas de informática, em inglês, 1999.
Orientadora: Leila Barbara.
A partir de um corpus constituído de artigos de revistas especializa-
das da área da Informática, o trabalho descreve, analisa e interpreta pa-
drões de comunicação escrita do discurso jornalístico, com o objetivo de
levantar suas características léxico-gramaticais. Para a análise dos dados,
adota-se a abordagem sistêmico-funcional de Halliday. Os resultados da
pesquisa oferecem contribuições para o ensino do inglês para fins específi-
cos.
Maria Cecília Lopes, Mestrado, Homepages institucionais em por-
tuguês e suas versões em inglês: um estudo baseado em corpus sobre as-
pectos lexicais e discursivos, 2000. Orientador: Tony Berber Sardinha.
A pesquisa, vinculada ao Projeto DIRECT, investiga a organização
lexical do discurso de homepages institucionais em português e suas ver-
sões em inglês. Os resultados fornecidos pela aplicação do programa WS

231
Tools ao corpus de trabalho foram avaliados com base nos pressupostos
teóricos da Lingüística de Corpus e da Análise do Discurso.
Marli Aparecida da Silva Martins Beraldi, Mestrado, Uso de corpus
computadorizado na identificação de inovações lexicais na língua portu-
guesa, 2001. Orientador: Tony Berber Sardinha.
O objetivo da investigação consiste na identificação de inovações
lexicais na língua portuguesa a partir da exploração de corpus eletrônico,
composto por quatro anos de publicação do jornal Folha de São Paulo no
período de janeiro de 1994 a dezembro de 1997. Adota-se a abordagem
da Lingüística de Corpus e o programa WS Tools para o processamento
dos dados. A pesquisa, que se baseia em estudos de caso, examina o
emprego característico das inovações lexicais selecionadas e sua classi-
ficação quanto aos processos de formação de palavras. Dentre as inova-
ções estudadas, destacam-se bug do milênio, aborrescente e quarenta e
quatro palavras formadas através do sufixo –ódromo, como bumbódromo
e fumódromo.
Claudia Cecilia Blaszkowski de Jacobi, Mestrado, Lingüística de
Corpus e ensino de espanhol a brasileiros: descrição de padrões e prepa-
ração de atividades didáticas (decir/hablar; mismo; mientras/en cuanto/
aunque), 2001. Orientador: Tony Berber Sardinha.
Com base nos pressupostos da Lingüística de Corpus e através da
utilização do programa WS Tools, o trabalho descreve a preparação e utili-
zação de material didático para o ensino de espanhol a brasileiros. Estu-
dam-se os padrões de decir/hablar/falar; mesmo/mismo e mientras/en
cuanto/aunque, a partir dos quais se elaboram atividades didáticas basea-
das em concordâncias.
Venilton A. Santos, Doutorando, CNPq, A fraseologia de livros de
informática e de processamento de dados: um estudo baseado em corpus.
Orientador: Tony Berber Sardinha.
A sua pesquisa, que objetiva descrever a fraseologia de livros de
informática e de processamento de dados, insere-se num projeto mais am-
plo de estudo da organização léxico-gramatical de livros desses campos.
Alguns pesquisadores da FFLCH/USP vêm, também, fazendo uso
do WS Tools em seus estudos:
Sandra Regina Turtelli, Profª de Língua Inglesa da UNESP de Bauru
e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística
Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, sob nossa orienta-

232
ção, também vem fazendo uso do WS Tools para o tratamento computacional
dos dados de suas pesquisas.
Sandra foi aluna de Mike Scott em duas disciplinas do curso de
mestrado do LAEL, Projetos e processos em lingüística aplicada, em 1988,
e Tópicos de descrição de línguas – Análise do Discurso, em 1989, tendo,
também, assistido à palestra que ele ministrou – A text focus for corpus
analysis – nas Segundas do LAEL, em 1996.
Utilizou o programa WS Tools pela primeira vez, em 1994, na disci-
plina Metodologia de pesquisa: questões teóricas e aplicadas a três mo-
mentos do processo de pesquisa, ministrada por Heloisa Collins, LAEL.
A sua tese de doutorado, Estudo de um evento esportivo numa abor-
dagem sócio-léxico-computacional, em fase de conclusão, objetiva anali-
sar o léxico utilizado por mídias eletrônicas – duas emissoras de rádio e
duas de televisão das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro – na transmis-
são de um evento esportivo – uma partida de futebol – e a forma como
essas mídias constroem a realidade social daquele evento através do dis-
curso de seus narradores. As diretrizes teóricas e metodológicas são da
Lingüística de Corpus e da Sociologia (Berger & Luckmann).
Desenvolveu, também, o trabalho Análise lexical de textos em in-
glês da área de Arquitetura, apresentado à CPRT da UNESP em 1997.
Inserido na área de aplicação de corpora ao ensino de línguas, o estudo
apresenta insumos provenientes do uso de metodologia computadorizada
– Lingüística de Corpus – como mais um auxílio ao professor no ensino/
aprendizagem de língua estrangeira. No processamento dos dados do corpus
de estudo, composto por sete artigos científicos da área de arquitetura que
fazem parte dos Anais do Seminário Internacional Nutau/96, da FAU/USP,
utiliza o WS Tools para a geração dos seguintes produtos: estatística descriti-
va de cada texto; lista de palavras-chave (key-words) de cada texto; lista de
palavras chave-chave e concordância de palavras de busca em cada texto.
Está, ainda, em andamento, o trabalho Um estudo em textos da área
de Relações Públicas com auxílio de computador, também inserido no
âmbito da pesquisa baseada em corpus, mediante o emprego do WS Tools
para o processamento dos dados de um corpus composto por textos em
língua inglesa da área de Relações Públicas. Seu objetivo é estudar o voca-
bulário específico da área de Relações Públicas e realizar um levantamen-
to de campos lexicais e semânticos, utilizando o produto final para prepa-
ração de material didático.

233
Stella Esther Ortweiler Tagnin, Profª Associada do Departamento
de Letras Modernas da FFLCH/USP, área de Língua Inglesa e Literaturas
Inglesa e Norte-Americana, tomou conhecimento do WS Tools no congres-
so Practical Applications in Language Corpora – PALC ‘99, Polônia. Vem
fazendo dele uso recente em pesquisas com alunos do Curso de Especiali-
zação em Tradução. Em corpora de duzentas mil palavras de diversas áre-
as, em inglês e em português, construídos pelos alunos, a ferramenta Wordlist
é utilizada para a extração de termos “diferenciados”.
O programa Stablex (Toulouse, Teknea, 1991), para Macintosh, de-
senvolvido especialmente para aplicações lingüísticas – indexação, trata-
mento estatístico, extração de seqüências e concordâncias e criação auto-
mática de dicionários –, foi criado por André Camlong e Thierry Beltran
no Laboratório de Inteligência Artificial do Centre de Recherches Ibériques
Contemporaines – CRIC – da Universidade de Toulouse II (Le Mirail):
STA – de statistique, TAB – de tableaux, LEX – de lexique e T...EX – de
texte). É compatível com programas disponíveis para processamento de
textos, banco de dados, planilha eletrônica e editoração, tais como Word,
Excel, Hypercard.
Estendemo-nos mais na parte dedicada ao Stablex e aos pesquisado-
res que o utilizaram ou que o vêm utilizando em suas investigações, não
por privilegiarmos um programa em detrimento do outro, mas pela oportu-
nidade que tivemos de melhor conhecer o Stablex e o método de análise de
textos para o qual serve de ferramenta e, conseqüentemente, pelos usos
que deles vimos fazendo em nossas pesquisas, bem como pelas orienta-
ções e assessorias que vimos prestando para suas aplicações em diferentes
corpora e áreas.
O programa Stablex, em sua versão 2.0, compõe-se de quatro
módulos complementares: (TurboStab, Table, Extraction, Hyperdico) e de
três pastas (Lexiques, Transit, Historiques). Há, ainda, a MacroStab: uma
pasta (onde estão as macros) que acompanha o programa e que funciona
com o Excel, facilitando um conjunto de operações.
Cada um dos módulos destina-se a tarefas específicas:

– TurboSTAB – realização de léxicos: levantamento exaustivo do voca-


bulário e elaboração automática de dois léxicos, um em que os vocábu-
los são classificados por ordem alfabética e outro, por ordem de fre-
qüência decrescente, acompanhados de suas ocorrências no corpus e
nas variáveis do corpus;

234
– TABLE – preparo de dados para a análise estatística: confecção automá-
tica de Tabelas de Distribuição de Freqüências – TDF –, que fornecem
o “status” da população lexical, sistematicamente convertidas em Ta-
belas de Desvios Reduzidos – TDR –, que põem em evidência o con-
junto dos traços característicos da distribuição;
– EXTRACTION – levantamento de seqüências: extração automática das
seqüências textuais ou das concordâncias relativas a cada vocábulo ou
radical, respeitando-se a ordem de ocorrência no texto;
– HYPERDICO – manipulação e consulta de dicionários: criação auto-
mática dos dicionários desejados, com a possibilidade de enriquecê-los
e manipulá-los à vontade.

A análise quantitativa de textos – ponto de partida para a análise


qualitativa – é fornecida pelos dois primeiros módulos e por programas de
análise estatística que aceitam arquivos no formato ASCII. O desenvolvi-
mento completo das operações com um perfeito encadeamento dos módulos
permite a análise lexical de um texto e a confecção de dicionários.
Destaca-se o fato de o programa ter sido desenvolvido em função do
método matemático-estatístico-computacional de análise de textos de André
Camlong, descrito na sua obra Méthode d´analyse lexicale textuelle et discursive
(1996): utilizando técnicas computacionais de última geração, o método inte-
gra fundamentos lingüísticos, matemáticos e estatísticos, a partir dos quais
propõe novas perspectivas de análises do discurso. Trata-se, pois, de um méto-
do que põe ferramentas informáticas, matemáticas, estatíscas e gráficas a ser-
viço da descrição de léxicos e de textos e da análise do discurso, algumas vezes
corroborando, outras corrigindo e orientando nossa leitura do texto.
Em publicação em co-autoria com Camlong (2002, no prelo), enfa-
tizamos que “as propostas do método estão fundadas na Análise do Discur-
so: a análise dos textos parte das relações internas, ou seja, das relações
entre os elementos lexicais, e o conhecimento da constituição lexical dos
textos remete ao próprio discurso”.
André Camlong, de formação filosófica, lingüística, matemática e
estatística, é Professor Titular na Universidade de Toulouse II e Diretor no
CRIC, Maison de la Recherche, da mesma universidade. Desde 1994, a
partir de visita de colaboração à FFLCH/USP, a nosso convite e através de
auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, vem
prestando assessoria a pesquisadores brasileiros na utilização do programa
e do método de sua autoria.

235
A visita de Camlong incluiu a ministração do Curso Análise Com-
putacional de Textos (FLL 820, aprovado pela Câmara de Pós-Graduação
em 02/08/1994, com oferecimento de quatro créditos) junto ao Progra-
ma de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departa-
mento de Lingüística, no período de 26 de setembro a 15 de outubro de
1994, a assessoria a projetos de pesquisa e seminários. O seu programa
de visita estendeu-se à Pontifícia Universidade Católica de Campinas por
iniciativa de Geraldina Porto Witter, então Pró-Reitora de Pós-Gradua-
ção.
As atividades desenvolveram-se em ambiente de informática, em
sala equipada com três computadores da plataforma Macintosh, quadra
605 4/160, cedidos, por empréstimo, pela APPLE Latin America, por in-
termédio do Sr. Tomas Fischer, Assessoria de Comunicação, e abordaram
as fases indispensáveis ao domínio da técnica informática e estatística em
relação com a análise lingüística. Delas participaram dezesseis pesquisa-
dores, entre docentes e pós-graduandos (docentes: Maria Adélia Ferreira
Mauro, Masa Nomura e Zilda Maria Zapparoli; pós-graduandos: Alessandra
Sallum, Christiane Michaela Balluff, Edna Camille Blumenschein, Edson
Luiz de Oliveira, Elisabete Aparecida Damasceno da Cunha, Elizabeth
Harkot de La-Taille, Elizabeth Young Chin, João Martins Ferreira, José
Maurício T. Ferro Costa, Marcelo Adolfo Teixeira da Silva, Márcio Aze-
vedo Vianna Filho, Maria Beatriz Fairbanks de Sá, Maria Cristina Pereira
da Cunha Marques). Maurício Pereira Nunes, analista de sistemas do Cen-
tro de Informática da FFLCH/USP, prestou apoio técnico ao professor, com
o intuito de adquirir os conhecimentos necessários para dar assessoria ao
uso do programa por outros pesquisadores.
O professor, em sua visita, abriu possibilidades de intercâmbio para
formação e reciclagem de pesquisadores nos laboratórios de que faz parte,
o que se concretizou, até o momento, para três dos participantes do curso –
João Martins Ferreira, Maria Adélia Ferreira Mauro e Zilda Maria Zapparoli
–, além de duas outras pesquisadoras – Daniela Fregonese Bragazza, apre-
sentada por João Martins Ferreira, e Letícia Lessa Mansur, por nós.
Apresentamos, a seguir, pesquisadores que vêm utilizando o méto-
do matemático-estatístico-computacional de análise de textos de Camlong
para a descrição e análise da tessitura lexical, textual e discursiva de lín-
guas naturais em função de diferentes interesses de estudo.
Iniciamos com o nosso relato. Somos Profª Associada Aposentada e
Profª Orientadora do Curso de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística

236
Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP e pesquisadora do
CNPq com Bolsa de Produtividade em Pesquisa desde 1991.
A nossa trajetória na utilização de recursos computacionais para os
estudos do léxico é bem anterior ao conhecimento de Camlong. Há cerca
de trinta anos, a partir de quando iniciamos as nossas investigações com
vistas ao doutoramento, desenvolvemos pesquisas na área de Lingüística
Informática, mediante a utilização de recursos da Informática no armaze-
namento, processamento e recuperação de informações lingüísticas.
Para a tese de doutoramento – cujos dados foram processados em
computadores de grande porte, quando não contávamos com programas
especiais de análise lingüística, conforme já mencionado no início deste
artigo –, a partir de uma pesquisa de campo desenvolvida no Estado de São
Paulo – Capital e duas regiões do interior do Estado, Campinas e Itu –,
num total de 216 informantes e de 54 horas de gravação, gerou-se um Corpus
Informatizado do Português Falado do Brasil (variante paulista), com a
constituição de um Banco de Informações Lingüísticas, Ortográficas e
Fonéticas. No arquivo-base, com cerca de 180.000 registros, todos os da-
dos de cada um dos informantes que forneceram material lingüístico para
análise são apresentados pela ordem de registro de gravação e estruturados
conforme variáveis extralingüísticas controladas na sua seleção (região de
origem, sexo, escolaridade, faixa etária e nível socioeconômico) e variá-
veis lingüísticas relativas às especificidades da língua falada.
Diante das inúmeras possibilidades de recuperação das informações
contidas nesse Banco, geraram-se diferentes Dicionários de Freqüência
do Português Falado em São Paulo. A título de exemplificação, citamos:

– Dicionário Ortográfico-Fonético dos Informantes: em ordem alfabéti-


ca de transcrição ortográfica, as unidades lexicais do universo lingüísti-
co objeto de estudo são apresentadas com as suas diferentes realizações
fonéticas. A transcrição fonética é acompanhada por sua divisão silábi-
ca com marcação do acento de intensidade. Anotam-se a freqüência
total de cada realização fonética e a freqüência parcial e acumulada da
transcrição ortográfica correspondente. Este dicionário revela não só as
palavras mais freqüentes da língua, como também a realização fonética
mais freqüente de cada unidade lexical;
– Dicionário de junturas intervocabulares: resultante de um exame dos
encontros fônicos que se dão na juntura lexical, ou seja, nos limites de
duas ou mais fronteiras de palavras, contém a transcrição ortográfica

237
das ocorrências vocabulares de juntura e a correspondente transcrição
fonética silábico-lexical, sendo a sílaba realçada marcada por um após-
trofo subseqüente. Está classificado por categoria de juntura, tonicidade
das sílabas intervocabulares, ordem alfabética de segmento final de vo-
cábulo por segmento inicial. As freqüências do relatório são apresenta-
das por ocorrência de cada seqüência vocabular.
O trabalho Lexicografia Computacional, como parte da tese, foi
apresentado no XVII Congresso Nacional de Informática da SUCESU (So-
ciedade de Usuários de Computadores e Equipamentos Subsidiários), Rio
de Janeiro, e publicado em Anais (Zapparoli: 1984), tendo sido seleciona-
do entre os dezoito melhores do evento.
Como membro do Projeto NURC/SP – Projeto de Descrição da Nor-
ma Culta do Português Falado em São Paulo –, procurando tornar acessí-
vel aos pesquisadores do Projeto uma amostragem do material gravado em
suporte eletrônico, em 1993 e 1994, informatizamos o corpus mínimo oral
do Projeto, conforme transcrito e publicado em três volumes: Elocuções
Formais (seis inquéritos), Diálogos entre Dois Informantes (seis inquéri-
tos), Entrevistas – Diálogos entre Informante e Documentador (nove inqu-
éritos).
A partir desse corpus e aplicando o método de Camlong, passamos
a desenvolver estudos sobre a análise lexical e a estrutura discursiva do
português falado culto de São Paulo, que incluem: constituição de vocabu-
lários de freqüência e de tabelas de distribuição de freqüências (cálculo
aritmético – tratamento quantitativo); constituição de vocabulários prefe-
renciais, normais e diferenciais a partir de tabelas de desvios reduzidos
(cálculo algébrico – tratamento quantiqualitativo); aplicação de testes es-
tatísticos (normalidade de distribuição, correlação, entre outros); geração
de fichas eletrônicas para diferentes objetivos de análise.
Além de responsável pela visita de colaboração de Camlong em 1994,
de 5 de janeiro a 4 de fevereiro de 1997 e de 29 de janeiro a 27 de fevereiro
de 1998, estagiamos no CRIC, a seu convite. O estágio possibilitou-nos o
aperfeiçoamento do uso de métodos, técnicas e programas especiais de
tratamento e análise matemático-estatístico-computacional de textos, para:
de um lado, transferir a experiência adquirida, como agente multiplicador,
junto a curso de pós-graduação que ministramos já no primeiro semestre
de 1998; de outro, efetuar tratamento de amostras do corpus do Projeto
NURC/SP, objeto do projeto de pesquisa de Bolsa de Produtividade em
Pesquisa do CNPq.

238
Por acreditarmos na contribuição do método para a atualização e o
aperfeiçoamento da teoria e análise lingüística e para cumprirmos a função
de transferir a experiência adquirida, após nosso primeiro estágio em
Toulouse, criamos, em 1997, e passamos a coordenar o Núcleo Interdisci-
plinar de Pesquisa em Novas Perspectivas de Análises do Discurso, inte-
grado por docentes e pós-graduandos da USP, que passaram a aplicar o
método na análise de diferentes tipologias de textos (orais, escritos, técni-
cos, literários, jornalísticos, publicitários, patológicos) para diferentes fi-
nalidades (ensino, pesquisa, diagnóstico).
Em 1997, tivemos o texto Considerações sobre a utilização de no-
vas tecnologias na análise do léxico do português falado culto de São Paulo
publicado no livro O Discurso Oral Culto, organizado por Dino Preti e
editado pela Humanitas FFLCH /USP.
Na disciplina de pós-graduação A utilização de Novas Tecnologias
na Lingüística (FLL 5015-1), que ministramos no Programa de Pós-Gra-
duação em Semiótica e Lingüística Geral, Departamento de Lingüística da
FFLCH/USP, no 1º semestre de 1998, os alunos puderam, em função de
seus projetos de pesquisa, desenvolver a análise de diferentes tipologias de
textos através da utilização do método de Camlong. Participaram do curso:
Abner José de Almeida, Cynthia Aparecida Patrício da Silva, Maria Cristina
Hennes Sampaio, Maria do Perpétuo Socorro Cardoso da Silva, Monika
Palkoski Scheffelmeier, Renné Panduro Alegria, Sandra Regina Turtelli,
Ubirajara Inácio de Araújo.
Visto que o foco do curso foi a aplicação do método de Camlong
mediante o uso do programa STABLEX, o curso só se viabilizou dada a
disponibilidade da Profª Drª Sueli Mara Soares Pinto Ferreira, então coor-
denadora do Núcleo de Informática em Comunicações e Artes (NICA) da
Escola de Comunicações e Artes da USP, em ceder a Sala Macintosh do
NICA. As atividades contaram com a assessoria técnica da analista de sis-
temas Katia Cristina Pinto.
Anunciamos, ainda, a publicação, em breve, do volume Do léxico
ao discurso pela Informática, no prelo pela EDUSP / FAPESP, em co-
autoria com André Camlong. O volume aborda a aplicação do método na
análise lexical, textual e discursiva do português falado culto de São Paulo.
Além da tarefa de divulgação do embasamento teórico do método, o traba-
lho pretende disponibilizar a descrição lexical resultante da aplicação do
método como materiais de estudo para finalidades diversas, portanto, mate-
riais para estudos do português falado não na forma de dados, mas já como

239
resultados de uma análise preliminar. Assim sendo, as tabelas, elaboradas
a partir do tratamento e análise dos textos objetos de estudo, serão divulgadas
na forma de livro, acompanhado de CD-ROM. A publicação das tabelas
em CD-ROM facilitará aos estudiosos o acesso às informações, que pode-
rão ser manipuladas em função de seus objetivos de estudo a partir de
programas de uso geral, como o Excel.
Com esse volume, inicia-se a publicação da Série Lingüística Infor-
mática, com o intuito de divulgar não somente outros trabalhos que apli-
cam o mesmo método em diferentes corpora e em diferentes áreas, mas
também outras aplicações que se situam na interação Lingüística e Infor-
mática.
Maria Adélia Ferreira Mauro, Profª Drª Aposentada e Profª Orienta-
dora do Curso de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do
Departamento de Lingüística da FFLCH/USP, a convite de Camlong, rea-
lizou estágio no CRIC, em âmbito de pós-doutorado, no período de 6 de
janeiro a 4 de fevereiro de 1997. O estágio incluiu a participação no Semi-
nário Intensivo de Análise Computacional e Discursiva, com o objetivo
principal de discutir os princípios fundamentais que orientam o método de
análise lexical, textual e discursiva e a sua aplicação a um corpus constituí-
do por editoriais de dois jornais paulistas – OESP (O Estado de São Paulo)
e FSP (Folha de São Paulo) –, repartidos em oito grupos de “textos”, qua-
tro para cada jornal, com vistas ao tratamento da argumentação.
A escolha dos editoriais para análise foi determinada pelo tema elei-
ções na época das eleições presidenciais de 1989. A estrutura temática do
discurso dos editoriais foi estudada com base na determinação da normali-
dade da distribuição das variáveis, na análise da estrutura do léxico global
e do léxico das oito variáveis, no teste de correlação das variáveis segundo
os períodos de publicação dos editoriais e na aplicação da técnica da
lematização e da extração de seqüências. Isso permitiu observar o compor-
tamento de cada texto no interior de seu próprio grupo e em relação aos
demais do outro grupo, segundo os princípios de que “as operações estatís-
ticas se desenvolvem e se encadeiam de maneira lógica e coerente: tudo
parte do texto e tudo volta ao texto” (Camlong, 1996: 22).
Letícia Lessa Mansur, Profª Drª do Curso de Fonoaudiologia – Gra-
duação e Pós-Graduação – da Faculdade de Medicina da USP, vem apli-
cando o método de Camlong na avaliação de aspectos lexicais e discursi-
vos da linguagem de pacientes com demência do tipo Alzheimer (DA).

240
No relato que nos enviou, Letícia conta-nos que o seu primeiro con-
tato com o método de análise de Camlong foi pela leitura do texto de nossa
autoria Considerações sobre a utilização de novas tecnologias na análise
do léxico do português falado culto de São Paulo (Zapparoli, 1997: 151-
73):

A par do caráter de modernidade da tecnologia, chamou-me a atenção


a possibilidade de aplicação para análise de discursos em lesados cere-
brais e o destaque dado ao léxico como chave para penetração no tex-
to.
No desenvolvimento de meus estudos sobre o discurso de indivíduos
com demência de Alzheimer, afásicos e outras alterações da comuni-
cação de etiologia neurológica, deparei-me freqüentemente com pu-
blicações que enfatizavam aspectos lexicais. Em algumas dessas do-
enças, de cunho degenerativo, enfatizavam, como principal perda de
linguagem, característica desses pacientes, a dissolução do conheci-
mento semântico.

Letícia introduziu-se, então, no conhecimento do método e na sua


aplicação através do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Novas Pers-
pectivas de Análises do Discurso. Alguns ensaios de análise motivaram-na
a aprofundar os conhecimentos diretamente na fonte. A convite de Camlong,
realizou estágio no CRIC, com auxílio da FAPESP, no período de 17 de
janeiro a 17 de março de 1998, para tratamento do corpus mínimo de seu
projeto de estudo dos discursos patológicos.
Chegando ao Brasil, aplicou o método na análise do léxico de ido-
sos e de indivíduos com DA, com o objetivo de caracterizar o desempenho
de indivíduos com DA em situações de produção discursiva com graus
diversos de restrição e de indução à produção lexical. Expôs os resultados
de suas experiências no artigo Aplicação de tecnologia na avaliação da
linguagem de pacientes com demência do tipo Alzheimer: aspectos lexicais
e discursivos, publicado em co-autoria (Mansur, 1998: 122-32), e na ses-
são de comunicação coordenada Método Matemático-Estatístico-Compu-
tacional de Análise de Textos do I ENAPOLINF (Mansur, 2001: 28-9).
Letícia enfatiza que

o Professor Camlong considera o método de análise estatístico-


computacional absolutamente vinculado a pressupostos de análise de
discurso, cujas bases foram expressas de forma completa entre os pen-
sadores gregos Aristóteles e Platão e filósofos de Port-Royal, em que

241
se podem verificar as bases para estudos semióticos contemporâneos.
Sem eles, o método computadorizado torna-se “mera manipulação” de
comandos do software. Ressalta ainda que o método de análise estatís-
tica toma dados numéricos do léxico, os quais não têm nenhuma exis-
tência em si mesmos, estando diretamente relacionados aos vocabulá-
rios e aos textos de onde provêm, que constituem a referência para
toda a análise.

Conclui o seu relato, salientando as vantagens do estudo computa-


dorizado na área de lesados cerebrais:

rapidez, possibilidade de estudo de grande número de dados, organiza-


ção dos dados segundo critérios que combinam pressupostos lingüísti-
cos, estatísticos e computacionais. Sua aplicação à área de lesados ce-
rebrais pode evoluir para o auxílio de diagnósticos e possivelmente
aplicações em terapias de linguagem.

João Martins Ferreira, Prof. Dr. do Curso de Informática da Univer-


sidade Ibirapuera e da Fundação Instituto Tecnológico de Osasco, vem uti-
lizando o método de análise de textos de Camlong especialmente para es-
tudos literários. Merece destaque o seu doutorado em Estudos Comparados
de Literaturas de Língua Portuguesa, com a tese O Discurso de Fernando
Pessoa em Mensagem, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da
FFLCH/USP, 2000, em que aplica o método em escritos do poeta portu-
guês, reunidos em Mensagem,

buscando as palavras-chave que direcionam seu discurso na totalidade


da obra, a partir das quais é possível a sistematização do discurso em
duas estruturas semióticas de relações lógicas, que demonstram a rede
de tensões dialéticas, no aspecto dos símbolos, que fundamenta o li-
vro. (Martins Ferreira, 2001: 24)

A leitura de sua tese é um bom exemplo de como o analista, a partir


do levantamento e análise dos campos temáticos que fundamentam o dis-
curso, pode interpretar os apontamentos exatos fornecidos pelo método e,
por conseguinte, da contribuição da Informática para os estudos literários
fundamentados na investigação do léxico.
Cabe acrescentar que as aplicações que Martins Ferreira faz do mé-
todo não se restringem ao discurso literário, nem mesmo à linguagem ver-
bal: aplicou-o, também, com êxito, à linguagem musical.
Transcrevemos Memórias de Martins Ferreira, que constam do rela-
to que nos enviou, às quais chama de Captando o Capitólio – um elogio e

242
um agradecimento a Toulouse (La Ville Rose) que nos acolheu e ao Mestre
que nos deu a mão para o aprendizado do método:

“-Alô! Por favor, eu gostaria de informações sobre o curso de Análise


Computacional de Textos, da Pós-graduação.”
Foi assim, num simples telefonema ao Centro de Informática da Facul-
dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, no ano de 1994,
que comecei a ter contato com tecnologias avançadas na área de
Informática e com métodos sofisticados na área de Lingüística. Mal
sabia naquele instante (aliás, nem me preocupava com isso) que, en-
tão, iniciava uma longa, trabalhosa e fascinante pesquisa que me leva-
ria à França, em 1995, e faria com que eu conquistasse, ou intensifi-
casse, ricas amizades durante os anos seguintes.
Solicitaram-me que aguardasse, pois a professora doutora Zilda Maria
Zapparoli, diretora do Centro de Informática, iria me atender e esclare-
cer a respeito. E assim foi. Desse modo, vi-me sentado numa sala de
aula, operando com computadores Macintosh, adentrando por um mun-
do novo para mim: os números, em suas mais elevadas aplicações. Um
professor simpático, muito inteligente e impaciente começava a nos
falar em português, com um forte sotaque francês: André Camlong.
Era difícil para alguns alunos acompanhar a profundidade de sua linha
de raciocínio, que articulava as mais diversas fontes do conhecimento
e da sabedoria humanas. Apesar de, a princípio, parecer tudo muito
confuso, comecei a dar meus primeiros passos pelos caminhos da Es-
tatística. Guiado pelas mãos daquele grande mestre, confiando nele,
associando tudo o que ele explicava, ou exemplificava, com aquilo
que eu já conhecia em técnicas de composições musicais (contraponto)
e de construções de textos literários. O convívio intenso e breve com o
mestre mostrou-me que os números não eram algo demasiadamente
assustadores, que a Matemática e a Estatística conversavam com a Fi-
losofia, com o Grego, com as Artes e assim por diante. Acabei fazendo
um ótimo curso, atingindo conceito máximo, o que me valeu um con-
vite de Camlong para aperfeiçoar meus estudos nas técnicas do méto-
do de análise de textos desenvolvido por ele na Universidade de
Toulouse II. (...)
Em 1995 viajei com um grupo de apicultores do Brasil para participar
do Congresso Mundial de Apicultura na Suíça. Na agenda, o compro-
misso de ficar durante um mês em Toulouse, estudando o método e
pesquisando textos de Mário de Andrade. A seguir, três meses em Lis-
boa, estudando Fernando Pessoa, tema de minha tese de doutorado.
O contato com Camlong e com a cultura européia não poderia ter sido
mais produtivo. (...) Quando cheguei a Toulouse, vindo de Paris, pelo
TGV, ele havia providenciado antecipadamente minha reserva em um

243
hotel bastante econômico. (...) No momento, fatigado pela viagem, não
captei, mas Camlong hospedara-me defronte ao Capitólio – imponente
prédio da cidade –, no Hotel du Grand Balcon, de propósito: era no
centro, perto de tudo, perto da “História” e, principalmente, perto da
“Literatura”, pois fora ali a moradia de Saint-Exupéry, criador da obra
Le petit prince. (...)
Chegou o dia de minha partida. (...) Fui para Lisboa e me dediquei
totalmente aos estudos pessoanos. Minha mente estava fatigada pelos
números, mas havia descoberto preciosidades nos textos de Mário de
Andrade analisados por meio do método, que me era, agora, bem mais
familiar.
Retornando para o Brasil, apliquei esse método de análise de textos de
Camlong em textos de Fernando Pessoa e fui explorando as resultan-
tes. Somei-as a todo o material recolhido em Portugal. Refleti sobre o
assunto. Pesquisei mais e mais. Escrevi e concluí com êxito minha tese
sobre O discurso de Fernando Pessoa em ‘Mensagem’, em 2000, na
área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. (...)
Após esses anos de estudos, aprendizados e pesquisas pessoais inces-
santes, em que novos programas computacionais voltados ao estudo
de textos foram surgindo e, sumariamente, por mim analisados, pude,
cada vez mais, constatar a qualidade excelente do método criado por
André Camlong. Independente de seu caráter, de sua personalidade
inconfundível, autêntica, ou da admiração, gratidão e respeito pessoais
que tenho para com sua pessoa, afirmo que desconheço qualquer mé-
todo que tenha ido tão longe e que seja tão preciso e eficiente como o
dele. Sua proposta não é apenas de um programa que roda em uma
máquina, mas, sim, trata-se de um método do qual o programa
computacional é um dos elementos integrantes. Portanto, ela é abran-
gente, lógica, inteligente, profunda e eficiente e, por isso tudo, tam-
bém muito complexa, o que dificulta seu acesso imediato por muitos
interessados. (...)

Martins Ferreira vem divulgando o método e suas aplicações em


publicações, congressos latino-americanos, seminários internacionais, pa-
lestras em diversas universidades brasileiras e para colegas das áreas de
Letras e Lingüística.
Maria Cristina Hennes Sampaio, Profª Drª do Departamento de Le-
tras, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambu-
co, utilizou o programa Stablex e, pois, o método de Camlong, para o trata-
mento dos dados de sua tese de doutorado Democracia, cidadania e
produção de um espaço público democrático em tempos de globalização:

244
práticas discursivas entre Estado-Sociedade no movimento grevista da edu-
cação em Pernambuco (1987-1990), 2002, Programa de Pós-Graduação
em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística da
FFLCH/USP, sob a orientação da Profª Drª Elisabeth Brait.
Cristina conheceu o método de Camlong através da disciplina Utili-
zação de novas tecnologias na lingüística, por nós ministrada em 1998.
Naquela oportunidade, deparava-se com o problema de como processar
o tratamento do extenso corpus discursivo de seu projeto de pesquisa de
doutorado. Anteriormente, já havia trabalhado com um programa de pro-
cessamento de textos que não incluía análise estatística. Interessou-se pelo
método de Camlong pelos seus pressupostos teóricos de tratamento quan-
tiqualitativo de dados lexicais, textuais e discursivos cientificamente des-
critos. Como trabalho de final de curso, aplicou o método a uma pequena
amostra de seus dados, cujos resultados favoráveis a levaram a adotá-lo
para o tratamento integral dos corpora de sua pesquisa.
Na tese, estuda os significados de práticas discursivas de três atores
sociais – o governo do estado de Pernambuco de Miguel Arraes, o movi-
mento sindical dos trabalhadores em educação e a mídia –, inscritas em
discursos institucionais sobre o movimento grevista dos trabalhadores em
educação no estado de Pernambuco, na Nova República, no período de
1987-1990.
Com base na abordagem quantiqualitativa, sua análise do discurso
pressupõe duas dimensões, uma micro e uma macroanálise: a primeira,
que inclui procedimentos de descrição, fornece pistas significativas para a
segunda, ou seja, para o trabalho de interpretação do analista do discurso,
no caso, para a análise dos significados das práticas discursivas dos três
atores sociais objetos de estudo.
Ouçamos diretamente Cristina através do relato que nos enviou, por
julgá-lo particularmente importante para o reconhecimento da pertinência
da abordagem teórica quantiqualitativa proposta por Camlong:

Em relação aos resultados quantiqualitativos observados, o que me


impressionou foi o fato de os mesmos expressarem as relações de for-
ça (que por sua vez expressam as relações de poder entre frações de
classes sociais) subjacentes às práticas discursivas dos atores em ques-
tão), o que sugere que a linguagem e, por conseguinte, o discurso, é
uma entre outras formas de trabalho nas relações sociais de produção.
Existe ainda um segundo aspecto interessante a salientar em relação
aos resultados obtidos e que proporcionou uma dimensão nova e ex-

245
tremamente interessante à análise e interpretação de meus dados. Até
o exame de qualificação eu havia concluído a análise e interpretação
de apenas uma amostra de dados, que pareciam evidenciar que, embo-
ra eu trabalhasse com três arquivos (governo, mídia e sindicato), os
quais eu designava como “atores” do estudo em questão, na verdade
tratava-se de apenas dois atores – governo e sindicato, com a mídia
desempenhando apenas um papel secundário, de porta-voz. Essa foi a
observação feita por um dos membros da banca, o professor Fiorin. Ao
concluir a análise quantiqualitativa do restante dos dados, e com eles já
em forma de gráficos, observei, em relação à mídia, uma tendência sem-
pre negativa dos pesos observados em relação a todos os temas em estu-
do, quando comparados com os outros dois atores. O que isso significa-
va? Essa dúvida levei comigo para a França. Lá encontrei muitos estudos
discursivos interessantes sobre a mídia, bem como um livro de Habermas:
Le space public. Voltei ao meu cap. 3 (Plano Experimental) e me dei
conta de que a caracterização dos meus atores era insatisfatória, ou seja,
eles se situavam em esferas distintas: o governo, relacionado ao Estado;
o sindicato, à sociedade. E a mídia? Nem um nem outro. Voltei ao título
do meu estudo: Relação Governo-Sindicato na Gestão Arraes: discursos
públicos sobre a greve. Dei-me conta, no decorrer da análise e interpre-
tação dos dados, de que os discursos circulavam em um espaço público,
mas que esse público funcionava de forma diferente nas três variáveis
em questão. Habermas me ajudou a refazer a questão conceitual.
Voltei aos dados e juntei com a teoria. Só então vim a compreender que
essa negatividade insistente em relação aos dados da mídia indicava
uma dispersão, ou seja, a pulverização dos atores que compareciam
(ou eram autorizados a comparecer) no espaço público midiático. Uma
das conclusões às quais cheguei transcrevo abaixo:
(...) observamos que o papel da Mídia consistiu muito mais em articu-
lar um jogo de poder na alteridade que constrói, ao inserir inúmeras
vozes no discurso, e definir posições enunciativas e os papéis ocupa-
dos por cada um dos atores sociais envolvidos no espaço de interlocu-
ção do que propriamente captar e dar visibilidade aos interesses coleti-
vos de ambos os atores, ampliando o debate com a troca de argumentos
racionais em torno de questões substanciais do movimento grevista e
da educação no estado, favorecendo o pluralismo de opiniões. Consta-
tação que foi reforçada pelos dados quantitativos observados – relati-
vos ao tratamento dispensado pela Mídia a diversos temas – os quais
apresentaram, em sua quase totalidade, uma tendência marcadamente
negativa em relação à escala de pesos. Essa negatividade reflete, con-
forme já vimos anteriormente em nossas análises, uma certa instabili-
dade na produção discursiva, ou seja, na forma como os múltiplos,
diferentes e contraditórios sentidos são produzidos e veiculados pela
Mídia ao público-leitor em função dessa pulverização de atores sociais

246
e de suas respectivas comunidades discursivas nas quais se inscrevem
interesses políticos e econômicos distintos e contraditórios. Ao orga-
nizar o espaço de interlocução entre diversas comunidades discursivas
que lhe são exteriores, a Mídia instaura uma produção discursiva pró-
pria, com características particulares e, assim sendo, constitui-se, ela
própria, não só em uma comunidade discursiva distinta e à parte, mas
também constrói em seu entorno uma memória discursiva midiática.
Daí que o corpus discursivo do arquivo institucional da Mídia ter nos
permitido observar as características e as formas do intercurso social
pelo qual o significado é realizado: a articulação sócio-discursiva ins-
crita nas condições de produção e de circulação temática dos sentidos
dos discursos sobre o movimento grevista no espaço de uma memória
discursiva histórica. Todas as considerações feitas em relação ao ar-
quivo institucional da Mídia nos levam a concluir que as relações de
poder (no presente estudo, sobretudo de poder político) que subjazem
as condições de produção e de circulação temática dos discursos con-
duzem à produção de práticas discursivas controladas pelo espaço pú-
blico midiático (Sampaio, 2002: 268-9).

Ubirajara Inácio de Araújo, Doutorando do Programa de Pós-Gra-


duação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística
da FFLCH/USP, sob nossa orientação, com trabalho já concluído, e pro-
fessor do Curso de Letras da Universidade Ibirapuera, tomou conhecimen-
to do programa Stablex em 1994, quando o Prof. Camlong ministrou curso
na Universidade de São Paulo.
Em 1998, freqüentou a disciplina de pós-graduação sob nossa res-
ponsabilidade; para trabalho de conclusão de curso, aplicou o programa ao
corpus de sua dissertação de mestrado, com a intenção de confrontar os
resultados obtidos nas duas análises. A grande proximidade dos resultados
levou-o a adotar os pressupostos teóricos do método de Camlong e, pois, o
programa Stablex, na sua pesquisa de doutorado, intitulada Análise do Su-
jeito numa abordagem léxico-discursivo-computacional sobre o discurso
do trabalho, em que explora os sentidos que os sujeitos atribuem ao traba-
lho a partir da análise lexical de um corpus constituído de redações do
Exame Supletivo de 1999, cujo tema foi O trabalho nos dias atuais.
Ubirajara enfatiza que “a proposição e elaboração do método ba-
seiam-se em otimizar os recursos das novas tecnologias. (...) Evitam-se,
assim, as tradicionais análises impressionistas, subjetivas, dedutivas, tau-
tológicas e arbitrárias” (Araújo, 2001: 27).
Daniela Fregonese Bragazza, Doutoranda do Programa de Pós-Gra-
duação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de Lingüística

247
da FFLCH/USP, sob nossa orientação, é bolsista do CNPq para o desen-
volvimento do projeto de pesquisa Contribuições de um método matemá-
tico-estatístico-computacional para o estudo dos contos de Machado de
Assis.
Daniela conta-nos, em seu relato, como chegou a Toulouse para uma
maîtrise na Universidade de Toulouse sob a orientação de Camlong:

Em 1991, após concluir o curso de Graduação – Bacharelado e Licen-


ciatura em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hu-
manas da Universidade de São Paulo –, mudei-me para Stuttgart, Ale-
manha, com meu marido.
Em 1996, recebemos a visita de um amigo, João Martins Ferreira, dou-
torando e ex-colega de turma na FFLCH. Sua ida à Europa relaciona-
va-se a uma pesquisa que vinha desenvolvendo sobre Fernando Pes-
soa. Contou-me, entusiasmado, sobre sua estadia em Portugal e na
França, bem como sobre os avanços de seus estudos. Nessa ocasião,
João falou-me, também, sobre um método matemático-estatístico-
computacional inovador para o estudo de textos de diversas naturezas,
com o qual havia trabalhado, incentivando-me a conhecer algumas
novidades em nossa área.
Fiz, então, o primeiro contato telefônico com o Prof. Dr. André
Camlong, autor desse método e professor na Université de Toulouse le
Mirail, que, muito atencioso e receptivo, forneceu-me todas as infor-
mações necessárias para que eu pudesse iniciar um curso nessa univer-
sidade.
Assim, após outros contatos telefônicos, a preparação e o envio da
documentação requerida, uma entrevista em Toulouse e a aprovação
da Comissão Pedagógica, mudei-me para lá, onde fui recebida pelo
Prof. Camlong e sua equipe. Tive, então, a oportunidade de iniciar, no
Laboratório de Pesquisas Avançadas da Université de Toulouse, uma
maîtrise sob sua orientação – Os contos de Machado de Assis: análise
lexical e discursiva –, cujo principal objetivo foi a realização de uma
pesquisa que se utilizou do programa Stablex como instrumento ou
ferramenta de armazenamento, processamento e recuperação das in-
formações textuais. O corpus, de natureza literária, constituiu-se de
nove contos de Machado de Assis: O espelho, O alienista, O enfermei-
ro, Noite de Almirante, A cartomante, A causa secreta, Uns braços,
Missa do Galo e Cantiga de esponsais.
Além de freqüentar um curso de Pós-Graduação na Universidade, pas-
sava grande parte do tempo no Laboratório, com o Prof. Camlong e
outros orientandos seus, onde me familiarizava com o método e discu-
tia os resultados parciais da pesquisa.

248
De volta ao Brasil, após aproximadamente um ano, com o intuito de
dar continuidade à sua pesquisa, aprofundando o universo de análise dos
contos de Machado de Assis, Bragazza ingressou, em 1999, no Programa
de Pós-Graduação em Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de
Lingüística da FFLCH/USP.
Numa abordagem, por excelência, interdisciplinar, que inclui, do
lado das Ciências Humanas, a Lingüística e a Literatura e, do lado das
Ciências Exatas, a Matemática, a Estatística e a Computação, dedica-se ao
estudo de um corpus constituído de oito contos de Machado de Assis: de
Papéis Avulsos (1882), os contos D. Benedita e O espelho; de Histórias
sem data (1884), os contos A senhora do Galvão e Singular ocorrência; de
Várias Histórias (1896), os contos Uns braços e D. Paula; e, finalmente,
de Páginas Recolhidas (1899), os contos Missa do galo e O caso da vara.
Fazemos referência, ainda, à pesquisa coordenada pelo Prof. Dr.
Alfredo José Mansur, Professor Doutor da Faculdade de Medicina da Uni-
versidade de São Paulo: Expressão de Sintomas por Doentes com Insufi-
ciência Cardíaca. Em fase inicial de desenvolvimento, o estudo busca avali-
ar, no contexto do tratamento médico atual, a expressão verbal da limitação
física em portadores brasileiros de insuficiência cardíaca. A avaliação pres-
supõe o relacionamento de diferentes expressões verbais com indicadores
clínicos e funcionais da função cardíaca e com a sobrevida. Os dados serão
fornecidos por trezentos pacientes portadores de insuficiência cardíaca de
grau avançado, atendidos no Instituto do Coração do Hospital das Clíni-
cas, selecionados segundo variáveis clínicas e demográficas. O projeto,
subsidiado pela FAPESP, conta com a participação de Roberto Iglesias
Lopes, aluno de Iniciação Científica. Dele também participamos com a
função de prestar assessoria no tratamento computacional dos dados pelo
Stablex e na aplicação do método informatizado de análise de textos de
Camlong.
Para concluir o painel histórico sobre a análise informatizada do
léxico no Brasil, lembramos que WS Tools e Stablex foram tema de sessões
de comunicações coordenadas no I Encontro dos Alunos de Pós-Gradua-
ção em Lingüística Informática – I ENAPOLINF: Lingüística de Corpus,
sob a coordenação de Tony Berber Sardinha, e Método Matemático-Esta-
tístico-Computacional de Análise de Textos, sob nossa coordenação. O
evento, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Lin-
güística Geral do Departamento de Lingüística da FFLCH/USP no dia 22
de outubro de 2001, abordou temas por excelência interdisciplinares, rela-

249
cionados a novas tecnologias na pesquisa lingüística: análise informatizada
de textos, tecnologias interativas, Educação a Distância, aplicações em
multimídia e análise fonética por computador.
Nessa oportunidade, propusemos a Berber Sardinha, proposta acei-
ta, um trabalho-conjunto de submissão de um mesmo corpus à análise pe-
los dois programas aqui contemplados – WS Tools e Stablex – para levan-
tamento de seus pontos comuns, divergentes e complementares. Esperamos
que esse trabalho possa constar de uma próxima retrospectiva sobre as
análises informatizadas do léxico no Brasil.

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Ficha Técnica

Divulgação LIVRARIA HUMANITAS-DISCURSO


Mancha 11 x 18,5 cm
Formato 14 x 21 cm
Tipologia Times New Roman e Gill Sans
Papel pólen soft 80 g/m2 (miolo)
e cartão supremo 250 g/m2 (capa)
Impressão e acabamento PROVO DISTRIBUIDORA E GRÁFICA LTDA.
Número de páginas 256
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