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CORPO DIPLOMÁTICO PORTUGUEZ

CONTENDO

OS ACTOS E RELACES POLÍTICAS E DIPLOMÁTICAS

DE PORTUGAL

COM AS DIVERSAS POTENCIAS DO MUNDO

CORPO DIPLOMÁTICO PORTIUEZ

CONTENDO

OS ACTOS 1 RELACOES POLÍTICAS E DIPLOMÁTICAS

DE PORTUGAL

COM AS DIVERSAS POTENCIAS DO MUNDO

DESDE

SECULO XYI ATÉ ÜS NOSSÜS DÍAS PUBLICADO

DE

ORDEN DA ACADEMIA REAL DAS SGIEXCNS HE LISIIOI

POR

JOSÉ DA SILVA MENDES LEAL

TOMO VI

LISBOA

TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS M HCCC. I.XXXIV

,TX

Entre os instrumentos numerosos, muitos concernentes a interesses pú-

blicos principaes ou secundarios, alguns locantes a pleitos privados, con-

tém em nao pequeña parle os volumes vi, vn e viii do Corpo Diplomático

Portuguez, já impressos, o texto das negociacoes e communicagoes en- tre a Curia Romana e o Governo de Portugal relativas ao Concilio de Tiento, acaso o acto máximo do seculo xvi e materia gravissima que terá

de ser ainda continuada no íx volume d'esta collec^áo.

As causas que determinaram o Santo Padre Paulo ma convocar

este Geral Concilio, a sua longa duracao e extrema importancia, os no-

taveis incidentes d'elle, n'uma palavra a influencia que exerceu e ficou

exercendo na Europa Catholica e particularmente n'estes reinos, pare-

ceu-nos solicitaren! mais detida e attenta apreciacáo dos respectivos docu-

mentos do que a de ordinario correspondente ao breve indiculo que a'este

logar caberia.

Por outro lado, qualquer demora em oíTerecer á curiosidade do pu-

blico estudioso tam instructivo peculio de informacoes ofliciaes como este,

já colligido, depurado e dado á estampa, seria impor ao mesmo publico

urna privacao escusada.

Por estas rasocs, e crendo assim interpretar e secundar os intuitos

e propósitos da Real Academia das Sciencias n'esta publicaclio, nos den-

dimos a reservar essa apreciado para o fim do curioso e a todos os res- peitos interessantissimo periodo, que decorre desde a Abertura solemne

d'aquella memoravel Assembléa, em i3 de Dezembro de 1545, até ao seu

Encerramenlo, em 4 de Dezembro de 1563nao contando a Bulla de

convocacao: lnitio nostri hujus Pontificatus Sf, as luctas que a precederam e controversias que se lhe seguiram.

A apreciado a que nos hemos referidoainda encerrada nos limi-

tes que na Introduccao ao v volume d'esta colleccao definimos e rigorosa- mente buscaremos guardartendo por objectivo as decisoes provenien- tes de tam elevada authoridade e com tam permanente accao como as que

d'esse Concilio resultaram, nao pode evidentemente ageitar-se a molde

cuja estreiteza a comprimiría desfigurando-a, e menos ser formulada sem

a indispensavel reflexáo e exame, assim das diversas relacSes existentes

e varias opinióes acreditadas, como dos proprios documentos agora reuni-

dos, trabalho de si incompativel com o natural afogo de urna escripta pre-

cipitada.

Accresce que estas syntheses em que ha de encarnar o espirito de feitos de tal magnitude e consequenciasonde, digamos, revivem o pen- samento e sentimento de urna grande época, só vem a ponto depois de

sufficientemente conhecidas as inspiracoes e manifestacoes d'ella. Assim pois o apuramento e necessaria glossa d'aquelles documentos

apparecerá em seu verdadeiro logar quando concluida a coordenada im-

pressáo do que ainda falta e zelosas diligencias proseguem.

Agosto 1884.

J. da Silva Mendes Leal.

CORPO DIPLOMÁTICO PORTKil'EZ

i ±mma >

RELACOES COM A CURIA ROMANA

REINADO DE EL-REI D. JOAO MI

(CONTDÍUA0O)

GORPO DIPLOMÁTICO PORTL'GLEZ

relacOes com a curia romana

Carta «l'cl-ltci a Ilaliliazar de l'aiia

i.VHí Janeiro 19

Doulor Ballliasar de Paria, en ellíev vos envío mnilo saodar: romo

vos icnho escriplo na dispensario que se expedio pera o casamento do primcipe de Gástela meo íiilio com a princesa mynlia lilha veio Imum

erro na narraliva. dos parentescos danlre ambos, e Sun Sanclidade a in-

stancia do emperador mea irmaao mandón expedvr onlra em qoe Be em- mendou lio dito erro, a <|iial esta» jaa expedida e na maño de Joliam da Veigua embaixador do emperador. E porque peía elle rol a emtregoar con-

vem dardesllie a qoe vos laa lendes qoe lie a qae estaa errada, vos en-

comendó que lanío que esta vos For dada Iba estreguéis e loguo enera-

reis dele a cmmendada que elle tem e ma enviareis pelo primeiro correo

pie vicr.

Scripta em Almeirim a xn dias do mee de Janeiro de

Rey- :

'.

154$

1 Biblioth. d'Ajuda, Corresp. orig. de Bakhazar de Faria, fol. 155.

No fundo tía

pau.: Pera o doutor Rallasar de Faria sobre a dispensaban da princesa.

TOMO VI.

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CORPO DIPLOMÁTICO PORTUGUEZ

Carta de üalthazar de Farla a el-Itei

1546Janeiro 1*

SenhorDepois das ultimas que a Vossa Alteza escrevi por Luis Brandao meu cunhado recebi hüa carta do padre frei Hyeronimo dAzam-

buja de Tranto, na qual me diz como os legados lhe perguntarao se tra-

zia procuracam de Vossa Alteza, e como elle responderá que nao : so-

mente aquella carta de crédito que lhes dera, que todavía elles lhe deziáo

ser necessaria porque o mesmo faziáo todos os outros princepes. Vossa Alteza se nisso nom tem próvido mandara prover, e com tempo porque a primeira cessao se fez a sete deste, e a2 a se fara a quinze. Frei Jorge de Santiago me escreveo de Bolonha a xxvm do passado como se hia direito a Trento ja em boa desposicao.

Aqui he vindo agora hum gentilhomem delrrey da Polonia o moco a

pedir as annatas da vacante do arcebispado de Carcovia, e d outros bis-

pados vagos do que me parece que tera ruim reposta segundo o que sentó.

Com esta cousa do concilio vai o papa muito atento, e se vao restringindo

muito as grapas, e assi a dom Antonio de Lima nom lhe querem conce-

der as igrejas que tem com o abito como pedia. Muitas novacóes dizem

que avera e que em todo caso se tiraráo os regressos.

Cada dia partem daqui perlados pera Trento. Sua Santidade manda agora parte dos cantores da sua capella e de todos os mais officiaes. Pollo

presente nom ha outra cousa de que avysar Vossa Alteza cujo real es- tado nosso Senhor conserve por muilos annos de vida a xn de Janeiro

  • 1546 Baltasar de Faria 1

.

1 Arch. Nac, Corp. Chron. Part. I, Mac. 104, Doc. 59.— Sobrescrito: A EIRei nosso Senhor.

relacoes com a curia romana

Carta d'el-Rel a üalthazar de Farla

1546Janeiro SO

Doutor Balthasar de Faria, eu ellRey vos envió muito saudar: eu

soube o que vos temdes feito nos negocios do doutor Martim dlspileneta

Navarro que vos muito agradeco. E porque eu folguarey de vos asy o fa- zcrdes daquy em diante muyto vos encomendó que asy o queirais fazer e de minha parte falléis ao cardeall de Sam Jorge que se queira concertar

com o dito doutor sobre a comenda de Santa Maria de Liumil da bor- deró de Roncavales, e que lhe daraa por pensam o que lbe moslraram por

que ela esteve arremdada militas vezes menos aquillo que tambem lhe

mostrarao que se deve a dita casa de Roncavales: e que lbe roguo muyto

que atee eu ver vosa reposta do que elle neste caso quer fazer mamde

que se nao proceda na causa contra o dito doutor, e que de o elle asy

fazer receberey prazer, e o estymarey muyto delle: a qual me vos envia- reis pello primeiro que pera caá vier pera que o dito doutor saiba o que

nisto hade fazer.

Antonyo Ferraz a fez em allmeirym axxx dias de Janeiro de 1546.

-Rey- : • \

Carta de Fr. Jorge de Santiago a el-Rel

ir» ioFeverelro 5

SenhorDespois de ter escrita esoutra carta soube como no con- cilio avia altercacam sobre o lugar que se avia de dar aos embaxadores:

e especialmente se tratava da precedencia entre o embaxador do Rei dos Romanos e do de Franca pera quando vier. Porlanto veja Vossa Alteza e proveja na instrucam que daa a seus embaxadores quanto a isto.

1 Biblioth. d'Ajuda, Corresp. orig. de Balthazar de Faria, fol. 156. Recebida a

S¿4 de Maio.

No fundo da pag. : Pera o doutor Baltasar de Faria sobre o negocio do dou-

tor Navarro.Sobrescrito: Por ellRey. Ao doutor Baltasar de Faria do seu desembarco que ora estaa por seu servieo em corte de Roma. Outra idéntica >i fol. 158.

i

GORPO DIPLOMÁTICO PÜRTÜGÜEZ

Tambera í'ni solicito pera mandar a Vossa Alloza o treslado au-

tentico de hum breve do papa en que manda contar nos cabidos os au-

sentes (pie vem ao

concibo como se fossem presentes, e acbey <pie o breve

nam fallava senara dos prelados: e todavía mandasse proveí- tambera pera os outros. Facoo saber a Vossa Alteza pera que saiba que quantos mau-

llar seram contados como presentes.

Frey Gaspar dos Reis me escroveo como deixara de vir por lbe nam

ser dado o dinhetfo que Vossa Alteza llie mandara dar. Acerca do qual

sabera como Vossa Alteza llie mandava dar 200 cruzados, a saber, os

cento de que cu tinha alvara pera Fernán Rodrigues ñas obras pias I

outros cento de que Fernán dalverez dizia ter pro visito de Vossa Altez;i os buuns e os outros Fernán dalverez me dise promeleo c certificou

que os daria ao criado do embaxador que estava en Franca, o qual Vossa

Alteza naqueles (lias avia de despachar, pera que os levasse ao padre mos-

tré frey Gaspar. Isto asi ficou assentado polo

qual me maravilhey muito

nam ser mandado o tal dinheiro. Déos nosso Senhor Vossas Altezas nos

guarde por mui muitos anuos. De Tridente aos 5 de fevereiro de 1546.

Perpetuo capellao e orador de Vossa Alteza

Frey Jorge de Santiago '.

Carta de Fr. Jorge ile Khu(íu;o a el-ltei

1546fevereiro 5

SenhorAntes de minha enfermidade de Castella e despois della

de Franca escrevi a Vossa Alteza o que ate entao avia sucidido. Despois

eu me partí de Franca aos 7 de dizembro viudo ainda mal sao, e cora muito l'rio e trabaron passey os Alpes, Piemonte, e Lombardia, e cheguey

a Rolonha a2 a octava de Natal onde soube do legado do capello do in-

flante e como a primeira sessao (despois de abeifto o concilio) era pera 7

do passado aa qual Vossa Alteza nos mandón que fezessemos o possivel

pera estar presentes. E porque ja de Avinbao soubera de huum criado de

Vossa Alteza como Simao da Veiga avia alcancado de Sua Santidade o

1 Abch. Nac, Corp. Chron., Part. I, Mac. 77, Doc. 75.— Sobrescrito: Pera elHey noso Senhor.

REDAJES COM A CURIA ROMANA

5

que Vossa Alteza quería acerea da suida inquisicam da qual era a prin-

cipal causa porque Vbssa Alteza me mandava hir a Roma, e asi por ali en Bolonha adiar novas do padre mesire frey Gerónimo dazabunija noso

companlieiro eome de volla de Roma de mandado do papa era ja pas- s.ido pera Trenlo por me parecer mais conformé a vonlade de Vossa Al-

le/a deyxey a via de Roma e partíme pera este Trideoto onde cheguey

aos i de Janeiro 2 dias antes da sessfio: e logo

día siguióte íni a vi-

sitar os cardeays presidentes do concilio que folgaram com ininlia viuda

os ipiais se ainostrain servidores de Vossa Alteza, e estudiosos de sen

nome.

Despois estove presente a primeira e 2' sessio

que se fezeram com

muila solemnidadc e aligria, aínda que nellas nam se irataram coaftas

graves creo que por ser principio e por esperar maior numero de prela- dos porque nao sao mais de cinco cardeaies, e ale 40 bispos, e tresabba-

des e cinco geraies: os bispos sao os mais do dominio do emperador en

Italia, tres de Caslella, e tres de Franca. Esta cidade he (juasi como Evora boa de mantimentos. Fsiaa entre ntanhas altas da parle do oriente e poenle de modo que saie o sol tres

horas despois que amanhece e tres oras se poe antes que anouleca. V;

junto dos muros huin rio grande ho qual leva mais auga no verao que no

enverno por causa das neves que se

derretem. Haa daqui a Roma 110

legoas, 30 a Veneza, c 40 a Millao: ametade da cidade he povoada de

italianos e a outra de tudescos.

No sacro concilio he mui celebrado o nome de Vossa Alteza, porque

haa cuidado de o manifestar, e tambem pollas cartas de Vossa Alteza es-

critas ao papa c concilio que qua sao mui estimadas e o latin tambem.

Haa grande esperanza que Vossa Alteza mandara pessoas que honrem e

ajudem o concilio, e quanto mais cedo chegarem tanto maior sera qua o

contentamente e honra de Vossa Alteza. As cousas tratadas ate agora sao de tam pouca emportancia que me

parecco escusado mándalas a Vossa Alteza ajuntandosse tambem eu ate o presente nunqua aver estado bem sao pollo qual tambem nam pode

ainda visitar todos estes senhores prelados mas o mais cedo que me for

possivel o farey mui compridamenle conforme ao mandado de Vossa Al-

teza. Aos geraies de Sao Francisco e Santo Augustinho doy as cartas de

Vossa Alteza: sao oradores de Vossa Alteza,.

Nam posso deixar de lembrar a Vossa Alteza o negocio de Santa

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CORPO DIPLOMÁTICO PORTUGUEZ

Justa pera o noso convento de donde se espera tanto fructu com tamanha

nosa consolagao, e tudo pera servico de Vossa Alteza.

Minhas enfermidades forám grandes e nam me hao deixado de todo

maas disposic5es, mas eu as dou por bem em pregadas pois sao en ser-

vico de nosso Senhor e de Vossa Alteza. E ja que asi avia de ser muilo

acertei en trazer Aleixo de Figueiredo (o do thesouro) e Vossa Alteza en lhe dar pera iso licenca me fez grandissima merce porque me tem muito descanssado. Nam quero mais enfadar Vossa Alteza com carta mal escrita e no-

tada. Déos noso Senhor Vossa Alteza, principe, e Rainha nosa senhora.

com o estado real nos conserve por muitos e prósperos annos pera bem e honra de noso Reino. De Tridento de 1546 a cinco de fevereiro.

Estamos apousentados no noso mosteiro, onde tambem apousenta- ram 2 padres de Castella en que temos boa companhia.

A3 a sessáo foy assinada pera quinta feira despois da dominga Le-

tare que sera aos 8 de abril pera entretanto podeiem vir os que estao en

caminho ou prestes pera iso. A5 de fevereiro de 1546.

Perpetuo capellao e orador de Vossa Alteza

tiago l

.

Freí Jorge de San-

Carta de Fr. Jeroiiymo fie tzambuja a el-Rei

lOFevereiro 5

SenhorSao os portadores por que homem escreve táo pouquos

e táo incertos que sua incerteza me faz escrever mais vezes do que con-

vinha e as mesmas cousas : por isso Vossa Alteza nom se espante nem me

tenha por atrevido. Oje 4 de fevereiro foi a3 a sessao do concilio e nella

nom se fez outra cousa senao leer o símbolo da fe do concilio Niceno

e aprovallo, e assinar a 4 a

sessao pera a coresma, a saber, a oito d abril

dia de Sao Ambrosio. Esta cousa vai ate agora muito de vagar dizem

que o fazein por esperaar os outros prelados que hao de vir e nom pa-

1 Arch. Nac, Corp. Ghron. Pan. I, Mac. 77, Doc. 77.

noso Senhor.

Sobrescrito: Pera eIRey

RELACOES COM A CURIA 110MANA

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rece isto muito J'or.i de rezno.

concilio vai ategora mui frió aquenieo

noso Senhor. Agora quereoo comecar a dispalar os artigoe <!<>s Inicíanos e pera isto fizeram Ires ordens com cada legado: asin&o a 3* parle dos bispos e letrados pera que particularmente em tres logares se dispute boa

mesma cousa c dali vaa praticada. Pera as congregacoes geraics dos lu-

teranos vireni nom lia nenhüa esperanza parece me (|ue sem elles se faraa

a festa. Nos ategora nom fomos chamados nem pera consultar nem pera

determinar, nem menos outros letrados. Nom sei se da(jui avante se faraa

asi ainda que dizem que pera estas disputas (pie diante de, cada presi-

dente se hao de fazer nos cliamaráo e nom sendo asi, viudo

enbaixador

ou prelados Vossa Alteza nos avia de mandar ir porque caá nom fazemo.-

nada senao gastar o de Vossa Alteza. A mim me disse o principal presidente que he o cardeal de Monte que o concilio respondía a carta de Vossa Alteza: tanto que nosderem a

reposta lha mandaremos. E táobem nos disse (pie escreveria ao papa

pera que os conegos ou curas ou letrados que ao concilio viessem l'ossem contados em suas igrejas: o mais cedo que pódennos aver disto certeza a mandaremos a Vossa Alteza porque se quizer mandar alguns letrados nom aja recco de perderem seus réditos.

Vossa Alteza na carta que ao concilio escreve e asi na inslrucao

promete que mandaraa seus prelados. Vossa Alteza os mande o mais cedo

que poder. E Vossa Alteza mandaraa pessoas que caá honrrem a nacao.

E Vossa Alteza se os revolver achanta alguns letrados, e que caá saibao mostraar o que valem. Tem Porto e Coimbra, e ambos os bispos Pinhei-

ros, Sánelo Thome e Sanctos, e o arcebispo do

Funchal, que todos sao

pera caá poderem falaar sem medo. E se alguns alegaren» pobreza como caá dáo por escusa alguns que se mandáo escusar, Vossa Alteza pode fa-

zer que os que ficao fagao a custa aos que vierem, pois por sua honrra e do reino trabalhao. E Vossa Alteza nom me tenha por atrevido de lhe lem-

braar isso porque certo o nom fago senao com o muito desejo que tenho

de servir Vossa Alteza e por honrra da nacáo.

E quanto ao que Vossa Alteza nos encomendou que trabalhasse-

mos que a nacao portuguesa estivesse per si, eu antes da vinda do pa-

dre freí Jorge escrevi a Vossa Alteza como este concilio nom hia dividido em nacoes e me disseráo os presidentes e asi he, que soo o concilio de

Basilea fora desta maneira e elles proceden) ao modo dos antigos: e po-

rem que quando o parecer das nacoes ouvese de ser tomado ou ellas

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COP.PO DIPLOMÁTICO PORTÜGUEZ

chamadas chamariam a nosa per si. Taobem escrevi a Vossa Alloza

como nos nom quizeráo receber por seos procuradores porquanto pera

isso era neccessaria procuracao abastante : o lugar que nos dáo he apol os

geraies das ordene lugar bem honrrado. e elles todos se moslram servi-

dores de Vossa Alteza. A mim parece me que Vossa Alteza avia descrever

ao cardeal de Tiento, que he pessoa mui nobre e de que se faz muita. conla, e elle nos moslra muito gasalhado. Jaa laa saberaa quam apregoa-

das andáo suas cartas pelo mundo. Quanto a nosa provisao bem ve Vossa Alteza que nos nom avernos

sempre de manter com o que trouxemos, e as cousas -vallem muito caras

caá e certo que gastamos com maita provisao e consciencia tanla que as vezes he tacha. E de mim sei dizer que vim de Roma em cávalos aluga-

dos porque ambalas bestas que trouxe me fallarao no caminho e ategora nom merquei besta porque se a comprara nom tivera que comer. Taobem

me adoeceo hum cunhado meu que trouxe em Tolosa quando vinha e

foi necessario tomar hum moco e ate oje o tenho doente de febres. Digo

isto porque Vossa Alteza nom me deu mais de hum que viesse comiguo e

eu nom escuso dous. Vossa Alteza o baja por bem pois ve a necessidade

e se Ihe parecer bem me mande daar com que compre hila mulla pera

mim ao menos porque algüas vezes seraa necessario acompanhar hum pre-

lado e meu companheiro lem hüa c dous de cavallo por isso nom me pa- rece injusto que Vossa Alteza me manuasse dar hüa besta, c taobem por-

que ja pode ser que

se mude o concilio pera o qual seraa boa provisao ter

hüa besta ao menos, e Vossa Alteza crea que isso e mais lhe forramos com

estaar no mosleiro e nom pagar alugucr de casa. Taobem nos mande daar

alguns livros pera estudar, que caá sao necessarios, e nos nom nos pode-

mos trazer.

Se Vossa Alteza quizer saber a ordem do concilio he esta:

ítem. Primeiro se celebra missa do Spiritu Sancto nos dias das ses- soes e depois da missa se canta o salmo Quam dilecta tabernacula. De-

pois diz o diachono Orate, e assentaose todos em giolhos ou prostados

nos banchos, e dizem Pater noster, e depois torna a dizer o mesmo dia-

chono Surgite, e diz o sacerdote hüa oragao. Depois cantao os cantores

Exaudí me domine quam benigna est. Depois torna o diachono a dizer

Orate, e tornao a orar todos prostados, e depois Surgite como primeiro

com hüa oracáo. Depois disto se canta a ladainha toda e chegando a Ut

ecclesiam tuam regere se levanta o sacerdote o qual com lodos esta pros-

RELACES com a CURIA ROMANA

9

tado em quanto se diz a ladainha pelos cantores, e elle levantado diz Ut

hanc sanclam sinodum rcgcre et iluminare digneris, isto tres vezes. Depois

da ladainha se levantao todos e diz o sacerdote Oremus e o diachono depois diz Flectamus genua e diz o sacerdote sua oracáo. Depois toma

o diachono

a bencao e diz hum evangelho. O da primeira foi Designavit

Dominus, o da segunda me nom lembra, o desta Ascendens Jezus in na-

viculam. O ultimo cantao os cantores Veni creator spirilus e diz o sacerdote

hüa oracáo do spiritu sancto e depois o diachono Benedicamus Domino.

Nos noso Senhor seja louvado estamos bem ainda que o padre

frei Jorge ategora andou ainda hum pouquo mal desposto ainda reliquias

de sua doenca e eu ando como sempre, e fazem me os frios muito mal ao peito. Noso Senhor conserve o estado de Vossa Alteza a seu sancto servico. Deste Trento cinquo de fevereiro de 1546.

ítem. Todo o tempo que ha entre sessao e sessao se fazem os mais dos

días congregacoes em hum pago dos legados, e ali consultáo as cousas que

bao de ser publicadas ñas sessOes as quaes se fazem na igreja maior onde pera isso esta deputado lugar.

Servidor de Vossa Alteza Frei Hicronimo dazambuja 1

.

Carta tic Luiz Lippomano a el-Rcl

1540 Fevereiro IO

SerenissimaMaestaFinalmente quando ha piacciuto al Signorelddio

sonó condotto sano in questa Citta, ove ho rilrovata Sua Santila et tutti questi mei Reverendissimi padroni in buona dispositione. Son tutti oceupati

nella materia del sacro Concilio: piaccia alia maesta di Dio concederci

gratia che prosequisca in verita et inocentia come pare sia principiato,

che non sera senon a grandissimo beneficio di tutta la Christianita. Per camino hebbi la nova della dignissima promotione del Serenis-

simo Signore Infante al Cardinalato, la quale mi fu di somma consolatione

per molti rispetti, ma principalmente per honorc di questa santa sede, di che ne ringratio sommamente il Signore Dio, et mi congratulo con tutto il

1 Arch. Nac, Corp. Chron. noso Senhor.

Part.

I, M,iq. 77, Doc. 76. Sobrescrito: Aa elRei

10

GORPO DIPLOMÁTICO PORTÜGUEZ

cuore con Vostra Alteza et la Serenissima Regina mia dignissima Signora.

Piaccia a Dio che lo ha assonto a tal grado, mi dia gratia di vederlo,

dapoi li felicissimi anni di Sua Santita, assumere anchora al supremo,

come merita la ottima vita di Sua Alteza.

Sua Santita primamente, poi tutti questi Illustrissimi Signori mi hanno

dimandato molto particularmente di Vostra Serenissima Maesta, et come

passano costi le cose della Sede Apostólica. Credo quella per altra via

intendera gli buoni officii

che per me sonó stati fatti,

et sonó per fare

sinche io vivero, perche cosi fare mi detta la coscienza et la verita, il che

non farei quando fussi altrimenti. Pero non ne parlero hora piu seco, ri-

portandomi ad altri servitori de Vostra Alteza, che gli ne faranno fede.

Sua Beatitudine non ha sinhora determinato al tro delta mia persona,

ma in qualunche loco Dio mi collochera, Vostra Maesta hada pensare di havere un fedele et amorevolissimo servo. Et per non la fasliddire piu gli

baccio la sacralissima mano con quella della Serenissima Regina, mia Si-

gnora, lo che fa anchora il Vescovo di Verona mió fratello affettionatis-

simo servo anchora egli di Vostra Alteza per le rare virlu sue, et per le

grandi cortesie che ella ha fatte a me, quando era nel suo Regno, delle

quali mai ne potremo scordare. II Signor Dio conservi Vostra Alteza, la

Serenissima Regina, et rillustrissimo Principe sani et felici a longhissimi

anni, e quel che miglior e, sempre in sua santa gratia.

Di Roma il giorno X di Febraro del m. d. xlvi. Di Vostra Serenitahumile servo Aloyse Lipomano, Coadjutore

di Verona

1

.

Carta de Oalthazar de Faria a el-Rci

1540Fevereiro 16

Senhor Simáo da Veiga veo aqui ter comigo a tres deste e por

lhe eu ter mandado as cartas de Vossa Alteza o domingo airas polla via

de Ñapóles, mandou logo por elas pera ver o que lhe mandava que fizese

e entre tamto que vinha ja que aqui era nos pareceo a prepósito falar a

alguns cardeaes nesta materia da imquisicao, e que Siman da Veiga mos-

1 Arch. Nac, Corp. Chron. Pan. I, Mac

..

simo Re de Por. mió Signore.

77, Doc. 79.

Sobrescrito: Al Serenis-

RELACÜES COM A CURIA ROMANA

1i

trase de saqucixar era se nam ter comcedido ludo o que Vossa Alteza

em sua carta pedia, como s avia dado emtencam.

Falamos ao cardeal S. Frol, o qual como desejoso de servir s alar-

gou mais sempre nesla materia e asi agora nos tornou a dezer o mesmo que tinha escrito, que viudo a imformacam de Monte Pulchano, csperava que Sua Sanlidade deixaria tudo em maos de Vossa Alteza, porque asi lho promelera em presenca de Farnes, Crecemcis, e Ardingelo. E (pie

replicara nislo da cmformacam polas razoes que lhe pera iso deramos, mas que o papa ultimadamcnte se resolverá nislo.

Kalamos o mesmo dia ao cardeal Crecemcio, o qual se nos mostrou

mais difícil porque depois que se esquemlou a pralica com rcpricas de parte

a parte e llie dizcrmos o que nos emtam acabava de dizer Santa Frol que

pasara co papa em sua presemca, nos disc que se nam lembrava disso,

mas que antes ele nam era de parecer que Sua Santidade revogase o de- cenio que a pelicam de Vossa Alteza fora concedido, especialmente fi-

camdo dele taño pouco lempo. E que o emperador tomara exemplo do que

Vossa Alleza emlam lizera e que asi agora pedia ao papa outro decenio

dentro do qual se nam comliscasem os bens dos comdenados pola imqui- sicam nos reinos de Granada e Valenca, e que co este aditamento lhe ti- nha agora pasado hum breve. E tras isto comecou a emearecer a graca que

o papa fizera em revogar o breve suspensivo sem esperar mais emforma- cam e que isto era em efeito