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Agradecimentos

Aos vizinhos de Dete, pelo repasse de


detalhes fundamentais para contar a historia;
Aos familiares de Mayckon, pela bela conversa
regada a bolo de chocolate e muitas perguntas;
Aos meus companheiros de trabalho, por tantas releituras prévias
e as incansáveis correções tão necessárias;
À minha família, que compreendeu as dificuldades
e os estresses tantas madrugadas adentro.
Apresentação

Uma costureira dedicada e querida pelos vizinhos é morta em casa, no início da madrugada. O assassino
é o próprio sobrinho, sob o efeito da abstinência de crack. A família se divide entre defendê-lo e
proteger a memória da mulher solteira. Toda a comunidade de Cordeiros ficou chocada com o caso que
aconteceu terceiro dia da primavera de 2006.

Descrever os golpes de uma faca de cozinha sobre o corpo de Maria Odete Bacca é uma experiência
cruel. Mas não chega próximo da realidade que cometeu Mayckon Carlos de Borba, que recentemente
havia completado 18 anos de idade. O sobrinho de Dete – mimado quando pequeno – tinha direito a um
quarto na casa 581 da Rua Laudelina Dionísio para que ele usasse quando necessário.

Dois anos depois do crime e dois meses depois do julgamento, nasce A Casa 581, um relato de
jornalismo literário sobre o caso. O exercício de narrar a história de vida de um jovem viciado em crack
é a tradução impressa do pedido desesperado de uma sociedade que pede socorro para resolver um
problema de segurança pública.
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Cada cabeça, uma sentença

A casa 581 da Rua Laudelina Dionísio, em Cordeiros, Itajaí, ficou trancada por três meses após a morte
de seu único morador. O jardim que a dona da casa fez em frente a residência secou. As plantas
guardadas dentro de casa, a maioria de comigo-ninguém-pode, ficaram com as folhas amareladas e
caídas, desidratadas. Essas eram as únicas marcas de que não havia mais ninguém para cuidar de tudo.
A tela de arame, colocada na grade externa da residência, ainda era nova e fora colocada pelo irmão da
moradora, mas já não havia mais nenhum cachorro para deter a fuga. Escapou no meio da confusão.

A construção já estava bem diferente em relação ao mês de agosto de 1989. Quando ali chegou, para
ocupar a casa que era da família, a mulher tratou de ajeitar logo os móveis para que o lugar tomasse
forma de lar. O espaço que ganhou mais atenção nos 17 anos seguintes foi o jardim. A terra,
constantemente adubada e sempre revolvida, ajudava a fazer florescer qualquer planta que ali fosse
semeada e cultivada.

A construção é simples e de piso térreo. As duas janelas da frente iluminam a sala de visitas e o quarto
principal da casa, que são interligados por uma porta de madeira simples. O quarto principal tem pouca
mobília, apenas uma cama de casal, um armário guarda-roupas e uma cômoda, com a televisão sobre
ela. Saindo da sala, entra-se corredor. À direita, fica o banheiro da casa, de paredes cobertas por
azulejos brancos. Não há box e apenas uma cortina plástica divide a área de banho do sanitário. À
esquerda fica o quarto de hóspedes, quase sempre ocupado pelo sobrinho. Uma cama de solteiro e ao
lado outro armário. Numa construção anexa, feita anos depois, um quarto de costura foi improvisado.
Atrás da casa, estava instalada a lavanderia da casa, um pequeno tanque de fibra e uma máquina. A
moradora havia comprado há cinco anos uma motoneta para facilitar seu deslocamento até o trabalho ou
aos cultos semanais da Igreja. A proprietária da casa tratava o veículo com o mesmo capricho que tinha
pelo jardim, e o guardava no mesmo rancho em que ficava a lavanderia da casa.

Lourdes Maria de Almeida é risonha e falante. Seus cabelos são negros e revoltos, compridos até a
altura dos ombros, embora não se perceba por estarem sempre amarrados para trás por um elástico. A
testa franzida e vincada e a pele sobrando abaixo do queixo são as marcas de uma idade que ela não
revela. O relógio dourado que usa no pulso esquerdo ganhou do marido por ocasião de seu aniversário
há cinco anos. A marca do casamento é dourada e fina, e segue no dedo anular da mesma mão que o
relógio desde a cerimônia do enlace e saiu dali pouquíssimas vezes, ela jura. Vizinha da frente da casa
581, Lourdes prefere não lembrar o que aconteceu na noite de 23 de setembro de 2006.

Casada com o corintiano Amauri há vinte e cinco, Isabel Souza tem 53 anos de idade. Naquela noite, o
casal recebia amigos, como acontecia quinzenalmente, para um churrasco e carteado. Os quatro filhos
dela, Rodrigo, Alexandre, Juçara e Fernando – o único casado – não estavam em casa quando a carne e
a cerveja; eram pouco mais de 22h daquele sábado. Alexandre havia ido levar a namorada para casa e
Juçara, acompanhada do namorado, fora passear em Balneário Camboriú ainda pela manhã, avisando
que não tinha certeza da hora que voltaria. Fernando não aparecia na casa dos pais desde o mês de
agosto. Rodrigo foi o único que acompanhou as visitas e os pais durante os jogos de carta naquela noite,
mas saiu para levar a namorada para dar uma volta e depois levá-la até sua casa, o que aconteceria por
volta de duas horas da manhã. Quando todos os amigos se despediram, Isabel arrumou algumas louças e
os apetrechos do churrasco no espaço que há nos fundos da casa. Foi se deitar. Dona de cabelos loiros
curtos, que quase alcançam os olhos azuis se não fossem os óculos de armação quadrada e acinzentada,
Isabel fica arrepiada quando se lembra daquela noite.

Reticente em relembrar o que aconteceu naquele sábado, Maria Regina Pereira ou Rê – como os
vizinhos a chamam – limita-se a dizer que tinha ido viajar para Jaraguá do Sul, no norte do estado, para
acompanhar o nascimento da primeira neta, o que aconteceria no domingo. Seus dois cachorros poodles
latiram durante muito tempo naquela noite, assim como os de toda a vizinhança. Rê não viu um jovem
entrando na casa da tia, nem a discussão que houve entre eles. Tampouco acompanhou a movimentação
policial em frente a sua casa ou o carro do Instituto Médico Legal coletar um corpo numa espécie de
banheira esmaltada branca com manchas vermelhas de sangue.

Foram onze anos que Lourdes Maria ficou tentando converter a vizinha ao evangelismo. Mas foi outra
mulher que conseguiu o feito. “Acho que foi a Zenaide, de Camboriú, que levou ela pra igreja, sabe”.
Antes disso, em 1978, ela e o marido, vieram morar naquela casa. De origem rural, Lourdes Maria
estava acostumada a acordar cedo na comunidade de Rio do Meio, também em Itajaí, para ordenhar as
vacas do pai. Hoje, ela é mãe de um casal evangélico como os pais. A mulher de 27 anos trabalha no
comércio, no centro da cidade, é solteira. O rapaz é Gilielson, tem 19 anos, usa óculos, tem espinhas no
rosto, e sempre foi a referência para a moradora da casa 581 daquela rua. “O Gili tinha cinco meses
quando ela veio morar aqui. Então, ela sempre perguntava a idade dele pra sabê há quanto tempo
morava aqui no bairro”. Os dois filhos moram com Lourdes e o marido, na pequena casa.

A Rua Laudelina Dionísio é mais uma das vias de Itajaí, calçadas por poliedros feitos de pedras
retiradas dos morros nas cidades vizinhas. Sinuosa, olhando do portão da casa 581, a terceira da quadra,
é impossível de se ver o local em que ela começa. o cotidiano fez com que o segundo nome dela, Maria,
fosse esquecido pelos populares. O nome correto da senhora itajaiense, casada com Jorge de Freitas,
com quem teve Jorge da Silva Dionísio não consta nem mesmo nas placas de esquina ou na
documentação da Prefeitura.

Todas as famílias costumam criar cachorros, pelo menos dois. E quanto mais raivosos e de maior porte,
melhor. Distantes de qualquer base policial, essa é a maneira mais simples que os donos das casas
simples têm para se proteger dos bandidos. Outra forma é pagar uma mensalidade para guardas
particulares que rondam as ruas todas as noites. Embora ilegais, eles existem e tem estrutura suficiente
para administrar o negócio. E funciona de um modo muito rudimentar. Quem aceita pagar a prestação
recebe um adesivo e a instrução para colar bem na frente da casa. Isso facilita a visão do vigia noturno.
Ao passar por uma casa com a identificação, ele soa um apito.

O que mais há naquelas redondezas são os salões de beleza, bares e mercearias pequenos e Igrejas.
Aliás, muito mais salas alugadas para comunidades evangélicas, igrejas, templos, santuários de oração e
outras denominações do que há em qualquer outra parte da cidade. Há praticamente um local desses em
cada quatro quadras. É como se houvesse um cerco dos evangélicos sobre os católicos. A sede da
Paróquia São Cristovão, ligada a Arquidiocese de Florianópolis, fica na Avenida Odílio Garcia e ali está
desde 1959, quando o Bispo Dom Afonso Niehues decretou que a capela desse lugar à paróquia. Em
retribuição, a comunidade pediu aos governantes municipais da época que batizassem o colégio ao lado
da Igreja com o nome do bispo. E assim foi feito.

A maioria dos atuais moradores estudou ali, por ser a opção de escola mais próxima. Inclusive Andréia
Moretoni. A moça tinha 24 anos de idade na época do crime e mora na Rua Laudelina Dionísio, na
esquina com a Rua São Paulo. Evangélica e comerciária, a jovem freqüentava a Igreja Renascer todos
os sábados. De estrutura maior que o Lar Brasileiro, os cultos aconteciam próximo ao Centro
Comunitário. Quem freqüentemente lhe acompanhava até sua residência era Everson Felizardo. O rapaz
mora há mais de um quilômetro e meio dali, mas faz questão de acompanhar Andréia, pois os cultos
sempre terminavam tarde da noite. “Onde é que já se viu deixa uma moça andar sozinha àquela hora
da noite. Não me custa acompanha ela, né. E depois, pra casa eu vou com a companhia de Deus, que
me protege”.
Quem também estudou na Escola com nome de religioso foi Thiago Yagi de Borba. Filho único de
Aparecida Rosete Yagi e Zilton Carlos de Borba – irmão de Marcos Carlos de Borba, ele guarda as suas
fotos e da família que não existe mais em uma caixa de sapatos tamanho 36, feita de papelão. O pai é tio
de Mayckon, mas separou-se de Aparecida, a Zete para viver com outra família tempo depois. A mulher
de bom vocabulário não se resignou. Foi procurar emprego e sustentar a casa e o filho.

Thiago usa óculos de grau para melhorar a visão dos olhos verdes; as costeletas e os cabelos castanhos
escuros e lisos, cortados da mesma maneira desde que entrou na adolescência, ajudam a moldurar um
rosto marcado pelas espinhas. Tem dentes grandes e pontiagudos e a saliva acumula nos cantos da boca
quando fala. O jovem sempre faz gestos firmes, características de quem aprendeu a cuidar da própria
vida ainda cedo e costuma falar com o dedo indicador da mão direita em riste. Thiago era a pessoa com
quem Mayckon mais conversava, embora não compartilhasse das descobertas de puberdade do primo,
quatro anos mais novo, embora mais corpulento que ele.

Na comunidade do Costa Cavalcanti, muitas senhoras já conheciam a fama de Maria Odete. “Uma
costureira de mão cheia”, diriam os vizinhos na manhã do dia 24. Além de dar aulas no Centro
Comunitário do bairro, Dete costurava para a vizinhança, quase sempre cobrando apenas os materiais
que gastava. Católica por 43 anos, ela começou a freqüentar a Igreja Evangélica Lar Brasileiro
esperando a tão prometida salvação que o pastor teimava em bradar em todos os cultos. Não para ela,
mas na esperança de resgatar o sobrinho do universo das drogas. A mulher tinha 52 anos de idade e
sempre solteira, cuidava dos afazeres domésticos, das aulas de corte e costura e da Igreja. A conversão
tornou Dete uma pessoa mais retraída e despojada das maquiagens carregadas que usava ate então. Por
nunca ter se casado, descontava todo o carinho nos sobrinhos e irmãos, alguns que sempre a visitavam.
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De pequenino é que se torce o pepino

Até hoje, quem olha do início da Rua Pará, não enxerga a curva que ela faz no final e nem tem idéia que
a servidão desemboca em um pequeno campo de futebol. Um terreno que mede pouco mais de 12
metros em cada um dos lados, cobertos por uma grama sempre verde, e protegido por uma tela de fios
plásticos trançados como barbantes, que chegam a quatro metros de altura. Há três suportes em cada
face do quadrado que o gramado desenha. No alto de cada um deles, um pequeno reservatório de
alumínio abriga uma lâmpada de halogênio de 250 watts. A garantia para a diversão preferida dos
meninos da redondeza mesmo quando já anoitecia.

A última casa antes da curva é de número 438, justamente onde a família Borba habitou por doze anos.
Até que a família se dissolveu. Lá viveram os irmãos Mayckon e Rodrigo, dois anos mais velho que o
primeiro, acompanhados de Virgínia Bacca e Marcos Carlos de Borba. A casa era simples, construída
em alvenaria e de um único piso. O telhado, dividido ao meio desenhava um ângulo de 155 graus,
coberto por telhas longas e espessas. Junto com mais dois homens, foi o próprio Marcos quem as
instalou, pregou e fez toda a armação em madeira que a sustentou por exatos quinze anos.

Ele fazia alguns poucos serviços em casa e a colocação das telhas foi o trabalho de maior vulto feito na
residência. Isso porque Marcos era caminhoneiro e transportava carga congelada para o sudeste do país,
a mando de uma empresa da cidade. Ficava pouco tempo em casa. Dizia que não poderia se dar ao luxo
de negar serviço. Depois da viagem e a volta para a esposa e os filhos, ele realizava uma peregrinação
por vários botequins do bairro.
Marcos trabalhava em torno de 20 dias por mês e só aparecia em casa ao fim da longa jornada. Tomava
um banho, trocava de camisa, beijava a esposa e ia para o bar que ainda fica no fim da rua, quase em
frente a escola em que os filhos estudaram. De lá só saía após engolir o último gole da garrafa de
cerveja que lhe era servida.

São poucas quadras que separam a casa em que a família de Virgínia morava da de Aparecida, ou Zete,
como chamava a família. E lá, Mayckon esteve poucas vezes e sempre passando pouco tempo. Na
primeira vez que o rapaz visitou a casa da tia, tinha 10 anos de idade. Depois de Zete lhe confidenciar
que suspeitava que o pedreiro houvesse quebrado o lustre novo da sala durante a pintura do cômodo, o
garoto acusou o pobre inocente, que acabou sem jeito e terminou o serviço antes do previsto. A tia ainda
guarda características daquela época, em que o sobrinho era brincalhão e de riso fácil, o que daria lugar
a uma pessoa fechada emocionalmente na adolescência.

Os anos de convivência com um marido alcoólatra fez de Virgínia uma mulher preocupada sempre com
os filhos. Era ela quem tinha de matriculá-los todos os anos na Escola Básica Elisabeth Konder Reis,
distante apenas 400 metros da casa da família. Quando ela visitava os parentes, sempre carregava
Rodrigo e Mayckon numa bicicleta. A casa da irmã Odete era o destino preferido, tanto por ser a mais
próxima quanto por ser com quem ela se dava melhor. Os três visitavam Dete quinzenalmente, sempre
ficando pelo menos a tarde inteira e saindo de lá ao anoitecer, depois de um pirão d água com lingüiça
frita, o prato predileto da anfitriã. Iguaria típica das regiões litorâneas de Santa Catarina, o pirão nada
mais é do que farinha de mandioca cozida em água quase fervendo. Para o acompanhamento, Dete
fritava lingüiça mista, comprada nas redondezas, geralmente na mercearia de dona Iris, onde tinha uma
ficha para comprar fiado e pagar no fim do mês.

Como transporte, a família usava uma bicicleta comprada por Zete quando Mayckon nasceu. Rodrigo ia
sempre sentado no bagageiro e o mais novo na cadeira plástica para bebê. As vizinhas de Odete
gostavam muito de ver Mayckon. “Ele era tão bonito, com aquela roupinha sempre arrumada e com
cara de saudável, sabe”, diria Lourdes Maria, numa lembrança nostálgica da década de 1980.

Foi a bebida e a vida independente que Virgínia tinha em relação ao marido que a fizeram perceber que
não vivia mais feliz com ele. Foram necessários quase 10 anos nessa rotina para que Marcos e ela se
divorciassem. Quando os documentos sacramentaram o que já acontecia de fato há algum tempo, os
dois estavam morando em casas separadas. Marcos casou-se novamente, mas não continuou a procurar
os filhos. Já Virgínia foi morar junto com Zete, em 2001, e depois disso, mudou-se para outra casa, mais
próxima dos irmãos, na área rural de Itajaí. Os filhos foram com ela.

Foi neste ano que Zete e Zilton voltaram do Japão, onde haviam passado cinco anos. Tinham o objetivo
de juntar dinheiro para construir a casa atual. Thiago ainda era criança na época da viagem e por isso foi
morar com a avó na cidade de Penha, no litoral norte do estado, distante 40 km. Quando completou 10
anos, foi para Santos, em São Paulo, morar com a tia materna. Assim que os pais voltaram, ergueram
uma casa no mesmo terreno da antiga. A casa é simples, mas bem aconchegante, graças aos toques que
a esposa de Thiago foi conferindo ao local, com o passar do tempo.

Uma das poucas lembranças felizes e agradáveis da infância de Mayckon é a festa de aniversário de 10
anos, em 1998. A festa aconteceu no dia seguinte, um sábado de sol, típico de verão. A família já não
estava bem e Virgínia levou os filhos para passarem as férias na casa da mãe de Zete, na Penha. Por
isso, a festa foi tímida e aconteceu na varanda da casa. Sobre a comprida mesa, que só era usada em
almoços de domingo em família, foi coberta pela toalha xadrez. Sobre ela, um pequeno bolo de
chocolate com confeito granulado, gelatinas coloridas servidas em copinhos plásticos e um belo pudim
de leite, especialidade da irmã de Zete, além de três garrafas de refrigerante de laranja. Os pratos
salgados como um empadão de camarão e os canudinhos recheados de maionese – que as crianças
faziam cara feia – sobraram e acabaram servindo de complemento para o almoço de domingo.

Ao entrar na adolescência, Mayckon começou a conhecer pessoas que mudariam sua vida. Algumas
meninas lhe foram apresentadas. Umas bonitas, algumas com quem ele desejou ficar por muito tempo.
Mayckon também foi apresentado pelos amigos de futebol a outro mundo. Começou a copiar as ações
do pai e beber cerveja ou fumar cigarro, comprados escondidos, mas com o tempo, isso já não tinha
mais a mesma emoção. Depois do tabaco, veio a maconha. O cheiro durante a queima lhe deslumbrava.
Um misto de prazer e dormência lhe chegava à mente. E tudo tão rápido que ele precisava de mais uma
tragada, ou melhor, “uma bolinha”.

Nos becos e cantos mal iluminados, ele aprendeu a separar a erva das sementes e galhos, usados para
dar peso e o traficante lucrar com isso. Depois de selecionar o que vale a pena, vem a “esmurrugação”,
o simples ato de desamassar a erva que está prensada, para fazê-la ganhar volume. Depois disso é só
enrolar no papel de pão, no papel seda ou no plástico. A seda, da marca Itacolomy, era a mais usada por
Mayckon e seus amigos. Custando menos de R$ 1,00, o pacote vem com dez folhas de seda branca, o
que era suficiente apenas para uma tarde de futebol com amigos.

Ainda aos 14 anos de idade, a experiência com os amigos de futebol e de escola foram dando lugar a
outras “diversões”. A turma diminuiu quando o verde “esmurrugado” cedeu lugar ao risco branquinho.
Tão empedrada quanto a maconha, a cocaína vem em uma “peteca”, um pequeno plástico amarrado com
um nó simples. Ali, um punhado mínimo de pó branco é colocado e revendido aos consumidores. O
preço depende do consumidor e da lei de mercado – a oferta e a procura – que também existe no
comércio de ilícitos.
Para ajudar a soltar o pó, Mayckon usava geralmente um cartão telefônico. Ou melhor, dois. Um servia
de mesa improvisada e o outro pressionava o pó sobre o primeiro, principalmente na época de clima
úmido. Depois disso, outra ferramenta era criada, um canudo plástico. Duas explicações dos mais
experientes foram suficientes para Mayckon aprender a usar apenas uma mão para segurar o cartão
telefônico, tampar uma das narinas com o dedo indicador e, fazendo uma pinça com os dedos polegar e
médio da mesma mão, segurar um pedaço do tubo. Uma leve puxada de ar na mesma direção do pó
branco e a cocaína entrava nas vias respiratórias.

Uma queimação era a primeira sensação. Depois disso, era como se a narina estivesse entupida. De
imediato, Mayckon sentiu-se eufórico, capaz de grandes atos ou demonstrações de força física. O
coração batia descompassado, fazendo os poucos litros de sangue daquele corpo ainda adolescente
circular rapidamente. Mas tudo não durou mais de 40 minutos até que um gosto amargo lhe descesse
pela garganta, e depois a falta de saliva. Veio um atordoamento no cérebro. A leveza do corpo o fez
relaxar tanto que quase não se agüentava em pé. Mesmo cambaleante, segurou-se no muro. As pupilas
dilataram-se.

Quando já nem 10 cigarros da erva por dia faziam efeito, passou para o pó branco, a cocaína, e lá se iam
três a quatro saquinhos por dia – cerca de cinco gramas. Da cocaína para o crack foi um salto. Isto
porque a sensação que o consumo da pedra proporciona é potencializada em relação ao pó. E um velho
companheiro voltou a fazer parte dos apetrechos que Mayckon carregava diariamente, o isqueiro. E
qualquer objeto que se parecesse ou servisse de cachimbo era usado para o deleite do jovem viciado.

Pequenos furtos passaram a fazer parte da vida de Mayckon, em nome da manutenção do hábito. A
família era alvo fácil dele e, por piedade, não registrava as ocorrências. Um dia, a venda de alguns pares
de tênis, uma blusa de moletom e uma televisão lhe renderam algumas pedras de crack a mais do que o
de costume. O sistema nervoso do rapaz não suportou a quantidade, consumida em poucas horas. Por
estar tão agitado, desmaiou. Virgínia não suportava mais tratar o filho em casa. Procurou por uma casa
de recuperação.
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Desgraça pouca é bobagem

Pela primeira vez Mayckon foi internado numa comunidade religiosa para tratar o vício. Foram nove
meses, que começaram em treze de janeiro de dois mil e quatro. A cama, armada em ferro e com
cabeceira arredondada, ficava a esquerda de outra, ocupada por outro jovem. De peito desnudo a maior
parte do tempo, o amigo de dormitório não se desgrudava de três adereços: duas correntes feitas de
barbante de algodão trançado e tingido de marrom – uma delas com um grande T esculpido em madeira
– e uma pulseira feita com sementes cruas de “olho-de-boi”. Lá as pessoas não têm nome, apenas
apelidos, quando muito.

Mayckon tinha sobre sua cabeceira de cama a decoração peculiar a uma casa religiosa, um crucifixo.
Diziam as funcionárias do lugar que a cruz era “pra ajudar a lembrar daquele que já pagou nossos
pecados uma vez”. As janelas, de vidro transparente, estavam constantemente cobertas por uma grossa e
pesada cortina azul escura. Além das duas camas e o crucifixo, um pequeno guarda-roupa,
compartilhado pelos dois, compunha a mobília do ambiente. A arrumação das camas era a primeira
tarefa do dia.

A Comunidade Bethânia fica na cidade de São João Batista, interior do estado, e é cercada de morros e
muito verde, o que ajuda a isolar aqueles que lá ficam. Construções com telhados em duas águas e
telhas compridas, ainda cruas, cercadas de laranjeiras e palmeiras, cortadas por estradas de chão batido,
isso é tudo que se vê do alto de um dos morros da chácara. Na cidade, há um pequeno hospital, que
atende as crises dos internados, embora a estrutura não lhe permita atender mais de dez pessoas
simultaneamente.
Era uma sexta-feira de feriado escolar em todo o país – dia do professor –, quando Mayckon voltou para
casa. A desintoxicação, prometida pelos funcionários do internato religioso, havia acontecido de fato.
Mas a abstinência não duraria mais de dois meses. Ele até conseguiu um emprego de chapa numa
transportadora da cidade para ocupar o tempo ocioso. O salário era gasto em grande parte na compra de
crack, que continuava sendo a sua preferida. No dia 22 de setembro de 2004, sexta-feira também, pediu
um vale ao chefe. Foram R$ 450,00, gastos em uma única boca-de-fumo. Mayckon sacou o cachimbo
que trazia no bolso da jaqueta verde e, ali mesmo, queimou a primeira pedra. A mão direita empunhou o
cachimbo, ajeitou na boca, pediu um isqueiro e acendeu para a primeira tragada. A mão esquerda
protegia do vento que teimava em soprar. O isqueiro dele já estava sem gás, e o que ele usou fora
emprestado pelo dono do lugar, cujo endereço ninguém revela, mas todos conhecem. As demais
“meninas”, jeito carinhoso de tratar os alucinógenos, foram ajeitadas nos bolsos da calça jeans e ele
voltou para casa, pois já estava anoitecendo.

O ônibus que passou pela Rua Domingos Rampelotti às dez e quarenta daquele sábado teve Mayckon
como único passageiro. A linha só transportava mais pessoas durante a semana, quando trabalhadores
utilizavam a linha das seis e meia da manhã. Ele continuava vestido com a calça jeans, onde
transportava suas “meninas”, e a jaqueta verde com capuz, onde guardava o cachimbo e o isqueiro da
mãe, pego de cima da mesa da cozinha na hora da saída. Ele desceu próximo ao bar Kubanacan, o que
levou menos de 40 minutos desde o embarque. Passou pelo lado e foi até uma construção inacabada,
lugar que freqüentava com os amigos. Ali atrás ele passou o restante do dia, entre alucinações e novos
consumos. Vários conhecidos dele por ali passaram. O ponto já era conhecido de todos e Mayckon fora
levado ali pela primeira vez aos quatorze anos, logo após a separação dos pais. A última pedra foi
consumida às onze da noite. A crise veio quinze minutos depois. A garganta amargou e secou; as pontas
dos dedos, de tão dormentes, pareciam não estar ligadas ao restante da mão; fachos de luz passavam de
um lado para o outro. E o sentimento de queda sem fim. Quando o corpo caiu em algum lugar, ele viu
que era falta. Precisava de mais crack. Mais queda, mais dormência, mais luzes, mais secura.

Nos bolsos da calça já não havia mais “meninas” nem dinheiro. E agora? O jeito era conseguir mais
dinheiro. Mas onde? O bar começava a atender, mas roubar dinheiro ali era “sujar” com o ponto, com os
amigos, com o dono da boca. Então o que fazer? A quem pedir dinheiro? Quem o ajudaria às onze da
noite de um sábado? A tia Zete, claro. Ela e o sobrinho eram os familiares em melhores condições
financeiras. E Thiago era amigo de infância, não iria se negar a ajudar Mayckon. O problema era como
pedir dinheiro. Ah, mas isso ele resolveria no caminho, afinal eram quase três quilômetros até chegar à
Rua José Rosa.
Já era quase meia-noite quando Mayckon chamou por Thiago. O primo, que estava casado há poucos
meses com Dalita, assistia tevê em seu quarto junto com a esposa. Ao ouvir seu nome, levantou da
cama, foi até a janela, afastou a cortina e viu apenas um vulto, porque a lâmpada que iluminava o pátio
estava queimada há dois dias e ele ainda não havia trocado. Mas a voz lhe era familiar. Desceu as
escadas sem corrimão e foi abrir a porta. Mayckon já havia ido portão adentro, ao encontro do primo,
que lhe recebeu na cozinha. Mayckon estava agitado, embora não aparentasse ter consumido crack por
mais de dez horas. Ele inventou uma versão que não convenceu nem a si próprio. “Cara, eu tava com
meus camarada lá no posto do Kubanacan, que eu parei pra abastecê a [moto] biz lá e acabou meu
dinheiro. Daí peguei um moto-táxi pra vim aqui e to devendo também. E a galera que ir lá no Armazén.
Tu não tem 27 conto pra me emprestá?” Thiago jurou que não tinha nada além de R$ 10. Mayckon se
levantou, foi até o pé da escada, parou, olhou pro alto e voltou. Começou a ficar nervoso. Dalita,
ouvindo a conversa, desceu pra acompanhar o marido. Mayckon que não gostava da moça, abaixou a
cabeça e saiu de perto dela.

No mesmo instante, Zete chegava do trabalho. Funcionária de um clube de festas da cidade há três anos,
naquele dia tinha ajudado numa festa de comunhão que estava tão animada que os convidados ficaram
além do tempo previsto. Quando entrou, Zete mirou o relógio de parede, que fica sobre a passagem
entre a cozinha e a sala. Faltavam dez minutos para a meia-noite. Viu sobrinho e filho conversando,
nada feliz. Zete relembrava mentalmente todas as histórias que envolviam Mayckon – desde pequenos
furtos até sumiço de eletrodomésticos da mãe e da casa de Zete. Ela fez uma proposta. “Mayckon, eu só
tenho 10 reais aqui. Mas o Thiago vai contigo de moto e paga no cartão a dívida do posto e já saca
mais pra ti”. Ele recusou. A tia reforçou dizendo que não adiantava insistir. Ele foi embora um pouco
agressivo. Na saída, ainda xingou o primo e ficou olhando pra direita, pra esquerda, sem saber para onde
ir. “Filho da puta!”

Naquele mesmo horário, Andréa Moretoni e Everson Felizardo estavam na Igreja Renascer em Cristo, a
700 metros da casa da moça. Lá, o momento era de oração coletiva e fiéis erguiam as mãos uns em
direção aos outros. O prédio fica numa rua movimentada do bairro Cordeiros, próxima a escola em que
Mayckon estudou. A sala é pequena, tem apenas 12 lâmpadas fluorescentes de 100 watts e 80 cadeiras
plásticas brancas. A esquerda do fundo da sala fica uma bateria montada sobre um tapete marrom. Uma
mesa e um púlpito, ambos de madeira logo ao lado, além da caixa amplificadora de som e dois
microfones. Um vaso de flores naturais sempre é deixado na ponta esquerda da mesa, que leva duas
toalhas, uma de renda branca e outra em cetim, azul escuro, colocada em diagonal.

Em outro templo religioso, Lurdes Vigarani, 63 anos, participava de uma vigília no Lar Brasileiro, o
mesmo em que Dete congregava há onze anos, na Rua Pedro Camilo Vicente. Ela está concluindo o
ensino médio e pretende cursar pedagogia. Conhecia Dete por conta de sua amiga de Igreja e xará, que é
vizinha de frente. Lourdes Maria de Almeida é casada com o seu Juarez há 22 anos. Os cabelos, negros
em sua maioria, estão na altura do cotovelo e teimam em não aceitar ficarem trançados, conforme o
costume religioso. Todos se encontrariam em frente a casa 581 da Rua Laudelina Dionísio instantes
depois de uma morte.

Mayckon resolveu procurar a pessoa que mais lhe protegeu durante sua adolescência conturbada: Maria
Odete. Era quase uma hora da manhã. Dete sabia que o sobrinho viria. Logo que ele saiu da casa da tia
Zete, a mulher ligou para Hilda – irmã de Dete – que em seguida ligou para a costureira. A instrução era
clara. “Não deixa entrar. O Mayckon tá drogado, Dete!”. Mas com o jeito turrão que tinha, ela ignorou
os avisos da irmã.

Ao chegar, chamou duas vezes por ela. “Tia! tiaaa!” Ela estava aguardando por ele sentada na cozinha,
apenas de roupão rosa. Dete costumava dormir apenas de calcinha e camiseta de mangas curtas,
exatamente como estava naquela noite. Ela abriu o portão cadeado, permitiu a entrada de Mayckon e
voltou a trancar a entrada. Ao chegarem na cozinha, Dete aproveitou a falta de atenção do sobrinho e
também trancou a porta. Mayckon chegou perto da tia de mansinho, pedindo autorização da tia para
dormir ali. Em seguida pediu dinheiro para ela, que recusou. Mayckon, que já estava sentindo a crise de
abstinência há duas horas, se exaltou com a tia. “Dá o dinheiro, porra!”, de braços abertos. E ela não se
deixou intimidar. “Cala a boca. Prefiro ti vê morto que drogado”. Mayckon avançou em direção a tia.

Dete, numa agilidade impressionante para uma pessoa com 52 anos de idade, agarrou uma faca de
cozinha que estava sobre a mesa de inox da pia. Uma simples faca com cabo plástico cor de creme.
Assustada, tentou navalhar o ar para intimidá-lo, mas Mayckon não recuou. “Sai daqui, rapaz. Sai
daqui!” Ambos giraram e Mayckon ficou agora de costas para a pia. Nova tentativa de afugentar o
sobrinho e Dete acertou o dedo anular da mão esquerda do jovem.

Mayckon, ainda mais raivoso, empurrou a tia, que não conseguiu equilibrar seus 97 quilos sobre as duas
pernas cansadas. Ela caiu com as costas no chão, mas a cabeça ainda bateu sobre a mesa redonda. No
golpe, o vaso de porcelana com flores artificiais caiu sobre a toalha de renda branca e quebrou. Um
novelo de lã azul e duas agulhas de tricô, que Dete usava instantes atrás para fazer um par de sapatos de
bebê, também passearam pela superfície do móvel, caindo no chão; um pedaço do tecido se desenrolou,
deixando o trabalho inacabado. Apenas o pote com as frutas compradas naquela manhã ficou de pé.
Mayckon aproveitou para abrir a gaveta da pia e sacou outra faca.
De uma só investida, ele mirou e acertou o pescoço da mulher que lhe mimava quando criança. A força
foi grande, capaz de enterrar vinte centímetros de lamina de aço nas carnes de Dete. Na tentativa de tirar
a faca do pescoço, o cabo preto respondeu aos empuxos e ficou nas mãos de Mayckon, mas se
desprendeu da lâmina, que ficou presa na traquéia de Dete. Ao tentar puxar com as mãos, uma sensação
de dor deveria lhe lembrar que ele segurava com força no fio da faca, mas um leve corte foi tudo o que
ficou e o que faria lhe lembrar do episodio, dias depois.

Quando conseguiu retirar o metal do pescoço da tia, Mayckon o largou ali mesmo, do lado dela. O
sangue escorria e chegava a nuca da costureira. Não eram pingos, mas um leve fio do liquido vermelho
que se encerrava no chão, onde uma poça já se formava. Tomado pela falta das substâncias tóxicas,
Mayckon sacou mais duas facas da gaveta, uma de cabo azul, com dezessete centímetros de lâmina, e a
outra de cabo marrom, uma polegada maior que a anterior. A ordem dos talheres foi mexida. Dete, que
era tão caprichosa com seus apetrechos, ficaria muito brava com o estado em que ficou a cozinha.

Empunhando uma faca em cada mão, ele começou a golpear o alto do peito de Dete. Marcas rasas iam
se formando, sem nenhuma ordem. Cada vez que as facas atingiam o corpo dela e saíam, o sangue
respingava, tingindo pingos vermelhos por todo o cômodo. Sobre as duas banquetas de madeira, gotas
de sangue que vinham da costureira. Os dois calendários de parede, um sobreposto ao outro, também
ficaram marcados, assim como um rastro na parede branca, já encarunchada pela umidade e infiltração
que vinha do banheiro ao lado. O dia 24 de setembro estava marcado em vermelho pela gráfica por ser
um domingo.

Descontrolado, Mayckon ainda virou o corpo agonizante de Dete, deixando-a de cara com o chão gélido
do piso cerâmico marrom, agora já bicolor. Sentou-se sobre as costas da tia como um cavaleiro sobre o
animal, e com a faca marrom, empunhada na mão direita, mirou no alto das costas, próximo da coluna.
Um... dois... três... quatro golpes. A raiva crescia a cada furo que o metal fazia sobre a carne. O roupão
rosa, felpudo e delicado, ficou rasgado e tão vermelho quanto os móveis. Levantou-se rápido, e com os
braços pendentes, se deu conta do que tinha feito. Depois da insanidade momentânea, a lucidez.
Mayckon percebeu que tinha avançado sobre a tia por uma negativa dela em lhe dar dinheiro para
comprar crack. O cabo azul do talher estava melado do líquido rubro viscoso e da ponta torta da lâmina
gotas escorriam e caíam em direção ao solo. O fogão quatro bocas, com a tampa fechada, coberto por
uma toalha branca pintada pela própria dona da casa, ficou intocado. Duas chaleiras prateadas
repousavam sobre ele, apenas refletindo de forma borrada toda a cena.

O rapaz ficou nervoso com a cena que ele próprio havia provocado. Uma gaveta aberta até a metade,
uma mesa redonda bagunçada, duas banquetas de madeira caídas, uma delas ao lado da mesa e outra
junto a parede da cozinha. O utensílio que já fora utilizado em muitas refeições entre tia e sobrinho
agora estava sem seu cabo e também largado ao lado do corpo de Maria Odete Bacca.

Mayckon pôs as mãos sobre a testa, puxando os cabelos curtos para trás, fazendo mais pressão na
cabeça do que normalmente. Tentava achar uma solução para a bagunça criminosa. Não vinha nenhum
pensamento em sua cabeça, num oposto a tempestade de sensações, instantes atrás. E o silêncio daquele
lugar era ensurdecedor. Silêncio para ele porque Isabel, a vizinha de Dete lembra-se até hoje dos
cachorros latindo desesperados, como que anunciando o ocorrido. Lourdes também ficou preocupada,
uma vez que não era comum que os cães latissem tanto e à toa.

O rapaz começou a andar pela casa, procurando alguma solução. Apoiou-se na parede e o sinal de mão
suja ficou ali. Foi até o banheiro, acendeu a luz, lavou as mãos avermelhadas, o rosto e encarou-se no
espelho. A marca dos dedos ficou no azulejo. Pensou numa resposta para a situação e nada lhe veio à
mente. Os latidos não cessaram e Mayckon se viu obrigado a se esconder, como a criança assustada que
foi, quando o pai chegava bêbado em casa e lhe batia.

Entrou no quarto da tia. A cama ainda morna tinha apenas um travesseiro grande, recostado sobre a
cabeceira do móvel e dois edredons, um azul escuro e outro amarelado com círculos desenhados em
verde e azul, o que lhe conferia um tom alegre. Estendido ao lado da cama, um tapete feito por Dete em
barbante de algodão cru, ocupando o espaço até o armário de seis portas. Escuro e sóbrio, com linhas
retas, ele se estendia até quase o teto, graças a parte superior, onde ela guardava as roupas de cama e o
material de costura.

Mas o jovem usuário de entorpecentes nem percebeu esses detalhes. Por pânico. Só abriu as portas e viu
que estava cheio. Ali não seria um bom lugar, mas ele não desistiu. Foi até o quarto de visitas, que ele
conhecia tão bem. Neste cômodo não havia cortinas na janela. Um pano com desenhos florais,
pendurado em dois pregos nas extremidades, cobria a abertura. Ainda ocupavam o ambiente uma cama
de solteiro, sempre pronta para receber alguém, um aparelho de som com caixas grandes, típicas dos
anos 80 – um dos primeiros luxos a que Dete se permitiu possuir logo que foi para aquela casa – e um
armário menor que o do quarto dela, com apenas quatro portas. Ali, ela guardava seus sapatos, ainda nas
caixas que vinham de loja, alguns casacos pesados para o já distante inverno e as roupas que não lhe
serviam mais e ficavam à espera de algum pedinte.

Mayckon retirou as caixas de sapatos, jogou-as sobre a cama onde tanto dormira nos últimos tempos e
acomodou-se no pequeno espaço. O cheiro não era dos melhores. Tentou fechar as portas, mas um facho
de luz amarelada teimava em iluminar o esconderijo improvisado. Um pouco de mofo agitado estava no
ar, mas as narinas de Mayckon já não distinguiam mais os odores e ele não se preocupou. O coração
batia em ritmo acelerado e parecia querer saltar pela boca, aberta para facilitar a respiração. Sob as
axilas, gotas de suor se formavam e escorriam, acompanhando a pele quente.
4
Falar é prata, calar é ouro!

Em algumas comunidades, a segurança das casas também é feita através de vigilantes noturnos. Eles
percorrem as ruas em uma bicicleta e, munidos de uma tonfa improvisada com madeira polida e de
pontas arredondadas, apitam ao passar pela frente das casas que têm o adesivo “Casa Protegida por
Segurança Particular”. Os silvos soaram em frente a casa de Isabel, uma das poucas da rua que pagava
os R$ 25 mensais que eram cobrados no décimo dia.

Andréia Moretoni e Everson Felizardo vinham do culto semanal na Igreja Renascer, voltavam no carro
dele. Depois de conversarem sobre o cotidiano ao som de um CD de músicas gospel, o rapaz olhou no
relógio, 01h15 da madrugada. Estava se despedindo dela, quando o vigia, que vinha em direção ao
início da rua estranhou o barulho e as luzes acesas na casa de Dete à uma hora da madrugada, o que era
incomum para aquela senhora solteira que trancava a casa e deixava a casa escura sempre após assistir a
novela das oito. Ele chamou pelo casal e perguntou se eles sabiam o que estava acontecendo, pois
ouvira algumas batidas violentas de portas. Os dois estranharam também e ficaram assustados. Dete
gritava “Sai daqui, rapaz. Sai daqui!”. Everson se mostrou disposto a ver o que acontecia lá dentro.
Com medo, Andréia preferiu chamar a polícia. O vigia subiu na bicicleta, ajeitou a bolsa em que trazia
uma garrafa térmica com café e continuou sua ronda.

A viatura chegou quinze minutos depois, dirigida por Ronilso Vieira Antunes, soldado da Policia
Militar. Os sinalizadores vermelhos no alto do carro estavam ligados, mas em silêncio. Estacionaram na
frente da casa de Andréia, logo atrás do veículo de Everson, que ficou quieto para que Andréia relatasse
o que acontecia. O policial e seus dois companheiros de trabalho, Cidnei Morais, nascido em Paulo
Lopes, no sul de Santa Catarina, e o paulista Graciano Uvo Neto, foram até a frente da residência.
Viram que a grade que cercava a casa estava trancada por um cadeado amarelo, preso a 60 cm de
corrente prateada e coberta por uma mangueira plástica transparente. Chamaram sete vezes por Dona
Dete, sem resposta. Decidiram pular o obstáculo e checar o que acontecia.

Da janela basculante da cozinha, avistaram um corpo caído no chão e a mesa bagunçada. Cidnei pôs a
mão sobre o trinco da porta dos fundos, que dava acesso a cozinha. Trancada. Forçou mas a passagem
continuava impedida. Deu um passo para trás, segurou um braço com o outro, em frente ao corpo, e
num único lance bateu com o ombro direito na porta, que cedeu à força. Os três entraram de arma em
punho. Graciano foi verificar os sinais vitais de Dete. Ela ainda conseguiu sussurrar ao ouvido do
policial que veio transferido de São Paulo, em busca de qualidade de vida melhor. Cuida bem dele. Não
machuca ele.

Cidnei viu as quatro facas sujas de sangue, uma delas com a lâmina quebrada. Passou sobre elas e
acompanhando Ronilso foi vistoriar os cômodos, um a um, como contariam eles ao escrivão policial,
duas horas depois. Foi o catarinense quem entrou no quarto de visitas e abriu a porta do armário.
Escondido, sentado em posição fetal, estava Mayckon Carlos de Borba. A jaqueta verde era também
vermelha agora e o policial teria sentido pena em ver um jovem de 18 anos naquele estado. Mas o
profissionalismo falou mais alto e a pistola PT 940 foi apontada na direção da testa do rapaz. Mayckon
apenas olhou para a ponta do cano de quase 10 cm e sentiu-se acuado. Os olhos marejaram, mas isso
não intimidou o policial, que lhe mandou colocar as mãos na cabeça e sair do armário devagar. Sem
reação, levantou-se e foi empurrado por Cidnei rumo à parede. Graciano veio ajudá-lo, já com as
algemas prateadas em punho. Revistaram Mayckon, mas não acharam nada. Perguntaram o que tinha
acontecido e quem era ele. Sô sobrinho dela, cara. Foi eu, foi eu. O policial não teve dúvidas, o
algemou, mas manteve Mayckon no quarto por alguns instantes.

Motorista da equipe, Ronilso foi até o equipamento de rádio da viatura 9704 e chamou a Central. Pediu
que uma ambulância e o Instituto Médico Legal fossem acionados para recolher um corpo. Dete
agonizava, mas pelas poucas palavras que Graciano havia lhe dito, não haveria muitas chances da
mulher sobreviver. A voz feminina lhe respondeu afirmativamente. Agora era só aguardar até que os
carros chegassem.

A vizinhança, curiosa pelos latidos incansáveis e o movimento na rua sossegada, começaram a espiar
pelas janelas, ainda escondidas atrás das cortinas. Isabel não conseguiu ver nada e decidiu abrir a porta
da sala e ir até o portão. Ao sair, sentiu um arrepio correr-lhe a espinha quando viu um gato andando no
muro que divide sua casa com a de Maria Regina. Fora o filho Rodrigo que contara sobre o tumulto em
frente a casa de Dete. Eram 2h30 de domingo. Assim que começou a se acomodar sobre o portão, Isabel
viu o segundo carro chegar. Era uma ambulância, com as sirenes ligadas e chegando a alta velocidade,
pois o motorista já havia recebido informações da gravidade das lesões. Depois dele vieram outras duas
viaturas da Polícia Militar, uma delas trazendo outros três policiais e o perito criminalístico na outra.
Eles eram o suporte que Graciano havia solicitado para a companheira de farda por rádio.

Não demorou até que o carro do IML também viesse. Dois homens saíram do veículo, já calçando as
luvas plásticas. Lourdes lembra-se de ter visto toda a movimentação. A visão lhe causou um mal estar
de imediato e ficou uma semana sem dormir porque mexeu com ela ver o corpo da vizinha todo
ensangüentado. O marido estava dormindo. Ela também espiou do portão e viu quando os homens
trouxeram o corpo da amiga numa espécie de banheira.

A especulação sobre o que teria acontecido aumentou e os vizinhos mais curiosos começaram a se
aglomerar no meio da rua. Por ser uma via residencial, poucos carros passavam por ali àquela hora e
isso dava liberdade para alguns ficarem distantes o suficiente para não ver detalhes do corpo, mas
próximos o suficiente para ouvir as conversas entre os policiais. As falas apontavam um jovem drogado
e sob efeito de alucinógenos como o responsável pela morte de Dete.

O carro do IML e a ambulância saíram juntos em direção ao centro da cidade, onde fica o Hospital
Marieta Konder Bornhausen, que atende a população de Itajaí e região. Os policiais demoraram mais
dez minutos até que saíssem com Mayckon algemado e de cabeça baixa. Cidnei estava a sua direita e
Graciano a sua esquerda; o último abriu a porta de trás da viatura para acomodar o rapaz, preso em
flagrante. Depois de alojado na viatura, eles voltaram para o interior da casa, para chamar que Ronilso
havia ficado dentro da casa, orientando os policiais sobre a situação em que tudo estava quando
chegaram à cozinha e arrombaram a porta. Não tinham mais o que fazer ali e deveriam levar o jovem
para a Delegacia.

Sozinho no carro, sentado no banco de trás da primeira viatura, algemado, não pôde se defender das
reações de alguns moradores que, revoltados davam tapas na face de Mayckon. Estavam indignados
mais com o fato de ser ele o assassino de Dete do que pelo crime em si. Na lembrança de Isabel, o galo
da rua de trás cantou mais do que o normal na manhã seguinte.

Ainda ficaram na casa 581 por mais trinta minutos, três policiais militares e o perito, fotografando cada
cômodo. Ele procurou fazer o caminho inverso, partindo de onde Mayckon foi encontrado até o espaço
em que Dete estava até que o IML lhe tirasse dali. Flashes mostravam onde ele estava. Ficaram
registradas as marcas de sangue no quarto de visitas, no banheiro, nas paredes da sala e da cozinha.
Como ele já havia se dedicado a armazenar as imagens do corpo da senhora, já sem vida e os
incontáveis golpes que havia sofrido, também deu seu trabalho por encerrado. Mas antes disso, sacou
um envelope plástico do bolso esquerdo do jaleco marrom e coletou os instrumentos usados, três facas,
uma lâmina e um cabo, todos já torcidos pela penetração do metal no pescoço, costas e peito de Dete.
Lacrou o saco, retirou as luvas descartáveis, pegou a chave da viatura que estava no bolso direito da
calça jeans e se despediu de todos.

Ronilso, que já havido reassumido o posto de motorista, deu a partida no carro, colocou o cinto, checou
se tudo estava pronto, deu uma última olhada pelo retrovisor em direção ao banco de trás e viu um rapaz
cabisbaixo com os braços para trás. Ao lado dele estava Cidnei. A porta ao lado de Mayckon estava
travada, evitando que ele pudesse sair num repente. A viatura seguiu pela Rua Laudelina Dionísio até
que ela encontrasse com a Rua Reinaldo Schmithausen, a principal via do bairro. De lá, ele foram em
direção a delegacia, no centro da cidade.

Itajaí é uma cidade com quase um século e meio de existência e, por falta de planejamento viário, as
ruas são estreitas e sinuosas. O núcleo inicial do município se deu próximo ao desembocadouro do rio
no mar. Lá sim, há avenidas e ruas um pouco mais retas e batizadas com nomes de políticos influentes
no principio da instalação do povoado. Por isso, é comum ouvir um alemão Konder, Bornhausen ou
Müller nos endereços. Apesar disso, a história contada é de que Itajaí foi fundada e erguida por
portugueses, vindos principalmente das Ilhas dos Açores.

Foi pela tortuosa rua Irineu Bornhausen que os policiais seguiram para conduzir Mayckon. Chegaram ao
prédio quando já eram quase 3h da manhã. Na Delegacia do 1º Distrito Policial de Itajaí, trabalhava uma
mulher de cabelos curtos e loiros cruza a porta de vidro transparente. Colado a porta, um aviso: “Não
entre sem ser convidado”. Ela se diz cansada da rotina de registrar os boletins de ocorrência,
procedimento conhecido pelos outros dois comissários policiais que estavam naquela sala. Enquanto
isso, os policiais recém chegados, com uniforme cáqui e colete a prova de balas, registram na sala ao
lado a entrega de Mayckon.

No corredor que interliga a salas de registro de boletins de ocorrência e a do comissariado, o vento que
vinha da direção sul fazia com que algumas folhas secas voassem, tornando o ambiente pouco
acolhedor. Três bancos marrons de madeira vazios, quatro vasos com a mesma planta que Dete
cultivava em casa e dois cinzeiros feitos de madeira compõem a paisagem de entrada da delegacia
central da cidade. Por todas as paredes, a cor cinza brota dos rodapés até um metro de altura. Daí em
diante é o branco que predomina no prédio, seguindo até o teto forrado com material plástico.
Graciano tem entrada nos cabelos pretos e encrespados, cortados a maneira militar. A falta de cabelo
logo acima da testa o faz aparentar entre 35 e 40 anos. Anda com um rádio de comunicação preso ao
ombro esquerdo. Corpo médio, daqueles que freqüentaram a Academia de Polícia Militar. Ele foi o
primeiro a ser ouvido pela comissária loira para que ela providenciasse a confecção do auto de prisão
em flagrante.

Mayckon continuava algemado, esperando pelos procedimentos administrativos que os dois tomavam.
Depois que se decidiram pelo que fazer, os policiais mantiveram o rapaz algemado, na sala do delegado,
até que concluíssem o registro da ocorrência. Mayckon nunca havia sido preso, mas o fato de ter sido
preso na cena do crime, instantes depois de matar a tia e acabar confessando ao policial a autoria lhe
condenou automaticamente ao encarceramento. O comissário policial e o delegado que estavam
cumprindo escala de plantão confeccionaram o Auto de Prisão em Flagrante às 4 horas da manhã.
Estava formalizada a prisão de Mayckon Carlos de Borba, 18 anos de idade, por matar a facadas a tia
Maria Odete Bacca naquela madrugada.

Depois de assinar o documento, os policiais o levaram até a cela temporária, onde ficam os presos até
que o dia amanheça ou que haja vaga no superlotado presídio municipal, fato que aconteceu dois dias
depois. Na segunda-feira pela manhã, o delegado José Celso Correa entrou em contato com o
responsável pela carceragem pública, administrada pelo governo estadual. O diretor do presídio é um
senhor de estatura mediana, com certa proeminência no abdômen, já semicalvo e usa óculos de aros
arredondados. Recebeu a ligação na manhã da segunda-feira e autorizou a vinda do rapaz.

Sujo, descabelado, barba por fazer. Já não trajava mais a calça jeans, a camiseta branca e o moletom
verde porque a perícia havia requisitado as peças de roupa. A família precisou correr para levar outros
trajes para ele na tarde do domingo. Assim que chegaram do almoço, dois policiais levaram Mayckon
até o presídio. Lá ele logo foi revistado, e por não ter mais nenhum pertence, foi encaminhado direto
para a cela, fazendo companhia a outros 11 homens, das mais variadas idades. O lugar era mal
iluminado e cheirava fortemente a urina.

Foram 15 dias até que Mayckon recebesse a primeira visita. Virgínia juntou as forças que tinha e entrou
no Presídio Regional de Itajaí. O ranger da trava de ferro correndo na calha, da esquerda para a direita,
abrindo a passagem para um novo mundo. Era um domingo de sol tímido, talvez por ser cedo o horário
em que ela chegou para tentar uma senha. Apenas cinqüenta dos 213 encarcerados são visitados por
quinzena. A mãe havia levado um pedaço de bolo de cenoura com cobertura de chocolate e três maços
de cigarro, dois barbeadores, quatro cuecas novas de algodão, além de algumas camisetas – as mais
simples, conforme os carcereiros haviam lhe orientado por telefone, naquela semana.
Virgínia era a única pessoa que ia regularmente ao encontro do filho. Os irmãos estavam revoltados com
o crime e a condenavam por nunca ter prestado atenção nas atitudes de Mayckon. “Essa guria nunca
aprendeu a criar os filhos direito. Graças a Deus que o Rodrigo é um rapaz direito”. Foi ela que correu
sozinha em busca de um advogado para defender o filho.

Mayckon só saiu do presídio por três vezes desde que entrara naquele lugar. Na primeira, ele foi até o
Instituto Médico Legal, que fica na mesma construção da Delegacia. O juiz que havia recebido o
processo tinha determinado que se fizesse um exame de corpo de delito, na busca de mostrar como o
jovem estava fisicamente. Nas outras duas vezes ele fora encaminhado para o Pronto Socorro municipal.
A cela era úmida demais e saídas da cela para banhos de sol não eram tão constantes, pois o clima
daquele início de outubro era carregado de chuvas. O jovem estava com principio de pneumonia e o
ambulatório instalado no Presídio não havia dado conta de medicá-lo suficientemente.

O tempo passava vagarosamente naqueles poucos metros quadrados e Mayckon não teve problemas
para aprender a se portar naquelas situações; o convívio com alguns drogados na velha construção atrás
do bar Kubanacan havia sido uma boa escola, ele reconhecera agora. A maior dificuldade era conviver
com os casos de doenças contagiosas – a epidemia de tuberculose havia feito algumas vitimas e deixado
outros apavorados – e as muitas historias de homossexualidade que percorriam os corredores, tanto da
ala masculina quanto da feminina, embora em menor escala nesta última.

O advogado que Virgínia havia contratado para defender Mayckon começava a coletar testemunhas para
contar quem era o filho e como era seu comportamento antes de matar a tia. O objetivo dela era provar
que o rapaz era vítima das drogas. De outro lado, Celso, irmão dela, capitaneava uma frente de acusação
e se dispunha a juntar todas as informações que o Ministério Público necessitasse.

A única solteira da família era amada por todos e a mãe de Mayckon sofria duplamente, por ter perdido
a irmã e o filho estar preso. O enterro de Dete foi simples, silencioso e Virgínia ficou lá, num canto,
sempre de cabeça baixa e sozinha na maior parte do tempo, a não ser quando Rodrigo, o filho mais
velho, lhe amparava a cabeça no ombro. As cinco irmãs e o único homem estavam juntos lá, assim
como as vizinhas e as amigas mais próximas – Andréia, Lourdes e os filhos, Isabel com o marido, Rê, as
alunas de costura, as evangélicas, dona Iris. A indignação tornava o ar pesado no ambiente da capela
mortuária do Cemitério Municipal da Fazenda. Zete esteve por lá, mas Thiago preferiu ficar em casa
com Dalita. Não gostava de velórios e mal conhecia a pessoa que estava no caixão de madeira escura,
cercada por flores. Três coroas também foram enviadas para homenagear Dete.
5
Aqui se faz, aqui se paga

O dia 06 de maio de 2008 era para ser uma ocasião de festas. Os cinco irmãos estavam reunidos mais
uma vez. Celso Bacca, o único homem entre as irmãs e sempre solícito; Hilda, a última pessoa a falar
com Dete; Verônica, a irmã afastada do convívio familiar; Virgínia, a única a chorar e defender
Mayckon. Só faltava Dete. Mas ela apareceu para a ocasião, mas não estava em seus melhores trajes. As
fotografias que o perito criminalístico havia feito na madrugada do crime mostravam uma estátua, o
corpo inerte de uma mulher deitada, vestida com roupão e trinta e sete facadas, distribuídas na parte
superior do corpo. À exceção de Virgínia, todos os irmãos se revoltaram. Alguns vizinhos também.

O lugar não era a casa 581 da Rua Laudelina Dionísio. E o clima não era de festa. Maria Odete Bacca
completaria 54 anos de idade naquela data. Mas Mayckon Carlos de Borba não lhe permitiu. Reunida
mais uma vez, a família Bacca, originária da comunidade rural itajaiense, estava no prédio do Fórum da
Comarca, instalado na Rua Uruguai, a mesma que dá origem a universidade, local em que o jovem
viciado nunca pensou em freqüentar. Até porque mal terminara os estudos na escola mais próxima de
casa.

A construção do judiciário lembra os palácios gregos, com suas colunas imponentes e pé direito alto. O
acesso externo para o local em acontecia o julgamento de Mayckon era feito através de uma escadaria
em mármore branco. São trinta degraus que conduzem ao uma porta de folha dupla. As cadeiras para a
platéia são estofadas em tecido azul escuro, do mesmo tom que a cortina onde Mayckon fora internado
uma vez. Apenas quarenta das 150 cadeiras da sala do tribunal de júri estavam ocupadas. Separados do
público por um cercado em madeira, fica o plenário, onde todo o julgamento se desenrola. Ao meio,
como um moderador do debate, estava sentado o juiz Luis Francisco Delpizzo Miranda, trajando um
pano preto, em sinal de neutralidade. Ao seu lado a Promotora do Ministério Público, Rejane Gularte
Queiroz, e seu assistente, responsáveis por indicar que Mayckon teve a intenção de matar a tia. Em
frente à grande mesa em que eles estavam instalados, os funcionários do Fórum de Itajaí colocaram uma
pequena mesa e sobre ela, as quatro facas usadas naquela noite. Os cabos preto, azul, marrom e creme
estavam manchados de tinta vermelha, embora já se passassem 587 dias desde o crime.

Diagonalmente, à direita do juiz Miranda, seis passos largos afastavam-no de quatro mulheres e três
homens, intimados para compor o júri popular, que decidiria o destino de Mayckon. Do lado oposto da
sala, dois policiais militares, com pistola na cintura e coletes a prova de bala, faziam a guarda do jovem
viciado, chamado o tempo todo pelo magistrado de réu. Atrás deles estavam os advogados Laurinho
Poerner e Michael Woiciechovski, contratados por Virgínia. Mayckon chegou com dez minutos de
atraso, vindo do Presídio de Itajaí, escoltado pelos mesmos policiais que lhe acompanhavam naquele
momento.

A sessão foi iniciada às 9 horas da manhã, com o relato da promotora sobre o que os policiais
encontraram. Rejane utilizou das presenças dos policiais Graciano, Cidnei e Ronilso para ilustrar a
versão. As cenas do corpo de Dete esfaqueado várias vezes que a promotoria mostrou no julgamento
chocaram os parentes e amigos. Ninguém esperava ver o que só havia sido descrito pelos vizinhos, que
já estava destorcido há muito tempo. Mayckon não levantou a cabeça durante todo o tempo em que a
promotora teatralizou o crime. O jovem estava diferente do que Virgínia vira nas últimas visitas. Agora
de barba feita, calça jeans preta e camisa azul clara, compradas na semana anterior pela mãe, Mayckon
aparentava ser um rapaz decente, de boa família, e jamais alguém capaz de tirar a vida da tia, por
vontade própria, como dizia a promotora Rejane. Andréia foi chamada, Everson em seguida, depois
Zete e Celso foi o último a contar quem era o rapaz sentado entre os policiais.

Ainda foram ouvidas testemunhas indicadas por Celso, que indicaram o comportamento criminoso de
Mayckon. Todos os depoimentos duraram quatro horas e meia, quando Miranda decretou um recesso
para o almoço, afinal já eram quase 13 horas. Mayckon, Rejane, os jurados e o juiz comeram, vinte
minutos depois, uma refeição encomendada no restaurante logo em frente: arroz, feijão preto, salada de
batatas, folhas de alface, batatas fritas, um pedaço de frango grelhado e uma lata de refrigerante. Tudo
precisou ser deglutido em vinte minutos, pois o horário determinado para a volta se aproximava.

Assim que recomeçaram, foi a vez dos advogados de Mayckon defendê-lo e para isso listaram sete
testemunhas, duas das quais o juiz mandou dispensar por “não acrescentarem nada ao processo”.
Quem mais se emocionou ao falar ao microfone foi Virgínia. Ela pedia clemência ao juiz, pois o filho
estava sob influencia das drogas e não tinha noção do que fez na casa da tia.
Celso era o mais raivoso e sua revolta era evidente pelas pupilas dilatadas. O homem estava simples,
mas trajava uma calça social cor de café-com-leite com uma camisa social branca, tracejada de preto e
azul; dois dos sete botões estavam abertos. Ao lado dele, Hilda. Já Virgínia ficou sentada do outro lado
da fila de cadeiras, ao lado de Rodrigo, que segurou a mão dela na maior parte do tempo.

Rejane levantou-se ao fim da explanação da defesa e relembrou ao juiz o objetivo do processo e o


pedido que o Ministério Público faz no documento: condenação do réu por período não inferior a 30
anos. Virgínia levantou-se com as mãos na cabeça e chorando. Celso e as irmãs bateram palmas para a
promotora. O juiz pediu que o plenário não se manifestasse novamente ou teria que pedir que eles se
retirassem. Todos se sentaram, ruborizados pela repreensão. Rodrigo puxou a mãe pelo braço.

Assim que encerrou e novamente acomodou-se ao lado do juiz, foi a vez do advogado Laurinho dirigir-
se à Miranda, pedindo que o magistrado ponderasse o fato de Mayckon não ter nenhum delito registrado
contra ele e pelo bom comportamento que apresentara até então no presídio. Miranda chamou os
advogados até ele e perguntou se havia proposta de acordo. Rejane mal esperou que Laurinho falasse.
“Em hipótese alguma, meritíssimo.” Era o que os outros dois já previam. O juiz agradeceu os dois e
determinou novo recesso para que os jurados pudessem tomar sua decisão. Eram três horas da tarde e
Virgínia parecia estar entregando os pontos.

Mayckon nunca havia reparado como 25 minutos podem demorar uma eternidade para passar. Enfim, os
jurados haviam voltado da sala em que estavam e informaram sua decisão sobre o caso. Mayckon
Carlos de Borba foi sentenciado a 13 anos de prisão pelo crime de assassinar Dete, usando as facas que
estavam expostas sobre a mesa. Miranda determinou que ele fosse encaminhado para o cárcere para
cumprir a penitência. Virgínia comemorou de tal forma que todos se surpreenderam. Ela cruzou a cerca
divisória e correu em direção ao filho; abraçou Mayckon por quase um minuto, beijou-lhe as faces por
várias vezes. As lágrimas que escorriam dos olhos da mãe umedeciam o rosto pelado do filho. Os
irmãos dela continuaram indignados com a sentença e prometeram recorrer. O jovem fez o passeio de
volta para o bairro Nossa Senhora das Graças e voltou a ocupar a cela em que estava. A morte de Dete
mostrou para a família Bacca e os vizinhos da costureira os efeitos da droga e o quanto uma pessoa pode
ser tornar insana por conta da ausência dela. Alguns deles perceberam isso e começaram a conversar
mais em casa sobre o uso dos tóxicos. Virgínia nunca mais freqüentou a casa dos irmãos. A casa 581 da
Rua Laudelina Dionísio foi vendida para uma família vinda do interior do Paraná. A vizinhança não
teve coragem de contar para eles o que aconteceu na noite de 23 de setembro de 2006.

FIM