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Contracultura Através dos Tempos Ken Goffman e Dan Joy

2004

Introdução

Nota: esta introdução não é uma mensagem de além-túmulo, mas um dos últimos textos de Timothy Leary, escrito assim que o trabalho neste livro começou.

A contracultura floresce sempre e onde quer que alguns membros de uma sociedade

escolham estilos de vida, expressões artísticas e formas de pensamento e

comportamento que sinceramente incorporam o antigo axioma segundo o qual a única verdadeira constante é a própria mudança. A marca da contracultura não é uma forma ou estrutura em particular,mas a fluidez de formas e estruturas, e perturbadora velocidade e flexibilidade com que surge, sofre mutação, se transforma em outra e desaparece.

A contracultura é a crista movente de uma onda, uma região de incerteza em que a

cultura se torna quântica. Tomando emprestada a expressão do Premio Nobel de física Ilya Prigogine, a contracultura é o equivalente cultural do “terceiro estado da termodinâmica”, a “região não-linear” em que equilíbrio e simetria deram lugar a uma

complexidade tão intensa que a nossos olhos parece caos. Aqueles que fazem parte de uma contracultura se desenvolvem nessa região de

turbulências. É o seu meio natural, a única matéria maleável o bastante para ser moldada

e remodelada rapidamente o bastante para dar conta da velocidade de suas visões

internas. Eles conhecem a corrente, são engenheiros do caos, migrando na crista da onda

da máxima mudança. Na contracultura , as estrutura sociais são espontâneas e efêmeras. Os que fazem parte de contraculturas estão constantemente se reunindo em novas moléculas, se fissionando

e reagrupando em configurações adequadas aos interesses do momento, como partículas

se esbarrando em um acelerador de grande potência , trocando cargas dinâmicas. Nessas configurações eles colhem a vantagem de trocar idéias e criações por intermédio de resposta rápida em pequenos grupos, conseguindo uma sinergia que permite que seus pensamentos e suas visões cresçam e se modifiquem quase que no mesmo instante em que são formulados.

A contracultura não tem uma estrutura formal nem uma liderança formal. Em certo

sentido, ela não tem liderança; em outro sentido , é abarrotada de líderes , com todos sues participantes inovando constantemente , invadindo novos territórios em que outros podem acabar penetrando.

A contracultura pode surgir em alianças ( algumas vezes constrangedoras ) com grupos

políticos radicais ou mesmo revolucionários ou forças de insurreição, e os participantes das contraculturas e desses grupos muitas vezes são os mesmos. Mas o que interessa à contracultura é o poder das idéias , imagens e da expressão artística, não a obtenção de poder pessoal e político. Assim, partidos políticos minoritários, alternativos e radicais não são, em si, contraculturas. Embora vários memes* contraculturais tenham implicações políticas, a conquista e a manutenção de

poder político exige a adesão e estruturas inflexíveis, incapazes de acomodar a inovação

e a experimentação que são a base da razão de ser da contracultura.

A contracultura – como este livro mostra – é um fenômeno perene, provavelmente tão

velho quanto a civilização e possivelmente tão velho quanto a própria cultura. De fato, muitos dos personagens que acabaram ocupando lugar de destaque nos livros escolares

– de Sócrates a Jesus, Galileu, Martinho Lutero e Mark Twain – eram contraculturais em sua época. Este livro levanta a pergunta “O que é contracultura?” e identifica os temas comuns que perpassam as contraculturas em diferentes épocas e lugares. Também descreve o importante papel de catalisador de mudanças desempenhado pelas contraculturas no desenvolvimento das grandes culturas, mostrando de que maneira a cultura como um todo surge da contracultura. Essa discussão serve como um ponto de referências em um passeio divertido por um enorme número de contraculturas, do taoísmo à acid house. Espero que você leia e goste deste livro, e que ele o inspire a viver a mensagem contracultural de individualidade, coragem e criatividade com seu próprio esplendor e glória.

Timothy Leary

* Termo criado em 1976 por Richard Dawkins em O Gene Egoísta, é considerado uma unidade autônoma de informação que se multiplica de cérebro em cérebro. ( N. do E.)

Prefácio

Certo belo dia, no auge de sua conquista do mundo mediterrâneo, Alexandre, o Grande, estava no campo, perto de Atenas – que acabara de se render às suas forças -, contemplando a paisagem acidentada banhada pelo sol que cercava aquela cidad, que era para ele a jóia mais brilhante do vasto território que ele então controlava. Enquanto desfrutava daquilo, Alexandre chegou perto de um homem que relaxava ao lado de um córrego. Aquecendo-se ao sol da tarde, o homem estava tão absorto em alguma espécie de transe bucólico que não se dava conta da presença do conquistador nem do tumulto que acabara de tomar conta da cidade próxima. Alexandre reconheceu de imediato o homem e se aproximou dele, dizendo: - Eu sou Alexandre. Há algo que eu possa fazer por você? O homem abriu os olhos preguiçosamente, olhou para cima e respondeu:

- Sim. Saia da frente da minha luz. Quem era aquele homem, por quem o recém-empossado regente do mundo conhecido interrompia seu momento de glória para humildemente oferecer seus serviços – apenas para receber uma resposta atravessada?

O homem ao lado do córrego era Diógenes – um renomado autor teatral e ao mesmo

tempo um completo miserável e excêntrico criador de casos ateniense sem residência fixa. Diógenes vivia ao ar livre, freqüentando as ruas e as áreas públicas de Atenas e normalmente perturbando os cidadãos com seu humor iconoclasta e suas brincadeiras maliciosas, algumas vezes grosseiras, mas sempre brilhantes. Famoso em todo o mundo

grego por sua sabedoria aforística e suas criações dramatúrgicas, ele também era um dos principais nomes do movimento socrático, uma contracultura grega que iria mudar a face do mundo ocidental para sempre.

A resposta de Diógenes a Alexandre – “Saia da frente do meu sol” – simboliza a atitude

das contraculturas através dos tempos frente à autoridade imposta: ela bloqueia a luz.

A luz – a força brilhante de uma expressão individual sem amarras, o brilho radiante da

criatividade humana liberta de roteiros e controles externos. A luz – o brilho liberado quando, individualmente , e em especial coletivamente, os seres humanos livremente

compartilham recursos internos e externos para criar seu mundo de acordo com os

ditames do verdadeiro eu. E o brilho numinoso do próprio mundo nos olhos daqueles

que exercitam esse tipo de liberdade. Se Alexandre tivesse se recusado a sair da frente da luz de Diógenes, o filósofo- dramaturgo mais provavelmente se levantaria e sairia da sombra do conquistador do que iniciaria um pugilato com ele. Porque se Diógenes reagisse à separação de seu amado sol tentando derrotar aquele que o tinha separado dele, o sol – como Diógenes tinha a sabedoria de reconhecer – muito provavelmente se poria antes que o conflito fosse resolvido.

O objetivo primordial das contraculturas, portanto, não é tomar as rédeas ou eliminar o

controle externo nem mover uma guerra contra aqueles que o detêm – embora em alguns momentos as contraculturas possam participar de forma apaixonada de tais empreitadas. Em vez disso, as contraculturas buscam basicamente viver tão livres das restrições à força criativa quanto seja possível, onde e como quer que seja possível fazê- lo. E quando as pessoas buscam esse tipo de liberdade com compromisso e vigor , elas desbloqueiam a passagem da luz, de modo que as gerações posteriores podem se aquecer com seu calor.

Tradição sem convenção

Eu deliberadamente escolhi romper com as tradições de modo a ser mais fiel à Tradição do que as atuais convenções e idéias permitem. O caminho mais vital normalmente é o mais difícil, e passa por convenções muitas vezes transformadas em leis que precisam ser rompidas, com conseqüente liberação de outras forças que não suportam a liberdade. Portanto, uma ruptura dessa natureza é algo perigoso, embora indispensável para a sociedade. A sociedade reconhece o perigo, e faz com que a ruptura normalmente seja fatal para o homem que a produz. Ela não deve ser feita sem que sejam avaliados o perigo e o sacrifício , sem a capacidade de suportar violentas punições , nem sem a fé sincera em que o fim justifica os meios, nem eu acredito que isso possa ser efetivamente conseguido sem tudo isso.

Frank Lloyd Wright

O impacto final da contracultura na história freqüentemente é determinado pela adoção

de seus símbolos , artefatos e práticas pela cultura dominante de uma forma que os isola violentamente de suas fontes de experiência real. Ainda assim, os traços históricos

deixados pelas contraculturas podem ser identificados ao se observar a história com uma compreensão da essência da contracultura. Essa forma de ler os registros culturais oferece uma interminável fonte de inspiração, informação e afirmação, permitindo que

as contraculturas extraiam muita energia de épocas e personagens históricos anteriores.

A contracultura é “ruptura” por definição , mas também é uma espécie de tradição. É a

tradição de romper com a tradição, ou de atravessar as tradições do presente de modo a abrir uma janela para aquela dimensão mais profunda da possibilidade humana que é a fonte perene do verdadeiramente novo – e verdadeiramente grandioso – na expressão e no esforço humano. Dessa forma, a contracultura pode ser uma tradição que ataca e dá início a quase todas as outras tradições.

Três fios de ligação

Três diferentes cabos de conexão organizam o mosaico heterogêneo de contraculturas em uma tradição contínua: contato direto, contato indireto e ressonância. Os dois

primeiros são trilhas óbvias ao longo das quais idéias, influência e inspiração são

transmitidas de uma cultura a outra, enquanto a terceira envolve uma espécie mais sutil

e misteriosa de ligação entre cultura.

Contato direto

O mais poderoso e óbvio tipo de ligação entre contraculturas é o contato direto.

Nesse caso, participantes de uma contracultura interagem diretamente co participantes de outra, abrindo canis de comunicação que encorajam a individualidade e amplificam o impulso contracultural.

O contato direto foi fundamental no impacto histórico de sufismo, a contracultura

islâmica , tema do capítulo 6. Por intermédio do contato direto com os sufis na relação entre as culturas islâmicas e cristã na Europa Ocidental, os trovadores aprenderam a arte de afirmar o primado do amor em verso e música – que se tornaria a marca de excelência da heresia erótica mais transcendental da cristandade. Influenciado por

encontros com “iluminados” sufis, frei Roger Bacon subverteu a autoridade religiosa de seu tempo , criando as bases para o “método científico”. O contato com modelos sufis também inspirou São Francisco de Assis a abraçar um cristianismo radicalmente pacifista durante o período mais violento daquela região.

O contato direto também teve papel importante durante o século XX. Personagens

fundamentais dos movimentos de vanguarda europeus se misturaram com escritores americanos nas livrarias, nos salões e nos ateliês de Paris, ajudando a catalisar o movimento literário da Geração Perdida. Algumas décadas mais tarde, muitos integrantes das contraculturas jovens dos anos 1960 foram inspirados e instruídos por muitos dos beatniks, herdeiros literários da Geração Perdida.

Contato indireto

Influência e inspiração também são transmitidas de uma contracultura a outra por

contato indireto, ou mediado. Nesse caso, uma cultura fecunda outra através do tempo pro intermédio de obras de arte , registros e lendas. Nos últimos cem anos, à medida que

as contraculturas proliferaram em um ritmo sem precedentes e a facilidade de acesso ao

depósito planetário de idéias e imagens chegou a níveis cibernéticos, esse cabo ligando

as contraculturas começou a se emaranhar com fascinante intensidade.

Embora não tenha a vitalidade e o imediatismo do contato direto, o contato mediado tem sido fundamental para definir o conteúdo conceitual das contraculturas. Platão, cuja jornada filosófica teve como ponto de partida seu envolvimento coma contracultura socrática da Grécia antiga, deixou um substancial legado escrito. Desde então, várias permutações de pensamento neoplatônico serviram de base a um grande número de contraculturas, do gnosticismo dos primeiros cristãos ao transcendentalismo da Nova Inglaterra do século XIX. E no século XX, os escritos do poeta Ezra Pound reviveram o legado dos trovadores, de influência sufi, e o transmitiram a contracultura literária da Geração Perdida. Em todos os exemplos, uma tradição contracultural anterior é revivida

e uma posterior é formatada e definida por intermédio do contato indireto.

Ressonância

O terceiro fio de ligação de continuidade contracultural é um tipo de ressonância cuja

fonte é um mistério. É a freqüentemente impressionante a semelhança de idéias,

produtos artísticos, meios de desenvolvimento e formas de vida que se apresenta em contraculturas entre as quais não á nenhum indício de contato, direto ou indireto. O fenômeno da ressonância se destaca em semelhanças entre as mais antigas contraculturas discutidas longamente nestas páginas, a dos socráticos e a dos taoístas. Embora separados por metade da circunferência do planeta, esses movimentos filosóficos surgiram praticamente ao mesmo tempo e foram surpreendentemente semelhantes em seu desenvolvimento inicial. Mais de duzentos anos mais tarde, a vida e o trabalho do prototípico contraculturalista americano Henry David Thoreau remetiam intensamente ao taoísmo. Como destacou Alan Watts, o particular toque de anarquismo de Thoreau, seu panteísmo e sua louvação à natureza tinham uma clara característica taoísta. Embora Thoreau, como outros transcendentalistas , tenham mergulhado no estudos de filosofia orientais como o hinduísmo e vedanta, não há indícios de que Le tenha estudado taoísmo. Portanto, a impressionante semelhança entre o taoísmo e o transcendentalismo de Thoreau pode ser creditada unicamente a ressonância. Como demonstram os escritos de Thomas Jefferson, a contracultura revolucionária do

Novo Mundo buscou inspiração e modelos nas formas de vida e de governos adotadas pelos povos nativos americanos. De fato, os Artigos da Confederação foram estruturados a partir de acordos intertribais nativos. Muitos dos grupos contraculturais que nasceram no mesmo terreno dois séculos mais tarde, durante a explosão contracultural dos anos 1960, se voltaram para essa mesma fonte, adotando modelos de vida tribal e mesmo formas de vestir baseadas nos padrões dos americanos nativos. Porém, parece pouco provável que o entusiasmo disseminado entre os contraculturalistas dos anos de 1960 pelos índios americanos tenha tido origem nos documentos escritos pelos pais da pátria. Mais uma vez a semelhança deve ser creditada a ressonância.

A chave para compreender a ressonância aparentemente misteriosa entre as

contraculturas distantes nos tempo e no espaço pode ser os valores profundos e básicos

que as contraculturas partilham

contraculturas tem em comum, são apresentados no capítulo 2.

Esses

valores, bem como outras característica que as

Prévia

A parte I de Contracultura através dos tempos começa investigando as antigas histórias

de Prometeu e Abraão. Essas histórias nos dizem muito acerca das motivações que

movem as contraculturas e os papéis que elas desempenham na cultura como um todo. Assim, a parte I, então, busca identificar os elementos definidores da contracultura.

A parte II é um relato cronológico de contraculturas fundamentais que surgiram de 500

a.C. até o início do século XX, começando com o movimento iniciado por Sócrates na Grécia antiga e terminado com a boêmia parisiense do início do século XX que

produziu o cubismo, dadaísmo, a “Geração Perdida” e aquele solitário James Joyce (além de outras tendências artísticas e culturais). Cada contracultura abordada na parte

II exerceu uma influência que se desdobrou através do tempo, conseguindo uma enorme

expressão geográfica.

A parte III pesquisa a enorme profusão de contraculturas que floresceram na segunda

metade do século XX, da agitação pós-Hiroshima dos hipsters americanos dos anos 1950 até os ciberpunks e os ativistas antiglobalização dos anos 1990.

Arranhando a superfície

Como investigação de contraculturas mundiais , contraculturalistas e sua importância para a história , Contracultura através dos tempos é necessário incompleto. Contraculturas de algum tipo e magnitude muito provavelmente surgiram em quase todas as regiões do mundo, em quase todas as épocas da história. Da mesma forma, muitos indivíduos isolados com valores e inclinações contraculturais – em outras palavras, contraculturalistas solitários – produziram trabalhos de importância e

influência , a despeito de um grupo contracultural de apóio. Seria praticamente impossível registrar, na estrutura narrativa de um único livro, cada contracultura ou contraculturalista que deixou um registro histórico. Os autores fizeram muitas escolhas difíceis – e algumas vezes arbitrárias - , que implicam a exclusão de importantes grupos e personagens contraculturais. Pode-se argumentar que muitos dos que foram descartados – desde sábios da floresta e antigos hereges tantristas da antiga Índia até Mark Twain, o grande iconoclasta americano do século XIX – são tão importantes quanto aqueles que foram incluídos. De certa forma, este livro só é capaz arranhar a superfície de seu tema sem transformar em uma enciclopédia de verbetes curtos.

O principal critério para inclusão de contraculturas foi a sua identificação pelo amplo

público contemporâneo Os autores acreditam que muitos leitores irão apreciar novas visões de movimentos e personagens conhecidos – de Sócrates aos beats – oferecidas por este quadro de evolução de contraculturas de todo mundo através do tempo. No caso do leitor desapontado por descobrir que sua contra cultura predileta ficou de fora deste livro, os autores esperam que ele possa encontrar nesta páginas muitas expressões de criatividade, coragem e visão que reflitam fielmente o personagem ou grupo excluído.

De legados e vidas

O verdadeiro poema não é aquele que o público lê. Há sempre um poema não impresso

no papel, que coincide com a produção deste, estereotipado na vida do poeta. É aquilo em que ele se transformou por intermédio do seu trabalho. A questão não é como a idéia é impressa na pedra, tela ou papel, mas em que grau ela conquistou forma e expressão na vida do artista. Sua verdadeira obra não estará na galeria de nenhum príncipe.

Henry David Thoreau

Embora novidades revolucionárias em arte, no pensamento ou na espiritualidade

costumem com maior freqüência ter surgido de um ambiente contracultural, a grande inovação – não importa o quão contraria ao status quo possa ser – não constitui em si uma contracultura. A verdadeira contracultura é movida por um impulso muito mais profundo do que apenas o desejo de inovar ou derrubar convenções.

A contracultura não pode ser construída ou produzida: precisa ser vivida. Se a

contracultura valoriza ampliar as fronteiras da arte, ela valoriza muito mais levar a vida como uma experiência artística em progresso. Se a contracultura valoriza o pensamento inovador, se empenha mais ainda em exprimir essa idéia na ação do momento. Se a contracultura abraça o espírito , ela não defende o contato periódico com a divindade por intermédio de qualquer gestual arbitrário; em vez disso, busca viver cada dia como expressão dinâmica e constante do próprio espírito. Os artefatos de uma determinada contracultura são subprodutos, não produtos finais de uma vida contracultural. Por esse motivo, Contracultura através dos tempos se dedica tanto a contar histórias quanto a analisar obras de arte, idéias e crenças. Algumas das histórias incluídas nesse

livro são bem documentadas – as experiências de vida de Thoreau, as complicadas mas

férteis interações sociais de Sylvia Beach, James Joyce e Ezra Pound, as palhaçadas dos Marry Pranksters. Outros casos reproduzidos são originalmente apócrifos – os estranhos

e subversivos ensinamentos das tradições taoístas, zen e sufi; as lendas românticas

deixadas nas trilhas dos trovadores. Os dois tipos de história nos ajudam a estabelecer uma ligação com as vidas no meio dos legados. São histórias daqueles que criaram e fizeram parte de contraculturas. De como essas pessoas coexistiram, criaram, arriscaram, ousaram, sacrificaram, conquistaram e fracassaram.- que revelam a fonte viva e onde brota o legado contracultural. O julgamento de Sócrates nos diz muito mais sobre a essência da contracultura do que as longas dissecações e sistematizações do pensamento socrático feitas por Platão;a visão de Timothy Leary de sua própria morte diz muito mais do que manuais acadêmicos sobre como usar LSD. A distinção estabelecida aqui – as vidas das pessoas e o legado cultural produzido por suas vidas – reforça a distinção entre as definições formal e informal da própria palavra “cultura”. Formalmente , cultura se refere às crenças, aos costumes, hábitos e práticas tradicionais segundo os quais as pessoas vivem, bem como às linguagens de artes e ofícios que elas empregam. A palavra também é utilizada, menos formalmente, mas talvez mais freqüentemente, para se referir às próprias pessoas, aos indivíduos, grupos e sociedades que criam, perpetuam – e algumas vezes rejeitam – essas práticas e tradições. Contracultura através dos tempos incorpora essas duas definições de cultura. Ao mesmo tempo em que conta histórias, este livro também estuda hábitos, sistemas de crença e formas de arte. Mas ao dar ênfase à definição menos formal de cultura, busca extrair a essência viva dos episódios culturais que investiga.

Des/Orientação

Dan Joy

23/06/2003

Antes de tudo obrigado a Timothy e Dan por essas introduções otimistas demais. Como

o idiota proverbial de muitas histórias contraculturais de outrora, eu mergulhei de

cabeça na impetuosa corrente caótica da história humana armado apenas de sua bela visões e mapas.

É, eu tentei tecer uma colcha adoravelmente simétrica com os fios multicoloridos desses períodos culturais altamente diferentes, esperando, por fim, encontrar um objeto bem definido cuja coerência seria óbvia até mesmo para a inteligência mediana. Mas , maldição , as pessoas são engraçadas – inclusive não intencionalmente. Olha, turma, as coisas que eu descobri ainda me fazem tremer. Grandes pessoas, pessoas espertas, pessoas ligadas, pessoas extremamente criativas, obviamente envolvidas não apenas em trabalhos transformadores, mas em extravagante insensatez e contradição; deixando atrás de si não apenas um legado de luta destemida pela verdadeira autonomia contracultural, mas uma pletora de questões sem resposta. Mas deus(es), estejam eles vivos ou mortos, são todos humanos – humanos demais. E iríamos querer que fosse de outra forma?

E você, caro leitor? Eu só posso humildemente pedir que, ao mergulhar nessa narrativa

histórica, deixe suas expectativas junto à porta. Você poderá pegá-las intactas, se quiser,

ao final da viagem.

Há muitos tipos relacionados aqui, e eu acredito que todos vocês irão encontrar coisas merecedoras de seu interesse e atenção. Mas , atenção: nos últimos dois anos,enquanto escrevia isto, eu revelei o título a algumas pessoas. Muitas vezes, alguém me falava, excitado, sobre certa cultura realmente obscura, eXXXtrema, normalmente envolvendo a palavra”tântrico”. Entre os charmes atribuídos a essas culturas estava o fato de que eles faziam comer cérebros ou arrancar cabeças de morcegos a dentadas e beber o sangue deles. ( Insira aqui a piadinha sobre Ozzy.) Isto não é show de horrores, galera! Embora um livro sobre esse tipo de fenômeno cultural exerça um profundo fascínio sobre este autor (não, eu não estou sendo irônico), este trabalho em particular é sobre cultura que tiveram um impacto muito mais amplo. Claro que eu quero que o mais ligado dos ligados – sabe, aqueles com retratos de Antonin Artaud e Lynette “Squeaky” Fromme nos monitores de seus computadores – reconheça valor neste livro. Mas a minha maior esperança é de que ele tenha algo a dizer as pessoas comuns que foram influenciadas ou sofreram o impacto da “contracultura”; de que ele tenha algum interesse para aqueles que falam contra cultura; e, finalmente, que seja acessível ao curioso, que talvez nem saiba o que a palavra representa. Por isto eu resisti bravamente ao impulso e me envolver no tipo de discussão acadêmica, tão popular nas ultimas décadas, que questionam nossa compreensão comum de certas palavras que uso com freqüência neste texto, como individualidade e liberdade. Eu não necessariamente nego o valor desses discursos, mas eu os considero no mínimo impraticáveis para este estudo. Portanto, se sua idéia de FAB Four é Foucault, Deleuze, Derrida e Lacan, talvez ache esse procedimento um tanto pueril. O.K., agora que algumas das maiores expectativas dos meus leitores foram adequadamente frustradas, podemos seguir em frente. Bem-vindo à primeira história das contraculturas. Dan Joy teve a idéia deste livro em 1994, durante conversas com Timothy Leary, cujo trabalho posterior em particular deu inspiração para alguma idéias fundamentais. Dan foi o responsável pela maior parte do esboço e das base conceituais deste livro e contribuiu com dois capítulos, bem como com outras passagens fundamentais do resultado final. Leon Fernandez deu uma inestimável contribuição ao projeto inicial, na seleção de contraculturas e idéias básicas. Eu também contribuí com o esboço e com a articulação dos conceitos fundamentais , assumindo total responsabilidade pelo projeto em 2001, quando foi assinado o contrato com a editora. Gracie e Zarkov contribuíram com algumas linhas e parágrafos dos capítulos 1 e 8, e Dan retornou ao projeto para ultima rodada de trabalho editorial. Eu sou o responsável pela maior parte do texto e pro pontos de vista específicos expressos aqui. Portanto , quando o pronome pessoal “Eu” é usado, refere-se a mim ( R.U. Sirius), e quando é empregado o “Nós”, refere-se a Joy e a mim. Finalmente , no que se refere a pronomes de gênero como “dele” ou “dela”, eu gosto de misturá-los. Algumas vezes utilizo o genérico no masculino, outras, no feminino. Não se preocupe com isso.

Ken Goffman ou R.U. Sirius

23/06/2003

Obs: Trecho tirado do livro Contracultura Através dos Tempos de Ken Goffman e Dan

Joy

, pgs 9 a 20.