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Educação. Temas e Problemas | n.

º 3 | Ano 2 | 2007
Educação, Ética e Sustentabilidade
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APRESENTAÇÃO

O terceiro número da nossa Revista é dedicado à temática Educação, Ética e


Sustentabilidade. Mais uma vez, a escolha do tema para a Revista foi difícil, gerando
muita discussão, não por dissentir da sua actualidade e pertinência, mas antes pela
existência de outros desafios, igualmente pertinentes e actuais e que merecem, do nosso
ponto de vista, uma chamada ao debate de ideias e à procura de soluções para a
melhoria da Educação em Portugal. Como o amigo leitor calcula, cada número da
Revista começa a ser preparado com muita antecedência, pois existem prazos a cumprir
e compromissos a satisfazer. Este número, por exemplo, começou a ser preparado em
Março de 2006. Na primeira linha das nossas preocupações, encontrava-se (e encontra-
se...) a questão financeira, a qual, como não poderia deixar de ser, reflecte a profunda
crise que a esse nível afecta o ensino superior e, diga-se de passagem, quase todos os
sectores da vida do nosso país. Naturalmente, muitos de nós tentaram identificar as
características dessa crise, as suas causas, umas evidentes e outras latentes, passando
momentos apaixonantes de discussão, onde as diferentes perspectivas ideológicas se
confrontaram e, como também é costume, se mantiveram indeclináveis. Cada um de nós
defendeu a sua dama o melhor que pôde, discutindo e rebatendo as alternativas
possíveis - ou sonhadas (?) - para a falta de financiamento do ensino superior. Todavia,
e curiosamente, todos concordámos num pressuposto: sendo aquilo que é e como
funciona o sistema do ensino superior em Portugal, era uma questão de tempo o
aparecimento de uma crise deste género. Acordámos também que se tratava de um
assunto com peso ideológico muito marcado e, por isso, poderia facilmente arrastar-nos
para caminhos que temos evitado, na medida do possível.
Outra proposta temática em análise, foi a adaptação das normas impostas pela
Declaração de Bolonha aos diferentes cursos e instituições de ensino superior. Trata-se,
também, de matéria de indubitável interesse e actualidade, a nível nacional. Cremos,
porém, que outras revistas da especialidade se irão ocupar do assunto1 e que o mesmo
ainda está pouco amadurecido para que possamos ter visão conjuntural, apoiadas em

1
Na verdade, o n.º 1, do Vol. XIV, da Revista de Educação (Setembro de 2006) é todo ele dedicado à
reflexão sobre a problemática da implementação da Declaração de Bolonha nos cursos de formação
inicial de professores.
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factos, sobre a falta de orientações superiores, o que nos continua a atormentar,


enquanto o tempo vai passando. Tínhamos, contudo, um outro tema que, apesar de
dominante, tem sido pouco problematizado – pelo menos a nível da comunicação
académica de referência. Trata-se das relações entre a Educação e a Sustentabilidade.
Ou melhor, entre a Sustentabilidade e a Educação. Acontece que, na Universidade de
Évora, se tem não só registado alguma reflexão sobre o assunto, mas também se tem
desenvolvido algum trabalho que procura concretizar princípios teóricos em práticas
pedagógicas com eles coerentes. Acordámos que este tema levantava questões
estimulantes para construir o percurso do terceiro número da revista. As razões
principais desta decisão podem ser assim resumidos: estamos em plena Década da
Educação para o Desenvolvimento Sustentável2 e os problemas da sustentabilidade
estão na ordem do dia – constituem, quase sempre, ou título da primeira página dos
jornais ou tema de abertura dos telejornais. Desde as catástrofes ecológicas, às grandes
e, aparentemente, rápidas mudanças climáticas e respectivas consequências, passando
pela gestão dos recursos naturais, reconhecidamente finitos, ou pelas tecnologias que
utilizam formas de energia alternativas, são questões de relevância reconhecida que
exigem tomadas de decisão informadas e participadas por um número, cada vez maior
de cidadãos. As questões energéticas e a sua influência no curso da economia, possuem
conexões fortíssimas, reconhecidas unanimemente a nível mundial; e sem
desenvolvimento económico, balizado pela democracia, não se conhece qualquer
exemplo de progresso social e cultural. Isto é, não existem contextos que promovam, ou
permitam, o desenvolvimento da humanidade do Homem. Ora, esta é uma das grandes,
se não a maior, finalidade da Educação nos regimes de raiz civilizacional clássica, de
tradição judaico-cristã, funcionando em regime democrático. Naturalmente, que as
questões que se levantam em seguida são do tipo: Mas nós até já estudamos Ecologia3,
há quase trinta anos, no ensino básico!... Nós até temos vários cursos superiores, quer
de graduação, quer de pós-graduação, virados para essas temáticas!... Quer dizer que
tudo isso foi em vão? Que a acção educativa, nesses níveis de ensino, não conduziu às
mudanças pretendidas? Que se trata de mais um factor de insucesso do sistema

2
Instituída pelas Nações Unidas para o período de 2005-2014.
3
Com esta ou outra designação, dependendo das Reformas a que tem estado sujeito o sistema educativo
português. Recorde-se que a própria Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46786, de 14 de
Outubro) chama a atenção, de forma explícita para a abordagem das questões do Ambiente e da finitude
dos Recursos Naturais.
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educativo? Mas, afinal, que escolas é que temos?... Qual a responsabilidade dos
professores, no meio de tudo isto? Afinal, para que serviram os cursos de formação
inicial de professores? Quem presta contas das enormes somas de dinheiro investidas
no sistema educativo?...
Todos aqueles que estão mais familiarizados com as questões da Educação
reconhecerão a falácia desse tipo de questões. Todavia, tal não impede que o vulgar
contribuinte e o cidadão responsável deixem de se interrogar sobre o que falhou, pois a
todos é evidente que não temos uma Educação de qualidade superior à daquela que
existia há trinta anos atrás. E é aqui, parece-nos, que se torna necessário acrescentar um
outro tema de questionamento, ao da eficácia do sistema educativo: as ligações que as
relações entre Educação e Sustentabilidade possuem com a Ética. Se hoje parece não
haver dúvidas sobre a necessidade de encarar a Educação de modo diferente daquele
como tem sido encarada até aqui – se os grandes problemas a que ela terá de dar
resposta são de natureza diferente dos tradicionais, logo ela também terá de possuir uma
natureza diferente, que permita encontrar respostas eficazes para os problemas actuais4,
parece também haver poucas dúvidas sobre a necessidade de mudança da postura ética,
quer no ensino, quer nas aprendizagens que com ele se pretendem. Na verdade, as
grandes questões ambientais não se detêm nas fronteiras. Por exemplo, é impossível
poluir a atmosfera em Lisboa, sem a poluir em Évora, Madrid ou Reiquiavique; ou
esgotar as reservas de carvão no Reino Unido, sem que isso afecte todo o resto do
mundo; ou ainda, provocar o degelo da Antártida, sem que haja consequências na
subida do nível das águas do mar em todo o mundo. Ou que se extinga uma determinada
espécie ou uma determinada população, sem que isso se reflicta no equilíbrio biológico,
afectando todo o sistema Terra – que, recorde-se, possui elementos vivos e não-vivos.
Os exemplos são fáceis de encontrar, o que significa que os nossos actos deixam de se
reflectirem só em nós, enquanto pessoas ou enquanto povo, para se reflectir sobre os
restantes seres humanos, ainda que em graus e intensidades diferentes. Tal implica uma
postura menos egocêntrica e menos antropocêntrica, como é da nossa tradição
civilizacional. Implica que adoptemos um paradigma interrelacional, quando nos
propomos avaliar as consequências dos nossos actos. Em Educação, por exemplo, a
concretização desta linha de pensamento rompe com uma tradição académica de
4
Por isso hoje volta a retomar-se a ideia da abordagem integrada da ciência, sem a compartimentação
precoce em disciplinas especializadas.
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séculos. Daí, as dificuldades acrescidas. Em vez do trabalho individual, é preciso


valorizar mais seriamente o trabalho cooperativo, por exemplo. É necessário incentivar
a partilha de informação para resolver problemas que são de todos e não apenas de
alguns. É preciso promover o trabalho em equipa, distribuir tarefas, fomentar a procura
de informação. Provavelmente, será necessário trabalhar mais em projectos
transdisciplinares ou multidisciplinares do que em disciplinas!...
Neste sentido, pedimos a alguns especialistas de nome firmado nesta área que
partilhassem connosco as suas ideias e, assim, temos o gosto de poder contar com
artigos do nosso colega brasileiro Alvori Ahlert, dos nossos colegas espanhóis Amparo
Vilches e Daniel Gil Perez, da nossa colega Ana Luísa Janeira, do nosso colega André
Giordan, das nossas colegas Mariana Valente e Marjoke Krom e da nossa colega
espanhola Rosa Roriz Castro. Os colegas Jorge Bonito, Marília Cid e Gilda Matos, dão-
nos conta de uma investigação empírica iniciada no ano lectivo passado e já concluída
este ano. Infelizmente, e mais uma vez, não podemos incluir neste número, um outro
estudo realizado por um colega da Universidade de Évora, devido aos prazos que nos
são impostos. Temos esperanças de o incluir no próximo número.
Retomando o tema do passado número da Revista dedicado às questões de
Educação e Cidadania, apresentamos dois artigos que nos chegaram já depois de
termos entregue o segundo número na editora. Um, da autoria da nossa colega Maria
Eduarda Vaz Moniz dos Santos, que ultimamente se tem dedicado ao tema, e outro, da
autoria da nossa cara colega Helena C. Araújo, que trata o tema numa perspectiva de
género.
Na secção das Recensões, apresentamos a visão crítica de quatro colegas nossos
sobre outras tantas obras, permitindo-me destacar a colaboração que nos foi dada por
uma nossa querida colega brasileira, reforçando-nos a esperança de contribuirmos para
um melhor conhecimento do que se faz no Brasil (enfim, de uma parte, pelo menos...) e
para uma maior aproximação entre os países lusófonos.
Na secção Varia, os colegas Carlinda Leite e Preciosa Fernandes, brindam-nos
com um artigo intitulado Desafios para um currículo escolar comprometido com a
inclusão, no qual abordam, de forma inovadora, uma temática que também se encontra
entre as nossas mais prementes preocupações. O nosso colega Oswaldo Market, nome
grande da Filosofia na Europa, nos dá a honra de partilhar connosco as suas reflexões,
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ancoradas em “honesto estudo com longa experiência misturado”, sobre o panorama


actual do ensino da Filosofia em Portugal. Sabendo das dolorosas maleitas que têm
apoquentado o ilustre Professor, daqui lhe desejamos as rápidas melhoras.
Na rubrica História(s) com voz na Educação conseguimos, desta vez, o
testemunho de um nome com créditos bem firmados no meio: o da Doutora Maria
Teresa Estrela, que teve a gentileza de se deixar entrevistar pelo Doutor José Bravo
Nico. A lucidez e a acuidade da sua “voz” honra a revista e daqui lhe queremos deixar,
para além da nossa gratidão, a saudação académica que merece e o obrigado de uma
geração de “scholars”que se fez, também, com a sua ajuda.
Segue-se a Agenda onde tentamos dar conta do que de mais relevante irá
acontecer no próximo semestre, no campo da Educação. Trata-se de uma secção difícil,
porque sempre incompleta, mas à qual dedicamos particular atenção.
Inauguramos, neste número duas secções: uma dedicada às teses e dissertações
que entretanto aconteceram, na área da Educação, entre os membros do Centro. E, uma
outra, infelizmente, dedicada àqueles que, apesar de continuarem connosco, deixaram o
nosso convívio – In Memoriam. Neste número, prestamos a nossa homenagem, sentida,
a uma colega que sempre nos apoiou, que nos deu a honra de pertencer ao nosso
Conselho Científico e que connosco quis colaborar, publicando um dos seus últimos
artigos – senão mesmo o último – no nosso primeiro número: Doutora Maria Teresa
Ambrósio.

Vítor Manuel Trindade