Jonas 3 (Parte 1

)
A Responsabilidade Humana e a Soberania de Deus
13 de dezembro de 2014
1 INTRODUÇÃO
A história de Jonas é sem dúvida uma das mais conhecidas das histórias contadas pela Bíblia.
Mesmo aqueles que nunca tocaram as páginas da Sagrada Escritura conhecem a história do homem
que foi engolido por uma baleia. Jonas já foi tema de inúmeras histórias infantis, filmes, contos,
poemas e toda a sorte de arte.
Muitos críticos da Bíblia tentam discutir a veracidade do relato de Jonas. Entretanto, não é objetivo
dessa exposição fazer apologética do texto bíblico ou debater com qualquer tipo de voz que se
levante contra a infalibilidade e inerrância de nosso livro Sagrado. Resta-me por suficiente a
canonicidade do livro, atestada historicamente pela igreja, as palavras do próprio livro - que em
momento algum nos fazem pensar que sua história é uma alegoria, uma parábola ou o que quer que
seja – e o fato de Cristo ter feito alusões à história e a considerado real1 2.
A título de contexto histórico, vale nos determos na identidade de Jonas. Identificado apenas como
filho de Amitai, o profeta Jonas - cujo nome significa “pomba” - foi o proclamador das bençãos de
Deus para o reino de Efraim - porção norte do dividido reino de Israel -, durante o reinado de
Jeroboão II (793-753 A.C.)3. Jonas, portanto, foi profeta antes da invasão Assíria que levou ao fim o
reino do norte. É justamente aos assírios que o profeta foi enviado a pregar.
No primeiro capítulo, o livro nos conta que a Palavra do Senhor veio a Jonas enviando-o à cidade
de Nínive com a missão de alertar seus habitantes que em não mais de 40 dias a cidade seria
destruída, pois o seu pecado subira até o trono do Senhor. O profeta, contrariando sua própria
vocação, intentou fugir para Társis em um navio que pegou no porto de Jope. A cidade de Társis
tem sido identificada por muitos estudiosos da Bíblia como a cidade portuária de Tartesso, na
Espanha. Jonas intentou atravessar todo o Mar Mediterrâneo para fugir do chamado de Deus.
Embora alguns sugiram que a fuga de Jonas tenha sido ocasionada pelo medo de pregar ao violento
povo assírio, o fato de Jonas ousar ser profeta do Senhor no apóstata reino de Israel depõe
fortemente contra essa ideia. O profeta Amós, contemporâneo de Jonas, foi tratado como um
vidente interesseiro e acusado de traição devido às suas palavras quando ali profetizava 4. Não
devemos pensar que Israel era menos pecador e perverso do que os assírios, isso atesta o profeta
Oseias, também contemporâneo de Jonas5. Jonas não tinha vida fácil como profeta em Israel e
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“Então alguns dos escribas e dos fariseus tomaram a palavra, dizendo: Mestre, quiséramos ver da tua parte algum
sinal. Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal
senão o sinal do profeta Jonas; Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o
Filho do homem três dias e três noites no seio da terra. Os ninivitas ressurgirão no juízo com esta geração, e a
condenarão, porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis que está aqui quem é maior do que Jonas”
(Mateus 12:38-41).
“E, ajuntando-se a multidão, começou a dizer: Maligna é esta geração; ela pede um sinal; e não lhe será dado outro
sinal, senão o sinal do profeta Jonas; Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do
homem o será também para esta geração. A rainha do sul se levantará no juízo com os homens desta geração, e os
condenará; pois até dos confins da terra veio ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui está quem é maior do que
Salomão. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a
pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Lucas 11:29-32).
2 Reis 14:25
Amos 7:10-17
Oseias 7

Daniel Pompermayer
Jonas 3 – A Responsabilidade Humana e a Soberania de Deus

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certamente não foi por medo do assírios que ele desobedeceu ao Senhor. O motivo mais evidente
para a fuga do profeta é o seu conhecimento a cerca do futuro de Israel. Todos os profetas que
anunciavam a palavra do Senhor a Efraim recorrentemente os alertavam sobre a forma com que o
reino seria castigado pelos seus malfeitos: eles seriam sumariamente destruídos pelos assírios 6.
Jonas, sendo profeta, certamente conhecia as profecias sobre a destruição de seu reino, se não era
ele mesmo um dos anunciadores dessa verdade. Por isso, ao ser enviado para pregar aos Assírios,
Jonas foi enviado a pregar a um inimigo a quem ele certamente desejava ver destruído. Isso é
atestado pelas próprias palavras do profeta no versículo 2 do capítulo 4: “Por isso é que me
preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e
grande em benignidade, e que te arrependes do mal”. No versículo 5 do mesmo capítulo vemos o
profeta assentar-se numa colina para assistir o fim da cidade 7. Jonas deixou de pregar, porque
desejava ver destruída a Assíria.
Em decorrência da fuga do obstinado profeta, Deus enviou uma tempestade que atingiu o navio de
Jonas. Os marinheiros desesperados lançaram ao mar a carga do navio enquanto buscavam em seus
próprios deuses socorro para a situação. Encontram-no dormindo no porão e após lançar sortes,
descobriram-no como o responsável por aquela tempestade. Vemos aqui a dimensão do pecado do
homem e como ele pode atingir a muitos ao seu redor. Certamente a tempestade causou um enorme
prejuízo aos marinheiros do navio de Jonas. Talvez não só isso, aquela tempestade muito
provavelmente atingiu um número muito maior de navios que também atravessavam o
Mediterrâneo no momento e que lançaram ao mar as suas cargas. Um prejuízo gigantesco foi
causado como consequência do pecado de um só homem. Vemos na história de Jonas uma grande
resposta ao latir de Satanás pela boca dos ímpios, os quais, querendo nos convencer a pecar,
sugerem que nosso pecado não atinge a ninguém mais senão a nós mesmos. “Que mal há?”, dizem,
“isso, se causar algum mal, não atingirá a mais ninguém!”. O relato de Jonas é um veemente não
contra esse falso ensinamento.
Para acalmar a tempestade, o profeta foi lançado ao mar. Consciente de seu pecado, e do salário que
lhe era devido: a morte8, foi Jonas quem sugeriu aos marinhos o fazê-lo. Tendo o feito com
relutância, aqueles homens oraram ao Senhor, pedindo ao Pai que não lhes imputasse culpa pela
morte daquele pecador. A boa e misericordiosa mão do Senhor se mostrou àqueles homens, pondo
fim à tempestade, e a Jonas, enviando uma baleia9 que o engoliu e o livrou da morte. Me detenho
mais uma vez nesse ponto. Em muitas circunstâncias somos submetidos a situações aterradoras e de
grande sofrimento. O leitor do livro de Jonas não deve imaginar ser agradável encontra-se nas
entranhas de um animal. Essas situações, entretanto, são nos dada pela secreta providência de Deus,
afim de livrar-nos de um mal pior ou para a glória do seu nome. João Calvino diz, respondendo ao
herege Castelio, que “Aquele que é supremamente bom usa sabiamente o mal para a condenação
daqueles que predestinou justamente para a condenação, e para a salvação daqueles que predestinou
para a graça”10. Dessa forma, Deus lança mãos de meios que por vezes nos são dolorosos para o
cumprimento da sua vontade, e isso deve ser recebido por nós com coração agradecido. O profeta
Jonas, estando no ventre da baleia diz: “Mas eu te oferecerei sacrifício com a voz do
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Ezequiel 23:9; Oseias 11:5-6;
“Então Jonas saiu da cidade, e sentou-se ao oriente dela; e ali fez uma cabana, e sentou-se debaixo dela, à sombra,
até ver o que aconteceria à cidade” (Jonas 4:5).
8 Porque o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23).
9 Permitam-me aqui, referir-me ao grande peixe como uma baleia, uma vez que assim ensinado pela tradição, tornase difícil retirar da boca esse vocábulo quando se fala de Jonas. Além do mais, não existe nenhuma importância
teológica em qual animal foi usado por Deus, senão o fato de que ele tenha sido seu instrumento para o resgate de
Jonas. Se alguém deseja ainda contender sobre o animal dizendo que a Bíblia lhe descreve como peixe, enquanto as
baleias são classificadas como mamíferos, é necessário que se diga que a taxidermia do mundo antigo era simples e
não distinguia os animais senão por seus ambientes. Um morcego, também mamífero, era considerado ave por voar.
10 CALVINO, João. A Providência Secreta de Deus, p.63

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agradecimento” (Jonas 2:9).
Todo o livro de Jonas é um grande ensaio sobre a soberania de Deus. Deus é soberano sobre a
natureza: ele chama a tempestade, ele a acalma, ele envia uma baleia e mantém vivo um homem em
seu interior. Deus é soberano sobre a morte: ele salva a Jonas e ele salva os Ninivitas. Deus é
soberano sobre os ímpios: eles reconhecem o seu poder e se dobram temerosos diante dele. A parte
final do versículo 9 do capítulo 2 é talvez o extrato mais celebre do livro: “A salvação vem do
SENHOR”. No capítulo 3, entretanto, encontramos relacionada de forma espetacular essa soberania
de Deus com a ação e responsabilidade do homem. Nesse capítulo, aquele que tem sido um dos
pontos mais atacados da teologia reformada é estabelecido de forma clara: Deus é absolutamente
soberano sobre todas as coisas, inclusive sobre a salvação ou condenação dos ímpios, e o homem é
absolutamente responsável por suas ações e a sua obra é necessária para o cumprimento dos
propósitos do Senhor.
2 SEGUNDA CHANCE
“E veio a palavra do SENHOR segunda vez a Jonas, dizendo...” (v. 1)

A palavra do Senhor foi então novamente entregue ao desobediente profeta. Após a leitura dos dois
capítulos anteriores, um leitor que desconhecesse a história do profeta pensaria com razão que seu
ministério teria sido arruinado pela sua falta. Jonas foi poupado apesar de sua desobediência e da
intenção perversa de seu coração. Ele foi poupado apesar de colocar em risco a vida de inúmeros
marinheiros, uma vez que a tempestade que atingiu o Mediterrâneo naquela noite foi destinada a
puni-lo e a ele somente. Tendo o profeta sido salvo das furiosas águas de um mar tempestuoso ao
ser engolido por uma baleia, mantido vivo no interior do animal apesar de todo o processo biológico
ali desencadeado pela sua presença, e milagrosamente entregue à Terra pelo incomodado ser, o
desavisado leitor tê-lo-ia por um homem profundamente abençoado por Deus. O castigo por ele
merecido era a morte, de maneira que a graça imerecida de Deus se mostra evidente em sua
salvação. Mas ao contrário do que pensaria nosso leitor, não só a vida foi restabelecida à Jonas,
como seu ministério foi restaurado.
Jonas foi um soldado desertor. Ele traiu a confiança do seu Senhor e partiu em disparada caminho
contrário ao campo de guerra. Estamos cercados de pessoas que, como Jonas, ferem a confiança que
depositamos nelas. Portanto, devemos entender o perdão do Senhor dado ao profeta como o padrão
moral por ele estabelecido para nossas relações pessoais.
Jonas não está sozinho na lista de traidores perdoados pela graça de Deus de quem a Bíblia nos fala.
Na verdade ele está cercado de um bom número de grandes homens. Ao lançarmos um rápido olhar
sobre as páginas do capítulo 11 de Hebreus, encontraremos dentre a lista de homens descritos pelo
autor da epístola como Heróis da Fé, homens que como Jonas foram desobedientes, inseguros,
precipitados e egoístas. Dentre esses heróis encontramos Abraão, que não confiando na promessa de
Deus de dar-lhe um filho, tomou uma escrava por concubina como meio de trazer ao mundo o seu
herdeiro prometido. Encontramos também Sara, sua esposa, que não só convenceu seu marido a
deitar-se com sua escrava, como riu do anuncio da profecia do nascimento de seu filho. O capítulo
cita ainda o precipitado Gideão, o desobediente Sansão e mesmo Davi, adúltero e assassino. Ao
chamá-los de herói, o escritor de Hebreus demonstra o poder do perdão de Deus e a extensão da sua
misericórdia. Aqueles a quem o Senhor perdoa, não se atribui mais pecado, antes suas faltas são
lançadas no mar do esquecimento11. Jonas somente engrossa a fileira dos homens perdoados por
Deus, dentre os quais encontramo-nos todos nós, a quem o Espírito Santo chamou das densas trevas
do pecado. Dessa forma, o Senhor mais uma vez nos exorta por meio de sua Santa Palavra a
11 2 Samuel 12:13; Isaías 43:25; Ezequiel 33:16; Romanos 4:8; Romanos 8:3; Hebreus 10:18

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cumprirmos à ordem que nos manda perdoar indistintamente a todos que nos tem ofendido:
“Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de
benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; Suportando-vos uns aos outros, e
perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos
perdoou, assim fazei vós também” (Colossenses 3:12-13).

Uma vez nos tendo sido dada esta ordem, o próprio Cristo amaldiçoa todo aquele que, movido pela
ira e por um coração ressequido, nega ao próximo o perdão:
“Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as
vossas ofensas” (Mateus 6:15).

Não pensemos que estamos isentos de sermos traídos, ofendidos ou magoados por aqueles que nos
cercam. Maridos ainda trairão suas esposas, esposas trairão seus maridos, filhos desobedecerão seus
pais, pais ferirão seus filhos, pastores desapontarão igrejas, etc. Em todas essas coisas, a ordem de
Deus para seu povo é única e constante: perdão.
3 DEUS É SOBERANO NA SALVAÇÃO
O perdão de Deus é um farol que lança luz sobre outra preciosa verdade contida nesse pequeno
verso: o Senhor é soberano para perdoar a quem quer e para negar perdão a quem assim lhe
apraz. Essa verdade, afirmada por Deus a Moisés em Êxodo 33:1912 e reafirmada pelo apóstolo
Paulo em Romanos 9:1513 e Romanos 9:1814, surge também no livro de Jonas. Enquanto o
obstinado fujão encontrou libertação, homens como Uzias e Moisés tiveram seus pecados
castigados com doença15 e morte16. A Reformation Heritage Study Bible traz em suas notas uma
brilhante comparação entre o profeta Jonas e o profeta sem nome de 1 Reis 13.
As Sagradas Escrituras nos contam que este profeta recebeu de Deus a difícil missão de clamar
contra o altar de Betel diante do rei Jeroboão que ali queimava incenso. Jeroboão I era tão mal
quanto o eram os assírios. Esse rei chefiou a revolução que dividiu em dois o reino de Israel.
Temendo que seus súditos, habitantes da porção norte do reino, ao descerem para Jerusalém para ali
prestar culto ao Senhor em seu templo, deixassem o país, Jeroboão decretou a criação de um altar
em Betel, onde um ídolo de ouro foi erguido para ser o deus do reino do norte. Esse homem era de
tal forma perverso que tornou-se um padrão de perversidade com o qual todos os demais reis
perversos de Israel foram comparados. Foi diante desse rei que o desconhecido profeta pregou.
Tendo recebido de Deus a ordem de pregar contra o altar, o profeta deixou o reino de Judá e partiu a
Betel, onde amaldiçoou o monumento na frente do governante, de forma que o altar rachou a vista
de todos os presentes. Jeroboão, ao estender a mão para ordenar sua prisão, foi acometido de um
mal e teve sua mão paralisada. Foi o mesmo profeta quem intercedeu pelo rei para que os
movimentos lhe fossem restituídos. Àquele homem, entretanto, uma ordem muito clara foi dada:
“Não comerás pão nem beberás água; e não voltarás pelo caminho por onde vieste” (1 Reis 13:17).
Fiel no cumprimento de seu chamado, esse homem fora fiel também a essa ordem quando o rei,
movido por Satanás, tentou enganá-lo oferecendo-lhe estadia e conforto. Mas no caminho de volta,
12 “Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de
ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êxodo
33:19).
13 “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver
misericórdia” (Romanos 9:15).
14 “Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18).
15 2 Crônicas 2:21
16 Deuteronômio 32:49-52

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um profeta velho e mentiroso, contando-lhe que um anjo lhe mandara intervir em seu caminho, lhe
convenceu a parar e a comer e beber em sua casa. O castigo de Deus foi imediato:
“E sucedeu que, estando eles à mesa, a palavra do Senhor veio ao profeta que o tinha feito
voltar. E clamou ao homem de Deus, que viera de Judá, dizendo: Assim diz o Senhor: Porquanto
foste rebelde à ordem do Senhor, e não guardaste o mandamento que o Senhor teu Deus te
mandara, Antes voltaste, e comeste pão e bebeste água no lugar de que o Senhor te dissera: Não
comerás pão nem beberás água; o teu cadáver não entrará no sepulcro de teus pais. E sucedeu
que, depois que comeu pão, e depois que bebeu, albardou ele o jumento para o profeta que
fizera voltar. Este, pois, se foi, e um leão o encontrou no caminho, e o matou; e o seu cadáver
ficou estendido no caminho, e o jumento estava parado junto a ele, e também o leão estava junto
ao cadáver” (1 Reis 13:20-24).

O que tinha Jonas de especial em relação ao profeta sem nome? Teriam sido suas intenções ao fugir
mais honestas e sinceras? Ou teria sido um coração mais quebrantado o motivo de seu perdão?
Quando olhamos para essa simples comparação com olhos humanos, somos levados imediatamente
a atacar a justiça de Deus. Como aquele homem - tendo sido inocentemente enganado após ter
fielmente agido, colocando sua integridade em risco e sem relutar - foi tão veementemente
condenado, enquanto Jonas – que com um coração covarde ou repleto de intenções perversas, fugiu
da vontade de Deus, num ato que causou mal não somente a ele mesmo mas também a muitos
outros homens - foi perdoado pelo Senhor?
A resposta foi dada pelo próprio Jonas em sua oração no interior da baleia, dizendo: “A salvação
vem do Senhor” (Jonas 2:9). A graça de Deus e seu misericordioso amor pertencem unicamente a
Deus. Dessa forma, nenhuma criatura, em qualquer situação que esteja, é capaz de reivindicar
diante dele direito ou dizer-lhe o que reto e justo a se fazer. Nem mesmo Jó, em meio à mais dura
provação e fustigado por seus amigos, esqueceu-se dessa verdade. Antes, ele mesmo afirmou
àqueles a quem falava:
“Porventura a Deus se ensinaria ciência, a ele que julga os excelsos?” (Jó 21:22).

O apóstolo Paulo é veemente ao falar aos Romanos:
“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e
outro para desonra?” (Romanos 9:21)

4 BOAS NOVAS DA GRAÇA DE DEUS
A boa nova da graça de Deus é que, em sua soberania, Deus não olha para o tamanho ou para a
gravidade do pecado de alguém. Não existe homem que tenha de tal forma pecado a ponto de
tornar-se inescusável diante de Deus. Não é pelo mal causado ou pelo tamanho da afronta que o
homem é salvo ou condenado. O chamado soberano de Deus à salvação, se estende ao mais
perverso dos pecadores. Isso só é possível porque na cruz do calvário, Cristo derramou seu precioso
sangue para que todo aquele que nele crê seja salvo, não importando a gravidade dos seus feitos
passados17. Pela sua morte, Cristo elevou-se a um ministério tão mais excelente, pondo-se diante do
pai como mediador18. E por essa morte, nós mesmos temos acesso direto ao trono da graça 19. Para
isso, não nos é exigido nenhuma obra especial ou feito inalcançável, mas somente a fé e o
arrependimento20. O próprio Cristo assegura a vida eterna a todo aquele que nele crê, mas ele
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João 3:16
Hebreus 8:6; Hebreus 10:12
Hebreus 10:19
Hebreus 10:22

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mesmo é quem condena os incrédulos a enfrentarem eternamente a condenação devida pelos seus
pecados:
Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida,
mas a ira de Deus sobre ele permanece (João 3:36).

Aprendemos com a história de Jonas, que pouco importa diante de Deus quão perversa foi a nossa
intenção ao pecar ou quão grande é a extensão de uma falta cometida. Deus, em sua soberania,
perdoa a quem quer e igualmente condena a quem lhe apraz. Ele, entretanto, enviou seu filho ao
mundo para que por meio dele, todo aquele que, tendo fé, for limpo por seu sangue, seja recebido
diante do seu trono de glória.
Pobre é o homem que pensa poder apresentar-se diante de Deus com obras de justiça. Pobre é
aquele que desprezando o sangue de Cristo, pensa de si mesmo merecedor da graça do Pai. O
contraste de Jonas com o profeta sem nome nos mostra que não serão obras bem feitas que tocarão
o coração do Senhor. A mensagem do profeta ainda ecoa até nós: “Daqui a quarenta dias Nínive será
destruída” (Jonas 3:4). Eis que vem o dia em que todo homem e mulher renderá contas diante de
Deus, e todo aquele que for achado em falta será por isso condenado.
Louvemos ao Senhor nosso Deus, nós os seus filhos, pois ele, não encontrando em nós motivo para
nos perdoar, nos salvou através de Cristo Jesus.
Que todo aquele que vive na sombras do pecado venha aos pés de Cristo, arrependido e com fé,
para que seja recebido na assembleia dos santos.
Deus os abençoe!

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