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UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS CURSO DE DIREITO

Direitos culturais e tombamento:

A tutela efetiva do patrimônio cultural brasileiro.

Raimundo Nonato Costa Filho

Sobral

2009

1

Direitos culturais e tombamento:

A tutela efetiva do patrimônio cultural brasileiro.

Raimundo Nonato Costa Filho

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RAIMUNDO NONATO COSTA FILHO

Direitos culturais e tombamento:

A tutela efetiva do patrimônio cultural brasileiro.

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Estadual Vale do Acaraú como requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Direito, sob a orientação do Prof. Esp. José Luís Araújo Lira.

Sobral

2009

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RAIMUNDO NONATO COSTA FILHO

Direitos culturais e tombamento:

A tutela efetiva do patrimônio cultural brasileiro.

Esta monografia foi submetida ao Curso de Direito da Universidade Estadual Vale do Acaraú como requisito para a obtenção do título de Bacharel.

Monografia apresentada à Banca Examinadora:

Prof. Esp. José Luís Araújo Lira

Orientador

Universidade Estadual Vale do Acaraú

Prof. Ms.Guilherme Fonseca Guimarães

Membro-Examinador

Universidade Estadual Vale do Acaraú

Prof. Carlos Henrique de Aragão Cavalcante

Membro-Examinador

Universidade Estadual Vale do Acaraú

Sobral-CE

2009

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Dedico este trabalho ao meu sobrinho, João Pedro Costa Braga, e a minha avó, Maria Olintete Teixeira dos Santos, que partiram ao céu durante a elaboração deste ideal, para interceder com o meu pai, Raimundo Nonato Costa, pelo cumprimento desta missão chamada poesia de defesa dos direitos culturais.

5

Á minha mãe, Valdíria, por traduzir o amor maternal incondicional; À minha irmã Cláudia, pelo seu auxílio nas horas difíceis; Ao meu irmão Moacir, pelo exemplo de jurista e de apaixonado pelo Direito; À minha irmã, Claudiene, pela disposição para eu seguir em frente; Ao professor José Luís Araújo Lira, por haver me ensinado a amar os direitos culturais; Ao professor Francisco Humberto Cunha Filho, pelas valiosas contribuições para a autonomia dos direitos culturais no Brasil, representando todos os defensores da causa cultural.

6

É importante que destacar o direito brasileiro é um produto cultural, caracterizando-se, dentro de nossa realidade, por ser verdadeiro patrimônio cultural, constituindo-se em bem de natureza material e imaterial portador de referência (enquanto forma de expressão) à identidade e à ação, assim como à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (art. 216 da Constituição Federal). Destarte, nosso direito está intrinsecamente ligado, sob o ponto de vista jurídico, ao meio ambiente cultural.”

Celso Antônio Pacheco Fiorillo.

7

RESUMO

O presente trabalho versa sobre os principais impactos causados pela

Constituição Federal de 1998 ao instituto do tombamento, visto como fundamental a partir de sua consideração como integrante dos direitos culturais, bem como sua aplicação ao município de Sobral. Os direitos culturais

realmente possuem status de direitos fundamentais, visto sua classificação como direitos de natureza especial, bem como sua autonomia, perpassada ao instituto do tombamento. O patrimônio cultural brasileiro, visto como direito difuso, tem sua razão de ser em virtude do resguardo da memória coletiva, pela

valorização significativa da identidade popular, sendo necessária a proteção, seja no âmbito estatal ou social, visto a função social que o bem cultural possui, devendo ser tratado como política prioritária, e de forma efetiva, sob pena de perecimento e destruição da identidade e da memória. O tombamento

de sítios históricos é visto pela doutrina como garantia de efetivação do Estado

Democrático de Direito. Analisaremos os pormenores da legislação infraconstitucional específica, qual seja o Decreto-Lei nº 25/37, bem como a

constitucionalização cultural promovida pela Constituição Federal de 1988.

Palavras-Chave: Cultura. Patrimônio Cultural. Direitos Culturais. Constituição. Tombamento. Sítio Histórico.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

11

Capítulo I.

FUNDAMENTAIS DIREITOS CULTURAIS.

1. A cultura.

13

2. O patrimônio cultural.

19

3. Do patrimônio histórico e artístico ao patrimônio cultural.

21

4. Antecedentes da proteção patrimonial no Brasil.

23

5. Os direitos culturais.

25

6. A presença dos direitos culturais nas dimensões de direitos fundamentais. 27

7. Os princípios constitucionais culturais.

30

8. Competência em matéria cultural.

32

Capítulo II.

A TUTELA DO PATRIMÔNIO CULTURAL A PARTIR DO TOMBAMENTO.

1. Antecedentes da intervenção do Estado na propriedade.

33

2. O sentido da proteção estatal.

37

9

3.

Conceito e características do tombamento.

39

4. Espécies de tombamento.

42

5. Efeitos do tombamento.

44

Capítulo III.

TOMBAMENTO DE SÍTIOS HISTÓRICOS: O CASO DE SOBRAL.

1. A reabilitação urbana de sítios históricos.

46

2. O conjunto arquitetônico e urbanístico de Sobral.

47

3. Antecedentes históricos do município.

49

4. Justificativa do tombamento.

51

5. Identificação do sítio histórico

53

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

55

VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

57

10

INTRODUÇÃO.

A temática da preservação patrimonial possui uma essência notadamente fascinante. Seu estudo envolve a valorização do significado da produção humana, dotada de profunda identidade e perpetuada para as gerações seguintes por meio da memória, que deixa o legado cultural da sociedade como forma manutenção da própria espécie humana.

Não podemos nos privar do direito de fruição da manifestação cultura, haja vista o fato de possuir a função precípua de proporcionar beleza e poesia à vida, estando sua preservação ser vista com fundamental pela norma constitucional, que não se constitui apenas da arte, sendo esta apenas uma de suas formas de expressão.

“Cultura somos todos os nossos gestos. São trocas simbólicas e

subjetivas. Aspectos da nossa santa ignorância que precisamos vencer. ( ) Cultura não é a música que vem da Europa, o balé que vem da Rússia, o jarro

de flores que ornamenta a sala das elites. (

a São Benedito, o nosso encontro, o nosso diálogo”. 1 Estas foram as palavras

no então Ministro de Estado da Cultura Gilberto Gil durante da I Conferência Nacional de Cultura, ocorrida no ano de 2005 na cidade de Cuiabá, em Mato Grosso do Sul. Desta forma demonstrou que a cultura vem da simplicidade e da identidade, e isto deve ser conservado como a identidade de um povo, que necessita urgentemente ser preservada e perpetuada.

Cultura são nossas velas acesas

)

O direito do patrimônio cultural é um tema ensejador das maiores perplexidades, dúvidas e incompreensões por boa parte dos operadores jurídicos, e que, inúmeras vezes, termina por alargar a distância, já sabidamente existente, entre a dicção da dogmática normativa contida num

1 GIL, Gilberto. “Cultura são todos os nossos gestos”. Cuiabá: Seminário Setorial de Cultura do Centro-Oeste. In: “1ª Conferência Nacional de Cultura. Estado e Sociedade Construindo Políticas Públicas da Cultura”. Ministério da Cultura, 2005, p. IX, X, XI.

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determinado ordenamento jurídico e a realização efetiva que lhe é proporcionada no seio de uma sociedade juridicamente organizada.

Os interesses difusos precisam ser tratados com prioridade. O Estado, pela sua supremacia especial, tem a obrigação de proteger os bens culturais, sob pena de não acontecer a tão sonhada democracia. Este caráter fundamental dos direitos culturais, autônomos por natureza, traz para a sociedade um alento no tocante à identificação e proteção do que realmente se constitui a sociedade, manifestada no significado referencial do patrimônio cultural material.

A tutela jurisdicional pretendida necessita ser intensamente efetiva, inclusive utilizando-se das garantias jurisdicionais adequadas, sejam administrativas ou judiciais, haja vista a axiologia presente marcantemente no significado referencial intrinsecamente característico do bem cultural.

Como ocorre a tutela do patrimônio cultural material brasileiro é o objetivo pretendido, a partir dos impactos causados pela Constituição Federal de1988 ao instituto pertinente a esta proteção, qual seja o tombamento. Analisaremos sua constituição, critérios, processamento, efeitos e finalidades deste instituto autônomo e fundamental, verificando sua aplicação no sítio histórico de Sobral.

Iremos fazer um breve estudo doutrinário sobre cultura e patrimônio cultural, a partir da constitucionalização dos direitos culturais pela sua inclusão no rol de direitos fundamentais, como garantia e necessidade de efetivação e proteção, passando pela utilização do instituto interventivo estatal adequado para a proteção do patrimônio cultural tangível brasileiro. Encerrando-se, iremos traçar um estudo sobre alguns aspectos do tombamento do sítio histórico de Sobral, suas justificativas e peculiaridades.

Este tema é de uma importância ímpar na formação acadêmica de um jurista, haja vista a própria ciência do Direito ser considerado patrimônio cultural. Vem preencher uma lacuna da escassa discussão doutrinária sobre o assunto.

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Capítulo I.

FUNDAMENTAIS DIREITOS CULTURAIS.

1.1. A cultura.

Cada povo possui sua cultura, que está em constante mutação e interação, sem perder sua pureza e originalidade. Seu nascimento acontece sempre pela ação humana, a partir da relação do homem com a natureza e com outros seres humanos, que ocorre no cotidiano das diferentes experiências de desenvolvimento sócio-econômico.

Em sentido amplo, a cultura pode ser visualizada como toda e qualquer alteração ou interação do ser humano na natureza; do meio ambiente natural surge o meio ambiente cultural, como transformação daquele. Desde sua origem, o homem, por razões diversas, principalmente de ordem religiosa cultural e histórica, nutre um identificação especial por bens específicos 2 .

Consoante estimativa de culturólogos americanos, nos anos de 1950 já havia mais de 160 definições de cultura, chegando há 250 nos anos de 1970, demonstrando a multiplicidade conceitos referentes ao termo cultura 3 . Ao assimilar o conceito de cultura, Francisco Humberto Cunha Filho (2000) informa acerca da diversidade de significações:

2 GUERRA BELTRÃO, Antônio Figueredo. “Patrimônio Cultural: Conceito, Competência dos Entes Federados e Formas Legais para a sua Proteção”. In: AHMED, Flávio, e COUTINHO, Ronaldo (orgs.) “Patrimônio Cultural e sua Tutela Jurídica”. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 127.

SAVRANSKI, I.; “A Cultura e as Suas Funções”. Tradução de Sampaio Marinho. Moscou:

Progresso, 1986, p. 05.

3

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“Dentre os mais correntes significados atribuídos à palavra cultura podemos enumerar: (1) aquele que se reporta ao conjunto de conhecimentos de uma única pessoa; mais utilizado para referir- se aos indivíduos escolarizados, conhecedores das ciências, línguas e letras, embora, ultimamente, também se direcione a focar o saber do dito ‘homem popular’; (2) um segundo que confunde expressões como ‘arte’, ‘artesanato’ e ‘folclore’, como sinônimas de cultura, algo que muito nos lembra figuras da linguagem como a sinédoque e metonímia, vez que se percebe claramente a substituição do todo pela parte, do continente pelo conteúdo; (3) outro que concebe cultura como conjunto de crenças, ritos, mitologias e demais aspectos imateriais de um povo; (4) mais um que direciona o significado de cultura para o desenvolvimento e acesso às mais modernas tecnologias; (5) ainda o que distingue o conjunto de saberes, modos e costumes de uma classe, categoria ou de uma ciência (cultura burguesa,

cultura dos pescadores, cultura do Direito

semiótica, retratador do conjunto de signos e símbolos das relações sociais; (7) por último, em nossa modesta lista, aquele que se reporta a toda e qualquer produção material e imaterial de uma coletividade específica, ou até mesmo de toda a humanidade”. 4

);

(6) outro vinculado à

O conceito de cultura passa pela produção intelectual, simbólica e material do ser humano, partindo do individual para o coletivo, no sentido de intervenção do homem sobre a natureza. Waldenyr Caldas (1987) a interpretou como “a mais antiga e a mais recente obra do homem”. 5

A definição proposta contempla três critérios: o elemento descritivo, que é a produção humana juridicamente protegida, o raio de abrangência, que sejam os meios de expressão da cultura, onde os direitos culturais atuam: a arte, a memória coletiva e o repasse de saberes, e os valores, que são o aprimoramento e a dignidade 6 . Segundo Francisco Humberto Cunha Filho (2005), os dois primeiro elementos são tradicionais, definem um certo objeto de estudo, enquanto que o terceiro se origina da teoria tridimensional do Direito (fato, valor e norma), proposta pelo culturalista Miguel Reale, que direciona a

4 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Direitos Culturais como Direitos Fundamentais no Ordenamento Jurídico Brasileiro”. Brasília: Brasília Jurídica, 2000, p. 22-23.

5 CALDAS, Waldenyr. “O Que Todo Cidadão Precisa Saber Sobre Cultura”. 2ª edição. São Paulo: Global, 1987, p. 09.

CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Autonomia e Democratização da Cultura”. Publicado na Revista Democracia Viva (IBASE-RJ), na Cartilha “Direitos Culturais” (OAB-CE) e na Apostila “Direitos Culturais” (SEBRAE-CE), Fortaleza: 2005.

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6

existência do Direito para a concretização de valores eleitos pela sociedade em suas relações sociais.

A origem da palavra cultura vem do alemão ‘Kultur, significando, inicialmente, a simbologia dos aspectos espirituais de uma comunidade. Geralmente é feita a inter-relação conflituosa do conceito original com o de civilization, que se direcionam as realização materiais de um determinado povo. 7

A etnografia, nos dizeres do inglês Edward Taylor, a sintetizou, a partir da interação com o termo ‘civilização’, considerando a cultura como “todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” 8 . Quando se busca o conteúdo conceitual do termo, Ana Raquel Brandão recorre ao a antropologia, utilizando-se de frase do mesmo autor para generalizar cultura “como todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que, independe de uma transmissão genética” 9 .

José Eduardo Ramos Rodrigues (2001) define cultura através da simbologia que o homem utiliza para organizar o seu comportamento, por possuírem poucas orientações intrínsecas. Na insuficiência destas, “organizam sua conduta coletiva através de sistemas simbólicos que criam e transmitem sob formas de regras”. Cultura é vista, segundo o autor, como “o movimento de criação, transformação e reformulação do ambiente artificial” 10 .

Vem-se tentando trazer para a definição do termo ‘cultura’ sua pertinente personalidade própria. Quando determinadas áreas do conhecimento vão

7 BRANDÃO, Ana Raquel. “Patrimônio Cultural: novas fronteiras”. João Pessoa: Revista de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas, Universidade Federal da Paraíba, ano 1, n. 1, jul./dez. 2002, p. 01.

8 Citado por LARAIA, Roque de B., “Cultura, um conceito antropológico”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

9 BRANDÃO, Ana Raquel. “Patrimônio Cultural: novas fronteiras”. João Pessoa: Revista de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas, Universidade Federal da Paraíba, ano 1, n. 1, jul./dez. 2002, p. 02. 10 RODRIGUES, José Eduardo Ramos. “Patrimônio Cultural: análise de alguns aspectos polêmicos”. Revista do Direito Ambiental, n. 21, jan-mar, ano 6. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 177.

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amadurecendo suas teorias saem dos termos vagos e incompreensíveis e partem para a aquiescência de personalidade própria.

Porém, esta ‘personalidade própria’, apesar de sua busca já haver sido iniciada, passa por um processo de indefinição, ou saturação, conceitual, pois ainda há o entendimento, que esperando ser tão logo abolido, de que cultura e resíduo social. Aqui se evidencia uma problemática no sentido de se tentar definir a cultura a partir de uma construção positiva, do que realmente se constitui o seu conteúdo, e não como ‘sobra’ científica. Essa saturação ocorreu em virtude da insuficiência de visão adequada da significação da importância cultural, e sua abordagem jurídico-patrimonial, o que provocou o afastamento histórico da estatal e popular de iniciativas protetivas. Em face dessa dificuldade, José Luís dos Santos (1993) e Peter Haberle (1993) indagam o seguinte:

“Cultura é com freqüência tratada com resíduo, um conjunto de sobras, resultado da separação de aspectos tratados como mais importantes da vida social. Assim, extrai-se das atividades diretamente ligadas ao conhecimento no sentido amplo da ciência, da tecnologia, da educação, das comunicações, do sistema jurídico, do sistema político, às vezes a religião e os esportes. O que sobra é chamado de cultura. É como se fossem eliminados da preocupação com cultura todos os aspectos do conhecimento organizado tidos como mais relevantes para a lógica do sistema produtivo. Sobram, por exemplo, a música, a pintura, o artesanato, as manifestações folclóricas em geral, o teatro” 11

“O âmbito material e funcional ‘cultura’ é o terreno do qual emanam os direitos fundamentais culturais. Antes de tudo, isso (o que é cultura) pode ser determinado pelo mote da distinção entre os âmbitos político, econômico e social. Quanto mais árdua é uma definição positiva de cultura, tanto mais a pressupõem como óbvia nos textos constitucionais que se referem à cultura sem ulterior definição”. 12

11 DOS SANTOS, José Luís. “O Que é Cultura”. São Paulo, Brasilense, Coleção Primeiros Passos, 1993, p. 49. 12 HARBELE, Peter. Le Libertà Fondamentali Nello Stato Constituzionale, Roma: La Nuova Itália Scientífica, 1993, p. 213.

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Esta distorção, oriunda da primeira geração dos direitos fundamentais, pela excessiva valorização da liberdade individual, em detrimento à coletiva, a partir dos ideais iluministas da Revolução Francesa, provocou a fuga do conceito original da cidadania grega, e a dotação de um conceito antropológico vago, criticado por Werner Jaeger (1995):

“Hoje estamos habituados a usar a palavra cultura não no sentido de um ideal próprio da humanidade herdeira da Grécia, mas antes numa concepção bem mais comum, que a estende a

todos os povos da Terra, incluindo os primitivos. Entendemos assim por cultura a totalidade das manifestações e formas de vida que caracterizam um povo. A palavra converteu-se num simples conceito antropológico descritivo. Já não mais significada um

conceito de valor, um ideal consciente (

mas um o que hoje

denominamos cultura não passa de um produto deteriorado, derradeira metamorfose do conceito grego originário.” 13

)

Segundo Jorge Miranda (2006), a cultura tem uma carga axiológica para a coletividade, ao envolver tudo quanto tem significado espiritual e, simultaneamente, adquire relevância colectiva; tudo que se reporta a bens não económicos; tudo que tem que ver com obras de criação ou de valoração humana, contrapostas às puras expressões da natureza”. Continua:

“Cultura abrange a língua e as diferentes formas de linguagem e de comunicação, os usos e costumes quotidianos, a religião, os símbolos comunitários, as formas de apreensão e de transmissão de conhecimentos, as formas de cultivo da terra e do mar e as formas de transformação dos produtos daí extraídos, as formas de organização política, o meio ambiente enquanto alvo de acção humanizadora. Cultura significa humanidade, assim como cada homem ou mulher é, antes do mais, conformado pela cultura em que nasce e se desenvolve”. 14

13 JAEGER, Werner. “Paidéia – A Formação do Homem Grego”. Tradução: Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 7-8. 14 MIRANDA, Jorge. “Notas sobre Cultura, Constituição e Direitos Culturais”. Lisboa:

Universidade de Lisboa, 2006, p. 1-2.

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Cultura é um termo polissêmico, de múltiplos significados. Por isso faz- se necessário a delimitação do que pode ser entendido juridicamente por cultura, a partir de preceituado pela Constituição Federal de 1988. Francisco Humberto Cunha Filho (2005) chegou a esta façanha: “Cultura é a produção humana juridicamente protegida, relacionada às artes, à memória coletiva e ao repasse de saberes, e vinculada ao ideal de aprimoramento, visando à dignidade da espécie como um todo, e de cada um dos indivíduos” 15 .

Consoante o exposto, apesar da dificuldade de definição, entendemos cultura como a produção antropológica do ser humano vinculada à dignidade individual e coletiva, em seu significado, com a finalidade de vivência da identidade e da memória, numa dimensão axiológica. Essa produção tem status de direito fundamental, portanto, necessariamente, a proteção é parte integrante de sua estrutura conceitual, deveras, em caráter efetivo, a partir de instrumentos jurídicos garantidores.

15 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Autonomia e Democratização da Cultura”. Rio de Janeiro. Publicado na Revista Democracia Viva (IBASE-RJ), e na Cartilha “Direitos Culturais” (OAB-CE) e na Apostila “Direitos Culturais” (SEBRAE-CE), Fortaleza, 2005.

18

1.2.

O patrimônio cultural.

O patrimônio cultural é o responsável pela representação da cultura,

identidade e tradição do povo brasileiro. Desde épocas mais remotas o homem nutre por certos bens uma afeição especial, haja vista sua identificação de caráter cultural ou religioso. Desta afeição surge a necessidade de proteção.

Este conjunto de bens materiais se destaca no ambiente urbano por representarem heranças técnicas, estéticas e culturais de diferentes períodos históricos e grupos sociais 16 . O destaque axiológico é que vai definir a patrimonialidade do bem, entendido como produto da ação humana, portanto, antropologicamente falando, cultural. Este bem resguarda informações e significados essenciais para o registro e resgate axiológicos da História e da memória coletiva.

A origem do termo ’patrimônio’ vem do latim patrimonium, significando “herança paterna, riqueza”. Na Constituição Federal é utilizado em sentido amplo, como “uma riqueza que o governo e o povo devem preservar, sem perda, evidentemente, de seu adequado aproveitamento econômico” 17 . A noção de patrimônio cultural passa pela origem do termo ‘monumento’, que vem do latim monumentum, significando “lembrar”. 18

O patrimônio cultural é constituído por três elementos significativos da

memória social: o meio ambiente, o conhecimento humano e os artefatos. O conhecimento humano é intangível, compreendendo o patrimônio imaterial, podendo tanto ser erudito como popular. O meio ambiente tem origem natural. Agora, em relação aos artefatos, o que realmente se constitui neste objeto de estudo, se refere às transformações humanas no meio ambiente natural, cuja

16 PREFEITURA MUNICIPAL DE CAPINAS. Cartilha “Patrimônio Cultural: entenda e preserve”. Campinas: 2007, p. 5.

REALE, Miguel. “Questões de direito público”. São Paulo: Saraiva, 1977, p. 167. 18 MARCHESAN, Ana Maria Moreira. “A tutela do patrimônio cultural sob o enfoque do direito ambiental”. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p. 47.

19

17

proteção é de natureza móvel ou imóvel, sempre tangível, colocando em seu processo de construção os outros dois elementos 19 .

Para haver a adequada tutela jurisdicional do patrimônio cultural deverá está presente, numa carga profundamente axiológica, uma significação referencial, voltada para a identidade e a memória, que torna certos bens culturais passíveis de proteção constitucional 20 . Esta significação referencial da norma constitucional surge do valor que um determinado bem cultural possuía numa determinada época histórica 21 .

A Constituição Federal de 1988, ao definir patrimônio cultural, declarou a necessidade de haver referência à ação, identidade e memória do povo, como critério específico para a efetiva tutela jurisdicional 22 . Apesar de haver sido adotado o conceito antropológico, com o intuito de democratização, que considera toda produção humana como cultural, é passível de proteção estatal somente o bem portador deste significado referencial à formação dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, em virtude da axiologia necessária.

19 VARINE-BOHAN, Hugues de. “Patrimônio Cultural – experiência internacional”, São Paulo:

Universidade de São Paulo,1974, p. 4-5.

DA SILVA, José Afonso. “Ordenação Constitucional da Cultura”. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 35.

DE ALENCAR, Aline Ferreira. “A tutela judicial do patrimônio cultural brasileiro”. In: XVI Congresso Nacional do CONPEDI / Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito. Belo Horizonte: Anais do XVI Congresso Nacional do CONPEDI. Florianópolis:

Fundação Boiteux, 2007.

Art. 216, caput, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. ( )”

22

21

20

20

1.3.

Do patrimônio histórico e artístico ao patrimônio cultural.

A evolução doutrinário-legislativa acerca do patrimônio cultural não acompanhou a evolução temporal, haver tido um intervalo de tempo amplo entre a primeira legislação sobre o assunto e a normatização constitucional abrangente sobre o tema. Isto se deve ao fato do longo período que o Brasil passou para se chegar ao período democrático, haja vista pouco haver sido mencionado a cultura nas legislações posteriores, bem como o fato de que a primeira constituição utilizar o termo ‘direito cultural’ foi a que está em vigor.

O conceito primeiro do instituto sob crivo adveio do Decreto-Lei nº 25, de 30/11/1937, definindo-o, como “o conjunto de bens móveis ou imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”.

Em contrapartida, a Constituição Federal de 1988, em seu art. 216, conceitua patrimônio cultural como sendo o conjunto de bens culturais, materiais e imateriais, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à ação, memória e identidade dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Francisco Humberto Cunha Filho (2008) designou três elementos comparativos da evolução conceitual sob crivo, quais sejam a designação genérica dos bens protegidos, os tipos de bens protegidos, e os critérios para a sua proteção, a partir de legislado pelo caput do art. 1º do Decreto 25, de 30 de novembro de 1937, em comparação gradual com o caput do art. 216 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Verifica-se

grande

ampliação

conceitual

Utilizando

de

menos

palavras,

observamos,

na

21

neste

processo

evolutivo.

de

mudança

designativa

patrimônio histórico e artístico para cultural, que a norma constitucional expandiu a possibilidade de proteção, ao aumentar o leque de bens que poderiam ser objeto de proteção estatal. A democratização do acesso aos bens culturais verifica-se na extensão da proteção aos bens intangíveis, antes voltados apenas aos bens materiais.

Em relação aos critérios utilizados para que um determinado bem fosse passível de proteção estatal, antes era exigido que o bem estivesse vinculado à história, etnografia, arqueologia, paisagística, arte ou bibliografia; critérios meramente taxativos e excluidores, que limitam a fruição do bem cultural apenas para as elites dominantes, justificada pelo estilo de governo adotado à época da edição do decreto regulamentador do patrimônio histórico e artístico nacional, qual seja o Estado Novo, oriundo de um período eminentemente oligárquico. Com o advento da Constituição Federal de 1988 houve a universalização destes critérios, sendo exigido, somente, que estes bens portem referência à identidade, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, conforme letra da segunda parte do caput do art. 216.

Justifica-se essa ampliação pela necessidade de reconhecimento de todas as manifestações formadoras da sociedade brasileira, com o intuito de aplicação adequada do Estado Democrático de Direito, bem como evitar “o monopólio da memória” 23 .

23 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Impactos da Constituição Federal de 1988 sobre o tombamento de bens do patrimônio cultural brasileiro”. Salvador: IV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Faculdade de Comunicação / UFBa, 2008, p. 4-5.

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1.4.

Antecedentes da proteção patrimonial no Brasil.

A proteção do patrimônio cultural tem suas origens em Portugal. Por meio do alvará de 28/08/1721 D. João proibiu a desfiguração de monumentos oriundos da Idade Antiga 24 .

Em nosso país, a primeira manifestação de tentativa de resguardo do patrimônio histórico ocorreu em carta escrita em 1742 por D. André de Melo e Castro, o Conde das Galveias, cujo conteúdo versa sobre a possibilidade de transformação do Palácio das Duas Torres, em Pernambuco, em quartel.

As constituições de 1824 e 1891 em nada trataram sobre a proteção do patrimônio histórico.

Na Bahia, houve a criação da Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais, através das leis estaduais nº 2.031 e 2.032, ambas de 08/08/1927, constituindo-se na primeira manifestação legislativa estadual de proteção do patrimônio histórico, sem garita constitucional.

Em 1930, por iniciativa do deputado federal baiano José Wanderley de Araújo Pinto, foi apresentado à Câmara Federal um projeto de lei que dada ao patrimônio histórico proteção estatal, podendo o Estado utilizar-se da desapropriação. Definia patrimônio histórico-artístico nacional em razão de seu valor, de sua significação histórica ou de sua peculiar e notável beleza. O parlamentar propunha a criação de inspetoria a nível federal. Com a Revolução de 1930 o referido projeto foi arquivado.

Em 1933 a cidade de Ouro Preto foi denominada monumento nacional por meio do decreto 22.928, de 12/07/1933, escolhida em razão de haver sido local de ocorrência de grande feito da História. O Museu Histórico Nacional,

24 DA SILVA, José Afonso. “Direito Urbanístico Brasileiro”. Editora Revista dos Tribunais, 1981, p. 482, 483.

23

criado em 14/07/1934, pelo decreto 24.735, veio como um serviço de proteção aos monumentos históricos e às obras de arte tradicionais do País 25 .

A primeira vez que a proteção do patrimônio histórico foi recepcionada como matéria constitucional foi com a Constituição de 1934, que deu alicerce para a promulgação do Decreto-Lei nº 25, fato ocorrido em 30 de novembro de ano de 1937, que organizou o patrimônio histórico e artístico nacional ao tratar acerca do instituto do tombamento.

Tudo o que foi proposto para a defesa do patrimônio histórico e artístico nacional, até a Constituição cidadã de 1988, “não decorreu do amadurecimento cultural da população brasileira”, mas de impulsos, que se poderiam adjetivar de elitistas, por parte das instituições como a Igreja e o Estado e de segmentos como a intelectualidade, sobretudo a de vocação literária” 26 . A insuficiência da participação popular na elaboração legislativa de políticas públicas para a cultura percebe-se na manutenção de legislação promulgada há mais de 50 anos, durante o Estado Novo, que teve sua correção somente a partir de 1988.

A atual Constituição Federal brasileira tratou profundamente da defesa do patrimônio cultural, versando sobre a obrigação estatal de prestação efetiva de tutela jurisdicional e da necessária participação popular na elaboração e execução de políticas públicas, modificando visão distorcida do que seja realmente cultura e, inclusive, o seu sentido jurídico.

25 PIRES, Maria Coeli Simões. “Da proteção do patrimônio cultural – O tombamento como principal instituto”. Belo Horizonte: Del Rey, 1994, p. 34.

26 PIRES, Maria Coeli Simões. “Da proteção do patrimônio cultural – O tombamento como principal instituto”. Belo Horizonte: Del Rey, 1994, p. 39.

24

1.5.

Os direitos culturais.

O livre exercício dos direitos culturais é garantia constitucional que deve ser efetivada pelo Estado, com a colaboração da sociedade, conforme preconiza o art. 215 da Constituição Federal atual, iniciando-se sua fruição a partir do pleno acesso às fontes de cultura nacional, com fins à concretização da cidadania cultural, alicerce do Estado Democrático de Direito.

A primeira vez que se utilizou, constitucionalmente, a expressão ‘direitos culturais’, foi na Constituição Federal de 1988, através do artigo supra, complementado pela Emenda Constitucional nº 48, de 10/08/2005, que acrescentou o § 3º ao mencionado art. 215, instituindo o Plano Nacional de Cultura, iniciativa do governo federal, de duração plurianual, com o intuito de efetivar as garantias constitucionais de livre exercício e fruição dos direitos culturais, incluindo, já no seu primeiro inciso, a defesa e valorização do patrimônio cultural como o primeiro direito cultural protegido pela política pública pertinente.

Para Francisco Humberto Cunha Filho (2000), direitos culturais são aqueles “afetos às artes, à memória coletiva e ao repasse de saberes, que asseguram aos seus titulares o conhecimento e o uso do passado, interferência ativa no presente e possibilidade de previsão e decisão das opções referentes ao futuro, visando sempre a dignidade da pessoa humana”. Observa-se a dimensão temporal que o autor à temática em questão, simultaneamente, sempre com o intuito de resguardo da memória, a partir da identidade, com fins à efetivação da dignidade humana. Finalidade que deverá ser atingida de forma rápida, e com os instrumentos adequados sob pena de perecimento da memória. Tais direitos encontram limites somente no significado referencial à

25

ação, identidade e memória dos grupos sociais brasileiros, imposto pela Constituição Federal vigente 27 .

Os direitos culturais, no entender de José Afonso da Silva (1993) 28 , compreendem os seguintes: à criação cultural, de acesso às fontes de cultura nacional, de difusão da cultura, liberdade de formas de expressão cultural, liberdade de manifestações culturais, e direito-dever estatal de proteção do patrimônio cultural.

Essas liberdades, conforme Jorge de Miranda (2006) 29 , dividem-se em:

de criação cultural; de divulgação de obras culturais; de fruição cultural; liberdade de acesso aos bens de cultura, sejam os meios e instrumentos de ação cultural (literatura, música, teatro, cinema etc.), sejam os bens do patrimônio cultural e a de iniciativa cultural, que é a de promover eventos culturais (edição de livros, concertos, exposições etc.).

O direito de acesso às fontes de cultura nacional, ainda fazendo um paralelo do direito brasileiro com o português, compreende direito à formação cultural em geral, que se reconduz ao direito à educação e ao ensino e o direito à fruição cultural, compreendendo o direito de acesso ao patrimônio cultural.

27 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Direitos Culturais como Direitos Fundamentais no Ordenamento Jurídico Brasileiro”. Brasília: Brasília Jurídica, 2000, p. 34.

DA SILVA, José Afonso. “Curso de Direito Constitucional Positivo”. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 280. 29 MIRANDA, Jorge. “Notas sobre cultura, Constituição e direitos culturais”. Lisboa: Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 2006, p. 19.

26

28

1.6.

A

dimensões de direitos fundamentais.

presença

dos

direitos

culturais

nas

diversas

Para ser considerado fundamental, um direito precisa está incumbido de necessária importância especial, que lhe dá tratamento prioritário, sempre voltado para a concretização da dignidade da pessoa humana em um Estado Democrático de Direito.

O neoconstitucionalismo se volta para o estudo dos direitos culturais como integrante do rol dos direitos fundamentais, visualizando-o como sua parte substantiva e seu objeto de estudo, em renovação ao que se tratava anteriormente, quando se falava em Estado Liberal.

Consoante o que ensina Paulo Bonavides (2000), os direitos fundamentais legitimam o Estado para a consecução de sua finalidade social, pelo primado axiológico da pessoa humana em um nível bem superior de juridicidade.

“Os direitos fundamentais são a sintaxe da liberdade nas Constituições. Com eles, o constitucionalismo do século XX logrou

a sua posição mais consistente, mas nítida, mas característica.

Em razão disso, faz-se mister introduzir talvez, neste espaço teórico, o conceito de juiz social, enquanto o consectário derradeiro de uma teoria material da Constituição e sobre tudo na legitimidade do Estado social e suas postulados de justiça,

inspirados na universalidade, eficácia e aplicação imediata dos direitos fundamentais. Coroa-se, assim, os valores da pessoa

humana no seu mais elevado grau de juridicidade e se estabelece

o primado do Homem no seio da ordem jurídica, enquanto titular e

destinatário, em última instância, de todas as regras do poder”. 30

Para se verificar a fundamentalidade um direito este deve está inserido no texto constitucional, de preferência no capítulo sobre direitos e garantias

30 BONAVIDES, Paulo. “Ciência Política”. 10ª edição. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 533.

27

fundamentais. Caso não estejam no bojo da seara constitucional “a sua existência deve ser tão significativa ao ponto de ser abraçada pelos princípios que informam o conjunto de direitos fundamentais, em seu aspecto material, dos quais sintetiza e justifica os demais, a multimencionada dignidade da pessoa humana31 . Assim caracterizados, poderão receber proteção especial e aplicabilidade imediata.

A primeira dimensão de direitos fundamentais surgiu como direta consequência da ruptura com os costumes e práticas medievais, simbolizada pela Revolução Francesa. O Estado era extremamente liberal, pela ocorrência do antigo regime absolutista, havendo uma grande valorização dos direitos individuais, exigindo-se do Estado uma atuação negativa, de não banir o desenvolvimento destas liberdades individuais. Na cultura, visualiza-se a liberdade para a criação e manifestação das produções culturais. Pelo isolamento destas liberdades, foram-se aumentando consideravelmente as desigualdades sociais. Verificam-se na Constituição Federal de 1988 quando se fala da liberdade de expressão da atividade intelectual, independente de censura ou licença, por exemplo.

Com o intuito de diminuir esta crescente desigualdade, o Estado passou

a ter uma atuação mais firme, de forma positiva. Verificando sua inoperância,

inclusive pela Queda da Bolsa de Valores de Nova York de 1929, influenciado pela Semana de Arte Moderna de 1922, no Brasil, o Estado passa a ter uma

atuação ativa no fornecimento de bens e na prestação de serviços. Aqui ocorre

o surgimento formal dos direitos culturais no mundo, pela composição da tríade

dos direitos sociais, econômicos e culturais. Porém, houve um forte aumento dos tributos e, por conseguinte, da inflação, o que provocou a diluição da importância dos direitos fundamentais. A Constituição Federal de 1988, em matéria cultural, traz resquícios desta escola quando trata da obrigação estatal de estabelecer incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais.

31 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Direitos Culturais como Direitos Fundamentais no Ordenamento Jurídico Brasileiro”. Brasília: Brasília Jurídica, 2000, p. 41.

28

O aumento da inflação culminou com a 2ª Guerra Mundial, pela imposição das normas estatais, marcada pela destruição dos patrimônios históricos e artísticos e por holocaustos, como resposta do homem à ilimitada atuação estatal. A 3ª dimensão de direitos fundamentais aflorou o sentimento de fraternidade, gerando direitos e deveres solidários relativos aos chamados ‘bens jurídicos sem fronteiras’, assim denominados por pertencerem a todos, enquanto coletividade, e a cada um, enquanto indivíduo. Como exemplo desta escola, temos na Constituição a autorização para o ajuizamento de Ação Popular 32 .

Por último, as outras dimensões deixaram, como herança negativa, uma visível e marcante violência. A tentativa de harmonização dos direitos, característica desta escola, manifesta-se na célere frase de Péricles:

“Igualdade de todos, em ambiente de liberdade, com a consciência de que a vida, em sociedade, tem fins comuns”, demonstrando a necessidade de trazer à baila a pureza e dos aspectos positivos das dimensões anteriores. A 4ª é a dimensão do direito à democracia,quando há a possibilidade de pluralizar as idéias, com o intuito de harmonizar valores conflitantes.

Na quinta dimensão, característica da contemporaneidade do Estado do Bem-Estar Social, visualiza-se a tentativa de concretização de cultura de paz, em que a não-violência está fortemente presente marcando a preservação da cultura, a perpetuação axiológica dos significados referenciais e a qualidade de vida de todos, difusamente, pela efetivação das garantias dos direitos, interesses e liberdades coletivas.

32 Art. 5º, LXXIII, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

29

1.7.

Os princípios constitucionais culturais.

A proteção do patrimônio cultural brasileiro encontra alicerce nos

princípios do pluralismo cultural, da universalidade, da participação popular, da

atuação estatal como suporte logístico e do respeito à memória coletiva.

O pluralismo cultural lembra, oportunamente, a inclusão das mais

diversas manifestações culturais como formadoras dos diferentes aspectos da

sociedade brasileiro, para a fruição plural dos bens culturais.

A universalidade está intimamente ligada à pluralidade, expressa no art.

215 da Constituição, ao direcionar para todos, sem distinção alguma, a atuação

estatal de efetivação das garantias de plenitude do exercício dos direitos culturais.

A participação popular possibilita aos cidadãos a oportunidade de estar

presente, individualmente ou representado, na elaboração e na execução das políticas deste gênero 33 .

O Estado deverá fornecer suporte logístico à atividade cultural, porém a

iniciativa, com esteio no princípio anterior, deverá ser da sociedade, pois esta

atuação positiva do Estado, como herança da segunda dimensão dos direitos fundamentais, possui expressa autorização, não só, mas garantia constitucional.

A memória coletiva é um dos grandes objetivos da atividade cultural,

como referencial significado. Seu respeito deverá ser estritamente observado

33 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “A Participação Popular na Formação da Vontade do Estado: um Direito Fundamental”. In: CUNHA FILHO, Francisco Humberto (org.). Dos Direitos

Humanos aos Direitos Fundamentais. 1ª edição, volume 3. Porto Alegre: Livraria do Advogado,

1997.

30

para que não percamos os referenciais de origens 34 , haja vista a profunda carga axiológica pertinente.

A identificação dos princípios nos possibilita determinar a legitimidade a constuticionalidade do assunto tratado, identificando como partes legítimas da atividade cultural o Estado e a sociedade, direciona a atuação administrativa, evitando desvios funcionais e proferimento de decisões meramente políticas.

34 FERNANDES, José Ricardo Oriá; “Direito à Memória – A Proteção Jurídica ao Patrimônio Histórico-Cultural Brasileiro”. Fortaleza: Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, 1995.

31

1.8.

Competência em matéria cultural.

Pelo federalismo, com o intuito de repartição das atividades públicas, a Constituição Federal de 1988 conferiu autonomia aos municípios no tocante à administração e proteção de seu patrimônio cultural local, porém mantendo a competência legislativa concorrente entre União, Estados e Distrito Federal.

A competência administrativa da matéria cultural é comum entre todos os entes, preconizada pelo art. 23, III, e IV e § único, que autoriza a cooperação com de o intuito o equilíbrio do desenvolvimento e do bem-estar em âmbito nacional.

Já a competência legislativa é concorrente entre União, Estados e Distrito Federal, conforme art. 24.

Em relação à competência legislativa dos municípios, esta é de natureza suplementar 35 , haja vista poderem legislar sobre assuntos de interesse local, desta norma, e promover a proteção do patrimônio histórico e artístico local, desde que seja esteja em harmonia com o preconizado pelo Poder Legislativo dos outros entes.

35 BELTRÃO, Antônio Figueiredo Guerra. “Patrimônio Cultural: Competência dos Entes Federados e Formas Legais para a sua Proteção”. In: AHMED, Flávio, e COUTINHO, Ronaldo. “Patrimônio Cultural e sua Tutela Jurídica”. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 132; e art. 30, II, da Constituição Federal de 1988.

32

Capítulo II. A TUTELA DO PATRIMÔNIO CULTURAL A PARTIR DO TOMBAMENTO.

2.1. Antecedentes da intervenção do Estado na propriedade.

A evolução da propriedade ocorreu do sentido individual para o social. Este direito real, até então dotado de amplos poderes de usar gozar e dispor, de forma absoluta, exclusiva, perpétua e intangível, como ocorria na Antiguidade, caminhou para a limitação de sua utilização, ao ser prevenido, ou até mesmo reprimido, a detenção injusta, dependendo da situação de deteriorização do bem, quando ferir os interesses difusos.

A propriedade é um tema estudado desde as civilizações da antiguidade, quando começaram as lutas pelas conquistas territoriais. O individualismo era marcante, possuindo direito à propriedade quem tivesse mais força e obtivesse mais êxito nas guerras.

Na Idade Média, com a adoção do sistema feudal, não havia a preocupação dos camponeses com o domínio das terras, apenas com a produção, onde se teve a primeira noção da função social da propriedade, qual seja a produção, função social típica da propriedade rural, já que a sociedade da época era eminentemente agrícola. O próprio conceito de cultura foi, inicialmente, explorado no conceito de agricultura.

Com o advento do humanismo, a partir da escola renascentista, houve uma preocupação em se valorizar o conhecimento humano. Como conseqüência negativa desta evolução ocorreu uma profunda valorização dos

33

ideais de proteção dos direitos individuais, sobrepondo o privado sobre o público, em detrimento aos interesses coletivos.

Como repúdio ao sistema feudal, após a Revolução Francesa, com marcantes influências do Renascimento, Humanismo e do Iluminismo, a propriedade foi tratada de uma forma puramente individualista, concepção oriunda do Império Romano, que perdeu suas forças na Idade Medieval, com a adoção do feudalismo, retornando os seus preceitos com os ideais, vistos como libertários, oriundos da Revolução Francesa.

O Estado Moderno teve suas origens no absolutismo, havendo a confusão dos defeitos do monarca com as qualidades do Estado. Por causa disso, já no século XVIII, o Poder Público era visto como “inimigo da liberdade individual, e qualquer restrição ao individual em favor do coletivo era tida como ilegítima. Essa foi a raiz individualista do Estado Liberal”, conforme assevera Dalmo de Abreu Dallari (2009) 36 , ao retratar acerca da intervenção mínima do Estado na sociedade, conforme pregava a burguesia da época. Pois, esta intervenção, segundo os burgueses, iria enfraquecer a economia, mesmo que esta ausência interventiva prejudicasse a coletividade, justificando a liberdade contratual um direito natural dos indivíduos, interpretação jusnaturalista.

Essa profunda liberdade, influenciada pela doutrina do laissez faire 37 , trouxe uma abismada desigualdade social, pelo surgimento de conflitos, até então não vistos nesta grandiosidade, de ordem política, econômica e social, gerados pelo aprofundamento das dissiparidades entre as classes formadoras da sociedade. Esta filosofia econômica defendia a existencia de mercado livre nas trocas comerciais internacionais. Identificava o liberalismo na versão mais pura de capitalismo segundo o qual o mercado deve funcionar livremente, sem interferência.

Em “A Riqueza das Nações”, publicada em 1976, Adam Smith condena qualquer intervenção estatal, alegando que “cada homem é o melhor juiz de

36 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 28ª edição. São Paulo:

Saraiva, 2009, p. 278. 37 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro:

Lumen Juris, 2009, p. 733.

34

seus interesses e deve ter a liberdade de promovê-los segundo a sua livre vontade”. 38

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão proclamava, em 1789, a propriedade como direito inviolável e sagrado. Porém, o Código Napoleônico, editada na mesma época, em 1804, já dava indícios da evolução para a limitação interventiva do Estado sobre a propriedade, quando condicionava o direito de usar, gozar e dispor à não-proibição legal 39 . A legislação da época tratava do direito de vizinhança, numa dimensão restrita, havendo uma tendência para direcionar o exercício da propriedade ao bem estar de todos.

Saindo da concepção indiferente do liberalismo, fluente no Estado Moderno, chegamos à Contemporaneidade, quando o Estado assumiu se voltou para a prestação de seus serviços fundamentais e ampliou sua visão social, vendo a sociedade como um todo, e não como um soma de indivíduos 2 , ao voltar sua atenção para o interesse público, o fundamento primeiro da intervenção do Estado na propriedade.

Portanto, verifica-se que a intervenção da Administração Pública na propriedade civil teria sido conseqüência da evolução dos elementos caracterizadores do Estado no mundo contemporâneo, bem como da percepção que o Estado deve ter de concretizar as aspirações coletivas, “exercendo papel de funda conotação social” 40 .

38 DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. 28ª edição. São Paulo:

Saraiva, 2009, p. 278.

39 PIETRO, Sílvia Zanella. “Direito Administrativo”. São Paulo: Atlas, 2006, p. 135.

40 BIELSA, Rafael. Derecho Administrativo. Bueno Ayres: Roque Depalma, Tomo V, 1957. Citado por: CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 733.

35

2.2. O sentido da proteção estatal.

A Constituição Federal de 1988 garante a inviolabilidade do direito à propriedade 41 , instituída como direito e garantia fundamental, com fins à igualdade, inclusive tratando a propriedade privada como princípio da atividade econômica e como mentora da dignidade da pessoa humana 42 . O Código Civil atual confere ao proprietário a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, bem como de reavê-la, quando o seu domínio for ameaçado (art. 1.228, caput), e à propriedade a presunção de plenitude e exclusividade (art. 1.231).

Porém, haja vista a finalidade do Estado contemporâneo, como já explicitado anteriormente, esta inviolabilidade encontra seu limite no princípio da função social da propriedade, quando da necessidade de se haver uma supremacia do interesse público sobre o privado. Supremacia esta de caráter especial, pela própria natureza jurídica do instituto interventivo do tombamento, que é a sua finalidade de proteção do patrimônio cultural material. O bem em questão, qual seja o cultural, deve atingir este fim para que sua utilização seu cabível, com o intuito de manutenção da ordem social.

Esta mudança de postura propiciou a saída de uma conduta pouco participativa, ineficaz e desinteressada, diante dos conflitos oriundos dos grupos sociais, para a tomada de responsabilidade pelo bem-estar da coletividade, a partir da prática efetiva dos ditames da cidadania, numa demonstração clara de reaproximação da população com a Administração Pública que tem como conseqüência a ocorrência do Estado Democrático de

41 Constituição Federativa do Brasil de 05/12/1988. Art. 5º, caput. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros

residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à

propriedade (

42 Constituição Federativa do Brasil de 05/12/1988. Art. 170, caput e inciso II. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os

seguintes princípios: (

)”

(grifo nosso).

)

II - propriedade privada; (grifo nosso).

36

Direito, no qual todos têm o direito de participar das decisões da sociedade e se beneficiar daquilo que é obrigação estatal, desde que cada um faça sua parte com vistas à igualdade de condições e isonomia de interesses.

podemos considerar

intervenção do Estado na propriedade toda e qualquer atividade estatal que, amparada em lei, tenha por fim ajustá-la aos inúmeros fatores exigidos pela função social a que está condicionada. Extrai-se dessa noção que qualquer ataque à propriedade, que não tenha esse objetivo, estará contaminado de irretorquível ilegalidade. Trata-se, pois, de pressuposto constitucional do qual não pode afastar-se a Administração.” Portanto, a propriedade apenas terá sua razão de ser se estiver sido alcançada sua função social, sob pena até de inexistência do bem, haja vista o princípio da inafastabilidade da jurisdição. 43

Segundo José dos Santos Carvalho Filho (2009), “

Com estes atos administrativos, o Poder Público restringe, através das formas restritivas, quais sejam a servidão administrativa, a requisição, a ocupação temporária, as limitações administrativas e o tombamento, ou até mesmo retira, de forma supressiva, através da desapropriação, direitos dominiais privados, ou confere ao uso de bens particulares uma destinação de interesse público. Tudo se valendo de sua supremacia, protetora do patrimônio público e dos interesses coletivos.

A intervenção estatal está calcada no poder de polícia que a administração pública possui quando da gerência e execução de seus próprios atos, a ele sujeitando-se os particulares, com a finalidade de garantia sua própria soberania.

As necessidades, tanto gerais como individuais, se satisfazem pela ação de ambos, o indivíduo e o Estado, pois sempre que se dá a ação relativa a uma dessas necessidades, o efeito recai sobre a outra 44 .

43 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro:

Lumen Juris, 2009, p. 735.

44 FRAGA, Gabino. “Derecho Administrativo”. México: Editorial Porrúa, S.A, 1973. Citado por:

CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 735.

37

Não é permitida a concretização deste instituto de forma injusta, autoritária ou através de pautas de julgamento ou interesses próprios dos agentes públicos. Agir desta maneira seria retroagir aos costumes absolutistas. Por causa disso, este procedimento é regido pelo princípio da legalidade estrita. Não pode a Administração Pública, em nenhuma hipótese, intervir de forma retrógrada, sob pena do agente se responsabilizar pelo vício cometido no trato com esta sucessão de atos administrativos.

38

2.3. Conceito e características do tombamento.

Entendemos o instituto do tombamento como a forma utilizada pelo Estado para proteger, difusamente e exclusivamente, imóveis de profundo significado afetivo para um determinado grupo social, haja vista a presença dos requisitos que os constituem como patrimônio cultural, quais sejam o significado referencial à ação, identidade e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, presentes de maneira axiológica.

Diogo de Figueiredo Moreira Neto (2002) relata que o tombamento “é a intervenção ordinária e concreta do Estado na propriedade privada, limitativa de exercícios de direito de utilização e disposição, gratuita, permanente e indelegável, destinada à preservação, sob o regime especial, dos bens de valor cultural, histórico, arqueológico, artístico, turístico ou paisagístico” 45 .

Maria Sílvia Zanella de Pietro (2006) o define como “o procedimento administrativo pelo qual o Poder Público sujeita a restrições parciais os bens de qualquer natureza cuja conservação seja de interesse público, por sua vinculação a fatos memoráveis da história ou por seu excepcional valor arqueológico ou etnológico, bibliográfico ou artístico”. Numa visão eminentemente oriunda dos ditamos do Decreto-Lei 25/37, a autora ainda vincula o interesse público, quando da delimitação do que seja patrimônio cultural, a fatos ‘memoráveis’ da história, porém foi feliz quando relatou que o tombamento é um procedimento, e não somente um ato administrativo, “porque não se realiza em um único ato, mas numa sucessão de atos preparatórios, essenciais à validade do ato final, que é a inscrição no Livro de Tombo” 46 .

José dos Santos Carvalho Filho (2009) interpreta o tombamento, simplesmente como “a forma de intervenção na propriedade pela qual o Estado

45 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de Direito Administrativo. 11ª edição. Rio de Janeiro: Forense, 2002. 46 DI PIETRO, Sílvia Zanella. “Direito Administrativo”. São Paulo: Editora Atlas, 2006, p. 151.

39

procura proteger o patrimônio cultural brasileiro” 47 , com o intuito de preservação da memória nacional.

Já Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino (2009) o entendem como “a modalidade de intervenção na propriedade por meio da qual o Poder Público procura proteger o patrimônio cultural brasileiro” 48 . No mesmo sentido, Francisco Humberto Cunha Filho relata-o como sendo “forma de intervenção estatal na propriedade que tem por fito exclusivo a proteção de elementos componentes do patrimônio cultural” 49 .

Diante do exposto, verifica-se a destinação específica da intervenção estatal, que, neste sentido, é parcial 50 , exclusivamente direcionada à proteção do patrimônio cultural, observado a presença dos requisitos pertinentes ao art. 216 da Constituição Federal de 1988. No tombamento, que possui expressa autorização constitucional, há a limitação dos direitos de utilização e disposição 51 . Em tese, não há direito de indenização, ao ser gratuito, exceto no caso de comprovado prejuízo material. O regime interventivo é especial, haja vista supremacia, do interesse público sobre o privado, ser de caráter especial e os bens afetados serem específicos, de natureza cultural.

Ocorre a sucessão de atos administrativos, que é submetida a um regime jurídico de direito público, tendo como pressuposto o valor de um bem e levando o proprietário a um sacrifício de direito em prol da coletividade.

O tombamento acontece com o intuito de atendimento dos objetivos de conservação da coisa com sua fisionomia característica e fruição cultural do bem. Sempre resulta da “vontade expressa do Poder Público, manifestada por

47 CARVALHO FILHO, José dos Santos. “Manual de Direito Administrativo”. Rio de Janeiro:

Lumen Juris, 2009, p. 758. 48 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO Vicente. “Direito Administrativo Descomplicado”. 17ª edição. São Paulo: Método, 2009, p. 891. 49 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Impactos da Constituição Federal de 1988 sobre o tombamento de bens do patrimônio cultural brasileiro”. Salvador: IV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Faculdade de Comunicação / UFBa, 2008, p. 1.

50 Se a restrição fosse total, o tombamento seria descabido, sendo pertinente a ação de desapropriação, pela ocorrência da transferência de titularidade do domínio, fato que não ocorre no tombamento. 51 Que não se confunde com o instituto da Limitação Administrativa, que é genérico, enquanto que o Tombamento é específico.

40

ato administrativo do Poder Executivo” 52 , vontade esta de característica específica, qual seja a eivada de sentimento afetivo de proteção de valores culturais. Esta característica específica protetiva confere ao do tombamento natureza jurídica de instituto autônoma, pela própria finalidade exclusiva de proteção do patrimônio cultural.

52 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. “Direito Administrativo Descomplicado”. 17. ed São Paulo: Método, 2009, p. 892.

41

2.4. Espécies de tombamento.

A classificação dos tipos de tombamento provém do Decreto-Lei 25/37, que o diferem quanto à constituição e à estabilidade, que foi recepcionada e atualizada pela Constituição Federal de 1988.

Quanto à constituição, poderão ser ‘de ofício’, ‘voluntárioe compulsório. O voluntário subdivide-se em ‘a pedido’ e ‘por aquiescência’, enquanto que o compulsório em ‘ficto’ e ‘contencioso’.

O tombamento de ofíciorealiza-se somente em bem público, cujo proprietário do bem é a própria administração pública. Neste caso, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 53 notifica a entidade a que pertence o bem, sem a abertura de prazo para contestação, com encaminhamento imediato, após ciência do ente público titular do bem, para o Conselho Consultivo desta autarquia federal, que emite parecer. Após, vai para o Ministro da Cultura, para homologação. Em caso positivo, ocorre a averbação da inscrição na margem da titularidade do domínio. A aquiescência passiva ocorre apenas em relação à União, haja vista autonomia constitucional, quando da repartição de competências, conferida aos Estados, Distrito Federal e Municípios, devendo ser assegurado a estes o contraditório 54 .

O ‘voluntário’ ocorre quando da concordância do proprietário, seja por meio de requerimento formulado pelo próprio ao Poder Público 55 , ou aceitando, voluntariamente, no prazo de 15 dias, os termos da notificação 56 .

53 Autarquia federal competente para administrar e proteger o patrimônio cultural brasileiro. 54 CUNHA FILHO, Francisco Humberto. “Impactos da Constituição Federal de 1988 sobre o tombamento de bens do patrimônio cultural brasileiro”. Salvador-BA: IV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Faculdade de Comunicação / UFBa, 2008, p. 7.

55 O exercício do Direito de Petição é assegurado como direito fundamental pelo art. 5º, XXXIII, , bem como se constitui como uma outra forma de acautelamento e preservação, tipificada pelo § 1º do art. 216, ambos da Constituição Federal de 1988. 56 Art. 7º do Decreto-Lei nº 25, de 30/11/1937.

42

O ‘compulsório’ ocorre quando, transcorrido o prazo de 15 dias, o notificado não responde (ficto), ou contesta (contencioso). Quando a notificação não for respondida, segue-se o trâmite normal, com a emissão de parecer técnico e homologação. Quando houve contestação, abre-se a possibilidade de arquivamento do processo.

O tombamento provisório ocorre no momento da notificação do proprietário. Momento em que fluem os mesmo efeitos do definitivo, exceto no que tange à averbação da margem da transcrição de domínio, haja vista sua satisfatividade. Pelo fato de haver sido verificada a ocorrência dos requisitos pertinentes, desde pronto o bem já é passível de proteção, continuando o transcurso do processo até o ato final, qual seja a própria inscrição.

O tombamento irá ter sua definição depois de concluído o processo, pela inscrição do bem tombado no respectivo livro de tombo, após registro cartorário competente.

43

02.5. Efeitos do tombamento.

O tombamento gera efeitos tanto para o proprietário quanto para

vizinhança, como para o Poder Público, ao estipular obrigações de fazer, não fazer e deixar fazer. O Decreto-Lei nº 25, de 30/11/1937 dedica um capítulo inteiro a este tema (arts. 11 a 21).

Basicamente, os efeitos são os seguintes: obrigação de transcrição no registro público, dever de conservar e reparar, restrições à alienabilidade, haja vista o direito de preempção, restrições à modificabilidade, sujeição de fiscalização pelo órgão público de tombamento e restrições às propriedades vizinhas.

O principal efeito do tombamento consiste na impossibilidade total,

enquanto houver o tombamento, haja vista a natureza de obrigação propter rem 57 , do proprietário ou titular de eventual direito de uso, “destruir, demolir ou mutilar o bem 58 , conforme art. 17 do Decreto-Lei 25/37, que retrata ainda da necessidade de autorização expressão do Poder Público, através do SPHAN, hoje IPHAN, para qualquer reparação, pintura ou restauração, sob pena de multa de 10% do valor da coisa.

Como obrigação de fazer imposta ao proprietário tem-se a exigência de fazer as obras necessárias para a conservação do bem. Caso o titular não possui condições financeiras para tanto, deverá comunicar ao órgão competente a impossibilidade da realização da obra, conforme art. 19, sob pena de multa. Esta comunicação transfere para a Administração Pública a responsabilidade pelo cumprimento desta obrigação. Se não fizer poderá o Ministério Público, por meio de Ação Civil Pública, requerer em juízo que seja

57 Obrigação propter rem é a que recai sobre uma pessoa, por força de determinado direito real. Só existe em razão da situação jurídica do obrigado, de titular do domínio ou de detentor de determinada coisa.” GONÇALVES, Carlos Alberto. “Direito das Obrigações - Parte Geral”. 9 ed., Coleção Sinopses Jurídicas nº 05. São Paulo: Saraiva, 2008. 58 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. “Direito Administrativo Descomplicado”. 17. ed. São Paulo: Método, 2009, p.893.

44

cumprida a obrigação subsidiária de conservação. Se não for cumprida a decisão proferida em sede de Ação Civil Pública, nasce para o proprietário a possibilidade de solicitar o cancelamento do bem.

Em caso de urgência, o Poder Público poderá iniciar as obras de reparação, independente de manifestação do proprietário.

Na ocorrência de alienação onerosa, a União, os Estados e os Municípios terão, desta ordem, o direito de preferência, também chamada de preempção. Segundo o art. 22, § 1º, do Decreto-Lei 25/37, o “proprietário deverá notificar os titulares do direito de preempção, dentro de trinta dias, sob pena de nulidade da alienação”, surgindo, para os titulares do direito de preferência, a habilitação para seqüestrar a coisa e impor multa de 20% do valor do bem. Penalidade de natureza solidária ente o transmitente e o adquirente. Conforme a segunda parte do § 2º do art. 22, o pronunciamento da nulidade será efetuado pelo juízo concessor do seqüestro, que apenas será levantado depois do pagamento da multa e se a coisa não tiver sido adquirida pelos titulares do direito de preempção no prazo anterior há 30 dias.

Outro efeito do tombamento é a mantença da possibilidade gravação por penhor, anticrese e hipoteca. Por fim, não há a obrigatoriedade de indenização, em caso de tombamento, desde que estritamente comprovado o prejuízo material 59 .

59 ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. “Direito Administrativo Descomplicado”. 17. ed. São Paulo: Método, 2009, p.893.

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3º CAPÍTULO.

TOMBAMENTO DE SÍTIO HISTÓRICO: O CASO DE SOBRAL.

3.1. A reabilitação urbana de sítios históricos.

O centro histórico de uma cidade é local onde encontramos os bens mais antigos da cidade, revelados em prédios, praças, ruas e outros monumentos que revelam aspectos de uma determinada época histórica, que contribuíram para a formação da identidade social dos habitantes daquele núcleo urbano 60 . Monumentos são registros do passado que sobreviveram ao tempo e são preservados pela sociedade como símbolos coletivos e referências da memória de um povo 61 . São passíveis de proteção estatal conservadora de suas características, por possuírem esta referência significativa e pela necessidade de perpetuação da memória coletiva.

Para que um núcleo urbano passe a ser considerado sítio histórico e intitulado patrimônio cultural é necessário a existência de um rico e importante conjunto arquitetônico, que retratem não só fatos memoráveis da história local 62 , como também devem fazer referência significativa à ação, memória e identidade dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira 63 .

60 SABOYA, Giovana; CARACRISTI, Isorlanda. “Descobrindo e Construindo Sobral – Conhecimentos de Geografia e História”. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2002, p. 09. 61 SABOYA, Giovana; CARACRISTI, Isorlanda. “Descobrindo e Construindo Sobral – Conhecimentos de Geografia e História”. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2002, p. 25. 62 Concepção oriunda do conceito escrito no art. 1º do Decreto-Lei nº 25, de 30/11/1937, que organizou o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, porém conforme os ideais da elite predominante da época.

63 Definição recepcionada e atualizada, sistematicamente, pelo art. 216 da Constituição Federal de 1988, conforme ideais democráticos.

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3.2. O conjunto urbano de Sobral.

O conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade de Sobral, assim inscrito nos livros de tombo arqueológico, etnográfico e paisagístico, sob o nº 123, e histórico, sob o nº 558, ambos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, possui, em sua área tombada, 21 pontos de convergência definidores dos limites de seu sítio histórico, tendo como ponto de partida o seu corredor cultural, na avenida que tem o nome do primeiro e mais influente bispo da cidade, indo até o seu entorno; ambas as inscrições ocorridas na data de 23/06/2009, como resultado do processo de tombamento nº 1379-T-97.

O sítio histórico de Sobral é marcado pela existência de casarões, sobrados e igrejas, como o sobrado Pinto Braga, que hoje abriga a sede da Academia Sobralense de Letras, o sobrado Radier, utilizado como ponto comercial, o sobrado Figueiredo, que hoje se constitui na Casa da Cultura, sede da Secretaria de Cultura do Município, sobrado Bandeira de Melo, hoje Museu Dom José, o mais tradicional em artes sacras do interior do Ceará, o teatro São João, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja de Nossa Senhora das Dores, a Igreja do Rosário, a Igreja do Menino Deus, dentre outros, todos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 64 .

As majestosas torres das igrejas, que contrastam a singularidade das ruas, avenidas e praças, representantes do triunfo monumental sobralense do século VIII, construídas pelos moldes arquitetônicos europeus mais ‘avançados’ da época, a partir da renda oriunda do algodão e do charque “constituem um acervo a ser protegido e preservado em nome de um valor intrínseco de sua existência, como obra do homem e marco da ocupação do

64 SABOYA, Giovana; CARACRISTI, Isorlanda. “Descobrindo e Construindo Sobral – Conhecimentos de Geografia e História”. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2002, p. 12.

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nosso interior65 , nas palavras de Antônio Carlos Campelo Costa e Herbet de Vasconcelos Rocha (2008).

Em agosto de 1999 o conjunto urbano de Sobral foi coroado Patrimônio Histórico Nacional, por iniciativa da parceria entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da Prefeitura Municipal, como resposta à equivocada noção de progresso que resultou na mutilação de boa parte do patrimônio arquitetônico público municipal, provocado pelo declínio econômico da segunda metade do século XX.

A área de proteção compreende um poligonal, cujo perímetro total e de 5,33 km, com área de 1,484 km 2 . Dentre essa área, 0,455 km 2 é de preservação rigorosa, por ser o espaço interno do sítio, e 1,029 km 2 do entorno de proteção 66 .

65 COSTA, Antônio Carlos Campelo; ROCHA, Herbet de Vasconcelos. “Sobral das Origens ao Distrito”. Sobral: Prefeitura Municipal de Sobral, 2008, p. 09. 66 ALVES, Maria do Carmo, COSTA, Antônio Campelo, DA CRUZ, Andréa Nóbrega. “Sobral, a preservação do sítio histórico a partir do seu tombamento”. Sobral: Sobral Gráfica e Editora LTDA, Prefeitura Municipal de Sobral, 2008, p. 25.

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3.3. Antecedentes históricos do Município.

A História de Sobral foi marcada pelo desbravamento do sertanejo em busca das margens dos rios, tendo como marco orientador neste desbravamento a Serra da Meruoca. Inicialmente pelos índios, depois pelos colonizadores portugueses, razão pelo qual boa parte das famílias sobralenses tem suas origens no casamento de português com índio. Atraídos pelo rio Acaraú, os sertanejos habitaram esta cidade, iniciando um processo de comercialização do gado, que subiam as serras em épocas necessárias, sendo vendidas suas carnes, que eram exportadas através dos portos.

Sua origem foi numa fazenda, chamada Caiçara, fortemente ligada à criação de gado por ter origens tipicamente ruralistas. Os produtos mais importantes da economia sobralense nos séculos XVIII e XIX fora a carne-de- sol, também chamada de “charque” ou “carne-do-ceará”, o couro e o algodão 67 . Com o desenvolvimento da atividade agrícola e pecuarista foram construídos casarões, sobrados e igrejas, que representavam prestígio para as famílias ricas sobralenses da época. Há em Sobral cinco grandes grupos arquitetônicos, que direcionam a política cultural do tombamento da cidade. O primeiro é o da Praça São João, em torno da praça, que abrange a Escola de Música, a Igreja do Menino Deus, a Casa da Cultura, o Museu Dom José, o Teatro São João, de domínio público, bem como imóveis privados. O segundo é o trecho que vai da Igreja das Dores até a Igreja do Rosário, passando pela Igreja da Sé, pela casa do Capitão-Mor José de Xerez da Furna Uchôa, colonizador português introdutor da cultura do café no Ceará, e pela Rua Ernesto Deocleciano. O terceiro, o conjunto de casas em estilo Art. Noveau da Praça João Pessoa, no centro da cidade. O quarto é o famoso o trecho que vai do Arco de Nossa Senhora de Fátima até a Praça Dr. José Sabóia, que se constitui no Corredor Cultural do Município, de

67 SABOYA, Giovana; CARACRISTI, Isorlanda. “Descobrindo e Construindo Sobral – Conhecimentos de Geografia e História”. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2002, p. 15.

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onde se inicia o sítio histórico e transcende até as fronteiras do rio Acaraú e da linha férrea. O quinto são as casas e monumentos isolados, como o colégio Patronato da Imaculada Conceição, o Colégio Sant’ana e outros prédios utilizados pelo comércio 68 . Sobral possuía, no século XVIII, localização privilegiada, exatamente no entroncamento entre as fazendas do sertão e o porto de Camocim, na foz do rio Acaraú, o que facilitou a escoação da produção de carne seca, consolidando-se como importante núcleo urbano 69 . A Vila Distinta e Real de Sobral foi criada em 1773. Distinta, porque seus habitantes eram os colonizadores brancos, portugueses ou descendentes, sem origem divina; e real, por ser criada por ordem do Rei de Portugal.

68 Estes imóveis isolados não tiram a característica de tombamento geral, de conjunto urbano, conferida ao Sítio Histórico de Sobral, nos moldes de Olinda e Recife. 69 COSTA, Antônio Carlos Campelo; ROCHA, Herbet de Vasconcelos. “Sobral das Origens ao Distrito”. Sobral: Prefeitura Municipal de Sobral, 2008, p. 14.

50

3.4. Justificativa do tombamento de Sobral.

Sobral possui uma singularidade específica, em termos urbanísticos, por está situada na depressão sertaneja. Porém, as igrejas, sobrados e casarios conferem à densidade ao espaço delimitado como integrante do sítio histórico, inclusive pelas torres, que marcam uma ligeira verticalidade ao espaço urbano notadamente horizontal.

A cidade precisa ser vista como testemunha da evolução da organização social. Baseado neste pressuposto, Nilson Almino de Freitas 70 mencionou os seguintes aspectos, que justificaram o tombamento do Sítio Histórico de Sobral:

1)

Levantamento

relativo

ao

valor

artístico

e

arquitetônico

das

edificações isoladas;

 

2)

Identificar

as

marcas

deixadas

nos

espaços

por

traços

e

complexos históricos considerados importantes;

 

3)

Levantamento

de

dados

relativos

à

‘dinâmica

funcional

e

morfológica’ atual dos espaços sociais da cidade.

Os aspectos da preservação da identidade e integridade física das estruturas edificadas do Município de Sobral conferem caráter à cidade e dão contornos justificadores à necessidade de tombamento.

Segundo dados da própria administração pública municipal, o tombamento do Município de Sobral justifica-se pela necessidade e oportunidade de reconhecer e preservar o conjunto urbano sob crivo como documento de identificação do urbanismo colonial do século XVIII na região norte do Ceará, bem como documento histórico representativo do desbravamento e da ocupação do sertão nordestino.

70 DE FREITAS, Nilson Almino. “Sobral, opulência e tradição”. Sobral: Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2000.

51

A sua posição estratégica para a povoação do interior do Estado do Ceará, entre portos, serras e rios, por está localizado entre serras e rio, chamando muita atenção dos colonizadores, inclusive no século XVIII, havendo sido construído um rico acervo histórico e arquitetônico 71 .

71 ALVES, Maria do Carmo, COSTA, Antônio Campelo, DA CRUZ, Andréa Nóbrega. “Sobral, a preservação do sítio histórico a partir do seu tombamento”. Sobral: Sobral Gráfica e Editora LTDA, Prefeitura Municipal de Sobral, 2008.

52

3.4. Identificação do sítio histórico.

Sobral possui uma singularidade específica, em termos urbanísticos, por está situada na depressão sertaneja. Porém, as igrejas, sobrados e casarios conferem à densidade ao espaço delimitado como integrante do sítio histórico, inclusive pelas torres, que marcam uma ligeira verticalidade ao espaço urbano notadamente horizontal.

A concepção do tombamento da área urbana de Sobral surgiu a partir da significação do conceito de sítio histórico, pela listagem das características morfológicas que identificam a cidade como um todo 72 .

O sítio histórico se situa a partir da identificação do corredor cultural, verificado como “espaço gerador da construção das identidades individuais e coletivas” 73 . Este espaço é delimitado e neutralizado, bem sua circunscrição, com todas as prerrogativas referentes ao entorno. A partir desta delimitação como marco inicial do sítio, têm uma possível expansão desta neutralização para os contornos do sítio histórico, que tem como limites o rio que iniciou o processo civilizatório do município e a linha férrea que trouxe desenvolvimento econômico.

Com o tombamento, a partir do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, iniciou-se um processo de reversão da degradação física, provocada pelo declínio econômico da segunda metade do século XX, que mutilou parte significativa de seu conjunto arquitetônico.

72 DE FREITAS, Nilson Almino. “Sobral, opulência e tradição”. Sobral: Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2000, p. 26. 73 DE FREITAS, Nilson Almino. “Sobral, opulência e tradição”. Sobral: Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2000, p. 26.

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Em estudo para a tomada dos procedimentos para o Município de Sobral, o Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional constatou o seguinte, em relação à dinâmica espacial entre o sítio histórico e o conjunto urbano.

A identidade espacial do Núcleo Tombado repousa no contraste entre a horizontalidade que predomina na massa construída e os marcos constituídos pelos volumes verticais das torres das Igrejas. Este Conjunto, de interessante composição plástica, acha-se emoldurado e valorizado em suas principais vistas, pela silhueta imponente e sinuosa da Serra da Meruoca. A perspectiva do crescimento desordenado do entorno da Área Tombada pode constituir uma barreira a essa paisagem histórica, dada às características de implantação da cidade, marcada por local muito plano. 74

O sítio histórico de Sobral caracteriza-se, nos dizeres de Nilson Almino de Freitas (2000), pela “miscelânea de arquiteturas e justaposição de imóveis com diversidade topológica, de escala, de uso e ocupação do solo, e onde se mistura repertórios populares e eruditos, evocando seus fatores de localização e desenvolvimento75 .

74 PROGRAMA MONUMENTA. “Sítios Históricos e Conjuntos Urbanos de Monumentos Nacionais”. Cadernos Técnicos. Volume I: Norte, Nordeste e Centro Oeste. Brasília: 2005. 75 DE FREITAS, Nilson Almino. “Sobral, opulência e tradição”. Sobral: Universidade Estadual Vale do Acaraú, 2000, p. 26.

54

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Conforme se pôde verificar, a Constituição Federal de 1988 trouxe impactos significativos ao instituto do tombamento, no tocante à sua autonomia, como integrante dos direitos culturais e instrumento estatal adequado para a proteção do patrimônio cultural brasileiro.

Concluímos que os direitos culturais são dotados de extrema fundamentalidade, pois são tratados, pelo neoconstitucionalismo, como direitos especiais, dotados de autonomia e portadores de proteção constitucional específica, com instrumentos garantidores próprios de sua efetividade. O meio utilizado nesta abordagem consiste no instituto do tombamento, manifesto da garantia estatal de defesa efetiva do patrimônio cultural.

A partir da recepção das diretrizes do Decreto 25, de 30/11/1937, houve

a ampliação dos bens merecedores de proteção estatal, pela observância da necessidade de democratização para a ocorrência do bem-estar social. Esta qualidade de vida tão falada passa pelo resgate da memória coletiva e da identidade, visualizada neste trabalho através da proteção do patrimônio cultural material, pela adequada funcionalidade do tombamento e de seus critérios.

A propriedade precisa atingir sua função social. Ademais quando se tratar de bem portador de significado referencial. Neste caso, o Estado deverá utilizar-se de seu poder de polícia para fazer a supremacia especial do interesse público sobre o privado, haja vista o valor cultural que o bem adquire.

O tombamento poderá ocorrer sobre bens públicos ou privados. Em se

tratado de coisa pública, faz-se de ofício, sem necessidade de tombamento provisório nem de instauração do contraditório, apenas a comunicação e a transferências entre os entes públicos. No caso de bens particulares, poderá ocorrer o voluntário ou o compulsório. Em ambos o contraditório é necessário,

55

manifestado pela notificação, sendo instaurado de pronto o tombamento provisório, de caráter satisfativo. Esta primeira forma possui todas as características do tombamento definitivo, exceto o fato de ainda não haver averbação na margem do registro da transcrição de domínio e conseqüente inscrição no livro de tombo competente.

O marco mais influente na democratização dos direitos culturais foi exatamente o tombamento dos sítios históricos, pela ampliação da competência conferida pela Constituição Federal de 1988 aos municípios no tocante à administração e preservação do seu patrimônio cultural local, manifestada através do estudo das características e justificativas do tombamento do centro urbano de Sobral, dotado de uma singularidade específica referente ao resgate memorável da identidade sobralense do século

XVIII.

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