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Carta sobre o socialismo
A Luciana Genro, quando candidata à Presidência do Brasil
Por Alysson Leandro Mascaro

Luciana recebe de Alysson Mascaro a Carta sobre o Socialismo.
Querida Luciana,
Escrevo-lhe na alegria de declarar-lhe meu apoio e de dar testemunho de seu grande valor. Sua
fibra, sua vontade sincera e inabalável de luta por uma sociedade transformada, sua inteligência, seu
tirocínio político e social, sua humildade e sua pronta disposição a atravessar os desertos da ação
política mesmo não se importando com quão longe esteja o final do trajeto, tornam-na, minha querida,
uma especial líder de nosso tempo.
E lhe escrevo sendo, ao mesmo tempo, seu orientador. Nesta condição, em meio a reflexões,
aulas e pesquisas, é chegada sua candidatura à Presidência do Brasil. As injunções da vida e da história
conduzem a que este ensejo da luta possa ser, também, o momento do pensamento mais alto sobre a
estrutura da sociedade e os horizontes da nossa época. Pela ocasião especial de tê-la como orientanda,
seguindo meus passos na filosofia do direito e na filosofia política, que ao mesmo tempo lidera uma
candidatura ao cargo máximo da República, dedico-lhe e anuncio esta carta.
A forma política
O Estado é forma social necessária do capitalismo. O mesmo com o direito, cuja forma é
espelho da forma mercadoria. A democracia, neste solo, se abre como direito político e se fecha como
direito eleitoral, em mais uma imbricação de Estado com direito, num processo de conformação.
Não se pode pensar o Estado como o bem-comum ou como o espaço neutro, privilegiado ou
potencial da transformação social. Ele é forma inexorável de uma sociabilidade orientada para a
acumulação. Daí, o Estado não pode ser distinto de tal sorte. Ele tem sua razão de ser no capital.
Também ele arrecada e depende da dinâmica econômica. As constrições do Estado não estão apenas na
vontade dos seus governantes, mas, sim, na sua natureza.
Ocorre que o Estado não é diretamente o capital. Por isso, a disputa de eleições carreia
expectativas e esperanças mas, ao mesmo tempo, ela não é a possibilidade de deliberar sobre as
estruturas do mundo. O fundamental está interditado ao voto. Caso o voluntarismo eleitoral leve a
opções progressistas, a história dá provas vivas de que os poderes econômicos, militares, ideológicos, e

Ele pode ser administrado por classes distintas daquelas detentoras do poder econômico. bloqueiam os passos conquistados no plano do poder político. A ideologia Nas democracias. os mínimos da sobrevivência tornem-se máximos. ganhe eleições e venha a implantar seus programas. o burguês ou o capital. capitalismo neoliberal ou. as impossibilidades de nosso tempo. Então. tratando apenas de ganhos parciais e articuláveis dentro da lógica da acumulação. . é sua realidade constituinte. em especial. há um engajamento social que permite fazer com que o Estado se incline no sentido de variados interesses imediatos. ser fraterno ou egoísta. um tensionamento crítico da disputa eleitoral sempre revelará. entre a ditadura e a democracia ou entre a negação e a afirmação dos direitos às minorias. a democracia.2 mesmo o plano internacional. São notáveis. mas. de fato. efetivamente. Contudo. É uma outra sociabilidade. no limite. a desesperança quanto às formas do capitalismo. mesmo opostas a uma sociedade pós-capitalista. as distinções entre capitalismo de intervenção e bem-estar social de um lado e. mediante a luta de classes e grupos. o povo de avançar em suas lutas? Por que o povo explorado não chega a ampliar sua força e a tentar os limites de superação da própria vida capitalista? Se o mediato desse bloqueio está no capital e nas armas. no limite. para além do mundo da mercadoria. combate a própria democracia. é possível até mesmo avançar com ganhos constitucionais que pudessem levar. O poder do capital não coordena a política diretamente. De um lado. o imediato está na ideologia. juridicamente. para a vida quotidiana do povo. Tomando-se assim. Por isso. mesmo. por isso as tantas possibilidades políticas no seu seio. O socialismo não é o acúmulo de conquistas no capitalismo. O Estado não é. tais distintas inclinações da política são doses variáveis de uma mesma forma de sociabilidade. sofre bloqueio e é rasgada pela reação. são também indícios a respeito. De outro lado. Deriva desta determinação última que os ganhos sejam sempre parciais. o capitalismo não é um engano ideológico nas pessoas. Claro está que o poder do Estado e do direito em legislar nas bordas máximas da socialização enfrentará diretamente. em última instância. Tudo isso seria objeto de legislação. sem falar em situações-limite. já Marx o ensinava no Dezoito de brumário. Os específicos momentos trabalhistas de Vargas e mesmo incipientes ações do PT no Brasil. tensões e lutas daí resultantes são múltiplas. Ser de esquerda ou de direita. O capitalismo se estabelece. As energias que advêm de todo processo eleitoral se devem ao fato de que as formas sociais se erigem de um complexo contraditório de relações sociais. estas seriam variáveis à disposição de cada qual. mas a preside sempre. com os combates daí advindos. seus posicionamentos poderiam ser submetidos a um juízo moral: é o egoísmo que carrearia as pessoas a serem fechadas. É verdade que não é desprezível o solo político das lutas de esquerda em forma política capitalista. é apenas qualitativamente estranho a sociabilidades pós-capitalistas. diretamente. É um novo. sempre o capital vive em regime político democrático mas. Trata-se da desesperança. à abolição da propriedade privada. nos termos do direito positivo. De Goulart a Allende. indiferentes. então. o que mesmo assim impede. A esperança só pode ser depositada em outras formas de sociabilidade. nesse caso. costuma-se tratar a ideologia como uma opção de valores e de horizontes dos indivíduos. Assim sendo. não há um impedimento de que a esquerda dispute. A vontade seria seu corolário. ser racionalista ou crente. Sua chegada não é uma quantidade maior de ganhos capitalistas nem um outro arranjo das formas já dadas. de outro lado. sendo que as situações das relações. Mas. No extremo do imaginável. Avancemos para além das compreensões da ideologia como falsificação da realidade ou como opção pessoal. os avanços retrocedam. que age em positivo. o poder do capital e o braço armado da ordem estatal que o garante. quando de esquerda. no plano político. embora estas só possam sair do solo daquelas.

é compulsório e advindo da materialidade das relações sociais. na tessitura da ideologia. pela ordem estatal ou pela mercantilização do mundo. forjando-lhe o espaço histórico que lhe corresponde. esta é a realidade do mundo. Prova disso é o relativo insucesso das candidaturas plenamente de esquerda em pleitos eleitorais. pela isonomia. Não está na faculdade do sujeito. ele é muito limitado. Porque as pessoas são constituídas pelas formas do capitalismo. Assim sendo. é composto por aparelhagens materiais insignes e plenamente arraigadas. A escola fornece uma unificação linguística e de referências gerais. mas sim contra a prática que gera tal mentalidade e tal horizonte de valores. mas. é considerado a ordem. a informação não altera ou distorce os fatos: ela os constitui. pela propriedade privada. O Estado estabelece os parâmetros do nacional. Porque os sujeitos operam no mercado como contratantes e contratados. e como informa. revelando-se então. É porque a ideologia se lastreia em aparelhos que ela não é alterável por mera vontade subjetiva. E. A religião lhe dá o talhe dos valores bons. há uma materialização imediata da ideologia que. O sentir-se sujeito. A ideologia não é um ato de escolha pela autonomia da vontade. nem mesmo por certo grau de intersubjetividade nem por conquista de um aparelho em específico. então a liberdade negocial e a igualdade perante a lei são seus horizontes ideológicos. tem sua sede nos meios de comunicação de massa. nem uma escolha ocasional ou produto de uma vontade caprichosa. No fundamental. Assim sendo. Como todos os meios de comunicação de massa se sustentam pela mercadoria. É preciso conhecer a fundo a natureza e os impasses da ideologia. no máximo. a ideologia opera por meio de grandes aparelhos ideológicos. O que ela não informa não existe. Dentro da vida capitalista. que então para tudo calculam. a tudo isso contrárias. nos sujeitos.3 Se é verdade que há um campo de ação naquilo que é o chamamento moral às pessoas. O que ela informa. no capitalismo contemporâneo. a escola e a religião podem não se fazer acompanhar no mesmo passo. Em sua materialidade. Todo esse complexo tece as relações intersubjetivas. Isto porque não é apenas o chamamento político que dá horizontes. Ela é resultante de práticas sociais. toda ideologia crítica estará inserida em seus quadrantes. uma ideologia negativa. não se entender assim. É na materialidade que reside seu fundamento. a família. É preciso então avançar na compreensão do cerne da ideologia para agir no sentido de transformar a sociedade. como inconsciente. Porque o capital é concentrado nas mãos de alguns que então o Estado. A ideologia não é um pensamento vago. Se os costumes se tornarem progressistas. ao mesmo tempo. dadas as contradições necessárias da sociabilidade da mercadoria. como um dado em positivo. em tudo sendo calculadas. garantidor da propriedade. Daí. vendendo-se e comprando. A família dá identidade ao sujeito. virtualmente o mundo está . portando direitos subjetivos. Só uma materialidade socialista tem o condão de gerar uma ideologia correspondente. se o Estado for ganho por governantes progressistas. não é suficiente um juízo contra a cabeça das pessoas. sendo que seu núcleo mais arraigado é composto por grandes grupos com poderio econômico e político determinante e atravessados por interesses de classe muito cerrados. é o arcabouço inconsciente que arma a constituição dessa própria subjetividade. tal qual ele é constituído. Tudo isso não é escolha. a empresa mesmo assim resiste e determina suas contratações com base na boa moral. A pergunta sobre a dificuldade da esquerda em convencer eleitoralmente o povo não pode se encaminhar apenas para novas estratégias de marketing ou de discurso. chamadas de desordem. O direito constitui o normal. vendendo e comprando força de trabalho e mercadorias. de solidariedade para além dos interesses subjetivos. A informação opera. A empresa determina a formação e a conduta necessárias a todos os que lhe pleitearem a condição de empregados. além disso. sendo as manifestações progressistas. sem grande espaço de sensibilização social. o ordeiro e o desajustado. baderna ou caos. na condição de sujeito de direito e cidadão. a ideologia opera em práticas materiais e se instala. cidadão.

claro. no mais longo período do século XX. ganhos não se fiam nem em garantias jurídicas nem em estabilidades políticas. é também preciso ter em vista o presente do capitalismo para capturar as estratégias de sua superação. a vontade e os valores tanto sobre as grandes questões quanto sobre as mínimas factualidades. As crises do capitalismo É verdade que o capitalismo opera sobre formas de longa estabilidade. Na distribuição dentro da acumulação capitalista. no entanto. no século XX. em especial e mais profundamente. das relações. tácita ou explicitamente. Insistir em lutas por melhor distribuição dentro do capitalismo corresponde a um caminho pelas mesmas encruzilhadas do século XX. no capitalismo. do direito e do domínio político. institucional. as conclusões são. o problema da esquerda passou a ser apenas quantitativo e distributivo. a máquina da ideologia toca diretamente o sujeito. quase sempre. nesse grande maquinário. dando-lhe o saber.4 controlado ideologicamente. O pós-fordismo das últimas décadas. Além disso. Por isso. como a ideologia é uma naturalização de relações sociais. anelaram-se ao Estado e ao direito. Assim. ela constitui o horizonte de mundo que limita tanto a vontade dentro da democracia quanto a vontade para além desta. o querer e o desejar resultam de máquinas de constituição de subjetividades. na medida em que. mediante regime fordista. No nível dos meios de comunicação de massa. pelos poucos grandes donos da informação constituinte. da exploração e do domínio político. mas com outros arranjos e horizontes. grupos ou classes para a transformação social. A acumulação capitalista realizou-se. a proeminência financeira acentua traços ainda mais graves da crise que é constante e necessária à própria estrutura do capital. ela carreia maiorias. aumento de ganhos políticos e jurídicos. operando por meio de grandes aparelhos e controlada no imediato por meios de comunicação de massa que. das estruturas. A ideologia do capitalismo não é apenas uma opção. desejáveis e indesejáveis. acaba sendo um acaso derivado das tantas falhas necessárias da subjetivação capitalista. De modo geral. Nesse sentido. na naturalização do próprio Estado. de modo material. então. Neste último caso. é o mesmo que se deu. Por isso. mas a única possibilidade que esta sociabilidade apresenta ao se armar. A Europa. são grandes ou quase incontornáveis as dificuldades para o campo da luta socialista no que tange ao clamor por sufrágio ou pela vontade dos indivíduos em encaminharem-se ao progressismo. a democracia e a vida política. são dependentes das formas. Dentro da democracia. assim procedeu para realinhar-se ao capital agora controlado pelos EUA. o louvável abrir-se de alguns indivíduos. nem avançam por moto próprio nem resistem a crises e a investidas regressivas. As lutas de esquerda. em moldes neoliberais. não operam num campo de convencimento de cidadãos que pudessem dispor de suas vontades. no campo da exploração econômica. E ela opera. Os arranjos da distribuição. uma autonomia da vontade dos indivíduos. mas os arranjos da própria produção. mas quase sempre inescapáveis do silogismo previamente erigido. da dinâmica. o valorar. Em termos econômicos. com as . passaram a não postular o horizonte da superação da sociabilidade capitalista. inconsciente. cria amigos e inimigos. forma inclinações políticas de acordo com as classes e os grupos. das contradições e constrições do próprio capital. Isso é parelho do mesmo processo de naturalização. em linhas gerais. sim. mas. no pós-guerra. É porque a ideologia é material. dentro da própria lógica de acumulação. demanda ainda forte intervenção dos Estados. ainda mais forte. às lutas distributivas correspondeu um processo de modernização capitalista. O saber. Então. cultural e valorativo são dinâmicos no seio dessa totalidade. Variadas formas de intervenção estatal foram-lhe necessárias. Dado o enfileiramento de pressupostos socialmente instituídos e formalizados.

no limite. um ensejo para uma desestabilização de mais alta monta. –. eventualmente. permitindo. é preciso avançar para reposicionar as relações sociais. as contradições não resultam em movimentos suficientes de superação. mas todas essas oposições são reconfiguradas e. É verdade que o presente herda da história uma série de oposições já anteriormente assentadas – brancos contra negros. católicos contra protestantes. Elas põem a nu as falhas da sociabilidade do capital. Também o mesmo com a luta de classes.5 sociedades capitalistas periféricas que empreenderam revoluções em nome do socialismo. Como as formas sociais do capitalismo são constituintes da ideologia presente. as crises podem se revelar. governos que caminham à esquerda. Não necessariamente resta um virtual fardo ontológico do trabalho ao trabalhador numa sociedade pós-capitalista. burguesia e classe trabalhadora não têm nenhuma natureza extrínseca ao capital. pela contratualização de si e do mundo. conflitos e antagonismos que são sempre. dada a força das formas sociais. para os quais a crise do capital é entendida como provisória. passando por tantos países do então chamado terceiro mundo. O segredo da mercadoria é também o mesmo segredo das lutas. conflitos do capitalismo. mesmo as crises estruturais do capital não costumam ser capazes de. pela acumulação. que sempre bate mais violentamente e primeiro nos Estados periféricos. adstrito a alguma ideologia de acumulação e. No mundo capitalista central. como alguns da América do Sul. O capitalismo não apenas enseja a luta entre as classes como. Assim sendo. no entanto. muçulmanos e ateus. já de há muito atravessa fronteiras e se situa em regiões centrais do capitalismo. A contestação à própria lógica do capital é mais vista nos espaços periféricos. sob risco de fazer tragar os passos distributivos quando da reação político-econômica que sempre lhe campeia de modo contrário. A crise do capital. ensejar uma avassaladora luta crítica e superadora da lógica da mercadoria. pela apropriação privada. dos conflitos e dos antagonismos no capitalismo. Da União Soviética até chegar à China. Assim sendo. descamba em fascismos e xenofobia. constituídas de modo específico. são todos. em outras variáveis. o capitalismo gira em torno . Na atualidade. O sujeito autônomo é o autômato perpassado pelo capital. apenas em razão da infinita coletânea de mercadorias que dá sentido e forma aos sujeitos. inserem-se plenamente no sistema geral do capital. por si só e de modo proeminente. via de regra. A subjetividade se arma como núcleo pelo qual passa a circulação mercantil. Daí. os termos da própria acumulação de capitais. na verdade. no capitalismo. A luta de classes O capitalismo é plantado em contradições. no entanto. Se é verdade que o receituário tradicional de intervencionismo estatal é o primeiro momento de toda política de esquerda ainda na atualidade. dado que o modo de produção capitalista se toma aí como naturalizado. que nos centrais. a crise. em boa parte dos casos. Por isso. pois. um rompimento das cadeias ideológicas e uma maior força política de contestação e mesmo de superação. cristãos contra judeus. sempre. Em tais espaços dominantes. o intervencionismo estatal. submetido às suas formas sociais correspondentes. o movimento do capitalismo de Estado repôs. razão pela qual explode então a luta. mesmo que forçando peculiarmente sua distribuição. em algumas ocasiões. com a sociabilidade capitalista. constitui as próprias classes. homens contra mulheres etc. De tal espaço insigne dentro do contexto neoliberal mundial. ainda está. nos quais o capitalismo sempre foi a estampa do horror. ele deve se acelerar rapidamente para uma alteração dos padrões de relação das massas com o poder e o controle social. Mesmo assim. do racismo ao machismo. inconciliáveis. ao seu modo. quando supera estreitos limites neoliberais. Capital e trabalho assalariado se erigem.

os movimentos sociais e populares. a separação entre as classes e os grupos. É a forma da mercadoria que erige a forma política estatal.6 da subjetividade. Da gerência ao assalariado e ao lúmpem. não faz com que as relações sociais operem em grau distinto daquele dos indivíduos em interação isolada. até mesmo quando se apresentam como negativo da ordem estatal. grupos e classes pedalam uma bicicleta que nunca pode parar. Enredados no torvelinho de uma miríade de constantes relações sociais de exploração. quase sempre. ainda que para dosá-la de modos distintos. A dificuldade de superar o mundo da mercadoria por meio das matrizes da união dos despossuídos do capital – partido político. sindicatos. do governo ou do burguês. as relações de produção capitalista ensejam. difuso ou coletivo. Se as subjetividades se armam com direitos subjetivos que se transacionam sem fim. antagonismo e concorrência. A forma-sujeito é capitalista. então. que tal processo se instaura. nem tampouco pelo sujeito ou pelo arranjo de suas quantidades. constituindo daí o mundo das mercadorias. – reside no fato de que operam mediante formas sociais necessárias do capital. como seu motor contínuo. Não é pelo Estado nem pelo direito. os sindicatos e os partidos políticos. desempregadas ou despossuídas de outro. A consciência. a formação de partidos políticos para as disputas eleitorais. apenas agora em plano social. fazendo aquela pender desta. Só a superação das formas sociais permite o . é somente o capitalismo. desconhecendo-se parcial e seletivamente o exterior. A concorrência de todos contra todos e de tudo contra tudo separa os detentores do capital de um lado e as grandes massas trabalhadoras. a união de indivíduos em classes e grupos. Ocorre que. Tal qual o direito privado deu conta de se atualizar em direito público administrativo e em direito do trabalho e direitos sociais. Sendo resultantes de um processo sem fim de exploração do trabalho abstrato. A nação. mas isto só pode se dar com o desarme dos próprios fundamentos da sociabilidade da mercadoria. operam em favor da mesma sociabilidade que os constitui. a boa-vontade ou até mesmo a união dos indivíduos em partidos. A representação sindical. Luta-se num espaço social delimitado. em manejos com os mesmos direitos subjetivos. a subjetivação jurídica procede exatamente do mesmo modo com o partido político e o sindicato. porque ele dá unidade territorial às lutas dentro de um espaço dito soberano. no paradoxo de que a autonomia exuberante e plena do sujeito é também sua insignificância pessoal. e mesmo a eventual consciência e a gana de luta daí advindas. resultam. a formação de classes e grupos. as classes e os grupos são talhados e têm por razão de sua identidade imediata exatamente as próprias relações de produção capitalistas. grupos ou mesmo massas e multidões. nessa forma específica pela qual se constituem. mesmo de esquerda. os indivíduos. movimentos. Daí. A subjetividade é o núcleo das explorações e das dominações do capitalismo. o capitalismo gera. organizações não-governamentais e os meios jurídicos e políticos institucionalizados para a movimentação das lutas são forjados pelas formas sociais necessárias do capital. num processo de contínua subjetivação. Pelo Estado e pelo direito. passa o processo de subjetivação dos próprios grupos e das classes. o limite das lutas distributivas de partidos e movimentos sindicais e populares é a acumulação. Por isso. ao mesmo tempo em que se funda na subjetivação das relações sociais – sendo a subjetivação jurídica um de seus momentos centrais e decisivos –. a amarração de grupos sociais. cuja forma social se estabeleceu quando da subsunção real do trabalhador assalariado ao capital – ou seja. A causa da existência de classes e grupos. também. O limite do ganho é a acumulação. nas condições plenas do trabalho como mera mercadoria –. quando isso é mesmo possível e não passa de jargão. A superação do capitalismo é a superação das classes. é um elemento de identidade que dá sentido tanto aos burgueses quanto aos trabalhadores. sindicato. ONG etc. quase sempre.

pois. impossível ou infrutífera a palavra da crítica. meios de aglutinar e ensejar forças maiores que possam desaguar em lutas socialistas. A palavra da esperança A desesperança é a melhor esperança de nosso tempo. A palavra da crítica é a negação de tudo isso. mas tem um alto potencial de ser tudo nesses mesmos termos. A palavra da constatação crua e cruel sobre a natureza do capitalismo e de suas vertentes – mesmo as de esquerda intervencionista e de bem-estar social – é o que permite repor o socialismo como distinto do capitalismo. revelando-se. todos os indivíduos e mesmo suas vanguardas são o que foram constituídos. agora então seriam capazes do novo. Vende-se a si mesmo sempre. Por isso a constatação do impasse estrutural é também. para terem que um dia se acabar. de início. o capitalismo se estabelece como a interpelação máxima do sujeito para a sua total insignificância. Nelas. articulações e forças distintas. apto ao amor. As formas sociais do capitalismo só têm razão de ser na acumulação e só portam exatamente exploração e dominação. na medida em que por eles podem passar práticas distintas daquelas da lógica da mercadoria. não para apenas existirem mediante as formas sociais do capitalismo. No entanto. na sua miséria pessoal ou na sua traição a impossibilidade de avançar. O positivo é seu próprio negativo. do partido e do governo estatal. sindicatos. Somente reconhecendo que as formas da sociabilidade capitalista são contraditórias. são ao mesmo tempo espaços de relações sociais. nesse mundo. à tecnologia. políticas. Se os partidos progressistas radicais. que é exatamente todo o mundo de todos os sujeitos. a criar filhos. movimentos populares críticos e radicais e mesmo lutas deflagradas só podem ser plenos se se articulam para fins não imediatos. para a exploração. a superação das formas sociais do capitalismo só pode ser feita numa saída relacionada a estas próprias formas. A palavra da crítica ao capitalismo. pela via da representação dos trabalhadores. de modo inesperado. é nada em termos de referência e sentido. culturais e valorativas fundamentais. gera a incorporação das lutas à lógica da mercadoria e da acumulação. para além do capitalismo. estar preparado para os novos desafios da carreira e as novas tecnologias. os sindicatos e os movimentos populares se constituem pelas formas sociais capitalistas e nelas sempre esbarram. Partidos. a enfrentar a doença com serenidade. Mas a própria sociabilidade do capitalismo nem fecha e nem é fundada em positividades perfeitas. . mas para serem outros. isto é. para tudo isso as subjetividades são interpeladas a esperanças e ao sim neste mundo. portadoras inexoráveis de crise e de exploração e. Não reside fundamentalmente na culpa dos agentes políticos. ainda e então. mas mediante formas sociais totalmente distintas a respeito da subjetividade. escapando das repetições de tantas trilhas que só levaram aos capitalismos de Estado do século XX e também superando as ilusões de que os arranjos das formas de capitalismo. portanto. É verdade que a articulação por meio das formas da sociabilidade capitalista. via de regra. conflituosas. ao lar e ao sentido da vida. incapazes de serem distintas do que sempre foram e são. e de modo cada vez melhor. Parece então. Mas também a palavra da crítica. ao amor. para o socialismo. Seu valor está no fato de que. vender sua força de trabalho. estar atualizado na profissão. que é pois negativa ao capitalismo. se realizados com novo engenho ou combinatória. pelos dedos das mãos dessas lutas dentro do capitalismo. não encontra solo quando a materialidade das relações sociais obriga à positividade: fechar contratos. progressistas e libertárias que saltam das lutas dentro do capitalismo. Do consumo à carreira. possam sair.7 socialismo. a necessidade de se agarrar às frestas das energias transformadoras. o que não quer dizer que este se faça contra ou indiferente aos sujeitos. será então possível agir no sentido de transformar as condições presentes.

a humanidade nos mandará uma carta. narrando a chegada a sociabilidades superiores. esta carta ao socialismo terá encontrado seus derradeiros destinatários. O capitalismo porta crise e esta. ao mesmo tempo e paradoxalmente. O socialismo é uma travessia para além das referências de mundo que constituem a todas as subjetividades. mentes e mãos que sintam a dor de fundo mais pesada que a dor do combate. Nesse dia. Todos os meios de comunicação de massa. Tal qual é impossível estabelecer uma sociedade amorosa em nosso tempo. A palavra da crítica é o fermentar de horizontes. Que encontre corações. Mas a luta pelo socialismo demanda uma materialidade mínima suficiente. Sua crítica persiste num campo no máximo reformista. todos. setembro de 2014. o não da luta socialista é libertador. Mas. que sua candidatura seja o grito de alerta. os partidos. São Paulo. os Estados. Querida Luciana: em face das contradições e aflições do mundo. Se a exploração capitalista se faz pelo sim. O gosto pela estética do novo a todo momento. Ela há de envolver a descoberta de trilhas e de ações que deslindem novos sentidos. a intelectualidade. A dor de combate socialista descortina e. se sói ser tragada pelas mesmas formas sociais que a geram. no entanto pode explicitar as falhas da própria sociabilidade do capital. pela dor de fundo da lógica da mercadoria. . que deságua sempre em sujeitos que pareçam diferentes do que aí está. só pelos escombros desta sociedade se erigirá outra. é também impossível erigir o socialismo a partir daquilo que o capitalismo apresenta. as universidades. não dão o passo para a superação do capitalismo. Que ecoe por todo um país e pelo nosso tempo. os sindicatos e os movimentos populares. de modo parcial. Dos escombros e da luta contra o mundo da mercadoria pode surgir um dia em que a exploração do homem pelo homem tenha fim. as empresas e. as religiões. portanto. a tentativa e o encontro que farão com que a palavra da crítica gere a ação transformadora. tem potencial de fazer algo distinto germinar nos sujeitos perpassados. revela somente mais uma faceta da estética da mercadoria. a falha. Brasil. Então.8 É o acaso.