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Público • Quarta-feira 9 Dezembro 2009 • 35

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Bartoon Luís Afonso

Cabazes nunca mais

N
a espampanante PÚBLICA desta semana havia
muitas coisas boas. Uma delas foi a proeza de
Alexandra Prado Coelho (A.P.C.), ao achar e
dizer, com leveza e propósito, coisas interes-
santes sobre os natais portugueses.
O maior horror, para mim, foi a lembrança e a ima-
Miguel gem do Cabaz do Natal. É extraordinário ter havido uma
Esteves época em que os portugueses começavam a pagar uma
coisa nove meses antes de recebê-la. Hoje é ao contrário:
Cardoso compra-se uma coisa e só se começa a pagá-la nove meses
Ainda depois. A.P.C. descortina na imagem um saco de água
ontem quente e especula tratar-se do “brinde para o marido”.
Quando parei de rir, também me pus a estudar o conteúdo
do cabaz. Os sorrisos da família são ambíguos. Se calhar
estavam a pensar: “Foi por esta merda que esperámos
nove meses?” É chocante verificar que os produtos eram
pouco portugueses. Mais parece um cabaz americano. Ao
centro está o puré de batata em pó, rodeado por enlata-
dos sem fim (incluindo maçãs e outras frutas raras entre
nós). Há uma embalagem de uma substância chamada
fortifex, escrito assim, à moderna, sem maiúscula. E uma
munheca de encostar, incapaz de se pôr em pé.
De Natal português, o cabaz está isento. Só o vinho do
Porto. Bacalhau? Não. Mas duas latas de atum Toneca,
isso sim. Assim se imagina a consoada: atum com puré
ou então salsichas com puré, rematadas com bolachas
Butter Cake, Brandy 34 e um Nescafezinho.
Isto em 1966, em plena longa noite fascista. Mas como
é que o Estado Novo deixou passar esta vergonha?

A grande causa da nossa fragilidade reside na desigualdade social e económica entre os cidadãos

Portugal de cócoras

S
into-me soçobrado como nunca me senti. Olho os nossos filhos e netos nascem aqui e são eles que nos têm a lata de considerar a educação e a formação como
para dentro e para fora para tentar compreen- importam, antes dos outros. São eles que vemos arrastar, “elementos-chave da renovada agenda social para as
der. Do olhar para dentro reservo as leituras, ano após ano, sem futuro, manipulados por quem lhes oportunidades, acesso e solidariedade”? De que falam?
naturalmente. Do olhar para fora partilho con- diz que se devem predispor para servir uma sociedade De que oportunidades? De que agenda social?
vosco as perplexidades. de mercado mais competitiva, que os torna infelizes Tenho soluções para a Escola, que não é esta Escola.
O acto final do Tratado de Lisboa reconduziu-me à como pessoas e lhes oferece a emigração como alter- Não tenho soluções para o país, mas sei que por aqui nos
Estratégia de Lisboa. Lembram-se da Estratégia de Lis- nativa. Formação ao longo da vida, formação em cima afundamos. Sinto-me por isso a soçobrar, como nunca
boa? Lembramo-nos de poucas coisas. Esquecemo-nos
Santana de formação? Para quê? Para que as pessoas compreen- me senti. Precisamos de refundar a Escola e precisamos
rapidamente de muitas coisas. É a isto que nos conduz a Castilho dam melhor o universo que as rodeia? Para apurarem a de refundar o regime e os partidos políticos. Precisamos
efemeridade que os tempos modernos cultivam. sensibilidade como humanos? Para apreciarem a beleza de uma estratégia para o país. Se não puxarmos todos
Os dirigentes da Europa reuniram-se em Lisboa, do que resta? Para aprenderem a ser solidários? Não! para o mesmo lado, iremos todos ao fundo.
em Março de 2000, e definiram vários objectivos a Para responderem às solicitações do dinheiro. Quem é O dinheiro não é mercadoria, mas encaram-no como
serem atingidos até 2010, visando tornar a Europa na a OCDE para perorar sobre o processo formativo dos tal, num frenesim de busca de lucro fácil, servido pela
realidade económica mais competitiva do mundo. A nossos filhos? Que sabe ela de pessoas autónomas? Sa- liberalização selvagem que nos conduziu à crise imen-
educação e a formação ocupavam boa parte dos pro- be de pessoas servis. Julga saber de números e fala do sa que arrastou tudo e todos. Porque ultrapassámos
pósitos. Chegados ao momento da verdade, 2010 está êxito na ponta de resultados sem significado, como se há muito o meio milhão de desempregados, porque é
aí, tudo falhado. Desolador! Palavras, propósitos atrás a felicidade dos povos fosse da exclusiva dependência evidente que mais formação não resolve o problema de
de propósitos incumpridos. E que propósitos são os da produtividade de quem trabalha. E a produtivida- quem tem fome e não tem trabalho, olhemos antes para
da geração que governa? Tudo orientar para de do capital? E a produtividade de quem manda, dos as desigualdades e para a exploração que cresceram
conseguir uma comunidade económica mais O dinheiro não é empresários e dos políticos? Ciclo após ciclo falhado, exponencialmente nos últimos anos. Não são pobres
competitiva? Onde fica o homem integral? Pa- o discurso retorna inevitável, como agora: diminuir sa- apenas os velhos e os que não têm trabalho. São pobres,
ra que serve a Escola? Para preparar pessoas
mercadoria, mas lários e aumentar impostos. Os mesmos que erraram também, os 140 mil assalariados que recebem menos de
ou simples instrumentos de uma economia encaram-no continuam nos postos e os arautos das soluções não 310 euros mensais e quase metade dos trabalhadores
global, desumanizada, injusta, egoísta, que lhes pedem contas. Branqueiam a incompetência com por conta de outrem, que se ficam abaixo dos 600 eu-
nem os seus miseráveis propósitos, mera- como tal, num o pragmatismo de quem está bem e passa bem sobre os ros. A santíssima OCDE bem nos lembra que em todos
mente instrumentais e consumistas, conse- frenesim de busca sacrifícios dos outros. os países que a compõem apenas a Turquia e o México
gue realizar? Que independência é a nossa? Os dados esmagam: 146 mil licenciados, pagos por nos superam. Termos em que é tempo de reconhecer
Quem comanda os destinos do nosso siste- de lucro fácil, servido todos nós e formados nas nossas universidades, deman- que o problema não é de mais formação. A grande causa
ma de ensino? Agências económicas globais, daram o estrangeiro e fazem parte dos 15 por cento dos da nossa fragilidade reside na desigualdade social e eco-
orientadas para resultados económicos, que
pela liberalização portugueses mais qualificados que tiveram que ir viver nómica entre os cidadãos. Sem a diminuir não teremos
desprezam as pessoas. selvagem que nos lá para fora. Dito doutro modo, em cada mês que pas- maior número de bens tangíveis a preços competitivos
Portugal não define as suas políticas edu- sa, 100 portugueses licenciados compram bilhete sem vendidos no estrangeiro. Sem a diminuir não consegui-
cativas. Portugal está de cócoras frente aos conduziu à crise regresso, para se furtarem ao número aterrador dos remos os consensos sociais indispensáveis ao aumento
senhores do dinheiro. Não está só, é certo. O imensa que arrastou 44.700 colegas que sobrevivem a fazer trocos nas cai- da produtividade. Sem substituir políticas e políticos
fenómeno repete-se, globalizado, nas socieda- xas registadoras ou a debitar cassetes nos call centers. soçobramos. É tempo de acordar e agir. Professor do
des do chamado Ocidente desenvolvido. Mas tudo e todos Será que os arautos da formação ao longo da vida man- ensino superior. s.castilho@netcabo.pt