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Dedico este livro a todos os loucos e injuriados com a falsidade da religião

Adryel, se um dia ler isso, saiba que seu pai te ama e te contarei todas as histórias que quiser ouvir, sei que em muitas posso te decepcionar meu filho, mas isso faz parte daquilo no que eu me tornei um dia, só podemos pregar a liberdade sendo livres, todo o resto é um jugo desigual, a minha intenção em escrever este livro é simplesmente para que eu nunca me esqueça de onde eu vim e para onde eu vou, hoje continuo tendo dificuldades na minha vida, o que mudou foi a maneira de como enfrentá-las.

Gisele, obrigado por me aceitar como eu sou,mesmo tendo todas as minhas falhas você é uma mulher virtuosa, sou um homem muito feliz por ter uma pessoa tão especial ao meu lado, saiba que te amo.

Também quero agradecer ao meu pai, a minha mãe e aos meus irmãos e parentes por estarem sempre tão presentes nos momentos em que nunca ficaram sabendo o que houve.

Capítulo I

Nunca gostei de ler, pelo menos é o que eu pensava até os meus 24 anos. Sempre tive boa leitura graças às revistas em quadrinhos e artigos do gênero. O fato é que um dia eu li um livro e quando isso aconteceu houve uma alteração sistemática na equação da minha vida. No mundo de Sofia, fui obrigado a atravessar as sombras da caverna e os meus olhos que nunca haviam visto nada e minha mente atrofiada começava a perceber que eu sou uma anomalia em um mundo assimétrico e sem sentido. Minha busca por entender o significado da vida passou para um plano mais elevado, comecei então a devorar todo tipo de literatura, principalmente sobre filosofia, e quanto mais eu lia, mais longe de um significado eu me encontrava.

Alguns anos de minha vida passaram tão rápido quanto o efeito das drogas que eu usava. Só então descobri que o segredo não estava nas respostas e sim nas perguntas, mas não é qualquer pergunta, tem que ser a pergunta certa, porque é a pergunta que nos motiva.

Qual é a pergunta?

A mulher anula a existência do homem’, já dizia um grande amigo meu e, na busca desesperada de anular a minha existência, as drogas como o crack tiveram uma participação cinzenta na minha vida.

Finalmente cheguei ao ápice do desespero. Por não ter mais nenhuma escolha tive que pedir ajuda clínica para amenizar os impactos de minhas ações. Isso aconteceu quando pedi a minha mãe para me internar em algum lugar e, logo após uma semana de espera, parti para uma clínica no centro de Curitiba. Embora eu tenha tido uma estadia curta de 33 dias, tive tempo suficiente para reconhecer que eu não estava louco, muito embora estivesse

dentro de uma clínica psiquiátrica e meus colegas de quarto me chamassem de louco.

Isso foi um mero detalhe comparado com os eventos que se seguiram.

Após sair do internamento permaneci seis meses utilizando apenas cigarro comum e nada mais. Nesta época bradava à todos o poder que eu tinha sobre este mundo e sobre as drogas, me glorificava e me exaltava como um herege dos mais profanos, um verdadeiro ímpio.

Algumas poucas pessoas por algum motivo me aguentavam.

Acho que a minha relutância em querer mudar este mundo fez com que eu permanecesse doze anos para completar o 2º grau, acho que deve ter sido um recorde para o bom e velho Szymansky. Mas isso foi de grande ajuda, pois os poucos amigos que descobri ter, eram exatamente aqueles eu não dava lá muita moral. Nesse tempo de 2° grau, conheci o Samuel, um maluco cabeludo e barbudo que parecia um farrapo de gente e sempre andava todo de preto e, ainda por cima, tinha uma ideia muito mais louca que as minhas, coisa rara de se encontrar nos dias de hoje.

Diante dos acontecimentos vim a descobrir posteriormente que ele era crente, e, meu Deus, como eu escarnecia com ele, acho que era o único que me entendia.

Mas a história com o Samuel fica um pouco mais a frente. Antes disso, nos meu seis meses de abstinência, estava às vésperas de completar 26 anos, mais exatamente no dia 22 de maio de 2003, quando meu psiquiatra me chamou para uma consulta de emergência, e na maior tranquilidade ao ir até o consultório, este me disse que os meus exames para HIV tinham dado positivo. Bom, nem preciso mencionar que a minha vontade de morrer era mais do que imediata e todas minhas forças foram usadas em momentos de profunda internação com drogas.

Agora com a recaída tudo se tornou pior, e finalmente me dei conta de

que eu tinha mesmo que morrer. Só que tirar a própria vida não é algo fácil e por isso esperava ansioso por uma overdose que nunca chegava, foi quando minha amada mãezinha viajou e eu completamente sozinho acabei com tudo o que tinha dentro de casa, quando ela voltou, ainda me perguntou: Filho, saí você, ou saio eu? È claro que eu saí.

Como eu não tinha mais jeito mesmo, alguns membros da minha família financiaram a minha passagem para Rondônia onde estavam meu pai e meu irmão mais novo, o André, grande sujeito e alguém que eu admiro muito. Estava ansioso por voltar ao lugar aonde tinha passado minha rica infância, só que ao chegar não recebi nenhum caminhão de boas vindas, apenas meu velho pai com a parte dele do acontecido.

Viajei por 44 horas dentro de um ônibus para chegar tão longe, a morte que eu tanto procurava não estava lá, e foi uma questão de dias até me incomodar de novo. Lá não tinha crack, mas tinha um pó nervoso que me deixava mais nervoso, mas, pelo menos, eu conseguia me controlar.

Descobri que o meu irmão, embora fosse à Igreja, estava tão enfadado quanto eu. Foi quando ele começou a planejar um roteiro para visitarmos um tio nosso no Mato Grosso. Passei então três meses, em JI - Paraná, até que eu e meu irmão cansamos de planejar e finalmente executamos o princípio do fim da minha existência.

Escrevemos uma carta ao nosso pai e colocamos na geladeira. Fomos com apenas R$ 50,00.

Eu com uma mochila e um

tubão na mão e meu irmão com uma

mochila e alguns miojos nas costas começamos a caminhar.

Saímos por volta de umas 09h00min da noite e em pouco tempo estávamos na BR. Você pode não acreditar, mas bastou por a mochila nas costas e as pessoas que estavam ao nosso redor começaram a nos olhar diferente, parecia que estávamos cagados, mas não era isso, era porque não éramos mais pessoas deste mundo e sim andarilhos, maltrapilhos, ou

melhor, mendigos.

Na hora em que começamos a sair da cidade tudo escureceu ficando para trás apenas a lembrança de um mundo vazio e obsoleto. Eu e o André estávamos extasiados pela nossa coragem, finalmente estávamos fazendo alguma coisa diferente nesta vida.

Estávamos agora andando na BR 364 no meio do que restou da Floresta Amazônica naquela região. Caminhamos uns 8 km até começarmos a pedir carona, e não é que um maluco com uma caminhonete parou no meio da noite! Saímos correndo, mas ao chegarmos perto acho que o cara se assustou e arrancou, e nós xingamos até a última geração dele.

Há muitos anos não via um céu tão estrelado como aquele que vi quando chegamos ao único posto de gasolina daquela região. Não pensamos duas vezes, é aqui que vamos dormir. Lembro-me que meu irmão levou uma rede e eu apenas um lençol, lá a temperatura média é na casa dos 30º C, mas à noite refresca e, pra nossa ‘sorte’, nessa noite o tempo fechou e um verdadeiro dilúvio veio abaixo. Choveu à noite inteira, mas como ainda estávamos no começo da viagem com o orgulho inflamado, jamais voltaríamos. E como foi longa aquela noite fria num lugar tão quente!

Assim que clareou o dia, já estávamos de pé e com a barriga vazia. Foi a primeira vez que nos deparamos com o olhar caridoso da humanidade para aqueles que não tem tanta sorte assim na vida. Pegamos a minha garrafa que outrora estivera cheia de pinga e a enchemos de água, nosso único alimento e ainda com uma pequena garoa saímos do posto e continuamos a caminhada. Na placa que indicava 500 m do posto, desabou água de novo e agora não tínhamos para onde correr, tudo o que fizemos foi pôr um saco plástico na cabeça e andar, andar e andar.

Alguns quilômetros à frente, a chuva finalmente parou e nós achamos o café da manhã, um pé de caju do outro lado da rodovia e, como era longe pra atravessar essa rodovia! Mas a fome era grande também e logo

estávamos nos servindo da natureza. Com a barriga cheia, como diz um amigo meu, dá pra caminhar até o inferno, e como estávamos tendo uma vida mais saudável, não parávamos de ver o quanto este mundo é grande. Foi quando finalmente a nossa sorte mudou. Já cansados de pedir carona, um louco parou e dessa vez ele esperou até que nós chegássemos ao caminhão, aonde ele gentilmente nos levou até a cidade de Presidente Médici que ficava há uns 20 km à frente.

Como foi rápido! E logo estávamos debaixo de um céu escuro às 8 horas da manhã com uma dúvida: será que continuamos ou paramos e esperamos a chuva passar?

Como já estávamos ensopados, optamos por continuar e, ai sim, o desespero bateu. Uma chuva torrencial nos acompanhou pelos próximos 30 km que caminhamos e detalhe, tudo isso só com os saborosos cajus que tínhamos comido pela manhã.

Nada mais importava tudo o que nós queríamos era sair dali. Eu não entendia porque aqueles bois ficavam me olhando tanto, como é que eles podiam ficar prestando atenção em mim. Nossas forças estavam acabando quando o André lembrou que iria passar um ônibus de linha naquele horário, ele sabia disso porque ele trabalhava na empresa de ônibus como cobrador e, num é que ele tava certo! De repente entramos no ônibus e tudo se transformou novamente. Os olhares permaneciam os mesmos, mas poder sentar numa poltrona reclinável em meio aos calos e a roupa molhada parecia realmente ser algo muito bom.

Seguimos até a cidade de Cacoal pagando apenas R$6, 00, realmente uma pechincha, tendo em vista tudo o que foi caminhado. Essa foi à primeira vez em que voltamos à chamada civilização e ai o desjejum rolou com pão, mortadela e uma tubaína para descer macio.

Saímos daquele mercadinho com alguns índios nativos daquela região olhando curiosamente para nós. Descemos até um posto de gasolina na

beira da rodovia e lá tiramos tudo o que estava molhado. Por um milagre, depois que pegamos o ônibus, a chuva parou e nesse posto descansamos e também nos reabastecemos com ânimo para continuar.

Caia à tarde do primeiro dia e lá estávamos nós, completamente exaustos em uma pequena aldeia que fica à margem da rodovia comprando arroz e nos preparando para passar a noite. Sentamos próximos a uma lombada e dali só ia sair para dormir. Eu já nem ficava mais de pé para pedir carona, ficava sentando mesmo, só esticava o dedão e, num é que deu certo de novo! Um cidadão num Fiat 147 parou e nos deu carona por mais 60 km, nos levando até a cidade de Pimenta Bueno. Agora com certeza nós íamos descansar. Paramos em um posto que tivesse um mínimo de infra-estrutura e algumas churrasqueiras para os motoristas, também um belo pé de mamão verde que serviu de mistura para o arroz que fizemos, na verdade foi um dos melhores que eu comi até hoje.

Mas algo nos incomodava e, como estávamos perto da cidade, decidimos continuar e logo que saímos do posto uma pampa, parou, e nos ofereceu carona até a cidade. Entramos e logo estávamos vagando em mais uma cidade, só que era noite e já estávamos com a barriga cheia, era só dormir.

Atravessamos a cidade e fomos dormir em uma borracharia na saída da cidade. A essas alturas, eu tinha pegado um papelão, e descobri que ele é um isolante térmico e não deixa o chão tão duro. Já o André estava bem acomodado, com uma rede de dormir trançada. Enquanto a gente tentava dormir em meio aos pernilongos que estavam por ali, no meio da noite apareceu outro cara mais bêbado que o normal pedindo pra gente sair fora dali. Era só o que faltava! Mas a gente trocou uma ideia com ele e o convencemos a sair fora. Ainda bem que ele se mandou.

e

caminhar parece ser a única coisa importante na vida. Levantamos o

Quando se dorme na rua você não

a hora de clarear

o dia,

acampamento e, como comer é um luxo, ficamos somente com a caminhada, andamos mais ou menos uns cinco quilômetros até acabar todo o tipo de civilização. Já estava sentindo até medo de entrar estrada afora quando, finalmente, a sorte muda mais uma vez e um gentil senhor em um possante Mercedes 1313, nos levou até Vilhena que fica a 170 km de distância. Os próximos quilômetros foram tão velozes dentro do caminhão que, apenas duas horas nos bastaram para chegar lá, no meio do caminho ele ainda insistiu em querer nos pagar um salgado e um café em um posto, mas como ainda tínhamos muito orgulho dentro de nós, recusamos tolamente esta oferta e, por termos ainda algum dinheiro, pagamos nosso desjejum. O interessante de uma jornada como esta é saber que algumas pessoas ainda têm interesse em ajudar o próximo.

Ao descermos do caminhão em Vilhena, estávamos mais uma vez dentro de uma cidade e, aquele olhar acolhedor das pessoas que nos

circundavam nos motivava a sair dela. Para quem não conhece, esta cidade

é toda plana e tínhamos pela frente uma longa jornada.

Quando olhávamos pela estrada em linha reta só enxergávamos o vapor saindo do asfalto. Pelo menos água ninguém nega e isso já era o

suficiente. A tarde caía e já estávamos próximos ao limite interestadual, ali havia um posto fiscal e uma fome animal, como já conhecia o caminho, sabíamos que não dava para continuar à noite. O jeito foi parar neste posto

e pedir uma ajudinha, um fiscal que nos observava atentamente me chama e

eu logo vou conversar com ele, e com a sua ajuda garantimos um fogão para preparar um macarrão instantâneo. Nosso cansaço era tanto que queríamos subir escondido em cima de um caminhão e acordar aonde parasse, mas como faltou oportunidade passamos a noite ali mesmo.

No clarear do dia ainda tentamos pegar carona, mas o tal do caminhoneiro é mesmo um tipo de pessoa que não se comove facilmente. Resolvemos então caminhar, mas agora tínhamos um pequeno problema a

seguir, a divisa do Mato-Grosso com Rondônia estava a poucos quilômetros com mata fechada dos dois lados da rodovia e, a próxima cidade ficava a uns 200 km. Se ninguém desse carona para nós, teríamos que dormir na mata. O problema é que nas matas de lá ainda existem animais nativos como, por exemplo, as onças pintadas e umas cobrinhas tipo sucuris, que chegam a medir alguns metros, mas não são venenosas; tem outros menores, porém fatais, tipo as corais, surucucus e, não podemos nos esquecer também das aranhas e formigas gigantes.

Mas como não tínhamos opção e, ficar naquele posto fiscal estava entediante, começamos a caminhar rumo ao inexplorado, pelo menos pra nós. Este dia era um domingo de sol muito reluzente e aquelas retas pareciam não ter fim nunca, de repente ganhamos companhia, algumas Araras Azuis começaram a nos seguir até chegar à divisa de Estado. A divisa é apenas uma placa que demarca o limite. Eu comecei a pirar, pisava de um lado e estava no Mato-Grosso, pisava do outro voltava para Rondônia e ali fiquei viajando sozinho na maionese.

Por volta de umas 9 horas da manhã, já estávamos muito cansados e não podíamos parar em meio à grande quantidade de mosquitos devido à mata fechada. Ainda bem que tinha sombra, mas mesmo assim era desesperador, nessa hora você acorda e percebe que não está sonhado, o

nada aparece e tudo o que importa é um minuto de misericórdia de alguém,

sempre que o desespero batia, adivinhe!! É

A Matrix responde.

Um casal que dirigia uma pampinha vermelha, jamais esquecerei da cor, pára ao nosso pedido de carona, infelizmente ele não foi muito longe, apenas uns 40 km à frente. Ele ainda se deu ao trabalho de nos limpar uma parte da carroceria para que pudéssemos seguir com eles. Como era bom poder descansar e, o que era melhor ainda, ele nos tirou da mata fechada para o serrado que começava a aparecer lentamente.

O casal ainda nos fez um favor de nos deixar na frente de um posto de

gasolina abandonado e de um ponto de ônibus, agradecemos a carona e eles seguiram para dentro da mata por uma estrada de chão. Nós ficamos imaginando se conseguiríamos ganhar mais uma carona enquanto eu enrolava um baseado, meu irmão ficava de cara, mas eu não me importava, nós estávamos ferrados, não dava nada aliviar a mente um pouco.

Lembro que quando fui acender o baseadinho, o André pedia insistentemente carona, era uma descida de uns 500 m e havia uma ponte que passava sobre um rio, a gente já estava planejando pescar o nosso almoço, quando um maluco num caminhão, passou fazendo uns sinais estranhos. Eu não entendi, pois já estava chapadinho, mas o André entendeu, e falou:

André: -Corre, corre, corre que o cara vai dá carona.

Adriano: -Vai nada, tu ta se alugando cara.

Eu falei que ele estava viajando porque o cara passou chutado, mas logo depois da ponte o doido parou mesmo, e pernas pra que te quero! Eu esperava que ele não arrancasse quando a gente chegasse perto. Minhas pernas doíam, mas correr não era problema nessa hora. Já chegamos com toda a nossa educação, perguntando ao bondoso caminhoneiro para aonde ele iria e ele nos responde que vai até Comodoro, a próxima cidade naquela estrada e para quem estava a pé, era muito, mas muito longe mesmo.

O cara nos deixou no trevo da cidade e já era hora do almoço, e uma longa descida nos aguardava e como a gente tava jejuando, para que comer? Continuamos caminhando e a fome nos acompanhando. Em um momento, chegamos a uma casa na beira da estrada e ali aconteceu à primeira falha daquilo que se pode chamar de anomalia. Naquela humilde casa fomos pedir água, e eu olhava para dentro da casa e via sobre a mesa

um enorme prato de comida e ao fundo um canteiro de alface, como não tive coragem de pedir um prato de comida, pedi um pouco de alface na esperança de que me oferecessem a comida. Meu Deus, como eu era orgulhoso, até hoje me pergunto por que não fiz tal pedido, mas o dono da casa nos forneceu a água que pedimos e a alface.

Enquanto voltávamos para a estrada, eu ia comendo a alface pura, não tinha gosto de nada, mas pelo menos estava comendo alguma coisa. O André sempre me surpreende e puxa um saquinho de sal e disse que com sal a alface era melhor, e era mesmo.

Nosso dia já não estava tão ruim, pois em apenas uma manhã já tínhamos pegado duas caronas e agora estávamos a pelo menos 600 km de Cuiabá e um cara que transportava adubo para e nos dá carona por mais uns 50 km. Nós dois parecíamos crianças em cima da caminhonete. Mas foi na hora em que a gente desceu dessa caminhonete que começou a cair à ficha.

A gente estava à beira de descer a nossa primeira serra, a chamada serra dos macacos, e ali foi que tudo começou a fazer sentido. A fome, quando ataca deixa os sentidos mais apurados e caminhar na descida é pior do que na subida. Meu estômago estava só com aquela alface e na descida dessa serra não dava para sair do acostamento, para baixo só precipício.

Eu finalmente atingi o ápice da liberdade e comecei a gritar, e quando gritava escutava ao longe o meu eco, meu irmão perguntou se eu estava louco ao que eu lhe respondi que sim, e continuei a gritar e o grito aliviava a dor da minha existência. Mas o André ainda não tinha entendido que não importava gritar, já que não tinha ninguém ali para escutar e que eu podia fazer o que eu queria.

Logo ele entendeu isso e também começou a berrar, foi muito massa isso. Após muitos anos, começava a me sentir perto do meu irmão de verdade e como eu não acreditava em milagres, pela primeira vez

comecei pensar que talvez isso pudesse acontecer, porque a princípio só eu via uma das cenas mais loucas da minha vida. Dois pés de mamão, e quase todos maduros, falei para o André ver, mas ele demorou até enxergar e, quando viu, sorriu muito.

Quando a gente chegou próximo do pé, começamos balançar para derrubar os mamões, e uma coisa muito estranha acontece, embora os mamões estivessem maduros, só caia os verdes e os pés deviam ter uns 4 m de altura, não dava para subir e a fome nos aplacava. Foi quando nos lembramos das faquinhas de serra, destas de mesa mesmo, e começamos a empreitar para derrubar os pés.

Até que não foi difícil, porque os pés de mamão são ocos e seu caule macio e ainda gritamos: madeiraaaaaaaaaaaaaaa, e depois comidaaaaaaaaaaaaa.

Isso devia ser umas 3 horas da tarde e, finalmente comemos algo neste dia, mas ainda tínhamos um grande problema pela frente, o próximo ponto de civilização estava há uns 300 km de distância e em apenas 3 horas o sol iria se pôr, a serra já estava ficando para trás e o firme propósito de caminhar sem parar ou os ataques de mosquito. Confesso que estava batendo um desespero em mim porque aqueles problemas com animais peçonhentos nunca deixaram de existir.

Este foi um dia de minha vida em que tive a sensação de ter durado alguns anos pelo tanto de coisas que fizemos e de como anulamos a nossa existência, enquanto seres consumistas e capitalistas.

Nessas alturas da estrada, já começamos a imaginar como fazer para passar a noite. Teríamos que encontrar um lugar que nos protegesse do sereno e também para fazer uma fogueira; difícil encontrar tal lugar no serrado brasileiro. A tarde já se findava e ao longo da rodovia avistávamos uma das intermináveis retas na qual meu irmão em ato de fé e coragem profere sua maior profecia.

- Antes de chegarmos ao fim desta reta, em nome de Jesus, vamos pegar uma carona.

Eu já estava zoando com a cara dele e como só tínhamos os dedos de garantia para tal ato, não parávamos de pedir carona, era como se estivéssemos nadando na beira da praia, aquele pôr do sol está cravado na minha mente como uma das paisagens mais lindas da minha vida.

O André como sempre ia à frente, meu estado de saúde deteriorado não me permitia ir muito rápido e usava da malandragem de ficar no vácuo do André, pois a resistência do ar nele aliviava o meu fardo. Eu me partia de rir

Nestas tantas, um anjo desce do céu e vem dirigindo um caminhão, um truck para ser mais exato, e para a alguns metros à nossa frente e corremos com toda a nossa força. Quem em sã consciência na boca da noite para e dá carona para dois maltrapilhos? Eu não sabia, na verdade, nessa época achava que era uma lei da física. Para toda ação existe uma reação, hoje prefiro acreditar que foi uma intervenção do arquiteto modificando a realidade da minha programação dentro da matrix. Não me lembro de onde o doido estava vindo, mas nunca esqueci para aonde ele estava indo, ele ia para Cuiabá, exatamente há uns 600 km a nossa frente e meu ânimo se redobrou quando ele disse que não tinha problema em levar a gente até lá.

Nessas horas já havia anoitecido e fomos parar em uma cidade chamada Cáceres e lá passamos a noite. O cara ainda foi gente boa e deixou a gente dormir em cima do truck que estava vazio, e ainda tinha uma lona. Não bastasse isso, o doido ainda parou em um estacionamento coberto, visando o nosso bem estar. Nem vou contar sobre o nosso desjejum em uma parada que fizemos antes em um restaurante. Na eternidade espero poder rever essa cena.

De madrugada acordamos com o motorista nos chamando para irmos para dentro da cabine que a viagem ia continuar, e assim acontece. Por

volta de umas 8 horas da manhã, ele nos deixa no trevo de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá e lá tomamos um chocolate quente e um salgado. Agora faltam 600 km para chegarmos a Sinope e já havíamos percorrido 1100 km em 4 dias, mas, a nossa maior emoção ainda estava por vir. O caminho que agora íamos percorrer jamais havia sido explorado, e tudo o que víamos era novidade.

Andamos poucos quilômetros e já conseguimos uma carona em um caminhão de peões de obra que iam fazer uma manutenção na estrada alguns km á frente, estes caras nos trataram com mais respeito do que qualquer pessoa da sociedade moderna e demonstraram muito interesse na nossa história. Sempre que alguém parava para nos dar carona, as perguntas eram sempre as mesmas: De onde vocês estão vindo e para onde vão? Depois da nossa resposta, ser chamado de louco era normal, mas isso já quebrava o gelo para continuar a conversa.

Este caminhão, eu me lembro até da cor e da marca, um Mercedes 1313 vermelho. Eles pararam em lugar nenhum e de lá continuamos a nossa caminhada, agora reabastecidos de ânimo, ao longe avistamos uma ponte em uma descida e dessa vez íamos parar para descansar e também pescar. Estávamos pegando milho e soja que tinha na beira do caminho, quando chegamos neste rio, mais uma vez algo inusitado acontece, o rio estava vazio. Isso acabou com a nossa pescaria, mas não com a caminhada e agora tinha uma longa subida pela frente e como já estávamos acostumados com essa rotina, o jeito era andar, enquanto andávamos encontrávamos muitas porcas e parafusos na beira da estrada nos jogávamos no meio da rodovia com a intenção de furar um pneu, daí poderíamos nos oferecer pra ajudar e de repente ganhar uma carona.

Nos metros finais desta subida, um corsa 1.0 parou ao nosso costumeiro pedido e lá fomos nós de novo. Eu só estou escrevendo esta história, porque eu já a contei muitas vezes, e às vezes até eu acho que é

mentira, mas não tem como imaginar que um ex-piloto de stock car em Curitiba ia parar para dar carona para dois andarilhos pela mera curiosidade de saber o que nós estávamos fazendo ali.

Coincidentemente, o cara trabalhava em uma locadora de carro e estava indo para Sinope para devolvê-lo, e nós vimos o terror de percorrer 600 km em 4,5 horas. O André sofreu mais porque ficou acordado o tempo

inteiro e eu desmaiei no banco traseiro. Esse cara era louco de verdade, ele corria a 180 km/h só para dizer que o carro não agüentava. E como ele era piloto, aquelas retas do Mato Grosso deviam ser umas ‘pistas de brinquedo’. Brincadeiras à parte, o fato é que estávamos em Sinope e agora para chegar

a Matão faltavam 180 km e não sabíamos como chegar lá, agora a coisa

ficava feia de verdade, porque estes 180 km eram em estrada de chão, e a gente estava na época da seca, e o que era pior, não tínhamos a menor idéia para onde ir.

Nesse momento, começamos a perguntar como fazer para irmos para

a cidade de Cláudia, uma cidadezinha a 120 km e, naquela BR, conseguimos

a nossa única carona com uma carreta que durou pouquíssimos quilômetros.

Quando subimos no caminhão, já tinha um andarilho por lá, era um cara que

vinha do Maranhão depois de não ter tido muita sorte por lá, estava indo para

o Pará. Não deu tempo de conversar muito e o motorista nos mostrou o caminho da roça.

Imagine que você esteja vendo o mar, mas no lugar deste você só vê terra vermelha e muito pó até a sua vista se perder no horizonte. A única coisa diferente era um ponto de ônibus e foi ali que inteligentemente ficamos esperando uma carona.

Quando a gente viu, tinha um caminhão vindo do Ceasa local e não precisamos nem pedir carona, o motorista só falou para gente subir na carroceria e se ajeitar. Só que a carroceria era aberta e tinha mais uma galera em cima, me senti num pau de arara, conheci uma mina também que

por algum motivo se identificou comigo. Depois de tomarmos algumas cervejas e comermos muito pó, ela me pediu para que eu a levasse daquela cidade quando eu fosse embora, ela queria fugir dali, mas como levar alguém para fugir se você está fugindo? Para não piorar a situação, falei para ela me esperar quando acabasse as boas vindas da minha família, é claro que eu nunca vi ela de novo, mas o motivo de eu me lembrar dela é porque ela não se importava com minha fétida aparência e isso me deu lá no fundo uma perspectiva de que eu não estava assim tão mal.

Ao chegarmos a Cláudia, vislumbrei uma cidade tipicamente deserta, quase que uma cidade fantasma no meio da selva, ela só não se tornou um cidade fantasma porque aos poucos os cidadãos apareciam curiosos para fora de suas casas para observar dois viajantes ilustres que se assentavam na praça da cidade. Dali ainda faltavam mais 40 km para chegarmos em Matão, foi quando a gente percebeu que, devido ao nosso cansaço, devíamos pegar um ônibus e assim o fizemos. Logo que chegamos à fazenda, fomos recebidos por nossos parentes: tio Jango e tia Zeni, que fizeram um banquete e nos devolveram ao aconchego de um lar e ao repouso de quem anda por caminhos inexploráveis. Nossa estadia foi de uns 15 dias e éramos a atração principal do vilarejo, poderíamos ter montado uma vida lá, mas é de lá que, pelo menos a minha, começou por algum motivo a fazer algum sentido, e assim que minha saúde melhorou um pouco, eu e o André decidimos pegar a estrada e voltar. Agora tínhamos adquirido certa experiência em viajar em situações adversas, escolhemos um caminho que nos levou de volta a Cuiabá e de lá nos separamos. Eu voltei para Curitiba e ele para Ji-paraná.

Esse foi o fim do início da minha vida e a primeira viagem pelo deserto do real que me levou às fronteiras da existência e aos limites da programação que me permitiram reinstalar e reconfigurar os programas da minha vida. Muitas outras histórias serão contadas, mas esta é especial ao meu irmão André, que me ajudou a escolher a pílula vermelha e a ver a

profundidade da toca do coelho.

Obrigado meu amado irmão por ter enfrentado junto comigo os agentes da matrix.

Capítulo II

Quando chegamos a Cuiabá, nosso velho e amado pai, havia providenciado duas passagens de ônibus, e com alguns trocados ainda no bolso embarquei em Várzea Grande e dali só fui acordar quando cheguei no Paraná, passei quase 20 horas dormindo e agora tinha vivido uma grande aventura e esperava que alguma coisa diferente acontecesse quando eu chegasse, mas tudo estava do jeito que eu havia abandonado e a solidão era ainda maior e mais angustiante. Reconciliei-me com minha mãe e ela por algum motivo permitiu que eu voltasse pra casa, meus olhos doíam, porque pela primeira vez eu estava usando eles e conseguia ver o quanto as pessoas são vazias e sem graça, simplesmente porque elas não sabem qual é o seu propósito neste mundo. Não demorou muito e eu já estava me internando com o crack de volta e tudo o que eu fazia era só fumar, fumar, fumar e fumar.

Mais uma vez eu estava desiludido por causa de mais uma vagabunda neste mundo e na verdade era isso que me motiva a me matar, tentar esquecer a dor de ter sido rejeitado e enganado por alguém que dizia me amar, esse era um dos principais motivos de eu falar pra todo mundo que o amor não existe e de que Deus era só uma história para enganar a massa alienada e conter a revolução dos ignorantes, muita gente me odiava e eu comecei a sentir prazer em ser odiado, pois se não podia sentir o amor, pelo menos o ódio eu podia demonstrar sem fingir.

Quanto mais eu fumava, mais vazio eu ficava e esperava pela overdose nunca chegava, vagueando pelos bares do mundo, encontrei alguém que se importava com o que eu tinha a dizer e embora fossem palavras duras, ele percebia a compreensão dos fatos. Na porta do Emídio

apareceu um dia, meu amigo Samuel, e lá estava eu feliz da vida por estar contando minha história e ele realmente estava interessado em me ouvir, mas como eu ainda não estava lapidado precisei mais uma vez cometer um ato desesperado.

Meu skate tinha ficado na casa do meu pai e como eu estava já com a sensação de não pertencer a este mundo e afundado com as drogas, decidi voltar para a estrada.

Desta vez eu já tinha experiência e já sabia como fazer, peguei um ônibus de linha e fui até o terminal do campo comprido e dali fui a pé até a BR 277, comprei uma garrafa de vinho e fui amortizando meus pensamentos, logo estava na auto estrada para o inferno e desta vez eu achava que estava pronto para o que desse e viesse, só que após caminhar 30 km debaixo de um sol escaldante, os ânimos se esfriam e de repente desistir de tudo não era má idéia. Nessa hora você acorda e a sua vida intocável é preenchida pela existência do nada, no meio do nada faço um sinal de carona e finalmente alguém se atenta para a minha existência, um corajoso senhor de idade para o seu monza preto há alguns metros a frente e eu me pergunto para onde ele vai, e ele me leva até cidade de Apucarana, no meio do caminho ele fez uma parada aonde recheou o meu estômago vazio. Após algumas agradáveis horas a bordo de um carro, a realidade sempre volta e em Apucarana desci na frente de uma praça, aonde tinha muitos doidos na rua, mas o mais doido ali era sem dúvida eu, o gentil senhor que não me lembro o nome, ainda se comoveu com minha triste história e me deu R$ 10,00 para alguma eventualidade, essa foi a primeira noite em que amarguei até encontrar um lugar para dormir e quando consegui encontrar após algum tempo, um guardinha veio me perturbar e interromper o meu sagrado descanso, convidando a me retirar do local, eu estava muito cansado e tive que voltar um bom pedaço do caminho que havia percorrido porque eu simplesmente não sabia aonde estava e nem para aonde eu estava indo, precisava clarear o dia para que o meu senso de direção e informação não

me desviasse do meu destino, voltei para a praça e de lá também fui convidado a me retirar dos bancos iluminados da vil cidadezinha acolhedora do interior, não tive como dormir nem mesmo na rua e o R$ 10 reais que eu tinha ganho foram investidos em um hotel de beira de estrada após mais alguns kilometros ali eu simulei uma realidade nova e agora tinha até tomado banho e uma cama para dormir.

Ao cair do amanhecer renovando todas as minhas forças comecei a procurar o caminho para Rondônia, e logo estava em cima de um caminhão que me levou até os limites da divisa do Paraná com São Paulo, não me lembro do nome das cidades, mas foi nesse trecho em que o programador começou a desconfigurar a minha programação. Tudo aconteceu quando após descer da minha última carona me deparei com um vasto campo de plantação devia ser umas 10:00 da manhã e ali começou a pior caminhada que eu já fizera. No principio, antes de passar na divisa de Estado, fluíam pés de goiaba e de manga eu nem precisava estocar, comia uma manga e logo que terminava já tinha outro pé logo a frente e com as goiabas eram o mesmo, hoje eu sei que era Deus que estava lá junto comigo, pois apesar da solidão eu me sentia consolado, mas isso fazia parte do que estava por vir. Assim que atravessei a divisa eu já havia caminhado uns 20 km e meus pés já estavam calejados, de repente a paisagem mudou, não tinha mais tráfego na estrada e nem uma única sombra em dezenas de quilômetros, eu já não tinha mais água, não tinha mais saliva, não tinha mais força e meu dinheiro não podia comprar a minha necessidade básica mais primordial naquele momento, um copo de água, eu via ao longe as fazendas com lagos para os bois muito distantes da rodovia e quando pensava em sair dela, não tinha forças, nessa angustia de fome e sede, Deus realizou a sua obra prima em minha vida, blasfemava contra Deus e amaldiçoava o dia em que eu tinha nascido, quando em um ato de desespero ao passar um carro naquela rodovia abandonada eu finalmente dobrei os meu joelhos e implorei por ajuda em nome de Deus, nem assim meu pedido foi atendido mas quando eu

já não tinha mais esperança um outro carro parou ao meu sinal e me levou até a cidade de Presidente Prudente, ele não tinha água no carro e eu viajei quase 120 km até chegar a uma torneira.

Neste dia, assim que desci do carro, me senti como um camelo que passa trinta dias no deserto sem tomar água, e tomei toda á água que pude, mas meu cansaço físico era demais e então com algum dinheiro que tinha,

tomei duas cervejas num boteco de beira de estrada, foram o suficiente para me alucinar e logo que saí dali, um céu tão negro como a noite se aproximava e eu via uma tempestade se formar, andava a passos largos procurando um abrigo, quando finalmente cheguei debaixo de um viaduto e

lá misteriosamente havia um sofá, no qual eu deitei sem nem tirar a mochila

das costas e dormi acompanhado da sinfonia de uma estrondosa chuva

torrencial.

Ao acordar de madrugada naquele lugar tão obscuro tive medo e logo sai dali, fiquei andando até encontrar um posto de gasolina aonde fui pedir para usar um fogão e fazer um macarrão que eu tinha na mochila, os frentistas não foram indiferentes ao meu pedido e até uma melancia eles me deram, neste posto pude usufruir de um banheiro e quando eu entrei neste me deparei com o meu pior pesadelo, o meu reflexo no espelho me mostrava no que eu havia me transformado, meu rosto estava todo queimado do sol e meu olhar era o de um miserável mendigo, foi com este pensamento em que eu fui para um banco nos fundos do posto e dormi o resto da noite.

Quando sai de manhã catei um papelão que me serviu de guarda sol por longos kilometros sem fim na estrada do deserto do real, parecia uma tortura as queimaduras do meu rosto ardiam e meus pés já não obedeciam ao meu corpo, quando cheguei em um barzinho á beira da estrada meu estado era tão deplorável que as pessoas que me viam já me ofereciam o que comer tamanha a desgraça que me seguia. Fui pedir um pouco de água

e o cara logo me perguntou se eu não estava com fome, não podia nem

mesmo mentir mais e tive que aceitar dois cachorros quentes e meio litro de refrigerante, nesse lugar fiquei pensando sobre a minha condição física e começava a pensar em desistir, mas eu não podia, não tinha como desistir eu tinha que seguir em frente e sem muitas opções, eu voltei para a estrada

e misteriosamente um fiat 147 vermelho parou e me ofereceu uma carona

até a divisa de São Paulo com o Mato-Grosso e comida que era bom mesmo eu já não via há uns dois ou três dias, o tempo na estrada parece ser eterno e cada minuto lá era como se fosse uma vida inteira e sempre que eu descia de uma carona me deparava comigo mesmo e começava a perceber o quanto eu sou insuportável, ainda hoje acho que nessas cruzadas eu estava sonhando, mas este sonho era real e eu não tinha como acordar.

Logo que passei a divisa sobre o rio Paraná tive que descer e lá estava eu de novo, a pé na auto estrada para o inferno e como já não tinha mais forças sentei próximo a uma lombada e nem força pra ficar de pé eu tinha lembro que esticava o dedo e pedia carona até que um crentão com sua família inteira para e compadecido da minha desgraça resolve pregar pra mim o evangelho figurado, mas eu ainda fiquei feliz porque ele me levou mais 75 km a frente e me deixou em um cruzamento próximo a uma cidadezinha, tive que caminhar mais alguns quilômetros até chegar lá e o por do sol era tão vermelho que me lembrava os meus olhos chapados de tanto viajar na realidade e na minha mente.

Neste vilarejo aconteceu algo digno de ser descrito, na porta do único

restaurante da vila eu estava me arrumando para passar a noite e meus últimos trocados foram investidos em uma cerveja, aonde sentei como gente

a mesa e depois de tomá-la perguntei ao dono se podia dormir embaixo da

cobertura, ele concordou e misteriosamente começou a conversar comigo, logo ele me perguntou porque eu tinha tomado cerveja ao invés de comprar comida, eu lhe expliquei que pra dormir na rua era preciso anestesiar a mente, ele se compadeceu de mim perguntou se eu não ficaria ofendido se ele me oferecesse comida, eu quase chorei de emoção, há dias que eu não

comia nada nutritivo, enquanto eu comia, o dono do restaurante conversava comigo e eu lhe contava minha triste história e para aonde eu estava indo, quando terminei de jantar agradeci aquele senhor como se estivesse agradecendo ao próprio Deus, e as suas palavras seguintes foram dignas de um verdadeiro cristão, ele chamou o dono do hotel ao lado e gritou: -ô fulano vem aqui, arruma um quarto pra esse cara passar a noite, eu não acreditava no que via e ouvia e tão logo ele falou isso, só pude lhe agradecer e fui para um quartinho e depois de tomar um banho revigorante, algo tomou conta de mim e pela primeira vez em muitos anos, eu conversava com Deus e ali naquele quarto, de joelhos eu agradecia ao Deus que não pode ser visto e nem representado por qualquer mão humana, não era o Deus da religião nem o Deus da mentira, era o próprio Jesus, o verdadeiro salvador que não me cobrou nada por aceitá-lo sem eu nem saber quem estava ali comigo naquele momento.

Dormi profundamente e ao clarear do dia tomei um café e peguei a estrada novamente, no Mato-Grosso pra quem nunca esteve lá, as estradas possuem retas, retas, retas e muitas retas ladeadas de imensos pastos verdejantes cheios de inumeráveis cabeças de gado, com um calor escaldante e muito raramente uma sombra, baseado neste quadro eu desbravei o cerrado brasileiro por vários quilômetros e em alguns momentos de solidão conversava ora com os bois e ora comigo mesmo e tentava entender porque eu estava ali, quando eu gritava com a boiada eles se assustavam corriam para o fundo do pasto como uma onda eu rachava o bico de tanto dar risada, de repente me lembrei que esse dia era um dia de domingo e eu já estava com fome, porque eu tinha caminhado das 6:00 até as 12:00 sem parar, não que eu não quisesse, mas porque eu estava sem água e nas muitas retas que via não havia um único sinal de água e muito menos de qualquer pessoa além dos carros velozes e furiosos que passavam sem nem perceber a minha existência.

A falta de água leva qualquer um à beira da loucura e a única coisa que

podia fazer era pedir carona, o problema é que eu estava numa reta em declive de 9km, os carros mais lentos passavam há uns 120 km/h, quem nesse mundo iria me ver ali, minha esperança era acabar a descida e quando estivesse em uma subida alguém pudesse me ver e foi quase no final dessa descida que um cara muito mais louco do que eu, atende ao meu sinal conhecido e parou há uns 500 metros a minha frente, não sei da onde tive forças pra correr, mas lembro que enquanto eu corria aquele Santana Quantum alado, quase bateu com um caminhão só para me prestar uma carona, comecei a pensar enquanto corria que ao chegar perto, ele pudesse sair, graças ao bom Deus ele ficou lá e milagrosamente ele tinha uma garrafa térmica com 5 litros de água incrivelmente gelada para saciar a minha sede.

Não me lembro do nome daquele senhor, mas lembro que estávamos há 250 km de Campo Grande e ele disse que me levava até lá sem problema, no decorrer do percurso fui conversando com ele, mas a impressão que eu tinha era que não era um homem que estava ali e sim um ser enviado por Deus para me socorrer, só saberei a verdade quando me encontrar com o criador, mas até lá vale a pena lembrar que quando chegamos em Campo Grande ele parou em uma churrascaria e ali houve o meu desjejum por completo, comovido com a minha triste história e após sentir uma certa confiança em mim ele praticamente acabou com a minha viagem, pois quando eu já ia me despedindo dele e agradecendo pela comida e pela carona ele me fala que vai até Cuiabá e que pode me levar até lá sem nenhum problema, nos próximos 1000 km de viagem que viriam a seguir, a viagem acabou porque quando chegamos em Cuiabá ele me deu 50 reais para pegar um ônibus e chegar o mais próximo que pudesse da casa de meu pai, aceitei a sua oferta e ao invés de pegar o dinheiro e usar para outros fins, realmente comprei uma passagem até a cidade de Vilhena e enquanto esperava pelo ônibus sob o forte olhar da policia dentro da rodoviária liguei para o meu irmão e contei a ele a história toda e ele conseguiu uma passagem pra mim de Vilhena até Ji-Paraná e ao chegar

agora, eu tinha nos olhos o brilho de alguém que volta pra casa depois de ter descoberto que ainda não tinha morrido e meu velho pai estava lá pronto pra me receber, agora como o filho pródigo, e muita coisa fazia sentido, mas a minha libertação ainda não estava na hora e ali houve o inicio da mutação que eu estava pra receber, após me recuperar e tentar arrumar um emprego e aperfeiçoar o meu condicionamento no meu skate, resolvi atravessar o Brasil de volta, só que agora armado com meu fiel e escudeiro skate de guerra.

Capitulo III

Uma vez que você escolha a realidade em que quer viver, por mais que você se esforce para voltar atrás, isso não é possível, e toda a dor que você sente pode no máximo ,anestesiá-la com substâncias que entorpecem o seu estado real, você pode até simular a realidade mas vai ter que encarar você mesmo mais cedo ou mais tarde e quando essa hora chegar você vai perceber que não pode entortar a colher porque isso é impossível; você tem que entender que a colher não existe e quem fica torto é você, e quando tudo na vida está no fim é porque um novo começo está por vir, basta você ter paciência para esperar, ver o que acontece, vim a descobrir que o nome disso se chama fé e ter fé é ter lembranças do futuro.

Mais uma vez eu estava me afundando com uma química boliviana e muito boa por sinal, mas agora tinha um problema, não importava mais o que eu usava e nem quanto vinho, tubão, vodka ou três campos eu tomava, a dor do meu passado de tudo o que eu tinha feito não passava e agora quando eu ia pra estrada fazia sentido eu viver, cheguei a achar que meu destino seria morrer atropelado por um caminhão, mas como eu não acredito no destino resolvi pagar pra ver o que aconteceria se eu voltasse para Araucária, só que dessa vez, de skate e disposto a saber até aonde vai a toca do coelho.

Numa tarde qualquer da minha vida, muito injuriado com este mundo, catei minha mochila e meu skate e cai na estrada, ainda bem que lá tinha um acostamento bom, que foi o que garantiu os primeiros 30 km até Presidente Médici, só que desta vez eu não era visto mais como uma vagabundo qualquer, não tinha carro que passasse por mim e não me visse, todo mundo buzinava e alguns botavam a cara pra fora gritando uhuuuuuuuuuuu, e eu olhava perplexo, não entendia porque eles estavam tão animados se quem

estava se divertindo era somente eu, mas tudo bem, logo eu estava tão envolvido com a loucura em que eu estava que nem percebia direito da chuva que vinha atrás de mim e o que me obrigou a encontrar um abrigo e por sorte logo encontrei um ponto de ônibus aonde tive que permanecer algum tempo sem poder sair dali. Assim que passou a chuva voltei para a estrada, agora eu nem precisava mais pedir carona a minha loucura era tão grande que agora diminuíam a velocidade só para conversar comigo e me oferecer carona até aonde era possível e misteriosamente nesse dia parei novamente em Pimenta Bueno para passar a noite, só que dessa vez passei em um restaurante de um posto e lá tomei duas cervejas e fumei um baseado que me ajudaram a encarar os pernilongos já conhecidos daquele lugar.

Passado a noite, cedo já estava na estrada e ali tive a impressão de ter vivenciado um DEJAVU, pois no exato lugar aonde eu e meu irmão tínhamos pegado carona eu agora sozinho, havia conseguido novamente, só que desta vez andei apenas uns 50 km e fui largado no meio do nada de novo, catei minha prancha do asfalto e me dediquei a sair dali, pois a mata ao redor da estrada era fechada e não havia sombra pra descansar e quando eu encontrava uma, o meu suor atraia todos os tipos de mosquitos da área, mais uma vez estava sem água e com muito cansaço devido ao esforço físico e ao sol q uenão dava trégua, já estava desanimado quando um ônibus de linha aparece e me oferece carona até um vilarejo há alguns kilometros à frente, lá tomei um banho e tentava me abrigar do sol próximo a uma lombada na BR, aonde eu sentei e sem forças pedia carona com o sinal costumeiro, fiquei algumas horas sentado ali, e a próxima cidade ficava ainda há uns 80 km, não dava pra sair dali sem um carona, nessas de desistir sempre acontece o impossível.

Uma pampa branca pára logo a frente da lombada e um cowboi do asfalto se aventura a me dar carona e logo estava dentro da charanga, o cara ainda foi gente boa e deixou a minha mochila e o meu skate atráz o que

me deu um bom espaço na frente. Logo que começamos a andar o cara me pergunta pra onde eu estava indo, ao que lhe respondi que ia pra Curitiba ele ficou pasmado com a minha audácia e achou que eu estava brincando, mas logo ele viu que era sério e no decorrer da viagem fomos conversando e ele disse que ia só até Comodoro e que lá ia pegar um amigo dele para continuar a sua viagem e se ele não estivesse lá ele me daria carona até Cuiabá, nessa hora comecei a clamar a Deus para que o amigo dele não estivesse lá, quando chegássemos isso devia ser umas 5 horas da tarde e o cara voava baixo na estrada, tão baixo que em apenas 4 horas fizemos quase 500 km até Comodoro e adivinhem o que aconteceu quando chegamos lá? Sim, o amigo dele não respondia o celular ele me intimou a ir até Cuiabá e assim fomos a toda velocidade possível atravessamos a noite viajando e por volta das 4 da manhã chegamos em Cuiabá, agradeci a ele a carona e quando me despedia dele e retirava meus pertences do carro ele me fala algo quase inaudível. O cara, põe as tuas coisas ai dentro de volta eu ia pegar uma mina aqui, mas como ta muito tarde e você ta indo pra Curitiba vou aproveitar a tua companhia e te levar até Maringá, ta afim de ir ????

Não pensei duas vezes e dali atravessamos o Mato-Grosso, o único medo dele era de que eu tivesse alguma droga, eu tinha, mas lhe disse que não, estava escondida na minha mochila, só que a minha aparência não ajudava muito, e quando chegamos na policia rodoviária de Campo Grande, assim que os pica pau me viram mandaram encostar a pampa e logo começou o interrogatório, por um milagre eles não encontraram os baseados que eu tinha guardado dentro de um buraco na mochila, nessa hora achei que o motorista do carro ia desistir, mas ele não desistiu e prosseguiu conforme o combinado em apenas 30 horas atravessei 4 estados brasileiros, considerei isto um recorde, porque de Maringá até Curitiba eu levei quase uma semana, perambulando por todas as vias que me eram licitas.

Eu havia descido a Serra do Cadeado em Londrina, essa foi a minha

primeira experiência em descer uma ladeira de 9 km oscilando 30 e 40 km por hora para eu não me esborrachar. Com um cajado na mão conseguia reduzir a velocidade sem precisar usar o tênis o que me economizou esforço físico também, só que depois que desci a serra tinha que subir uma outra e ali fiquei andando algumas horas até pegar uma carona com um tiozinho num mercedão, ele ficou cabreiro e mandou que eu ficasse na carroceria e para lá eu fui. Quando me deitei eu acho que desmaiei porque quando acordei meu rosto estava completamente queimado do sol, eu não tinha espelho pra me ver, mas sentia a dor das queimaduras, o senhor que me deu carona me deixou em Ponta Grossa e dali até em casa eram apenas 100 km, mas esses 100 km foram muito educativos para libertar algumas partes do meu egoísmo.

Cheguei em um posto de gasolina logo abaixo de Vila Velha e ali com apenas alguns reais no bolso fiz o que eu achava ser a minha ultima refeição, os funcionários do posto me olhavam com desconfiança e eu logo queria sair, mas já era tarde da noite tinha que encontrar um lugar pra dormir, na saída do posto tinha três andarilhos que se conheceram na estrada e estavam indo para a praia, foi fácil de se enturmar com eles e logo que clareou o dia um deles me pergunta se eu estava com fome, eu disse que sim e ele me intimou para uma das minhas maiores aulas da vida. Ele disse, vem comigo que eu vou mostrar como que a gente consegue arrumar um café pra quatro.

O cara chegou na maior caradura pro atendente do restaurante e pediu pão e café pra 4, fiquei meio cabreiro, mas o atendente disse pra esperarmos lá fora que ele já levava, e ele trouxe mesmo, quatro pães e ainda encheu a garrafa descartável de café. Fiquei chocado com a facilidade de conseguir comida grátis, mas como estava com fome logo comemos e partimos para os 100 km mais alucinados da minha vida. Os andarilhos tinham arrumado um carrinho de supermercado aonde eles colocavam todas as mochilas e iam revezando para empurra-lo, juntamente com uma placa com um aviso

dizendo NÃO FUME

rssss.

Seguimos estrada a fora e como eu já estava calejado nos pés não conseguia acompanhar o ritmo deles na subida o que me rendeu o apelido de marcha lenta, já nas descidas não tinha problema porque eu com o embalo do meu skate, isso dava a impressão para eles de que eu era mais louco do que eles. Esses caras eram a minha família naquele momento e pude aprender um pouco sobre humildade com as ricas histórias que com partilhávamos naquela caminhada.

Na parte da manhã caminhamos uns 30 km até chegarmos na próxima rodoviária de maluco ou posto de gasolina como costuma dizer o tal do Ventania, lá não foi diferente o tratamento que recebemos na hora de pedir comida, primeiro foram em dois e pediram comida pra quatro e logo voltaram com um baldinho forrado com carne assada e outros tipos de comida, no qual dividimos entre os quatro, fiquei me perguntando se aquela quantia de comida iria matar a nossa fome, e logo fui convidado para revezar no pedido de comida, pela primeira vez na minha vida cheguei na porta do restaurante com o baldinho na mão e perguntei, quebrando todo o resto de orgulho que ainda existia em mim: -Será que o senhor pode me arrumar mais um pouco de comida? Ele só pediu o balde e foi pra dentro do restaurante aonde nos esperávamos como uns cachorrinhos rodeando uma churrasqueira, o garçom logo nos serviu e retornamos para debaixo das árvores.

Logo após terminarmos o almoço, apareceu mais um andarilho e com uma grande lição, eu ainda tinha R$ 7,00 e ninguém sabia, esse cara chegou conversando como se fossemos velhos conhecidos e logo fumamos um baseado e ninguém mais tinha cigarros, o que gerava uma certa fissura em todos, após termos fumado, esse cara foi pedir comida também e quando ele voltava, veio bradando feliz da vida que tinha achado R$10,00 e ele perguntou se nós queríamos alguma coisa e todo mundo concordou em comprar uma carteira de cigarro, ele assim o fez e retornando também trouxe

alguns doces e nos alegrou de uma maneira única. Passando o momento de confraternização, rumamos a caminho de Curitiba e o cara que havia chegado ficou por lá mesmo.

Caminhamos mais 30 km até chegarmos no próximo posto e no findar da tarde uma nuvem de chuva nos seguia era uma imagem linda pintada no céu e ao mesmo tempo fria e assustadora porque não tínhamos aonde nos esconder, caiu a noite e finalmente chegamos no posto, eu estava acabado, só me lembro que quando cheguei no posto, sentamos no estacionamento e quando eu acordei tinha uma marmita com um garfo na minha frente, mesmo sem eu ter participado para pedir a comida eles me trouxeram aquela marmita como se eu fosse o cara mais importante do mundo. Daquele posto só atravessamos a BR e passamos a noite embaixo de um ponto de ônibus, não tinha outro lugar, ainda bem que tínhamos papelão pra forrar o chão gélido. Ao acordarmos fui em mais uma busca bem sucedida para saciar a fome da manhã e tão logo comemos já estávamos andando de novo, caminhamos 12km até chegarmos no Rio dos Papagaios, ali eles decidiram lavar as roupas e eu me despedi e segui minha viagem, pois estava perto de acabar, mais alguns kilometros e cheguei no ultimo posto antes de chegar em Campo Largo e com uma chuva nas costas ao chegar no posto, aonde sozinho, pela primeira vez pedi comida só pra mim, esse posto ficou muito conhecido e muitas outras histórias de pessoas “normais” que um dia caminharam junto comigo também pediram comida lá. Lembro do prato de papelão com muito arroz, feijão, frango assado, polenta frita e salada, como estava boa aquela comida, enquanto eu comia, uma criança dentro de um carro me observava atentamente quase que horrorizada, naquele momento senti muita pena de mim mesmo, mas eu já estava a uma serra de chegar em casa.

Desci a serra com chuva e ali com o meu freio especial para o meu skate, um pedaço de galho como se fosse um cajado apoiando ele no chão para não pegar muita velocidade, finalmente vi uma placa dizendo o sentido

de Araucária, mas como eu tinha pelo menos o dinheiro pra passagem decidi que o meu sofrimento estava na hora de acabar assim que avistei um ponto

de ônibus, que com uma só passagem me levaria para a casa de minha mãe embarquei na rodoviária de Campo Largo e a bordo do ligeirinho aquele cara que tinha comprado cigarro pra nós e nos dado doces estava do meu lado e era o único que não se importava com a minha aparência de mendigo, dentro do ônibus passei pelo processo de libertação de egoísmo e vaidade, aos olhos daquelas pessoas eu não tinha nenhum valor. Foi ali em que eu percebi que a minha existência nesse mundo não era por acaso e sim aceitar

o fato de que eu sou uma anomalia sistêmica, uma aberração da natureza,

um vírus altamente contagioso, uma carta fora do baralho ou um peixe fora da água, não importa a definição o fato é que quando cheguei nada havia mudado, tudo permanecia no mesmo lugar isso me levou a beira da loucura

e logo eu estava lá no bar do Emídio tentando contar para alguém o que

havia se passado comigo. Na porta do bar estava o Samuel, lembram? Pois é, ali eu contei a minha história e pela primeira vez agradecia a Deus em público para alguém que já havia me visto blasfemar contra a existência de Deus, e conversando com ele entendi que era Deus que estava presente na minha morte como uma pessoa normal e também era ele que estava no meu nascimento como um louco livre em Cristo sem o poder da religião na minha mente e com o mais puro, elevado e criativo do evangelho de Jesus Cristo.

Nunca vi Deus e nem sequer cheguei próximo de um anjo, mas entendi que ele colocou pessoas que entendiam Ele, próximas de mim, e com muito amor ele se revelou de uma forma que talvez eu nunca possa explicar, mas ele sempre esteve comigo embora eu não soubesse. Obrigado Senhor, por todas as pessoas que colocaste no meu caminho elas me levaram a loucura do entendimento da palavra de Deus.

Dias após contar a minha história para o Samuel, novamente estava partindo por problemas sérios com o crack e essa talvez fosse minha ultima viagem e foi, mas não como eu pensava, tudo o que fiz foi ligar para o

Samuel e sentados na rodoviária ele me mostrou o que era ser um discípulo de Cristo, quando lhe contei iria voltar para Rondônia sozinho, ele, em um dos maiores atos de amor em Cristo, me perguntou se poderia ir junto comigo e que se ele não fizesse tal coisa toda Bíblia não faria sentido para a sua existência, concordei, mas essa história ele já contou e deixo nas palavras dele caso queiram saber o resto.

Agradeço a todas as pessoas que de alguma forma me ajudaram no processo de transformação do meu caráter, um carinho especial ao Rosmil e a Eliane que me acolheram como um filho, nunca esquecerei este ato de amor. Agradeço ao Samuel por ter esperanças em mim quando nem eu mesmo tinha, e principalmente a Deus por saber o que faz quando nem eu mesmo sabia.