Evolução do Conceito de Paisagem
O termo paisagem nas línguas românicas deriva do latim (pagus-
que significa país), com o sentido de lugar, setor territorial. Dessa forma
derivam outras como paisaje ( castelhano), paysage ( francês), paesaggio
(italiano). As línguas germânicas mostram um claro paralelismo com a
palavra original "Land". Landschoft (alemão), landscape( inglês),
landschap( holandês).
Final do século XV - aparece uma nova acepção para o termo
"paisagem" dentro dos aficionados com a arte da pintura - Escola de
Paisagistas holandeses - cujo representante foi Albert Durer, para quem a
paisagem representava uma porção da superfície de terra firme - não o
mar, para o qual, quando representado em seus quadros, recebia o nome
de "Marinha".
Meados do séc. XVII - aparecem definições como a encontrada no
dicionário Webster, segundo o qual paisagem "é a imagem que
representa a vista de um setor natural" - (significado pictórico);
superfície terrestre, relevo de uma região em seu conjunto, produzido ou
modificado por forças geológicas ( significado de área física).Até então,
predomina a visão subjetiva da paisagem, vinculada à acepção pictórica
(de pintura).
A partir do século XIX, o termo "paisagem" começa a ser muito
utilizado em Geografia desde o ponto de vista morfológico,
distinguindo-se a homogeneidade ou heterogeneidade dos elementos que
compõem a paisagem, em função de sua forma e magnitude - paisagem
de vegetação, paisagem agrária.
O cientista alemão Alexander Von Humboldt contemporâneo de
Goethe, Kant e outros, fazia parte de um grupo de cientistas interessados
na natureza. Realizou viagens a fim de conhecê-la melhor e foi quem, de
forma mais coerente, representou a estrutura da superfície terrestre.
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Em seu livro "O Kosmos" Humboldt escreve que a natureza (que inclui o
ser humano) vive graças a uma troca contínua de formas e movimentos
internos.
Meados do século XIX até 1
o
quarto do século XX - nesse período
foi estabelecida a maior parte das bases teóricas no conceito científico de
paisagem.
Alunos de A. Von Humboldt prosseguiram com as análises sobre a
estrutura da superfície terrestre. Destaca-se nesse grupo o geógrafo
alemão F. Von Richthofen para quem a complexidade e mesmo a
unidade da superfície terrestre deve-se a interdependência de três
fatores: a atmosfera, a litosfera e a hidrosfera. Dessa interdependência
pode aparecer uma quarta - a biosfera.
Para J Ch. Smits (anglo-saxão, criador da doutrina "Holismo"- Obra -
Holismo e Evolução, 1926), o universo (com suas partes constituintes)
tem uma tendência a originar unidades que formam um todo. Estas
unidades são compostas pela matéria inerte, pela matéria viva e pela
matéria pensante (o homem). Essas unidades não se resumem à soma de
seus constituintes, porque estes estão sempre dispostos, interconectados
e estruturados de uma determinada maneira.
A superfície terrestre é uma unidade integrada. A análise das relações
entre os elementos tornou-se a partir de então, objeto constante da
consideração / pesquisa das diferentes áreas científicas.
SÉCULO XX - A partir de sua metade, o ser humano começa a tomar consciência
de pertencer a este complexo chamado natureza, de onde extrai os recursos
necessários à sua sobrevivência. Conseqüências:
maior enfoque à conservação da paisagem
os estudos nessa área adquirem importância, à princípio, dentro da
geografia, depois outras ciências a incorporam em seus estudos.
o desenvolvimento da ciência da paisagem trouxe à tona uma outra
ciência: a Ecologia
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Homem- é o modelador da natureza, transformando a paisagem natural em
paisagem cultural (urbana, rural, agrícola, industrial ou econômica).
ECOLOGIA: Criador foi o alemão Haekel (1834-1919 - sec. XIX e XX) que a
definiu como “O estudo das relações dos organismos com seu meio ambiente
inorgânico ou orgânico”.
Escolas e Tendências atuais na ciência da paisagem
Escolas são núcleos formados por uma ou mais de uma universidade
e/ou órgãos de pesquisa que investigando determinado ramo da ciência,
propõe direções para o estudo/pesquisa desse ramo, levantando questões,
teorias e criando/desenvolvendo métodos.
Escola Alemã
Na Alemanha aparecem as primeiras idéias sobre a paisagem,
considerada desde um ponto de vista científico.
Antecedentes:
• Alexander Von Humboldt (século XIX).
• Ferdinand Von Richthofen: litosfera, atmosfera, hidrosfera e biosfera.
• Carl Trol: incorporação dos conceitos ecológicos de Haekel ao
conceito de paisagem. Definiu a ecologia da paisagem; reflexões sobre
paisagens naturais e paisagens culturais = (natural + humano).
J.Schmithusen:
A paisagem possui elementos dinâmicos. Assim, tem-se que considerar a
fisionomia, a ecologia e o lado histórico/genético.
Do ponto de vista funcional há que considerar que o homem sempre
leva/introduz uma energia (fluxos energéticos) que transforma a
paisagem. Os fluxos energéticos no entanto, podem ser naturais
(terremotos, por ex.) como antrópicos, ou seja, provocados pela ação
humana (construção de uma hidrelétrica, por ex).
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Estabilidade/instabilidade das paisagens: diz respeito às
transformações que nelas ocorrem ou podem ocorrer. Deve-se considerar
a possibilidade dessas transformações ocorrerem ou não e o grau de
velocidade com a qual acontecem.
Relações funcionais: ações presentes, atuais, que atuam no
funcionamento do sistema, diz respeito à fisiologia do sistema paisagem.
Elementos: são referências estáticas, mas que guardam relação com o
funcionamento e a dinâmica de épocas passadas. Ex: uma araucária
plantada no meio do campo; a presença de torres de linhas de
transmissão.
Unidade de paisagem: conjunto das relações presentes (sinergia) em
um território determinado.
O aporte de conceitos da ecologia ao estudo da paisagem incorporou o
conceito de sistema. Considera-se a paisagem como um sistema aberto,
dentro do qual existe a atuação humana. Surge daí, a ecologia humana,
estabelecendo relações entre o homem e o meio ambiente.
A Ecologia da paisagem consiste na análise funcional do conteúdo
paisagístico e na resolução das múltiplas e recíprocas relações existentes
em um fragmento da superfície terrestre.
Proposições mais recentes da escola alemã:
• Realizar estudos em grande escala e sua cartografia.
• Cuidadosa classificação das unidades de paisagem.
• Aplicação da gestão da paisagem a diferentes escalas.
• Diagnóstico dos problemas de fragilidade da paisagem.
• Avaliação da potencialidade e usos da mesma.
• Estabelecer uma sistemática de informação e bases de dados.
Escola Soviética: inicia-se no final do século XIX com influências da
Escola Alemã, a cujos conceitos se somaram os estudos do edafólogo
russo V.V. Dukuchaev (1848 - 1903).
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Segundo esse cientista, o solo é o resultado da interação dos elementos
da paisagem, ou seja, do complicado sistema de interações do complexo
natural: a rocha-mãe (mineral), o relevo, as águas, o calor e os
organismos.
Sochava, a partir dos anos 60 introduz novos conceitos nessa ciência,
propondo diferenças entre paisagem, meio e natureza que, até então,
eram conceitos que se confundiam.
• meio - é onde vive o homem e se define em função dele.
• natureza - é tudo aquilo que nada tem a ver com o homem.
• paisagem - engloba tudo isso.
Para o Professor Anuchin, da Universidade de Moscou, a população
humana é um volume de biomassa que no conjunto do planeta consome
alimentos, utiliza elementos da superfície terrestre e da atmosfera,
origina resíduo, necessita aquecer-se e reproduzir-se como qualquer
outro ser vivo. Também, o homem necessita viver em sociedade, o que
dá origem a uma série de "produtos sociais" como prédios para moradia,
negócios, comércios, comunicações, povoados, cidades, metrópoles, etc.
Nessa escola, começam a ser introduzidos índices quantitativos para os
modelos matemáticos das paisagens; desenvolve-se a cartografia de
unidades de paisagem, a planificação territorial e a gestão dos recursos
naturais.
A Escola Soviética introduz parâmetros que contribuem para a
interpretação da paisagem:
• determinação de índices, "não" à subjetividade, busca-se a
objetividade.
• determinação da relevância superficial (fenologia) das paisagens para
poder comparar uma com a outra e estabelecer uma cartografia.
• A paisagem segundo a escola quantitativista deve ser "matematizada"
ou seja, reduzida a índices, unidades, para que se possa ter uma
ciência.
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A adoção/introdução dos índices permite:
a representação das paisagens em cartografias;
delimitar as unidades de paisagem ( complexos ou estruturas físicas,
naturais):
definir claramente as paisagens (por meio de unidades)
Na representação cartográfica aparece um problema que é
estabelecer os limites das unidades de paisagem. Para se fazer
comparação tem-se que identificar elementos que permitem diferenciar
unidades. Deve-se reduzir também ao máximo as zonas de transição,
com estabelecimento de um limite umbral.
Escola anglosaxônica
As contribuições teóricas dessa escola foram fundamentais para uma
segunda fase na formação da ciência da paisagem, considerando ainda
que recebeu influências das escolas alemãs e russas.
Ch. Smits introduz a teoria do "holismo" fundamental para se entender o
conceito de integração da paisagem.
Do mundo anglosaxão provém ainda, colaborações dos fundadores da
ecologia, com destaque para o alemão Haekel; e do conceito de
ecosistema, proposto pelo biólogo inglês A.G. Tausley, de Geoecologia
de Troll e de geosistema de Sochava, dentre outros.
Estes conceitos contribuíram na elaboração da teoria da paisagem
integrada, de complicação crescente em função das relações existentes
entre matéria viva, matéria inerte e matéria pensante.
Os propósitos procedentes da ecologia determinam o tipo e a aplicação
dos estudos. Se os estudos estão influenciados pela ecologia, o objetivo
final então é determinar o estado (condição) dessas paisagens e, a partir
daí, aplicar medidas de conservação.
Também, determinar a relevância da ação humana no dinamismo dessas
paisagens.
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Atualmente, os países anglosaxões trabalham com o estudo global do
território, em duas linhas fundamentais em relação ao uso do solo:
para obtenção de produtos agrícolas ou florestais
para obtenção de bens estéticos, necessários ao equilíbrio
psicológico do homem - (paisagens).
Escola Francesa
Desenvolvida na cidade de Tolouse.
Tem muito claro este precedente: o homem tem um papel central na
paisagem e o objetivo final de um estudo é verificar a evolução da
mesma.
Existe uma taxonomia própria e a definição de uma paisagem depende
da escala adotada.
Basicamente tem seguido as diretrizes holandesas e soviéticas, mas, no
entanto, com contribuições próprias do ponto de vista metodológico.
Definição de paisagem por uma equipe da Universidade de Toulouse,
chefiada pelo prof. G. Bertrand (1968):
"Paisagem é uma porção de espaço caracterizado por um tipo de
combinação dinâmica e, por conseguinte instável, de elementos
geográficos diferenciados - físicos, biológicos e antrópicos - que ao
atuar dialeticamente uns sobre os outros, fazem da paisagem um
conjunto geográfico indissociável e que evolui em bloco, tanto sob o
efeito das interações entre os elementos que o constituem, como sob
o efeito da dinâmica própria de cada um dos elementos considerados
separadamente.
Esta definição corresponde ao conceito atual de "Sistema", com unidades
complexas de paisagem, em 3 níveis:
• o meio físico
• os ecossistemas
• a intervenção humana,
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Tudo isso com uma perspectiva dinâmica em graus diferentes de
evolução.
O edafólogo Bertrand estabelece uma taxonomia, na qual as unidades
fundamentais de paisagem são de menor ou maior tamanho, como a
seguir:
Geótopo que pode alcançar uns poucos m
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, correspondendo a
uma área ocupada por um microclima (no sentido em que os
ecólogos dão a este conceito), um nicho ecológico e/ou uma
forma de micromodelador.
Geofacies é a unidade seguinte e pode abranger centos ou
milhares de m
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e sempre com uma fisionomia homogênea
(correspondente a uma vertente, uma cubeta???? de inundação
ou um pequeno vale, sempre que esteja ocupado pôr uma
formação homogênea, a litologia no entanto, pode ser variada.
Geosistema - pode estender-se de 10 a 100 Km
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e reúne as
diferentes geofácies de todo o setor, corresponde a uma área de
exploração e pôr conseguinte, está sujeita à ação dos impactos
humanos. Pode corresponder também a um amplo território
natural.
As Escolas Ibéricas
Na Península Ibérica existem vários centros universitários que têm se
aprofundado na problemática da paisagem.
• O precursor foi o Dr. Manuel de Terán, segundo o qual a desagregação
e a pluralidade de disciplinas produzidas por uma marcada tendência à
especialização, superando às vezes, o interesse pelas interconexões
existentes, pode levar ao desconhecimento da realidade. O real na
superfície terrestre não é a forma do relevo, as características
climáticas que nele atuam, seu revestimento vegetal e tudo aquilo que
o afã (desejo) e o trabalho do homem insere/ acrescenta; o real é a
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conexão que uma coisa estabelece com outra; a dependência que se
estabelece entre elas.
Outras Escolas
Romênia - com uma grande tradição no estudo de paisagens.
Canadá- Universidade de Seerbroke o prof. Bonn estuda o problema
da interdisciplinaridade, chegando a conclusão de que os diferentes
ramos científicos não alcançam e nem estabelecem os nexos
e relações existentes na realidade.