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Filosofia e prática, um comentário ao prefácio de “Para a crítica da economia


política” de Karl Marx

Luigi Bordin

Introdução
O Prefácio de 1859 ao volume Para a crítica da economia política é importante por
ser o único texto de Marx que traça um perfil, ainda que breve, de sua história intelectual,
e, por conseguinte, política. É essencial por nele descrever, em uma página e meia, o
núcleo de seu método. Gramsci dizia que o Prefácio era a “fonte autêntica mais importante
para a reconstrução da filosofia da práxis”, termo que usava para indicar o marxismo.. O
historiador marxista inglês, Eric Hobsbawn, define este texto breve de Marx ainda hoje
como “soberbo” onde ele nos apresenta “o materialismo histórico em sua forma mais
plena”. Todavia os próprios méritos desse Prefácio podem trazer equívocos.
Na verdade, trata-se duma exposição essencial e sumária que deve ser lida tendo
presente todo o pensamento de Marx. Caso contrário, pode-se chegar a uma interpretação
redutiva e deformada da sua doutrina, vendo na relação estrutura-superestrutura uma
relação determinista e mecanicista. Nosso propósito é de apresentar através do comentário
desse prefácio uma sucinta, mas densa introdução ao pensamento de Marx.

Prefácio e comentário

1) Em 1842-43, na qualidade de redator da Rheinische Zeitung, ( Gazeta Renana)


encontrei-me, pela primeira vez, na embaraçosa obrigação de opinar sobre os chamados
interesses materiais

Marx acena aqui para a batalha jornalística de que foi protagonista, a dos “roubos da
lenha” onde defendeu o direito consuetudinário que consentia à “massa pobre” o corte da
lenha contra uma aplicação rígida do direito de propriedade dos proprietários dos bosques.
Marx como “jovem hegeliano” tinha em mente uma idéia de “Estado universal” contrário
ao particularismo dos interesses, mas cuja universalidade se manifestasse na livre
consciência dos cidadãos.

2) O primeiro trabalho que empreendi, para resolver as dúvidas que me assaltavam, foi
uma revisão crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

Esta é a problemática que caracteriza seu primeiro trabalho teórico: uma crítica à
filosofia do direito de Hegel, que empreendeu depois de ter deixado o jornal. Tinha se
tornado difícil dirigir a Gazeta Renana sob a pressão da censura do governo e a pressão dos
donos do jornal. Nessa altura, Marx estava sob a influência cultural de Feuerbach, crítico
de Hegel. Segundo ele, a “Idéia” de Hegel era uma reedição da teologia que relega o
homem concreto e sensível e todos os seus problemas à função de determinação da
“Idéia”. Sua força teórica consiste na idéia de revirar o pensamento de Hegel: Hegel
revirou a realidade, ora a crítica filosófica, dizia Feuerbach, deve recolocá-la no seu justo
lugar.
Marx era um jornalista político e tinha como central o problema do Estado. Utilizando
a estrutura da crítica feuerbachiana, criticou a falsa universalidade do Estado de Hegel,
mostrando que ela deriva do truque filosófico hegeliano: o de apresentar o Estado

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prussiano existente, com seu monarca e burocracia , como a realização do Espírito e,
portanto, como pura racionalidade.
A crítica teórica ao sistema filosófico de Hegel como ideologia conservadora era assim
feuerbachiana. O ideal político que animava essa crítica era democrático-rousseauniano.
Não só, segundo Marx, o Estado de Hegel é uma falsa universalidade, mas a idéia de
Estado como universalidade jurídica é uma “alienação” do homem, exatamente como o
Deus da teologia cristã e a “Idéia” da filosofia de Hegel criticados por Feuerbach.

3)Minhas investigações me conduziram ao seguinte resultado: as relações jurídicas bem


como as formas de Estado não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada
evolução geral do espírito humano; estas relações têm, ao contrário, suas raízes nas
condições materiais de existência em sua totalidade, relações estas que Hegel, a exemplo
dos ingleses e franceses do século XVIII, compreendia sob o nome de “Sociedade civil”.

Para Marx, o Estado, e as relações jurídicas que ele funda e que o caracterizam, não
podem ser compreendidas por si mesmos prescindindo da sociedade. O Estado não é
também o resultado do assim chamado “desenvolvimento geral do espírito humano.” Para
Marx, o Estado só se explica indo às suas raízes, isto é, às relações materiais de existência.
Estas são aquelas relações que em Hegel, como no pensamento precedente, são definidas
como “sociedade civil” separada do Estado.
A concepção liberal (John Locke) separa a sociedade civil da estatal para afirmar no
campo privado toda uma série de direitos de liberdade e, sobretudo, de liberdade
econômica. Hegel tinha mostrado a autonomia da sociedade civil, isto é, o funcionamento
das relações econômicas com respeito ao Estado que constituía a síntese ética.
Marx, neste momento seguidor de Feurbach, procura mostrar como o estado de
igualdade dos cidadãos frente à lei é uma falsa universalidade na medida em que cria um
“céu” (o Estado) em que os homens são iguais, enquanto existe uma terra (a sociedade
civil) onde vigoram as relações de propriedade e os homens são, por conseqüência,
desiguais.
Marx retorna pois aos conceitos de “sociedade civil” e “sociedade política”, mas para
mostrar que as relações econômicas constituem a base da sociedade civil e política, melhor
dizendo: as relações econômicas constituem a estrutura-base essencial de toda sociedade e
do Estado

4) O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para os
meus estudos, pode formular-se, resumidamente, assim.

Devemos notar a expressão: “guia para os meus estudos”. Marx aqui insiste sobre o
caráter do método com que se apresenta a sua concepção.Trata-se antes de tudo,de um
método de pesquisa. Não uma concepção em si concluída, um sistema de “verdades”
definitivas, mas um modo de pensar sempre aberto a novas aquisições, sempre pronto a
colocar em dúvida o já adquirido.
O método de Marx, que se traduz na analise a realidade social e dos processos
históricos e políticos duma realidade histórica e determinada, visa, também e sobretudo,
guiar a uma ação capaz de transformar a realidade social e de incidir sobre os processos
históricos .

5) Na produção social da própria existência, os homens entram em relações


determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção

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correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas e
materiais.

A produção da vida, da existência dos homens se cumpre, se dá, através do trabalho.


Esta produção é social, pois só na vida de grupo é possível aquela reciprocidade de reações,
de troca de experiências e de ajuda recíproca, que permite chegar à capacidade de
trabalhar. Com efeito, o trabalho do homem exige cooperação entre os homens e, pois, vida
social e organização em sociedade. Cada época da vida social, cada forma de vida social,
tem em sua base o trabalho, a produção.
Marx não aceita o materialismo antropológico que busca reduzir todas as
manifestações, também as sociais, à “natureza humana” concebida de forma estática.
Opunha-se também aos filósofos que, como Hegel, tentam explicar o real a partir do
conceito de “Espírito” concebido de forma totalizadora acabando em especulações
abstratas e vazias. Marx faz seu o tema hegeliano da relação homem-natureza mas,
revirando e radicalizando a posição de Hegel, dá a ênfase e a primazia à base material
dessa dialética, isto é, ao processo material de produção. Para Marx, o mundo procede,
evoluí, se desenvolve a partir de relações reais de poder, na base das quais estão as relações
de produção.
Vimos que essas relações são sempre sociais. Mas são também “determinadas”, isto é,
mudam e assumem características precisas segundo o desenvolvimento da economia. Tais
relações são também “necessárias” pois elas obedecem a um determinado desenvolvimento
das capacidades dos homens em produzir os bens necessários para suas existências. Em
conseqüência, possuem um caráter objetivo: obedecem a leis próprias da economia.
Temos aqui dois conceitos-chave: “forças produtivas” e “relações de produção”. Com
a expressão “forças produtivas”, Marx indica o homem que trabalha e os meios com os
quais ele trabalha. O meio de trabalho consente, segundo o grau de sua evolução ( pedra
talhada ou instrumento de ferro ou máquina), uma diferente relação com a natureza, com o
objeto de trabalho, e, pois, a criação de bens diversos, sempre mais correspondentes às
necessidades do homem.
Da satisfação dessas necessidades derivam novas necessidades num processo
incessante. O desenvolvimento das forças produtivas incide também sobre as relações de
produção. Quando as forças produtivas são elementares, como por exemplo as da tribo que
vive de caça e pesca, é evidente que as relações de produção que se estabelecem entre seus
membros são muito simples. Todos concorrem cooperando entre si, não existe propriedade
privada etc.
As coisas mudam com o modo de produção escravocrata, que pressupõe o cultivo da
terra e o pastoreio. Temos, de um lado, os proprietários de escravos e, de outra parte, os
escravos. Ou seja, com o desenvolvimento das forças produtivas, os grupos sociais
colocam-se de forma diferente nas relações de produção, que se tornam mais complexas.
Tudo isso aparece mais claro quando surgem as “manufaturas”, que dão lugar a uma nova
divisão de trabalho e a relações sociais diferentes com respeito ao modo artesanal
(doméstico) anterior. E assim, quando nasce a grande indústria mecânica, temos nova
divisão de trabalho e novas relações: as entre o capitalista de um lado e os operários, sem
propriedade, do outro.
O desenvolvimento das forças produtivas, pois, age e determina as relações de
produção, como também as relações de produção operam, por sua vez, sobre as forças
produtivas. Não teria nascido, por exemplo, a indústria “mecânica moderna” se, na
Inglaterra, junto à expulsão dos camponeses de suas terras e à ruína do seu artesanato
doméstico, não tivesse havido antes uma acumulação de capital através da renda fundiária,
do comércio etc.

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6) A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da


sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política à qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência.

Os conceitos de “estrutura” e “superestrutura” não devem tornar-se a chave mágica


com que se explica, simples e esquematicamente, todos os processos sociais. Trata-se de
metáforas espacias que, quando usadas criticamente, têm uma certa capacidade heurística-
explicativa. À superestrutura jurídica e política “correspondem formas determinadas da
consciência social”, isto é, uma cultura (filosofia, religião, arte, etc...)
A expressão “corresponde” indica que “as formas sociais da consciência” (cultura)
não devem ser vistas diretamente e mecanicamente ligadas à base econômica, mas ligadas
ao desenvolvimento das superestruturas jurídicas e políticas que condicionam e são por
elas condicionadas .

7) O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política


e intelectual.

Temos aqui um novo conceito: “modo de produção”. A metáfora “estrutura-


superestrutura” vem agora superada. Focaliza-se uma relação de condicionamento de um
elemento (modo de produção) sobre o outro (processo social, político, espiritual da vida).
O verbo “condicionar” não indica uma relação de causa e efeito imediata e automática.

8) Não é a consciência dos homens que determina o seu ser: ao contrário, é o seu ser
social que determina a sua consciência.

Estamos diante do problema filosófico fundamental da relação entre “ser e


pensar”. Marx aqui se coloca numa posição antiidealista e permanece do lado daquelas
correntes filosóficas que acham que o real precede o pensamento e é condição do
pensamento.
Enquanto Marx afirma que é o ser que determina a consciência, não diz nada de novo
com respeito ao realismo filosófico(de Aristóteles, por exemplo) ou com respeito ao
empirismo de Locke. Marx, não se limita entretanto a isso. Temos nele um salto
conceitual de alcance excepcional : do ser ao ser social. Mas o “ser social” de Marx
não é o genérico ambiente social que já, segundo os iluministas franceses do séc. XVIII,
condiciona o homem, o seu caráter o seu agir. Não, aqui o “ser social” significa as
relações de produção e de troca. Isto é : do conceito metafísico do ser, passa-se a um
conceito novo que indica a realidade social em sua específica determinação. Marx
abandona o terreno da metafísica, da filosofia especulativa em geral ,ou seja aquela
filosofia construída sobre um plano puramente conceitual e que não dá os instrumentos
para chegar à experiência, para passar a uma nova esfera: a esfera das relações
econômicas e sociais. Sua concepção de mundo se libera dessa forma de cada resíduo
especulativo. Estamos na esfera da ciência da sociedade. Os problemas da filosofia
segundo Marx (o problema da existência, da felicidade, da realização humana etc...) não
se resolvem somente na esfera dos conceitos, mas, e sobretudo, na esfera da sociedade.

9) Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade


entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que é mais que a
sua expressão jurídica , com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam
desenvolvido até então.

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Pode existir uma complementaridade, uma correspondência entre forças produtivas e


relações de produção. Mas a um certo ponto de desenvolvimento dessas forças (que como
vimos, significam não só meios e instrumentos técnicos, mas também uma nova
consciência de novas necessidades..) elas entram em contradição com as relações de
produção. Exemplo: com a expansão dos mercados, das navegações, com o fortalecimento
da burguesia, de sua consciência, de suas técnicas, de seu poder, elas se encontram em
contradição com a velha aristocracia terceira parasitária, que apesar de tudo continuava no
poder.
Outro exemplo: o avanço das forças produtivas no capitalismo (maior divisão de
trabalho, maior utilização de máquinas e técnicas, maior nível de instrução e de consciência
etc...) exige uma transformação das relações de produção, ou seja, perante a contradição
entre o caráter social da produção (cooperação de grandes massas) e o “caráter privado” da
propriedade dos meios de produção (que implica a apropriação privada da “mais valia”,
isto é, de parte do valor-trabalho do trabalhador como é analisado pertinentemente no O
Capital.) surge a exigência, talvez, hoje em dia , não tanto da socialização dos meios de
produção quanto de uma socialização da política. As forças produtivas atuais exigem uma
apropriação social da “mais valia”. As forças produtivas representam pois o elemento
concreto e dinâmico, o elemento revolucionário da sociedade

10) De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se
em entraves.

Hoje, por exemplo, os grandes monopólios, as grandes concentrações do capital


financeiro e certas formas de burguesia parasitária constituem sérios entraves à exigência
sentida universalmente de uma socialização dos meios de produção e da política. O antigo
regime, na época da Revolução Francesa, constituía um entrave às exigências expressas
pelas idéias iluministas. As concepções do iluminismo eram expressão, por sua vez, das
novas forças produtivas.

12) Abre-se pois, uma época de revolução social: a transformação que se produziu na
base econômica transtorna mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal
superestrutura.

Retomemos o exemplo anterior. Com a queda do antigo regime e com a mudança da


base econômica, se forma ao nível da superestrutura uma nova cultura. Tomam corpo
novas instituições políticas e jurídicas .Cria-se e difunde-se uma nova mentalidade .

13) Quando se consideram tais transformações, convém distinguir sempre a


transformação material das condições econômicas de produção- que podem ser
verificadas fielmente com a precisão das ciências naturais e as formas jurídicas,
políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas sob as
quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até o fim.

Encontramo-nos diante de uma precisa distinção entre o modo como atuam a

“transformação material das condições econômicas de produção” e a


transformação das formas superestruturais, ideológicas. Isto indica que se trata
de níveis diferentes da vida social e que não existe entre eles uma

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correspondência mecânica. O primeiro “pode ser verificado fielmente com a
precisão das ciências naturais”.

Marx reivindica aqui o caráter autônomo que a ciência da economia tem adquirido
com os clássicos da economia política burguesa, Adam Smith e David Ricardo. Reivindica
também o rigor de que esta ciência é capaz.Devemos todavia observar que Marx, na época
em que redigia esse Prefácio, estava sob a influência da epistemologia da física clássica,
segundo a qual as leis da natureza são rigorosamente determináveis, absolutamente
deterministas e não podem sofrer exceções. Movimentava-se pois no quadro de uma
concepção mecanicista da natureza e das ciências da natureza. Mas já, na época da
elaboração de O Capital (vol.III) se pode notar em Marx uma perspectiva mais
probabilística, mais próxima das epistemologias contemporâneas. No terceiro volume de O
Capital, ele observa: “Em toda produção capitalista a lei geral se afirma como tendência
predominante só em modo muito complicado e aproximativo...”
Outra característica tem a “transformação” das “formas jurídicas, políticas, religiosas,
artísticas ou filosóficas” que recebem influência das relações de produção. Marx nos diz
que aqui nos aventuramos em um campo mais problemático, que exige análises muito sutis
e complexas, e nem sempre tais que se possa chegar a conclusões exaustivas. Admoesta-
nos a não estabelecer relações mecânicas e simplistas entre a base econômica e a
superestrutura.
Ele define essas formas como ideologias. É em nível das idéias que os homens,
segundo Marx, concebem os conflitos de classe (as contradições entre as forças produtivas
e as relações de produção) e é em nível das idéias que os combate. Mas o que entende Marx
por “ideologia”?
Por ideologia entende (ver “Ideologia Alemã”) uma falsa consciência da relação entre
idéias e estruturas sociais, isto é, entre idéias e base econômico-social, entre idéias e classes
sociais. Daqui deriva a ilusão de que as idéias possam por si mudar a sociedade e que seja
suficiente só uma consciência crítica, como acreditavam os “jovens hegelianos”, criticados
justamente por Marx na Ideologia Alemã.
“Nenhum desses filósofos, escreve ele, teve a idéia de perguntar pela interconexão da
filosofia alemã com a realidade efetiva alemã, pela interconexão da crítica deles com a
própria circunstância material deles”.
Voltando à relação entre estrutura e superestrutura em geral, deve-se insistir sobre o
risco de cair em uma visão simplificada e mecânica dessa relação. É o erro em que caiu
grande parte do marxismo da II Internacional, também sob a influência do positivismo. (A
esse respeito ver a carta de 21 de setembro de 1890 de Engels a Joseph Bloch). A estrutura
econômica condiciona ou determina, sim, as instituições políticas, a organização do Estado,
a cultura, não porém de modo imediato, mas só em “última instância”. Entre a base
econômica e as superestruturas intercorrem mediações complexas.
A expressão “em última instância” pode parecer vaga e certamente arriscamos em cair
num metodologismo abstrato ou, pior, numa “filosofia da história”, se pretendêssemos
colocar com exatidão, antes da indagação histórica concreta, caso por caso, a intervenção
condicionante da base econômica, isto é, a relação que se estabelece entre a base
econômica, de um lado, e a organização do Estado, as relações jurídicas, as forças políticas,
os movimentos culturais, de outro. Deve ser captada vez por vez, no exame dos
determinados processos históricos. Somente com essa análise concreta e diferenciada se
podem colher essas interconexões, que se apresentam em formas complexas e mediadas.

14) Do mesmo modo que não se julga um indivíduo pela idéia que se faz de si mesmo,
tampouco se pode julgar uma tal época de transformação pela consciência que ela tem

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de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da
vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de
produção.

Uma transformação revolucionária se manifesta através de uma ou mais ideologias.


Estas formam a consciência daquela época de transformação. Mas é aqui que entra em jogo
a falsa consciência, isto é, a ideologia entendida em sentido negativo. Na Revolução
Francesa, por exemplo, os princípios da “liberdade, igualdade, fraternidade” foram sentidos
e vivenciados como princípios universais, afirmados, uma vez para sempre, para todos os
homens indistintamente.
Na realidade, a liberdade que vinha afirmada era aquela burguesa (força hegemônica
daquele processo revolucionário) contra os privilégios aristocráticos, no campo econômico
e político, contra os ordenamentos corporativos. Em suma: o que para a consciência
burguesa é liberdade, em sentido absoluto e universal, é, ao contrário, só liberdade para
uma classe, para a burguesia, mas negação da liberdade para a outra classe , o proletariado.
A burguesia possui então da liberdade uma consciência ideológica: uma falsa consciência.
A liberdade que a burguesia afirma e conquista tem um conteúdo real em relação à
ordem feudal. Na luta contra o domínio da aristocracia, a burguesia, afirmando sua
liberdade, abriu a todos os homens um terreno mais avançado, se fazendo historicamente
protagonista de um processo de toda a sociedade.
Mas, diz Marx, esse progresso não rompe as correntes do proletariado. Do mesmo
modo atrás da igualdade frente à lei, conquistada pela burguesia, persiste a desigualdade
entre os homens nas relações de produção e troca, na vida econômica. O cidadão igual
perante a lei, apesar da diversidade das posições econômico-sociais, é o resultado de uma
abstração. Atrás do cidadão igual, está o homem que produz, desigual.

15) “Uma formação social jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as
forças produtivas que possam conter, e as relações de produção novas e superiores não
tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações
tenham surgido no próprio seio da velha sociedade. Por isso a humanidade não se
propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois aprofundando a análise,
ver-se-á sempre que o problema só se apresenta quando as condições materiais para
resolvê-lo existem ou estão em via de existir”.
Com a individuação das bases objetivas da revolução ou transformação se dá um
fundamento científico à luta. Estamos colocados, com clareza, em frente à superação das
formas utópicas do socialismo e das concepções abstratas de revolução. Para que a
revolução seja possível, não é suficiente a vontade das vanguardas. A possibilidade da
revolução está fundamentada sobre o caráter objetivo do desenvolvimento social.
O processo histórico é visto por Marx como uma permanente dialética entre forças
produtivas e relações sociais, entre o momento da correspondência e o momento da
oposição. É indispensável ter sempre presente tal distinção entre os dois momentos, pois é
diversa a lógica interna de cada um. A revolução não se torna possível pelas idéias. É mais
o processo real que torna possíveis idéias capazes de guiar o processo revolucionário.
Os socialistas utópicos como Fourier, Owen, Saint Simon, obedeciam ainda a uma
concepção iluminista, a de que as idéias válidas deviam por si convencer.Marx, ao
contrário, enfatiza a necessidade das condições objetivas do processo revolucionário. Uma
ação subjetiva, sem base objetiva, seria utópica e condenada à falência.
Marx polemizou toda a sua vida com os “alquimistas da revolução”, e foi sempre
forçado por exigências polêmicas a chamar atenção sobre a impossibilidade, também para o

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revolucionário, de dobrar as leis históricas e sobre o dever de conhecê-las e respeitá-las
para poder explorá-las.
Com isso não significa que o elemento subjetivo, “a consciência de classe”, não seja
importante. Não só é importante, mas fundamental; todavia, se a ação do movimento
operário não acompanha e não dirige os processos objetivos, mesmo um alto grau de
consciência e de combatividade da classe operária será inútil. A esta altura deveríamos
analisar o papel da classe operária na sociedade capitalista. É evidente que agora,
sobretudo nos países avançados, a classe operária não é mais sufocada pela miséria e
exploração selvagem. Isto implica em abandonar a concepção que vê no proletariado a
classe oprimida e que vê a miséria das massas como mola da revolução.
Já o próprio Marx mais maduro (quando escreve “O Capital” e os “Grundisse”), fazia
apelo não a um proletariado miserável, último degrau da escala social, mas ao contrário, a
um proletariado moderno e qualificado, que por sua formação técnica e a sua capacidade de
dominar os novos instrumentos criados pela inteligência, está em condições de gerir por si
o processo de produção.

16) Em grandes traços, podem ser designados, como outras épocas progressivas de
formação econômica da sociedade, os modos de produção (asiático, antigo, feudal e
burguês moderno).

Marx individuou o elemento determinante da história na complexidade das relações


sociais. Ele fez isso separando dos vários campos da vida social o campo econômico, e
separando de todas as relações sociais, as “relações de produção”, vistas essas como
relações fundamentais que determinam todas as outras. Isto permite a Marx individuar, no
estudo da sociedade, o critério de reiteração; isto é o que torna possível definir uma lei: o
repetir-se do fenômeno.
Marx compreende todavia, como as leis da economia não se apresentam com a mesma
regularidade das leis da natureza, mas obedecem a outros ritmos temporais, sendo relativas
a uma determinada formação social e mudam com a mudança dessa formação. Cada
formação social, pois, tem suas leis de desenvolvimento, que a caracterizam e a distinguem
das outras formações sociais.
O mérito de Marx está, justamente, em não ter procurado a lei ou as leis da evolução
social “em geral” (conforme o método dos sociólogos positivistas), mas em ter recusado a
possibilidade de estabelecer tais leis. O materialismo histórico não é uma espécie de
filosofia da história, que nos dá a chave para interpretar toda a história da sociedade. Ele é
a chave que permite indagar o caráter concreto e específico de cada formação social
particular. O que caracteriza Marx é ter individuado a base material da totalidade social,
e de ter-nos permitido sair de uma totalidade idealizada e, pois, mistificada. Isso não teria
sido possível se não tivesse individuado a interconexão entre forças produtivas e relações
de produção.

17) As relações de produção burguesa são a última forma antagônica do processo de


produção social antagônica, não no sentido de um antagonismo individual, mas de um
antagonismo que nasce das condições de existência social dos indivíduos: as forças
produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo,
as condições materiais para resolver esse antagonismo. Com esta formação social
termina, pois, a pré-história da sociedade humana.

Para Marx, o “comunismo”, ou “socialismo”, se identifica com o próprio movimento


real de emancipação, de autotransformação da classe operária e, com a classe operária,

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da humanidade. Vimos como para Marx os momentos objetivo e subjetivo na luta pela
emancipação são essenciais. Um momento não pode ser isolado do outro. Mas justamente
por isso o fim último da práxis revolucionária não pode ser uma mera conquista
econômica, nem uma simples transformação social, mas o restabelecimento da realidade
revirada, isto é, o sujeito restituído a sua função de sujeito, o produtor restituído ao
domínio do processo produtivo.
À medida que as forças produtivas se expandem e se socializam, à medida que o
processo produtivo se torna mais complexo e deve responder a uma racionalidade interna
própria, o papel do capitalista fica concluído e deve ser substituído pela inteligência e pela
capacidade técnica: o “saber social geral”, como diz Marx nos Grundisse, chegará a um
papel cada vez mais importante. Em outras palavras, o desenvolvimento das forças
produtivas cria progressivamente um processo social de produção que torna mais supérflua
a figura do capitalista.
Claro, isso implica uma expansão, em todos os níveis ,da participação democrática.
Isso também implica, além de muitas lutas, uma revolução cultural. Revolução cultural não
significa certamente aquisição de noções e de “cultura” em sentido burguês. Significa
desmistificação da consciência, capacidade de ver as relações sociais no mundo real ao
invés do mundo revirado, de ver a totalidade concreta em lugar das ideologias. Isto
significa ter adquirido uma consciência de classe. Sem essa revolução cultural, sem essa
autotransformação do sujeito, as simples mudanças econômicas e sociais não nos darão o
socialismo.

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