Vous êtes sur la page 1sur 205

“Eles estão em toda parte”,

“Eles estão entre nós”, “Eles...,


SOMOS NÓS”...

HARDLEVEL: A
MORTE GANHA
UM NOVO NOME
À Donizete Lima e Lohana Meira, pelo apoio e
constância.
CAPÍTULOS:

I. EMBATE...................
................... 14
II. UM NOVO
EMBATE...................
...... 31
III. A MORTE
INESPERADA.............
......... 44
IV. O
CÓDIGO...................
....................... 56
V. O NOVO NAMORADO
DE LETÍCIA....... 95
VI. AS TRÊS PESSOAS
HIPNOTIZADAS......
115
VII. ÍRIS
BRAINVICH...............
.................. 132
VIII. AS PIRÂMIDES
IRMÃS.....................
.... 151
IX. A ÚLTIMA PROFECIA
DE AMANTTINIS 74
X. O COVIL DAS
COBRAS...................
...... 76
XI. “DEMINSTIFUS
MALÉFIQUIS
PODERES!”. 186
XII. ENQUANTO HOUVER
BEM... O MAL NÃO
PODE
DOMINAR.................
.................. 196
PRÓLOGO
São Petersburgo
RÚSSIA, 2000

Um homem alto, alvo, com cabelos castanhos-


mel, olhos verdes, corpulento, e um tanto
giboso, se encarrilhava em direção do fim de
uma rua sem-saída. Trajava um garboso terno
vermelho, descomunal com a camisa preta sem
ornatos.
Seu rosto pálido e suas olheiras profundas
denunciavam, irrefletidamente, suas noites sem
dormir. Ele parecia rastear à procura de algo, e
tanto sua pressa como nervosismo eram
fartamente aparentes.
O céu já estava da cor do ébano, e havia uma
névoa gélida suspensa no ar; exceto o homem,
não havia ninguém próximo dali num raio de
quinhentos metros.
Ele deu mais cerca de oito passos, e se
posicionou voltado à direita, onde passou a
examinar de modo esmerilhado um edifício
largo e velho.
–É aqui – sussurrou a ele mesmo.
Se aproximando dos portões, o homem
abscindiu, sem maiores dificuldades, as
correntes do cadeado que o cerravam.
Conseguia ser mescladamente silencioso e
implacável; e, por mais incrível que pareça,
sem levantar nenhum tipo de burburinho.
Nos jardins da dependência pôs-se a andar
ainda mais rápido, até que se deparou defronte
à porta, porém, desta vez, sem nem se
preocupar com a surdina de sua tarefa, a
derrubou num barulho estridente e penetrante.
Seu trabalho seria efêmero. Por isso, não
precisava mais contribuir com o tempo.

O local era um silêncio na calada da


madrugada.
O homem foi-se metendo por entre os cômodos
vazios, dando seus passos frios e desconexos,
até que, de um deles, surgiram duas mulheres
que correram céleres em sua direção; uma delas
velha de cabelos grisalhos e rebeldes, e a outra,
um tanto franzina, mui aparentemente próxima
dos trinta anos.
– “Menino mau, MENINO MAU” – rosnava a
mulher velha em russo, parecendo muito mais
querer brincar do que livrar-se da ameaça que
brotara arrombando a porta.
A outra mulher, parecendo em alto grau mais sã
que a velha, estraçalhou um antigo vaso
artesanal nas costas do homem.
–Maldita! – o homem urrou em tom
abespinhadiço, a jogando contra a parede
chapiscada da saleta escura.
A mulher caiu, desacordada, enquanto a velha
olhava a cena como se achasse tudo muito
normal. O homem a desmaiou também num
gesto só, e continuou a se mover
apressadamente pela casa; ele buscava por
alguém, como um caçador se empenha em sua
caça. E a sua, ao que tudo indicava, já estava
demasiado próxima dali...
Existia uma luz acesa no próximo
compartimento da casa; que se encontrava em
diminuta quantidade depurada pelas cortinas de
azul-cobalto do local.
Tudo indicava a nova divisão do edifício como
sendo uma cozinha, pois o chão de soalho, e as
paredes chapiscadas foram substituídas por
pisos e pavimentos ladrilhados. A pia de
granito abrolhava no cerne; e a geladeira
vermelha e feia era mais uma das várias peças
reliquiosas que a morada possuía.
Havia outro homem às costas do invasor nesta
mesma pia, de cor trigueira e cabelos
compridos, provavelmente a preparar uma
refeiçãozinha fora de hora. Todo o local era tão
grande, que seguramente ele não ouvira nada
da balbúrdia do intruso com as mulheres que
tentaram atacá-lo.
Num gesto rápido e imperioso, o invasor
burlesco agarrou o homem da pia pelos cabelos
e virou-o, como se quisesse ver sua face e
realizar algum tipo de recognição.
–Não é quem procuro – reclamou o homem
invasor, soltando as madeixas do infeliz que se
apoiava na pia.
–Socorro! SOCORRO!! – ele berrou em
russo, como a velha, encarando lívido e de
olhos arregalados os olhos verdes e miúdos do
homem invasor.
–Não... GRITE. – Pediu, virando o pescoço do
outro, que caiu morto no chão gelado da
cozinha.
O invasor demonstrava estar ainda mais
desesperado, pelo que acabara de fazer, pelo
que fizera antes, ou, talvez, por nenhum dos
motivos anteriores. Mas devia achar-se neste
momento muito próximo do que fora buscar. Se
ainda houvesse alguém ali, não estaria
acordado.
Subiu as escadas de madeira do casarão, que
rangiam por estarem quase podres. Eram
ladeadas por um corrimão mogno,
perceptivelmente mal-lustrado, que o levou até
nove portas jeitosamente enfileiradas. Todas
trancafiadas.
Contudo, havia uma chave, de cor prata-
ferrugem, que era grande e esférica, pregada na
parede ao lado da primeira porta. E o homem
parecia sentir que aquela era uma chave-
mestra, porque a pegou e começou a abrir as
portas, uma a uma.
Porém, após a sexta delas, ele parou de modo
imediato, pois já não era mais necessário
continuar: estava ali quem ele procurava.
A arquitetura rústica que o lugar possuía, era
novamente encontrada nos quartos, de um
modo desregradamente abeatado. Como se tudo
ali necessitasse rememorar a antiguidade.
As lareiras de barro cozido velhas e desusadas
que aqueceriam o ambiente se ao menos fossem
ligadas, pareciam mais fazer parte do
embelezamento do espaço. Os tijolos à vista,
que já iam perdendo a coloração laranja pitanga
e ganhando mofo e bolor, davam aos quartos
uma mescla de amável e lúgubre.
Mas este último quarto se diferenciava em algo
dos outros pelo candeeiro ao pé da cama que
iluminava, apesar da luz um pouco fraca,
excelentemente o rosto do indivíduo deitado. O
que dava a certeza ao outro de que estava
prestes a cumprir com sua obrigação.
–É você... – clamava contente o invasor, que
demonstrava em suas pálpebras quase mortas
haver tido muito, mais muito trabalho, até que
enfim chegasse ao homem na cama. –
LEVANTE-SE. – Ordenou estranhamente
cândido, quando seus lábios já se achavam ao
pé do ouvido do outro. – Levante-se! É uma
desonra matar alguém deitado!!!
Bem como os berros de grande sonoridade do
invasor fossem um relógio despertador, o
homem que jazia em seu leito, acordou.
–Creio que você seja... Bóris Brainvich –
asseverou o homem invasor, encrespando os
lábios para simular um sorriso nefasto e
sombrio.
–E que você seja Amanttis – respondeu o
homem chamado Bóris, até agora o único
morador do lugar a falar a mesma língua do
estranho.
–Como você... Ah, sim... Os presságios de meu
irmão... Mas, muito bem, Bóris. Antes de seu
terrível fim, por favor, me diga: Onde está sua
linda filha?
–Nunca “irrei” lhe dizer, seu “monstrro”! –
bradou, com um sotaque russo inegável,
deixando a conversa que começara tenra, muito
invasiva.
Amanttis era do dobro da altura de Bóris, um
russo baixinho e descarnado. Por isso, seu olhar
que ostentava um desprezo sórdido e
depravado, o tornava estúpido e tosco, mas
assustador.
–BÓRIS, BÓRIS, BÓRIS... Vou deixá-lo
escolher: morrer rápida e agradavelmente, se
me contar onde a garota está; Ou morrer
sofrendo humilhantemente, do modo que
nenhum homem honrado gostaria de morrer...
–Eu “prefirro” morrer por minha filha – teimou
Bóris, que estava disposto a não se deixar
intimidar perante Amanttis.
–Seja como quiser... – rebateu Amanttis,
cortando a conversação ao virar-se de costas.
Numa fração de segundos, em um ousado
pensamento, Bóris sentiu que o momento era
ligeiramente oportuno para se rebelar contra a
autoridade que Amanttis, o sujeito intruso que
queria a qualquer custo descobrir o esconderijo
de sua filha, tentava cominar-lhe. Não obstante,
antes que pudesse pensar em qualquer impulso
adverso, o homem girou outra vez a ele, e,
investindo, acertou um murro em seu
estômago.
Bóris perdeu o ar.
–Vamos, caro Brainvich... você não tem
escolha... conte logo onde sua filha está...
–Não, NÃO!! – Exclamava o agredido
firmemente, agora cuspindo sangue.
–Meu irmão está a protegendo, não está? Por
isso ainda não pude encontrá-la!
–Você nunca “conseguirrá” encontrá-la.
Nunca... Ela está num lugar muito “segurro”...
–Está “segurra”, está “segurra”... – disse
Amanttis debochando do sotaque grosseiro de
Bóris. – IDIOTA! – intumesceu, dando um
novo murro no homem. Agora em seu nariz.
–AHH!!! – Bóris uivou de dor, agora sem ser
capaz de esboçar sequer reação.
–Vamos! Levante-se, seu nojento! Ainda quer
mesmo proteger sua filha?
–Sim...
Com ódio pela birra mentecapta de Bóris,
Amanttis atingiu seu rosto com um chute, o que
o fez permanecer no chão. Inda se não bastasse,
susteve o único tranco do homem, na tentativa
de levantar-se novamente.
O barulho chamou a atenção do resto da casa,
mas as duas mulheres desmaiadas e o homem
morto no andar de baixo não poderiam fazer
nada. O astuto Amanttis trancou todos os
quartos novamente depois que os abriu, e uns já
batiam na prancha das portas, tentavam girar as
dobradiças, desesperados.
Ignorando a violência das pancadas, Amanttis
massageou seu punho de ataque com sublime
delicadeza, agachando-se até a altura em que
Bóris se achava caído, para proferir num tom
apavorante e temível:
–Olhe, Bóris. Tentei ao máximo facilitar as
coisas pra você. Mas você não quis me ajudar.
Então eu não vejo escolha, senão...
–Você pode me “matarr”, continuar a me
“torturrarr”, mas não “terrá” nada que saia
daqui... DA MINHA BOCA! – rematou,
chupando um pouco do sangue que escorria por
seu nariz.
Amanttis olhou para o homem com olhar de
reprovação, baixando os ombros e sacudindo o
rosto com muita força.
–Eu não queria fazer isso... Eu queria matá-lo
de forma normal, como os humanos devem
fazer... – disse, retirando um objeto dourado e
pontiagudo do bolso. – Ham... Adeus, BÓRIS
BRAINVICH.
Ele encostou a porta levemente e deu um
empurrão no outro, que caiu por sobre suas
mãos, desmantelado.
O instrumento brilhante foi alocado por
Amanttis nas costas do pobre e derruído Bóris,
e, no momento em que fez isso, o objeto
alvitrou sugar energia do ambiente, pois luzes
do lustre no teto e no candeeiro se apagaram.
Houveram gritos.
Celeumas.
Berros agonizantes.
E apenas uma pessoa saiu vívida e veloz
daquela casa.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
EMBATE
1.
São Paulo
BRASIL, 2019
< “ Existe vida fora da Terra?”... Christian
Salém, um jovem rapaz de cabelos negros
sedosos, olhos castanho-escuros, e um
cavanhaque para provar que já passara dos
vinte, vestia-se com um capuz preto de borda
escarlate e uma camisa verde-limão com os
seguintes dizeres: “O mundo acaba em 2019”,
enquanto lia a mais nova e intrigante matéria
do promissor José Alfonso Welasques, para o
Jornal “Giorno News”.
– GRANDE BABOSEIRA! – Ele falou em alto
e bom som, fazendo com que todos os
passageiros do metrô parassem para observá-lo,
apreensivos. Voltando a sua leitura, Christian
estendeu o jornal sobre ele para talhar os
olhares azucrinantes.
“Foi localizado um planeta-anão que possui as
características mais semelhantes às do planeta
Terra. Possui água em formato líquido (o que
nunca foi localizado em outros), e temperaturas
estáveis que vão de 0 a 40 graus. Os
pesquisadores envolvidos, o sueco Barn Görks
e o brasileiro Oscar Jansen, utilizaram um
espectrógrafo com lâmpadas de arco voltaico
que identificaram a estrela do planeta, que é de
tamanho equivalente a do sol. No entanto, o
único elemento que torna um tanto
desfavorável a existência de vida, é que não
foram encontrados, até o presente momento,
indícios de que hajam desde moléculas
precursoras de vida e micro-organismos que
sobrevivem a várias condições, até civilização
inteligente. ‘Mas os estudos não irão acabar’,
afirma Görks. E pode ser, que um dia, nos
deparemos com vida extraterrena...”
Fazendo cara de desacreditado, o rapaz
amassou o jornal e o atirou na lixeira.
O metrô rangeu e deu um tranco. Passava das
quatro da manhã, e essa era sua última viagem
do dia.
E era a saída de Christian...
O frio era extremo às cinco da manhã de um
julho mais gelado que qualquer outro.
E mesmo com a touca, que era
proporcionalmente quentinha e consolante, o
vento glacial parecia resvalar em seu cérebro e
continuar a flutuar por sobre o ar, enquanto
corria para que não pudesse se atrasar.
Christian adorava falar sozinho, principalmente
quando estava próximo de algo que quisesse
muito.
–É hoje o Grande Dia...
Realmente era.
Pelo menos para ele.
Um dia consideravelmente memorável para um
viciado em games com uma penca de jogos e
consoles que possuíam um quarto só deles.
Christian possuía desde “Ataris” (porque não
era apenas um, e sim muitos) até “Playstations
seis”, passando por “Nintendos” e “Segas”.
Contudo hoje, todas as atenções estariam
especialmente voltadas para outro.
E este outro era chamado de Hardlevel, o mais
novo dos lançamentos do bilionário mercado
dos games, que surgiu dividindo opiniões.
Os grandes desenvolvedores de jogos se
surpreenderam com o novo videogame, pois a
concepção do projeto foi esplendidamente
elaborada por apenas três homens: Marcelo
Brandão (formado em ciência da computação),
Fernando Lyra (ex-professor de modelagem,
sonorização e edição 3D), e Luís Carlos
Coutinho (técnico em construção de jogos, e
produtor de web gamers). O restante da equipe
especializada foi um grande mistério, pois a
empresa nunca divulgou mais nomes ou
participou de conferências de desenvolvedores.
Na realidade, hard (como vinha sendo
chamado) contou com muita sorte. Não fosse o
vídeo que supostamente “vazou” – a despeito
de muitos julgarem ter sido jogado de modo
intencional – na internet, que seria de uma
desconhecida empresa de games de nome
“Просмотр Игр” (algo como ‘Vision jogos’),
fundada na cidade de São Petersburgo, na
Rússia.
O grande diferencial de hardlevel era a
holografia. Por isso chamou tantas atenções
para si mesmo quando visto por milhares de
pessoas ao redor do planeta.
Claro que quando o vídeo emergiu, ganhando
um sucesso pleno principalmente entre o
público jovem, muitos deram pouco crédito.
Dando-se por certo que a imagem holográfica
poderia muito bem ter sido produzida por uma
pessoa criativa que lidasse bem o bastante com
computação gráfica e um tanto de ilusão ótica.
Mas quando o Brasil foi anunciado como sendo
o primeiro país do mundo a receber a novidade
(assim como num teste de mercado: se
funcionasse aqui, iria para o resto do mundo)
os rumores foram substituídos por empolgação
e possibilidade de que o novo videogame
superasse as expectativas.
Dava orgulho a informação que o país recebera.
Era uma prova de dever cumprido, para alguns.
O alarmante crescimento em meio aos anos
com certeza foi um dos pontos principais para a
decisão, deixando países como Estados Unidos
e Japão seriamente para trás.
Christian Salém era um dos irrequietos pela
inovação, que, por contar com fontes superiores
as da maioria da população, conhecia a respeito
da veracidade dos fatos a tempos. Por isso,
quando sobrestou seus passos em frente à loja,
reluzia extasiação...

***

...Há meses guardava dinheiro para isso.


Estava suado e ansioso quando chegou... Meteu
a mão no bolso, pegou a carteira, e segurou-a
como se sua vida dependesse disso...
A loja Gameshow, uma das maiores do mundo
e quiçá a primeira do país a receber a novidade,
estava insofismavelmente magnífica e
primorosa dominando toda a quadra com suas
dimensões volumosas. Sua porta espelhada de
puro quartzo deslizou transversalmente quando
Christian se aproximou.
Todos os outros produtos lúdicos que a loja
tinha a oferecer estariam poupados: Hoje,
excepcionalmente, todas as atenções estariam
voltadas para um único invento: “Hardlevel”.
À medida que adentrava a loja, o rapaz
começou a notar pendência entre a noite
friorenta para o ambiente com perfeita
calefação do ar-condicionado. Além de
aconchegante, a Gameshow parecia ser mais
bela por dentro que por fora: as paredes eram
pintadas com um amarelo-ouro, por ora
chamativo, porém delirante. Nelas ainda
haviam porta-postêrs luminosos que exibiam
banners de novos jogos. O corredor também
não deixava de ser encantador, mas demasiado
extenso, o que começava a encher-lhe a
paciência.
No entanto, inesperadamente, abrolhou uma
nova entrada à direita, com um cartaz que
indicava:

VENDAS DE HARDLEVEL
AQUI.

Podia ouvir-se um grande falatório detrás das


paredes do cartaz, e um misto de ânsia e júbilo
já se comungavam nele.
Era mesmo inexplicável como podia estar tão
feliz; e mais inexplicável ainda como podia um
homem com mais de duas décadas de vida ser
dono de uma paixão tão exagerada por
videogames...
Christian adentrou no saguão da loja, e um
brilho ofuscante atingiu seus olhos.
O rapaz ouviu uns certos ruídos que se
pareciam muito com reclamações pela luz
repentina, mas continuou andando; protegendo
a vista com o antebraço.
Estava inteiramente decidido a permanecer
peregrinando com o braço sobre o rosto, a
menos que algo ou alguém o obrigasse a parar:
o que realmente aconteceu.
Em sua marcha compelida, esbarrou em
determinada coisa tão forte e sólida, que o
derribou de súbito ao chão.
Ainda estonteado com o baque, Christian
permaneceu remanso e sentado por alguns
instantes. Foi quando a luz foi diminuindo, e
ele guinou impetuoso e sobressaltado ao ver
que tropeçara num brutamontes com um punho
maior que seu rosto.
–Cê tá querendo furar fila, né mano?! –
esfumaçava raiva um homem asselvajado, que
devia ter mais de dois metros.
–Eu?... NÃO!...
–Então o que que tú tá esperando pra ir lá pro
fim da fila, mané? – guinchou o homem, que
parecia que iria engolir Christian cada vez que
abria a boca.
–Eu sei, eu...
–Eu não quero saber! Furador de fila vai lá pro
final, irmão!! Ou eu te quebro...
–Tá bom... Eu tô indo, já mesmo... – acautelou
Christian bem rapidamente, porque além do
homem não deixá-lo falar, parecia almejar bater
nele de qualquer forma.
Afastando-se do início da fila acentuadamente
rápido, pode assistir todos o mirarem com
antipatia, como se ele realmente tivesse tentado
furar alguma fila.
Recolheu a carteira ao bolso mais uma vez, e já
tendo lidado com uns vinte olhares de
indivíduos, uma outra voz, um pedacinho mais
amigável, o fez parar.
–Salém?
–Jonas? O que cê tá fazendo aqui, cara?
–Ora, o mesmo que você... – contrapôs, de
modo inócuo.
–Quer dizer que você também resolveu vir no
lançamento, cara?
–Infelizmente. Se arrependimento matasse... –
frustrou-se Jonas, também muito jovem,
demasiado esbelto com seus cabelos loiros
esturricados que lhe davam ar de elegante.
–Não fala assim, Jonas... Tenho certeza que a
espera biruta vai valer a recompensa...
–Tomara viu... Mas, mudando de assunto, foi
você quem levou a bronca por furar fila lá na
frente? Daqui de onde eu tô não deu pra ver
direito...
–Eu não estava furando fila, Jonas! – disse,
evidenciando que era ele mesmo. – Foi aquele
cara que disse, não sei o...
–O Anderson?
–Eu não sei o nome dele, só sei que é um
covarde desmedido! Só porque é um pouquinho
forte, pensa que...
–Ô Salém, mas peraí, você vai ir lá pro fim da
fila mesmo, como o Anderson pediu?
–Pra começo de história, eu pensei que seria o
primeiro a chegar aqui, mas parece que já tem
mais de cinquenta pessoas aqui dentro, rapaz! –
Christian observou, parecendo nervoso – Então
vou ter que ir lá pra trás mesmo, cheguei cedo,
mas mesmo assim me dei mal, então não tem
outro jeito...
–Tem sim... – disse, enfiando a mão no bolso.
–Jonas..., isso é pomada de invisibi...
–Cala a Boca! – Jonas sussurrou. – Se me
descobrirem com isso aqui eu vou preso,
esqueceu?!... – reivindicou ao amigo, dando
uma discreta olhadela para trás com intuito de
ver se chamara alguma atenção.
–Mas e eu por acaso posso saber qual é o
planinho genial?
–Claro: vá até lá atrás e passe a pomada. Um
dedo já basta. Tchau.
Christian pegou a pomada se movendo calmo
demais até que fosse o último da fila. Passou-a,
e notou que a pigmentação de sua pele, e até
suas roupas, perderam a cor.
–Já cheguei – Christian segredou ao ouvido
esquerdo de Jonas, logo que voltou.
–Já? Que rapidez...
–Vai logo pra trás!
–Ah... desculpa... – balbuciou Jonas, indo
ligeiramente para trás.
–Hum... Agora sim... – o rapaz fez uma
longuíssima pausa – Jonas, agora eu fico
visível de novo em quanto tempo? É a primeira
vez que eu uso isso sabe... – arguiu, colocando
o potinho pequeno e simpático da pomada no
bolso da camisa que Jonas usava.
–Não sei...
–O quê?! Não sabe? Como assim...
–Fala baixo... eu tô brincando... quantos dedos
você passou?
–Um. Como você mesmo pediu... – falou
Christian, assustado.
–Então mais uma meia-hora. Olha, as roupas
aparecem primeiro, então quando começarem a
ficar visíveis, eu te aviso.
–Tá bem. Mas, e as pessoas? Não vão perceber
quando eu ficar visível?
–Daqui a meia-hora? Não... – Jonas garantiu
tranquilo. – Agora só faça o favor de ficar um
pouco quieto, porque aí sim vão começar a
desconfiar.
–Deixa comigo...
Jonas não voltou a falar, e Christian também
procurou permanecer em silêncio por alguns
minutos.
Alguns minutos... Alguns minutos
sublimemente agonizantes para Christian.
Conservar-se quieto enquanto invisível talvez
fosse tarefa simples para qualquer um; mas
para Christian, os poucos momentos que
conseguiu, pareciam longos como uma
eternidade.
O fato explicava ainda mais sua ânsia vitalícia
com o lançamento. Era imensuravelmente
grande. Era entediamento demais para aguardar
por mais tempo parado.
Por isso o rapaz não se viu em outra posição
senão a de declarar:
–Jonas...
–Que foi, meu? Você tava quietinho, e já
voltou a falar...
–Espera aí, só me escute um momento. Você
acha que ainda tenho mais um vinte minutos de
invisibilidade?
–Por aí. Um pouco mais, um pouco menos...
–Olha Jonas, sinceramente, eu já não aguento
mais ficar aqui parado esperando, se eu estou
invisível. Eu posso entrar lá dentro, e ver o que
estão fazendo que ainda não começaram as
vendas.
–Pode, claro. Mas eu não me arriscaria.
–Mesmo assim eu vou.
–Tá bom. Tchau...
Christian foi andando imperceptível e pé ante
pé por entre as pessoas na fila. Às vezes, até
esbarrava em alguém, mas como estava
invisível, desconfiavam sempre de quem
estivesse mais perto.
–Ei, seu descarado! – berrou uma mulher,
dando um tabefe num garotinho às suas costas
quando um braço encostou em sua cintura.
O garoto ficou pasmo e atípico; mas decidiu
não responder a moça porque não fazia ideia do
que ela estava falando.
Christian soltou uns risinhos abafados, e
continuou andando, agora de costas para ainda
poder prosseguir comboiando de perto a bronca
e tanto que a mulher dava no desafortunado
infante.
–Sua mãe não te deu educação não, moleque
atrevido?!
–Mas eu...
–Não venha se desculpar não, você...
Christian ria tanto, mais tanto, que não
percebeu que as pessoas começavam a olhar
para ele indiscretamente, e um simpático rapaz
tentava passar-lhe alguma mensagem.
Infelizmente, ele não deu atenção, e esbarrou
num brutamontes no início da fila...
–Você de novo, rapaz! – vociferou o mesmo
cara mal-encarado e robusto da entrada de
Christian no local; que, sem razões aparentes,
parecia vê-lo nitidamente...
O rapaz olhou para suas mãos e tomou o susto
do ano: já estava visível.
–Ah, não... – exasperou Christian, funesto.
–Ah não, é?! Agora eu te pego...
Porém, antes que o sujeito encorpado pudesse
laborar, um barulho metálico de algo se
fendendo surpreendeu a todos.
–Aí galera, a porta abriu! – Alguém gritou.
Não foi preciso dizer mais nada: a vultosa
multidão se desfez em poucos segundos, e
todos começaram a correr irrefreavelmente para
adentrar no interior do salão, onde seriam feitas
as vendas do burocrático produto que atendia
pelo nome de hardlevel.
Christian aproveitou o tumulto para correr
também, e se safar, desta vez por muito pouco,
do acometimento raivoso e desembestado do
homem.
Contudo, antes que qualquer um tivesse a
chance de botar os pés no outro compartimento
da loja, saíram cerca de oito ou nove homens
do lugar, todos armados com *high-techs, que
eram as novas armas governamentais cedidas à
grandes corporações que recebiam aturadas
multidões, com objetivo de conter essas grupos
amontoados que sempre se acumulavam para
compra de algum produto.
Essas armas exerciam uma hegemonia sobre os
corpos, identificando indivíduos com sistema
nervoso alterado e os imobilizando através de
cápsulas que iam direto ao cérebro, contraindo
os músculos. Quando a tonalidade cerebral se
normalizasse, o conteúdo líquido contido na
cápsula e a própria cápsula se dissipariam e
desmanchariam na massa craniana, sem causar
nenhum dano. Pelo menos, era o que diziam.
Mas na realidade ninguém gostava de levar
tiros na cabeça assim, de bobeira...
A permanência de todos paralisados (inclusive
Christian e Jonas) foi longa.
Entanto, depois de um tempo até considerável
aquele apinhado de gente foi voltando ao
normal.
– Agora esses malditos têm high-techs... –
Jonas se indignou.
–Isso é ideia do governo, Jonas... – informou
Christian, chacoalhando um pouco a cabeça
para se livrar da tonteira que as high-techs
causavam.
–Você já sabia disso?
O rapaz assentiu, e ao mesmo tempo pediu para
que Jonas fizesse silêncio, pois um homem
bem-trajado e sem high-techs, acabara de sair
porta a fora.
– “A compra do game hardlevel será feita
individual e... Civilizadamente. Portanto,
queiram voltar à fila anterior” – Esta foi a
recomendação do subgerente da loja, um cara
gordo e alto atrás de uma camisa branca
perfeitamente passada, e a gravata azul-anil
listrada de preto.
Como que por milagre, a fila regressou ao
padrão primário, e agora sim não havia nada
que impedisse o início das vendas.
Alguns já estavam furiosos, mas já havia sido
comprovado que inquietação não resolveria
ninharias. Por isso, todos emudeceram de uma
hora pra outra, como se uma assembleia
relâmpago houvesse acabado de ser realizada.
–Estamos quase lá... – observou Jonas, tinindo
empolgantemente, quando a fila começara a
andar.
–Quase?... – questionava Christian verificando
a mesma.
A verdade é que a espera ainda se prolongaria
por um considerável período; e uma verdade
ainda mais evidente é que nem o primeiro
cliente, o de corpanzil bombado, saíra da loja.
A segunda pessoa entrou, a terceira, quarta... e
a fila foi vagarosamente diminuindo.
Até que o primeiro comprador saiu da sala de
vendas...
–É impressionante! – fez questão de salientar o
homenzarrão que despontou entre a multidão, o
primeiro a adquirir o game.
Todos na fila passaram a olhar tensamente
curiosos para o novo jogo, que era holográfico
e portátil, como nos comerciais que foram do
You Tube para a T.V. Vinha acompanhado de
um tipo de “capacete” que provavelmente
deveria ser o objeto que ativava o cenário
digital que hard tinha a oferecer. O prometido,
é que o game transporta o dono à cena do jogo,
literalmente. Ou seja, permite ao jogador
interagir com o cenário tridimensional, como se
fosse real.
O sujeito fortíssimo passava por todos radiante
como um menino, aguilhoado com o capacete
em seu rosto, soltando contagiantes risinhos de
prazer.
Alguns ficavam abismados observando-o
passar. Parecia mesmo se versar de um
videogame tremendamente formidável.
A superioridade de crianças na fila
conversavam tumultuadas com seus respectivos
colegas. Talvez estas seriam as férias mais
divertidas de suas vidas...
Mas a pergunta veraz a ser feita, era: Será
mesmo que o jogo seria tudo o que parecia
ser?... Ou não? Será que, talvez, todas aquelas
pessoas estivessem esperando por algo que
podiam muito bem gostar, como do mesmo
modo não...
Ainda era muito cedo para afirmar que a
minoria de adultos a média de adolescentes e a
máxima de crianças aprovariam o invento. A
única coisa clara como a parafina era que o
possível parecia impossível. E o que todos na
fila ainda tinham a fazer, era esperar.

***

–Próximo! – resmungou um funcionário da


loja. Parecia meio nervoso.
Era a vez de Christian. Friccionava as mãos
sobre o rosto, freneticamente. Mesmo aos vinte
e dois, as espinhas ainda o incomodavam.
Tirou a carteira do bolso, e pagou com 3
*Cartões Grandes.
–Que cor prefere? – indagou o vendedor em um
tom morbidamente automático, mostrando as
três opções de cor de hardlevel: Prata, preto, e
azul.
–Preto.
–A cor mais pedida. Não duvido que acabe em
menos de vinte minutos. Vamos ter de
encomendar mais da fábrica que o produz...
O gerente estendeu o produto a Christian, junto
à nota fiscal.
–Obrigado.
–Obrigado a você rapaz, e... Bom Proveito...
–Será bom... – titubeou Christian, passando
para fora da loja.
–Próximo!
Jonas ingressou na nova área da loja, e
Christian ficou do lado externo o esperando.
–Ele é menor que na T.V.... – censurou Jonas,
desbriado, enquanto os dois caminhavam juntos
pelo dia pulcro que clareava-se muito
rapidamente.
–Ah, Jonas... Pare com isso... O que esperava
também? Algo que minha mãe vivia dizendo
era: Nunca acredite em imagens de
propagandas. São sempre enganosas...
Jonas deu uma risadinha forçada.
–Você já testou o cenário dele? O vendedor me
disse que ele se aciona ao pôr o capacete.
–Ainda nem tirei da caixa – replicou, em tom
despreocupado.
–Nossa!... Esse nem parece o rapaz viciado em
videogames que eu conheço desde a segunda
série...
–Abro a caixa só quando chegar em casa.
–Por que isso? Alguma superstição? Ha, ha...
Sobre essa aí nunca ouvi falar...
–Não, não é superstição nenhuma. Eu só quero
me... Surpreender com esse jogo...
–Puxa... Que profundo... – divertia-se Jonas
com o modo de pensar do colega. – Então é
melhor eu ir logo embora, porque estou
morrendo de vontade de jogar!...
–Não exagere, rapaz... Eu não estou te
dispensando também... – respondeu Christian,
categórico.
–Não cara, eu tenho que ir indo mesmo... Meu
carro está num estacionamento bem ali na
frente. E você, tá a pé?
–A minha casa é na outra esquina, Jonas! –
relembrou Christian.
–Caramba Salém... realmente fazia um bom
tempo que a gente não se via... – revelou Jonas,
apesar de sua casa também não ser tão longe
dali.
Os dois divertiram-se. Mas três anos não eram
nada curtos.
–Então tá, cara. A gente se vê – disse Jonas.
–Pode acreditar...
Após um aperto de mão, Christian desceu lenta
e ansiosamente as ruas do parque ecológico,
próximo à sua casa, enquanto, a algumas
esquinas dali, Jonas entrava em seu discreto
Chevrolet.
Os dois colegas, não muito chegados um ao
outro, nem imaginavam que iam ter de se
encontrar novamente...

1. Um Novo Embate

Já eram sete e cinquenta da noite de sábado.


A prodigiosa lua minguante brindava a noite
estrelada.
Um bonito parapeito à rua Eurico Dutra,
próxima ao parque ecológico, debruçava umas
cortinas que esvoaçavam devido ao fato de a
janela se achar aberta, recebendo um vento
contundente em seu peitoril.
Christian Salém passara muito tempo ocupado
dormindo e comendo, praticamente as únicas
coisas que fez em seu laborioso dia de folga.
O rapaz pedira uma pizza de Baiacatu, que
estava com uma quantidade exagerada de
pimenta; acabou por causar-lhe uma indigestão,
o vinculando a permanecer deitado o resto do
dia, deixando inclusive de recostar as vidraças
da casa.
Ainda um pouco inconstante e descorçoado, se
recostou no dossel de sua cama e pegou uma
caixeta media e retangular em sua mesinha-de-
cabeceira.
A abriu, tomando cuidado com a embalagem,
para que não fosse maltratada no ato.
A caixeta resguardava três objetos: um
videogame, um pequeno capacete preto com
um visor diáfano, e um manual de instruções
tão grande quanto um livro.
Sem utilidades no momento, capacete e manual
foram deixados de lado. O interesse era o
videogame, que era um console também preto,
bonito, que possuía apenas um botão, bem em
seu centro, com uma inscrição de “On/Off”
aquém dele.
Era daqueles objetos que de bater o olho
percebe-se que esbanjam tecnologia, design
bem bolado, arquitetado.
Quando o botão foi pressionado, algo estranho
invadiu o corpo de Christian Salém. Um leve
arrepio, que foi do dedo até a ponta do pé.
Todavia, o rapaz não deu a menor bola para o
simples choque, quando viu o menu
holográfico do hard abrir-se à frente de seus
olhos, superlativamente excitante escrito em
português. O entusiasmo era tanto, que ele até
leu em voz alta:
BEM VINDO AO MUNDO
“HARDLEVEL”

°Iniciar Jogo
Modo Carreira
Cenário Digital
Vs Computador
Batalha
Opções

Rapidamente, com a haste cilíndrica de metal


que acompanhara o produto, Christian tocou no
menu opções que surgira à frente de seus olhos.
Com tanta força, que tomou outro choque.
–Ah! – O rapaz gritou. O segundo havia sido
perceptível e intenso. Mais que o outro.
Ao mirar com zanga o videogame, pôde ler o
seguinte:

ATRIBUTOS do GUERREIRO

Força:
Magia:

Vidas:

FASES do JOGO
Fácil°
Difícil°
Muito Difícil°
>>>>>>>>>>

Após as devidas reparações no menu opções,


sem querer usar novamente o lapisinho de
metal, Christian tateou com o dedo, muito
enternecido, no menu retornar, mas não
suportou: Uma sensação horrível dominou-o, a
ponto de formigar todo seu braço esquerdo. O
rapaz atirou ao chão o maldito game com uma
força, ao menos, exacerbada...
***

... Enquanto cuidava do braço recém-dormido,


o telefone tocou. Era uma amiga, de nome
Melissa. Ou melhor, era mais que uma amiga...
Se assemelhava mais a uma namorada, no
entanto nenhum dos dois jamais tocou neste
assunto. A garota adorava ir à shows, e, a cada
semana, fazia um novo convite para uma ida a
dois, que nunca havia sido recusada.
Porém, pela primeira vez, Christian rejeitou o
convite.
–Me perdoe Melissa, mas eu não estou com
cabeça pra isso hoje, e ainda preciso resolver
um assunto aí que me aconteceu... Então me
desculpe, mas não tenho como ir – explicou o
rapaz, em tom tenro e amável.
–O que é em Cris?... Você tá com outra, é? –
replicou Melissa, sem a mesma fleuma.
–Como assim, com outra? Eu nem...
Melissa cortou.
–Como assim o quê?! Você tá muito em cima
do muro, garoto! Quer saber..., me esquece, tá
bem?! Você não tem meu número mesmo...
–Mas... peraí... Eu só...
E desligou.
Simplesmente.
Sem mais nem menos...
Christian, claro, não entendeu nada.
Ficou atônito. Bravo, até, emburrando-se por
bons instantes; quem sabe, experimentou da
mesma sensação do garoto que levou aquela
mãe-bronca na loja, também sem saber de que
se tratava e ficar tão pávido quanto ele.
Depois de esquecer um pouco o assunto,
alongou o braço praticamente recuperado da
dor e guardou o hardlevel na caixa.
Tramitou descortês até chegar a seu carro, e se
dirigiu novamente a loja Gameshow.

***

–Amigo, o videogame tá com defeito – disse


Christian, manifestando-se descontente com os
serviços da loja ao rememorar as dores
anteriores.
–Me deixe ver – sugeriu o vendedor.
O homem retirou o videogame da caixa, e o
ligou.
–Ai! – Exclamou o próprio vendedor, arrufado.
– Você derrubou água aqui, rapaz?
–Não.
–Não?... – perguntou novamente erguendo as
sobrancelhas, como num clichê de vendedores
desconfiados.
–Não. – Christian voltou a subscrever.
–É só o joystick com defeito, ou o capacete
também?
–Não sei, viu... Nem cheguei a testar o
capacete. Vim logo que tentei jogar o
videogame.
–Eu troco os dois pra você – afirmou o
vendedor, condizente ao que prometiam.
–Tá bem.
Christian entregou a nota fiscal do produto, e
aguardou a troca sentado num dos confortáveis
banquinhos almofadados da loja, que esta noite,
curiosamente, já estavam vazios.
O caixa da loja introduziu-se num corredor
escuro, e um sensor de calor cuidou de acender
as luzes no momento em que ele passou.
Porém, sabe-se lá por que motivos, o homem
não trocou o videogame de Christian; voltou
com o mesmo, apenas o empacotando outra vez
com intuito de ludibriar astutamente o rapaz.
–Aqui está, meu caro... – disse o vendedor,
soberano com sua ligeira esperteza. – Este já é
o novo pacote do hard, e o lacre é bem firme,
então tente soltá-lo com um facão quando
chegar à sua casa...
–Tá bom – iludiu-se Christian, sem suspeitar
de exatamente nada.
–Tchau, tchau, jovem, volte sempre! – deliciou-
se o caixa, que não havia devolvido a nota
fiscal, e estava quase rindo na frente do garoto.
–É. Valeu...
Não com a mesma alegria do vendedor,
Christian saiu da loja com cara de poucos
amigos, e entrou em seu carro.
“Que dia infeliz”, ele pensou consigo mesmo.
Saiu andando a esmo por alguns instantes,
avançando pela noite insensível com seu
Croma potente.
Se alojava nele uma espécie de hibridez que
nuançava opacidade e exaustão.
E nada poderia impedi-lo de se sentir tão mal.
Há dias se achava assim, mas disfarçava tão
bem que ninguém desconfiava de nada.
Explicar porque ele não sabia. Porque ele, um
jovem com uma vida das mais perfeitas, se
sentia indisposto daquele jeito.
Quando acostou à sua casa e levou o carro até a
garagem, entrou péssimo.
No ensejo, ele avaliou que uma boa noite de
sono resolveria tudo. Por isso deitou na cama
imediatamente, mas não conseguiu dormir na
primeira tentativa.
Deu uns murros no travesseiro até que ficasse
mais confortável, e finalmente sua mente
sossegou e parou de atormentá-lo um pouco,
deixando que seus sentidos adormecessem.
Apenas na hora em que ele realmente pegou no
sono, o despertador tocou.
–Droga!... – Chiou. Seu grito ecoou. Saiu
bufando pela casa, e reclamando consigo
mesmo. Estava bem melhor após a noite, não
bem-dormida, mas, pelo menos, suavizada.
Odiava morar sozinho. Mas a casa vazia e
silenciosa começou a se tornar algo tão
corriqueiro, que ele nem mais reparava nisso.
Fazia um belo domingo lá fora, e tudo parecia
calmo demais...
“Tâ, tâ”... O terrível som de sua campainha
anunciava que havia alguém a porta rasgando o
silêncio, há pouco instaurado.
Quando a abriu, deparou-se com um homem
alto e louro, com expressões um tanto vazias,
dono de um Chevrolet discreto...
–JONAS! Mas que... Surpresa!! A que lhe devo
esta visita? – inquiriu Christian, em tom
amigável.
–Assuntos, amigo, assuntos...
Christian franziu a testa, pois não compreendeu
bulhufas da colocação de Jonas. Mesmo assim,
abriu a porta e ele entrou rapidamente.
–Sente-se – ofereceu Christian. – Quer tomar
alguma coisa?
–Não, obrigado – redarguiu o rapaz, sentando-
se numa poltrona de couro vermelha, à frente
de onde Christian ficou.
–E então Jonas, o que te traz aqui? – perguntou
Christian, intrigado mesmo sem denotar isso.
Já eram quase catorze anos de uma amizade
completamente estranha, em que, ambos, quase
nunca se visitavam, com exceção da
memorável infância; pois os dois iam se
afastando cada vez mais enquanto cresciam.
Jonas respirou fundo antes de responder a
pergunta de Christian:
–É algo com o hard.
–O quê? Já está em alguma fase avançada?
–Não, não é isso. Eu estou começando a achar
que esse videogame é... Diabólico...
–Diabólico?!...Como assim, cara? Não estou
entendendo...
Christian pode perceber um leve suspiro do
amigo quando continuou.
–Periodicamente, enquanto jogava, sentia que o
videogame levava um pedaço de mim. Como se
estivesse me... SUGANDO!
Christian susteve-se para não rir.
Mas a conversa parecia séria demais para
gozações.
–Ô Jonas... Mas... Isso é impossível! Um
videogame sugar o... Espírito de um
indivíduo!! Não acha que está exagerando? Só
um pouquinho...
Jonas o fitou como se desejasse que o mesmo
acontecesse a ele, para que pudesse sentir o que
o amigo tentava provar.
–Christian... Ainda estou me perguntando o que
vim fazer aqui. Pensei que você ia tentar me
ouvir, mas, pelo que vejo, você é exatamente
como os outros.
–O que quer dizer com esse... Outros? –
Christian interrogou, antiquado.
–Os outros a quem contei sobre isso. Bem,
acho que então é melhor eu ir indo, antes de me
decepcionar mais...
Houve uma pausa onde Jonas olhou
rapidamente para Christian, e se levantou.
–Então porque veio aqui? Se já sabia o que eu
ia fazer...
Jonas parou antes de abrir a porta, e recuou
novamente para o colega.
–Porque, por ser tão bobo, achei que você
acreditaria em mim!
Antes de Jonas se voltar mais uma vez à saída
da casa, Christian mandou:
–Me faça um favor, vai. Senta de novo aqui...
eu odeio falar sentado com alguém de pé...
Jonas fez cara de desgosto, mas se sentou de
novo.
–Se eu não tivesse pedido dispensa do trabalho,
eu voltaria agora mesmo... – Jonas falou, mas
tão baixinho que Christian disfarçou não ter
ouvido.
–Tudo bem. Suponhamos que você foi mesmo
“sugado” pelo videogame. Mesmo que eu ache
isso um pouco impossível...
Jonas lançou-lhe um olhar ferino.
–Tá bom... Eu vou acreditar por um momento
que isso realmente aconteceu... – disse
Christian, com muito esforço. – Vamos lá:
Neste momento, vamos pensar que Eu sou
Você. E estou jogando meu hardlevel quando...
Espera aí, como você sentiu que estava sendo
sugado?...
–Ele tentava tirar algo de mim... eu não sei
explicar como e porque, mas há alguma nesse
videogame que não era para estar lá... –
afiançou Jonas, sua voz estava trêmula.
Christian não sabia muito ao certo o motivo,
mas a história engraçada começava a dar-lhe
arrepios...
–Bom Jonas... pra ser sincero, eu também tive
uma experiência estranha com o hard. Tomei
alguns choquinhos desagradáveis, mas era só
defeito. Eu até já troquei na loja. Mas no seu
caso, eu não sei. Me parece que..
–Christian, estou bem.
–O que disse? – perquiriu Christian,
pesquisando e tentando ler as expressões do
amigo, os músculos do rosto diferentes de
antes, mais... Seguros.
–Eu estou bem! Isso tudo não passou de uma
brincadeira. Olhe pra mim, eu estou ótimo!
–Mas...
–E você caiu direitinho, amigão!
Christian olhou estranhamente para Jonas.
Tanto sua voz como fisionomia completamente
dessemelhantes de quando chegou...
–Sinceramente, agora eu já não acredito que
tudo isso seja uma brincadeira! Você...
–Pois foi! – rebateu Jonas, ignorando a frase
que Christian não conseguiu terminar. – Bom,
eu já vou indo, porque estou... Atrasado pro
trabalho...
–Disse o quê? Atrasado pro trabalho? Eu
lembro de ter te ouvido falar que pediu
dispensa hoje...
–Não, mas... Eu tenho que ir. – estabeleceu
Jonas, sem ao menos responder a pergunta de
modo refletido.
E, sem mais, se levantou e saiu da casa.
Christian achou todo o episódio muito
estranho. O amigo havia tido alterações de
humor: de completamente confuso e temeroso,
partiu para um tão alegre, folgazão (como
Christian, sinceramente, nunca o viu) que
parecia estar embriagado. E Christian sabia –
pois, apesar dos poucos contatos que foram
tendo através dos anos, ele conhecia o amigo há
mais de dez anos –, com toda a convicção do
mundo, que aquilo não era uma brincadeira.
Não era.
Havia alguma coisa errada com Jonas.
E ele iria passar a limpo toda essa história.

2. A Morte Inesperada

Ele ainda estava um pouco atordoado com


toda esta história envolvendo hardlevel, porém,
se encontrava atrasado para o emprego. Ele
sentia que ser dono de uma famigerada video-
locadora como a sua era algo inconcebível para
alguém tão jovem como ele. Chamava-se
J.S.V. Chamou-se, mais bem dizendo, Sétima
Arte, mas após a morte de seu pai, há três anos,
a mudança para José Salém Vídeos veio a
calhar. Uma homenagem; ato excessivamente
parafraseado em muitas arestas por aí, mas sua
forma de respeitar todo o trabalho que seu pai
fez, e que se precipitou sobre ele, o caçula dos
filhos.
Com uma pressinha, o rapaz pegou um
hambúrguer requentado que “dormiu” no
microondas, saiu veloz até o carro e o comeu
enquanto dirigia até a locadora.
Christian se envolveu em seus pensamentos.
Por alguns breves momentos, de João
Rodrigues Prestes à Avenida Euclides, ele
repassava pesaroso em sua mente o estranho
fato que presenciara a pouquíssimos momentos.
Era muito estranha a história de Jonas, muito...
–Puxa, mas que demora em Salém! – Se
arriscou em arquejar o mais autoritário dos
funcionários logo que o chefe chegou, sem
receios de sua resposta.
Christian, apesar disso, não disse nada. Passou
por todos eles, e apenas abriu a porta.
O interior da locadora era de bom gosto.
Donairoso e amoldado. Chegava a ser
aconchegante. O requinte em cada quina acúleo
e vértice, em cada cômodo em que se dividiam
os variados gêneros de filmes. As prateleiras,
que mesmo sempre sendo esvaziadas,
dificilmente não se encontravam cheias dos
mais diversos lançamentos.
A loja era dona de muitos clientes, a maioria
deles, já assíduos. Um pouco da notoriedade
era devida às interessantes promoções, sim, que
a elevavam a um alto grau de primor. Algumas
já antigas, da época de seu pai, outras recentes
que ele mesmo e seus funcionários planeavam
durante o ano, mas todas congruentes. Uma
delas, imutável e invencível, consistia no
seguinte: O cliente com o maior número de
locações no ano tinha direito a cinco grátis no
fim dele.
Em outras palavras, o bom trabalho que só
crescia ia prosperando cheio de dedicação, que
é o sinônimo e a chave para o bom negócio.
Seu pai deu início ao que acabou tornando-se o
grande ganha-pão dos Salém, e Christian estava
apenas continuando. Sua única falha o
relacionando a ele, era a falta de amizade
quanto a seus empregados. Aliás, ele tentava.
Mas embora tentasse, não adiantava em nada.
Não se dava bem com ninguém em seu
ambiente de trabalho.
Todos ali dentro adoravam seu pai, José Salém.
Mas tinham sumo conhecimento – pois por já
estarem a par da informação, já que o próprio já
os tinha informado – de que quando ele viesse
a falecer Christian o substituiria. E quando isso
aconteceu, bem antes do previsto, ficaram
completamente abalados. Dois até se
despediram...
Mas ainda que o gerenciador Christian Salém
ansiasse por mandar todos embora, não podia
fazer isso.
Não queria fazer isso.
Aí o coração falava mais alto que as decisões
convenientes a ele mesmo: o que seria de
alguns, ou melhor, de todos eles?
Provavelmente, não encontrariam um outro
emprego, o que acarretaria alguma falta
financeira em suas famílias; Christian era forte.
Poderia muito bem suportar algumas
briguinhas aqui, e outras ali.
Além do mais, seu pai em vida ficaria muito
desapontado em demitir quaisquer de seus
amigos, a não ser por motivos austeros.
Quem sabe se contado a alguém, o modo de
pensar do chefe despertasse algum tipo de
curiosidade por parecer copiosamente
paspalhão. Mas, em sua mente, algo o
implorava para que não despedisse nenhum
desses pobres coitados..., por isso, toda vez que
surgiam benditas brigas ele dizia a si mesmo:
“Tenha Piedade”...
...E, até hoje, seu plano da piedade nunca dera
errado. Até Hoje...
–AH... Cala a boca, Salém, eu já não te mandei
calar!! – exigiu irritado o mesmo funcionário
que tratara o chefe mal na entrada, nervoso com
uma repentina ordem, que acabou num bate-
boca.
Christian tentou o plano da piedade, mas não
deu nada certo:
–Senhor Lemos – disse Christian, sempre
muito educado, até com o mais reles
empregado.
–Fala, seu mané!... – respondeu, olhando para
os colegas, que pareciam não apoiar a ousadia.
–Está despedido.
–Perdão?
–Está despedido! – Christian incrementou
rispidez em sua voz.
–Mas... Senhor Salém, eu...
–Sem mais, Senhor Lemos. O senhor não é
mais meu funcionário.
–Eu... Eu...
–Guarde suas palavras, por favor, Senhor
Lemos.
Lemos vistou o chefe com olhar de remorso, e
se ateve como o mesmo pediu.
Não desejou nem ficar até o fim do expediente;
destituído de suas funções, foi-se embora,
prometendo voltar no dia seguinte para buscar a
quantia em dinheiro que era sua por direito.
–Desacato... não será mais aceito! – brandiu
Christian logo depois da saída de Lemos.
Um cliente entrou, meio desorientado, durante
a repreensão do chefe. Dois ou três
funcionários foram atendê-lo, para quebrar um
pouco o clima.
–Se houver algum problema, José... Avise aos
outros que estarei na minha sala.
O silêncio cuidou de se acomodar entre os
serviçais da loja, salvo aqueles que atendiam ao
cliente chegado há pouco.
Agora Christian, confortavelmente assentado
na poltrona-trono que já pertencera a seu pai,
estava prestes a estrear, finalmente, seu
hardlevel.
Seu amor por jogos era incondicional. Ainda
mais uma novidade, uma nova tecnologia. Por
isso Christian adorava tanto videogames. Era
quase como um instinto: um impulso dificílimo
de se controlar.
O retirou da caixa, cintilante como um
curumim, e o ligou.
–AH!!! – O mesmo choque que o invadiu na
primeira vez que o ligou, voltou a ele...
...TOC, Toc, toc.
–Entre.
–Algum problema, senhor? – investigou um de
seus funcionários, apreensivo.
–Não, não. Meu grito foi muito alto?
–Foi sim Sr.
–Me desculpe Elias. Volte ao trabalho.
–Sim senhor.
Elias fechou a porta levemente, e saiu a passos
largos.
Christian voltou os olhos para o videogame. O
seu Ódio Contra a Máquina estava se
intensificando. Já era a segunda vez que
ocorrera o mesmo problema.
Nervosíssimo, o rapaz guardou o videogame na
caixa e começou a pensar no exato momento
em que fez a suposta troca na loja. Ia voltar lá.
E ia agora.
–Mas... Senhor Salém!... Quem vai gerir a loja
no seu lugar... Enquanto estiver fora?
–Você. Pode fazer isso por mim, Marcos?
–Eu?! Claro!! – surpreendeu-se Marcos.
A gentileza de Marcos foi respondida com um
sorriso discreto e rápido, que quase passou
despercebido.
Entrando no carro e ligando com pressa a chave
de ignição, o rapaz deslizou até a Gameshow.
Ficou inconformado à medida que se ia se
aproximando, porquanto o quarteirão da loja se
encontrava lotado. Voltou algumas quadras, e
guardando o carro no estacionamento mais
próximo dali.
A tarde muito formosa e quente exigiu seu ray-
ban, que normalmente penava no porta-luvas
do rapaz nestes mesmos meses todos os anos.
A temperatura agradável, gostosa, normalmente
atraía multidões para o centrão de São Paulo.
Exatamente por isso, Christian achou muito
curioso o fato de a rua estar tão inóspita.
O percurso do estacionamento até a loja,
mesmo sendo curto (não passavam de três
quadras), reservou-lhe uma surpresa nada
deleitável.
Enquanto manejava o aparelho defeituoso,
alguém o surpreendeu:
–Ei... me passe o seu hardlevel, ou eu enfio
esta faca nas suas costas – silvou uma voz
desconhecida, demasiado ameaçadora.
Christian sentia a lâmina cortante da faca tão
colada em sua pele, que ele tinha absoluta
certeza que qualquer movimento brusco a
alojaria dentro de seu corpo.
–Espere rapaz... não vamos nos...
–Me passe... Agora! – irritou-se o ladrão, que
parecia não querer rodeios. No entanto, seu tom
de voz parecia ainda mais baixo.
–Claro – acalmou Christian. – Mas seria mais
fácil se você tirasse essa faca das minhas
costas. – sugeriu.
Christian sentiu, lentamente, o instrumento
cortante se afastar de sua pele. No mesmo
momento, uma mão se estendeu até onde ficou
bem visível à seus olhos.
–Quando eu disser três..., você vai colocar o
seu hardlevel em minhas mãos... Sem
Gracinhas...
Christian não fez nada senão assentir.
–Um... Dois...
–PARADO AÍ, SEU IDIOTA! – Urrou outra
voz desconhecida, as costas de Christian.
Mas era tarde demais: Christian já havia posto
o videogame nas mãos do ladrão, que saíra
correndo tão velozmente, que driblou fácil o
policial que tentara impedi-lo...

***

–... Me perdoe, jovem. Eu não consegui pegá-


lo... – desolou-se o policial, um tanto velho,
insatisfeito com ele mesmo. – Bandidinhos de
uma figa! Aproveitam a falta de movimento
para praticar seus desprezíveis atos!
–É tudo assim mesmo... Mas não se culpe nem
se incomode, viu? O senhor fez o que pôde. Eu
mesmo vi...
–É... fiz sim... Falando nisso, você não quer ir
prestar nenhuma queixa na polícia? Se quiser,
eu te acompanho... – pediu o policial.
–Não, não é necessário. Muito obrigado,
Senhor...
–Nélson. William Nélson – respondeu o
policial, enxugando o rosto suado com um pano
sujíssimo, que parecia já ter sido usado várias
vezes.
–Policial Nélson, o senhor por acaso sabe o
motivo daquele tumulto, bem ali? – questionou
Christian apontando para a próxima esquina,
onde havia um conglomerado contornando toda
a loja Gameshow.
–Ah sim, meu caro... – o velho policial parou
por um momento, provavelmente para respirar
– A loja FALIU.
–O quê? – Christian insistiu, por ser estranha a
seus ouvidos a última palavra que ouvira.
–Faliu, Quebrou, Acabou, ou seja lá qual outro
sinônimo você queira usar...
–Não, não pode ser... A Gameshow?... Você
sabe... Por quê?
Contaram-me que os fabricantes desse
“hardilével” – o policial deteve-se novamente –
É assim que chamam o joguinho, não?
Christian concordou para que o policial
pudesse prosseguir.
–Então, como eu ia dizendo, o fabricante desse
videogame, não mandou novos exemplares do
jogo aí para a loja. No entanto, a clientela o
procurando não acabou mais rapaz! Soube que
não iam a loja procurando... Outras Coisas.
Apenas esse hardilével. Só ele... Aí aconteceu
que os pedidos foram aumentando,
aumentando, e os “hardiléveis”, diminuindo.
Até que a loja decretou a falência.
–Quer dizer que eles não tinham mais
hardlevels?
–Não. Desde ontem à tarde, comentaram no
meu bairro, que fica a umas duas esquinas da
loja.
–Mas ontem mesmo ele foi lançado! –
Christian exclamou surpreso, em tom sutural.
–Pois é. Não durou nem um dia...
–Puxa vida... pelo menos isso pode explicar
meu videogame... – Christian recordou o
momento em que o vendedor fingiu ter pego
outro hard na despensa da loja.
–Como disse?
–Não... nada... Mas, e o senhor?... É mesmo um
policial? – mudou de assunto o rapaz.
–Na verdade... Não. Não sou mais. Ah sim... o
meu uniforme não é?... – continuou William,
quando percebeu que Christian fitava suas
vestes, sem compreender – É emprestado!...
Custou um certo tempo até que o pessoal do
departamento me deixasse vestir isto aqui
novamente... – comentou, orgulhoso do fardo
azul que vestia.
–Então o senhor não é policial. Mas, por que
você...
–Não, não sou. Agora sou apenas um “ajudante
da lei”. Assim como creio que você seja, e que
a maioria das pessoas deveriam ser...
–Mas eu não entendo porque o senhor ainda
anda com esse uniforme. Já não é um pouco...
Arriscado, para alguém como o senhor?
–Arriscado? Creio que não, meu rapaz. Não
são as pessoas que estão dentro dele que
precisam se sentir em perigo, e sim as que estão
fora, e não cumprem as normas.
–“Se é assim que pensa”... – sibilou Christian,
em voz substancialmente baixa.
–Disse algo?
–Eu? Não...

...Num lugar assaz distante dali, a tarde já


começava a findar e o céu nebuloso, vestido de
nanquim enigmático começava a surgir. A
agradável praça central, um pouco apinhada de
gente, punha-se lentamente a ser evacuada
devido ao tempo encoberto. Porém, no meio de
todos, Jonas Anderson tentava gritar...
“Socorro! Aqui, Socorro!”... embora gritasse
muito, ele não saberia explicar se questionado
porque seus gritos saíam... Abafados.
Estava no meio de um aglomerado de pessoas,
mas parecia estar invisível. Ninguém o ouvia
ou via; Jonas estava... MORTO.
Há pouco tempo atrás, ele viu seu corpo
levantar do banco onde estava sentado, jogando
o game hardlevel, e sair andando, sem ele.
Jonas tentou segui-lo, mas ele se perdeu em
meio a multidão.
O rapaz não tinha ideia de como havia
acontecido isto: como sua alma havia sido
separada de seu corpo. Mas, consigo, havia um
pequeno palpite, sobre quem havia cometido
horrenda maldade: Hardlevel.

4. O Código

Christian Se Despediu do excêntrico


velhinho que usava roupa de policial, e
conferiu no relógio que já eram incríveis sete
da noite. Ainda teve tempo de voltar a sua
locadora e trabalhar até as nove, o horário em
que fechava.
–Até amanhã senhor Salém, e obrigado... –
agradeceu Marcos, que ficara um pouco mais
do que os outros funcionários resolvendo um
problema no retro projetor que passava trailers
de filmes na locadora.
–Obrigado pelo quê, Marcos? – quis saber
Christian.
–Por acreditar em mim... – expôs, grato.
Christian ficou feliz e inseguro por alguns
instantes, até que respondeu:
–Isso não foi nada... E pode acreditar que esta
não será a última vez que eu vou precisar de
você gerenciando a loja em... Então, até
amanhã, Marcos!
–Até, senhor – Marcos redarguiu, empolgado.
Enquanto os dois se afastavam, Christian ainda
ofereceu:
–Você quer uma caroninha? Se quiser, vamos...
–Não é necessário senhor. Meu ônibus vai
passar em menos de dez minutos.
–Você é que sabe...
–Não precisa. – Obstinou Marcos, ainda
estranhando um pouco a mudança de postura
do chefe.
–Tudo bem, se cuide em rapaz! – rematou
Christian, impassível.
–Pode deixar...
Ele entrou no carro, e ligou o rádio para ouvir
algo enquanto dirigia. Sentiu-se afortunado e
jovial. Se havia despedido alguém no dia de
hoje, pelo menos começara a condescender em
amizade com algum funcionário.
Atingiu os portões de sua residência na rua
Jamil Martins número mil e cento e doze, mais
conhecida por se localizar próxima ao parque
ecológico.
Enfiou o carro de modo expresso na garagem
para cruzar o gramado correndo, a fim de se
abrigar contra o frio abaixo das cobertas
aconchegantes de sua cama.
Entretanto, por incrível que pareça, sempre que
tentava fechar os olhos, se lembrava de Jonas.
Ele recordou que devia uma ao amigo.
Prometera a si mesmo averiguar toda a estranha
constituição ligada a hardlevel... Mesmo com o
forte vento que se comprimia no vitrô de seu
quarto, e com a ligeira sensação de que hoje
teria uma ótima noite de sono...

***

O closet abarrotado de roupas que Christian


quase nunca usava.
Decidiu saborear umas delas, nesta noite
friorenta.
Quando se encarou novamente no espelho,
casaco, cachecol, calças de linho. Estava
completamente vestido para penetrar no
crepúsculo.
Ligou para uma outra pessoa, pois tinha de ter
certeza que a rua e o número que tinha do
amigo ainda eram os mesmos, pois ele
obviamente poderia acabar dando com a cara
na porta. Era esmo que ele acreditava que Jonas
não tivesse mudado de casa até então. Mas
preferia prevenir que remediar.
Pegou as chaves do carro, e saiu.
Começara a chover enquanto Christian dirigia,
e foi necessário que ele ligasse os pára-brisas,
pois além da chuva, uma densa névoa colava
em seus vidros.
Ele esperava que a mãe de Jonas ainda
estivesse bem acordada, porque ele odiaria ser
desagradável numa álgida noite de inverno...
–Senhora Anderson?
A mãe de Jonas apertou os olhos, afundou os
óculos no rosto, e viu que era a pessoa que ela
realmente imaginara que fosse.
–Christian?... Eu... Não acredito... Entre,
filho!!!
–Me perdoe o incômodo, Sra. Anderson. Tanto
tempo que nós não nos vemos, e eu venho aqui
num horário destes...
–Incômodo? Não diga isso, Christian! Eu estou
completamente lisonjeada em recebê-lo!
Quanto tempo, querido!... – exclamou a
Senhora Anderson, que mesmo já passando das
dez da noite, parecia extremamente contente
com a visita imprevista. – Entre filho, entre!
Está muito frio para ficarmos parados aqui fora,
não acha? – perguntou num tom amável
enquanto espaçava a porta para que Christian
pudesse entrar.
–É, está sim...
O rapaz adentrou o mesmo antigo doce lar da
família Anderson, e apreciou ao entrar a
suntuosa lareira de mármore ao centro, que
mesmo um tantinho gasta permanecia
imponente como peça principal da sala. Um
confortável estofado verde-abacate coberto de
almofadinhas de diversas cores disputava a
primeira posição com a lareira, e as cortinas
brancas de renda terminavam por deixar tudo
angelical.
A Senhora Anderson convidou-o a sentar-se,
trazendo uma bandeja com alguns
sanduichinhos e duas xícaras de chá de erva-
cidreira.
–O Jonas não está? – averiguou Christian de
modo prospectivo, percebendo a ausência de
uma xícara.
–O Jonas... ainda não chegou – disse a Sra.
Anderson, jogando os cabelos louros e
engraxados como o do filho para trás dos rosto
– Ele saiu logo pela manhã... mas não voltou
até agora.
–Você já ligou pra ele? – perguntou Christian
tomando uma boa dose de chá.
–Sim. Ninguém atende... – Ela olhou para o
quadro onde o filho sorria, e continuou – Algo
Aconteceu. Ele nunca fez isso. Nunca...
–Senhora Anderson, contate a polícia – sugeriu
Christian, preocupado.
Mas quando ele disse isso, a porta se abriu às
suas costas.
–Filho! – bradou a Sra. Anderson – Onde
esteve?!
–Por aí – respondeu Jonas, mas a resposta não
agradou em nada sua mãe. De um pulo, ela saiu
do sofá e foi até seu filho, parado ao pé da
escada.
–Jonas... olhe para mim. OLHE PARA MIM! –
ordenou a mãe, quando o filho parecia ignorar
seu pedido. – Enquanto estiver sobre este teto,
você nunca... Nunca mais irá fazer isso. Você
me entendeu?
–Claro... – contrapôs, parecendo irônico.
Jonas parecia evitar o olhar da mãe. Subiu as
escadas e nem falou com Christian, como se
não o conhecesse. A Senhora Anderson se
virou, e percebeu que havia gritado com o filho
na frente de Christian.
–Oh, Christian... perdão por isso... eu não
deveria ter falado assim com ele, e...
–Não Senhora Anderson. – Christian começou
com seriedade. – A senhora está mais do que
certa de brigar com ele. Ele é quem não devia
ter te preocupado desse jeito! Será que não se
lembra da ocasião em que perdeu o pai num
acidente de carro, e...
A Sra. Anderson quase chorava.
Mas nem se tratando tanto disso, quem era ele
para se atrever a tocar no assunto da morte de
seu marido? Quem?
Envergonhado com sua própria petulância, o
rapaz e pensou em algo rápido para que
pudesse sair da sala.
–... Eu vou falar com ele... – sugeriu, se
retirando alcantilado.
... “TOC, toc, TOC”...
–Jonas, posso entrar?
–Sim. – Uma voz antipática se fez ouvir do
lado de dentro da porta.
Quando Christian a abriu, contemplou o quarto
mais bem-arrumado que já vira na vida.
Realmente, era possível perceber uma notável
diferença entre a infância de Jonas e a fase
adulta.
O garotinho desarrumado parecia ter se tornado
um homem dos mais asseados.
Christian procurou recordar as várias vezes que
o amigo era repreendido por sua mãe pelo
quarto tumultuado.
“O Seu Quarto não é assim, né Christian?”
“Não” – Ele sempre dizia. Embora nunca
fosse verdade...
–Christian?
O rapaz voltou ao quarto.
–Fale.
–Fale você. Por que veio aqui? – perguntou
Jonas, ranzinza.
–Ora essa, eu fiquei preocupado com você,
depois que foi a minha casa e falou tudo
aquilo...
–Eu estou bem.
–Está? – questionou Christian, recognitivo.
–Estou.
–Por que veio tão tarde? Quando eu cheguei,
sua mãe estava morrendo de preocupação.
–Eu tive um... Compromisso. – Apesar de
curto, Jonas respondia torpe em demasia.
–Sua mãe disse que você não atendia o celular
– Christian contra-atacou.
–Estava desligado.
–Não faça mais isso, Jonas. É o meu conselho a
você. Não tem ideia do quanto sua mãe ficou
nervosa.
–Isso não importa.
–O que disse?
–O que importa é que estou bem – continuou.
Christian não estava conseguindo compreender
o amigo. Ele parecia tão... Insensível...
–Jonas, acho que você precisa ficar um pouco
sozinho.
–Concordo Plenamente.
Neste momento, ele sentiu vontade de dar um
soco em Jonas. Antes de tudo queria ajudá-lo,
mas o amigo não dava à mínima.
Desceu sem se despedir e deu um forte abraço
na Sra. Anderson, pois ele sabia que, por sua
vontade, nunca mais botaria os pés naquela
casa.
Saiu em dualidade com a escuridão friorenta
até que chegasse a seu carro, quente e
confortável.
Eram dez, quase onze da noite e ele outra vez a
porta de sua casa. Até então, não havia tomado
conhecimento de que demorara tanto na casa de
Jonas.
Graças à decisão de ir à casa do amigo, sua
insônia estava de volta.
Algumas horinhas de sono eram insolvíveis
para um dia produtivo em seguida, mas ele não
tinha um pingo de vontade de deitar, e já
sentira que teria dificuldade em dormir como
no dia anterior.
Passou a examinar a cobertura ornamental de
sua cama, cilíndrica e franjada em forma de
caracol, e acabou ressonando guturalmente...

***

–Por que você morreu, Susane? Também foi


por causa do hardlevel? – Jonas indagou a uma
mulher que acabara de chegar, também em
espírito, na praça onde se reuniam.
–É... acho que sim... – a mulher chamada
Susane respondeu, muito por ainda não saber
de nada.
–Todos nós – começou Jonas, havia seis ou
sete pessoas detrás dele, que senão crianças,
adolescentes – ao que tudo indica, morremos
por causa do hardlevel.
–Mas... e agora? Não há como voltar?
Perdemos nossos corpos e não podemos mais
recuperar? – questionou a mulher, em tom
amofinado.
–Há... uma hipótese...
–E qual é? – quis saber Susane.
–Existe um código, para que façamos conexão
com alguém que esteja vivo. É um ótimo modo
de termos alguma chance de voltar.
–Perdão. Eu não entendi nada do que disse... –
a mulher contou, sem se envergonhar.
–Porque nem eu sei muito bem o que estou
dizendo... – declarou Jonas. – Foster, explique
a ela, por favor.
Um homem senil saiu da escuridão.
–Você também jogava... Hardlevel? –
interrogou Susane, parecendo surpresa com o
fato de alguém idoso se interessar pelo jogo.
–Sim. Não é só porque sou velho que não posso
gostar de um videogame novo, que parecia
inteligente – alegou Foster, desaprovando o
julgamento da moça.
–Ele foi o primeiro a chegar aqui, Suzanne. E
conhece coisas que ainda não sabemos – Jonas
esclareceu a moça.
O rapaz olhou para Foster novamente como se
fosse um sinal para que ele pudesse começar a
falar.
–Bem, então a início de explicação, eu creio
que já não sejamos os únicos afetados pelo
videogame.
–Afetados? Estamos mortos, não estamos? –
interrompeu Susane, abismada.
–Deixe ele falar! – sugeriu uma garotinha
trigueira de olhos castanhos-areia, que também
chegara há pouco tempo.
–Bom, como eu dizia, não somos os únicos
afetados – repetiu Foster a palavra que
incomodou Susane. – Na verdade, presumo que
não somos nem dez por cento deles. Como
vêem, estamos em pleno centro da cidade. Só
não podem ver-nos, ou sentir-nos... – explicou
Foster, dando um soco no rosto de um homem
que passava, mas ele não o sentiu. – Acredito
que o hardlevel seja um tipo de... Transferidor.
–Transferidor? Como assim? – questionou um
garoto que também estava com o grupo,
absorto nas informações que Foster passava a
eles.
–Não sei se sentiram o mesmo que eu, mas
havia algo estranho dentro do videogame.
–“Algo Estranho” – repisou Susane em tom
francamente irônico. – Pode ser mais
específico, Sr. Sabichão?...
–Havia VIDA na máquina! – respondeu Foster
excelso e aborrecido com a moça.
Susane o olhou sovada e perplexa.
–Isso é Impossível!
–Não, não é, Susane. Infelizmente é verdade –
divulgou Jonas, desenredado.
–O código que o rapaz Jonas falou, só pode ser
feito por uma pessoa. Temos apenas que nos
preocupar em garantir que nenhuma outra o
esteja usando no momento, senão, pode dar...
Errado.
–E como ele pode ser feito? – questionou um
garoto baixo de cabelos pretos e impugnados,
referindo-se ao código.
–Teremos que esperar cinco pessoas passarem,
e cada uma delas terá um número marcado
bem aqui – disse Foster, apontando para a
região da testa. – Quando todas passarem,
juntamos os números e vemos o resultado: esse
é o código.
–E como você sabe de tudo isso? – intrigou-se
Susane, novamente.
–Leitura.
–Leitura? – retiniram todos ao mesmo tempo.
–Pra ser mais exato, Relatos Secretos de Bóris
Brainvich, de Íris Brainvich.
Todos permaneceram olhando-lhe enfadados,
mas ele não continuou a falar. Apenas voltou a
se sentar no banco metálico onde estava
exatamente quando o chamaram.
–Então todos vocês estão esperando esses
números – perguntou Susane em tom
presunçoso.
–Sim – Jonas rebateu.
–E encontraram quantos?
–Nenhum.
–E se esses números não existirem? Se não
chegarem até nos?
–Existem Susane. Foster disse que existem –
respondeu a garotinha morena.
Mas Susane possuía um defeito grave:
contestar tudo o que lhe era apresentado. De
modo súbito, após a frase da garota, ela
explodiu:
–Isso é uma tremenda LOUCURA! Como
vocês podem acreditar no que esse velho
decrépito está dizendo! – exclamou, com Foster
tão afastado, que não podia nem ao menos se
defender. – Ele não sabe o que diz! Está
baseando tudo no livro idiota que leu!!
Todos olhavam para ela com ar de
desaprovação ao que dizia. Perdendo espaço, a
moça decidiu recuar:
–Qual é, gente... Era só uma piada...
–Não era. Piadas têm graça.
–Por favor, pessoal... Não queira polemizar
discutindo. E você Susane, se não acredita nas
palavras de Foster, pode sair daqui. Vá
procurar outro grupo. Realmente parece
loucura, mas...
–Um número! – alguém berrou.
Todos viraram os olhos imediatamente para
onde o rapaz abalizara. Realmente, uma mulher
passava a frente deles. E existia um número
marcado em sua testa: 8.
–... É a nossa única chance... – Jonas finalizou
sua frase.
–Oito. Número oito... – disse o mesmo rapaz,
tentando memorizá-lo.
O jovem Jonas Anderson agora sabia que
todos, em especial a desconfiada Susane,
acreditariam pelo menos um pouco no que
Foster procurava afirmar. Ele não fazia ideia de
como o velho conhecia tantos segredos, mas
sabia que ele não mentia, como Susane insistia
em procurar provas concretas contra. Na
verdade, até ele, às vezes, se sentia um tanto
incrédulo em analogia as revelações de Foster,
por nunca ter ouvido falar de algo parecido;
Mas não estava pouco ligando para isso.
Contanto que conseguisse seu corpo de volta,
tudo estaria bem...
...Conforme a noite abatia-se, Jonas percebia
que, ainda que sem corpo, sentia sono. Alguns
do grupo já roncavam audivelmente, mas um
par de olhos negros insistia em permanecer
vividamente aberto.
–Não vai dormir, garoto? – interrogou o dono
dos olhos ao examinar a face sonolenta,
obviamente em alma, de Jonas.
–Não. Eu vou ficar aqui acordado com você –
determinou Jonas, decidido.
Foster não disse nada; mas ficou admirado com
a decisão desvanecedora de Jonas, pois todos
estavam dormindo.
–Bom Foster, enquanto não temos nada pra
fazer, vamos nos conhecer melhor, não é? –
sugeriu Jonas, amigável.
–Claro! Já estava quase dizendo o mesmo –
confessou Foster, embora, pelas circunstâncias,
não parecesse ser verdade.
–Eu sou Jonas Anderson, e tenho vinte e três
anos. Trabalho, quer dizer, trabalhava... É a
força do hábito né...
Foster riu.
–Como eu dizia, trabalhava numa empresa de
contabilidade, e ainda morava com a minha
mãe... E isso até que me deixa um pouco
preocupado. Eu fico imaginando como ela deve
estar...
–Ela deve estar bem... – Foster começou.
–Tomara.
–... Se você não tiver retornado para casa –
rematou. – É claro que, por ser um garoto
inteligente, você sabe que estou falando do seu
corpo, não é?
–Claro.
Foster percebeu o olhar de preocupação de
Jonas referente à sua mãe, e quis mudar de
contexto rapidamente, na tentativa de que ele
esquecesse um pouco o assunto.
–Você já falou um pouco sobre você, garoto,
então agora é minha vez – afirmou Foster com
um sorriso nada empolgante. – Eu sou Samuel
Foster, nascido no dia dezesseis de agosto de
mil novecentos e cinquenta e sete. Fui
aposentado por invalidez do meu serviço no
exército quando, após um tiro, perdi
completamente os movimentos da perna
esquerda.
–Então você...
–Sim. Precisei amputá-la – respondeu Foster,
prevendo a pergunta de Jonas – Eu usava uma
perna mecânica no lugar dela. Eu...
–Foster...
–Espere, me deixe terminar, garoto...
–Foster! – Jonas bradou exageradamente
arisco. – Um número!
Os dois estavam sentados cara a cara, de modo
que um via a praça, e o outro, a rua. A
escuridão estava aliciada com um tempo
nubífero, por isso era tão difícil enxergar.
Mas Jonas o viu. Ali estava ele, cravado na
testa de um homem que vinha apressado, e
corria tanto, que parecia estar fugindo de
alguém.
–É! É um dois! – contra-atacou Samuel ao
virar-se ligeiro para a praça, o local onde Jonas
vigiava.
–Eu acho que não era um dois... – avisou Jonas,
momentos depois de o homem passar por eles.
–Então vá atrás dele! – ordenou Samuel.
–O quê?...
–Vá... Atrás... Dele!... AGORA!!!
Foster não precisou nem terminar a frase
porque Jonas saiu em disparada atrás do
homem. Se sua vida realmente dependia desses
números, ele não hesitaria em tê-los. Estava no
encalço do sujeito desconhecido, quando ele
dobrou uma esquina.
Jonas arquejou, extenuado, e também entrou na
mesma rua. Parou, e examinou todos os cantos
dela, mas o homem não estava lá... havia
desaparecido... Mas..., para onde teria ido? Era
um beco sem-saída, ele não poderia ter ido a
lugar algum, e...
–AHH!!!
Jonas sentiu algo transpassar sua alma. Era o
homem. Ele parecia ter tentado agarrá-lo, mas,
sem sucesso.
O rapaz correu como nunca correra em vida até
se distanciar razoavelmente do homem
misterioso.
...O que será que ele queria? O que viera
buscar? Será que, de alguma forma, ele sabia
da presença de Jonas ali?...
Essas eram algumas das perguntas pendentes
enquanto o rapaz corria, mesmo dispnéico.
Um.
O número era um.
E não dois, como Samuel pensara.
Jonas desconhecia a razão pela qual o homem
pulou sobre ele, mas sabia que ele não
pretendia algo bom.
Retornou a praça trazendo o verdadeiro
número, e o sol se pôs de vez no céu azul...

***

...Pih, Pih, Pih,...


O despertador já cortava o silêncio há quase
cinco minutos.

“Indistinguivelmente, o som do relógio se


uniu ao som das vozes em seu sonho, e ele
percebeu estar atrasado”...
... Jonas dizia: “Saia daqui”, “ Eu estou
bem” ,“ Não preciso da sua ajuda”...
–Cale a boca, JONAS! – O grito de
Christian conseguiu ser mais sonoro e intenso
que o próprio despertador.
O rapaz se levantou, abalado e com frio (havia
dormido apenas com um edredom, enquanto
um vento tempestuoso golpeava as vidraças
mal-fechadas de seu quarto), voltando-se os
olhos sorrateiramente ao relógio, conferindo
que já devia ter saído de casa há quinze
minutos. Se arrumou, comeu algo, e saiu
calmo.
Por mais que procurasse se tranquilizar, ele
sabia que por estar preeminentemente mal,
qualquer episódio de discórdia, mínimo que
fosse, acabaria com seu lado emocional.
Egressou de sua casa com seu mesmo
sofisticado carro preto, tentando, no caminho,
responder algumas perguntas que tinha sobre
Jonas. Por que o amigo fora tão rude com ele?
Por que o tratara tão mal? Não haviam sequer
razões para isso.
Nenhuma delas...
Ele chegou à locadora cumprimentando um por
um seus funcionários, que pareciam estar
fazendo um bom trabalho nesta manhã. Pediu
perdão a todos pelo modo que vinha tratando-
os; admitindo que não estava sendo um bom
chefe.
–Se eu estivesse em seu lugar eu não diria isso,
senhor... – reprovou Marcos – Seu pai
infelizmente faleceu, mas agora, você é nosso
chefe!
–Eu sei, Marcos... mas não é só porque sou
chefe que devo me sentir superior a todos
vocês... – acrescentou.
Christian podia ser o que fosse na vida, mas
algo que parecia passar de modo patogênico em
toda a sua geração era a humildade. Se hoje a
família de Christian era abastada em finanças,
foi porque ontem foram humildes. A
simplicidade era algo que sempre esteve, e, se
dependesse de Christian, sempre ficaria detrás
dos portões da família Salém...
–Eu tenho que ser honesto, senhor... – começou
Jorge, também funcionário – Você é um chefe,
mas não se encaixa muito bem nesse perfil. Eu
preferia mesmo o seu pai... – confessou.
Christian ficou com uma cor escarlate cálida;
mas não respondeu nada a Jorge.
–Porém, depois do que nos disse, eu aprendi a
vê-lo com outros olhos... – Jorge terminou.
Christian sorriu, e deu um espontâneo e
gratuito abraço no funcionário.
–Obrigado, Jorge... Obrigado a todos vocês! –
exclamou. – Hoje teremos muito trabalho,
pessoal! Temos muito o que fazer!
–Claro, senhor! Estamos todos prontos! –
respondeu um deles, exultante com o novo
chefe.
E o dia foi muito agradável. Após fazer as
pazes com todos, Christian pôde trabalhar
melhor em sua própria empresa.
O funcionário despedido, Erick Lemos, voltou
à locadora. Conversou com Christian em sua
sala, e saiu normalmente, sem causar nenhum
tipo de confusão. Até passou pela cabeça do
rapaz readmitir Erick, mas ele sentiu que não
era a coisa certa a se fazer.
Não era orgulho, nem muito menos
prepotência. O problema era que além das
discussões com Christian, Erick também
aventava com os próprios colegas de trabalho.
–Rapazes, eu gostaria de informar-lhes que
vocês vão ter novos companheiros de trabalho.
Ou melhor, companheiras...
–Ah, Salém! Até que enfim uma mulherada
aqui na loja! Já tava pegando mal pra gente!... –
Elias chacoteou.
–É... ao todo são seis que vão fazer entrevista
comigo essa semana, mas eu preciso de apenas
três...
–Beleza, então até semana que vem essa loja já
vai estar de cara nova...
–Espero que sim, Marcos...
Das moças para entrevistas, apareceram apenas
duas no primeiro dia.
Christian gostou de ambas: as achou
simpáticas, bonitas, e se decidiu por contratá-
las. Mas o problema é que se todas fossem
assim, ele iria acabar ficando indeciso entre
elas, e os funcionários homens...
Teve fim mais um dia de trabalho, e Christian
se despediu cordialmente de todos os
funcionários.
Ele estava tão bem que decidiu pegar alguns
filmes em sua locadora para ver se podia ficar
ainda melhor.
Seus planos para esta noite eram somente
assisti-los; primeiro pôs um de faroeste, não
muito empolgante, e acabou pegando no sono
enquanto acompanhava...

***

Chovia Granizo. Mas, mesmo sem pele,


Jonas podia senti-la, flagelando-lhe, enquanto
perseguia o dono do quinto número.
Os dois que antecederam esse haviam sido
fáceis, passaram andando. Mas este pequeno
garoto cismara em correr tanto quanto o
homem com o número 1.
Jonas o acossava há mais de dez minutos, e
toda vez que se aproximava, o garoto dobrava a
rua. Foram parar numa alameda escura e suja,
com árvores tão grandes e frondosas que a
deixavam mais escura e sombria do que parecia
ser.
Já em seu encalço, o garoto parou, alcantilado,
e começou a olhar para o lugar onde Jonas
estava. Um horrível frisson o invadiu quando o
garoto perguntou:
–Quem é você?
Jonas suspirou por um momento, e viu o
número 6 gravado em sua testa.
–Meu nome é Jonas, e... estou morto.
–Por que está me seguindo?
Por mais incrível que possa parecer, Jonas não
sentiu ilícito contar ao garoto tudo o que lhe
havia acontecido.
–Você está LOUCO! Eu não tenho número
nenhum gravado na testa!! – berrou o menino,
quando Jonas terminou de contar toda a
indigesta história.
O rapaz resolveu não discutir com o garoto,
porque afinal, ele não tinha nada a ver com este
acontecimento. Seria muito melhor ainda
deixá-lo fora disso, onde exatamente estava
quando começou a conversar com Jonas.
Despediu-se do menino com apenas um aceno
de mão, e avançou em direção a praça onde
todos do grupo o aguardavam, a espera do
número. Quando estava prestes a cruzar a rua, o
garoto disse:
“ESPERE”
Bem como Jonas volveu-se novamente, viu
dois pares de olhos encararem os seus. Um o
enfrentava firmemente; mas, o outro, não tinha
muito foco; Jonas sabia ainda estar invisível a
ele.
–Ali papai, “Olhe”... – dizia o garoto,
apontando insistente para onde Jonas estava.
–Eu não o vejo, filho – respondeu o homem,
enquanto Jonas pregava os olhos no número
Um, repousado em sua testa.
–ELES contaram que ele diria que temos
números marcados na testa. E ele disse, papai,
ele disse...
–Filho, eu quero que me diga exatamente aonde
ele...
–Papai! Ele está... CORRENDO!!!
Jonas saíra em disparada dali. Ele sabia que
existia alguém por trás de tudo isso. Alguém
que queria impedir que usassem o código...
–MAIS RÁPIDO, PAPAI! Mais Rápido!!
Apesar de muito assustado, Jonas Anderson
não olhava para trás. Ele sabia que o pai do
garoto estava extremamente próximo. Pelo
menos isso poderia elucidar o pulo do homem
sobre ele na tentativa de apanhá-lo, um dia
antes. Mesmo que considerasse impossível a
hipótese do homem conseguir pegar-lhe, não
queria arriscar. Não Podia arriscar... Ele corria
de modo contemporizado, pois estava perdido.
Nunca andara por aquele bairro, então estava
procurando ao menos despistar o garoto e seu
pai.
–JONAS, AQUI!
O rapaz olhou para o lugar de onde surgiu a
repentina voz, e viu um velho de cabelos e
barbas que pareciam revestidos com uma
camada prata dentro de um tipo de incubadora.
–Que diabos é isso?...
–É um esconderijo, ora! Agora entre e cale a
boca, porque o garoto pode nos ouvir –
advertiu o mesmo velho.
“Jogue o cubo PAPAI! Jogue o CUBO
Agora!!!”
“Onde ele está, filho?!?”, Jonas sentiu a voz
rouca do homem se aproximar mais e mais do
lugar que ele se encontrava.
“Eu... NÃO SEI!... Ele SUMIU!!”
“Mas que Droga! Quase o pegamos!”
“Ainda podemos pegá-lo! Vamos por ali...”
E os sons dos passos do homem e do garoto
começaram a se distanciar dali.
–Eles já foram – informou Samuel, abrindo a
portinhola do lugar onde se escondiam.
–Você ainda não me explicou o que é isso –
obstinou Jonas, apontando firme para o artifício
de onde saíram. – Eu nunca vi um troço desses
na minha vida!
–O problema... – principiou Samuel Foster – É
que você não está vivo... Você se esquece
disso? – indagou, olhando de maneira
especiosa para Jonas.
Jonas não respondeu, pois odiava se sentir
diminuído, ou ignorante. E no momento, ele se
sentia exatamente assim.
–Quem eram eles? O garoto e o homem?–
perguntou Jonas após eles já haverem
percorrido duas esquinas, e ele sentir-se mais
seguro de si mesmo.
–Bom, Jonas, eu quero que saiba que não sou
nenhum expert formado em “defesa contra
alienígenas ou outros perigos alheios”. Eu fui
em vida uma pessoa normal, que por ter tido
um tempo de vida maior que o seu, aprendi
coisas mais que você. Por isso e por muitas
outras coisas, eu posso concluir que o menino e
o homem já sabem de toda a história
envolvendo o hard; talvez até saibam mais que
nós. Alguém que queria nos deter usou-lhes na
esperança de que pudessem nos pegar. Esse
alguém, Jonas, está com medo que o nosso
plano dê certo...
Os dois cortaram outra esquina, e finalmente
avistaram a praça de bancos metálicos.
–Jonas... eu cheguei a uma decisão... – revelou
Samuel, antes que pudessem se encontrar com
o grupo.
–Qual? – quis saber Jonas em grande afã.
Samuel parou subitamente de falar. Ele abriu
seus lábios novamente quando já estavam em
frente ao grupo.
–Esta Noite, a conexão será feita – declarou
Samuel, a todos que podiam ouvi-lo.
–E quem vai fazê-la? Você é?... – Susane
instigou.
–JONAS.
–Eu? – indagou Jonas, em tom de surpresa.
–Por que ele? – se exaltou novamente Susane,
que parecia condenar seriamente a decisão.
–Porque ele foi o único a correr atrás dos
números. Foi o único a ficar acordado, os
esperando, enquanto vocês dormiam. Foi o
único que correu riscos por aqui. Só por isso...
– explanou Foster imensuravelmente claro.
–Mas... Foster! Não pode ser ele! Se isso
realmente for verdade, todo o meu futuro vai
estar nas mãos de um... Moleque!
–MOLEQUE?!? Olha aqui, senhorita “SE
METE EM TUDO”, eu...
–Acalme-se Jonas. E, Susane, será ele. Não há
mais o que contestar – disse Samuel quando
todos os outros faziam sinal de apoio a Jonas. –
Você já sabe com quem irá estabelecer a
conexão?
“Christian”, Jonas pensou. O único que
poderia crer nessa história.
–Jonas?...
–Christian.
–Quem é Christian?
–Um grande amigo.
–Certo. Então, antes de começarmos, devemos
ponderar um pouco sobre o que você irá falar a
ele. Já tem alguma idéia? – Foster questionou.
–Hum... sim.
–E o que é?
–Bom, eu vou tentar dizer a ele que estou
morto, e que preciso de sua ajuda para voltar à
vida – sugeriu Jonas. – E também que ele
precisa encontrar meu outro eu e descobrir
tudo o que conseguir.
–Bem lembrado! – contrapôs Foster,
aprovando-o com um sorriso. – Acho que se
você também tiver a oportunidade, fale para ele
procurar sobre um escritor chamado Bóris
Brainvich.
–Lá vem ele com essa história de “Brainviqui”
de novo... – zumbiu Susane com os garotos que
estavam ao seu lado.
–Pode deixar Samuel – asseverou Jonas.
Samuel Foster olhou circunspeto para Jonas e
articulou:
–Você está pronto?
–Sim.
–Então podemos... Começar.
–Quando você quiser...
–Você tem que imaginar firme o lugar para
onde você vai, está bem? Você vai parar
exatamente no lugar onde está pensando.
–Está bem.
–Tem alguma pergunta?
–Não.
Samuel pediu para que Jonas entrasse num
círculo riscado no chão. Ele entrou, e Foster
começou a proferir os números do código: 8, 1,
3, 9, 6. Cada vez mais rápido, cada vez em
outras línguas...
...E a praça começou a girar. Jonas via borrões
na escuridão; acenando-lhe e desejando boa
sorte...
–Espere! Eu tenho uma pergunta!...
Tarde demais. Jonas já estava fora da praça.
–Queria saber quanto tempo eu fico assim... –
disse, quando seu corpo parecia, de alguma
forma, restituído a sua alma.
Jonas estava numa casa grande e desarrumada.
As luzes estavam acesas em cada um dos
cômodos, com exceção da sala. Nela, o
televisor estava com a imagem congelada,
provavelmente após o fim de algum filme. O
rapaz se aproximou mais da sala, e viu restos
de pipoca esparramados pelo tapete. No
entanto, rapidamente, sua atenção se desviou da
pipoca para um rapaz de cabelos negros, que
roncava ruidosamente...
–CHRISTIAN!...
O rapaz, porém, nada ouviu. Estava absorto em
sonhos, e pela primeira vez na semana estava
tendo um bom sono.
Jonas tomou parte do tempo que tinha para
refletir sobre algumas idéias. Foster não lhe
dera muitas instruções sobre o que fazer. Nem
menos lhe falara sobre o tempo que possuía
para realizar o trabalho. Em outras palavras,
Jonas teria que agir rápido, e sozinho...

***

Christian dormia como uma pedra. Jonas


apreciava os curiosos minutos que pareciam
devolver-lhe seu corpo. Já tentara acordar o
amigo gritando, mas ele nem ao menos se
movia. Estava quase desistindo e imaginava
que a qualquer momento tudo começaria a girar
novamente e ele estaria de volta à praça,
quando o inesperado aconteceu: no momento
em que ele resolveu encher um balde d’água e
jogar em Christian, o amigo acordou na mesma
hora, de um susto, e passou a fitá-lo, com olhos
tão vermelhos quanto o fogo.
–Mas O QUÊ?
Christian e Jonas estavam frente a frente. O
primeiro rapaz muito mais confuso que o
segundo.
–Jonas, o que você tá fazendo aqui?! – rufou
Christian, com os olhos numa cor rubro-
escaldante.
– Acalme-se Christian, tenho uma longa
história pra te contar...
E Jonas explicou-lhe tudo. Desde sua fatídica
morte até como chegara ali.
–ISSO É RIDÍCULO! – pulsou Christian
completamente esbodegado.
–Christian, acredite em mim, pelo menos por
um instante! – Jonas implorou.
Christian, porém, o olhava com suspeição.
–Você quer saber do dia em que o visitei pela
última vez, não é?... Porque mudei de idéia tão
rapidamente. É porque aquele já não era mais
eu. Quer dizer, no começo era, depois a outra
coisa dentro do meu corpo já estava começando
a me dominar...
Christian fez cara de pasmo.
–Mas.. Eu te vi! Na sua casa! E você foi
completamente grosseiro comigo!!
–Aquele não era eu, Christian! Você ainda não
entendeu?! Alguém tomou meu corpo!! –
gritou Jonas em tom excedido – Mas... você me
viu na minha casa? Quer dizer, meu corpo, eu
estou pegando o hábito do Foster...
–Sim. Eu fui à sua casa te visitar depois do dia
que veio aqui – suscitou Christian um pouco
mais calmo, mas ainda espantado de modo
desmedido.
–Está entendendo melhor agora? Você foi a
minha casa e conversou com alguém que está
no meu corpo, mas que não sou eu...
–Isso é impossível, Jonas!
–Christian. É a segunda vez em menos de uma
semana que eu ouço você dizer que algo é
impossível. E, por incrível que pareça, eu tenho
certeza que você é a única pessoa que pode me
ajudar. Não tenho ideia do que tinha naquele
videogame, mas era maligno. A propósito,
desfaça-se do seu o mais rápido possível.
–O meu foi roubado.
–Roubado?
–É. Esse videogame virou uma febre imediata
Jonas. Eu vejo todos os dias nas ruas pessoas
com o hardlevel, por todos os cantos que olho.
Comigo foi só um roubo, mas vi na T.V. um
dia desses um assalto numa loja de games e
adivinhe apenas o que roubaram: hardlevels.
Sinceramente, acho que até mesmo já mataram
por esse jogo.
–Isso porque ele é viciante Christian! É normal
alguém se interessar por um videogame, mas
não é normal não conseguir parar de jogá-lo!
Você não chegou a jogar o seu por ele estar
com defeito, não é mesmo?
–É.
Os dois se entreolharam por ínfimos
momentos, e sem entremeios, Jonas foi direto
ao ponto:
–Bem, amigo, tenho que contar-lhe logo a
razão de eu ter vindo até aqui, pois não sei
quanto tempo ainda possuo...
–Como eu posso vê-lo? – impugnou Christian,
intrigado.
–Christian, eu ainda não sei explicar muito
bem, só quero que ouça o que eu tenho a...
–EU NÃO CONSIGO ACREDITAR NISSO,
JONAS! NÃO CONSIGO!! É TUDO
MUITO... Muito...
–CHRISTIAN!
O rapaz se calou no mesmo momento.
–Eu sei que é difícil entender, mas você acha o
quê?! Que estou mentindo pra você! Por que
faria isso? Não é uma brincadeira um tanto sem
nexo? – interrogou Jonas, surreal e evasivo. –
Eu dependo de você, amigo. A minha vida
depende disso...
–Me perdoe. É que é muito difícil acordar com
um balde de água na cara, e depois ouvir uma
história dessas... – confessou Christian. – O que
eu tenho que fazer?
–Eu quero que comece a se relacionar com o
meu outro eu, enquanto vejo o que consigo
descobrir. E, dentro de alguns dias, vou tentar
falar com você novamente. Outra coisa: preciso
que você procure um livro pra mim de um
escritor chamado Bóris Brainvich. Não me
disseram o nome, mas sei que você vai
conseguir encontrá-lo...
–Eu admito que ainda esteja meio perplexo...
Mas vou te ajudar, amigo. Eu vou.
–É muito bom ouvir isso, Christian.
Os dois amigos só não cederam a um amplexo
porque seria impossível.
–Quando tempo você ainda tem? – interpolou
Christian, desairoso.
–Não sei. Mas ainda devo ter muito... por quê?
–Porque você está... SUMINDO!...
–Sumindo?
–Olhe Suas Mãos!
Jonas olhou. Sua mão direita estava
completamente aspirada; e a esquerda, sem dois
dedos.
–O que... Que é ISSO!
Jonas olhava agora para o lugar onde estaria
seu dedo indicador, e seu corpo começava a ser
tragado com mais rapidez.
–Christian, faça tudo o que eu te pedi! –
exclamava ao amigo, conturbado.
–Mas O Que Está Acontecendo, Jonas?
–Eu não sei! Eu não sei!!! – reiterava,
desesperado.
–No segundo que se sucedeu, Jonas pôde
perceber que o amigo não podia mais vê-lo.
Mas ele ainda estava ali...
DE REPENTE, tudo começou a girar. De
novo...
***

Quando os vultos e borrões começaram a


sumir, deram lugar a um quarto azul-marinho,
totalmente coberto por livros. A cama, a mesa-
de-cabeceira, e o guarda-roupa espelhado
estavam perfeitamente alinhados de um modo
que no centro pudesse estar à mostra um
caríssimo tapete turco.
SENÃO Pelo tapete, Jonas não reconheceria
seu próprio quarto, por se achar mil vezes mais
bem composto que o tradicional. Parecia estar
sendo muito mais frequentado e arrumado do
que quando o rapaz esteve vivo.
SUBITAMENTE, a porta fendeu-se. E Jonas
se desesperou quando o viu correndo em
direção a ele mesmo...
Mas... o que teria acontecido? O que o levara a
seu próprio quarto? Ele não sabia explicar.
Apenas fechou os olhos e esperou pelo pior.
Sentiu uma mão agarrar-lhe, mas tudo voltou a
girar...
***

JONAS... Você está... BEM?... – questionou


uma garotinha sardenta de cabelos ruivos que o
olhava, apreensiva.
Jonas estava estatelado no chão da praça de
bancos metálicos, e todos silenciaram no
mesmo momento em que ele surgiu.
–Nenhum pouco... – o rapaz conseguiu
responder a garota, com um certo esforço.
–Saiam da frente! – rosnava um velho,
distinguindo-se dos outros.
Jonas olhou para o lado de onde emanava a
voz, mas permaneceu no chão.
–Ele tocou em mim – relatou Jonas, quando viu
os olhos seguros de Foster arrostarem-lhe. – A
pessoa que está em meu corpo... Eu queria
saber Foster, com que espécie de ser-humano
estamos lidando. Como fizeram isso, e por
quê...
Samuel olhou o rapaz com grande veemência,
abaixando as sobrancelhas, arrependido:
–Jonas... eu tenho que te contar uma coisa que
todos aqui já sabem...
–O quê? – questionou Jonas, esbaforido.
–Não são pessoas, assim como nós, que
tomaram nossos corpos. São...
Extraterrestres...
A face em espírito de Jonas ficou atarantada.
–Como aliens..., você quer dizer? – perguntou
Jonas, em tom obsequioso.
Foster aderiu.
–Por que não me contou isso antes? Que tinha
um alienígena dentro do meu corpo?! –
esbravejou Jonas, de modo instantâneo.
–Porque você não...
–Que droga Foster! Eu fiquei lado a lado com
um alien, e você...
–Você não acreditaria! – revogou Samuel. –
Você pensa ser fácil chegar e falar a alguém
que há um alienígena em seu corpo? Não, não é
tão simples como parece!!
–E por que eles invadiram nossos corpos? –
Jonas perguntou ainda alterado.
–Eu não sei Jonas. Eu não sei... eu li muito,
mas os livros não diziam nada sobre isso... – O
que temos que fazer agora é nos acalmar e
pensarmos juntos no que devemos...
–O que conseguiu? – perguntou Susane de
modo muito bruto, obstruindo indiscretamente
o diálogo.
Todos silenciaram para ouvir a resposta de
Jonas, que já estava regenerado e bem.
–Eu falei com o meu amigo, e pedi para ele se
aproximar do meu outro eu e ver o que
consegue descobrir – respondeu Jonas, com a
conversa agrestemente parva no mesmo
patamar da de Susane.
–Bravo! – gritou Samuel, que parecia mais
querer conter uma possível briga do que
realmente elogiá-lo. E, ao seu gesto, todos
começaram a aplaudi-lo – Com exceção de
Susane...
–Não, não, não!!! – protestou a mulher. –
Vocês, sinceramente, acham que o plano
mixuruca desse garoto louco vai nos ajudar?
ACHAM???
–Jonas, não dê ouvidos. Ela está assim desde
que você saiu – confidenciou Samuel ao rapaz.
–Correção, Foster: ela está assim desde que
chegou aqui...
–Não quero que briguem, tudo bem?
–Pode deixar – respondeu Jonas em inteira
concordância.
–Vamos, me respondam, alguém acha? –
questionou outra vez Susane, se virando
especialmente para os garotos e garotas que
estavam presentes no grupo.
–EU ACHO – revelou Henrique, um garoto
tímido que também estava com o grupo.
–O que disse, garoto? – perguntou Susane, que
esperava que alguém concordasse com ela e
ocorreu o contrário.
–Eu também acho! – reforçou a garotinha de
cabelos ruivos.
–Todos nós achamos! – findou Foster. – Agora
vamos parar de discutir por coisas bobas, e
continuar a trabalhar. Afinal, vocês não querem
voltar a seus corpos?

5. O Novo
Namorado de
Letícia

Christian acordou atordoado com a noite


curiosa do dia anterior. Cada vez que o caso de
Jonas parecia mais real, se tornava ainda mais
bizarro.
Hoje o rapaz não iria para o trabalho. Precisou
incomodar Marcos às seis da manhã para avisá-
lo de que ele cuidaria da locadora por um
tempo, até então, indeterminado. Pediu também
que Marcos desse o endereço de sua casa para
as mulheres que ainda precisassem ser
entrevistadas para o emprego. Estava tomando
todas essas medidas que pareciam muito
drásticas para que não fosse necessário
conciliar o caso encoberto do amigo com seu
emprego, o que poderia acabar deixando-o
ainda mais estressado.
Ainda espregiçava-se gostosamente,
confortabilíssimo nas cobertas suntuosas de sua
cama enquanto o dia lá fora começara cálido
outra vez.
O momento era oportuno para visitar a casa de
Jonas. Antes que pudesse voltar a esfriar e a
chover, e sua visita se tornasse inadequada...
–Christian querido, o que faz aqui tão cedo? – a
mãe de Jonas perguntou, em tom amável.
–Eu preciso muito falar com o Jonas... Sra.
Anderson.
–Ele ainda deve estar dormindo... Mas vá lá,
você é amigo dele. Pode subir, bata na porta até
alguém abrir...
–Obrigado, Sra. Anderson – Christian
respondeu, franco.
–Não há de quê, querido...
Christian subiu as escadas balaustradas até o
quarto de Jonas, mas um impulso o tomou: ele
não bateu na porta. APENAS A ABRIU.
Deparou-se com Jonas lendo um livro fino, que
foi fechado paralelamente a sua chegada. O
rapaz procurou memorizar o nome do autor que
ele trazia em sua capa vermelha, escrito em
letras garrafais: Bóris Brainvich. Acima do
nome do autor ainda vinha escrito: “As Três
Pessoas Hipnotizadas”.
–O que faz aqui, Christian? – perguntou Jonas
num tom tão perverso que Christian poria em
prova conhecê-lo mesmo se não soubesse da
história que envolvia hardlevel.
–Me desculpe Jonas... é que sua mãe me disse
que você já estava acordado, e que eu poderia
entrar sem bater...
–Tá. O que quer?
–Como, o que quero Jonas? – disparou
Christian, tentando parecer natural. – Não
posso nem te visitar mais que você vem com
toda essa sua educação?
–Me deixe viver! Você vem pra cá demais, e
isso não é normal!
Christian sentiu que a pessoa no corpo de Jonas
possuía um diálogo realmente estranho.
–Que livro é esse? – Christian mudou
levianamente de assunto, apontando para o
livro vermelho debaixo do braço de Jonas.
–Vá embora.
–Não, eu quero saber que livro é esse...
–Vá embora, por favor. Eu... não estou bem. Vá
logo...
Christian olhou no fundo dos olhos de Jonas.
–Está bem, tchau.
Ele desceu as escadas em passo acelerado.
–Senhora Anderson, me perdoe pelo incômodo,
eu...
–De maneira alguma filho, volte quando
quiser! – ofertou a Sra. Anderson, sorridente
como sempre.
–Tudo bem – prometeu.
Um casalzinho apaixonado passava
cantarolando pela rua logo quando Christian
deixou a casa dos Anderson.
Sem querer, ele ficou-os analisando por um
momento, e acabou percebendo que era
Melissa.
Melissa, a última garota que lhe dera um fora
feio...
O rapaz entrou inconformado em seu carro
como se a garota o tivesse traído, mas eles nem
estavam...
De uns tempos pra cá, Christian Salém não
vinha possuindo muita sorte com mulheres.
Talvez não fosse tanto uma questão de sorte,
tendo mais a ver com sua falta de tempo.
Trabalho com certeza era uma das razões;
acabava corroendo-lhe o dia, e assim impedia
relacionamentos.
Mas isso não era uma desculpa sensata para
alguém como ele. Podia encontrar a garota que
quisesse, se quisesse. Mas neste momento da
vida, não era o assunto de suas maiores
preocupações.
Um dia, o destino fluiria, conspirando a seu
favor, e a pessoa apropriada certamente
aparecia.
Dirigindo refletindo. Com a mente divagando.
Uma das coisas que ele melhor fazia na vida
era matutar, elaborar coisas.
No momento, estava contente pelo bom início
da ajuda sigilosa ao amigo Jonas. Podia ainda
não ter descoberto nada muito proveitoso, mas
deixara o sujeito, não muito amistoso, numa
posição desconfortável quando questionado
sobre o tal livro com o nome que Jonas dissera:
Bóris Brainvich. Sentia que estava muito
próximo de descobrir que segredos o
envolviam.
Deflagrando até sua moradia, cuidou de despir
a jaqueta xadrez quente que usava (apesar do
calor, ventava como nunca), aproveitando o
raro tempo acessível em frente à seu novo
computador, que apresentava uma curiosa tela
com formato ovóide, inovação no escopo
microprocessadores.
Ao passo que começava a ler certas manchetes
numa página eletrônica de tablóides, uma o
impressionou logo quando bateu os olhos:
HARDLEVELS ROUBADOS NO RIO DE
JANEIRO
Assalto em loja de videogames
carioca!

O magazine Jogos e cia., famoso por ser


um dos primeiros receptores do game
hardlevel no país, foi surpreendido nesta
madrugada, quando seis assaltantes
invadiram a loja.
O que os bandidos não esperavam era
que encontrariam dois lojistas
preparando uma oferta para o dia. Um
deles foi ferido apenas por uma
coronhada, e o serviço médico já avisou
a imprensa que o homem acertado
certeiro na cabeça se encontra em ótimo
estado de saúde; Já o segundo, ferido à
bala durante o roubo, corre risco de
vida.
Mais informações sobre o caso, vide
Jornal do Cidadão, “o jornal do povo”.

Era de abismar.
Horrorizar.
Deixar pasmo.
“Como era possível uma coisa dessas?”,
Christian imaginava. “Mas que videogame
epidêmico, devasso, vício de louco”.
Devia estar sendo um impacto vergonhoso
contra o Brasil, agora com a notícia do roubo
provavelmente sendo exportada por todo o
planeta...
O assunto até o deixara raivoso.
Mas antes que desligasse o computador que só
veio lhe trazer notícias ruins, alguém bateu em
sua porta. Christian já foi abri-la estressado,
afinal, havia uma campainha, o que não dava a
ninguém motivos para bater na porta forte
desse jeito. Porém, quando a entreabriu, suas
ofensas a pessoa falharam. Do lado de fora da
residência, ele se deparou com a pessoa que
mais amava no mundo.
–MÃE?!?
–Olha aí o meu garoto, como é lindo não é,
Syd? – perguntou a mãe do rapaz, que era
alegre e jovem. Seus cabelos pretos fluidos
eram partidos ao meio e jogados por sobre seus
ombros. Usava uma japona preta que a cobria
por completo.
–É... – concordou um homem com um rosto
chupado e um bigode horrível, ao lado de sua
mãe.
–Querem... Entrar? – Christian perguntou, sem
jeito, na verdade querendo convidar a ingressar
à sua casa apenas sua mãe.
–Claro filho! Me ajude com as malas no carro...
Sua mãe se virou, e Christian se aproximou
dela antes do homem.
–Quem é esse cara, mãe? – cochichou ao pé do
ouvido dela.
–Ah, sim! Deixe-me apresentá-los – pediu,
numa voz que conseguia ser maviosa e aguda
ao mesmo tempo. – Filho, este é meu novo
namorado Sydney, e Syd, este é meu filho,
como eu já tinha lhe dito, inclusive.
–Muito prazer! Sua mãe comentou muito bem
de você!... – revelou Sydney, com a mão
estendida para um cumprimento.
–Prazer... – proferiu forçado Christian,
apertando brevemente a mão do homem.
Por sua cara, ele não havia gostado do tal Syd.
Pegaram as malas no carro, e voltaram para sua
casa.
–Está fazendo muito frio por aqui, não filho?
–Pois é. É o mês, né. Falaram que está sendo o
julho mais frio do século... Bom, liguem a
T.V., eu vou ver algo para comermos...
Christian se afastou um pouco e sua mãe
interpolou:
–Você ainda tem uma plasma, filho? Elas já
saíram de moda...
–Estão um pouco defasadas, mas eu continuo
adorando T.Vs de plasma, são mais bonitas que
essas novas que andam saindo...
A mãe de Christian não respondeu e o rapaz
chegou trazendo um vasilhame repleto de
hambúrgueres e fritas, e três copos de
refrigerante.
–Ainda comendo esses lanches né filho? Eu já
lhe falei que faz mal a saúde... – recriminou sua
mãe, ao vê-lo depositando o pote de
hambúrgueres e os copos por cima da mesa de
vidro ao lado do sofá.
–Mãe, fique quietinha e coma, vai... você vai
gostar... – garantiu Christian, enquanto abria as
persianas para que a pequena quantidade de luz
que estava lá fora pudesse entrar.
Sua mãe comeu os hambúrgueres com
desgosto, e Sydney se empanturrou de tudo,
como se nunca houvesse comido aquilo. Após
uma rápida arranjada nos objetos da casa, o
rapaz sentou-se para conversar com a mãe.
–E então, mãe? Você não estava em Nova
York? – quis saber Christian, encabulado com
sua volta relâmpago.
–Estava. Mas não gostei dela. Das pessoas, dos
costumes. E é uma cidade muito feia, Christian.
Suja demais. Prefiro visitar cidades da Itália...
–É mais suja que São Paulo?
–É.
Ele não falou nada. Mas duvidava que existisse
lugar no mundo mais sujo que São Paulo...
–E a sua casa no Rio? Como está, mãe?
–Eu vendi.
–Vendeu? Mas você tinha posto ela a venda por
acaso?
–Não, mas apareceu por lá um senhor
obstinado em comprá-la por um preço
irresistível.
–Mãe, aquela casa valia pelo menos cem mil
cartões grandes.
–Eu a vendi por cento e noventa. E comprei
aquele novo modelo do Fusion lá fora.
Christian ficou perplexo.
–Mas... Mãe! Você estava tão bem por lá!! Vai
morar aonde agora?
–Não sei... Aqui? – sugeriu.
–AQUI? – Christian repetiu um tanto
zombeteiro. Sydney fez cara feia. – Tá bem.
–É mesmo filho?
–Claro mãe.
–AH... Me dá um abração aqui, Chris! É só por
alguns dias, até eu e o Sydney encontrarmos
alguma casa aqui por perto de você...
–O quê? Você vai morar com ele? – perguntou
Christian, sem medo da careta que ele poderia
fazer desta vez.
–Filho... Claro que vou! Eu ficarei aqui no
máximo uns cinco dias, até encontrarmos uma
casa pra gente por aqui... – disse, atribuindo um
novo abraço, agora em Sydney.
–Que bom, mãe... – dissimulou Christian, que
sabia que, por enquanto, a melhor resposta era
a que a agradasse mais, pois sua mãe ficava
ainda mais decidida quando contrariada. – E
vocês estão namorando há quanto tempo?
–Dois meses.
–Dois... MESES?
–É. Filho, não era pra você estar trabalhando? –
questionou sua mãe, transitando de assunto –
Quando cheguei, fui direto a locadora, mas me
falaram que você não iria trabalhar hoje...
–É. Foram uns negócios aí que eu estou
tentando resolver – respondeu, aparentando não
querer contar a sua mãe sobre a estranha
história que ele já estava inserido.
–Certo – Sua mãe parou de falar e ficou o
observando. – Vou sair um pouco com o Syd,
dar uma passeada pela cidade. Quando
voltarmos, a gente conversa melhor...
–Letícia – chamou Sydney, antes que Christian
pudesse falar algo.
–Fale, querido.
–Onde é o banheiro?
–Não, eu não sei. Onde é Chris?
–Segunda porta a direita.
O homem se levantou e saiu da sala. Christian
aproveitou a ausência de Sydney para falar com
a mãe.
–Letícia Nunes Salém, olha onde você está se
metendo, em... namorando com um cara há
dois meses e já quer morar com ele?
–Christian, eu...
–Me escuta mãe. Isso não está certo. Eu sei que
eu não mando na sua vida, mas tome cuidado.
Sei que ainda sente muita falta do papai, mas
não é assim que vai esquecê-lo. Por favor, não
tome decisões precipitadas.
–Ah filho... não exagere...
–Não estou exagerando, mãe. E você sabe que
eu não estou.
Christian escutou os passos de Sydney e parou
de falar no mesmo momento. Sua mãe se
levantou e se dirigia a porta quando parou, ao
olhar para uma das bolsas que trouxeram.
–Christian! Eu já estava me esquecendo! O
Sydney trouxe um presente pra você, não é
mesmo, Syd?
–É! Espere só um minuto! – O homem foi até
uma maleta vinho e pegou um embrulho grande
e redondo.
–Abra querido! – disse sua mãe, quando o
presente já estava em suas mãos.
Ele rezou para que não fosse o que ele
imaginava, mas era: um hardlevel novinho em
folha.
–Abra logo a caixa, Chris! – pediu Letícia,
apreensiva.
O rapaz abriu e contemplou com aversão o
mefistofélico videogame. Ele sabia que alguém
com desígnios malignos estava restringindo
cada vez mais o caminho para alguma
conquista. E agora, sua mãe também corria
perigo.
–Fiquei sabendo que a única empresa que o
vendia aqui faliu, não foi? Esse aí compramos
na nossa passada rápida pelo Rio de Janeiro.
Falando nisso, isso aí virou uma mania por lá,
viu?!
–Não vai jogar? – perguntou Sydney, em tom
turbulento.
–Não. Agora não – respondeu Christian,
guardando o videogame novamente na caixa.
–Também soube que até agora apenas o Brasil
o recebeu né Chris. Acho que já sabia disso,
não é? – questionou Letícia, evasiva. – Eu sei
que você adora videogames, e foi só eu dizer
isso pro Syd, que ele veio com um destes...
–Hum. Muito bom. – Christian oscilou e
pensou rápido no que podia dizer – Acho que
esse videogame não vai para outros países –
conjeturou aleive, sabendo que o que dizia não
era verdade.
–Vai sim! – replicou Sydney como se o
tivessem ofendido.
–Mas já começou a ser exportado? – averiguou,
pois começara uma questão que lhe acarretara
curiosidade.
–Não. Estima-se que dentro de um mês.
Christian suspirou aliviado. Esta ameaça não
poderia se alastrar por todo o planeta. Não
agora...
–Mas jogue logo esse jogo, Christian. Você vai
gostar muito...
As últimas palavras de Sydney caíram como
uma bomba. Mas o rapaz ainda não conseguia
acreditar que o que passava por sua cabeça
pudesse ser verdade.
–Sydney, você já jogou hardlevel? – indagou
pausado e plácido, como se uma pergunta
favorável fosse digna de uma resposta
equiparada.
–Já. E só posso assegurar que é um jogo muito
bom. É interessante e... Surpreendente...
–Ah, não!
–O que foi filho?
–Estou ansioso para jogá-lo! – mentiu.
Christian começou a perceber que a gravidade
do problema era grandiosa. Mas ele tinha
certeza que sua mãe não creria na história
nefasta que tinha para contar.
–Mãe... a senhora nunca chegou a jogar este
jogo, não é mesmo?
–Claro que não, filho. Você sabe que nunca
gostei dessas coisas...
–Continue não gostando... – sibilou baixinho.
–Isso não é muito difícil – respondeu, empós
entender o que o filho havia dito. – Mas então
Chris, nós vamos indo, acho que vamos indo
sair um pouco.
–Tudo bem. Você tem algum celular contigo?
–Não, mas tenho um MP15.
–Então tá. Eu já tenho o número dele. Se
divirtam – disse, com um sorriso fingido de
canto de boca – Qualquer coisa me liga, mãe...
–Tá bom filho – disse, dando-lhe um beijo no
rosto.
–Depois, eu também dou uma passada por lá.
Sua mãe concordou com um gesto carinhoso, e
eles saíram. Christian odiou com derradeira
exatidão o momento quando Sydney colocou
seu braço sobre os ombros de sua mãe... Ele
nunca chegou a gostar dos novos namorados
dela, mas desta vez o caso era condizente a sua
visão paradoxal deles...
Christian ficou reparando pela vidraça
escurecida do quarto de hóspedes os dois se
distanciarem. Foi quando viu seu amigo, Jonas
Anderson, agora em uma de suas exauríveis e
raras aparições pela rua. Se atemorizou quando
viu que ele se aproximava de sua casa, porém
depois desceu outra rua e se afastou dali.
Assuntou no mesmo instante em que já não via
mais o amigo que era a hora certa para agir.
Pegou novamente a jaqueta quente e entrou no
seu carro dirigindo apressado até a casa dos
Anderson.
Quando a Sra. Anderson novamente o atendeu,
e novos pedidos de desculpa foram proferidos,
ele precisou sustentar uma mentira para
conseguir o que queria.
–Sra. Anderson, eu vim apenas buscar uma
mochila que esqueci quando passei por aqui
hoje – articulou Christian, que veio planejando
o que iria dizer enquanto conduzia seu carro.
–Tudo bem Christian. Entre – obtemperou a
Sra. Anderson, que, por alguma razão, não
parecia tão bem como nos dias anteriores.
–Muito obrigado, Sra. Anderson. Acho que eu
devo tê-la deixado no quarto do Jonas. Ele está
aí?
–Não, não está. Mas pode ir lá encima. O
quarto é dele, mas a casa é minha...
–Novamente, eu agradeço Sra. Anderson.
–Não há de quê, querido!
Christian subiu as escadas até o quarto do
amigo, e entrou sorrateiramente. Fechou as
janelas, e acendeu a luz. Não podia esconder a
pitada de nervosismo que o envolvia, mas
estava tentando ser bastante rápido em seu ato
enérgico. Começou, obviamente, a partir da
estante de livros: nenhum deles possuía uma
capa vermelha e um autor chamado Bóris
Brainvich. Depois foi ao guarda-roupa: também
nada. Embaixo de sua cama muito menos. Sua
procura estava sendo inútil e não surtira
nenhum préstimo.
Espaçou uma pequena fenda na janela, e viu
que Jonas estava chegando. Em exorbitante
desespero, Christian começou a revirar todo o
quarto, cuidando de alinhar tudo novamente
onde estava, até que o encontrou. Estava ali,
embaixo do tapete, e por ser tão fino, ele pisara
no livro sem se dar conta logo quanto entrou.
Num rápido estímulo o rapaz jogou o livro pela
janela, e só não se jogou junto porque
provavelmente quebraria a perna pela altura
considerável. Esperou o baque do livro ao chão
do lado de fora da casa, e desceu as escadas
velozmente, dando de cara com Jonas.
–O que faz aqui? – questionou Jonas, num tom
friamente horripilante.
–Ele veio buscar a bols...
–Isso! Isso mesmo! – ratificou Christian,
atalhando tardiamente que a Sra. Anderson
parasse de falar.
–Buscar a... Bolsa? – perguntou, olhando de
sua mãe para Christian. – Que Bolsa??
–Que eu pensei ter esquecido aqui, mas não.
Não está aqui... – Christian tentava pronunciar
formalmente cada palavra. Mas não estava
nenhum pouco seguro de quaisquer delas...
–Você não veio com bolsa nenhuma aqui
hoje... – falou Jonas, eriçando as sobrancelhas.
–Não?! Então está explicado... me perdoem o
desconforto, eu peço novamente minhas
sinceras desculpas...
–Querido Christian! Não precisa se culpar! É
normal nos equivocarmos às vezes... – amparou
a Sra. Anderson.
–É... – ele deteve-se brevemente – Essa é
minha deixa, não é? Já vou indo, um abraço e
muito obrigado!
–De nada querido! – respondeu a Sra.
Anderson sutilmente frugal.
Jonas, porém, não fez nada senão entregar um
sorriso atrofiado.
Christian saiu pela porta ainda dando um breve
aceno, e pegou conciso o livro debruçado no
gramado da família Anderson, correndo o mais
rápido que pode até seu carro. Decidiu de
última hora ir constatar se tudo corria bem com
sua mãe, e saiu apressado. Sabia que encontrá-
la em pleno centro não seria tarefa das mais
simples; e inclusive precisou percorrer um
largo caminho a pé até chegar onde ela estava.
–Filho! Estava nos procurando?... – indagou
sua mãe, ao ver Christian se aproximando
ofegante.
–Estava – admitiu. – Vocês andam, em? – disse
o rapaz, enxugando um punhado de suor que
escorria por seu rosto.
–Ah, Chris... Não precisava vir... – respondeu
sua mãe, que parecia preocupada pelo cansaço
do filho.
–E aí? Jogou o hardlevel? – inquiriu Sydney,
oportunista.
–Ah, sim, claro! – contou Christian
caluniosamente.
Sydney abriu um sorriso.
–E já está sentindo algum efeito?...
–O que disse?
–Quero dizer, você está gostando do jogo? –
pigarreou o homem, tentando desconversar o
que acabara de falar.
–Sim, estou... – Christian restabeleceu, sacando
muito bem o que Sydney tentara encobrir em
frases reformuladas.
–E esse livro em sua mão? Como se chama? –
Sydney tentou mudar de assunto logo quando
ocorreu-lhe a primeira idéia.
Christian não havia percebido, mas saíra com o
livro nas mãos, ao invés de deixá-lo na
segurança de seu carro. Graças a isso, teria que
pensar em algo para satisfazer a bisbilhotice de
Sydney.
–Se chama... “O Observador”. É o novo livro
daquele autor que surgiu, o... Ernesto F. Nunes.
–Ah, é o novo livro do Ernesto, filho? Depois
eu quero dar uma olhada nele. Você sabe que
adoro livros dele...
–Tudo bem, mãe.
–Eu também posso vê-lo? – perquiriu Sydney,
em tom pueril.
–Claro. Depois vocês podem até lê-lo juntos...
– prescreveu Christian apertando um pouco o
passe, pois Sydney e sua mãe andavam
equivalentemente rápidos.
–Eu queria ver ele... Agora...
–Agora? – vacilou Christian afastando o livro
de Sydney, como se isso significasse um não.
–Filho! Olhe a educação... – repreendeu
Letícia, ao ver Christian não querer apresentar
o livro a Syd. – Dê logo o livro a ele!
Mas Christian não obedeceu à mãe. Tentou
ignorar e continuar andando.
–Você vai me deixar ver o livro, ou não? –
questionou Sydney, parecendo intransigente.
–Não...
–O que está havendo, Christian?
–É... Olhem! – Christian apontou para a
próxima esquina, onde se dispunha um palco
com alguma banda que começara a tocar no
exato momento em que ele abalizou. Ele sabia
que sua mãe tinha uma grande queda por
música. E sabia qual seria sua reação.
–Vamos, querido! – coagiu Letícia correndo e
dando pulinhos joviais, segurando o braço de
Sydney e o puxando, forçado.
–Claro querida... – respondeu o homem, dando
uma última e rabugenta olhadela para Christian,
que conseguira o que queria.
–Mãe! Eu vou deixá-los a sós! – Christian teve
que gritar, pois o som já estava briosamente
alto.
–Tá bom filho! É um grupo muito legal! –
exclamou Letícia, dançando e obrigando
Sydney a fazer o mesmo, estendendo o dedo
polegar até que Christian percebesse um sinal
de positivo.
–Ela vai ficar bem... – disse Christian a ele
mesmo, sorrindo.
Saiu em franco abarcamento dali, sempre se
esgueirando para trás a fim de conferir se
Sydney não o estava seguindo. Afinal, uma
tênue altivez, pode complicar a qualquer um. O
rapaz atingiu o ponto onde se achava seu carro,
e guiou-o tão velozmente que parecia estar nas
gravações de algum thriller hollywoodiano.
Avançou os jardins de sua residência trazendo
o livro em suas mãos, e, ao entrar, se sentiu
decidido a lê-lo. Jonas não podia... esperar. O
tempo era ruidosamente curto. E sabe-se lá o
que estava no corpo de seu amigo iria tomar
nota do sumiço do livro. E quando descobrisse,
Christian com certeza seria um dos suspeitos.
Ele ainda desconhecia quase todos os mistérios
envoltos à história de Jonas. Todavia, teria que
decifrá-los sozinho. Ainda não sabia como faria
isso, ou que perigos corria, mas algo dizia que
este livro responderia tudo...

6. As Três Pessoas
Hipnotizadas
A inscrição na capa do livro parecia ter sido
feita de forma buril. Com algum objeto de
metal que fosse sólido o bastante para
emprestar firmeza às mãos de quem o fez.
Christian abriu o livro, e sua asma o atacou: ele
estava completamente coberto por poeira, como
se há tempos não estivesse sendo folheado.
Uma estranha insígnia que se assemelhava
muito a uma esfinge estava repousada em sua
primeira página, mas Christian não quis gastar
muito tempo com ela. Pulou logo para a
segunda e tossiu mais um pouco antes de
começar a ler:

Proêmio

1. A Invasão
“Conta o conto que eles virão. Sim,
virão e tomarão nossos corpos. Serão
muitos, e organizarão um método
para realizar seus intuitos maléficos.
Começarão num lugar, e se
expandirão lentamente por todo o
planeta. Será como uma estratégia da
mais ordinária guerra; unir-se ao
inimigo, e destruí-lo de dentro para
fora.
2. As Três Pessoas Hipnotizadas
Os seres Extra-terrestres, que até então
nos desconhecem tanto quanto os
conhecemos, nunca conseguirão invadir
nosso mundo sem nenhum tipo de...
Subsídio.

“Então são extra-terrestres”, Christian falava


sozinho, ponderando numa leve pausa. “Jonas
não contou sobre isso”..., completou, e
prosseguiu sua leitura.

Reza a lenda, que Três Pessoas serão


hipnotizadas para que eles possam obter
maior chance de domínio sobre nós. Não
se sabe quando ou como essas pessoas
serão hipnotizadas, mas elas serão.

3. Como Será nosso fim,


E o novo início para eles

Antigos relatos indicam algum lugar nas


Américas como sendo o primeiro
território a ser incorrido. Não foi possível
especificá-lo, mas haverá um objeto, que
proporcionará a invasão.
Seus corpos são inferiores aos nossos,
entretanto, suas tecnologias e
inteligência são incrivelmente
esmagadoras.
–O objeto usado é o hardlevel! E o país
invadido é o Brasil! – concluiu Christian,
triunfante.
O rapaz lia e relia o início, para que cada frase
dele pudesse penetrar e permanecer viva em
seu cérebro. Começara a achar ainda mais
interessante, pois vinha entendendo muito bem
tudo o que era-lhe transmitido em palavras
escritas. Leu todas as suas curtas vinte e uma
páginas de modo auspicioso, esperando que
pudesse encontrar mais alguma contundente
revelação. Porém Bóris Brainvich não fazia
coisa nenhuma, senão enrolar o leitor com os
mesmos eventos que citara logo em seu
proêmio, como se não tivesse mais nada a
dizer, como se mais nada lhe tivesse sido
declarado...
Christian fechou o livro e se sentiu cansado.
Deitou no sofá e o ficou analisando, acima da
mesinha de vidro.
–Ei! – ele gritou, pegando o livro novamente.
Havia um certo volume na contracapa do
mesmo, o que na hora chamara a atenção do
rapaz. Ele o abriu, e viu que a contracapa havia
sido costurada por dentro, manual e
disformemente. Estourou a costura com uma
tesoura e teve uma surpresa: havia um jornal
velho e embolorado, dobrado várias e várias
vezes até que coubesse ali dentro. O texto
redigido falava acerca de Bóris Brainvich.

Matéria escrita por: Imelda


Zimmermman
Adaptada ao português por: Henrique
Sobrado
Foto da capa por: Andréas Zhirkov
Os Grandes e Patéticos escritores
russos, parte 3

Olá. Para quem ainda não me conhece


sou Imelda Zimmermman. Se você atua
na área do jornalismo me sinto quase
certa que já ouviu falar de mim. Eu
estou sendo bastante badalada devido
ao prêmio Pulitzer que ganhei pela
minha primeira matéria sobre escritores
russos. Como deu tão certo, decidi
continuar, incrementado um tanto de
sátira, como viram em “Grandes
escritores russos, parte 2”. Agora, já na
parte, me senti incomodada ao ler Bóris
Brainvich, que para quem teve a sorte
de não conhecê-lo, foi um escritor
horrendo que assolou nosso país. Eu
gostaria agora de atribuir-lhes tudo o
que descobri sobre ele.
Bóris Mavilyenko nasceu em
Petersburgo, no dia quatro de agosto de
mil novecentos e sessenta e oito.
Começou a apresentar problemas
mentais logo aos seis anos, mas seus
pais faleceram em seguida num acidente
de carro, e ao invés de ser tratado, foi
acabar parando num orfanato, só a
início, para verem como a família amava
o garotinho problemático.
Aos dez anos ele piorou, e sua
convivência social com os outros já
estava totalmente afetada. Mesmo
assim, continuo dizendo, medidas não
foram tomadas e o garoto produziria
agravantes rudimentos no futuro...
Ele acabou sendo adotado por uma
família norueguesa, mas que morava na
Rússia, de sobrenome Brainvich. Aí sim
recebeu o carinho e a paz que precisava,
melhorando suas condições mentais e
sua capacidade de relacionamento com
outras pessoas.
Já aos dezesseis anos, Bóris Mavilyenko
Brainvich era uma pessoa nova tanto no
nome como na vida. E quando terminou
os estudos, decidiu, estimulado pelo
ambiente sadio de sua casa, se
encaminhar para a parte de humanas.
Ao todo não sei lhes dizer, mas me
contaram que Bóris fez desde Ciências
Sociais até Literatura. Mas,
sinceramente, ele deveria ter escolhido
outra profissão para trilhar, porque
escritor não batia muito com seu jeito
destrambelhado!
Mas fazer o que, não é mesmo? Lá ia
Bóris aos vinte e dois anos de idade
escrevendo seu primeiro livro: “A vida do
homem que não queria morrer”, que
contava detalhadamente a história de
um garoto com psicose que cresce
apenas em tamanho. Cá entre nós, acho
que nesse livro ele se refere a ele
mesmo...
Não preciso nem falar que o livro foi um
desastre tremendo é claro, afinal, o que
se esperava de um doido varrido como
Bóris atacando como escritor?
Mas então, dois anos depois, foi lançado
o livro menos esperado de todos os
tempos: “O Sol”, uma outra investida
sem sucesso de Bóris Brainvich.
Contudo, desta vez, conseguiu ainda a
façanha de ser menos lido que o
primeiro: apenas sessenta e duas cópias
vendidas por toda a grande Rússia.
Antes de surgir um terceiro livro de
Bóris, a bela atriz de teatros Kemberly
Reily casou-se com ele. Com certeza,
não era pelo dinheiro, pois Bóris não era
um escritor russo dos mais rentáveis...
Devia realmente existir amor na jogada.
A terceira obra de Bóris finalmente
chegou às livrarias. No auge do lixo de
seus trinta anos, tivemos que aguentar o
“As Três Pessoas Hipnotizadas”, o livro
mais patético do escritor (por isso o
nome alterado da matéria). Ainda hoje
não se sabe por que, apesar do fracasso
de vendas na Rússia, o fiasco ainda
chegou a ser escrito para a América do
Sul.
Eu – e o resto da Rússia – desconhecia o
fato de um escritor que não possuía a
mínima amplitude em seu próprio país
querer exportar seu mais novo e falho
para outros países.

–Porque ele queria nos informar, sua safada


cara-de-pau! – exclamou Christian, como se
Imelda estivesse ali na sala com ele. Continuou
lendo, mas sem esconder o nervosismo a cada
novo ataque da mulher.

Mas não havia exatamente nada que


justificasse as ações de Brainvich. Ele
era imprevisível...
Por isso, quando soube da notícia,
mandei traduzirem minha matéria em
português e espanhol, junto com seu
livro. Seu terceiro e derradeiro livro. A
propósito, eu o li, e me sinto culpada por
isso. Um livro horrível. Imaginação pura.
Digno de Bóris Brainvich. Narrava uma
história (sempre contada através de
mitos ou lendas que nem ao menos
existem) que seres extra-terrestres
invadiriam a Terra.
Anos depois, Bóris fez um
pronunciamento acerca de seu terceiro
livro: Disse que os relatos contidos nele
realmente não eram lendas, e sim que
havia mantido contato com um E.T.
Porém, teve muito medo de relatar antes
que o escrevia era real, porque uma
informação tão invasiva chocaria seus
leitores.
Que Leitores? Não chocaria ninguém,
Bóris, sabe muito bem disso. Mas a
declaração pareceu ser o fim da picada
para sua amada esposa, Kemberly, pois
ela decidiu, dizendo que era tudo por
amor, interná-lo no velho abrigo
psiquiátrico Groulenhouse.
O que aconteceu, porém, foi que
semanas após sua internação, Bóris
apareceu morto misteriosamente, e
ninguém no lugar sabia explicar o que
realmente acontecera. Sua morte
encheu de comoção o coração de sua
esposa, que se suicidou horas depois de
saber da notícia.
O casal deixou uma única herdeira
(herdeira? Herdou dívidas das editoras e
tudo o mais), Íris Brainvich, que ficou sob
a guarda dos avós. Porém, a menina
misteriosamente desapareceu.
Bem, eu chego sozinha a conclusão de
que toda a história inventada de invasão
alienígena não passou de um golpe de
marketing, afinal, vocês estão vendo
algum alien por aí? Se algum dia verem,
me avisem...”

–Descarada! Quem deu o golpe de marketing


foi você!! Nem sabia o motivo dele mandar o
livro para cá e decidiu mandar junto sua
matéria?! Por ganância, não é? Ganância!!! –
Christian protestava completamente
inconformado de a mulher estar criticando um
homem morto... Que não estava ali para se
defender...
Ele terminou de ler a abominável matéria de
Imelda, mas ainda não conseguira parar de
olhar para a foto da família Brainvich, posta
bem abaixo da matéria. Podia se ver Bóris, no
centro, com um maxilar pronunciado, olhos
azuis, e um sorriso contagiante. Kemberly à
direita de Bóris, com cabelos ruivos, nariz
tênue e incontroversamente escarpado. Na
extrema-direita, havia uma garotinha angelical.
Tinha os olhos claros do pai combinados aos
cabelos vermelho-vivos da mãe. Era a
garotinha Íris, que somados aos seus prováveis
dois anos e meio da fotografia, devia se
encontrar com vinte, vinte e um anos em
média.
Christian continuou observando desajustado a
foto, e lágrimas arredias e inexplicáveis
tentavam evadir-se por seu rosto. “Será que
este será o fim da humanidade?”, ele matutava,
entoando um canto solfejante e sofredor, porém
mudo. “E ninguém, ao menos, dera conta
disso?”...

***

Um cão vira-lata examinava um pacote de


salgado descartado na cabeceira da esquina, e
Letícia regressava à casa do filho, ao lado de
Sydney, pela rua quase vazia que começara a
escurecer.
–E aí Syd? O que achou do meu filho?
–Eu não sei. Senti que ele não gostou de mim...
–Não, Sydney... Tente entendê-lo... Ele perdeu
o pai, e não foi nada fácil. Nem pra mim, nem
pra ele...
–Mas, não sei por que, sinto que ele está...
estranho. Tentou até esconder aquele livro de
mim, você viu?
–Vi sim.
–Por que ele fez isso?
–Não sei Syd, mas deve ter sido sem querer.
Meu filho não é de agir assim, grosseiro...
–É. Pode ser. Mas eu ainda acho que ele não
gostou de mim...
–Não fale assim querido. Tente se apegar mais
com ele.
–Vou tentar...
Enquanto discutiam, abrolhava ao fim da rua
um ruflado indivíduo, que vinha numa
velocidade estridente.
–AFASTE-SE DELA, SEU NOJENTO! –
berrou Christian, segurando firme sua mãe pelo
braço, e a puxando para perto de si.
–O que é isso, Chris! O que é isso?!
–Esse cara não é o que parece ser, mãe! Ele é
um... Ele é um... ALIENÍGENA!
Sydney começou a rir.
–Do que está falando, filho? Você está louco?!
Christian olhou trepidante para a mãe. Ela
nunca o chamara assim.
–Vamos, mãe! Você tem muito o que saber!
Ignorando o olhar convulsivo do homem, virou
correndo, apertando sua mão sobre o pulso da
mãe para levá-la forçada.
Sydney pulou sobre seu corpo, o impedindo de
prosseguir, derrubando-o com força ao chão.
–Maldito! Você sabe!
Inerte e pálido enquanto prensado no chão, o
pobre rapaz lutava para se desvencilhar dos
braços firmes que o estrangulavam, mas, sem
triunfo algum. Ele sentia que ia ser morto pela
agonia, e não pelos braços enrolados em seu
pescoço, quando, de repente, Sydney o soltou.
Voltando-se para frente, viu sua mãe, com um
tijolo de construção em suas mãos.
–Que diabos aconteceu aqui?? – sovou Letícia,
obrigada a desmaiar seu próprio namorado na
rua monótona.
–É uma longa história, mãe. Venha comigo... –
contrastou Christian, se erguendo e acetinando
o pescoço.
–Mas, filho! Vamos deixar o corpo dele aqui?
Na rua?!
Christian olhou para um terreno baldio ao lado
de onde estavam e disse:
–Eu tenho uma idéia melhor...
Saiu andando apressado dali com sua mãe.
–Não achei que foi uma boa idéia jogá-lo lá,
filho. E quando ele acordar?
–Não sei. Só sei que vamos ter que nos
proteger...
–Tudo bem. Desembuche logo que história é
essa de alienígena.
–Eles estão entre nós, mãe! – revelou
Christian assustado e andando muito veloz,
ainda segurando o braço da mãe.
–Como assim? Então Sydney é um alienígena
desde que comecei a namorar com ele?
–Desde que ele começou a jogar hardlevel.
–Não estou entendendo, filho! Você está
querendo me dizer que esse tal de hardlevel...
–É a porta de entrada deles para o nosso
mundo.
–Mas... Alienígenas? Eles não existem...
–Você consegue me explicar então o que
aconteceu lá atrás?
Letícia ficou em silêncio.
–Não, não consigo. Syd estava mesmo estranho
depois desse jogo, mas como eu iria desconfiar
de uma coisa dessas...
–Mãe, eu peço desculpas pelo seu namorado.
Realmente não sei se voltar a vê-lo.
–Christian, então o Brasil foi o primeiro país
escolhido por eles?
–Isso mesmo.
–Por quê?
–Eu não sei, mãe. Eu não sei – declarou
Christian, ao chegar e abrir rápido a porta de
sua casa. – Entre.
Letícia estava muito assustada, mas talvez
Christian estivesse mais que ela.
–Como vou conseguir dormir esta noite! Nós
estamos correndo perigo, não estamos, filho?
–Devemos estar... O grande problema que
idealizo comigo, é que qualquer um pode ser
um alien. Qualquer um... – dizia Christian
temeroso, olhando para o lado de fora, que se
denegria de nanquim.
O rapaz e sua mãe ficaram juntos encostados na
janela, observando a lua ser coberta pelo nimbo
estrelado. Algumas horas se passaram, e
Christian começou a apresentar sonolência.
–Acho que temos que dormir, não é mesmo
querido? – disse sua mãe, percebendo o filho
com o nariz grudado na vidraça gelada. –
Infelizmente a noite está caindo, e devemos
descansar um pouco, apesar da ameaça...
–Eu concordo. Você não tem nenhum receio
mãe? De eu dormir também? Se quiser, eu fico
acordado...
–Não, filho, durma. Não há problema algum.
O rapaz saiu da sala e aprontou o quarto de
hóspedes para a mãe. Foi até seu quarto e
deitou-se fadigado como um carteiro após um
dia laborioso.
Não demorou muito para que Christian
dormisse. Dormisse de modo tão intenso a
ponto de nem se lembrar de travar a guilhotina
da janela, ou entregar a porta uma mera
encostada.
Dormiu, e de repente algo se aproximou lenta e
desconexamente. Como se soubesse o que
ocorreria nos próximos instantes, ele abriu os
olhos, assustado, mas era tarde demais: alguém
o apunhalara.
–Ah! – ele gritava a sete ventos, segurando a
faca posta em seu peito.
Acendeu o abajur, e viu o agressor recuando,
como se estivesse arrependido do que acabara
de fazer.
–Mãe?... Por que você... Por quê!!!
Christian acordou de uma pancada, coberto por
suor e com o coração aos pulos. Havia tido um
sonho. Um sonho agudamente perturbador.
Se levantou e foi até o quarto de sua mãe. Ela
dormia inocente debruçada na almofada macia
de penas de avestruz.
Ele tinha medo. Mais medo que acontecesse
algo com sua mãe do que com ele mesmo. Não
sabia nem que riscos corria, muito menos ela.
Por isso e por todos os motivos do mundo tinha
que protegê-la. Protegê-la de qualquer perigo
que pudesse vir a afrontá-la. Não tinha poderes
para isso, mas tinha o amor. E mesmo se
perdesse a vida, estava disposto a resguardá-la
com seus dois braços...
7. Íris Brainvich

O local era muito sujo. Parecia uma prisão


sem grades. A sala desordenada que se juntava
a cozinha recebia um odor forte e nauseante
que borbulhava do fogão encardido. À meia-
luz, dois homens conversavam. Iluminados
apenas pela chama acesa de uma vela num
castiçal.
–Mas, mestre, fiz tudo o que me pediu! –
respondeu em gritante agonia um jovem
baixinho e sardento, prosternando-se ao outro.
–Não importa! O tempo que lhe dei foi
suficiente para encontrar a garota! É
inadmissível que vinte anos depois ela ainda
esteja viva!! – exclamou o homem que era
chamado de mestre, encostando um objeto
dourado no rosto do rapaz curvado a seus pés.
–Não! – urrou o jovem quando algo muito
parecido com um carbúnculo brotou em sua
pele. A ferida começou a se alastrar
perspicazmente até que ele caiu, gemendo e
contorcendo-se, soltando uma espuma de saliva
pelo canto da boca.
–Idiota – disse o mestre olhando nervoso e com
cara de desprezo para o jovem rapaz caído e
deformado no chão. – Me fez perdê-lo por
motivos fúteis... – o mestre parou, saindo e
voltando os olhos num gesto sábio e atinado –
Mas você sabe que sua morte não foi
improfícua. Não posso permitir a queda de toda
nossa oligarquia. Não desta vez...

***

A alvorada linda como há muito tempo não se


via, e Christian fazia força para desejar não ir
chefiar sua empresa numa formosa ocasião
como esta. Se perguntava como estariam as
coisas sem ele, se estavam lidando bem com
sua ausência. Agora sim iria ficar sem ir ao
emprego por tempo mais indeterminado ainda,
pois não queria tirar os olhos de sua mãe nem
por um instante.
Um dos privilégios de se morar próximo ao
parque ecológico, é a sinfonia delicada,
misturada com os mais diversos acordes, dos
bem-te-vis, tuiuiús e demais aves do céu,
formando um espetáculo magistral.
Letícia acordava preguiçosamente enquanto
Christian preparava algum lanche que não fosse
ou guardasse semelhança alguma com
hambúrgueres. A cozinha planejada tinha uma
bela mesa dobrável que praticamente não tinha
utilidade por falta de visitas, e por ele adorar
comer no sofá assistindo a qualquer porcaria
que

passasse na T.V. Por equivaler a uma das


coisas que sua mãe reprovava e muito ser tomar
café-da-manhã em frente à televisão, ele a abria
tão orgulhosamente.
–Dormiu bem, mãe? – perguntou Christian
abrindo um sorriso, quando Letícia entrou na
cozinha.
–Sim filho. Mas eu ainda não pude esquecer
tudo o que houve ontem.
–Mãe... Tente se acalmar um pouco. Vamos,
sente aqui para comer. Eu bati uma vitamina de
morango com leite, e aqui tem pão, geléia, e
frutas...
–Me perdoe filho. Eu não quero comer nada.
–O quê? Por que, mãe? Você tem que comer
alguma coisa, não pode ficar sem se alimentar!
Vai se sentir mais mal ainda...
–Sei disso, filho. Mas ainda não esqueci o
Sydney, eu... O amava!
–Mãe. Por favor. Eu quero que você...
–Tem alguém na porta.
–O que foi?
–Alguém acabou de bater na porta – Letícia
avisou outra vez.
Christian olhou para a mãe imaginando que ela
apenas tentou interrompê-lo. Mas ao chegar à
porta, ela realmente estava certa: à soleira, uma
mulher muito inquieta estava no outro sentido
dela.
–Mãe, eu estou entrevistando algumas
mulheres para preencherem vagas de emprego
lá na locadora, e acabou de chegar uma agora.
Eu vou conversar rapidamente com ela aqui na
sala, e quero que você coma alguma coisa, tá
bem!
–Tá, filho. Vou tentar fazer um esforço.
Christian sorriu outra vez para a mãe, e abriu a
porta.
Uma moça linda de modo indiscreto, com
cabelos ruivos cacheados e olhos azuis
penetrantes. Seu corpo esguio era delicado e
formoso ao mesmo tempo, e seu rosto
transparecia uma meiguice que excedia
qualquer melindre. Christian ficou entorpecido
a observá-la, como se ela fosse uma doce
substância química, a mais doce que já vira.
Atribuindo um sorriso débil e equiparado em
higidez e contentamento, sem saber o que dizer.
–Ham... Crreio que você é Chrristian Salém,
nón?
–Sou... Sou sim... – respondeu Christian, sem
nem ao menos perceber a pronúncia desajeitada
do português que a moça possuía. – Entre...
–Clarro, prreciso falarr urrgentemente com
você.
A moça entrou rápida, ainda dando uma última
olhadela para a rua.
Sentou delicadamente, antes que fosse
convidada, e disse não mais tão prazenteira:
–Chrristian, que bom que lhe encontrrei. É
muito imporrtante tudo o que tenho parra lhe
dizerr...
–Sim. Quero que me conte primeiro porque o
interesse no trabalho. Você já tem experiência
em video-locadoras? Já trabalhou com algo
parecido? E acredito que você não seja
brasileira... Não é mesmo?...
–SHTÓ SKAZAL? Querro dizer, o que disse?
–Se já trabalhou em uma video-locadora
antes...
–Video-locadorra? Eu nón sei de que está
falando...
–Não sabe? Como assim?... Não te informaram
que o trabalho era numa...
–Esperre, Chrristian. Acho que ainda nón me
aprresentei. Sou Írris Brrainvich.
–Íris, você quer dizer? Íris Brainvich?
–Isso mesmo.
Christian ficou pasmo. Não sabia se era
exclusivamente por estar cara a cara com a
garotinha russa da foto ou pelo perfume
almíscar que ela utilizava, que dominou o ar
por completo.
–Você... Por que você está aqui?
–Chrristian – a moça titubeou um pouco antes
de prosseguir – Você foi a pessoa escolhida
parra destrruir uma ameaça que veio à Terra.
Os...
–Eu já sei. Alienígenas.
–Já sabe? – Íris intrigou-se.
–Sim. Eu li o As Três Pessoas Hipnotizadas, de
Bóris Brainvich.
–Meu pai.
–Isso. Acho que é sim. Pelo que descobri...
–Bem, entón você já sabe do perrigo que nós
serres-humanos corremos.
–Sim.
Ela deu um sorriso e mostrou dentes perfeitos.
–Eu vim prronta parra contarr a você tudo
sobrre a invasón, mas você já sabe... Entón eu
posso pularr parra a prróxima parrte...
Na verdade, Christian nem mostrava ansiedade
em saber o que ela iria falar; contanto que ela
continuasse a falar...
–... Você foi o nomeado parra defenderr o
planeta – revelou Íris, parecendo agitada outra
vez – Defenderr o planeta dos alienígenas.
–Espere aí, Íris... Como é que eu vou fazer
isso? – interrogou Christian, achando um pouco
patético tudo o que ouvia.
–Você tem que virr comigo.
–Como é que é?
–Venha comigo. Eu prreciso te mostrrar o que
deve fazerr.
Christian ainda não havia encontrado as
palavras certas para negar o convite da “quase”
desconhecida. Ele só ficava assim, sem jeito,
quando terminava com alguma garota bonita,
ou conversava com alguma garota bonita...
–Olha Íris, é uma longa história. Não é só
porque é a primeira vez que eu estou te vendo
na minha vida!... minha mãe está aí, e ela não...
–Sua mãe é Letícia Salém e seu namorrado,
Sydney Campos, virrou um alienígena. Disso,
pelo menos, eu já sei.
–Como sabe?
–Eu te conto no caminho. Chame sua mãe
parra irr conosco. Não há nada parra
esconderr dela.
–Está bem. – cedeu Christian, com toda a
inocuidade do mundo. – Mãe!
–O que foi, filho? – indagou Letícia surgindo
na sala logo após ser chamada.
–Preciso que vá comigo até um lugar. Não
quero te deixar sozinha aqui.
–Tá – ela respondeu, olhando desde os olhos
azuis e penetrantes de Íris até os castanhos e
conhecidos do filho.
–Entón é melhorr irmos...
–Claro Íris.
O rapaz abriu a porta e a primeira a sair foi a
própria moça.
–Você veio... a pé?
–A pé querr dizerr caminhando?
–Sim Íris. Quer dizer – respondeu Christian,
que, apesar de cômico, sabia que ela falava
sério.
– Entón sim...
–Vamos com meu carro.
Christian foi até a garagem e pegou seu Croma.
Ambas entraram, e enquanto dirigia averiguou:
–É muito longe daqui, Íris? – disse Christian,
indo à direita, onde ela mesma pediu.
–Muito menos que imagina...
–O que disse?
–Pode parrar. É aqui – relatou a moça,
apontando para uma bela casa de vidro.
–Quem mora aí? Você?
–Sim.
Saíram dirigindo-se a residência.
–Nossa... E eu sempre quis saber quem era o
dono desta mansão... – declarou Christian
entrevistas, enquanto a moça abria a porta da
residência com uma chavinha pequena.
–Mansón?... O que é isso?
–É o tipo de casa que você tem...
Íris ainda o observava equivocada, mas ele
parou de falar. Entraram no lugar e a vista de
dentro era ainda mais vislumbrante: a claridade
batia diagonalmente e se arquivava de um
borne formoso e escopo. Devia ser muito
prazeroso a alguém acordar todos os dias com
todo aquele fulgor do raiar.
–Íris, não é? – sua mãe finalmente disse alguma
coisa, pois fora a conversa antes de saírem, ela
ficou em silêncio por um tempo considerável.
–Isso, senhorra Salém...
–Onde é o banheiro? – inquiriu Letícia, mas,
pela primeira vez na vida, Christian desconfiou
dela ter perguntado isto apenas para admirar
boa parte da casa...
–No fim do corredor, a primeirra porrta a
esquerrda.
–Obrigada, Íris...
–De nada.
Letícia abrira espaço para que Íris e o filho
ficassem sozinhos novamente.
–Você ainda não me contou como sabe sobre a
minha mãe... – argumentou Christian
adentrando até um tanto incivil, mas de modo
muito inocente, na sala de estar da casa antes
da própria Íris.
–Eu...
–Íris!... O que é isso!!
Christian ficou impressionado com o que seus
olhos viam. Antes pensou ser um bicho de
pelúcia um pouquinho descuidado sobre o sofá
da moça. Mas, de repente, o bicho piscou e deu
uma breve espreguiçada. O rapaz deu uma
cambalhota, uma pancada para trás, tomando
um susto danado. Uma “criatura-verde”,
pequena, de visual maltratado, e um rosto
completamente disforme.
O rapaz estava prestes a espancar o ser frágil,
que, pelo menos aparentemente, não seria
capaz de se defender.
–Chrristian! Nón faça nada! Ele é... Um
amigo...
–Amigo?! Não parece... Eu não confio em
“coisas verdes”, Íris, desde um tempão, quando
comecei a me abarcar na literatura, lendo meus
primeiros livros de ficção... – disse Christian,
parecendo esperto.
Christian e o ser verde se encararam por raros
momentos, até que um deles foi atravancado
por uma voz graúda, que se assemelhava a de
um barítono.
–E aí? Vai ficar só me olhando e nem se
apresentar? Porque, sem ofensas, até agora não
vi nada de literário em você, como disse aí, se
ostentando o máximo que pôde...
Christian ficou completamente atônito e em
estado de choque. Estava olhando para uma
coisa verde falante.
–Vamos Chrristian, nón seja mal-educado...
Cumprrimente Amanttinis!
–Amanttinis? Quem é Amanttinis? Esse bicho
que fala?...
–Bicho que fala uma ova, rapaz! Você sabe em
frente a quem está neste momento?!
–Ham... Uma criatura verde falante?
Amanttinis vistou-o anuviado e nervoso.
–Você tem muita sorte. Eu não quero machucá-
lo, senão você já estaria morto...
No mesmo momento, Christian se acovardou.
Que infortúnios poderiam sair dali? Do diálogo
entre ele e um... Um...
–Você está falando sério?
–Se Amanttinis está falando sérrio, Chrristian?
Íris e Amanttinis o arrostaram ao mesmo
tempo.
–Clarro que nón! – Íris terminou. – Ele cuida
de mim desde que eu erra uma crriançinha!
Christian estava no meio de estranhos.
Estranhos que pareciam tratá-lo com um ligeiro
vilipêndio. Com certeza, Íris era a menos
estranha na sala.
–Bom, rapaz, já que você não quis se
apresentar eu mesmo nos apresento. Eu sou
Amanttinis, um dos reis dos Ericlashivas que
vocês comumente chamam de alienígenas. A
propósito, não gosto desta alcunha. Não sei de
onde vocês a tiraram, mas ela não bate bem em
meus ouvidos... E você é Christian Salém. Um
homem de vinte e dois anos que tem uma vida
humana feliz. Ainda faltam-lhe...
–Alto lá, prezado Amanttinis!... Como você
sabe tanto sobre mim?
–Humanos... Eu vou precisar falar novamente
que eu não sou humano para você poder
entender? Não somos iguais a vocês, Christian.
Somos diferentes.
Christian parecia começar a contrair interesse
na conversa. Mas ainda preocupava-se com
outra coisa.
–Eu vou ver se está tudo bem com a minha
mãe. Ela está demorando, não acham?
–Chrristian, pode deixar que eu vou ver. Fique
aí – sugeriu Íris, empurrando seus ombros para
que ele voltasse a se sentar.
–Tá bem...
O alienígena continuou.
–Então, Christian, me deixe esclarecer algumas
coisas que poderão responder a algumas
perguntas que você deve estar tendo. Como já
disse sou um dos reis dos Ericlashivas. Meu
irmão, Amanttis, é o outro. Quando nossos pais
morreram, deixaram a insigne herança que
possuíam e a única que precisávamos: uma
pirâmide pequena e dourada, que lhes
conferiam alguns poderes.
–Poderes? Que tipos de poderes? – Interrompeu
Christian, curioso e atento a cada vírgula.
Íris e sua mãe entraram na sala.
–Ela se perrdeu pela casa... – Íris contou – Já
expliquei tudo o que está acontecendo parra
ela.
–Me permita continuar Íris.
Íris acedeu com um gesto prosaico.
–Que poderes, você perguntou, não foi? São
poderes que a pirâmide atribui a cada um que a
possui. Na nossa terra, apenas a linhagem
nobre pode tê-la, e os poderes apenas podem
ser usados a favor do povo. Nossos pais sabiam
que nós dois éramos os herdeiros legítimos, e
por sermos gêmeos, concordaram no tocante de
deixar-nos assumir juntos o reinado. Eles
morreram quando eu e meu irmão tínhamos
dezesseis anos de idade. Mas antes de
falecerem, dividiram a pirâmide em duas partes
para que eu e ele pudéssemos dirigir o país
desfrutando ambos do mesmo elemento que era
nosso por direito.
–Espera aí. E o que tudo isso tem a ver com a
invasão de vocês ao nosso planeta?
–Um pouco de calma, por favor, dispendioso
rapaz. Estou tentando elucidar tudo o mais
resumidamente possível, se você me permitir...
–Tá bom. Continue então.
–Eu convivi com meu irmão Amanttis. Pude
ver exatamente como ele crescia, cada vez mais
ambicioso, querendo conquistar tudo que podia
com sua audácia eufórica. O poder que a
pirâmide lhe conferiu era forte demais, e sua
cobiça era grande demais. Eu sabia que isso
traria sérios problemas no futuro... – o
extraterrestre fez uma interpelação. Parecia
repassar os fatos em sua mente – Num certo
dia, meu irmão acordou infeliz com o corpo
inerme que tínhamos. Ele dizia que, com
nossos poderes, poderíamos ter o corpo que
quiséssemos, ou melhor, o corpo de quem
quiséssemos. Como podem ver em mim
mesmo, nossa estrutura corporal é mortiça e
frágil. Essa era a única coisa em nós que ainda
era inferior. Para meu irmão, porque para mim
e para todos a vida já era boa demais para
maiores questionamentos. A angústia de
Amanttis de sempre querer algo mais originou
uma revolta, que infelizmente foi muito bem
aceita por nosso povo. Teria acontecido a vinte
anos atrás, se eu não tivesse impedido.
–E como você impediu?
–Relatando a um humano, chamado Bóris
Brainvich. Bóris era um escritor, e ele mesmo
sugeriu escrever tudo o que lhe disse para que
pelo menos algumas pessoas pudessem ser
alertadas. Meu irmão ficou furioso quando
soube que frustrei os planos dele, e depois
disso nunca mais voltei à meu planeta. Cometi
o que lá chamam de “pecado indefensável”.
Passei o resto da minha vida a proteger Íris, que
estava sendo seriamente procurada por ele,
devido a um de meus últimos presságios que
chegaram a seus ouvidos ter sido que a filha de
Bóris poderia impedir seus planos...
–Presságios? Você tem... Presságios?!
–Esse é o meu poder. O poder que o meu
pedaço de pirâmide me conferiu. A capacidade
de prever acontecimentos. Amanttis recebeu
um poder que o ajudou muito em sua investida
de invadir a terra: hipnotismo. Ele tem a
capacidade de hipnotizar pessoas, qualquer
uma, com um simples olhar. Abusando de seus
poderes, ele propôs um plano ao povo. Nele,
três humanos hipnotizados já eram suficientes
para que ele alcançasse seu pernicioso objetivo
de chegar a Terra em total segurança.
–Então você está querendo me dizer que o seu
irmão faz parte deste tipo de... Conspiração?
–Christian, você não entendeu nada do que eu
venho lhe contando? Meu irmão não faz parte,
ele é a própria conspiração! Acima de qualquer
ressalva, Amanttis é o principal e específico
culpado de tudo que está acontecendo.
–Entendi. Mas me surgiu uma curiosidade: no
seu país vocês devem falar português, não?
Porque o seu é extremamente bom...
–Ha ha, muito engraçado, mas lá nós não
falamos português não. Esqueci de te contar
que nós alienígenas, modéstia parte, somos
seres muito mais inteligentes e adiantados,
adiantados mesmo, acho que anos-luz a vocês,
em tecnologia. Aprendemos a língua de vocês
em três anos.
–Três anos? Você acha isso pouco? Com três
anos eu também já sabia falar... – o rapaz
caçoou.
–Você já falava todas as línguas do seu planeta
em três anos?
Christian ficou boquiaberto e espantado.
Amanttinis o arcou com uma face risonha e
continuou.
–Bem, eu tenho que terminar de explicar-lhe,
pois tenho certeza que ainda deve estar muito
confuso. Quando Amanttis hipnotizou três
humanos, finalmente foi possível adentrar em
segurança no planeta Terra. Cada alien projetou
o seu próprio videogame, escolhendo a dedo o
corpo do ser - humano que iria dominar. Quase
todos que eu pude observar, optaram por
corpos de garotos e garotas jovens, com
pouquíssimo tempo de vida, mas eu escolhi
você.
–Eu? – questionou Christian, olhando no fundo
dos olhos do alien.
–Sim, você. E eu fui o único que criei um
videogame com defeito, de modo proposital.
Contei a meu irmão que não tolerava o plano
desde o início, mas ele não me deu ouvidos.
Até que tive a visão...
–Que visão?
–Que se eu não o obedecesse, e, mesmo que às
escondidas tramasse algo para impedi-lo, ele
não conseguiria terminar o que começou.
Minha estratagema vem dando muito certo,
agora que eu e Íris temos a pedra angular do
nosso planejamento.
–E quem é?
–Ora, é você, Christian!
–Eu? Mas...
–Você foi o único até agora que jogou o
videogame e não perdeu seu corpo. Você é a
pessoa da minha visão. A única pessoa que
pode impedir tudo isso!!
–Eu não posso não! – bradou Christian em tom
irritadiço. – Aqui no meu planeta, Amanttinis,
não é só aparecer com uma história maluca,
querer que eu acredite em tudo, e ainda por
cima participe da trama! Você está louco! Você
é um alienígena! Eu não confio em você!!
–E nos humanos? Você confia?! – cortou
Amanttinis em tom contundente. – Pois pelo
pouco que conheci a raça de vocês são tão
inconfiáveis quanto nós podemos ser. Eu podia
muito bem estar em seu corpo neste momento,
nós não estaríamos aqui tendo essa conversa, e
com certeza seria o fim da humanidade. Sim,
eu traí a confiança do meu irmão, para ajudar
uma raça que eu nem ao menos conhecia. Então
se você, que é um humano, não quer defender
seu próprio povo, eu desisto.
Christian estremunhou. Mas por dentro. Olhou
de Íris para sua mãe, que fez um sinal de que o
filho deveria obedecer ao alienígena.
–Eu acho que lhe devo desculpas.
–Não brinque... Eu respeito seu ceticismo,
Christian. É de complexa decodificação tudo
isso, mas...
–Eu aceito sua proposta.
Amanttinis transcendeu um olhar de dever
cumprido. Avistou sua operação fruindo.
–Tudo bem.
Ainda tem algo que quer muito saber,
Christian?
O rapaz pensou rapidamente, entrevendo os
pensamentos.
–Por que um... Videogame? Algo tão...
inocente...
–Justamente pela última palavra que disse.
Inocente. Significa corpos em sua maioria
jovens, o que não conseguiríamos com um
cigarro, por exemplo. O videogame holográfico
é algo ingênuo e viciante ao mesmo tempo.
“Como alguém pode planejar tamanha
truculência? Como? Como pode alguém pensar
em tirar a vida de crianças, de adolescentes...
Eles não eram humanos, apesar de humanos
serem capazes de atrocidades maiores que
essas”...
Sem querer, Christian acabou chorando.
Chorando por quê?
Por todos os sofrimentos do mundo.
O inofensivo e bondoso Amanttinis, já
ganhando a confiança de Christian, levantou-se
com extrema dificuldade do sofá para que
pudesse entregar uma leve carícia no buço do
rapaz.
–Está vendo, Christian! Isto o diferencia do
meu irmão. Seu amor! Ele não quer saber de
nada senão de si mesmo. Em minha opinião,
ele está pouco ligando para os outros
alienígenas. Ele não possui um pingo de
altruísmo. E você sim, você possui, por isso
pode derrotá-lo!
–Eu estou pronto para o que der e vier –
garantiu Christian, olhando para o porto seguro
que o panorama de sua mãe lhe apresentava.
Os vidros temperados com uma cor ouro
traziam um brilho descomunal ao rosto do
rapaz.
–Que bom. Que bom que passou a entender,
amigo Christian. A sua vida, neste momento, é
a mais importante de todas neste mundo. Você
está pronto para que eu possa prosseguir para a
parte final?
–SIM...
8. As Pirâmides Irmãs

Uma mulher morena e de rosto enxovalhado


esperava por algo sentada num banco do
extenso parque do Ibirapuera.
De repente, à sombra da marquise dum edifício,
surgiram três pessoas encapuzadas e uma delas,
ao aproximar-se, desvencilhou a capa do rosto
com extrema ligeireza, mostrando uma
fisionomia petulante, segura, de olhos verdes e
argutos, uma barba rala que começara a crescer
a pouco, e cabelos castanho-brilhantes
penteados para trás com perfeita exatidão.
–Tirem logo a capa, inúteis! – ordenou o
homem, e dois garotinhos surgiram detrás
delas.
Do meio de uma moita de azaléias pularam
mais dois, que correram com pressa até onde os
outros estavam.
Um deles, alto e de nariz turvo, começou:
–Estamos seguros?
–Totalmente.
–Olhe mestre, eu sou Eklinis, e...
–Vamos cortar as apresentações – o homem de
olhos verdes parecia impaciente. – Contem
logo tudo o que conseguiram.
Todos ficaram em silêncio, como se não
tivessem ouvido a última frase do homem.
–Contem inúteis, eu quero resultados! Vocês
andam e andam por aí, e nunca conseguem
obter nada?!? Um por um então irá falar
qualquer progresso que teve!!
Ele coleou primeiro a mulher, com um olhar
áspero e seco, e ela respondeu na mesma hora:
–Eu encontrei outros de nós que tinham
sumido! Dezenove no total!
O homem fez uma cara de desgosto.
–Muito bem. É aceitável. Alguém mais?
–Eu consegui nosso esconderijo chefe, se
esqueceu?
–É verdade, Jungnis. Você também cumpriu
com seu dever.
Antes que qualquer outro pudesse falar, um
garoto gritou:
–Eu encontrei o abrigo de Íris e de seu irmão!
–O que disse?
–Sei onde Amanttinis se esconde!
–NÃO ACREDITO!...
A resposta do garotinho supriu qualquer outra.
E um riso gracioso e excitadamente sinistro
saiu da garganta do homem.
***

Christian já havia depositado grande confiança


em Amanttinis, e o mesmo dera conta disso. O
jovem rapaz sabia que iria lutar contra forças
inimagináveis, talvez insuportáveis, mas sua fé
era suficiente para prosseguir lutando.
Amanttinis se mostrou surpreso no diálogo
descontraído, pois pensava que Christian não
compreenderia uma vírgula do que ele viera
dizer. Ao saber da história de Jonas Anderson
ficou ainda mais impressionado, muito
interessado no tocante que o amigo do rapaz
morreu devido ao videogame, e utilizou um
tipo de código para realizar conexão com ele.
–Eu criei este código! E ele foi escrito por Íris
num livro que acabou sendo chamado de
Relatos Secretos de Bóris Brainvich, pois eram
algumas coisas mais que Bóris não pode
escrever em vida.
–Isso quer dizer que alguém que está com
Jonas leu o livro!
–É, quer dizer...
O alienígena tinha uma aparência apavorante
para Christian, que era um humano. O rapaz
nunca acreditara e muito menos imaginara
como seriam os extraterrestres, se existissem.
Mas alguma coisa, talvez seus olhos,
resplandeciam-lhe pureza.
–Christian, todo o meu trabalho, todo o meu
empenho, e toda minha dedicação em tentar
ajudar a humanidade, se resume a isso...
Amanttinis pegou um embrulho num papel
branco, bonito, e retirou um objeto dourado,
flamejante, e com luz própria. Uma pirâmide
partida ao meio jazia nas mãos verdes de
Amanttinis.
–Pegue-a.
Porém, antes que Christian pudesse fazê-lo,
Amanttinis recomendou:
–Use o papel. A pirâmide pode estranhar você.
–“Estranhar”? Como assim?
–Se incomodar. Por você nunca tê-la tocado,
por ser um humano, e por outros motivos mais.
–Tá bem.
Christian colocou a pirâmide em suas mãos,
com o papel devidamente asseado nela como
Amanttinis pediu.
–Isso é lindo, Amanttinis...
–É, eu sei. Mas muito perigoso quando usado
para o mal.
Aquém do furacão de perguntas que colimavam
suas idéias sobre Amanttis, o rapaz escolheu a
cardeal:
–Amanttinis... Depois de tudo o que me disse,
surgiu-me a seguinte idéia: por que Amanttis
simplesmente não hipnotizou Bóris? Ele
poderia conseguir tudo o que queria, inclusive
Íris, e você...
–Ele não fez isso... Porque sabia que eu
preveria tudo o que ele pudesse fazer. Naquela
época, eu podia prever o que quisesse! Apenas
pensava em certa pessoa, e podia ver qual seria
seu futuro. Agora, meus poderes abateram-se
juntos comigo...
–Não fale assim, Amanttinis... Você ainda
deverá viver muito...
–Nón, ele nón vai, Chrristian. Seu fim está
muito prróximo.
Íris acariciou o rosto do alienígena que
praticamente a ensinara a viver.
Letícia pareceu querer falar algo:
–Se seu fim está próximo, como...
–AH!
Amanttinis bambeou e caiu ao chão, segurando
sua cabeça com muita força.
–O que foi! O que está havendo, Íris?!
–Ele está tendo uma visón...
–Mas..., é assim? Ele sofre tanto para...
–Vocês têm que sair daqui!
–Porr que, Amanttinis? O que você viu?
–Não há tempo para perguntas Íris, vão agora!
Num gesto imperioso, Íris agarrou Letícia e
Christian pela munheca puxando-os com
eficácia.
Amanttinis ainda parecia compungidamente
esfalfado, mas Íris mesmo assim o deixava lá,
sozinho, caído e definhando no chão da casa de
vidro.
–Íris, não podemos deixá-lo! Ele irá morrer!
Temos que protegê-lo!!
Christian se desvencilhou dos braços da moça e
voltou à casa aos pulos, com um imo enérgico e
latejante.
–Vamos, Amanttinis, vamos!
Christian começara a erguer no ar o corpo de
pouco peso de Amanttinis para que pudesse
levá-lo consigo, para que pudesse tirá-lo dali...
–Meu irmão está vindo, Christian, vá embora!
–O quê?
–Meu irmão! Ele irá me matar! Eu não posso
mais impedir, saia logo daqui! Você é a única
esperança do seu planeta!!
Christian não conseguia ouvir e aceitar aquelas
palavras, ao mesmo tempo. Não queria
obedecê-las. Queria salvá-lo também, salvar o
extraterrestre que conhecera e confiara em
poucas horas...
–Vá embora agora, Christian! Ele já está muito
próximo!!!
Amanttinis se lançou dos braços firmes de
Christian para o chão outra vez.
–Íris tem todas as outras informações que você
precisa! Quero que vá neste momento, senão
nada do que lhe disse valerá a pena!
O rapaz olhou pela última vez dentro dos olhos
consolantes de alguém que parecia plácido
demais mesmo ciente de sua própria morte.
–Adeus, Amanttinis. Sua morte não será em
vão!
E saiu fechando a porta com grande destreza.

***

Um carro grande e desatinado vinha cantando


os pneus pelas vielas. Rumava em alta
velocidade em direção a uma casa de vidro.
Extrapolou os cento e noventa por hora numa
pista lotada, passando por vias e avenidas
dispostas de muitos carros. Até que chegou
num bairro pacato, iluminado e limpo, parando
com pressa na esquina.
Apenas um homem com um elevado corpanzil
e olhos verdes e sutis saiu do carro. Entrou fácil
na porta apenas encostada e deu de cara com
um horrendo anão verde, distendido no chão.
–Eu esperava por você, irmão...

***

Christian dirigia tremendo. Sua mãe, a seu


lado, queria confortá-lo, mas não sabia o que
dizer.
Enfim chegaram à casa do rapaz, e ele
estacionou o carro em sua garagem.
Permaneceu lá, sentado, e todos dentro dele
fizeram o mesmo.
–Droga! – ele exclamou, dando um soco no
painel.
–Calma, filho. Estamos todos bem...
–Bem? Estamos todos bem? Mãe, há uma
ameaça terrível aí fora e quem foi chamado
para destruí-la? Não, não foi nenhum herói de
história em quadrinhos, nem um personagem
de filmes de aventura, foi um homem que ainda
é um guri!
–Não diga isso filho, você...
–Não mãe. Não quero conselhos. Só quero paz.
Paz para refletir sobre todo esse pandemônio.
Não sei ainda quais serão minhas peripécias
para vencer tudo isso...
–Chrristian. Acho que é melhorr entrrarmos.
Nón é tón segurro aqui forra.
–Vamos.
O rapaz levantou-se flébil e Letícia colocou
suavemente as mãos sobre seus ombros, como
se isso o fizesse se sentir mais alentado. Íris
apanhou as chaves com a mulher e abriu a
porta.
Uma subvenção provinha da pirâmide. A
pirâmide dourada em seu bolso, que ele retirou
e vislumbrou com a mão protegida pelo papel
branco. Era a segunda vez que ele a colocara
em sua mão em magros minutos, e era a
segunda vez que ele se sentia inteiramente
revigorado neste dia. Aquele objeto, um
triângulo vivo quebrado medialmente parecia
ser vitalizante, restaurador. E aquele objeto, de
certa forma, o ajudaria a salvar o planeta. Mas,
e o seu estado moral? Será que ele se
encontrava pronto para tal proeza?
Todos na sala pareciam repudiar qualquer tipo
de amálgama; Letícia era a mais silenciosa da
sala, seguida de perto por Íris, que parecia
esperar o momento propício para falar. Quando
Christian lhe entregou uma visada favorável ela
deu início a suas palavras:
–Chrristian. Temos que começar a agirr logo,
parra que seu amigo, seu namorrado, Letícia, e
todos os outrros que perderram os corpos
possam voltarr a viverr.
–Sim. O que temos que fazer?
–Irr até o esconderrijo de Amanttis e seus
comparrsas.
–E você por acaso sabe onde é o tal
esconderijo?
–Sim. Cerrta vez, Amanttinis me mandou
seguirr um alienígena. Acabei dando num beco
escurro, e a residência que vi, bateu com uma
de suas visóns em que ele via seu irrmão
entrrando no mesmo lugarr. Só poderremos irr
até ele quando você exercerr total domínio
sobrre a pirrâmide.
Christian assentiu ao que a moça disse, e olhou
novamente para o poliedro em suas mãos.
Decidiu tirar o pano que o resguardava.
–Nón faça isso, Chrristian!
Ele não obedeceu, e viu sua mãe e Íris
trepidantes com que consequencias sua poderia
acarretar. A pirâmide, porém, não produziu
nenhum efeito adverso, moldando-se
perfeitamente a suas mãos como provavelmente
acontecia com Amanttinis.
–Então o que estamos esperando? Preparem-se,
vamos agora mesmo!

***

Fora dos limites da cidade, os olhos cansados


de Amanttinis examinavam minuciosamente
seu irmão ao volante, e três bestas em corpo
humano que sorriam para ele. Só olhava,
porque sua boca estava amordaçada e seus
pulsos amarrados com um material similar a
cilício.
Estava sonolento como se tivesse sido
anestesiado, mas permanecia lúcido. Não
queria perder nada que lhe fariam.
Aqueles monstros cruéis. Eram seus
concidadãos. Eram, mas seu nojo atroz por eles
era maior que tudo e todos.
Amanttis parou o carro de modo brusco, e
Amanttinis só pode ter certeza de que estava a
centenas de milhas da urbe.
Os que se encontravam no banco de trás com
Amanttinis sentiram no mesmo que deviam
pegá-lo. Mas Amanttis alertou:
–Me dêem as honras, por favor. Vocês não são
tão puros assim para tocar na divindade, num
dos reis dos Ericlashivas.
Abriu a porta do carro, e pegou Amanttinis em
seus braços, como um filho. O pequeno
alienígena amordaçado só pode mirar com os
olhos seu irmão, esperando cada ato sórdido
que emanaria dele.
Entraram todos os cinco, Amanttinis levado no
colo, dentro de um solo verde, terreno grande,
abandonado. Havia muita lenha e um pote com
álcool. A vegetação acabava no lugar onde
estavam acavalados os gravetos.
Sem explicação fidedigna, o local parecia
preparado para um verdadeiro martírio.
Amanttis jogou seu irmão na terra como se
jogam entulhos no lixo. Ele troçava
incomensuravelmente ao dizer:
–Está na hora do show!...

***

As coisas mudaram muito no grupo criado por


Foster e Jonas desde que Susane decidiu deixá-
los. A moça alegou dever a decisão da saída ao
fato de, segundo a própria, ninguém gostar dela
ali; e por Jonas e Samuel quererem “mandar”
em todos.
Porém, de uma forma geral, cada um deles
individualmente, cada qual com seus graus,
estavam descrentes de que pudessem retroceder
a existência, ter de volta seus corpos, suas
famílias, suas afeições...
Era desesperante para qualquer um deles
imaginar que não poderiam mais voltar, mortos
de forma tão ingrata.
Foster permaneceu por dias compenetrado em
sabe-se lá o quê. Afastado dos outros, cada um
estava mais desordenado que o ulterior.
E certos dias se passaram depois que Susane se
foi.
–Sabe de uma coisa, Jonas...
–O quê, diga lá.
–Eu já desisti há muito tempo de lutar por
nossas vidas. Estamos mortos, cara. Mortos!
Acabou! Foi muito estranho o modo como
acabou, mas infelizmente o fim chegou para
nós.
–Não fale assim, Henrique. Você tem uma vida
toda pela frente ainda garoto! Não pode ceder,
assim...
A menininha de cabelos castanhos falou:
–Eu também já desisti. O Fábio desistiu, a
Luísa, a Susane, que inclusive foi embora, até o
Foster desistiu. O cara se isolou e não quer
mais a presença de ninguém!
–Não fale isso, Bella. Não podemos perder as
esperanças.
–Jonas, pare, por favor! Eu acho que até esse
grupo já não faz mais sentido! Se estamos
mortos, o que acha de separar-nos?! Vou
embora agora mesmo!
–Você? Eu que estou fora daqui! – imprecou
Fábio, nervoso.
–Eu também vou sumir por aí – avisou
Henrique.
–Sumir por aí?! Vocês são... Crianças!!
–Crianças... Estamos mortas, então não há
problema nenhum...
Os três pequeninos se levantaram, saindo de
seus respectivos bancos, dividindo-se e
sumindo em poucos instantes.
Jonas não acreditou. Mas também não os
chamou de volta. Sabia que aquela garotada era
impertinente e teimosa. Principalmente
teimosa. Por isso deixou-os ir. Provavelmente
eles estavam certos. Não havia mais
esperanças...

***
Ele nunca havia se sentido tão bem em sua vida
até o célebre momento em que a pirâmide
estava em suas mãos, despida de qualquer
coberta.
Antes mesmo que eles pudessem realizar
qualquer intrépida decisão, Íris passou-lhe
escritos que Amanttinis deixara a ele:

Querido Christian, se
você tem este bilhete
em mãos, eu já não
devo mais estar entre
vocês. Quero que saiba
que a pirâmide que lhe
entreguei é um objeto
de extremo poder. Peço
que vá atrás de meu
irmão, com grande
cautela, e nunca, de
forma alguma, o deixe
possuí-la. Será o fim de
tudo se Amanttis
conseguir minha parte
da pirâmide. Meu irmão
não sabe, pelo menos
por enquanto, que você
a possui. Ele não sabe
quem é você, o que faz,
e isso é um ponto a seu
favor. O seu objetivo
para restabelecer tudo,
é conseguir o outro
pedaço de pirâmide, o
de meu irmão. Por isso
precisa ir até ele. É a
única forma de destruí-
lo, e por fim nessa
história de uma vez por
todas.
Lembre-se, meu irmão
sentirá, sem querer,
minha falta. Somos
gêmeos, pode ser que
isso o ajude muito.
Quando você tiver os
dois pedaços de
pirâmide em seu
poderio, deve uni-las e
proferir as seguintes
palavras: ”Deminstifus
Maléfiquis Poderes”. É o
encanto que quebra
todo o mal. Que destrói
meu irmão e meu povo.
Você é a intervenção,
do bem contra o mal.
Adeus, Christian, sei que
vai de conseguir.
Tenha uma boa vida.
–O que é que está escrito aqui? Deminstifus
Maléfiquis Poderes?
–Isso. Você tem que decorrar.
–Claro. Pode ter certeza que isso aqui nunca
mais vai sair da minha cabeça...
–Tomarra.
Íris olhou para Christian com um olhar sereno e
compassivo, como o de um anjo. Letícia não
fazia nada senão examinar a afinidade na troca
de olhares que os dois tinham.
–Íris, você saberá guiar-nos exatamente até o
local?
–Sim Chrristian.
A moça e o rapaz se levantaram, mas Letícia
permaneceu sentada.
–Eu não vou, filho.
–Perdão? Acho que não compreendi, mãe.
–Eu não vou com vocês. Não é pelo perigo, e
sim porque quero descansar, sobrestar um
pouco essa psicose...
–Mãe, você não pode ficar sozinha aqui! Eu
não vou permitir...
–Christian, isto não é tão perigoso quanto
pensa. Eu vou ficar aqui, sob custódia. Não há
alienígenas com corpos humanos invadindo
casas e matando pessoas, pelo que eu saiba. É
um tipo de conflito interno.
–Mãe...
Íris interrompeu os movimentos de Christian
em discórdia a Letícia.
–Ela está cerrta, Chrristian. Não fique tão
prreocupado. Sua mãe estarrá mais segurra
aqui do que indo conosco.
–Está bem, então. Vamos.
Christian deu um largo abraço em sua mãe. Foi
seguido por Íris.
–Feche tudo, mãe. Tudo. Ainda tem aquele seu
namorado, ah droga! E se ele vir aqui?!
–Pare filho, pare!...
O rapaz calou-se e se virou. Mas antes de sair
disse:
–Eu vou voltar, mãe. Você vai ver.
Letícia queria chorar, mas esperou que seu
filho batesse a porta para que pudesse fazer
isso.
–Eu sei que vai voltar, Christian. Eu sei...

9. A Última Profecia de
Amanttinis
Todos os alienígenas estavam reunidos, como
se a ocasião carecesse de um ajuntamento
extra-oficial.
O céu cor-de-rosa começava a caiar o sol. A
vários metros do chão havia sido erguida uma
grande fogueira.
–Morra Amanttinis! Não precisamos mais de
suas visões!
–Você não sabe o que está fazendo..., irmão. Eu
não vivo sem você, muito menos... Você sem
mim... – Respondeu Amanttinis, ofegante.
–Cale a boca! – Disse, acertando um outro
intermitente chute no estômago do irmão, ainda
caído e sem atuação, com seu frágil corpo
alien. – Não é mais necessário que acreditemos
nas tolas superstições de nossos pais!
–Faça o que quiser irmão... Porém, você
perderá no final.
–... O que disse?...
Amanttinis sorriu, e seu sangue verde e viscoso
escorreu por seus lábios.
–Ah, maldito! – Guinchou Amanttis, e ergueu o
irmão, moribundo, no ar. –Estão vendo esse
asqueroso? Ainda por cima, disse que destruiu
a sua pirâmide para tentar me impedir. Vocês
acham que isso vai me impedir? Acham? –
Rugiu para todos os aliens ali presentes. – Ele
vai morrer. E morrer... QUEIMADO!!!
O olhar de aspiração se fez no rosto de
Amanttis. Com extrema brutalidade e
inclemência subiu o corpo do irmão à fogueira
a pouco aceso e depositou-o nela.
–... MORRA, MALDITO. – Cochichou
Amanttis ao pé-de-ouvido do irmão.
Amanttinis permaneceu em silêncio por alguns
instantes, no centro do fogaréu. Porém, quando
o fogo começava a corroer-lhe a pele, ele
berrou de dor.
–Morra! Morra!! Morra!!!
–AHHHHHH! – Os gritos ardentes de agonia
de Amanttinis faziam quase todo o ambiente,
com exceção de Amanttis, se calar.
–Isso tudo está acontecendo porque você não
me obedeceu..., TOLO!! Não é mais rei
nenhum! Agora é um simples e bucólico
alien!!!
Com os últimos sopros de vida que lhe
sobravam, Amanttinis declarou:
–Amanttis, só quero que saiba que... Você não
será capaz de destruir este povo! –Todas as
suas forças se resumiam a estas palavras –
Alguém já sabe sobre seu plano... E ele será a
intervenção... Irá te aniquilar, e aniquilar a
todos vocês exatamente como fazem comigo!...
–Isso é dificílimo a esta altura, seu estúpido!
Quem é este humano? QUEM?...
–Não é você quem irá encontrá-lo..., ELE... Irá
te encontrar... E minha última profecia se
cumprirá, Amanttis... Se cumprirá...
E, dizendo isto, o rosto de Amanttinis caiu
sobre seu peito... E nunca mais se levantou.

***

O tráfego estava horrível, e, para piorar as


coisas, Íris mal sabia para onde o estava
levando.
–Chrristian, acho que entrramos na pista
errada de novo...
–Ah, não... De novo, Íris? Vou ter de dar a
volta.
–Nón, tem um desvio, bem ali...
Íris indicou a placa que recomendava o desvio
na pista.
Um turbilhão de adágios passava pela cabeça
de Christian, como num lampejo, enquanto
volvia o volante do carro. Várias lembranças
invadiam sua ponderação. Sua infância, Jonas
Anderson, sua mãe... Pensava em que iria fazer,
como iria lutar contra o poder do perverso
Amanttis, o alienígena incorporado em
humano. O maldito matara o pai de Íris, e
provavelmente, a esta altura, seu próprio irmão.
–Chrristian.
–Fale.
–A pirrâmide está com você?
–Sim. Segura em meu bolso.
A temperatura ia caindo, o dia ganhando muita
bruma, e o logradouro que agora entraram era
feio, e tão coberto por cedros que o céu deixava
o ambiente ainda mais enegrecido.
–Parre.
–O que você disse?
–Ham... Pare.
Christian acuou.
–Íris, você viu o que acabou de falar?
–Pare.
–Isso mesmo! Pare! Você não puxou o erre!
–Chrristian, não há tempo parra
brrincadeirras. O lugarr é aqui

10. O Covil das Cobras


A casa era muito feia. O local era
mambembe. Talvez o esconderijo mais
discreto e sujo da cidade.
O calçamento desgastado da rua, as casinhas
desagrupadas, o rio sujo que corria ao lado
delas. Com todo o progresso que os dois mil e
dezenove anos da humanidade tinham, aquilo
era tudo de mais vergonhoso que o homem
poderia gerar. E trazia a triste conclusão de que
o avanço trazia ainda mais pobreza para o
mundo.
Por precaução, Íris pediu que Christian
estacionasse o carro esquinas antes.
O rapaz saiu andando impaciente. Sentia-se
como um cantor ansioso e acovardado, prestes
a sua estréia nos palcos.
Íris segurava sua mão, de um modo muito forte,
mas mesmo assim confortante, e ele desejou
que ela não a soltasse nunca mais.
Eles seguiam pela rua recém-escura, respirando
a força o ar fétido do local, que era ainda pior
pelo rio coberto de esgoto que desembocava
por ali.
Chegaram quando Íris apontou.
E era um espaço horrendo.
Um matagal alto no lugar onde devia se
encontrar um canteiro bem aparado. Mirtáceas
mortas se espalhavam como um formigueiro. O
gradeado coberto por ferrugem estava
escancarado, como se uma visita já fosse
esperada.
–Temos que entrrarr, Chrristian.
O rapaz concordou com a cabeça, mesmo sem
haver concordância com sua mente.
Entraram.
“Repugnante ideia”, Christian pensou.
Havia uma piscina grande, ampla, que até agora
era o item mais limpo da casa.
Por dentro, era mais miserável que por fora.
O local cheirava absinto.
Havia uma mesinha de granito para refeições,
onde se encontrava aluá posto em jarras.
Um candelabro prata iluminava nada. A casa
estava vazia. Completamente.
Christian e Íris andavam com açodamento em
território inimigo. Procuravam à pirâmide.
Tinham a esperança de que Amanttis a tivesse
deixado lá, só...
De repente, barulhos. Conversas. Se
aproximavam mais e mais da saleta imunda.
–Eles chegarram...
Íris e Christian subiram escadas como num
instinto; chegando a uma altura considerável,
uma saliência se precipitava no teto.
–É um sótão, Íris! Vamos entrar!...
Christian levantou a moça para que pudesse
introduzir-se no compartimento, encaixado na
armadura do telhado. Íris o ajudou logo depois.
Deixaram uma pequena fresta, para que
pudessem enxergar tudo abaixo deles.
Entraram cerca de oito pessoas: em sua
maioria, crianças pequenas.
–Vocês viram aquilo?! Ele tentou botar
medo em mim!
–Será, majestade? Será que ele não falava
sério?
–Falar sério? Me poupe, Derinslink. Não
tem como aquilo ser verdade. Um humano
vai me abater como? Você viu o que ele
disse? Que destruiu sua pirâmide para que
eu não pudesse pegá-la, a maior asneira que
poderia ter feito...
–Mas e Íris, mestre? Não pode ser um perigo a
mais? O senhor não se lembra da visão que ele
teve, há alguns anos?
–Íris... – um riso debochado e cheio de cinismo
saiu do homem de olhos verdes – Íris já deve
estar... Morta. Como pode alguém
simplesmente sumir! Vamos, me diga! Há
muito tempo que ela não dá as caras, e nenhum
de vocês a encontrou. Inclusive, recebi de meus
apontamentos a notícia de que Amanttinis
nunca esteve com ela.
–Mestre, quer dizer que conseguimos! Seu
irmão era o único que ainda podia nos impedir!
–Claro imbecil, agora deduziu isto? Eu sabia
que nosso plano não iria falhar! Sou um gênio,
não sou? Exclusivamente graças a mim, vocês
vão viver com corpos muito melhores! Nossas
vidas serão mais longas, mais longas que as dos
próprios humanos...
Christian nunca vira Amanttis na vida, mas
podia afirmar com grande certeza que era o alto
de olhos verdes, o mais audaz e cínico da sala.
–E se o seu irmão não destruiu a pirâmide dele?
E se...
–Bobagem. Já sei o que vai falar. Que ele
entregou a pirâmide a Íris. Impossível.
Improvável.
–Senhor, temos apenas um problema.
–O quê?
–A falta de seu irmão. Ela pode matá-lo.
–Outra bobagem. Bobagem sobre bobagem...
Isso é apenas uma lenda, querido. Uma
historinha mitificada. Cortando este assunto
inculto, quero informar-lhes que vamos realizar
uma grande reunião, nesta noite. Já avisei todos
que os quero aqui, até o fim do dia.
Um garotinho que sentado numa poltrona
carcomida apenas observava a conversa,
decidiu participar.
–Mestre, temos outro problema.
–O quê.
–VISITAS!
O garoto pegou um cabo de vassoura e bateu
com força na portinhola do sótão. O cabo bateu
em cheio no rosto de Christian, e o soalho
podre desabou no mesmo momento.
Íris e Christian caíram sob o galpão de granito.
–Ora, ora, ora, se não são Íris Brainvich e... e...
Quem é esse garoto?
–Não sei mestre. Nunca o vi.
O garotinho deu uma mexida com o cabo no
rapaz que tombou de mau jeito e estava muito
zonzo.
Íris se levantou aérea após a queda, tateando
Christian exasperadamente; sem saber se o
mais certo era tentar protegê-lo ou acordá-lo.
Desequilibrada pelo nervosismo, decidiu optar
pelo mais sensato:
–Chrristian! Acorrde! Acorrde agorra!!
–Ham... Íris...
Amanttis foi até os dois. Virando o rosto da
moça delicadamente, colocou seus olhos nos
dela.
–Tem os olhos do seu pai, garota. Os mesmos.
–Você o matou! – berrou Íris com ódio, se
abdicando de seus braços num rebento.
–Você tem que culpar meu irmão, mocinha. A
culpa é toda dele, foi ele quem envolveu seu
pai nesta história. Bóris não estaria morto hoje,
não fosse Amanttinis.
–Mentirroso! O culpado de tudo é você!!
Amanttis soltou uma risadinha impudica.
–Até seu sotaque, querida... Ele é idêntico ao
de seu pai! Vocês poderiam ser irmãos gêmeos,
não pais e filhos...
Christian acordou. Levando a mão a cabeça
doída pode catalisar rapidamente o ambiente.
Prorrompeu de modo espontâneo, quando viu
Amanttis próximo de Íris.
Amanttis, por sua vez, julgou a ação indecorosa
como um gesto educado de felicitação.
–Que personagem singular... Já sei quem você
deve ser... Só pode ser...
Christian não queria mesmo saudações. Pulou
por cima do rei dos alienígenas, e deu
insistentes socos nele, até que arrancar o sorriso
fingido de sua cara. Queria encontrar a
pirâmide, mas os outros aliens o seguraram,
impedindo de prosseguir e revidando os murros
com extrema violência.
–Nón facon isso! Parrem Agorra!
–Você é louco, garoto? – questionou Amanttis,
enxugando uma pontinha de sangue que
escorria pelo canto da boca. – Meu irmão lhe
mandou fazer isso? Um humano inofensivo,
contra mim?!
A ferocidade contra Christian, à esta altura, já
chegava a ser covarde.
Imobilizado e vulnerável, ainda assim tentava
se defender. Evitou um chute segurando o pé
do agressor, mas um deles puxou pelo pescoço
deixando-o livre para o assalto dos outros.
Íris lacrimejante, segura por outros dois.
–Parrem, vocês vón matá-lo!!
Amanttis encarou-a com um olhar alegórico,
dizendo:
–Me dêem ele aqui. Vocês são cruéis demais
para matar alguém...
Os servos obedeceram prontamente, soltando o
ensanguentado Christian Salém.
–Você gosta de nadar, rapazinho?
Christian cuspiu sangue no desprezível quando
se agachou até ele.
–Isso deve significar um sim... – riu-se
Amanttis, limpando o rosto.
Puxou Christian como uma marionete até a
arena principal: a piscina.
A platéia se sentou ao redor dela como se um
espetáculo circense estivesse prestes a começar.
Dos olhos de uma única pessoa escorriam
lágrimas, que queimavam-lhe o rosto.
–Nón! Mate-me entón! – Gritava a pobre Íris –
Ele nón merrece isso!!
–Íris, querida, sei que damas são sempre as
primeiras, mas vou abrir uma pequena exceção
desta vez. Vai ser rápido, e você é a próxima...
Vamos começar então rapaz? Hoje a fila está
grande...
Amanttis jogou Christian na piscina, e pulou
logo depois.
O rapaz queria nadar, ou afundar, tudo ou
qualquer coisa que pudesse afastá-lo do
perigoso Amanttis. Mas seu corpo linfático
pelas agressões não o permitiria. Ele já estava
acabado...
Amanttis não perdeu tempo, e submergiu o
rapaz na água, jugulando-o e tentando afogá-lo.
–Como é seu nome, meu caro?
Christian estava tonto, e via apenas um borrão
de olhos verdes perguntando seu nome.
–Como é seu nome! Eu quero saber!!!
Ele decidiu usar palavras que nunca usara em
sua vida.
–Vai se danar.
–IDIOTA!!
Amanttis o sufocou novamente, segurando-o
dentro das águas clorais da piscina.
Os pulmões do rapaz retorcendo-se em busca
de oxigênio, seu fôlego baixando à ritmos
alarmantes.
–Hum! – pulsou Christian novamente com toda
a força quando foi precipitado outra vez para
fora d’água. Puxava todo o ar que podia puxar,
mas que não pautava nada. Seus sentidos
tentavam fazê-lo permanecer com os olhos
arregalados, tentavam fazê-lo entender, mas ele
se sentia enfraquecido, entorpecido, sentia-se
morrer.
–Solte-o, Amanttis! SOLTE-O AGORRA!!!
–Acalme-se querida. Já é quase sua vez...
–Nón, Nón, Parre, PARRE!!!
–Inúteis, contenham essa garota. Não estão
vendo que estou ocupado?!
Após a ordem, Íris parou de gritar.
As mãos sujas e firmes de Amanttis trouxeram
Christian de volta a superfície por mais uma
vez.
–Um garoto tão bonito... Por que quis me
impedir? Por quê? Quis ouvir as palavras de
meu irmão, não foi?... TOLO. Tanto quanto
ele.
Dizendo isto o pôs de volta na água,
alucinadamente.
Afogamento.
Jeito deplorável de morrer. Não que todos não
sejam, mas, este era pior. Este era rude, banal,
feio...
Os aliens riam como se um malabarista
realizasse suas mais ousadas acrobacias. As
principais, as finais.
Christian não compunha mais nenhum tipo de
resistência. Estava perdendo os sentidos, e,
naquele momento, mal sentia as mãos estáveis
e imundas que agarravam seus cabelos. Parecia
esperar tranquilo por seu fim certo.
Com os olhos ofuscados pela dormência frígida
de sua mente, viu alguma coisa brilhar em seu
bolso. Tanto, que o fez lembrar de tudo. O fez
retomar seus pensamentos e procedimentos. O
fez pegá-la e erguê-la bem no alto, apesar de
suas mãos enfraquecidas.
Num fremido extraordinário, Amanttis o
soltou, se repelindo do objeto como o cervo
escapa de um leão furioso.
–CRETINO!
Amanttis caiu no mesmo momento que
Christian se restabeleceu, saindo da piscina
intensamente bem, como se nada tivesse
padecido. Como se seus sofrimentos fossem
nulos com a pirâmide aquiescida em suas mãos.
–Só mesmo um ser como você poderia planejar
isso. Somente alguém com mal no coração para
arruinar a vida de bilhões de seres humanos
ingênuos, vitimados por um videogame!
Christian destemido, e com o poder da
pirâmide, mas apesar disso o pararam.
Amanttis saía com muito esforço da piscina,
tentando apoiar-se sobre suas mãos, enquanto
Christian bateu os olhos assustados em algo.
–NÃO!!!
Íris Brainvich dependura numa mirtácea velha
e encolhida, com as vestes vermelhíssimas de
um sangramento no ventre.
Com toda a robustez do mundo, Christian
soltou-se dos aliens que o barravam, e chutou a
árvore com tanta força que um grosso cipó
soltou sua prisioneira, que foi escorregando
suavemente aos braços do rapaz.
Naquele momento, ele esqueceu de tudo. Tudo
o que tinha que fazer. O que tinha que cumprir.
Seu objetivo, no momento, era salvar a vida de
Íris.
–Não o deixem fugir! Peguem-no!!!
Os berros injuriados de Amanttis de nada
adiantaram: Christian disparou em velocidade
até encontrar-se fora dos limites da casa; Íris
em seu colo, perdendo muito sangue.
Ele corria.
Corria sem olhar para trás. Já próximo de seu
carro pegou a chave em seu bolso com uma das
mãos, e o abriu.
Seu sangue fervia em suas veias, enquanto
dirigia frenético.
Seus pensamentos pareciam anestesiados,
paralisados pelo tormento que a falta da garota
poderia lhe trazer.
Neste exato momento, ele descobriu que a
amava. A amava desesperadamente...
–Vai ficar tudo bem. Aguente Íris. Aguente,
por favor – Christian falava a uma Íris
desmaiada devido à diminuição de coagulação
sanguínea, acariciando seus cabelos com terno
amor.
Íris estava ficando pálida, e Christian sentiu
que não podia mais continuar.
Parou.
Mas não podia, estavam vindo...
Correu a um posto de gasolina, o
estabelecimento mais próximo de onde estava.
Íris quase morta em seus braços.
–Eu preciso de um pano! Alguma coisa!
Um homem na conveniência do posto correu
assustado para socorrer a moça.
–Espere, senhor! Espere!
O coração de Christian palpitava na mesma
instância que o de Íris parava.
Em desesperante agonia, ele rasgou sua
camiseta, e tentou estancar o sangue com ela.
–Aqui está senhor!
O homem surgia trazendo gaze e um tecido
branco e limpo.
Parecia tarde demais. Parecia o fim.
Íris Brainvich já devia estar morta.
Christian fechou seus olhos, e algo passou por
sua cabeça.
“Não”... “Será que seria possível”?, “Será
que...”
Ele não quis esperar por mais nem um minuto.
Tirou a pirâmide do bolso e colocou no ventre
de Íris, onde seu sangue não parava de escorrer.
Houve um silêncio. O homem do posto olhou
assustado para Christian, como se ele tivesse
terminado de matá-la ao colocar um objeto
pontiagudo em seu abdômen. Christian
impaciente e esperançoso ao mesmo tempo,
mirando a primeira mulher que realmente
amara em sua vida, entregue e frágil em seus
braços, com a vida por um fio.
–Han... – Íris suspirou numa lufada, voltou à
vida. O coração de Christian ficou mais calmo.
Ela olhava do rapaz para o homem do posto,
sem saber o que acontecia.
–O que é esse negócio que você pos na...
–SHU... – disse Christian, mandando-o fazer
silêncio. – Ela está melhorando. Vou levá-la até
um... Íris, o que está fazendo!
Íris começara a remover a pirâmide da barriga,
e Christian se assombrou instantâneo ao ato.
–Você não pode tirá-la, Íris! Você perdeu
muito sangue, e pode acabar...
–Chrristian, vou terr que correrr riscos. Você
vai prrecisarr dela – avisou Íris estendendo a
pirâmide que estava saturada pela cor vermelha
viva.
Christian ficou de joelhos, ao lado da moça, no
chão.
–Íris, eu não quero mais saber de nada, de
ninguém, eu só quero salvar você!
–Nón diga isso, Chrris. Irrei ficarr bem.
Grraças a você. Você me prrotegeu...
E, dizendo isto, os lábios dos dois se
entrelaçaram, num beijo eterno, intenso, total...
–Íris... Eu...
Com delicadeza, Íris encostou a mão nos lábios
do rapaz, detendo sua fala.
–Agorra vá Chrristian. Vá salvarr o mundo...
11. “Deminstifus Maléfiquis
Poderes!”

Amanttis estava nervoso. Um calafrio humano


passou por ele no momento em que pensou que
o rapaz que escapara com Íris agora poderia ser
uma ameaça.
A única ameaça, agora.
Ele precisava por um fim nele.
Só ele.
Num duelo de um contra um.
“Que vença o melhor”...

***
Íris ficou sob conta do dono do posto de
gasolina até que mandassem uma
ambulância. Mesmo sem acreditar em
exatamente nada do que o rapaz disse, o dono
do posto aceitou ajudar, abrigando a moça ali
até que chegassem.
Christian esperava voltar, se conseguisse
cumprir seu objetivo, para se certificar do
hospital onde Íris havia sido levada.
Ele desvaneceu-se pela avenida, andando em
marcha lenta nas ruas agora vazias, esperando o
momento em que se encontrassem novamente:
Amanttis e ele.
O rapaz não tinha mais medo. Era movido pelo
amor, pelo bem, pela fé. Se morresse, iria
morrer defendendo sua vida e a de todos com
toda a sua coragem...
Entrou numa ponte.
Edificada sobre arcobotantes fincados na terra
do rio abaixo dela, e com pouca iluminação.
Apertou os olhos, pois além da falta de
luminosidade da plataforma, a noite começava
a enevoar-se.
Muito de repente, houve um baque. Algo
chocou-se contra ele. Seu carro guinou
violentamente, colidindo com um poste. O air-
bag inflou.
Sua cabeça doía e parecia crescer por dentro,
parecia querer explodir.
Saiu do carro sobressalente, catalisando cada
corpo escuro na plataforma.
Viu o tamanho do problema: seu carro perdera
o controle logo após um outro que bateu contra
o dele. Era grande como um furgão, o carro do
provocador do acidente. Mas estava vazio.
A ponte estava vazia.
Ali só parecia haver dois carros e um só
homem...
Inesperada e assustadoramente, um vulto
começou a recortar-se. Não era só Christian
quem estava ali. Alguém corria em sua direção.
Amanttis...
...

Esta seria a peleja final. Alguém sairia vivo, e


outrem, morto.
–Será seu fim, querido – um homem alto, forte,
e de olhos verdes que andava tranquilo e sem
amparos na ponte monótona. – Christian
Salém, um jovem homenzinho que perdeu sua
vida por... Por... Por querer salvar o mundo!
–Você está sozinho, seu covarde?
–COVARDE? Você está me chamando de
covarde?! Pois saiba que avisei meus cidadãos
que viria sozinho, que não precisaria da ajuda
deles. Você é que não passa de um...
–Amanttis, cale-se, por favor. Covardia é seu
segundo nome. Invadir um planeta sem
ultimatos, sem avisos. Isso é desonroso, fraco,
infame. Você é um tirano!
Amanttis riu.
–Você acha mesmo que isso vai me...
Comover?! Que isso vai me fazer te dizer: “É
verdade, Christian, vou desfazer tudo o que
realizei, meus atos errados e infames”... Ainda
não percebeu que não me importo com vocês?!
Pelo pouco que os conheci, vocês nem mesmo
merecem o corpo que tem!!
–Só por que não merecemos você julga ser
direito seu tirá-los de nós? Se você acha ou não
acha, o problema é todo seu, Amanttis, mas
você não passa de um mero coadjuvante neste
universo para querer fazer o que faz! Você não
é nenhum deus!
–Cale a boca!!
Nenhum dos dois descontinuou seus passos,
muito menos Christian.
Sua seiva o induziu até que ficassem face a
face, olho no olho.
O rapaz o encarou, pensando rápido em algo
que pudesse fazer. O som que ele emitia, de
dentes roçando, rangendo, era nervoso, como o
som de ondas ferindo a areia.
–E Amanttinis? Você o matou, não foi?
–Foi, foi sim. Por quê?
–Porque vocês são gêmeos. Gêmeos sentem
falta um do outro.
Amanttis riu novamente.
–Você é muito sarcástico, garoto. Chega a ser
pungente... Mas eu não vim aqui para
brincadeiras.
Veloz e execrável como o bote de uma cobra,
Amanttis ergueu Christian pelo pescoço.
O deixando completamente sem revide.
–A pirâmide! Me dê!!!
–Cale a boca! Nunca irei te dar!...
Amanttis a viu.
Sorriu novamente.
Ela brilhava no bolso de Christian.
Jogou o rapaz ao chão como um brinquedo
descartado, mas ainda assim ele não desmaiou.
Tentou se arrepanhar, mas Amanttis cravou-o,
prendendo-o com seu sapato de couro duro
sobre a garganta.
–Não imaginei que seria tão fácil... – zombou
Amanttis, curvando-se e recolhendo a pirâmide
de seu irmão – Amanttinis não lhe ensinou
nada?... Diga?! Ah, sim, não pode falar...
Amanttis retirou seu pé do pescoço do rapaz.
Christian passou delicadamente a mão pela
goela tentando suavizar a dor, e mirou
Amanttis, lamentando o desacerto.
–Acabou. Fim. E os Ericlashivas foram felizes
para sempre... Também, eu aguardava um
adversário à minha altura, mas esperar o que de
humanos? Além de burros não passam de uns
fracotes... Meu irmão me falou antes de morrer:
“Ele será a intervenção, a intervenção...”
Confesso que até temi por alguns momentos,
mas, até agora, o pobrezinho não interveio em
nada!...
Christian Salém falhou. Derribado e desistido
em frente à ineficácia de seus esforços.
O mundo estava perdido...
Amanttis soltou uma gargalhada
fantasmagoricamente diabólica. Retirou sua
pirâmide do bolso, mas antes de juntá-las, um
rapaz exonerado de opções, gritou:
–Você matou seu irmão Amanttis, seu próprio
irmão! Por causas errôneas!!
Amanttis mirou-o com arrogância e
menoscabo. Estava descomposto por dentro,
não queria transmitir isso. Acabou
desordenando-se, ajoelhado e diminuído...
Sem explicação aparente, Amanttis caiu. Os
dois pedaços de pirâmide rolaram à seu lado.
Ele estava enfraquecido, não conseguia pegá-
las. Suas mãos restringidas e frouxas...
–O quê... O que está acontecendo???
Christian Salém ainda no chão, também sentia
dores que com certeza advieram póstumas a
briga no esconderijo. Uma bola de chamas
parecia se espalhar por dentro de sua cabeça.
Mas seu furor superava tudo.
Ele se alçou erguendo, e apanhou os dois
pedaços de pirâmide.
–Garoto? Garoto, o quê... O que fez?!!
A voz de Amanttis estava de uma rouquidão
tremenda, e seu corpo, amolecido como uma
polpa gelatinosa.
Christian parecia pela primeira vez sobreposto
à forte frieza e autoconfiança do alienígena.
Com a maior das pachorras e presenças,
principiou:
–Uma parte de você está fraca. Não está,
Amanttis?
–Cale a boca! Eu não...
–Você matou seu irmão por motivos impuros.
E seu ato pecaminoso foi desprezível...
–Isso não é verdade, seu maldito! Eu não sei,
você fez alguma...
–Claro que é verdade! – a voz mais acentuada e
repreendedora que Christian revelou em toda
sua vida. – Você sabe que é verdade.
A ponte começava a ficar mais habitada.
Haviam outros indivíduos, aliens, nela.
Numa célere perspicácia, eles vinham.
–Não pode fazer isso! Eles estão chegando!
Vêm me ajudar!!!
–Não posso fazer isso?... Eu posso!
Os alienígenas vieram com tanta presteza que
um deles até conseguiu tocar em Christian,
tentar agarrar seus braços, tentar impedir que...
–DEMINSTIFUS MALÉFIQUIS PODERES!
–Não!!!
Uma centelha de fogo verteu da pirâmide
dourada. Fez a noite em luz, de modo literal.
Arfando pelo poder tremendo erguido em suas
mãos, Christian se esquivava dos diversos
aliens que começavam a cair por terra,
derrotados...
–AHH!!! Eu estou... EU ESTOU!...
Amanttis estava morrendo. Perdendo o corpo
roubado. Ele e os alienígenas começaram a
arrazoar dialetos estranhos, que o rapaz não
podia entender.
O espectro deles sobrenadou acima dos corpos,
e, lenta e horrivelmente, começava a desfazer-
se em fuligem.
Christian no meio da tola de fogo arreganhada
na ponte viu a pirâmide primeiramente fender-
se em uma lasca, e depois estilhaçar.
Acabrunhar no ar, junto aos aliens.
A luz fusca momentânea começou a
desaparecer rapidamente, da mesma forma que
apareceu. E Christian Salém estava feliz.
Estava feio, sujo, mas feliz por ter acabado com
uma pútrida armação detrás de um videogame...
Este era o fim. O desfecho. O planeta havia
sido salvo por um homem jovem, um humano
comum, como qualquer outro, com uma baita
dor de cabeça...
...
Íris não aceitara ir ao hospital quando
ambulância e maqueiros chegaram de
prontidão. A moça iria permanecer ali,
esperando ele. Ela pensava seriamente em
jamais sair daquele local enquanto Christian
não regressasse.
Estava confiante de que o rapaz tivesse findado
seu trabalho. O trabalho que fora destinado a
fazer. Desbaratar um plano tão bem organizado
como este era tarefa difícil, para apenas uma
pessoa. Mas ela sabia que Christian Salém,
apesar de normal, era inteligente, forte,
bondoso. Ela também o amava...
Estava redondamente entristecida por não ter
podido ajudá-lo até o fim, por sua incapacidade
de saúde, mas tinha adquirido uma confiança
absoluta em Christian desde que o conheceu,
desde a primeira vez que o olhou em seus
olhos...
Ela queria que ele voltasse, não só pelo mundo,
mas por ela. Queria dizer a ele tudo o que
sentia.
–Chrristian!!!
–Ei mocinha! Não pode ficar correndo assim,
desse jeito!
Nada podia pará-la. Ela correu para um Fiat
Broma preto, deformado por determinado
incidente, e pulou nos braços de seu eleito. Um
homem com as vestes imundas e rasgadas,
sorrindo e abraçando aquela verdadeira
fortaleza de mulher, a mulher que conheceu em
circunstâncias curiosas, a mulher perfeita para
ele...
–Eu te amo, Chrristian, eu te amo...
–É você, Íris... É a mulher da minha vida...
Apaixonadamente, aqueles dois jobilíssimos
adultos não sabiam o que fazer além de
abraçarem-se ou beijarem-se
desesperadamente, era o mesmo...

12. Enquanto houver bem... O


mal não pode dominar

Dois Dias Depois...


Um dia de glória. Aquele, um dia para ser
lembrado para o resto da vida de Christian, de
Íris, e de todo o público ansioso para assistir o
pronunciamento do homem que salvou a vida
da humanidade...
O prefeito de São Paulo aprontou o
comunicado de Christian Salém, um homem
que vencera um ardiloso plano contra os
humanos.
A declaração seria na praça da república, uma
das principais da cidade, e seria televisionada
por todo o mundo.
Christian nunca foi famoso como atores de
sucesso, que sempre aparecem causando
alvoroço, mas neste momento haviam bilhares
de olhos atentos à ele. Nunca foi um escolar
galanteador como Jonas Anderson, sorridente
no meio da platéia na praça entupida de gente,
mas estava com a garota mais bela que já vira
em sua vida; Nunca foi o “queridinho” da
família, mas todos ainda vivos – incluindo
Sydney, que só ficou com uma enorme dor de
cabeça depois da tijolada, e seu irmão mais
velho que se fora para a Islândia há vários anos
– estavam ali, chorando orgulhosos pelo
parente.
–Senhoras e senhores de todo o mundo... Tenho
aqui à minhas costas talvez o homem mais
corajoso que este mundo já concebeu. O
homem que arriscou sua vida, para nos
defender. Ele lutou por amor! Por amor a mim,
a vocês, a todas as pessoas do mundo.
Mais dia menos dia, o fim de todos nós
humanos chegará, é verdade. Mas este garoto e
seu amor impediram que as vidas fossem-nas
tiradas pelo mal! Christian Salém, por favor,
todos querem ouvi-lo...
O prefeito saiu do púlpito exageradamente
ditoso, dando altivos e simpáticos tapinhas nas
costas de Christian, colocando sobre seu peito
uma medalha grande e dourada.
O rapaz abraçava duas mulheres: sua mãe e
namorada. Foi com elas para falar àquela
multidão.
Não fez nenhuma preleção planejada. Todas as
falas do discurso, ao avesso de decoradas,
sairiam de seu coração.
–Meus amados, não pensem que fiz tudo o que
fiz, sozinho. A primeira pessoa a quem
devemos tudo isso, é Deus. Ele move tudo.
Nada seria possível sem Seu auxílio. Outras
pessoas que contribuíram comigo, foram estas
duas mulheres a quem estou abraçado. Minha
mãe, tão sem querer como eu, se envolveu
nessa história, e ao contrário do que muitas
fariam, ela me apoiou! Íris, essa maravilhosa
mulher que eu pretendo me casar, foi quem
propiciou tudo isso. Eu nada teria feito sem ela!
O silêncio respeitável das pessoas era lindo.
Todas gratas por um jovem de vinte e dois
anos.
–E eu não posso me esquecer de citar Bóris
Brainvich, o pai de Íris. Um humano
sensacionalmente intrépido, que morreu por
defender sua filha, e por saber demais. Eu não
o conheci em vida, mas sei que um dia ainda
vamos nos encontrar e eu vou poder dizer-lhe o
quão agradecido sou por tudo o que ele fez. Por
fim, mas não menos importante, tenho que
contar a vocês sobre alguém que muitos mal
possuem conhecimento de ter existido nesta
história. Um ser que nem ao menos é humano.
O nome dele é Amanttinis. Sabem, acho que se
alguém devesse ganhar algum mérito com tudo
isso, não sou eu. É ele. O alienígena que se
revoltou contra seu próprio povo, para nos
ajudar. O seu auxílio é a parte principal disso
tudo.
A multidão, vidrada, não era capaz de tirar os
olhos do rapaz. Ele hesitou por leves
momentos, pensando em coisas que não viria a
falar.
“Talvez Amanttis estivesse certo”, ele
maquinava. Talvez, os aliens merecessem mais
os nossos corpos, a nossa vida, o nosso mundo,
mais do que nós mesmos.
Às vezes os seres-humanos conseguem ser tão
egocêntricos com seus próprios irmãos, com
seu próprio ambiente, que nossa vida muitas
vezes se torna imerecida...
Apesar disso, pela enésima vez na história da
humanidade, a virtude superara atos vis, a
honra destroçara a indecência, o bem vencera o
mal.
Christian olhava entusiasmado para todas
aquelas pessoas. Feliz por sua bravura. Sua
valentia fora além de tudo.
Ele cingiu sua mãe e sua namorada num abraço
ainda mais apertado e caloroso, e findou:
–Queridos, só quero dizer que a vocês que se
quiserem recordar esta memorável data, não
lembrem-se de mim, lembrem-se por favor,
para o resto de suas vidas, de Amanttinis, o
compassivo ente que traiu seu povo, para nos
proteger.
Uma salva de palmas emergiu da multidão.

............................................................................
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Epílogo
Agosto de 2019
Após o acontecido no planeta Terra, a procura
por novos corpos celestes e vida em seus
interiores se intensificou, e surgiram, de modo
automático, novos seres.
A confusão que quase custou a vida da
humanidade chamou a atenção dos outros
planetas, que resolveram se revelar.
Num comunicado que durou quase duas horas,
o planeta Terra descobriu que não era o único
que possuía vida no universo...
Em todos os jornais, em todos os canais, em
todos os sites e blogs, em todas as mensagens
por iphone ou mp15, enfim, em todo e qualquer
meio de comunicação, o assunto eram os novos
moradores do universo. Novos para nós
humanos, pois a existência de alguns superava
trilhões de anos...
A Terra firmara um acordo entre os outros
incríveis trinta e três novos planetas existentes
na galáxia. Seres verdes, vermelhos, azuis, uma
coloração tremenda invadia a sede da ONU em
Manhattan, Nova Iorque. Uma reunião que
aliançou a Terra a outros planetas, assinando
um pacto de “não-invasão”, sugerido pelo
próprio presidente da ONU. “Foi fomentada,
hoje, uma relação cordial de nosso planeta com
trinta e três novos planetas descobertos. Uma
das vantagens da união, é que a Terra não
correrá nenhum risco como o que teve com a
invasão dos ericlashivas. ‘Hoje, possuímos um
planeta mais seguro do que nunca’, afirma Téo
Vilaverde, principal colunista brasileiro. O
outro benefício, que propiciou mais segurança
para alguns, foi que na reunião realizada hoje
pela manhã, decidiu-se junto à repartição
soberana de Zarbata a destruição completa do
planeta Ericlash, devido ao fato do povo
ericlashiva ter querido exterminar uma raça a
fim de favorecer a sua. “O ato dos ericlashivas
tornou-os indignos de vida. Por isso, seu
planeta será extinto, para que não hajam
possibilidades de vida para os próprios. E nós,
os zarbatanos, faremos isso com muito prazer!”
revelou Demelius, atual imperador do planeta
dos zarbatanos.
...
Dentro de algum tempo, no dia datado de seis
de agosto de dois mil e dezenove, o planeta de
Ericlash será destituído da galáxia.
6 de Agosto de 2019
-O que está acontecendo? Vocês não disseram
que não havia mais vida aqui?!? – gritou um
zarbatano, com uma arma automática em uma
de suas quatro mãos.
-Mas não há!!
-HÁ... SIM.
Um alienígena verde e alto, desacordou os dois
zarbatanos com um par de murros secos e
velozes.

-EU SOU... AMANTTINIS!!! >