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The John D. and Gatheríne T Mac ArLhur Foundation

DED -- Deutscher EnwicMungsdlenst

Jorge Vivan

AS-PTA II ASSESSORIA E SERVIGOS A PROJETOS EM AGRICULTURA ALTERNATIVA

LI E EDITORA AGROPEC

1998

CATALOGAÇÃO NA PUBLIGAÇÃO

Ficha de calalogaç'o CRB 1 10-733

elaborada por Inês Maria de Gasperin

V855a

Vivan, Jorge Luiz Agricultura e Florestas : princípios de uma interação vital I Jorge Luiz Vivan. - Guaíba :

Agropecuária, 1998.

ISBN 85-85347-23-6

1. Agricultura - Florestas- Interação. I. t.

CDU 631.630

Capa: S. Miguel. Projeto gráfico: PF Propaganda Ltda. Impressão e acabamento: Metrópole Indústria Gráfica Ltda. Ilustrações: Jorge Luiz Vivan

AS-PTA - ASSmSORIA E SERVIÇOS A PROJETOS EM AGRICULTURA ALTERNATIVA Rua da Candelária, 9 - 6O andar - Centro Fone: (021) 2538317 - Fax: (021) 2338363 E-rnail: aspta@ax.apc.org 20091-020 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

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Agradecimentos

A Jean Marc e à AS-PTA pela confiança durante todos estes anos, e a todos que me estimularam e aju- daram a tecer as idéias e os fatos que estão neste livro.

Dedico este livro a meu pai, pelas aulas de geografia pelas estradas do Brasil, à minha mue pela sensibilidade para entendes as coisas, e a meu avo Germano por cada dia mmavilhoso da mida hfância que passamos Juntos em meio às arvores. In memorim àIda Marconm Mvm.

0 Autor

Jorge Luiz Vlvan é engenheiro agronomo formado pela Universidade Federal de Pelotas, em 1983. Trabalhou no antigo projeto Tecnologias AlternativaslFASE-ES de 1986 a 1989 na sistematização, avaliação e difùsão de tecnologias alternativas no Estado do Espírito Santo. Após uma breve passagem pelos sistemas agroflorestais de Ernst Gotsch em Piraí do Norte, BA, assumiu em 1990 como extensionista da EMATER-RS, no município de Ipê, RS, onde ajudou a consolidar e expandir o trabalho em agricultura ecológica iniciado pelo Centro Ecológico - Ipê e que se tornou uma das referências nacionais em agroecologia. Em 1994, a convite do AS-PTA Nacional e sob licença da EMATER-RS coordenou a implantação do Centro de Fomação em Agroflorestas - Jatobá, trabalhando associado ao idealizador dos sistemasagroflorestaisregenerativos análogos, sn:Emst Gotsch. Retornando em 1996 à EMATER-RS, assumiu como Assistente Técnico Regional no Escritório Regional da Serra, com sede em Caxias do Sul, RS, numa área que abrange 42 municípios, onde assumiu a coordenação de programas de recuperação arnbiental (Pró-Guaíba), e desenvolveu e aplicou conteúdos e métodos para capacitação em educação ambienta1 e agroecologia. Atualmente cursa o Mestrado em Agroecossistemas da WSC, Florianópolls, SC, onde desenvolve metodologias de formação à distância de mediadores técnicos voltados para diagnóstico, desenho, implantação e avaliação de sistemas agroflorestais regenerativos, baseado em métodos participativos e de formação de conhecimento em rede.

k Editora

Durante o Segundo Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa realizado em Petrópo%ls,em maio de 1985, assisti uma conferência de Ernst Gotsch, agricultor suíço radicado no sul da Bahia, nos limites da zona cacaueira da Mata Atlântica A

experiênciade manejo florestal apresentada por Ernst era, de longe,

a mais completa em termos de aplica$" dos critérios e princípios de agroecologla mas alguns Mores fizeram com que fosse pouco valorizada, por mim e por outros, naquele momento

Em primeiro lugar, Ernst estava lidando com uma grande propriedade (500 hectares) de um capitalista suíço (sbcio de Ernst)

e enipregando mk-de-obra assdarlada Estas caracternstlcasfugiam de tal maneira ao perfil do trabalho da AS-PTA que germam uma reação automática de desconfiança quanto à adequação da proposta para o nosso publico, os pequenos produtores agricolas Em segundo lugar, o sistema de manejo florestal agre- sentado por Ernshra muito complexo e, para nossa limitada compreens5so e experiência naquela época, nos parecia de dificll ap%icagãode forma generalizada pelos pequenos produtores Foram precisos vários anos, muito aciíamulo de experiência

e muita insistência por parte do Mlaus Nowotny, técnico do DE@ (cooperação alemã) trabalhando com uma entidade da Rede PTA

no Espírito Santo, a MTA, para que eu decidisse fazer uma visita

a propriedade de Ernst em Pirai do Node O Impacto deste contato

direto foi decisivo para perceber que estava diante de conceitos e práticas revolucionárias em termos de agroecologla e que transcendiairios limites do ecosslstema onde tinham sido aplicadas Com uma precisão e rigor decididamente s~1iço,Ernst respondeu de foma mais que sabsfatória a todas as questões levantadas, fossem elas sobre a viabilidade econ6unica7exigências de mão-de-obra, eficiência -ron6mic*a, escala mlima de propriedade para apllcagão da proposta, impacto amblental, etc A questlo sobre a reprodutlbilldade da proposta, cuja complexidade assusta 5k primeira vista ficou respondida por urna

visita a pequenos produtores da região que tinhm trabdhado como assalariados de Ernst e estavam aplicando os métodos aprendidos em suas propriedades. I?. claro que estes agricultores aplicaram o "método Ernst" à sua maneira, com adaptações que spróprao Ernst, um tanto purista e muito crítico, considerava como erros ou falhas. Para nós, no entanto, isto provava que o método era reprodutlvel, mesmo se não tão rigorasamente corno desejaria o seu criador. A padir deste momento a AS-PTA decidiu investir na sistematização possível. Jorge Mvan, um dos mais bem preparados agroecólogos que conheço e também um excelente extensionista, foi ""roubado" à EMATER do &o &ande do Sul, através de um acordo de cooperação com a AS-PTA e foi viver em Píraí do Node para poder aprender com Ernst e sistem&iaar o método, buscando criar Instmmentos para sua apreensão por técnicos da Rede PTA e outros mais. O livro "'Agricultura e Florestas - princípios de uma Interação vital" é o rewltado de dois anos de esforços do Vvan e da AS-PTA. Ele apresenta os pRncípios do método com um máximo

de exemplos de sua aplicação.

É importante esclarecer que o

conteúdo deste livro baseia-se em Emst mas não pretende ser a expressão perfeita do pensamento e da pratica do próprio Ernst, Já que inclui reflexões e praticas de Vlvan e de outros técnicos da AS-

PqlA e que o Ernst vem enriquecendo sua abordagem de forma Independente deste processo de sistematização. Por outro lado, a AS-PTA pretende ir além deste acúmulo aqui apresentado e esta preparando um manual do aplicador do método (tal como o entendemos) para dar semimento ao esforço de tornar esta proposta acessível ao maior número possível de técnicos e, pofianto, leva-la à prática dos agricultores familiares de todo o Brasil.

Jean Marc Von Der Wid

Diretor-Executivo da AS-P'TA

Introdu~ão

14

Holismo e reducionismo. política e ecologia

18

A história nas entrelinhas: desenvolvimento e ambiente

19

Os dilemas do modelo

22

Da constmção do saber

23

Capítulo 1 Discutindo os dogmas do desenvolvimento

29

Civilizações "versus" natureza

30

Os sistemas vivos e a segunda lei da temodinâmica

32

As utopias do progresso

37

O homem como parte dos ecossistemas

Além do antropocentrismo Agroecologia ou simplesmente agricultura? Capítulo II

Parte 1 Conceitos e ferramentas básicas para os sistemas regenerativos Otimizar e não maximizar Da lógica linear para a biologia Potenciais e limilações Conceitos e princípios básicos dos sistemas A sucessão natural de espécies Clímax dinmico Parte 2 Aprendendo a observar Conhecendo as interações do triângulo ambienta1 Ciclos de chuvas, orvalho e neblinas Ciclos de ventos e/ou chuvas torrenciais Ciclos de radiação Variações locais no padrão pedológico Consórcios e arquitehira de espécies

.

.

.A.

Estratégias de othização da vida

Estratégias de dispersão de sementes e de interações

com a fauna

A homeostase ou auto-regulação

Buscando recursos - o conceito de '"bordas" Nichos Diagnóstico por indicadores de densidade, porte e composição de espécies

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A

renovação natural de folhas. copas e raizes

85

Critérios para o manejo da vegetação por podas.

caplnas e roçagens

O compofimento do rebrote

As diferenks reações à perda de rmos e galhos Capacidade de supofie ao dmo Ciclos de eventos

Capítulo III

9

Conhecer a realidade para poder transfomar

Para entender os sistemas atuais

Agriculturdecossistemas: a fomação das paisqens agrícolas

8 caso da Região dos Tabuleiros

Elementos de transfomação no próprio sistema vigermle Reconhecendo os mbientes e sua ocupação pelos sistemas agrícolas

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8

ambiente nahiral numa descrição acadêmica

108

Integrando a percepção popular dos ambientes

Fomação do relevo

111

Critérios locais para zoneamento de ambientes naturais

112

113

As Unfonnações agrega-se

116

Zoneamento mbienlal local

118

As ecozonas

120

1 - Mata ciliar Iiigrofila

121

2 - Mata ciliar de base de encosta ou piemonte

124

 

3

- Mata

de terra seca

125

Comentários

127

Capitulo IV

 

A

construção de roteiros básicos de sistemas agroflorestais

 

regenerativos

131

Itinerário técnico de sistemas agroflorestais

134

Sistemas para regeneração de áreas de base de encosta e mata ciliar

136

Eixos produtivos e fases do sistema

136

Instalando o sistema

139

Situações com mmejo em desenvolvimento

156

Capítulo V

 

Diagnóstico e desenho

169

Passos para um diagnóstico: um exemplo de método

171

Critérios para o plano e desenho

176

Sistematizaro conhecimento para poder ~erTeiçoá-lo

181

Infomação básica para sistematização

181

Análise economica dos sistemas

192

Capítulo VI

 

Experimentação pafiicipativa, capacitação e difusão

195

O

processo de mutirão-escola na zona cacaueira sbilbaima

"201

Desde tempos imemoriais o homem cruza- va os mares em busca de novas terras e recursos. Mas .foi a partir das viagens de Colombo, MagaEhGes e Vascoda Gama que a expansão colonialisla européia alcançou os quatro cantos do mundo. A madeirafoi

Introdução

Pergunte a qualquer um na massa de gente obscura: qual é o propósito

da existência das coisas? A resposta geral é que todas as coisas foram

criadas para nosso auxilio e uso prático!

magnuico das coisas é diário e con3antemente visto como destinado, em última inst&ncia, conveniência peculiar do gênero humano. Dessaforma, o grosso da espécie humana arrogantemente se eleva acima das inumeráveis existências que o cercam.

.] Em resumo, todo o cenário

G.H. 'Foulrnin. 7'he Antiqu~tyandDuration of the World. 1780. ed. de 1824, pág. 5 1-2. Citado

por Thornas, Keith. in O Homem e O Mundo Natural. êia das Letras, t 988.

Ecossistemas ameaçados e degradados deixaram de ser somente curiosidade de cientistaspara ocuparem foros como a ONU e FAO, há mais de 20 anos. Errabora tenha sido uma "descoberta" um tanto tardia, o fato 6 que, entre as populações animais e vegetais que habitam e dependem dos ecosslstemas, estamos nós. Seres humanos, ou de acordo com a cizncia, primatas de cérebro complexo,polegar oposto ao indicador, com habilidades desenvolvidas, brincando de destniir os recursos planetários que nos sustentam.

a base deste processo, na forma das em- barcações que eram utllrzadas e nafoya dos canhões e armas que s~~bjzkgavamos concorrentes e ospovos aulóctouaes i3 gra- vura representa as ahvldades de um esta- lerro na fiança

Embora nossa tendência inata de julgar o mundo pelos pargmetros de nossa própria espéck?procuramos neste Ilvro avmçcas um pouco além dessa visão A%inal,necessitamos de soIuq&s para

a vida, a biosfera como um todo, e não apenas para a raça humana Estarnos descobrindo aos poucos que não haverá uma "kca de Woé" tecnológica que salve apenas a espécie humana de morrer

mfocada em seus próprios resíduos, e a cada espécie que se extingue diminuem nossas possibilidades de futuro

O Morno Aapjens saplens, apesar de, originalmente, não

pe~encera determinados ecosslstemaç, ocupou-os de forma gene- ralizada ao longo do tempo histórico Rndo mantido populações relativamente estáveis durante mais de oito mil anos, os aíttimos 1 000 anos viram a população mundial de seres humanos saltar, ern naímeros aproximados, de menos de 300 milhks por volta de 1 000 d C para os atuais 5,5 bilhões1 Mas não 6 apenas o incremento demográfico que nos preocupa Densidades populaclonais elevadas e localizadas podem jhtter causado problemas no período pré-incalco para determinadas civilizações Porém, a longo prazo e numa escala completamente diferente da atual Trabalhos de Demografia Histórica da escola de Berkeley fixaram as estimativas de habitantes para o México Central por volta de 1518 em torno de 25 200 000 babitaMes2f

"

Compilado da obra de Johi Perlin. AH~storiadas Flo- restas' Universidade da Califórnia, Sta. Bárbara, Ribli- oteca de Coleções Especiais.

Esses espaços foram densamente ocupados por apresen- tarem possibilidades excepcionais de obtenção de recursos Esse fato, aliado a uma afinada tecnologia de conviv6ncia e otimização desses recursos, transmitida ao longo de séculos, é o responsável pelas centenas de anos que esses ecossistemas suportaram densos assentamentos humanos No entanto, Isso nib impediu que eventos geoclimáticos, Invasões expansionistas e ambição desmedida eventualmente minassem essa base cultural e tecnológica, contribuindo para a * decadênciadas sociedades do passado Muitas vezes, urna sobrevida foi obtida graças ao expanslonismo Sociedades militaristas e centralizadas colonizaram novas terras e submeteram outros povos

e seus recursos, como a cultura tecnológica e riquezas naturais Dentro desse espiríto, a era das navegações trouxe uma sobrevida à decadente Europa do final do século XV As conquistas serviram como válvula de escape em relação à degradação ambienta], escassez de recursos e concentraçk demográfica

O processo de expansão coloniallsta começado na era das

descobertas ainda não terminou Analisando a progressiva e

assustadora capacidade humana de degradação de recursos dos ecossistemasao longo da hlstória da humanidade, podemos levantar alguns dos principais pontos que a ti?m causado. Vejiamos:

0s e@los

diretos úla presslo demogrdfica localizada

sobre os ambientes9reclikzindo ou eliminando recurso~florestais~ minerais9de dgua, solos e pastagens naturais.

F~gura2 mostrando feniclos cortando cedro, que era exportado para o Egito Os recursosJlorestaisforam, desde o ber(íoda c~v~lrzaçãooc~dentafum recurso capaz de mobilizar guerras. tratados e gerar a n- quem das nações, eventualmente, levadas a decadência pelo mau uso desses recursos

As consequencias microcllmáticas em alguns casos foram e continuam sendo drásticas. Áreas ocupadas por sociedades mercantilistas e militaristas muito antigas, como grande parte da Ásia, nofie da Africa e Mediterrâneo mostram registros claros da ação humana modificando e extinguindo fauna e flora, e causando mudanças rnicroclimáticas,principalmente, desertos e semi-aridez3.

dbs efitos da colonizaçlo de ecossistemaspor populações estmnhas ao ambiente e 2 cultura autdctone.

A arrogância da cruz e da espada chegaram ao Novo Mundo com toda a bagagem de animais, plantas, doenças, vestimentas, arquitetura e língua do Velho Mundo. Como quem ocupa um terreno baldio para instalar sua casa, jardim e horta, os europeus simplesmente transferiram seu how-how para o Novo Mundo, com seqüelasIrreversíveispara todo o sistema vivo original, incluindo aí os seres humanos dessas nações.

O tipo de organização social e a ideologia que move a sociedade, e a tecnologia de manejo de recursos como eacpressão de cadafase da orgaszizaçlo social,

nas sociedades da Mesopotâmla, por volta de 3.500 a.C., seja, há mais de 5.600 anos havia relatos de expedigões de "caça" aos povos nômades que habitavam as encostas montanhosas. O homem recém inaugurava a agricultura, o mercado, a acumulação e a escravidão, e os povos caçadores-coletores do período neolitico, expulsos das terras baixas, eram perseguidos para escravização ou eliminados, quando os recursos necessários (como a madeira ou novas terras) estavam em áreas por eles habitadas. Portanto, fica claro que a transformação dos ecossistemas não pode ser levada de modo isolado do contexto histórico, social, cultural, político e econômico das populações humanas envolvidas.

ou

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L

As informações que apresentamos aqui são frutos de obsewações praticas e princípios cientificamenteembasados. Como ressalva, reconhecemos as limitações da ciência convencional em compreender as interações dos sistemas vivos. Esperamos também, ao longo do texto, mostrar ao leitor que os interesses humanos não são antagonicos aos "interesses" dos sistemas naturais. Pelo contrário, podemos nos perguntar se haverá futuro para a humanidade num planeta só de seres humanos

e suas plantações. A resposta, sem dúvida, está no fato de que nós

somos parte da "fauna": uma população em desequilibrio que busca seu lugar dentro do coletivo da vida. Reequilibrar a presença humana no planeta é uma saudável utopia. Mas uma utopia em constmção, e não apenas realizável como necessária. Gomojá colocamos, a sustentabilidade ou mesmo

o fùturo da humanidade passa por uma revisão profunda em termos de organização da sociedade em todas as suas expressões. Aqui iremos tratar de uma pequena parte, que é a agri- cultura, e dentro dessa a compreensão dos processos da sucessão natural de espécies como base de ferramentas tecnológicas. Os métodos participativos orientam a geração e difusão dos sistemas técnicos. Através desse processo, podemos harmonizar nossas intervenções de modo que a regeneração de um ecossistema seja ótimo para os recursos de que necessitamos e para a vida como um todo. Não estamos buscando o málcimo de recursos por um curto período de tempo, mas sim o ótimo sempre.

Para chegar a esse objetivo, procuramos aqui e no trabalho de campo que originou estes escritos estimular e agregar saberes. Isto foi feito através do individual e do coletivo, no âmbito popular

e acadêmico, reavivando memorias e trazendo informações que motivem as pessoas a buscarem seus caminhos neste processo de

constmção de uma nova agricultura.

-- -- Como parte inseparável dessa estratégia, objetivamos também que o processo civilizatório supere o dogma secular que nos colocou "no centro da Criação". E dogmas só podem ser superados na prática, através de

Oniversidade de Chicago, Jnarifuto Orienrai ('ompiludo de Perlin John Historia das Florestas a imporrãncia da madeira no deaenvolvimenro da C~VI~~ZU~ÜL)RIO de Janeiro [mago~d 1992

atos que mostrem que o que é bom para a sociedade humana pode

e, obrigatoriamente, deve ser bom para o conjunto da vida

Essa é a nossa porta de entrada para o futuro possível, onde o homem deixe de ser o sabotador de seu próprio sustento, e incorpore em sua vida diária a interação otimizada com o ambiente que nos sustenta

Quem sabe, assim Ifckçamos jus ao polegar oposto as indicador, às habilidades e ao Intelecto desenvolvido que consideramos possuir.

Holismo e reducionismo, política e ecologia

O clichê máximo do movimento ambientalista ""pensar globalmente, agir localmente" contém uma verdade hoje cada vez mais aceita. A abordagem holista, que busca o todo para entender as parles, de ""cima para baixo", quando integrada a uma visão reducionista, malitica, de '%baixo para cima" pode produzir grandes resultados Sem dúvida, a visão reducionista hoje domina quase que exclusivamente, o cenário cientifico, principalmente, nas ciências qrárlas, chegando a não considerar ciência o que não tenha passado pelo analítico e pela expenmentação indutlva. Porém, é no encontro com a abordagem hollsta que a especialização reducionista ganha sentido e objetividade, e é nesse encontro que se fazem os grandes avanços científicos. O bom senso, a mente aberta e a criatividadesão qualidades ftrndamentaisnuma atividade científica.Com base nessas qualidades, a humanidade tem avançado no conhecimento do mundo que rios cerca, e o embate entre reducionlsmo e holismo tem o mesmo berço do embate entre saber popular e saber científico. Na pratica, uma guerra onde o indivíduo que convenclonou-se que sabe procura convencer o outro que sabe algo que seu saber não vale, porque não foi assim convencionado. O resultado é que este '"saber institucionalizado9'torna-se um pacote medíocre e estreito. Do mesmo modo, sem a parlicipação popular, políticas ambientais globais tornam-se inócuas e dlscussivas. Para nada servem, em termos de consolidação de uma prática social, as políticas públicas que não são constmídas sem a parlicipagão e a informação que vem a partir da base da sociedade. Essa tem sido a preocupação central das organizações envolvidas com o desenvolvimento sustentável e a agroecologia, desde o inicio dos anos 80, e foi a base deste trabalho. Porlanto, consideramos que as informaçks contidas na tradição oral e relatos históricos, juntamente com o interesse e

Limites etnogeogr&ficosna

Mata de Aaaucárias

Marcas que eram gravadas na casca das araucáriaoi pelos Endios Coroados QRS),dernarcankk@seus territhricss de coleta. Extraído de

Mabilde, P.F.A.Bootli.Ap»ntame~?tosSobre oslndigenas Selvagens da Nação Coroados dos Matos da Provinela do RIOGrande do Sul. TBRASMró-Mcmória/ZNE. 1983

respeito ao saber popular, são preocupações centrais e ao mesmo tempo instmmentos de nosso trabalho. Sem eles, dificilmente, chegaríamos a desenvolver propostas realmente factíveis, apropriáveis em seus princípios pelos agricultores.

A história nas entrelinhas:

desenvolvimento e ambiente

A história oficial é escrita de modo a relatar a glória dos poderosos, os feitos militares, as obras e monumentos, a Arte e a Filosofia.Porém, entre dominmtes e dominados, uma outra história poderia se3- escrita. Desde pelo menos 30.000 anos atrás, os seres humanosjá atravessavam os continentes em busca de recursos para sua sobrevivência. Desde então, o que aprendiamna sua convivência com o ambiente era transmitido para as próximas gerações. Desse tempo profundo em termos de escala humana, chegamos ao passado relativamente recente, dos colonizadores do Novo Mundo. A pafiir de 1490, eles trouxeram para a "'Aniérica", junto com a sua esperança de dias melhores e a ganância por ouro e pedras preciosas, uma enorme bagagem. Nela, vinham a religião, a língua, plantas, animais e doenças, que eram um conjunto que vinha sendo acumulado e transmitido ao longo de gerações. Sem conhecer essa bagagem, nunca sabe- ríamos a origem de seus atos, a lógica de suas ações e, a trajetória que os levou até o Novo Mundo, cruzando um oceano desconhe- cido. Também não tedamos como avaliar a herança que deixaram na sua passagem, dominação e instalação nas paisagens e culturas das Américas. Ainda, não teríamos como analisar nosso presente. Quem somos nós, qual foi nossa trajetória? Os colonos italianos que chegaram ao sul do Brasil, em 1885 dermbaram araucánas (Arazccarla a~;~gustfolia)de mais de 3,00m de diâmetro e 451x1 de altura, visando o plantio de trigo, cujas sementestrouxeram da Itália.Na mesma área, relativa (600m2) à copa de uma dessas árvores que produzia mais de 300kg de pinhões por ano por árvore, menos de 60kg de trigo eram colhidos. Embora esse cálculo não traga de volta as árvores gigantes de mais de 1.000 anos de idade nem os povos autóctones que delas dependiam, podemos hoje entender as causas primárias dessa incoerência.

Do mesmo modo, poderíamos entender o porquê das tribos que habitavam estas regiões do sul do Brasil praticarem controle populacional, mantendo populações estáveis e territórios bem determinados de coleta, com marcas nas arvores. Alnda, o porquê da profunda revolta e ódio que nutriam pela invasão colonial e pela dermbada das florestas que os sustentavam. Filhos e netos daqueles colonos europeus que chegaram a partir de 1500, num corte, de amostragem social que vai desde o minifundiário despojado até os atuais "barões do gado e da soja", podem hoje ser encontrados na Amazônia. Os movimentos de migração interna foram abrindo lavouras de grãos e criações de gado do Rio Grande do Sul até o Acre, penetrando a Argentina e o Paraguai Nesses lugares, sua noção de civilização marca a pai- sagem conglomerados urbanos, paisagens cobertas por pastagens

e lavouras, comércio e todos as seqitelas da degradação ambiental

e cultural que é sentida na pele pelos povos autóctones. Em substituição ao papel "orquestrador" da Companhia das Indias Ocidentais do tempo das caravelas, temos os con- glomerados madeireiros, o agribusiness pecuário e seus elos internacionais de mercado. Do migrantemiserável ao alto executivo,

a ideologia é de que é uma "missão" dar uma "utilidade" aos

ecossistemas e "civilizar" os indígenas.Maximizar o uso do recurso natural e acumular bens é tão natural na ideologia dessas regiões como respirar. Poaanto, este processo, que remonta aos tempos do embate entre Caim (o agncuhor que arava o solo, representando a revolução agrícola, e com ela a urbanização) e Abel (o pastor, representando as civilizações nômades ou semi-nômades que viviam da coleta e extrativismo e manejando os recursos já existentes) ainda não encontrou seu limite no nosso planeta. Essa "janela no tempo" procura mostrar como a re- constituição histórica de culturas e ecossistemas são fundamentais. O cenário ambienta1e cultural das populações originais nos a~udaa entender sua lógica e estratégias de sobrevivência, e contribuem para o novo conhecimento que precisamos constmir. Princípios gerais renascem num outro contexto, mas carregando consigo reminiscências de sistemas que nasceram com a própria humanidade. A história também pode ser lida na observação atual e na recuperação de dados históricos dos desertos, florestas e estepes por onde passaram as civilizações.

Nesse sentido, os avanços na informática, robotização e

tecnologia de satélites propiciaram-nos uma visão analítica e global do planeta e do cosmo em que vivemos de um modo que nossos antepassados provavelmente não tiveram. Também os avanços na arqueologia e paleontologia trazem-nos cada vez mais informações das sociedades passadas, sua organização, seu apogeu e sua decadência. Mesmo assim, estamos longe de poder reconstituir o real significado - para nosso futuro - das ruínas das civilizações que hoje encontramos. Buscando significados a partir das evidências da História, podemos afirmar que o bom senso em relação ao manejo dos recursos naturais não foi a regra. Pelo contrário, foram frequen- temente suplantados pela insensatez, pela sede psicótica por poder

e acumulação material. Esses desequilíbriosparecem ter coevoluído

e se consolidado em sistemas autoritários e centralizadores, com forte controle social e dos recursos. Poderíamos ainda arriscar que os téoricos e práticos do desenvolvimento sustentado, desde as mais remotas eras, têm se confrontado e andado a margem do poder. Esse é um desafio para as democracias de hoje. Resistirão elas ao desafio de um planeta

com recursos cada vez mais escassos? Ou será que, na iminência das crises, todos correremos ao "oráculo da ciência", ao invés de simplesmenteolhamos ao nosso redor e resgatamos o bom senso? Persistirá a humanidade acreditando que os "deuses da tecnologia"

a salvarão de modificar seus dogmas e hábitos ainda por quanto

tempo?

Enfim, é preciso aprender com a Wistória. I? consternador aceitar que discursos inflamados, dados e evidências, e inclusive leis específicas não foram suficientes para evitar as catástrofes ambientais e sociais que já aconteceram na história. Isso é um fato relevante e grave para nosso hturo. O ensino da História atém-se mais ao universo polí- tico-ideológico e econômico-militar, enfatizando figuras e per- sonagens.Não nos deixa claro como foi o gerenciamento de recursos não-renováveis pelas civilizações, no período compreendido entre sua ascensão e decadência. Porém, através de manuscritos e textos que se prestam a esse objetivo, parte dessa história esquecida vai sendo aos poucos recuperada. Já nos povos de tradição oral, essas mensagens de alerta e "códigos de conduta ambientar estão amalgamados com mitos, lendas e tabus, e podem desaparecer no processo de aculturação.

Uma informação vital a sobrevivência, como é o caso do manejo do ambiente, incorporada em mitos e rituais pode, eventualmente, enfraquecer o objetivo primordial. Uma vez que uma cultura se esvai num processo de dominação junto com suas crenças, o saber embutido nesse conjunto também se perde. Os deuses e mitos são desacreditados pela nova cultura e religião, e as informações-chave ali contidas são esquecidas ou relegadas como superstição antiga. Nesse sentido, os registros históricos dos manuscritos são diretos, embora mais frios. Através deles pudemos descobrir que, há milhares de anos, fazem-se campanhas de reflorestamento, de- bates sobre a degradação ambienta] e políticas públicas. De modo geral, o que esses achados históricos mostram-nos é que as legis- lações ambientais vieram sempre após a formalização social4 do processo de degradação, e que o povo obedeceu as novas regras enquanto houve coerção pela força. Ainda, concluímos que eram frequentes os casos de compção de funcionários, legislação em causa própna e sobrecaga dos agroecossistemas, em função de campanhas militares ou da constmção de monumentos e obras que objetivavam a perpetuação das elites no poder5 na memória dos povos.

Os dilemas do modelo

Objetivamente, a História coíoca-nos algumas questões

cmciais.

Existem possibilidades concretas de hturo para sociedades baseadas no desenvolvimento ilimitado das ambições humanas de ocupação de espaços, acumulação material e poder? Leis e técnicas preservacionistas geradas a partir do "topo da pir2miden serão eficientes para conter as populações, que almejam chegar aos mesmos padrões de consumo e gasto energético dos que ocupam os estratos ""superiores" da sociedade? Serão realmente desenvolvidas tecnologias que permitirão no futuro que o desenvolvimento mantenha-se baseado no ritmo atual de crescente déficit energético, crescimento demográfico e extinção da biodiversidade? Sem dúvida, a resposta é não. Essas são premissas que têm sua base assentada sobre uma visão elitista e antropocêntrica, que considera que as necessidades do "ser mais desenvolvido do planeta, o homem", devem ser o centro do universo conhecido.

Nos tópicos anteriores, co1ocmos alpmas das dicotomias ou antagonismos tratados como verdadeiros dogmas de nossa sociedade originada na Wevolug%oIndustrial. Vamos revê-los Civili:aç&ox Natureza, ""O homem precisa de certo modo destruir e dominar a natureza para sobreviver Afinal, todo o uiverso baseia-se na dissipaç5o de energia e tende ao equilíbrio, que é a ausência de energia. Portanto, só estamos apressando um fenomeno natural, que é a entropia do universo".

Hokisms x Redueionisíaizo. "A abordagem holista

(conhecer o todo para entender as parles) é superficial e anticlen- tifica, e o reducionismo (a partir das partes se reconhece o todo) é a única ciênQa possível". Poléllca x Ecologia. redundância do primeiro pressu- posto. ""A preservaç'o ambienta1é um born tema para um discurso, se na pratica as políticas visarem o progresso do ser humano" (mesmo que às custas da predaçk de recursos naturais). "Agricul- tura e preservação n90 podem ocupar o mesmo lugar no espaçon6 Ci2neia x Salrer Popuka-. 'TI progresso científico7só é possível se os cânones e parâmetros ewstentes forem respeitados O saber popular é ineficaz para alavancar um processo inovadorm8 Nossa expectativa ao longo da leitura 6, primeiro na parte conceitual e teórlca, e depois com dados concretos, polemizar e contra-argumentar esses dogmas, pelo menos como desafio ao leitor. Essa discuss~,embora pareça apenas filosófica, permite- nos um olhar renovador sobre problemas antigos. Este é um dos meios para que novas pe-untas e respostas possam traduzir-se em sistemas produtivos de maior sustenta- bilidade do ponto de vista economico-ambienta1 Talvez mdar as perguntas ao invés de apenas procurar novas respostas seja um born caminho. Principalmente, apreciar a caminhada coletiva da humímidade nlo apenas do ponto de vista do ser humano, mas dele como parte do tecido vivo que cobre e interage com o planeta

Da construgão do saber

Boa parle dos princípios aqui expostos e utilizados na constmgão de sistemas produtivos foram extraídos da prhtica de pesquisadores, agricultores e toda uma série de pessoas que, à sua maneira, trabalham na construçk de alternativas ao modelo atual de desenvolvimento. k dificil dar a todos os créditos devidos, como

numa publicação acadêmica, com citações de datas e autor ao longo do texto. Teríamos que incluir citações como "Malas (765 a.C.)". Afinal, determinadas práticas de manejo agroflorestal foram herdadas deles, embora diferentespesquisadores tenham se ocupado em relatá-las, e agricultores contemporâneos ainda as adotem. Mesmo assim, sempre que necessário ou relevante para o aprofiindamento por parte do leitor, procuramos ao longo do texto dar os créditos devidos.

Uma parabola da gênese do saber

Para ilustrar esta "gênese de conhecimento", imaginemos que o conhecimento é uma árvore. Ela tem portanto um esqueleto básico (os princípios), formado por raízes e ramos principais. Folhas, ramos e raízes finas renovam-se em ciclos in- fluenciados pelo ambiente externo (a contextualização do conhe- cimento). Portanto, a expressão do conhecimento é ligada ao momento de cada sociedade e civilização, influenciando e sendo influenciada. Finalmente, os fmtos. Eles são o produto e garantia de transmissão da bagagem genética acumulada neste contexto, de evolução e intercâmbio. Se não forem consumidos (o que simboliza a disseminação do conhecimento), o sistema torna-se endogâmico. Apodrecem os fnitos e as sementes permanecem junto ao tronco. Isso acontecendo, ele não se dissemina e não evolui. Os fmtos trazem na sua aparência externa a influência dos ciclos (a con-

textualização e atualização do conhecimento). Já é na semente que

se imprime e armazena constantemente a carga genktica, permitindo

que este conhecimento permaneça vivo e atualizado, preparado e adaptado para ressurgir em outros tempos. Para isto, as idéias e observações resultantes da união da teoria com a prática são para

o saber o mesmo que o intercâmbio genético e evolução em

interação com o ambiente são para a semente, modificando e sendo modificados.

Essa é uma parábola da gênese do próprio conhecimento que tem sido transmitida através das gerações. Essa metáfora sobre a epistemoiogla do saber recoloca a questão que levantamos no nosso primeiro livro, "Pomar ou Floresta". Devemos patentear esse tipo de saber, mesmo sabendo

que a relação entre ""isplração" e "aspiração" é francamente favorávej para a "aspiração" de dados, obsewagões e conhecimento ao longo da história do conhecimento? No contexto desta discussão, reconhecemos a hndamental lmponância para nosso trabalho atual do que foi desenvolvido por Ernst Gotsch e sua %milia em Piral do Norte, BA9 Como a germinação de uma semente de uma espécie que se considerava extinta, com uma história que se perde no tempo, tivemos opoflunidade de ver a teoria e pratica de sistemas produtivos de um ramo do conhecimento que é exemplar raro da áwore do saber que acompanha a humanidade desde seu berço. Nosso trabalho procura garantir hoje que esta semente de conhecimento cresça, floresça e produza novos fmtos, para que evolua e continue viva na sua trajetória, criando novas possibilidades para as relações da humanidade com os ecossistemas.

Referências

' Ver Perdas da Biodlversldade e Suas Causas. zn A Estratégia Global da Biodiversidade, Instituto de Recursos Mundiais (W),edição em português da Fundação O Boticário, 1992.

Para ir adante, ver: Cardoso, Giro Flamarion S.Modo de ProduyãoAsiático:

Nova Usita a lJm &lho Conceito. Editora Campus, 1990.

' No oeste do Paquistão, a ação humana (agricultura e pastoreio) criou o deserto de Warrapan, um dos mais conhecidos e estudados desertos "antropogênicos":

após a retirada de mais de 50% da cobertura vegetal original, as chuvas de monção não mais chegaram e as Rorestas remanescentes regrediram para uma situação de semi-aridez, que pode sustentar uma pequena fração da populagão humana quejá suslentou no passado. Na África, o deserto do Saara, por exemplo, avançou mais de 350 km nos últlmos 20 anos.

Vamos conceituar aqui "formalização social da degradação" como o ponto em que cultura e sistema político-econômico são contraditórios aos objetivos preservacionistas que ele mesmo tenta implementar de "cima para baixo", afím de preservar pontos estratégicos para a manutenção do status quo.

O mais antigo relato conhecido neste sentido está no Épico de Gilgamesh. Segundo o épico, Gilgamesh, o regente de Unik, uma cidade reino do sul da Mesopotâmia. há 4.700 anos atrás desejava fazer para si "um nome que perdurasse", através da constmção de "sua" cidade. Einbora pareça incrível e um vôo de imaginação, a região hoje árida do Crescente Fértil, próxima ao Golfo Pérsico, foi coberta de florestas. O épico conta como Gilgamesh desfiou Enlil, a principal divindade sumenana, para devastar a floresta visando a constmção da "sua cidade". O simbolismo da ambição por "deixar uma marca na história", com um megqrojeto, rompendo com o bom senso ambienta1

intrínseco aos mitos religiosos da época é incrlvelmenle atual, com a diferença que hoje não são mims que são desrespeitados, mas dados e evidências cienlificas, o que dá na mesma. Para ir mais adiante: Perlin, John. 0p.çlt. ouA

Epopéia de Gilgamesh, Mafiins Fontes, são Paulo, f992.

"a crença hndamentalista no ""cescei e multipllcai-vos", Uansf'erida corno

moto de fti da nova religião: o poder ilimitado do desertvolvlmentotecnológico.

Esse ""desnvolvimenlo" permitina no futuro we áreas minimas e poucos agricultores alimentassem, com alta tecnologia, grandes populal;ães urbanas vivendo em cidades-Jardins, cercadas por parques florestais intocáveis. A hipótese é conjunturalmente e localizadamente possivel, ernbora os fatos mostrem que é insustentável. A crise da agricultura nofie-americana, a chuva ácida destruindo resewas florestais e as nuvens radioativas geradas em Ghemobyl contaminando a flora e fauna dos países escaudinavos nos lembram muito mais os celiános de pesadelo httrrisrsa de degradação ambienta] do filme "BBlade Runner", rodado na dkcada de 80 pelo diretor IZldley Scott do que os quadrinhos otimistas do personagem Flash Gordon, escritos ainda nos anos 50. Neste último, o único problema não resolvido pela tecnologla nos cenários futuros era o sempre eterno embate entre vilães e heróis.

' Rara ir rnals ad~antever Muhn, Toanas A esbutura das ievoluçijes clenb@cas São Paulo Perspectiva, 1987

'Qw belo tema de drsputa sofistica nos trazes, Ménon, é a teoria sega~ndoa qual não se pode procurar nem o que se conhece nem o que não se conhece o que se conhece porque, conhecendo-o, não se precisa procurá-lo, o que não se conhece porque nem se sabe o que se há de procurar" Platgo, citado por PJlonn, Edgar O Método 111 0 conhecimento do conheclmenlo/l hblicaçks Europa- Aménca. 1986

Dentro deste espírito e r-iuma relação que vem desde 1988, a Assessoria e Projetos em Agricultura Alternativa, (AS-PTA) manteve uma equrpe em Paraí do Norle. Mata Atlâmlica Sul-Baiana, de janerro de 1994 a março de 1995 Esta equipe (de 3 pessoas) ~nstalouáreas produlrvas, srsternatizou dados e os difundiu para agrrcultores e t6cnicos

83 apoio velo da organrz-50

D and CathcTine T MacArthur Foundatiori e da organização governamenhl

alemã DED (Deutscher Entwrcklungsdrenst), e o trabalho foi sed~adsem uma área vizinha à Fa~endaTrês Cohnas, ernpreend~mentotmplaritado a pafllr de 1984 pela farnílra Gotsch

A localização da e-genência deveu-se ao fab desta fazenda Wresenlar sistemas

produtivos reconhecidos a nível nac~onale internacional

fonte de insprração para mtervençães nas condições da Mata Atlântica, num

sentido bastante nnovador

Analisados os princípios que orientavam estes sistemas, foi fácil concluir que eles continham elementos de avançii em relação ao paradigma que doanina a agricultura e a própria agrossilvicultura. Ainda, que estes princípios extrapolavam os limites do ecossiskema no qual estavam aplicados.

O trabalho visou então a avaliação, sistematizaç2o e dihsão dos sistemas técnicos para organizações e agricultores, sendo ob~etivofundamental sua reprodução nas condi~ãesda pequena propriedade típica da região. Gomo parle

não-governamental norte-americana The John

como exemplo e

do processo, foi necessária a montagexn, nma área vizinha ao local, no penodo de setembro de 1993 a maqo de 199.5, de uma estmtura para capacitaqão. incluindo 2,s ha de áreas expenmentals-produtivas. Esse processo possibilitou um aciimulo de experiências que permitirão, sem dúvida, dar um salto de qualidade nas intewenções das organizaçks que se benenciaram e beneficiarão da experiência como um todo.

Sem mais participar diretamente do controle da área, a AS-TA segue nas atividades de difusão e acompanhamento de experiências junto a várias organizações que acompanharam o processo. Muitas delas adotaram os princípios de manejo de sucessão em suas propostas técnicas, o que teni contribuído para um enriquecimento progressivo dos princípios em si, através da ampliação do raio de dihsão e mesmo da ótica de adoção. Este é, sem dúvida, um resultado imporlante e foi uma das principais metas do trabalho.

Assim, cada novo gmpo de técnicos e agricultores que se apropria da idéia materializa estes princípios em sistemas inovadores em diferentes ecossistemas, com as principais caractensticas que objetivamos, ou seja:

- aptos a fazer face à realidade do produtor e a buscar transformá-la sendo produtivos, biodiversos, conservadores de energia e economicamenteviáveis.

A proposta tem tido resultados sociais e ambientais práticos consideráveis nos

casos em que foi adaptadia e adotada, ma vez que o método prevê a regeneração de fauna e flora com retornos econ6micos de curto, médio e longo prazo.

Portanto, embora o trabalho inicial enfocasse com mais detalhe as condições

da Mata Adântica Sulbaiana,os princípios embutidos têm sido. como relatamos

acima, apropriados por técnicos e agricultores em vários ecossistemasdo país. Deste modo, procuramos contribuir à teoria e prática dos que estão kngajados na constmção de propostas práticas que somem para um projeto global de

desenvolvimentorealmente sustentável.

Capítulo I

Foi sempre necessário muito mais imaginaçdo para apreender a realidade do que para ignorá-la.

.I. Giradoux. Citadopor Morin, Edgar. in O Método 11. A vida da vida. Europa América,

1980.

Num dia como hoje, percebo o quejá disse a você umas vetes: não nada de errado com o mundo. O que está errado é a nossa maneira de olhar para ele.

Ehry Miller. A Devi1 Ui Paradise. Citadopor Lovelock, James. As Eras de Gaia, Campus,

1991.

Discutindo os dogmas do desenvolvimento

Sem discutir o nosso -'paradigma", ou seja, o conjunto de idéias que pemeia nossa sociedade, seria dificil entender o conteúdo deste livro As propostas que contém acabariam como "receitas tecnológicas". Uma vez postas em prática fora do contexto, resultariam inócuas e desanimadoras. Portanto, a discussão que segue, mais do que uma potemização teórica, constitui a base da abordagem prática que pretendemos. Resumidamente, é avançar além do antagonismo clássico entre preservação e agricultura.

Civilizações "versus9' natureza

Certamente, a raiz da agricultura constituiu-se no ato de observar como a natureza regenera as formas de vida, após ciclos que a restrinjam Essas restrlgks momentâneas podem ser causadas por eventos como falta ou excesso de umidade, falta ou excesso de radiação (luz e cdor), falta ou excesso de nutrientes Eventos geoclimáticos tarabém contribuem para restrições iriomentâneas, como vendavais, imndações, fogo, vulcanismo, movimentos de solo, etc Utilizando a radiação solar, o banco genético de sementes

e espécies, a umidade e os recursos minerais e biológicos do solo,

a vida logo retoma seu fluxo e readquire sua complexidade,

adaptando-se às novas situações e recrimdo a si própria. Provavelmente, a imitação desse processo, que chamare- mos de sucessão natural de espécies, deve ter contribuído para Inspirar as primeiras formas de intervenção nos sistemas naturais visando a obtenção de produtos de interesse humano. Podemos então afirmar que o quanto intervir e o como intervir nos sistemas naturais formou o refinamento da tecnologia

e mediou sua sustentabilidade Mnal, exemplosnão faltavam:todos os seres vivos modificam o ambiente e por ele são modificados. Podanto, tentar entender a dinâmica de ciclos climáticos e de sucessão de espécies afim de obter recursos é uma Idéia que sempre existiu e que sobreviveu em exemplos ao redor do mundo, em vários ecossistemasl Desse modo, agricultores e populaçâtes inteiras, ao longo dos séculos, têm baseado seus sistemas produtivos na imitação da dinâmica sucessional do ecossistema original. Acompanhando os ciclos e padrões observados, encontram os momentos precisos para Introduzir ou suhtituir plantas e espécies, de modo a compor os seus "agr~ecossistemas~'~. Um exemplo c1ássIco de adaptação desse princípio foram os cultivos anuais de grãos em áreas periodicamente alagadas, como deltas de rios. No Sudeste da Ásia, a compreensão dos padrões de inundação e estiagem, com fedillzação pelos sedimentos do rio propiciou a domesticagão e cultivo de uma graminea com grãos comestiveis 6 arroz (Oryza sativ~).8 manejo do sistema natural deu origem à rizicultura irrigada. Dentro dessa origem, a maior parte dos sistemas ancestrais de cultivo de arroz nessas regiões era basicamente conservadores de energia e otimizadores de recursos.

Infelizmente, a ideologia que dominou foi a de maximizar a utilização dos recursos naturais A visão que herdamos é a de que os recursos naturais são bons quando se pode transformá-los de modo linear em dinheiro, ou alimentos e dinheiro Nessa vis", uma floresta é um recurso somente quando é possível extrair toda a madeira e cultivar o solo, transformando-o em pastagem, cuLtivo de grãos ou pomar Padrks rígidos de desenvolvimento e cultura alimentar não se preocupam em questionar a sustentabilidade do processo em relação à mdmça de ambientes Esse tem sido o paradigma de multas civilizações, eventualmente, levadas i decadência por não conseguirem seguir adiante baseadas nessa concepção Podemos dizer que, mediada pelas condições ambientais, culturais e políticas de cada povo, a tentativa de Imitar a natureza produziu a tecnologia e os sistemas agrícolas, com emos e acerlos Analisando a História, obsexvamos que o belicismo expansionista e o mercantllismo, muitas vezes apoiados por convenientes religiosas, Influenciaram de modo negativo a balança do manejo de recursos naturais na trdetóna das civilizações e) resultado em geral foi uma pressão insustentável sobre os recursos, levando ecossistemas inteiros ao colapso, e Junto com eles as ambições das civilizações neles baseadas3 Na verdade, do colonialismo mercantil e expansionista do tempo dos gregos e leeníclos aos mercados mundiais de hoje, nada mais temos do que a ampliação de uma ótica muito antiga Em outras palavras, continua sendo vital conquistar novos espaços para obtenção de recursos, utilizando para isso o comércio, a pressão economica ou mesmo a intervenção militar Uma civilização em ascensão engloba a outra, admi- nistrando seu legado cultural e de recursos naturais, de modo conveniente a seus objetivos Essa foi, desde tempos imemonals, a estrada que nos trouxe ao Mercado Comum Europeu e que procura criar os Mercados (Jlobais do século XXZ O objetivo é sempre o mesmo manter internamente um padrão civlllzatBrioe de consumo, que não é mais sustentável dentro dos recursos naturais existentes nos Iinnites do país ou da sociedade

que o preconiza

8 caso do Japão é um exemplo típico, para não ficarmos restritos às çivllizaçles do Ocidente. Seus parques florestais são muito bem conservados, porém sua "fome" de madeira tem provocado a reação de amblentalistas, políticos e populações

autóctones ao redor do mundo Entre os milhares de povos diretamente ameaçados pela destmiçb de florestas ~rnldasdo planeta. afora a hazonia, estão os Papua, na Nova Gulné, os Iban, de Sarawak, Malásia e os remanescentes de Masris. na Nova Zelgndla Resurnlndo, a análise histórica mostra que, mesmo tendo elementos fortes de sustentabilidade e adaptação ambiental, os sistemas agrícolas - os agroecosslstemas - sempre foram muito influenciados pela Ideologia dos segmentos dominantes Mais preocupados em manter o poder e perpetuar seu nome por monumentos ou conquistas, o futuro dos povos que governavam e dos ecossistemas que os sustentavam foi uma preocupação infinitainente menor do que o tamanho de seus exércitos e o potencial de suas armas de guerra A História contkm exemplos de perlodos onde civilizações prósperas conviveram com os ecossistemas Porém, a pressão por recursos em tempos de @erras expansionistas e delírios de grandeza arquitetônica jogaram por terra e relegaram ao esquecimento as tecnologias de convivência, que foram substituídas pela pecua- rização e agricultura extensiva. baseadas na mão-de-obra escrava Sem dúvida, os registros históricos demonstram que os alertas que padiam da intelectualidade apontavam para praticas mais sensatas Talvez sem o embasamento teórico da ciência analítica à qual temos acesso Mas, sem dúvida, dentro do mesmo cenário de desastre ambiental e social iminente e com o mesmo grau de ceticismo com que hoje nos deparamos, por parte de governos e mesmo da sociedade

Os sistemas vivos e a segunda lei da termodinâmica

As ciências, especialmente a Física e a Astrofislca, t6m proporcionado avanços consideráveis na nossa busca de com- preensão dos fenomenos planetarios. Mas o que a Física, e es- pecialmente, seu ramo que lida com tempo e energia, tem a ver com a agricultura? Tudo. A radiação solar, combustível básico da vida do planeta, e portanto da agricultura, é energia. O sol, como outras estrelas, é uma verdadeira 'Tornalha", queimando combustível

nuclear, com data de nascimento e de morte aproximadamente determinada. A radiação que libera através do espaço chega ao planeta Terra e fornece a energia básica para a vida, percebida por nós na forma de luz e calor. A termodinâ~ca,que esnida fenômenos correlatos aos efeitos da radiaçk solar, tern três leis principais, e vamos comentar duas delas.

A primeira estabelece que quando umaforma de energia

é convertida em outra, n& hhá nem perda nem ganho. Em outras palavras, a energia é sempre conservada.

A segunda, a Lei da Entropia, estabelece que quando uma

forma de energia é convertida em oum, há uma perda naforma calor. Isso implica que o sol tem seus dias contados: a queima de combustíveis radioativos como Hidrogênio (e Hélio na etapa final de sua existência) tem uma duração estimável pelos conhe- cimentos atuais de fisica. Portanto, a tendência de estrelas como o Sol e, conse- qüentemente, dos corpos quentes do universo, é passar lentamente de um estado potencial instável e rico em energia para um estável e pobre em energia. Tendo em mente essas informações, podemos observar que os sistemas vivos têm algumas características que os tornam únicos. Numa conceituação fisica, a vida é definida pela sua habilidade em reduzir sua entropia interna4,excretando elementos de baixa energia em seus limites. Numa definição geofísiológica, a vida é uma propriedade de um sistema delimitado que é aberto a urn fluxo de energia e matéria, e que é capaz de manter suas condições internas constantes, apesar da mudança das condições externas.

Colocando isso de modo prático, veja seu próprio corpo. Entram alimentos e saem dejetos, dos quais praticamente tudo que podia servir a seu organismo foi retirado. Também sua temperatura corporal é constante e, a uma ameaça de doença, o sistema irnunológico dispara anticorpos para recuperar o equilíbrio fisiológico.O pH do sangue e outros fluidostambém são constantes, mesmo que bebamos líquidos básicos ou ácidos. Finalmente, reproduzimos-nos e transmitimos nossa herança genética aos descendentes. Isso traduz o termo "habilidade em reduzir sua entropia interna". Essas definições servirão para entendermos tanto uma bactéria unicelular, uma árvore, uma floresta, como o próprio planeta Terra. Embora consuma constantemente energia direta ou

indiretamente hrnecida pelo Sol, as interações entre os seres vivos conservam a energia total incorporada na biomassa plmetárla. Com diferentes graus de interação ou complexidade, todos organismos vivos são unidades básicas e interdependentes em seu fiincionamento. Todas as formas vivas contêm alta energia potencial. Durante o processo de senescência e morte, ocorre a desorganização e a transferência desta ene-ia para outras fomas, eventualmente não vivas, como minerais. Por sua vez, os elementos simplestêm um baixo nível de energia potencial. Pode-

ríamos dizer que a vida é um processo com- plementar à entropia.Ela organiza os resíduos da entropia em formas complexas, altamente organizadas e conservadoras de energia. Para isso, unidades básicas da vida, como algas microscópicas, usam como combustível uma pequena parte do espectro de radiação solar que chega ao planeta para sintetizar, a partir dos elementos simples a que nos referimos, seu próprio tecido vivo. Mas onde estão e quem são estes elementos simples a serem organizados pela vida?

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Eles são os resíduos da entropia pla- netária. São os "dejetos" do planeta, como gases, cinzas vulcânicas e os minerais solu- bilizados da rocha. Sem a complexificação e organização promovida pelas formas vivas, seriam poluentes. O principal resíduo entrópico da atividade cósmica é a radiação solar. A vida, portanto, parte de elementos simples e de baixa energia e, utilizando uma pequena parte da radiagão solar que chega ao planeta, cria formas complexas e de alta energia potencial. Em outras palavras, a vida organlza os resíduos entrópicos em formas complexas e conservadoras de energia. Assim, se aparentemente o universo está em franca en- tropia, os processos vivos parecem atuar conforme a primeira lei da termodinâmica, transferindo energia sem perdas. Se não incluíssemos em nossa equação a energia solar, teríamos um balanço positivo. A este fenômeno chamaríamos

A consewa-Bo energeti-a e o processo organizador da vida

1 Resíduos da atividade geojisiológica, como nutrientes e gases são constan- temente liberados na atmosfera.

2 mais de 3,5 bilhões de anos, estes resíduos vêm sendo complexiJicados por microoeanismos graças a existência de água e pela enetgia provida pelo sol.

3 Estasformas de vida evoluíram e se complexijicaram, gerando cada vez mais quantidade e diversidade de espécies.

4

do longo do tempo afing~ramnjvels ótlmos para cada momento da evolu-

por

dferentes formas e znterações, foram por sua vez determznados pela dispo-

sintropia, ou entropia negativa. ou ainda negentropia, como 6 conhecida na fisica. Portanto, enquanto uma floresta organiza elementos simples e complexos (e promove slntropla a nível planetário), sua

ção Estes nivers, caracterzzados

nlbzlzdade & radiação, nuprentes

água em cada um destes momentos. que produz alta entropia.

e queima para a instalação de um pa&Qé um ato desorganizador,

Isso ocorre porque durante sua vida a árvore absorveu minerais e gases, principalmente, o dióxido de carbono, utilizando a radiação solar como com- bustível e complexificando tudo em sua biomassa. Esse já é um primeiro nível de auto-regulação típico dos organismos vivos.

-

5 Este conjunto otimizado que

ecosslstemas, dentro do

chamamos

qual estamos

Ainda, a floresta é sistema vivo, formado por toda uma garna interdepen- dente de seres vivos. Seguindo em escala, constitui um ecossistema, um bloma. Esse, por sua vez, cumpre uma tarefa global de moderação climática e conservação da energia, ciclagem de nutrientes, moderação da radiação e manutenção da umidade. Essa atividade e essas características re- fletem nos microclimas, moderam os climas regionais e podem afetar o clima global. Isto implica em afetar praticamente todas as outras formas dé vida que formam o planeta. Temos então o '"uper-o-anismo" na concepção de James Hutton, já em 1785 ou "Gaia", como a chamou James Lovelock. Portanto, a nível localizado, a morte de uma floresta libera energia, gases e minerais armazenados, entre eles o dióxido de carbono>num processo de descomplexificação.O que era co~lexo

znsendos, representa, portanto, o n- é dividido e simplificado, e a energia liberada é perdida do sistema

sultado da evolução btológlca

ta da vida na Terrapor bllhões de anos,

conjun- "ivo, isso é entropia.

O processo contrário é a sucessão de espécies. Podemos num processo anda em andamento. conceituá-Ia como o canal da vida para moderar, conservar e acumular energia. Esse é um processo crescente e dinâmico, onde a transferência de energia dá-se de formas mais simples para outras sucessivamente mais complexas. As irregularidades ou distúrbios

ocorrem, e há um retorno às formas simples. Porém, se o dano não afetar o sistema de auto-regulação, será mantlda a biomassa total, de modo a manter a energia potencial total. O exennplo do balanço de nutrientes abaixo Ilustra multo bem o que tentamos colocar aqui. Mudam os animais e vegetais envolvidos codome as diferentes condições, mas todos os sistemas têm em comum a otimização de recursos. Para isso, precisa moderar a energia de modo a incrementar

e compleXificar a vida, conservando e, eventualmente,incrementm-

do os nutrientes incorporados ao sistema vivo. Assim, os sistemas vivos mantêm a nivel planetário sua entropia Interna minlniizada.Esse processo éresultado da evolução conjunta da vida e do meio físico nos Yltimos 33 bilhões de anos,

o que é tempo suficiente (e multo além de nossa Im-inação) para acreditarmos que o sistema realmentef~nciona. 8 sucesso destas interações (e erros e tentativas) está refletido nas formas e arquitetura de plantas e animais, consórcios vivos que formaram cada etapa da sucessão namral de espkcies.

Toda esta bagqem em constante evolução esta codificada na carga

genética, um imenso tesouro que constantemente evolui e Fonte: schubart, H. O. R.; Franken, W. e 1,uizão. E J.

aperfeiçoa-se, de modo a fazer face ao dinamismo do planeta em Uma floresta sobre solos pobres. Ciência hoje, Wfev

Fisiologia de um sistema

vivo: a cornplexifieaçãs e cicfagem de nutrientes numa floresb tmpical dmida.

Balanço de nutrientes na bacia do iga~apéBarro Branco, Manaus, AM

P =

Pi =

água de chuva; água de gotejarnento da copa das ámores;

Q = &ua do igarapé.

Dados: kg/ha/ano.

1984 -- v01 2, no 10.

sua viagem pelo cosmo. O homem ainda engatinha nesse campo. A agricultura conside- rada moderna é capaz de produzir excedentes em curto espaço de tem- po, mas, por sua vez, é altamente entrópica. Setodos os seres vivos tives- sem seu crescimento baseado na ma- ximlzaqão da utilização Individual dos recursos naturais, na forma de ml-

nerais, gases, solo, água e outras for- mas de vida, o que conhecemos por Terra não existiria. Em suma, a vida no planeta

baseia-se em interações,

clas precisas de energia e coevoluç" o.

Os sistemas -rícolas, para não dizer o modo de vida de nossas civilizações,

pelas chuvas sk maiores que a Iixiviação através das águas de filtração e dos igarapés.

honio m~,)

Fósforo (PO,)

Sódio @a+)

Potássio (K+)

P

Pi

5,3

5,6

21,2

29,9

6,0

7,4

0,2

0,104

0,266

0,008

10,4

11,1

0,9

L1

22,1

transferên-

não se comportam com as características básicas dos sistemasvivos sadios, mas sim como uma virose que ataca um organismo debilitado

se reproduz enquanto houver hospedeiro, ou seja, até sua própria morte junto com o hospedeiro. A dffexqa é que vinis e bactérias trocam informações genéticas com o hospedeiro, apedeiçoando-o

e

e

a si próprios, e mesmo quando liquidam um hospedeiro individual

o

fazem de maneira que sobrevivamvárias outras formas mais aptas,

preservando assim, seu próprio hturo. Finalmente, o que nos toca diretamente em relação ao que foi visto? O solo 6 um organismo uno com a flora e fauna. Uma vez desestniturada a vegetação e a fauna, é um organismo que está sendo entropizado. Toda a energia acumulada pelas formas do complexo vivo gerado na coevolução de solo, fauna e flora é dissipada, sendo uma pequeníssima parcela aproveitada pelos cultivos introduzidos. Para evitar essa perda eneqética, os sistemas agrícolas devem prever uma constafiteciclagem dos nutientes entre consórcios de plantas e animais. Esses consórcios devem estar espelhados nos ecossistemas originais. A transferência de energia, viablllzada pela sucessão de espécies, permite perdas mínimas do sistema,

reduzindo a entropia como um todo. Portanto, como teremos opodunidade de obsewar ao longo do texto, os conceitos de termodingmlca, sistemas vivos e entropia são básicos. Eles permitem entender as estratégias usadas pelos ecossistemas e formas vivas que os integram para se reproduzirem e acumularem energia. Esse é o ponto de parlida para os agroecossistemas que podemos criar.

As utopias do progresso

Sem dúvida, transformar toda a biodiversldade num pasto entremeado de lavouras e pomares, mantendo algumas árvores Uteis perto de casa era a utopia

do projeto colonizador dos habitantes do Velho Nlundo. Uma utopia que ia além das necessidades básicas do ser humano, avançando pelo terreno do ""pder" sobre a natureza enquanto missão do homem.

Esse proceder está assentado em raízes filosóficas, ideológicase religiosas alimentadaspela ação concreta destes povos colonizadores sobre as outras culturas e ecossistemas. O fato de etnias inteiras do "Novo Mundo9'sucumbirem às doenças geradas nos aglomerados urbanos da Idade Média era para os colonizadores a prova de sua ascendênciajunto ao Criador. Essa é a bagagem que carregamos até a sociedade atual. Porém, esta utopia colonizadora teve sérios entraves à sua sustentabilidade, face à realidade dos processos vivos do planeta. Destes insucessosresultaram soluções locais para problemas, muitas

vezes esquecendo ou adaptando as técnicas herdadas do Velho Mundo. ainda, em lugares como a Asia e Indonésia, onde o clima e as civilizações ofereceram resistência ao ímpeto colonizador, restaram sistemas ancestrais de manejo sustentável de recursos. Também populações autóctones, pelo isolamento imposto por florestas, oceanos, desertos ou montanhas chegaram a desenvolver sistemas técnicos elaborados de convivência com o aimbiente. Felizmente, ainda existem exemplosvivos para quem quiser e puder aprender com eles. Geralmente, baseiam-se na busca da superação pratica de limitações de espaço e falta de insumos externos, o que é obtido através de urna reprodução manejada do que a própria natureza faz para superar estas limitações, via sucessão natural e organização de elementos simples. Portanto, desde o início da humanidade, o que atrai e

motiva a tentar copiar os

fascina o agiculto6 de modo que o sistemas naturais?

A "mágica" pode ser resumida em obsemar como, a partir dos escombros de uma floresta queimada pelo efeito inicial de um raio, ressurge uma nova, bastante semelhante à anterior, sem a necessidade do uso de adubos, irrigação, tratores ou plantios em covas. Iljnda como, a parlir da inundação natural e periódica de uma planície por um rio, o espaço recobre-se de gramíneas pro- dutoras de grãos comestíveis e herbáceas suculentas, propiciando que peixes, répteis, aves e animais, entre outras espécies floresçam e se reproduzam, num ciclo integrado, harmônico e extremamente produtivo à medida da subida e descida das águas, numa sincronia perfeita e interligada.

O homem como parte dos ecossistemas

Podmto, encarando de fientea vida que nos envolve, como pade dela que somos e não como deuses onipotentes, podemos nos propor alguns princípios básicos, bastante repetidos hoje em dia, mas hndamentals para nossos objetivos. Primeiro, faz-se necessário compteender os ecossistemas como eles são e como hncionam. Neste contexto, o próprio Homo mpiens sapiens em seus centros de origem conhecidos, na hica e Ásia, como qualquer outro ser vivo que habita o planeta. A Arqueologia, Antropologia e a História esforçam-se em revelar como ele se adaptou aos diferentes ecossistemas, e como fatos sociais, políticos e até geoclimáticos - como os períodos

a migração e ocupação dos diferentes

continentes e ecossistemas. Essa é uma fonte de conhecimento hndamental. Segundo, implica em ter consciência do papel da integração de saberes. Énecessáio refazer não só o histórico dos ecossistemas que procuramos entender, mas também das populações que atualmente os ocupam e seus movimentos geográficos e sócio- culturais. A tradição oral, o saber popular são o acumlado de gerações convivendo com ecossistemas e ciclos climáticos. Uma vez que integrarmos este acumulado a uma visão científica não- -preconceituosa, poderemos germ informações que de outra forma seriam inacessíveis. É a padir desse conhecimento que procuraremos entender

a intervenção humana e sua interação com o ambiente natural e o

glaciais5 - determinaram

resultante deste processo: os atuais espaços "humanizados", no meio rural e urbano, os sistemas agrícolas. Se lançarmos um olhar analítico sobre a civilização do 6L progresso", chegaremos a duas conclusões em relação as nossas ilitemenções "agrícolas":

- é necessário otimizá-ias e não maximizá-las; - na atual conjuntura, onde possível e necessário, limi-

tá-las.

Esses propósitos batem'de frente com o dogma da supe- rioridade inerente da espécie humana, que nos "autoriza" a intervir

e ocupar todos os espaços biológicos e geogaficos e, pela pretensão atual, inclusive cósmicos.

A realidade é porém mais dura e próxima, e coloca como prioridades a recuperação do potencial produtivo de áreas já degradadas, e na mesma ótica o aproveitamento ótimo e sustentável dos recursos existentes. Para viabilizar esses objetivos, quanto maior o conhe- cimento dos ciclos e padrões dos sistemas naturais, maiores as possibilidades de harmonizar com eles visando o progresso do homem no seu sentido mais amplo. Nessa afirmação estamos chocando de frente com o dogma que estabelece o antagonismo homem versus natureza como forga diretiva da evolução, do progresso e do desenvolvimento da humanidade. Finalmente, estamos polemizando o papel da competição como moto contínuo de evolução da natureza e, conseqüentemente, da sociedade. Mas para onde estarão nos levando estes dogmas? Essa pergunta já foi respondida em teoria por muitos pensadores, e cada vez mais é respondida na prática por agricultores e cientistas.

Além do antropocentrismo

Masanobu Fukuoka

Um dos pioneiros do rompimento desses dogmas, com uma abordagem holística para a agricultura e uma análise crítica da ideologia do desenvolvimento e resultados convincentes é Nasanobu Fukuoka6. no final dos anos 30, Fukuoka, então um jovem pesquisador numa estação experimental agrícola do Japão, redirecionou sua carreira, procurando avançar além dos esquemas tradicionais de compostagem e adubação verde, já apregoados na época. No pós-guerra, continuou desenvolvendo seus sistemas, publicando, no início dos anos 70, um livro onde relatava suas experiências, que basicamente criavam um manejo de sucessão de cultivos de grãos e consórcio de,espécies para áreas de inundação, bem como de consórcios para cultivos de hodaliças, árvores e fmtíferas. Enunciava então que, para aumentar a produção das culturas, devíamos procurar entendê-las fora de um olhar antropocêntrico. Devíamos buscar conhecê-las em seus ciclos e necessidades, observadas em seu habitat natural.

No seu entender, e como ele provou ao longo de mais de 50 anos de resultados convincentes, o fluxo natural da vida expresso na sucessão das espécies é grande fator potenciallzador da produção, e não a quantidade de energia com a qual intervimos num sistema. Em suma, não é o que queremos que as plantas e os anlmais nos produzam. O que comanda é o potencial inerente que todo o organismo vivo que congrega e integra plantas e animais pode produzir, e quais são os fluxos e ciclos de energia que determinam esta produção. No prefácio de seu livro ""The Natural Way of Faming", Fukuoka afirma:

"Mesmoa aqicultura orgânica, h qual sefaz

uma -ande

apologia nos dzas atuais, é apenas outro ramo da agricultura cientifica moderna. São muitos osproblemas em mover materiais orgânicos de lápara cá,process&los e trata-lm.2Muitos dosganhos obtialos com esta atividade s&oganhos locais e tenzporárlos. De fato, quandó examinados numa perspectiva mais ampla, muitas destas tentativas de proteger a natureza na verdade a destroem".

Bilt Mollisson e a Permacultura

Outro caso de abordagem e crítica ao modelo global é a Permacultura, pelo menos em sua concepção básica. Já no início dos anos 80, Bill Mollisson, um pesquisador e prático multi- disciplinar natural da Tasmânla, lançou ""Prmacultura Um" e ""Prmacultura Dois", livros onde colocava ao mundo propostas integrais de relacionamento com os ecosslstemas. A agricultura é o tema central, mas a abordagem é holística, englobando de certa forma todas as relações humanas. Gomo ele próprio definiu em uma entrevista7, a Permacultura é:

Uma

das normas fundamentais do design é: "aça algo bkico (em

relação aos padrões da natureza) correto,porque então todo o resto

é mais correto por siprópdo "

Em relação ao corpo filosófico

"um sistema organizado de design para viver(

).

).

ele explica que "(apermacultura)é uma estrutura que nuncapára

de mover-se, mas que aceita informaçãode onde quer que nós (a humanidade) carecemos de qualquer poder de criação; somente temos poder de reunião. Por isso, simplesmente, admiramos assombrados como as coisas relacionam-se entre si."

)

Ao lado de centenas de obras mito interessantes, esses são dois autores cqas obras permitem avançar para além das correntes da agricultura e mesmo da agrossilvicultura que se pretendemhoje sustentáveis.De modo geral, acrescentamuma visão mais ousada e crítica do nosso paradigma de progresso, tocando no ponto-chave: não são apenas necessários 4ustes no modelo, mas sim, redirecionar a própria essência de nosso projeto de civilização.

Agroecologia ou simplesmente agricultura?

Portanto, o que difere as duas iniciativas que citamos, bem

como a abordagem deste livro da agricultura orgânica clássica é a mudança de paradigma. Não se trata mais de apenas substituir o insumo externo por um menos danoso ao ecossslstema e à saúde humana, ou de criar um eficiente organismo rurai padrão. Resumindo, trata-se de assumir como fundamental para a geração de tecnologias agrícolas alguns pontos básicos:

- compreensão dos componentes da sucessão natural de eLypéciesem cada ecossistema e de como esle processo utiliza de modo ótimo os recursos no tempo e no espaço; - os mecanismos de evolução interativa entre as co- munidades vivas e o meio Rico, criando as condzçBes bhsicas para o desenvolvimentoda vida (olimização de radiação, umihde

e nu2rientes);

- os ciclos epdrões que refletem essas interações, e como neles inteqar as ações e interesses humanos, buscando otimim nossa intervençzo nos ambientes; -fazer deste processo a matriz de um desenvolvimento tecno2ógzco adaptado C$ escala humana, o que inzplica no

reconhecimento da importância das particularidades de culturas

e etnias e sua bagagem de Fnteração com os ecossistemas. Esse último tópico nos remete ao fato de que a constmção de sistemas agrícolas sustentáveis passa pela observação local dos

ecossistemas e a consequente formulação de hipóteses, gestadas e testadas na prática pelas populações ao longo do tenipo. O aperfeiçoamento desse processo só é possível numa perspectiva contínua, viabilizada pela existência de sociedades

estáveis com níveis satisfatórlos de equidade social. Portanto, a (re)construção de um saber adaptado só é possível com a participação efetivae interessada das populações mrais e aut~ctones na fòrmulação, Implantação e avaliação dos sistemas. Objetivando a visão global e clareando as informaç6es obtidas dos preconceitos e heranças culturais originadas de fora do ecossistema, teremos os eixos hndmentais para a constnição de tecnologias realmente sustentáveise aproprláveispelos agricultores Ainda, quando nos referimos a clarear as informações, assumimos também nossa própria herança filosófica, e buscamos nos tornar aptos a reconhecer suas mazelas. A mais pesada delas é

o dualismo presente em várias culturas e religiões. Esse dualismo

reflete-se num antagonismo constante entre homem e natureza, espirito-maténa. O homem retrata a encarnação do espírito, superior

à matéria, vista como todo o resto da natureza exceto o homem. Essa herança filosófica e cultural leva à rejeição de determinadas espécies vegetais e animais, ao combate sistemático

e não-fundamentado (se é que existe alguma campanha de erradicação realmente hndamentada) de espécies e até mesmo à sua extinção. A origem e históna dos gmpos humanos pode nos auxiliar a compreender tabus e preconceitos, suas origens e como lidar com eles. O resultado global destes preceitos é uma abordagem que procura não como intemir, mas sim, como não intervir. Abre-se assim a possibilidade de que o insumo externo, via treinamento em tecnologla, capital, adubos (orgânicos. sintéticos ou minerais), mudas, sementes, maquinário, etc. sejam elementos conjunturais e,

a seu tempo, dispensaveis elou substituíveis, e não a base central e alicerce dos sistemas produtivos. Concluindo, o processo de consolidar princípios em diferentes situações e ecossistemas é um ato que nos desafia continuamente. Podemos usar a figura do velejador, que viaja impulsionado pela força das correntes e dos ventos, usando seu discernimento para tragar um mmo adequado e de baixo esforço que o levará a seu destino. Énesta vi-em que está apenasiniciando que procuraremos ajudar. Não é uma viagem linear e confortável, movida a motores potentes e com hora marcada para chegar. Okrecemos ao leitor dados, observações e princípios que, uma vez enriquecidos e trabalhados de acordo com as diferentes realidades locais, podem vir a constituir valioso instmmento de trabalho.

Resumidamente, esperamos contribuir na criagão de sistemas produtivos adequados e sustentáveis, que resgatem a dignidade economica e cultural do homem frente a si próprio e sua sociedade mas, principalmente, frente à1grandiosidade da vida, em parte expressa nas Rorestas que nOs, seres humanos, de modo suicida, temos teimado em reduzir a escombros ao longo das eras.

Referências

' Os povos autóctones do Ártico, principalmente na tundra siberiana e canadense, são um exemplo claro desta adaplação. A rena, popularizada, mundialmente, como o animal que puxa o trenó de Santa maus ou SãoNicolau (Papai Noel no Brasil) é um herbívoro nativo daquela região, e manejado há dezenas de milhares de anos pelos autóctones. De um rebanho total estimado em três milhões de indivíduos, dois milhões são domesticados. Porém, esses são manejados dentro do mesmo sistema de migração através da tundra que seus irmãos selvagens, em busca dos excelentes recursos forrageiros possibilitados pelo cui-Êo verão ártico. Dali. a carne, pele, chifres e outros produtos chegam aos mercadosda Europa e Ásia com altos preços. Ver tmbém Setos, tradición e ecologia, por Ramón Martin e Carlos Mufioz em Revista Integral, Enero 1995, pg. 72-77, Barcelona, Espana.

Contido no que poderia ser chamado de um ancestral dos manuais de agrossilvicultura, um sábio romano conhecido como Calo, o Velho, escreveu no final do século 111 a. C, inslmções para "como fazer as árvores crescerem como treliças de modo que as videiras nelas se amparassem, e as sobras de parreiras e árvores pudessem ser usadas como combustível". Esse tipo de preocupação surgiu após a conquista de Cartago, quando a recompensa gelas vitórias foram terras aos generais e a utilização de escravos intensificou o uso da terra e o modo de exploração, com a agricultura de subsistência dos camponeses dando lugar à pecuária e agncullura extensiva, e aumentando a pressão sobre as florestas remanescentes. Dentro desse modelo de desenvolvimento,as conquistas ronianas desempenhavam o papel essencial de seguir fornecendo terras novas. madeira e minerais para os ceneos urbanos e fabris, o que fontalecia sua frota mercante, marinha e exércitos, num ciclo rerroalimentado, onde a religião era, em tempos de guerra e colonização, o fator convenientemente unificador. Perlin, John. Histórias das Florestas: A imporllincia da madeira no desenvolvimento da civilização. Rio de Janeiro:

Imago ed., 1992.

Discorrendoa respeitoda pressão sobre recursos natwais promvida no apogeu das civilizações antigas, é interessante citar este trecho de “História das Florestas": "Inversamente, quando uma sociedade entra em declínio, a tendência das Rorestas é de se regenerarem. O profeta Isaías viu isso ocorrer depois da mofie de um ambicioso rei assírio. "O cipreste e os cedros-do-líbano regozijam-se", escreveu ele: "eles dizem: agora que você foi posto no chão, não surgirá ninguém para nos dermbar". Perlin, John, Op. cit.

"A enlropia pode ser definida como a medida da proximidade do equilíbrio. Todos os seres vivos exibem baixa entropia - eles mantêm um nível alto de desequilíbno Interno e idomação abundante". Para ir adiante ver: Eovelock, James.Weallng Caia: PracticalMedicinefor the Planet. Hmony Books, New Uork, 1991.

Nos últimos dois milhões de anos, o planeta parece se alternar entre grandes penodos glaclais (da ordem de 150.000 anos) e interglaciais (da ordem de 100.000 anos). Flutuações menores parecem ocorrer em Intervalos de 40.000 anos, devido a variações na órbita e inclinação da Terra. Essa Rutirações, conhecidas corno "Efeito Milankovich", alavancarim o processo quando urna tendência de resfriamento ou aquecimentojá estivesse ocorrendo. Para ir mais longe, ver: Lovelock, James. Op. cit. e Molion, L.C.B. Aquecimento global. Ciência Hoje, março 1995, vol. 18, pg. 20-29.

6Duasobras principais para ler: "One-Straw Revolutionne "The Natural Way oEFarmingW,Japan Publications, Tokyo, 1985 e "The Road Back to Nature", Japan Publications, Inc.Tokyo, L987.

Permacultura, Lrn disefiopara vlvir. Revista Integral, 180, vol & Dicienibre 94, pg. 72-75, Barcelona, Espana. Outros títulos: Mollisson, Bill e David Holmgren ""Prmacultura Um" Editora Cround, 1983. Mollisson, Bill "'Permaculture - A Designer's Manual", Tagari Publications, Tyalgum, Australia, 1988 Lindegger, Tap "The Best of Pemaculture". Pirie Printers Ltd, Canbenra, ACT, 1986.

O objetivo último da agricultura não é cult~varas plantas, mas slm cultivar os seres humanos

Masanohu Fukuoka. The One Straw Revolution

Conceitos e ferramentas básicas para os sistemas regenerativos

Ferramentas são instrumentos de transformação do ambiente. Conceitos são ferramentas de transformação das idéias. Porém, ao usar uma ferramenta, estamos também tendo que adaptar nossos conceitos aos resultados que a ferramenta produz, ao mesmo tempo que refletimos sobre esses resultados. É um processo constaae e passa por cicios e "cTises".Essas crises ciclicasnada mais são do que uma necessidade vital de refletir sobre nossas ferramentas, quando elas produzem resultados que afetam - ou ameaçam - nossas existências. E no caso particular dos conceitos e ferramentas da agricultura, é bom constatar que, mesmo sem ler os mesmos livros

ou falar a mesma língua (ou compartilhar a mesma cultura), podemos chegar a principias Idênticos em diferentes partes do mundo, convivendo com ecossistemas os mais variados Podem mudar as ferramentas para cada ecossistema, mas os pricíplos básicos da sustentabllidade são comuns Esta relativa espontaneidade na formlação de teorias do tipo sistêmico a respeito da intewenção humana na natureza é possível, porque a educação básica do ser humano é feita através de todos os sentidos e em relação ao ambiente que o rodela O tipo de racionalização que nos leva a gerar as "krramentas" é, de certo modo, consequência deste processo de ""reconhecer o mundo" Essa constalação se refere, principalmente,

a agricultores e populações autóctones 8 fato globalmente reconhecido é que estas comunidades são c-azes não só de zonear ambientes e classificar solos, mas também de formular teorias complexas para explicar fenomenos naturais, a partir da observação, formulação de hipóteses e aplicação prática, por tentativa e erro Na verdade, estasteorias "sistêrnlcas" cons- tituem uma abordqem de ecologia básica aplicada

a agricultura, ainda que em bases empíricas Este

tipo de enfoque não constava do currículo das Ciências Agronômicas nos anos 70 e início dos 80, no auge da "Revolução Verde" Naquela 6poca. só podiam ser encontradas referências ao impacto da

agricultura nos ambientes em leituras especializadas

e mito raras, em "nichosy7acadêmicos de cursos

como Geologia, Biologia e Ecologia Portanto, era de se esperar que os conceitos e ferramentas usados

pela

gem mais reducionista e linear Ferramenta e con- ceito, como vimos, têm sempre uma ligação que os toma coerentes entre si, embora não necessariamente sustentáveis em relação ao ambiente 8 método básico de aprendizado do ambiente que produz a abordagem sistêmica e ferramentas coerentes com este conceito

tem servido para a constmção de sistemas ag~-lcolasdesde o começo

da humanidade Não importam fronteiras ou culturas A "disciplina"

,-

ciência Agronômica refletissem uma aborda-

($tinilarar e n3o Maximizar:

a abordagem do cors-eito de produtividade

---^C--^vL

,--

bilhões de anos: chama-se vida na Terra, e o homem agricultor aparece de modo muito recente nesta história. Portanto, a observação, fomulação de hipóteses e tentativa

na nossa de prová-las na prática é uma herança cultural da humanidade como

O conceito de produtividade

civilização está ligado

aferramenta, e método de aprendizado do mundo que nos cerca. O primeiro passo

não ao produto obtido. Umaferramenta do aprendizado é andar com olhos e ouvidos bem abertos para o

permite conhecimento acumulado pelas populações que conviveram com

os ecossistemas. Através deles, chegaremos a lógica que gera as técnicas, os sistemas e os conceitos que regem nossas vidas. Neste processo, iremos nos dar conta de que muitas de nossas razões são amparadas no mesmo tipo de conclusão a que os métodos analíticos e indutivos usados pelos ecólogos chegariam. Este é um bom começo: mostra que não precisaremos criar uma uniformidade cultural para aprender a conviver com a vida no planeta. Bastará bom senso e integração de saberes.

que se obtenha mais (maximizar) do recurso que nos interessa.

aumenta a produtividade quando

-

a

Otimizar e nb aaiaxiaizar

O conceito de "otimizar ao invés de ma- ximizar" já estava embutido nos clássicos da agri- cultura orgânica. A idéia básica era alimentar o solo para que ele alimentasse as plantas. A figuração usada era de que "enchendo o barril, utilizaremos o que dele se denamar". Porém, o maior problema era a tecnologia para '"encher o barril". Gestada na tradição de agricultura européia, de grãos e carne, a construção da fertilidade do solo era baseada na adição de materiais orgânicos reciclados delavouras de grãos e pastagens, que produziam carne e leite. Os resíduos destas atividades, como palhadas e

--- esterco animal, eram retornados ao solo. O conceito de otimizar que procuramos construir se estende

do solo para todo o ecossistema. ""Alimentar o solo" passa a ser

criar condições para que as formas de vida já existentes ou

subslâncla orgânica adquirida pelas introduzidas se sucedam e se complementem num processo que ,formas vivas numa unidade de tempo. resulte num aumento da vida como um todo. Esta abundância de

vida, em quantidade e diversidade, é o "enchimento do barril". É o

proporciona objetivo final e, ao mesmo tempo, o processo que nos permitirá

para o conjunto dasfórmas vivas. obter os recursos dos quais dependem nossas vidas. Na prática,

n

Por outro lado, a produllvldade dos

ècossrstemas mede-se pela

se

-

quantidade de

ecossistema

equiiibrio dinâmico de um

baseia na otimitaçGo do aproveita-

mento dos recursos que ele

isto significa que doses maciças de esterco bovino não ajudarão a regenerar a Mata Atlântica, assim como reflorestamentos de Pinus e Eucaliptus não recuperarão a fertilidade dos campos naturais e cerrados. É o caso do uso de princípios corretos, como o retorno de matéria orgânica ao solo e cobertura verde materializados pelas ferramentas erradas. Gomo veremos ao longo do texto, há uma ligação total entre fauna, flora e a paisagem. Cada etapa da regeneração de um ecossistema está baseada na sucessão de espécies da fauna e flora locais. Este processo pode gerar produtos como alimentos, fibras, madeira, condimentos e toda uma série de necessidades do ser humano, através de recursos já existentes ou que introduziremos. Para isso, as intervenções devem ser pontuais e estrategicamente sincronizadas com o fluxo da sucessão natural de espécies. O objetivo é que esta intervenção resulte sempre num aumento da vida em termos quantitativos e qualitativos. Em outras palavras, que produza não só biomassa como também biodiversi- dade. Para o aperfeiçoamento do processo, o grau de acerto de nossas estratégias deverá ser avaliado de várias maneiras, através de alguns parâmetros básicos e rapidamente visualiáveis que são:

A flora antes e depois da intemençãio

Uma das possibilidades é comparar áreas manejadas com as áreas em estado natural. Podemos analisar, por exemplo, a velocidade de recuperação da biomassa e composição de espécies (fauna e flora). No caso, uma regressão na sucessão de espécies e uma queda de biodiversidade pode indicar erros de manejo e perdas energétlcas (entropização) do sistema.

Do ponto de vista economico-social

Outro parâmetro básico é a avaliação da recuperação da energia gasta para formar o sistema. Quais são os recursos que conseguimos gerar de modo direto ou indireto a curto, médio e longo prazo?' Este é um pressuposto básico de qualquer ser vivo:

ele não pode gastar mais energia para obter um recurso do que a energia que o recurso lhe fornecerá. Devemos considerar que pequenos desequilíbrios no sistema, como exportação de nutrientes via produtos e derivados, queima de lenha e pequena lixiviaçãode nutrientesou perdas gasosas

podem ser compensados por um equilibno entre sistemas vizinhos, ou ainda a nível de comunidade biogeográfica. Isto se dá pela integração de métodos entre unidades de produção, comunidades e microregiões, que pode ser planejada ou desenvolvida em torno de uma microbacla hidrográfica, por exemplo. As técnicas envolvidas vão desde reciclagem a nível de habitação até medidas de escala macro-regional. Ao atingir estes objetivos, estadamos qualificando o desenvolvimento e a vida nos assentamentos humanos. Este "beenficio" estenderia-se a todas as outras espécies dentro do ecossistema a ser regenerado. Para chegar a este ponto, é preciso:

- a cuHoprazo, produção de alimentos; a me& prazo, potencializar esta produção de alimentos e proporcionar outvos recursos uibras, madeira, essências,forragem); a longoprazo, o fornecimento estdvel de recursos como madeira, alimento, forragem e frutos. Finalmente, a estabiliza~6odemogrh)ca dos assentamentos humanos.

Os resultados dessa política de otimizar o uso de recursos são bastante amplos. O conforto ambienta1 surge como con- seqüência da regeneração da cobertura florestal, pelo efeito amenizador que ela exerce sobre as oscilações climáticas e eventos como vendavais, inundações, secas. Todas essas condições são da esfera básica da vida humana e podem influenciarnas relações sociais e culturais. Finalmente, a estabilização das nossas próprias populações, bem como a manutenção do consumo energético de fontes não-renováveis ao mínimo2necessário e suporlável pelo ecossistema é condição básica para haver um fituro comum. O que foi colocado até agora não significa o fim da -ricultura mecanizada de grãos ou da pesca industrial, mas aponta para o fituro sustentável que procuramos constniir. Geflamente, os sistemas de produção confinada de carne e leite do Mercado Comum Europeu, sustentados com soja argentina e brasileira, ou farinha de anchovas peruanas e chilenas não pedencerão a esse fùturo, se pretendemos que hia algum.

Da lógica linear para a biologia

E hndamental cornpreender que os sistemas agrícolas baseados em setores estanques têm uma lógica linear. Em outras palavras, a fórmula éJuntar petróleo e derivados, recursos de solo, capital, mão-de-obra e maquinário e assim gerar mais dinheiro. k. uma atividade gêmea da mineração: tem a riqueza a ser explorada,

a tecnologia, e o destino certo para os beneficiários. Esses

certamente não dependerão da continuidade daquela "mina" no futuro. Ou pelo menos não esperam depender. Quando se adota a lógica da economia ambiental, os princípios de o-anização dos sistemas adotam uma dinâmica permanente baseada na sucessão natural de espécies. Cada cultura de interesse humano aparece dentro do sistema a partir de alguns passos.

O primeiro critério é o zoneamento de

ambientes favoráveis às culturas que pretendemos.

O segundo critério é lugar, sempre que as condições

oportunizarem. Isso significaque, por exemplo, ba- naneiras precisam de zonas de umidade constante, boa exposição solar e matéria orgânica. Isso não é encontrado dentro de uma mata primária intacta:

uma clareiranatural em terreno fértil e com umidade adequada preenche melhor esses requisitos. Do mesmo modo, um pasto degradado não irá receber de modo apropriado árvores da mata clímax. Elas necessitam estar em consorcio com espécies pioneiras e secundárias para se esta- belecerem e prosperarem. Portanto, criar as condições usando o próprio fluxo ene-ético da natureza constitui o refinamento tecnológico que separa a agriculturaque nos levará para o futuro daquela que nos trouxe até aqui.

Para facilitar nossa tarefa, temos os exemplos ànossa volta. Observando a vida que nos rodeia, concluiremos que os sistemas naturais são baseados em slneqismos. Portanto, dependem de uma transferência eficiente de energia de um consórcio de espécies para outro. Ou ainda, de algumas espécies dentro de um consórcio para

A sueess&s e o conâssircio

corno estratégia de eonsemação de energia

1 - A ayace cresce consorciada com o amaranto, fechando completamente o solo.

2 - O porte mais elevado do amaranto permite-lhe iniciar a dominar o consórcio, cortando a luz da alface.

3 - Umapoda do amaranto da a vanta- gem que a aljace precisava para chegar ao ponto de colheita. O mater~alpodad~ retorna ao solo.

4 - Finalmente, a alface é colhida e o canteiro é dominado pelo amaranto. Poderíamos introduzir toda uma sequência da sucessão "manejada", e o amaranto também seria substituído por outras espécies e assim sucessivamente até chegarmos próximo do que era a vegetação original do local.

outras. Se o que sucede à dermbada de uma floresta é uma lavoura de arroz por cinco anos , que por sua vez torna-se pastagem por um período igual ou superior, antes do abandono total, a ene-ia não foi transfeida. Foi simplesmentedissipadaatravés da lixiviação e imobilização química de nutrientes do sistema. O que permite o crescimento e a produção agrícola nos sistemasregenerativos é a inserção da planta cultivada no consórcio adequado, no tempo e no espaço da sucessão. Esta introdução se de modo que estas espécies beneficiam-se dos nutrientes que estão sendo ciclados pelo consorcio. Vamos exemplificar:

Como tentamos representar na figura ao lado, um canteiro de alface recém instalado fica recoberto por Amaranthus spp. Essa planta cobre bem o solo e égrande recuperadora de nitratos. En- quanto não competem por luz, a alface e o amaranto são um consórcio. Quando esta competição se inicia, o manejo de "capina" é quebrar o amaranto, de modo que os nutrientes que acumulou sejam recuperados pela dface. Uma vez colhido, o amaranto fecha completamente o canteiro. Se quiséssemos aumentar a eficiencia energética do sistema, poderíamos ter introduzido mamão ou outro cultivo apropriado de ciclo médio. Este inviabilizaria o cultivo da alface a médio prazo, mas teria, no conjunto, criado as condições econômicas e ambientais para o aproveitamento ótimo da área com o mínimo gasto energétlco (mão- -de-obra, insumos, perdas mínimas de nutrientes). O resultado economico dos sistemas sempre é uma variável complexa, pois envolve mercado, distribuição, costumes e conjuntura econômico- social. Porém, é mais provável haver coerência econômica num sistema quando há também coerência energética. Portanto, para que este sistema hncione, os cultivos devem migrar dentro das áreas maiores, acompanhando a renovação da vegetação e os ciclos do ecossistema. Eles formam consorcios entre si e com as espécies nativas. e vão se sucedendo dentro da área. Em regiões florestais, as plantas anuais fazem parte das etapas iniciais de sucessão, e vão sendo substituídas gradativamente por bianuais, arbustos semiperenes, e, finalmente, árvores. Urna

infinidade de espécies e formas podem compor este processo, em suas várias etapas. A arte da agricultura sustentável consiste em Imitar este processo sem recorrer ao fogo ou à aração generalizada, que induzem à renovqão, mas são extremamente entróplcos. Ainda, como evento generalizado, não ocorrem nos sistemas naturais das florestas hímldas. Os cultivos anuais poderão ser introduzidos numa área nova, onde o sistema está sendo implantado, mudando, portanto, de local. Ou ainda, se as condições permitirem, eles voltarão a ocupar nichos dentro da mesma área que já ocuparam. No caso, não mais como dominantes, mas como parte da produtividade total do consórcio ou sistema. Como cada espécie tem longevidade e ciclos diferenciados, enquanto algumas anuais poderão ser cultivadas por muito tempo em alguns locais e sistemas, em outros elas aparecerão por qenas um ano ou dois. Ainda, algumas espécies de ciclo longo estarão presentes desde o Início da formação do sistema até o momento de sua renovação, com o final de ciclo. É o caso de algumas áwores e de espécies herbáceas de ciclo perene e que suportam uma situação medianamente umbrófila, como a Colocasia antiquarum. É de conhecimento geral que a principal característica das florestas do trópico e subtrópico úmido é a manutenção dos nutrientes na biomassa, e não no solo3. Portanto, o sucesso da agricultura nestas condições depende mais da contínua ciclagem de nutrientes4e dos sinergismos criados pelo consórcio de espécies, do que de seu acúmulo ao nível do solo. O estudo do trópico úmido permitiu-nos entender melhor a agricultura dos climas temperados, subtropicais e sazonais por frio, falta de umidade ou ambos. Nesses climas sazonais, após um ciclo de grande redução de atividade biológica há uma grande produção de biomassa5.Essa é a base científica que explica o relativo sucesso do modelo de agricultura européia que foi expandido para a Oceania, hérica do Sul Meridional (abaixo de 30 graus de latitude sul) e em boa parte da América do Node. Também a~udaa entender seu fracasso e os danos ambientais inerentes ao modelo no trópico úmido. A antiga técnica européia de arar os campos antes das nevascas invernais tinha consequências bem claras. Ela forçava, por ocasião do degelo da primavera, uma mlneralização intensa do

1-Mata Secundaria de mais de 25 anos 2-Na derrubada e queimada, todas asfornas de vida são mineralizadas 3-A mandioca aproveita unza pequeníssima parte destes nupientes minerais

#-Sem condzçõespara novu cultzvo, a área e abandonada para encapoelrar 5-A rírea é novamente quelmada para tornar- se um pasto de bama lotação (0,5 u a /ha)

1

húmus acumulado. Estes nutrientes solúveis ficavam então disponíveis para os cultivos. Esse procedimento levava a uma exaustão progressiva das resenras de húmus, que elas não eram repostas em função da retirada da vegetação original. Como vemos, a agricultura tradicional também utiliza os pontos críticos do fluxo energético dentro dos sistemas. Porém, suafunção semprefoi a de maxinzizar o resultado, e n6o otimlzb-lo. Portanto, ao utilizar o fluxo da sucessão nahird de espécies e seus ciclos e padrões para formar nossos -roecossistemas, estamos refinando nossa tecnologia agrícola. Nossos cuItivos passam a se beneficiar dos nutrientes ciclados pelo sistema natural de modo contínuo, pela convivência com a vegetação nativa, e não às custas da mineralização dela e do sistema vivo original. Além disso, estamos criando deste modo espaços de convivência entre cultivos de i~ere;se humano e espécies nalivas, bem como zoneando a intensidade de intervenção no ambiente natural. Isto poderia tornar praticamente toda a atividade qrícola compatível com a regeneração de um ecossistemadesestabilizado pela intervenção humana.

Potenciais e limitações

Nutrientes, biomassa e biodiversidade presentes numa área indicam o que é possível esperar como retorno economico- produtivo de nossas intervenções. Sistemas arrasados, com solos lixiviados e poucas espécies não têm como fornecer recursos para espécies de grande porte e exigentes.0 homem europeu e o gado bovino, por exemplo, dificilmente obterão retornos imediatos em uma capoeira degradada na hazonia ou Mata Atlântica6. Podanto, embora a paisagem de uma pastgem abandonada e degradada em uma zona de mata tropical úmida se assemelhe a uma estepe ou savana, não oferece os beneficios em termos de solo, clima e flora herbácea para a criação de grandes mamlferos que uma estepe natural asiática ou uma savma africana oferecerim. Pelo contrário, constitui um desastre artificial, um virtual buraco negro energético provocado pelo homem. Casos como esse são comuns no dia-a-dia das zonas florestais ainda existentes na Mata de Araucárias, Mata Atlântica e regiões "integradas" da Amazonia. Os agricultores chegam com seus cultivos e animais, e utilizam os recursos locais de vegetação, umidade e solo do modo que

conhecem - a queimada. Sejam tratores de esteira ou machados, prevalece o conceito básico de mineralizar o sistema vivo e direcionar os nutrientes para os cultivos. Podanto, uma transição deste sistemapara outros mais sustentáveisdeve partir das realidades locais. O objetivo do método que estamos descrevendo foi de estimular a criação de parâmetros locais do que cada situação poderia produzir com os recursos propiciados somente pelo manejo da sucessão vegetal natural e introduzida. Assim, a possibilidade de utilização de insumos externos "facilitadores" poderia ser avaliada para cada situação e conjuntura frente a um parâmetro mais fíel, onde a real necessidade de insumos externos e, consequentemente, a relação custolbenefício do sistema de produção ficasse mais clara.

Conceitos e princípios básicos dos sistemas

O princípio fiindamental do trabalho é o mane~oda sucessão de espécies. Este manejo é feito de modo a não comprometer o fluxo de complexificação da vida que está sendo levado naturalmente. Buscamos então criar junto ao sistema natural as condições de tempo e espaço físico para o desenvolvimento de espécies cultivadas, ou de especies nativas que forneçam recursos que nos interessam. A transição de um sistema "roça-queima" para um sistema regenerativo tem sua "porta de entrada" por exemplos do próprio sistema do agricultor.

Em alguns sistemas tradicionais, após a queimada é instalada uma mistura de cultivos anuais, semiperenes e perenes. Por dois ou três anos, os cultivos anuais são obtidos e a regeneração de espécies nativas combatida por capina e podas. Após, toda a

regeneração é permitida e se estabeleceum sistemamisto de

perenes (frutíferas, oleaginosas, etc) e espécies nativas (ervas,

arbusto e árvores).

cultivos

Sucessão natural e sucess&o antrcapogênica

A ação humana ~nduza estág~osde

bem rlemarcados,Aqui

&.

observar a cronologia da intervenção na Mata de Araucánas no centro-sul do estado do Paraná:

- gramíneas nas áreas de intervenção mars recente;

- vassourznha (Composltae) nas áreas de mau de dors anos;

Porém, este sistema pa~ede uma grande perda energetica Inicial. O uso do fogo não é um evento conservador de ene-ia e não é característico do tró~icoúmido. Pelo contrário, 6 restrito a zonas sazonalmente secas, onde abundam plantas resinosas, como coniferas e algumas espécies de Eucaliptus. Em nossos sistemas regenerativos, o que buscamos é a renovação da vegetaçb do sistema natural no modo mais eficiente em termos de conservação de energia. Nas matas tropicais e subtropãcals úmidas, isso é obtido naturalmente pela queda de folhas, podaçzo cíclica de ramos finos, ramos, galhos e mesmo parte de troncos. Vendavais e enxurradas fazem parte do cotidiano ao qual a natureza se habituou, e cumprem esta função. Urna vez que o material ""pdado" chega ao solo, não há necessidade do fogo periódico. b ciclagem deste matena1 é rápida e Intensa pela vida febril que domina estes ecossistemas, O que fazemos então é entrar no Ruxo de ciclagem. Para isso, nossa intervençk deve visar a renovação do que está velho no consórcio, seja por roçagem ou podação. Esta renovação pode ser de partes velhas da planta, do indivíduo todo ou mesmo de todo um consórcio. Gomo estamos manejando a vegetação em antecipação a eventos naturais, podernos incorrer em erros. A eliminação e substituição de uma planta ou consórcio só deve ser feita quando a finção ecofisiológica8daquele indivíduo ou consórcio está cumprida. Ou ainda, se essa hnção será ou está sendo devidamente substituída, seJa pela vegetação nativa, seja por espécies introduzidas. Um aprohndamento na dinâmica de sucessão de espécies pode nos dudar a compreender a prática.

A sucessão natural de espécies

Todos os sistemas naturais têm ciclos de crescimento, estabilização, senescência e morte. Desse ponto de vista, a morte

- taquara (Bambusa spp) nas áreas de at6 do indivíduo como ponto final ia" existe. Gomo não

cinco anos;

- bracatinga Mimosa scabrella) nas áreas de 15 anos.

A sucessão poderá formar um novo climax, diferente porém daquele que ocupou a área.

""dsapareclmento" da ene~ia,o fim de um c1610 apenas representa

a transferência da energia potencial da biomassa para uma outra forma (ou formas), conforme a primeira lei da terrnodlnâmica As unidades vivas microscópicas alua transformando,

reorgmlzando e recriando fomas cada vez mals complexas A carga geilétlca se enriquece, fazendo fae às novas condições e criando al"crnativas para os Iirnitantesencontrados Isso se do nível micro ao rnacro, de colonias de bactérias, árvores até ecossisternas inteiros Porém, é o microcosmo, formado por bactérias, vírus, hngos e outros seres, que comanda o processog VeJramos um exemplo um consórcio de fermentos láctlcos coloniza o leite fresco até transformá-lo em coalhada Enquanto senesce e morre, a biomassa e os resíduos destes krmentos são paulatinamente incorporados a seus sucessores, outra estirpe de leveduras e bactérias Essas formarão bolores, eventualmente, predados por outros hngos, que serão incorporados à biomassa de moscas e outros organismos que venham a se alimentar deste material Estes organismos podem ser a base alimentar de outros, os quais se integrarão em outros ciclos, cada vez mais longos e complexos A sucessk de espécies é, portanto, o caminho por onde fluem as forças formadoras da teia da vida VeJarnos outro exemplo Os inóculos dos microorganlsmos que Iàrão a decomposição de urna árvore no final do seu ciclo de vida a acompanham desde a mais tenra idade São bactérias celulíticas que trabalham utilizando cada resíduo em forma de folha

e casca que a jovem plântula produz E lá estarão, no final do seu ciclo de vida, para não perder praticamente nada do que sua estnitura acumulou As espécies microscópicas começam e termlnam as cadelas Fungos patógenos, bactérias fixadoras de nitrogênio e microalgas fazem parte deste universo, que é a base sobre a qual se assenta a ciclagem da vida e a sucessão de espécies Sem a relação estreita e equilibrada entre o "mundo microscópico" e o "mundo dos seres visíveis a olho nu", não haveria nem vida nem evolução Podemos traGar um gráfico relativo à crescente comple- xificação da vida, usando essa situaqão que acabamos de descrever É importante deixar claro que esse processo não é linear como pode ser apresentado num gráfico, e nem tão setorlzado e compartimentalizado Esse é apenas um artifício de explanação que cabe em nosso raciocínio acadêmico As inter-relaçks são infinitamente mais complexas, se tentarmos uma dissecação

A Sucesç"

de "sspbcierí,

Natural

A Sucessão hraturalde Espécies é o veicu- lo que a vida utiliza para viajar pelo tem- po e pelo espaço. O que podemos apreciar como climax de um ecossistema é uma etev- nidade para os seres humanos, mas um átimo para o histórico da vida no planeta.

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Susessão Natural de Especieç-escala de tempo

Longe de ser um processo linear como apresentado, é repleto de inter-relações e distúrbios, cuja representação grajca se- ria bem mais complexa do que a que usa- mos aqui.

analíbca. Por isso, mais do que nunca, é preciso entrar na mata, andar, tocar, observar e senti-la como o que verdadeiramente é, ou seja, um organismo vivo e auto-regulado. Cada pequeno arco do gráfico representa uma etapa da sucessão. A ligação entre os arcos demonstra que não são ciclos estanques, mas que se Interpenetram. Os ciclos ou etapas da sucessão são de diferentes escalas de tempo: col0nias de algas e bactérias podem durar horas, enquanto árvores da mata primária podem chegar a mais de 1.000 anos. A ampliação destes ciclos ou consórcios de espécies não mostrana uma trdetória linear, mas sim, acompanhando os eventos climáticosde nível global, como glaciações, empções e movimentos da crosta terrestre, mudanças de pólo magnético, o que faz com que sugam desedos onde eram matas tropicais, coplíferas onde existia uma estepe gelada, e assim por diante. Ainda, mesmo nas etapas mais avançadas estarão presentes os elementos mais simples. As bactérias anaeróbicas que habitam a fossa de nossa casa estavam presentes (ou pelo menos suas "parentes próximas") no planeta há pelo menos dois bilhões de anos.

Portanto, o maior potencial de vida de uma área florestal não está numa mata estática, como um museu de cera. Essa é a

imagem que o cidadão urbano desinformado faz da mata. Na verdade, todos os sistemas naturais vivem da constante renovação,

o que incrementa sua produtividade e biodiversidade. Quedas

naturais de árvores são multo frequentes mesmo em áreas florestais

bastante pequenas, o que propicia uma constante renovação dos ciclos de crescimento e da sucessão de espécies. Isto porém não significa que dermbadas e queimadas se~am sincronizadas com a dinâmica da natureza. Estas intervenções causam distúrbios de grande escala, grande entropla e desperdício de recursos, jogando as possibilidades da vida para patamares

bastante baixos. Descer a escada energética nada tem a ver com o nosso objetivo, que é alcançaro clímax de cada ecossistemae manter

o nível ene-ético

alcançar através de transferências de nutrientes de um consórcio

de espéciespara outras, dentro do Auxo da sucessão natural, criando

uma dinâmica cíclica. O grande desafio, pofianto, é encontrar o ponto ótimo de utilização de intervenção,propiciando os recursos sem comprometer

alto. Como vimos, este objetivo é possível de

sua geração.

Nas condições da mata tropical umida, o aporte de nutrientes via chuva é fundamental e, como vimos, pode ser a~umajiladopelo codunto vivo da floresta. Uma pastagem degradada, uma vez abandonada, pode levar até 470 anos para recuperar o acúrnulo de nutrientes que se encontravam na biomassa original da mata primária. Quando nos referimosanteriomente irenovaçâo constante dos ecossistemas, estâvmos nos referindo a um determinado nível alcançado pelo sistema nalurai. I?um patamar de complexificaçâo das fomas vivas que é típico de cada ecossistema e de cada ecozona. A dinâmica do sistema se baseia na renovaçk. Podanto, renovar não significa necessariamente retornar às espécies colonizadoras. Vamos exempllficar: uma clareira natural na mata tropacai úmida irá se regenerar a partir de um patamar de alta energia potencial, na forma de uma grande biomassa e bfodiversldade. Esse patamar foi alcançado ao longo de um processo de sucessão de espécies em interação com o ambiente.

* Para Ir mais longe, ver Kement, Nemam Ecologia - São Paulo EDUSP/Sprmger/EDUSP, 1982, aspáginas 209-230 e 267-277

Asflorestas são tudo, menos estát~cas A medda que se aproxrma do cclirnax. umafloresta drmlnu~sua produtrvldaa'e ecológ~caEm outraspalavras, d~mtnuro incremento de biomassa por área/ano e drmrnui a blodzversrdade.

Portanto, a cada pequeno distúrbro causado pelo jnal de czclo de alguma áwore dominante, ou por eventos clrmáticos, ocorre a renovação.

P

tu

a

Na verdade, são estes nlchos de mnova- @o os mals rrcos em produtzvidade. em ternzos de Incremento de bromassa a brodtversidade Esse "modelo" tem sldo usa& com sucesso pelm populações indigenas por milhares de anos.

Esse processo é que sustenta a alta produtkldade das areas de regeneração, onde ocorre uma renovação constante baseada nos recursos acumulados pelo sistema clímax.Na verdade, a fmna de maior pofie encontra recursos alimentaesJustamente nos pontos de renovação da mata primaria. O objetivo, portanto, é alcangar este patamar, cumprindo

a sucessão já parte de um grande som as exigências de cada etapa da sucessão de espécies e, buscando

no processo produzir recursos para o homem. Uma vez alcançado o clímax, mesmo que num processo induzido pelo homem, buscamos manejá-lo de modo a induzir a renovaçâo cíclica.O duste crítico éfazer isso sem perder o potencial energético Já alcançado, visto que 6 nesse ponto que a necessidade de intervenção pode passar a ser mínima face aos resultados que podem ser obtidos. Em linguagem econ6mlca, este 6 o ponto da curva onde a relação custoheneficio é a maior de todas. E sabendo disso, madeireiros, agricultores e pecuarlstas tem buscado as fronteiras agrícolas - o Novo Mundo - desde os tempos de Molsés. Infe- lizmente, nossos antepassados e nós mesmos temos feito isso sem a tecnologia - ou a intenção - que possibilitassemanter os sistemas nesse patamar de produtividade para as flituras gerações

Umafloresta é assim um mosaico de

diferentes estágios da sucesszo de

espécies. Porém,

acumulo

em todos estes mosaicos

de diversidade genética e

biomassa.

Clareira natural aibeda pela queda de uma &more madura.

Desde as fases iniciais ate os estágios mais avançados de recuperação, uma grande quantidade de recursos para a fauna prolifera, propiciando nichos para inúmeras espécies animais e vegetais.

Num olhar gerd sobre as zonas agrícolas, vamos encontrar as áreas ocupadas por agricultores nos mais diversos estágios de sucessão. Para deteminadas regiões, as condiq6esde solo perniitem uma regeneração rápida e extremamente coqensadora. Em Eunção de terem naturalmente acumulado mais nutrientes no solo, saio aptas à produção de recursos para animais de maior gorle ou cultivos de grãos, mesino depois de um longo tempo da inlermpção do processo de acúmlo que o sistema natural propiciava. Isso zoneou a agricultura "moderna" Temos assim, na hérica do Sul, cerrados, pampas e campos de altitude com o gado bovino há mais de 250 anos, e cultivos de grãos há mais de 50 anos. Embora apresentem uma pálida lembrança da capacidade de lotação ou produtividade do início da colonizaçk, ainda mantêm reservas de recursos de solo que sustentam animais e cultivos. nos trópicos úmidos, onde os nutrientes estão na biomassa e não no solo, os 250 anos de sustentação podem cair para cinco anos ou menos. A exceção a esta regra são as zonas

privilegiadas em fertilidade natural, como bacias

aluviais de origem recente, como o vale do rio Cauca, na Colombia. Nesse vale, aos sedimentos provenientes dos Andes soma-se a deposição de cinzas vulcânicasricas em ósUdos de fósforo e potássio ao longo da formação do local.

Outro exemplo, são as florestas da base das encostas vulcânicas do arquipélago havaiano. A retirada da vegetação pelos colonizadores deixou áreas abertas que estão sendo colonizadas por plantas como goiabeiras e jambos. Nas áreas de solos mais antigos da Mata Atlântica, estas Myrtacea são frutíferas que geralmentetemos que protqer e amparar, escolhendonichos ótimos e vigiados. Do mesmo modo, na Costa fica há áreas "colonizadas" por bananeiras, assim como nas baixadas mais férteis da Mata Atlântica Sulbaiana determinadas espécies comestíveis, como a taioba e o inhame roxo tornam-se ""ivasoras". Esta abundância de recursos propicia que espécies que normalmente habitam a faixa de clímax dinâmico colonizem como pioneiras. Nestas condições peculiares, são possíveis densidades

populacionais maiores e retornos em alimentos a curto prazo,

determinadas áreas, ainda nas primeiras etapas de regeneração. Como todo paraíso tem seu inferno, a fertilidade natural mascara a prohndidade de nossos erros de manejo, o que a Longo prazo pode

trmer consequências irreversíveis. dade rumo ao clímax.

8 clímax e sua dinâmica

O climax é o resultante do processo de evO1"çãOconJunta dafauna~JOra ambzente. A wda mod~ficao amblente Jsico e é por ele mo@cada.

sedimentares

I

I

I

Ii

I

I

Sucessão de Espécies (tempo)

para

O d~namlsmodeste processo se da pelos

crclosde vrdae morte dos componentes

do eco,,stema.

A sucessão de esDéclesé

o veículo de reo~anzzaçãoda complex1-

- Assim, o que conhecemos como clímax de um ecosszstema é o resultado da otlmização dosfafores de radzação, nutrientes e umidade pelas formas vlvas

I Faixa de,Clbmsnx

I

,

I

Dinâmico

A 'tfaixa de clímax dinâmico" é o espaço

onde se da esta reo~anizaçãocom o mínimo de perdas energétzcas e, portanto, com a maior possibilidade de sustentar asformas vivas em quantzdade e diversidade.

Se pensamos um pouco, entenderemos por que as florestas das ilhas havaianas eram '%aboo9',só podendo ser alteradas sob comando dos chefes. Esta abundância não é o caso, por exemplo, do extremo sulbalano. Nessa região do nordeste brasileiro antes ocupada por Mata Atlântica contínua, os pastos degradados que hoje dominam a paisagem não poderiam suportar assentamentos humanos ávidos pelo padrão alimentar baseado em carne bovina, ovos, leite e verduras. Na maior pade dos solos daquela região, principalmente, os próximos à costa, a retirada da vegetaçgo para ciclos de fogo, mandioca e pastagens corre o risco de não se perpetuar por mais tempo do que uma vida humana antes de chegar no ponto de sustentar apenas insetos, pequenos répteis e roedores.

Referências

Quando nos refeimos a recursos de inkresse humano, eslamos nos reportando desde a fatores de moderação climática local e regional, passando pelo aspecto lúdico até o material básico para habitação e alimentação. De qualquer modo,

o "gancho" do trabalho com agriçultores começa pelo básico e imediato, muito mais do que com argumentos de climatologia macroregional.

Os dogmas do humanismo cIássíco têm que ser atualizados. Fome, saúde, habitação e consumo devem ser questões enfrentadas a parlir de um esforço global em manter o planeta habitável e local na geração de soluções. O populismo político acena para todos um consumo padrão baseado nas séries de televisão norte-americanas. Na superficialidade, todas as capitais do mundo tornam-se parecidas, em seus "trajes ocidentais". Enquanto isso, a massa da populaçãoque nelas circula é digida de modo relativo pelos mesmos problemas de dculos atrás, quando edificios de pedra encaixada, colunas de mármore e pirâmides diferenciavam cídades como Lima, Atenas e o Cairo.

Ver na Introdução: "'Fisiologia de um sistema vivo: a ciclagem de nutrientes numa floresta", pp 32-33.

Ver na Introdução: "Os sistemas vivos e a segunda lei da Temodinâmica". a lei que trata da consewação de energia quando da passagem de uma foma para outra. Esse é um exemplo prático da aplicação dessa lei, pp28-30.

Na verdade, o processo de mineraliz~çãoda biomasm é relativo em condições de extremos climáticos sazonals. Tanto o gelo como a ausência de umidade não mineralizam a matéria viva de imediato, o que daria ma-em a perdas, aumentando a entropia do sistema. No gelo, o resfriamenio preserva nutrientes

e sais dos tecidos e os deixa -tos a serem atacados por microorganismos no degelo. Na seca, as folhas, flores, excrementos e carcaças são praticamente "'liofilizadas" pela baixa umidade relativa. Como os alimentos desidratados que compramos em supemercados, perdem água, porém conservam açúcares,

sais minerais e determinadas proteínas. Poreanto, são fontes preciosas de aminoácidos e substâncias básicas que financiarão a explosão de vida que se segue as primeiras chuvas, ou ao aumento de teqermra, no caso dos climas temperados.

Em reIação ao que pode se esperar de arcas degradadas pela ação humana, é bom lembrar o passado: "'Toda a zona mral da Grécia tomou-se esparsamente povoada ou quase &serta. A população da planície de Argos, por exemplo, sofreu um decréscimoconsiderável,e a Nlessêniaperdeu 90% de sua popukpção entre os séculos XIIí e XI a.C. ( Algumas abandonaram suas fazendas exauridas a fim de ir para as terras férteis que ficavam nas regiões antes desabitadas da Acaia ( Ali, os refugiados podiam encontrar "uma saída para a fome atroz", alimentando-se das bolotas que existiain em abundância nas montanhas cobertas de cawalhos". Perlin, John. Op. cih.

As estepes naturais da Ásia podem parecer inhspitas, mas possuem solos nquíssimos que favorecem, no conjunto das relações clima-solo-flora-fauna uma biomassa animal muito grande. No caso, urna reswição climática força a transição de uma forma de energia (vegetal) para outra (animal). Ambos se intercomplemenbm para aumentar o potencial biótico daquele ecossistema, mesmo em sms característicasaparentementeinóspias. Uma pequena mudança climática, com um aumento de 2 a 4°C as tornariam celeiros mundiais de grãos, segundo projeções de climatologistas ligados ao estudo do efeito estuf;a. Outras projeções não são tão olimislas:a tundra derreteria,inundandoas estepes e produzindo mais metano, que aceleraria o efeito estufa e a subida do nível dos mares, num cenhio nada promissor para quem quer que seja. Ver Lovelock, James. Op. cit. Tarnbém: Molion, L.C.B. Op. cih.

EcoJislológ~corefere-se ao papel que cada espécie desempenha no fun- cionamento do sistema vivo a que está integrada: o ecossistema.Por exemplo:

gramíneas pioneiras e estoloníferas cobrem o solo rclpidamente e conservam umidade alravés de seu sistema radicular extremamente intrincado e denso, ao mesmo tempo que inicia a agregação de carbono ao solo nu, criando condições para que outras e-écies prossigam a tarefa de complexificar a vida.

)

)

Para Ir mais longe, ver Margulis, Lynn

& Dorion Sagan "iMicrocosmos:

quatro brlhões de amos de evoluç2o microbiana" .Universo da Ciência, edições

70,RJ,1986.

Conhecia as querências pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido; lá, o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim limão; pelo ouvido: aqui, a cancha dos graxains, lá, os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o areião.

J. Simões Lopes Neto. Contos Gauchescos. Citadopor Araújo. Anacreonre Ávila de. Principais Gramineas do Rio Grande do Sul. Edição Sulina, Porto Alegre, 1971.

Aprendendo a observar

Um primeiro passo para se chegar a sistemas que promovam a regeneração produtiva de ecossistemas é desenvolver

a

capacidade de observar os ambientes desprovido de preconceitos,

e

tentando entendê-lo como o organismo vivo que é. Esta atitude

irá nos levar a respostas bastante simplesa problemasaparentemente complexos. Estas respostas estão geralmente materializadas na dinâmica da vida que nos rodeia, nos espantando em como nossos maiores dilemas nadam em um mar de obviedades. Observar uma beira de estrada, um terreno baldio ou uma clareira em regeneração é praticar e ver este princípio em ação. Ao longo de uma estrada, os barrancos são cobertos por diferentes comunidades vegetais: quase microscópicas em alguns pontos, mais complexas em outros. Isso demonstra diferentes estratégias para diferentes situações de radiação, umidade e nutrientes. Essas comunidades, a menos que a ação humana interrompa, evoluem para o clímax, de foma a otimizar recursos e

conservar energia. Até o clímax, se estabelece uma dinâmica de sucessão que é a possível naquele nível de recursos. Esta abordagem, enriquecida pela observação sistemática, leva-nos a identificar no meio em que vamos intervir todas as possibilidades existentes e como elas estão sendo ocupadas pela vida. Os conceitos de ecologia básica ajudam-nos a organizar este conhecimento e a extrair princípios gerais de kncionamento dos ecossistemas onde estamos intervindo.

Sempre partimos do princípio que fauna e flora desenvolveram estratégias e recursos, e que este conjunto pemlte a renovação e reorganização constante da vida em patamares cada vez mais complexos e biodiversos. Esse fato é o que nos leva a acrescentar a palavra dinâmico ao conceito de clímax. Polptanto, o que existe em termos de flora e fauna, a nível micro e macro, é hto de uma coevolução muito anterior a presença humana, e dispõe de uma estratégia infinitamente mais complexa da que podemos criar.

Do mesmo modo, a bagagem genética da biodiversidade local tem recursos para lidar com eventos que são potencialmente entrópicos ou desorganizadores, dispersadores de energia, como vendavais, inundações, fogo, vulcanismo, seca, etc, desde que o homem não tenba exercido uma pressão sobre os recursos genkticos, elisninando espécies. Neste caso, a ação mtrópica pode ter alterado profùndamente a paisagem e comprometido a capacidade de regeneração local, em temos de sementes e dispersores. Portanto, o olhar atento ao histórico local e aos fenômenos da vida é um primeiro e importante passo para adquirir conhecimento e montar sistemas.

Conhecendo as interaçóes do triângulo ambienta1

"Depois do Periodo Nademo /3,6 a 4,7 bilhões de anos atrás), a Terra esfriou e a química e o clima se tornaramfmorheis à vida ( Porém, as condiçõesjsicas do meio evoluíam para um estado hostil, mu- dando de congelamento para superaque- cimento, o que levaria a uma dessecação, como o que houve em Marte e b'ênus L

/.

).

a auto-regu'a~ão

no pianeta,

as condiçõesfavorhe~sserram trans~tón-

A radiação solar, a umidade e os nutrientes, presentes nos gases e minerais, interagem entre si e com as formas vivas para criar o que conhecemos como biosfera. A vida microscópica e macroscópica trabalha sobre a rocha matriz, mediada pela umidade

Temperatura (%)

e temperatura, e confère parte das característicasdos solos. Grandes movimentos tectonicos e alterações geociimátlcas (glaclações; etc) promovem diferentes comunidades de fmna e flora e diferentes Interações.

favoráveis são encontradas em três O relevo Influencia essas interações, crlando opomnldades

diferenciadaspara espécies. Po~ârito,a análise das formas de relevo

e das corriunidades típicas que as habitam (flora e faunâ) ajuda-nos

AdaptadodeLovelock, James HeaLngGaza Practical a fazer âssociações, criando a possibilidade de caracterizar

as c

).

O diagrama mostra uma noção da

"janela" da vida, criada quando condições

parâmetros críticos

drs~onibil'dadede

água temperatura, e dzsponibrlrdade de nutrlentes fminerals. sals. etc i ".

indicadores biológicos, os quals são ""sllalhos" para se diagnosticar determinadas situações e seu histórico. Indicadores são, por exemplo, formações vegetais comuns a determinados padrões de umidade, radiação e nutrientes, efêmeros, transitórios ou de longa durabilidade. o caso de determinadas espécies da Mata Atlântica, como o guanandi (Symphonza gkobulflerae, httiferae), que ocorrem tipicamente em terrenos encharcados. Como árvore

I '\, colonizadora que acompanha a sucessão ate a mata primária, ela

I I \ \ indica uma situação de alta umidade de longo prazo. a Gleichenia

sp (Gleicheniaceae-NymenophyIZaceae)conhecida no sul da Bahia

como feto-gaiola, é a sucessora de briófitas e Iiquens na colonização de barrancos a partir de uma situação inicial que indica pobreza de nutrientes e alumínio alto. Portanto, é um indicador conjuntural e mostra um status inicial quanto a disponibilidade de nutrientes. No hturo, no mesmo local, poderemos talvez encontrar a caapeba (Piperaceae), tida como indicadora de solos férteis. Outro exemplo, é a presença de capões de mato nas encostas voltadas para leste, no Nordeste de Minas, numa área de campo cerrado. Ela não está relacionada com a maior riqueza nos solos, mas sim, com o menor estresse hídrico na encosta voltada para o leste, que não recebe o sol da tarde. Na parte da manhã, quando recebe isolação direta, a presença de nevoeiro, orvalho, etc, amenizando as perdas de água1.

Med~crneforthe Planei Hamony Boot, New York,

1991 > -

i\ I

Nutrientes (%)

Umidade (%)

Podanto, quanto maior o conhecimento do histórico do local, maior será a quanlidade de informações que um Indicador biológico poderá fornecer Comparando várias situações, iremos compondo padrões comuns e teremos um quadro "fisiológico" de cada ecossistema.No caso, a ferramenta básica para encontrar esses padrões e a análise das interagões entre radiação, umidade e nutrientes. Essas interações determinam as características básicas da fauna e da flora. Assim, o refinamento desta análise nos levará a selecionar quais espécies podem nos ajudar a recompor a produtividade de diferentes ecossistemas, assim como de uma determinada área, e como manejar essas espécies.

Ciclos de chuvas, orvalho e neblinas

A água chega as formas vivas de várias maneiras: degelo, neblina, reservas subterrâneas, chuvas, inundações periódicas. Dados históricos podem nos ajudar a levantar a origem e o ciclo da água em cada ecossistema, e isso, nos servirá para balizar intervenções. No caso do trópico úmido sazonal, quando as séries históricas de chuvas apontam para a possibilidade de estiagem de modo irregular em determinados meses, uma implicação prática imediata é que não é sábio podar drasticamente a vegetação visando matena orgânica e rejuvenescimento da vegetação. Esse não éum problema quando a vegetação com que estamos trabalhando tem previstas na sua própria fisiologiaestiagens cíclicas, como e o caso das matas subcaducifólias ou de climas sazonais bem marcados. Também pode nos aconselhar a não apostar em culturas anuais quando se esperam chuvas pesadas e baixa insolação. Ainda, a arquitetura de determinadas plantas e formações vegetais servem como verdadeiras coletoras de orvalho e neblina, capturando o vapor de água, condensando-o e dirigindo para suas raízes. Em ilhas oceânicas,

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Umidade E? Radiação na

velocidade de ~~~~~~~~~~ão

da matena o-ianica

estação chuvosa

dias de permanência sobre o solo

O -&fico abaixo mostra a relação

entre a di-onibilidade

e a vebcidcede de degrcÃdação da serrapilheira, o que afeta diretamen- te a ciclagem de nutrientes dentro do sistema.

de umidade

Extraído de Schubart, Werbert O.R., Wolfram Franken e Flávio Luizão. Uma Floresta Sobre Solos Pobres. Ciência Hoje, jan/fev de 1984-v012 no 10, págs 30-3 1.

como as Canárias, Madeira, Tenerife e outras ao Longo da costa ocidental da África, a vegetação obtém assim não apenas umidade, mas nutrientes provenientes do mar ou transpo~adsspor ventos dos continentes. Sem dúvida, os dados climatológicos históricos e a tradição oral podem nos dudar a compor um quadro com boas indicações.

Ciclos de ventos calou chuvas torrenciais

Estes eventos naturais são balizadores para nossas intervenções mais fortes. O período ou ciclos em que acontecem coincidem com quedas de árvores em áreas mais extensas, inundações e alagamentos, vendavais e outras formas de alteração das co- munidades vegetais e animais estabelecidas. A diferença é que, durante esses ciclos, o distúrbio já está previsto no comportamento e na fisiologia de boa parte das espécies afetadas. Estamos assim acompanhando um fluxo energético já existente. Os aborígenes australianos do Território do Norte costumavam queimar as savanas no início das chuvas, visando evitar que o fogo descontrolado e espontâneo típico do início das trovoadas causassem danos a seus campos de caça e habitações2. Esse tipo de adaptação a eventos potencialmente entrópicos é comum e está enraizada em um sem- -número de práticas tradicionais ou ligadas a mitos e tradições. Conhecê-las fornece dados que podem evitar que, literalmente, nossos projetos sejam queimados ou submejam água abaixo. Linhas de água marcam a vegetação e a modificam, pela presença cíclica de sedimentos, assim como os ventos predominantes refletem-se na arquitetura de árvores ou de formações vegetais.

Ciclos de radiação

A intensidade de radiação durante os meses do ano e o ângulo do sol são informações críticas para latitudes acima dos 30 gaus. Quanto mais perto

dos pólos, mais crítico é o fator radiação, através da redução de luz e calor. Mas para o trópico úmido tarnbém é um falar Ipnportante, em hnção da n&ulosidade típica destas regiões. A trajetória da sombra projetada por árvores dos estratos mais altos associada ao relevo e a korárlos mais ou menos regulares de nebulosidade podem Influenciar na composiçb de espécies. Também aliada à1umidade alta, a sombra não guda muito secadores solares, plantios de determinadas culturas anuais e determinadasfases de fnatlferas, como a floração. Do mesmo modo, podas drásticas e extensas da vegetação no pleno verão do trópico aceleram a perda de água e a oxidação da matéria orgânica, o que pode causar uma perda irreversível do potencial de produção de uma Frea. Esse tipo de intervenção deve ser bem estudada em suas implqações. Frutos e folhas danificados pelo sol podem indicar uma açãg antrópica que retirou estratos superiores. Também um creskimentolateral de espécies normalmente retilíneas pode indicar uma tentativa de adaptação forçada ao crescimento a pleno sol e retirada de umidade por ventos frequentes de quadrantes definidos.

Variações locais no padrão pedológico

Os nutrientes chegam às formas vivas sob várias formas:

sedimentosmarinhos, sedimentostraidos por corpos de água doce,

ventos, arraste por geleiras e degelo, animais, gases e através da chuva. A composição do quadro regional via informes acadêmicos passa por um enriquecimento com o saber local sobre que tipos de

solos existem, onde eles se encontram e

o que os -ricultores

Arquitetura de plantas e s

ambiente

No planalto sul-brasileiro, aspaisagens de campos naturais são pot2Nlhadas de matas de galerias e "capões". As bordas são ge- ralmente ocupadas por espécies pioneiras que se adaptam aos extremos de fempera- tura e baixa umidadeprovocado pelos ven- tos fortes e agravados pelos solos rasos. Capões isolados tomam a forma de um chapéu.

relacionam a esses solos, em relação a vegetação, umidade e possibilidades de cultivos. Zonear as manchas de solo dentro de uma área é um passo adiante para uma utilização mais adequada e planejamento de sistemas com diferentes cultivos, dentro de uma estratégia de consewaçk de energia e otimização do trabalho e recursos. De modo geral, as classificações de solo por agricultores e populações autóctones levam em conta as interações solo-fauna-vegetação, bem como a reação aos cultivos. Se não pode ser generalizada, essas classificações siio importantes, porque são feitas de acordo

com a interação entre ambiente físico e formas de vida. Isso gera

insegurmça nos técnicos, que trabalha com uma classificaçãomais analítica e reducionista, em terms de rocha-matrjiz, granulometria, perfil e análise química. Se de um modo geral um mapa de solos traça um pano de hndo para os cultivos, ele é totalmente ineficiente para lidar com as particularidades do relevo e as interações entre a vegetação, radiação e umidade. Enquanto as classificações 'kennpiricas" trabdham mals a nível de camada superficial (que reflete de certo modo como o conjunto solo-fauna-flora inter-e), os sistemas científicos trabalham mais com perfíl e composição química, com pouca ênfase na vegetação ou paisagem3. Como ressaltamos no Capítulo 1, o encontro entre o reducionismo e o holismo, entre o saber popular e o saber acadêmico é o caminho para se chegar a um conhecimento real dos ambientes.

Os ventos dominantes nos tahulerros do extremo sul da Bahza retlram umidade da vegetação, principalmente das plantas da horn%rdos plan flos Este plan fro de serin- gueira reflete essa sltuação pela forma de "chqku" que o serrngai acaba adqurnn- do com o passar do tempo

Consórcios e arquitetura de espécies

Bi11 Mollisson, mentor da Permacultura, afirmava num curso realizado em Porto Alegre, em 1992, que "para conhecer a natureza, devemos prestar mais atenção as formas do que ao conteúdo". De certa foma, as interações do triângulo ambienta1 são espelhadas pela forma da vegetação e dos consórcios que essas criam para otimizarem a si próprias. Os ventos secos ou salinos retiram umidade e criam limitaçõesao crescimento,gerando árvores mais baixas e retorcidas, e folhas coriáceas ou que se fecham a noite. Condições extremas de baixa temperatura e curto período de luz solar (radiação)reduzem o porte das ániores e condicionam sua forma. A copa assume uma foma elíptica alongada, de forma a receber os raios de sol que chegam num ângulo bastante baixo em relaçk ao zênite. No oposto, as árvores do trópico úmido têm copas na forma de guarda-chuvas, de modo a moderar a ene-ia solar e o impacto das chuvas. Solos muito velhos e lixiviados produzem plantas menores, distrjibuídas em espaços mals amplos e com sistemas radiculares muito eficientes, assim como caracterlsticas de folha e copa que buscam otimizar umidade e moderar radiação. Como vemos, estes dois conceitos, ou seja: a forma dos consórcios e a forma individual, dificilmente podem ser tratados separadamente, se queremos utilizá-los como ferramentas de reconhecimento dos ambientes.

Quando falamos da dinâmica da sucessão natural de

Nasce uma ilha de vegcstaças

espécies, citamos a palavra '~onsórcios"e "consórcios dominantes" Fauna e

sucessão

de espécies, mas sim de uma sucessão de consórcios de espécies.

Ainda, não é apenas uma sucessão de consórcios vegetais, mas, sim, de um consórcio de seres vivos, do nível micro ao macro. Fauna e flora interagem de modo incessante. Nesse aspecto, o

algumas vezes. Na verdade, não se trata apenas de uma

e,t,

gora interagem de modo

jto na evolução de um

lema.

1A fauna dissemina sementes, que ocasionalmente se instalarão em pontos

reducionismo é um aliado secundário para o conhecimento: o grau favoráveis.

de inter-complementariMe e sinergismos é tão grande entre as várias formas de vida e o meio, que o estudo das partes só pode ser feito após o entendimento do sistema como um todo. E para se chegar a esse entendimento, o estudo das formas éde grande valia. A arquitetura das espécies envolvidas no consórcio diz muito de sua função ecofisiológica. Em suma, de como contribuem para o progresso do consórcio a que perlencem, de como evoluíram do consórcio anterior, e de como serão substituídas pelos consórcios do futuro. Tomemos como exemplo a colonização de um nicho para espécies arbóreas nos campos de altitude do sul do Brasil. Pontos de solo mais prohndo e acesso regular a umidade - sem encharcamento - nos campos do planalto sul-brasileiro permitem o aparecimento de uma mata ciliar e "capões" de árvores. Existem espécies como o guamirim (Myrceugenia euosma, Myrtaceae) que formam no início pequenos bosques homogêneos, de sementes trazidas por roedores. Estes capões tomam a forma de um chapéu, uma vez que a dispersão dá-se também por gravidade e por rebentos de raiz, e o vento, competição com gramíneas e pastoreio freqüente por pequenos mamíferos, como lebres, veados, cotias e outros roedores. A arquitetura do bosque é muito prática: desvia os forles ventos dos campos do planalto e cria obstáculo aos herbívoros de maior porte. Àmedida que estes capões evoluem. seu centro começa a oferecer as condições necessárias ao desenvolvimento de espécies

que habitam as matas de galerias, cujas sementes chegam de pássaros e animais em passagem. A arquitetura dessas

é menos adaptada e não sobreviveriam aos ventos gelados do

-

através

espécies

1

3

aEstas condiçõesgeram umpequeno bos- que emforma de chapéu, que ajuda as su- perar as limitações jmpostasPor ventos e herbivoros de maior porte.

@-

2As espécies pioneiras formam uma população densa, adaptando sua forma as condições reinantes.

2

4 F~nalmente,ajauna var agregando ma-

inverno ou à rápida evaporação acelerada pelo vento nordeste nos solos rasos destas regiões. Nos dias mais secos, a umidade relativa do ar dentro do "chapéu" (80% a 90%) é bem mais alta que no exterior (40% a 60%), e a temperalura apresenta menos extremos. Isso atrai animais nativos, potencializando tanto o sistema com os nutrientes contidos nos dejetos, como com material genético, com as sementes escarificadas e "peeletizadas" que chegam com os animais e seus excrementos. Os indígenas faziam suas ocas nestes capões, verdadeiras ilhas de recursos. Os antigos estancieiros sabiam disso e preservaram esses capões para servirem de abrigo para os bovinos e ovinos contra os extremos climáticos. Geralmente, oferecendo água, brotos, ar- bustos e árvores como alimento e proteção, foram mantidos em grandes áreas e chegaram a constituir parte do sistema de criação. Numa visão cartesiana, quebra- -ventos retilíneos de eucaliptus e aguadas criadas a partir de açudes desempenhariam o mesmo papel. Como em qualquer outro campo, obtém-se uma gama estreita de beneficias por um custo bastante alto. Além disso, esse beneficio dura enquanto dura a energia externa (manutenção) que o gerou. É algo como um fast-foodcujos sanduíchese custos operacionaisfossem superiores às refeições e custos de um prestigiado restaurante de pratos típicos. Eventualmente,a pressão do gado bovino corta a dinâmica de regeneração causando a decadência do sistema. Num clima mais frio, a decadência, even- tualmente, dá-se em escala mais longa do que a

- capacidade de observação de uma geração de seres humanos Em "ilhas" de Roresta no meio de pastagens no trópico úmido a degradação é mais rápida, assim como são mais curtos e frequentes os ciclos e a dinâmica de nutrientes, e a ação do gado cortando a dinâmica sucessional e a ciclagem de nutrientes 6 visível a curto prazo A esse exemplo, poderíamos juntar inúmeros outros

terralgenétzco, e espécies de ciclos rnam Em todos teríamos a noção da intima ligação de aspectos da

arquitetura das plantas e da formação vegetal como um todo, dos hábitos de crescimento e formas de reprodução, das características de folha, tipo de semente e agente dispersor Ainda, explorando

avançadosdasucess60 rnstaiarn-sena d~daque as condzções melhoram Está cn-

ado um "capão" de mato rico

em

blodlversldadeepleno de recursospara a

fauna.

um reducionismo útil, a análise química das espécies poderia nos apontar nos consórcios uma complementaridade de habilidades em concentrar determinados nutrientes, complefixlcar elementos tóxicos ou atrair determinadas espécies da fmna, fechando uma estratégia de constante renovação, diversificação e coevolução genética, disseminagão de sementes e complexificaçãoprogressiva. Finalmente, esse conjunto obtem assim sua estratégia para a reprodução, que é a auto-regulação ou homeostase. Essa é uma capacidade que cresce na medida da complexidade de um sistema, e, é como vimos no Capítulo I, na parte relativa aos conceitos de Termodinâmica, uma das propriedades dos sistemas vivos.

Estratégias de otimização da vida

Vamos reforçar o que foi visto citando alguns exemplos de como as fomas de vida buscam otimizar os fatores que propicim sua existência. Agregar mais exemplos é uma habilidade a ser desenvolvida pela observação e trabalho prático. De qualquer modo, pode nos auxiliar a observação dos seguintes ítens:

Arquitetura da planta (incluindo sistema radicular)

1Num pr~merromomento, seu rápldo cres- cimento e dennsmassafolrar recobre a da- reira e modera a radzação e o rmpacto da chuva

2A seguli; desloca-se junto com a vegeta- ção que emeee, amarrando a borda da mata e dlm~nurndoas perdas de umrdade por evaporação.

3 finalmente, estabelecem-se no alto das

sementes através

de vento e agentes dz-ersores da própna fauna, que deles se alimentam ou que os usam como acesso aos estratos mais alt0.s

árvores, onde dl-ersam

da$oresta.

,

VeJamos como exemplo dois casos extremos, em relagão a herbáceas que colonizam áreas abedas.

- raízes profundas, folhas finas e coriáceas revelam adaptação a situações de solos ou períodos secos;

- herbáceas de raizes superáíciais, com folhas largas e macias, com baixa relagão C/N indicam adaptação a colonização de clareiras naturais onde abunda umidade e inatéria orgânica. Esse tipo de correlação pode ser afinado com o conhecimento popular e complementado pelo estudo de botsnica e ecologia vegetal básica.

Aquitetura da formação vegetal no tempo e no espaço, ou seja, nas diferentes etapas da sucessão

A multiplicidade de formas e sua combinação, ao longo do tempo e do espaço, da sucessão natural de espécies aponta-nos quais são as formas que a sucessão de consórcios de espécies que estamos introduzindo devem tomar, o que podemos introduzir e como manejar estas introduções.

Um exemplo claro é a hnção dos cipós nas clareiras da mata. Adaptados ao rebrote vigoroso, os cipós fecham o solo e cobrem a biomassa que caiu, favorecendo a degradação da lignina, ao criar condições de umidade, abrigo para insetos e fonte de nutrientes para os decompositores. A medida que arbustos agressivos crescem, levando os cipós para cima, vai diminuindo gradativamente sua área foliar, mas as condigões geradas pelo conJuntoda vegetação éIdeal para evitar o crescimento de herbáceas agressivas pioneiras, bem como a perda de água por evaporação. Na sequêncla, os cipós deslocam-se para o alto das árvores, criando uma teia de amarração que "uda a vegetação a resistir aos vendavais e cicloneio. Por isso, matas exploradas para madeira ou "'clareadas9' para Introdução periódica de anima;lssão muito mais sujeitasa danos por ventos e, um dos principais fatores, é a ausência de cipós.

Estratégias de dispersão de sementes e de interaçóes com a fauna

comum encontramos áreas de capoelrão de até 20 anos povoadas por consórcios e indivíduoscomuns a situações pioneiras. 8 tempo de regeneração seria suficiente para uma população de mata secundária, mas observa-se ainda uma domingncia de pioneiras. Isso tem causas, geralmente, na degradação do banco genético, sob várlas formas: fogo, pastoreio, diminuição ou extingão da fauna por caça ou destruição dos habltats, retirada sistemática de indivíduosjovens, na faixa de diâmetro de 5-20 cm para construção, codando a regeneração natural, e pela busca seletiva e destruidora dos madeireiros a espécies nobres, muitas vezes eliminando matrizes. Esse último item é particularmente problemático para espécies dióicas, onde, geralmente, a Emea representa menos de 30% do total de Indivíduos da espécie. Conhecendo as estratégias de dispersk das espécies e do repovoamento (vento, animais especlficos, vegetativa, etc), podemos substitui-las ou repo-Ias através de abrigos específicos para dlssemlnadores, identificação e proteção de matrizes, bolsas de setnentes, envlveiramento, etc Enquanto teimamos em colocar as mudas de árvores no espaçamento definitivo, de modo que as copas, mesmo daí a 50 anos, não se toquem, a natureza mantém uma densidade de amores enorme por metro quadrado. É fácil observar mais de 30 ou 60

plântulas de espécies de mata pioneira como a Trema micranla (Ulmaceae). Esta densidade vai caindo drasticamente durante o desenrolar da sucessão. Somente permanecem os indivíduos que encontraram as melhores condições e que, eventualmente, carre- gavam a carga genética adequada. Ainda, que se estabeleceram onde as condições necessárias a sua espécie deram-se durante mais tempo do que suas companheiras de "ninhada9'. Durante o ciclo das pioneiras, o olho observador vai encontrar enorme densidade de espécies da mata secundária regenerando no sub-bosque das pioneiras, em taxas de 1 a 10 por metro quadrado. O processo é o mesmo: uma seleção promovida por vários fatores e diferentes ciclos de vida. Plantas colonizadoras como as gramíneas são ainda mais agressivas neste sentido. Espécies de Festuca sp. podem ser encontradas em concentrações de até 220 mil por metro quadrado Espécies pioneiras da família das Compositae, como o assa-peixe (Ernonza spp), um arbusto colonizador de pastagens degradadas tem a mesma proliisão de sementes, transportadas pelo vento, assim como o vassourão-branco (Piptadenzaangustlfolia), árvore pioneira da Mata de Araucárias. Outras colonizadoras têm a mesma profusão de sementes, mas não têm dispersão tão eficiente, o que é o caso da bracatinga (Mimosa scabrella, Leguminosae), cuja dispersão é por gravidade, o que já limita sua presença em blocos de regeneração natural em solos muito degradados, onde o banco de sementes (e, pro- vavelmente, as condições mínimas de que necessita) foi perdido. Avançando na sucessão até a mata primária, chegaremos a espécies que têm povoamentos iniciais bem mais ralos e exigem nichos específicos, chegando a densidades de menos de 0,3 indivíduos por hectare em matas clímax, ainda que esta densidade possa ter sido de mais de 100 indivíduos/ha nas etapas de transição de mata secundária para mata primária. Essas observações mostram-nos que as densidades de plantio não devem se ater somente ao que esperamos obter no espaçamento final. As densidades altas de sementes e plântulas são estratégias dos consórcios de espécies de modo a otimizar a ocupação do espaço e o desempenho futuro do sistema. Afinal, numa simples conta de probabilidades, é mais fácil que o lugar adequado de uma planta seja encontrado pela árvore-matriz e seus agentes dispersores, do que através da mão do diligente agricultor que as planta em covas num esgaçamento definitivo e em linha.

Isso nos leva a entender o potencial agrlcola do comportamento descrito anteriormente, que é o de ""lhas de vegetação7'. Essas ilhas não são casualizadas, mas sim localizadas segundo vários fatores que aumentam suas possibilidades de sucesso. Este comporlamento já foi comentado na conceituação de nichos: as plantas e os consórcios a que estas plantas peflencem não buscam a linearidade, mas sim, as possibilidades de obter os recursos de que necessitam para sua sobrevivência e reprodução. Este é o conceito básico de como se instalam as espécies num ambiente. Com esta base podemos, de modo pragmático, ajustar as densidades de plantio e a localização de nossos cultivos segundo um zoneamento ambiental. Logicamente áreas mais homogêneas em termos de relevo, solo e umidade permitirão que cultivemos nossas plantas em linha, se assim quisermos. Já áreas de relevo, radiação, umidade e características de solo diferenciadaspedirão uma abordagem menos rígida, mas certamente muito mais eficiente do ponto de vista de auto-regulação e desempenho produtivo naquelas condições. A resposta dos sistemasconvencionais para essas diferenças é a utilização maciça de insumos externos para viabilizar o sistema linear, pelo menos enquanto houver recursos externos para manter o sistema funcionando. A diferença para os sistemas naturais é a relação custolbeneficio favorável, obtida pelo zoneamento eficiente dos nichos para cada espécie dentro de uma área.

A homeostase ou auto-regulação

Tudo o que vimos em termos de estratégias de formas e consórcios visa a homeostase. A auto-regulação ou homeostase de um sistema dá-se na medida que este evolui conjuntamente com uma série de "fiscais" do processo evolutivo, como predadores, vírus, bactérias, fiingos, etc. Ela se expressa nas árvores, a nível Individual, de várias formas:

- na capacidade de repor a casca parcialmente perdida em distúrbios como quedas de árvores;

- na capacidade de perder folhas numa estiagem e rebrotar nas chuvas;

- em fechar as folhas ao anoitecer, desenvolver pilosidade, ou ainda plginentação clara na face inferior, de modo a refletir a radiação e diminuir a perda de umidade;

- na capacidade de evoluir de modo a gerar folhas aptas a captar a neblina e condensh-Ia, de forma a suprir a umidade necessáila em áreas de baixa precipitação e nevoeiros freqoentes. Ao nível das Interações, a auto-regulação vai se expressar:

- na exudação pelas raizes de nutrientes, substâncias inibidoras ou estimuladoras de crescimento de modo a compor e regular de forma otimizada o consórcio de espécies como a própria

atividade biológica ao nível da rizosfera (fixadores de N, micorizas, A principal delas diz respeito a sua dmâ-

etc),

- na exudação de substâncias químicas odoríferas que atraem predadores de insetos, na medida que esses mastigam suas hlhas,

- na exudação de açúcares e outras substâncias que atraem insetos que por sua vez repelem ou predam outros insetos que Ihe causam danos;

- na capacidade de extrair água e nutrientes de águas rasas de um litoral, modo diferenciado para cada restingas e mangues espécie e complemeistardentro de um consórcio. Ao nível do conjunto ou floresta (macro-organis- mo):

enteL$do outro, e esse fluxo de nutrientes favorece^ pflnczpaimeflte, afafauna

Bordas

ecssslstemas

zonas de tmiGáo

entre

ecox,siLy-

temas têm carac~erír;~icasúnicas,

mlca

um szstema exporta e recebe nutrn-

- reciclando a urnida- de na forma de vapor de kua pelo dossel da floresta, o que aumenta a área de dispersão da própria floresta pelo car- reamento da umidade para o interior do continente;

- reciclando nutrien- tes em conjunto de modo a zerar a perda ou aumentar o estoque destes na biomassa total do sistema;

- moderando a radia- ção e os ventos, de modo que a umidade não se perca rapi- damente nem que a matéria orgânica seja oxidada sem sua imediata incorporação a

mata pluvial em transição para pastagens e alagados

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1

O manejo destas zonas de transiçdo tem

e a vdrrases.ecies

anlmals a sohrevivêncla ao longo da hls- loria da evolução

paranli~oao homem

-

mata pluvial de altitude em transiçgo para campos de altitude

biomassa, numa estratégia que obedece h lei de conservação ene-ética da Termodinâmica. Todas essas habilidades, que vão do nivel do indivíduo ao nível do consbrcio, até chegar ao ecossistema Inteiro, podem ser conceituadas como auto-regulação. Alnda, em cada uma de nossas ações devemos ter em mente essas habilidades de auto-regulação. Este é o nosso -guia para sistemas agrícolas de baixa intervenção Qualquer ação orientada dentro de princípios sistêmicos, como é o caso do manejo de bacias hidrográficas, deve

levar em conta estes aspectos Do mesmo modo, ao efetuarmos uma intewenção numa vegetação nativa ou reflorestarmos uma área, devemos ter em mente as estratégias locais da vida, que serão nossas gulas permanente

-

Buscando

Todos os conceitos que vimos até agora nos ajudarão a compreender por que animais e vegetais - e o próprio homem - concentram suas populações em deter- minadas regiões, ou provocam alterações nas condições clímax de modo a obter TeGUrSOS. O conceito de clímax dinâmico e o conceito de bordas ou zonas de transição estão intimamente ligados. 0 clímax dinâmico é um estado potencialmente instável dentro de um determinado ecossis- tema. Por exemplo, uma árvore gigantesca da mata primária acumula enorme

inassa de nutrientes, em seu próprios tecidos e nos seus "hóspedes", A mata cilliar como sistema

como bromélias e toda uma série de espécies que nela encontram abrigo e recursos A queda dessa árvore e sua posterior decom- posição Irá lentamente transferindo as unidades básicas da vida para

incontáveis espécies que encontram um nicho adequado na clareira A exrstêncla de um volume de agua

de borda

aberta na mata, rica em matéria o-ânica e radiação Essa é uma alteração que o homem provoca, imitando a dinâmica de um sistema clímax

as bordas ou zonas de transição referem-se a zonas onde essa dinâmica dos sistemas clímax é bastante previsível e cíclica, propiciando oferta regular de recursos Essas zonas são faixas de interação entre sistemas complexos, se~amestes dois ou mais sistemas (ou ecossistemas) diferentese intercomplementares Existe nesta interface uma instabilidade que propicia a reorganização periódica com certa abundância de recursos para a fauna Podemos dizer que é o clímax dinâmico dando-se a nível mais amplo, em ciclos determinados e em faixas mais delimitadas dos ambientes Vejamos um exemplo Um sistema lacustre, como uma lagoa, tem períodos de inundação e sêca cíclico~,regidos por fenômenos climkticos Para o

sistema de várzea, a subida do nível das águas representa o aporte de sedimentos ricos em nu- trientes nas faixas inundadas. Após o retorno das águas, há um subsequente crescimento exuberante de gramíneas e outras herbáceas de baixa relação C/N. Este recurso alimentar é transformado por herbívoros, e seus predadores têm possibilidades de aumento populacional. Para os seres aquáticos, a subida do nível das águas aumenta seu territórió e a oferta de alimentos, bem como acesso a colonizar outros corpos de água, que se juntam. De modo mais marcado do quenum sistema clímax, que conceituamos como clímax dinâmico, as bordas têm uma certa regularidade de distúrbios ou eventos "renovadores". Marés de grande amplitude, cheias sazonais, épocas de ventos fortes, ou o degelo nas montanhas têm ciclosmais ou menos previsíveis.Esta previsibilidade oferece aos animais um tipo de segurança mais dificil de se obter dentro de um sistema clímax. Por exemplo, uma árvore madura pode cair ao primeiro vendaval, ou demorar

regula6 com cheias que trazem tam sedzmentos, condrcionam$ora e fauna

arras-

Na cheia, sedimentos, sementes e material vegetativo são distribuídos nas margens.

Nível do rio na cheia

.

.,.-

'i--

10 anos ou mais. Portanto, o nicho que sua queda proporciona é mais aleatório. numa zona de borda ou transição, estes nichos são bem mais previsíveis, tanto no tempo como no espaço, o que se reflete,

A cheiafunciona como elemento de geralmente, numa profusa e biodiversa vida vegetal e animal. Bordas

,

r--'-

I

renovação, ao arrancar árvores velhas e ramos e trazer sementes e sedimentos em ciclos espaçados. Esta é a dinâmica

típica de um

podem ser observadas na transição da savana para a floresta, da mata de restinga para o mar, dos campos de altitudepara as florestas

sistema de borda de encosta, do semideserto para as matas formadas ao longo dos

mata higrófila

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cursos de água. se incluem as florestas ciclicamente alagadas e/ ou semeadas de lagos, florestas em transição para alagados, como nos deltas dos grandes rios, ou áreas de manguezais e recifes próximos à linha da praia. Recifes e rochedos, bem como as franjas mata de de coral que caracterizam um atol, constituem uma

"zona de borda" entre as águas de baixa fertilidade do ocemo aberto e as bordas de ilhas. Estes sistemas são considerados as ""Rrestas do mar". As bordas são, portanto, componente, natural da dinâmica dos ecossistemas e da paisagem, e o ser humano aprendeu a reproduzi-las em nível localizado, utilizando o fogo controlado, a abertura de clareiras, o represamento de córregos, o manejo de arrecifes para peixes, crustáceos e algas, a ca- nalização de águas de degelo e a utilização dos sedimentos de canais e lagos. A busca pelo homem de sistemas de borda vai de encontro ao princípio básico da susten- tabilidade, que é a mínima intervenção. Ao invés de criar uma savana pela dembada da floresta, era mais óbvio para os povos autóctones buscar a savana e o cerrados nos ciclos favoráveis em termos de oferta de alimentos, reduzindo a necessidade de artifi- cialização dos sistemas4. Na mata úmida tropical, e na transição da floresta para os cursos de água, principalmente, na mata ciliar, que o homem achou as condições mais próximas às necessárias para a sua proliferação. Como toda a fauna desta ecozona, o homem tem

encosta

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Entre as cheias, os sedimentos se acumulam nas margens e fundo do curso d'água.

L mobilidade e circulou por outras áreas na busca de recursos eventuais, como nozes, fibras, etc. Essa

mobilidade, que é a característica maior

da fauna,

hnciona para a flora como estratégia complementar(e até principal)

e enriquecimento da bagagem genética, a partir da

dispersão de sementes, busca e ocupação de nichos. Esta Interação e interdependência na ocupação de nichos disponíveisdá-se com espéciesde ecozonas diferentes.Desse modo, as espécies podem encontrar recursos em outros ambientes, o que estimula o intercâmbio genético e a longo prazo a biodiversidade como um todo. Estudos etnobiológicos com populaç6