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:
Uma Caixa de Curiosidades
Allen Kurzweil

Tradução de Celso Nogueira

O©®BR

Sobre o Autor:
Allen Kurzweil nasceu em 1960, em Nova York, graduou-se na Yale University e é
bolsista da Fullbright. Viveu na Itália, França e Austrália; atualmente mora em
Connecticut, em seu país natal. Escreveu para várias revistas européias e americanas.
Uma caixa de curiosidades, seu primeiro romance, é fruto de cinco anos de minuciosa
pesquisa.
Sobre a Obra:
A vida registrada na caixa de curiosidades é a de Claude Page, jovem
inqaúeur, um gênio mecânico e artístico que está apenas ingressando na
adolescência quando o conhecemos. Filho de um talentoso relojoeiro, Page é
fascinado por máquinas que sintetizam arte e invenção. Seu projeto mais ambicioso é
a construção de um autômato antropomórfico capaz de movimento e fala. Mas, até
chegar lá, nosso herói passa por diversas peripécias que vão configurando a sua
formação de “cidadão iluminista”: admitido como aprendiz nos laboratórios e oficinas
do Abade — um divertido ex-clérigo anticlerical, Cavaleiro da Real Ordem dos
Elefantes, sábio, inventor e hipotético libertino — e depois como ajudante de livreiro
em Paris, Claude aprende a lidar com polias, eixos e roldanas, desvenda os segredos
de resinas e tinturas exóticas, fabrica relógios esmaltados com motivos pornográficos
(e por vezes animados, como “Freira de maus hábitos”, “Sobrinha na farra com cão”)
e mais tarde descobre livros proibidos que lhe abrem as portas para as surpresas e
prazeres do amor carnal.
Sobre a Digitalização desta Obra:
Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o
benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que
necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-livro ou
mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em
qualquer circunstância.
A generosidade é a marca da distribuição, portanto:
Distribua este livro livremente!
Se você tirar algum proveito desta obra, considere seriamente a possibilidade
de adquirir o original.
Incentive o autor e a publicação de novas obras!

A caixa de curiosidades caiu nas minhas mãos durante um leilão em Paris, na
primavera de 1983. Sempre me divirto ao ouvir as opiniões que as pessoas fora da sala
têm das que ficam lá dentro. Os desinformados presumem ternos escuros, placas de
madeira numeradas e ligações telefônicas com Tóquio e Genebra. Imaginam painéis
eletrônicos mostrando milhões em seis moedas diferentes, o ruído do martelo de
marfim e aplausos polidos quando um filisteu adquire um quadro “inestimável” para
usar como garantia em sua próxima jogada na bolsa. O verdadeiro espírito de um
leilão é muito mais renhido, e, francamente, é disso mesmo que eu gosto.
Na Salle Drouot a gente encontra penhoristas de mocassim branco e
rabugentas viúvas de sapatilhas Céline (compradas no tumulto das liquidações)
pisando forte e chutando por um fragmento de beleza a bom preço. Mas no geral
luta-se para frustrar o desejo alheio. As caixas das mercadorias em leilão tornam -se
opacas, vê-se logo, de tão arranhadas pelos anéis de diamante dos homens e
mulheres gananciosos.
Eu exploro deliciado este ambiente indecoroso, quase todas as semanas, não
em busca do prazer do lucro — embora deva admitir que não deixo passar uma
pechincha — e sim para aprimorar meu conhecimento de mecânica, pintura e das
manifestações menos previsíveis da história. Foi assim que tropecei na caixa.
Cheguei cedo naquele dia, como necessário, e fui logo folheando os
catálogos acorrentados à escrivaninha da frente. A sala de leilões estava numa
bagunça terrível. Reunia lotes de mobília marrom, araras de casacos de pele, alguns
bronzes, uma máscara dogon do “século XIX” com menos de dez anos, aposto,
paredes forradas de telas e óleos irrelevantes, havia até meia dúzia de máquinas de
escrever. No meio da confusão, um globo terrestre. O catálogo não dava detalhes.
Suspeitei que fosse uma peça do Império. Apoiava-se em cariátides em preto e
dourado, que por sua vez possuíam garras de latão, tão comuns no período. Era
realmente muito bonito.
Saí da sala de exposição e fui conversar com Boudin, comerciante de
instrumentos científicos, com quem eu negociava havia anos. Ele permitiu que
consultasse sua biblioteca, uma vez que a minha se encontrava muito mais longe.
Confirmei que o globo era mesmo napoleônico. Saí da loja faiscando de antecipação
pela conquista iminente.
Boi um erro. Jamais deveria ter procurado Boudin antes da compra daquela
peça. Quando voltei de um rápido almoço, bem antes do início do leilão, encontrei o
filho da mãe inspecionando as peças do dia. Ele não demorou muito para descobrir
que minha consulta casual servira a um objetivo. A situação se complicou. A aparição
de Boudin chamou a atenção de outro comerciante, que por sua vez trouxe um
amigo, conhecido globiste. Na hora em que o leiloeiro terminou de vender o
conteúdo do escritório parisiense de um advogado londrino (origem das máquinas de
escrever e, devo dizer, de uma peruca bem jeitosa), levando o globo ao tablado, eu
compartilhava a sala com quatro ou cinco negociantes avarentos, plenamente
conscientes do que estava à venda.
Os lances começaram quase com indiferença, um sinal terrível. Três mil francos,
três-dois, três-três, e Boudin gritou seis mil francos. Mostrava as garras, e os outros
interessados atacaram com estonteante rapidez. Participei da batalha brevemente,
mas meu limite foi logo ultrapassado. Quando terminou, um baixinho meio malvisto no
ramo triunfou às próprias custas. O leiloeiro passou aos inevitáveis bibelôs, e os
profissionais retiraram-se. Eu estava a ponto de sair quando vi... aquilo.
No canto da sala, atrás de uma arara com casacos de pele, encontrava-se um
objeto que o catálogo descrevia inadequadamente, como era de se esperar: “Lote
67, Caixa de Curiosidades. 45 cm x 63 cm. Origem desconhecida. Séc. XIX”.
Logo percebi que a data, embora vaga, não poderia ser correta. A tampa da
caixa, em vidro soprado, indicava um período anterior. Como era selada, eu não

podia inspecionar seu conteúdo, roído de traças e coberto de poeira. No fundo da
caixa havia marcas do tipo das que faziam os pequenos museus do interior. Não havia
como examiná-las discretamente, e, dado o fiasco do globo terrestre, a última coisa
que pretendia era alardear meu interesse. Eu teria de acreditar na descrição do
objeto ou no objeto em si. E escolher.
A competição pela caixa foi mínima. Uma batida do martelo decretou a união
entre o objeto e o colecionador. Em menos de um minuto, eu me tornei proprietário de
uma bizarra pequena peça da história.
Não tardei muito a reconhecer a importância de minha aquisição. Mal paguei
os dois mil mais dezesseis por cento de comissão, um senhor baixo e troncudo entrou
na sala. Observando o que eu tinha nas mãos, soltou uma praga, fazendo um gesto
floreado e invocando o nome de pelo menos quatro santos. O cavalheiro era italiano.
Ele se aproximou, perguntando quanto eu havia pago. Como senti pena dele,
respondi. Não, a verdade não é bem essa. Esperava que me informasse algo sobre
minha compra. A revelação do preço provocou blasfêmias adicionais. Em seguida ele
pediu, de fato implorou, que lhe vendesse a caixa. Recusei, claro. Nos minutos
seguintes, mencionou somas muito superiores ao valor que eu havia pago. Expliquei
que não a comprara para lucrar, mas agradeceria qualquer informação sobre tanto
interesse. Caso fosse um freqüentador de leilões, ele gentilmente se recusaria a me
ajudar, ou tentaria fazer algum acordo. Felizmente, ele lecionava história da arte e
mostrou-se atencioso.
“Já ouviu falar em memento hominem?”, perguntou. Tinha um sotaque
carregado, e sua frase soou mais ou menos assim: “Djá uviu falare em memento
hominem?”
““Memento hominem?”“, repeti. Tinha uma vaga idéia, ou imaginei que sim.
“Crânios e relógios sem ponteiros.”
Fui corrigido. “Está confundindo isso com algo mais comum, memento mori,
registros da morte encontrados na pintura e na arquitetura dos cemitérios europeus.”
Ele explicou que um memento hominem, em vez de proclamar a imortalidade, registra
uma vida. Cada objeto na caixa indica um momento ou relacionamento decisivo na
história pessoal de quem a montou. Os objetos escolhidos muitas vezes são comuns; os
motivos para sua escolha, nunca. Lembrou que se tratava de um conceito popular em
áreas da Suíça e da França, durante o final do século XVIII e início do XIX. Empolgado,
como só os italianos conseguem ser, ele revelou que minha caixa de curiosidades
contava uma história, e uma das mais extraordinárias.
Boi uma surpresa. “Sabe de quem é a história registrada aqui?”, perguntei.
O italiano disse: “Si e no”. E me contou como tropeçou em uma biografia
arrebatada, de estrutura singular, escrita durante a Revolução Francesa, Claude Page:
crônica de um engenheiro. O livro continha uma gravura a água-forte que combinava
exatamente com a configuração dos objetos da caixa. Ou seja, minha caixa poderia
estar ligada a um dos legítimos gênios mecânicos da França pré-industrial.
“Genialidade”, disse o italiano, “mesclada com martírio. Uma vida trágica, como a de
Maria Antonieta, e muito mais bizarra.” Depois de ele prometer que me emprestaria
uma cópia do livro, despedi-me com um muito-obrigado e levei para casa o Lote 67
debaixo do braço.
Nem bem se passaram uns três minutos e eu já iluminava a parte interna
embaçada com dois refletores poderosos. Virei a caixa de um lado para outro. Por
algumas horas, hesitei em remover o vidro. O que havia de tão forte naqueles objetos
protegidos? Talvez o fato de o meu mundo estar do lado de fora. Ou de algum mundo
imaginário estar guardado ali dentro?
Finalmente, decidi abrir a caixa. Ao fazê-lo, fui atingido pela poeira de
duzentos anos de história. Era como mergulhar fundo nos meus ancestrais celtas. Creio

que naquele instante o encantamento me pegou.
Retirei os objetos vagarosamente. A primeira peça que removi foi uma
pequena figura de madeira, que passei a chamar de manequim. Estava sentado de
pernas cruzadas no compartimento da direita, no alto. Creio que o segurei nas mãos
por mais de uma hora. Depois achei um simples botão, do tamanho da moeda de um
franco, feito de chifre. Depois uma concha grande, um frasco de vidro, um vegetal
seco, impossível de identificar, e o restante dos objetos. Eu os alinhei e olhei para a
caixa vazia, a madeira comida pelos insetos. Em pouco tempo percebi que os objetos
falavam uns com os outros, e comigo.
Durante os seis anos seguintes pesquisei, restaurei, desvendei o mistério da vida
de Claude Page. Não incomodarei o leitor com os rumos da pesquisa. As
investigações me levaram a trocar correspondência com o Wellcome, o Smithsonian,
e, claro, a Biblioteca Nacional Francesa. E mesmo assim todo este esforço de
documentação foi praticamente insignificante, se comparado com as horas que
gastei apenas contemplando os objetos da caixa. Dediquei minha atenção a
compartimento após compartimento, estabelecendo todas as relações possíveis para
mim.
Ao me debruçar sobre o microfone do gravador, bloco de notas à direita, fico
surpreso por ter gasto tanto tempo tentando decifrar a relíquia. Por que fiz isso, não
posso explicar adequadamente. Suponho que no fundo tenha sido o seguinte: vi a
caixa e queria entendê-la. Este desejo de compreender transformou-se em obsessão,
e devo lembrar que uso a palavra obsessão no sentido clássico e satânico,
significando o antecedente de possessão. O que me leva para o início deste relato. Eu
não possuo a caixa, é a caixa que me possui. Para alguns, estes objetos podem não
ter sentido. Para mim, têm muito. Por que um botão, uma concha ou um frasco de
vidro merecem tanta atenção? Para obter esta resposta, é preciso ter paciência para
ler o resto.

procurando porções expostas da carne. ao soprar em 1741. madame Page declarou: “Estamos protegidos como um relógio no colete de um gordo”.I O FRASCO DE VIDRO 1 Origens podem ser difíceis de traçar. seu eterno companheiro. não se faz com isso justiça a sua fúria. Evangeline. arrancou o campanário da igreja de Tournay — um campanário que fora montado e preso havia apenas dois meses — e o depositou no chiqueiro de um fazendeiro herético. Depois concentrou-se nos pinhões que assava para os filhos. A agitação do animal e as mudanças no higrômetro doméstico indicavam a chegada de um vento maléfico. Claude e a irmã mais nova. e atribuir a estas origens um significado fino e sutil. Claude espreguiçou-se no sótão. presente de Dia dos Santos. e na conduta da vaca leiteira da família. Fidélité mandava a irmã empurrar o cesto cheio de pedregulhos até a soleira. a mais velha dos três irmãos Page. talvez com um toque de ironia. movendo as mãos para cima e para baixo. O evento deu a padre Gamot. era facilitar a aquisição de uma caligrafia adequada. Naquela noite a casa de Claude Page encontrava-se singularmente protegida da invasão da Viúva. Madame Page percebeu ligeiras alterações em seu raminho de muda de abeto. secou úberes. gritava: “Achei!”. Arrumaram as pedras no telhado. impiedosamente. visível nas linhas cheias e pontilhados que lotavam as páginas. As ilustrações baratas do período teriam registrado a cena com o título Paz doméstica. Rochat era católico e devoto. Arrancou telhas das casas e desfolhou pinheiros. Mas Claude o adaptou. antes de se fecharem dentro de casa. A função inicial do caderno. devemos começar registrando a chegada da Viúva Vingativa no dia 10 de setembro de 1780. combinando as duas atividades que tornaram o vale famoso — renda e metalurgia — de um modo novo. receita sua contra o vento. e despachava Evangeline para rebocar a fenda com uma mistura de palha e barro. o pároco local. fecharam as janelas e amarraram tudo o que precisava ser amarrado. No que tange a ventos. a seus próprios objetivos. acordou mamilos dormentes. Esgueirou-se por janelas destrancadas. onde o carvalho na lareira os defendia da Viúva Vingativa. Os registros da paróquia indicam que a Viúva. desta vez fincando um ramo de vidoeiro no estômago do pônei malhado de Philippe Rochat. com um tinteiro. Embora se compare a Viúva com o leste de Devon e o mistral do Sul da França. principalmente desenhar. Tinha nas mãos um caderno tosco. liderou uma expedição para tapar frestas nas paredes da cabana. Quando o tapete Dragão foi preso na janela. Madame Page ordenou à família que se preparasse. quando a Viúva pegou os habitantes do vale de surpresa. a chance de um sermão inspirado. Dez anos depois a Viúva atacou novamente. Contornou o perímetro da cozinha. Depois golpeou: prendeu dedos. Seu nariz raspava no carvalho bruto enquanto ele espiava pelo buraco do nó . Ocasionalmente. Mas se formos forçados a desvendar as origens de Claude Page e sua invenção. e encher o buraco da fechadura rebuscada com renda velha. Mas os estragos de 41 e 51 foram apenas prelúdios para o ataque de 10 de setembro. é mais seca e irritante que seus primos franceses e ingleses. espiando ocasionalmente por um nó solto da madeira. Fidélité. e nesta ocasião padre Gamot ficou calado.

Claude observou atentamente a colisão do vento violento com o resultado dos esforços de Fidélité. mecânico. Fidélité explicou à irmã. apoiando a beira das cartas nas marcas de faca da mesa. Preocupada com a possibilidade de uma intervenção materna. desculpou-se. O Abade. esperasse e admirasse seus talentos todos. Claude sempre ousava mais em suas construções. um projeto vulnerável a golpes de ar. embora confuso. Fidélité sim — como não ouviria. Claude anunciou a chegada de uma visita inesperada. por outro lado. muito relutante. e Claude ao desenho. A mãe de Claude. queria cartas. Fidélité. Suas frustrações reprimidas. “Será a mansão do conde”. e conseqüentemente levou uma palmada. virando as cartas para fora. Talentos? Que nada. relojoeiro. A arquitetura assumia patéticas dimensões monásticas. sussurrada. com aquelas orelhas de asa de caneca? —. Encontrou seu alvo rapidamente: Fidélité. Evangeline atormentou Fidélité. não ouviu. de am bos. sendo um exemplo decente. de leve. A Fidélité. Fidélité trapaceava. onde a nobreza do baralho emergia de sua existência bidimensional para lutar contra a arquiteta desastrada. contudo.da madeira e estudava a cena lá embaixo. “como se vistas pelo telescópio de papai”. tediosos na concepção. abade. Só a torre permanecia quando dois pés protegidos por botas grossas entraram. cavaleiro da Ordem Real dos Elefantes. antes de apoiar uma na outra. ou rainhas flanqueadas por membros menos imponentes do baralho. mas ignorou as batidas. Seus castelos de cartas. A pane externa ruiu primeiro. um claustro e uma torre erguida na planície. procurando confrontos gritantes. Em meio às ruínas do castelo de cartas estava Jean-Baptiste-Pierre-Robert Auget. A Viúva Vingativa fez o possível para abafar o som. pelo menos na medida em que as cartas se confrontam de costas. encontravam alívio rápido e direto no caderno de desenho. Embora não fosse terrivelmente gentil com a irmã mais velha. Além disso. Era um sujeito forte.” O Abade viera na condição de grand seigneur e cientista. cuidando dos pinhões. puxou o ferrolho e livrou a fechadura da porta de sua bucha valiosa. Ou o melhor que se poderia encontrar num meio como Tournay. Madame Page ordenou a abertura da porta. pesquisador de novidades botânicas.” Seguiu-se uma discussão enérgica. ignoravam as conjunções de reis e valetes que se beijavam no alto. e desenhou a Rainha de Paus cuspindo em seu olho. sem semelhança com as peculiaridades da mansão. As dobradiças geladas gemeram de um lado. como os telhados comumente associados às cabanas dos . Ela decidira erguer um castelo de cartas. conde de Tournay. em benefício tanto do narrador quanto do leitor. depois o pátio de canas. As meninas voltaram a seu passatempo. Claude invejou o prazer que a irmã mais velha sentia em permitir que Evangeline apenas olhasse. Descobriu o motivo da expedição tirânica de remendos de Fidélité. cujos muitos nomes e títulos serão deixados de lado. e enchera várias páginas do caderno com tais cenas. cujas sobrancelhas curvas se encontravam no meio do rosto. Fidélité finalmente calou a irmã. patriarca do vale e morador da casa que serviu de inspiração para o trabalho pouco inspirado de Fidélité. Claude riu zombeteiro. Perfeito para a ilustração jocosa de Claude. faltava inspiração. Claude tentava manter uma relativa paz. “Precisei reforçar o pára-raios. Aquela perspectiva indiscreta era uma das favoritas de Claude. “Suas mãos estão sujas de lama. a irmã do outro. filósofo. Bateram na porta. “Lamento não ter vindo antes da Viúva”. cedendo três cartas. Um pátio. naturalista. Depois transformou o cão da chaminé em um pequeno cachorro a morder o pé da irmã. desculpou-se pela inoportuna chegada. Fez com que o Rei de Copas cortasse uma orelha de Fidélité. parecida com uma asa de caneca.

são pequenas beldades obstinadas”. Da primavera ao outono. com muito cuidado e economia de movimentos. uma capa longa. aumentados. Seus modos frios. Ele disse à anfitriã que possuía em seus depósitos um pote de pagewort. madame. Com um movimento de cabeça. Secava os produtos colhidos no vale nas vigas da casa. e outras curas eficazes. estragão) e outras não (uva-ursina. (Coitado do Philippe. Bateu os pés para tirar a neve das botas. ele ouviu o estranho dizer. o estranho chamou madame Page e o Abade a um canto quieto da cabana. removeu duas camadas de roupas simultaneamente. e ela apontou para uma diurética uva-ursina. Isso acabou. encaminhando-se sem comentários para a mesa. o estranho aceitou calçar os tamancos oferecidos. assim que ele se aqueceu. Caso perdido para a sistematização. mas recusaram os pinhões. barulhenta. puxando-o para perto do fogo. Depois as levava cuidadosamente para o herbário da mansão. Madame Page conduziu o estranho para a beira da lareira. onde ele reagiu a uma das circunstâncias mais agradáveis da vida — a proximidade do calor numa noite gélida — com o silêncio agradecido de uma pedra. Ela fez jus ao elogio. retrucou a mãe. Seu traje. Só após muito hesitar. O Abade interrogou a dona da casa sobre as plantas acima de sua cabeça. com o projeto arquitetônico de Fidélité. para acomodá-las a sua versão de Lineu.) O Abade pagava generosamente pelas plantas medicinais e comestíveis que madame Page colhia. desde sua chegada ao vale.agricultores da região. O Abade e o estranho tomaram o chá especial de vidoeiro. Mostrou-se. desde a perda do pônei malhado. e as ervas picantes que se agarravam a encostas pedregosas. com um tumor próximo ao ouvido. O estranho pétreo não se mostrou disposto à conversa fiada. dedaleira. Seu paciente mais recente fora a égua marrom de Philippe Rochat. enquanto os outros plantavam e colhiam grãos diversos. com óbvio desprezo. As orelhas grandes de Fidélité. no estilo de Genebra. pescou partes da conversa. “Ele se recusará”. agarrou o Abade pelo braço. Fidélité acabara de reconstruir o claustro quando seu trabalho foi interrompido por novas batidas na porta. indicava adesão à Reforma. desta vez executadas com segurança maior do que os toques suaves na chegada do Abade. através dos quais admirou as plantas secas penduradas nas vigas da casa. de uma vez por todas. provocando o desabamento da torre e do claustro reconstruídos. Ficou especialmente impressionado com as fieiras de cogumelos. mantendo as mangas do agasalho dentro das mangas da capa sóbria. por óculos. sóbria. vale lembrar. em seu esconderijo. acabaram de gelar o ambiente. sálvia. Um estranho entrou na sala. mas foi contida pelo olhar do estranho. quando a maioria dos habitantes só pensava nos excessos do Carnaval. notando que algumas formavam maços (segurelha. o Abade rebatizava as plantas. organizando o conjunto. e incapaz de suportar os rigores da nomenclatura. . e os fornecia a quem precisasse. fascinado pelo talento e diligência de madame Page nas artes botânicas. nem falou nada. e Claude. madame Page sonhava apenas com suas raízes. Tirou as botas e as enfileirou junto com as menores. acônito). “Precisamos dar um fim ao sofrimento do menino”. Evangeline começou a recolher o baralho. mais o rompimento das defesas do chalé pela Viúva Vingativa. ela procurava os cogumelos e flores que brotavam na floresta e nas terras comuns. O Abade continuou a inspeção das plantas penduradas. repetiam-se nos irmãos. e cuidavam da criação. Mesmo no final do inverno. após limpar a garganta rapidamente. onde depositou uma valise avantajada. Ele não sorriu. nunca mais teve sorte com animais. “assim classificada porque a planta e a senhora. onde conversaram em voz baixa. Depois. A mão varreu as cartas para o chão. Trocou suas botas por tamancos de álamo e preparou uma de suas famosas tisanas. Sob os beirais peludos brilhavam olhos azuis miúdos.

Evangeline pensou que o estranho fosse carpinteiro. Depois chamou Fidélité. Claude resistiu à idéia atirando um nabo do mato. Stámphli era um sujeito impecável. ordenando que buscasse um balde de neve. e seus gestos na direção do sótão intensificaram os medos do menino. cujos olhos verdes lembravam o manjericão. talvez mais. e pediu que descesse. segundo a mãe uma planta especial. livre de pecado. o provérbio. Não resistindo à tentação de ouvir uma história de viagem e de ganhar vários doces. Claude era um menino de dez anos. primeiro baixinho. que parecem tão aterrorizantes hoje quanto na época. A pequena manhosa. como provaram as ferramentas seguintes. nas costas de uma cadeira. e em circunstâncias normais transmitia um entusiasmo contagiante. Claude passou os pés pelo pau da escada e deslizou para baixo. Madame Page olhou para o filho. eram grandes. Errou. Ele se recusou. cirurgião e cidadão de Genebra. uma bomba de fumigação vaginal (com carta patente). torniquetes. recolheu o míssil e o entregou à mãe. mas o cirurgião acabou com sua curiosidade. Claude tentou agarrar a lima. O cirurgião teve uma visão mais agradável. Os meneios de cabeça da mãe. mas não queria ficar em silêncio. o instrumento que Ev angeline confundira com um mero berbequim e uma pua. Juntou-se a ela nos apelos para que Claude descesse. sempre solícita. ele abriu um pedaço de baeta verde. com precisão obsessiva. com suas correias tentaculares. A Paz Doméstica terminou. ataduras. líderes do Terror e entusiastas do jogo de baralho chamado zanga. Vivia convencido de que seus talentos eram inigualáveis. ligaduras e fios. com mais veemência. tinha a pele livre das doenças que marcavam tantos rostos no vale. Ao contrário de Adolphe Stámphli. e o cirurgião concentrou a atenção nele. uma serra. Tinha-se na mais alta conta. Ou seja. Bonito e pouco musculoso. no sentido calvinista. os que o rodeavam. Como muita gente do vale. e fez várias promessas ao garoto arredio. disse. tem de ir o burro à feira”. “Vamos logo”. O estranho retornou à mesa e começou a desempacotar seus pertences. compressas. com o caderno sob o braço. um martelo e uma lima grande. A mesa logo se encheu de apetrechos pesados para cirurgia. nos tamancos grandes demais. Claude começou a chorar. Calculando que o lar dos Page não investia muito em toalhas de mesa. drenos e emplastros. cera seladora e tenta uretral. Vestia-se com simplicidade.” Ouvindo isso. As orelhas. Avaliou as ferramentas reluzentes e jogou uma cinta para hérnia. O Abade avançou vacilante. aumentando os ataques aéreos. Madame Page tentou consolar o filho com outro ditado: “Deus dá o frio conforme o cobertor”. “Precisa se livrar da obra do demônio. e de que sua competência como cirurgião se refletia na precisão dos instrumentos. era dado ao uso excessivo do imperativo.“Não cabe a ele decidir”. A frase esclarecia o motivo da visita. Retirou da valise um berbequim e uma pua. O cirurgião — pois esta era a profissão do estranho — inspecionou uma caixa de bisturis e curetas. Fidélité. talas. Homem severo. Madame Page não tinha muito a dizer. depois com mais vigor. Correu para o canto da sala. Sobre ele distribuiu curativos. . Mas Claude preferia não arriscar. Concentrou a atenção no cirurgião. do tipo usado por agiotas. como mencionado. O cirurgião disse: “Não podemos permitir que seu choro nos perturbe”. disse o estranho. O cirurgião não aceitou a tentativa de puxar conversa. pescoço alongado. nem tanto. mas não tão grandes quanto as de Fidélité. Os dois combatentes defrontaram-se na mesa de operações. Claude sentiu a boca seca. golpeando-o nas juntas com o cabo de mogno do trépano. Pensou um pouco e disse: “A gente queira ou não queira. era suscetível à forma mais gnômica de literatura popular.

tentando disfarçar o terror com a insolência. retrucou: “Não. para a matriarca do chalé: “Deve ser removido hoje. perto da mesa. (Na verdade. Claude. e jogou a carta no chão. O cirurgião não gostou da irreverência. saiu e voltou mais depressa que um cuco em relógio de parede. que já era feia quando relaxada. Caiu virada para cima. vem de Besançon”.) Claude pegou uma carta. movendo os maxilares como fórceps. Enquanto esperava. e a atirou na cara do cirurgião. Deve ser removido agora”. foram impressas no cantão germânico da Suíça. mas tais detalhes só estorvam a história. o cirurgião olhou para as cartas espalhadas pelo chão.que em circunstâncias normais não teria erguido -um dedo. O cirurgião fechou a cara. . como quem olha um monte de estéreo. e falou. a Morte. dizendo: “Isso vem direto do Inferno”.

um bode premiado dos irmãos Golay foi castrado com um golpe hábil do cutelo de Matthew Rochat. A esta altura. Não pretendia perder a chance de testar seu repertório variado. e inclusive o Abade — que se afastassem. o menino chamado Wang. A operação estava preparada. embora. observando a excitação do filho. Simultaneamente. para extrair os benefícios. removeu os testículos de Heinrich Lütz. Adolphe Stámphli resolveu investigar. Mas. preferiu uma poção de valeriana. Ficou inexplicavelmente calmo. Madame Page tinha idéias próprias a respeito. mas devo também aplicar o meu”. ouviram uma pergunta vinda do canto. Por este serviço recebeu um pagamento. um jovem que se tornaria um castrado famoso pelas fíorituras em sua interpretação das árias operísticas de Hándel. Claude mergulhou no torpor induzido pelo gimvaleriana-cerveja-ópio. embora provinciano. embora o chamassem destes e de mais uma dúzia de outros nomes. hesitasse. e que freqüentemente assumia um tom escarlate real (homenagem adicional ao monarca reinante na França). Stámphli ordenou aos curiosos — irmãs. Claude bebeu os dois líquidos.” Madame Page misturou pós. O Abade citou os turcos. e não queria vê-la removida. O Abade a observou interessado. Claude ganhava . e hoje conhecida como gim. Em seguida prendeu o paciente cordato à mesa coberta de baeta com as correias. foi levado a um castrador anônimo. eles usavam a droga para devolver os feridos à batalha. antídoto para a insônia. a crer em Jamieson. mãe. Teria Claude sofrido destino semelhante? A resposta é enfática: não! O cirurgião Stámphli viera para remover uma pequena protuberância entre o dedo médio e o anular na mão direita de Claude. O cirurgião aceitou contrariado sua interferência. também no mesmo ano. O Abade deu uma idéia: ópio. Madame Page não foi tão contundente. em Viena. Um pouco de história médica. quando o cirurgião soube que a verruga guardava semelhanças com o rosto de Luís XVI. O cirurgião não queria nem saber da pasta marrom escura que o Abade tirou do bolso. “Turcos de Constantinopla?”. O cirurgião confiava muito nas propriedades do destilado de zimbro. não teria atraído a atenção de Adolphe Stámphli. O que era? Era uma humilde verruga. Depois de ingerir o narcótico amargo. a Cone Imperial da China adicionou catorze jovens eunucos aos serviçais domésticos do imperador Chien-lung (1711-99). No ano em que Claude entrou na faca. Madame Page pensou primeiro em uma infusão de tília. o castrador aplicou uma pasta de pimenta e cobriu a ferida com papel embebido em água fria. e que possuía características quase esculturais. Herr Doktor Alfred Dreilich. nem cancro ou câncer. precisaremos adotar outro processo. Claude aprendera a apreciar a verruga. Suspeitava de remédios estrangeiros. “Uma infusão?” “Não. O menino foi modificado em um local não muito distante dos portões da Cidade Proibida. Sempre que “o rei visitava”. gotas e talos de vegetais em um galão de cerveja. Não era cisto nem carbúnculo. gerando assim toda sorte de privilégios. uma bebida batizada com o nome de sua cidade natal. Puxou um talo e começou a esfregá-lo no avental. mas nem o gim nem a decocção de sua mãe diminuíram a agitação. para a clássica transformação em eunuco. Um dos catorze. equivalente a oito dólares e sessenta e quatro centavos. trabalhando em seu consultório perto de Stockim Eisen. E. Mas. Despertava interesse especial numa região onde aberrações médicas abundavam. Fazendo muitas caretas. Em si.2 Só faltava eliminar a resistência de Claude. Isso provocou uma discussão. dizendo: “Aplique seu remédio se quiser. próximo a Tournay. Depois da remoção. Claude disse. que levou ao fogo lento.

O Abade afastou os cabelos do rosto de Claude. Escolheu. só que agora babavam. onde tingiu de vermelho a neve branca. O Abade piscou para o paciente. Sua imaginação.” O Abade falava com surpreendente insistência. cortou imediatamente em vaivém. Os movimentos rápidos permitiram que a mão logo voltasse para o balde. Catherine Kinderklapper. Claude não moveu o corpo. apesar do mau tempo. como se dissesse: “Não ligue para este cretino insensível.” “E continuarei a fazê-lo.” “Tem examinado o garoto de hora em hora. mas esta é a interpretação mais adequada para o encontro da pálpebra inferior e superior do olho do Abade. portanto. Compromissos”. Qualquer viciado pode confirmar: o efeito dos opiáceos é difícil de aquilatar. Durante todo o processo. de hortelã e betônica. onde a ajudante de cozinha tagarela. exagerava o tremendo desconforto que lhe causava essa adulação ao rei. parecida com uma serra em miniatura. viva em circunstâncias normais. O cirurgião ignorou seu sofrimento.” O Abade não concordou. Removendo a mão do balde. O tiro saiu pela culatra. Devo lembrá-lo de que você quis realizar a operação. Esperaremos. Removeu novamente a mão do balde. e a dançar. providenciou a visita do cirurgião que agora observava a verruga. As notícias de seu sofrimento chegaram à cozinha da mansão. cuja atitude gentil serviu de contraponto agradável ao pesadelo cirúrgico que o acompanhara pelo sono. Claude dormiu uma noite e um dia. e fingiu ler um tratado médico in-quarto. uma peça delicada de seu equipamento cirúrgico especializado. Claude esfregou os olhos com a mão livre. o cirurgião arrumou as coisas na mesa. e viu o Abade. O cirurgião disse: “É imperativo que eu retorne a Genebra. “O que precisamos fazer é esperar até que o menino esteja fora de perigo. Viu que os cães desenhados no final da tarde o perseguiam. Ele observou as flores silvestres e os cogumelos secos nas vigas. A última coisa que Claude viu antes de mergulhar em um sono profundo foi o cirurgião segurando a carta caída no chão: a Morte tinha uma gota de sangue cobrindo a foice. Para aumentar seus lucros. para dar-lhe o tom real e adaptar o perfil ao de uma moeda circulante no reino. agora explodia. Quando os opiáceos recebem o reforço do gim e de ervas. e o encorajou a falar. a visão anuviada pela massa marrom. Stâmphli pensou em usar um raspador — o instrumento parecido com uma lima — para remover a carne corrupta. e mais uma noite. Apertava a anomalia. e a enfaixou em uma bola de ataduras complicada. e gemeu. (Talvez a piscada transmitisse menos informações. Em breve ele se viu a correr por um campo multicolorido de borragem. relatou a seu amo as agonias do pobre menino Page com seu cancro real. colega cirurgião de Genebra. É um cidadão empedernido da República”. “Ótimo. O garoto ainda estava muito grogue.) Notou que Claude estava perturbado. adequada a seu temperamento. “Seus compromissos estão aqui. Começaram a balançar. a campainha do montre à sonnerie do Abade tocou: estava na hora de novo exame. Enquanto o sangue escorria. e aproximou-se da cama. O cirurgião voltou a sentar-se na cadeira dura. mas seria deselegante.” “E foi feita. checou o protetor de couro na boca de Claude e curvou-se para uma prece rápida. Você insistiu para que fosse feita imediatamente. Enfiou a mão na neve. quase artística.um prato de ervilhas salgadas e um jarro de água com alcaçuz no Cão Vermelho. Acordou na cama cortinada da mãe. . linho e verônica. Como o Abade admirava os talentos de madame Page. acordou.” “O tempo e o estado do menino impedem a partida. empregando o método de Sabourin.” Como se avisada. mesmo em circunstâncias ideais. de urtiga verde e sálvia púrpura. Precisamos partir agora. calcular seu efeito beira o impossível.

onde a punição varia conforme o tipo de crime cometido. Claude riu. O Abade traçou um mapa no ventre de Claude.na colônia penal do atol de Pompelmoose. Chega aqui de duas formas: pães de açúcar. embora jamais admitisse ter prestado atenção. na época de Claude arrancava os olhos das crianças.. o Abade fez uma pausa. e as panes o atol de Pompelmoose. Fidélité e Evangeline aproximavam -se do pé da cama. o Abade representava esta tradição antiga e violenta. em uma caixa”. “Sabe de onde vem o açúcar?”. Era uma iguaria. Desconhecia suas origens. Lembra-se do criminoso surpreendido quando abatia a machadadas o velho carteiro. para lá dos bolsos do Abade e das bancas nas festas populares. Vou explicar. Conforme a lista crescia.Erguendo a mão enfaixada do garoto. disse o Abade. esta é a primeira metade do trato. O Abade. “E o envenenador de Passerale?”. nem Perrault as adaptações sofisticadas das tradições orais de Tournay. olhando em torno da sala. perguntou o narrador. disse: “Um trabalho exemplar. “. origem de todos os sorrisos grandiosos”. “Vejo que consegue sorrir”. incluindo infanticídio e imolação. contando uma história. Prazerosamente. “Todos estes criminosos foram parar. Claude acomodou-se sob as cobertas.. para que suas irmãs não vissem nada. transportados para . Suponho que devo honrar a outra. O Homem de Areia. embrulhado em folhas. Reforçou a tentativa de animar o menino oferecendo os doces que prometera antes da operação. agora descrito como um tipo simpático. tubérculos e pinhões desde o nascimento. incesto. “Bem. Condenados por crimes menores. Claude fez que não. Puxou um pedaço de demiroyal e o entregou disfarçadamente a Claude. e em sua forma mais primitiva. e o royal. que aparecem nas vitrines das doceiras. em Vornet?” Claude fez que sim. e no atol de Pompelmoose mortal. pronto para ouvir a história. para alguém habituado a raízes. mas dos olhos. canibalismo e cobiça. disse o Abade. Vale lembrar que os contos eram muito mais brutais naquele tempo. cheias de estupro. Mas os açúcares mais finos — o demi-royal que ora circula aí dentro. ela lembrou.”. Claude atrapalhou-se com o papel violeta. Valendo-se da mão boa. “Com licença”. invocando a textura dos trópicos. Digno da cabeça de um rico mercador do Oriente”. “Realmente notável. onde os mamilos indicavam Paris e Londres. “Seis crianças ficaram órfãs por causa de uma sopa de acônito”. Que tal se eu falasse sobre o açúcar que consome com tanto prazer?” Após tomar um pouco d”água para aliviar a sede provocada pelo ópio. ajudando-o a levar o doce à boca. de formato cônico. Os Irmãos Grimm ainda não haviam coletado as histórias ao pé do fogo. explicou: “Grande parte do suco de mambu (como é conhecido em algumas partes do mundo) vem de Hispaniola de navio. caro demais para mim — são fornecidos pelos senhores de escravos do atol de Pompelmoose”. perguntou o Abade. e Stámphli parecia virar as páginas de seu tratado médico com menos freqüência. açúcar de palma.. interessado nas origens de todas as substâncias. falou: “O sorriso de seu filho emana não dos lábios. Olhou para Claude novamente.” Voltando-se para madame Page.. “Não rirá quando eu contar que o trabalho em Hispaniola é extenuante. Madame Page disse: “A filha do carteiro encontrou o nariz debaixo da cama.

recebem a tarefa mais apropriada a elas: refinamento. e assim produzia uma história capaz de satisfazer tanto ao narrador quanto aos ouvintes. O sexo frágil não escapa das punições de Pompelmoose. todavia.” O Abade olhou para as duas irmãs de Claude. O açúcar e a história serviram para consolar Claude. acreditem. restaurando e renovando os espíritos. os cristais maiores viram pedacinhos de açúcar-cande. e lembrou a eficácia do alume. lançando os últimos raios sobre as ondas do mar. onde. A mudança de cor é causada pelos medicamentos. na verdade. “Mas o alume estancará o sangue”. os criminosos são obrigados a satisfazer nossos desejos continentais. argumentando que o ungüento de alho silvestre esmagado não provocaria manchas do gênero. Ele se dedicava seriamente ao relato. seja na forma de cana. gritos e vozes implorando por sal naquele mundo de amarga doçura. do tipo dado durante as festas para os bem-comportados. Ele desconfiava da eloqüência. O Abade deu ao conto um acabamento tão bem-feito quanto o do demiroyal que o inspirara: “Então. de tão forte. tarts!”* (*) Tart. Por coincidência. significa tanto “prostituta” quanto “torta”. (Entre os residentes de sua República. pegam nas picaretas pegajosas para quebrar as pedras de açúcar cristalizado. Ali. descrevendo mãos calejadas. e os talos menores em talos menores ainda.) Levados à superfície da mina de açúcar. Isso. Eles. os seios pingando no calor adocicado. Talvez ajude”. Em cavernas onde uma única vela se multiplica em mil luzes refletidas. sugerindo: “Trouxe comigo um pouco. o Abade imitou o pássaro tropical. de Liège. e sim do açúcar. realizam trabalhos forçados nos campos. acabam banidos para as minas de açúcar da ilha. cande ou cristal. podem incluir na lista os que roubam objetos mais valiosos — penas de dez a quinze anos. Desde o momento do grito onomatopaico da cacatua”. conforme o Abade confeccionava sua crônica dos condenados. Voltou-se para Stãmphli. segundo Arbuthnot.” A mãe de Claude discordou. mas facilmente imagináveis. ao lado dos estupradores e almas insensíveis à beleza das coisas bem-feitas. O calor. Combinados. assassinos e prostitutas”. disse o cirurgião. cortando os longos talos em talos menores. em inglês. O sabor contém o trabalho dos salteadores. Mas não se trata de refinamento de seus modos. o que nos leva aos envenenadores e esquartejadores. funcionaram como um tônico. retrucou o Abade. lembrem-se da fonte da doçura que os tenta. o consumo anual chega a catorze libras por cabeça. normalmente por presos salteadores. caro cirurgião. é aquecido a doze graus acima da temperatura do corpo humano. Os dias são mais longos lá. “A atadura pode estar apertada . “Sim. misturando os horrores do vale com mistérios de terras distantes.Pompelmoose. Claude sentiu a mão enfaixada latejar. Ali labutam para preparar tortas. O Abade notou as manchas escuras na gaze. meus amigos. duras como diamantes. resmungou o cirurgião. é assim que as chamam na Inglaterra. Quando o efeito de ambos cessou. “O curativo deve permanecer intocado pelo menos por uma semana”. mataria um pardal em dois minutos. “Isso não é problema. vigaristas e estelionatários. nos fornos de secagem. os prisioneiros são forçados a colher cana. para as sentenças leves!” “Mais leves do que as nossas”. As mulheres condenadas por atos indizíveis. “A cadeia das penas adocicadas prossegue nos barracões. “Pequenos assaltantes e ladrões de lojas cumprem —. quando alguém perguntar se gostariam de um pouco de açúcar. Os ocupantes do chalé ouviam-no com muita atenção (especialmente Fidélité). “até que o sol finalmente se põe. Mas as penas mais duras são reservadas para os crimes hediondos. onde ficam as mulheres^criminosas.

“Com toda a certeza não era”. Adolphe Stãmphli. amputara o dedo médio da mão direita de Claude. acusações e maldições da mãe e do Abade esbarraram nos olhares indignados do cirurgião. Stãmphli tentou alinhar uma seqüência de desculpas. que os ignorantes usam verrugas para adivinhações. Acredito que as verrugas também devem ser levadas em conta. não passam de uma vingança da natureza”. incluindo a fusão de ossos em meninos e a formação defeituosa da mão. pois. Onde antes havia cinco dedos. O cirurgião ficou ofendido. o Abade e o cirurgião foi horrível e longo como as bandagens. nos campos de batalha. Claude viu a mão antes que o Abade pudesse refazer o curativo.” O paciente gemeu com redobrada energia. O Abade retirou o curativo. O cirurgião retrucou calmamente: “Sim. O tom de voz deixava transparecer toda a sua raiva. a heresia e formas mais específicas de bruxaria. “E. “Era preciso amputar”. Tentou minimizar o caso. ele contou apenas quatro. disse o cirurgião.” O Abade ficou furioso. Nunca pretendi ajudá-lo a encher seus vidros de geléia . “Não gostaria de saber. também fazem mal à natureza. Sabe muito bem que reúno espécimes para um tratado sobre a arte cirúrgica. e atribuem a elas significados absurdos? Meu intento é mais rigoroso.” Stãmphli tentou atenuar a gravidade da operação.” Coleção? Maior glória de Deus?” O Abade não conseguia acreditar no que ouvia. dando maior importância a seu papel.demais”. O menino tem mais nove que funcionam como devem. nem dinheiro a seus banqueiros. O menino fará o mesmo. dos dez. Espero que esta pessoa deformada consiga se vingar um dia. A anomalia desta criança preencherá uma lacuna em meus estudos”.. o Abade olhou para o cirurgião e disse: “Errei ao confiar em você. Reunirei ilustrações superiores às de Cheselden. em parte por medo. ignorando os protestos de Stãmphli. A guerra arranca membros e órgãos mais vitais. incluindo o Dia do Senhor.” O Abade deu um soco na mesa. Sabe o que Bacon disse? Ele afirmou: “As pessoas deformadas comumente encontram -se em equilíbrio com a natureza. disse. sendo. jamais o teria convidado para vir ao vale. Demorou. e os homens se recuperam e seguem vivendo. maldita sua leitura deturpada de Bacon. deve transcorrer antes da remoção das ataduras. caro Abade. Terá lugar de destaque em minha coleção. O cirurgião só ouvia sua própria voz. se a natureza fez mal a elas. e com ela algo mais. Após a remoção das bandagens. foi só um dedo. desprovidas de amor natural. única. Por que outra razão acha que me disponho a suportar as extravagâncias do populacho deste vale? Eles abrigam a blasfêmia. feia. Claude desmaiou. “Maldito seja você. Afinal. e se soubesse o motivo da sua vinda. A série de imprecações. declaro aqui e agora que se vingará! Nunca deveria tê-lo trazido aqui.. No lugar do dedo que faltava. O conflito subseqüente entre a mãe de Claude.” Stãmphli revelou o motivo real da cirurgia exagerada. O dedo é comum. em parte para desafiar o cirurgião. Na verdade. A verruga se fora. Devem avaliar a perda do dedo à luz dos ganhos da ciência. portanto. cirurgião e cidadão de Genebra. maldito seu estudo. Maupertuis sugere que se estudem os hexadáctilos para compreender os efeitos dos casamentos consangüíneos. deveria ter discutido esta necessidade com a mãe. A gaze ocultava um horror”. Servirá para o progresso da ciência. gritou o Abade. e como tributo para a maior glória de Deus. “Se eu não devesse livros à sua biblioteca. Em sua defesa. a verruga. “Era essencial manter a verruga intacta. “Uma semana. uma ferida aberta. se acreditava nisso. “Para que serve um dedo de criança? Para cutucar o nariz e a orelha. explorar os sete buracos por Deus colocados no corpo. mantidas sob controle eficiente por parte de nosso consistório. A flanela e a gaze formaram uma pilha ao lado da cama.

“Fomos mais do que tolos. creio que o assunto está encerrado. O cirurgião foi embora — com o dedo de Claude.” “.. E não uso vidros de geléia. “Deus não deu nada.” O Abade tentou consolar madame Page.com as extremidades de Tournay... “Quem tem acesso sou eu. Sendo assim. trata-se de um exemplar notável. Encomendo meus vidros especiais em Lorraine.mas não tem”.” “Como expliquei. “Escolheu o provérbio errado”. claro. fora o aço que retalhou seu filho..” A mãe só conseguiu responder com outro provérbio: “O barbeiro aprende seu ofício no rosto dos tolos”.” O Abade gritou: “Chega de abuso! Saia!”. ergueu-se ameaçador e aproximou-se do cirurgião. “Não. revelando uma surpreendente disposição para a violência. . Brandindo um atiçador de fogo. disse o Abade. madame”. ele disse. àquela altura muito nervosa com o desmaio do filho. interrompeu o cirurgião. Se eu tivesse acesso às autoridades.

uma carmelita descalça que incomodava demais o Abade. e até mesmo uma série de Reis em Verrugas. comentou. Daí o apelido. Claude registrara o teixo do cemitério. Sua reputação espalhara-se até Grand-leLuc. E. as rodas de pás que secavam o rio Tournay. era difícil dizer quem havia ficado mais surpreso. Gaston. ou de Ruth Careca. perto da margem. Claude fez mais de um auto-retrato. uma variante do gruyère. Ao lado. a piromaníaca local. quando madame Page insistia para que a ajudasse. pendurada em uma corda. O Abade encontrou poucos desenhos convencionais. Quando os artistas levantaram acampamento e deixaram o vale. Mesmo turbulentas. presos pelas caudas. dignas do mais fino relo-joeiro. artefatos de estanho mais sofisticados ou de uso mais cotidiano. Embora muito curiosa. um evento raro. Os desenhos confirmaram as expectativas do Abade. Sangria por Dois. a rendeira? Quando o Abade observou o retrato de Ruth sem seu gorro nem a linha traçada com cortiça queimada no lugar da sobrancelha. um sujeito gorducho usando óculos. o que mais gostava era de desenhar. e as faíscas saídas da cabeça de Christine Rochat. Ao abri-lo. Certa vez uma companhia de saltimbancos passou pela aldeia. Exceto durante as épocas de abundância de cogumelos. polvilhando os ocupantes com pétalas e folhas das plantas mais velhas e menos potentes. e. frustrações e vôos incontroláveis da imaginação. um povoado do outro lado do vale.3 A Viúva Vingativa atacou novamente quando o cirurgião deixou a casa apressado. Uma frase ocupava o pé da página: “Barba por um Sou. Agitou as ervas penduradas nas vigas. O Abade folheou as páginas cheias de imagens perturbadoras. “O frontispício do perfeccionista”. pensou em uma bolota de carvalho sem a capa. o fazendeiro que fazia de barbeiro na região. O mesmo valia para os moinhos que giravam sob o céu abobadado. O último efeito atraiu a atenção do Abade. apagou uma vela desprotegida e folheou o caderno aberto de Claude. proprietário do Cão Vermelho. estudos de sua mão deformada. Junto com a terra e o gado. Ele ajustou os óculos e apanhou o caderno cuidadosamente. Claude era mesmo um ilustrador exímio. transmitiam-se bens . que o Abade imaginou ser ele. e de seus ramos pendiam algumas dúzias de ratos do banhado. espalhando suas teias precisas. Desenhou um banheiro tomado por uma colônia de aranhas. Chamavam -no de Menino do Lápis. rendas e ferramentas. Castração de Porcos e Carneiros”. Chegou ao desenho de uma fatia de queijo. Nos buracos. E o que o Menino do Lápis desenhava? O que o Abade olhava agora? Um registro privado de fascínios. Claude era livre para fazer o que desejasse. O motivo para a intensa e limitada mistura entre famílias pode ser reduzido a uma única palavra: herança. Havia um retrato de Matthew Rochat. atrás do Cão Vermelho realizando uma das operações cirúrgicas de sua especialidade. destacando-se aí o Menino Comedor de Abelhas. Claude colocara as cabeças de alguns moradores poderosos: irmã Constance. Ergueu as cartas no chão. a verruga não era a mais séria das aberrações físicas encontradas no povoado de Tournay. visitantes ou visitados. Claude dispunha de tempo de sobra para aprimorar seu talento. O que os saltimbancos teriam pensado da família de Tournay com unhas iguais a conchas de ostras. dado o terreno escarpado e a população escassa e miserável do local. assim como distinguiam as outras crianças da região pelo topete ou predileções inusitadas. fora arranjar encrenca com as irmãs. notou que a primeira página estava em branco. O pequeno livro de Claude documentava com tremenda precisão os resultados temíveis dos casamentos consangüíneos e uniões clandestinas de natureza mais passageira. Claude desenhara uma galinha recentemente decapitada. as cenas na árvore e no banheiro representavam fielmente a visão original de Claude.

testas altas e. A ilustração favorita do Abade era a das três crianças e madame Page. Também trouxe um narguilé. Claude respondeu agressivo. De lá seguiu para Besançon e para os confins do Império Turco. e bater a cabeça como um pica-pau bicando um tronco oco de carvalho. não retornando jamais. Estas lembranças contavam a história de Michel Page. Conseguia até tocar trechos de canções nos dentes. As árvores genealógicas do vale com freqüência uniam ramos de volta aos troncos. “Não me lembro como era meu pai”. O Menino do Lápis acordou. e dedicou-se a montar relógios numa área regida pelo sol e pelas estrelas. em conformidade com o calendário lunar muçulmano. Casaram-se logo. E seguiu comerciando. mostrando o telescópio.. Dois anos depois. Havia lábios leporinos. embora não retratasse dragão nenhum —. “É só o que temos”. o avô de Claude abriu uma janela na parede da casa. ou se não em Bagdá. Michel Page aprimorou seu conhecimento dos segredos durante um passeio pela França. o que combinava perfeitamente com o estilo de Michel Page. sem nenhum problema. Fechou bons contratos com as caravanas persas que paravam em Esmirna e Alepo. conseguindo benefícios dificilmente disponíveis para homens de origem humilde como a sua. e contou histórias de terras distantes. celebrada pelo pai de Juliette. o jovem casal viajou ao lado de um enigmático vizir (existe algum que não o seja?). Depois de escrever inúmeras cartas. soube de uma peste devastadora em Alepo. satisfazendo o gosto turco por relógios astronômicos. colhendo cogumelos. O Abade cortou as objeções do menino com uma pergunta: “Onde está seu pai? Por que não o retratou?”. ao lado da chaminé. Page père beijou a testa de Page fils e viajou para Genebra. esfregando os olhos novamente. Na verdade. após seu aprendizado. o narguilé e o tapete Dragão. um torno. Como um número cada vez maior de fazendeiros ficava preso pelas tempestades de neve durante o inverno. narizes de batata. Seguiram-se outras encomendas. por vezes uma verruga hereditária. como o cônsul francês em Constantinopla. cujo perfil levou o Abade a rir alto. numa briga de bar no porto de Toulon. Ele voltou do Oriente com uma bolsa cheia de piastras de prata. Dominou os segredos do vale e os transmitiu para o filho. pai de Claude. e Michel Page aceitou a tarefa de construir um relógio complicado. O único indício da presença paterna aparecia no retrato da família. Claude explicou. que transformou um residente em cada quatro em alimento para os vermes. e pouco tempo depois ele empreendeu uma viagem de seis meses a Constantinopla. Preferiu dedicar-se às plantas e aos filhos. soltar gases como prussiano. Segundo um mercador de especiarias confiável. Pérola e esmalte turquesa praticamente garantiam vendas lucrativas em Constantinopla. Michel Page nunca era mencionado. Juliette não se interessava pelos cultos religiosos. As histórias terminaram quando Claude tinha sete anos. mas aparecia com menos freqüência que Fidélité. dó-sustenido. antes de perder um incisivo esquerdo. um relojoeiro desconhecido .não registrados nos pesados in-fólios mantidos pelo notário da paróquia. tendo no console da lareira um narguilé e um telescópio e aos pés o tapete Dragão. por quem se apaixonou. o Abade trouxe a notícia de sua morte. Evangeline era tratada com mais simpatia. filha de um pastor. conheceu uma moça de Lyon. montou uma bancada. Michel Page fez amizade com as pessoas certas. recurvada. As viagens o ensinaram a arrotar como chinês. Ao voltar de uma festa de casamento quase sombria. Voltando para casa. Fez sucesso. um telescópio e um tapete com desenhos fantásticos — chamado de Dragão pelas crianças. Michel Page mesclava mitos orientais com contos locais. Como se por força de uma conspiração. E lá estava a mãe de Claude. um relojoeiro de segunda geração. Agitou-se ao perceber que o Abade examinava seu caderno. sim. Os negócios se expandiram. o que faltava em seu caderno de desenho faltava em sua vida. Claude gostou mais das histórias. orelhas enormes. O Abade encontrou retratos da família de Claude. Trocou relógios por seda.

Logo ficou claro. e quase nada consigo mesma. a dor se interiorizava. “A hora de Michel Page”. transferisse sua força para a mão doente. e que a cicatrização prometida pelo cirurgião não ocorrera. O Abade mandou novas cartas. O recibo. Uma herança importante para o menino. Recusava-se a conversar. Ele havia pago oito mil. mas a febre apenas aumentava. Mesmo com sua fortuna. um documento impresso com cláusulas adicionais manuscritas. O Abade temia que o talento registrado no caderno tivesse sido amputado com um único golpe. com exceção de um relógio de pequeno valor. de tão deprimido. ao murchar. apesar dos protestos do filho. depois de uma quinzena de sofrimento. A gaze foi substituída por emplastros de manjericão. e. Claude perdeu um dedo naquela noite. Ela deve ser estimulada. Não adiantou. Os retratos de Claude deixavam isso bem claro. contudo. só provocou novas tempestades de roedores. O menino.” Seus pertences se perderam. uma escabrosa ilha rodeada por um mar rosa e escarlate.) O Abade disse a madame Page: “Antes da operação. Ela o forçou a tomar chá de losna. detalhando o final trágico do pai de Claude. diria que precisou executar três movimentos com a serra cirúrgica. As imagens febris e rebeldes calaram fundo em suas múltiplas preocupações. Antes de viajar para cuidar de seus negócios com os maometanos. Aplicou uma folha de repolho. Muitos desenhos ultrapassavam os lim ites das páginas. pior do que o sabor do ópio. Michel Page não era irresponsável. como se o papel não fosse suficiente para abrigar os desejos de Claude. atrás de raízes. que a mão estava infeccionada. Ela gastava boa parte do dinheiro na educação dos filhos. mas o gosto amargo. rápido e eficiente. escreveu o mercador em um post-scriptum. a gentil e solitária senhora refugiou-se na floresta. mais parecia uma das pietàs distribuídas pela irmã Constance.fora vitimado pela horrível moléstia. quatrocentas e cinqüenta libras por uma renda anual de seiscentas e cinqüenta. entretanto. comprou um título de pensão para a mulher. A febre finalmente cedeu. O Abade fechou o caderno. concentrou sua atenção na mão. A imaginação que lhe restava era concentrada em pensamentos . o humor de Claude começou a se deteriorar. ela empregou um remédio contra a febre tido como perigoso. que aprenderam a ler ainda pequenos. e menos de quatro meses depois chegou a resposta. Recusava-se a abrir o caderno de desenho durante a convalescença. esperando que a folha. e controlava o ambiente a seu redor jogando nabos e ratos secos contra todos os que se aventurassem a invadir seus domínios. Madame Page subiu a escada e passou a cuidar da ferida. o menino possuía uma habilidade que encheria o pai de orgulho. mas ganhou algo muito mais valioso: um patrono e mentor. Conforme o ferimento sarava. comprada em uma estufa perto de Genebra por uma fortuna. Ou seja. pois se sentia mais feliz escavando o solo sob o luar. Isolado no sótão. ainda que ninguém desse conta disso. Ela tentou infusões de limão. o que tornava a viúva uma das moradoras mais ricas da comunidade. Gostaria de vê-lo no próximo dia de reunião”. A amputação criara um vínculo. Em um ato final desesperado. era guardado em uma caixa de ferro perto da lareira. “infelizmente chegou. ocultando dentro de si engrenagens engenhosas. (Stãmphli. Passava horas brincando com a ferida que deveria sarar logo. *** O paciente não fez praticamente nada nos dias seguintes. como se o campo de visão fosse ao mesmo tempo muito restrito e muito amplo. a mão de Claude começou a mostrar sinais evidentes de recuperação. com mais precisão.

uma técnica aprimorada depois de tentativas de pintar com o nariz. “Chega de autocomiseração. Você tem o dom. Mas recusou-se a pegar no lápis.vingativos contra a irmã mais velha. temos Dürer. deve comparecer à reunião”. disse o Abade antes que Claude desaparecesse dentro da taberna. Os pêlos no nariz de sua irmã foram tratados com grande sutileza. houve consternação pela perda do divertimento. Claude o acompanhou até o Cão Vermelho. perguntou. o mundo inteiro. planta que o envenenador de Passerale tornou famosa. claro. Ele terminou as ilustrações do Thesaurus cochlearum sem ajuda de ninguém. o Abade aproximou e afastou os óculos dos esboços. durante dois dias. Além deles. seduzido por sua voz amiga e toque carinhoso. mas poucos . E. Tenho uma aparência tão tonta? Talvez tenha mesmo. mas ele adorava tanta atenção. Foi um momento de imperceptível importância. “É para você mesmo que deve desenhar. Sabe. vou mostrar como deve agir. sem se esquecer do tratamento adequado a um nobre. da pedreira existente entre a mansão e a cabana dos Page.” Claude recusou-se. segundo o qual as mãos são o destino. de seus pomares. a população de Tournay tinha apenas um lugar para freqüentar. Finalmente reagiu às provocações de Fidélité misturando em sua comida um poderoso laxativo. o Cão Vermelho fedia a barris sem vinho e fregueses sem banho. a deformidade de Claude fizera seu auto-retrato. Com isso. para quem quis ver. ministrou um remédio mais eficaz do que todos os outros: o elogio. Claude. Trouxe três pêras de inverno. Não havia notado. Talvez a mão. A mão de Claude logo dominou as conversas na taberna. “O que devo desenhar para o senhor?”. Era o Cão Vermelho. o cirurgião.” Claude ficou mudo. porém necessário. Claro. bania o cirurgião para o atol de Pompelmoose. Ou em Rumphius. saiu.” O Abade mostrou um pedaço de demiroyal. “Lembre-se. sob o frio penetrante. que manteve a irmã agachada na casinha.” Nada daquilo fazia muito sentido para Claude. Venha. antes de ver seu desenho. Depois de conversar um pouco sobre cogumelos com madame Page. Sem saber o que era ar puro desde a passagem da Viúva Vingativa. “Excelente. consegue montar o mecanismo mais delicado. Abrindo o caderno. para um cego aleijado. Depois vai desenhar para mim. Ao saber que Claude não desenhava desde a noite fatídica. Pense no Velho Antoine. o mais hábil relojoeiro do vale. quando a estrada das carruagens estava fechada por causa da neve. uma taberna conhecida no vale pela mediocridade de seu vinho. e Claude aproximou-se do nobre rotundo. ele tinha verrugas terríveis. o malacologista. e o fóssil a Claude. o Abade concluiu que já poderia se retirar. atendeu ao pedido do Abade. Nos pesadelos. Ele mostrou o toco restante. Sua mão. Claude confirmou seus talentos com um exercício indulgente. Nada mal. sugiro que use um ralador de noz-moscada. “Existe um mito. Depois de um pouco mais de adulação. as Mãos em prece quase me converteram. Considerava a utilização dos talos terminados em sino do acônito. e uma pedra fóssil com uma cobra. Claude. Os fregueses acharam tudo trágico? Não. Sua mãe vive sempre recurvada assim? Creio que sim. acho que você foi muito gentil. pelo açúcar. “Coca muito? Neste caso. ou o cantor que canta sobre canções. Um mês depois da operação o Abade apareceu inesperadamente. Já viu as extremidades deprimentes de seus membros? Mesmo assim. Durante os meses de inverno. Claude digno de pena? Não. Só esfregava a mão enfaixada. Isso é bobagem. Deu uma fruta a cada uma das crianças. Como o jovem escritor que escreve sobre escritores. como presente especial. Ou no miniaturista de Genebra. cuja paralisia o força a segurar o pincel com os dentes podres. onde o menino buscou o consolo da multidão. Desenhe.” Dez minutos depois.

Stãmphli afirmou que cumpria com seu Dever — um caminho aparentemente predestinado de muitos calvinistas — ao vir de Genebra. “Mostrará sua gratidão ao Abade levando um de seus melhores desenhos no dia da reunião. Talvez um esboço da mansão. virou-se para Claude. Os fregueses riram. Depois de analisar o conteúdo. .. o fazendeiro. após uma operação. exclamou. enquanto lidava com um cutelo de alavanca. cozinheira do Cão Vermelho e companheira ocasional de Gaston na cama. Rochat. o padeiro. Em cada caso. quase ilegível: “Lembre-se de Dürer”.” Mas o bom humor não durou muito. um pouco de papel marfim holandês duplo. cortando uma fatia grossa de pão preto. bastões de tinta da índia. Terminou quando um pastor lembrou a morte do filho. nós!” Thérèse. “Deveria ter falado comigo antes”.” O taberneiro chupou um pedaço de ervilha em conserva preso no vão dos dentes. Os fregueses baixaram os olhos para as canecas e copos. Madame Page acrescentou uma tarefa à inscrição. Outros moradores confessaram já ter recebido a visita do cirurgião. Olhe o que ele tirou de mim. elas ficaram lívidas. Entre as capas. Claude foi invejado pelas irmãs. “Vamos fazer com ele o que fez conosco. lembrança de um calo removido. numa referência à aparência real da verruga. “Não foi tão ruim assim. dupla.” E depois mergulhou nos provérbios. disse Gaston. ficou sem sua orelha de formato incomum. “Então Stãmphli pôs as mãos dele nas suas. Destacava-se mais ainda a pasta para os desenhos. proclamava mais uma vez a generosidade do Abade. para mostrar uma cicatriz imensa. disse. Mas está apenas nos engarrafando aos poucos. preso à mesa. Servia para guardar o caderno e um jogo de pincéis. “Tem uma casa cheia de. O pacote continha duas mãos de papel para desenhar.” O taberneiro ergueu a perna manca. Entregue por um lento serviçal da mansão. verde e amarelo vivo. tratavase de um presente digno do tesouro de um palácio turco. “perdeu um pedaço da perna” depois que o cirurgião cuidou de um furúnculo inofensivo. com duas fitas de seda púrpura. O sofrimento foi atenuado pelo presente recebido peno do final de sua recuperação. o taberneiro. é? Puxa vida!”. pó sépia e Cassei. Gaston duvidava. Golay.se surpreenderam por terem sido canceladas as “visitas do rei”. “Ele diz que realiza um trabalho importante. Outros exibiram suas marcas. Gaston. “O patíbulo para o regicida”. ele encontrou uma nota breve. sentindo a dor renovada. antes mesmo de desembrulhar o presente. tabletes de azul mineral.. Claude saiu. Para um menino acostumado a lápis toscos e tinta feita com fuligem da chaminé.

Os músculos da face se retesaram. Claude ignorou a disputa sobre os méritos do arado puxado por cavalo no plantio de tubérculos. com sua cobertura de telhas. ao fundo. subindo da boca e descendo da testa. concluiu que gostava mais da imagem incompleta. e o cheiro forte dos humanos e animais foi varrido dos abrigos de Tournay. ácaros e percevejos caçados com redobrada energia. incluindo dois agricultores da família Golay. Piolhos. Desde 1497. Outros brincavam de pegar. Os pastos adjacentes ofereciam incontáveis oportunidades. rodeado de arbustos de tomilho. que se erguia a cem pés parisienses. feitas por uma dúzia de proprietários. carrapatos. atingindo colegas com força desnecessária e gratuita. Um grande pombal projetava-se da torre. Uma imagem o estimulou a se lembrar do pai. Ampliou seu campo de visão. As irmãs Page agacharam-se perto de uma poça d”água. A única ordem evidente na propriedade encontrava-se no pomar. Cerrou os dentes. Embora o edifício original mostrasse um compromisso inegável com os ângulos retos. atenuaram o rigor inicial. As crianças muito novas ou doentes para ajudar nas tarefas agrícolas coincidentes com o degelo brincavam nas beiras. o pára-raios ultrapassava bastante a margem superior do papel marfim holandês duplo. Abriu janelas novas. sempre discutindo. Mesmo um historiador da arquitetura encontraria dificuldade para classificar a mansão de Tournay. tão súbita quanto o inverno que a precedera. abriam as asas e voavam em espiral. Resolveu desenhar a casa. negadas durante o inverno. fez uso de sua sensibilidade aleatória. Em função da escala utilizada por Claude em seu desenho. emaranhados por meses sem cuidados. Local das abluções: a casa de banhos na margem leste do rio Tournay. diminuiu ou eliminou algumas já existentes. Inspecionou o túnel abandonado de uma toupeira e estudou o vaivém dos besouros que corriam. As orelhas foram esfregadas. Os meninos e meninas menos criativos mediam suas habilidades atirando pedregulhos. O Abade. Depois as irmãs saíram atrás de um gato para dar continuidade à seqüência de torturas da cadeia alimentar. sob o olhar dos rouxinóis que retornavam. Claude manteve-se isolado. Interrompeu as investigações subterrâneas e subiu um pequeno morro. Claude pôs de lado a pasta e atirou algumas pedras maiores na água. Fidélité ordenou a Evangeline que percorresse o trato digestivo de um sapo com um talo oco de capim. As trilhas de gado davam às crianças mais imaginativas horas de diversão. um único passageiro. Sovacos melados de suor setecentista refrescaram -se com a água limpa setecentista. Em torno da estrutura principal erguiam-se várias outras: um estábulo deslocado. Os cabelos. enquanto esboçava a propriedade do Abade. Quando a tentativa se mostrou pouco reveladora. de onde via a mansão. A bordo. Naquela mesma margem Michel Page lançara ao rio um barco de tamanco velho. A neve derreteu. de concepção experimental. De acordo com o guardacaça. As árvores frutíferas distribuíam-se a cada dez metros. No início. a crer na data existente na pedra fundamental. mal cabia no desenho de Claude. depois de comprar a propriedade. Forçaria o observador a imaginar o que existiria . folheando o caderno protegido pela nova pasta. uma lagoa de patos sem patos. a atônita salamandra descoberta debaixo de uma pedra. instruiu a irmã a dar um verme para o sapo. Sentou-se numa elevação úmida do terreno. lentamente. um observatório. a mão e o coração ainda sensíveis. conforme a mãe pedira.4 A primavera chegou. para divertir o filho. reformas subseqüentes. Podas freqüentes controlavam o crescimento dos galhos mais inacessíveis. treinando desde cedo para a competição ritual que reunia os homens na idade adulta: o lançamento anual de pedras. a peça viera de Londres. quando a cola desgrudou. Resolveu colar outra folha de papel. A torre. isso perturbou o jovem desenhista. para franzir o nariz. dando forma de L ao esboço. era a construção mais importante do vale. Instalou um pára-raios de ferro. escovados. uma tarefa até então postergada. Mas.

Dois ou três bebês choravam baixinho. os clérigos corruptos e menos corruptos. Por um lado. Apreciando o respeito ansioso dos homens de chapéu na mão e das mulheres com gorros rendados. (Na verdade. raquetes de tênis e uma cruz de quatro bolas. reagiu com uma bofetada. mas a frase. O salão. ele assistia às partidas de longe. O antigo dono desenhara as armas da confraria do tênis: a cor negra. para dar aulas particulares na mansão. O descaso do Abade para com as oportunidades fornecidas pelo título bem como sua excentricidade acalmavam boa pane da comunidade. e ainda ganhava por larga margem. O jogador merecia: ficava em cima de um barril para sacar ou receber.) O salão nobre continha apenas duas peças de mobília: uma mesa e uma cadeira curiosa. sugada até secar pelo filho irritado. E eles construíram. não foi compreendida nem ouvida pelos ocupantes temporários do salão nobre. Como decoração. As marcações na quadra tinham desbotado havia tempos. O estado de espírito era o mais comum nas reuniões do gênero — confuso. atender aos reclamos de seu contador quanto às rendas decrescentes e enfrentar as críticas dos líderes religiosos da comunidade.além da margem. esclarecendo por meio da proximidade os legados do incesto. Pensou alto se elas adotavam a postura empertigada para ficar mais perto de Deus. os camponeses ricos e pobres. o Abade murmurou um comentário em latim sobre a manipulação dos rosários. Estimulado. ocultas sob seus hábitos marrons e brancos. felizmente. subia e descia do barril durante o jogo. deixou uma grande soma para Masson. Depois convidou Charniers. apenas as teias empoeiradas pendendo da marquise que acompanhava as duas paredes. mas não era nobre. Não ostentava nenhum dos enfeites heráldicos costumeiramente associados a salões nobres. e a rede desaparecera na época em que o Abade assumiu a propriedade. era despido de ornamentos arquitetônicos. e os mercadores de vários ramos reuniam-se no salão nobre da mansão. Felizmente os conflitos locais eram relativ amente pacíficos. Quando as pernas do velho conde cederam. esperava ansioso as imprevisíveis oferendas do dia. contentou-se com uma porta de estábulo em madeira maciça sobre dois tonéis de brandy vazios. Os habitantes mais ímpios arriscaram um sorriso. Bergeron e Masson. se comparados com os eventos brutais que ocorriam nas paróquias vizinhas. sinal permanente de uma antiga paixão singular do conde anterior. Em vez disso. Uma das mães. apresentavam respeitos. As famílias que dominavam o rol das taxas — Rochat. Podia ser grande.disputas locais. O Abade encarou o grupo rural humano do alto de suas sobrancelhas grisalhas unidas. de De Garsault. Ele disse: “Joguem!”. Mas. por outro lado. O Abade abriu a sessão com sentimentos conflitantes. Outros. Nada de alabardas cruzadas. Muitos. saudou a todos com um sorriso e com um movimento de cabeça que mostrava sua benevolência compreensiva. Na verdade. Page e Golay — formavam grupos. Alguns pagavam aluguel. Quando estava para morrer. Roubos de grãos. armaduras ou brasões reluzentes. “Salão nobre” era um nome inadequado. Na primeira terça-feira de cada trimestre. o que só aumentou o descontentamento vocal da criança. havia algo no gênero. e ordenara: “Construam!”. podia se dar ao luxo de comprar um bureau plat ou uma mesa com incrustações em tartaruga. Quando o Abade se instalou na mansão. nenhum dos dois. por causa de sua função anterior. O antecessor do Abade dera aos empregados a Uart dupaumier-racquetier. E eles jogaram. abominava os deveres administrativos. A expressão mudou ao deparar com um contingente de carmelitas descalças. os três maiores tenistas da época. Sua função era arbitrar . tratava-se de uma quadra de tênis abandonada. iluminações forçadas e invasões populares de áreas proibidas quase nunca afetaram Tournay durante a . para conduzir seus negócios. Poucos faziam ambos.

por meio de engenhosos e malévolos artifícios. Mas ordenara a construção. O Abade não se mostrava muito receptivo às questões de fé. O Abade piorava tudo. a bem da verdade. pagando generosamente pelas anomalias encontradas pelos camponeses em seus pastos. O investimento exige retorno. senhor. O adversário. o Abade quase encorajava as invasões. Esta última questão o incomodava demais. o Abade concedeu: “Muito bem. A sessão começou com solicitações relacionadas com os estragos provocados pela Viúva Vingativa. ursulinas e. que envolviam diferentes versões de Deus.” O Abade queria pôr o contador em seu devido lugar. Digamos duas. nos últimos três meses. burgueses e natifs. O Abade resolveu o problema substituindo o carvão por uma carroça de madeira de sua própria floresta. apresentou a estimativa dos custos para os consertos necessários na estrada. intercedendo nas brigas de marido e mulher.gestão do Abade. um caderno inteiro de reclamações fartamente documentadas. e que o intendente chegaria dentro de quatro semanas. claro. a única crítica do Abade versou sobre o uso de feno molhado. protegido pelos três lados. “Não. as carmelitas. Ele justificava seu deboche argumentando que isso o isolava das correntes da Viúva Vingativa. Suas opiniões expressavam -se com toda a clareza na outra peça de mobília existente no salão nobre. e observou que o pântano precisava de drenagem.” Em seguida ele a amansou. a um caixão caprichosamente entalhado. “Uma carroça cheia?” A voz do contador ergueu-se no canto. que por vezes zombava dos rituais exagerados dos papistas. o Abade quase lhe agradeceu pela chance de testar um novo ungüento contra picadas de abelhas. por si só. Isso. para coletar fundos para guerras reais e imaginárias. visivelmente intimidado. “A senhora não fez nada. O contador chupou os dentes de frustração. . O Abade fizera sua cadeira com um confessionário cortado e preso. E. que seja uma carroça então”. um carvoeiro. já enfurecia os membros mais devotos da comunidade. do universo do Abade — estava Deus. e registrou as despesas autorizadas. o Abade continuou a mediar. afinal. O contador. Ignorou a impaciência do Abade. o que diminuiu o impacto incendiário do protesto. uma veemente defensora do último grupo. o contador aproxim ou-se do Abade e discutiu o assunto em particular. deu sua versão dos fatos. quando um apicultor local jogou na carruagem do coletor um enxame dos mais agitados. Creio que uma carroça cheia não é apropriado. para desafiar os representantes da Igreja que compareciam às reuniões: calvinistas diversos. ao lado da mesa. inclusive os valores de transporte das pedras. diga-se a bem da verdade. sendo decisivamente combativo. Para os católicos — em especial os carmelitas — aquilo era uma blasfêmia ultrajante.” Enquanto recuava para os bastidores. doando todas as línguas do gado abatido para a casa paroquial. detalhando cada despesa. Na verdade. travadas muito longe dos limites de Tournay. Inconformado. O Abade disse: “Pague o que for preciso”. Depois de muita argumentação. A obra de marcenaria permitia que o ocupante se sentasse. Uma lavadeira apresentou uma desavença quanto à conta de aquecimento. Quando Jacques. incomodava-se com a cadeira do Abade. queimou um retrato do coletor de impostos. Gaston pediu um subsídio para novas trancas e reforços para as janelas do Cão Vermelho. ao invés de seco. “Precisamos tomar cuidado. A irmã Constance. de pernas estendidas. Mesmo o pastor Bourget. consultando as tabelas de investimentos. irmão de Gaston. a não ser detalhar suas insatisfações? Trata a palavra escrita como uma penitência. irmãs de caridade. capuchinhos. Pedido recusado. em qualquer forma identificável. Ausente do salão nobre — ausente. e tentando resolver as disputas mais complicadas. A petulância era óbvia. e que os banqueiros de Genebra queriam ver a confirmação dos contratos estabelecidos. aproximou-se do caixão-confessionário para apresentar suas petições.

Estava tenso demais para ouvir a sugestão do Abade para que na semana seguinte passasse a residir na mansão. O maior item não foi depositado sobre a mesa. aproximando e afastando os óculos do trabalho. tampou-o e fez uma anotação no rótulo.Os calvinistas. perguntou a um pastor que se aproximou. O Abade deixou o encontro mais ansiado para o final. viviam igualmente desapontados com o Abade. os moradores locais aproximaram -se da mesa e depositaram seus achados exóticos: ovos pintados. Um a um. havia uma pasta com fita escarlate. para as pesquisas vitelinas do Abade. perto da grade da quadra de tênis. embrulhada em musgo molhado. nervoso. claro. para cá. “Henri. um paneiro cheio de madeira de azinheiro. O Abade esticou a mão e segurou o recipiente. Claude ficou animado quando a sessão terminou. O Velho Antoine. “O que trouxe?”. pediu o conserto do badalo do sino do templo. era sensível à segunda opção. Isso me leva à parcela de minha autoridade que mais me interessa. o Abade também distribuiu suas lembranças. Henri!” O Abade chamou o encarregado da despensa. com ova. uma cabeça de javali. “Não estamos em Genebra”. mas porque sua bexiga encontraria o alívio necessário. sem hesitar. Zurrou no canto. Padre Gamot queria uma relíquia. respondeu ao católico. Ofertou uma variação de um cilindro de escape. acompanhada de um garoto. em cuja mão aleijada. e urinou profusamente. pastor da Reforma. porém curada. onde devemos nos manter com os recursos existentes. Mantinha um sortimento delas sob sua cadeira peculiar. O Abade. Bourget. enchendo-o com o líquido do odre do pastor. . “A água solicitada. Durante a sessão. A atitude do jumento estimulara seu próprio desejo de verter água. aceitou a peça em troca de um ano de aluguel. que não são laranjas nem musgos. A mulher colocou o cesto sobre a mesa. traga uma galheta. mais uma vez imensamente satisfeito. uma fêmea de esgana-gata imensa.” “De onde?” “Das pastagens além da floresta de Bretem. O Abade. e Claude entregou ao Abade seu desenho. Traga-a para cá. e sim as pêras mais doces que há. relojoeiro. como se sabe. “Vivemos em Tournay. cujo pagamento poderia ser feito em dinheiro ou espécie.” O sujeito lerdo que levara o presente à casa dos Page foi até a mesa. Amontoavam-se do lado oposto dos católicos. não porque o destino fora mudado. orangemusks. para diversão dos presentes. depois da linha de divisão. sempre avesso a destinar a eles os fundos que se sentiam predestinados a receber. disse o Abade ao calvinista. Ele acenou para uma mulher que levava um cesto de ervas.” “Sim. Peçam auxílio a seu rebanho. veio a seguir. cortada em pedaços mais finos que um dedo. um ninho de pássaro de forma incomum. “E isso aqui não é Roma”. a pata de um gamo. Por um longo momento o Abade o estudou atentamente. embora menos numerosos. Onde está o rebanho?” Ele dispensou os religiosos descontentes e anunciou que passaria a receber obrigações. Claude batia com os pés. Madame Page aceitou em nome de Claude.

entre o tinteiro e o tratado. ao salão nobre faltava a exuberância da terça-feira anterior. sete dias após a sessão. não às mulheres locais. Quando tomou posse dos bens — a varíola teria sido responsável pela herança prematura do primogênito. uma trilha de gordura e sangue congelado que marcava o transporte da cabeça de javali da mesa do Abade até onde. repassando as informações conflitantes que reunira nos últimos dias a respeito do caráter do homem que se encontrava agora sentado à sua frente. Vazio. o rebento degenerado de uma instituição degenerada. Incerto quanto ao modo correto de se anunciar. Nada. o Abade decidira comprar a pequena propriedade de Tournay. outra diferente. deixando-a anos depois. por causa de um escândalo. A mesa. ouvira ruídos. Claude. lia um tratado. para molhar a pena e fazer uma anotação. uma terceira. agora livre dos diversos pagamentos em espécie. e o proprietário do Cão Vermelho. a natureza de sua degeneração era muito especial para cair no clichê. suavidade.II O NÁUTILO 5 Claude retornou à mansão como combinado. O Abade. acompanhada do título de conde. O guarda-caça contou a Claude. sentado no caixão-confessionário. O carteiro encarregado de entregar a correspondência da mansão — obras de filosofia experimental. Claude deduziu. Sua mente divagou. Na juventude entrara para a Companhia de Jesus.. . o padeiro. como muitos da época.. e uma vez viu alguém nos braços do Abade. adotara o título de Abade. Também se comentava. segundo o guarda-caça —. O carvoeiro disse uma coisa. Contraponto à reputação de generosidade. Rochat. e herdeiro de uma vasta fortuna do pai mercador e dono de navios. de modo que Claude permaneceu em silêncio. O nervosismo de seus gestos sugeria que era melhor não perturbá-lo. e publicações das academias científicas mais conceituadas do continente — contou a Claude o óbvio: “Ele lê. Não dava importância a roupas finas. Os católicos relaxados o elogiavam. sobre a vida do conde de Tournay. claro. se fosse. Claude esfregou o pé no chão para chamar a atenção de seu empregador. Ou. Os mexericos na taberna davam poucas informações adicionais. Não houve resposta. concluiu: o Abade não era. estava coberta por pergaminhos e livros. Catherine. nas áreas mais distantes da comuna. a ajudante de cozinha da mansão. Gaston. Expulso. Muitos dos fazendeiros. entusiasta livre e voluntária de aventuras sexuais de todos os matizes. Ele limpou a garganta. A única informação de peso veio do guarda-caça da mansão. enquanto limpava um mosquete antigo e preparava seus cartuchos. Não obstante. o padre Gamot lembrava que a bandeja de coleta da igreja não passou a receber donativos extras com a chegada do Abade. a natureza violenta do Abade durante estes encontros noturnos secretos. um sujeito meio coxo que conseguia ouvir um gavião ou uma boa fofoca a cem metros de distância. O Abade continuava a mover apenas £f mão. com tudo isso. erguendo a mão às vezes. Pelo menos. que o Abade era filho único de uma família de filhos únicos. sem provas. ficava a cozinha. Os sinais da reunião eram mínimos — um odor penetrante de urina de jumento. O guarda-caça parou seu relato para atirar em um pato selvagem que voava baixo. nunca fora abordada por seu senhor. livros!. insistiam no senso de justiça do Abade. Para desafiar a Igreja. adulação ou mulheres. pacotes de portos distantes. os mais devotos o condenavam facilmente.

e Claude formulou seu primeiro pedido. Mas. “Os títulos de nobreza não nos separarão. Viu os portões de Constantinopla e os minaretes de Bagdá. Claude ficou deslumbrado com tanta gentileza. derrubando um pergaminho onde fazia anotações. Depois de muitos anos de vida missionária e obediência à Companhia — não à do senhor Calvino. Então o Abade falou: “Poderá. senhor”. ora! Fui informado de que o antigo conde de Tournay gozava do respeito dos residentes. não estivessem presos ao dono por uma tira de couro. “O motivo de minha vinda é fácil de entender. Pensando bem. mais à vontade. e eu ensinarei. chefe da cozinha da mansão. Estava perplexo. Ou que eu não vá ensinar. Solicitou ao Abade que explicasse sua decisão de morar em Tournay.” O Abade afirmou que recusaria qualquer coisa que o lembrasse de seu treinamento jesuítico. claro. .” O Abade sacou com uma raquete imaginária. Mais tarde descobri que o servir no caso se referia ao tênis. O Abade balançou a cabeça. Teriam se quebrado ao bater no chão. há muitos anos. A descarga nasal fez com que os óculos voassem longe. Certamente. Aqui descobri que não precisava fazer as malas para descobrir novos mundos. creio que ele estava errado em tudo. “Meu correspondente informou que a propriedade se situava próxima aos livreiros da República. As leis maometanas proíbem a concessão de um único desejo. escondido. desta feita com menos estrondo. não à sua gente. a praga que assolou os clérigos mais idosos naquele século. as menções à fé herética representavam mais uma vitória particular em sua guerra contra a Igreja. “Considere-se. contudo. e ao mesmo tempo longe o suficiente para escapar dos rigores da lei do consistório. que o seguravam. menos no rural. “Seu aprendiz. um grão-vizir favorito. (A informação do guarda-caça estava correta. Isso não significa que não vá aprender. “Novos mundos”. e disse: “Onde eu estava?”. Descreveu o local. mas à Companhia que leva o nome do membro terreno da Santíssima Trindade — eu não queria mais viajar. Não é aprendiz de ninguém. “O califa concederia um desejo ao vizir?” O Abade franziu o cenho.” A analogia agradou a ambos. haveria pouca obediência cega. O Abade abaixou-se. se bem me recordo. Para o Abade. “Não. Eu me mudei para cá porque me cansei de viajar.Os pensamentos de Claude foram interrompidos pelo som que atribuiu primeiro ao tiro. e depois ao Abade que espirrava. Esperara demais. Limpou o nariz com um lenço de renda meio duro. contente por viver entre segredos compartilhados e ocultos. Comporte-se como um jovem dedicado a seu califa.” O Abade espirrou de novo. Para Claude.) Sendo assim. remoto”. Este rolou pelo chão empoeirado. “Entendeu?” Claude não entendeu. só de si mesmo. Quando seus olhos o acompanharam. ressaltando o clima propício — ora! — e a luz clara e constante — ora. Eles riram. Claude respondeu. se preferir. quando ele tinha a idade de Claude. como “um recanto rural. encontrou na outra ponta as mãos de Claude. providência feliz de Marie-Louise. ter três”. e não há necessidade da assinatura de papéis. a reflexão sofre distorções. Aprenderá. o menino disse nervoso. seu pai contou-lhe isso. como os que habitam as histórias do Oriente de que tanto gosta. e trazia a perplexidade estampada no rosto. como nos mostram as teorias óticas. dava acesso a um mundo de encantos e genialidade.” Claude olhou para o chão. Um de meus correspondentes mencionou. seu moto era “Nascido para Servir”. a disponibilidade desta terra.

Talvez sua mãe goste de conhecer o material. o Abade apontou o dedo na direção provável da residência do alquimista. Em cada parada. Depois de encarar os rigores do noviciado. um mercador sem nenhum interesse pelos sofrimentos dos pobres. para surpresa geral. Como conseguia? Talvez a neve imponha uma certa paciência. sofremos com acusações. colecionei conchas.” O Abade tornou-se sombrio. “Aqui. pigmentos. O inverno exige que os cidadãos suíços coletem. como se apresentasse os filhos. Uma única letra. e Claude rapidamente fez a última pergunta: “O*que faz atualmente em Tournay?”. que grudasse papel grosseiro. em Berna. observadores extraordinários que simplesmente ordenam. Eu a estudei com afinco. Estudei com os padres do Oratório. e o enrolasse em pinos. e Claude passou à segunda: “De onde vem?”. Os pinos permitiam que enrolasse o pergaminho para a frente e para trás sem demora. identificava a área principal de seu conteúdo. O dedo moveu-se. sim. Holbein. e uma dúzia ou mais de obras filosóficas.” O Abade fez uma pausa. Paracelso. Infelizmente. dados a pregações para o povo. Ele pegou um rolo. também. E saí. “Fui matriculado para estudar conforme os preceitos do Ratio Studiorum. romances históricos — nesta categoria tem apenas quatro. E mesmo assim cuidava de uma mina de sal e outras responsabilidades municipais. Depois de um tempo. fui deixado por conta da Igreja. Henri. Corri o mundo. Uma reunião maravilhosa de raízes. cerâmica.“Ah. Vou levá-lo a Basel para ver a coleção. de Conquiliologia. Cobrindo a vasta superfície da mesa.” Ele encerrou a divagação. pulando de um porto a outro. para conhecer o lado sério da educação. Foi ali. vernizes. que desenvolvi o gosto pelos trabalhadores e suas atividades. Apesar de minha juventude. enquanto homens menos dotados ordenam simplesmente. Depois prosseguiu: “A paixão era a mecânica. mostrei grande competência. “Isso responde a sua primeira pergunta?” Respondia. do pintor e do botânico que tanto admirava. neste local privilegiado. O Abade respondeu com surpreendente franqueza: “Vamos ver. Só um suíço publicaria uma metódica observação de todas as plantas conhecidas. completando enciclopédias. Pedira ao empregado. mas ainda assim inestimável. por motivos complicados demais para explicar agora. dizendo com discreto carinho: “Meus rolos”. nenhum deles terminado. O Abade levou a mão ao ombro do menino. encontravam -se os rolos cheios de anotações que o Abade usava para registrar suas pesquisas abrangentes. posso manter contato com outros experimentos: sua mãe. livros de botânica e bibliografias. O que mais podem fazer?” O Abade levou Claude até uma estante de livros e tocou uma obra ali guardada. telas ou espécimes em vidros. Quando tinha a sua idade. com pesquisadores de fama ainda maior. Estava marcado com um C. Estava decidido a entrar para a Igreja. até que o provincial me enviou em uma viagem apostólica ao estrangeiro. creio. Lidando com alam -biques. “O Pinax. E. Havia rolos para uma dúzia de outros campos de estudo (inclusive . Antiquada. o Velho Antoine. eles modificaram tudo o que se pode tocar. “Retornei com algumas doenças — espirrar é uma delas — e retomei o trabalho mecânico com meu mestre. Bauhin. Ele logo me mandou para os jesuítas. “Lá longe. levei a bandeira missionária até as índias — tanto Ocidentais quanto Orientais — e por todo o Extremo Oriente. construam e testem. isso depende de onde começamos. descobri minha primeira paixão. terra incógnita!” Ele se levantou da cadeira e levou Claude até a janela aberta na lateral da quadra de tênis. Haller trabalhou dedicadamente. a filosofia dos padres não combinava muito com a filosofia de meu pai. escrevendo o tratado de anatomia. gravada na base de cada pino. Eram simples e seculares. creio.” Ao dizer isso. terra nova. qualquer coisa que mantivesse a mente tão ágil quanto os pés. e. segundo o costume da época e do local. de Bauhin. fora do vale.

e. no processo. o grão-vizir favorito precisará esperar. quando o tempo. para obter a resposta. “Bem. um registro do crescimento da região de Tournay.” Claude disse: “Conheço pouco de pintura.” O Abade pegou o pergaminho C. no meio do salão nobre. passou a descrever mais concretamente as tarefas. pesquisaremos os mais altos pensamentos e aspirações. . Considere-se um copista e assistente de colecionador. “Recebo muita correspondência. Nisso. os recursos e a paciência o permitem. desde relatos de viagem até as Transactions da Sociedade Real. “Você? O que vai fazer? Esta é a quarta pergunta. É isso que espero”. Ademais. será treinado nas artes da pintura e no mundo decorrente do esmalte. Depois. espero que encontre sua metáfora. Se aplicar metade do talento que tem com o lápis no óleo e pincel. e em muito mais. Você me acompanhará na conquista das capacidades do homem. posso adiantar o seguinte. e Sons. Foi por isso que meu contador concordou com sua presença. Aplique as noções que usa em seus esboços. Nenhuma resposta. na letra S). e o abriu para mostrar um esboço grosseiro da concha do náutilo.Campos. Fará uma viagem tão cheia de aventuras quanto minhas andanças pelo mundo como missionário. E. Tenho o costume de experimentar o que leio. “Henri!” Ele se voltou para Claude e disse: “Aprenderá depressa. um pouco de tudo. “Mas logo aprenderá. Não demonstrou nenhuma emoção ao receber a ordem do Abade: “Mostre tudo para seu amigo”. deverá me ajudar. como encontrei a minha. vai dar tudo certo. “Vou resumir meu credo citando Cícero. O sujeito lerdo que Claude já encontrara duas vezes caminhou até a rede. concluindo que falara demais. “ Claude finalmente fez a pergunta que atormentava sua mente: “E o que eu vou fazer aqui?”.” “É mesmo?” O desespero e a apreensão na voz de Claude eram palpáveis. Eu o pouparei do latim: “Lazer com dignidade”. e nada de esmalte”. Passos lentos foram ouvidos! à distância. Juntos.” O Abade chamou: “Henri!”.

e. n i seto produtor da cobiçada tinta vermelha de mesmo nome. no final. anos depois.6 Henri Robert era filho de Antoine Laurent Robert. um tutor do delfim. O Lesma não era o guia ideal. prensada em forma de bolas. aconteceu uma tragédia. A causa da morte. Três meses depois da transferência. vale lembrar. Tentou saber como se obtinha a tintura. Preparar os pós não era problema. Didier. defrontando-se com a pobreza e o isolamento. tanto mestre quanto discípulo desistiram. sob os cuidados do conde de Tournay. ocorreu antes que Nicolas Joseph Thiery de Menonville. que atribuiu a morte ao envenenamento venéreo por chumbo. nos tribunais. pintar com eles. insistiu para que o filho Henri fizesse uma demorada visita. O Abade concluiu: “Ele jamais terá a capacidade de deslizar um pincel de zibelina por um prato de cobre”. ficou cuidando do estoque. estava morto. Dominique. inusitada. (Isso. quando uma carroça veloz recusou-lhe o direito de passagem. tintas e estojos para filósofos. surrupiar a herança de Henri. depois de muita pesquisa. o Abade encontrou um vendedor de amarelo da índia em um mercado de Mirzapur. como não havia madame Robert desde 1765. Henri Robert não se destacava pela rapidez antes da morte do pai. Um carregamento da substância malcheirosa. criadores de gado conhecidos como gwalas. O Abade mantinha correspondência com o fornecedor desde o início de sua primeira expedição missionária. No Vice-Reino da Nova Espanha. na verdade. e uma cafetina de Paris que excitava seus clientes com pinturas. e. Como costuma acontecer com tais acordos. o Abade conquistou a amizade de um proprietário de nopaleria. fornecia penas e papéis. Os gwalas criavam seus animais sagrados com uma dieta à base de folhas de mangueira. Antoine Laurent Robert inadvertidamente deixou que um pigmento branco tóxico penetrasse por uma ferida existente em uma parte íntima — resultado de uma brincadeira coquete iniciada por uma das moças pintoras de corpos. levando a criadagem da mansão a chamá-lo de Lesma. Mas. uma fazenda de cactos para criação da cochonilha. lento. foi enviado para o deslumbrado comerciante parisiense. Conseguiu. Papelaria e Fornecedora de Materiais Artísticos. Tudo isso mostra que Antoine Laurent Robert devia favores. um capitão de navio cuja viagem fracassou (para as Antilhas). Numa viagem ao Oriente. a tomar conta do negócio. a menos de dez dias de carruagem da sede dos prósperos negócios do papeleiro. seu ritmo diminuiu até quase parar.) Por amizade. derrubasse o preço do pigmento ao contrabandear potes cheios de plantas infestadas pelo inseto para St. em tudo. pintores. Quando soube que o Abade se instalara em Tournay. botânico real. visitando a região de Monghyr. O filho do papeleiro tornou-se um peso para papéis. havia trinta anos no ramo. Henri ficou órfão. o Abade negociou o embarque de um carregamento para Antoine Robert. da Robert & Didier. acadêmicos. para intensificar o pigmento amarelo tão valorizado pelos iluminadores indianos e mi-niaturistas islâmicos. localizou os fabricantes. A tragédia estimulou o sócio. O Abade sonhara em transformar Henri num esmaltador. Antoine Robert. Depois. não foi lá um grande negócio. lento para conduzir Claude até as partes mais interessantes da propriedade. O Abade descobriu que o pigmento era feito de urina seca de vaca. Dois meses depois. para aprender com o Abade ò que este aprendera em suas viagens. Henri. trabalhando como despenseiro da mansão. garantiu a publicação de uma notícia no ptcsúgizdo Journa/ des Savants. por assim dizer. Sua família providenciava os papéis e cores que pedia com extraordinária freqüência ao sair para suas viagens. depois de muitas lições e exercícios. sim. O passeio começou lento. Lento para entender as instruções do Abade. Henri só sabia fazer uma coisa depressa .

dirigindo-se para um corredor de pedra.” . Passou por uma série de compartimentos e laboratórios cujos cantos saíam do nada. encostados em uma parede alta. ele completou: “Onde guardamos os livros”. para olhar mais de perto. Um malentendido era impossível. Claude tentou adivinhar. O depósito. As salas revelavam um ambiente inédito para o menino. passavam por janelas que iluminavam o local em pontos improváveis. O Lesma arrastou seu corpo mole até outra série de compartimentos. Parou e disse: “O depósito. comentou o Lesma. No final do corredor. com vidros grandes. Em função do despojamento do salão nobre. descobrindo que o Abade exigia muito de seus livros. Não estava. “Sim. entretanto. manuais e opúsculos empilhavamse em formato decrescente. uma hierarquia definida.” Havia. “Esta é a biblioteca. no meio dos livros. mecânicos e filósofos — proclamando idéias conflitantes ou concorrentes. Um balcão projetava-se no alto. O calor e o cheiro. passando por um arco. dicionários. indicavam que ele e o guia passavam pela cozinha. e viu dois pés que se aqueciam perto do fogo. Embora a biblioteca tivesse estantes elegantemente providas de portas com arabescos nos vidros em losango.— enervar os que o rodeavam. com os assuntos mais importantes ocupando o centro.” Para evitar qualquer mal-entendido. que ganhava de longe dos fechados. ligados por tábuas e escadas toscas. Claude parou para registrar a cena mentalmente. O Lesma pediu que não alterasse o caos aparente. feito com um púlpito reformado para acomodar uma clarabóia. Papéis soltos traziam rascunhos de críticas. Claude o seguiu. “O Abade diz que os livros encontram -se numa ordem que só ele entende. Claude pegou um texto escrito pelo professor Christian Gottlieb Kratzenstein. mas tal não ocorreu. E outras coisas mais. “Estou”. e pareciam travar um diálogo silencioso. as pesquisas do Abade haviam redistribuído os volumes pelas superfícies menos apropriadas. combatendo a simetria da estrutura de pedra do prédio. cercado de palavras até a altura da cintura. Estudou alguns volumes com mais cuidado. resmungou o Lesma. pensando num desenho futuro. “Vamos em frente”. pilões e pedras com fósseis. Além disso. coberto de livros. “Acredita que as formas reproduzem os monumentos que viu durante as viagens pela Nova Espanha. formando estalagmites de conhecimento. mas foi impedido. Havia folhas inseridas entre as páginas com anotações e referências cruzadas a outros tomos. sem a ajuda de leitores. “O Abade diz que este é seu templo”. Claude olhou para as pilhas de livros. sem o equilíbrio e a harmonia desta. “Onde guardam os líquidos?”. Com freqüência ficavam uns de frente para os outros. Vamos entrar no depósito”. do tipo mais comumente encontrado em celeiros. sob o peso de conchas imensas. Atlas imensos. Henri arrastava-se para a frente. isso mesmo. passando por um antigo cravo. bem como a trilha de sangue que saía da mesa do Abade. Não tinha. “Ensaio sobre a origem e a formação das vogais”. respirou fundo e disse: “Está preparado para começar o passeio? Pronto para ver o que há para ser visto?”. cerca de doze andaimes. Claude torceu para que os pés não identificados se juntassem a eles. Ele se arrastou pelo salão nobre. por entre as quais Claude tinha dificuldade de se mover.” Claude ficou deslumbrado com o número de livros abertos. Pilhas de papéis recebiam proteção contra a Viúva Vingativa. Claude respondeu. Os autores — naturalistas. Aqui ficam guardados os líquidos. Claude tentou subir. As prateleiras vazias foram depois preenchidas com instrumentos de laboratório. Claude deduziu que o resto da propriedade teria o mesmo ar de calabouço. Dava a impressão de uma pintura flamenga.

Claude não sentia vontade de discutir a afirmação. três azuis de paddock. parando ao ficar sem dedos para contar. resina copai congolesa. por suas dificuldades de classificação.. castanho de cinco países. A informação se perdeu enquanto Henri explicava que havia esmaltes em potes envernizados e vernizes em potes esmaltados.” Mostrou a Claude um jogo de galhetas eucarísticas: “O Abade tirou isso da capela”. declarando orgulhoso: “Temos a melhor coleção de urinas do vale”. Passaram para as águas e salivas. “Sou responsável pelos materiais. um capuchinho rebatizado para atender à intolerância religiosa do Abade. tornou-se ofegante. Ele mal conseguia resistir à tentação de abrir os potes. enquanto balançava a cabeça. Aqui guardamos as cores. Jamais vira tantos pigmentos. E esta a água de regato. experimente isso”.. “Veja. E quanto ao trissulfureto de arsênico?”. branco-de-giz.” Ergueu a mão e começou a contar. Os olhos se abriram ligeiramente. mucilagens.” Claude concordou. E quanto aos ocres? E a sépia? O Abade tentou certa vez encomendar um barril de lulas vivas para realizar alguns testes. lambeu a substância. O barril adiante contém neve fresca derretida. Henri discorreu sobre a dificuldade de classificar os materiais. Henri aborreceu-se por descobrir uma garrafa de água-forte indevidamente guardada.” Pularam o herbário. e estragaram durante o transporte. Há tantas variedades! Chambers descreve três. Claude pensou. “Cuido das tintas. cola de pele de coelho. quase animado. Santerre afirma que a paleta necessita apenas de cinco cores: massicote. le brun rouge.” Claude estava preparado para comentários.” Claude. É menos fina. Henri ergueu as tampas de dois barris. Pode tomar um gole. concluiu. no modo lento que usara no início do passeio.” “Experimentar?” “Isso. recomeçando na outra mão: “urinas. seriam um alívio. ponha na boca. “O que a gente faz com o famoso amarelo da índia do Abade? Deve ser guardado com as cores. com chumbo na barra. se algum dia entrar pela janela e passar pela cortina. um-dois-três-quatro-cinco sépias. Henri disse. Comparou-a ao ambarino pisse de chat sauvage. Ele a colocou na prateleira correta e disse: “Sabe. Mais uma vez Henri ergueu a mão para contar: “Pasta vermelha de chumbo em quatro tons. já confinara a história da amputação na . para exibir “a aqua morta tão valorizada por Cellini”. pós. se comparadas àquela excursão exaustiva. “Lamento”. Henri fez uma menção descuidada a um galho de dedo-do-diabo. as urinas ou as terras?” Claude sentiu pena de Henri. por exemplo. relutante. As minas de açúcar. por um bom tempo. plantas”. O Abade diz que um arco-íris. Não pôde deixar de pensar no atol de Pompelmoose. sobre sua deformidade. Mostrouse pelo menos comunicativo. Em seguida. Uma ova! Veja o massicote.”. Era açúcar-cande. águas minerais. menos limpa.Os modos e movimentos do Lesma se aceleraram quando ele entrou. “A sala das cores. disse. ou-tremer e preto da Polônia. ao passar. via de regra suave como o ar saído dos pequenos foles dos esmaltadores. devido às origens de Claude. Claude se viu rodeado de bugalhos. terras. inadvertidos ou não. “É perfeito como peso para papéis. Tem uma textura toda especial. tintura de caju. Quando foi morar na mansão. recuará envergonhado. mas faz bastante espuma com o sabão. disse. “Não queria lembrá-lo de seu sofrimento. “Esta é a água da chuva que usamos para fazer a tinta de Lémery. mas. Elas morreram. salivas. Henri puxou uma cortina pesada de lã preta. para a fórmula de Geoffroy. Ergueu um frasco de vidro. e sua respiração. alcaçuz. O que tinha o trissulfureto de arsênico?.

Ignore os rumores. e a mistura de gostos e cheiros o enjoara. Henri”. reforçadas com cadeado. na porta. e finalmente como seu dedo foi cortado fora. sem dúvida. aproximou-se do outro — de modo vago. mas não caiu. criando um entendimento. E como sua mãe aceitou a decisão do cirurgião. “A cozinheira”. com o Abade. Ali dentro. deixaram de ser estranhos. mas o apóstolo coletor de impostos de Capernaum.” Claude esforçou-se para encontrar as palavras corretas. na verdade. retrucou o Abade. diminuindo a distância entre os dois. não o criador de porcos. pó fino ou pasta. “Muito obrigado. mas não tudo. mas nunca recebeu resposta. “Não foi uma excursão. impreciso. enviou uma longa carta de denúncia às autoridades da República. E uma cozinheira apressada. disse Henri. à guisa de explicação. nesta capela. Henri não permitiria. usando um termo da conquiliologia. mas conteve-se para não exagerar. Claude contou tudo isso a Henri. ao revelar sua dor. Lembre-se apenas de que não deve entrar.” Ficou tentado a dizer “califa”. Henri contou a Claude que o Abade. sem palavras —. Já se cansara daquela conversa de despenseiro. Stámphli não foi censurado. E como. “ “Viu muito. “Canela de que tipo? Pelo menos diga se quer em pau. senhor. uma mulher baixa entrou. Nunca seriam íntimos.” Confusa com as opções. Ali tenho meu santuário. depois da breve explicação. Claude. a câmara de concepção. ou. Henri disse. “Daqui para a frente eu cuido disso. E como mudava de cor. com isso. a deformidade adquiriu de repente um status especial. o Abade soube que Claude sentia dores por causa dela. Contou que o padre Gamot fez um sermão sobre o assunto. Mas.” O tom de voz do Abade tornou-se mais suave. falou-se até em dar apoio municipal para exibição pública de sua coleção. pedindo um pouco de canela. e ele pegou Claude pelo braço. E como. e saiu rapidamente. tenho acessos de fúria. ao voltar da cabana dos Page depois da cirurgia. O único lugar onde não desejo que se aventure fica atrás desta antiga porta da capela. O Abade conduziu Claude a uma sala onde havia portas pesadas. “Espero que Henri tenha sido metódico nesta excursão. E como as zombarias se transformaram em respeito quando descobriram a semelhança entre a verruga e a efígie real na nova moeda. “Pedir canela aqui é igual a pedir simplesmente carne para o açougueiro”. “Foi uma jornada.” . “A jornada do vizir ainda está por começar. Ela cruzou. no início. a mulher aceitou canela do Ceilão em pau. e providenciou os serviços de um cirurgião. meses depois. disse o Abade. Enquanto Henri falava.” “Não”. citando as palavras de Mateus. os moradores do povoado diziam que a verruga acabaria caindo.memória. Ele contou a Henri como.” Claude sentiu-se aliviado.” Seu dedo traçou no ar anéis em espiral. “Os boatos versarão sobre todo tipo de atividade imaginável.

Usava o avental tão justo na altura do peito generoso que a resistência do algodão sofria testes severos. um local cheio de cestas com vegetais. ou seja. também. aprovando o resultado. e tinha uma cabeça com formato tão curioso que Lavater a incluiu em seus Ensaios de fisionomia. das noites em que os criados . A lavadora de pratos recolhia e distribuía restos de mexericos. Mas não igualmente. assando e saboreando. A cozinheira andava de um lado para outro. Quando Marie-Louise finalmente deixou de lado o caldeirão. Foi e voltou até os temperos. Não fosse a exigência da cozinheira de manter os utensílios “temperados”. A cozinha era dominada por um grande fogão quadrado e uma grande cozinheira quadrada que se movia em torno dele. procurava casos amorosos e deixava que panelas e caldeirões enferrujassem. MarieLouise era natif. Catherine. Até nisso elas se complementavam. Daí sua corpulência. sem parar. ignorante das ciências da face. Marie-Louise. Mais uma pitada. regando e saboreando. Uma definia a outra.) Para Claude. o que realmente fazia. certamente trazia uma doçura eletrizante à mansão. grelhando e saboreando. Sua origem era das mais pobres. grosso modo. O contador sugeriu repetidamente que o Abade a substituísse. E saboreando. transferindo um pouco do suor de seu rosto para o dele. “Trouxe de Genebra. gorducha e profundamente dedicada a sua arte. permitia que a cozinheira se encarregasse de cuidar de toda a mansão. deixava a ajudante contente por não precisar trabalhar muito. Ergueu uma tampa. “O Abade o escolheu”. não notou a chegada de Claude. Catherine era a mulher dos pés. Elas mostravam mesmo o caminho do salão nobre até a cozinha. Era a ajudante de cozinha e chambrière geral da mansão. Como contraponto ao frenesi culinário de Marie-Louise. A ajudante.7 Claude tinha razão quanto às marcas de gordura e sangue. e a pedira a Henri. Marie-Louise. era farinha de outro saco. ambas concordavam que chegara em boa hora. A última palavra pode ser definida. Adicionou sal e noz-moscada ralada — o Abade adorava nozmoscada — e conferiu o sabor. (Na décima sétima edição inglesa. e finalmente balançou a cabeça. por mais freqüentes que fossem. a mulher que precisara da canela do Ceilão em pau um pouco antes. pedaços de carne defumada e utensílios de cobre. E a ajudante. O Menino do Lápis de nove dedos.) Catherine e Marie-Louise trabalhavam em parelha. como “pau para toda obra”. sujos. A cozinheira. mas Claude não os notara. Mas “pau para nenhuma obra” seria mais adequado. teve oportunidade de saudar Claude. Reservava tais gestos. abraçando apertado o menino. correndo de um lado para outro. mesmo que não provocasse a mesma comoção da instalação do pára-raios. (Marie-Louise tinha pés. ou da chegada de um carregamento de açúcar. preguiçosa incurável. católica. para momentos mais íntimos. Claude maravilhou-se com a estampa. Estava concentrada demais na preparação de três pratos. refogando e saboreando. cozinhando e saboreando. vinha da periferia de Zurique. Catherine. fatiando e picando. As duas se adoravam. mas os protestos enérgicos da cozinheira impediram a expulsão. Catherine não o abraçou. cada um dos quais parecia exigir dela atenção total. ilustrada com mais de quatrocentos perfis. Mantinha-se ocupada durante todo o dia. experimentou o prato e balançou a cabeça. esguia. disse. latão e ferro.” Apesar da diferença na maneira como as duas mulheres receberam Claude. Catherine não seria capaz de preservar sua indolência. contudo. como costumava. Salvaria o Abade dos acessos de melancolia. para usar uma metáfora culinária na explicação das tarefas desempenhadas pelas duas mulheres. Catherine Kinderklapper permanecia sentada.

Mas os talentos do colorista e do desenhista. Conte pra ele. Se o contador permitiu a contratação de uma aprendiz. eu mesma digo. Naquele momento. acompanhada de guarnições menos exóticas.” Presente. salientou o Abade para o contador. Olhe para Marie-Louise. O Abade respondeu com um diluído raciocínio aristotélico sobre os sentidos. momentos depois que ele entrou na cozinha. Henri não se manifestou. Não deve ser culpado pelos problemas da propriedade. “Pergunte ao Kleinhoff.ouviam o mestre. “Se não querem contar. achou o jantar na mansão maravilhosamente burguês. A resposta exótica aproximou Claude de seu mestre. mas Claude a comeu com satisfação. Ninguém dá valor ao trabalho que realizamos aqui. vai descobrir por si mesmo. Duplas como . Fale das pêras!” Como Henri. Ele registrou cada colherada do jantar. “Ele não tolera nenhuma referência religiosa. Por quê? Ninguém sabe direito o motivo de tanto ódio. ou se ela está nos saboreando?”. Catherine continuou a lengalenga. A língua era mais dura do que a carne. Kleinhoff. O esmalte possuía uma longa história de parcerias semelhantes. embora não haja restrições quanto à pêra musk bastarda. trancado na capela. Ficou em silêncio em sua primeira refeição. Seria a convergência da competência técnica e da habilidade do artista. enquanto a outra cuida do ragot. quando a cabeça de Claude tocou o travesseiro — um saco de cebola com enchimento bem mais macio do que o existente em sua casa —. anunciando que o jantar estava servido. significava que Marie-Louise poderia dar comida a mais um. poderiam dar à mansão a renda tão necessária. Ao pegar no sono. dos mexericos da mansão. Tanto que distribuiu orangemusks no dia da reunião. Sentiu uma profunda ligação com o Abade. nem pensar. com uma companheira que não admitia existir. os dragões soltando fogo desenhados no morim que cobria os seios fartos de Catherine. o jardineiro. não você. Naquela noite. e os dentes para polir.” Marie-Louise corria das panelas para a mesa e viceversa. Sabe por que você está aqui. O Abade não permite que Henri marque as cores com nomes religiosos. Mas pêras da Igreja. Ele não pode cultivar madalenas. Ficou deslumbrado ao saber que as cerdas do javali eram retiradas para fazer escovas. “O menino saberá tudo a respeito disso quando chegar a hora. claro. E o Abade dará as informações. Por causa das Horas de Amor. O contador controla as despesas. “Talvez seja melhor contar o que o Abade diz a respeito destas duas mulheres. e Catherine contar com mais um ouvinte. Chocante.” “Fique quieta”. ele desenhou os acontecimentos do dia: a conversa com o Abade. “Tem uma idéia do quanto o contador nos faz trabalhar? Não temos um momento de descanso. ervilha e vagem.” Ela não esperou que perguntasse o motivo. até que perguntou inocente: “Como saber se estamos saboreando a língua. Claude tinha perguntas de natureza mais prática. Coitada. Meditou sobre a natureza de seus vínculos com o Abade. Tendo sido criado a poder de espinafre montes. ao justificar o gasto extra para abrigar Claude. O Abade é um homem cheio de segredos. sozinhos. E foi o que a ajudante fez. pinhões e sopas feitas de prímula e urtiga. “Já vou logo avisando”. A chegada do menino. e Marie-Louise pôs a mesa. “Muito bem”. unidos. Kleinhoff. O mesmo acontece com Kleinhoff. sem resposta. O que o Abade esperava dele? O que eram as Horas de Amor? A idéia era a seguinte: o conhecimento de pigmentos de Henri e a imaginação de Claude. Kleinhoff manifestou-se finalmente. gritar e tocar música triste. que lembrava as distantes recordações do pai. Ele diz que Marie-Louise cuida do ragu. Pergunte ao Henri. ela disse. ou pelo menos havia muito esquecido. preferiu deixar as explicações para Catherine. disse Catherine. “nunca fale em Igreja na frente do Abade. identificou um sentimento novo. ao fechar os olhos para tentar dormir. protetor. deve ter arrancado toda sorte de promessas do conde.” Todos riram.” O jardineiro virou-se para Claude. não valiam muita coisa. Repetira a cabeça de javali com canela. mas quieto no canto. o passeio pelo depósito. em termos mais práticos.

satisfeito com o desenho. Este raciocínio aparentemente convenceu o contador. uma seleção de broxas de zibelina de todos os tamanhos disponíveis. dois vidros de sandáraca. duas broxas de pêlo de texugo. havia um livro chamado A arte do mundo em miniatura. As proporções precisavam ser alteradas para que se adaptassem ao ar de Tournay. um par de curv as francesas. não poderia ser comparado com seus colegas. pois um deslize catastrófico o forçava a recomeçar. contudo. mostrava o conceito de necessidade do Abade: dois jogos de crayons. Henri dedicou-se à tarefa. ao voltar de alguma aventura divertida. um cavalete desmontável. Claude logo descobriu. e com o tempo seu trabalho nas Horas de Amor traria lucros. Uma lista da loja Che-rion. ele aceitou o esquema do Abade. competindo em diâmetro com os caldeirões que remexia. Mesmo assim. era lento. e muitos. na base da tentativa e erro. Desenhou as alcovas e o caixão-confessionário. O que lhe faltava em agilidade. realizar a sua parte do trabalho. muitos retratos do Abade. O pessoal na Cherion deve ter dado pulos de alegria quando. duas lentes de aumento. uma pedra-pomes. Esmaltar é um serviço delicado. Mesmo depois que Henri descobriu uma fórmula que evitava crostas e buracos. As possibilidades de equívoco eram enormes. Passava horas moendo. duas resmas de cada um dos seguintes papéis: post. gostou do título e o adaptou a uma seleção de desenhos feitos durante os primeiros dias na casa do Abade. Não conseguiu. Chegou a testar vários métodos de empilhar a madeira. enchia o forno reverberatório com os pedacinhos de azinheiro recebidos no dia da reunião. dois rebatedores.) Claude e Henri seguiriam a tradição das duplas. de Marie-Louise. enchendo o espaço com um agradável perfume de lavanda. pintava e aplicava as cores. o acesso ampliado aos materiais artísticos. misturando as cores que Claude precisava. azul mineral. Por meio dele. muito contribuíram para o desenvolvimento do esmalte. (Zinco era uma exceção singular. Em três semanas. Usando uma espátula e um palito de dentes. claro. duas paletas (uma em nogueira. Finalmente. era compensado pela perseverança. mais próximo de Tournay. Muitas vezes não passava do contorno em vitríolo vermelho. dez broxas (com cabos em cinco madeiras diferentes). um bloco. Em outros momentos. duas facas de cabo de chifre. os seios em fogo. O Abade adicionou à pasta com fita de seda o que chamou de “materiais necessários”. Poucos livros descreviam detalhadamente os métodos de misturar cores. os erros . o Lesma terminava de pulverizar e derreter. três vidros de borracha da índia. uma faca fina. batizou-os. mas. imbuindo-os de uma adoração que ele mesmo não admitia plenamente. de Kleinhoff cuidando das pêras. pois dependia do Lesma para preparar os materiais antes de poder começar a esmaltar. limpava o cobre. aplicava camada após camada de base branca ao cobre. vinte e quatro lápis pretos “que escrevem como veludo”. recebeu mais um pedido: cinco pincéis de Lyon. verde e amarelo vivo. três tabletes de cada de carmim fino. uma escrivaninha equipada. duas pedras de amolar. usando pequenas tenazes. havia feito caricaturas de Catherine. Acompanhando o material. sendo sueco. doze gizes vermelhos. diminuindo a quantidade de madeira. ou as maneiras de compensar as variações climáticas. um espelho para cópia. amarelo. Claude esperava dominar os princípios da simetria e perspectiva. um apoio para a mão. Como supervisor financeiro da mansão. e. Tinha tempo de sobra para desenhar. em estojos de nogueira. um vidro de óleo de papoula. azul. que segundo o Abade era “mais puro do que uma freira feia”. brilhante e de decalque. uma caixa de papel-cartão. dois meses depois. camadas e mais camadas de esmalte preparatório para os desenhos. Depois. Petitot e Bordier. Misturava o óleo de alfazema no pilão de ágata. E o Lesma. O que isso representava para Claude? Principalmente. Com a borra de vinho que raspava dos barris. outra em marfim). só para ver depois as bolhas e rachaduras estragando o trabalho. sendo quatro montadas em apoios de chapa de metal. um estilete. concorrente de Didier & Filhos (antes Robert & Didier). Miniaturas da mansão. e Claude podia.Hance e De Guenier. branco.

O Abade espirrava e dizia apenas: “Venha. ou temperamentais. Claude. Noutra oportunidade. Uma pequena irregularidade na distribuição do calor provocava fissuras visíveis na superfície. venha”. Mais de um retrato saiu marcado. Com o tempo. o Lesma e o Menino do Lápis aprenderam quais cores deveriam ficar para o final. O Abade informou.eram inevitáveis. Com o tempo. Venha comigo”. . deixando apenas sombras do trabalho de uma tarde inteira. contudo. Depois disso. Abandonar o posto o incomodava muito. e as técnicas foram aprimoradas. quais eram mais firmes. com uma risada: “É o alho que você comeu. O Abade. Uma vez Claude devolveu o esmalte ao forno antes que as cores se fixassem. retrucava Claude. não tinha tanta paciência. Mostraram uma paciência digna de Petitot e Bordier. Henri e Claude não podiam comer as caçarolas de Marie-Louise quando preparavam a base branca de esmalte. nada além de pernas e pés. Seu hálito muda as cores”. e observou desolado que partes do desenho se perdiam para sempre. quando Henri aproximou-se das peças que esfriavam. “Mas e o contador?”. Dizia toda hora: “Deixe que Henri se encarregue do teste das águas e misture as cores. os erros diminuíram. então. uma semana inteira de dedicação se perdeu.

engarrafavam e observavam. Assim que a carruagem do visitante cruzava os portões helicoidais da mansão — os postes interligados que o Abade mandara construir. Mestre e discípulo também se dedicavam a atividades mais formais. (O Abade dedicava-se muito ao estudo da espiral. mesmo pequena. De volta à mansão. Isso não ocorreu. e elas eram escritas. das ilustrações de Jan Swammerdam para a larva de efemérida eviscerada. Quando o contador aparecia. tentando encontrar erros nos estudos de Hooke sobre os olhos da mosca. Não achavam nenhum. embora menos lucrativos. humor irreverente. entre a fidelidade inquestionável ao califa e as dúvidas que todos os jovens vizires costumam ter. seus experimentos. dividido entre a sala de esmalte e os espaços da mansão. Com freqüência. nos primeiros meses. Ficava praticamente de fora desta aventura a atividade que deveria realizar. Ou seja. e o verdadeiro trabalho recomeçava. contemplavam e ilustravam. horários incomuns. as melhores do mercado. um tipo de embate por correspondência não mais empregado. às dúzias. embora conseguissem algum sucesso na alteração. o Abade simplesmente punha a equipe para trabalhar com o máximo de produtividade. brandindo suas tabelas.8 Claude demorou um longo e lânguido verão para se adaptar ao padrão de vida do Abade: espirros. como a imaginação de Claude. encomendado pelo Abade e entregue em um tanque com água. afinal? As anotações revelavam que o Abade não via limites nem no alcance nem na escala de suas pesquisas. Claude interessava-se pelos estudos de sons do Abade. entre experiências e educação. além das explosões de rigor experimental. forçasse o Abade a manter um cronograma rigoroso. A irregularidade das visitas do contador permitiu que o Abade desviasse Claude para terrenos mais exóticos. Ele e Claude passavam horas na base do pára-raios conduzindo. ou visitando fazendas em busca de preciosidades originais pregadas nas vigas dos estábulos. O brilho do pequeno forno bem como a dedicação silenciosa dos aprendizes tornavam qualquer recriminação quase impossível. em todas as suas manifestações. Claude mal encontrava tempo para respirar. analisavam. o teatro era abandonado. exceto por professores anacrônicos e jogadores de xadrez por correspondência. caos. comprado na Culpeper de Londres. As cartas viajavam por toda a Europa. As polêmicas implicavam escrever cartas. Tudo isso excitava Claude. nos dois sentidos da palavra. Lidavam com os problemas complexos da biologia vitelina. e pelas observações ao microscópio. esmaltar. de certo modo. baseado no princípio de que o investimento exige retorno. mas o deixava nervoso. Considerava seu campo de estudo tanto a grandeza dos céus quanto os menores detalhes do mundo terrestre. ampliando a pesquisa sobre sons do Abade. o espinho da urtiga e o ferrão da abelha. destilavam. Quando o Abade recebia um pacote com fósseis do . quando Claude enchia os rolos do Abade com anotações sobre fenômenos recentemente descobertos. inspirado na famosa escada do Vaticano. por Claude. Ele esperava que o contador. e também no sábio dito de que a entrada de uma casa deveria refletir a dignidade da pessoa que nela habitava —. Claude interessava-se bem menos pelos debates calorosos que o Abade mantinha com vários filósofos franceses e ingleses. Injetavam um líquido azul no estômago espiralado de um tubarão raposo. também conhecida como doutrina dos ovos. dissecavam. de modo a acrescentar beleza ao prazer encontrado pelo Abade nas “disputas epistolares”. os dois vagavam por florestas desconhecidas. dos momentos de descoberta e meditação.) Passavam horas debruçados sobre um microscópio caro porém inadequado. O que era este trabalho. admiravam. Ele aprendeu a dominar as penas de ganso de Cherion. As últimas eram. uma variação das ilustrações indiscretas existentes no caderno. ausência de pedagogia formal. anotavam e aprendiam.

sem qualquer relação com o resto. afinal. “Estes são os ensinamentos mais importantes que posso lhe dar.” O Abade insistiu em uma determinada passagem. contendo tudo o que o estudante aprendera. A irmã Constance. O Abade. poderia levar ao desvio ou à descoberta. ou interrompia por um momento suas anotações. antes de tudo. um mentor”.) A novidade e a abrangência da educação de Claude causaram apreensão em certas pessoas. quem se lembrava do nome do sujeito que ensinou geometria ao jovem Newton? (Foi o dr. Ele se fascinava com a maneira como o Abade se movia pela mansão. (Esta técnica não pertencia ao Abade. ao saber que o garoto Page não estava recebendo instrução religiosa formal. Mesmo quando se confundia com os relatórios sobre O crescimento das plantas no escuro. Entre os livros do Abade. Claude era capaz de encontrar consolo nos carimbos do correio: Augsburgo. em 1775. No livro constava a dedicatória: “A Jean-Baptiste.) Mesmo quando saboreava uma das refeições noturnas de Marie-Louise. como acha que vai aprender?”. O Abade aceitou a indignação da virtuosa carmelita e concordou que o menino aprendesse o catecismo. Fazia com que o jovem estudasse o conteúdo de um aposento. Ele insistia com Claude na importância das lembranças. cientista. tristonho. adicionou o caso a seu notório cahier de reclamações. e o Abade perguntava: “O que acha disso?”. bem como registros das contas do Abade durante um mês de economias desesperadas. estava na agitação do Abade. disse o Abade. o Abade testava Claude nos jogos mnemônicos. era um professor! Seu legado nunca encontraria o caminho das páginas do Dicionário das descobertas científicas.”. Quando Claude pedia que diminuíssem o ritmo. “Um homem. E assim. Isaac Barrow. não apareceria numa única linha dos cinqüenta e dois volumes que citavam homens e mulheres de importância muito menor.depósito de Ashmolean. O Abade pediu a Claude que decorasse algumas passagens (as anotações poderiam ser omitidas). e a mais distante e exótica das localidades: Filadélfia. com resultados ligeiramente menos violentos. Dresden. O livro estava coberto de observações: comentários rabiscados. desafiar e interrogar seu discípulo. referências. Mas. dada aos estudantes no primeiro dia da segunda semana do ciclo: . com regularidade obsessiva — a meditação sobre imaginação visual. e depois pedia que atribuísse a cada objeto uma história ou um fato. Par-ma. As anotações praticamente dobravam a extensão do trabalho. criando assim um palácio de memórias. em todos os detalhes. como uma bala de mosquete. Haarlem. o Abade não parava de informar. ou sobre Dimensões imperceptíveis para o olho. Claude se transportava para os pátios de Oxford ou para os jardins de Paris. são os caprichos da musa”. a abstração. e esta à abstração. antes mesmo dos protestos. afirmando que a arte da memória “é o arquivo do homem curioso”. havia um exemplar muito manuseado dos Exercícios espirituais de santo Inácio. Claude perguntou. Padre Mercurian. O Abade então dizia: “Estes. J. perguntas. por sua vez. todas as quintas-feiras. um pensamento passava por sua mente. guardado em local discreto (em cima do cravo). sendo tão velha quanto Semonides. quando se lembrava. Em Cristo. Se existia alguma prova do moto-contínuo. onde o Abade empreendia uma campanha malsucedida para receber o reconhecimento pela invenção de uma gaita de vidro patenteada por um morador da América. ou se entediava com as Notas sobre o moto-contínuo — notas que pareciam intermináveis —. Eles o ajudarão como esmaltador. A diversidade e intensidade destas diligências encantavam Claude. o Abade se recusava: “Afinal. “Quem é padre Mercurian?”. S. observador e ser humano. Sentado no caixão-confessionário. ou um ataque bem embasado de um botânico da Academia de Ciências da França. Claude era forçado a responder. O Abade planejara tudo. A discussão levava à digressão. acompanhada de uma taça de Tokay. Isso não era uma concessão. E não explicou mais nada. meu jovem amigo.

Os domingos eram dias cheios de apreensão. não era preciso insistir. Fale dos barulhos.Primeiro ponto. Do Abade. “Vamos parar com isso agora mesmo. uma postura pouco moralista.” “Eu não os vi”.” Claude não fazia questão disso. Em primeiro lugar. Claude rejeitava tal . Ficaria surpreso?” Claude teve de admitir que não. em sua imensa variedade de trajes e gestos. ver as pessoas. alguns nascendo e outros morrendo. Ele praguejou com veemência inesperada. “Se deseja o dogma. Já estive em Paris. pode ir para lã!” E apontou para as torres longínquas da República. Tentava afastar-se dos pensamentos conturbados. disse Catherine. disse a cozinheira. mas ficou perturbado pela raiva inexplicável do Abade. conte. Quanto aos temas restantes. Com Catherine. Ali encontrou a história de Hefesto. Diga a ele. descrevendo os atos do Abade na capela. alguns saudáveis e outros doentes. “Muito bem. pode ir para lá e deixar que roubem seu domingo. alguns em paz e outros em guerra. e. Respeitando sua natureza. ao ter seus segredos de domingo. Correntes e outras coisas. Um livro. E eu morri pelos pecados Dele”. sobre a vida dos deuses clássicos. e Marie-Louise também. “Eu já os vi. não era. sobre assuntos ilícitos. “Quer saber o que o Abade faz aos domingos? Ele vai para a capela. e. cada vez mais nervoso. o rumo que sua vida tomava. durante a semana. conheço as obscenidades noturnas. ele permite que tenhamos os nossos.” Claude gostava de ter os domingos para si. e não raro descrevia freiras com vulgaridade. fazer coisas escabrosas”. O ensinamento religioso do Abade se limitou a estas poucas linhas de um texto jesuítico. no dia arruinado pelos soldados de Deus.” Marie-Louise recusou-se. ele revelava uma estridente. prosseguiu com as perguntas. “Tenho certeza de que os confrades do cirurgião encontrarão um lugar para você numa das escolas de caridade da Igreja da Reforma. Claude perguntou a origem deste ódio. “Provavelmente encontra-se com uma freira. deste e daquele tipo. Ela explicou que os preconceitos religiosos do Abade estavam ligados a encontros secretos. mais de uma vez. “Digamos apenas que Cristo morreu por nossos pecados. de maneira mais geral. Entende? Até este dia. Era isso que acontecia. o irascível deus manco do fogo e da metalurgia. Se quer isso. normalmente.” “Vamos logo. refugiando-se na leitura e no desenho. O autor do livro considerava a deficiência uma suprema ironia. aqueles na face da terra. para Paris.” “Ele e quem?” Aquilo era novidade. e ele jamais se esqueceu. Marie-Louise?” Marie-Louise resistiu mais uma vez à tentação de participar dos mexericos. nos momentos solitários. quase visceral desaprovação da Igreja. “Apenas os ouvi. Aos domingos. “Nunca se esqueça disso”. Kleinhoff pôs um fim aos mexericos. Ele com freqüência mandava cartas em código. alguns brancos e outros pretos. O Abade demonstrara. um local onde aprenderá as virtudes do capricho e da dedicação. Por este motivo baniu peras com nomes de santos e se sentia tão confortável no caixão-confessionário blasfemo. Catherine entusiasmou-se. “Eu vi os dois juntos. atraía muito sua atenção. então eu conto. antes de tudo. Ou um padre. argumentando que a versatilidade do artista celestial era prejudicada pelo aleijão. o Abade disse a Claude. Pelo menos. agradeça por ser livre para ap*render o que deseja. a mulher que conhecia o escabroso melhor do que os outros. preocupavam Claude. questionava o valor de sua educação a serviço dos múltiplos interesses do Abade. Os estímulos incessantes. falou o Abade. Gritos. alguns chorando e outros rindo.

O rolo de anotações era passado como se fosse a tocha olímpica. Exigia um bom ouvido (próprio dos Page). Não há necessidade. O Abade ficou impressionado.” “Nada disso. O pio sibilante da cotovia. cada categoria incluindo grupos mais específicos. No início.” Isso o consolou muito pouco. Ele e o Abade estavam mais unidos do que as placas de uma prensa. do tentilhão e da pomba-trocaz. Claude sofria. Para cada um. os anúncios impacientes do maçaricão. É a época de semear. em contraste com o entusiasmo por tanta coisa diferente. então. durante uma visita domingueira à cabana. Madame Page tentou afastar os temores do filho. Hoje pesquisaremos os sons. capaz de dar um resultado extraordinário no final. hoje nos dedicaremos a um de seus assuntos favoritos. Onde estavam suas conquistas em ilustração e esmalte? Aos trabalhos recentes faltava a exuberância dos primeiros esboços. Claude coletou os cantos do pintarroxo. Claude disse. No departamento animal. “Concordo que haja mais proveito em se cultivar bem um único interesse. A narrativa reabriu uma ferida. Claude mostrou-se à altura do desafio. chupar de dentes e variações dos problemas intestinais. mas o verão ocupava um espaço maior. todos eram registrados com exatidão. Mesmo assim. sem dúvida. espirros. Como. Hefesto era o que era — arquiteto. Todas estas “audições”.” Claude gostava do rolo S. ourives. a maior seção do registro. as exortações arrepiantes da corruíra do salgueiro. e uma cabeça limpa. dividiu os sons entre vegetais. os diversos interesses do Abade. Ele abriu uma seção para agrupar sons conforme a estação. manter certa distância? Ele detalhou. Pegue o rolo S. para classificá-los em um sistema fonético. era impossível registrar as distinções mais sutis. adotou os métodos do Abade. as notas alegres ou pungentes. modificado. Os residentes da mansão contribuíam com os momentos de rude alívio para a taxionomia completa do espectro audível. mas dê tempo ao Abade. o compasso e a emissão das melodias. o grito selvagem da toutinegra. . apresentavam a Claude um problema singular. e o fez apenas com seu bom ouvido e imensa capacidade de concentração. para a mãe. logo tornou-se seu também. Claude. Embora no início o projeto pertencesse ao Abade. balidos e mugidos do pátio.” “Aprenderá isso com o tempo”. armeiro.interpretação. como dizia o Abade. retrucou o Abade. “Se eu me concentrasse em uma única. Entre os ruídos humanos. ele empregou um sistema de Lineu. Com freqüência. como o pó que flutuava nos aposentos da mansão. Ademais. para registrar todos os sons do vale. Claude temia que seu aprendizado fosse por demais incoerente e difuso. para que ele revele seus planos.. Pode estar cultivando um jardim variado. não por aquilo que o deus fazia. A tudo isso adicionava-se a esperada sinfonia de latidos.” “Gostaria de me restringir a um assunto específico”. adicionou o registro das tosses. para dar apenas um exemplo. desde o ciciar da cigarra até o cantar dos grilos no calor de uma noite de verão. “Tenho dificuldade em absorver tudo o que fazemos.. As páginas cheias do outono eram suas favoritas. “Você registrou tudo. mas por tudo o que ele não fazia. em parte por causa das aves migratórias que passavam pelo vale. animais e físicos. Ele contou suas frustrações para a mãe. Claude anotou muitos sons que haviam escapado ao Abade antes. Este estágio de sua vida exige que muitos campos sejam plantados e arados. registrou a suavidade dos tons. não podia negar uma sensação contraditória e surpreendente: o amor desesperado pelo mestre. “Não se preocupe tanto. Sua deformidade tornou mais clara sua ambição de produzir objetos perfeitos. Com um rigor que o ajudaria muito nos anos seguintes.” E os pássaros! Esta era. construtor de carruagens — porque fora expulso do Olimpo.

Os chamados dos pássaros também incomodavam Claude. Leu Kramer. e familiarizou-se com a monografia de Scopoli sobre as criaturas aladas do Tirol e de Carníola. como descobriu ao descer na gruta de Golay. Todos inadequados a seus propósitos. Foi forçado. conseguiu afinar o cravo da mansão. o contrário também valia: para imitar a Afiação da Serra. O método. (Claro. pelo sapateiro. Pés Caminhando na Neve era um som indistinto do barulho que o padeiro Rochat fazia ao despejar uma saca de maisena.usando uma mistura de notações. Usando um diapasão de soprar barato. e mesmo um novo senso de envolvimento. O Crepitar do Fogo e o som produzido pelos dedos contra a palha da vassoura eram idênticos. mostrou-se deficiente para registrar o som da cometa de caça. . mais de três dúzias. Plooop. Com a ajuda e a aprovação do Abade. era só encontrar um chapim do brejo disposto a cantar. Ao rever suas anotações.) Outras correlações se seguiram. Seu método trouxe consigo uma revelação surpreendente. Ao fazê-lo. capaz de dar a Claude alguma tranqüilidade. Claude descobriu que a coruja do teixo sempre piava em si-bemol. por exemplo. Claude criou um conjunto de sinais criptográficos. ele conseguia relacionar as semelhanças entre fenômenos não relacionados. plippp não adiantava nada. Como poderia registrá-los adequadamente? Ele estudou Brisson. O Bater das Asas da Águia podia ser repetido pelo bater de duas peças de couro. O Canto do Chapim do Brejo podia ser imitado quando se afiava uma serra. plipp. e chegou a consultar Ray. no final. depois modificada para abrigar também os relógios da mansão. contudo. ou as ressonâncias distintas dos pingos nas cavernas. capaz de registrar tanto a cotovia quanto o raio. Na parte dos sinos. a rejeitar a notação musical dos sineiros e os métodos descritivos dos naturalistas. ele empregou a campanologia convencional dos sineiros. tornou-se capaz de provocar artificialmente determinados sons.

Tão errado. vou checar isso. que interrompeu sua conversa com Marie-Louise para alertar a dupla. está fazendo um escândalo em Paris. nem Claude nem o Abade notaram a presença do inimigo. “Pegos em flagrante. de forma que Claude compreendeu a gravidade da situação financeira do Abade. E. Tenho mais uma conta de Cherion aqui. disse o Abade. “Ahá!” Claude. Há contas de instrumentos de medida. Esqueceu-se das condições de sua propriedade.9 Durante o estudo dos sons dos vapores as coisas deram errado na mansão. Na paróquia vizinha os camponeses pagam suas obrigações com um terço da renda bruta. conforme estabelecido pela Coroa? Não tem nenhuma imunidade fiscal. terrivelmente. No meio daquele caos líquido. O duque tem ataques em Milão.” “Estamos no vermelho?”. chocado. muito sérias. interrompeu o Abade. “Conseguiu um crédito na Imagem do Globo. enfurecido por ter sido enganado. uma panela de pressão — para criar o máximo de silvos. Em função do envolvimento com a experiência — os silvos eram quase ensurdecedores — os pesquisadores deixaram de ouvir os alertas avançados de Kleinhoff. o livreiro. Não posso aceitar isso. Onde estão elas? Onde estão as ilustrações prometidas? livre. “Muito bem. que gritava do alto de uma árvore. realizado em seu benefício.” O contador espumava com uma ferocidade comparável à dos líquidos em ebulição. Tampouco eles escutaram o grito de guerra de Catherine. um apoio.. com a condição de enviar a Livre encomendas de Horas que ainda não produziu. três frascos de óleo de papoula. deixou cair uma retorta de vidro no chão de pedra. “Tínhamos um acordo.” “Sim. a não ser quando já era tarde demais. enquanto enfrentava uma investida furiosa de pulgões terríveis. o Abade poderia aproveitar a oportunidade para avaliar pessoalmente o método de produção de gim recentemente detalhado nas Transactions. E os credores.. não é mesmo? Não deu tempo de montar a falsa imagem da Arte de Esmaltar? Estou impressionado! Suas tramas e conspirações terminaram. estalos e espumares que pudessem. “Em minha residência. E no quê? Em fósseis e material artístico. estou fazendo um escândalo mesmo! E tenho todo o direito de continuar. como o vapor emanado dos aparelhos enchia o aposento com uma névoa densa. gerados pelo calor. perguntou o Abade. Calculavam que os líquidos borbulhando em peças de cobre e vidro de tamanhos e formatos diferentes aumentariam as setenta e quatro categorias já registradas na seção de Ruídos Vaporosos. No último ano você gastou mais do dobro de sua renda anual. curiosidades da natureza e comestíveis extravagantes. como ficam?” O contador estava furioso demais para guardar segredos. “Foram apenas dois frascos de óleo de papoula”. na verdade. foram encontradas nos livros. O Abade e Claude reuniram na mansão uma variedade considerável de aparelhos para destilação — retortas. Quais as suas receitas? . que Claude foi forçado a abandonar suas investigações sonoras e retornar à arte do pincel de zibelina.” O contador mostrou outra conta. Adicionalmente. “Como tem coragem de perguntar? Suas dívidas são suficientes para cobrir o mont Blanc. estava o contador.”. alambiques. Deve ter hospedado um exército. “Discrepâncias muito sérias.” O contador contou: “Duas resmas de papel post. Concordou em usar este menino para as Horas.” “E você está fazendo um escândalo também”.

Claude fazia os cálculos e anunciava a solução. O Abade rasgou um pedaço de papel de uma publicação sobre filosofia experimental. Você quer pôr um preço na beleza. calculava e anunciava. de acordo com seus padrões.” O contador ofendeu-se com o uso inadequado de um termo tão importante para ele. Ignorou tudo. Lutar com as fórmulas exóticas estimulava as recordações de seu pai e evocava mitos dificilmente associados à matemática. Nem diminuir a importância de cada pêra. para deleite à mesa e progresso das artes botânicas.” “Não dá lucro nenhum. de cada pêra extraordinária. ansioso pelo teste. O resultado concreto desta atitude é que seus campos só são ricos em ervas daninhas. Fez avanços em Álgebra?” Claude balançou a cabeça afirmativamente. Pode se retirar. e persa. Tenho a conta das mudas de pereira trazidas da Inglaterra. que adubou cada árvore com uma mistura de estéreo de porco e terra preta nos meses quentes. um tanto incorretamente. “Suponhamos que eu diga que o prepúcio de meu membro seja multiplicado por três quartos do comprimento deste membro.Lembre-se de que não recebe subsídios. o jovem estudante dedicou-se a suas complexidades com fervor. nem precisava indicar o lugar exato. “Faremos um teste. Pode ir para o. que protegeu as frutas dos pulgões. os dedos agarrados ao lápis macio — um Cherion. Por qualquer padrão. Setenta libras! Apenas três mudas vingaram. aplicando diligentemente a regra usada para lidar com quantidades variáveis. Claude.” “Concordo que minha propriedade não dá grandes lucros. trigo e madeira. Precisa aumentar sua renda. sendo um deles. para verificar os progressos em seus estudos.” “Está fazendo jogo de palavras? Isso não vai adiantar”. segundo Kleinhoff.” “Estas pêras não poderão sustentá-lo por muito tempo. Então fique com sua rotação de culturas entre nabo-cevada-trevo-trigo. Quando foi informado. “Providenciarei para que as Horas sejam feitas.” “Chega de reclamações”. de que a Álgebra era árabe. como deveria. disse o Abade.” “Chega!”.” O abade não terminou a frase.. Trouxe o menino para fazer as Horas. sugeri uma série de procedimentos razoáveis. Eu fico com os meus. e até agora não produziu nenhuma Hora. Quando concordei em cuidar das finanças da mansão. se quer se livrar dos credores. Quando o Abade considerou a mente de Claude suficientemente aberta. estou disposto a exercer meus direitos legais de receber as importâncias devidas. nem prebendas. O Abade começou com um problema simples. e outros de dificuldade crescente. o contador disse amargurado. além disso. Eu queria explorar três fontes básicas de renda: vinho. “A única coisa que plantou foi aquele pomar desgraçado. conforme os valores atuais de mercado. Riu de mim. nem chegou a prová-las. E não preciso avisar que. Levantei cuidadosamente os custos para adubar os campos próximos. que se sentou disposto.. produzida por um jardineiro dedicado. Valem cada centavo investido. e o resultado seja igual ao comprimento total. Fico satisfeito com minhas pêras. Se incluirmos os custos indiretos. e estéreo seco de cavalo no frio. Não pode. nenhum apoio da Igreja. claro —. chegaremos a nove libras por pêra. vinda da índia. Por quê?” “Terá as Horas na hora certa. Nossos objetivos jamais coincidirão. introduziu uma questão destinada a revelar a natureza secreta das Horas. meu prepúcio representa um . doze pêras. “Fique com seus cálculos. Qual foi sua resposta? Disse que só se preocupava com as maravilhas do mundo. Não viu as pêras. “Não tem outra escolha senão fazer com que o aprendiz comece imediatamente. O Abade passou a prova a Claude. vinda da Pérsia. Agricultura. o Abade gritou. vespas e caracóis. fornecendo.

“Ficou chocado?” Claude escolheu as palavras com cuidado. tiradas da sua cabeça.” Claude não esperou uma segunda ordem. ou. eu notei. dezesseis polegadas. um pouco menor.” O Abade continuou a falar. A mulher. na verdade uma caixa de madeira entalhada.” O Abade devolveu o voleio com um gesto rápido das mãos. “Não. Chega de ilustrações bonitas. senhor. mais precisamente.” Enquanto caminhavam. Mas o espanto não era algébrico. a excitação de Claude aumentava.. alterado pelo cozimento inadequado. “E eu sei que o esmalte é pobre. O trabalho em esmalte não era lá grande coisa. Mas.” “Uma resposta elegante. A tampa mostrava um homem e uma mulher. de agora em diante. parados. Claude sabia que estava a ponto de conhecer outra variável inesperada da vida do Abade. O problema ia além do humor grosseiro que por vezes permeava a conversa do Abade.” Claude olhou de novo. creio que deve estudá-lo melhor.doze avôs do todo. aí não. Pode me dizer o comprimento do membro em polegadas? “ Para atenuar a perplexidade de Claude. “Está franzindo a testa”. Claude olhava fixo para ela. e uma touca ridícula. típico do casamento. dois e sete”. “Posso ver. mostrava um conhecimento inferior ao seu. Não se compara com as maravilhas mecânicas que seu pai levou para a Turquia. pois faltava o mecanismo. Marido e mulher mantinham as mãos nas costas. O homem usava uniforme de tenente francês. Mesmo assim. com dragonas mal pintadas nos ombros. o Abade ajudou: “Uma dica: regras três.” “Porquê?” “Segundo meus cálculos.. para o problema. Seus progressos foram exemplares. que continha outro menor ainda. Resposta correta. “Chegou a hora de apresentá-lo às Horas de Amor”. o nervosismo do mestre contaminou o discípulo. “Venha comigo. “Você já passou bastante tempo esmaltando. e quando o Abade pegou o último baú. “Creio que cometi um erro.” “E é isso mesmo. por sua vez. “Chocado. uma caixa de relógio. Sim. por sua expressão. melhor ainda do que a solução. lado a lado. mesmo que o entusiasmo tenha diminuído um pouco. que não se impressionou. observou o Abade depois que Claude terminou os cálculos. o comprimento seria. “Dê uma olhada nisso. mais pela magnitude da resposta do que pela natureza da questão. continha outro. A expressão de ambos revelava um tédio profundo. Era um relógio. O que acha?” Claude o estudou de perto.. Este. Ele o abriu e retirou outro baú. sobre a qual havia um baú. disse o Abade levando Claude até uma mesa. o trabalho exigirá dedicação redobrada. “Para um certo nobre. Conforme os baús diminuíam de tamanho. Ficou desapontado. Aqui!” . impedindo que Claude mergulhasse nas fantasias sobre príncipes em camelos.” O Abade riu. um vestido longo. reagindo como se devolvesse uma bola de tênis na quadra do salão nobre.” O Abade retirou um objeto da caixa..

) Especificamente. Isso reduziu meus recursos a pouco mais do que se vê hoje em Tournay. como sabe. montei uma grande biblioteca. e deu com a freira nua.Claude descobriu. Fui forçado a concordar. o Wunderkammer de um príncipe menor da Saxônia. “Por este motivo. mostrando no verso da tampa o mesmo casal. Claude. Eu já concordei. A caixa se abriu. Não usavam mais as roupas da frente. As mãos do oficial se destacavam. falharam. Pelo contrário. É um trabalho que me interessa. acariciando a amante. equipamentos. Nada de dragonas para ele. Fiz algumas experiências. Percebi que você poderia fazer o que Henri não conseguia. O contador adiantou os recursos necessários para o empreendimento. às vezes de forma extravagante. dediquei-me às pesquisas. disse o Abade. O Abade pegou as caixas de relógio. sem me preocupar com os custos. temos de pintar as tampas dos relógios. resmungando que uma experiência dióptrica exigia sua atenção. Sabe?. Um dia vi seu caderno de desenho. mas Henri mostrou-se incapaz de trabalhar com a destreza necessária. Há muito tempo ele procura tornar esta terra lucrativa. Para que possamos realizar nossos trabalhos. fabricaremos peças assim. cuja posição na alta hierarquia da Igreja era definida apenas pela mitra na cabeça.” Ao terminar. descobri que eu não era o único a gastar. há mais de dois anos. o Abade saiu. (Talvez injustamente a suposição de marido e mulher foi deixada de lado. Ela recebia a extrema-unção de um prelado bem-dotado. achou o material meio cansativo. comprei conchas. Comissões exageradas e incompetência foram acompanhadas de formas menos aceitáveis de desonestidade e exemplos mais espetaculares de cobiça. rezando. “Estas. partir para as Horas. Na verdade. numa farra. uma protuberância discreta. certo?”. Entrei em contato com Lucien Livre. fui forçado a me submeter à meticulosidade deste contador desgraçado. uma outra forma de dizer que estou à beira da falência. Herdei uma fortuna. bem mais ousada. e fiz um trato escuso. Foi assim que consegui a presa de narval. e. cuja forma lembrava a Claude as pêras de Kleinhoff. são as Horas de Amor. “Os traseiros atrás. Eu explico. As tentativas.” Claude encontrou uma fenda bem discreta. Você deve pintá-las. em troca de parte dos lucros. Resolvemos. O manto branco sobre o hábito marrom escuro não deixava dúvidas. Você pintará as caixas. Claude folheou os livros que serviriam de inspiração para as Horas. o tenente acariciava as nádegas da parceira. Use sua faca para abrir a tampa. Grande parte das terras já foi vendida. ocultando paixões indiscretas. por falar nisso. “Eu a chamo de Freira de maus hábitos. numa inspeção detalhada. desta vez de costas. encomendas de relógios discretos. Mais uma razão para aturá-lo. Meus banqueiros também realizavam experiências de difusão e evaporação — com a minha herança. Durante anos. “Aperte”. O Abade mostrou outra caixa de relógio. Não estava chocado. embora idoso. Seu traço é mais delicado. deixando Claude com o material licencioso. Faltavam as aventuras nos celeiros dos desafortunados Golay. e sua imaginação. a avareza de meu pai fez de mim um homem muito rico. Claude obedeceu. O Abade entregou a peça. e a gastei sem refletir muito. era a irmã Constance. nem de touca rendada para ela. dono de uma livraria em Paris. que no meio de um bando de crianças exploravam os orifícios do corpo normalmente cobertos pelas roupas. No futuro. Faltava a busca dos prazeres bovinos . francamente. Ele explicou que não posso mais contrair dívidas superiores à minha capacidade de pagamento. marido e mulher estavam nus. Ele concordou em fornecer o material erótico — livros e ilustrações — em troca de Freiras de maus hábitos. Nada disso teria reduzido meu patrimônio. uma paixão desde os tempos da Companhia. Eu cuidarei do mecanismo. desta vez com uma freira ajoelhada. não muito diferente de uma asa de joaninha. disse o Abade. Infelizmente.

Ninguém. fica fora do conhecimento geral. Mesmo assim. claro. Quanto à sedução. Como pode ver. e o conhecimento é compartilhado seletivamente. As razões para a confusão eram bem óbvias: a conexão entre segredo e Verdade com V maiúsculo era tênue. apontando para um rolo com um H floreado numa das extremidades.” O Abade soltou a fechadura de latão e desenrolou um pedaço. Os epigramas confundiram e seduziram Claude. Militar de uniforme. a vergonha. deu-lhe uma idéia do acasalamento impetuoso. e imaginou seu serviço no ramo especializado do esmalte erótico.de Jean. Os outros desconfiam apenas ligeiramente do que ocorre. Sobrinha na farra com cão. O Abade o interrompeu. a cabrita puxava o pastor para o lado contrário. Uma caixa. pode ocultar os escândalos mais complexos”. Aqui. “Consegue ler meus garranchos?” Eram parecidos com as marcas deixadas pelos caracóis nas árvores frutíferas. para o duque de Milão. (Esta cena. a agonia. E pode-se dizer que as lembranças de Claude eram muito mais escabrosas e muito mais interessantes do que as gravuras que observava. Claude copiou em seu caderno o esboço no qual calculara o comprimento do membro hipotético do Abade. seja de um homem seja de um relógio. as paixões e alegrias — todas as escolhas realmente importantes da vida — ficam melhor em segredo.) E faltava também o conhecimento tátil que Claude adquirira quando sua família inteira compartilhava a mesma cama em sua casa.” O Abade prosseguiu: “O segredo é a parte à parte. Devem permanecer assim. que ampliava o significado da expressão “amor pelos animais”. Nossos medos mais profundos e esperanças mais altas devem ser protegidos. Uma caixa. O Abade fechou a caixa. “Está ótimo. de cobre. registrará o trabalho que fizer. Claude registrava uma destas recordações. E o que se situa fora do conhecimento geral se aproxima da Verdade. Faltava uma cena observada por Claude do alto de um morro: a penetração de uma prima distante por um pastor de cabras local. Mas não há nada de errado em se manter segredo. de prata. Freira de maus hábitos. Trata-se do único rolo que fica trancado. a não ser você. à Ia Frago. um igual. tem uma idéia completa das Horas. As caixas dos relógios são todas numeradas e os motivos detalhados. Já fiz isso antes. o rolo H contém várias encomendas secretas. A sujeira.” Claude leu alto a lista de encomendas: Uma caixa. Mas o segredo implica conhecimento. Conforme os amantes tentavam sincronizar seus movimentos. de prata. embora parcialmente obscurecida pela neblina. quando o Abade voltou e disse: “Traga aquelas notas para cá”. ainda mais extraordinário pelo fato de uma cabrita estar amarrada ao pé do participante que ficou em cima. num desenho. Claude tornava-se mais um colega. aprenderá que a face mais simples. a cena do jovem casal com a cabrita. . o queijeiro. “Este é o controle das Horas. Tudo o que aprender em nosso trabalho deve permanecer entre nós. esperando que a colaboração mais estreita trouxesse alegrias ainda não experimentadas. derivava da confiança do Abade. Ao ser apresentado as Horas. “Creio que sim. para o bispo Monceau. A perspectiva de esmaltar não o atraía. para o conde de Corbreuil. Era a primeira vez que o Abade revelava precisar de Claude. Mesmo que não aprenda mais nada.

“Mais pesquisas sobre sons. desde sua chegada a Tournay. ampliou o espectro de cores disponíveis. com janelas medievais. Infelizmente. As janelas minúsculas. pela primeira vez. o Abade se aproximava da estabilidade financeira. logo rivalizava com o de Adolphe Stàmphli. embora contente com a melhoria da situação do Abade. incluídas entre as páginas de um tedioso livro de religião. Depois de calcular os lucros. no pombal. cadelas no cio imitando senhoras da sociedade. quando o sujeito ergueu o vestido de uma menina pulando corda. Ou seja. embora sem inspiração. As Horas seriam feitas exclusivamente em prata e ouro. Refugiava-se no observatório no alto da torre. permitiam que Claude absorvesse o mundo enquanto permanecia escondido. Depois de pintar mais de meia centena de Horas. principalmente porque a menina era sua irmã Fidélité. Lá fora. o Abade subestimara a extensão do descontentamento de Claude. Tentou usar um jogo de cinzéis especiais. Você enfrentou o forno e domou a veemência do fogo. Muitos artistas adquirem a qualidade de seu trabalho em esmalte. O contador aceitou a decisão. talvez porque evocasse a sua própria frustração. Fez uma Dama de renda muito parecida com Catherine. notários e clérigos empunhando seus instrumentos profissionais (aparelhos de lavagem. transmitia uma sensação de segurança inexistente desde a saída do lar materno e seu sótão. voyeurs adolescentes. Dentro de círculos do tamanho de um louis d’or. perguntou o Abade. Como Claude poderia resistir? Mesmo a novidade destes desenhos se esgotou. chicoteadores e um sortimento de perversões mais obscuras.” Pouco depois de fazer esta afirmação. Ele combinava desenhos de seu caderno com o material erótico impresso. se o esmalte funciona o artista funciona. A vulgaridade nebulosa de Fragonard ganhou um tom familiar. A pequena sala de teto baixo. Seu conhecimento de anatomia. escapulários incrustados de pedras preciosas) de maneira pouco profissional. o Abade decidiu que a habilidade do menino não deveria ser desperdiçada em ligas pouco nobres. pintou médicos. Os trabalhos “filosóficos” trazidos de Paris forneciam os modelos para banhistas de bidê. com a ajuda de Henri.10 Os primeiros esforços de Claude apareceram em discos de liga de cobre. pelo menos em certas partes. Havia cenas grotescas das Sabinas e ilustrações lascivas de Afrodite e seu filho. descobriu animado que os metais nobres dariam um retorno proporcionalmente mais alto. pouco se interessava pelo trabalho que fazia. não é o que deseja?”. ele descobriu que só conseguia manter o interesse concentrando-se na técnica. “Não posso compreender por que seu talento não o satisfaz. Com o tempo. de criadinhas em momentos amorosos. contudo. e que. e. Claude. Pintou colinas e vales de carne humana — coxas e seios e os ventres entre eles. recolhendo salitre. confessou seu estado de espírito ao Abade. Muitas das imagens foram inspiradas em uma série de gravuras em aço. Ele observava as pereiras carregadas e os pombais . Você não. pouco mais largas do que sua mão. “Não? Então o que quer?” Claude não sabia. a ajudante da cozinha. Mas isso não aliviou o tédio. Eros. originalmente destinadas a um bordel. ele reproduziu uma seleção competente. se o esmalte racha o artista racha. penas emplumadas brilhantes. senhoras da sociedade imitando cadelas no cio. Os desenhos melhoraram quando Claude passou a ilustrar com base em sua experiência pessoal. As caras do açougueiro e do ferreiro de Tournay ganharam corpos de deuses gregos e romanos. Claude. e nos prazos estipulados. Usou os rostos dos moradores do povoado nas entidades mitológicas.

Claude passou grande parte de seu décimo terceiro ano no observatório. faltava-lhe paixão. Talvez fosse a altura. a torre permitia a Claude reconhecer que. Acompanhava a mudança de estações. embora sua habilidade com o esmalte ainda pudesse ser aprimorada. Estas cenas acalmavam seus nervos e destilavam seus pensamentos. as quais ficavam parecidas com as tonsuras na cabeça dos franciscanos. Ele observava os pássaros iniciando o ataque contra os insetos que ressurgiam na primavera. . apreciava a neve que derretia no alto das montanhas. ou o isolamento. De qualquer maneira.cheios de vida.

enfrentou a neve da primavera para chegar a sua casa. quando as folhas eram menos oleosas e guardavam melhor suas propriedades. madame Page realizava a colheita das ervas quatro dias depois da lua cheia. Pelo cheiro de vinho. Fígados de ganso de Estrasburgo e lebre custavam o mesmo que as ervilhas em conserva. Chegou à cabana pouco antes de o sol se pôr atrás das árvores mais altas. enfeitada por um dos Golay com flores silvestres. (Sempre que andava pela neve. Claude tentou se informar no Cão Vermelho. Blaise e Mardi Gras. Embora deslumbrado pelos foliões em tomo da imensa cruz montada na rua. As irmãs se amontoavam na cama. ratos caçavam gatos. As pessoas batiam umas nas outras com espadas de madeira. ele se via no papel de senhor da mansão. e a água pelo preço do vinho. Como a neve começava a derreter.) Durante a época alucinada do Carnaval. entrelaçadas como amantes a dormir. no campo atrás da fazenda dos Golay. Queria conversar. ao secar. Até mesmo o contador não conseguiu impedir isso. As festividades forçaram a interrupção dos trabalhos na mansão. enquanto outro grupo masculino dançava com manguais. como idiotas medievais. na pedreira onde meninos e meninas locais e o Abade cavavam em busca de dentes de tubarão e pedras fossilizadas com cobras e outros animais. suspeitou que estivesse à procura de raízes. além do pão festivo assado por Jean Rochat — o mesmo Rochat que manipulava a maisena e cuja orelha fora removida . Um grupo de foliões realizava a dança da espada — um dos rituais pagãos mencionados — bloqueando a entrada da taberna. Claude não parou. Significava que se poderiam encontrar raízes tenras. (Em contraste. Na porta. Três homens animados pelo vinho batiam tambores suíços e sininhos. Dois fatos confirmaram suas suspeitas: a prateleira onde o cesto de raízes e a tesoura eram guardados estava vazia. e a lua crescente. coincidiu com o Carnaval. famoso pelos excessos. por causa das homofonias no rolo S. e as plantas a brotar. um período retumbante entre St. e vice-versa. percebeu que tinham bebido. Ficou preocupado ao notar que a mãe não se encontrava em casa. Entrou na taberna. caçadas e divertimentos. contente por se livrar de suas responsabilidades. ricos e pobres trocavam de lugar no turbilhão das inversões descontroladas. Tudo virava de cabeça para baixo. Teria de procurar em vários locais: no bosque de carvalhos perto do rio Tournay. Ele tentava ignorar as comemorações pagas e cristãs. Os espadachins evitavam os manguais.III O COGUMELO 11 A primavera. Claude. servido por um Abade ineficaz. O suprimento de artigos de luxo logo se esgotou no Cão Vermelho. em Tournay. pelos banquetes e bailes de máscaras. recordava-se da maisena manipulada. e o escravo senhor. pelo menos na imaginação fértil de Claude.) Claude não conseguiu descobrir nada por intermédio das irmãs. restando apenas água e ervilhas a preços absurdos. quando não pela licenciosidade. Gaston afixara um aviso informando que o vinho estava sendo vendido pelo preço da água com alcaçuz. quando o céu se tingia de um azul impossível para a paleta do esmaltador. O senhor tornava-se escravo. no pasto. Claude evitou a ambos. Encontrou a casa surpreendentemente quieta. O frio enrijecia suas juntas e paralisava seu dedo perdido enquanto ele destrancava a porta.

pelo cirurgião moralista.
Gaston se vestira com uma pele de urso, homenagem a St. Blaise. Como
mestre-de-cerimônias, tecia comentários vulgares pontuados com as declarações
fedorentas do final da hibernação. Ele interrogou Claude, o tanto quanto sua
embriaguez permitiu, sobre o cotidiano na mansão, mas o aprendiz manteve os
segredos do Abade secretos. Depois de ouvir piadas velhas e peidos, Claude
descobriu que sua mãe estava numa clareira, acima da pedreira. Ele saiu do Cão
Vermelho escutando comentários sobre madame Page e suas poções de bruxa, além
de menções aos negócios ilícitos do Abade.
O luar tornava a tocha de Claude desnecessária. Encontrou a mãe no lado sul
da pedreira. Ela se agachara para colher um pouco de unha-de-gato, planta usada
no tratamento de problemas no estômago. Mãe e filho se abraçaram.
“Vai ficar quanto tempo?”, ela perguntou.
“Só esta noite, e amanhã. Preciso voltar para meu trabalho com esmalte.”
“E como vai o trabalho?” Madame Page recomeçou a colher as plantas,
fazendo um gesto para que Claude a ajudasse. Ele se abaixou, e, num movimento
aprendido havia muito tempo, puxou e limpou as unhas-de-gato, sem danificar a
delicada planta.
“O Abade disse que sou muito bom no que faço”, disse Claude entregando a
planta. “Segundo ele, eu “domei a veemência do fogo”.”
“É mesmo?”
Claude ficou um minuto em silêncio, depois franziu a testa. “Não domei nem a
mim mesmo. Já falei, não sinto prazer no trabalho.”
“Seu trabalho dá prazer aos outros?”
Claude ignorou a pergunta da mãe. “Os desenhos nem se comparam aos
esboços que eu fazia no sótão.”
“Que desenhos?”
“No esmalte.”
“Está exagerando, sem dúvida”, disse a mãe.
O comentário inadequado só exacerbou a melancolia do filho. “Olhe aqui”,
Claude disse abrindo os cordões da bolsa para tirar uma caixa esmaltada. Sua mãe a
estudou ao luar. Um macaco grosseiramente pintado, de fraque e peruca, olhava fixo
para a frente. “Entende agora?”
Ela não entendia. Via apenas um rapaz descontente, cujo descontentamento
não compreendia. A única atitude possível era deixá-lo desabafar, o que fez durante
o resto da noite. A raiva e a impaciência explodiram quando ele descreveu a
confusão geral na mansão.
“A situação melhorou?”
“Nem um pouco”, respondeu Claude.
A mãe consolou o filho com um sorriso, e, quando o sorriso foi oculto por uma
nuvem que cobriu a pedreira, ela virou a cabeça. De madrugada, quando o vale
sumiu na neblina e o ar úmido molhou sua face, Claude ainda falava. Um vento,
distinto da Viúva Vingativa, soprava silencioso, e uma variedade de pássaros da
região, registrados no rolo S por Claude — cotovias e tordos, principalmente —,
surgiram em busca de alimento. Tanto Claude quanto a mãe estavam cansados.
Mesmo os amigos da noite precisam dormir. De volta à casa, madame Page parou
entre os carvalhos, para falar sobre os problemas levantados pelo filho. Ela procurava
levar conforto para um jovem cansado e desanimado. Batendo com a mão no tronco

de uma árvore frondosa, ela disse: “Este vale sempre terá seus carvalhos, Claude.
Plantas orgulhosas, imóveis, sólidas, enraizadas, que nunca se mexem nem mudam
repentinamente, encontrando grande consolo no isolamento, embora a seu redor
encontre-se uma centena de outros carvalhos.
“E também há o cogumelo, um pequeno ser delicado, que surge na base
destas árvores monumentais. Eu enchi minha cesta com eles, bem aqui. O cogumelo
nasce nos lugares mais inesperados. Gosta de mudar sempre. Um ano brota aqui, no
ano que vem, lá longe. Um carvalho não pode ser um cogumelo, nem um cogumelo
um carvalho. Seu pai era um cogumelo. E o Abade? Ele deseja o movimento e a
permanência. Não pode ter as duas coisas. Ninguém pode.”
A mãe de Claude raramente falava com tanta clareza. Sua parábola tratava
de um problema sobre o qual precisava refletir e levar ao Abade. Claude gostaria de
ir direto para a mansão, mas a mãe insistiu para que retornasse à casa da família,
mesmo que fosse por um momento apenas. Queria dar-lhe algo. Ele esperou do lado
de fora, sabendo que o encontro com as irmãs provocaria cenas de ciúmes e
recriminações que considerava irrelevantes em comparação com seu
descontentamento. A mãe saiu dizendo: “Tome. É importante que você carregue o
espírito do cogumelo, o espírito do movimento”. Ela entregou a Claude o relógio
enviado de Constantinopla. “Foi a única coisa devolvida. Pertencia a seu pai. Agora é
seu.”
Claude olhou para o relógio quebrado. Quando criança, sempre imaginara
que seu pai o levava, ao percorrer os areais e montanhas de terras distantes. Pesado e
parado, o relógio o entristecia. Ele o pegou como alguém pega um ovo delicado.
Embrulhou-o em um pedaço de pano e guardou-o na bolsa de tecido que continha o
macaco esmaltado. Afastou-se da casa e trilhou o caminho de volta para a mansão.
Enquanto caminhava, meditava sobre as reflexões da mãe, e sua ligação com o
homem a quem tanto amara, apesar de todo o ressentimento. Pegou um atalho por
trás da pedreira, passou pelo depósito de pedras e de calcário. Viu que se encontrava
numa área rica em vida animal fossilizada. Ele parou para arrancar uma concha
espiral com o canivete.
O Abade inspecionaria o fóssil, bem sabia, e perguntaria bem alto: “Vamos ver,
Claude. A concha está partida, torta ou enrugada? Procure fendas e orifícios.
Experimente. Doce ou salgada? O que podemos concluir? Esta criatura veio do mar,
ou de um lago?”. (O Abade mantinha correspondência regular com o geólogo
pioneiro Abraham Gottlob Werner, e era um netunista convicto.) Depois pediria o
“Décimo”, e classificaria a concha conforme o Systema Na-turae. Se fosse um achado
comum, digamos, Helix ramondi, ele a jogaria na pilha de ostras petrificadas, tão
freqüentes na região de Lausanne. Encerraria a lição com um conselho ligado a seu
espécime favorito: “Preste atenção à forma espiralada do náutilo — tributo da
natureza ao abrigo, à proteção, à perfeição helicoidal. Seu método de proteção é
um mistério. Sabemos apenas que se trata de uma criatura que se encolhe nos
momentos de terror e deleite”.
Mas Claude já não ansiava por este diálogo previsível. Não mais apreciava a
grandiloqüência do Abade — frases elegantes envoltas por um repertório de
conhecimentos. A insatisfação mais profunda obscurecia todo o encanto que os
devaneios pedagógicos do Abade possuíam antes. Claude não se importava com o
mundo dos fósseis, assim como não ligava para os esmaltes. Até mesmo a pesquisa
sobre sons deixou de “despertar seu interesse. Ele parou na beirada da pedreira e
olhou para o vilarejo lá embaixo. Viu o Calvário que marcava as esperanças de um
milagre que não viria. Mais uma vez, ele mergulhou na inversão carnavalesca, e se viu
como o Senhor. Sua raiva aumentou. Ele jogou longe o fóssil, e depois o macaco
esmaltado.
E voltou para a mansão, carregando apenas sua tristeza e um relógio que
havia muito deixara de funcionar.

No dia seguinte Claude voltou a trabalhar nas Horas, dando os toques finais nos
arreios, parte de uma encomenda para um rico mercador de seda de Lyon: “Uma
caixa, em ouro, Folia eqüestre com chicote”.
Faltava inspiração ao desenho. Claude estava distraído, e isso o levou a
exagerar no tempo de forno. As coxas do cavaleiro derreteram sobre os flancos do
cavalo, e o rosto da amante do mercador de seda dissolveu-se numa horrenda
caricatura. Ela se tornou um sátiro demoníaco, com seios. Claude precisava escapar.
Depois de caminhar desconsolado pela mansão, estalando o tamanco nas pedras do
piso, pegou o relógio dado por sua mãe. Segurou-o nas mãos e o examinou. Abriu a
caixa e olhou o mecanismo. Depois percorreu as salas, à procura do Abade, cujo
conhecimento dos mecanismos poderia ser útil para recuperar a única herança de
Claude. Ele o encontrou na entrada trancada da capela.
“Isso pode ser consertado?”, Claude perguntou
“Certamente, com sua habilidade, pode arrumar o relógio.”

exibindo

o

relógio.

Normalmente o Abade era presa fácil para tais táticas, mas daquela vez o
pedido não foi bem recebido. “Exigirá ferramentas existentes apenas atrás desta
porta, e, como sabe, é proibido entrar na capela.”
“Por favor.”
Relutante, o Abade disse: “Espere aqui”. Ele desapareceu no corredor que
levava à biblioteca, voltando com algumas ferramentas básicas. “Por que você
mesmo não tenta?”, sugeriu. “Só precisa de uma boa limpeza e ajuste na mola. Mas
seja cuidadoso.” E mostrou as áreas potencialmente difíceis.
Claude dedicou-se ao mecanismo. Suas mãos desmontaram o relógio, como
se tivessem sido feitas apenas para aquela tarefa. Depois, com uma paciência rara na
mansão, ele o montou novamente. Encontrou um enorme prazer em devolver à vida
uma coisa que permanecera imóvel por tanto tempo, e quando mostrou o relógio
para o Abade, passadas algumas semanas, estava justifícadamente orgulhoso. Pela
primeira vez em muitos meses, excitava-se com sua habilidade manual.
O Abade ficou surpreso, além de satisfeito. Apontando para o movimento do
balanceiro, disse: “É por isso que a parte interna do relógio é chamada de
movimento”.
Talvez por causa dos comentários de sua mãe sobre outros tipos de
movimento, Claude deu mais importância ainda ao relógio. “Gostaria de trabalhar
mais com o movimento, se pudesse.”
O Abade balançou a cabeça. “Se fosse trabalhar com os aspectos mecânicos
das Horas, o cronograma seria prejudicado. Este trabalho virá depois, prometo. O
contador, no momento, anda muito intolerante com relação a qualquer desvio dos
planos iniciais. Além disso, não posso permitir que entre na capela. Pelo menos por
enquanto.” Os dois olharam instintivamente para as portas trancadas que marcavam
o limite dos privilégios de Claude. “Sinto muito”, disse o Abade suspirando. “Sério
mesmo, mas deve se contentar com as caixas.”
Claude notou um certo pesar no Abade, e considerou isso um reconhecimento
silencioso de sua decepção. Convenceu-se de que poderia dedicar seu tempo livre
ao estudo dos princípios da relojoaria, caso desse conta do serviço atrasado.
Não foi fácil. Claude leu, quase aleatoriamente, meia dúzia de livros sobre
horologia, fazendo anotações de um modo que imitava o sistema de referências
cruzadas do Abade, com a diferença de que sua caligrafia miúda subia como
bandeiras de rendição. Ela registrava os trechos que Claude não conseguia entender,
e havia várias centenas deles. Seus problemas se agravavam porque grande parte
dos livros necessários, sem falar nas ferramentas melhores, estavam trancados no único
lugar onde não podia entrar. Estava claro que precisava conseguir acesso à capela,

para aprimorar seus conhecimentos mecânicos. Isso significava que teria de planejar
um novo ataque à força de vontade débil e à índole generosa do Abade. Claude
tornou-se parte artesão, parte pensador — e seus pensamentos se voltavam para
mudar a decisão do Abade.
“Por que ele proíbe a entrada na capela?”, Claude perguntou para a
criadagem reunida em volta da mesa da cozinha. Estavam todos juntos para
descascar uma quantidade enorme de vagens.
Kleinhoff disse: “Ele não deixa ninguém entrar. Não basta saber isso?”.
“Ninguém não”, Catherine retrucou.
“Quem entra?”, Claude quis saber.
“Ela pode entrar.”
Claude perguntou, com ignorância fingida: “Ela?”.
A empregada contou mais coisas sobre a mulher que nenhum deles
conhecera, a mulher que o Abade mencionou inadvertidamente pelo nome.
“Madame Dubois é o nome”, disse Catherine. “Eu a vi no mês passado. Eles estavam
na farra.”
“Na farra?”, perguntou Claude.
“Bem, posso adiantar o seguinte: eles faziam os ruídos que seriam classificados
na seção das Dores e Prazeres de sua pesquisa sobre sons — se é que existe uma
seção de Dores e Prazeres.”
Marie-Louise deu mais uma informação: “Eu os ouvi faz uma semana, no
domingo. O Abade estava gritando na capela. Eu nunca tinha ouvido o Abade gritar.
Pobre coitada”.
“Todos nós ouvimos”, disse Kleinhoff.
“Mas por que na capela?”, Claude perguntou.
“Sabe qual a atitude dele em relação à Igreja. Lá dentro, transforma-se em
outro homem. Um homem violento. Ele faz isso por rancor”, Catherine disse.
Claude insistiu: “Mas e as ferramentas, como vou conseguir ter acesso a elas?”.
“Não vai conseguir isso nunca”, Henri disse.
“Vou falar com o Abade outra vez”, Claude insistiu. “Eu preciso.”
“Melhor pensar numa razão melhor para fazer com que ele mude de idéia”,
Kleinhoff aconselhou.
“Isso mesmo”, concordou Claude. “Vou pensar.”

Claude prosseguiu. nem como explicar que desejava explorar caminhos diferentes de pesquisa. Chegou. “Entre. corrigiu o Abade. forçou a abertura de sua própria boca. A sala estava completamente escura. “Nossos estudos são amplos e abrangentes como uma rede espanhola. “Nossos estudos”.” O Abade espirrou. Claude chamou. Culpeper. Mas preciso consolidar meus interesses. Acendeu o disco. um dos maiores fornecedores do Abade. O Abade moveu o cano para a frente e para trás. e as imagens apareceram numa cortina pesada de fumaça. Fora avisado para ir até o depósito das cores. tenho o maior respeito pela diversidade de seus estudos. Uma boca surgiu. dizendo: “Acho que você vai gostar disso”. não acha?” Claude fez que sim.12 “Senhor. “Tem duas lentes”. Olhou para a boca que se abria e fechava. O que quer falar?” “Senhor. era comerciante de instrumentos de precisão em Londres e mexia paralelamente com aparelhos elétricos. Removeu a tampa do cano e anunciou triunfante: “A imitação da própria vida”. “Certamente. “Prepare-se para uma tarde de espetáculo dióptrico. O Abade balançou*o vidro. “O que encomendou?” “Verá no momento oportuno. Os olhos de Claude se ajustaram. A sala foi tomada pelo odor de óleo de nogueira.” O Abade instalou um rescaldo cheio de carvão embebido em óleo. pintando estas cenas. Claude. entre.” O Abade mexeu o vidro.” O Abade encontrava-se perto dos vermelhos. e o barco logo foi coberto pelas ondas. até obter uma chama clara. “Sim”. “Agora veja isso. podemos conversar?”.” O Abade acendeu um fogo que conferiu a seu rosto um brilho demoníaco. “Há um outro método de projeção. movendo a mandíbula poderosa. mas quando abriu a pesada cortina não viu nada. na Inglaterra. e preciso. “O contador disse que você certamente pode fazer um trabalho melhor. Ele coordenava o movimento da boca na parede com o diálogo.” Ele lidou com o pavio. “Dá vontade de tomar uma das sopas de Marie-Louise”.. brilhante. O microscópio e o páraraios tinham sua origem no estabelecimento de Moorfields.” A boca esfumaçada continuava a se mexer. preciso de .” Claude não sabia como avaliar este avanço indesejado nas artes das Horas de Amor. disse. O Abade disse: “O contador autorizou a despesa. “Tem futuro. Você verá. “Abade. Depois de um minuto de tensão. “O quê?” Claude tropeçou nos livros ao tentar se aproximar. A encomenda de Culpeper chegou ontem”. disse. está aí?”. O Abade instalou outro vidro atrás da luz. “Uma semiglobulosa e uma dupla convexa — ambas preparadas ao estilo alemão. e lentamente distinguiram os contornos de uma caixa de metal com um cano protuberante e tampa coberta por papelão. Um barco tripulado por um corsário do Norte da África apareceu de repente na parede. em reconhecimento à produtividade da oficina. disse Claude.. Um casal copulava na parede esfumaçada. O Abade pegou um vidro pintado com imagens translúcidas e o colocou no apoio atrás da lâmpada. O Abade inseriu um vidro que revelou o verdadeiro motivo da autorização para a compra.

o que deixará o contador satisfeito.” “Blasfêmia. ela vestia o hábito costumeiro de sua ordem: manto marrom e indignação. Mas. O Abade perguntou: “Quer viajar? Já disse para ir até Basel. interrompeu o Abade. Claude corou ao ver a irmã Constance.movimento. chegara à mansão. Uma freira também rabugenta entrou minutos depois na biblioteca. e afastava os temores financeiros. desejo combinar as duas coisas. Ainda assim. estalando as sandálias no piso de pedra.” “Quer dizer”. Atraía o Abade. Antes que o Abade pudesse decidir o que fazer. Talvez eu possa esconder meu trabalho. Sei que falamos nisso antes. atrás do retábulo. como colaborador. Ou a Lyon. Traga suas reclamações na próxima reunião. “Gostaria muito. “Não tenho tempo a perder. ao falar em movimento. “A freira está no portão”. Sei que não viu padre Gamot desde que veio para cá. Estou ocupado com os problemas espirituais de um paroquiano.” “Não respondeu à minha pergunta. O Abade a interrompeu. contudo.” “É mesmo?” O Abade ergueu a sobrancelha. E o trabalho teria de ser realizado lá dentro. que assumira função de oráculo. irmã Constance.” “Embora eu seja um esmaltador competente.” “Obrigado.” “Por isso me interessa tanto. senhor. “criar movimento na caixa?” Ele abanou a cabeça.” “Então pode ir. Trouxe consigo o temível cahier. e não perdeu tempo em apresentar suas exigências. gostaria de adicionar movimento mecânico às figuras que pinto.” Era a estratégia correta. Estávamos justamente discutindo o problema das visitas à capela. Quando esteve na igreja pela última vez?” “Acho curioso que mencione isso. e visitar a coleção de Bauhin. creio ter encontrado um modo de conciliar meu novo interesse com as obrigações de esmaltador. Ele não conseguia mais pensar nela. depois de muita reflexão. Sei que seu aprendiz não recebe educação religiosa alguma.” Trabalho? Claude pensou no nome que a misteriosa madame Dubois daria às suas atividades. Ou seja. Por isso.” . Kleinhoff disse rabugento. Tenho certeza de que serei capaz de fazer isso. No momento. no meu caso. Dediquei grande parte de minha vida a tais projetos. “Movimentos de relógio. Muitas de nossas encomendas destinam-se a estas cidades”. “Isso é difícil demais. usando cortinas. “Resta o problema de que eu não quero ver ninguém entrando na capela. Kleinhoff gritou do outro lado da cortina que a irmã Constance. Tais trabalhos conseguem bons preços. Realizo experiências que ninguém pode ver. a não ser completamente nua.” “Explique-se. Devo pensar melhor em sua proposta. ele se mostrou reticente. pelo menos por enquanto. mas não me referia a isso. a consciência do vale.” O projecionista e o espectador olharam para a boca esfumaçada. sendo penetrada por um prelado sodomita usando apenas uma mitra. e já me explicou os motivos que impedem o aprendizado das artes mecânicas. senti mais prazer em consertar o relógio de meu pai.

o Abade se voltou para ele e* disse: “Muito bem. “Eu deveria ter percebido. em matéria de mecanismos. Enfrentará o peso de seus desejos e os compromissos de sua vontade. “Fique afastado. mas minha habilidade já não é a mesma”.” O Abade ficou em silêncio. Ele adiava a revelação. pinos. fonte de tantas especulações.” O Abade levou Claude para além das portas trancadas da capela. que na escuridão repetiu baixinho a frase do Abade. que girou apenas o suficiente para permitir a passagem. queimadores de ágata em prateleiras que antes serviam para as velas dos devotos. a outra de pedalar. Os moinhos e rodas-d”água sugeriam seu interesse por mecanismos. ao chegar a um acesso lateral: “Está a ponto de conhecer a capela. Os sargentos pendiam dos braços de uma Virgem de gesso. ajoelhado na frente do altar. sou um apóstata. Está até mesmo em seu trabalho com sons. até que o Abade disse: “Esta não é a entrada. As serras. uma estante de livros. . Ele fez uma pausa. você é bem filho de seu pai.“Talvez eu tenha me descuidado um pouco. A porta foi murada por dentro. e foi afetado por um poder acima do homem e da natureza. Mas. Embora tivesse sido uma capela. “A Porta do Prazer. agora era uma oficina de relojoeiro. cadinhos do tamanho de colheres. “Como sabe. duas máquinas de cortar. uma manual. onde ficavam os martelos. bem lubrificada nas dobradiças.” “Trinta e dois! E eu não percebi nada. Uma mitra episcopal segurava uma barra de ajuste de fuso e outros instrumentos de relojoaria mais obscuros. a Porta da Dor”. Isso serve de garantia de nosso envolvimento com a autoridade suprema?” A irmã Constance olhou para os dois desconfiada. Quantos carrilhões registrou?” “Incluindo o relógio da torre?” Claude contou. Minha sala será aberta. quando a irmã Constance saiu. A capela estava cheia de objetos extravagantes. Mesmo assim. O Abade apertou um dos pequenos losangos entalhados na estante. Claude ficou desapontado. Ele conduziu Claude. Claude. “Uma câmara secreta para uma época de segredos”. instrumentos diversos.” O costume de examinar em silêncio se impôs a Claude. creio que a intervenção da irmã Constance foi divina. Ao lado delas. por seus primeiros desenhos. tratando de engrenagens. Claude. Prepare-se para amanhã. O espaço foi modificado para atender a meus objetivos”. Catherine repetia desde a conversa durante o debulhar das ervilhas. Havia tornos e morsas. cheia de obras especializadas. Terá acesso às ferramentas.” O Abade puxou a corda. Vou ajudá-lo no que puder. O altar tinha furos. amanhã. calibradores. Um livro aberto. para se livrar da intrusa. A maneira como olhava e tocava nos relógios não deixa dúvidas. Claude pensou que o Abade fizera uma promessa falsa. devido aos vidros coloridos. Removi seu conteúdo há muito tempo. bem como as galhetas e o púlpito do laboratório. sussurrou enigmático. de pregos cravados num santo anônimo. Eles passaram para a biblioteca. depois olhou para ela com o ar de quem recebeu um sinal. A sala estava embolorada. serras.” O Abade abriu a porta. Havia também placas parafusadas. saiu daqui. no meio de muita bagunça. não passa de um exemplo medíocre de um estilo popular do início do século passado. Como capela. Apareceu uma corda. “Entre. agora parte da poltrona que tanto incomoda a irmã Constance. “ “Trinta e dois. há anos”. Claude foi atraído pelos pequenos artefatos da forja: bigornas tão pequenas que cabiam na palma da mão. O Abade falou. ocupava o lugar do missal. libertando um conjunto de prateleiras. “Posso jurar que o jovem passará o dia inteiro na capela. mas quente. O confessionário. Meu trabalho pode ser transferido. lembrando-se das câmaras do náutilo.

” Ele apontou para uma divisória ornada de madeira. “Tem muito o que aprender”. . Quatro raquetes de tênis. Deve prometer respeitá-lo. deve se conscientizar de que precisa produzir as Horas. por mais que se desenvolva nos outros campos. estavam presas à parede. “Mas. “Mais uma coisa. que fora movida para esconder o altar. de modo que dúzias de sovelas pendiam do encordoamento. “Trata-se de meu último segredo. Projetavam -se para fora. disse o Abade. Não deve ir atrás do retábulo. antes de mais nada. deixadas pelo conde anterior.” Claude fez que sim novamente. Está claro?” Claude fez que sim.Nem todas as adaptações incluíam material religioso.

ou. algo visual incomodava Claude. “Quando tiver dominado a alavanca”. quando não a substância. descobrindo que seu espírito se enriquecia. quando consultava a edição gasta do Abade. Há quem sempre estude. Deu a Claude a mistura exata de assistência e autonomia. guardando na memória o espírito. Claude pertencia ao último grupo. Havia outro ponto que incomodava Claude. Exigia muito mais do que ele. que se refugiava em uma almofada cheia de palha. “terá dominado o mundo. “São as mãos.) Nem as anotações em garranchos com que o Abade circundara os textos de seu interesse.” O Abade mostrou-se um professor admirável. encorajamento e castigo. O tempo. Despejava os tratados em cima do aluno. Ele mostrou ao Abade a imagem que acompanhava o ensaio sobre tapeçaria. Em pouco tempo. Enfrentava o latim e se deslumbrava com as ilustrações. O movimento da foice do agricultor. o medo da medida errada. E não eram os erros. O estudante aceitou os desafios. Os estudos iniciais foram rudimentares. na resistência das cordas brancas e alcatroadas e no uso de graxas para diminuir o atrito. serviu para consolidar a paixão crescente de Claude. o conteúdo da capela. O formato do náutilo tornou-se a espiral da mola. e apenas um pouco mais do que Claude seria capaz de conquistar. o desenho indicava uma outra razão para o desconforto do aluno. nas seções pesquisadas por Claude. Claude lia bastante. ele via mecanismos de relógio por toda a parte.” O Abade mostrou as extremidades amputadas que o ilustrador colocara para mostrar o método usado na fábrica dos . Claude disse que tinha objeções a elas.13 A capela. filosófico e habilidoso. Claude modificou a famosa frase de Newton: Deus não era o relo-joeiro. ao lado dos Exercícios espirituais. poderia realizar. sem nunca aprender. fontes da invenção. Claude punha pouca fé em Diderot. Claude. Na visão do Abade. que ainda tinha ligações com o passado jesuítico do Abade. O Abade o testava nas equações das molas. sob a imensa escada espiral. A relojoaria permitiu que ele passasse das superfícies duras do esmalte para os movimentos substantivos ocultos dentro da caixa. que o perturbam. claro. E. a dor. a eficiência espacial da cunha. (Berthoud colaborara na parte de relojoaria. e passava longas tardes como se fosse uma versão mais jovem de um Rembrandt filósofo. Havia poucos a apontar. Era um dos poucos livros. o movimento do pêndulo. Não. A ponta em arco que cruzava o rio Tournay o lembrava das marcas em torno do mostrador do relógio. mais precisamente. mas não fazia. dos escritos do clérigo alemão. disse o Abade. Ele aprendeu a dominar as funções dos. Um desenho da torre de Babel sugeria o mecanismo de um antigo relógio que o Abade lhe dera para desmontar. porque não mostravam o suor. Pois. O relojoeiro era Deus. logo se tornou a essência de Claude. Há quem aprenda sem nunca ter estudado. E há quem se beneficie tanto do que lê quanto do que sente. O ponto exato veio à luz durante uma discussão com o Abade sobre a qualidade das ilustrações. Claude leu e releu o curioso texto. a alavanca. onde se apoiava grande parte da criatividade. os dividendos compensatórios do equilíbrio. os imperativos gravitacionais do plano inclinado. Ele ensinou a Claude como usar o torno. para ilustrar seus pontos de vista. finalmente. o potencial transmissor da polia. Ars Magna. sem barba. Abade. era o tipo de artesão que Diderot duvidava existir: erudito e prático. em sua manufatura técnica. sete poderes da mecânica: as virtudes adesivas do parafuso. Foi apresentado à obra de Athanasius Kircher. os movimentos exatos do eixo e da roda. O editor da Encyclopédie descrevia. se Diderot punha pouca fé na capacidade intelectual do artesão.

depois repetiu o procedimento. “Pegue”. Assim. Claude. As encomendas chegaram depressa. Claude conseguiu mais liberdade para aprimorar o que o Abade chamou de “linguagem do toque”. “Metalurgia-miniatura”. enviou uma dessas pinturas para conserto. Não se prenderia aos fabricantes pré-industriais. O processo continuou até que ele chegou a um bloco menor do que um dado de jogo. disse o Abade. jogando um rixdollar de prata na bancada. o Abade disse: “Seja gentil com o metal. você deve obter pelo menos cento e quarenta e quatro”. e recomeçar a limar. o sexto estava fora de padrão.” Ele jogou para Claude um pedaço grande de metal impuro. “Eu sabia que chegaria a isso”. Seu braço ficou forte martelando o metal: vinte minutos com um martelo de dezessete libras. até que o Abade completou: “A borda da moeda deve ser a boca do vaso. molas e correntes. “Cuidaremos de sua preocupação”. Evitaria a multidão de homens. “desafiando as suas mãos a fazer o Teste da Lima. dono da livraria Imagem do Globo. que eram enviados à mansão para reparos. Quer dizer. ou seja. mulheres e crianças mal pagos que fabricavam componentes na Savóia. disse. valendo-se do efeito reverberativo da résingle em T. e. Claude teve de produzir uma extensa superfície dourada. “O perfeccionista jamais pára de limar. Conseguiu uma folha tão fina que parecia transparente. o Abade testou a habilidade de Claude na tediosa arte da laminação.” . Quero que mantenha as ranhuras laterais intactas”. Como exame final de competência na metalurgia. O trabalho colocou-o em contato com muitos elementos havia muito esquecidos. a situação financeira melhorou muito. limava os dentes. Ela chegou à mansão embrulhada no tipo de papel pardo preferido dos colecionadores. dizia o relojoeiro de catorze anos. de modo a incorporar a filosofia das Horas. na última vez. como único comentário a sua precocidade. paixão.” Claude não ficou impressionado com o desafio. inteligência. Sempre que conseguia cinco lados perfeitos e da mesma medida. escreveu Livre. Lucien Livre.Gobelins. saía da mansão contente. mesmo que estas partes pudessem ser adquiridas. pintava os mostradores. Precisava medir tudo de novo. pinturas dotadas de movimento. “Seus funcionários devem consertar a parte interna”. Ele mesmo cortava suas coroas e pinhões. “e modificar o desenho. mais do que tudo. Quando Claude elaborou o vaso. principalmente os relacionados com os movimentos do tableau anime. “ Se Réaumur conseguiu cento e quarenta e seis pés e meio quadrados de folha de uma única onça de ouro vinte e três quilates. A linguagem avançou muito quando Claude começou a consertar relógios antigos e especiais. Claude pensava o mesmo. Claude fez as medidas e limou. e disse: “Lime isso até obter um cubo perfeito”. fazia as roscas sem fim. Conforme a ordem de serviço detalhada informava. foi como o Abade batizou o trabalho de Claude. e o esmalte estava lascado. de um pequeno lingote. os preços subiram. o mecanismo não funcionava. eficiência e precisão absoluta.” Seguiu-se o Teste do Martelo. O contador. Ao passar nos testes e aprender tudo o que o Abade podia ensinar a ele. que os visitava regularmente para verificar seu investimento. “Faça um vaso com quatro polegadas de altura. Ele reflete a paixão e as dores do artista”. Claude entrou no mundo da relojoaria — com conhecimento. disse o Abade. Cada dia aproximava Claude da meta grandiosa e final do Abade: a conquista das capacidades do ser humano. Ele aprendeu a fazer sozinho todas as peças do relógio. E fazia tudo com rapidez. duas horas com um de nove e quatro horas com um de sete. Levava consigo a primeira Hora mecânica de Claude: os irmãos Golay trabalhando com a serra de um modo obrigatoriamente obsceno.

diminuiu de tamanho e ganhou em flexibilidade com uma ventosa para sucção. A fumaça do castelo era produzida por vidro torcido. Depois de muita hesitação. No fundo. se dedicasse à construção de um objeto seu. “Um relojoeiro valoriza o tempo acima de tudo. Claude desmontava o mecanismo das pinturas animadas. A minha é o náutilo.Originalmente. do qual colunas de fumaça simulada seguiam em direção ao céu. permitindo que escrevesse sem reabastecer durante horas. Mas. de modo que eu gostaria de presenteá-lo com algum tempo. ele lhe dera ferramentas da capela. o sistema de Claude. Ali estava um objeto que mesclava imagem e movimento. Devemos escolher nossas metáforas. Era muito mais elegante do que as próteses anteriores. O Abade. O único comparável a ele era a mão de ferro de Gõtz. um equipamento para escrever que poderia ser preso ao vão de sua mão direita. na semana seguinte. destinado somente a satisfazer seus próprios desejos.” E insistiu para que Claude. A sua é a ostra a que chamamos relógio”. que registrava os gestos do trabalho e do lazer. da água e do vento. Claude produziu. Durante duas semanas. um moinho girava. chato. tão elogiada por Goethe. era um homem propenso a demonstrações de gratidão. Uma recompensa não seria novidade. por natureza. dois pratos para solda originais. Duas crianças brincavam com uma bola. . quando não estava preparando as encomendas comuns. Mostrava um castelo. enquanto a mão do cavalheiro suábio possuía um dedo de ferro. Durante o desenvolvimento das habilidades mecânicas de Claude. ligado a um encaixe. enquanto uma carruagem com escolta percorria um caminho semicircular. a pintura tinha pretensões aristocráticas. de um fabricante cujo nome não se conseguia ler mais. com roda dentada. Claude. ele criou um reservatório para tinta. O conserto excitou Claude. e repintava a superfície para atender aos imperativos pornográficos do livreiro. numa noite de inspiração. O Abade finalmente teve uma idéia. (Do desenho original só restou o chicote. e encomendara outras no exterior: limas grossas de uma fundição alemã.) Claude realizou um trabalho tão bom que o Abade começou a pensar numa forma de recompensá-lo. A restauração da pintura animada merecia algo especial. Além disso. um jogo de punções de Paris. O cocheiro brandia seu chicote. claro. A primeira frase escrita por Claude com o dedo-caneta foi uma observação muito repetida pelo Abade: “Lembre-se do que eu digo. de mola.

“No momento oportuno”.14 O Abade não se incomodava por receber muitas visitas. Eles trabalharam juntos num livro que o Abade . Lançado discretamente. Livre recebia uma certa quantidade de peças prontas. O pessimismo de Livre. Antipático e inteligente. e conspirações mesmo nos atos mais gentis. e passou a chamálo de Flegmagogo. E desprezavam a Igreja. Servia como representante exclusivo das Horas de Amor em Paris. e suas roupas. o marcava. o Abade atribuía o mau humor de Livre ao mesmo desequilíbrio dos fluidos que debilitou Rufus de Efésio. era incompatível com a alegria despojada do Abade na formulação de questões complexas. O livreiro zombava do adágio do Abade: “ Sem perguntas não há soluções”. Se uma mulher. Lucien Livre. sem restrições. que o livreiro passou a fornecer. vivia em estado de perpétua insatisfação. o persa. e das palavras. embora de modo diferente. e não suas roupas. Livre era possivelmente o mais importante dos contatos do Abade. conde de Tournay. dada a variedade de pesquisas do Abade. No início. Via falta de sinceridade em todos os gestos.comentou e Livre imprimiu. cavaleiro da Ordem Real dos Elefantes. até que as atividades do Abade na pornografia mecânica exigiram um suprimento contínuo de material erótico. abade. Se. Livre dedicava-se mais à pornografia. Se a pesquisa incluía a visita a um celeiro. e ele aceitava suas excentricidades. Não era nem muito alto nem muito baixo. Você ficará confuso. Fornecia material vulgar a ricos fregueses: livros. Alexandre de Tralles e Avicena. Por exemplo. Vale registrar outras incompatibilidades. O apelido servia para descrever tanto a absoluta falta de entusiasmo quanto o modo desagradável como Livre vivia limpando a garganta. por exemplo. exata e adequadamente dispostos. logo depois que o Abade deixou a proteção da Igreja. Ambos amavam os livros. em nome da ciência. Livre gostava de seu mundo. o que no caso de Livre apenas refletia seu desdém pelo mundo como um todo. Passavam pela mansão filósofos e zoólogos. o que não surpreende. apesar de fora de moda e acompanhadas de uma peruca exagerada. Com elas. então o Abade providenciava a completa escuridão. em Paris. não chamavam a atenção. o Abade acendia um incenso. Em troca de textos e ilustrações. O Abade nunca discutiu o tipo de obra. tida como feiticeira. só aceitasse revelar seus segredos na completa escuridão. mudou o diagnóstico mais uma vez. O Abade pesquisava de modo fragmentário — ele diria entusiasmado —. apesar de Livre ter objetivos mais específicos. quando viu o livreiro cuspindo. insinuava-se em círculos da sociedade normalmente fechados para alguém como ele. “eu lhe darei um exemplar. sumiu sem deixar traços. relógios e outros itens licenciosos. estudiosos de ervas e padeiros. afirmou em conversa com Claude. Os dois investigavam as características da água. A prova de sua precisão se encontrava na carta onde avisava o Abade de sua escala na mansão. levava o lenço ao nariz e passava a noite discutindo as virtudes do veneno. O caráter de Livre. ele sorria e aceitava esta intromissão indesejada.” Livre e o Abade suspenderam os contatos por mais de vinte anos. Tinham interesses comuns. Livre dividiu a carta em três partes. unindo idéias onde uma parte não dependia da outra. em todos os seus aspectos. onde uma criança esfregava o nariz escorrendo nas meias recém-lavadas do Abade. Mas logo foi obrigado a modificar seu diagnóstico de melancolia para mesquinhez. contudo. um dos Rochat aparecesse com uma cobra que soltava um cheiro horrível. Era preciso acontecer algo muito diferente para incomodar Jean-Baptiste-Pierre-Robert Auget. Depois. embora fosse um dos menos cativantes. Os dois se conheceram havia muitos anos. . Embora editor por formação.

dada a crescente demanda pelos relógios animados de Claude. que receberia hospitalidade gratuita e atenciosa. Presumia. onde o senhor e seus assistentes compartilhavam a mesa durante as refeições. o jantar podia ser esquecido. A viagem poderia ser feita com mais rapidez. o livreiro. e forçaria os residentes da mansão a alterar drasticamente os hábitos domésticos. Cada um falava apenas de si. Marie-Louise teve um desempenho espetacular. Quando o relógio em cima da lareira bateu oito horas. exigia um desvio. e propostas de esquemas mais lucrativos.) Uma lima chata. “necessita de um cardápio específico. e do contador do Abade. contudo. escondidos atrás da cortina ou guardados em locais onde a presença do livreiro era improvável. “Exigências durante a estadia”. em sua maioria. mas descobri que o material não era grande coisa. O Abade falou de suas viagens como missionário. fácil de providenciar. Os assistentes perceberam. escreveu. . Ela cobriu a mesa de barris com uma bela toalha rendada do vale. O Abade contou uma longa história sobre a procura de goma-arábica na ilha grega de Lemnos. Para Livre. prima de Livre.” No dia da chegada do estômago de Livre (e do resto do melindroso livreiro). sua dispepsia crônica. uniram-se ao Abade e Livre. Os débitos do Abade. O grande teste aconteceu na hora do jantar.) Desse modo. eram feitas descontraidamente. Mas. Catherine e Kleinhoff. nenhum problema. da elegância de sua loja parisiense. “Meu estômago”. deixavam Livre à vontade para fazer imposições. até tornar-se mais discurso que diálogo. O constrangimento finalmente diminuiu. o Abade e Livre puderam conversar. Os livros. com a chegada da comida. Cada um manifestou suas preocupações. ocupava mais de duas páginas em letra miúda. A cada ano ele visitava uma estação de águas — incluindo a de Spa — para lutar contra seus demônios gástricos. e neste caso Marie-Louise aparecia com um prato de carne fria fatiada. substanciais. (Para Henri. normalmente usada no metal e na nozmoscada. estas irregularidades eram intoleráveis.” Livre retrucou com uma citação do próprio autor: “Imagino que baniu Plínio para sua pequena Anticira”. Agora era a vez de um tratamento rejuvenescedor nas águas do baixo Seltzer. presumo. Sendo assim. manuscritos e conchas espalhados pela sala foram levados para baixo do caixão-confessionário. Claude e Henri. o Abade e seus serviçais haviam feito o possível para cumprir as instruções. Livre decidira triangular seu retorno e parar em Tournay. Marie-Louise deu início à procissão de potes e travessas fumegantes. as refeições aconteceriam às duas da tarde e oito da noite. Anticira. ficavam por conta de Etiennette. em horários irregulares. entretanto. Levava consigo uma nova encomenda.” O Abade não tinha a menor idéia do que o livreiro queria dizer. deu lugar a um rala-dor de prata e outras peças de mesa especiais. “Plínio a elogiava. pois a maioria das exigências dizia respeito à preparação dos alimentos. A segunda parte era o “Propósito da visita”. que o visitante não pretendia que isso incluísse o direito de fala. O Abade preferia adotar a tradição inglesa. pão e vinho. As especificações do que considerava hospitalidade ocupavam a maior parte da carta. claro. Quando as pesquisas exigiam observações demoradas. A parte final.A primeira levava o título “Data de chegada”. Onde se encontrava um galheteiro com o composto úrico de Cellini. corretamente. Livre pretendia visitar a mansão três semanas depois do término da feira de livros de Frankfurt. A conversa se deteriorou. Conforme instruía a carta. agora havia um decantador de cristal cheio da água mais pura das fontes do Abade. Só depois de consultar seu próprio relógio Livre se mostrou satisfeito pelo cumprimento do horário determinado. As refeições em Tournay. (O Tokay seria servido depois da refeição. nas circunstâncias normais. “Sim. Catherine sofreu mais para ficar de boca fechada. suspenderam as conversas assim que se sentaram para comer. Os contatos entre a livraria e a mansão. Kleinhoff e Claude.

os dois homens tentaram retomar a conversa. Quando o Abade começou a ler. Rachaduras na capa. continuou a tirar as tampas. “Mal cozidos. retrucou a cozinheira.” O Abade defendeu sua posição. quando se tratava de aprender. como pedi?” “Não”. “Não posso tomar sopa de ervilhas”. disse. voltando com um pão quente que deixava as mãos brancas. e um livro não lido é como um vitral de catedral. que oculta sua beleza de todos os que lá não entram. Enquanto os nabos cozinhavam. “ Claude. “Você é quem fala um absurdo. alcachofras e uma galinha grelhada ao molho de cogumelos. Orelhas nos cantos. Livre balançou a cabeça em desespero. disse Livre. O maior elogio para um livro é a marca de muitas leituras. A comida. “Absurdo”. O Abade tomou a iniciativa. Voltou em seguida. ele era um devoto.” Marie-Louise saiu novamente. Claude adorava o pão de Marie-Louise.” Claude pediu licença. com os nabos solicitados. sem ligação com a dieta. “Precisamos substituí-lo por uma panela de pressão de Genebra. “Considero tal atitude intolerável.” O Abade permitiu-se uma metáfora religiosa. que preparara mas não tivera coragem de servir antes. corajosamente. “Certamente mencionei em minha carta. Melhor ainda se tiver anotações e rabiscos nas margens. Sem eles.” . Livre observou que Marie-Louise servia sopa de ervilhas em uma sopeira de prata. Livre mostrou-se novamente insatisfeito. Esquece-se de que sou agente de sua distribuição. O livreiro tremeu ao ver a capa danificada. pois sempre faço isso quando viajo. não sem antes erguer os olhos para o alto. não passava de desperdício para ele. na capa interna. trazendo um livro que demorou a encontrar. brindou o resto da mesa com um pequeno sorriso. Não há nada mais fino que um livro antigo bem preservado. E. “Preciso dos óculos para ler. “Você destruiu uma encadernação em marroquim de primeira. para guardar seus óculos. revelando vagens. e sim possuídos. isso é pior do que marcar a ferro a carne de uma virgem. quanto a conspurcar as margens de um livro.” Seu tom era de censura. Lido ou não.” O Abade ergueu o Battie maltratado. Nem preciso prová-los para saber. Ela se retirou por um momento. traga o Battie que estávamos transcrevendo. Preferia ver uma criança quebrar a espinha. O resto deste banquete é incompatível com minha condição gástrica. para que cozinhem adequadamente. Marie-Louise.Magnânimo. isso não importa. o livro permanece sem ser lido. Seu rosto se fechou com rapidez similar. Marie-Louise retirou-se amuada.” “Passaram a tarde no fogo”.” Livre cuspiu no lenço. que só preciso que me sirvam quatro nabos bem cozidos. Livre manifestou uma irritação nova. “Os livros não existem para ser lidos. “Usando o Digestor de Papin. desculpou-se o Abade. Quando os nabos chegaram à mesa. Leve-os de volta. toda ela. perfeito. saiu e voltou. pois. o Abade entalhara dois discos e um arco que os ligava. “O que andou aprontando com este livro?” Como sempre fazia com seus volumes favoritos.

Eu vi. disse o Abade.” “Ah. ele polemizou.“Anda lendo livros pornográficos demais”. Posso afirmar. Dali. O talento qualifica alguém para um serviço específico. O menino deveria estar sob meus cuidados. no mínimo para aliviar a tensão. Isso prova minha afirmação. Este menino já demonstrou um grande talento.” O interesse de Livre aumentou. Preparo uma lista para publicação. Como fica um livreiro sem páginas?” “Certo”. mas farei um resumo. Tentamos reconciliar contradições metafísicas. Mais uma confirmação da força no nome familiar.” “Como?” “O nome é destino. livre refletiu por um momento. “Não. ei-la. fruto do acaso”. também). por excessiva atenção ao corpo. Sou um estudioso do assunto. O gênio é . Claude é o rapaz responsável pela confecção das Horas. O pior é que Battie descreve as obsessões dos insanos. passou pelo saleiro e penetrou na manga recém-passada do Abade. mas devo informar que se distingue em outras atividades. “Apropriado. “Embora não deseje polemizar”. um gênio. meu caro amigo. e. Qual é o nome dele?” O livreiro apontou para Claude.” Livre o interrompeu. eu insisto. “devo dizer que as qualidades que iguala são muito diferentes. A sopa de ervilhas escorreu por um prato. Um inglês.” Em outro contexto. mas para Livre constituía parte de uma teoria grandiosa.” “Há outros. encontrou seu caminho até o volume em questão. especialista em insanidade. Ficaria assombrado com o número de pessoas w cujas ocupações se revelam nos nomes. disse o Abade.” “Descobriu que ele era jogador de baralho?” “Não. Mas ele representou suas considerações geométricas com cartas de jogar. O Flegmagogo despejou seu flegma em sinal de desprezo. Deteve-se na escolha de palavras do Abade. em minha opinião. “Ele pode gostar de livros. que ficou surpreso por sua inclusão inesperada na conversa. meu amigo. Perdera a paciência. fora Battie?” “Centenas. este comentário seria considerado um trocadilho infeliz e mais nada. É muito grande para ser lida inteira. a bem da verdade. “Encontrei uma passagem em Battie que dá uma descrição apropriada de suas metas. Minha descoberta mais recente é Descartes. Onde está? Ah. e sentia o estômago embrulhado. daqueles que estouraram a cabeça ao lotá-la de visões quiméricas. o Abade inadvertidamente bateu na sopeira. Tratase de uma manifestação comum da capacidade externa de realização. forçamos cada fibra animal. A situação piorou quando. “Certamente não passa de uma coincidência. e não sob os seus. des cartes de Descartes. no meio de uma escaramuça verbal. seria muito óbvio. “Claro que gosta. Page?” Claude fez que sim. concordou o Abade. O nome é o destino. O Abade limpou a página suja de sopa.. Muito diferentes. Vou provar.. para descobrir a Longitude (isso já fizemos) ou o Grande Segredo (estamos perto. O autor conclui que somos parte de uma comunidade de filósofos que passam seus dias e noites sonhando acordados. Estava decidido a ler. “Gosta de livros. Eu fico pensando: seríamos parte dos filósofos enfermos e abalados a que ele se refere?” “Disse que o nome do autor é Battie?” “Sim. O Abade respondeu: “Claude Page”.

) Livre recusou. enquanto emitia sons desagradáveis — Claude pensou que poderia reproduzir tais sons passando uma grosa num pedaço de madeira. Pegou uma picotadeira. decidiu. Page. balançou a cabeça em sinal de relutante aprovação. perguntou o livreiro. Uma mancha na caderneta era intolerável. com o máximo de humildade possível. O Abade inspecionou as marcas na base tenra das alcachofras.” “Não acompanhei seu raciocínio inteiramente.. Todos à mesa observavam o convidado de honra enquanto comia. mas.” Kleinhoff pediu licença e retornou com um prato de magníficas musks bastardas. Livre apanhou caneta. bem como o talento para a relojoaria. mas talentos para falar e pintar. e cheirou o prato. Basta levar em conta o desenho animado que consertou para seu cliente para concluir que ele se enquadra nas duas categorias. E. natos. O Abade sugeriu que seu convidado experimentasse uma cidra comparável à existente na Normandia.” Ele não soube como encerrar o comentário. para remover a página conspurcada. “Eu estudo sons”. disse o Abade. apesar de o elogio ter sido provocado pelo pedantismo do livreiro. ficaria para uma ocasião mais agradável. a costumeira comparação dos comprimentos das cascas que antecede o consumo das frutas. O Abade e Claude pegaram suas frutas e tiraram a casca com movimentos helicoidais. com capa de couro e letras L sobrepostas. traga aquela caixa de chagrém. mas controlou seu interesse. então deixou a frase no ar. e repetiu a citação. tinteiro e uma caderneta. “Já tentei todos os remédios conhecidos. Livre esmagou-os com o garfo. O Abade pediu a sobremesa com um gesto.. e pensou alto se deveria estudar a diversidade da dentição humana. depois de emitir mais alguns sons grotescos. Mas estava tão furioso que deixou a tinta borrar o papel. (O Tokay. E pegou o rolo S para registrar a homofonia. O jantar demorava a terminar. Algum dia. “O Abade tem um espirro formidável. bem como os rumores gástricos. este garoto o possui. de forma que este concordou com a sugestão de comer pêras. Claude foi suficientemente sábio para permanecer calado. Era a primeira demonstração pública de apreço do Abade por suas recentes conquistas nas artes mecânicas. Seu estômago atacava novamente. “Tenho minha própria bebida. na verdade uma roleta de entalhador modificada.um dom raro. Claude ficou contente. “O que está anotando?”. devo dizer que o gênio de Claude o liga ao gênio dos contos maometanos. como o Descascador de maçã de Gabriel Metsu. Talento e gênio existem aqui. como estamos brincando com o significado das palavras. A conversa parou. bem encadernada in-oitavo. “Embora eu não tenha o hábito de ingerir frutas cruas. dois xelins e seis pence). Assim. deixando intocada quase toda a polpa do centro. E.” “Posso providenciar algo para ajudar sua digestão”. feita pelo Abade. quanto ao gênio na mecânica. a posse dos poderes da invenção. Sabiam que Livre a objetaria. Os possuidores de talento na relojoaria nem sempre são gênios na mecânica. e o senhor. entretanto. antes que se perdesse. Eles não fizeram. passando a faca pela superfície das frutas com muita concentração. temos gênios na poesia e na pintura.” . Passou o instrumento pela margem. Claude explicou. Experimentou um pouco e. Os nabos cozidos demais agradaram ao livreiro.” E piscou para Claude. registrando a referência a Battie e seu Tratado sobre a loucura (Londres. Livre finalmente terminou sua refeição. 1758. Felizmente. Claude sentia curiosidade pela encomenda trazida por Livre. a tensão foi aliviada pela chegada dos nabos. será famoso por ambos. Livre comeu a fruta com garfo e faca.

Fico com a água do Seltzer. Apenas garanta que o rosto seja dela”. no dia seguinte. recebi uma nova encomenda. Prefiro o Seltzer. “Não conheço o doutor Patrick Browne.” Livre murmurou os detalhes para o Abade. Recentemente tentei o enema de fumaça de tabaco. perguntou Livre. Já adiou a remessa duas vezes. retirando uma garrafa de tampa prateada. laxativos. “Terminou os sapos fornicadores?”.” “Eu trouxe A prostituta errante. lenitivos e adstringentes. O livreiro resmungou e colocou o pacotinho sobre a mesa.” “Talvez deva ler a obra do bispo de Cloyne. muito obrigado. pomadas citrinas e inúmeros xaropes. Reflexões filosóficas referentes às virtudes da água alcatroada!” “Já li o bispo de Cloyne. Precisamos de mais material. completou o Abade. . O Abade o ignorou. e Livre levantou-se da mesa.” Claude voltou com a caixa. em uma folha de papel separada.” “Um brinde. O Abade disse: “As Transactions incluem um resumo do ensaio do doutor Patrick Browne sobre a água mineral de Montserrat”. Além disso. que reagiu primeiro com choque. tomou fôlego e pareceu ligeiramente aliviado. “Estará terminado logo. no papel pardo que ele obviamente apreciava. ou um pouco de beluga. E para um cliente especial. e os dois homens se dedicaram as encomendas pornográficas mencionadas por Livre no “Propósito da visita”. Marquei as ilustrações escolhidas pelos clientes. “Isso servirá para testar seus talentos. O livreiro disse a Claude: “Deve criar uma cena erótica. como se fosse algo mágico. então. depois com um sorriso. um remédio inglês.“Temos na mansão um vasto sortimento de medicamentos. decepcionando enormemente meus clientes”. e exige total sigilo.” “Já experimentei. de sua imaginação.” “E os enemas?” “Durante anos. que se encontra numa situação delicada. respondeu o Abade. E depois carregou para a cama uma coleção com o título Os mistérios de Paris. diferente do que estamos acostumados a fazer. A mesa foi limpa. às águas do baixo Seltzer. O livreiro escarrou e disse: “Espero que não haja mais atrasos.” “Sim. e seu gênio”. Livre tirou um pequeno pacote. Assim como infusões de amora-preta. Henri pode preparar um digestivo simples. “Ficarão prontos até o final do mês”.” Os copos tilintaram. Disse que partiria antes do amanhecer.” As conversas de negócios encerraram-se pouco depois. Depois de alguns goles. Livre pegou-a. “Nada é tão eficaz quanto a água do baixo Seltzer. fiz lavagens com calmantes. e muito ruim.” Bateu orgulhoso na tampa da garrafa. “Trata-se de um Pequeno Retrato em marfim. isso sem falar nos emolientes e carminativos.

“Amarelo demais para alguém tão macia e intocada. Livre me contou que a moça continua virgem. O Abade respondeu: “Seu nome é Alexandra Hugon.15 “Quem é ela?”. Distraía-se e ficava olhando para o infinito. (Usou para colorir o salitre e um pouco de vitríolo. Claude tentou pintar o que sonhara. Depois de cada pincelada. prendedores de cartas. se não dormisse. lábios grossos e carnudos. ouvindo a conversa. tarefa normalmente tão fácil. apesar de há muito tempo compartilhar a cama do marido. Discutiu as cores com o encarregado. Mas a verdadeira força daquela mulher emergia da região acima do nariz. autor não especificado. A encomenda é uma tentativa de estimular o cumprimento dos deveres conjugais a que ela se recusa.” “Temos em estoque branco chumbo da Inglaterra. Queixo delicado. se deu conta de sua incapacidade. Claude fez que sim. nas palavras de Livre. Não conseguia unir aquele mistério sagrado de Paris às perversões rotineiras fornecidas por Lucien Livre. pinças e caixas de relógios. foi acentuado pelos conhecimentos adquiridos na confecção das Horas de Amor. talvez dela mesma. Ele não conseguia reproduzir a imagem da beldade de olhos misteriosos. esposa de um peruqueiro parisiense. Durante horas permanecia sentado em uma posição precária. Pequeno retrato. A beleza da mulher retratada em marfim o intrigava. que teria chamado a atenção de Henri. ligeiramente batatudo. para a natureza de sua inquietação. não acha?”. Claude levou o Pequeno Retrato para a cama. Ele manipulou seus órgãos genitais desajeitadamente. de um modo que pouco lembrava a delicadeza com que trabalhava durante o dia. Claude perguntou. Claude indignou-se com tanta fúria que os três perceberam que o rapaz descobrira a mais cega das emoções. enfeitados por pequenas flores do campo. Quando o Abade. na manhã seguinte. O Abade chamou Claude de lado. mas duas marcas desafiadoras. O aparato mecânico não apresentava problemas maiores. chamava Henri. O desejo de Claude. pois jamais vira rosto semelhante. e ficou debaixo das cobertas contemplando sua beleza. Em seus sonhos adicionava aquele rosto a cenas que pintara em caixas de rape. verdadeiramente altaneiras. Os desejos inéditos o perturbavam. Você esta numa idade propensa às . aplicando o rosto a cenas tiradas da Prostituta errante. de “estimular suas obrigações matrimoniais”. Dois olhos brilhantes de uma cor entre o cobalto e o azul da Prússia traíam sua sensualidade insatisfeita. O rosto. nervoso. para o monsieur Hugon”. Devemos criar um mecanismo e uma caixa capazes. revelou-se impossível.) Mas pintar o rosto. “Qual a cor adequada para a parte interna da coxa?” “Massicote. mordendo a ponta do pincel. não eram arcos escravizados pelo formato das órbitas. os calcanhares apoiados na estante.” Claude abanou a cabeça. Quando. em prata. creio. a paixão. Criou um mecanismo que empurrava o corpo da mulher em direção a um mouro musculoso. O retrato era para ele uma jóia dotada de força magnética irresistível. As sobrancelhas intensificavam esta impressão. emoldurado por cabelos louros. escuro. até que se decidiram pelo antimônio. Em torno de sua barriga ergueu-se uma tenda de prazer. O rolo H fornecia apenas informações genéricas: “Uma caixa. o desejo confuso de um rapaz. Parece uma linda Madona sem o Filho. fez uma piada — algo sobre a língua do alquimista na coxa de uma beldade parisiense —. com a miniatura numa das mãos e o pincel de zibelina na outra.” Claude discordou violentamente.

“Minhas paixões nunca foram totalmente satisfeitas. “E.” Claude perguntou direto: “Já esteve apaixonado pelo inacessível?”. aconteceu de modo rápido e brutal. explicarei tudo. com parada na oficina de um relojoeiro da República. disse. deste e daquele tipo. há muito tempo. Sempre haverá mais uma a ser descoberta.) O Abade argumentou que Lyon oferecia exemplos maravilhosos da alquimia do homem comum. em sua imensa variedade de trajes e gestos”. nenhum deles. espero superar estes fracassos. pois ficou estabelecido que Claude levaria três peças prontas — uma Freira de maus hábitos. “A viagem a Lyon pode ser cansativa. “Madame Dubois não é uma paixão. prosseguiu o Abade. Até Genebra poderia ir de carroça. cálice de Tokay na mão. ainda que gostasse de ajudá-lo em ambas. Foi na véspera da viagem. Passou uma tarde inteira. Eu já lhe disse. n i cluindo o fabricante de velas. “exige estímulo. O Abade deu a Claude os relógios e uma velha peruca de viagem. (Recentemente a mansão sofrerá os azares do transporte ilícito.” Como em outras tantas oportunidades. encontrou o livro que guardara sob o caixão-confessionário. Claude interrompeu os elogios. Procurando algo enquanto falava. Nem no trabalho. nem amor Um dia. mas aprendera a direcionar o fluxo dos entusiasmos de seu mentor. lembrou os gritos dos vendedores de alfinetes e sabão. caro grão-vizir favorito. A viagem a Lyon. e nada melhor do que uma viagem para animá-lo. O itinerário. explicou o Abade. mas não muito. então sugiro que leve este livro.” O itinerário de quatro dias recebeu a aprovação do contador.” Ele era um discípulo paciente. E suspeito que vocês serão apresentados após sua viagem a Lyon.excitações da alma e do membro. chega aos seus pés. o Abade pegou Claude pelo braço. “E quando suas paixões insatisfeitas serão reveladas a mim? “Quais?” “Eu estava pensando em madame Dubois. era bem simples. intitulado De Cristos Mecânica. que o encontro com madame Dubois um encontro negado durante tanto tempo. clássicos relativos no inventário das Horas — para Genebra. do mercador de seda.” Era um volume in-oitavo. “Não levará apenas isso”. explicando os encantos do encadernador. disse o Abade. que forneceria a passagem de carruagem até Lyon. Só posso ajudá-lo em uma delas. e não depois dela. Na hora certa. O .” “Mais segredos?” “Claro Mas eles são. um mensageiro roubara uma Sobrinha na farra com cão. do trançador de cestos. especificamente. fora planejada para aumentar os conhecimentos mecânicos de Claude e ampliar sua percepção do que santo Inácio chamou de “pessoas. do vendedor de vinho. Falou sobre o fabricante de velas de sebo. e uma encomenda de lá para Lyon. em matéria de fazer milagres com as habilidades que possui”. “A imaginação”. “O inacessível. Lá Claude compareceria ao escritório do contador com os relógios. mesmo assim. e sim um peso nos meus ombros.” O cálculo do Abade estava errado. e duas Folias bucólicas. é só o que eu tenho conhecido Ao seu califa foi recusado um harém.” “Madame Dubois?” O Abade ficou surpreso quando Claude pronunciou aquele nome. que minha vida é feita de uma série de câmaras ocultas.” . para dizer a verdade. um único segredo ser lentamente revelado. “Talvez possamos discutir o roteiro da viagem.

e um pouco de cabelo. o nome de Lucien Livre. com a voz triste: “Foi publicado em Paris. e um queixo. Claude pretendia comprar todos os equipamentos mencionados na obra-prima de Berthoud. Infelizmente algumas das ilustrações se perderam. a anotação fora interrompida por um espirro. Sua mente divagou. com dinheiro no bolso ainda por cima. balançou os pés descontroladamente. tinha dificuldade em visualizar a intersecção entre AF e SF. peças de aço polido. E. Serviu de tributo a uma das paixões fracassadas de que lhe falei. Claude preferiu se regozijar com a boa fortuna sozinho. As linhas revelaram um rosto. na outra. mais provável. Durante a noite. O feno da cama provocava mais coceiras do que o normal. Além disso. No canto. um costume que deixara de lado ao imprimir seus livros pornográficos. e um rix-dollar. pelo que pôde discernir no texto denso. Combinados. O peso na frente era maior do que atrás. Pensou em acordar Henri.” O aluno levou o livro para seu quarto. nem no . A julgar pela tinta borrada. Claude decidiu sair da cama e agradecer ao Abade. O Abade disse. Havia papel marmorizado cobrindo os buracos onde normalmente o Abade guardava os óculos de leitura. A luz bruxuleante e os roncos do Lesma adormecido distraíram Claude. mas. Realmente. Descobriu então por que as capas tinham pesos diferentes. uma mistura de preguiça e tristeza. Pegou um pedaço de carvão na caixa de pintura e o esfregou na parte interna da capa. o latim de Henri se limitava aos rótulos dos frascos e potes de esmalte. colocando a imagem de Luís xvi numa das mãos e a de Frederico. Os buracos cortados para acomodar os óculos haviam sido preenchidos por duas moedas: um luís de ouro. Claude tomou posse da riqueza. Pegou o carvão e o esfregou novamente na capa. parecida com um nariz. Uma longa curva surgiu. Passou a unha pela capa e ficou mais intrigado ainda. o Abade escrevera: “Para um jovem de visão incomum”. continha muitos elementos úteis a sua atividade. Alugaria uma carruagem. rubis. o Grande. a antecipação o agitou. Imprimir este volume me pôs em contato com Livre pela primeira vez”. (Neste ponto.) Acordou com os ruídos estentóricos de Henri. sem as ilustrações. O texto era de difícil compreensão. Examinou o livro com mais cuidado. Ele a acendeu novamente. ou. o sonho passou a se concentrar em desejos menos mecânicos.frontispício mostrava um Cristo mecânico na cruz. Iria a Lyon. e providenciaria para que a única passageira fosse a senhora do Pequeno Retrato. os joelhos erguidos para apoiar a capa. que aumentava o valor numismático do livro. inveja. apareciam na primeira página. e planejou as aventuras do dia seguinte. cujo ressonar noturno se acelerara. Compraria um estoque de ouro vermelho. recém-saído das fundições francesas. Perambulou de uma sala para outra. “Livre ainda publica trabalhos sobre mecânica?” “Agora não mais. Mas o que poderia dizer? O que a revelação provocaria? Consternação. Com o canivete. num ritmo incompatível com a lentidão de seus movimentos diurnos. retratando o Reino da Prússia. até que notou que o equilíbrio entre os pesos das capas estava errado. tentando controlar sua excitação. A vela se apagou. Com a luz de uma única vela. nem nas oficinas. mas não encontrou o Abade — não estava no salão. Tente entender o livro durante sua viagem. Claude examinou o presente. formavam as feições rechonchudas e familiares do rei da família Bourbon. Livros em latim não atraíam Claude. que preferia dormir e não se interessou. e o ângulo JAL tangente a LH. e o mostrou a Henri. Claude cortou o papel marmorizado. e a lista de desejos escrita durante seus sonhos desenrolou-se como o tapete de um potentado turco. Ele emitiu um gritinho. uma conduta tão odiosa quanto as cores que misturava para as Horas de Amor. bem como o símbolo de sua livraria. Ensaios sobre relojoaria. Sem poder dormir.

Não se viam os membros inferiores. O Abade explodiu: “Já falei para não parar. que se encontrava sentada. Claude. toque para Claude. ocultos atrás do instrumento. Não conseguia decidir se deveria ou não entrar. “Você vai tocar”. Não aprendeu nada. “Mais uma vez”. Madame Dubois começava a tocar uma melodia. A amargura na voz do Abade chocou Claude. muito mais interessantes do que as faces numismáticas dos reis.” Madame Dubois permaneceu em silêncio. debruçou-se e a beijou. Repentinamente Claude ouviu o som distante de um instrumento musical. Para quê? Não conseguiria ganhar um tostão. Ficou. O nariz arrebitado erguia-se gracioso. Especialmente a de madame Dubois. Não sabia se ficava ou saía.ziguezague de compartimentos que ligava os cômodos maiores da mansão. Parecia um cravo desafinado. e novos insultos. Mas ela parou. Mais uma tentativa. Claude ouvia vozes. Sua técnica não melhorou nada. contudo.” Ela se virou para o teclado e recomeçou a tocar. Por mais que tentasse. “Não pare”. Podia ver o Abade e sua convidada atrás do retábulo que escondia a câmara mais secreta do Abade. pulou quando seu nome foi mencionado. “Se não tocar para mim. Embora tocasse mais uma vez. esperando que o Abade se manifestasse. que instruía sua estudante de música secreta. “Vamos tentar mais uma vez. O Abade aproximou-se. mesmo antes de apertar o losango na estante de livros. mas sabia que não poderia violar o mundo atrás da cortina. ele disse.” A exasperação do Abade era maior do que no momento de seu espirro sobre um prato de ouro em pó. que o Abade encontrava-se na companhia de madame Dubois. Ela traía uma raiva só presente em suas tiradas contra a religião. gritou impaciente. Seu rosto estava emoldurado por uma cabeleira abundante. “Passei anos tentando transformá-la numa instrumentista capacitada. com os quais tocava um cravo aberto. fez exatamente o que havia feito antes — nada. Ele falava com madame Dubois. precisa tocar com mais ânimo. “Tonta. pediu o Abade. Nas interrupções. mas parava depois de algumas poucas notas. Ela usava um vestido e segurava nos dedos longos e ágeis dois pequenos martelos de percussão. e mesmo assim insiste em me provocar com sua hesitação”. A luz de uma lamparina a óleo revelava a silhueta arredondada do Abade. O pescoço descia suave até seu colo elegante. Claude queria agradecer ao Abade pelo presente. Observava o Abade. . não conseguiu chegar ao final da melodia. madame Dubois era incapaz de produzir um som com a mesma delicadeza de suas feições. Resolveu investigar. idiota. Claude observou um par de cabeças de perfil. O Abade aproximou-se de sua aluna secreta e arrancou um dos martelos da mão dela. calculou Claude. que devia remover à noite. Bateu duas vezes no braço de madame Dubois.” Ele reposicionou as mãos sobre o cravo. Correu para a capela. No momento em que madame Dubois chegou à nota problemática. Sabia. se interferia na disputa ou se voltava para o quarto. jogando o metal nas chamas de uma fornalha aberta. nem se fingisse cegueira e tocasse nas escadarias da igreja mais rica de Paris. Logo confirmou suas suspeitas. Pela segunda vez naquela noite. “Minha adorável criatura. O Abade ficou bravo. Parou com as mãos sobre o teclado. ficou a seu lado e a admoestou gentilmente. no nicho próximo à biblioteca. A música parava e recomeçava. mas era suficientemente diferente para merecer inclusão no rolo S.” Madame Dubois não disse uma única palavra.

Foram suas últimas notas. Nas visitas anteriores à torre. Pensou em sair. ou algo ainda pior. A queda emitiu um som plangente. intencionalmente. Madame Dubois ergueu a cabeça. congelado no vidro da janela. só restou o silêncio. acabar com suas tentativas para sempre”. E se o criminoso não fosse mandado para o atol de Pompelmoose. podando as árvores. quando os sons profissionais familiares emergiram das árvores sob a janela estreita da torre. jogara pedras contra invasores vândalos e turcos imaginários. Refletindo sobre o assassinato que inocentemente testemunhara. estaria em Genebra no dia seguinte. Teria sido mesmo inocente? Uma dança macabra agitou sua cabeça. Claude pensou. e cambaleando seguiu para a torre. O sino de chamada começou a tocar com urgência inusitada. O bastão do tenente de polícia bateria gentil? Dificilmente. Escutou o canto dos pássaros e o ruído das panelas batidas por Catherine para fingir a realização de tarefas que deixaria para os outros. Afinal de contas. Via manchas de sangue no marfim. Claude sentiu um nó na garganta. Os pensamentos de Claude mesclavam música e violência. Ele não poderia ter interrompido seu mentor e amigo furioso? Amigo. Ele agarrou uma marreta e atingiu a cabeça de madame Dubois com força surpreendente. Foi demais para o Abade. começou a soluçar. Kleinhoff já estava no pomar. Foi no ponto mais alto da mansão que Claude atingiu o auge da depressão. A melodia que o apavorara vinha agora de outro ponto da mansão. Se Henri não era confiável nos momentos de alegria. Claude fez um recital à sua moda. Precisava de ar. Um ditado da oficina veio a sua mente: "Seja gentil com o metal. ele refletia se deveria enfrentar ou evitar o Abade. Seu ritmo era precário. certamente não serviria para nada na hora do desespero. perturbado com as conseqüências de sua fúria incontida. o que era justo. Rezou para que a situação atrás da tela se acalmasse. Passava pela sala das cores quando seu coração disparou de repente. Parecia a pomba que certa vez o Abade prendeu na bomba pneumática. no registro superior do instrumento. "Gostaria de agradecer pela noite passada. durante um estudo de asfixia.'' . Claude saiu correndo da capela e voltou para seu quarto. mas também não conseguiu." ' 'Você merece. parava para meditar sobre sua presença passiva. sim. batendo o rosto nas cordas do cravo. em nome de Deus. Era tão criminoso quanto o próprio assassino. pois ele sente a dor e a paixão do martelo". O Abade. pelo menos. ou irei. sentado no cravo desafinado. Decidiu enfrentá-lo. Você. Era como um inseto no outono. talvez séculos. Não adiantou. e ao mesmo tempo culpado. subindo os degraus de dois em dois. E repetia as palavras: “O que fui fazer?”.Pensou novamente em entrar. Claude desceu de seu esconderijo para interceptar o Abade antes da refeição matinal. Ela caiu para a frente. Transportou o Abade para as minas de açúcar. O Abade disse: “Toque corretamente desta vez. mas mantido nas prisões de Genebra. Pensou em fazer uma denúncia contra o Abade ao tenente de polícia da República. onde o Lesma ainda dormia. e deparou com o Abade. que instrumentos de tortura seriam reservados para ele? Anjinhos ou a dama de ferro? Claude aproximou-se da janela. em face dos métodos empregados pelo Abade no ataque. por alguns instantes. Mais uma vez ela se recusou a terminar. e a abriu e fechou. procurando conforto na altura e no isolamento. tem sido um bom aluno. O Abade enfrentaria o bastão com ponta de prata da polícia. Claude sentia-se traído. como muitos fizeram durante décadas. agachou-se na escuridão até o nascer do sol. baixou as mãos e começou a tocar a peça. Conforme a janela se mexia de um lado para outro. Será que madame Dubois ainda vivia? Teria aprendido a tocar a música? Claude procurou a origem do som. mas não conseguiu. Esta decisão foi tomada na aurora. A cada movimento. Alguém a tocava com leveza e alegria. Depois disso. Tal entusiasmo juvenil desaparecera agora.

concha na mão."Como ia dizendo. foram rompidos pelos golpes da marreta. "O rondo da marcha turca de Mozart." Estava inesperadamente calmo. pelo menos na medida em que era sensível a tais transações religiosas. onde Marie-Louise. nem tomar banho." Claude estava enojado. A conversa. rompera-se. uma espécie de escravidão espontânea. mas buscar sozinho sua própria metáfora. depois da trepanação intempestiva de madame Dubois. Rejeitara as possibilidades egoístas que sua posição oferecia. Sua amargura o dominou. continuou o Abade. Claude Page passou pelos portões helicoidais da mansão. preferindo estimular o sentido de liberdade em Claude. Uma hora mais tarde. Ambos estavam esgotados pelos eventos da noite anterior. Nos momentos de desespero. que é a natureza dos verdadeiros gênios." Claude tremeu ao entender a reação insensível do Abade. Deve ser tocado com fluência. jurando a Deus. ele passava semanas quase sem comer. "Esperava apresentá-los". Claude sabia. ' 'Então me encontrou. por mútuo entendimento. antes de se levantar da mesa. E não terá nunca. Aprendera muitas lições valiosas com o Abade. obcecado pelos cálculos errados dos mecanismos em forma de rim usados na medição do tempo. Quando voltar." O Abade ergueu suas sobrancelhas grossas. Nos momentos de desenvolvimento. Nos dois casos. Tentou comer. mas temo que madame Dubois não tenha o sentimento necessário. quase frio. ao sair do cômodo. O Abade fizera diferente. ao soar seu relógio favorito. Os laços entre ambos. "Mas isso não será mais possível. concluindo que seria melhor não entrar." "Suponho que não. . outros procuram deuses. discutiremos em detalhe como substituir tanta deselegância. mas encontrei-o entretido com uma aula de música. que o elo formado entre ele e o Abade. enchia diligente os pratos de sopa. antes mais forte do que as colas preparadas por Henri na oficina. sem esperança de conserto. passei por aqui na noite passada. depois enfiou no bolso dois pães e uma fatia de bacon. Ensinara seu discípulo a buscar a perfeição. chegou ao final. Pensou na última câmara terrível do náutilo do Abade. mas sua educação se encerrara. estimulados pelos elogios do Abade (os outros presentes eram menos importantes). uma servidão rigorosamente mantida pelas algemas da confiança e do respeito. e a ser solícito apenas com a perfeição. a mente de Claude subia mais alto que as cotovias alpinas que passavam pela janela da oficina. nunca mais voltar. o mestre normalmente concorda. Alguns espíritos juvenis procuram a mãe nos mestres. Claude dirigiu-se deprimido para a cozinha.

pegando o caminho de carruagem para Lyon. cantarolava um trecho do rondo da marcha turca. Claude passou do susto para o reino do medo. conforme o dia se impunha. Propenso ao martírio. anquinhas (multa. também. A sombra da marreta que subia e descia acompanhava o ritmo de seus passos. nas margens do Ródano. ressaltou o velho. Perdera também parte da suavidade infantil do rosto. Proibia o damasco (multa. O escritório do contador estava fechado. mas Claude não usava tal recurso. Os baluartes pareciam maiores do que a própria cidade. a Pomba. Assim que cruzou o portão leste da República murada. Tudo parecia indicar que os visitantes não eram bem-vindos. Quando cruzou a pont Neuf. O conteúdo da bolsa chacoalhava e o incomodava. sete florins) e perucas de comprimento inadequado. vinte florins). Limitava as aplicações da alavanca a seu trabalho. que pelo jeito ficaria fechado pelo resto do dia. violava os regulamentos. A chuva escorria pelo longo pescoço de Claude. Nerrf se importou. Amadurecido pelas ocorrências anteriores à partida. e Claude decidiu deixar a República. passou da raiva para o reino da amargura. antes de poder seguir em frente. A mudança era visível no olhar e na postura. Caminhando sem parar. Claude não notou nem a batalha do sol nem os sons da vida animal enquanto av ançava. Claude concentrava seus pensamentos na cena da capela. O grito matinal de um par de corvos e uma única ovelha perdida contribuíam para o cenário fantasmagórico. de modo que perambulou pelos edifícios vizinhos. foi atingido pela tempestade que ameaçava despencar desde o início do dia. Mas. Carregava seus pertences em uma bolsa de couro. o sol recuperava sua primazia. sentiu-se um intruso. Um trapeiro. voltando com a carroça vazia de uma fábrica de papéis. Ocasionalmente. a exaustão tomou conta de seu corpo. ofereceu-lhe uma carona. perfurando as nuvens de uma tempestade indecisa. Voltou ao escritório. trazia lembranças dolorosas. apontando para uma placa onde se detalhava o vestuário exigido na cidade. e entrava pelas botas. Um velho aproximou-se. absorvido pelos pensamentos sombrios e perturbadores. o Delfim. Virou no famoso caminho espiralado da prefeitura da República. o Macaco. Não conseguiu. vinte e cinco florins). e superou a solidão. Claude foi advertido sumariamente. O assassinato em claro-escuro reaparecia . só os verdes mais intensos venciam a densa névoa. Em breve os portões da cidade seriam fechados. Tentou se distrair criando uma história com os nomes das tabernas e hospeda-rias das ruas transversais: o Selvagem. Como se precisasse de um cenário mais sombrio para seu estado de espírito melancólico. Os romances de época dotam os aventureiros das estradas com um bastão longo. Estava ligado demais nos eventos do dia anterior. levando consigo os três relógios caros que deveria entregar. cintos (multa. Claude Page caminhava decidido e desesperado. chegou a Genebra ao meio-dia. em cuja ponta prendem suas coisas. que revelavam mais do que na época da mansão. As cores da estrada se esmaeciam. pensando apenas no Abade.IIII O MANEQUIM 16 Na neblina pesada de uma úmida manhã de primavera. Homens em fraques negros o encaravam. os trajes severos indicando sofrimentos anteriores. A peruca de Claude. mergulhando no isolamento. Claude recusou. mas ele.

Um caderno. trabalhar em um novo escapo de relógio a prova de choque. Deveria estudar a relação entre o espirro e a luz do sol. Depois barganhou o preço de um copo de ponche. Depois pegou no sono. Uma camisa. retornando como homens exaustos. forçando a vista para identificar o som de tamancos e ver um . O isolamento da estrada fez com que se lembrasse de uma história contada pelo Abade havia muito tempo. com a nitidez de uma cena da lanterna mágica. sem roupas. bicando os grãos que caíam pelos vãos da cobertura de lona. a tristeza e o fato de estar encharcado. Dizia respeito a uma tribo de índios encontrada durante seu trabalho como missionário no Peru. nem instrumentos com os quais pudessem acender uma fogueira ou conseguir alimentos. e ele se deu conta de que. dizia que o cheiro de certos alimentos podia ser nutritivo. Um livro em latim (título: De Cristos Mecânica). até que uma nova pancada o acordou. Embrulhou as ferramentas. vendido na beira da estrada. A chuva parou por algum tempo. Não terminaria onde tinha começado. Consumiu a fatia em segundos. Guardou tudo de novo. junto com os relógios. os órgãos genitais expostos “como cataventos”. Alinhou os pertences. arranhados por espinhos. Claude lembrou-se de que o Tratado sobre a fome. Os velhos mandavam que os jovens saíssem no frio do inverno. Praguejou silenciosamente por ter se esquecido de pegar a peça de maior valor pessoal. Claude parou para comprar um pedaço de pão a preços extorsivos. não havia nenhuma lágrima. inútil no campo vazio. Esfregou os olhos e ouviu um som pouco familiar. Era a fome. Fustigados pelas moitas. quase na hora do pôr-do-sol. e tomou o ponche.em sua mente a todo momento. Poucas milhas adiante. claramente inferior ao de sua mãe. para sentir o cheiro do pão. O ronco do estômago superou até o rondo da marcha turca. Ele apalpou a capa. Guardou o Pequeno Retrato em uma pequena bolsa. Sentiu que não se encontrava mais sozinho. deixavam suas famílias como meninos despreocupados. e ele se sentou sob um carvalho. Observou uma galinha que corria atrás de uma carroça de cereais. A sensação de ter sido traído era insuportável. um novo sentimento superou a raiva. escrito por um escocês. o relógio construído por seu pai. Um rolo com a letra S gravada na base. deparando com um espantalho sem cabeça. Perto de um amontoado de casebres. Deu uma olhada ligeira. Terminou a refeição sentindo um pouco menos de fome que no início. Um Pequeno Retrato. Aspirou profundamente. Claude esvaziou a bolsa. refletir sobre a disputa entre Réaumur e Buffon. A chuva castigava seu rosto. e concluiu instantaneamente que o Tratado errara. e virou a cabeça. Mais ferramentas diversas. sentindo-se reconfortado pelas duas moedas escondidas em seus nichos. (O Abade fazia questão destes detalhes. entre os líquidos estocados em sua antiga residência — salivas. mas temia molhar o papel. fazendo o inventário: Três relógios.” Claude refletia se ele também não estaria em situação semelhante. Ele queria registrar o grito da ovelha perdida ouvido antes. Todos estes projetos seriam abandonados. o livro e o rolo na camisa. tomando cuidado para proteger bem os objetos delicados. mas decidiu que sua viagem seria diferente. urinas e águas —. e outras lembranças surgiram. que discutiam se as aranhas tinham alma.) Os moços faziam um teste que freqüentemente terminava numa visão. esperando reorganizar os objetos para assim reorganizar seus pensamentos. “Não recebiam nem fogo nem comida.

Claude aproximou-se da porta. viu a placa e percebeu que precisava entrar. .guarda-chuva desaparecendo na entrada de uma estalagem. olhou para cima.

sugiro que prepare as delícias rotativas que seu estabelecimento tanto alardeia. até que seja consertada. O estalajadeiro falou: “Não há nenhum ferreiro que possa consertar o mecanismo a esta hora”. enxugando a testa. estufando a barriga para impressionar a freguesia com seu tamanho descomunal. Ele ergueu a cabeça e apontou para o mecanismo complexo. Na metade superior da placa havia pássaros: quatro codornas. O filho do estalajadeiro estava sentado. Procurou consolo olhando para o porco no espeto.” Ele reforçava suas declarações exibindo alguns elos da corrente. preso de cabeça para baixo a um espeto. A parte inferior era ocupada por um porco enorme. sendo mantida de má vontade pelo filho do dono. a não ser que queira ser espetado por um dos seus espetos. uma sacola de couro abriu caminho em direção à chaminé.17 A placa que chamou a atenção de Claude estava presa acima da porta maciça. explicava. bem como “a imponente e inesquecível lareira”. um gordo enorme. A freguesia gritava. O gordo não se abalou. E delicada como um relógio de bolso. Debaixo dela. que em épocas mais felizes fazia com que pássaros e carnes girassem sobre as brasas.” O sujeito. O que resta depende da churrasqueira. O estalajadeiro retrucou: “Cocheiro. . insistindo na exigência: “Esta estrada não permite o prosseguimento da viagem. dando a ele as vísceras de um gamo. mas ainda cru. não podemos usar o braseiro. Os fregueses praguejavam. Swiggleweiss mostra mais entusiasmo. membros dianteiros e traseiros amarrados. pernas abertas.” Quando se falou em relógio. Precisa dar um jeito de nos alimentar”. mas interrompe suas críticas para elogiar as grillades. mencionando em seu altoalemão o ambiente hospitaleiro. A tempestade ganhou força. O Porco tinha um salão alto. Uma personagem digna de Rabelais. o pescoço e o nariz. e viam a preparação da comida no braseiro. quatro pombos e oito marrecos. “Estou morrendo de fome. alguém se mexeu. Mostrava um mecanismo complexo. “A corrente não gira. E. pois havia bancos. “Caro senhor”. este sistema não tem simplesmente uma corrente e uma catraca. Brincava com um cachorro. dominado por uma chaminé de tijolos em laterais de granito. traindo o sotaque da Provença. “Os outros pratos terminaram há horas.” “Então conserte a churrasqueira”. onde giravam diversos espetos de carne. e os fregueses se amontoaram na janela para ver o pinheiro rachado em dois. Depende das molas e de um propulsor movido a ar quente”. longe do tumulto. Em torno da chaminé as pessoas conversavam. em volta do proprietário. a churrasqueira engenhosa garantia a admiração dos fregueses. E. Em circunstâncias normais. que aguardava sua vez de ir para o fogo num canto. A voz era fraca e esganiçada. do lado de fora do Porco. Arnold fala em camas duras e estábulos sujos. Acima das cabeças dos fregueses famintos. Recuou ligeiramente. estava em pé. contente e aliviado. disse o gordo. boca aberta. Savóia e Jura. retrucou um porta-voz improvisado do descontentamento geral. Mas as circunstâncias não eram normais na noite em que Claude entrou lá. O sorriso coberto de cinzas parecia zombar dele. como descreveu o viajante austríaco. “A churrasqueira quebrou”. O Porco no Espeto era uma das estalagens mais conhecidas na estrada para Lyon. Um raio atingiu uma árvore. uma voz proclamou: “Ofereceria uma refeição a quem consertasse o mecanismo?”. “Não posso.

Claude realizou sua metalurgia. Procurou outras ferramentas na bolsa. respondeu: “O mecanismo está cheio de areia. E arrotou. Acendeu o fogo e improvisou uma forja. mas não posso permitir que um sistema tão delicado seja tocado por um rapaz tão jovem e”. instalava e. media. O estalajadeiro tentava acalmar os viajantes. sorriu. de preferência de ferro. tirando os casacos dos recém-chegados ensopados e desinformados. um elo se partiu e o volante precisa de ajuste. malhava. Limpou o mecanismo com trapos e paus cobertos de pano. Removeu os espetos e. ria como o porco. A ameaça surtiu efeito. O cocheiro ficou furioso. entortava. dizendo isso. Sem ter mais nada para trabalhar além de peças de bar e celeiro. Os dois homens chegaram a um impasse. As engrenagens emperraram. é o único que compreendo”. Depois de desmontar as partes. finalmente. bateu na barriga do infeliz Gargantua. O estalajadeiro concordou. desmontou a churrasqueira. uma vassoura e os acessórios de um arreio. Todos os olhos se voltaram para o jovem especialista. “Ele salvou a reputação desta espelunca miserável. exibindo um pequeno espeto. Não tocou em nada durante um bom tempo. devo dizer. acalmando-se quando ganhou uma caneca de cerveja. um elo se partiu e o volante1. O ambiente carregado levou vários viajantes para a direção da porta. O estalajadeiro falou: “Como posso permitir que alguém mexa em uma churrasqueira tão complexa? Eu nem mesmo sei qual é o problema”. franzia a testa. além de três garfos. Esta estrada oferece outras onde podemos passar muito bem”. apesar de sua dedicação a minha taberna — e à metade das tabernas daqui até Paris — devo ressaltar que não entende nada de churrasqueiras. Aceitou o suborno. O gordo falou: “Está vendo? As engrenagens emperraram. praguejava. mesmo primitivo. mas isso só serviu para aumentar a frustração. Meus passageiros respeitam minha opinião quanto às tabernas onde paramos.” “Cocheiro.” E. Claude tirou da sacola algumas ferramentas que conferira na beira da estrada. Pensou e pensou. apoiando o garoto. depois de calcular mentalmente o quanto economizara graças ao garoto: “Ofereço todo o torresmo que agüentar comer. animado pela fome. Um marreco solitário não poderia alimentar o bando que reclamava. Fez um trabalho que honra o santo patrono das . Ele limpou a cerveja do bigode e continuou: “Não tem outra escolha senão dar uma chance ao rapaz. O gordo deu um passo à frente. voltou à carga: “Isso não vai assar os espetos”. Claude ficou no canto. “Vai permitir que os frangos meio crus apodreçam? Deixe que o rapaz tente consertar o que você quebrou. precisa de ajuste”. O sorriso marcou a conclusão da restauração da churrasqueira retratada na placa da frente. Lucille e eu insistimos. olhando para baixo. sentou-se e pensou. ajustava. Trabalhava concentrado: media. mas. enquanto empunhava a calçadeira de chifre para ajudar os que partiam decepcionados mas deixavam mesmo assim suas gorjetas. O estalajadeiro falou: “Eu daria de bom grado uma refeição a quem consertasse o mecanismo. Só o encarregado das botas fazia jus a seu salário. indignou-se o cocheiro. malhava. O estalajadeiro gritou. Claude. meu rapaz”. “com as mãos defeituosas”. Finalmente pediu ao filho do estalajadeiro que trouxesse um guarda-chuva.Claude encontrava-se na frente do estalajadeiro e do gordo. e mal lubrificado. Os fregueses irromperam em gritos e vivas. forjava. depois do primeiro gole. “Não vai fazer uma coisa dessas”. O último problema. limpando uma área no chão. Só o churrasco o interessa.

Mas nunca tive chance de me especializar em uma atividade. se não falasse nele. concordou o cocheiro. quando a sineta tocou pela segunda vez. Dome dispensava o uniforme-padrão dos cocheiros. e até algum tempo atrás teria ficado feliz em continuar a balançar. Ignore as cercas erguidas pelas corporações. Servirá. brincou o cocheiro. mesmo indireta. e a gordura dos coelhos regava o porco magnífico. a intervalos. e a gordura dos pombos pingava na carne dos coelhos (não havia codorna naquela noite). é?”. para nós dois. “Não. cocheiro por vocação”. ao motivo de sua partida. embora ele odiasse esta palavra. anunciando a necessidade de se aumentar o fogo para gerar mais ar quente. uma caneca. que se não me falha a memória é são Lourenço.” “Um monge metido a macaco. no qual prendera pedaços de corda. é mais saborosa do que estes pássaros arpoados”. disse o cocheiro ao . bonachão. e. Claude fez uma referência. outras caças e cortes selecionados de porco. antes inoperante. a gordura dos marrecos caía em cima dos pombos. fui atirado ao chão com um único golpe. e pule de galho em galho”. Convenceu-se de que o silêncio seria a melhor política. É um lugar lamentável. Ele se valeu do guarda-chuva e dos garfos para ampliar a churrasqueira.” Menos de quinze minutos depois.” O Abade se meteu na conversa de novo. mordendo. não é?”. Ao executar o conserto.” “Um sábio. Ajustando a calça. presas por um cinto imenso. Claude incluíra uma novidade. ampliando sua capacidade de grelhar.” “O que mudou?” Apesar de sua decisão. “A carne. vários frascos e uma faca de dimensões impressionantes. Eu era seu aprendiz. até que Claude o interrompeu para exibir um pouco de sua sofisticada cultura. puxou conversa para selar a amizade: “Veio de Genebra? Não? Ainda bem. O sujeito. Uma perdiz e alguns galetos podiam agora ser acomodados sobre a brasa. Mas a verdadeira razão. onde não se sabe nem preparar uma truta decente”. o gordo se apresentou: “Meu nome é Paul Dome. quando não perfurada. “Metido a macaco? Talvez. mas. Claude se conteve. “Sempre estou aberto para a linguagem da comida. uma seleção de pássaros. Oferecerá. O Abade — o velho era abade — disse uma vez: “A árvore do conhecimento está aí. disse o cocheiro.. boçais como suas fachadas e herméticos como as panelas onde cozinham. triturando e engolindo uma perna de marreco. mesmo não admitida. Seria difícil explicar sua profissão. com osso e tudo. Trata-se de uma estratégia muito usada por condenados e amantes desprezados.” Claude conteve-se. E dará graças a Deus pela oportunidade de fazer isso. Sabia que poderiam acusá-lo de roubo por causa dos relógios que não foram entregues.” Nova leva de aves grelhadas chegou à mesa. este seu amigo”. quase sempre com resultados insatisfatórios. não sou ferreiro. para seu silêncio era a esperança de esquecer o passado. “Mas tudo bem. “Trabalhei com o tal velho de quem falei. “Um velho que conheço disse que os moradores de Genebra são superficiais como suas lareiras. Estava decidido a não falar no Abade. tocou. usando roupas folgadas. para que a escalemos.churrasqueiras. Mais uma vez. “O infortúnio me derrubou da árvore. O cocheiro perguntou: “Você é ferreiro ambulante?”. uma sineta.” “Você é meio dramático. uma refeição digna e uma garrafa do produto agrícola que tornou os vinhedos da Borgonha famosos.” “Sábio. Falou mal da República..

” O dono estava furioso com o apetite insaciável do cocheiro. passando pela Borgonha. mas o estalajadeiro já se afastara para servir os fregueses que pagavam. disse Claude. informando que eu deveria seguir em frente. contudo. Eu a peguei a quatro léguas do Porco. “Minha habilidade se concentra em outras coisas. ela não parava de bater no teto.” “Não vai dormir na estalagem?”.” O Porco no Espeto ocupava um lugar no final da lista. destacavam -se no alto dela. Um deles o levava pela estrada real. O cocheiro disse: “Tenho certeza de que os pássaros no espeto estão mais vivos do que estes metidos. de um esquálido comerciante de cereais. e os excessos decorrentes geraram a necessidade urgente de cair na cama e permanecer deitado. detendo-se em suas estalagens favoritas. Não tem problema. Não deveria ter deixado a pobrezinha lá fora.” “Não tem medo dos raios?” “Ela já foi atingida mais de uma vez. Devo voltar para Lucille. Economizará o preço do quarto no Porco”. Claude perguntou. merengues ao mesmo tempo crocantes e cremosos. A mistura o levou a fazer descrições caricaturais dos viajantes mais próximos.” Ele descreveu seu itinerário de Lyon a Paris. Uma que não seja conduzida por mim. Melhor que a malvasia e outras porcarias adocicadas que os tolos tanto apreciam. “Não as melhores para dormir. Zombou da viúva de um rico fabricante de velas. “Ela é a pior. Sua carruagem atolou por causa da chuva. “Esta faixa gretada de terra produz a melhor bebida do mundo.” Levantando-se para sair. Sou um transportador. Conforme a refeição se desenrolava. nesta tempestade. Olha aquela ali!”. Disse a ela para guardar o Guia inútil para outra viagem. Escolheu os dois roteiros por causa da região vinícola que atravessavam. “Em nenhum lugar. Presume que o caminho seja o mesmo para ir e vir. é possível comer perna de carneiro temperada sete dias por semana. . intoxicado pelo vinho e por suas próprias palavras. “Eu poderia fazer um cesto de grelhar com facilidade”. Desapontou-se por perder a companhia. As leis da eqüidistância não se aplicam a mim ”. o cocheiro ficava cada vez mais bêbado. “Você poderia.” “Não precisa.” O cocheiro se aproveitara ao máximo da refeição gratuita fornecida pelo estalajadeiro. veja bem. como devem ser os merengues mais finos. ponto final da viagem. Ele apontou para uma senhora carrancuda. mesmo. a senhora comprou o Guia de viagem que mostra a estrada de Paris a Lyon. de idade avançada. e o outro pelos vinhedos de Bourbon. mas não havia espaço no estábulo. disse o cocheiro. fora Paris. “Eu como nas estalagens. Ao invés de agradecer. Mas não é.” O cocheiro arrotou antes de informar a Claude que alternava dois caminhos na rota Lyon—Paris. mas guardo as noites para Lucille. de um pintor intoleravelmente esnobe que se gabava de uma encomenda recente. precisará pagar pela acomodação. guia na mão.estalajadeiro.” O cocheiro mergulhou o dedo numa pequena poça de banha de porco que cobria um prato de estanho.” “E você deveria ser grato por comer de graça. O estalajadeiro. “Deveria ter pedido a este garoto para fazer um cesto de grelhar. e sim aquelas que servem as melhores refeições. não se sentia mais tão generoso. Em frente! Eu retruquei: “Madame. Sua devoção à comida era óbvia. e os estabelecimentos de Paris. tenho certeza”. o cocheiro disse: “Lucille e eu teríamos muito prazer com sua companhia. couves-de-bruxelas frescas em pleno inverno. “Se quer dormir.

O cocheiro disse: “Claro. se for preciso sempre posso dispensar parte da carga. troquei meus sonhos marítimos pela terra firme. duvido que acompanhem o riTmo de Lucille. Claude. “Por isso. puxadas por Auvergnats de primeira. de acordo com minhas estimativas. balançando em direção aos mistérios metropolitanos. madeira e latão reluzente da carruagem de Paul Dome. ou até esquecer. mas isso só pode ser feito de acordo com a lei”. E. Mas ela morreu — coberta de pus em um leprosário limpo e perfumado. Mas depois do rio a carga aumentou. Quando acordou na manhã seguinte.” O cocheiro tomou um gole da bebida que levava em seu frasco. Economizo as despesas de hospedagem.” Paris! Imagens mágicas passaram pela mente de Claude. A razão é que Lucille foi a única mulher que amei. minha mulher. era quase tão bonita quanto esta aqui. disse o cocheiro. Na verdade.” Claude logo se viu rodeado pelo veludo. ao dormir ao som da chuva que tamborilava no teto. “Ela é. Foi uma homenagem. . “Entre. para seguir em frente. sob os cuidados de um bom cocheiro. de beleza e brutalidade real e imaginada. Pelas laterais enlameadas escorria a chuva forte. tosco e exagerado como o dono. Com a rapidez com que se diz j’accepte. pintei o nome dela na carruagem. Sentiu-se tão bem acomodado que. Me dê parelhas de éguas velhas reumáticas. Queria ser navegador. “Trata-se do tipo de carruagem conhecida como diligência. Ela foi carregada com garrafões de vinho de mesa passável. Paris! Uma cidade onde poderia suprimir. e protegida por paneiros na frente e atrás. ele aceitou. a viagem se desenrolara sem problemas: passageiros e bagagens subiam. ela poderia realizar feitos impossíveis para carruagens comuns. Até então. “Se fizer isso”. elegante. Seu nome estava escrito bem em cima do assento. mas o pai de Lucille trabalhava na construção de carruagens. “Lucille pesa menos que suas rivais mais jovens. Mas pegar uma destas carruagens novas. o nome é apropriado. assumiu um compromisso. Talvez queira saber por que seu nome é Lucille. Claude concordou com a cabeça. A primeira Lucille. “nós — ou seja. Lucille e eu — o levaremos a Paris. o cocheiro lidava com o velho cavalo de carga e descrevia a segunda Lucille em detalhe.” Claude passou a noite no conforto estofado da carruagem. Um exemplo disso foi dado logo depois da travessia de balsa em Trévoux. era preta como o ébano.” O cocheiro disse que. Claude comprometeu-se a consertá-lo. o mais belo veículo para viagens confortáveis. “Não acredite que os cavalos tenham algo a ver com isso. e as tiras da suspensão (“couro húngaro de primeira!”) começaram a gemer com o peso dos caixotes e barris. Uma cidade cheia de crimes e criatividade. meu amigo. Paris! Uma imensa oficina onde aprimoraria suas habilidades. Quando conheci Lucille. Lucille encontrava dificuldade em manter o cronograma. Agora moro aqui.” Falava bobagem. para puxar Lucille — com carga completa — que farei as noventa e nove léguas de percurso em cinco dias. sua tristeza. mas carrega muito mais peso”.18 Lucille tinha vinte anos de idade. mesmo quando animais saudáveis eram providenciados ao longo de sua rota. passageiros e bagagens desciam. disse o cocheiro. seis meses depois do casamento. Os consertos constantes nas rodas provocavam atrasos. Você está sentado no meu dote. O cocheiro mostrara a ele um relógio quebrado. para gastar mais em comida e bebida.

Depois de uma cuidadosa inspeção. De onde é o registro?” Claude desceu. “Lucille sempre leva o que precisa ser levado. e teria continuado assim. bateu o pé e a estimulou a prosseguir de uma maneira comumente mais associada a montarias.” “Algo mais?”. O que faria? Para onde iria? Conhecia tão pouco sobre Paris. ficou surpreendentemente alegre ao se deparar com um barril à espera de um transporte. anunciando o roubo de três relógios e um barril de Borgonha. “Claude. iluminado por uma lamparina.” A conversa prosseguiu animada. Ele olhou para o cocheiro desconfiado. Um inspetor colocou sua marca. O cocheiro. o policial notou os selos violados no barril. nada até chegarem a Arnay le Duc. mande aqui pra cima. “E o máximo que ela pode levar”.” Rompendo os vários selos. disse: “Sabe a pena para este delito?”. Ou com a sorte do bom espírito. Claude revelou seus temores. Quando chegaram à estrada para Vermanton. e verá que falta a contramarca necessária.” “Não tem a contramarca?” O policial sorriu. perguntou o cocheiro. bem como suas aspirações.” Ele soprou palavras de estímulo para a lamparina da carruagem. isso sem contar o peso não desprezível do cocheiro e seu amigo.numerosos pacotes embrulhados em pano. o cocheiro apontou para a elevação da Casa de Borgonha. “Hoje sonharemos com o espírito da boa sorte. Eu certamente não permitiria a desobediência das leis do reino. “O registro foi feito em Autun. mas a caneca não ficou vazia por muito tempo. o equivalente da orelha. os artigos 2 e 5 da parte 5 do decreto real de 10 de junho exige que todo vinho seja registrado em duplicata. além de uma maleta em Chagny — tudo com destino a Paris. Claude bebeu. “Com ordem de quem abriu o barril?” Consultando a etiqueta. Como sabe. nervoso. desça e verifique as etiquetas. O cocheiro indignou-se com a acusação. Daremos um jeito. “Não tive escolha. por favor. A viagem solidificara a amizade. Claude e o cocheiro conversaram com a sinceridade de dois estranhos. embora não reclamassem. Para consternação dos carregadores e passageiros esperançosos. “Mais nada. Quer dizer.” Era um policial. e suas habilidades não são nada comuns. três passageiros amontoados. não tivesse atraído a atenção de um passante que seguia para uma taberna próxima. Lucille não agüentava levar mais nada. como só as viagens fazem. “Seus documentos. Inspecione o barril. “A originalidade é valorizada em Paris. Conforme o tomava. que amaldiçoara as cargas anteriores. disse o cocheiro. que ficara aberta para melhorar a ventilação. o cocheiro usou sua caneca para pegar o vinho.” “Tem certeza?” Claude checou mais uma vez. Consumiu rapidamente o vinho ilegalmente adquirido. “Absoluta. O cocheiro tentou tranqüilizá-lo. O passante bateu na porta da carruagem. Naquela noite. imaginava os cartazes espalhados pelo reino. . tome um drinque conosco”. O cocheiro mostrou sua papelada. insistiu o cocheiro ao ver o nariz que penetrava no interior de Lucille.” “Ótimo. “Senhor.” O cocheiro acomodou o barril entre as pernas. Depois pegaram um baú e cartas em Mâcon.

Muito bom. encontrou uma pequena caixa. riu infantil com a ausência do pênis. quando cozida no tempero certo. ele regalou Claude com as minudências da lei real — motivos para confisco de peixes (portarias de 25 de julho e 29 de maio). Claude mencionou o roubo dos relógios. Claude voltou com o boneco. com cerca de vinte e cinco centímetros. Usarei o recurso de sempre. esta montanha horrível de regulamentos pode ser útil. Pela segunda vez. passava a falar de vinhos.” E deu uma gargalhada. mercadorias não especificadas (3 de novembro) e galinhas (12 de fevereiro).” “Sendo assim. Não viu nada muito interessante. O cocheiro. olhando para o céu. Desviou Claude de seus próprios medos. Nem onde trabalhar”. “E seu. Descobrirei um jeito de justificar a perda do objeto. Gastou um bom tempo descrevendo as maravilhas gastronômicas de uma gargote parisiense. Claude guardou o boneco em sua pequena caixa de madeira. Ele a abriu e inspecionou o conteúdo. O que me lembra uma coisa: fez um belo trabalho com meu relógio.” Depois de um momento de protestos fingidos e olhares para as carruagens em volta. E. pernas de cerejeira e juntas de carvalho. e sacou um jarro de abricós surrupiado. A conversa sobre comida dominou o resto da viagem. bem como de seus cortes favoritos de boi. O manequim usava um traje de morim. Até chegarmos em Paris pensarei num ato divino adequado. . claro. dizendo: “Coma alguma coisa”. sapatos e peruca. lembrou-se de suas dificuldades e disse: “Não tenho onde morar. ou cair da carruagem acidentalmente. Claude ficou impressionado. O cocheiro falou de uma pequena criação de caracóis tocada pelos capuchinhos — mais fina do que as culturas de escargot no Norte — e da taberna que preparava o melhor faisão e o melhor creme batido com vinho. lendo as anotações nos rótulos e etiquetas das caixas e tonéis. Durante toda a noite. quando percebia que Claude não agüentava mais discutir cardápios.” Era verdade. um modelo policromado. sob um fardo de pano. então devolverá os relógios. o policial aceitou a oferta do cocheiro e tomou uma caneca de vinho. Em um momento de confidencias mútuas.” Claude passou o resto da viagem examinando a recente aquisição. a portaria de 12 de fevereiro: “Nenhum cocheiro será responsável por danos provocados por atos divinos”. veja se há algo que possa ser perdido. o cocheiro falou: “Sabe. algo tão fundamental quanto a comida bem-feita. Eu. “Está mais bem vestido do que nós dois. Preciso recompensá-lo. revelouse um antídoto eficaz para os terrores recentes da mansão. precisa se livrar logo disso. meu amigo. dignos de Chardin. no meio da noite. propriedade de uma certa madame V. do tipo usado por estudantes de arte e pintores. tudo muito bem preso e am arrado. O cocheiro disse que não precisava se preocupar. com suas paixões desenfreadas e franqueza zombeteira. Transferiu para o manequim as agonias e esperanças que levava para Paris. Falou de joelhos de porco e cogumelos. removeu a peruca. Dê uma boa olhada aí atrás. até que. chapéu de feltro. Parece novo em folha. de acordo com as leis vigentes. Claude passou para a traseira e pesquisou a carga.“Não. Esta mercadoria não pode ser transportada. Tirou as roupas do boneco. Quando. dizendo: “Ficaria muito feliz com isso”. sempre uso o tempero certo”. O cocheiro examinou o manequim. O cocheiro ofereceu o único consolo que conhecia. o cocheiro bebia de graça. Era um pequeno manequim de madeira. Depois que o policial foi embora. “Suas habilidades serão recompensadas.

19 Uma semana após o início da viagem. deixando Claude livre para explorar a cidade de Paris por conta própria. “Olhe para baixo. “Sim. e ficou deslumbrado com o trabalho em metal nas portas do lado oeste. O cocheiro gritou: “Preciso checar o manifesto. no solo. o cocheiro gritou: “Calce as rodas!”. cuja capacidade de locomoção retornou inesperadamente. Viu um mendigo cego espiando um colega perneta. haverá discussões sobre as cargas perdidas. retrucou o cocheiro. Quando Lucille chegou ao depósito. carroças do correio. antes que outros comerciantes e carregadores o cercassem. O cocheiro berrou um último incentivo a Claude. Viu uma criança brincando com a espada desembainhada de um guarda suíço complacente. coches. e uma frota de tílburis Perreaux de aluguel. Não carregavam arcabuzes nem lanças. Ele apontou para o relógio na place de Greve. é uma fortaleza sitiada”. Suas pernas adormecidas cederam. Olhou assombrado para as pontas de uma porta de ferro corrediça enferrujada. esfregando papéis em seu rosto.. O cocheiro desceu pomposo e foi imediatamente abordado por um mercador esperançoso que aguardava um carregamento de cri-na de cavalo de Auvergne. até ser engolfado pelos fiéis que comparavam os preços dos medalhões.. Não se atrase”. “Isso. Eu o vejo esta noite. Viu um bêbado vomitando uma quantidade considerável de vinho tinto. E o que Claude viu? Viu um vendedor de fitas flertando com uma freira. sacas e fardos de todos os tipos e tamanhos. e olhou para a variedade de veículos: whiskeys. disse. Claude desceu da carruagem.” Realmente. enquanto uma moça tentava atrair o povo para experimentar seus bolos com anis. entrou em Paris e passou pelo portão de um estábulo. Mas. Viu um velho catando restos de comida numa pilha de lixo. espremido entre a maleta de Chagny e o baú de Mâcon. como um guindaste nas docas. sentado no alto da pilha de fardos. O cocheiro rapidamente fez a descrição do tempo para o passageiro que acordava: “Mais cinza do que prato de estanho”. Lucille. Claude acordou na traseira. puxada por um cavalo cansado. às sete em ponto. “Parece uma fortaleza”. Mas ele prendeu os calços de madeira com eficiência recém-adquirida. assim que foi acusado de competição . “O que disse mesmo que o Abade lhe contou? Algo a respeito de manter os órgãos da visão treinados para perceber o que há em torno?” Claude completou a frase: “. do ponto de vista de Claude. Paris pedia uma descrição totalmente diferente. fascinado pelo movimento nas ruas.” O cocheiro foi cercado pelo caos. junto com as chaminés que subiam ao céu como ameias e merlões. Ele balançava a cabeça. temia que o menor piscar de olhos o privasse de alguma novidade. Viu os reis de pedra de Notre-Dame. O portão. Muito bem. evocavam a imagem de um castelo fortificado. e sim barris e cestos. Claude. centenas de soldados apressados corriam para os portões da cidade.para satisfação do conhecimento ocular”.

Viu um homem de hábito vermelho com um sabre preso à cintura. As moscas enxameavam em torno da obra. prestando especial atenção às vísceras derramadas. que carregava uma flauta. um enegrecido pela fuligem. O que foi que ele viu e ouviu? Um relógio de altar. Notou sua concepção religiosa. . e observou que os turistas ricos riam da procissão interminável de pestilentos e enfermos. Os motivos bíblicos estavam por toda a parte: nos painéis de latão mostrando os dez mandamentos. Ouviu o estalo das ferraduras nas pedras do pavimento. Á metade delicada. um colar de dentes em volta do pescoço e uma pena de pavão no chapéu. no final de um beco. Ele também escutou novos sons na cidade. relojoeiros. O jovem turista refugiou-se numa rua transversal. teria dito o cocheiro. ficou desapontado com o que viu. o relinchar dos cavalos. vestidos com roupas caras em miniatura. fazia par ao lado exposto. adoráveis. E o sol trouxe consigo o calor insuportável. Mas Claude se interessava mais pelos objetos em pequena escala. um par de ratos do banhado empalhados. Ouviu as imprecações dos aleijados e dos despossuídos. Desestruturava sua noção de escala. tamborim e empurrava um violoncelo dotado de uma pequena roda na ponta. tesouras que poderiam cortar ramos de árvores. joalheiros. e um peixe dourado nadando em uma caixa de vidro com cantoneiras. onde havia ourives. O outro. intocada. na base adornada de anjos e querubins. Estava atrás de um vidro. O objeto o forçou a reconsiderar tudo o que vira e ouvira na cidade. Viu lenços e trapos esfiapados cobrindo o rosto dos pedestres que passavam perto de um cemitério paroquial fedorento. e estava intacto. Desapontado até encontrar o primeiro objeto merecedor de um desenho parisiense. que encontrou nas bancas de uma pequena galeria: uma pequena bota de porcelana. e rematava um dia de exageros para os olhos e ouvidos. Um limpador de chaminés cruzou com um aprendiz de barbeiro. pratos. com um metro e meio de altura. Viu uma vaca retalhada na vitrine de um açougue. nas estátuas dos santos ao lado dos ponteiros. onde fêmures eram empilhados como lenha de fogueira. Viu outra freira — a cidade parecia cheia delas — cuspindo descaradamente. rim e metade do estômago à mostra. e coisas pequenas aumentadas. embora reconhecesse que vira muito pouco. Viu as contradições cromáticas entre as diversas profissões da cidade. ou lera nos livros. Claude pensou. o padre-nosso e o credo. perto do cais. Viu a “porta de morte” no Hotel Dieu. No final da tarde o sol surgiu — como uma gema de ovo sobre um prato de estanho. tambor. Um raio de sol refletia nele como se batesse em lentes muito polidas. outro branco de talco. douradores e.desonesta e desleal. Claude viu o que viu com a visão seletiva que crianças e artistas costumam compartilhar. sem o couro nem metade do crânio. Inicialmente. Mas a visão não era o único sentido estimulado. Viu coisas grandes reduzidas. Ouviu um concerto ambulante tocado por um músico de rua. O mundo agigantado incluía placas de lojas com botas enormes. óculos do tamanho de rodas de carroça. Ouviu o tilintar da prata. um barulho diferente do ruído abafado das ferraduras em Tournay. importada de Ludwigsburg. além de parte do intestino caído no chão. com pulmão. Um lado da criatura tinha olhos meigos.. O proprietário removera parte da carne para mostrar sua habilidade. o gorgolejar da água nas bombas nas margens do Sena. mostrava os miolos esponjosos..

mas encontrou apenas um silêncio frio e desconfiado. e que as fases da lua exigiam uma única porém bem-feita engrenagem. de modo que voltou para a frente do relógio e o desenhou. . ele percebeu que eram sete horas. Cristo a caminho da cruz. e que precisaria correr para encontrar seu amigo. e alguém em outra cruz (era Simão. o relógio tocava cinco notas diferentes. Mas os outros aspectos do relógio permaneciam misteriosos. o Sirênio). Ele tentou conversar com o dono da loja. era a beleza de um relógio em movimento. Se havia algo capaz de fazer com que Claude se esquecesse do tempo. Lá estava Pôncio Pilatos lavando as mãos. e Claude continuou desenhando. Cinco. O querubim marcou a hora. e Claude continuou desenhando. As três figuras davam uma volta completa por minuto. ele identificou algumas das figuras mais conhecidas em volta do relógio. Somente quando os relógios mais possantes das torres soaram. Claude percebeu que o mecanismo era movido a corda.Embora a educação religiosa de Claude fosse limitada. Quando uma alavanca era acionada. O querubim deu outra volta.

riu. passando o ferrolho. era claro e bem aquecido. tomara que não. refoga. E bate. Como consegue manter o preço tão baixo? Quando se trata de comprar comida. outro não. quando o preço do pão já caiu. ou os caros pêssegos de Corbeil. “Já são dez.20 O cocheiro pediu pontualidade. tratava-se de uma gargote. cozinha.” “Espero que não haja nabos hoje”. Enche o carrinho com estas sobras. no final do século XVIII em Paris — mas em função da estratégia necessária para conseguir uma mesa no estabelecimento de madame V. a refeição preparada por madame V. e sim as pêras amassadas. Ela pode ser amável e gentil. “Madame V. até transformar tudo em pratos de textura fina e suave. repolhos passados.” Claude não tinha noção precisa dos preços. Tem olhos treinados. A rotina era familiar a grande parte da dizaine privilegiada. atirados aos cães. é a pechinchadora mais implacável da cidade. local parcamente mobiliado onde se consumia vinho e comida a preços módicos. é uma das raras católicas que vive conforme as Escrituras. Madame V. trancou a porta novamente. O interior. permita que eu prossiga. “Ótimo. Do açougueiro. famosa por conseguir os preços mais baixos. Tecnicamente. na sua ausência. de tão miserável. Usa a idade como recurso. contudo. até chegarem a seu restaurante favorito. visita o padeiro no final da tarde. madame V. Parte da comida é distribuída aos necessitados. depois de fechar a porta. um banquete nos espera. Poderia ter nascido em Lyon. Eles não lhe oferecem pêras perfeitas. turbulenta e mesquinha. uma prostituta. para aterrorizar os fruteiros. amassa e tempera com maestria. e escolhe os ossos que seriam. sente logo a força do cotovelo ossudo. e deixou do lado de fora um número de candidatos equivalente à quantidade admitida. mas sabia o suficiente para se impressionar. dedicando-se à caridade. ambos sujos de tinta). Com força inesperada. Qualquer um que tenta passar na sua frente. adquire as partes imprestáveis da carcaça: os restos de carne jogados fora quando se retalha o boi. Seus métodos são lendários. A porta ainda trancada tranqüilizou o cocheiro. Poderia cobrar mais caro pelas refeições que serve. Ela chega ao peixeiro atrás das cabeças e outras partes menos cotadas. normalmente abria a porta às quinze para as oito. com sabor inigualável. nenhum deles muito valorizado. Depois de comer. exagerando a fragilidade para obter melhores negócios.” O ferrolho correu e a porta se abriu. mas não faz isso. dois jornalistas (um conhecido. “Por vinte e dois sous temos acesso a uma performance rara. e segue em frente. Seja como for.” Madame V. o excedente da produção de nabos. Cada um pegou prato. ou rude. não porque fosse entusiasta da hora certa — a mania de ser pontual não conquistara ainda muitos adeptos. em contraste com a imundície da rua. Bem a tempo. não disse palavra. “Restaurante” não seria bem o termo. Ele detestava nabos. o cocheiro passou o tempo detalhando a descrição que iniciara na viagem. Sabem que ela pechincha e acaba levando o que deseja por uma fração do preço inicial. limpa. Os clientes — cinco pedreiros com cal sob as unhas. No final destes degraus. em sua cozinha despojada. comentou Claude. Os clientes sentaram -se em bancos de tábua. de graça. Não entra mais ninguém. Recordações desagradáveis. cortando o discurso do cocheiro. colheres e uma caneca de gros rouge. E junta todos os ingredientes. na frente de mesas de tábua .” Como madame V. E balançou a cabeça. O resto é servido aqui. “Não. poderemos traçar planos para sua vida. Ele se apressou em conduzir Claude por um emaranhado de ruelas escuras. Claude. o cocheiro e seu “amigo — passaram por um braço ossudo. Ele contou as cabeças dos fregueses em fila.

Para mim. explicou.” “Só faço restrições ao vinho”. uma espécie de ensopado de carneiro. o que evitava a confusão que uma panela comum provocaria. antes de se retirar para cuidar de um caldeirão fumegante onde estava o segundo prato. Foi assim que Sebastian Plumeaux entrou na vida de Claude. e o cocheiro. escritor. Produz comentários jurídicos em casos de escândalo e panfletos indecentes”. “Agora conte tudo sobre seu primeiro dia. e um arroto esporádico de satisfação. Durante algum tempo. e nos arquivos da polícia parisiense: “Plumeaux. Claude e o cocheiro sentaram-se no canto. Descreveu o timbre com tanta precisão que o jornalista deu as costas para o companheiro que pagara a conta e começou a anotar as observações do vizinho. a que chamou de “raro dom da acuidade auditiva”. Contara histórias valendo-se do desenrolar de um jogo de cartas. . disse o cocheiro. Quando Claude descreveu os movimentos do relógio de altar que quase o atrasara — um relato ao mesmo tempo preciso e acessível —. fazendo romances utópicos e versos burlescos esporádicos. mas logo se deteve nos relógios que abundavam na cidade. “Não sou nem serei membro da Academia. enquanto outros mastigavam com alarde. “Um crime contra a arte da uva. Depois de uma inspeção breve do tamanho das porções. só se ouvia o som dos talheres. meu nome aparece em poucas obras. “Melhor do que a língua de javali que experimentei certa vez. buscava dinheiro fácil e refeições gratuitas. Como escritor. e estava avaliando a excentricidade de Claude. de um autor inglês. nada de gratificações ou traitements”. a comida era tão boa que poderia ser comparada à de Marie-Louise. Os pratos já continham a primeira iguaria do jantar. parecia propenso a narrativ as baseadas em estruturas elaboradas. o que explicava a companhia do autor inédito. “Não. das bocas em movimento. Na opinião de Claude. mas dotado de recursos. Chegou mais comida. limpou a testa. A atmosfera era tranqüila. Pingou algumas gotas em seu copo e no de Claude. como a hóstia consagrada na Eucaristia. e tirou do cinto uma garrafinha de vinagre. Ele descrevia os métodos da profissão para um companheiro atento. Alguns fregueses esperavam que a comida se dissolvesse em suas bocas. Plumeaux era suficientemente sábio para sentar e ouvir. e os presentes conversaram bastante. As apresentações foram feitas. inusitada e potencialmente lucrativa. no qual três retratos conversavam nas paredes de um palácio setentrional. notou Claude. percorria as mesas e guardava as moedas no bolso do avental. Prefiro tomar água. reunia notas para uma adaptação não autorizada dos Contos hieroglíficos. Madame V. que pagara pelas duas refeições. o nariz e o pescoço. perguntando: “Não é digno da mesa de um rico mercador?”. vegetais variados cozidos.” O jornalista alternava a escrita com o ensino. fazendo uma pausa. Além disso. Como professor. de uma partida de xadrez e outros conceitos forçados. perto do jornalista com obras publicadas. batendo nos copos à sua frente. expulso da Ordem. Trabalhava atualmente no Triãlogo utópico. os eleitos atacaram. cujos modos indicavam seu profundo conhecimento da imprensa marrom parisiense. Meu nome jamais aparecerá nas listas de personalidades literárias aposentadas com uma bela pensão. o jornalista ficou intrigado o suficiente para se apresentar. Não escondia as limitações de seu talento.que iam de parede a parede da pequena sala. Ele reproduziu o som dos sinos das torres. disse sem hostilidade. “Para evitar as diarréias parisienses”. A que conclusões chegou? Fez algum desenho?” Claude falou das diversas coisas que viu e ouviu. Plumeaux era um picareta que sobrevivia precariamente escrevendo sobre escândalos. advogado.” Ele serviu dois copos.

Recebendo um sinal de aprovação do cocheiro. Plumeaux mostrava-se otimista. “Entrarei em contato quando voltar. também zeladora do prédio. e depois pela barganha com os agiotas. Claude aceitou os quartos sem ver. O desespero tomou conta de Claude. “Cuidado com a cabeça”. a faculdade Bernardine. Chegaram ao último andar. Estava quase desistindo. quando Plumeaux viu uma mulher na frente da igreja de St. Claude examinou o que pôde.“Onde você mora?”. onde os acendedores de lampião descansavam de sua tarefa. Para chegar ao quarto. o que reduzia muito o espaço para quem tivesse mais de um metro de altura. Plumeaux e o escritor desconhecido saíram da gargote. O jovem escritor. O sótão ficava na parte mais inclinada do telhado. Depois de uma breve aula sobre o câmbio na cidade. “Espero que seja bem crocante”. conforme iam de uma casa a outra. “Lucille e eu fomos convocados para uma viagem às duas da manhã. aqui na madame V. Primeiro bateram na residência de Plumeaux. Claude entrou. Claude. para alívio de Plumeaux. Pararam na rua dos agiotas. Ficou apenas com uma pequena comissão. por conta de seus serviços. O local estava disponível. Estava escuro demais para se ver o estado do resto do prédio. mas isso fazia parte de sua natureza. Perguntou sobre o valor na moeda estrangeira de seus relógios. precisou subir junto com Claude uma escada em caracol de madeira podre e ferro corroído. A zeladora ofegante entregou-lhe o toco de vela: “Pronto. Claude ouviu uma sucessão de comentários pessimistas sobre a dificuldade de se conseguir um lugar para dormir. e depois de muito negociar Plumeaux conseguiu um preço aceitável pelos relógios de Claude. “Em nenhum lugar. Claude aceitou. Claude concluiu. até que a varredora se lembrou de que tinha um sótão desocupado. Seu novo companheiro cuidará de tudo. disse a zeladora. Claude pagou por quatro noites. . mas o preço era alto demais. De uma porta específica saía um cheiro semelhante ao do cemitério por onde passara. perto da place Maubert. O nariz de Claude. recebeu a garantia de que não teria problemas para pagar o aluguel. que deu boa-noite ao novo amigo e desejou boa sorte. falou. bem razoável. Não havia vagas. Claude perdera a conta dos degraus quando chegou ao cento e três. parando para raspar os restos do prato de Claude. Bateram em uma casa de vinhos. Boa noite”. O picareta ofereceu-se para ajudar. O cocheiro levantou-se para sair. atrás de um quarto para alugar. Claude explicou. entediado primeiro pela exuberância que acompanhou a conversa sobre os sinos. deixando que os dois procurassem sozinhos onde acomodar Claude. Passava da meia-noite quando finalmente encontrou um abrigo. contudo. a varredora. “Três quartinhos”. Estava cansado e não tinha outra escolha.” O cocheiro passou as rédeas da amizade para o jornalista. disse a senhora. e seguiram em frente. ele disse: “Preciso ganhar o meu pão”. Percorreram os quarteirões próximos ao bairro das gráficas. Ao conversar com ela descobriram que um carpinteiro itinerante deixara seu quarto no terceiro andar no dia anterior.-Séverin.” Despedindo-se de todos. Acompanhou Claude e Plumeaux até o rio e partiu. depois de uma longa subida. por enquanto”. sentiu-se logrado pela falta de atenção de seu companheiro. Um choro de bebê provinha de outra parte do prédio. batendo a cabeça numa viga. sentiu um cheiro horrível. “Tem uma amade-leite do outro lado do corredor”. A rejeição apenas arranhou á confiança do picareta. A zeladora resmungou algo sobre um taxidermista. Plumeaux perguntou no final da refeição. varrendo a entrada de um edifício com fachada de pedra. Claude disse sorrindo. e depois passaram a explorar impossibilidades geométricas na procura de casas. antes de sair à cata de aventuras noturnas em um mercado de carne distante.

num tipo de relógio de água que exigiria constante atenção nos dias de chuva forte. fedorento. O papel. Claude juntou alguns trapos à guisa de colchão. de formato irregular. Uma pilha de madeira fora abandonada no canto. pouco ajudava a abafar o som do chapeleiro copulando com a mulher no andar de baixo. Só faltava o fogo. repartido e reformado para multiplicar as possibilidades de moradia e depósito. Os elementos da natureza uniram suas forças sinistras para tornar o local ainda mais inabitável. . O inquilino anterior obviamente partira às pressas. A terra cobria o assoalho de tábuas podres. enchendo ruidosamente um suporte de lona.O lugar era sujo. A água pingava do telhado. e decaía. usando sua sacola como travesseiro. Depois de virar muito de um lado para o outro. infelizmente. dormiu um sono leve e preocupado. Encontrou certo consolo em achar três exemplares borrados do The wonderful pig of knowledge. na parte da geometria conhecida como planimetria. Havia sido aumentado. Os buracos na parede próxima ao local onde Claude decidira dormir estavam tampados com restos de anúncios e avisos recolhidos na rua. aprendera a medir superfícies com o Abade. O vento soprava por entre as vigas. dividido. A chaminé fora bloqueada. O trabalho fora abandonado antes de terminar. ele estudou as novelas baratas e partituras. Com a luz da vela. O sótão estava além de seus conhecimentos. calculou Claude. Como estudante.

capaz de evitar o que chama de “caldeirão de regulamentos reais”. Não posso explicar o motivo exato de minha partida. ouro e azul adamascado. É só o que posso dizer. Fui traído. e agradavelmente empapelados com o mais fino papel estampado. [Dois cortes diagonais foram feitos no papel para incluir o cartão de visita de um conhecido relojoeiro. uma cômoda magnífica com cantos laqueados. Na estrada para Lyon. e não terminava como as cartas do marquês mais famoso do século: “Tenho a honra de permanecer. Como pode ver pelo carimbo do correio. merecem um pequeno esboço e uma descrição. Concordou em me trazer a Paris. Não voltei para casa porque não queria envolvê-la no problema. sempre ofereceu muito a quem tem muito a oferecer. (Isso sim é que é sadismo. e talvez só nele. Há vasos de jade. [Há um desenho. Minhas habilidades foram muito apreciadas aqui em Paris. Uma série de eventos fortuitos me conduziu a Paris. depois de receber quatro ofertas na primeira semana. alguns dirão ladino. pois há uma . porcelanas ao que consta muito raras. Escrevo para aquietar seus temores.) Querida mãe. Não me escreva. onde o número de objetos preciosos supera o número de plantas em nossa casa. Para não viver com tal traição. Neste ponto. em cima da oficina. e. em melhor estado de conservação também. segundo meu pai. minha querida mãe. com todo o meu sentimento. como era de se esperar. Uma lareira de mármore branco {letra F) aquece o ambiente nas noites inesperadamente frias. traído pelo homem que me ensinou o valor da confiança. até agora duas. Estou seguro. a cidade que. A palavra reflete o prazer que encontra em encher sua barriga. A esta altura o Abade já deve ter comunicado meu desaparecimento. Ninguém desconhece o caráter público da correspondência particular. Claude passou uma noite escrevendo uma carta para casa. senhor. marcada na planta com um S. no período passado com o Abade. Lembra-se do que padre Gamot pregava sobre a traição? Creio que ele citava são Mateus. Estes posso relatar à vontade. Meus quartos se ligam a uma biblioteca requintada. em troca de um pequeno conserto em seu relógio. Eu os visito regularmente. Preciso pedir um favor. Pretendo mudar em breve — um passo a mais na elaboração de peças com meu próprio nome — e então enviarei meu endereço permanente. escolhi entrar como aprendiz na oficina de Abraham-Louis Breguet.21 Um mês depois de chegar a Paris. ] Escrevo agora na sala. famoso artista veneziano — recebeu encomendas da Academia de Ciências —. nós dois concordamos. ] Os quartos onde -moro. Devo dizer que. duas mesas de pórfiro. e tudo vai bem. Sobre a estufa encontra-se uma estátua de Vênus. mais completa em livros de relojoaria do que a biblioteca do Abade. descobri coisas que prefiro manter em segredo. Entre os vizinhos destaca-se Piero Rinaldo Carli-Rubbi. Meu quarto {letra C) tem móveis em negro. seu humilde e obediente servo”. e uma estufa de mármore decorada em bronze. conheci um cocheiro que demonstrou amizade no momento em que eu mais necessitava de um amigo. O texto evitava os lugares-comuns supérfluos da época: nada de seu humilde-servo-sempre-à-disposição. Não informe o Abade sobre meu paradeiro. extremamente exausto. embora eu não me recorde das palavras. mãe. e. vivo agora em Paris. Ela faz parte de uma série de ambientes espaçosos. e um tenente da polícia chamado Antoine-Raimond-Jean-Gaulbert-Gabriel de Sartine. e nada a quem não oferece nada. Os quartos são iluminados por candelabros imensos e ornamentados. O cocheiro — seu nome é Paul — é um sujeito esperto. No canto há uma escultura grande e feia de Eros atirando setas. preferi ir embora.

A página está acabando.questão pendente. Embora preocupado por ter mencionado excessivamente a traição. provocariam críticas imediatas. Candelabros ornamentados. e prendeu o rascunho na parede. Só a segunda parte continha mentiras deslavadas. ficou satisfeito no geral. depois apagou a vela. usou o mata-borrão e escreveu o endereço. e prontamente . só partes de uma roda quebrada. Borrões. Lembranças a todos. onde não cabia nem a sombra de um anão. E quais eram estas condições? Faltava o papel de parede estampado. inteirando-se de sua decrepitude. Não passava de um nome que lia enquanto tentava dormir. Poucos a usavam para transmitir verdades simples e temores complexos. para impedir que sua mãe soubesse das condições precárias em que se encontrav a.) Claude morava no mesmo sótão que havia alugado na noite de sua chegada. Havia papel. parecidas com choupos enegrecidos. Claude poderia argumentar que isso era necessário. e satisfatoriamente para ele. bem como os outros luxos citados. Claude releu a carta. Claude não descrevera sua habitação. Passado um mês. e pensou em eliminar as palavras problemáticas. depois de acordar com os sons das janelas sendo abertas. nem pensar. Olhou para a carta por um bom tempo. A discrepância entre o que Claude vivia e o que desejava aparecia claramente. Passou o texto a limpo. devo encerrar a carta. decidiu deixar tudo como estava. Na época de Claude. diga que nossa situação será resolvida em breve. mas novamente a verdade fora enfeitada. o Abade vivia dizendo que a grafia era uma questão menor e pessoal. por isso incluiu os desenhos. as convenções epistolares eram um triunfo da impostura. e mergulhou na escuridão — inequívoca e assustadora. No final. Piero Rinaldo Carli-Rubbi. Para dar um único exemplo. entre os vários papéis que cobriam a parede acima da cama. Se ele perguntar. como poderia um quarto iluminado por “candelabros imensos e ornamentados” mergulhar na escuridão com a extinção de uma única vela? Talvez seja melhor lançar alguma luz sobre as verdadeiras circunstâncias em que se encontrava Claude Page. baseando-se nas informações fornecidas por uma criada que seduzira. Selou a carta com cera demais. era improvável que notasse os erros. por outro lado. Daí os aposentos espaçosos ao invés do telhado baixo e inclinado. Claude deu um jeito de espremer um pós-escrito na margem: Consegui lembrar a passagem de são Mateus: “O Filho do homem será traído pelas mãos do homem”. Daí a lareira de mármore em vez da chaminé tampada. Ademais. se é que havia erros. Fidélité. Sua mãe não sabia ler. Daí os objetos precisos. Tinha dúvidas na grafia. Só posso dizer. mas nada de estampados. até para você. Escrevia sob a luz de uma vela de sebo que soltava um monte de fumaça e deixava marcas na parede. O rascunho da carta encontrava-se abaixo de um aviso assinado por Antoine-Raimond-Jean-GaulbertGabriel de Sartine. um mês depois de sua chegada a Paris. Até hoje não inventaram uma forma de comunicação mais ilusória do que a carta. (Plumeaux publicara uma história sobre o barão. a primeira metade da carta descrevia adequadamente sua partida da mansão. que Jesus não foi o único. com um alfinete. que pode me causar problemas sérios. mãe. Mas Claude contava com a amizade do outro vizinho citado na carta. e não o quarto cheio de aparas de madeira. Para ser justo. já explorara o apartamento todo. e não tinha coragem de transmitir os resultados a sua mãe. o tenente de polícia que Claude afirmara conhecer mas nunca vira. Conhecera Piero em sua primeira manhã como residente. Embora sua irmã mais velha soubesse ler. e sim a casa do barão de Besenval. Levantou da cama para ver o que Paris poderia oferecer. até a vela de cera de abelha era demais para ele. Não havia mesas em parte alguma. referente a certos relógios.

Concluiu que a representação da anatomia. Ele compensava a natureza imóvel de sua arte com uma gesticulação frenética. O pai de Piero interessava-se muito pela arte cirúrgica. O cabelo de um homem era removido com uma manivela. Espiou lá dentro. Ela soltou uma praga. Deduziu que ali vivia a ama-de-leite mencionada na noite anterior. Confirmou o fato quando uma moça surgiu na janela. A amade-leite era simpática. pegou as roupas e saiu da janela. contudo. “Decidi ser empalhador. mesmo de modo indireto. nas paredes de uma capela da confraria. Bateu na porta. os bicos ocultos pelas bocas ávidas de dois bebês de colo. “Uma espécie de abutre sul-americano. Piero não gostava de doenças. ficou chocado. Viu peles e couros de incontáveis criaturas penduradas em ganchos de carne. o corpo firme. Anos depois. Quando terminar esse.” “Qual deles?” “A cadela virgem. Era filho de Giusep-pe Rinaldo Carli-Rubbi. e percebeu que encarava um falcão gigantesco.bateu a cabeça na viga baixa. o anatomista levou o filho para ver a cena do martírio dos Macabeus. junto com o cheiro característico da profissão. Quando se deparou com um papagaio do mar empalhado na coleção do doge. O mau cheiro sentido por Claude ao subir as escadas voltou. preciso empalhar a primeira ovelha a viajar num balão Montgolfier. que mantinham o artista veneziano ocupadíssimo com encomendas. quando percebeu que a roupa lavada batia na ponta imunda de uma calha. A cabeça larga e o nariz achatado. asas abertas.” Claude ficou impressionado. onde sua fixação no assunto atraiu o interesse paternal e financeiro dos irmãos Verraux. Lembrou-se de Adolphe Stãmphli. Era pior do que o cheiro de um rato do banhado seco. a fazer sangria. O sorriso desapareceu repentinamente. Foi assim que Claude conheceu Piero Rinaldo Carli-Rubbi. bocas e narinas cheias de algodão para impedir que o sangue escorresse. depois de sangrar o sobrinho de um magistrado importante de Veneza. Ele não era bonito. Claude examinou © quarto. Piero acabou em Paris. Piero acompanhava o pai nas visitas aos doentes. escultor em cera. Um morcego veneziano. debruçou-se na janela para apreciar a vista. a Academia de Ciências e muitos vitrinistas mais ousados da cidade. e fazer um quadro com os estudos mais famosos de Buffon. Claude andou pelo quarto. A educação do menino. e me expulsou dos confortos da residência familiar no Grande Canal. davam a Piero o ar de um morcego imenso sem asas. Os ombros de Piero eram largos e musculosos. disse Piero movendo as mãos. Imaginou se os ratos do banhado que vira na galeria eram trabalho de Piero. Na outra parte do prédio. Percebeu que o cheiro vinha de um quarto meio andar abaixo do seu. e presumiu que o filho iria dar continuidade ao trabalho lucrativo que fazia. Isso também o atraiu. garras presas a um galho de árvore. “O que é isso?” “Um urubu”. e sorria contente apesar das exigências lácteas das crianças. portanto. e aprendeu. devido à luz que batia no quarto. Giuseppe Rinaldo Carli-Rubbi mostrou ao filho uma cena de esfolamento na fachada do Duomo. Claude encontrou roupa pendurada no varal. criador de criaturas”. o atraía. viu ilustrações mostrando as várias fases da peste. aos oito anos. Sua pele parecia rosada. De volta ao lar. um empalhador de animais que contava entre seus clientes. começou na mais tenra idade. . Imperturbável. Durante uma viagem a Milão. em sua maioria fraldas. Piero explicou. claro. A imagem não saiu da cabeça de Piero. e não curar os vivos. anatomista e cirurgião do doge. Infelizmente.” Buscando aperfeiçoar seus talentos. e não a anatomia em si. “Meu pai. percebeu que queria restaurar os mortos. Do outro lado do pátio avistou uma fileira de gárgulas brilhantes e risonhas. milionários negociantes de pássaros exóticos. Sofria com os males dos pacientes. os seios expostos. Estava aberta.

isso não quer dizer nada.“Vestidos em veludo vermelho? Perto da placa das duas tesouras? Sim. o assistente disse que adoraria tomar um copo de vinho e dar alguns conselhos. mas os artesãos riam de seu fascínio.” Piero era um sujeito inseguro. As respostas incluíam zombarias. Sua competência no terreno da autopromoção é. Talvez a maior inverdade epistolar se encontre nas circunstâncias em que Claude obteve o cartão enviado à mãe. O mercado vivia cheio de engradados.” Claude ficou sem fala ao ver a pureza complexa do relógio. Da próxima vez que for convidado. No dia em que escreveu a carta para casa. Eram pintores de mostruário. Descobriu que as conversas eram deprimentes. mas Claude declinou. escondia-se o trabalho de um time de artesãos anônimos e mal pagos. Piero pediu para ver o quarto de Claude. Em vez disso. e meditar sobre seu exílio urbano. Depois. preferindo mexericos a respeito dos concorrentes. “Chegou a esta cidade sem canas de apresentação. exclamou o assistente. Piero perguntou. são meus. Ele percorreu a cidade. Passou um bom tempo explicando desnecessariamente uma descoloração que Claude nem notara. embora tenha talento. só uma. falavam da legislação corporativa e dos baixos salários. Depois. Aqueles sujeitos não eram relojoeiros. no Quai de 1’Horloge. No primeiro mês. durante as longas horas em que não tinha nada a fazer e pouco com que sonhar. contudo. Claude matava o tempo no mercado das aves. fazedores de ponteiros. cortadores de engrenagens. engrenagens de ouro. desdém. Ele entendia o sofrimento dos bichos. vendedores de óculos e relojoeiros. parcamente desenvolvida. Poucos homens pareciam interessados na compensação barométrica ou no corte das engrenagens. Ele tentava desviar a conversa para assuntos que mostrassem seu talento. e nada mais.” E Claude pagou rodada após rodada. Como se poderia adivinhar. que pouco se importavam com o avanço da profissão. Mas devo avisar que não tive nada a ver com a pele desbotada. num ato recíproco de curiosidade. Eram profissionais tarefeiros. pouco maiores que os pássaros barulhentos que continham. ou relicário. desprezo. Em seguida começou a falar de seu outro amor: mecanismos e engrenagens. Ali podia respirar os odores do campo. preocupado com a despesa. “Terá lingüetas e roletes de safira. olhando pelas janelas reluzentes dos ourives. rua por rua. “E para a rainha!”. Plumeaux mais tarde censurou o amigo. e. Seu interesse aumentou. transformando a beldade desconhecida em uma amante abandonada numa cidade distante. Claude mentiu. quando notou alguns objetos alinhados sob uma viga. parando em todas as relojoarias. na qual havia planos para uma grande complication. Claude concluiu. Piero compreendeu que havia pouco a admirar naquele alojamento abandonado e praticamente sem mobília. no momento. Esta última reação veio de um assistente na oficina de Breguet. um eixo de platina e tudo o que o engenho humano conhece. pague um drinque para o assistente. Trinta e seis tentativas e trinta e seis recusas. Circunavegou a Cite em forma de barco. atrás dos Lepines e Le Roys. ele não arranjou emprego na oficina de Abraham-Louis Breguet. piedade. Claude havia observado os . O proprietário os colocou no sol antes que os ratos tivessem secado totalmente. gastando o pouco dinheiro que possuía. No momento em que entrou. hostilidade velada e uma vez. Atrás dos relógios Breguet que tanto admirava. que pareciam colocados em um altar. O assistente mostrou a bancada particular de Breguet. Foi ele quem entregou a Claude o cartão enviado depois a madame Page. apesar de tentar. “Quem é ela?”. Piero gostou do manequim e do Pequeno Retrato. por si.

homens que usavam os dedos para encher pombos e pássaros maiores com
ervilhaca. Um vendedor chegou a soprar os grãos para dentro das gargantas. No final
do dia, o mesmo homem espremeu as entranhas dos pássaros para reaproveitar a
comida não digerida. O inspetor de aves, identificado pela pena em seu chapéu, riu
do espetáculo que tanto incomodou Claude.
Ele saiu do mercado de aves e foi descansar debaixo da pont Neuf. Quase
cochilando, observava as colônias de aranhas, que, pouco convencidas da
estabilidade da ponte, desciam para prender as teias nos arcos. Enquanto
descansava, Claude notou que uma mão sarnenta se esgueirava para dentro de sua
bolsa. Houve uma briga, e, depois de alguns socos, Claude venceu seu oponente. A
briga o deixou mais zangado ainda com a cidade. Durante a escaramuça, ele caiu
numa poça, que sujou sua única calça. Viu na mancha molhada tudo o que a cidade
se tornara para ele: uma mistura de vinho vomitado, lixo jogado pela janela,
excremento de um milhão de casas, vermes, dejetos de ratos e de pombas doentes,
tudo junto, tudo pisado pelos cascos dos cavalos e botas dos homens, até virar uma
pasta grossa e ácida. Desnecessário dizer, a mancha não podia ser removida.
Era nisso que Claude pensava ao escrever para a mãe. Por isso, mentiu,
reinventando as circunstâncias em que vivia. Contemplando a carta na escuridão do
quarto, temia que a citação final preocupasse sua mãe. Depois de muita hesitação,
ele acendeu a vela de sebo e releu o texto. Decidiu deixar tudo. Perambulou pelo
sótão, na medida em que o espaço exíguo permitia, e parou na frente do nicho onde
guardava todas as suas posses. Durante muito tempo ficou olhando para o De Cristos
Mecânica. As moedas haviam sido gastas. Ele estudou a imagem no frontispício, e
imitou os braços estendidos e olhos fechados. Foi neste momento que o mundo se
abriu para ele. Ou, mais exatamente, a Globo.

22
Ao baixar os olhos, Claude se deteve no nome do editor do tratado de
mecânica. “Publicado por L. Livre, na Imagem do Globo, Paris.” Claude pensou: Claro,
como sou estúpido. Em sua maratona para arranjar trabalho, ele deixou de lado o
contato com o livreiro pornográfico.
Na manhã seguinte discutiu o assunto com Plumeaux, que saía de uma
noitada de farra, louco pelos prazeres do sono. Meio grogue, disse a Claude que
conhecia Livre: “Habitamos o mesmo submundo do escândalo impresso. Eu já escrevi
para gente como ele quando minhas finanças o exigiram”.
Claude descreveu seu breve encontro com o livreiro.
“Eu o aconselharia a evitar novos contatos”, disse Plumeaux. As palavras
pedante e explorador se destacaram na descrição que se seguiu. “Não peça ajuda a
ele.”
Claude, entretanto, estava desesperado. “Só quero que ele me indique para
uma oficina de relojoaria. Publicou tantos livros sobre mecânica no passado.”
“Faz muito tempo”, ponderou Plumeaux. “Bem sabe que ele mudou de ramo.”
Claude não se deixou convencer. Percorreu as ruas do bairro das gráficas,
procurando por “L. Livre, na Imagem do Globo”. Passou despercebido por ruas cheias
de vendedores de livros cômicos e jogos baratos, até encontrar a loja. A frente do
estabelecimento ostentava um mapa-múndi ultrapassado que negava as descobertas
do capitão Cook e de La Pérouse. Lá dentro, Claude viu estantes elegantes e, claro,
livros. O ex-convidado da mansão arrumava uma vitrine, dominada por uma gravura
em cobre, com um pássaro. Claude considerou aquilo um bom sinal, pois conhecia a
história da criatura alada. Piero lhe contara que o simurg, um pássaro persa muito
discutido, teria capacidade de pensar e falar. O explorador que o capturou não
falava nem entendia simúrgio, e, para decepção dos ornitólogos e lingüistas da
época, a ave morreu antes de chegar a Paris. Piero recebeu a missão honrosa de
empalhar o espécime único. Claude se lembrava de tudo isso porque havia uma
ligação com as histórias orientais de seu pai.
O livreiro saiu da loja para organizar as bancas do lado de fora, o rosto
meticulosamente barbeado e a peruca exagerada movendo-se independentes um
do outro, conforme ele abaixava para pôr ordem nos livros desarrumados pelos
transeuntes. Livre não tolerava desordem em seu negócio, nem por um minuto sequer.
Mas havia algo de rude em sua mania de ordem, e algo de rude no próprio homem.
Talvez fossem as escarradas copiosas na rua, de tempo em tempo. (Ele guardava o
lenço para ocasiões formais.) Claude apresentou-se novamente para o homem que o
Abade apelidara de Flegmagogo.
Livre tartamudeou um pouco e disse: “Sim, claro, Page. Eu me lembro. Espere
um pouco”. O livreiro entrou na loja e retirou de um escaninho em sua escrivaninha a
caderneta que Claude vira na mansão. Voltou triunfante: “Page, Claude, aprendiz do
conde de Tournay. O rapaz de gênio e talento”. Ele chupou os dentes e examinou
Claude. O livreiro era suficientemente perspicaz para concluir que a ansiedade
patente do garoto só podia indicar que pediria algo. Claude era a encarnação da
Necessidade. Livre se conteve quanto às perguntas óbvias e às ofertas de ajuda.
Claude olhou fixo para a ilustração do pássaro, e Livre, como esperado, perguntou: “O
que o gênio acha disso?”.
Seguindo o conselho que Plumeaux lhe dera em outra ocasião, Claude deixou
a humildade de lado. Elogiou a vitrine e a qualidade da gravura. Depois recitou a
história do simurg: seus hábitos alimentares, descrição dos órgãos reprodutores e

ninhos. “Acho muito interessante o fato de se acasalar com a asa.” Descreveu as
circunstâncias da captura do pássaro, e seu grito quase humano. “Eu me interesso
muito por pássaros.” Claude despejou seus conhecimentos como a mãe despejava o
leite da vaca no balde.
Livre convidou Claude para entrar na loja. “Limpe os pés no capacho.” Havia
um retângulo de sisal, gasto mas impecavelmente limpo, ostentando a marca do
livreiro. Claude imaginou que já limpara os pés o bastante, mas Livre, por meio de uma
série de pigarros e tossidelas, expressou sua discordância, e Claude voltou ao
capacho para uma série de movimentos adicionais dos pés.
Uma sineta tocou quando entraram na Globo. Claude olhou em volta e notou
que a marca do capacho se repetia por toda a parte. O L duplo aparecia numa
vasilha, num tapetinho e numa série de ex-líbris.
Os livros encontravam -se ordenados por tamanho e assunto: in-quarto com inquarto, fólio com fólio, opúsculo de mecânica com opúsculo de mecânica. Não havia
pilhas precárias em forma de pirâmide saindo do chão. Livros adornados com espirais
e arabescos eram dispostos de modo que as lombadas douradas formassem padrões
simétricos nas estantes. Mesmo as pilhas potencialmente desorganizadas de material
não encadernado foram disciplinadas. Os vários decretos, atos, proclamações, leis e
mensagens do rei mantinham -se em seu devido lugar por meio de fitas. As estantes
proclamavam mais do que o rigor classifícatório característico do século. Ali estava a
apoteose da Ordem e da Disciplina, o produto do Homo hierarchicus em seu estado
mais avançado. Ali estava Lucien Livre.
No meio da loja, sobre o piso de ladrilhos hexagonais em preto e branco,
erguia-se uma série de estantes, com vitrines para livros na parte superior. “Minhas
vitrines”, disse Livre. “Dão aos livros um lar decente, embora, como sabe, grande parte
de meus trabalhos especiais fiquem fora da vista. Atrás daquela cortina.” Seu dedo
apontou para uma cortina de sarja, ladeada por dois globos enormes.
A frente da loja era dominada pela escrivaninha de mogno do livreiro. Acima
do tampo, um fio segurava pedacinhos de papel, parecidos com as bandeiras de um
vaso de guerra ou roupa liliputiana a secar no varal. (Havia uma tradução das Viagens
de Gulliver na coleção permanente da Globo.)
Livre disse: “Uma vez que não trouxe notícias nem relógios do conde, presumo
que não se encontre mais a seu serviço. Muito bem. Ele rompeu os acordos comigo, e
deve uma soma substancial. Nem mesmo devolveu o Pequeno Retrato, pelo qual era
responsável. Os credores acabarão com ele em breve”. Claude conteve seu
contentamento ao saber dos apuros do Abade, e o processo iminente, mesmo por um
crime menor. Ele pensou por um momento em entregar o Pequeno Retrato, mas
concluiu que isso levaria a muitas perguntas incômodas.
Claude tentou emular a fala pomposa do livreiro: “Como percebeu, eu não
me encontro mais a seu serviço”.
Livre disse: “Concluo que veio ter comigo porque deseja uma nova ocupação.
Correto?”.
Claude fez que sim.
“Como pensei. Talvez eu possa ser útil.”
Seria assim tão fácil? O livreiro o indicaria imediatamente a um relojoeiro?
Livre justificou as acusações de pedantismo feitas por Plumeaux: “Não me
dedicarei a verificar a veracidade de suas afirmações, no que concerne ao simurg. A
veracidade de tais questões não me diz respeito. Deixe-me ver sua mão”. Livre fez
uma careta. “Precisaremos ocultar este horrendo aleijão. Qual sua altura?”
Claude teve dificuldade para entender os motivos por trás das perguntas do

livreiro, mas não queria contrariar o patrono em potencial. Ele respondeu: “Dois pés e
meio”.
“Repita. Por qual medida?”
“Pela medida adotada na mansão. Usamos o pé de Constantinopla.”
Uma voz feminina ergueu-se nos fundos da loja: “Isso dá mais ou menos o
dobro do pé parisiense, se me recordo bem das tabelas de conversão”.
índia.

Claude viu uma pena movendo-se atrás do globo terrestre, perto da costa da
Livre gritou: “Diga apenas qual a altura dele, aqui em Paris”.

A pena raspou o papel, e, depois de alguns cálculos, a voz feminina
respondeu: “Pouco mais de cinco pés, pela medida adotada na cidade”.
“A encarregada dos números aqui”, Livre disse à guisa de apresentação, “é
minha prima Etiennette.” E gritou: “Uma prima que tem trabalho demais para ficar se
metendo em nossa conversa!”. Ele se virou para Claude: “Ela serve de guarda-livros na
Globo, e executa algumas tarefas adicionais para justificar o salário enorme que pago
a ela. Bem, pouco mais de cinco pés. Isso é ótimo. Vai caber na libre”.
A confusão de Claude terminou quando Livre explicou o que, até então,
estava implícito: “E suficientemente atraente, suponho, para despertar o interesse das
senhoras. Seu sotaque trai a origem não parisiense, mas isso pode ser erradicado.
Conforme declarei a seu amo pregresso, um Page pertence à livraria. Parece digno
de minhas atenções. Pedirei à corporação que o aceite como meu aprendiz. Como
não tenho assistente no momento, creio que a aprovação se dará sem
contratempos”.
Claude retrucou, um pouco receoso: “Eu não estou procurando emprego aqui.
Esperava usar seus contatos com relojoeiros e mecânicos — o Abade me contou que
o senhor já publicou livros sobre o assunto — para conseguir uma vaga com alguém
disposto a empregar um assistente dedicado e disposto”.
“Como o Abade deve ter contado também, eu mudei de ramo há muito
tempo. Atualmente eu me dedico a trabalhos filosóficos7.”
Claude explicou claram ente seu desejo: “Eu só pretendo ser engenheiro”.
“Bobagem. A corporação nem reconhece tal atividade. Duvido até que
conste no dicionário.” Livre consultou um volume grosso, sobre um suporte de mogno.
“Pode ver. Não consta.”
Mas Claude sabia do que estava falando. Topara com a palavra havia muito
tempo, durante seus estudos em Tournay. “Olhe no verbete “Máquina”.”
Eles falaram juntos, um de cor, outro lendo o texto: “Máquina, nome grego,
significa “invenção”, “arte”. E, portanto, no sentido estrito, uma máquina é algo que
apresenta mais arte e engenho do que solidez dos materiais; por esta razão, os
inventores de máquinas são chamados de ingénieurs, ou engenheiros”.
“Como você é engenhoso, Claude Page.” Livre não gostava de ser
contrariado, e odiava quando o corrigiam. “Um jovem gênio!”, prosseguiu. “Você
aprendia relojoaria quando estive em Tournay. Caso tenha se tornado um relojoeiro
itinerante, mostre os documentos que comprovam isso. Caso contrário, mostre por seu
futuro mestre o respeito que ele merece.”
Por uma hora ou mais o livreiro atacou e recuou, ferindo o orgulho juvenil de
Claude. Ele queria humilhá-lo, convencê-lo de que Paris não lhe ofereceria nada, uma
conclusão a que chegara por conta própria.
“Os ensinamentos superficiais do conde não encherão sua barriga”,

Não posso ajudá-lo em seus sonhos mecânicos. estar desempregado significa uma vida de lazer. Em Paris. . Claude. Aqui é diferente. uma forma de diversão. é isso que reafirmo agora. “A única profissão que começou a aprender — e devo enfatizar o caráter rudimentar deste aprendizado — se situa em Bibliopola. o desemprego cansa mais do que qualquer serviço. “Para alguns.” A busca desesperada de trabalho confirmava a sentença.argumentou o livreiro. e assim terminou a conversa. Claude Page concordou em se tornar aprendiz na Imagem do Globo.” Claude não sabia o que dizer. O livreiro suavizou o tom. a cidade dos livros. Foi o que eu disse assim que o encontrei.

A figura tinha três braços. Os hábitos gastronômicos de Livre em Tournay dificilmente seriam esquecidos. Isso também foi registrado na caderneta. e se convenceu das virtudes do . Possuía base giratória e uma haste helicoidal. mostrava-se disposto a aceitar quaisquer condições impostas por Livre. e de Juliette Cordant. Livre convidou seu novo aprendiz para jantar nos fundos da loja às oito horas. as formalidades contratuais para o aprendizado. “Seu defeito deve ficar sempre coberto. relojoeiro. de Tournay. disse Livre. Os papéis também diziam que ele pagaria por suas despesas de lavanderia. para pagamento futuro. Havia também o problema da “consideração”. embora compartilhasse uma refeição semanal com o mestre. a primeira de uma série de encontros que o fascinaram e repeliram. Depois Livre precisou jurar. falecido.” Enquanto os dois caminhavam até o escritório do notário. mas Livre não se importou. mas onde dormiria era problema seu. que ia até a base da cabeça. A última cláusula fora incluída para aumentar as horas de trabalho. Livre ordenou a Claude que vestisse a jaqueta. uma bacia e um candelabro. Marie-Louise ainda reclamava da exigência de nabos cozidos. as batatas dominavam agora o cardápio. a soma que Claude deveria entregar a Livre como garantia do compromisso que estava assumindo. No mais. Livre. O livreiro levou Claude à sala dos fundos para vestir a libre — uma jaqueta de veludo com dois botões de marfim e um par de luvas de pelica. estava nua. em Paris. O ritual encerrou-se com a assinatura das testemunhas e o cheiro de cera para selar. Livre explicou que consultara um empírico inglês. O livreiro pagou os emolumentos do notário e levou Claude para a sede da corporação. que era quem afirmava que era. A jaqueta cobria uma figura de mulher com uma das perucas exageradas de Livre na cabeça. revelando ser o filho de uma copeira de Loudéac e de pai desconhecido. de onde pendia mais meia dúzia de pares. contudo. anotada em sua caderneta. filho de Michel Page. na presença de testemunhas. os papéis foram assinados. Não cabiam em seus dedos longos. Houve mudanças significativas. não do mestre. Era uma peça de decoração bizarra. “A demoiselle”. Aquela refeição foi diferente. e pegou um par de luvas de pelica num gancho na parede. Livre discursou sobre a inconstância da humanidade e a necessidade da “Indentura”. que era quem afirmava que era. Claude trabalharia na loja. bem como os impostos exigidos pelo assistente do tenente geral da polícia. Ele jurou. onde tudo havia sido preparado. Para que o reitor da universidade deixasse passar a ignorância de Claude da língua grega e das moedas dos diferentes países. na presença de testemunhas. Livre exerceu as prerrogativas da época. e Claude foi instado a jurar. Claude. Mandou que Claude pusesse as luvas. Até então as refeições parisienses de Claude eram dominadas pelos pratos econômicos e saborosos de madame V. exagerava ainda mais nos detalhes. Passaram sob o escudo real do notário. Livre precisou pagar uma pequena importância. misturando chapeleira e o manequim que Claude guardava no nicho do sótão. Neste ponto. iluminação e alimentação. Em vez de nabos. recordando-se da resistência do Abade a qualquer tipo de aprendizado. pontualmente. Muito tempo depois de sua partida.23 O primeiro passo para concretizar o compromisso foi o ato elaborado de registro formal. Nenhuma menção a alojamento aparecia na papelada. Para celebrar. onde ficava a peruca. que empunhavam um espelho. Feitas as solenes promessas. Livre jurou.

Por outro lado. A tosse e o catarro nos rolos de Tournay serviam apenas de prelúdio para os esforços impressionantes que Claude testemunhava naquele momento. temos aqui uma pérola”. crua. Cuspiu no lenço deixado ostensivamente sobre a mesa. pois faltava sal e nozmoscada na mesa. fungou.tubérculo favorito de Parmentier. depois detalhou o menu.” Ele pronunciou o ditado como um fiel recita o padre-nosso. “Em alguns lugares isso leva o nome de mobby!” Claude não precisou provar para saber o ingrediente principal da bebida. Livre dedicou-se ao monólogo: “A palavra indentura. e metade pelo aprendiz. claro. Fólios servem para salas grandiosas. desaparecendo rapidamente. e a refeição foi encerrada oficialmente. fuçou e cheirou. claro. afirmou Livre. para comparar o repertório de Livre com os efeitos de uma esponja encharcada atirada contra a parede. e trouxe diversos pratos. Livre mostrava-se insatisfeito com sua posição. E casca de batata. Livre sentia-se à vontade para escarrar. Se. As razões para tanto medo nunca ficaram muito claras. Como aquele lugar era diferente de Tournay. O trabalho com o Abade se iniciara apenas com um sorriso. “Seu predecessor era. o agricultor no campo e o rei na corte. Os dentes”. para evitar fraudes. mas Livre continuou: “Tudo é uma questão de proporção. E. em um pedaço de papel rasgado. Algo úmido e globular parecia preso para sempre no fundo de seu peito. “A ordem. Com livros menores. um toque e um desafio. Para acompanhá-la. Havia batata cozida amassada. afirma uma de minhas pérolas: “Um lugar para cada coisa. “Tudo tem seu lugar. Não só os livros na estante. Ele inspecionou a comida suspeitoso. e os livros devem diminuir proporcionalmente. mas agora as dimensões dos cômodos se reduziram. “Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar” era uma frase de um sujeito amedrontado com a mudança.” Claude refletiu sobre o credo. só o gorgolejo saído da garganta do livreiro. fungar e estalar a língua. Em sua própria mesa. Livre abriu a caderneta e repassou a lista de roupas que Claude deveria vestir: jaqueta de . o que o tornava ao mesmo tempo defensor e crítico do status quo. com a consistência de um esmalte preparado por Claude e Henri certa vez. cuspir. Livre puxou a caderneta e anotou a observação. fornecer capas falsas para as obras do fundo. Claude. cuidarmos bem das margens. O nariz de Livre se ergueu. Podemos encadernar em couro de bezerro. Ora. “Deixarei de lado o Seltzer. temos mais lucro. nesta noite. “Metade do contrato guardado pelo mestre. esfarelado e pesado. Livros para crianças são um ótimo negócio. duro. Livros pequenos para olhos pequenos dão grandes lucros. parecendo um cinto de couro. A comida sem tempero não poderia ser melhorada. E pão de batata. mas o aprendiz na loja. é essencial.” Livre despejou o conteúdo barrento de uma garrafa. Claude. engasgar. A conversa e QS ruídos cessaram. marroquim e outros materiais. Os fregueses se preocupam menos com o que está nos livros do que com o que existe em volta deles. um inútil. vem das marcas parecidas com dentadas. A prima de Livre fazia também de garçonete. na boca ainda cheia de batata amassada. devo acrescentar. O que é ótimo para nossa profissão. Os sons desafiavam tanto o estômago quanto o sistema simbólico de notação de Claude. praguejando a meia voz. Agora ficaria preso a um pedaço de papel rasgado. ou as luvas no gancho. no que dizia respeito a nossos melhores clientes”. “Ele não compreendia que a venda de livros é um ato de sedução. Palavras do Abade: “Vou ensiná-lo a aprender por si mesmo”. Tomou notas mentalmente.” Claude mais uma vez se distraiu. Ele bateu no dente esverdeado. e cada coisa no seu lugar”. completo e parcial. A natureza festiva da ocasião merece algo especial.” A mente de Claude divagava.

” “Gastei tudo o que tinha. haviam sido pendurados na parede. com gatilho na culatra e coronha curta. frágil e míope. fraque quando saísse para fazer entregas. aceitava todas as expectativas nele investidas. uma melancolia profunda e ilícita. também. o sujeito teria oferecido o mesmo preço. Um relógio grande. uma pistola carregada acalmaria os fregueses mais insatisfeitos. num prato ao lado da porta. Acabou decidindo negociar em um estabelecimento parcamente iluminado. o jornalista desaprovava o novo emprego. o destino do salteador é a forca ou a prisão. Fora da vista. Precisava decidir quais objetos iriam para o prego. não possuía vínculos sentimentais com crina encaracolada e laquê. A gente olha em volta e pensa: Quais as circunstâncias que forçaram o músico a vender seu violino? O nobre seu relógio favorito? E quanto ao urinol de cobre.” “Guardou alguma ferramenta?” Claude fez que sim. na loja de penhores. luvas negras rústicas quando limpasse o lado de fora. que compensava sua deficiência cercando-se de armas de fogo. Um bacamarte com mais de trinta anos. Foi sozinho. presente do Abade. Descreveu a composição do aço temperado e a precisão com que cada instrumento fora confeccionado. ocupava lugar de destaque perto do caixa. “Então é muito simples. verdes para polir latão e cobre. Conservaria. Ele olhou em volta com interesse mórbido. idade ou época definida. e mostrou seus objetos ao penhorista. e se ele iria resgatá-los ou não no futuro. Poderia dispensar a velha peruca de viagem. presos num ângulo que facilitava o manuseio. com tudo o que tal resgate implicaria. Sem sexo. feio. que não se impressionou. onde havia uma mesa de jogo com fichas de prata e. Venda suas ferramentas. “Descontarei o valor da jaqueta e das luvas de seu salário. Faltava o ponteiro das horas. Afinal. Além disso. luvas marrons rústicas para limpar a área interna. O fraque para entregas você mesmo deve adquirir. Sentindo-se generoso. ou guardálos em caixas. o dono da loja de penhores sugere que realizar transações naquela loja tem um toque de criminalidade. Atrás do caixa encontrava-se o dono.” Há. ofereceu um preço escandalosamente baixo pelo Pequeno Retrato e pelas ferramentas. ou a boneca de pele humana? A tragédia é sugerida pelo modo de exposição. . além de uma espingarda de pederneira ainda mais antiga. O penhorista não se impressionou. Claude colocou o resto de seus bens materiais na sacola e a levou até uma pequena rua dominada pela antiga e discutível profissão. uma dose concentrada de fracassos pessoais.veludo dentro da loja. disse: “Assumirei o custo da refeição de hoje. Nenhum gênio abandona um homem tão generoso como o conde de Tournay sem uma recompensa. o manequim. sua obscuridade garantia pouco interesse por parte dos avaliadores. “Mentira. Era a vez de Claude reclamar: “Não tenho dinheiro para comprar os outros itens”. brancas para a limpeza dos livros. com cão em esse. Não encontrou Plumeaux.” Livre somou as dívidas de Claude. e doarei as luvas que está usando”. Ao pendurar os objetos com barbante. Claude escolheu a falta de escolha do sonhador arruinado. a crer em suas palavras. acima de sua cabeça. Venda. Não precisará mais delas. dizendo que se tratava de uma taça bonita. Representava muito mais do que uma lembrança de seu primeiro encontro com o cocheiro. Claude esvaziou a bolsa. Claude poderia ter trazido o Santo Graal. Claude entrou e saiu de um monte de lojas. Ficaria com o De Cristos Mecânica. Por piedade. uma pilha de fichas de bordel que não valiam mais nada. chocado com as somas oferecidas. Claude explicou as qualidades das últimas — cabos de guáiaco. a mais dura das madeiras.

certamente. recebendo um quinto de seu valor e. com objetos roubados a exigir uma venda rápida. Enquanto seguia para o mercado de roupas usadas para procurar um fraque. parando para conversar com Piero. Passou a tarde percorrendo bancas capengas. Previu futuros contatos.mas velha e amassada. e isso o levou a acrescentar alguns sous à avaliação inicial. e as mulheres que os exibiam. O veneziano tinha um presente para Claude. e Claude deixou a prisão dos sonhos falidos. e vendeu as ferramentas. Claude encontrou um fraque sóbrio. . o penhorista associou a amputação a algum crime antigo. Preferiu ficar com ele. pensava se tinha vendido suas aspirações junto com as ferramentas. Segundo os cálculos de Claude. Depois voltou para seu alojamento. Percebeu o desespero na atitude de Claude. A única coisa que o impediu de tirar proveito maior ainda foi o dedo a menos. um décimo do preço pelo qual seriam vendidas depois. Como muitos outros antes dele. Juntou-se aos marinheiros que observavam os espartilhos e corpetes rasgados. E o interesse por taças velhas era mínimo. Perto de uma banca de retalhos de alfaiate. com pilhas de roupas rendadas. um dedo em cera e fio que poderia ser posto dentro da luva do novo uniforme. o Retrato fora escandalosamente subavaliado. enfeitadas com laços e lustrina que havia muito perdera o lustro. As moedas foram contadas sobre o pano verde. O penhorista conhecia seu trabalho.

e uma novela utópica encadernada em couro filigranado. A pena de Etiennette esvoaçava atras do globo. enquanto cuido de assuntos mais importantes. e. As primeiras. Livre disse. Parou em um tratado suficientemente intrigante para merecer uma inspeção. A preta e a marrom. e o equilíbrio. mostrando a poeira que flutuava no ar.. começando pela limpeza dos pés no capacho da entrada (“Evite o monograma”) e indo até o fechamento da porta à noite (“Use a luva verde para dar assim o polimento final”). e foi até a demoiselle pegar a jaqueta.24 Com algumas gotas de lacre derretido. Livre ergueu a mão. Abriu uma das ilustrações e encontrou um erro na descrição. Mas andei desassistido ultimamente. o estoque. “Siga minhas pérolas. o rape. organizava.. descreviam detalhadamente as tarefas. A viga FD deveria seguir até o ângulo AJK. as larvas e as moscas. pendia para o lado do aforismo. Investigação sobre o perfil adequado da viga superior do guindaste portuário com carreta móvel. As lombadas de todos os livros. Abandonou seus sonhos mecânicos e entrou em Bibliopola. que retribuiu o sorriso. nas estantes atrás da cortina e na frente. Enquanto Livre conversava com o impressor. as pérolas eram invariavelmente chamados de minha livraria. Dedicaremos o dia de hoje à faxina. sem numeração. Havia vassouras específicas para locais específicos da loja — a de chamiça para a parte externa.” Livre dedicou-se a uma ginástica verbal.E um dos impressores da Frères Jacques. Claude ignorou-as.. deveriam ser limpas semana sim. descrevendo as tarefas seguintes: “Atacaremos o pó.. “. “Leia cuidadosamente minhas notas. Claude lembrou-se de que Livre carregava a obra na época da visita a Tournay.” Livre levou o impressor para lá da cortina de sarja. escovão para os ladrilhos internos. tudo o que for fedorento e podre.. pois não é dia de limpeza. Claude notou em Livre um gosto desmedido pelo pronome possessivo. O aprendizado começou na úmida manhã de quarta-feira. “Há um tanoeiro ao lado. “Claude!” Livre bateu no ombro do aprendiz com um espantador de moscas de crina. “Savary hesita quanto à punição corporal. nenhum parentesco com a personagem da música infantil tão famosa”. Descobriu que havia dois tipos. Não entendeu algumas pérolas. onde discutiram a venda de mais uma edição do clássico pornográfico A escola de Vênus. minhas pérolas. Livre gritou: “Pegue as luvas de limpeza.. A livraria. Claude leu as pérolas de papel. sentado à mesa. Claude sorriu para Etiennette. Livre.” . a ferrugem. e siga meu exemplo. o aprendiz verificava as estantes. Leia minhas pérolas. a venda das ferramentas e a compra do fraque negro. que será recompensado. eliminando a poeira dos fundos para a frente”). Claude mudou de mundo. para mergulhar ocasionalmente no tinteiro prateado. Já especifiquei as tarefas matinais. Sairemos um pouco da rotina. semana não (“Comece atrás. Eu não. Desobedeça.” A sineta da porta tocou. O pó se acumula aqui de modo impressionante. e precisamos combater isso”. as manchas e a fuligem. Uma delas dizia: “Esvazie os Mistérios de Paris”. Passou por uma obra famosa de aerostática. desfilando máximas trabalhistas em francês e latim. e siga-as ao pé da letra”. meu estoque. O mestre mostrou ao aprendiz os pedaços de papel pendurados no cordão estendido sobre a escrivaninha. O segundo grupo de pérolas. numeradas. passando pela costa oriental de Zanzibar.

Claude não ouvira a sineta que indicou a partida do colaborador. Livre puxou
uma pérola não numerada da fileira: “Um livreiro bem-sucedido não lê seus livros.
Aprende apenas o suficiente para vendê-los”.
Durante o resto da manhã Claude varreu e espanou e poliu, enquanto Livre
criticou, doutrinou e escarrou. A limpeza foi dada por completa somente quando uma
flanela removeu o último grão de pó do vidro, e o latão das cantoneiras das vitrines foi
polido com as luvas verdes. Livre explicou que haveria mais pérolas. Elas detalhariam
onde guardar os livros, como guardá-los onde deveriam ser guardados, o que dizer a
respeito deles depois que fossem guardados onde deveriam ser guardados na
maneira como deveriam ser guardados. “Mas”, prosseguiu, “você não pode ficar
restrito apenas às minhas pérolas para se tornar um aprendiz-modelo de livreiro. Há
certas coisas que não podem ser registradas no papel. Acabei de mencionar meu
inventário, mas deveria ter dito inventários. Pois, como sabe, há dois. Venha, está na
hora de conhecer minha Coleção da Cortina.”
A cortina em questão, de sarja preta, sem monograma, servia de porta para
uma das salas dos fundos. Livre abriu a cortina e disse: “Foi feita com o hábito de uma
freira exonerada de sua ordem”. Entraram, e Claude passou os olhos pelos títulos.
Sentiu dificuldade em controlar o impulso de retirar livros das estantes.
“A organização da minha Coleção da Cortina é tão rigorosa, embora mais
discreta, quanto a organização dos livros da frente”, disse Livre. “Tenho Instrutivos, fólios
e in-quartos; Eclesiásticos, divididos em Jesuíticos, fólios e in-quartos, e Calvinistas, fólios
e in-quartos; Prostitucionais, fólios e in-quartos; Matrimoniais, fólios e in-quartos;
Aristocráticos, fólios e in-quartos; Médicos, fólios e in-quartos. Os livros com detalhes em
marfim ficam na prateleira de baixo. Na quarta prateleira: Maliciosos, Místicos e
Miscelânea. Estrangeiros na quinta.
“Uma vez que não há pérolas referentes à minha Coleção da Cortina, deve
guardar na memória não só os nomes dos autores, títulos completos e dimensões de
suas obras, como também os valores cobrados pelo aluguel e os custos dos serviços
complementares que oferecemos a nossos melhores clientes. Ademais, precisa
fornecer um epítome, de modo que um cliente interessado em obras de sodomia
possa receber a recomendação de um livro como O prazer das empregadas, uma
história deliciosa que inclui logo no primeiro capítulo um elegante estupro cometido no
corpo de uma menina, seguido de crimes menos convencionais do comércio
venéreo. Custa duas libres, seis se encadernado in-oitavo.”
“Eu me esforçarei ao máximo para aprender seus métodos de apresentação”,
disse Claude.
“Eis aqui um dos favoritos do conde”, disse o livreiro. “A história do capitão
Denis Recombourt e seus interlúdios no harém [Livre tomou fôlego], incluindo seus
relatos criminosos, profecias, histórias de fogo e fantasmas [Livre tomou fôlego
novamente], sêxtuplos, sexo, demônios, crueldade, libertinagem com uma vaca e
banimento para o atol de Pompelmoose. Devo ressaltar que o título promete mais do
que o resto do livro realmente oferece.”
Claude ficou decepcionado porque a história do açúcar não havia sido
inventada pelo Abade. Livre explicou que o tenente da polícia — o sucessor do
homem cujo nome aparecia na parede de Claude — fora dissuadido de processá-lo
porque a Globo fornecia uma cópia de cada obra publicada. “Os livros destinam-se a
seu arquivo e uso particular. Na verdade, um de seus assistentes virá esta noite para
pegar as provas de meu novo Vênus, pois realizamos às quartas-feiras o meu salão.”
E bom esclarecer imediatamente que, apesar da eloqüência da época, os
discursos cintilantes raramente compareciam à Globo durante as reuniões de Livre nas
noites de quarta. As frases elegantes em ambientes elegantes poderiam ser mais
facilmente encontradas nos salões do Louvre e nos recantos mais íntimos do Hotel de
Rambouillet. Se Voltaire algum dia passou pela frente da Imagem do Globo, não

percebeu. Não obstante, Livre, cego pela vaidade, roubou o título honorífico que
Galiani já dera a Holbach, e adotou o apelido de le maitre d”hotel de laphilosophie.
Para o grupo sempre renovado de parceiros comerciais, informantes da polícia,
fregueses, impressores e picaretas, ele oferecia bebidas aguadas e idéias aguadas.
Livre avisou que Claude, se fosse preciso, seria convocado. E, quando
convocado, deveria manter silêncio absoluto. Claude esperou a noite inteira do lado
de fora da sala de leitura, num banquinho, olhando para as bengalas penduradas em
um suporte de mogno. Distraiu-se conversando com uma cabeça de carneiro
esculpida no marfim do cabo de uma bengala de rattan.
“Quem é meu mestre?”, Claude perguntou. A cabeça de carneiro escutou a
resposta que o próprio Claude providenciou. Livre era um homem de conhecimentos
vastos e inúteis. Embora o livreiro soubesse sorrir, seu sorriso não contagiava o resto do
rosto. Era incapaz de rir. Como disse o Abade certa vez, “mostre-me um homem que
não ri e eu lhe mostrarei um tolo”. Claude tinha certeza de que o livreiro retrucaria
com alguma grossura. Era mais afiado quando se sentia ameaçado. Tinha então
resposta para tudo, era convincente mesmo quando errado, especialmente quando
errado. O Abade, por outro lado, era um homem cheio de interrogações. A
comparação levou Claude à conclusão de que Livre não amava seu trabalho, como
ocorria com o Abade. Mas, afinal, qual era o trabalho do Abade? Livre, pelo menos,
acenava com uma profissão reconhecida. Sob sua supervisão metódica, Claude
poderia adquirir os conhecimentos de um Comerciante Perfeito. O que o Abade
oferecia? Cumplicidade num crime. Os pensamentos se voltaram para a venda das
ferramentas. Claude encarou o carneiro. Já era tarde quando Livre abriu as portas e
dispensou o aprendiz.
“Resta uma pérola”, disse o livreiro. E entregou a Claude um pedaço de papel
e os Mistérios de Paris.

25
Quando Claude e o cocheiro se reencontraram, trocaram cumprimentos
efusivos, tapas nas costas primitivos e o tipo de abraço demorado que lembrava a
obra homoerótica A arte de lutar, de Gaudin. Estavam jubilosos, porém exaustos,
principalmente Paul. Lucille quebrara o eixo traseiro a treze léguas da cidade, em
Chailly, num trecho da estrada famoso pelos assaltos. O conserto teve de ser feito às
pressas, e o coche chegou a Paris com muita dificuldade. O cocheiro consolou-se ao
descobrir um pacote sem marcas, contendo “a alegria engarrafada da Borgonha”,
que seria, informou a Claude, compartilhada com ele “você sabe onde”. Aos dois
amigos juntou-se Sebastian Plumeaux, que ansiava, como o cocheiro, pelo relato das
primeiras semanas de Claude na Globo.
Madame V. estava inspirada naquela noite. Passara pelo mercado das aves
pouco antes do fechamento, e flagrara um vendedor depois que este espremera os
grãos não digeridos do papo de suas aves. De volta à cozinha, preparou um molho
com clarete, alho silvestre, noz-moscada e pimenta em grão, o que conferiu um sabor
sutil, adocicado, à carne das galinholas que estava servindo.
Havia, em resumo, boa comida, bom vinho e a agradável reunião dos amigos.
Depois de comer bem, e beber alguns copos de borgonha, Claude começou a
divertir seus companheiros com uma descrição de seu aprendizado na Globo. Embora
falasse do trabalho e da clientela, passou a maior parte do tempo centrado na
personalidade de seu mestre, detalhando a maneira curiosa como ele fungava e
resmungava, comia e limpava a garganta. Os vizinhos de mesa riram com a
vulgaridade, o que estimulou Claude a fazer revelações mais picantes.
“A cena inesquecível”, disse Claude, “ocorreu quando eu o vi pela primeira
vez debruçado sobre a coleção de quatro volumes dos Mistérios de Paris. Não
exatamente debruçado, na verdade. Abriu a calça, que caiu até o tornozelo. Ele
estava de quatro sobre os livros. Eu não entendi por quê, até olhar de perto. Os livros
não eram livros coisa nenhuma! Eram capas, coladas para esconder um penico! E tem
mais, ele se limpava com folhas de papel amassadas de provas tipográficas.”
As gargalhadas tomaram conta da gargote lotada.
“A cena que acaba de descrever”, comentou Plumeaux, “retrata bem o
respeito que Livre tem pela literatura.”
Claude prosseguiu: “Meu vizinho Piero, que empalha animais para os irmãos
Verraux, já eviscerou muitos herbívoros. Ele contou que a dieta de vegetais produz os
gases mais fétidos. Livre, que se limita exclusivamente às batatas, comprova
definitivamente o fenômeno”.
“Nada além de vegetais?”, perguntou o cocheiro. “É um crime limitar tanto a
dieta, quanta coisa se perde!” E fisgou uma asa de galinhola com o garfo.
Plumeaux contribuiu: “O trabalho dele também fede, como um estábulo num
dia úmido e quente”. O jornalista gostou da frase, e a anotou num pedaço de papel.
Olhou para os amigos, e testou um comentário adicional, reflexo de uma pesquisa
recente para uma utopia narrada através dos símbolos de um escudo heráldico: “O
brasão de Livre deveria ter um par de bombas para lavagem intestinal cruzadas,
encimadas por uma vassoura. Quem sabe varrendo uma poeira de eles duplos
minúsculos”.
Claude retomou a descrição: “Livre vive de quatro, e costuma passar as tarefas
diárias e transmitir os conselhos que chama de suas pérolas nesta posição”. Claude riu
ao pronunciar a palavra pérolas. “E sabem qual é a primeira pérola de cada dia?
Bem, vou dizer. E limpar os Mistérios de Paris. Livre é tão gentil que fornece uma escova

especial para isso.
“As pérolas regulam cada movimento de cada momento do dia. Há pérolas
sobre a maneira de segurar os livros (a pessoa deve abrir a frente e a traseira da capa
simultaneamente, para evitar marcas na lombada), o modo de virar as páginas
(nunca molhar os dedos) e a pronúncia correta de certas palavras.”
“E o que acontece”, perguntou o cocheiro, “se alguma das pérolas for
desobedecida?”
“Ocasionalmente, devido ao entusiasmo, eu pego um livro na prateleira pela
parte de cima da lombada, em vez de empurrar os livros vizinhos para segurar a capa
pela lateral. A resposta do mestre a este delito é dolorosa e exata, parte de uma
escala de punições que ele organizou para auxiliar o aprimoramento das minhas
habilidades. O manuseio incorreto de livros é punido com um golpe do espantador de
moscas no ombro. Outros erros exigem implementos mais eficazes. Em especial, ele
providenciou um sarrafo de mogno coberto de feltro verde. Eu sei, por experiência
própria, que o feltro não ajuda a diminuir nem um pouco a dor.”
“Você merece coisa melhor que pancadas”, reagiu o cocheiro. “Merece coisa
melhor do que esta livraria. Afinal, é ou não um mestre do metal?”
“Nem sei mais o que sou. Não tenho mais ferramentas.”
“Tentei evitar que isso acontecesse”, disse Plumeaux ao cocheiro.
O estado de espírito à mesa mudou. Claude não poderia mais entreter os
amigos com relatos dos hábitos de Livre. Todos ficaram constrangidos. Ele não poderia
dizer que todos os estragos eram sistematicamente deduzidos de seu salário, ou, mais
exatamente, somados às dívidas da taxa de aprendizado. Nem poderia revelar a
extensão de sua infelicidade.
O cocheiro olhou para a comida de Claude. “Coma, meu amigo. Saco vazio
não pára em pé.”
Claude não respondeu. Descrever a Globo trazia à tona uma frustração da
qual ele ainda não tinha plena consciência.
“Sinto muito, mas preciso ir”, ele disse.
Plumeaux sugeriu uma visita à casa de má fama que inspirou A prostituta
errante, dez sous in-oitavo. Claude não aceitou o convite, nem o cocheiro.
“Preciso cuidar dos ferimentos de Lucille”, disse o cocheiro.
“E eu”, resmungou o aprendiz, “preciso cuidar dos meus.”
Claude subiu as escadas que levavam a seu quarto com sombria
determinação. Piero, ouvindo o barulho do vizinho, bateu na porta e entrou. Levava
uma coruja empalhada, que pendurou em uma viga, com um pedaço de arame.
“A encomenda foi cancelada”, disse Piero. “Pode ficar com ela até eu arranjar
um comprador, o que vai ser improvável, pois fiz um serviço de segunda nos olhos.
Preciso conseguir olhos melhores.” Ele informou a Claude que estava fazendo uma
natureza-morta tridimensional para um cliente que apreciava Chardin, apesar de a
popularidade do artista estar em queda. “O coelho vai ser fácil, mas a plumagem do
faisão — com toda aquela turquesa — é um desafio. Espero estar à altura. Deixarei a
fruta para o final, pois trabalhar em cera é mais fácil.” Piero parou quando percebeu
que Claude olhava desconsolado para a ponta das botas. “Estou interrompendo. Eu o
perturbei, por algum motivo. É melhor que eu saia.”
“Não, você não me perturbou. Eu mesmo fiz isso. Talvez seja melhor
conversarmos numa outra hora.”
Piero saiu, deixando Claude deitado de lado. Ele olhou para um cartaz colado

Claude fechou os olhos e pensou na relojoaria — uma atividade omitida na Árvore. Onde. “de sentir a grandiosa e sutil diversidade na natureza. com pretensões a ser a “Arvore Detalhada de Todo o Conhecimento Humano”. Com suas múltiplas categorias. calígrafo. ele se enquadrava no grande esquema de profissões e atividades? Seu dedo percorreu galho após galho: ferreiro. . ele disse. marcando os campos do conhecimento citados nos galhos da Arvore.” Claude não estava mais no pomar. meteoros inexplicáveis. “Considere isso uma oportunidade”. curiosidades do mar e da terra. a Arvore assombrava Claude. mostrando as disciplinas que deixara de lado. e o deslumbramento em rotina. A imagem dos galhos estimulou recordações da mansão. impressor. Quais seriam suas chances de escapar das limitações da Globo? Seu dedo parou entre as Irregularidades da Natureza: maravilhas celestiais. As pêras se transformaram em pérolas. Ele se lembrou do dia em que o Abade pediu que fosse ao pomar e experimentasse cada um dos tipos de pêra. ourives. hidrostático. perguntou a si mesmo. Esticou o braço. Onde estava o faxineiro? Onde estava o limpador de escarro? Onde estava a espera tediosa? O dedo de Claude parou entre as disciplinas da astrologia jurídica e da gnomônica.à parede. da ciência das hipóteses e da análise das chances.

(Trabalhava seis dias por semana. Claude oferecera-se para criar uma escada com rodízios para a livraria. e rubricar cada página com o ubíquo duplo L. Mantido na linha mediante intermináveis sermões. a seção Aristocracia foi subdividida em memórias maliciosas e novelas de sexo. Livre freqüentemente aproveitava a chance para. Sem peruca. (“A escada nem é de mogno!”) Mas o motivo real para a reação de desprezo era o medo de que a execução do projeto ressuscitasse em Claude as paixões desvinculadas da venda de livros. No início. As segundas-feiras terminavam como haviam começado. dolorido de tanto espanar e polir cada canto da loja. Ele dedicava as segundas-feiras à limpeza. e atacava a sujeira. escriturados pela prima Etiennette. Viena e São Petersburgo. Livre vivia inventando novas categorias de perversões. depois de esvaziar os Mistérios. o que economizaria tempo e atenuaria a movimentação penosa nas manhãs de segunda.) Foi sua primeira experiência como burro de carga. demonstrando como os livros poderiam ser erguidos e abaixados com maior facilidade. As costas o incomodavam. Livre inspecionava outros. ainda dotado de espírito empreendedor. Livre escarneceu: “Que interesse suas brincadeiras idiotas teriam para meus amigos e associados?”. entre escarros. Claude notou. que em sua opinião induziriam os clientes a comprar e alugar em maior escala. Enquanto isso. Uma semana. testar os . prostitutas reais e moças de janela (um grupo considerado por Claude inexplicavelmente estimulante) ficavam de frente para estupradores diversos. como Leipzig. Nunca. os cotovelos inchavam. Livre vigiava enquanto Claude enchia caixas de livros religiosos. Depois de examinar e aprovar todos os lançamentos. Claude fez outras sugestões para melhorar a Globo. Livre ordenava que Claude diluísse uma garrafa de brandy e limpasse o chão da sala de leitura para o salão de quarta à noite.26 Claude não tinha escolha senão se adequar aos padrões da livraria. apelidada pelo cocheiro de “a morte pela vassoura”. um pacote foi enviado para a mansão de Tournay. Livre zombou de seu esforço. Claude precisou reorganizar os livros conforme o sexo dos protagonistas. Novamente Livre recusou-se a ouvi-lo. Caía na cama.batatas que o mestre e seu aprendiz comeriam por força do contrato assinado. Enquanto Claude guardava estes livros. As terças melhoravam o humor de Claude. ocultando o material ilícito no meio. uma tarefa que. como parênteses. marcava cada dia miserável. As remessas chegavam a pontos distantes. Insistente. Claude chegava de madrugada e. ciganos bem-dotados e homens com predileção pela dor. Explicou que o serviço ganharia em eficiência se instalassem na ponta uma plataforma com roldana e manivela. nem chegou nada de lá. com os Mistérios. Mostrou a Livre um esboço. Resultado: meretrizes condenadas. Voltava para casa à noite. As quartas eram reservadas para o inventário e a contabilidade. os de contabilidade. pensando em maneiras de convencer Livre de que seu talento estava sendo desperdiçado. a mais engenhosa um espanador mecânico equipado com plumas cedidas por Piero. Disse que acabaria com a harmonia da frente da loja. os únicos metais tocados por Claude na Globo eram os trincos de latão das janelas e o medalhão de bronze em cima da porta. pegava os espanadores e vassouras com as mãos enluvadas. Etiennette cozinhava excessivamente as . Dedicava as manhãs a empacotar encomendas locais e internacionais. ele dominou o ciclo de tarefas aborrecidas e extenuantes. mas só um pouquinho. A rejeição final aconteceu quando Claude pediu para fazer uma palestra no salão de quarta-feira à noite. os dedos doíam. Na outra semana. A refeição era rápida e sem cerimônia. meticulosas como os ponteiros de um relógio. Depois disso.

apertando seu peito e esfolando suas axilas terrivelmente. Nestas noites. Depois que Livre voltava das reuniões. Uma certa madame Duchêne. tendo entrado na sala da Coleção da Cortina. Enquanto Livre estava fora. consultando o farmacêutico em questões de dieta. no dia em que pegou uma ilustração . e. passava alguns minutos olhando as maravilhas do Café Mécanique. Se as mulheres escolhiam este dia para evitar o dono ou para encontrar o aprendiz era difícil dizer. E. De qualquer modo. nos dias em que Livre se ausentava. uma vez que o traje não servia mais para o aprendiz. como na escrita do tipo boustrophedon. os modos educados e atenciosos de Claude o tornaram uma presença valiosa na Globo. enfrentando os vendedores e coladores de cartazes. da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. havia um notável aumento no número de mulheres que entravam na loja. Claude era com freqüência forçado a espionar os associados mais confiáveis e amigos mais queridos. Como Livre não conseguia expandir sua autocracia organizadora para além dos limites da Globo. Na verdade. redigia as pérolas de sexta-feira. como era freqüente. os flertes inocentes lotavam a loja. Depois estudava o roteiro que Livre estabelecia em um mapa da cidade vista de cima. ou. Claude era recebido com um colar de pérolas que precisava guardar de cor. “A frase”. Claude e Etiennette ficavam encarregados da loja. Então Claude ia para a rua. era forçado a visitar pessoas com quem mantinha negócios.” Como Livre previra. Claude atendia os clientes. Livre explicou repetidas vezes. perguntou a Claude em três ocasiões se sua pele era branca como o papel usado para imprimir Os prazeres da esposa. Dados os perigos das atividades de Livre. Ocasionalmente. correndo até o revisor. Como a timidez de Etiennette a tornava incapaz de proferir o delicado discurso sobre os livros indelicados. conversando com clientes em potencial. Sentia-se mais feliz na Globo deserta. por exemplo. Nas sextas Livre não exigia que Claude tirasse a jaqueta da demoiselle. o que exigia o fraque negro. funcionava. a mesma madame Duchêne. quando suas missões o levavam até a área do dormitório do jornalista. A jaqueta permanecia em seu lugar porque sexta era dia de sair. sentia um certo alívio. Uma vez por semana. ele saía de seus domínios de mogno. Claude só foi surpreendido uma vez. protegendo seus investimentos. o que considerou ótimo. Claude recusou sua proposta e perdeu a cliente. e acordava Plumeaux na faculdade. E. se tivesse sorte. Claude quase nunca participava das atividades no salão. Em geral. modificando a rota para passar por pontos de interesse pessoal. “é um trocadilho com a origem eclesiástica da cortina. porque a pior parte da semana havia passado. negociando. expandindo os negócios. mantendo os ouvidos abertos para as novidades. a revelar a senha que garantiria o acesso à Coleção da Cortina. Parava nas vitrines feitas por Piero. Isso chamava a atenção. Livre o ensinara a estimular o interesse dos fregueses sem revelar a natureza do material existente nos fundos. As quintas-feiras marcavam a virada. Este espetáculo fora concebido para dar a impressão de que os clientes estavam sendo admitidos em um clube especial. Só isso já dava motivo para comemoração. dava o maior número de voltas que seu tempo permitia. livre para pensar na vida e fofocar com Etiennette sobre o flagelo comum aos dois. se o tempo permitisse. saía cedo. estimulada talvez pela proximidade dos textos indecentes. assim que o cliente se mostrasse interessado. Como era de se esperar. lia os jornais de Paris e pesquisava a história dos nomes. uma vez que a Globo vivia cheia de homens pálidos durante o resto da semana.comentários espirituosos que pretendia fazer aos convidados. Perambulava pelas ruas transversais do bairro das gráficas. passou para a demonstração. às quintas. mais tarde. A senha era “hábitos maliciosos”.

.” Nos Hois meses seguintes. bastão na mão. então vai carregar meus livros. um ventilador ligado a uma estufa impedia que o modelo se resfriasse. observou um modelo nu. “Se você tem tempo a perder. um dia antes da suspensão obrigatória do terror de Livre. mas fez isso. Ao lado de Lucien Livre. Raramente os livros exibidos despertavam o interesse da clientela libidinosa. Livre encheu Claude de cansativas e arriscadas missões de entrega noturna. geralmente — do arranjo perfeito das coleções. e o transformavam em uma marionete em tamanho natural. Esta era a rotina da livraria. que. Cordas suspensas no teto aliviavam seus braços fatigados. em pé entre caixas de madeira. mestre e aprendiz reorganizavam a vitrine da loja. um torso de um grego anônimo. também se tornaram rotineiras. uma das mãos de Puget. aquela era uma tarefa sem inspiração. Claude não deveria ter parado para espiar. Havia interrupções e surpresas. que lecionava em uma academia conceituada. com o tempo. explodiu quando Claude entrou. Ele viu cupidos em estágios diferenciados de nudez. De um canto num salão. O olhar de Claude era mais abrangente. talvez porque anunciasse a noite e o dia seguintes. Os estudantes olhavam apenas para o lanceiro arrepiado. Acima dele. Aos sábados. Mesmo assim o livreiro tomava as dores — de Claude. Viu moldes de estátuas famosas espalhados pelo chão: um braço de Michelangelo. e Livre. pendurados na parede. Em seu papel de mensageiro.licenciosa de um professor de arte em dificuldades. O dia passou depressa. a tarefa se encerrava rapidamente. O homem segurava uma lança. Por mais maçante que fosse.

No dia seguinte anunciou a Piero que tinha um plano. com o desabafo. em uma narrativa inspirada pela lenda de ícaro. em vez disso. gritou histórias de sua janela para os residentes do outro lado e do andar de baixo. “Não faço nada com minhas mãos. uma liga e um pacote de alfinetes comuns que se acha à venda na rua por quatro sous o cento. chamando Piero somente quando precisava de mais um par de mãos. entretanto. onde poderia estudar pássaros durante horas. Claude trabalhou sozinho. conseguiu reunir forças para superar parte de seus sentimentos de frustração e descontentamento. mas cobrou o dobro do preço normal. para prender as asas dos pássaros. “Creio que pode usar estes alfinetes nos bebês”.) Combinando os objetos com outras relíquias — o manequim serviu bem ao propósito —. Mas o envolvimento do veneziano tornou-se rapidamente uma parceria limitada.27 Entre o final de uma semana de trabalho e o início da outra ocorria o fenômeno que o Dicionário da cultura popular francesa contemplava com nada menos do que sessenta e sete verbetes. O Pequeno Retrato tornou-se uma lembrança de um amor não correspondido. Ele escreveu uma carta onde despejou seus sentimentos. O manequim lutou contra os monstros alados de Piero. Seu interesse pela vida animal aumentou. uma chance que Claude perseguia com uma mistura de vingança e apreensão. Era sua chance de compensar o tédio da Globo. mas guardava tais impressões para si. e precisava da ajuda do amigo. uma vez que o cocheiro encontrava-se geralmente em viagem. depois de um dia de faxina pesada. No início. embora falsa.” (Esta era uma rara e significativa recordação de suas origens. nada com minha cabeça”. Marguerite. Claude com freqüência se dedicava a explorar a área dos artesãos. Claude. apenas a chaminé precisou de auxílio externo.”Meu pai”. “sustentava que todas as descobertas ocultavam uma história. Preferiu. Claude inicialmente se entediava com essas visitas. e a endereçou ao Abade. quando ouviu o canto dos grous durante o acasalamento — um grito terrível. sem censura. com uma faxina completa. que resolveu registrar em seu rolo S. uma vez que Claude foi forçado a chamar um pequeno savoiano para subir no fumeiro. um diamante caído num canto. desistiu. mas não como os grous sem registro. Com isso. que aceitou a proposta com a condição de que ele consertasse seu telhado. interno. Não foi fácil. por mais tênue que fosse. disse. depois de quadro horas de tentativas. Claude chorou. na esperança. um título de posse de terras hoje abandonadas colado na parede. Sabia que Piero concordaria com qualquer sugestão sua. Durante a etapa inicial de limpeza. Naquela noite. Dois domingos depois. abandonara quase completamente a pesquisa. Claude mostrou um esboço de seu projeto de restauração de seu alojamento à zeladora. Suas faculdades auditivas e capacidade de notação haviam enfraquecido tanto que. expressando furiosamente seus pensamentos demoníacos. Piero ficou com metade dos alfinetes. Claude usou os objetos encontrados para criar uma história. O resto foi dado para a ama-de-leite. retrucou a ama. pregá-la na parede. de achar um jeito de transmitir movimento às aves empalhadas. ou a percorrer os corredores do Palais-Royal. rabiscou. Nunca mandou a carta. Seus esforços resultaram numa espécie de saga de fantoches. em uma de suas conversas. e Plumeaux geralmente na cama. sua sorte se limitou a uma roda lascada. O Abade fez esta declaração. Passava a maior parte do Dia do Senhor com Piero. “Ou pelo menos nas fraldas”. disse Claude. estridente. Ou melhor. que . Bem. Claude o chamava de domingo. O menino de cara preta livrou a chaminé de uma casa de vespas. Mesmo assim. Piero sugeriu que visitassem o Zoológico Real. Claude dizia brincando que encontraria um baú de moedas de ouro debaixo das tábuas podres. O serviço começou no domingo seguinte.

e não mais por dois. Incomodada com os estragos feitos pelos pombos na torre da igreja de St. Tornou-se o orgulho do prédio. num momento de entusiasmo desenfreado. Usou uma velha bacia de cobre. Claude vira. e Claude refez o assoalho. que permitia recolher aparas de metal. informou que as fichas normalmente usadas para entrar nos bordéis eram feitas de latão. O espantalho de pombos serviu de assunto no prédio nas semanas seguintes. até uma calha de madeira. Cuidou do pior problema primeiro. apontando para um basilisco coberto de marcas inde-sejadas.” Quando Plumeaux sugeriu que tais relatos fossem levados a Livre. fora os ensinamentos de suas pérolas”. Depois posicionou o móvel. permitindo que Claude observasse a vida do chapeleiro do andar de baixo. de forma que ao abrir recolhesse a água que pingava. que lembravam os altares à beira da estrada. observou que a luz entrava por quatro pontos. Embora não atribuísse nenhum significado religioso à iluminação concentrada. que não tinha fundo. até que Plumeaux. presas a uma mesa dobrável. mas perigoso. Claude instalou um sistema de cinco roldanas. Claude e Piero instalaram a coruja no alto. para aumentar sua comodidade. Quando o armário era fechado. a água da bacia escorria pelo fundo. para afugentar os pássaros. Claude percorreu o mercado das pulgas e o de roupas velhas. especialista nestes assuntos. Ela explicou que os pássaros desfiguravam suas gárgulas favoritas. Para liberar o pouco espaço de que dispunha. . A possibilidade de morrer o dissuadiu de novas subidas. Quando não eram necessárias. a goteira fornecia um suprimento de água. Os vizinhos ficaram deslumbrados com os resultados. de modo que podia levantá-la como uma ponte levadiça. capaz de dirigir os raios solares e a luz das velas para seu quarto. e presentes dos vizinhos que encorajavam suas conquistas mecânicas. Metade do assoalho apodrecera. uma pequena biblioteca. Suas habilidades logo foram solicitadas. ele incluiu um molinete pequeno porém resistente. que pregou dentro de um armário feito com madeira abandonada pelo inquilino anterior. Mais roldanas e cabos foram instalados. Claude recusou: “Não creio que ele possa apreciar qualquer coisa. seus espaços abrigavam sapatos. No final. Claude voltou sua atenção para a arquitetura do local. a coruja empalhada e um coelho empalhado com pêlo ralo (resultado da infeliz tentativa de Piero de usar sabão de arsênico). Ao lado. subiu ao telhado. Mas. as cadeiras. Terminada a limpeza. A zeladora tornou-se a primeira cliente. Assim. chegando a substituir as cópulas do chapeleiro como assunto predileto das conversas. feitos por piedosos montanheses. pechinchando na compra de ganchos e sacos de estopa. durante o solstício de verão. Subiu de novo e escorregou no limo. Quando desceu. controlado por fios. ele instalou um aparelho. Claude o transformou em senha secreta para a entrada em um bordel. até que descobriu um modo de transformar a desvantagem em vantagem. com os quais fez redes para guardar suas coisas. Um dos casos acontecia em torno de um único botão de chifre. o vazamento que a zeladora queria ver consertado. Seu reino engenhoso logo superou as paredes do sótão. descendo por um funil. Assim. subiam até o teto. Para consertar o vazamento. A goteira o derrotou por duas semanas úmidas. um raio de luz refletido num cálice de prata em Notre-Dame. Incluiu uma série de roldanas e cabos na cama. cestos de comida preparada por madame V. pediu que Claude encontrasse uma solução. Incapaz de chegar aos ninhos.Claude enriqueceu com novas descobertas. até que Claude surgiu com uma nova invenção. Era um local de observação interessante. Cortou outros nichos. Depois prendeu um bocal na bacia.-Séverin. ficou fascinado pelas possibilidades da reflexão. Seguiram-se outras idéias. vela$. “Então será o botão arrancado a dente da roupa de um cliente. em vez da Virgem ou de um santo tosco. na janela da água-furtada. capaz de erguer a mobília sem exigir muita força. à procura de buracos.

. Marguerite passou a lavar de graça as roupas de Claude e Piero.” Construído com a roda achada nos estágios iniciais da limpeza. transformando-os nas velas de um galeão turco no qual pudesse fugir. claro. perguntaram os vizinhos. Houve. como um carrossel. Plumeaux escreveu um pequeno artigo. pendurados na escrivaninha da Globo. mas não mencionou o nome de Claude. Em troca do varal giratório. Lenta. o molinete. no alto do telhado. noites em que ele ficava acordado. ao acordar. o trabalho reviveu o espírito de Claude. “A gruta da mansarda”. no jornal local. quase imperceptivelmente. A notícia da engenhosidade do rapaz se espalhou. para o cenário que reconstruíra: os espelhos com suas engrenagens. ele costumava dormir com as mãos nos testículos. Descreveu “as catracas e outras inacreditáveis proezas de um aprendiz de livreiro”. Nas noites de domingo. carregando a imagem dos lençóis esvoaçantes para seus sonhos. encarava outra transformação. com as marcas do tédio. olhando pela janela. “Um varal radial para a ama-de-leite. evitando o lodo das calhas e a fumaça das chaminés. reveses. o equipamento foi instalado. as roupas que pendiam no varal giratório. Os lençóis agora ostentavam pequenos pedaços de papel. pondo o fraque de Claude e as batas sujas de sangue de Piero para secar ao lado das fraldas. A restauração do sótão marcou a recuperação do próprio Claude.“O que é isso?”. Mas.

e assim por diante até chegar ao umbigo de Claude. um remédio pungente com cardamomo. intocada.” Livre mastigou um pedaço de pão de alho-poró e a analogia que o acompanhou: “A transição da caça . O aprendiz. O autor mencionava um “aprendiz de livreiro criativo. procurando lançamentos que pudessem concorrer com os seus no mercado de atividades ilícitas. Mas. No início. O texto descrevia um local “onde as cadeiras sobem ao teto e a cama se fecha como uma antiga ponte levadiça”. nem resmungou acusações sobre a rigidez dos alhos-porós mal cozidos. A marca do homem civilizado é sua capacidade para cultivar. Tentou distrair-se consultando listas de livros locais e estrangeiros. pouco fizeram para eliminar os sonhos mecânicos de seu empregado rebelde.) Tomou um gole de sua preciosa Seltzer e fingiu uma atitude avuncular que deixou Claude em guarda.V A PÉROLA 28 A composição da pérola que acabou na caixa de curiosidades teve sua origem numa noite de quinta-feira. Serviu uma medida de melaço vêneto. Livre não se deteve muito no assunto. bem como periódicos e anúncios empilhados com cuidado em cima da escrivaninha. o pequeno Mercure de France. entrou na Globo com as mãos descobertas e a jaqueta mal abotoada: a primeira casa acomodava o segundo botão. você raramente maculou a reputação de minha loja. e controlar a raiva. Ainda soltava gases. Folheou o Journal. Recortou dois ou três itens e arquivou-os nos escaninhos apropriados. Livre engoliu em seco e sufocou o instinto punitivo. tanto pela violência quanto pela palavra. capaz de transformar seu pequeno quarto em um microcosmo de invenções a baixo custo”. depois do fechamento da Globo e da saída do pessoal. Livre sentou-se à escrivaninha. Ao invés de pancadas. a segunda casa acomodava o terceiro botão. com sua capa cinza azulada. “Claude. depois de remoer as implicações da traição. Tomou o remédio. a ousadia e a quebra da confiança exigiam uma mudança de estratégia. Na hora do almoço. “Tenho afirmado que somente os selvagens matam sem necessidade. sem suspeitar de nada. (Alhos-porós substituíram as batatas. e o indispensável Journal de Paris. e lembrado que era “aprendiz de livreiro. teve de admitir que tentativas anteriores de controle. mas a expressão “aprendiz de livreiro” não saía da sua cabeça. e perguntou entre dentes se estava tudo bem com ele. Livre não amaldiçoou a faca cega. Anotou duas novas referências em sua caderneta. no mundo da minha Globo?” Uma voz lá no fundo respondeu: “Trezentos e vinte e sete dias”. Seria possível? Não seria possível? O primeiro impulso de Livre foi punir. mas sentiu pouco alívio. tentando suprimir o mal-estar digestivo. deu um tapinha amigável nas costas de Claude. um Page a serviço de Lucien livre” ? Não. com o título “A gruta da mansarda”. E foi no verso do segundo recorte que ele encontrou um artigo não assinado. antes de passar para uma lista de livros clandestinos. há quanto tempo está aqui. preparando o sarrafo coberto de feltro para a chegada de Claude na manhã seguinte.” Tanta generosidade era típica. Livre colocou seu plano em ação. Livre ralhou com a prima e concentrou-se novamente em Claude. Quantas vezes Claude fora espancado. “Neste período. comprada por uma questão de prestígio. Lá estavam a Gazette. Dias depois.

pois deixarei a Globo sob seus cuidados nas próximas quatro semanas. Precisamos adubá-los e esperar anos até a colheita frutífera. Livre teria motivos para agir de modo rude e implacável. Em resumo. Livre estimulou uma série de atividades. Nele constava: Nos momentos livres. meu boticário alertou para a necessidade de tratar minha “barriga pesada”. Esta atitude também vale para a venda de livros. Preciso fazer isso para acompanhar as atividades da concorrência nos setores fora do alcance dás leis reais.” E havia sido mesmo. resta o problema das Horas de Amor. A cada sábado. que Claude prendeu na parede do sótão. e Livre detalhou seus planos: “Anualmente. e depois viajo para Genebra e Neuchâtel. Claude balançou a cabeça ao ouvir a penosa comparação. é a chave de tudo. ele mudava os livros que pretendia promover. que sabia inspirada pela leitura errada de um tratado superado sobre geopônica que espanava todas as segundas. e Claude ganhava a liberdade. O livreiro sabia que. se Claude descuidasse de suas tarefas na Globo por causa do trabalho no sótão. Seu antigo mestre será processado em breve. deixarei a Globo em suas mãos. Negociarei os delicados aspectos da distribuição de meus livros. Prepare uma conferência para quarta-feira. No dia da partida de Livre. Se as novas responsabilidades sufocassem o pendor mecânico de Claude. e contabilidade. por conta de Etiennette. na escrivaninha. sem consciência da raiva que o provocara. incluindo aí a chance de expressar sua criatividade. inventário e salões nas noites de quarta-feira estavam suspensos até a volta de Livre. caso não honre seus compromissos”. Você assumirá a responsabilidade de cultivar nosso negócio. “Será preciso. Ele carregou a caixa de remédios em mogno e os Mistérios no alto do coche. as pérolas dividiam a condução da loja entre cuidados com o estabelecimento. enchendo o espaço com obras de escritores mortos havia muito tempo. Despachos. o plano se mostraria eficaz. Depois. Devo buscar a cura em Montserrat. confirmando que levava a caderneta e a carteira. Claude se conteve para não fazer as perguntas que “desejava tão desesperadamente. (Uma fileira para cada um dos funcionários. Meus clientes — nossos clientes. No dia da partida.) No geral. “Sempre me dedicarei atentamente à colheita”. se deu conta da sutil vingança do livreiro.” A notícia deixou Claude em estado de choque. da matança para o cultivo. Nos contatos com as autoridades e com os clientes. Claude. Em vez de restringir as atividades de Claude durante sua ausência. Arrume a vitrine. Além disso. Por estes motivos. e não abatidos como bestas selvagens. “Além disso. mais tarde acabou no registro tridimensional da vida de Claude. Ignorando a ordem escrupulosa das tarefas. Quando finalmente inspecionou as pérolas de Livre. Cultivar. Por outro lado. Livre partia. Observou enquanto Livre apalpava cuidadosamente os bolsos. pegou uma pérola qualquer da fileira. beneficiou a dieta das pessoas. em vez de restringir suas ações. o segredo está em saber cultivar”. Claude acompanhou Livre até a estação de coches na place Maubert. ao agir assim. depois de fechar a loja aos sábados. o mestre provisório instalou-se. sem acenos. incapazes de ameaçar seu amor-próprio ou despertar a inveja. Tudo já foi providenciado. Livre ampliou seus direitos de modo inédito. responsabilidade de Claude. compareço à feira de livros de Frankfurt. Claude aceitou o desafio. De volta à loja. nada menos do que sessenta pérolas alinhavam -se em duas séries de papel pendurado. a picotadeira e os papéis. Livre era um sujeito intrinsecamente avesso à escolha e cego a qualquer manifestação de elegância contrária a seus princípios. Claude — devem ser cultivados. Tinha . ele disse.para a agricultura. Deixava isso bem claro nos arranjos das vitrines que ocupavam a Globo. prejudicaria a gruta da mansarda ou a Bibliopola. O papelucho. Claude.

depois poliu o local com a luva apropriada e lavou o vidro. rodeado por quatro pintinhos empalhados bicando as bordas da primeira página. Consultou até as estampas da Encyclopédie. (Livre possuía uma edição mais fina do que os volumes gastos que consultara em Tournay. No final. isoladamente. Abriu espaço para seu companheiro vinoso. apoiada em duas colheres de servir. a pureza do volante. “Posso sentir a página fumegar”. coroas e pinhões. Ao posicionar um fólio holandês sobre um veludo de Utrecht. papéis marmorizados e tecidos. Claude explicou que o efeito se devia à impressão meio borrada. o tique-taque confiante do relógio bem montado.) O cocheiro foi evocado por meio de uma cena de banquete. contente por ter sido representada por uma tábua logarítmica. Livre considerava-se um estilista da mais alta ordem. Um exército de ilustradores mal pagos e maltratados se ofereceria para desenhar de graça a caricatura de Livre soltando seus perdigotos. ficou um tanto desapontada ao achar um erro de impressão. As duas opções acabaram descartadas. A escolha mais fácil foi Plumeaux. para Piero e para Plumeaux. detalhando um conjunto sofisticado de drenagem. disse quando entrou e viu a homenagem. . Em um exercício antecipado de outros esforços futuros. Alternativamente. As máquinas. selecionou o tratado de taxidermia de Réaumur de 1749. em si tão belos.) Não achou nada que o inspirasse. No final. por sua vez. apresentava tantas opções que se tornava um serviço traiçoeiro. Ele gostaria de incluir uma mulher. Livre foi colocado no panteão de Claude. em parte por ser como era. apoiando o desenho com uma bomba de lavagem intestinal e o espantador de moscas de crina. Claude queria destacar o paradoxo dos hábitos de Livre. num canto. para dar lugar a manifestações mais pessoais de seus interesses. precursor da privada com sistema de descarga. resolveu homenagear os homens que marcaram sua vida desde a saída de Tournay. a vitrine o atormentava. que usava como fundo para seus arranjos. inundavam Paris de imagens coprófílas que capturavam as obsessões gastrintestinais de Livre. O Abade foi deliberadamente excluído. em busca de inspiração. evocariam a magia do movimento. Não encontrou nada adequado. O caso de Piero apresentava as maiores dificuldades. Neste ponto. uma casa e a rua. um paradoxo de elegância e imundície. Como representaria a si mesmo? Lidar com o próprio entusiasmo nunca era muito fácil para ele. Ficou atônito com a imagem. No final. ò cocheiro.sempre à mão uma coleção de pedaços de couro. usou a planta de um sistema de esgotos cheio de novidades. Claude removeu as colunas de gesso. que inspirara parte da reforma do sótão. dois cientistas sempre discordantes. Folheou os manuais da loja. catapultas e mecanismos. Etiennette. Claude mostrou-se estreito. Preparar a vitrine de Livre. Expressá-lo beirava o impossível. Os mecanismos. ladeou uma tradução da História natural de Plínio com minúsculas colunas dóricas. Uma vitrine continuava vazia. eram empregados como instrumentos de tortura. Vazia. Quando Etiennette se ofendeu por estar ausente da representação. em corte. Claude reduziu suas opções à beleza de Buffon e ao rigor de Réaumur. já naquela época. Antes de partir. espirais. mas concluiu que nenhuma mulher que conhecera merecia estar representada. a sombra de um homem oprimido por engrenagens e roldanas. Claude arrumou uma das primeiras obras do jornalista — uma utopia deísta chamada Os preceitos da natureza — na primeira vitrine. As engrenagens e cabos se moviam graças ao esforço suado. Mostrava. Mas o contexto sugeria uma cena de horror e opressão. descobriu uma ilustração capaz de unir estado de espírito e atividade. em parte por causa da juventude. Depois de perder muito tempo. que o atraiu e repeliu simultaneamente. (Afirmou que o log 12 não era igual a 1. lubrificados pela graxa da exploração desumana. Claude a incluiu na vitrine. as gráficas alemãs. Claude a espanou. A planta mostrava. Depois de tirar meia centena de livros das estantes. Claude a chamou de “Os verdadeiros mistérios de Paris”.0413927.

O desenho era pequeno. como mênstruo para dissolver prata. . A ilustração escolhida por Claude estava saturada de pensamentos incompatíveis sobre mundos incompatíveis. O mesmo líquido era usado por Claude no trabalho em metal. a água-forte. Ele se lembrou do tempo em que o Abade lhe mostrara os vapores vermelhos como sangue que saíam da mistura potente de nitro e vitríolo calcinado. a escala gigantesca. evocava imagens de sonhos abandonados. O método de execução da ilustração.

e se vestia com elegância. Encarou uma mulher de meia-idade. farelo de trigo e açúcar mascavo. claro. como o chamou. Claude levantou-se.” Encarando-a. o arranjo sugeria os prazeres da caça e a refeição decorrente. “Creio que pode ser encontrado ali”. . comparadas com a situação de Claude no momento. Grato pela interrupção. “Gostaria de ver a obra inteira? “ A cliente balançou a cabeça negativamente. “A idéia é deixar os clientes famintos?”. Eu posso. a sineta da porta anunciou a chegada de um novo cliente. As últimas palavras dariam uma pérola. Claude alegrou-se. As liberdades descritas na utopia deísta de Plumeaux não eram nada. “Suficientemente famintos para comprar o livro onde se encontra a ilustração”. perguntou. viviam encantados.” Claude se divertia com a meia verdade que descrevia indiretamente as lavagens intestinais que deram fama a Montserrat. um estado alcançado com uma idade bem menor. Embora não se beneficiasse diretamente com os lucros da Globo. Mostrou a agenda. naquela época de longevidade precária. “O mestre não se encontra na loja no momento.29 Claude passou a primeira semana de liberdade inesperada em consultas incessantes a livros que antes não tinha tempo para ler.” Ela riu nervosa. Era bonita. (Os ajudantes misturavam a água das fontes com leite. aqui está. a caixa monogramada cheia de dinheiro afastaria qualquer crítica de Livre.” “Você é o assistente?” “Sou aprendiz. madame. apontando timidamente: A retórica da puta. Ela apontou para a cena de delícias culinárias que homenageava o cocheiro. fabricante de brinquedos para Luís XIV. Os passantes. A jovem senhora pendurou o chapéu e procurou algo dentro da bolsa.” Não conseguiu dizer o nome. Estes ficaram mais que satisfeitos. depois de duas semanas de gerência provisória. quando voltasse. Havia tortinhas. “Não disse ainda quando seu mestre retornará. Ele viajou para estudar os princípios da hidrodinâmica.. Claude explicou: “Ele ficará fora por duas semanas. não tem nada de literário. “O desejo. A mulher tirou o gorro de pele e disse: “Por favor. fechando o Camus. marcando o espartilho. anuncie minha presença a seu mestre”. e as vendas diminuíram. Com a inclusão de polvorinhos e trompas. Ao final de um período particularmente ativo. cestos de frutas perfeitas e aves rodeadas de roscas.) A cliente olhou para as vitrines.. em número cada vez maior. e confessou: “Eu preciso de algo filosófico. Chovera o dia todo. pudins e um bolo no formato de um chapéu de hussardo. se é que me entende”. “Sim. entravam para comprar e alugar livros e reproduções. Sem a interferência de Livre. cheia de anotações. Lutara sem sucesso para entender os argumentos por trás dos coeficientes de atrito descritos no tratado de mecânica. Deixou o tratado de lado e ergueu os olhos da escrivaninha de Livre. “ Ela consultou uma pequena agenda elegante. A chuva encharcara seu vestido. Claude usou o tempo livre para ler os trabalhos de François-Joseph de Camus. Claude a olhou mais detidamente. assisti-la em qualquer desejo literário que pretenda realizar”. E suflês delicados. Havia algo. E lançou um olhar para a cortina. o aprendiz descobriu que dava tempo de realizar seu trabalho e satisfazer as vontades dos clientes da Globo. Claude retrucou.

Claude disse. Claude mencionou as div ersas possibilidades de encadernação. “Pele de carneiro também é ótima. quem sabe o dono pudesse ajudá-la quando voltasse. A sobrancelha dera uma . começando. Claude foi forçado a dizer que não tinha idéia do que ela estava falando. “Aqui está. E concluiu a transação dizendo: “Devolverei o livro na próxima quinta-feira. “Os encadernadores renovaram recentemente seu estoque de bolo-armênio. Etiennette cuidou do restante da transação. trazida por uma famosa expedição à Patagônia. “Hábitos maliciosos. trazendo o livro que ela queria. embora dure menos do que o marroquim. Agora pegue o livro em questão. A cliente mediu Claude da cabeça aos pés. tentando lembrar onde vira aquela mulher antes. certo?”. de Córdoba. “Tenho conta com seu mestre. como insistia Livre.” “Os encadernadores e seus bolos-armênios não me interessam. Não conseguiu lembrarse de onde a vira. Ela consultou a agenda novamente. Ou algo no gênero.” Pronto. Não a encontrara nas saídas de sexta-feira.) “Eu pretendia alugar o livro. ela disse para encerrar o assunto.” “Marroquim liso. Por que não experimenta o pingüim?” (Piero trabalhava em um espécime fedorento daquela ave. Para seguir as pérolas. Ou talvez prefira pelica?” Ela fez que não com a cabeça. A cliente sorriu. Enquanto providenciava estes detalhes. Depois de um momento de constrangimento. Etiennette preencheu os diversos itens da ficha de aluguel. a cliente disse: “Oh. “Perfeitamente. ou talvez zebra? Também temos um estoque especial de pingüim. eu devo dizer “hábitos libidinosos”.” A frase refrescou a memória de Claude. Claude continuou a pesquisar sua memória. “Jibóia.” “Talvez possamos encaderná-lo em chagrém da oficina do falecido monsieur Galuchat. pelas mais caras.” “Não. como se ele fosse uma mercadoria em exposição na loja. anotando em código o nome da cliente nos livros de registro. saiu e voltou rapidamente de trás da cortina. “A capa de papelão está ótima. Nunca a vira na loja antes.Como a mulher não disse a senha. já falei. tipo inglês?” “Não. claro. e não adquiri-lo imediatamente”.” Claude a provocou. e direito de usar os serviços de aluguel. E acrescentou: “Aguardamos sua visita”.” “Não. “Marroquim de Esmirna?” “Não.” “Cabra dos oásis?” Claude desfiou a lista. madame”. encadernado com uma capa simples de papelão. Ele pediu licença. Até lá já saberei se é útil”. E naquele instante Claude se lembrou.” Etiennette confirmou que ela alugava livros da coleção com freqüência.” “Temos também couro de cabra espanhol especial.” “Couro da Turquia?” Ela ergueu as sobrancelhas retas. embora seu criado costumasse vir retirar os volumes. sem o menor pudor.

girando pelos fundos da loja. segurando seus braços de madeira abertos. tão apressado que quase derrubou o globo celestial. ao contemplar os ornamentos intelectuais e domésticos de madame Hugon. Ele a acompanhou até a porta. que tanto incomodara o Abade com a questão do copofone — tornaram -se populares em Paris. Teriam atenuado seu júbilo delirante. agia e se vestia de um modo que só poderia ser chamado de coquete. casada com outro. madame Hugon adquiriu suas obras completas. Mesmo assim. ela era a musa relutante durante o estágio turbulento de seu desenvolvimento mecânico e emocional. enquanto dançava. em resumo. da gordura de um porco. e só restou o perfume da mulher no ar. mas foi incapaz de transmitir toda a força de seu arrebatamento. E. O gorro de pele branca usou a barriga de um esquilo siberiano. arpoada nos mares gelados do Ártico. ficou alguns minutos sentado em silêncio e depois voltou a pular e a rir ainda mais. Ele dançou com a demoiseire sem peruca. o espartilho continha barbatanas de uma baleia da Groenlândia. a polonesa enfeitada com borlas começara a ser feita com o trabalho de uma colônia de bichos-da-seda italianos. Vinte estações de flores silvestres haviam florescido e fenecido desde a pintura do Retrato. já idoso. está melhor representada nos esboços e desenhos do caderno de Claude. capaz de resumir os modismos da França no final do século XVIII. Quando as batalhas entre gluckistas e piccinnistas foram travadas. e conseguiu um encontro rápido e sem conseqüências com o famoso autor. a maquiagem. emitindo opiniões sobre o significado de lphigenia in Tauris tiradas de um almanaque. Quando os escritos de um inventor norte-americano — o mesmo inventor. conservava o fogo no olhar e o sorriso enigmático. aliás. em uma casa de Passy. madame Hugon pagou uma fortuna para assistir. abrindo e fechando os membros de madeira. Sem dúvida Alexandra Hugon ainda era atraente. às performances operísticas mais importantes. Se o amor de Claude não era exatamente cego. sofria pelo menos de um caso agudo de catarata. eles não estiveram presentes ao encontro. Filha de um rico peruqueiro. “Afaste a mão! O nome! Quero ver o nome dela!” Claude ficou em estado de choque ao confirmar suas expectativas febris. ao espetáculo que os operários de Paris puderam ver do mesmo jeito. Etiennette passava o mata-borrão no registro dos aluguéis. Claude tentou descrever o milagre do encontro para seus amigos.pista. Os gestos curiosos se repetiram durante toda a tarde. a bolsa era revestida com a pele de uma avestruz que um dia correu pelos campos áridos de Angola. madame Hugon estava presente. Plumeaux. que exigiam a aplicação diária de cremes dispendiosos. Infelizmente. ele gritou. quando chegou o momento de gastar muito dinheiro em um tratamento médico duvidoso no qual o paciente ficava amarrado por cintas de couro e mergulhava em uma banheira de carvalho. enumerando os animais mortos para manter sua elegância. era o sonho de um taxidermista. Sua pele não era mais tão macia. sem se dirigir a ninguém em particular: “Eu encontrei o Pequeno Retrato”. Quando Paris em peso viu o saco de papel de parede colado dos irmãos Montgolfier sobrevoar a cidade. madame Hugon apressou-se em ser . Embora citada nos documentos eclesiásticos e nos registros de um hospital de Paris. em uma poltrona estofada. E. A sineta soou. Claude correu para os fundos da loja. A varíola deixara marcas profundas. Seu nome completo era Alexandra Hélène Hugon. mas o sorriso não deixou mais dúvidas. Piero teria observado as roupas de madame Hugon com interesse profissional. o couro mais comum vinha da vaca mesmo. O odor almiscarado que madame Hugon deixou no ar ao sair da loja provinha da glândula anal de uma civeta. teria encontrado um espécime não menos interessante. Seu traje. Ele riu. pulou. Talvez para compensar a perda da juventude. e de graça. nas Tulherias. bela e de camarote. os botões saíram dos galhos de um veado. mas tinha muitas imperfeições que Claude se recusava a reconhecer. As sobrancelhas não eram mais tão viçosas e desafiadoras como sugeria o Pequeno Retrato.

“Preciso de outra coisa. rascunhando a parte dos Zumbidos. “A obra teve a utilidade esperada?” “Não teve”. Madame Hugon entregou-lhe uma moeda a mais. Claude ergueu-se nervoso. depositando o livro alugado na frente do aprendiz zumbidor. Temos um acordo. Foi pedido por intermédio da Globo. Gosto muito. porque atrasara na devolução. quando madame Hugon entrou. “E o que seria. disse a cliente. Fosse Benjamin Franklin. aulas de violino e passeios às lojas locais de pornografia. que não escutara a sineta. música ou Mesmer. ele registrara um novo som.” “Foi terminado?” “Não.” Claude balançou a cabeça furiosamente.” Claude aproveitou a chance. Mas deixei o local antes de completar o serviço.amarrada e mergulhar na banheira. nem na sexta. quando Claude preparava a conferência para o futuro salão. mas preferia manter o passado meio vago. Seus dias eram preenchidos com compromissos no liceu. “Mas seu marido não a desejaria também?” “Eu não me importo mais com os desejos de meu marido.” “Ele nunca me contou.” Claude baixou a cabeça. um segredo na sala dos fundos?” “Não. balões. “Pode ficar com a miniatura. se bem me recordo.” Madame Hugon sentiu-se lisonjeada com o cumprimento. como prometera. “Onde conseguiu isso?” “Foi enviado por seu marido. para meu antigo local de trabalho. madame”.” Etiennette surgiu com um recibo confirmando a entrega do livro. o do moscardo preso na crina emaranhada de um cavalo de tração. o que decepcionou Claude um bocado. pessoalmente. Cada um vive como quer. madame”. “Uma encomenda.” Ela não foi específica. Um criado poderia ter servido de mensageiro. E dirigiu-se a Claude: “Tem idéia do que meu marido encomendou?”. Considerou um bom sinal a devolução do livro.” “Gosto. mas não na quinta-feira seguinte. “Não precisa ficar constrangido. uma miniatura pintada em marfim. Claude engoliu em seco e disse: “Tenho um objeto que vai interessá-la. e a saudou atrapalhado: “Novamente honrado em recebê-la. e mostrou-se receptiva para as possibilidades que se abriam. Alexandra Hélène Hugon era uma mulher da moda. Suponho que queira vender a peça de volta. no sentido antigo do termo: vivia acima do vulgo e abaixo da nobreza. se gosta dela. Só no final da tarde de sábado ela finalmente apareceu. Madame Hugon voltou para devolver o livro alugado. Trabalhava no momento na recriação dos sons. madame. Madame Hugon ficou surpresa ao deparar com seu retrato quando jovem. “Eu só gostaria de devolvê-la para a senhora. conforme encorajamento de Livre.” “Compreendo.” .” Claude entregou o objeto.” Claude recordava-se de tudo perfeitamente. Meu marido não morreu. que inspirou uma peça tão delicada. Eu fiquei encarregado de montá-lo. “Um relógio. Quando realizava os serviços externos no dia anterior. sem problema.

” “Mas você é jovem demais para fazer conferências. madame. assim que o mestre retornar.“Que pena. Farei uma conferência e uma demonstração de meu trabalho sobre mecânica dos sons. . deve comparecer ao próximo salão do senhor Livre.” “Já tenho quinze anos. e vendo nele um certo charme rústico. madame Hugon disse: “Avise a data da conferência.” “Se realmente deseja isso. Gostaria de conhecer suas habilidades. Farei o possível para comparecer”.” Cativada pelos modos do aprendiz.

enquanto degustava o purê de alho-poró. “Você se limitará às pérolas. Os negócios não trouxeram grandes lucros. Tinham muito o que conversar. Etiennette mostrou orgulhosa os aumentos nas vendas e aluguéis. A viagem não havia sido um sucesso. As conversas durante a viagem de coche de Montserrat a Paris foram dominadas por um jovial e impertinente mercador de porcos milionário. As inovações se destacavam na loja. esperando pelo retorno de Livre. que dobrado passava quase despercebido. Longe de ter sido sufocado pelas pérolas. em vez de elogiar.30 Livre voltou para a sua livraria um mês depois da partida. E fez isso. irado. Os degraus se fechavam contra a base centralizada. Uma fina camada de poeira cobria a era de César. Ele mostrou o equipamento. Livre ficou furioso. Livre arrancou a escada da prateleira e gritou sua primeira ordem: “Pegue os Mistérios!”. Livre. o livreiro ficou indignado. abusou do espantador de moscas.” “Esteve com o Abade?” Claude sentiu que a voz tremia ao perguntar por seu . Mas. que o enfureceu mais. O livreiro esforçou-se. O mal-estar de Livre aumentara devido à animação dos turistas nas fontes. para deixar Claude em um estado de agitação total. Na verdade. com uma aparência mais adequada”. “O que é isso?” “Uma escada de biblioteca em mogno. Havia até indícios de que permitira a influência de sua im aginação na Globo. respondeu Claude. o aprendiz desempenhara admiravelmente suas tarefas. ao encontrar Claude contente. aparecia numa estante na frente da loja. Mas esquecera o terceiro e o quarto volume da História do Império Romano de Gloriot. foi a ilustração da “Tortura da invenção”.” Livre quebrou os quatro braços do aparelho para escrita nos joelhos. e um exemplar de Catulo. Agora que Livre voltara a Bibliopola. Como considerava o prazer do mundo algo arbitrário. O pigarro catarrento familiar soou novamente na Globo. pelas mudanças que fez em minha loja. que superou o livreiro com suas anedotas profissionais. Novas investigações mostraram que os antípodas do globo terrestre estav am ligeiramente sujos. Embora medianamente irritado com a cena do sistema de esgoto apoiado na bomba de lavagem intestinal. encontrou mais do que indícios. Ele tartamudeou: “Deveria ser condenado à prisão naquele inferno. descontava sua frustração em Claude. “Um simples pantógrafo. portanto. na Coleção da Cortina. Depois consultou os livros de contabilidade. Os tratamentos hidrodinâmicos em Montserrat fracassaram. Não pretendo permitir que você acabe como seu conde de Tournay. Enquanto o aprendiz esvaziava o recipiente. Livre inspecionou o recinto. “Em nome de Deus! As vitrines! O que fez com elas?” Livre não aprovou a decoração concebida por Claude. a alegria alheia sempre azedava seu humor. Naquela noite Livre insistiu para que Claude ficasse até mais tarde e jantasse com ele. o mundo despótico das engrenagens e roldanas. Devo castigá-lo por cada uma de suas idéias inconseqüentes”. “E o que é isso?” Claude explicou. Evita a cópia desnecessária de um livro para outro. Claude espanara e lustrara tudo furiosamente.

Ela pretende se tornai uma das melhores clientes da Globo. “Ele falou de mim?” “Por que deveria falar de você} Tem outros problemas. Os Frères Jacques entraram em seguida. Usava um vestido de seda com dobras formando a gola e. traía antigas e recentes rivalidades. silenciosa.” (Pedira o dobro do que tinha direito.” Livre sorriu. e explicou que o cancelamento seria difícil.” Isso acalmou ligeiramente Livre. um alemão que possuía um museu de cera de sucesso. Em circunstâncias normais. ficou sentada nos fundos. Curtius encomendava detalhes de suas cenas para o veneziano. aumentando sua beleza. Fui tolo em encorajá-lo. no último aluguel. Finalmente madame Hugon chegou. “Situação desesperadora. Sufocou sua raiva. fazendo contas. mas controlou sua ira. Um pequeno Fragonard. “Ele fez isso para aumentar a receita da loja. As apresentações foram feitas. Os caracóis louros da peruca estavam penteados com competência profissional. “Sim. disse o conde de Corbreuil. uma vez que ela acenava com compromissos financeiros intensificados. sentia-se à vontade fazendo . Processos por todos os lados. uma faixa azul-clara. Concordou em comparecer ao salão porque esperava que o aprendiz mostrasse habilidades passíveis de aproveitamento. Pode esquecer. plena de demonstrações de bonomia.antigo professor. Ela disse que era uma recompensa pelos esforços de Claude. Os irmãos colaboravam com Livre.” Plumeaux foi o primeiro a chegar para a tão aguardada conferência. “Age expressamente contra as instruções das pérolas ao fazer tais convites. A conversa. a conferência será realizada.” Embora temeroso de que suas predileções se tornassem conhecidas entre os amigos da nobreza. o informante do tenente da polícia e um advogado que ajudava Livre com as autoridades fechavam a roda de gente maçante tomando bebidas de segunda e discutindo novidades de terceira mão. Livre odiava atrasos. Precisamos nos dedicar a questões mais importantes. Abandone o que andou preparando. Com que direito tomou tantas liberdades?” Etiennette tentou defender Claude.” “Conferência de quarta-feira? Ah.) Claude não conseguiu controlar a curiosidade. porém rico. Ela foi observada com mais interesse quando os outros perceberam que se tratava da única mulher presente. famoso por possuir um dos maiores depósitos de mercúrio de Paris. se ela pretende vir ao salão. e no outro um aristocrata menor. O conde de Corbreuil era um pesquisador ávido. “Serviu de agente para um relógio encomendado no estrangeiro. “Muito bem. atada como uma fita numa caixa de presente. em torno da cintura. Parte de minha conferência na quartafeira incluirá pesquisas que fizemos juntos.) Madame Hugon levava num braço a bolsa. monsieur. Terei sorte se conseguir um quarto do que pedi. claro. caso não se recorde. “O senhor Livre e eu já nos encontramos antes”. Ela o escolhera pensando em Claude.” “Andei pensando nele recentemente. oculta atrás de uma parede falsa. acompanhado de sieur Curtius. mas o protocolo — uma pérola tratava do caso — o forçava a evitar escândalos. Livre explodiu. Livre teria proibido a entrada do evisceracionista malcheiroso e seu amigo. (Etiennette não contava. Madame Hugon pagou por dois dias extras. pois convidara madame Hugon.” Claude ficou desolado. embora preguiçoso. Sua elegância reduziu a fúria do livreiro. Três picaretas atrás de bebidas grátis (mesmo adulteradas). Piero entrou em seguida. vendendo os serviços de uma pequena impressora. Também adorava cães.

e uma cafetina conhecida como Tempérance. este era o assunto. “Pensei. um par de óculos caiu do nariz de um impressor sonolento. “Você também?”. Foi o que madame Hugon informou. Madame Hugon brincava com um cacho da peruca. um arquivo contendo. então?” Livre forçou um sorriso e declarou: “Todos gostarão de saber. Ela carregava. pensando. O livreiro escarrou no lenço. Madame Hugon olhou para o jovem aprendiz. Dizem que pode dar nós de marinheiro com a língua exímia. Depois de contar a história de um clérigo chamado Du Sin. Eu pretendo mostrar mais do que coincidências. caldeu. “Quem vai falar. mergulhou nos exemplos da medicina. Livre não perdeu tempo.” “Outra época. Trata-se de um assunto do meu interesse. e começou a falar: “Queridos convidados. meu jovem aprendiz. “Ao que parece meu marido também encomendou um relógio a ele. para o conde de Corbreuil”. A platéia acomodou-se nas cadeiras de mogno monogramadas.” Plumeaux comentou alto que o nome deveria ter sido dado depois que as habilidades de La Langue foram descobertas. mas Livre recusou-se a debater. pouco importava. Piero e Plumeaux reclamaram. que se cravaram em Livre. que o assunto esta noite seria o trabalho deste jovem na mecânica dos sons. “Page não mexe mais com estas coisas.” “Sim. monsieur. Um dos jornalistas picaretas brincava com o cordão gasto da calça. segundo Livre. desde que sua lista fosse aumentada.” Livre balançou a cabeça. e olhe lá. à Ia Frago. Livre seguiu em frente. grego. é de que nossos nomes refletem diretamente o que somos e o que fazemos”. Não fará a conferência que esperava. a sentar-se entre meus convidados de honra. contudo. . Mas o material mostrou-se totalmente inadequado. Um queixo duplo desabou. o especialista em sífilis. com as duas mãos. Ele iniciou uma listagem que embasava sua ridícula teoria. Sobrinha na farra com cão. E assim por diante. mas seus protestos foram ignorados. que a conferência será dada por mim ”. “Page não fará a apresentação desta noite. lançava mão de outro. A tese.” O conde de Corbreuil ficou confuso. tenho certeza. E creio que o aprendiz de monsieur Livre era o relojoeiro. madame Hugon falou. A notícia atingiu Claude com mais força que qualquer sarrafada.” Todos os olhos fixaram-se no aprendiz. Quando um idioma o deixava na mão. “Isso mesmo. dedos tamborilaram. chamadas Honorine e Purité. mas não disse nada. outro local”. a discussão desta noite se intitula “O nome como natureza”. Claude tinha suas próprias dúvidas. Smellie na obstetrícia e Battie na insanidade.” Madame Hugon quebrou o silêncio. de prata. Está convidado. como logo descobrirão. o advogado batia os pés num ritmo conhecido apenas por ele. disse Livre. Claude recordou-se do registro no rolo H: “Uma caixa. a irmã mais velha. “Também temos La Langue. citando Cockburn. colocada em termos simples. até que o tédio dos convidados foi demonstrado abertamente. enquanto Livre reunia o grupo. Citou os nomes de duas prostitutas. um truque de libidinagem náutica disponível para os marinheiros que a visitam em busca de habilidades correlatas. “nada menos do que 9464 registros provando o que Camden chama de Necessidade Inevitável da Natureza”. Só quando chegou à parte das artes das meretrizes despertou algum interesse. norueguês. afinal.tais revelações no salão de Lucien Livre. exceto os do próprio aprendiz. Era o sinal para a entrada de Etiennette. chamava-se Fidélité. Latim.

a palestra não se realizou. Metade de meu aprendiz se inclina para o bizarro.” “Mas claro. e puxou Livre de lado. Livre ergueu a mão para acentuar o caso. como se viu. “Nunca alguém se mostrou tão adequado a seu trabalho”. “Tem assuntos mais importantes para cuidar. Uma cliente deseja ser servida. mas sua outra metade pode salvá-lo. Durante a ausência do mestre.” .” O Flegmagogo escarrou. Aplausos generosos seguiram-se. Podemos chegar a um acordo? Posso contar com seu aprendiz para escolher minhas leituras? Posso pagar uma taxa extra. aqui presente. disse o conferencista. “Sem dúvida um mágico em seu ramo”. Madame Hugon esperou até que os outros convidados saíssem. Muito tempo. O Maldito livro da coincidência entre nomes terminou apenas quando Livre chegou ao caso de seu aprendiz. O aristocrata. quanto ainda demoraria a tal lista. com sua lamentável deficiência”. Antes de sair. com escolta e bolsa. “Monsieur. madame. Gostaria de estimular esta atenção. e não atividades mecânicas. Claude Page. “Não estou me referindo simplesmente ao significado de seu sobrenome. mas. disse Livre. tem um aprendiz com dons muito raros. comentou que o melhor relo-joeiro de Londres era um sujeito chamado Merlin. que seu destino é esta loja. Esta teria sido a transição perfeita para a palestra de Claude. do imperador Claudius ao famoso arquiidiota Cláudio. o que é uma livraria sem Pages?” O discurso estava encerrado. evitando falsos elogios. despedindo-se do amigo. Claude. Peço que levem em conta também a Necessidade Inevitável de seu nome. Esqueça-se de qualquer palestra que tenha desejado fazer. “segue a grande tradição dos aleijados. Preciso de livros da Coleção da Cortina. de uma vez por todas.” Ela saiu como entrou. mas Claude recusou. “Espero que tenha entendido. ele foi muito atencioso comigo. claro. Livre voltou-se para Claude.como todos. Plumeaux convidou Claude a unir-se a ele para um mergulho na noite. Como costumo dizer.

O livro era maçante e menos explícito do que outros previamente alugados. no período da tarde. “mas as expectativas da heroína não se realizaram. afirmou que Mirabeau não escrevera a obra a ele atribuída. Nervoso. já caros em função da natureza escandalosa do material.” . Entregou o Pornodidasculus de Are-tino. após receber o castigo do livreiro. escolheu histórias mais diretas e escabrosas. sempre às sextas-feiras. entregou mais um romance picante. Claude. No terceiro encontro. E não revelava mais nada. A diferença de classe social o petrificava. ou O processo em Paris contra o xev. Passou depois para as narrativas eclesiásticas mais depravadas: Maria na clausura.” Claude não soube como interpretar o comentário. Anatomia de um convento francês e duas novelas impressas por particulares. depois de arrancar uma gravura. “Nunca apresente uma obra que possam considerar ousada demais. contado pelo próprio. Claude selecionava o livro. A cliente nunca explicou seu interesse pela pornografia. “Talvez este seja do seu agrado”. Claude fantasiava a origem de tanta insatisfação. “Uma pena”. as artes do amor e o esporte da caça. Claude escolhia cautelosamente. Empregou as artes venéreas e venárias. e mais nada. inseguro de sua posição. e a Errotika Biblion de Mirabeau. Livre. Madame Hugon não se satisfez com a lascívia literária. Silenciosamente.” Por sugestão de Livre. e a discrição que considerava decorrente. mas explicações não condicionavam o aluguel. autorizava Claude a selecionar o material a ser levado para madame Hugon no dia seguinte. Nenhum flagelo in-folio o aproximaria da mulher que tanto o excitava. Os amores de Zeo Kinizal. mas a confiara a um de seus redatores. madame Hugon revelou sua impaciência com as histórias de amor não correspondido. Descrevia alguns beijos roubados e um abraço debaixo da escada. Quando Claude recitava o famoso diálogo entre Tullia e Octavia e passagens de Um caso de sedução. Quando Claude polidamente se interessava. e o clássico recentemente reeditado por Livre na gráfica clandestina dos Frères Jacques. foi obrigado a voltar à residência de madame Hugon para resolver o problema. Primeiro pediu que Claude lesse em voz alta trechos dos livros alugados. e madame Hugon decidiu revelar suas intenções. sua voz tremia. Mesmo assim. faltava a Claude a coragem para morder a isca. Claude teve de se contentar com o comentário malicioso de Livre em Tournay: madame Hugon não satisfazia suas necessidades conjugais. “Madame. esperando que a interação verbal despertasse seu desejo. que Livre oferecia apenas a seus melhores e mais discretos clientes. disse a cliente quando devolveu o livro no encontro seguinte. A abadessa fogosa. está faltando uma ilustração no último livro alugado. ou seja. levando a cliente dos relatos bucólicos para visões do traseiro do padre. Livre recebia o triplo do cobrado normalmente pelos livros alugados na Globo. Três meses de empréstimos. disse Claude ao entregar o livro a madame Hugon. Claude embrulhou O caso da filha do peruqueiro. No encontro seguinte. abade des Rues pela violação de cento e trinta e três virgens. Por seus serviços. Ela estabeleceu condições claras para a transação. às quintas. ela respondia que seu casamento exigia tais leituras. rei de Cofirons. Livre. ela devolveu um volume ilustrado. “Não pode trazer algo mais direto? Não pode fazer mais nada para satisfazer meus desejos?” O duplo sentido desarvorou Claude.31 Madame Hugon alugava uma obra da Coleção da Cortina por semana. mas se recusava a tomar uma atitude. e o levava a sua residência. A escola de Vênus. Madame Hugon foi obrigada a redobrar seus esforços. As pérolas existiam para tanto.

as mãos da senhora e do aprendiz tocaram -se pela primeira vez. “Sim. a flor favorita da dama. meu amigo. Claude olhava para o Pequeno Retrato pendurado ao lado da cama. disse Piero. Claude mostrou as marcas que indicavam a remoção. E já faz tanto tempo. e desculpou-se. que trouxe um vaso de caras violetas. nem explicou o desaparecimento. enquanto escrevia uma carta ao livreiro autorizando-o a incluir na conta do aluguel o custo do volume danificado. certamente. Durante a entrega da carta. mas a obsessão genital de Jóias indiscretas. “A cavalgue?”..” O cocheiro não aceitou a desculpa. se comparado aos abraços ardentes das obras lidas em voz alta. Claude ouviu o som de uma bofetada. e.. sugeriu o cocheiro. reagiu interrogando-o. como Claude estava longe da Globo. lendo Diderot — não a Encyclopédie. Claude descreveu o gesto para os amigos.. e sim ao ruído provocado por duas mãos. madame. “Lembre-se de segurar as rédeas com firmeza. disse o jornalista. em que a princesa se envolve numa relação adúltera com um pajem da corte. O som não correspondia ao choque da mão contra o rosto. implacáveis. guardara no bolso as luvas que.” Ele estalou um chicote imaginário. deveria usar. “A encha de alegria?”. perguntou o cocheiro. Não sabia se estava bancando o casto. me conte. Revelou suas esperanças e suas dúvidas. baseado apenas num toque sutil e rápido. se bem me recordo.” Madame Hugon chamou a criada.“E qual seria?” Ela não pareceu surpresa.” “Vou investigar o caso”.?” Claude não teve a chance de terminar a frase. por ordem de Livre. usando anágua. Madame Hugon retornou para a sala. o momento serviu para confirmar o que havia muito estava implícito. Claude notou. Embora tímido.. Ela refez a pergunta: “Como a ilustração foi removida?”. “Mas como posso afirmar. “O quê?” Claude gaguejou. “Trata-se da gravura. Plumeaux. que eu. você é covarde.” “E que condição seria essa?”. que madame Hugon segurava a sua mão. Fechou os olhos e adicionou .” Claude começou a transpirar... “Não é disso que tem medo. seguido de um choro exagerado. ou se o era mesmo.” “Usando anágua?” Madame Hugon ergueu seu vestido. enquanto saboreavam uma cabeça de porco com aspargos. A cliente perguntou: “Como foi feito?”.” Claude voltou para seu sótão inquieto. “Fala-se de sua incapacidade de consumar o casamento. “Foi cortada. Entregou a nota a Claude. Antes de mais nada. Pediu a Claude que esperasse. e ficou acordado até tarde. pois seus amigos a completaram zombeteiros. tirara as luvas. As duas mulheres retiraram-se para um quarto adjacente. “Acha mesmo que ela é uma virgem casada?” “Não sei mais nada além dos boatos que ouvi quando recebi a encomenda. “Temo que meu desejo ponha em perigo sua condição delicada. Percebeu que o castigo era simulado. Com o livro numa das mãos e outra coisa na outra. havia muito abandonada. como jornalista.” E arrotou audivelmente. Como ela estava dentro de casa. “Se ouvir mais alguma coisa. que ela deseja que eu.

mas não importa. Conseqüência do empirismo reinante na mansão do Abade. Eu trouxe o meu exemplar. Claude dormia mal e ia trabalhar exausto. Era um tratado médico detalhado. e a usou para fazer o ataque final. ou.ao retrato um corpo digno de uma Vênus. na metade do capítulo das . letargia. disse. “O estágio inicial da doença”. excitada. Anda muito pálido. que nem seu fígado nem os rins estavam superaquecidos — sinais da degeneração terciária. Se a personagem balbuciava. felizmente. Começou a chegar atrasado na loja. “não está aqui. Claude leu a segunda passagem sublinhada. Assim. Aparenta cansaço e desânimo. Com o livro apoiado nos joelhos erguidos — uma posição que assumia freqüentemente — Claude inspecionou a capa do volume. Claude não se perturbava com os medos e hesitações diurnos. O que queria dizer ao afirmar que o livro fora útil no passado? A dúvida inicial sobre a manipulação priv ada foi respondida quando Claude leu a primeira passagem sublinhada. implorando que a satisfizesse. adepto da inoculação e da ginástica. ele entregou o livro envergonhado e mudo. Creio que chegou a minha hora de recomendar um livro. não sofria dos sintomas do segundo estágio do onanismo. quase obsessivo. Onania alertava para os perigos da masturbação. e chamava seu amante para um banho no regato gelado. concluiu. Ela percorria os corredores intermináveis de um palácio desconhecido. Estava nua. Madame Hugon também notou a palidez do aprendiz. e devolva na semana que vem. “pode ocasionar palidez doentia. um eminente doutor francês. Livre aceitou a negligência. pois enriquecia com ela.” Claude não soube o que responder. “Não”. Depois surgia amarrada. Claude testava a ação em si. apesar de ter atingido o prim eiro estágio. Sublinhei os trechos importantes. “o pecado hediondo da autodegradação voluntária”. lecionava na Sorbonne. assustado. no capítulo dos sintomas. Claude inspecionou seu corpo. Ficou ainda mais espantado com a declaração que acompanhara o livro. ressaltou o autor. enquanto lia. gangrena ou gonorréia na forma simples. Mas. Ela prosseguiu: “Eu me preocupo com você. O autor. quando chegou a sexta-feira seguinte. “Talvez você esteja se esforçando demais para me satisfazer. ardência ao urinar e crescimento facial acelerado”. como a cliente descobrira as práticas solitárias que inspirava. Não conseguiu agir conforme seus impulsos. da cor de Galuchat mofado com filetes de marroquina vermelho.” O título do livro cedido por madame Hugon inspirava-se em uma personagem famosa da Bíblia. uma obra pouco lida por Claude. Aliviou-se ao perceber que não corria o risco da exaustão. As cenas se alteravam continuamente. Se a personagem de uma novela assumia alguma posição improvável. Vamos ver”. Tinha os olhos avermelhados. Nestas relações imaginárias. Claude lia alto o quarto volume dos Prazeres de um velho safado. praguejando por ter adquirido os piores hábitos da profissão que adotara.” Uma descrição compatível. “Leia com atenção. com palidez e torpor. Ele imaginou madame Hugon movendo-se frenética. e concluiu que. Exames posteriores revelaram. O capítulo dizia também: “Os estágios avançados de degeneração caracterizam-se por pústulas e tumores. quando ela interrompeu seu monólogo. testou a qualidade do papel e da encadernação. Madame Hugon passou o dedo indicador pelas lombadas da seção Medicina. Claude tentou imaginar. Iniciou o assédio durante uma visita à Coleção da Cortina. tradutor de Haller. como anunciava o subtítulo do tratado. Claude sempre tentava corroborar o que lia.” E tirou um livro da bolsa. “Já foi útil no passado. ele balbuciava também. A cliente e o aprendiz estavam parados perto da seção Aristocracia. com sua situação.” Ela piscou para Claude. torpor e sonolência da mente. como a mulher na lanterna mágica do Abade. mascarada.

Claude encontrou a última e mais significativa passagem sublinhada. Até seus pés soltavam uma secreção leitosa. Ao método de “execução” (termo utilizado pelo autor). Quase no final do livro. O capítulo seguinte tratava das curas.causas. e as palavras o excitaram tanto que realizou o tal ato de autodegradação estudado e condenado pelo livro. O livro repousava sobre seu peito. segurava os testículos com uma das mãos e o pescoço com a outra. . a única forma de cura para o vício do onanismo é o calor do corpo de uma mulher carinhosa”. inclusive a venerada Seltzer de Livre. e o Pequeno Retrato o observava. Claude. recomendava a aplicação de “óleos e águas calmantes”. Qual era a frase sublinhada que tanto excitou Claude? A seguinte: “Em alguns casos. Em vez disso. seguia-se uma descrição da morte do paciente. no estudo do caso de sieur L. que teria efeito salutar no órgão em questão. nariz e ânus do paciente. Leu o texto repetidamente. D******* — um relojoeiro! — que se tocava todas as noites. ao adormecer. Líquidos jorravam dos ouvidos. pendurado na parede. anéis para pênis e capas de metal cobertas de couro eram ingenuidades vitorianas. O autor não prescrevia o uso de aparelhos mecânicos para impedir o fluxo do líquido seminal.

“Corre o risco do suicídio. o barbeiro atacou o rosto de Claude com sabão especial e uma navalha em aço forjado. ou talvez um chapéu. Ao entrar na casa de madame Hugon. mas ele estava sozinho. mais do que ele — o conduziu para uma sala de estar atrás da biblioteca. e a substituiu por uma quase nova. sem incidentes. O convidado nervoso passou algum tempo inspecionando o aposento. e Claude logo ficou livre para visitar sua cliente. atrás de sinais masculinos — uma bengala. de colarinho tão gasto como uma moeda velha. e seu rosto cheirava a lavanda. Assim. e tão preocupado com o encontro iminente que não protestou. Em meio à seda esvoaçante e sorrisos radiantes. estava Claude na tarde de sua sedução. O entusiasmo de madame Hugon diminuiu quando deparou com a transformação de Claude. No dia fatídico Claude tinha apenas uma entrega a fazer. A barbearia diferia de sua equivalente em Tournay. “Por que esconde seu charme rural usando roupas tão horríveis?” O suor nervoso superou o perfume barato do barbeiro. “Sim. Depois de perguntar se ele tinha quistos sebáceos ou sarna. lavada com água de Javel e passada a ferro por Marguerite. Se continuar. sem a marca do duplo P característica do monopólio de Perreaux. Pechinchou até conseguir um bom desconto. A técnica infelizmente não fazia jus aos apetrechos. dando o toque final nos preparativos. Lavou-se na casa de banhos local e catou seus piolhos. Claude pediu e recebeu o dinheiro para a passagem de coche. Leu as passagens com atenção?”. Numa travessa da place Maubert descobriu um veículo ilegal. usava camisa passada e peruca emprestada. antes de passar na casa de madame Hugon. pois. Recusou as loções oferecidas pelo barbeiro. Pediu o estilete de Etiennette emprestado para limpar a camada de sujeira sob as unhas.32 Pelo resto da semana Claude preocupou-se com a aparência como nunca se preocupara antes. Com o dinheiro economizado na passagem.” “E o que acha das conclusões do doutor?” “Creio que corro o risco de arruinar minha saúde.” . e uma prova mais duradoura do encontro bem debaixo do queixo. Não precisava fazer a barba — seu rosto era macio como camurça —. O estabelecimento metropolitano tampouco oferecia os serviços de capação de porcos e cabras. parou no barbeiro. a ama-de-leite. cuja androginia dava o contraponto perfeito para o comportamento delicado de madame Hugon.” “Isso é verdade. Se o cocheiro estivesse presente. Não havia placa oferecendo “Barba por um Sou. se meu vício solitário não for curado. Claude não precisaria pagar pelo serviço. Mas o único elemenfo não feminino na sala era a doméstica intrometida. Sangria por Dois”. no estilo de Sheffield. li. coisas piores serão postas para fora. Plumeaux brincou: “Você prova que a paixão é maravilhosamente higiênica”. Pôs de lado a camisa velha.” Claude não soube dizer se a ambigüidade era intencional. Mantinha junto ao peito o tratado sobre onanismo. mas aceitou uma aplicação de óleo perfumado. segundo ele. o comportamento delicado entrou. e Claude saiu com dois ou três pequenos cortes no pescoço. Um vendedor de livros populares de um bairro distante encomendou duas dúzias de exemplares dos Prazeres de um velho safado. mas entrou assim mesmo. A empregada — Claude notou que ela precisava fazer a barba. A negociação com o livreiro foi rápida. Ela disse: “Vejo que trouxe o livro.

ela sussurrou: “Continue se entregando a mim. O termo clínico do eminente doutor teria sido “estímulo do líquido testicular”. O modo de chamar Claude mostrava a natureza da atração de madame Hugon. Posso adiantar que meu interesse vem de uma tentativa fracassada para consumar o sacramento do casamento. leitura ou visita ao liceu para uma conferência sobre assuntos familiares a ele. A manipulação e a excitação da espinha não pararam naquele momento. Posso ver por sua expressão que imagina o motivo para eu ter entrado em contato com este especialista. mas errou. devo admitir “certos sentimentos pecaminosos”. fosse ópera.“Seria uma forma agradável de morrer”.” “Falou educadamente. ela o abraçou e disse: “Você é a única confirmação que eu preciso”. Afinal de contas.” “Soube apenas que havia um problema. Madame Hugon dispensou a empregada. “A irreverência só criará mais problemas. posso jurar. Nada mais interessa”. nas mãos de um charlatão recentemente instalado. Ela riu. é por isso que está aqui. “Tire esta peruca ridícula e sente-se aqui. Claude. Isso não incomodou Livre. e trancou a porta.”. As mãos de madame Hugon fizeram a massagem. tinha algum tempo livre. meu pequeno camponês. Claude tentou discutir seu trabalho com a amante. Talvez tenha ouvido algo a respeito. Claude disse atrevido. Posso garantir. nem pararam nisso. Ele não mora aqui. e pagar o tratamento gástrico exorbitante de Livre. com a esposa de seu marido. permitindo até que o aprendiz lesse e fizesse pesquisas durante seu mês de liberdade.. adepto da couve-de-bruxelas. Deve interromper suas atividades solitárias antes que faça mais mal a si mesmo. Claude deveria estar disponível para “leituras” durante toda a semana. até que estava passando mais tempo fora da Globo do que dentro. mas. Sua compensação dava e sobrava para contratar serviços temporários na place de Greve. Claude olhou para os outros produtos do gabinete. Qualquer restrição era afastada pela disposição de madame Hugon em pagar generosamente pelos serviços generosos do aprendiz simpático. contudo. para confirmar seu amor. O restante aconteceu em silêncio. Leite de jumenta era o mais notável. Os problemas de nosso casamento serão discutidos nos tribunais. Andou até um pequeno gabinete de teca. “ Claude resmungou: “Seu marido. “Devo admitir — qual foi mesmo a frase que leu na semana passada? Ah. sempre o alertava contra . deveria trabalhar na livraria. Quando chegou ao destino. abriu as pequenas portas e tirou ama garrafa. Daquela sexta-feira em diante. o Pequeno Retrato caiu do bolso dele. dizendo: “Eu teria chegado aí bem antes.. Quando ele disse que gostaria de executar a encomenda feita à mansão. A duração e a freqüência das visitas ao Hotel Hugon aumentaram. Quer ser ajudado?” Claude fez que sim. Ela pegou Claude inteiro. era só pedir”.” Claude sentou-se. “Conheço bem o autor do livro que recomendei.. mas ela só se mostrava interessada em outras expressões do talento manual. O livreiro guardou o espantador de moscas. enquanto madame Hugon aplicava um remédio cremoso na palma da mão. Quando não se ocupava disso. Ela queria que Claude mantivesse o que considerava pureza rural. Ao observar silenciosamente enquanto Claude devorava uma torta de creme. sim. pensou em formigas subindo por sua espinha.. Quando desfilava com o rapaz pelos diversos eventos culturais. “Não precisa se preocupar com o meu marido.” Madame Hugon aproximou-se do gabinete. em função da rentabilidade do acordo. madame Hugon pegou mais do que livros na Globo. Eu posso ajudar.” Ela encarou Claude ansiosa. Madame Hugon enfiou habilmente as mãos dentro da calça de Claude.

com uma restrição apenas: madame Hugon nunca tirava a roupa. digna da Prisão da imaginação. mas ela riu da idéia. Madame Hugon mostrava especial predileção pelos tafetás e dourados do café. Embora Claude não achasse o lugar desagradável. Sentada na frente de uma pilastra revestida de espelhos decorados. devido aos gastos com o processo. ela recusou o presente. Além disso. e madame Helvétius. A cliente e o aprendiz em pouco tempo esgotaram os temas de conversação. gritando apelidos carinhosos nos momentos anteriores ao êxtase. com suas mesas de mármore cobertas de pratinhos com pães e tortas em miniatura. Costumava tocá-la quando se sentia especialmente amorosa.” . Quando não estava tocando a sineta. Ela se recusava a ouvir seus projetos em mecânica. A presença de espelhos por toda a parte permitia que explorasse discretamente o ambiente. A rejeição de seus interesses sempre era compensada por uma generosidade que parecia calculada para controlá-lo. cidade onde nascera e de onde jamais saíra. além de bules com café e leite e arranjos de bombons. “Prefiro eventos. o primeiro encontro na livraria. Tentou mais tarde apresentá-la aos amigos artesãos. Bem. Olhando pela abertura. Só depois de muitas discussões aceitou uma pequena sineta de latão. tão diferentes de Paris. suas reações às reações deles. é verdade. estava apaixonado. Ourika. a maneira como os outros fregueses reagiam a Claude e. (Claude às vezes relatava os detalhes mais pitorescos da vida sexual de Tournay. mas concordava. o casal passeava entre os jogadores de xadrez do Café de Valois e os alemães que discursavam no Café de Chartres. enviada pelo cavaleiro de Boufflers. como esperado. de um vasto e versátil vocabulário sexual. equipada com aparelhos mecânicos. Não se animou a visitar a gruta da mansarda. Minutos depois. para deixá-lo contente. Alexandra — agora era apenas Alexandra — não compreendia a excitação de Claude. A não ser por isso. divertia-se com uma ninhada de angorás em Auteuil. Claude tinha dificuldade em aceitar isso. Ele tentava retribuir. Ele fez um esboço do Mécanique e sua decoração despojada. Claude era o possível. onde comprava lembranças para o rapaz. Mais de uma vez insistiu em reproduzir os atos sexuais dos desafortunados Golay. Compensav a sua ociosidade urbana mostrando uma forte atração pelas fantasias rurais. ela era desinibida. podia observar os outros fregueses. curiosa e fogosa. e se sentia em débito. garotas de cabelos curtos e gatos de pêlo longo eram caros demais para madame Hugon. melhor ainda. com a bebida solicitada. mas. ou. as qualidades rústicas que evocavam vilarejos pequenos e distantes. Ofereceu o esboço à amante. sentia-se mais à vontade na adega barulhenta do vizinho Café du Caveau. Ela riu e prendeu a sineta no pescoço. no extraordinário Café Mécanique. Depois costumavam se acomodar nas cadeiras macias do Café de Fòy. o aprendiz era capaz de lhe dar prazeres inacessíveis para as donas dos gatos e da negra.) Depois disso levava Claude para um passeio pelas arcadas do Palais-Royal. Sua amiga madame de Beauvau tinha uma negra. Ainda assim. mas se recusava a fornecer os recursos que permitiriam construir mecanismos ou comprar roupas menos rústicas. recém-chegada do Senegal. os dois encenavam os exercícios dos textos lidos antes. Claude notou que a base da mesa era oca. um alçapão se abria no meio da mesa e uma bandeja surgia. O par compartilhava. As pessoas sentavam -se e faziam seu pedido à limonadière. a quem não conhecia pessoalmente.conversas intelectualizadas. diziam. ligada a uma cozinha alvoroçada. oferecendo buquês de violetas. e ele se cansou dos truísmos sobre música ou Mesmer. segundo ele. um presente que recordaria. mais importante. Ela gostava de pagar as refeições e doces nos cafés do Palais-Royal. Por trás da porta trancada da residência dos Hugon. Via nos trajes gastos e malajambrados a inocência do campo. mas ela recusava tais gentilezas.

e concentrou-se no acompanhamento. Nada disso diminuiu o tédio. ç a platéia. Dois sons inéditos numa única noite! Para Claude. não interessa. exposições. Viram o Casamento de Fígaro — a peça. Atacaram a peça cuidadosamente. Ele perdeu a concentração e não conseguiu registrar o som. mas surpreendeu-se quando teve finalmente coragem de o fazer. Ignorou a soprano gorda. mas Alexandra nem quis ouvi-lo. Claude procurou um pedaço de papel para fazer uma anotação. parando para molhar a palheta. a voz estava praticamente ausente. sem incidentes. ele observou os músicos e seus instrumentos. no momento. inesquecível e quase humana. pendurado no lustre central. Estou certa de que podemos produzir sons . de volta ao quarto. Eles compareciam a concertos. Era crucial para ele identificar a origem deste som novo e excitante. reagindo favoravelmente ao canto medíocre e competente. e logo procurou uma distração. acompanhando os pingos de cera que caíam na cabeça de um espectador sonolento. não da soprano. Quando chegaram ao rondo final. Ele brincou com a cortina que fechava o camarote compartilhado com a amante. espetáculos teatrais. Para se aproximar mais do palco. lenço e vareta. Olhou os candelabros. Uma nota — não foi bem uma nota — saiu da flauta de um modo tão escandaloso como uma flatulência durante um funeral. Claude ficou entediado. fora você. temendo que outra falsa nota se infiltrasse. Claude fez o contrário. Criou histórias com as pessoas mais destacadas da platéia. o recital foi um sucesso. do que ali. com arranjos espúrios de instrumentos lutando para compensar a falta de voz humana. protestou. Alexandra o impediu. mas Claude se interessava mais pela carreira de Beaumarchais como relojoeiro. os músicos tocaram uma serenata. Durante as semanas seguintes. Estava furioso. “Não é isso que espero de meu pequeno Querubim. O intervalo acabou. tirando o lápis de sua mão. Bizarra. mas de um músico. Percebeu o descontentamento do rapaz e tentou aplacá-lo. Claude tentou explicar a importância dos registros em código. Debruçou-se na direção do poço. “Vamos fazer esta pesquisa num lugar mais discreto.E eventos não faltavam. livres do peso de La Florence. Durante o intervalo. o casal teve sua primeira briga. como se deparassem com um cão raivoso ou um coletor de impostos. Depois do concerto. Na sala de concerto. de forma que o teatro estava lotado quando o casal chegou. no Hotel Hugon.” “Não sou o pequeno Querubim de ninguém”. mergulhou num profundo enlevo ignorante. Os instrumentos musicais lembravam os dutos de destilação no laboratório do Abade. La Florence seguia em frente. trabalhando com seu nome real. Pluffft! Imaginou o arco descrito por seu corpo se pulasse do terceiro andar para o centro do palco. Caron.” Alexandra registrou a exceção feita a ela. em si-bemol. saiu um som que Claude jamais ouvira. o oboé usava pena de pavão. que ainda não chegara a Paris —. A limpeza fazia escorrer alguma saliva da trompa francesa. de Mozart. Os ouvintes balançaram as cabeças e recuaram . agitou a platéia. Pretendia revelar seu descontentamento havia algum tempo. não a ópera. “A pesquisa dos sons é a coisa mais estimulante para mim. mais pelo desprezo por suas idéias do que pelas críticas a seus modos. compareceram ao recital de uma cantora chamada La Florence. o pequeno camponês de Alexandra tornou-se seu Querubim. em allegro molto. A voz da cantora fora muito elogiada por um crítico subornado. empurrando-o para dentro de um Perreaux. O recital começou na hora. alguns meses depois do início do caso. Concluiu que teria se divertido mais passeando nas ruas. apoiou-se na gárgula esculpida em uma pilastra. O resto. cheirando a uma mistura de suor e junquilho produzida por uma performance anterior ao concerto. ouvindo uma harmonie qualquer. No último esforço para molhar a palheta. até que um erro súbito. O casal superava as dificuldades ocasionais até que.

Conversaram carinhosos. “Sinto muito.” Ela tocou duas vezes a pequena sineta no colo. Eles voltaram para o quarto e encenaram — Claude relutante. e. meu menininho. Alexandra ansiosa — o conto da abadessa amorosa. como os movimentos rígidos das figuras nas primeiras pinturas animadas. O ato sexual sempre aclarava os pensamentos de Claude.” Calma. menos a parte em que a abadessa tirava a roupa. mais próximo de meus sonhos. mecanicamente — não no sentido elegante.novos e interessantes. Alexandra aceitou o pedido. em seguida. Tomarei as providências necessárias. Fizeram amor três vezes naquela noite. depois de fazer amor.” . Brigaram muito. Os momentos seguintes lhe davam lucidez e força suficiente para tratar de assuntos geralmente evitados. resmungava os apelidos que tanto incomodavam Claude: “meu pequeno camponês. disse depois de terminar: “Não gosto dos nomes com que me chama”. “Você ainda quer fazer a tal conferência?” Claude fez que sim. Seguiram à risca o enredo. junto a seu mestre. como Claude entendia as máquinas. mas rigidamente. Teria mostrado tudo aquilo que me fascina”. é melhor que me chame de meu mecaniquinho ou algo assim.” “Se precisa usar um diminutivo. sozinhos. suave. meu pequeno Querubim ”. o que Alexandra não aceitou. Claude tentou narrar suas aspirações: “Foi pena não ter feito a conferência. cada vez que Alexandra chegava perto do gozo. “Então fique calmo. Sendo assim.

não poderia ser hostilizada para não perturbar um acordo lucrativo. Fechem os olhos e imaginem o grito das . “Qualquer som?”. Resolveu voltar à parte prática. Em sua introdução fria. e sua meditação sobre o cravo. Já foi péssimo quando enfiaram um garfo no corpo de Jean-Baptiste. Levou a demoiselle de madeira para a sala.” Curtius prosseguiu. consumindo três doses de brandy não diluído. vidros sem rótulo. descrevendo a vulnerabilidade da rainha. mas o rapaz recusou a ajuda. Plumeaux. com a maior boa vontade. mostrou-se chocado e solidário com os problemas do dono do museu. Neste momento. Claude se encontrava na Globo. “está em toda a parte. Agora precisarei contratar um guarda. quando não com respeito”. Na frente instalou o realejo. pode ser produzido de várias maneiras. percebendo que a platéia se mostrava inquieta. e pendurou uma série de panfletos em seus braços. “Os espectadores estão enfurecidos”. não faltou uma alfinetada: “Este jovem está se aventurando em áreas que não domina. que a ligação entre a cliente e o aprendiz. partidário do rei por interesse. fios. Mas o conde tinha suas próprias preocupações. Pela terceira vez. Claude levantou-se e iniciou sua tão ansiada palestra sobre a reprodução mecânica dos sons. naquele mês. preparando a palestra. Claude explicou rapidamente sua teoria acústica peculiar. A caminho da Globo. com líquidos desconhecidos e equipamentos de função obscura. o rico aristocrata vagamente interessado na ciência. “Isso não é um bom presságio para o reino. mas agora!” “A política”. chegou logo depois de sieur Curtius. “O som. O livreiro concluiu.” Depois desta introdução.” O conde. “pela passagem do ar”. O picareta avisou a Claude que faria as perguntas apropriadas nos momentos apropriados. pode ser reproduzido artificialmente. Pela percussão”.” Os convidados levaram algum tempo para registrar as implicações. como sabem. como esperado. disse. Livre reuniu o grupo. Plumeaux emitiu um som alto. como de costume. citando Newton e os suíços Euler e Bernoulli. antes que Livre ordenasse sua diluição com água.33 Pouco esforço e muito dinheiro bastaram para dar a Claude os meios de expressar seu sonho. além de pedaços de vidro. “Todos estes trabalhos apontam em uma direção que comecei a investigar há muito tempo. alugado de um ambulante. notou que um dos cães destruíra a aba de um de seus chapéus favoritos. tratem-no com bondade. •• O conde de Corbreuil. disse Plumeaux. que chegou desacompanhada.” Claude abordou a equação diferencial do movimento. desaprovado pelo anfitrião e pelo conferencista. “Tenho especial interesse pelo trabalho de Bernoulli sobre as consoantes. uma percepção da alma. qualquer som. Duas semanas depois da promessa de Alexandra. barulhento. conde d”Estaing. aproximando-se de Alexandra. Piero entrou atrás de Alexandra. “Seus seios foram atacados duas vezes. Curtius reclamava. chegou antes dos outros convidados. em De motu vibratório e Dissertatio pbysica de sono. “e por outros meios também.” “E o que seria?” Livre interrompeu. Por favor. desafiou Livre. Darei alguns exemplos simples. o alemão dono do museu de cera. “A teoria de que um som. tocou a pequena sineta do pescoço. embora ameaçasse seu domínio sobre Claude. um freguês entrara com um ferro quente. queimando os órgãos genitais de Luís XVI. “Sim. pois a flauta teria exemplificado melhor o caso.

Como eles.” Ele girou os parafusos de madeira de uma prensa manual. A versão clássica pode ser feita com uma lima bastarda passada num pedaço de pinho molhado. A tosse seca do tanoeiro.” Claude reproduziu o grito.” Girou a manivela de marfim do realejo. além de conter uma certa dose de ruídos guturais — todos necessitam aparelhos mais intricados. “Pode imitar um morcego?”. “E quanto a pássaros?” Era a vez de Curtius desafiá-lo. Curtius poderia se interessar. Mas isso é muito rudimentar. “Posso inclusive reproduzir este som. signor Carli-Rubbi”. Pode me emprestar seu relógio?” Curtius concordou. o ruído da lebre no cio. espero que tais exemplos grosseiros possam inspirar contribuições para projetos mais ambiciosos. Claude apontou para Piero. Claude voltou à palestra. Claude reprimiu um sorriso. Conheço artesãos de Genebra que reproduziram fielmente o canto do pintarroxo. Agora ouvirá o bater de asas. um estalar da boca.” “O quê? A tosse?” Livre riu irônico. como Claude imaginou que faria. uma tosse seca e a famosa tosse catarral de Livre. Restava Alexandra.focas no Parque Real. Momentos depois. Piero perguntou. pode repetir o grito da coruja. “O guincho de um rato. paciência e recursos. “Ou o som das abelhas em uma colméia.” Livre tossiu alto. sons mais complexos podem ser reproduzidos.” Claude vibrou uma lâmina metálica e fechou rapidamente a tampa do relógio. “e o pigarro notável de meu mestre. Por isso. emanando das regiões superiores do peito. mais do que teorias e especulações. a tosse arsenical do meu amigo. Outros tipos de tosse são mais capciosos. mas não via como. eu preferiria apresentar provas. um engasgar gutural. . Convencê-lo levaria tempo. eu posso. Não sou exigente.” Exceto por Piero e Plumeaux. “Imagine que está na presença de uma andorinha à procura de insetos. das quais reproduzi nove. se descobrisse um jeito de tirar proveito do inventor. “Não é impossível. esfregando o dedo molhado em um pedaço de vidro tirado da demoiselle. E mais de um tipo. Se a pessoa tiver ouvido. Já registrei cerca de dezesseis tosses distintas.” O conde ficou desapontado. “E o latido de um cão?”.” Ele esfregou uma rolha molhada no vidro. usando apenas peças modificadas de relógios. perguntou o conde. “O gorgolejar de um camelo ao respirar. “Qual deles?” “Qualquer um. o bramido de um bando de veados. conseguiu pressão suficiente em seu aparelho de tossir para emitir um burburejar grave. imitando o som com precisão.” Claude concentrou sua atenção nos líquidos e tubos. Com o auxílio de aparelhos mecânicos. “Vou repetir. “Sem falsa modéstia. a batida da pata do coelho no solo. gritou para Alexandra.” “Muito bem. O alemão balançou a cabeça em sinal de aprovação. “O objetivo desta demonstração é fazer ver que um especialista em mecânica com o ouvido bem treinado pode montar um vasto repertório de sons não musicais. “Sim. culminando com a bicada e a captura da mosca. Fechem os olhos!”. porém não tenho o material necessário aqui. Tampouco o conde tinha inteligência suficiente para compreender as possibilidades futuras. antes de imitar o som do animal do deserto com o uso de garrafas cheias de líquidos. os presentes ao salão riram. Sua reação foi talvez a mais frustrante.

pastéis e esboços a lápis evocando a anomalia auricular da irmã. Cruzou com um jovem padre. respondeu o velho. borrando um auto-retrato. sozinha. “Conserte os tubos e os pedais até amanhã. Baixou a cabeça. “Pelo menos não era um concert de flütes ou um fondd’orgue. numa das alcovas distantes. Ouviu o padre jovem. Claude ajoelhou-se. deixara de acreditar no amante. O último comentário foi feito sem ironia. o rítmico varrer de uma vassoura. Era incapaz de se concentrar nos rituais que aprendera a desprezar. não fosse um encontro subseqüente com um senhor anônimo. Foi buscar consolo na rua. onde espalhou os cadernos pelo chão. Claude deixou a Globo consumido pela angústia. O organista se repetia: “E essencial que o ajuste seja completado até a tarde de amanhã. Ainda estava cansado de bombear. comentou. “Levarei a noite inteira”. se abrigara do calor ali dentro. uma humilhação que Livre adorou. Por que deseja reproduzir sons que já existem na natureza? O canto do pintarroxo não basta. Não fez isso por necessidade de consolo espiritual. foi o que disse a si. Chegou a um canto e olhou pela cortina. o bater das contas. que acendia uma fileira de círios de cinco sous. O velho não pôde deixar de ouvir. Claude parou na igreja de St. Duas velhas. e os ocupantes da igreja logo foram conquistados pela música de uma missa de réquiem. a vassoura. A conferência terminou. ofegante. a mansão. Hesitou ao fazer o sinal-dacruz. e pronto. no mínimo. e o velho finalmente disse: “Será bem-vindo para me . ou. após o fracasso da conferência. Faltava fé a sua musa. mas tenho uma pergunta. Exigem pernas fortes como troncos”. atormentou-se olhando para os desenhos feitos em momentos felizes. Esfregou a coxa. as cartas embaralhadas silenciaram. Pelo menos. “É difícil consertar?”. O suor pegajoso secou em suas costas. por si?” Claude não tinha resposta para esta pergunta. Alexandra saiu como entrou. Estou preparando um improviso”. Jogavam cartas discretamente. Sem ter para onde ir. Por várias horas. *** Depois de limpar os Mistérios. gritou o organista. Quando o concerto improvisado terminou. O organista saiu. Uma gota de suor pingou do rosto de Claude. ajoelhadas. Passou por um padeiro carregando uma cesta de pães. Um pequeno grupo de comerciantes. deixando Claude sozinho com o velho. Nenhuma oferta de apoio foi feita. e um acendedor de lampiões carregando sua vara pela calçada. O raspar da cera. as cartas sendo embaralhadas. que reclamava para o sineiro — um senhor idoso. pois minava diretamente a origem de seu fascínio. humilde. Claude perguntou. Ambos fizeram silêncio.“Não compreendi tudo o que falou. descobrindo que os sons sombrios haviam dado lugar ao lamento do organista. mas para Claude ela era linda — linda. Os outros paroquianos aparentemente concordavam. Refugiouse no sótão. os lamentos resmungados pelas penitentes. Um órgão começou a soprar. Fechou os olhos e escutou. Zombara dele. Seus desenhos mostravam uma vitalidade que o abandonara.-Séverin. o espantalho na beira da estrada. o milagroso relógio do altar. que raspava pingos de vela do piso de pedra. como Claude. Claude poderia ter abandonado completamente a pesquisa. mas porque desejava se refrescar entre as grossas paredes do prédio. rezavam o padre-nosso agarradas a rosários. entendeu?”. Claude subiu até a galeria do órgão para agradecer. O calor do sótão o sufocava. Alexandra poderia ter criticado superficialmente a qualidade da música.

Precisa de uma boa receita. perguntando detalhes sobre a construção do instrumento. e concordaram. a sonoridade do órgão. Órgão e relógio: poderia haver objetos mais complexos? Os dois homens insatisfeitos compararam a elegância de suas respectivas paixões. Como se tratava mais de um pedido do que de uma oferta. Ele citou Euler.”?” Vox Humana”. de um hino celestial de louvor ao Senhor — uma bela epifania para um rapaz nada religioso. Claude retribuiu com comentários sobre as partes mecânicas nas quais se especializava. Claude aceitou. buscando as palavras de estímulo ausentes da conferência. Isso basta. Bernoulli e a equação do movimento. e saía no registro alto de um salmo de graças. explicou o velho. . observou. Quando os defeitos já haviam sido identificados e eliminados. H. O velho. os pedais. o mecanismo de tração e os vários tubos de chumbo. mostrou-lhe o instrumento.fazer companhia. Sabe?. Em matéria de som.” O desafio perturbou Claude. Estaria mais bem acompanhado por um bom jogo de ferramentas. como previra o velho. que os melhores órgãos possuíam a precisão do relógio. “O que significa “V. O velho não se impressionou. conhecer o motivo pelo qual o calor sai de uma torta de maçã quente não o torna um bom cozinheiro. a câmara de vento. Um sorriso satisfeito surgiu no rosto de Claude. O velho falava como o Abade. disse o velho apontando para um dos registros. Claude estava mais decidido do que nunca a construir o aparelho que as pessoas julgavam impossível. Os reparos duraram a noite inteira. ajudou. que o aproximasse mais da ampliação da capacidade humana. não é a equação do movimento. “Esqueça-se destes autores da moda. Ele também não queria ficar sozinho. A companhia logo se transformou em auxílio. Queria fazer algo que intrigasse e seduzisse. que o conduz até a beleza. perguntou. Claude leu as iniciais gravadas na extremidade. e os melhores relógios. Claude ajudou nos testes e ajustes. descrevendo em detalhe os múltiplos foles. O resto do tempo foi dedicado à discussão sobre os registros do órgão. mas a da emoção. e noite adentro Claude escutou. lata e madeira. Claude o interrompia a todo momento. depois de um debate amigável. uma boa mão e um bom forno. “Este era o problema”. contente por ser levado a sério. de uma aleluia inspirada. se isso lhe convém”. Ele entrara na igreja melancólico como um réquiem.

Por intermédio de um parente distante.) Por vezes. O velho ex-clérigo encerrara suas pesquisas totalmente. ao lado de uma bala de mosquete do tamanho de uma ameixa. Mas foi precisamente o que aconteceu com Claude e seus companheiros. o tempo passou. um baço excessivamente ativo era a justificativa mais comum. Claude se deparou com o livro chamado A arte da cistotomia. banqueiros e comerciantes. sobre o qual mantinha um segredo pouco característico. Sem incidentes e eventos destacados. O casal raramente “lia” um para o outro. Num deles. (Seu segredo: usava pimenta esmagada. mais obscura. . mas a amante nem sequer comparecia. incluída depois no cardápio de madame V. Quando Claude perguntava por que o relacionamento mudara tanto. Andando pelo bairro das gráficas. um volume soberbamente encadernado in-fólio. Ocupava-se de seus livros. O único consolo era que ela pagava Livre pontualmente. armava suas pequenas jogadas e preocupava-se com a saúde. Claude quase sentiu pena do homem que um dia amara e depois passara a desprezar. Os encontros no Palais-Royal foram eliminados. Claude sentiu que a conferência a afastara. até que outro livro escandalosamente popular o superou. Piero seguia empalhando. e disse isso. sempre com os desvios gastronômicos. Ele disse a Claude: “Será o primeiro a saber. Ela se recusava a discutir os detalhes. o que ironicamente o mantinha saudável.34 O tempo passou. O tempo também passou para Alexandra. Um novo romance utópico. livres das tensões físicas. mencionava problemas legais. quando estiver pronto”. Com freqüência sonhavam com planos. Alexandra simplesmente oferecia desculpas improváveis. Livre. terminando alguns. chegou a ele quase por acidente. Plumeaux descrevia uma comunidade de hermafroditas igualitários. escrito pelo cirurgião Adolphe Stãmphli. deixou Claude em paz. No livro. usava pimenta-do-reino preta. conseguiu algum sucesso. ela raramente procurava seu “pequeno Querubim ”. Quando as finanças permitiam. tornando-a escandalosamente popular.) A Viúva Vingativa fez outra visita a Tournay. Um crítico deu destaque à obra. e depois preservada no Livro de cozinha burguesa. A frase vaga revolta os relojoeiros. largando a maioria na metade. Bastou folhear o livro para encontrar a verruga do rei Luís de Claude na terceira estampa. Claude soube que Fidélité rompera o noivado com um Rochat. Plumeaux também se ocupava de um projeto. Nunca ninguém disse qua Rochat. conseguiu uma receita de spatchcock. Depois da conferência sobre a reprodução mecânica dos sons.. O parente também informou que o conde de Tournay estava sendo encurralado por advogados. que detestam a imprecisão. O cocheiro continuou a fazer a rota de Lyon a Paris e de Paris a Lyon. de modo que Claude tinha bastante tempo disponível. (Nestes momentos. protegendo o^ vínculos financeiros entre a Globo e madame Hugon. pois satisfaziam-se sem pudor. passado na ilha de Xanas. e seus encontros esporádicos ocorriam em silêncio agressivo. Plumeaux trabalhava em uma dúzia de projetos de uma vez. semanas depois. pior do que os ataques de 41 e 51. Ao preparar um faisão. mas nada comparável aos da década de 80. em vez de grãos inteiros. um conservante famoso entre os ornitologistas ingleses. todos exigindo o pagamento das dívidas. Outra informação. publicava obras de ficção de forma elaborada. extraída de um soldado que lutara nos campos de batalha de Flandres. impresso na Holanda em 1788.

Nos estágios iniciais. Pacientemente. seu coração disparou. Martele o que quiser martelar. Antes de dar início a seu monumento a Alexandra. Com parte do dinheiro ganho de Alexandra ele pagou a refeição.-Antoine e ao cais. Ele determinou um lugar para cada ferramenta e construiu uma bancada de trabalho. Mas logo tais pensamentos foram abandonados. O comerciante contribuiu com observações precisas sobre o comportamento dos passarinhos. Claude anunciou seus planos. Claude era torturado pela precariedade de seus esboços e limitações de seu talento. dizendo: “Eis aqui. ela entregou a Claude uma soma substancial. diversões simples”. que imitava o canto usando uma casca de cebola. Ao entrar. realizava espetáculos públicos com um pássaro mecânico capaz de bater asas. “Eles não dariam nem a receita da peste para você. tordos e paparroxos — além de pintarroxos. o outro manteiga e funcho —. Claude pagou uma soma muito maior do que recebera. de passagem por Paris. Claude imaginou o prazer de refutar seu ceticismo e de recuperar a amante. Assim terei algum tempo para me recuperar”. Recuperar as ferramentas o revigorou. ainda deslumbrados com o varal giratório. Claude aceitou o dinheiro. apagar uma vela e entoar qualquer melodia solicitada pela platéia. A mesa com detalhes em prata se fora. Talvez seja melhor eu só consertar chaleiras.“Ridículo”. mas saiu animadíssimo. convencido de que provaria seus talentos como mecânico e virtudes como homem se construísse os aparelhos que sonhava. “Estas coisas são. Os sons saídos de seu pássaro eram produzidos por um assistente escondido debaixo do palco. só uma pequena parte das mercadorias empenhadas parecia sair da loja. ele se recusou a dá-los. ele disse. O projeto não progrediu com facilidade. contrapinos e martelos com cabo de guáiaco. no máximo. Recebeu também o auxílio de um homem que lidava com pássaros exóticos criados na Alemanha: pintassilgos. . onde o receberam com boa vontade. Em uma festa informal com os amigos. gerando lucro.” Suas dúvidas aumentaram com a resistência. Um estrangeiro. e vendeu dois espécimes menos vistosos a preços reduzidos. a trapaça introduziu Claude no valioso trabalho de Rossignol sobre os cantos dos pássaros. Alexandra falou. e o trabalho prevaleceu. explicou. depois que o cocheiro e Piero discutiram aos berros sobre a preparação adequada da truta — um deles recomendava linho. “Por que eu rejeitaria o que não posso entender?” “Por quê. Mesmo assim. Egoístas. Quando pediram detalhes. então?” Para afastar a acusação. Passou grande parte da manhã seguinte acariciando longamente sargentos e pinças. reuniu os conhecimentos esparsos de fontes mais humildes: ferreiros. Depois dirigiu-se à loja de penhores onde deixara as ferramentas no início de seu aprendizado como livreiro. como se reencontrasse velhos amigos. “Aumentarei minha mansarda”. O deslumbramento inicial transformou-se em indignação quando se descobriu que o grande Giuseppe Pinetti de Wildalle era uma fraude. Na verdade. empoeiradas em seu desespero. riam de quem procurava ajuda mesmo para coisas básicas. compassos e moldes. protegidos pela força dos regulamentos corporativos. Piero consolou o amigo. objetos que Claude guardara na memória. latoeiros. Os mestres relojoeiros e ourives recusaram -se unanimemente a ajudá-lo.” Claude realizou incursões ao faubourg St. A sorte também ajudou no desenvolvimento do projeto. mas as fichas de bordel escurecidas e as armas de mão. As ferramentas não haviam sido vendidas. como um paneleiro velho. continuavam lá. meu pequeno amigo mecânico. “Não revelam a habilidade necessária para reproduzir o canto delicado de um passarinho no ninho. em revelar as técnicas que precisava dominar. encanadores e até mesmo de um aprendiz de trefilador. por parte dos artesãos qualificados. pimenta e alume. Seus vizinhos o encorajavam.

Foi forçado a surrupiar alguns itens de seu empregador — especificamente. Ele agia como o iluminador que. “Acabei de chegar do julgamento. “O tribunal eclesiástico concluiu que monsieur Hugon é culpado de.Obter outros materiais necessários representava um risco maior. Tentou agradecer. enfeitava uma página das Escrituras. Livre do marido. e depois disse claramente: “IMPOTÊNCIA!”. o jornalista parou. havia tempos. algo muito mais interessante. Agora a essência de suas insinuações está clara. no momento ele se encontrava envolvido demais no trabalho para se dar conta das implicações do afastamento. “Ele é um homem de conhecimento”.” “Ela não é minha!” “Logo será. Claude implorou. que ficassem atentos para determinadas sobras metálicas. Claude disse: “Adultério?”.” Plumeaux fez uma pausa dramática. mas ela se recusou a vê-lo. de infidelidade. Eu disse que iria investigar. que recolhiam ferro e latão caído das carroças. Os moradores do prédio arranjavam desculpas para entrar em seu quarto. Claude não teve mais contato com Alexandra. Ela sempre deu indicações cifradas sobre sua situação conjugai.. permitira que ele recuperasse seu talento.” “E o que descobriu exatamente?” “Adivinhe!” Exasperado. Ele suspeitava. Também pediu aos irmãos gêmeos de Marguerite. tinha ido ao médico para se tratar de desequilíbrios elétricos. pois estar com ela era fundamental em sua relação. O picareta estava sem fôlego. e as recolhessem antes que caíssem na rua. . duas bombas de lavagem estomacal enferrujadas. e informar a amante sobre os progressos obtidos. Depois de examinar os progressos.” “Do quê?” Ele repetiu: “Monsieur Hugon é culpado de”. i”p”tência. Eu não precisaria passar tanto tempo circulando no fórum se fosse um simples caso de corno. numa pilha de aparelhos gástricos descartados. recebendo uma nova folha de ouro. “Não. “Explique. Ela está livre. Seu martelo batia com a delicadeza de Cellini. Pelo menos até a hora em que Plumeaux trouxe notícias extraordinárias. fossem quais fossem seus motivos.” “Julgamento?” “O julgamento do caso da sua Alexandra. para acompanhar ou criticar o trabalho. Conte tudo”. A generosidade de Alexandra.” “Livre?” “Sim. e sorria ao entrar no quarto de Claude. A empregada disse que ela não estava em casa. “Monsieur Hugon é impotente?” Plumeaux sorriu.. e seu pote de cola borbulhava como um Vesúvio em miniatura. disse a empregada. Claude em pouco tempo iniciou a montagem. o que o perturbava. todos concordavam que Claude dava um toque de genialidade a um projeto original. Embora isso pudesse ter perturbado Claude em épocas mais tranqüilas.

na presença de . sua Alexandra foi levada para a sala de exame.” “Tentarei eliminá-lo da história sempre que possível. devem produzir cidadãos para o Estado. declarou. esfregaram e mediram o órgão do marido. e uma ereção “com a consistência de um vegetal flácido” (mais uma vez. “Ao que parece. Todos os homens casados. “para determinar se o marido ou a mulher negava à França os rebentos tão necessários”. penetrar na parte mais íntima. Depois de seis horas de esforço. “as impede de reproduzir?” A analogia impressionou o juiz. Os exames mostraram que ela possuía um receptáculo operacional. conseguira uma ereção. “uma violação dos deveres conjugais e das leis do sacramento”. E eu levei quase o mesmo tempo para. argumentando que certas criaturas — como a truta. palavras do perito) não convenceram a junta. e a atenção se voltou para madame Hugon. apenas. chama-se ut arrigat. Os peritos queriam determinar se a penetração era possível. monsieur Hugon gritou aos peritos que entrassem em seu quarto. “Nenhuma das partes negou que dorme em quartos separados há pelo menos quatro anos. Os detalhes são complicados. o promotor exigiu um julgamento de impotência.” “Não me surpreende. já que insiste. O problema. que constituía. Nem aos olhos do Estado.” “O que quer dizer?” “A inspeção visual caracterizou o primeiro estágio do julgamento. Colhões do tamanho de avelãs. em suas palavras. pois usaram o latim para descrever alguns procedimentos. contudo. Eles viram tudo. dentro das normas da lei canônica.” Plumeaux examinou suas notas. contando com a ajuda de vários equipamentos. e.” . presumo!” “Prossiga. nem aos olhos da Igreja. hã.” O jornalista consultou suas anotações. considerada clara e fina. apalparam. Neste momento. nas palavras de um cirurgião presente. Com certeza você não quer ouvir o caso inteiro!” “Pare de me provocar e conte logo tudo de uma vez.. Os cirurgiões examinaram. Com prazer e um senso de autopromoção que o tornaria no futuro um homem muito poderoso. de uma ereção insuficiente.. “Isso. para um teste.“O juiz anulou o casamento. Mas o advogado do marido se preparou bem. No início do julgamento. advogados. Além de diminutas. não estava em madame Hugon. “Dispenso o latim. e paroquianos para a Igreja. Procuraram feridas. úlceras e malform ações congênitas do “gabinete”. “acompanhado de colhões do tamanho de avelãs”. Eles não ouviram testemunhas. Checaram sua urina. Era muito pequeno. quase não apareciam. “Em seguida. Tendo estabelecido o fato. O julgamento foi suspenso. nem monsieur.. Eles verificaram que. realmente. Devo continuar?” “Claro!” “Os especialistas — cirurgiões. por acaso”. concluíram rapidamente.dois cirurgiões e dois médicos. O casamento sem consumação não é casamento. clérigos — levaram oito meses para ouvir todas as testemunhas. monsieur Hugon contava com a simpatia geral. Tratava-se.” “Eles exigiram um ut vas saemineum referet!” Claude o interrompeu.” “Muito bem.. dificultado por sua recusa em tirar a roupa. o promotor exigiu uma investigação completa para revelar a causa da insustentável situação. os peritos tentaram determinar se monsieur Hugon estava à altura do desafio da relação sexual. exemplo citado — possuem os testículos totalmente ocultos. Os exames começaram com a entrada do casal em um quarto fechado. Foi um pouco difícil descobrir como o testaram. as “avelãs” de monsieur Hugon estavam escondidas. perguntou ao tribunal. médicos. nem madame. Mas isso você já está cansado de saber.

O casamento estava dissolvido. . “Os peritos”. insistiu que tal teste era totalmente desnecessário. Claude certamente podia cuidar deste aspecto. Explicava por que as Horas de Amor pornográficas haviam sido encomendadas. E sua menção posterior a petições e julgamentos. E. O argumento do advogado foi rejeitado.“Voltaram. proposta rejeitada. e deveria pagar uma quantia substancial à esposa. só precisava de alguém que lhe desse o que o ex-marido fora incapaz de dar. não é?” “Precisamente. cresce devido à abundância de fluidos que descem para os colhões. quando ainda havia esperanças. Depois de quatro noites de tentativas. provocando a fertilidade”. Sinto muito. Madame Hugon está livre. Seria uma pena desperdiçar o latim. Deveriam estimular monsieur Hugon. Isso explicava muitas questões vinculadas ao casamento. Monsieur Hugon era incapaz de cumprir seus deveres conjugais. Explicava os comentários de madame Hugon na Globo. por danos. Um pouco de ut in vase seminet. Ela era livre. como se sabe. conforme detalhado em Defrigidis et maleficiatis. se renovavam. A semente geradora. Nenhum destes compromissos compensava o que. e ela era rica. citando — de acordo com minhas notas —Justiniano e a confirmação do papa Celestino m. para monsieur Hugon. se poderia chamar de fraude. Tentativa final: separatio sacramentalis. Exigiu um triennium. por parte de Claude. na opinião da corte. continuou Plumeaux. mas raramente sou tão preciso em minhas transcrições. dando base legal para a anulação. Foi aí que a verdadeira batalha começou. como o açúcar no vinho. “não se convenceram. então. bastava olhar para seu cliente para se comprovar sua saúde perfeita. Divórcio. Monsieur Hugon precisava provar que ejaculava. nas quais molhou incontáveis jogos de lençol com seu suor apenas. A barba. indicava que as esperanças de uma união duradoura.” “Já encontrei a expressão na seção Medicina da Coleção da Cortina. “ Claude lera a respeito no livro sobre masturbação emprestado por Alexandra. três anos de convivência forçada. melhor que tudo. O advogado argumentou que a impotência era temporária. Monsieur Hugon foi proibido de se casar novamente. Pediu separação de quartos e mesa. Não conseguiu. O advogado disse: “Seu rosto não apresenta crescimento excessivo ou insuficiente de pêlos. Mais uma vez. O advogado de monsieur. um homem dotado de grande eloqüência. monsieur Hugon finalmente admitiu o fracasso.” Claude esmiuçou os detalhes das anotações jurídicas de Plumeaux. Não teve sucesso. Agora.

No lado oposto desta montagem. revelando pequenas pérolas. e o vento soprou controlado. A água jorrava sobre as ostras. Alexandra. O pintarroxo chocava três ovinhos azulados. O tributo de Claude estava pronto. o mecanismo interno foi feito por Claude. desfrutava de sua viuvez honorária. girava. pintou ninfas e sátiros apaixonados. com minúsculas peças de carvalho.) Os olhos fixavam-se numa fonte. O jovem inventor chorava. virava a cabeça e olhava com dois olhos espetaculares obtidos por Piero. estava lá. dentro de uma caixa envidraçada. O globo celestial girava com a precisão de um planetário. (“Importados”. num canto do quarto.-Antoine. Seus eixos e articulações. O pássaro gorjeava tão bem quanto seus similares naturais. Abaixo do ninho do pintarroxo. que se abriam. Os apitos simulavam os sons do rouxinol. um moinho d”água virou. O peso do recipiente cheio d”água puxava uma corda e ativava o mecanismo de coroa e pinhão que dava movimento à coruja empalhada com pimenta. Escondido num canteiro de ranúnculos. Claude tinha todos os motivos para se sentir alegre e esperançoso. com cânhamo suficiente apenas para evitar rachaduras. Mas. Claude pendurou um recipiente de tecido impermeável para aparar a água de outro buraco no telhado. é necessário relatar detalhadamente os eventos que se seguiram às revelações de Sebastian Plumeaux. Os céus dançaram. fragmentos de mica formavam uma constelação que retratava sua amante de sobrancelhas fartas. que usou um pedaço de fio metálico grosso limado e esmaltado. Claude aplicou uma mistura de água e cré. As calotas foram moldadas e presas com um cuidado de fazer inveja a Le Monde. moviam um excêntrico ligado a um conjunto de apitos. Os ovos foram feitos por Piero. Para entender a razão do choro de Claude. aparentemente. do cuco e do frango. Montou uma estrutura que dava ao globo um movimento uniforme. Logo abaixo. como palha. sobre o ninho feito do próprio cabelo de Claude. Na superfície. com pintinhas vermelhas. na própria tarde em que ele esperava se reconciliar com Alexandra. A obraprima — ou a obra-amante. (Na verdade. dada a fonte de inspiração — estava pronta. embora pouco honrada. Só faltava o pintarroxo. Claude encheu a cabeça de fantasias tão . os pássaros cantaram. uma fonte esguichou. No meio de seu firmamento. banhado depois em óleo de cravo para adquirir um brilho extra. Entre todos estes mecanismos festivos. gabou-se para Claude.VI O PINTARROXO 35 Um globo girou. uma roda-d”água.) Numa pequena cena de penhasco. escamas de peixe reduzidas. ouvia-se o som do próprio inventor. Contudo. uma cena na gruta da mansarda era extremamente triste. claro. O retrato de Alexandra estendia-se da primeira das estrelas contíguas no olho do Sagitário até a estrela mais baixa na virilha de Castor. Quando a coruja chegava à parede. A conselho de um artesão do faubourg St. adaptação de uma das extremidades da bomba de lav agem de Livre. Ao saber do desfecho do processo. livre do marido. claros. pedacinhos de strass brilhavam como diamantes na rocha bruta. Rejeitou a idéia de usar materiais mais óbvios. o relacionamento foi rompido para sempre. Embora o empalhador tivesse cuidado das penas do pintarroxo.

Enquanto corria para a residência dos Hugon. morim e veludo de seu traje. A estratégia bem-sucedida com a empregada de madame também surtiu efeito com Ivan. Claude atravessou o pátio e percorreu um corredor longo. ela explicou os . Claude previra isso. Mais uma visita é aceitável. Claude seguiu para o hotel a pé. corrigiu Claude. e não pôs a peruca.) Um porteiro imponente. recusou-se a deixá-lo passar. Por todo o lado havia peças inúteis de aparelhos experimentais. que disse apenas: “Ela saiu”.elaboradas quanto as atrações de seu sótão. viu uma banheira. Relutante. como ela preferia. Claude ficou chocado ao ver que ela fora amarrada com cintos de couro. como nas histórias da seção Medicina. Foi barrado de novo. Submetia-se ao tratamento do infame sobrinho do já mencionado fabricante de copofone norte-americano. reservara um lugar nas banheiras magnéticas do Hotel de Coigny. nem estava em casa para se excitar. Pediu a Claude que a soltasse. no canto da sala. Claude não escondeu sua surpresa. “Você nunca esteve lá. cheio como estava de declarações de amor. Enquanto seguiam de coche para o esconderijo de Claude. Ela se mostrou revoltada. o par trocou exclamações: “Você!” “Você!” Sentindo a tensão. suponho. só a cabeça de fora. Alexandra. olhou em torno. Tendo gasto suas últimas moedas. que lambeu os beiços ao embolsar a moeda. esperando que o cheiro de galinha a excitasse ainda mais. sua aparência deixou claro que não se tratava de um cliente. Claude foi barrado à porta pela empregada. e em seguida madame Hugon estava pronta para sair. Por trás de uma cortina. sob o bigode farto. exausta em função do processo. pela exatidão das informações e pela rapidez com que ele descobrira tudo. No centro. o corpo submerso num líquido viscoso. Comprou um monte de feno para forrar o assoalho. Entrando. num canto duas mesas marchetadas. o guarda permitiu que prosseguisse. e sugeriu uma visita a seu quarto. Claude valeu-se de mentiras para superar a barreira final. O sobrinho aplicara magnetita nos dedos e no nariz de Alexandra. Minutos depois. o sobrinho. e se vestiu da maneira esperada por Alexandra. ele acelerou os preparativos. William Temple Franklin. uma gaiola e uma cômoda. Disse que tinha um recado do advogado de madame. Encontrava-se num salão que misturava elementos de casa de banhos e laboratório. uma peruca surgiu no topo da cortina. ora. Alexandra. apressado.” “A primeira visita”. Paris era uma terra de fofoqueiros. A sós com Alexandra. Ou seja. Madame Hugon não escondeu a dela. além de uma no seio. onde encontrou mais um membro da guarda uniformizada. (Alguns pobres eram tratados no pátio do Coigny. Quando chegou à entrada. contudo. Ele balançou as dragonas douradas e proferiu uma praga com forte sotaque.” Alexandra reprimiu a resposta que veio a sua mente. Escolheu trajes rústicos. de má vontade. Insistiu para que discutissem o problema em particular. e insistiu que virasse para o outro lado enquanto saía da banheira. ela tirou a roupa — uma pesada túnica de lã onde as correias eram presas — e reaplicou as camadas de linho. tomou banho. mas somente aos domingos. fardado e estrangeiro. Impaciente para desfrutar do amor liberto. Depois da troca de olhares atônitos. mas não passou pomadas nem perfumes. Outrás informações só foram obtidas graças a uma pequena gorjeta. Alexandra estava dentro da banheira. Claude rapidamente confessou que sabia de tudo sobre sua liberdade recém-adquirida. entre arcos. “Imagino que não possa haver mais escândalo do que já houve. passou pelo mercado das aves. Ela concordou. pediu licença e saiu. Ela disse que não se surpreendia nem um pouco.

Claude percebeu que o plano não corria conforme esperado. “Olhos da Bavária”. “Não passa de uma casa de bonecas de um bêbado. “Pretende continuar?”. Alexandra disse. Com o esforço. Era demais para ela.” Nenhum dos dois falou enquanto subiam a escadaria precária até o sótão. e o jogou na mulher que o inspirara. disse Claude. impossível de se obter de outro modo”. Julgou mal a reação de sua musa. “O tratamento da banheira deve ter afetado sua sensibilidade”. é ofensivo. O último projétil acertou o rosto de Claude. e rasgou a luva no terceiro. abandonando uns e outros. sem a menor constância”. Os dois se atracaram. Ela reagiu como criança. Sem mais o que jogar.” Claude apontou para o globo. no local exato onde Claude entalhara uma declaração de amor. e.” “Não estou ofendendo. mas não encontrou nada. Alexandra não aceitou a explicação.motivos do tratamento: “Tudo começou quando tentei superar os obstáculos de meu casamento. um livro de bolso. Ela pulou para trás. Alexandra olhou para a coruja que ia e vinha em cima da viga. “Piero acha que os olhos de Veneza são caros demais. o que só transferiu a dor para a mão. um lenço de cambraia sujo que caiu antes de atingir o alvo. e levou o lenço de cambraia ao nariz. “Preciso sentar”. demonstrando melhor pontaria. disse. sim. Foi um dos doze métodos tentados. Ela bateu a cabeça na viga. socando a trave. Claude detectou um tom de crítica no último comentário. Alexandra prendeu o vestido no corrimão do segundo andar. devolvendo os objetos com a pontaria aperfeiçoada na infância. “Precisamos ficar aqui?” Antes mesmo de cruzar a soleira. Jogou um pente de tartaruga e o respectivo lorgnette. o suor se acumulou no buço de . “Isso aqui não é um quarto”. Você se lembra?” “Vagamente. que desceu com tanta força que assustou Alexandra. isso. Sua raiva aumentou conforme a munição diminuía.” Claude ficou magoado. A miniatura bateu na parede. não adiantava mais chamar sua atenção para as belezas do sótão. e depois ficou pior ainda. Claude puxou a corrente que soltava a cama. E pensar que eu financiei uma porcaria dessas!” “Não precisa ofender. Olhe aqui. Quando entrou. batendo a cabeça de novo. irrefletidamente. Ele estava empalhando um peixe-espada. ele perguntou. Alexandra vomitou um pouco de bile. A chegada ao quarto andar foi marcada pelo mau cheire do quarto de Piero. Alexandra queria ir embora. Procurou uma cadeira.” E começou a atirar em Claude os objetos de sua bolsa. disse Claude. Pode ser uma rejeição de sua origem. até que. Ele reagiu à altura. Alexandra retrucou: “Isso é melhor do que sua patética sabedoria superficial e seus brinquedos ridículos”. Isso aqui. da mesma maneira. pegou o Pequeno Retrato que tanto reverenciava. Imaginara que o passeio até seu alojamento serviria de prelúdio romântico para uma tarde de amor. Mas dava um certo prazer. Depois disso. reclamando de enjôo de estômago. inútil porém caro. “A constelação resume o projeto que antes não podia ser realizado. Claude gritou: “Você flerta com homens e idéias. “Duvido que eu possa pagar por ele no futuro. a briga passou para o terreno verbal.

talvez seja verdade. Tudo isso torna gastos com você. Houve muitas. acusado de impotência pela esposa: — pela ordem de 29 de março. impossíveis. jogou a fita com a sineta em cima da mesa. O tilintar dos objetos pessoais e domésticos atirados foi trocado por gritos e gemidos do amor ressentido. Alexandra rasgou as roupas de Claude.” Ela olhou em volta do quarto empapelado. Naquele momento. Contudo. Um fio escarlate escorreu pelo seu queixo. Para Alexandra. peruqueiro. Não previra o encontro. Apanhou o lenço e se lavou na água da chuva recolhida por Claude na bacia engenhosa. a agressão transformou-se em paixão. ela recompôs a face da melhor maneira possível. pegou a sineta e a prendeu. Despesas. ele gostaria de aproveitar os resíduos do amor. O casal deitou-se no chão. Meus direitos foram bem especificados. no mesmo dia: vinte e quatro libras — pela realização de diversos relatórios: vinte e quatro libras — pelos honorários pagos aos médicos e cirurgiões: quarenta e oito libras — pelo papel: dez libras. Depois da escaramuça. e colar isso na sua parede. Terei uma criada. é? Bem. Lutou por ela. ela afirmou seus sentimentos com redundância insensível: “Gostaria de deixar bem claro que este foi nos^o último encontro. Arrancando o feno da pele e da roupa. um som interrompido apenas pelo canto do pintarroxo. Ao terminar de se vestir.” “Eu não passo de uma despesa?” “Claro que não. notando o desconsolo do amante. Gastos imensos”. pois a decisão do tribunal incluiu uma pensão anual”. a união de Claude e Alexandra terminou. argumentando amargurado: “Fui informado de que sua situação financeira é das melhores. E devo acrescentar que estes são apenas os custos normais. Ela desdobrou uma folha de papel que caíra da bolsa. Alexandra teve uma reação oposta. nomeando médicos e cirurgiões para visitar o referido Hugon: doze libras — pela realização dos exames. Subornos representam mais do dobro dos valores oficiais. menos de uma hora depois de subir a escada. Sob as asas das criações de Claude.Alexandra. Mas é uma despesa. desesperado. arruinando os esforços cosméticos feitos atrás da cortina no salão da banheira. presente de Claude. “Mas não posso. depois pegou a corrente de ouro de onde pendia uma cruz e a sineta. A mulher recolheu seus pertences. caso não a tenha em mãos agora. “Sabe disso também. presa por uma fita. e leu alto: Memorando das despesas da Oficialidade relativas a Jean Hugon. Arrumou a bolsa. Por uma visita apenas. Não posso mais bancar este capricho. eles fizeram amor com intensidade desesperada.” Claude sentiu-se demitido. e já enviei uma carta a Livre explicando tudo. Seu rosto aqueceu-se tanto que a maquiagem — uma mistura de banha de porco e ruge vegetal aprovada por uma academia — começou a pingar. o amor de Claude era uma ferida incômoda que inflamara e exigia tratamento. um criado e uma renda vitalícia de quinhentas libras. Claude meditava sobre o fracasso do encontro. não dispondo nem de penteadeira nem de criada. relutante. como um empregado braçal. meu pequeno mecânico. Tenho contas a pagar. Gostaria de poder dizer que as contas estão todas pagas. enquanto Alexandra preparava-se para partir. batendo a cabeça mais uma vez ao apanhar o livro jogado embaixo da cama por uma perna descontrolada. a uma dobra interna do vestido. “Um total de cento e dezoito libras. mesmo assim. e agora queria sair dali o quanto antes. Incapaz de decidir se punha a corrente por cima da fita ou a fita por cima da corrente. Mas. Irá recebê-la amanhã. . e ajustando a peruca. como se as duas emoções estivessem ligadas.

e transformar sua raiva em arte. como fizera Piero. Planejara encontrar-se com Plumeaux e o cocheiro depois de ficar com Alexandra. Está acabado. Piero tentou elogios e piadas. Piero reagiu com humor macabro.” Ele mostrou uma gravura barata de uma abada. Mas Alexandra disse friamente: “Chega. “Certamente os prazeres da invenção diminuirão sua dor. Eu agradeço. Uma sociedade. O encontro teria agora um tom mais melancólico.” Claude. tentou ser lógico. dois rabos de boi e uma cabeça de cavalo. Meu Deus! Sabe o que significava passar a noite inteira com meu marido em cima de mim? Meu corpo sofria pressões e dores incalculáveis. e cair morto a seus pés é impossível. Tudo em vão. Saiu e voltou com uma maçã comprada para encerar. Tive o infortúnio de me casar com um homem cujo pênis era menor do que um dardo. olhando para o infinito através das lágrimas. o veneziano calculou mal a profundidade do desespero do vizinho. o sofrimento de Claude. Embora emitisse os comentários apropriados. E. Ele mesmo jamais se apaixonara.” Ele fez que não com a cabeça. se acha que acabou. disse Claude. viu a ama-de-leite passando pelo pátio. A estrutura da casa provavelmente não agüentará seu peso na ponta de uma corda. E a janela da água-furtada fica meio fora de mão para dar o efeito dramático indispensável a um salto. Piero foi o primeiro a saber do rompimento. e você deve agir assim também. Limpou a argila e o gesso (estava testando o método de Benoist) e ofereceu a fruta ao amigo. ainda que se esforçasse para demonstrar sua solidariedade. preferivelmente um homem indulgente. o último refugio do amante abandonado. para dar detalhes da conquista. embora seja difícil aplicar os chifres. Nem acenderam a chama criativa apagada quando Alexandra fechou a porta do sótão. Proponho outra coisa. Marguerite perguntou o que havia de errado. Suas últimas palavras foram: “Nunca mais poremos os olhos um no outro novamente”. “Eu quero morrer”. ele me deixava sempre no estado em que me encontrava. E tentou consolá-lo. Por este motivo ele se aninhou debaixo da fonte de enema. milhares de tentativas fracassadas. Ela encerrou o discurso e seguiu em direção à porta. Claude resolveu dar uma volta. e contou a ela. e. Você me ajudou a esquecer estas deficiências. desviando seus pensamentos. da leitura dos livros à aplicação de punhos cerrados e aparelhos de ferro. e precisava fugir do local da humilhação. O mundo não acabou. entre soluços entremeados pelo canto do pintarroxo.” Aquela era a última comparação que Claude desejava fazer. O arsênico custa muito caro. A afirmação poderia ser contestada. a eles faltava convicção. Mas podemos tentar transformar esta sua dor em beleza. Mesmo que conseguisse se esgueirar. Agora preciso ir embora”. Preciso encontrar um viúvo de posses. Tenho certeza de que pode superar o Quarto Cavaleiro de Dürer. Ao sair do quarto. Creio que podemos usar uma galinha.Mas não basta. A ama disse: “Ao que parece esta mulher pode perdoar tudo. Eu lhe dei tempo e dinheiro. Sentia o peito oprimido. quase chorando. apesar de tudo. e as piadas eram fracas. Não me arrependo. Ele não teve forças para resistir. e os testículos do tamanho de ervilhas. “Leve em conta as dificuldades do suicídio. Os chifres monstruosos e agressivos da besta não ajudaram nem um pouco a animar o amante rejeitado. . Ambos devemos ser gratos. Construa a Destruição do Mundo no instante do Julgamento Final. Alexandra já se foi mesmo. E. então crie um magnífico Apocalipse mecânico. “Acaba de ser capturada na costa de Bengala. Não se esqueça de que você se beneficiou de nossa ligação. não. Mas os elogios não surtiram efeito. menos a felicidade”.

” O bebê choramingou. instintivamente. não tinha como.” Ela esticou o braço e tocou a região do coração de Claude. Os traumas dos homens acontecem aqui. atrapalhada com um bebê no colo. saiu-se com um ditado. . “Muito padece quem ama. e Marguerite ofereceu o dedo.Ela sentia vontade de abraçar o rapaz. mas. puxando seu cabelo. “Os jovens sofrem arranhões na pele. O bebê berrou. Soando um pouco como sua mãe. que a criança envolveu com sua mão minúscula.

“E não tente falar em rolhas impróprias ou canecas fora do padrão de medida. disse o cocheiro. (Só poderiam virar vinagre. e o outro das mulheres. Na escaramuça entre gula e luxúria. e gritando pelo proprietário. disse o jornalista. enquanto o cocheiro punha em prática uma de suas jogadas.36 O cocheiro e o jornalista fizeram o possível para animar o infeliz companheiro. A mistura era estranha. Claude protestou débil. Esqueça a livraria. juntando-se aos amigos. “De que adianta produzir novos aparelhos. Se tivesse uma chance.” “Mas sem dúvida nosso amigo aqui pode inventar algo ainda pior”. Voltarei para a labuta na Globo. A sua querida madame Hugon seria aprisionada. fora dos limites da cidade. despida até a cintura. Sofria de leviandade crônica. Os amigos olharam fixamente para as canecas antes de beber e pedir outra rodada. em uma gaiola de ferro amarrada na verga de uma chalupa”. eu não tenho mais tempo nem dinheiro para minhas manias. o cocheiro e Plumeaux exibiram o tipo de entusiasmo excessivo típico das pessoas desesperadas por um pouco de alegria. nem do uso de falsos aromáticos. como espera que . O cocheiro levantou-se para pedir uma carne grelhada. ele citou as regras que proibiam o uso de lias no vinho da casa. “Os ricos gostam de torrar dinheiro em invenções. O Tambor era famoso pelas pichações vulgares e pelas canecas dentadas cheias de vinho barato. desde que não ameacem ninguém. “Considere isso uma homenagem a nosso primeiro encontro no Porco. Não me refiro ao método normal de punição entre marinheiros. Como um dos amigos de Claude era entusiasta da comida. conseguirá recursos para seus projetos. O cocheiro atrelou uma bela égua de tração a Lucille e seguiu em direção ao Tambor Real. discutiram animadamente para escolher o pecado mortal capaz de aliviar a dor. juro que ela se arrependeria. Claude disse. O cocheiro sugeriu um local.) O dono já ouvira aquela conversa antes. pelos objetivos estabelecidos na conferência. Plumeaux disse: “Ela não era boa para você. onde se força a vadia a andar pela prancha. livre de impostos. O cocheiro elogiou Claude. uma casa de vinhos fora dos limites da cidade. onde conhecia intimamente uma série de tabernas que ofereciam comida saborosa e vinho decente.” “Não tenho fome”.” “Minha experiência foi diferente”. Lute por seus sonhos. “Com seu talento. e o cocheiro pagou pelas bebidas sem reclamar. Eu pensei em vingança à moda de Marselha. em matéria de consolo. por meio de subscrições.” “O cocheiro tem razão”. “Depois disso. e oferecia pouco. Segurando a calça. eu a teria castigado. Quando entraram. quando os outros foram desprezados com tanta facilidade? Além disso. a gula venceu — pelo menos no início. Isso seria muito pouco. disse o cocheiro ao voltar para a mesa. nem um pouco.” O taberneiro ameaçou não servi-los. Todos estes truques já foram usados. “Além disso. Claude recusou-se a melhorar o mecanismo do método de vingança de Plumeaux. Claude e Plumeaux acomodaram -se em um canto escuro.” “Então dê um fim a seu aprendizado”. Claude narrou os detalhes de seu rompimento. enquanto o jornalista mostrou todo o seu desprezo por Alexandra. O jornalista demonstrou o resto do procedimento fazendo uma alavanca com o braço. Plumeaux insistiu que uma busca de prazeres venéreos agradaria mais a seu amigo magoado.

e a . melhor dizendo. Embora os versos de pé quebrado deixassem muito a desejar. e mais tarde a canção acabou publicada. do afeto de outra pessoa. O cocheiro riu desbragadamente com a referência do último verso. deve fazer com que Livre queira sua saída. mas sempre evitou pagar por seus prazeres. Ele pediu ao cocheiro que o levasse a uma rua atrás do Palais-Royal. brutal. Meu êxtase e meu ódio nunca foram tão grandes”. Ele a colocou na mão de Claude. O estabelecimento de madame Rose se localizava ao lado de um açougue. Daí em diante. Como eles agradam vocês. O jornalista cantou uma balada composta por ele. entrar. miserável. com o título “Balada do impotente”. A sala de espera era decorada em seda. Dizia respeito ao marido de madame Hugon. uma vizinhança coerente. Necessita agora dos meios para enfrentar a condição final”. você não ganha por palavra. parando para ouvir um vendedor de batata assada e uma vagabunda desdentada marcada pela varíola. aos gritos. ejacular. Logo os outros fregueses do Tambor Real cantavam também. Os vidros e talheres moviam-se e se transformav am. bojuda e falante. A pessoa começa alegre. “Plumeaux. Como pode ser isso? O momento em que mais a desprezei foi o momento mais excitante. A falta em uns pode outros salvar. Os dois amigos cambalearam adiante. de modo que Claude relaxou um pouco. Chegaram a seu destino numa hora em que a maioria dos relógios da cidade haviam parado de badalar. como precisava. Pararam para urinar copiosamente na porta de uma loja de perucas. Claude confessou angustiado: “Eu fazia parte de seus divertimentos. e o cocheiro um garrafão empalhado. é permanecer para sempre como empregado daquele escarrador nojento.” O cocheiro soluçou e ergueu os olhos.” Chegara a hora do pecado mortal seguinte. A alternativa. até que todos os freqüentadores do Tambor Real batiam suas canecas engorduradas no ritmo da balada. Reconfortado pelo interior estofado de Lucille. As duas ofertas foram recusadas. “Acho melhor sair e tomar um pouco de ar”.eu saia da Globo?” “Se deseja sair. As alterações incomodaram Claude. Lera grande parte do material publicado numa era especialmente pornográfica.” Os três passaram para um estado mais perceptível de embriaguez. “Não se trata de dinheiro normal. Plumeaux disse: “Estou bem acostumado com os rumos da embriaguez. Considere isso uma demonstração de meu afeto. é só luxúria furiosa. Ele olhou para as garrafas atrás do bar. na opinião de Plumeaux. mas não fazia parte de sua vida. Claude. O dono tornou-se uma garrafa de brandy. torna-se mal-humorada e enjoa — você acaba de passar pelo enjôo. disse soluçando. O pavor da doença restringia sua curiosidade. maravilhosos três es. disse o cocheiro antes de partir. “Vocês estão bêbados como gambás”. e conhecia a seção Prostitucional da Coleção da Cortina intimamente. Os três amigos bêbados pagaram a conta e cambalearam até o coche. a estrofe final resumia bem o desfecho: Oh. A noite prosseguiu. Claude ficou quase sóbrio quando entraram no bordel. rude e patético. Claude pôs a cabeça para fora da janela e vomitou. Como o veneno e a doçura podem se misturar com tanta facilidade? Um paradoxo. Erguer. Claude entendia muito de prostituição. com os cantores bebendo e os bêbados cantando. mesmo restrito à parte teórica. com bom gosto. Plumeaux revirou os bolsos e tirou uma moeda de latão. Plumeaux e Claude desceram de Lucille. Tropeçaram. Ou.

mas uma jovem bretã desconhecida do jornalista.” Ela estava certa. Claude disse embriagado.” Ele apontou para cada uma das moças. é conhecida como Abutre. disse a prostituta. madam e”. dando seus nomes de guerra. no dia seguinte. “Insetos podem causar feridas. era segunda-feira. perguntou Claude. A cafetina explicou que ela era nova e especial. disse a cafetina. disse: “ Aquela ali. ao pegar sua ficha: “O mocinho gosta das tortas quentes e crocantes?”. A cafetina sussurrou para Claude. falou apontando para uma garota com rabo-de-cavalo. Há outras maneiras. mencionando sua amante. e deixava todo mundo ver seu anjo”. como pinças”. interferiu Plumeaux. No final. Para estimular os clientes. Mas. Claude acordou enjoado. “Não.cafetina. saudou Plumeaux com familiaridade. O jornalista baixou a voz: “Mas há outro motivo. “Graças a algumas horas comigo”. deixando bem claro que se tratava de um freguês assíduo.” Ela tirou a tampa de um decantador e tomou um pequeno gole de creme de menta. . A prostituta reforçou a frase fazendo o gesto. ela encenava contos de fadas de um modo bem mais excitante do que as histórias moralistas de La Fontaine. Além de tudo. Ela erguia a saia como se fosse uma poltrona no teatro. Plumeaux chamou a atenção de Claude: “Vamos continuar. Plumeaux citou a si mesmo: “Angélica não era uma moça tímida. como explicação. As moças estavam sentadas e deitadas numa variedade de poses. por causa dos excessos. “Por causa do cabelo?”. também”. Claude não escolheu nenhuma das mulheres apresentadas. “que Alexandra usava estas coisas. e cantárida também? Vi em seu armário.” “Você sabia”. de uns quarenta anos. e precisava enfrentar a tirania de Livre.” “A mulher foi mal aconselhada”. uma mulher bonita. Ainda sussurrando. “tenho certeza de que será feliz para sempre. e magoado porque Alexandra o dispensara e desprezara seus mecanismos. Aquela é a Siri. E cocou as partes. “Esta é a Pônei”. parada no canto. Vai direto na genitália. Esta aqui chama-se Angélica. “Permita que eu faça as apresentações. outros aspectos da equitação — o emprego de certos couros — lhe valeram o apelido. “Por favor. Recebeu este apelido porque prende as pernas em torno do freguês. você se lembra?”. Ela inspirou uma passagem no meu livro Xanas.

Seu amor próprio reside na invenção. impressos às centenas. correr de um canto a outro. especialmente com Livre. a morte lenta do cérebro. “Mas como vou escapar de Livre?” “Certa vez você descreveu o princípio do pêndulo”. Um fio comprido chegou a se enrolar em seu pescoço numa noite de sono intranqüilo. Livrinhos baratos levaram adiante a história contada na “Balada do impotente”. esperançoso. como a noiva de Fragonard. Talvez até assumir a campanha de arrecadação de fundos. Só sonhava em sumir. “O orgulho é a ruína dos fracos. as agressões físicas e verbais. Sempre que gritavam o nome de Alexandra nas ruas — uma ocorrência corriqueira. só para dar de cara com uma velha megera assustada com a abordagem. compromissos financeiros.” “E quanto a meu contrato?” “O que é que tem? A gente sempre dá um jeito de romper o contrato. cobriram os quadros de avisos nas igrejas da região. Encontrava cabelos loiros (tanto dela quanto da peruca) por toda a parte. O amorpróprio. medo — perdiam de longe para os motivos de saída — o cinismo. Quando elaborou uma lista de prós e contras. se você decidir saltar fora da Globo. Sonhava com Alexandra em uma dúzia de situações diferentes. por um momento. Quando uma mulher de cabelo claro. então. a saída para defender sua arte. se desejar. Venda ingresso para quem quiser visitar o apartamento. embora menos óbvio. um sujeito obcecado. a julgar pelos registros de nascimento da cidade —. atravessou a rue St. o odor coalescente da paixão — aquela mistura poderosa de suor e junquilho — ainda permanecia no ar do sótão. Seu sofrimento. Retomou o contato com os instrumentos de suplício que Livre utilizara a valer no passado. Seu talento e as maravilhas mecânicas que giram e andam na gruta da mansarda podem ser um meio de vida. Boletins anunciando o resultado. mesmo quando tudo parece perdido. Posso produzir um folheto. Plumeaux e o cocheiro morriam de pena. Impossível. limpar janelas. Claude reclamou para Plumeaux: “Eu me sinto como uma das pérolas de Livre. em acabar com o aprendizado. orgulho. espanar e arrumar. Muitas vezes a via escrevendo uma nota de reconciliação. os problemas gástricos de Livre. Claude precisou novamente esvaziar os Mistérios. a sovinice.37 O caso da impotência transbordou dos tribunais e ganhou uma certa notoriedade. mas nenhum bilhete amoroso chegou a sua porta. Livre classificava seu trabalho como negligente. via-a e ouvia sua voz por todo o lado. usando polonesa e corpete justo. “Adapte o . não ficou mais fácil de sufocar. o escudo dos fortes. as razões para ficar — obrigações contratuais. Tornou-se. assim como Etiennette e Marguerite.-Jacques. O livreiro corroeu a segurança de Claude lentamente. Já cansamos de dizer isso. teria sido incapaz. em resumo. Mesmo se Claude quisesse esquecer Alexandra. como um açougueiro acaba com um cepo onde corta mil vezes ao dia. Claude ficou reduzido às pérolas de papel. Sentia o cheiro da mulher. Claude correu sem pensar. Claude tentou ignorar os ataques. O final da ligação 1 com Alexandra ressuscitou a exploração e a humilhação sofridas antes na Globo. Claude olhava em torno. e tinha razão. “Saia. Dois meses depois da briga final e do ato de amor desesperado. disse Plumeaux. Atraia os curiosos. pleno de expectativa.” “E como fica meu orgulho?” O jornalista balançou a cabeça. pendurado num cordão”. a negação do talento mecânico sofridas por Claude.” Claude sonhou.

e deu mais uma fungada.” “Bobagem. Soube disso no momento em que o vi.” Claude insistiu. A cada erro punido por Livre. Livre estava pronto para fazer o inevitável. Primeiro.” “Agradeço sua boa vontade. Claude aprendeu a ignorar os insultos e agressões.” Claude seguiu o plano ao pé da letra. nada. “Devemos retomá-lo. Chupou os dentes. sem demonstrar o menor prazer. Baixou o nariz de novo.” . Não tenho estado à altura de suas expectativas. borre a tinta nos registros.” “Neste caso. Percebo que possuo mais talentos no ramo das artes mecânicas. aja sutilmente.” “Não vejo semelhança entre esta estratégia e o pêndulo. cabeça de lata (em homenagem ao fascínio de Claude pela metalurgia). Depois enfiou o dedo no purê de batata. Para que ele o considere incompetente. Claude precisaria disfarçar o pedido de dispensa com respeito fingido. Bucéfalo desmiolado. senhor. nervosa. deixe-os ligeiramente desalinhados na estante. Seu aprendizado encerrou-se seis semanas após o início do plano. as imprecações exóticas. Quem mais deveria ser responsabilizado? Você se esqueceu de como deve servir a seu mestre. Claude Page. reaja com outro erro similar. durante a refeição semanal. Mas vou botá-lo na linha à força — a chicotadas. Aja criativamente na ordem alfabética. como se tivesse um fiapo grudado entre eles. Quando arrumar os livros. ou melhor. realizando suas tarefas com incompetência dosada. Por algum tempo. atacou. não sou um bom aprendiz. Tudo por minha culpa. Deixe falhas no polimento. e não maldoso.” “Você é aprendiz de livreiro. Tendo olhado. a Guerra da Batata. Livre inspecionou cuidadosamente as batatas — voltara às batatas — para se certificar de que haviam sido adequadamente descascadas. O negócio é se libertar das garras de Livre. A melhor maneira é fazer com que ele queira sua saída. Debruçou-se sobre o prato e farejou. que eu me daria melhor em outra atividade. cozidas e esmagadas. Entende?” “Prossiga. O assunto está encerrado. cheirado e tocado o prato. O espantador de moscas de crina doía menos. Plumeaux. No momento certo. conforme o de Livre piorava. Claude escolheu o momento perfeito.” “Diminua sua eficiência. Claude repassava o plano de ataque. livre estaria tão preocupado com a qualidade da comida e os métodos de preparo que baixaria as defesas. autor da estratégia a ser adotada. Claude só observou a cena. limpando o nariz.” “Não se atenha a definições. sim. Comeu como uma criança inapetente. Pensei que tivéssemos resolvido isso há muito tempo.” “Quer dizer manchas na janela?” “Se houver necessidade de atos desesperados. Ainda assim. “Senhor. não posso mais me calar. Vire as páginas com força. batizou-a de Kartoffelkrieg. corriam riscos.” “Claro que é sua culpa. dos garranchos. Conforme Livre consumia o tubérculo. Seu humor melhorou. tenho notado sua insatisfação com meu trabalho.princípio a sua condição. Livre o chamava de patagão empavonado. mas creio. embora não fosse tão complexa quanto a Luta pela Sucessão na Bavária.

Livre corou.” Livre esquecera-se da batalha anterior sobre a palavra.” Livre mostrou-se cada vez mais inquieto. A discussão prosseguiu por mais alguns minutos.” “Mesmo assim. Como pretende contornar os regulamentos?”. Amassou as batatas. Claude disse. pois garanto que as coisas flutuam no início. Pegou uma faca. e depois afundam como pedra. amaldiçoando-a por estar cega. Ficará reduzido a pedir esmolas.” Claude ignorou a menção indireta a Alexandra. “Nem tanto. E. Livre tentou sua última jogada: “Se dependesse de mim. fazendo sulcos com o garfo.” “Reconsidere seus desejos impertinentes. É muito difícil encontrar outro Lucien Livre. “Aprendi com o senhor que as regras das corporações são tão maleáveis quanto o cobre. um trabalhador sem cérebro. ambas derivam de engenho”. “Mesmo que consiga outro aprendizado. ao lado de um veterano de guerra perneta. aprender humildemente. O mundo está cheio de talentos inúteis. sei muito bem que os mestres costumam tirar proveito dos aprendizes”.“O que lhe falta? Minha Bibliopola oferece emprego na Globo. A última questão permitiu que o aprendiz fizesse sua primeira ameaça velada. até que Claude disse: “Senhor. cercado de palavras.” Livre puxou um palito de dente de marfim do estojo e dedicou-se a remover fragmentos de batata dos dentes. Existe uma grande diferença entre o engenhoso e o engenheiro. “Quer dizer que pretende entrar para uma academia. O senhor tem se saído muito bem neste aspecto. “Percebo agora que na manipulação das ferramentas e na criação de objetos mostro uma competência que aqui me falta. Tocar os livros não faz com que eles o iluminem. Outros mestres o explorariam. senhor. sem obter antes uma permissão de cada corporação. como pensa.” Ele olhou na direção da Coleção da Cortina para reforçar a alusão.” “Isso é verdade. Mas tocou outras coisas fora os livros. “Afinal.” Livre perdeu a paciência. incapaz de buscar sua salvação. Livre entrara no jogo de Claude. pelo que entendi? Se meter num daqueles antros para os sábios? E o que vai inventar? Um equiyalente mecânico para a Tinta Argônica Inalterável Sempre Líquida de sieur Vicq? Vai competir com cremes faciais e graxas de sapato pela aprovação real?” “Tentarei. Tem treinamento.” Claude levou a batalha para o campo da gramática. seguindo seu exemplo.” “Você desaparecerá na população flutuante desempregada. Sugiro que reconsidere seus desejos frívolos. madeira e vidro.” “Disso não tenho dúvida. continuará sendo uma ame damnée. aceitaria sua .” “Talvez. trabalhando na Globo. se não fosse meu aprendiz?” Claude disse: “Eu queria ser engenheiro”. sua deformidade dará pouco lucro. “Escolhe as palavras a seu bel-prazer. Não mereço tudo o que tem feito por mim ”. senhor. Escarrou e disse: “Sua lógica é tão deformada quanto sua mão. por acaso? Quem irá autorizá-lo a trabalhar? Não pode usar simultaneamente metal. preciso sair da Globo. acredito que a proximidade com o conhecimento não garante sua aquisição. “O que faria.

Mas as regras da indentura não o permitem”. Claude tinha a resposta na ponta da língua: “Sou obrigado a citar uma de suas pérolas. e fazer as declarações de praxe. . Na semana seguinte. Depois de pagar certas taxas (mais uma vez tiradas de seu salário). desta vez. Não disse nada a Livre. depositou as fezes e a urina no capacho da entrada. Livre disse: “Providenciarei os papéis necessários”. A ameaça surtiu efeito. O rompimento foi total. esvaziou o conteúdo do pote. Nos momentos finais com Livre. Claude Page encerrou seu aprendizado com Lucien livre na Imagem do Globo. entregando a jaqueta lavada e passada para o vizinho. sem jeito. cuspindo no prato. apesar da natureza perigosa do material ilícito que comercializa”. Depois jogou os Mistérios para dentro da Globo e fechou a porta. Ele sinalizou o final da refeição. Sozinho. Livre exigiu as luvas e a jaqueta do ex-aprendiz devolvidas à loja “em perfeito estado de limpeza. Com isso. Claude ficou tão contente que começou a dançar. sentando-se em cima dos Mistérios. pretendia manter uma atitude adulta. e aos dezesseis anos partiu em busca de uma profissão sem nome definido. Marguerite. disse: “Não servia mais mesmo”. um notável momento de sabedoria: “As regras existem apenas para quem não as domina”. Escova na mão. Pura verdade. e beijou-a no rosto. A Kartoffelkrieg chegara ao final. Afinal de contas. Só que. Claude despediu-se de Etiennette. Sentiria sua falta. foi dispensado de suas tarefas. Claude compareceu à sede da corporação. Não conseguiu — não depois de perceber que Livre fizera sua maldade final. Certamente o senhor domina todas as regras da corporação. bem em cima do duplo L desbotado. fora das vistas do patrão. da mesma forma como outros comensais costumam dobrar os guardanapos.desistência. Mas não deixou o ato sem resposta. O aprendiz era agora um ex-aprendiz. acompanhado do mestre. escolhendo uma imagem perturbadora para enfeitar a vitrine mais destacada da Globo. Pela última vez Claude limpou os Mistérios. com os doze botões de marfim intactos”. A sineta soou como o turlututu triunfante dos trombeteiros reais. um bale mourisco onde a demoiselle servia de par. Ergueu-se em silêncio e retirou-se para a sala dos fundos. Claude concordou com o antigo empregador. tem se saído bem.

começando a satisfazer desejos havia muito arquivados. no domínio do trabalho — foi expulso. e ele vendeu o segredo — uma bolha de mercúrio no torso do acrobata — para Granchez. Os fregueses ficavam encantados com os acrobatas que pulavam e se contorciam por meio de um sistema secreto. Claude começou fornecendo brinquedos para sieur Granchez. Claude criou uma série de cata-ventos que teriam deixado com inveja o bufão vesgo de Velásquez. Claude chamou o brinquedo de mu-mu. no meio destes objetos todos. comentou. caixas de costura inglesas e bolsas de brocado. Em um nível mais prático. na direção de seu grande plano. agora por sua conta. Livre. O visitante se surpreendia continuamente com as bijuterias. Claude era bem pago por suas engenhocas. a Petit Dunkerque preferia a abundância. catorze na segunda. “elas possuem um encanto incrível. Enquanto os joalheiros e ourives vizinhos destacavam uma única peça. que os quartos infantis de Paris em pouco tempo soavam como os maiores estábulos de Tournay. bomboneiras e tabaqueiras de cristal. O duplo demônio que o assombrava — Alexandra. Claude desenvolveu uma máquina de leitura com pás giratórias. progredia com a insistência da bruxa de prata. regimentos de dragões portando mosquetes. a passagem do ar por uma pequena lâmina de latão produzia o som de uma vaca. pois giravam em eixos duplos. Granchez simpatizou com Claude assim que o viu. no Quai de Conti. que ricocheteava em uma sineta. comerciante dono da loja de miudezas Petit Dunkerque. a primeira criação comercial de Claude surgiu. Granchez vendeu tantos mu-mus. caixas de tabaco capazes de esguichar água. e gastava o dinheiro ganho em materiais e equipamentos capazes de inspirar novas invenções. artigos orientais. Granchez percebeu que encontrara um jovem de destreza profundamente lucrativa. Ele caiu como um de seus acrobatas sem a gota de mercúrio. A elegância e a criatividade do mecanismo logo atraíram a atenção dos connoisseurs. experimentou uma mudança no humor tão rápida quanto as alterações nos higrômetros de sua mãe. e com suas criações. talismãs de todos os tamanhos. Puxando-se o cordão. pequenos recipientes de porcelana cheios de brandy. tabuleiros de jogos. Um sujeito da corte do rei encomendou uma bruxa de prata que percorria três metros sem que se precisasse dar corda novamente. Um banqueiro pagou uma soma substancial por um sistema de cam painha sofisticado. dotadas de elegância incomum. provocando curiosos efeitos óticos. sereias. presentes de final de ano.38 Claude. anunciando a chegada dos visitantes. Seis unidades foram vendidas na primeira semana. por um valor bem alto. enfeites pintados. Embora não estivesse ficando rico. permitindo ao leitor consultar doze livros com um movimento da mão. As encomendas logo superaram a capacidade de produção de Claude. que encomendaram mecanismos mais complexos a Claude. caixas de flores que desabrochavam quando se apertava um botão. estava o Acrobata Mágico Chinês de Claude (quatro libras). quatro meses depois da saída da Globo. Os volumes ficavam guardados em uma estante com suspensão Cardan. “Mesmo quando defeituosas”. Quando ele era virado. a três libras e dois sous. Entre os dragões (sete libras e quatro sous a dúzia) e as caixas de costura inglesas (duas libras). no domínio do amor. As dores do mestre e da amante deram lugar ao prazer singelo de fabricar brinquedos para lojas locais de bibelôs. Teria iniciado as pesquisas para construir a máquina de seus sonhos se notícias terríveis não o arrasassem. . Depois produziu um pequeno tam bor revestido de borracha. Depois disso. que permanecia na horizontal ao ser virada. em chumbo. Um mês depois de convencer o proprietário de seus talentos.” A loja de Granchez criava vitrines originais. um arqueiro atirava a flecha. um ensaio para trabalhos mais ambiciosos.

Assim Livre afirmava seu desprezo pelo mundo mecânico escolhido por Claude. e um significado mais convencional. O rapaz releu o recorte que descrevia um incêndio devastador em Tournay. sentiu as pernas doloridas. mais osso do que carne. Em vez disso. Em menos de uma hora. A figura de Crono na estampa assumia um ar mais sinistro. continham erros de grafia. um cadáver ambulante. segurando um alfanje numa das mãos e um relógio na outra. roupas de baixo e presentes (um leque de plumas para Fidélité. O medo da morte zumbia em torno dele. Claude. três degraus de cada vez. alguns carvalhos ainda conservavam suas folhas. “Aposto que trabalha para Livre”. Apontou para as serras alpinas ao longe. Enquanto o coche seguia para Tournay. Recordava-se também da mansão e do quanto ela representava. que sempre pregavam peças ou traziam objetos encontrados nas ruas enlameadas do bairro. A única coisa a fazer era olhar a paisagem interiorana. mas seu aspecto despojado e áspero combinava com a desolação de Claude. Depois de passar do coche para uma carroça. como as moscas que zumbiam em volta da parelha desatrelada. em seu último dia de serviço. Abriu a porta antes que o visitante tivesse chance de bater. O aprendiz fez que sim. e até o da região. a ilustração fora escolhida por Livre para zombar do interesse de Claude pela relojoaria. Naquela noite. espiando pela porta aquela incrível confusão de brinquedos semi-acabados. outros já estavam pelados. Claude pensava na tragédia que o esperava. narrou passeios de sua infância a Piero. Percorreu com os olhos os doze botões de marfim. Conforme giravam as rodas do coche. Em uma das paradas.O golpe aconteceu no momento em que Claude ouviu passos lépidos na escada. Quando sentiu . Só o som ocasional do mu-mu ao balançar rompia o tédio.) Marguerite ficou encarregada de cuidar do sótão durante sua ausência. “Meu mestre enviou isso. O movimento da carruagem evocou lembranças distantes de sua terra natal. a virilha cocando. imaginando que ela havia iniciado a tragédia. do cheiro de bolor do Cão Vermelho. dos estragos da Viúva Vingativa. Desceu a escada. E de Christine Rochat. usando uma jaqueta conhecidíssima.” Ele entregou um pedaço de jornal dobrado e selado. Claude e Piero chegaram à periferia de Tournay. Combinando os aspectos mais aterradores da iconografia humanista e cristã. (A velha bolsa de couro fora pregada à parede. Era uma tarde de final de outono. que Livre recortara cuidadosamente com sua picotadeira. primeiro com o pai e a mãe. Esperava um dos irmãos da ama-de-leite. a piromaníaca. para anunciar a Piero a necessidade de partida imediata. Claude e Piero subiram no coche que ia na direção de Tournay. para guardar peças. moribundo. O novo aprendiz da livraria parou para recuperar o fôlego. deparou-se com um jovem desconhecido. Claude pegou o recorte e rompeu o lacre monogramado. O transporte não tinha a elegância e o luxo de Lucille. disse Claude. Claude se mantinha relativamente calmo. O coche caiu num buraco. quando o coche parava para subornar inspetores ou dar de comer aos cavalos. o de Claude disparava. Claude havia empacotado vários itens — uma muda de camisa. Enquanto o coração do mensageiro voltava ao normal. O nome do vilarejo. Mas. depois só com a mãe. Lembrou-se dos banhos na primavera. e desta para um meio de transporte ainda mais precário — uma carreta de duas rodas —. e uma lembrança de Paris se intrometeu nas outras: a estampa colocada por Livre na vitrine. As informações eram mínimas. balançando na carreta. O sol baixo refletia nas vidraças. Claude sabia que não descobriria nada até chegar lá. e descobriu uma escoriação no pescoço. Mostrava um homem. Claude ficava tenso. um mu-mu para Evangeline) — em uma sacola de crina nova. os pensamentos amortecidos pela monotonia do movimento.

o ar gelado queimar as narinas. disse: “Suspeito que vá nevar logo”. .

provavelmente discutia os reparos estruturais com o padre. As carroças chegavam com suprimentos: nabos. Claude passou rapidamente pelo caixão seguinte. Deixou Piero para trás. e ela retribuiu o aceno. Antes de chegar à pia batismal. Claude tinha dificuldade de esboçar qualquer reação. sorriu. A estrutura. antes que elas fossem enterradas. Claude ficou intrigado com os cortes existentes na sola do pé direito. alguém sussurrou. e ambas seriam enterradas juntas. a mulher que cozinhava no Cão Vermelho e dormia com o proprietário. O caixão seguinte mostrava Thérèse. como uma folha de erva-cidreira. Reconhecendo Claude. concentrando-se nas casas do lado do vale. Seus medos foram brutalmente confirmados quando passou para o outro lado do altar. pois havia um corpo que não reconhecia. proferiu palavras de . Um dos Golay. homenagem às moças do vilarejo que morreram virgens. Piero não disse nada ao aproximar-se de Claude. queimada e exposta. tirou o chapéu e baixou a cabeça. Virou-se para as vacas quando a carreta passou. a rendeira careca. Sentindo a tristeza no ar. Esta ilusão não durou muito. Padre Gamot. circulares —. depois de assumir uma pose piedosa. e Claude avaliou os estragos. disse para si. e começou a pedir informações. Não se encontravam entre os que rezavam pelos mortos. Aproximando-se dos restos da porta da frente. caixões simples. Não tinha nada para a mãe. Claude não precisou entrar para perceber que a casa estava vazia. Estão todos lá. na posição em que foram encontradas. O cheiro de madeira queimada ainda podia ser sentido no ar. as sobrancelhas de Ruth não haviam sido delineadas a carvão. aproximou-se da estrada coxeando. Uma mulher que recolhia pinhões no avental resmungou algo e olhou para trás. Claude viu a viúva Wehrli tocando suas velhas vacas leiteiras. Acenou. de tábua. Sua mãe. fazendo o sinal-da-cruz discretamente. Evangeline. Piero fingiu se interessar por um par de corvos que voava. Claude aproximou-se. Tentou localizar a mãe e as irmãs. Seis caixões alinhavam -se no abside. Parecia em paz. O fogo atingira o povoado inteiro. tocando suas faces. sem ouvir as condolências murmuradas. mas Claude nem o ouviu. Depois retirou o véu que cobria o rosto da mãe. Pegando os presentes trazidos de Paris. embora na confusão do fogo sua peruca tivesse desaparecido. As outras duas. Trazia nos braços um bebê sorridente. cerrou os punhos e rezou amargurado. A irmã menor ocupava um caixão entalhado que parecia familiar. Uma sobrinha. Claude correu excitado. Um segundo depois fechou a cara. na forma de luvas. com o padre Gamot”. Fidélité e sua mãe encontravam-se ali. A cabana dos Page fora uma das mais atingidas. Perversamente.39 O primeiro sinal da extensão do incêndio surgiu a uma légua do povoado. A carreta fez a curva. Abraçado por pessoas que mal conhecia. percebendo que ele preferia não falar de sua dor. soube da verdade. dada a natureza de sua morte. Uma mulher desconhecida disse: “Encontrará os Page na igreja. Caminhou sob as vigas da igreja. Olhou o primeiro caixão e viu sua amiga Ruth. pão e queijo. Estavam profundamente marcadas. atravessou a rua desesperado. Piero disse que usaria sua habilidade para esconder os estragos do fogo. apontava para o céu como um navio encalhado ou o esqueleto decomposto de um animal. cheias de coroas de flores — algumas brancas. sempre consertando a cerca. A família não conseguira tirar a menina dos braços da tia. Fechou os olhos. O fogo descarnou sua orelha e queimou seu cabelo. outras com fitas. depositou o leque de plumas nos braços cruzados de Fidélité e o mu-mu ao lado de Evangeline.

Quando cruzou a soleira. que se perdera irremediavelmente. Madame Page. O caldeirão de ferro onde madame Page preparava suas poções ainda estava pendurado no gancho. Entre os goles. e onde se escondia das irmãs durante as brigas. de tão forte. “Sua mãe desejava que se realizasse um teste antes da conclamatio. seu corpo se convulsionou. como a herança. caminhou pela rua desolada. Por coincidência. ou seja. O motivo ninguém sabia. Socou a lareira. murmurando sem se dar conta: “Por quê? Por quê?”. Chegou em ondas. caso o notário não tivesse se aproximado para anunciar que recebera intactos os documentos guardados na caixa de ferro perto da chaminé. enojado pela cobiça. O passado desabou sobre ele implacável. afastando o quanto conseguia as lembranças persistentes. O notário passou a temas mais pertinentes. mesmo que com o objetivo de impedir ocorrências similares em outros”. Ele teria continuado a se lamentar. o notário conhecia um comprador. como as cartas no chão. “O fogo destruiu os arquivos. e se viam pratos espalhados e ervilhas salgadas. pois Christine. “Muita sorte. Claude recordou-se do ditado que ela proferira quando soube da morte do marido: “Para morrer basta estar vivo”. “Felizmente eles se salvaram ”. dispensou o notário abruptamente. a mesma caneca que servira de inspiração para desenhar a orelha de Fidélité. o bêbado contou o que acontecera. estava completamente destruído. como a do pai. Também revelou que não desejava sofrer incursões cirúrgicas depois da morte. “Se quer saber de tudo. pegou fogo. A aparência da taberna não se modificara na sua ausência. Ainda se sentia o odor de tanino. O único bem valioso — a pensão adquirida por Michel Page antes de sua última viagem à Turquia — encerrava-se com o falecimento de madame Page. Deram o alarme geral. mas que acontece assim mesmo. antes da declaração oficial de morte. o vizinho dos Page. disse o notário ignorando a dor de Claude. os fregueses do Cão Vermelho foram incapazes de conciliar o prazer do reencontro com as circunstâncias lamentáveis de sua volta. visitava a tia em Grand-le-Luc no dia fatídico. a piromaníaca. A maior parte dos registros se perdeu. Assim como os moradores que encontrara pela rua. A chaminé da casa de Daniel Grisard. No final de uma noite de domingo o vento soprou forte. Ela logo se reduziria a pouco mais do que uma coleção de histórias e ditados. ao lado de uma fieira de cogumelos secos. temendo ser enterrada viva. teve a impressão de que penetrava na carcaça de uma besta enorme. A dor o atingiu em cheio. O sótão onde brincava e dormia. e só depois que diversos testes fossem realizados. e recebeu tapinhas nas costas. O .” Claude correu da igreja para a casa dos Page. tornado irreverente pela bebida.” Ele se voltou e viu um documento enrolado. Só um sujeito. algo que não deveria acontecer com as chaminés. para estimular a ressurreição. estipulara que não deveria ser posta no caixão antes de dois dias. não acha?” Claude. Ouviu mais condolências murmuradas. O fogo. Claude aceitou o pedido. mas o terreno podia ser vendido. derretera a caneca de estanho. Isso se tornou impossível quando entrou no Cão Vermelho. Incêndio criminoso? Ira divina? Empregada distraída? A empregada era a maior suspeita. mencionou diretamente o fogo. “Preciso pôr meus pensamentos em ordem”. por qualquer motivo. disse. entrando pela madrugada do dia seguinte. Saindo de casa. disse o homem. O notário explicou que a casa não valia nada. Uma série de máscaras dramáticas — sorrisos e esgares — o acompanharam pelo salão. Tentou explicar os cortes no pé. Entre os destroços encontrou algumas cartas de baralho e ervas chamuscadas. O testamento confirmava o que o padre dissera a Claude. pague uma bebida e sente-se aqui do meu lado”. Dizem que Tournay será incorporada à paróquia vizinha.consolo. O notário leu em voz alta: “Desejo e quero que meu corpo não seja violado. as lágrimas escorreram. Ele não conseguiu evocar a voz da mãe. Insistia para que o pé fosse lancetado.

transformou-se num grande evento devido à presença de uma mangueira importada de Neuchâtel. A explosão espalhou destroços incandescentes em todos os sentidos. Claude reconheceu o velho miúdo de sobrancelhas fartas que sorria debilmente e espirrava. o que forçou o recuo geral. Mesmo com uma quantidade substancial de vinho vagabundo a lhe toldar os sentidos. Piero o encontrou. Os curiosos logo começaram a tomar iniciativas. uma providência que provocou o efeito contrário. o que só espalhou o incêndio. pequenos barris. Grisard. finalmente organizaram uma fila para levar água do rio até o incêndio. . mas porque aquela parecia ser a reação esperada. As pessoas ficaram observando o incêndio de longe. Bem na hora em que a comunidade conseguia coordenar seus esforços. não porque quisesse beber. Um sujeito despejou um barril de brandy no fogo. A maior parte da água foi derramada dos recipientes antes de chegar às chamas. tendo esgotado todos os esforços individuais para o combate ao fogo. idiota como era. tinha trinta libras de pólvora em estoque. antes que pudesse reagir. com uma bomba que ninguém sabia operar. até canecas com água. horas depois. O bêbado explicou que a família de Claude poderia ter escapado facilmente das chamas. Claude pegou uma caneca e bebeu avidamente. a Viúva Vingativa soprou. para se prevenir no caso de um inverno longo demais. se não tivesse sido sufocada pela mistura de ervas medicinais penduradas nas vigas. de mão em mão. munida de baldes. Mas. impotentes. Sua potência aumentou mais ainda porque madame Grisard mantinha vários barris de óleo de cozinha. para proteger sua propriedade. Os moradores. Claude desmaiou. avivando o fogo freneticamente. Passaram baldes. O veneziano tentava carregar Claude para fora quando seu caminho foi bloqueado.que deveria ter sido uma atividade rotineira da brigada de incêndio. perto do estupor.

e ele procurou o consolo do fogo. Arrancou as cobertas. olhou pela abertura da seteira. As lembranças voltaram em bloco: sua infância. mas a primeira de muitas nevadas violentas. o mundo lá fora. passou pelo pátio. Contornou a escada que levava ao interior da casa. Enrolou-se nas cobertas e aproximou-se da janela. Resultava da falta de uso. abade. Na biblioteca. No silêncio constrangido que se . e se distraiu com um jogo infantil. e não da falta de cuidado. Lembrou-se da bebedeira e da intervenção de Piero. Ele temia erguer a coberta. a comunidade teria de esperar até que o degelo permitisse o enterro dos monos. Enferrujado. o domus intelectual de sua juventude. não encontrou nem os potes de pigmentos. O primeiro pensamento de Claude foi o seguinte: retornara à casa de um assassino. Contornou o pára-raios. treinamento e terror subseqüente. um jogo mnemônico que o Abade lhe ensinara havia muito tempo. por exemplo. Seguiu até o laboratório e fechou os olhos. Claude evitou as vozes que ecoavam na mansão. Estava a meio caminho da biblioteca. era ocupado apenas por dois ratos-do-mato. Tentou afastar a dor da perda da família. O frio o alcançou. as teias de aranha ligavam as pilhas de livros intocados. No momento. Claude saiu para o pátio. o resto do quarto. viu o pomar de pereiras abandonadas e o povoado. Fazia tanto frio que dava para ver a respiração. conseqüência da noite de excessos parecida com a que passara nas mãos da prostituta dos contos de fada. onde soubera do destino de sua família. Claude sentiu que sofria de um malestar generalizado. E do espirro inconfundível. de repente. Verificou o termômetro preso ao caixilho. Saindo do quarto. Grande parte dos sofisticados instrumentos de pesquisa — o microscópio. sua náusea era aumentada pela profunda confusão causada por dormir em cama desconhecida. A poeira. mas não conseguiu. quando ouviu um espirro. e a nova bomba pneumática — não estavam mais lá. Dentro do casulo de tecido. Levantou-se da cama num salto. Piero dormia em um leito adjacente. Silencioso. dando bom-dia. a residência de Jean-Baptiste-Pierre-Robert Auget. Claude levou as mãos aos testículos. que abriu para olhar o pátio. O mercúrio se refugiara na bola de um instrumento preparado para marcar até quatro graus abaixo de zero. subindo na torre da mansão. O agente funerário precisaria de equipamento de mineração para abrir um buraco no chão. contudo. onde uma listra negra marcava o caminho do fogo. que se protegiam do frio. Não se tratava de uma tempestade vagabunda ou medíocre. e se lembrou de quando procurava salitre junto com o Abade. conde de Tournay. entrando nos depósitos. e os teoremas associados a cada um. tentando imaginar a parede. e a fuga do prédio no qual se encontrava novamente. Estavam vazios. e descobriu que estava deitado na cama que ocupava na mansão. era qualitativamente diferente do pó antigo. Chegando ao alto. cavaleiro da Ordem Real dos Elefantes. Quando Claude abriu os olhos. protegido do mundo exterior. Ficou longe da cozinha e da capela. tremendo violentamente. como não havia como levar tais máquinas ao cemitério. O solo congelara. ficou chocado com a desolação. notou. O Abade surgiu subitamente. como previsto. Então.40 Ao acordar. perdera o condutor. e retornou à construção principal. Claude se aquecia com seu hálito acre. e. Desceu a escada em espiral. lençol cobrindo a cabeça. tornando impossível o enterro da mãe e das duas irmãs. O inverno marcava sua presença. recordou-se do fogo e do Cão Vermelho. Descobriu que a neve caíra durante a noite. Claude ficou atônito com uma dedução mórbida. Não sabia onde estava. Outro jogo infantil: tentou recordar a disposição dos objetos no depósito. Entrou no pombal. O caos se impusera havia muito. Saiu.

Disse a Kleinhoff. “Eu me pergunto se outras pessoas nesta mansão fizeram o mesmo. Claude repetiu a frase. Claude gritou. Claude recusou-se a beber e a conversar. o Abade falou sobre o que realmente importava. discutimos sobre as mudas. “Envelheci. Sua irmã. utilizados apenas na leitura e observação de detalhes) agora residiam permanentemente. Morreu faz mais de um ano. brutal”. visão — reduziram-se muito. pouco antes de sua morte. Não fez menção alguma à partida abrupta de Claude. Na última colheita enchemos o porão com potes e mais potes de pêras em calda. Consegui. Como sabe. Não trabalho mais lá. ou fingindo não entender. pelo menos. Uma prostituta arrependida é melhor do que uma boa cristã.” “Livre? Não. Por algum tempo. “Posso contar sobre uma observação feita um mês depois de minha chegada à cidade. força. e acabaram com as frutas”. enevoados. disse o Abade. tinham se expandido para fora. Evangeline. “Sim”. como chifres frontais. “Achei melhor usar o caixão para sua função original. Ninguém pode fazer uma refeição. levada pelo vento. Mas a idade me tornou mais cordato. Audição. como se respondesse à interrogação visual de Claude. os olhos antes brilhantes e azuis agora eram foscos. “Não conte para Marie-Louise.” Finalmente. e aceitei o plantio de madalenas. por algum tempo. parecia em paz dentro dele.seguiu. As Horas sofreram com sua saída.” “E você ainda está sendo servido na mesa de Lucien Livre? Imagino que seja difícil para ele digeri-lo e a seus interesses. Desisti quando vi os vendedores agarrando as aves para espremer os grãos meio digeridos de seu papo. Suas palavras voavam como uma folha de carvalho sobre um lago. “Como está Paris?” “Difícil.” O Abade pediu a Claude que pegasse a garrafa de Tokay sobre a lareira. e ele riu de mim. gritou o Abade. retrucou: “Sim. Estava com saudades de casa. belas”. e. arrependeu-se”. “Preciso de minha cometa. Ela me obriga a fazer um regime de fome. com ponta de cobre.” Foi o modo encontrado para mencionar madame Dubois. Sua orelha estava ficando verde. Perguntei quais eram os regulamentos ao inspetor. a peça de mobília mais destacada da mansão. Claude tentou novamente: “As vespas não foram as únicas a destruir coisas O Abade mudou de assunto. Por trás dos óculos. Deu a Claude um pedaço de fruta em conserva. e muito depressa. “O quê?”. Queria plantar uma pêra cristã. Até o final. quando comecei a pintar mamilos nas coxas. “Uma das últimas colheitas de Kleinhoff. quando passeava pelo mercado das aves. Claude falou: “Ela. mas o rapaz não o entendeu assim. eu proibia o cultivo de frutas com nomes religiosos. a mais nova. Mas.” O comentário salaz pretendia deixar Claude à vontade. Claude observou seu antigo mentor com a atenção de um retratista. Tentei assumir suas tarefas. a gota impedia que eu o usasse. Os pêlos saíam pelo nariz. O cabelo embranquecera como linha de Chipre. a menos que seja servida na mesa de outra pessoa. era Paris. Além disso. Destruíram as melhores árvores. Faltava a metade inferior. As sobrancelhas do velho. ainda sem compreender seu sentido. E apontou para o fogo. as vespas eram terríveis.” Ele pegou uma concha enorme. Ele fez um gesto. que ele estava certo ao plantar madalenas. concluí. Aquilo. O Abade aceitou a reticência como sinal de pesar. mas aceitou sentar-se ao pé do fogo. e o Abade. sempre grossas. onde um par de Nurembergs quebrados (no passado. apontando para o caixão-confessionário. percebi que era hora de parar.” Depois dos excessos da noite anterior.” Claude descreveu brevemente sua . lembrava de Tournay.

A culpa foi tanto minha quanto dela. quando fui embora.passagem pela Globo. Vou lhe mostrar. A partida. Mesmo assim. Claude. Eram tantas.” “Se levou. Ela não significava nada. “Ela abusou de meu amor.” “Pior ainda. chegando até a mencionar Alexandra Hugon e o Pequeno Retrato. que indagou: “A Virgem Maria produziu sêmen durante sua relação com o Espírito Santo?”. “ Claude revelou a angústia do rompimento com Alexandra. Tudo o que fiz a madame Dubois. sem dúvida. contudo.” “O que esperava? Ela me decepcionou. Devo admitir. Ficou particularmente interessado no processo. Ela não era uma paixão verdadeira.” O Abade levantou-se da cadeira. teria entendido. que era um passatempo problemático. senti o mesmo. mas venha dar uma olhada. E como soube do incêndio?” “Por intermédio de Livre.” A menção à partida criou um nó na garganta de Claude. as minhas. Ela me abandonou. Uma vez .” “Ele é extremamente atencioso quando há sofrimento envolvido.” “Eu também. ela.” Foi a vez de Claude mudar de assunto. não sei por que fica tão indignado. O Abade. fiz por sua causa. Um passatempo. claro. Não passava de um amatorculus.” Claude não conseguiu se controlar mais. Já se esqueceu?” “Ah. Foram problemas assim que me afastaram da mansão.” “Sim. quando se trata do infortúnio. ouvindo pela cometa acústica. Jamais esquecerei isso.” “Creio que suas dificuldades com Alexandra e as minhas com madame Dubois podem ser comparadas. Claude voltou a falar de Alexandra. Dubois era o que os colecionadores de curiosidades do século passado chamavam de ein Kurzweil. “Não me lembro da encomenda.” “Fico surpreso por ele querer ser útil depois que você deixou o serviço. Consola-se em saber que há outros que sofrem tanto quanto ele. Eu a guardei numa caixa.” “Eu não teria entendido. Suas ligações se formaram por amor. embora não tenha sido ato de uma mulher. claro. Se conhecesse minhas frustrações. “Imagine.” Ele andou até o ponto apropriado e apertou o losango que acionava a passagem para a capela. atrás do retábulo. “Levei a peça comigo.” “O que quer dizer?” “Estou me referindo a madame Dubois. ligação e do julgamento da impotência. “Isso não é verdade. confiar a um comitê de padres tão castos a tarefa de determinar as perversões e crimes sexuais de um impotente. a cometa e o Tokay. Eu lhe disse isso na época. Lembra o meticuloso trabalho do padre Sanchez. eu nunca notei.” “Não sei do que está falando.” “A cena do crime. soube da sedução. por diversão.” O desprezo por Livre aproximou os dois. é um outro problema. “Traga.” “E se livrou dela quando se cansou. Um amor insignificante. “Lembra-se da encomenda que Livre trouxe pouco antes de minha partida. mas entenderá.” “Um verdadeiro moralista.

“Isso é um estorvo. e o obrigou a reavaliar sua vida e a vida do Abade. Eu teria mostrado tudo em pouco tempo. “Mas ela não era real!”. e os besouros fizeram um ninho no cabelo dela. O local estava apenas ligeiramente menos desorganizado que o resto da mansão. Chupou os dentes de raiva. “Está aqui.” Ele se ergueu. Fez tudo isso no instante anterior ao grito que o Abade escutou perfeitamente. O Abade finalmente encontrou madame Dubois.lá dentro. levou Claude para o outro lado da tela. sem precisar da cometa. e qualquer encanto que tivesse contido no passado se ocultava agora sob a poeira. Venha ver. sem demora.” O Abade não o ouviu.” “E eu teria ficado se tratasse seu Kurzweil com mais ternura. aos cabelos. Uma parte dela. e sua reação ao buraco no olho. Claude exclamou. visivelmente contrariado. Os vermes comeram o olho. se você não tivesse fugido. “Madame Dubois não passava de um autômato!” . “Meu último refúgio. e ao resto do corpo foi de choque — um choque que o forçou a rever suas ações e as atitudes do Abade.” Claude olhou. Abaixou-se e revirou algumas caixas. não usava a cometa.

Na verdade. datado de muitos anos atrás. E suspirou. na verdade. De qualquer maneira. ou por que mais tarde deixei a ordem. Como explicar tudo isso? O que Claude considerara fúria homicida era.” Claude não conseguiu terminar a frase. “Mas sem dúvida ela era real”. baixando um pouco a voz. aliviado porque o assunto finalmente seria discutido.” “Mas eu pensei. que por sua vez levara ao afastamento e à humilhação na Globo. Todo o seu treinamento apontava para o mundo de madame Dubois. “Está se referindo a seu afastamento da Igreja?” O Abade ergueu os olhos.” “Por que a deixou incompleta?” “Por que pintores de segunda dedicam -se a paisagens. ela não estava pronta para conhecê-lo. bebericando seu Tokay. “Embora não fosse feita de carne e osso. o latão e o marfim são reais. Os chifres vistos por Claude na fronte do Abade transformaram -se em delicadas asas de anjo. mais precisamente. e o erro provocara a partida apressada. triste. Claude fez a pergunta que trazia na ponta da língua desde que entrara pela primeira vez na mansão.. feita não de pedra e argamassa. mas ainda faltava um pouco.VII O RELÓGIO 41 tia não era real!”. “Já falei muito”. Mas devo contar tudo agora. uma vez que explica por que madame Dubois me perturbava tanto.” O Abade baixou a cabeça e olhou em volta da capela.. e voltou-se para o Abade. Mas não contei por que viajava. “Você não estava pronto para saber. uma sensação de impotência experimentada freqüentemente por aqueles que trabalham por sua conta apenas. gritou Claude pela segunda vez.. O fracasso me forçou a enfrentar um outro fracasso ainda maior. Ela simplesmente se recusava a tocar. Como explicar um mal-entendido tão monumental ao Abade? A si mesmo? Como dizer que confundira uma boneca mecânica com um ser humano tocando música? A silhueta induzira ao erro. Ele olhou para os pedaços dentro da caixa. na medida em que a madeira. “Nunca resolvi isso. e fui incapaz de descobrir o que estava errado. Eu queria fazer as apresentações quando ela tocasse a melodia com fluência. . um belga brilhante chamado Everard Mercurian. Claude só conseguiu dizer: “Não me contou nada sobre suas dificuldades mecânicas”. retrucou o Abade. “de minhas viagens como missionário. estimulavao para que descobrisse sua força interior. disse o Abade. como pode ver. Ou. Quase pronto. e sim de lembranças e desespero. Eu o estim ulava a seguir naquela direção. era real. quando não são capazes de dominar a expressão facial ou os ambientes internos? E não a terminei porque não consegui terminar... Eu chequei e conferi os cálculos das engrenagens. o Abade permitiu que Claude penetrasse em sua câmara mais recôndita. A aparência do velho se alterara.. Esta é a parte da minha vida que procuro não comentar. a expressão das frustrações de um inventor.” O Abade ergueu o braço que ainda segurava a marreta. para o universo de um autômato. “Sim. Tais fatos se relacionam com um professor que tive. ela era muito mais do que um Kurzweil!” Com isso. Mas.

. Livre tem uma bela edição da Ars Magna. “Quando falo. Um jesuíta. quando tem assuntos mais importantes a tratar. Esta foi a razão da minha viagem inicial à índia. e por Deus. Ele passava horas descrevendo os aparelhos hidráulicos e mecânicos construídos pelo alemão. dos maurienses. E quanto a Camus? Ele foi para o seminário antes de começar a fazer os brinquedos para o rei. não é estranho encontrar dois jesuítas — um jovem. quando descobriu que poderia fazer dos brinquedos sua religião. Ele considerava a coleção de animais de Kircher melhor do que a existente em Paris. que foi tão incompreendido. Aquele que se Move.” “Sim. eu como assistente. Nunca deixou claro se Deus era sua ciência. Suspeito que enfrentou este problema logo depois que me reuni a ele no trabalho da universidade. ai. O provincial pensava que uma viagem ao estrangeiro enfraqueceria os vínculos que se haviam formado. por ele. “Athanasius Kircher. Explicamos nossas intenções para o assistente. outro idoso — gastando seu tempo limando e martelando pela glória suprema do Criador. “O primeiro projeto importante iniciado depois de minha volta foi um presépio.descendente direto do grande general jesuíta. e pouco fazíamos além de nos concentrarmos nos projetos mecânicos de Everard. Gostou de mim na hora. mas o mundo se tornou um lugar mais feliz.. um cretino que sempre procurava motivos para nos separar. Além disso. Everard. Ele me chamava de le bouget. ou a ciência seu Deus. Eu a consultava regularmente. que. Assim expressávamos nossa devoção um pelo outro. e por motivos que nunca foram completamente explicados.” “Sim. disse Claude. claro. Digamos o seguinte: a paciência e a fé são tão essenciais para um relo-joeiro quanto para um jesuíta. olhando as imagens da boca em movimento. Para me lembrar dos momentos que passamos na alcova. melhorando o mundo. ele como mestre. especialmente o desejo. E Pierre Jaquet-Droz? Estudante de teologia. Onde eu estava?”. claro. retomamos nossa amizade e nosso trabalho. intelectual e. teve a sorte de visitar o Kircherianum propriamente dito. onde o Abade se instalou na poltrona-confessionário. Eu era jovem. minha gota! Acho que precisaremos continuar a conversa num local mais aquecido. Quem deu ao mundo a lanterna mágica? Você se lembra?” “Mas claro”.. Nos primeiros meses após meu retorno. desconfiado de tanto entusiasmo. demos poucos motivos para isso.” Dirigiram-se então para a biblioteca. Um grande mecânico. “Deve estar se perguntando por que um jesuíta se preocupa com relojoaria. quase seis anos depois. O provincial estava fora. sinto que você deveria ocupar este assento. quando foi a Roma. Tratamos então com o assistente dele. Onde eu estava?” “Um certo padre chamado Mercurian. Não deveria surpreendê-lo o fato de os religiosos possuírem uma grande tradição como inventores. que como você sabe é finíssima. mas espero que não se importe se a idade preterir o simbolismo. mas. a distância não enfraqueceu nada. pronto para brincar com a religião. Mas estou me desviando do problema. Quando retornei. Eu corria para lá e para cá. este lugar me deprime. “Nos mecanismos da fé jesuítica.” O Abade prosseguiu: “Everard. físico. “Nossos problemas começaram logo depois que ele concordou em cuidar de meu desenvolvimento espiritual. Quem levou o primeiro relógio para a China? Um jesuíta. também. rápido e ávido por saber. A Companhia dos Pastores de Neuchâtel pode ter perdido um soldado.” Claude aproximou a banqueta. Então. como um dia você correu por mim. Éramos discretos. Ele costumava dizer: “Creio que Noé teria levado um ou dois dos exemplares de Kircher”. o Inquieto. cumprindo as tarefas necessárias.

. Ele prometeu: “Nosso Cristo estará pronto para o domingo de Páscoa”. Claude continuou: “... então é um Cristo piedoso que terão”. ele disse. A visão de Cristo-criança não agradou ao assistente.alguns nascendo é outros morrendo. Deu a si mesmo três meses. Você se lembra dela?” Claude e o Abade repetiram a lição do primeiro dia da segunda semana.alguns em paz e outros em guerra. Tínhamos todos os tipos de pessoas fazendo todas as coisas possíveis..... Everard tinha um apelido entre os noviços: “O Homem do Pano. aqueles na face da terra.. um pedaço de cristal de rocha engenhosamente iluminado. “Pusemos até a morte em nossa manjedoura mecânica.” “Por favor!” “ “Muito bem. Era tarde demais para consertá-lo. antes de tudo. “O presépio se inspirou nos Exercícios espirituais. fazia com que as cabeças dos Três Reis Magos balançassem. dos Exercícios. Deus... posta no prato da balança. Aí começou a trabalhar numa figura em tamanho natural. Sim ”. descobriu que o Salvador não passava de uma vela de cera de abelha.. “ “Enquanto jesuítas”. alternando as frases.”.. Quando a congregação inspecionou o presépio. disse o Abade.) Everard ficou tão furioso que no dia anterior à inauguração pública deixou cair o Menino Jesus ao pé do altar.” “. Camus e todos os outros discípulos do Grande Relojoeiro. Não poderia. Everard disse: “Se é um Cristo imbuído de piedade que desejam.. em sua imensa variedade de trajes e gestos. O assistente tentou proibir o projeto. como expressão completa dos ensinamentos espirituais de Loyola. valendo-se..alguns saudáveis e outros doentes.. seria em tamanho natural. O Abade começou: “Em primeiro lugar. Não que fosse só um mecanismo de relógio.. ver as pessoas. e para as pessoas que se encontram em tal estado de cegueira que morrem e descem ao Inferno. novamente.. Nosso Salvador mecânico seria um tributo a Kircher. e seis braços se erguessem. ou seja. na verdade.” “.. deste e daquele tipo. de propósito. apontando para uma estrela de Belém brilhante...”...alguns chorando e outros rindo. que parecem ainda mais ridículas em retrospecto do que eram na época. “ “O dia da Ressurreição”.” Como Everard justificava teologicamente sua atividade mecânica. Não vou cansá-lo com detalhes da pesquisa... (O idiota não se reconheceu na figura do braçal do estábulo. Como já falei.. “Depois vieram as críticas.” “. Fizemos uma grande homenagem à meditação de santo Inácio sobre o Reino de Cristo.. Havia muito mais coisa nele. Ele disse a Everard que o fizesse “mais piedoso”.” “.. Pode imaginar a reação..e. o modo como olham para a face da terra redonda. graças às doações substanciais de minha família. “Exatamente. ofuscado pela estrela de cristal de rocha. um metro e meio . recebeu uma espécie de alvará espiritual para trabalhar.. da Resina.. e eu estava protegido das pressões. “somos obrigados a ver e a considerar as três pessoas da Santíssima Trindade.. superado por outras maravilhas.. disse Claude.alguns brancos e outros pretos. “Depois disso. Os outros padres ficaram deslumbrados ao ver que uma moeda. “. Não seria uma cena tediosa de manjedoura. Havia gente interessada nos talentos de Everard. do Marfim e do Ouro”. mas Everard venceu. erguendo um forcado cheio de feno com estéreo.tentou nos impedir de prosseguir.

Everard não era estúpido. aos pés e aos dedos. senhor”. o provincial tinha um ponto forte de apoio. a cabeça pendeu. Os ferimentos mais distantes — os pequenos orifícios em torno da cabeça — sangraram no exato momento em que os paroquianos consideravam o milagre hidráulico completo. mas dos dois adversários do projeto: o assistente e o provincial em pessoa. e os tubos se quebravam com facilidade. Everard sugeriu um sistema engenhoso. gotas de óleo de baleia. Funcionava perfeitamente. Everard removeu o pano. Ele citou capítulo e versículo. aos braços. “O saco de esmolas da primeira missa superou as expectativas para o domingo de Páscoa.” “Everard tentou argumentar. o provincial achou que deveria levar algum crédito pelo magnífico tributo. os canais. embora não soubessem o que havia embaixo. a bem da verdade. O parafuso acionava um pistão. o hino da Companhia. “No domingo de Páscoa a obra-prima de Everard estava pronta para ser admirada pela congregação. uma tensão quase tão grande quanto a nossa. criamos um sistema vascular. Eu soltei a pressão. Ficamos só com o sangue que escorria. de volta de uma problemática viagem ao Peru. Levantou-se e cantou o A. “O sermão do provincial foi mais ignorado ainda. Espalhamos os canais desde os pés pregados à cruz até a testa perfurada pelos espinhos da coroa. “O sangue. do direito. informando que o projeto inteiro seria cancelado se os dutos de lágrimas não fossem removidos. Esperamos alguns minutos. que eram. até que as bocas se fechassem. Fomos forçados a jogar fora mais de um mês de trabalho. fechei as válvulas e O cobri com o pano — uma batina fornecida por um bispo simpático ao projeto. Sabia que o suspense garantiria metade da vitória.” O Abade fez um movimento em espiral com o dedo. O resto era muito simples. mas o provincial foi inflexível. Quando girava. expandimos os canais de sangue.de altura. Depois de muitas experiências. Um dos crentes mais ricos doou uma importância considerável para a Igreja. se bem me lembro. . devo dizer. Os olhos sem lágrimas se voltaram para o céu e para baixo novamente. ordenaram que o Cristo fosse desligado. pois os testes com sangue de porco não superaram o problema da coagulação. Infelizmente. disse o provincial. e todos os olhos se fixaram no Cristo mecânico. O reservatório era controlado por um parafuso de Arquimedes. Deve remover as lágrimas. feito de borracha das índias — tudo isso. M. quando recebemos a visita não de um. O que mais nos deu dor de cabeça foi o transporte dos fluidos. Só no começo de março obtivemos nosso primeiro teste bem-sucedido de transporte de lágrimas. naquele ano. da mão esquerda e da direita. Nada disso era muito impressionante.” “ Um detalhe não. Este fato era indiscutível: Cristo sangrara na cruz. Erguemos o Cristo mecânico para dar-lhe a tensão necessária. Estávamos confiantes. Naquela altura. a câmara se fechava e o pistão avançava. Eu girei as duas manivelas na base da cruz e soltei a pressão. — Ad Majorem Dei Gloriam. Nós O testamos. bombas de sangue e lágrimas. e o sangue começou a correr. forçando o sangue a sair pelos furos apropriados. “Os paroquianos não tiravam os olhos do pano púrpura no altar. “Uma blasfêmia. Os dois cretinos inspecionaram o trabalho em andamento. Resolvemos dar movim ento à cabeça. D. G. Primeiro ele saiu do pé esquerdo. que permitia ao Cristo rolar os olhos em direção ao Céu. inspirado. Trabalhamos durante o inverno frio. fomos chamados ao altar. Só os dedos apareciam. Recolhidas as doações. Depois Everard elogiou o meu trabalho. No final da missa. Nenhuma falha até então. numa Crucifixão especialmente sangrenta que Everard vira em Roma. aliás. ligado a um eixo. Foi aí que o provincial disse a Everard: “Cristo não chorou na Cruz”. ““Um detalhe na expressão das maravilhas de Deus. em várias condições. usamos uma tintura de cochonilha. antes que Macquer publicasse seu estudo sobre a resina de caucho. Sendo assim . No lugar do sangue.

“Mas custamos a esvaziar a igreja. Everard perdeu o fervor e a fé. “Paguei as despesas de impressão do livro. E depois esquecer. mas para ver nosso Cristo mecânico. suponho!”. A falta de interesse acabou por matar Everard. Não deveria mais ver meu mentor. arrancando sem querer a cabeça do Cristo. E. Everard tentou argumentar. Os únicos sinais da visita divina eram as manchas vermelhas que indicavam sua saída pela porta lateral. Foi aí que Everard explodiu. Ou. uma violência que deve avaliar bem. “Olhem!”. chegando até a se desculpar. A ansiedade aumentou. Durante quase dois anos. e naquela altura o sangue pingara no piso. Quando todos seguiam para a porta. Tentei cobrir o Cristo mecânico o mais rápido possível. escorreu. nunca mencionar o que era óbvio para ele. Por vezes denunciavam o frontispício. “Não sei por quê. isso não tinha nada a ver com a capacidade oratória do provincial. A atitude do provincial era digna de uma comédia anticlerical de Voltaire. O conteúdo. normalmente os membros mais inquietos e difíceis da congregação. Fomos forçados. na época estudava com os jesuítas. mas os cálculos não batiam. Passou um sermão em nós dois. As desculpas não foram aceitas. com acusações de profanação. “O sangue não parou mais. O provincial fez o sinal-da-cruz. “Tentei levantar o moral de meu mentor. Everard adquirira o péssimo hábito de Kircher. Minha punição. “Passei o resto da semana limpando as manchas do pano. “Na missa seguinte a igreja estava cheia. Ele não estava lá. posso garantir. Notou algo errado. Lucien Livre foi o único editor disposto a publicar o De Cristos Mecânica. Sabe?. ele gritou. do altar e do mármore. e saiu. O provincial disse: “Ordeno que seja destruído”. Seguindo o . Eu descobri o Cristo para inspecionar o defeito. Não para o sermão. Alguns rezaram. que. Deveria ter esperado até que a igreja estivesse vazia. Grupos de crianças. Ela rolou para debaixo da mesa. A Ordem ficou com elas. queriam ficar para a outra missa. Como era de se esperar. um garoto enfiou o nariz debaixo do pano. Fez sucesso? Não. Ele gritou: “Como se fosse um herege medieval. a remover o Salvador. “Nossa invenção não ressuscitaria jamais. publicando suas anotações para execução da obra. e preferi deixar a batina.” O Abade balançou a cabeça. em função da riqueza familiar e da idade. Nosso moto: “Cristo morreu por nossos pecados. nem um pouco. Perdeu suas ferramentas. entretanto. Disse que o assunto seria resolvido depois das missas. tentamos fazer pouco-caso do ocorrido. O provincial gritava com Everard. “Naquela noite. Devemos morrer pelos pecados Dele?”. lutamos para decifrar o que ele havia escrito. ficamos juntos. manchando o mármore do altar. a maioria em latim. mas o menino gritou: “Ele não pára de sangrar! Não pára!”. Everard reagiu soltando uma série de pragas. Quando terminei meus estudos.” Claude fez que sim. Só após o esvaziamento completo do reservatório ele parou de escorrer. Vivíamos em companhia de um grupo meio disperso de ex-religiosos amargurados. devo dizer. Everard foi expulso da Ordem. Duas semanas depois. por coincidência. mas o sangue não parava de escorrer. como anti-religioso. apontando para a mancha escura no pano. Teve a chance de censurar Everard. escorreu. porém sem muita convicção. Logo aprendia a desprezar a Igreja. entre os sermões. “A raiva de Everard me contagiou. outros agarraram os rosários. sofremos juntos. Minha penitência prosseguiria. mas o provincial não estava disposto a aceitar nossas justificativas. Mas eu não podia viver sem a orientação de meu professor. O provincial ficou tão furioso com o comentário que fez um gesto amplo. E escorreu. cuja inteligência e criatividade invejava. as contribuições para a segunda missa foram muito menores do que para a prim eira. seria menos severa. foi totalmente ignorado.

Além disso. . enquanto desenhava. Mas ela estava espalhada em diversos rolos de anotações indulgentes. Em termos mecânicos. se comparado com minhas atividades anteriores. negadas ao Cristo mecânico. “O quê?” O Abade recolocou a cometa no ouvido. Ele mostrara a última câmara de sua vida a Claude. escorreram pelo rosto do Abade. Seu Cristo mecânico precisava de um escape. e. Eu era suficientemente rico para fugir da dor. Meu plano fracassou. Uma pequena passagem para permitir que o ar fosse para a parte de trás do pistão. A pesquisa trouxe algum consolo. o trabalho era medíocre. Herdei uma caixa repleta de exemplares do De Cristos Mecânica e a sensação de desespero e isolamento. Assim como os motivos que me levaram a restabelecer os vínculos. em você. Não conseguia me concentrar. Decidi que aos poucos ensinaria tudo o que sabia. que era. As razões para a contenção da curiosidade são bem conhecidas. mas precisava de dinheiro. Para impedir a sucção descontrolada do sistema capilar. Claude só conseguiu pensar em uma coisa para dizer. a primeira. Ainda era o bouget. “Eu disse que o problema era expansão térmica. trabalhava em madame Dubois. as lágrimas. Ele fez uma pausa e falou: “Expansão térmica”. Por isso. Claude ergueu a voz. Ainda tinha energia. ele sangrou até a morte em um porão úmido perto de Dijon. Gastei fortunas em tudo o que me interessava. Era a última tentativa de mostrar os conhecimentos que a Igreja tentara suprimir. com Livre. eu suspeito. por necessidade. até que isso não foi mais possível.” Claude fez um esboço do que estava explicando. Perdera a fé na capacidade de produzir autômatos — uma fé que você possuí.” O Abade terminou sua história. Ou pelo menos tentar.exemplo de sua maior criação. “As Horas de Amor combinavam perfeitamente com a Coleção da Cortina. na verdade. Claude. vi uma chance de desenvolver talentos que nunca tive.

Eu perguntei ao proprietário o que era. uma chave. quando parei numa taberna. Faz bem em conservar o relógio que foi enviado do Oriente. de seu pai”. presa à parede. “Eis aqui. para todos exceto para a filha do taberneiro. somos diferentes. uma linguagem tão rica quanto a palavra. pelo menos. perto de Sumiswald. Na taberna havia apenas uma gaveta. como se fosse um amante nervoso. uma caneca de cerveja — representando o pai. Havia uma fita de seda. Sou perfeitamente capaz de observar. um tambor. ele disse em um momento de confidencias. como fizera tantas vezes no passado. taberneiro. uma escova e uma boneca.” O Abade entregou o relógio a Claude. vendo que a explicação não ajudara em nada. claro. Ele contribuiu para a evolução de sua área. mas não sei como encontrar. Posso me lembrar exatamente quais eram os objetos.” Ele acariciou o ombro de Claude. guarda um mundo pequeno e misterioso — misterioso. meu melhor amigo. “Fui obrigado a vender meus melhores relógios. disse o Abade. Claude e o Abade conversaram a noite inteira. e conhecia as plantas com a intimidade de um botânico. Ele me olhou como se eu fosse louco. Minha filha a preparou”. e da família também. de treinar o olho para o que quer que seja passível de observação à luz de uma chama clara e firme. “Sei que deixou. suponho. Um terminava as frases do outro. Como verdadeiros amantes. o que era mais extraordinário. “Ou será que era na lua minguante?” “Crescente. Ela lia o vale como se fosse um livro. e disse: “Ora. se liberta por meio dela. Deu um puxão na tira. . Você. suponho —. claro. Claude se expressava com a confiança de um jovem visionário. para ela. Eu me recordo como ela saía à noite.” “Sim. fora estimular a capacidade de invenção alheia. Mas. tem força de vontade.42 Depois das lágrimas.” O Abade correu dois dedos pela tira de couro presa ao colete. Nisso. Sei como procurar. embora você fosse muito pequeno para notar isso. usavam gestos que só eles compreendiam. Claude disse. Estou imobilizado pela possibilidade. como reconheceu que ouvia um discípulo cuja capacidade excedia a sua em larga medida. Mas minha habilidade termina aí. Não posso fazer mais nada de minha vida. realmente. “Era uma maneira de me ligar a você. Claude perguntou no que pensava. Claude. jorraram as palavras. que teve dificuldade em desfazer o nó. Sabe?. ao vê-lo segurar o relógio de seu pai.” O Abade fez uma pausa. Seus compartimentos estavam cheios de objetos de pouco valor.” “Eu estava tão abalado no momento da partida que o deixei aqui” . por um instante. Eu me lembro de uma vez. As raízes são mais potentes. E. Cortava e podava de um modo que provava que os movimentos dos olhos e das mãos eram. Os dois homens ficaram ligados um ao outro. Enquanto a fala do Abade era fragmentada e hesitante. um carneirinho. você é um descobridor — como sua mãe. O diálogo passou por vários assuntos. prosseguiu: “É a história da vida dela”. “precisei encarar minhas limitações há muito tempo. e se comunicavam. conhecida formalmente como memento hominem. A caixa. e passei a usar este. pensava sempre em você. é uma caixa da vida. para colher raízes na lua crescente. E seu pai — ele também era um descobridor. “Em nada importante. Havia diferenças entre os dois. Cada objeto ocupava um pequeno compartimento. se quer saber. sem palavras. “Claude”. O Abade reconheceu esta distinção. confirmo minhas deficiências.

que dominou minhas reflexões na viagem de volta a Tournay. deixe que eu termine o que tenho a dizer.” “Tempo para fazer o quê?”. entrei no laboratório. Claude disse. percorri as salas e quartos.” “A luxúria. “Para fazer o quê?” Claude parou. ou que Livre com seus livros preciosos. “Vou explicar o que podemos fazer. logo que me adaptei ao ritmo da mansão. conde de Tournay.” “E daí? Não afirmou certa vez que o engenho. disse Claude. “Não consegui nem montar uma caixa da vida para mim. afinal? E temos muito tempo ainda. de que a reflexão pode distorcer a imagem”. “Está desprezando as virtudes da luxúria enciclopédica. mas forçá-lo a reconhecer as qualidades que se nega a ver. Aprendi. O mesmo vale para o meu caso. Quem fez iss^o. na correspondência com um malacologista holandês. eu estava errado. organizando seus pensamentos. Mas. Durante uma semana. “Chega de interrupções. A velhice dá tempo para a meditação. fórmulas. a vida inteira. “O fato é que eu preciso de sua ajuda. “não é vencer a discussão. mas certamente dera a entender isso.” Claude o interrompeu. Suspirou audivelmente.” “Minha visão tem falhado nos últimos anos. Tentei. Talvez seja verdade que não tenha conquistado o que sonhava. Tem o dom da instrução. como disse.” “Eis aí uma declaração estranha para um homem que renunciou à noção de pecado e abandonou a Igreja desiludido. Nunca sozinho. na biblioteca. tenho certeza. é um pecado. Meu falso pressuposto é sintomático. .” “Bem.“Fiquei intrigado com o conceito. mesmo isolado.” “Não estava. passar de uma sala para outra. Sempre considerei a variedade de suas paixões algo estimulante. “Sim. Por favor. é um ato de colaboração?” “Eu disse isso?” Claude não se lembrava se o Abade proferira a frase. abade. o esboço de um plano secreto havia muito acalentado se revelou. Descobri que não sou melhor do que Stámphli com seus vidros preciosos. Tudo o que fiz até hoje foi feito em parceria com alguém. e preciso de seu saber abrangente.” “Touché. quando olhei para os itens. fui forçado a admitir uma verdade amarga na vida de Jean-Baptiste-Pierre-Robert Auget.” “Minha meta”. dada a suprema importância que conferi àquela criatura de perfeição helicoidal. cavaleiro da Ordem Real dos Elefantes.” “Tive um professor que me preveniu. Claude disse. certa vez. que as câmaras do náutilo não se ligam umas às outras. Havia tantas idéias. preparar uma caixa da vida para mim também. Chega de metáforas para minha vida. imagens e objetos competindo por um lugar que eu precisaria de uma dúzia de gavetas para acomodar minhas predileções superficiais. de seus conhecimentos. retrucou o Abade.” Finalmente. Preciso de suas opiniões originais. Resolvi.” “Chega de autocomiseração”.” O Abade tocou os Nurembergs. Minha metáfora é pobre. mas adequada.” “Estava. perguntou o Abade. pegando objetos com significado pessoal. e não pude.” “Mas e quanto à construção?”. “Sempre foi cego para seus talentos como professor.

Não escolhemos nossas metáforas. “Devo corrigir uma observ ação que fiz certa vez. eu o porei em contato com as mentes e mãos mais capacitadas da Europa.Era estonteante. . “Não”. Molhou os lábios enrugados com mais um gole de Tokay.” Ele parou para dar um tom dramático ao epigrama modificado: “Nossas metáforas nos escolhem”. fantástico — Claude encarnado. Os olhos embaçados do Abade piscaram como não piscavam havia muito tempo. Eu estava errado. Ele contemplava os sonhos de um jovem. Há muito tempo. “Precisamos repassar o rolo e elaborar uma lista. eu lhe disse que devemos escolher nossas metáforas. pode confiar nisso. Claude corrigiu. “Nós conseguiremos!” O Abade limpou o nariz na manga.” Fez uma pausa. filosófico. O professor adormecido dentro dele despertara.” O Abade baixou os óculos e apanhou um rolo empoeirado onde guardava os endereços de seus correspondentes. ambicioso. “De qualquer maneira. Elas o ajudarão. e disse: “Você conseguirá construí-lo!”.

que incluía a recente descoberta de Herschèl. que não tinha nada a ver com o Tokay. Embora faltassem muitos livros bons. Um comerciante arrematou tudo. O Abade não podia mais aceitar as curiosidades encontradas pela população local. nos dias de reunião acabaram. quem contou a Claude que a mansão passava por dificuldades. irei para Paris. Depois revelou seus planos: “Você me deu o incentivo necessário para reagir à decadência”. O contador tentou até vender o pára-raios como sucata.” Mais tarde. tampouco”. além das melhores peças da coleção de conchas. e noutra pilha o Berthoud gasto. o planeta Urano. que cuidava de um caldeirão solitário borbulhando no fogão. Não preparo mais refeições de verdade. encontravam -se agora numa livraria de Genebra. pelo menos aqueles que podiam ser vendidos. o Abade confirmou os comentários ouvidos por Claude. Oculto sob uma pirâmide abandonada. encontrou o Battie sujo de sopa. Ela apontou ambiguamente para Marie-Louise. que faria uso intensivo da biblioteca da mansão. a quarenta léguas dali. os pés enrolados em seda untada e lã. Resolveu. Claude fez descobertas animadoras entre os refugos e a poeira acumulada. mas ninguém quis comprá-lo. E as cores! Todas empacotadas em barris e despachadas. “A única coisa que não mudou foi a cozinha”. Depois foram embora a bomba pneumática e o cravo. Tomarei providências para a venda de Tournay. naquele dia. A dispersão dos estoques tornou Henri uma lesma mais lerda ainda. e fazia exigências conforme sua tabela de lucros. afirmava. Olhe só para isso!” Estava desconsolada ao destampar o caldeirão para mostrar o caldo de carne.” “Eu não diria isso. se desejar. ou do que restara dela. (O Abade disse a certa altura que Henri se tornara a prova ambulante da lei da inércia. as perdas quase não foram sentidas. a ajudante de cozinha. O contador controlava os aluguéis. As atitudes complacentes.) As mudanças foram sentidas além dos limites dos portões espiralados da mansão. O Abade se livrou de seis vitrais coloridos — uma cena da Adoração — e da mobília entalhada que não fora modificada para uso na oficina da capela. para decorar um castelo comprado junto com um título de nobreza. Primeiro perdeu o maravilhoso novo planetário de Londres. “Se me quiser. “O contador”. Relendo aquelas obras. “A gota não traz felicidade para ninguém aqui. e recursos para financiar seu trabalho. “forçou o Abade a vender seus bens. mas acabou aceitando a oferta. Os livros mais valiosos da biblioteca. disse Catherine. “Nenhuma visita. embora bizarras.” “Bobagem. identificou em sua mente . “E um homem muito generoso. conhecido como Georgium Sidus em homenagem ao rei Jorge m. o velho amaldiçoava a inflamação de suas juntas. disse a cozinheira.” O solo congelado. como Claude suspeitava.43 Foi Catherine. para venda em consignação. Com o dinheiro obtido com as propriedades conseguiremos acomodações para mim.” Claude resistiu. e da casa de sua família.” “Tão generoso que não admite o fato de sê-lo.” No começo. Eu estou levando a melhor nesta história. Mas as vendas seguintes provocaram dores maiores. durante a espera. e abraçou o Abade. Sentado ao pé da lareira. disse a Claude. enquanto Piero consultava a biblioteca. pelo menos aqueles não rabiscados pelo Abade. “As coisas não são as mesmas aqui. explicou enquanto aquecia os pés perto do fogão. impediria o enterro das vítimas do incêndio até a época do descongelamento.

e. Ao sacudir os livros. com a ajuda do professor.” O Abade espirrou forte. o califa e seu vizir conversavam sobre engrenagens. Não que fosse um leitor ávido. Embora as discussões iniciais de Claude com o Abade fossem genéricas. durante o período de espera do degelo. você faça uma viagem de descobertas. Muitos livros eram menos importantes agora. mas não totalmente inadequado aos domínios que pretendo que você explore. eu sei. disse o Abade. . e passou o resto da tarde reclamando da gota. elaborou um plan d”êtudes. organizando as pilhas abandonadas. Mas o Abade usara os tomos mais grossos para preservar espécimes dos insetos do vale.uma mistura de antecipação e impaciência. Amanhã definiremos o itinerário. mal sabia ler. ele logo impôs um certo rigor. “que. Um termo náutico. “É imperativo”. Decidiu se limitar aos rolos de anotações do Abade. Piero encarregou-se da biblioteca. Piero encontrou uma multidão de borboletas e mariposas. Enquanto ele se dedicava às pesquisas com os lepidópteros.

ou a celadon trazida da China pelo conde de Katzenelnbogen. em seguida. Claude perguntou depois. respondeu o Abade. “Talvez já tenha morrido. “Está perfeitamente claro”. Se Basel é Basel — e com certeza é — e se os Bernoulli são os Bernoulli — com certeza são —. Não. então os papéis terão sido meticulosamente guardados e indexados.” O Abade esfregou as mãos. “Leiden seria perda de tempo. evite a ridícula coleção de marfim! Terá muito o que fazer no local. para lá do Bósforo.44 Bernoulli?”. endereçaremos nossa carta ao OberhofmarschaHNúxhám. Uma parada essencial. tentando decifrar a caligrafia do Abade com uma lupa improvisada a partir de uma lente encontrada na capela. embora ele mesmo tenha franzido a testa durante algum tempo até decifrar triunfal-mente o texto: “É o Kunstkammer dos landgraves de Hesse”. ou consultar todos O”S conhecidos do Abade. O Abade. “Kassel ganhou seu alfinete”. Kassel. por favor. mantinha. visitar todas as cidades citadas. Cerca de meia dúzia de outros centros de saber. Piero. Obviamente adorava desempenhar o papel de navegador intelectual. a viagem já não era tão . Talvez até aprenda algo. “Qual é nosso próximo destino?” “O professor Lunt.um monte de alfinetes na mão. disse o Abade. O entusiasmo renovado do Abade o levou ao exagero. Pelo menos era Dõring.” Piero espetou um alfinete num mapa da Europa aberto à sua frente. percorreu o rol dos correspondentes. Kratzenstein. “Conhece-os pessoalmente?” “Se os conheço? Claro que sim.) No final. Claude disse com certa reverência. na ponta da mesa de tábua. lupa na mão. eram representados por saleiros (Esmirna e Bagdá) e vidros vazios (portos do Extremo Oriente).” A lista de locais tomou grande parte do dia. “Fica em Kassed?” “Em Kassel. Quando terminaram. o desenhista e o escritor. Meu conselho é não se deter muito na parte mais famosa da coleção — a espada de Boabdil. sem dúvida. em Leiden?”. percorrendo as salas onde ficam os modelos mecânicos. Marque Amsterdam.” “Vamos passar para localidades próximas a Tournay. Neuchâtel e La Chaux-de-Fonds. deve homenageá-los. Vá para Basel. Jaquet-Droz e Leschot”. Claude. para marcar rapidamente os pontos. Providenciaremos uma visita especial. Creio que seu nome é Dõring. Onde mais? Marque Kassel. para Claude. E. por outro lado. Claude. Kriegeissein etc. Pouco passavam de mecanismos de relógio melhorados. sentado na poltrona-confessionário. A coleção Ruysch. “Claro. disse Piero. Pode marcar. mas seus papéis ainda estarão por lá. Von Knauss. — levaria mais de um ano para ser completada. dava instruções. Seria impossível. Bernoulli”. Escreverei uma carta de apresentação ao inspetor. por favor. sem muita imaginação. Mesmo assim. Fomos apresentados quando excursionaram com o músico. Claude perguntou. a santíssima trindade dos autômatos exageradamente elogiados. sugeriu Claude. debruçado sobre o mapa da Europa. hidráulicos e hidrostáticos. (Só a letra K — Von Kempelen. Piero. Não há razão para visitar os apóstolos de Bõrhaave. diga-se. As virtudes de seu projeto matarão as construções deles de vergonha. vale a pena visitar. cinqüenta alfinetes minúsculos haviam sido espetados no continente e em locais do Sul da Inglaterra. melhor ainda. “O que é isso?”.

descrevendo problemas técnicos específicos sem revelar o caráter geral do plano. Só restaram os alfinetes dentro das fronteiras da França e Suíça. que anunciou. usando um cinto de couro onde guardava roupas. “Suas explosões nasais são mais fortes do que o famoso vento local no inverno”. parece mais um viajante enlouquecido. pena. liberando-o dos horários dos transportes normais. comentou o Abade na primeira conversa. A Inglaterra foi eliminada. O cocheiro chamou a roupa do Abade de ridícula. continuariam sendo “apenas nomes e mais nada. o que. e no final acrescentou como quem não quer nada: “Podemos oferecer o pagamento normal. pois a interceptara perto de Lyon. Por três dias. Paul Dome entrou logo no espírito da mansão. Sua barriga e seu sorriso confirmam isso. Adicionou um certo equilíbrio — um certo “peso”. segundo o termo usado pelo Abade — ao projeto. “e insistir para que ele cuide do transporte nesta viagem. no itinerário final: Neuchâtel e cidades vizinhas. Conheço um método mais barato de atrair sua atenção. afirmou o Abade.” O Abade socou o cocheiro no estômago. e os maços de correspondência internacional foram entregues ao carteiro. aconselhou o Abade. “Troque de colete. A amplitude da viagem foi reduzida. perguntou o cocheiro sorrindo. aliás. Basel e vilarejos numerosos demais para citar. já basta”. Talvez se dobrarmos seu salário ele concorde”. Sob orientação do Abade. “dão estabilidade aos desatinos juvenis de Claude e seu amigo Piero. pode nos levar a Paris. Alguns especialistas seriam contatados pelo correio. cartas!”. Passaram quase uma hora zombando um do traje do outro. “Precisamos manter o projeto em segredo. disse o Abade. Claude escreveu carta após carta. “Quem sabe.” Os dois cimentaram sua amizade em muito mais do que a admiração óbvia por Claude.ambiciosa quanto os alfinetes no mapa indicavam. e facilitará os contatos. além da sopa de cabeça de javali de Marie-Louise e um estoque razoável de peras-madalenas em calda”. Os dois compartilhavam a crença nos princípios psicológicos de Epicuro (ambos adoravam comer). “Isso não será necessário. O cocheiro chegou a Tournay com Lucille e uma parelha reforçada dez dias depois que a carta foi posta no correio.” O Abade mostrou uma estampa de Lineu ao voltar da Lapônia. “Homens maduros como nós”. um possível fator de distanciamento. Claude só conhecia um dos envolvidos pessoalmente. que fascinavam Claude desde a infância. uma vítima perfeita para o contra-ataque do Abade. como este tal de Claude Page escreve. provocou o cocheiro ao ouvir o espirro do Abade. o odor de lacre marcou os esforços epistolares de Claude.” “Veja só quem fala.” Claude escreveu uma carta curta. O itinerário reduziu-se pelos imperativos de tempo (a imprevisibilidade do degelo) e as limitações de fundos (as despesas previsíveis numa viagem ao exterior). Mas eu não sou uma lei aerostática ambulante”. tinteiro. Economizará um bom dinheiro. Paul Dome”. e desista destes panos franzidos. disse o Abade. “Como é que é?”. Roma e seu Kircherianum nem pensar. Os centros comerciais da Turquia. o círculo de pesquisa restrito. e se divertiam com jogos verbais (principalmente trocadilhos). “Precisamos contatar este cocheiro seu amigo. Depois disso.. Com tantos objetos pendurados na cintura.. disse o Abade. Mas Claude controlou a habitual extravagância de seu mentor. e os dois gargalharam. “Negociar com a burocracia papal levaria a vida inteira”. até que se torne impossível ficar em silêncio”. retrucou o Abade. As atrações gastronômicas garantiriam a visita. Amsterdam também. . “Mas você não a conhece? A capacidade de levitação cresce exponencialmente com o tamanho. para quem quisesse ouvir: “Puxa.

microscópio e lente de aumento. . Espero que Marie-Louise não tenha se esquecido de como se prepara um. brindando com mais Tokay. pães crocantes e um enorme salsichão com alho. esqueça a gota.” “Tive uma idéia. “Mas não todo”. Formavam agora um time. A venda da propriedade tomaria a maior parte de seu tempo. oferecendo muito mais do que a tão esperada sopa de cabeça de javali e as pêras. para você. meu companheiro de sofrimento?” “Banhos com enguias elétricas?” “Não.” Com isso.” “Um banquete?” “Por que não?” “É mesmo. retrucou o Abade. Só Henri ficou de fora das demonstrações de entusiasmo. certa vez”.” “Madame Page preparou um pouco. velho. e inspecione o veículo de minha loucura.” Marie-Louise não se esquecera. mas também o cocheiro e Piero. piscando para Piero. sentado em silêncio.” “Nunca neguei que sou louco”.” “E iodo?” “Também não adiantou nada. A refeição terminou com uma imensa tigela de madalenas acompanhada das conversas alegres que se seguem ao consumo excessivo de comida e vinho. Inútil.” “Eu também. disse. Serviu caldo de urtiga. Piero avisou aos outros que não teria problemas para se ocupar na ausência de Claude. “Agora levante-se. O que devemos fazer. O Abade também disse que tentaria se manter ocupado. conversaram sobre doenças. segundo o Abade.” “Concordo.” Acomodados no coche. por que não? Ótima idéia. “Misturou pinhão moído. “Tentou pó de Portland? Paguei uma fortuna por um bocado. embora a posição social negasse ao cocheiro o direito de chamar suas indigestões de doença. Os quatro homens fizeram votos de lealdade uns aos outros. A cozinheira superou suas limitações. enigmático. que incluía não só o Abade e Claude. “Esta é a carruagem que conduzirá Claude a glórias ainda maiores. liquidando os restos com um cuidado digno de “Soufflot quando escavava o Paestum”. Ele piscou para o Abade. a túnica de couro de rena. “Só falta. Prefiro comê-las. O cocheiro elogiou entusiasmado os pratos. folhas de genciana e um ramo de aristolóquia. voltado para um plano embrionário porém ousado. apresentou Lucille ao Abade. disse o cocheiro. isolado dos outros.

) Quando finalmente chegaram a Neuchâtel. e aproximou-se do balcão envidraçado. para viajar de Basel a Neuchâtel. Os gritos de boas-vindas iniciais foram substituídos por descargas de chumbo. Estas pequenas aberturas costumam dar em bancadas onde mãos ágeis produzem mágicas humildes e inesperadas. que a disposição dos moradores da região fora registrada no doce mais popular. acrescentou o cocheiro. Dali. O cocheiro comentou. As cidades maiores ocultavam desapontamentos ainda maiores. trincos de janelas em forma de anjo. em certos casos. por um parente mal-encarado. depois dedicaram-se à elaboração de cardápios imaginários. “Aprendi a ficar de olho em “janelas de relojoeiro” na face norte das casas mais simples.. Ele disse: “As pessoas precisam compreender a natureza antes de tentar a construção de artefatos” “. Fora das comunidades onde o nome do Abade era conhecido e respeitado. Claude tirou seu caderno de anotações. O proprietário disse que poderia ir embora. escapos. que os papéis que desejava consultar não estavam disponíveis. mas reclamou da acidez.. concluiu o cocheiro. modéstia. O Velho Antoine ficou cego. Valiosos porque os fazendeiros. A coleção Bauhin era grande. se não tivesse apreciado o vinho. que passavam o inverno produzindo relógios toscos porém engenhosos.) A carta prosseguia: “Houve momentos tristes e frustrantes na viagem. resmungando..” (Claude foi avisado para não incluir informações importantes na correspondência com os amigos.. com hostilidade. Já se sabe quem sugeriu esta distração. onde ficou sabendo. apesar da deficiência. conforme o plano. Durante o primeiro passeio pelo centro da cidade. calçadeiras delicadas nas portas dos prédios. valiosos. Na rue des Halles topou com uma taberna da Renascença. Claude era recebido em silêncio.” “. O cocheiro uniu-se a ele. ofereciam poucas informações verdadeiramente úteis. severa. enquanto comia um biscoito. Em Basel. criavam soluções que Claude poderia utilizar em seu projeto. ou.. fivelas. pior ainda. Claude levou sua carta de apresentação diretamente para a residência de Bernoulli. “São um modelo de dedicação. mostrou como obter inspiração nos fenômenos naturais. um creme de baunilha conhecido como “papo de seda”. observando a praça. Jogaram cartas até que os dedos endureceram com o frio.e tédio”. para experimentar o vinho local. fechaduras complicadas..45 As primeiras escalas da viagem foram feitas nas residências humildes do vale. Claude ficou impressionado com as demonstrações de engenhosidade: fontes elaboradas. Teriam três dias.e vinho”. Na época em que a primeira carta chegou às mãos do Abade. Mesmo quando os habitantes locais se mostravam generosos. Nas cidades onde Claude esperava encontrar mais assistência — localidades famosas por abrigar magos da mecânica — não recebeu ajuda alguma.” “. pregos. “Os moradores de Neuchâtel são famosos pelas rendas. Bom-dia. Os Euler foram ligeiramente mais atenciosos. mas caiu uma tempestade. Mas. Mostraram a Claude um epidiascópio empregado no estudo de corpos transparentes e opacos. Agradáveis porque os visitantes recebiam alimentos e dormiam em camas macias de feno. as tristezas e frustrações mencionadas aumentavam a cada dia.. . estavam cansados e famintos. Claude e o cocheiro ficaram presos dentro de Lucille por mais dois dias. “Temos encontrado pessoas muito hospitaleiras”. escreveu Claude na primeira carta ao Abade. mas medíocre.. onde os contatos do Abade se mostraram agradáveis e. Claude leu alto um guia que destacava as atrações do principado. frugalidade. Ficou.

As notas eram magnificamente ilustradas.” O cocheiro. Embora ainda faltasse muito para ver. O rio transbordou. a chuva e o granizo indicavam o início do degelo. “Mas soube que era uma obra-prima. Em conformidade com a má sorte. reconhecendo o significado da chuva. O artesão. concordava com Claude. recebeu de todos a mesma resposta: “Estou muito ocupado”. “mas. “Aceito que Droz seja capaz de vender o mistério”. (Seu lado francês. a terra era macia sob os pés. ultrapassando as margens barrentas. E. um Moisés. a expressão usada foi commerce de création. concluiu: “Não há nada de dourado nesta cidade. atrás do imponente Collegial. Percorrendo os relojoeiros do Velho Testamento (dois Ezequiéis. Um velho especialmente devoto sugeriu que Claude ouvisse os sermões de Guillaume Farei e pedisse ajuda a Deus. Ainda conservava as notas. deve estudar a obra inicial de Vaucanson. para ver a verdadeira criatividade. foi pior.) Depois de procurar um pouco. na época em que era artesão itinerante em Paris.Naquela noite conseguiram alojamento por um preço razoável.” Assim começou o maior sucesso das pesquisas de Claude.” “Então eu o ajudarei. logo que acabou de mostrar a Claude um método para modificar um excêntrico convencional para expandir as possibilidades de movimentos diferenciados. Claude olhou pela janela. explicou como copiou os projetos de Vaucanson quando teve acesso a eles. disse o sujeito. Neuchâtel seria o último alfinete do itinerário. Queriam .” Ele ajudou Claude sem hesitar. um mercador de jogos mecânicos chamado Perec entrou na loja. Depois outra. enquanto o cocheiro e Lucille paravam na entrada lateral da taberna. disse. em francês germânico. uma águia capaz de bater as asas e um estorninho que abria o bico e entoava uma melodia. No mínimo. mostrou três folhas que detalhavam o mecanismo oculto sob as placas de cobre cinzelado. negociavam um autômato com o rei da Espanha. e decidiu recompensar a boa vontade do artesão fazendo um desenho. Na metade da execução do desenho — uma hoste de anjos libertando-se das fechaduras — uma pedra de granizo do tamanho de uma noz bateu contra a janela. Claude não teve acesso a suas oficinas. Claude precisava voltar para casa. e do Leão Dourado. “Você não teria visto muita coisa”. de modo que seguiram para Le Locle e depois para La Chaux-de-Fonds. Uma chuvarada inundou a cidade. um Jonas. em uma casa de estudantes. sabendo que o pessoal do povoado estaria reunido lá. Claude não se encontrou com Jaquet-Droz. Depois de experimentar a cozinha insatisfatória do Maçã Dourada. Claude saiu da cidade mais animado. e mais uma. (Seu lado alemão.) Claude ouviu atento.” “Eu gostaria muito. fora os preços”. por suas próprias razões. nem com Leschot. falando lentamente. De volta a Neuchâtel. três Daniéis e quatro Abraãos). Claude mandou a segunda carta para Tournay. Um assistente informou que eles estavam viajando. O degelo já havia começado quando chegaram a Tournay. “Nunca vi o pastor”. Claude seguiu direto para a igreja. “Sei agora por que as fechaduras impenetráveis são a especialidade do principado de Frederico. Claude dormiu cheio de esperanças de que Neuchâtel fosse melhor do que Basel. Em La Chaux-de-Fonds encontrou um artesão que auxiliara na construção do escritor de Jaquet-Droz—Leschot. Ele se intrometeu na discussão descrevendo as figuras que vira em Augsburgo: uma zebra que mexia os olhos. Claude balançou a cabeça. ele foi para a taberna favorita e se acomodou no ponto de sua preferência. enquanto o artesão explicava aspectos dos projetos do pato e do tocador de flauta.

A carne queimada de madame Page fora coberta por camadas de velino.um enterro imediato. o cumprimentaram e abraçaram. O Abade agradeceu a todos os empregados que. Encerrou o discurso do Abade e o culto com um estalo das mãos e um sorriso. O Abade disse que continham respostas a inumeráveis questões: o preço das encomendas de porcelana em Dresden e dos vidros da Saxônia. “O fogo é uma besta flexível. em homenagem a seu talento. Vendi tudo”. Após uma hora de viagem. Claude aproximou-se dos caixões. A mansão não mais me pertence. O Lesma correu numa velocidade extraordinária para alcançar o coche. Claude pôs a cabeça para fora do coche e viu um homem que corria alucinado. com fardos cheios de ferramentas. segurando o que parecia ser um bastão. Padre Gamot limpou a garganta e disse o que os padres costumam dizer nessas horas. O que não deu para consertar ficou escondido pela delicada renda que emoldurava seu rosto. “O ex-clérigo agora é um ex-conde também”. Claude notou um objeto de formato estranho entre . Correu o boato de que haveria comida e bebida à vontade. e seu efeito é dar força. O Abade acabou com as ilusões: “Lamento. mais fortes. fitou a mãe. meia dúzia de vidros de pêras em calda. reduziu a marcha e observou Lucille e seus passageiros afastando-se de Tournay. Lucille foi carregada às pressas. Entre os metalurgistas. Ele tomou posse tanto da mansão quanto da casa de Page. O contador negociara as diversas autorizações com as diversas autoridades envolvidas. Não sou mais o conde. Houve um pequeno tumulto para ver quem iria carregar os caixões de madame Page e suas duas filhas. O cheiro da putrefação já competia com o do incenso que queimavam na igreja. O gesto levou os presentes às lágrimas. A comunidade inteira a conhecera bem. Claude colocou em seu caixão uma fieira de cogumelos secos. O choro na igreja logo deu lugar ao som dos pregos martelados nos caixões. chama-se a isso temperar. em infusões para doentes e pessoas nervosas. Durante um minuto interminável. A outra metade estava prometida para Claude. A venda se realizara na ausência de Claude. Preparara ungüentos com pétalas de margaridas. Claude mostrou-se ansioso para ler todas elas. A família Page foi enterrada sob o grande teixo que Claude um dia enfeitara com ratos do banhado. e arrumou o leque nas mãos de Fidélité. um dos rolos do Abade — para Claude. Diminuiu a distância até conseguir passar o bastão — na verdade. O cabelo queimado. antes que o cortejo se dirigisse ao cemitério. A face fora maquiada. Os corpos estavam próximos como os pesos numa balança de ourives. com um remédio feito de heléboro. Ele virou o mu-mu de Evangeline pela última vez. O Abade investiu metade de seu dinheiro em uma pensão vitalícia. Repentinamente se deu conta de que alguém — Piero — cuidara dela. comentou irmã Constance. A comunidade religiosa comemorou discretamente. por sua vez. uma carta longa e cordial de um plantador de junco em Languedoc. Claude gritou chocado. Usara dentes-de-leão para muitos outros fins.” Padre Gamot sentiu-se abalado por este discurso pouco ortodoxo sobre a vida e a morte. além da salada. para quem tinha problemas na vista. borboletas secas e respostas das cartas enviadas antes da viagem de inverno. Não tenho dúvida de que nossa tragédia tornará suas vítimas. e assim por diante. Talvez a cena mais inesperada tenha ocorrido quando Lucille cruzava o portão. Tendo feito isso. “Henri!”. Depois o Abade falou. cortado e substituído por uma peruca. Tratara de metade dos cavalos do vale. tanto as que partiram quanto as que ficaram. Aqueles que pereceram na noite fria da tragédia passaram por um momento de muito calor e frio. Um grupo considerável dirigiu-se à mansão para expressar as condolências.

Trate-o com cuidado. tome cuidado. Claude tocou o estômago do cornopardo. . no caminho de Paris. Tinha quatro palmos de altura e estava preso a uma base de madeira. Por favor. “Isso me lembra o instrumento sexual estampado no Prazeres de um pervertido”. Claude. “O que é?”. preveniu o Abade. Claude sentiu-se insultado com a reprimenda. “Não sou um curioso qualquer. disse o Abade. disse Claude. “O que é isso?” “Um projeto que Piero e eu desenvolvemos enquanto você estava fora”. Nós o fizemos na sua ausência. “Descobrirá em breve.” E leu o texto em voz alta. Piero não agüentou. “Não o toque”. saindo do meio das costas.” “Há alguns itens que podem ajudar imensamente em seu projeto. Como o nome sugeria. disse o Abade. O Abade foi evasivo. Não respondeu. Claude perguntou novamente.” Piero e o Abade olharam pela janela enquanto a carruagem entrava na República de Genebra. Só conheço um homem na região que os possui. mas na verdade era a presa de um narval.” “Isso não é uma criatura qualquer.” “E quem é ele?” “Tudo na sua hora”. “Parece que se move. que teria pertencido a um unicórnio.” “Onde vamos parar?” O Abade olhava fixamente para os campos. embora animado. Claude insistiu: “Pelo menos diga o que é”. Será trocado por alguns materiais importantes. batendo com sua cometa acústica o chifre que se projetava da embalagem de musselina. “Ainda não percebo por que não me contaram para onde o levamos.os fardos. “Concluímos que o chifre em cima do nariz seria muito convencional”. nem por que Piero gastou tanto tempo nele.” “Um o quê?” “Ele já disse. “Um cornopardo.” Claude removeu os panos e olhou para o animal. Claude aproximou-se para inspecionar o pacote. Não tinha o talento para guardar segredos que caracterizava o Abade. disse o Abade. repetiu o Abade. ficou perplexo com o segredo guardado pelos amigos. O Abade sufocou um sorriso e disse: “Isso não me surpreenderia nem um pouco”. a criatura tinha um chifre e manchas no pêlo. “Preparamos um relato da descoberta do animal. O que o tornava mais curioso ainda era o chifre. um cornopardo”.

afinal?” “Contaremos quando tudo terminar. tirariam do cirurgião o que o cirurgião havia tirado deles. não comentamos nada com você. Um a um. para que pudesse ver o resultado da punição. Ele também pensou em um modo mais rude de fazer justiça. Esperará do lado de fora. Piero e eu negociaremos tudo. Deixaria um olho em Stãmphli. sozinhos.” “ Você não abrirá absolutamente nada. Perdoe a expressão. é “Não. furioso. a argumentação dentro de Lucille ia e vinha como uma peteca. A cena terminaria quando Claude colocasse a mão do cirurgião.” Claude ficou quieto. O Abade interrompeu a meditação ressentida de Claude. Orelha por orelha. “Genebra concentra. obrigar o cirurgião a beber o líquido dos vidros onde conservava seus espécimes.” “Não pode. então? Por que tanto segredo? Mais uma câmara oculta. Por exemplo. vamos ver Adolphe Stãmphli. uma denúncia que culminaria com a exibição da mão aleijada de Claude. com Paul. mas para que reabrir velhas feridas?” “Sim. os fregueses da taberna serviriam de carrascos ao veredicto de Hamurabi. “Pelo menos. deixe que ele vá com a gente. uma condenação devastadora perante um juiz em Genebra. “Sim.” Piero intrometeu-se.” “Stãmphli?” Claude teve dificuldade em acreditar. Alguns esquemas eram puramente verbais. imaginado no interior escuro e fétido do Cão Vermelho. “Permita que ele testemunhe a ruína do cirurgião. um dente por um dente. o acusado deve sofrer a punição de um olho por um olho. Tivera tempo de sobra para refinar seus atos de retaliação. Por exemplo. Não vai abrir nem a porta da casa do cirurgião. falou o Abade. “Precisará confiar em nós para a retribuição merecida por ele.” “Posso. o meio pelo qual os horrores foram cometidos. Quem vamos encontrar. como já disse. disse o Abade. Claude. Claude afirmava: “Por minha decisão. concordo com sua . Se quer mesmo saber. para horror do tribunal. para quê? Podemos abrir novas.46 “Para que vamos parar neste lugar miserável?”. “Não disse coisíssima nenhuma. recordando suas antigas estratégias de vingança. dedo por dedo.” isso?” “De quem se trata. o contador?” “Não.” “Não farei isso. “Sua amargura arruinará nosso plano”.” Sentia pena de Claude. o material necessário a nosso projeto”. um dedo por um dedo”. Enquanto Claude agia como juiz e júri. “E que plano é esse. Em outro momento. Por isso. Claude perguntou. Entrarei na casa do cirurgião junto com vocês.” Enquanto o cocheiro percorria as ruas da cidade.” “Se Claude prometer não falar nada durante a visita. na guilhotina de cortar pão da taberna.

Creio que uma semelhante pode ser encontrada em Viena. podemos conversar. sensibilidade e estilo do autor. elogiando exageradamente a perseverança. Tenho uma coisa que certamente aumentará sua coleção. Quero muito. A conversa passou para uma pedra no rim de um camelo. confirmou o cirurgião. se é que havia algum negócio para ser fechado. “Estou aqui para renovar nosso relacionamento comercial.” Claude aceitou relutante as condições impostas para sua presença no local. “O paciente a carregava desde o sítio de Lille. Para Claude. “Proponho que meus assistentes peguem o que precisamos de sua coleção. em um estado de entusiasmo pouco característico. Os dois entraram com o cornopardo. em Flandres.” “No que diz respeito a descrições.” “Realmente? Muitíssimo interessante.” “Ah. disse o Abade. nada no aspecto do cirurgião se modificara: o mesmo ar de pedra. Quatro onças. Poucos homens de ciência — poucos homens de qualquer ramo — conheciam a Arte da cistotomia.” “Duvido que minha coleção possa se beneficiar com qualquer coisa existente no seu vale”. Stâmphli discorria sobre uma bala de mosquete removida por meio da operação de Cheselden. O Abade preparara uma estratégia diversa. o mesmo manto negro proclamando sua sombria união com os anciãos da República. Mas ele precisa prometer silêncio. apenas duplicatas das quais não precisará. eu quero. foi a melhor saudação encontrada pelo cirurgião para recepcionar o Abade. um rosto vagamente familiar. não está sendo muito preciso. se quiser. Enquanto isso. Vou perguntar de novo: o que é?” “Tudo a seu tempo. “Mas quanta surpresa em vê-lo”. Piero e Claude vasculharam as salas onde as coleções eram guardadas.” “Então conhece meu livro?” O cirurgião ficou lisonjeado. onde se via o mapa do globo. disse o cirurgião. na medida inglesa. os mesmos modos rígidos que exibira na noite do ataque da Viúva Vingativa. “Mas entre.” “Não! Na medida inglesa?” “Sim.presença. “O que gostaria de trocar? E o que pretende levar?” “Trata-se de um exemplar extraordinário. enquanto esperamos o retorno de meus ajudantes. Vamos conversar mais um pouco sobre a Arte. que recebi há menos de seis meses. “Quem não conhece?”. . O cirurgião mostrou-se ansioso para inspecionar o espécime e fechar o negócio sem demora. seguramente. Devo dizer que há muito gostaria de cumprimentá-lo pelo excelente trabalho de ilustração em sua obra-prima da medicina. sete grãos.” O Abade pediu que Claude e Piero trouxessem o objeto envolto em musselina. verrugas e outros temas muitíssimo interessantes. e o cirurgião encarou Claude. Verá o que é a seguir. sim ”. Enquanto eles recolhem o material. Escurecia quando o Abade aproximou-se e bateu com a aldraba — um punho cerrado segurando uma bola — na casa de Adolphe Stámphli. e compararemos os elementos de troca.” Depois de meia hora de elogios. Stâmphli não se conteve mais. “Faz muito tempo”. “Eu a uso como peso para papéis. meu caro Abade. Poremos tudo na mesa. retrucou o Abade.” E o cirurgião discursou sobre cistos. Enquanto interrogava Stâmphli sobre o trabalho.

Havia nada menos do que sete ratos trocadores. principalmente quartzo. Anotações adicionais no rótulo indicavam que a verruga. Encontraram o último item da lista — o interior de um ouvido humano — e estavam prontos para voltar. pois continha rochas e minerais. Estava cheia de animalia. Um feto era guardado dentro de um copo. Piero zombou dos métodos de preservação. A reunião estimulou as lembranças terríveis da amputação e os eventos que se seguiram. Pela primeira vez. especialmente a águia enorme de asas abertas no teto. Sentiu uma necessidade incontrolável e perversa de olhar. Claude ligou as intervenções cirúrgicas narradas no Cão Vermelho com as partes de corpos flutuando nos vidros à sua frente. a neve branca tingida de vermelho. Não conseguiu decifrar o latim.” Tendo reunido os itens. estava cheia de bile negra. Encontrá-los não foi tarefa fácil. no formato do rei da França. entraram na última sala. capaz de rivalizar com a de Manfredo Settala. desde a infância. “Tem razão. um recém-nascido com duas cabeças. Os espécimes de Stâmphli ocupavam três salas contíguas. como recomendado por Fontenelle. “Du Verney. o que foi roubado de mim. Começou a esvaziar o armário. Tournay. quase deixando cair a laringe da hiena listrada. onde vários animais encontravam -se pendurados. o local e a data estavam corretos. Não posso roubar o que me pertence. “Ponha tudo de volta! Vai estragar o plano”. Notou que ao lado do dedo havia outros vidros de Tournay. O cirurgião os chamou de volta. preferivelmente não preservada em álcool. Claude sabia que a cor negra se devia apenas à tinta que manchara seu dedo. E insistiu: “Não pode roubar isso!”. Claude pegou o vidro e o segurou com força.” . “Terrivelmente mal empalhada. Aparentemente o feto crescera a partir de uma gota única de sêmen. Piero e Claude percorriam as coleções. laringe de uma hiena listrada. A seu lado. Claude abriu o armário e examinou as prateleiras. quando passaram por um armário cor de carne onde se lia: “Apêndices dos Deformados”. as ervas e fieiras de cogumelos dançando no teto. 1780”. Ele se lembrou do pano verde onde Stãmphli depositou seus instrumentos. Piero tentou persuadi-lo a esquecer o conteúdo do armário e se apressar. Suprimindo a náusea inicial. Piero conferia a lista.” Os animais maiores estavam descoloridos. menor do que uma lagarta.Neste meio tempo. mas o rótulo não deixava margem a dúvidas: “Digitus impudus. Os outros exemplares detonaram novas lembranças. IX.” Ele ficou um pouco mais animado com os mamíferos. inclusive um que nasceu com três caudas. algumas gemas e uma coleção de pedras com desenhos. Havia um bubão com os órgãos de reprodução afetados ainda presos a ele. Era tão insignificante. o mais rápido possível. aquecida em condições especiais. disse Piero. mas nada poderia tirar Claude dali. magnetitas. Claude esticou a mão para pegar um vidro que quase passara despercebido. cordas vocais do macaco africano. Havia espécimes do chão ao teto. O objeto. mostrando a cobiça insaciável e pouco seletiva do cirurgião. O tamanho do objeto guardado ali o surpreendeu. Claude precisava de pelo menos três itens da segunda sala. “Um pouco de tendão de rena. Piero tropeçou nele. asbestos. A primeira foi desprezada. Estavam a ponto de retornar quando Claude parou agitado. minérios. Eu não me surpreenderia se a sala toda corresse risco de apodrecer. Pertencera a um advogado de Lausanne. A segunda sala exigiu mais tempo de pesquisa. a qual ostentava uma placa em latim que se poderia traduzir como “Anomalias da Espécie Humana”. dedo e mão se aproximavam. Enquanto Claude procurava.

mas seu anfitrião exigia que mostrassem o objeto que pretendiam trocar. por uma ou duas vezes. numa rede.” Pela porta aberta ouviam o Abade.Piero estava nervoso. 0 pêlo é liso e manchado. afinal? Insisto para que o mostrem. Confie em nosso plano. Foi levado ainda vivo para o vice-rei. “Ponham aqui. que tentava distrair o cirurgião interrogando-o sobre os novos métodos de cistotomia. eu garanto. que haviam espalhado armadilhas. no Peru. o rosto parecido com o de um ser humano. Pertence à espécie dos unicórnios.” “Um cornopardo? Claro. Gesticulava muito. Stámphli nos chama.” “Seu prazer aumentará ao ver o que trouxemos. Tem três pés de comprimento. Saiu da toca durante a noite. ponham aqui”.” Os dois jovens entraram carregando os vidros que desejavam levar — Piero persuadira Claude a esconder o material de Tournay — e esperaram as ordens do Abade. as vezes. Claude. Uma criatura foi encontrada em um lago. “O que trouxeram. parece que me lembro de algo a respeito. e garras como as do leopardo. um alimento que aprecia. Claude leu o documento: Captura de um cornopardo. “Vamos logo. sem dúvida. Mas refresque minha memória. Tinha tanta vontade de incluir o cornopardo em sua coleção que não duvidou de sua autenticidade. foi um prazer falar de meu trabalho. Eles trouxeram o cornopardo. animais tidos como lendários. Mesmo assim. Comia porquinhos picados. Se fizer algo impensado agora. mas a ânsia de possuí-la superou o desejo de controlar suas reações. como um asno. estragará tudo. pare. porquinhos desgarrados e galinhas. . e mantido vivo. um cornopardo. Tentou. Leio tanto que os detalhes escapam. Esfregou o pêlo e agarrou a ponta do chifre. o único a chegar até a Europa.” Stãmphli era orgulhoso demais para admitir sua ignorância. “Sim. Retirou os vidros de Tournay do armário. “Vou obrigá-lo a beber até a última gota do líquido de cada um destes vidros!” “Claude. “Sentirão falta. Não temos proteção contra as leis deles. A cauda listrada não tem função aparente. o Abade mostrou o animal.” “Não será preciso. Este pequeno monstro foi capturado por caçadores.” Claude rejeitou os apelos de Piero. pelo que sei. 0 chifre único está localizado nas costas. com um inseto? Já tenho quarenta e sete. para caçar pequenos roedores. embora sejam comuns em seu local de origem. Ele é um cidadão poderoso da República. Stãmphli teve dificuldade para conter sua excitação. ele disse. “O que é isso?” “Ora. Sem dúvida leu a respeito na Gazette!” “Sim. Vamos trocar o cornopardo pelos objetos que reunimos. Seremos descobertos.” O nome levou o cirurgião a olhar novamente para o jovem.” Claude recusava-se a ouvi-lo. Com um floreio. Um pedaço enorme de âmbar. Ou talvez uma bela concha descomunal? Devo ressaltar que seu contador me vendeu o que eu precisava. Tem orelhas de quatro polegadas. leia para nós. Tenho o recorte aqui. minimizar a importância da criatura. perto da aldeia de Chocolococa. Seus dentes ultrapassam meia polegada. Suspeito que sua viagem tenha sido uma perda de tempo para nós dois. por favor.

” Ele repetiu o comentário anterior de Claude: “Parece que se move”. Claude despachou as anomalias dos vidros retirados da vitrine dos aleijados. usando botas de montar —.” “Exatamente”. E. Piero e o Abade caíram na gargalhada. Frederico da Prússia e Jorge m pintado de perfil. “O que há de tão engraçado?”. nas salas adjacentes. fomos os últimos visitantes a ver a coleção de Stàmphli intacta. Não se parece com nada que já tenha entrado em meus domínios. Isso em menos de uma semana. A transação foi concluída sem incidentes. Este verme destruiu dois de meus melhores trabalhos — um papagaio do mar feito para a Academia e uma raia. Ficou furioso porque a vingança real não se consumara. chamado pelo cirurgião de fio da Lapônia. Não importa o que ele faça.” “E lembra-se de que o cirurgião disse que o bicho parecia vivo?” “Eu me lembro de tudo isso. fora das vistas do cirurgião. “do cuidado com que o carregamos na hora da troca?” “Sim. Lembra-se de que insistimos para que tratasse o cornopardo com cuidado. eu considero”.” “Isso não chega a causar surpresa”. perguntou Claude. disse o Abade. menos seu dedo. Claude. Do corno ao casco. sinto o odor de suas origens exóticas. Costurei tudo com tripa de porco. Sabe. Depois devorarão tudo. Claude não compartilhava o contentamento dos dois.“Devo admitir. o cornopardo está lotado de larvas de um inseto que adora devorar carne preservada. “Levarão pouco tempo para comer a pele e sair. os três viajantes comemoraram a vingança. Entende agora?”. destinada a uma natureza-morta. quando se trata de matéria orgânica. dois livros raros que haviam pertencido ao Abade e diversos itens guardados em vidros foram trocados pelo cornopardo. para satisfação tanto do Abade quanto do cirurgião. ma. a coleção sofrerá imensamente. Já distantes da residência de Stãmphli. Tinham uma última tarefa a realizar antes que o cocheiro apontasse Lucille para Paris. “Mesmo?” “Sim. depois de encontrar o cocheiro na hospedaria dos Três Reis — não os Reis Magos bíblicos. O tendão de rena. durante a viagem?” “E daí?” “E você se lembra”.. .” Claude riu também.. Piero disse. Consideram isso uma revanche?” “Sim. Piero completou. aos cuidados da taberna Cão Vermelho. Ele mandou tudo pelo correio. Henrique IV. Nós o lotamos de vermes. “Você quer dizer que. Nosso cornopardo foi recheado com uma enorme e voraz colônia destas criaturas hediondas. Parando em um posto dos correios. Tive a mesma reação. Piero explicou tudo: “Não foi minha habilidade de empalha-dor que deu a impressão de vida ao cornopardo. Pode confiar.. disse o Abade. Ele se mexia mesmo. para os moradores de Tournay. “Deram ao açougueiro mais um espécime precioso. existe um tipo de larva — pode pedir os detalhes ao Abade — que é muito mais nociva que a traça mais faminta.

Espaços exíguos. Para sua surpresa. Entretanto. Realizou também mudanças pequenas. o assunto era urgente. “Muito engenhoso mesmo. lubrificara as cordas e engrenagens para evitar apodrecimento e corrosão.” “Teorema XXXVM”. “E no trabalho de Salomon de Caus com o órgão. não fosse pela chegada de Plumeaux. anunciando em seguida: “Encontrei Livre na corporação. “O espaço aqui tem limitações. Disse que tinha inform ações que poderiam interessá-lo — na verdade. O jornalista cumprimentou a todos secamente. Piero inspecionou as partes que conhecia melhor. “Não se preocupe com o tamanho do sótão. O Abade. livres de vermes. e declarou todas as criaturas aladas. Pediu que eu lhe sugerisse uma visita à Globo. meu jovem amigo”. o Abade perguntou. Ele perguntou por você com uma falta de interesse que indica exatamente o contrário. ficou muito impressionado com o que viu. Diderot produziu sua magnífica obra em um sótão imundo. Claude esperava encontrar a gruta do só tão no estado de abandono em que a deixara. “Como o movimento é ativado?”. Marguerite limpara os quartos durante sua ausência. Passara óleo na madeira. Algumas obras de Fragonard estavam em franca oposição aos locais minúsculos onde foram pintadas. inclusive o pintarroxo.” “Bobagem. “O que o Flegmagogo deseja com Claude?”.” O Abade não aceitou as desculpas. permitem que a mente se abra. Claude ergueu o capacho e mostrou uma placa de metal que acionava uma mola. Claude retrucou. perguntou o Abade.” “O pouco que sei dele. Acompanhando a trajetória dos cabos e roldanas. Vernet pintou seus melhores quadros em um espaço menor do que este. declarou o Abade. “mas é melhor tomar cuidado. depois de recobrar o fôlego perdido na subida da escada. quase imperceptíveis. interrogou Claude sobre como fazem os mestres ao perceber que o aluno predileto superou em muito as expectativas. e deu as condolências. respondeu Plumeaux.VIII A SINETA 47 De volta a Paris.” “Esta sua bacia para água. Claude. quando nos encontrássemos novamente. “montinhos de serragem indicavam a presença de cupins numa das vigas”. e o mesmo vale para as possibilidades de construção. que tornaram mais harmoniosas as instalações mecânicas.” O passeio pelo sótão poderia ter prosseguido no mesmo tom alegre. E percebo que se inspirou em Heron de Alexandria.” Claude ficou encabulado com os elogios. “deveria garantir a cadeira de Hidrodinâmica na Academia de Arquitetura para você. Palavras dele”. Não se envergonhe. Ele parecia satisfeito. incomodado com a interrupção.” . “Não sei”.

“Sim. uma vez que o jovem se rebelara contra as obrigações de um Page. mandou informações terríveis. não desaparecera de sua mente. ocultando nelas todos os tipos de significados. e não o chamaria pelo nome. “Da última vez em que me procurou. Ela estava grávida. entre os recém-chegados. perguntou. jovem. O estudante consultou o livro. meu fértil amigo”. sem dúvida.” Ele se recusava a chamar Claude de senhor. “Hugon?”.-Jacques. Uma freira da enfermagem impediu sua entrada. Livre deu um passo para apreciar o impacto das notícias: “Eu não saberia dizer ao certo. Claude as analisou rapidamente. Conforme os dois percorriam as camas contendo pacientes amontoados como sardinhas. O livreiro sempre escolhia as palavras com cuidado. O diálogo na Globo. acrescentando desnecessariamente: “É o dobro do número normal”. Chegaram aos arquivos. provava isso. Um livro foi consultado.” Claude tentou extrair novas informações. Menos de um ano o separava do último e tumultuado encontro com Alexandra. Por uma equação mesquinha e particular do sofrimento. Ainda sentia uma atração forte pela antiga amante. Ela obrigou Claude a esperar no corredor. descobri que madame Hugon não passa bem. Um caso muito interessante. O que descobriu agora?” “Por intermédio da empregada. seu prazer e triunfo manifestavam -se na proporção direta do desespero e dor alheios. foi levada para o Hotel Dieu. desceu a rue St. A imagem do Pequeno Retrato.” O olhar para o alto indicava comunhão com Deus. cruzou a ponte e parou. Ela chegou ao hospital poucas horas antes do nascimento da criança. “Sim. eu me lembro.Lucien Livre estava mais que satisfeito. O futuro médico permitiu a entrada de Claude. o estudante olhava para a mão de Claude com interesse profissional. “mas você talvez possa dizer quem é. no dia mesmo da volta de Claude.” Ele revelou a causa da morte. “Morreu há seis semanas. na frente do Hotel Dieu. Tentara disfarçar a gravidez .” Antes que Livre pudesse continuar sua tortura. mas já se foi. Não fazia sentido levar uma mulher de posses para um hospital de indigentes. Foi direto ao assunto. perguntou o encarregado. Eu estava presente quando Hugon deu entrada. “Tenho notícias que o interessarão. em trabalho de parto prematuro. Ele mencionou que Saviard documentara o nascimento de um bebê com quarenta dedos nos pés e nas mãos. que impedia o sono dos doentes. antes e depois do rompimento. Na verdade. Mesmo o homem mais perverso não teria lotado uma casa de Deus com os sofrimentos enfaixados e visões agonientas da morte testemunhadas por Claude. Livre ergueu-se da escrivaninha.” A menção a Alexandra eletrizou Claude. estava triunfal. ele viu que um estudante de medicina se aproximava. “Por que ela foi levada para lá?”. mas não se deu ao trabalho de responder à saudação de Claude. Em meio a uma névoa úmida de urina. sem fôlego. havia uma senhora Hugon. Mas Claude não se interessou pela discussão de anomalias digitais. A menção de Livre à fertilidade era o bastante. A sineta da loja tocou quando Claude entrou no reino imaculado que abandonara aliviado fazia vários meses. mas foi interrompido pelos gritos de um paciente que precisou ser amarrado. “Não sabem o nome do pai”. prosseguiu Livre. “Hotel Dieu” era um nome inadequado. Etiennette sorriu condolente. Claude saiu correndo da Globo.

Enquanto o jovem pai percorria o longo corredor do hospital. Uma discussão foi iniciada antes da operação. onde uma criança não chorava nem dormia. O cirurgião encarregado rejeitou a idéia. Todos os presentes finalmente concordaram que o Levret deveria ser empregado. Os médicos perceberam logo no início que a criança não tinha chances de sobrevivência. “a filhinha de madame Hugon encontra-se aqui. O estudante corrigiu o mal-entendido. e sugeriu um fórceps do tipo inglês. Ali também as enfermeiras encarregadas do berçário eram freiras. a madre superiora explicou que aquele ano fora péssimo em termos de crianças abandonadas. Isso só piorou seu estado. quando recebíamos uma por hora. mas olhava para cima com os olhos verdes brilhantes bem abertos. “Sim”. Humilhada. o bebê sobreviveu. os especialistas discutiam as técnicas de extração fetal. “Como alguns insetos. a mãe morreu ao dar à luz. acolchoado e revestido com pelica. As barbatanas de baleia cegaram três facas. Lutou ferozmente para impedir que tirassem sua roupa. os tratamentos previsíveis. preparou-se para operar. As lembranças destinavam -se a diminuir o sofrimento dos abandonados. e revelou que fora espancada na infância pelo tio. distribuídos com a precisão de um tabuleiro de xadrez. e podemos localizá-la. ela confirmou. bacias de sangue ou catarro. provocadas não pelo espartilho. as enfermeiras cortaram o vestido e o espartilho. claro. Ela decidira batizar todas as meninas com o nome de Agnès. mas tinham o formato dos olhos de Alexandra. para surpresa geral.” Claude parou em alguns berços. indicando que uma menina fora transportada para um hospital de recém-nascidos na vizinhança. Todos. sendo por isso vivos e brilhantes. Uma delas chamou a atenção de Claude. e não a morrer. de reunião. Depois de muito esforço. Havia berços por toda a parte. Ele perguntava a si mesmo: Será que a criança é minha? Quantos amantes de olhos verdes passaram pela cama de Alexandra . A imagem o deixou confuso. Os olhos eram da cor dos seus. mas não soube dizer o motivo. cartas de jogar amassadas. Ninava uma criança entre as dobras do hábito. “Não se compara a 72. Os gritos eram altos. a enfermeira introduziu um pessário no útero. Havia. mesmo remota. Um membro jovem da equipe contestou o uso das tiretêtes de Levret. uma semelhança. e um cirurgião. menos Alexandra Hugon. Claude estava no hospital mencionado. A imagem de Thérèse e a sobrinha no mesmo caixão ainda o assombrava. que morreu na mesa de operação pouco depois do nascimento do filho. Mas. notaram que as costas de Hugon estavam cheias de cicatrizes. Chama-se Agnès. Menos de uma hora depois.com um espartilho.” Isso não revelava uma memória excepcional da administradora do hospital. estamos lotados. vítima de orgulho cirúrgico. e. Claude não sabia como reagir.” Ela se enganara. ela chorou. um jansenista fanático. Quais foram mesmo as últimas palavras proferidas por sua amante antes de deixar o sótão? “Nunca mais poremos os olhos um no outro novamente. Um colega invejoso saiu em defesa do jovem.” Ele mostrou a Claude a anotação no livro. onde Agnèses e Roberts (o nome dado a todos os meninos) famintos choravam. Quando a despiram. Foi levado a um berço distante. no instante em que seus esforços deveriam se concentrar na paciente. contudo. pedaços de fio — lembranças de paternidades recusadas. para ver os presentes presos pelos pais a seus rebentos: moedas furadas. contendo uma esperança. Mas ainda havia esperanças para a mãe. Mesmo assim. rodeado de colegas e estudantes. Decidiram acelerar os trabalhos de parto por meio do uso de drogas e da intervenção cirúrgica. Os pacientes começavam a viver. Claude perguntou se o filho havia sido enterrado junto com a mãe. Encontrou a madre superiora e explicou seu problema. completamente diferente do Hotel Dieu. e sim por chicotadas. No final. Os quartos não estavam lotados de membros suspensos no ar.

*** Não há registros formais do encontro entre o inventor e sua filha. presa ao pescoço da menina. segurando a orelha do pai. “Primeira Noite”. e não dava para afirmar nada em relação às orelhas. Só restou um desenho no caderno. Agnès foi entregue a ele. Um tilintar delicado. Embora a madre superiora não estivesse plenamente convencida da paternidade de Claude. . a pequena sineta que dera para Alexandra durante um passeio pelo Palais-Royal. naquele dia.depois da separação repentina? Agnès abriu e fechou suas mãos minúsculas. Debruçou-se sobre o berço e descobriu. havia bebês em demasia no hospital. Ela se virou. Foi aí que Claude ouviu o som tão familiar. Mostra uma menina dormindo em uma cama suspensa. Claude olhou de perto e percebeu que ela não herdara a anomalia digital que caracterizava alguns Page.

Claude ficou chocado pela inesperada variedade. O carinho que marcou o final da busca de Claude deu lugar à declaração de fome do bebê. não eram nada comparados aos cris d”Agnès. mas não conseguiu amamentar a criança faminta. ela levou Claude para ver as amas-de-leite disponíveis. As ilustrações que inspiravam as Horas de Amor sempre mostravam seios em forma de frutas: pêras e maçãs. Depois do discurso. Ela não deixou escapar nenhum detalhe. contudo. felizmente. Quando Claude e Piero chegaram ao Bureau des Nourrices. conforme observado por Claude. uma intervenção profissional mitigou os sofrimentos do pai e de seu amigo inexperiente. uma pessoa cujas atenções e gestos de carinho discretos e constantes o encantavam. O custo do alojamento. interrompendo o escândalo temporariamente. Uma a uma. Imediatamente pegou o bebê no colo. A ama-de-leite. Marguerite perguntou. entretanto. tentando despertar o . outras não. bem como do almoço subseqüente. Contava com o seio indispensável da vizinha. por uma módica quantia. Tentou trocar Agnès da melhor forma possível. demonstrou inequivocamente sua fome. distendidas e alteradas pelas pressões da lactação e da idade. a dona do serviço informou os requisitos para empregar suas amas. Ela ouvira um choro desconhecido e subira para investigar. Ela não se impressionou. padrinho e escrivão. Ter por peão uma especialista como ela o tranqüilizou. enquanto Piero. embora algumas tivessem as dimensões globais de laranjas. Claude notou as janelas fechadas e a falta de roupa no varal. Relatou os infortúnios da examante. Claude descreveu o roteiro percorrido antes de ouvir a sineta que confirmou ser Agnès o produto de sua ligação com Alexandra. escalado para distrair a criança. Desta vez. e as condições deprimentes do Bureau des Nourrices. Fez uma tentativa. Quando Agnès retornou ao sótão. mas soube que ela precisaria usar um cachimbo de tabaco para tirar o leite. graças ao leite de vaca diluído. não o ajudou. Algumas sentiam vergonha.48 Começou na madrugada seguinte a vida de pai. uma declaração produzida pela rápida contração da caixa torácica e a emissão de um fluxo de ar irregular. Claude recusou os seios oferecidos. Encontrou esferas de um tipo desconhecido. e as mulheres presentes estavam ansiosas para arranjar trabalho. e deixou o estabelecimento decepcionado. A dona poderia. “O que é isso?”. geralmente. Já esperava uma explosão semelhante. roupa lavada e diárias eram apenas os primeiros itens de uma longa lista que incluía “outras opções e imprevistos” também. cuidar do batismo: padre. explicando que estivera fora. por causa dos mamilos invertidos. enquanto a sucessão de janelas abertas e os gritos dos vendedores proclamavam o início de mais um dia. O mercado de seios de aluguel andava fraco. Os bebês de Marguerite providenciavam demonstrações regulares de desconforto neonatal. Os dois adultos correram com o bebê meio embrulhado pelas ruas. encerrando a conversa com uma descrição das providências a tomar caso a criança “morresse ao ser amamentada”. Só uma mulher parecia adequada. balançava freneticamente uma pena de avestruz perto do nariz dela. A cena evocava a imagem de deusas nos jardins hidráulicos da Villa d”Este. Claude notou sarnas e marcas de outras doenças que não desejava para sua filha. a criança chorava sem parar. elas se desnudaram. Não estava em casa quando bateu em sua porta. Os cris de Paris. As candidatas abundavam. O exame detalhado revelou os motivos do desemprego de muitas mulheres. Antes das apresentações. em visita a parentes em Gonesse.

Piero incluiu um abanador de plumas coloridas da Guiné.máximo possível de compaixão em Marguerite. A cera derreteu. claro. o cocheiro e o Abade. Tentou erguê-lo por meio de um nó corrediço. Claude fez um gesto de amor paterno. O estratagema de Livre para atormentar seu antigo aprendiz foi um tiro pela culatra. porém feroz. Casara-se jovem e contente. Um espírito estimulado por Agnès e. A zeladora. para ajudá-lo: Piero. O cocheiro cedeu sua caneca favorita. Mas a felicidade terminou quando um acidente de carruagem tirou a vida do marido e do filho de seis meses. e depois amarrou o barrilete na viga do teto. no marido. escolheu atender as necessidades corporais menos complicadas dos mais jovens. quando Lucille se encontrava em Paris. O Abade reagiu. Marguerite disse. o cocheiro perguntou: “O que aconteceu com o ovo? Eu gostaria de comê-lo”. o Abade passou a auxiliar Claude em seu projeto. pelo plano. O truque divertiu os adultos e a criança. quando não disputava com os outros a afeição da menininha. O Abade instalou-se no terceiro andar do prédio de Claude. “Isso servirá muito bem de berço”. ressaltando que se nutria do amor das crianças. As apostas foram aumentadas. encantada com os esforços. Ela embalou a criança.-Séverin. O espírito inventivo tomou conta dos moradores da rue St. Assim. pela primeira vez. mas Marguerite se opôs. que as mãozinhas de Agnès podiam segurar e puxar como uma persiana. Esvaziou um ovo de codorna e secou a casca. com o Milagre do Ovo Aerostático. “E deixar nosso amigo nu. provocando o riso da criança. Plumeaux. e depois passou um tubo de cobre do berço de Agnès até a janela de Marguerite. Seu apartamento era suficientemente espaçoso para acomodar o cocheiro. não hesitou em alugar os quartos para dois homens solteiros. Pegou um pequeno barril de brandy. A vinda da pequena Agnès estimulou Claude. O Abade compareceu com um pergaminho em miniatura. e deu-lhe o peito em seguida. Forçada a escolher entre servir marinheiros sedentos de amor nas docas e bebês sedentos de leite. A competição era amigável. tirados de sua própria cabeça. Depois tampou a abertura com cera de abelha. Tentou roubar as roupas do manequim. tanto quanto estas de seu seio. Claude se consolou com sua sabedoria prática. Depois de instalado. e removeu metade das aduelas. Piero costurou para Agnès uma boneca de palha com peruca de cabelos humanos. preso nas pontas. Falou sem falso moralismo ou rancor. e o ovo flutuou até o teto. Talvez por causa da intimidade inédita. Colocou o ovo na bancada. viúva. Enquanto Marguerite mantinha Agnès ocupada. Não era preciso. Os presentes batiam uns nos outros. mas fracassou e conformou-se com um nó simples. No final da demonstração. nos quartos antes ocupados pelo marceneiro ambulante. e o aproximou ainda mais dos amigos. ela vestiu a boneca com um vestido feito de retalhos de um pano xadrez. Marguerite falou. Estavam à mão. e o aqueceu com uma chama fraca. “Mas como ouvirei seu choro?” A ama deu a primeira pista de que cuidaria do bem-estar da criança. congelando num canto? “ Uma semana depois. Claude refletiu por um momento. quando a ama pusesse o ouvido na ponta do tubo. Começou depois que Claude prendeu uma bola de marfim entalhada em cima do barrilete. . poderia identificar o choro do tilintar da sineta pendurada no pescoço do bebê. esvaziado pelo Abade e o cocheiro.

de volta a Paris. ainda era mais fácil do que umedecer hastes de vegetais com saliva e clara de ovo. Claude testou palhetas aplainadas e naturais. Ele estudou numerosos sistemas de foles. mergulhou-as em uma série de líquidos. Claude voltou ao “Ensaio sobre a origem e a formação das vogais” de Kratzenstein. Estudou inúmeras cometas. musicais e anatômicas. Os sons produzidos uma vez podiam ser facilmente repetidos. Usou novos materiais nas palhetas: bordo. pulavam. fora investigada intensivamente durante a viagem de inverno. Pensou no convite do plantador de junco em Languedoc para conhecer sua cultura. pinho e salgueiro. Descobriu um músico e fabricante de instrumentos da Boêmia que ampliara a extensão dos instrumentos de sopro. Claude não via pela frente obstáculos intransponíveis. Apesar de ainda haver muito a descobrir. Não obteve nada além de um desvio infrutífero para o estudo de um instrumento chinês chamado cheng. calçou-as. O salgueiro. começou com uma mesa cheia de talos de Arando donax. desviavam. cherimólia e outras lâminas flexíveis. que por sua vez produziram sons pouco interessantes. Partiu as palhetas de modos diferentes. O caderno revela que neste período Claude produziu seu primeiro flato mecânico-musical. Claude meditava sobre a versatilidade de despretensiosa palheta. o junco europeu tão volúvel. cada página marcando seu inconformismo com o mesmo palavrão. o trabalho de Claude não progrediu. segundo o caderno. Desde o recital. Nada. Discutiu o assunto com o Abade. mas resolveu recusar por causa do custo da viagem. Realizou mais uma bateria de testes. encaracolavam para cima e para baixo da página. veio das aparas de uma perna preparada pelo marceneiro para uma vítima de gangrena. Consultou um fabricante de órgãos. Claude repassou seu roteiro de pesquisa. difícil de entender mesmo quando Claude buscava a clareza. A certa altura. As idéias apontavam para todas as direções. A prim eira categoria. Os metais eram menos melindrosos. paravam e reiniciavam sua dança. A pesquisa rendeu tubos e válvulas modificados. claro — e realizou experimentos no sótão. Grosso modo. Limitou-se às oficinas de Paris. Discutiu o fenômeno com fabricantes de instrumentos — quando se dispunham a conversar. Finalmente. Por isso. que o encorajou a seguir o rumo de sua . que trabalhara com Levebre como aprendiz.49 O caderno. empenou-as. seu trabalho abrangia pesquisas mecânicas. Em poucas semanas apenas. e reuniu toda a família das gramíneas a diversos tipo de apoio. Seu caderno registra encontros com pelo menos trinta fabricantes de instrumentos musicais. o primeiro trabalho que consultara na biblioteca da mansão. Elas se bifurcavam. tornou-se neste período quase impossível de decifrar. Contava obter assim também o ohhh e o ehhh. Notou que o junco adquirido vinha sempre seco. ele conseguiu reproduzir o som do ahhh prendendo uma palheta ligeiramente úmida num mandril de joalheiro modificado. ele passou para os metais. Tentou pistões acústicos que alteravam o comprimento efetivo da coluna de ar ressonante. e imaginou que talos frescos poderiam ajudar sua pesquisa. embora o próprio Claude não fizesse tais distinções. Mais uma vez. a mecânica. Tentou reproduzir os sons bizarros que ouvira debruçado na balaustrada. Embora precisasse prever as compensações barométricas. Uma seção inteira do caderno foi riscada. A pesquisa inicial foi encorajadora. Claude desistiu da palheta de junco e testou substitutos: barbatana de baleia. Apesar de tudo. mas isso só servia para obter sons mais graves. dedicou-se às questões musicais levantadas havia muito tempo pela nota inesperada de um oboé.

Não tinha outra opção. embora concordasse com Piero: a maioria dos répteis em exibição eram similares a almofadas com pernas. Além de caminhos calçados e sombreados. escreveu: “Acredita-se que a música cure a melancolia. e cálculos rigorosos das despesas. do outro lado da porta. enfiado até a cintura na água barrenta. como Boucher. devido ao papel franzido e à caligrafia ilegível. “Ao contrário do esperado”. Consolou-se. Evitou a bancada e passava as tardes sentado nos fundos de uma igreja vizinha. A umidade podia ser vista. disse o criado. Infelizmente. na realidade charcos imensos onde a fazenda afundara. jarro trincado e uma caneca coberta por uma camada de limo verde — pelo qual deveria pagar uma importância considerável. Do anfitrião trancado no quarto. e do calor inóspito da região. Deixou alguns de molho. A resposta foi encorajadora. contudo. (Talvez fosse transpiração. Durante alguns dias.” Chegou a Paris dias depois. Temos campos de madeira de língua [presumidamente. sempre que um órgão era tocado. “E aquela raia me lembra uma panqueca com cauda. arranhou as mãos para colher os juncos. esperando suar até descobrir o paraíso da acústica. o termo local para o junco usado em palhetas]. Numa tarde abafada e úmida. percebeu que estava espiritualmente atolado. ao se reunir com os amigos e a filha. deprimido após uma viagem de coche lento. mesmo que isso exigisse uma viagem “até o fundo”. para reduzir os custos. nem caminhos sombreados. Atirou longe um talo da planta. desfrutando de sua frescura. Claude se deu conta de que os segredos da Arundo donax não se revelariam a ele. Ele vadeou valente a água fétida. Claude fora vítima das hipérboles do anfitrião. em busca de uma lâmina de matéria vegetal capaz de permitir a reprodução de um tipo específico de som. no banco do quarto e nos ladrilhos do caminho que levava ao jardim abandonado da cabana. As sanguessugas grudavam em seu corpo. Vá! Vá!” Claude escreveu ao dono da plantação. Não passava de uma cabana ocupada por um homem acometido da febre palustre. monsieur. No dia seguinte dirigiu-se ao charco. Embora livre do pântano. banco no mesmo estilo. pernas inchadas pelas sanguessugas. Claude os dispôs ao longo do parapeito da janela. secou outros e iniciou os testes. referência aos pântanos de Languedoc. não é o meu caso. “nem um único som aproveitável foi produzido nesta viagem. saindo dos campos. esperando encontrar nos registros de pássaros e reflexões sobre os efeitos da saliva a revelação . escreveu na carta ao Abade anunciando a volta. O som lembrava as inadequações pneumáticas de seu plano. perfeitos para a inspiração”. forçando-o a passar longas tardes aplicando sal e sebo nas pernas e braços. De volta ao sótão. O custo da viagem — nos vários sentidos — o desanimara. Dedicou dias inteiros a percorrer as coleções dos beneditinos maurienses em St. Germain des Près. observando as borboletas presas no vidro e pedras coloridas. Claude foi conduzido a um quarto parcamente mobiliado — cama mostrando encaixes toscos de respiga e mecha.) Depois de muita hesitação. O criado encarregado de remover o pote de excremento amarelado todas as manhãs não soube explicar a discrepância entre as promessas epistolares e os fatos fétidos. só ouviu o bater dos dentes durante as tremedeiras.intuição. Não havia calçamento. As visitas terminavam. até que produziu uma espécie de manopla com lâminas presas nas extremidades. e observou enquanto flutuava. Claude aceitou o quarto. “Talos frescos podem trazer idéias frescas. Claude. bolsos esvaziados pelo criado (uma versão humana da sanguessuga).” Claude repassava o caderno de anotações insistentemente. “Fazenda” também não era um nome correto. Depois de colher vários tipos de junco. Preciso encontrar um remédio alhures”. Uma frase feliz encerrava a carta de resposta: “Venha. Claude viajou para o Sul da França.

erguendo uma nádega. Claude não era uma visão atraente. Ele a hostilizava. Elas surgem do embate violento entre idéias opostas. A segurança emerge das decepções. que consultava seu caderno. mas isso dificilmente explicaria seu comportamento singular. da mistura de materiais e ânimos contrários. Concentrarse no trabalho era a única forma de consolidar o que já havia conquistado. “Chega de litanias incompreensíveis. pulavam de página.” “Nem tente”. avançavam pelo meio de rascunhos dispersos e recusavam -se a mostrar o caminho. sugeriu o Abade. Minha cabeça gira sem controle. Esfregava a mão no sovaco suado e cheirava a secreção. seu esforço o impulsionará até o ato de criação. Antes. mas era ignorado. Em seguida desistiu de sair do sótão. nas palhetas. disse para si mesmo. foi instalado no quarto da ama-de-leite. E me confundem agora. “As revelações que procura não nascem como moscas das carcaças no açougue.) Sofria de vista cansada. “Você banca o estúpido ao recusá-la. Marguerite tentou interferir. em outras palavras. gaveta para remédios e uma banqueta dobrável para os ataques de gota. percebendo que não poderia dizer mais nada. mas tais sentimentos o abandonaram. “Eu acho. Marguerite o enchia com a comida de madame V. Agnès foi transferida por causa do mau humor do pai. Eram notas e nada mais. A invenção exige muitos enganos. as anotações traziam estímulos nada desprezíveis. o Abade podia transmitir recados e observar seu estudante no trabalho. comendo em um estado de profundo desespero. Enviava notas de encorajamento para o só tão. ela disse. Pediu para ficar sozinho.” Claude irritou-se.” Claude não estava disposto a comparar métodos. Um novo barrilete. a graxa do suor da ovelha. capaz de abrigar livros. assaduras no traseiro e tiques nervosos variados. temendo nunca mais voltar.” O Abade. Plumeaux tentou ajudar. Fazia caretas e segurava os testículos. a um sistema de controle das comunicações escritas e visuais.) O Abade acompanhou o desespero de Claude. Ou. às vezes”. puxando o cabelo. O Abade notou logo. (Testara certa vez o efeito do suint. enrolando os cachos nos dedos. “Tenho os mesmos problemas com meus textos. A poltrona se ligava. velas. mesmo na direção errada. e encontrou mil outras maneiras de ser gentil. pois Agnès já não cabia mais no berço original. (Contatos orais exigiam apenas gritos na direção do pátio. Em termos mais simples. Elas já me confundiram demais na juventude.” Claude se recusava a reconhecer as atenções da moça. Não encontrou. Passava horas rabiscando. um toque deslumbramento e uma gota de determinação dão a receita da invenção”. Ela dá a impressão de compreender o . “Não consigo articular meus pensamentos. e sem intensidade ninguém se aproxima da verdade. maior. Passou a descer um cesto de vime pela janela. cocando a cabeça. jamais construirá algo que valha a pena. A desaceleração e a instabilidade provocavam nele uma espécie de transe. por meio de cabos. “que cuido de duas crianças.” “E daí? Acredite. reprimindo uma atração embrionária. a distância destrói a intensidade. e não de uma só. depois outra. de “Mas eu me enganei. Passou vinte e quatro horas girando um brinquedo de Granchez. Sentou-se na poltrona especial feita por Claude. Poliu a lupa suja com o avental. Ele o erguia. O Abade prosseguiu: “Uma pitada de ansiedade.” Claude suspirou. Cutucava o nariz e a orelha. rolos de anotações. O choro o incomodava. mesmo quando não estava na cama.dos segredos dos sons. retirou-se para seus aposentos. além de raspar com a unha a sujeira dos dentes. Pensamentos que transbordavam pelas margens. Sem eles.

Dentro. . o olhar alucinado. Finalmente.mecanismo que o move. De chorar. e descobriu que continha um espelho de mão comum. Marguerite conseguiu despertá-lo. Não de esfregar.” Ele pediu ao Abade que saísse. Esfregou o pescoço compulsivamente. Seus olhos se relaxaram ligeiramente. Claude sorriu. Estudou os movimentos dos dedos na garganta. Talvez eu o tenha ensinado a pensar. um recado com uma única palavra: “Regarde”. que o ensinará a sentir. De repente parou. Jogou um embrulho dentro do sótão de Claude. Pela primeira vez em muitos meses. descobrindo ao examinar seu rosto encovado as marcas da sujeira. mas será esta moça. Claude desembrulhou o presente. e enquanto esfregava começou a chorar. Seguiu sua sugestão. Emitiu um som contínuo. Esticou a língua e a moveu para cima e para baixo. as rugas de preocupação. esta incrível ama-de-leite com a cabeça no lugar. e os lábios se curvaram para cima.

do pátio. Claude voltava a seu quarto. intestinos e a goela flexível do grou emitiam sons. (A confirmação da infestação larval foi anunciada com estardalhaço pelo Abade. ele forçou a vista através de um monóculo. O conferencista. cortadas e esticadas. agora servia de abertura para um dia de pesquisas frutíferas. Claude voltou a passear. e checou a passagem do ar pelo nariz e pela boca. O mestre respondeu a suas perguntas sobre o modo como o excremento era removido da tripa. todo o material recolhido na devastada coleção do cirurgião de Genebra se mostrou inútil. Voltaire e La Mettrie. Estômagos. para conversar com o mestre das tripas. até que Claude se voltou para a anatomia humana. Bexigas de peixe infladas. O choro da filha. azul. mas não cheques. mas todos usaram a comparação com o relógio de forma mais elegante. fora das salas de concerto. também foram testadas para avaliar o potencial sonoro. O cirurgião citou Meckel Júnior em De labyrinthi auris. emitidos com auxílio da ponta da língua. amarelo e bistre uma garganta em corte. Tudo isso. Sentado discretamente nos fundos de um anfiteatro da Academia de Cirurgia. que certas partes da cabeça se moviam (maxilar. Moradores do prédio olharam para cima. Claude também assistiu a uma tediosa conferência sobre a formação da fala. Claude sorria ocasionalmente. comparou o corpo humano a um cronômetro. Durante um espetáculo de marionetes. enquanto se libertava da depressão. descrevendo as câmaras e reentrâncias que serviam à recepção do som. gritos e risadas ásperas ou solitárias. observou o movimento dos maxilares. véu palatino). ainda havia contratempos.50 Estudando suas feições por mais de uma hora. cavidades supralaríngeos). ficou enjoado com o fedor emanado naquela hora. tinham pouca demanda. A gravura acompanhava a obra de Court de Gébelin. Na verdade. incômodo havia menos de uma semana. outras tantas sua própria garganta. Passou horas analisando a ilustração. Ele abriu o caderno e começou a separar os sons utilizando o alfabeto. beijos. Os franceses desistiram do tênis e da guerra. Em quadros sucessivos. titular da Academia. claro. A inspiração surgia nos momentos e locais mais inesperados. normalmente imune aos cheiros. removendo o nervo auditivo para fixá-lo numa prancha de cortiça. perplexos ao ouvir sons tão bizarros. parte dos Petits Comédiens do conde de Beaujolais. que leu em voz alta um artigo do jornal da Academia de Genebra. . Encarregou Plumeaux de descobrir uma ilustração cara de Dagoty retratando em vermelho. Inspecionou a garganta. língua. Acostumaram -se a esperar excentricidades do sótão. sempre emitindo sons estranhos e fazendo anotações febris. O momento marcou o início das investigações anatômicas. precursoras do balão de borracha. dependentes de movimentos palatinos. como estas eram lavadas. Claro. Ia ao matadouro do faubourg St. A metáfora derivava de Descartes.) O sótão logo ficou parecido com um açougue bizarro. secas. foi forçado a jogá-la no lixo imediatamente. de título imponente e conteúdo medíocre. Newton. palato duro. Claude projetou a articulação do braço — uma junta esférica ligada a um soquete especial — enquanto a filha ria das brincadeiras representadas dentro do palco do tamanho de um armário. Voltava à ilustração. enquanto outras permaneciam estacionadas (dentes.-Martin. Quando Claude removia a traquéia da hiena do vidro. onde realizava novos testes. de modo que encordoamento de raquetes e suturas cirúrgicas. História natural da fala. Claude dividia os sons: produzidos pelos lábios. enquanto o cirurgião dissecava um cadáver. os dois principais usos das tripas. Notou que os lábios silvavam no C e soltavam o P num tranco. Levando suprimentos variados da substância já pronta em volta do pescoço. Mesmo Piero.

e desta convergência o jovem engenheiro extraiu os sons de sua ambiciosa invenção. meia dúzia de palhetas.“Vamos”. Claude escreveu apenas duas palavras antes de sair correndo do anfiteatro. Metáfora e método convergiam.” As mãos de Claude. o que permitiu a produção dos sons especiais foi o uso de engrenagens ligadas a um conjunto de foles. sem se importar com os olhares curiosos dos presentes. E tudo isso foi reunido graças à faísca provocada por duas palavras. . Quais seriam elas? Lábios de Vaucanson. Inspirado por informações obtidas nas pesquisas anteriores. “dirigir nossa atenção para os carrilhões. Em termos mais práticos. disse o conferencista. a trocólica grega e as maravilhas do excêntrico. ao combinar técnicas distintas e coordenar observações antes desvinculadas. O que causou a convergência? Como ele progrediu na reprodução dos sons? Como Plumeaux observaria mais tarde. Esta revolução significava mais do que o refinamento do movimento rotativo. ficavam imóveis até que uma observação qualquer o levava a abrir o caderno. “Claude Page obteve sucesso onde outros falharam ao fazer uma descoberta sincrônica. como os ponteiros de certos relógios. Para usar um termo comum entre relojoeiros — e que em breve seria adotado por outros grupos — a mente de Claude sofreu uma revolução. um tanto de metal e um bocal”. o mecanismo da voz humana.

Ele nadava. contudo. comia. não eram de Vaucanson. debaixo do rabo do pato. dos quais ninguém mais se recorda. digeria e cagava. os aplausos mais entusiasmados aconteciam quando seis pequenos crottes saíam do pequeno ânus de cobre. a bem da verdade. outro orifício de outro autômato serviu de inspiração: a boca do flautista alemão. pois não passavam. incluindo depois alguns relatos de testemunhas oculares. Dos três autômatos. Ademais. um triunfo da extravagância mecânica. a crer nos relatos do escultor Budelot. o gênio de Vaucanson — uma palavra que raramente aparece em seu caderno — estava presente apenas nos autômatos que produziu quando jovem. O flautista era capaz de tocar um repertório pequeno. Claude previu: “O pato defecador de Vaucanson viverá na memória dos interessados por máquinas muito tempo depois que suas máquinas agrícolas patenteadas enferrujarem no depósito do Hotel de Mortagne”. Para os propósitos da invenção de Claude. Os dele não merecem menção. de lábios pequenos demais para impressionar alguém. durante a dissecação. na década de 1730. máquinas de preparar seda. arados sem cavalos. os lábios de Vaucanson haviam sido enterrados com o resto do corpo em uma capela trompe l”oeil chamada Almas do Purgatório. Claude reviu os esboços e notas que possuía. para Claude. Depois de brilhar como mecânico durante anos. seus lábios. A parte pneumática incluía uma válvula de couro que interrompia o fluxo de nove pares de foles que permitiam ao músico tocar. “As penas se erguiam. os lábios que praticamente falaram com Claude Page apareciam em uma das invenções do morto. Eles permitiam que encerrasse a fase de pesquisa e contemplasse a construção de sua cabeça mecânica falante. grasnia. o pato era sem dúvida o mais destacado. contou o artesão enquanto explicava o mecanismo. e Vaucanson trabalhou com equipes de torneiros de madeira e serralheiros que produziram mecanismos altamente produtivos. porém diversificado. De acordo com o artesão que Claude encontrara em La Chaux-des-Bonds. Vaucanson estendera seus talentos — segundo Claude — aos ramos agrícolas e industriais: cortadores de feno.51 Um esclarecimento. logo depois de mudar para Paris. e a multidão delirava”. na época em que Claude teve seu momento inspirado. . ou. mais especificamente. Os lábios davam o toque final a seu plano. Os lábios. Não. Mas. usando dedos de prata e lábios de ouro. Sem dúvida atraiu a atenção de uma platéia internacional de engenheiros (Watt entusiasmou-se).

o que comoveu Claude profundamente. Outros vizinhos começaram a aparecer no sótão. que permitem visitas pagas a sua casa? Afinal de contas. Não pediu nada em troca. como uma personagem secundária numa narrativa histórica. Além disso. empregando um método de anotação simplificado do rolo S. ele precisava de recursos mais substanciais do que os brinquedos poderiam fornecer. reconheço que o palácio possui janelas maravilhosas. e até mesmo Etiennette. Mesmo a zeladora. Isso exigiria recursos consideráveis. não era suficiente para que a construção começasse. que surge e desaparece sem revelar a profundidade de sua presença. O panfleto. E que lista! Enchia mais de oito folhas de papel almaço. Piero foi o primeiro a agir. no dia em que voltou da rue de Richelieu com um prêmio razoável. A família dos magos do vidro na Boêmia e a fábrica de porcelana de Dresden levariam pelo menos três meses. depois de efetuado o pagamento. Por vários meses. mas lá existe um pintarroxo que canta?” O picareta também aumentou o caixa redigindo um panfleto. O cocheiro inspecionava as mercadorias que transportava. anotou os custos calculados. e Claude poderia cuidar da aplicação final de esmalte. que vendeu bem. explicava as diferentes características dos sinos das igrejas e capelas da cidade. mas seus amigos proibiram desvios. o público leitor se divertiu fechando os olhos e identificando os sons das diversas torres metropolitanas. enquanto Claude saía atrás de materiais. levando miudezas. Teve plena consciência disso ao elaborar uma lista de materiais e custos.52 Contemplar a construção — não inicia-la. Os sinos de Paris. dizendo a Claude: “Use o dinheiro para comprar as folhas de ouro”. eles se recusaram. “Por que não podemos seguir o exemplo dos ocupantes do palácio Farnese. os olhos de vidro). sete cenouras e um pé de alface. Claude pensou em suspender o projeto durante alguns meses. Lamentou que a presença da moça em sua vida fosse tão pequena. outros comprados e modificados (como a peruca e materiais para confecção da roupa) e alguns encomendados (a cabeça de porcelana. (O número vitorioso foi inspirado pelas sobras de um carrinho de verdura no final da feira: seis vagens. Uma conspiração para conseguir ajuda logo se formou entre as pessoas mais próximas de Claude. Toda esta ajuda. confiscando qualquer pacote ou caixote que não estivesse de acordo com a rígida lei francesa de transporte. fez uma série de talhos em seu registro de débitos. Ao lado dos itens dos últimos dois grupos. tentando um empréstimo. ao saber das dificuldades financeiras de Claude. articulações. Promoveu excursões à gruta da mansarda. depois de ríspidas discussões. investiu algumas moedas “no trabalho lá de cima”. Alguns poderiam ser obtidos com sucata e materiais disponíveis (por exemplo. que jogava na loteria real regularmente. cujo trabalho era indispensável. Depois de enviadas as ordens de pagamento. quatro nabos. forneceu refeições grátis. Doou metade de sua receita com a venda de um par de tucanos. mas. que durante aquele período de sacrifícios foram duplamente apreciadas. Marguerite colaborou oferecendo o seio gratuitamente a Agnès. O Abade tentou atrair abastados amantes das artes mecânicas. Claude agrupou os itens em categorias. mandou seu único bem valioso. a sociedade ficou sem um tostão.) Como recibo pelo empréstimo. caixa de voz. baseado em algumas observações antigas de Claude sobre o tema. contudo. sabendo que haveria inevitáveis demoras. Esta seria feita em biscuit para economizar. estrutura). um tinteiro com base de prata. O Abade falou com banqueiros. para enviar os olhos e a cabeça de biscuit. Entrou em contato com artesãos estrangeiros. Plumeaux mostrou-se o mais inovador entre os batalhadores de recursos. mas sua . Madame V. e fabricar brinquedos para Granchez.

madame de Crayencour concordou em colaborar no projeto. O primeiro foi o duque de Vrillière. Certamente os destroços flutuantes do rio davam credibilidade a sua promessa. A falsa explicação atendia a dois propósitos. nunca. aperto!”. Depois de ver vários tipos de exibições matemáticas.” O Abade espirrou e riu enquanto lia a lista de encomendas. Passava as semanas batendo na porta dos ricos. sem se dirigir a ninguém em particular: “Claro. normalmente otimista. A segunda razão para a falsificação das explicações era confundir os suspeitos de espionagem. Claude e o Abade conseguiram o patrocínio financeiro de dois aristocratas abastados. cheia de bric-à-brac trazido do Oriente entre camadas de chá. “Amanhã visitaremos nossos antigos clientes da perversão. Como comentou o Abade. Sua característica mais marcante era a paixão pela porcelana. sobre um concorrente muito hábil com as consoantes. eram uma boa dupla. popular entre as mulheres de sua classe. Falava-se muito em Paris.aparência encarquilhada. E não pretendo perdê-lo novamente. Primeiro. gatos e cães de porcelana). afinal. cuja recusa tipificava as negativas recebidas pelo Abade. um sujeito prometeu fabricar um par de sapatos que permitiriam a travessia do Sena a quem os calçasse. que a maravilharam com bolhas e faíscas inúteis.” “Qual deles?” “Aquele que nos deixará ricos. na verdade ausentes do projeto de construção da cabeça. especialmente no Marais.” . Claude tomara a mesma decisão muito antes de conhecê-la. não entenderiam nunca. pedindo fundos. Perdi muito mais que o dinheiro. nem quebravam coisas da casa (por exemplo. aliás. mas fechadas delicada e definitivamente. O Abade o apresentara a Pierre-Joseph Laurent. Pegue o rolo das Horas de Amor. Com freqüência era barrado na porta. Perdi meu orgulho. Com este rolo de encomendas. excitado. na tradução ampliada de Edmund Stone. desmazelada e trôpega por causa da gota inspirava pouca confiança. sendo assim mais agradáveis do que qualquer mascote vivo. você vai ver. teremos a atenção dos poderosos. Depois veio uma certa madame de Crayencour. e incluí meu nome na lista. e recebia sempre recusas. “Desde que a cabeça seja feita da mais fina porcelana de Dresden”. Seu apoio não surpreendia. do que revelar a extensão de sua ignorância”. Todos os entusiastas das novidades de Paris colaboraram no projeto. permitia uma visualização das teorias que os patrocinadores potenciais. Sabe?. Como parceiros. Ele chamou Claude. Depois de um mês de pedidos. o engenheiro que mais tarde construiu o braço mecânico do duque. Esta estratégia mostrouse mais eficaz. uma paixão. exigiu. por empregados acostumados a tocar os não-convidados. explicando o plano de modo falso. “Será que você não compreende? Traga meu rolo. disse um mercador de café. A exigência era totalmente aceitável. Mesmo quando os investidores potenciais ficavam confusos com as explicações. em sua maioria. As portas não eram batidas na sua cara. O Abade gritou. Exibindo sua coleção de blanc de chine. “Aprendi a desconfiar de tais projetos”. não foi cumprida. “E não sou o único. Daí a menção às máquinas elétricas tão populares. óticas e filosóficas.” O Abade começou a levar Claude para suas reuniões. Uma frase o cativou: “A ferramenta mais importante e necessária é uma morsa que dê um bom aperto”. gostavam do contato com um jovem de boa aparência. sendo lançado por um ex-clérigo adoentado. ela explicou que os gatos e cães de porcelana não miavam nem latiam. Mas a verdadeira saída foi encontrada depois que o Abade releu o clássico de Bion sobre a construção e uso de instrumentos matemáticos. “é melhor convencê-los de que eles entendem o que não entendem. Que.

além de instrumentos comuns na pesquisa científica. especificou a raça: queria um buldogue. Quando Claude tentava restaurar a ordem do universo. Um cão em forma de tubo. enquanto as feras mais temíveis latiam fora da vista. Será nosso segredo. o conde gostava mesmo de cães.” . “Sim. disse abruptamente. Ele era estúpido demais para se dedicar seriamente a qualquer coisa. Claude. A riqueza mascarava tais limitações. como de hábito. “Já nos vimos antes”. Claude cuidaria de levantar os fundos.” “Por que veio aqui?” “Para solicitar seu apoio para a reprodução mecânica do som. atrás de uma porta. o projeto obteve apoio entusiástico. pessoas antes muito ocupadas para serem incomodadas agora se mostravam gentis e atenciosas. A elaboração da lista foi interrompida quando o Abade. uma prateleira cheia de aerômetros. de abeto). O relógio erótico foi uma brincadeira.” “O assunto está encerrado. barômetros. Quando não dava cenouras a Hércules. como Claude logo percebeu. que dele zombavam — pudesse prejudicar sua reputação. O Abade percebeu que o conde tinha pouco interesse na sua presença. fez um inventário mental do conteúdo da sala: uma coleção de espelhos côncavos e convexos. Num golpe de mágica. Claude imaginou. e fez referência a uma certa encomenda secreta de relógio. e um no formato de esfera. cento e cinqüenta libras em seu cálculo. como microscópios. de origem alemã. Quando o conde de Corbreuil encomendou a Sobrinha na farra com cão. o conde se distraía com brinquedos mecânicos. Claude disse apontando para o Abade. na livraria de Lucien Livre”. pois o rei possibilitava uma vida fácil. o conde pediu a Claude.A diferença entre extorsão e boa vontade espontânea por vezes é irrelevante. levou Marte a sair de órbita e rolar para debaixo da mesa. Claude e o Abade foram informados pelo formoso criado de que o conde se atrasaria um pouco. preocupava-se em que a revelação de suas preferências sexuais pouco convencionais — preferências já bem conhecidas por seus amigos. alguns parecidos com petecas de prata.” “Vamos apagar da memória o relógio que encomendei”. O Abade arregalou os olhos para um depósito de mercúrio imenso. Tenho uma reputação a zelar. Isso ficou evidente quando Claude e o Abade foram conduzidos ao espaçoso apartamento do conde. como os usados pela mãe. aparelhos científicos e uma coleção de cartas de jogar antigas. senhor. Mostrou interesse pelo assunto antes. enroscou-se nos seus pés. o conde de Corbreuil entrou. “foi o responsável pela Sobrinha na farra com cão”. para manter o viço do pêlo castanho. para queimar coisas. Era partidário do rei. e depois para um planetário mecânico sobre uma base pesada. como o resto da vida do conde. Claude retrucou levantando-se rapidamente. outros similares a foguetes chineses. Temiam que os comentários sobre suas paixões privadas chegassem a ouvidos errados. “Meu companheiro”. “Foi um erro. Entrando na sala. Tinha cerca de trinta baralhos raros. girando a manivela do planetário com força excessiva. com iluminuras. quatro máquinas elétricas (duplas e simples). A sobrinha não era tão importante. O Abade permaneceu em silêncio. Claude ficou contente por ter persuadido o Abade a deixar em casa seus aparelhos enganosos. Quando o Abade bateu novamente em portas que já haviam se fechado na sua cara. higrômetros (não tão precisos. uma lente montada na janela. Homem vaidoso. seu cão predileto. atrás de uma mesa repleta de vidros.

benevolente: “Muito bem. mas não vejo mal nisso. Fez algumas perguntas. mais ou menos pertinentes. cuja assinatura. pelo secretário e pelo Abade.” “Minha mãe”. “Minha reputação. Chamou o secretário. e Claude as respondeu como se esmiuçassem a verdadeira essência de seu projeto. Claude prosseguiu. “dizia que se ganhava mais cuidando bem de uma lavoura do que abandonando várias. Nas dissecações. Jogando uma cenoura para Hércules. era difícil de decifrar. Faz muito tempo. nas montanhas. por meio de engrenagens e mecanismos disponíveis da ciência. as condições para o pagamento. Nenhuma menção do envolvimento do conde seria feita sem autorização prévia. vi máquinas nas quais o metal e a madeira se combinam com tanta naturalidade quanto os montes e o céu. que Claude imediatamente aceitou.” “Pesquisas desvinculadas entre si. O conde ditou. espero que permita uma recapitulação do projeto. o secretário anotou. O contrato era curto. observei as cordas vocais de homens mortos emitindo sons delicados.“Talvez.” “Então. Espero reunir todas estas investigações. e o contrato assinado pelo conde. narrando uma fábula cheia de descobertas. em um grande projeto. falará. Já ouvi até a voz dos instrumentos de sopro. onde a diversidade existe em miniatura. um verdadeiro garrancho. O rapaz formoso entrou com um pantógrafo debaixo do braço. monsieur le comte. e os dois jogos de braços de madeira produziram as cópias em tamanho reduzido.” “Então mostre sua miniatura.” Claude mostrou alguns esboços. . “Nas cabanas dos camponeses. Viva o rei”. o método de pagamento. em seu repertório de sons. as palavras que unem nossa nação: Vive le roi. porém preciso. do outro lado do rio.” O conde concordou. compreende?” O parágrafo-chave do documento estabelecia: “Eu financiarei a construção de uma cabeça artificial que. A cabeça falante deve proclamar. O conde mencionou cenas condições para dar seu apoio. Não tinha escolha. bem aqui. o conde disse. Mas ela também apreciava as virtudes dos jardins variados. Claude fez uma descrição lírica. Um prazo de nove meses entre a assinatura e o término foi acordado. Explicava as condições do patrocínio. Já me esqueci. O conde fingiu entender tudo. terá sua cabeça falante”.

” Perto de um comedor de fogo cheirando a álcool. Ainda juntos e sorrindo. das engrenagens. Um sujeito anunciava aos gritos as maravilhas dos equilibristas e acrobatas. mas foi impedido pela multidão que se reunia na frente de um pavilhão. Pesadelo dos alfaiates. eles conversaram sobre os planos. “Não serve para damas. As cabeças desapareceram. que bamboleava. Agnès apontou para o arco distante dos pinos de um malabarista. disposição das tubulações. Claude e Companhia resolveram visitar a feira do festival. Claude disse para a filha. Claude não disse nada. de botas (do jornalista) e de couro de avestruz curtido (de Piero. Os amigos surgiram no pátio vestidos para comemorar. de Piero e da ama-de-leite. apareceram na janela. o grupo comprou um pouco de picles e pão feito com aveia. O grupo tentou se aproximar. “Falou a eles sobre o encontro?” “Estava certo de nosso sucesso. ninguém soube.53 O percurso até a rue St. Mas. o Abade interrompeu a conversa. Claude deu-lhe as costas. ao chegarem ao pátio. As cabeças de Plumeaux. Não queria que obsessões acústicas se intrometessem em sua comemoração. A ama-de-leite chegou ao ponto de alugar um vestido sofisticado. “Devemos pôr estes assuntos de lado. Lembre-se do que sua mãe disse: “Trabalho é meio de vida. e notou que um instrumento fora adicionado à orquestra.” Para reforçar a vulgaridade. ele enfiou as abas do fraque entre as pernas. embora um tanto fora de moda. sonho das senhoras. que fabricava seus calçados com sobras dos trabalhos). o grupo subiu no coche que os aguardava. Depois de muito discutir. O grupo observou o Homem do Apetite Depravado. cujos bancos eram feitos para acomodar suas protuberâncias espantosas. pelo menos por um dia. “ Recém -saído do navio”. O trabalho. e não de morte”. onde uma porta exígua dificultou sua passagem. que moldava seu corpo de um modo novo e sensual. Na periferia da feira. Descendente de uma raça de escravos. O Abade gritou do pátio: “Journaliste! Empailleur! Nourrice!”. “ Os ditados de madame Page jamais incluíram a frase. não serve para cavalheiros. Vindo de onde. preferindo erguer a bolsa cheia de dinheiro no alto. que também se segurava em Claude. no jargão dos especialistas — mecanismos de junção. “Depressa.” Durante a viagem de volta.-Séverin poderia ter sido feito a pé. disse o Abade. O grupo seguiu sem se separar nem ao passar pelos arcos. “Um sujeito que come . outros gritos anunciavam as virtudes do Homem com Rabo de Macaco. como dissera o Abade. anunciou. O grupo passou pelo violinista de brinquedo grudado a seu dono humano. começaria no dia seguinte bem cedo. O grupo partiu em seguida. a ama-de-leite segurando a mão escoriada do empalhador (muito sabão de arsênico). Embora curioso. mas Claude e o Abade decidiram alugar um coche. O ar se encheu dos sons de tamancos (da ama). que por sua vez apoiava o Abade. de mãos dadas: Agnès. Os outros nos esperam ”. Claude viu a banda de um homem só que encontrara em seu primeiro dia em Paris. “Veja!”. um sino que tilintava. o empalhador segurando os dedos sujos de tinta de Plumeaux. “O boneco está fazendo o homem tocar uma canção. segurando no dedo delicado da ama-de-leite. mas Claude estava contente demais para contestar. do aço. com Agnès no colo.

A multidão aplaudiu. e fritavam no fogo. Usou lápis preto. as tochas e a frigideira caíram. as primeiras palmas foram ouvidas. Sentiu prazer em assumir o papel de generoso. Os ovos quebraram-se dentro da frigideira. Prendeu uma folha de papel com quatro presilhas. um jogo de guardanapos. Finalmente o grupo atingiu a área do malabarista. Agnès apontou. uma cauda de cavalo. enrijeceu os músculos do pescoço. como era costume naquele tempo —. O homem disse que esperaria que a imagem se fixasse antes de desenhar os contornos. retido na travessia da balsa de Trévoux. Eles riram ao pensar no amigo ausente. uma manteigueira. antes que alguém dissesse hocus pócus — ou hiccius doccius. de modo que a imagem precisava ser copiada de cabeça para baixo. Ele pensou em como seria ser beijado por Marguerite. Ficou fascinado pela cena no quadro reticulado. Ele ajustou o foco e capturou o reflexo em uma placa de vidro fosco gradeado. O círculo aumentava. Boi um beijo carinhoso.” “Creio que o cocheiro apreciaria o espetáculo também”. um instante de ternura que comoveu o jovem pai. oferecida por um gozador. temendo uma inesperada e ilícita levitação. enquanto Claude perguntava ao sujeito encarregado da elaboração da silhueta sobre o equipamento utilizado. As tochas caíram sobre gravetos até então despercebidos. e foram embora segurando seus pertences. com sua filha no colo. com a frigideira por cima. dois canivetes. disse o Abade. dizia o cartaz decorado com imagens de suas refeições anteriores. Do bolso do colete. Dobrou o joelho. Os ovos. Ali um homem especializado em silhuetas trabalhava em sua máquina. um homem exótico macambúzio que falava sozinho. Suspeito que o autor não visitou a terra natal deste pobre coitado”. Outro ovo foi introduzido. O malabarista acendeu três tochas e as atirou bem alto. disse o homem sério. O malabarista jogava para o alto uma quantidade de objetos tirados dos espectadores — em destaque. Naquela noite. ele perdeu o controle. O jornalista descobriu uma barraca que o interessava. Depois jogou uma frigideira que segurava entre as pernas. Marguerite abriu a pesada cortina para matar a curiosidade da menina de dois anos. recuou a cabeça. Ver a menina sem mãe e a mãe sem filha o levou a pensar num quadro religioso. O malabarista parecia encontrar cada vez mais dificuldade para manipular os objetos. A multidão olhou novamente. e Claude descreveu: uma vela. Ao ver Agnès. O homem explicou que o espelho para a reflexão estava quebrado. Depois de uma disputa breve e amigável com Agnès. um cadeado com ferrolho ornamentado. o artista pegou sua touca e a adicionou ao circuito. Claude revirou o bolso e tirou uma pequena moeda. até que. A platéia era grande. uma Madona de cabeça para baixo. O feito atual do guloso versátil: as obras completas de Rabelais. “Encadernadas em couro”. que demonstrava um talento excepcional. leu Plumeaux. Eles se acomodaram na escuridão. Eles passaram pelo africano. Ele não pensou nisso durante muito tempo. Mas Claude não estava escutando mais. que logo entrou na dança. Claude disse: “Li uma vez que o violino se aproxima muito da voz humana.avidamente todos os objetos que lhe dão”. comentou Claude. Quando os espectadores estavam a ponto de aplaudir seu número. e a luz entrou. O suor escorria pela face. emitindo uma série de cliques e silvos que encantavam os passantes. Os espectadores colocaram dinheiro no chapéu que foi passado. “Lei da ótica”. uma espátula de pedreiro. “Gostaria que Livre visse isso”. Uma capa foi removida. um peixe e uma bota de couro ainda morna. tirou um ovo. um pote de ervas com pote e tudo. beijando a garotinha no rosto. e foi difícil encontrar um local com boa visão. muito superior ao giz. perneiras. “Sempre odiou leitores vorazes. Observou Marguerite alegre. devido as leis da ótica. quando baixou a . Uma onda de suspiros percorreu a platéia.

.cama suspensa. Claude recebeu a visita da ama-de-leite.

disse. “Minha história?”. e mesmo a ligação com madame Hugon. fios e couro que moldava o corpo de Marguerite encantou Claude. exceto por um botão solitário que prendia a calça de Claude. mas o conhecia muito bem. A combinação de barbatana de baleia. suponho.” “Sim”. Ela a pendurou nas correntes que sustentavam a cama levadiça. Os botões impunham uma revelação progressiva. Elas caíram no chão. Acariciou os sulcos que percorriam a cintura e as costas. O desnudamento começou pela remoção do redingote rendado. Sentira o olhar atento de Claude durante o caminho de volta. Como esmaltador. “Doem. lenta. Sem dizer uma palavra. Durante a noite. onde eram mais profundos. entre outros insaciáveis amantes que freqüentavam a Coleção da Cortina de Lucien Livre.” Claude enrubesceu. Novos movimentos foram necessários para que ela se libertasse totalmente das restrições de seu traje alugado. Ele se deu conta. Ela o arrancou com os dentes. usando às vezes a boca para despi-lo. Como aprendiz de livreiro. tirou a musselina que cobria seu ombro. tornaram-se uma delícia excitante. Naquele momento. Desde os dias da jaqueta de veludo.IX O BOTÃO 54 Marguerite tomou a iniciativa. sapatos de fivela. virando seu corpo de ampulheta para cima e para baixo* na busca incessante do estímulo do amante. Claude massageou as marcas fundas da moda encontradas em Marguerite. na mansão. Claude olhou para as marcas em suas costas macias. calça e camisa passada a ferro. e sabia que ele não agia impulsivamente. não eram nada. que não se lembrava do que gritara aos vizinhos quando reformava seu quarto. O casal encheu o pátio de êxtases vertiginosos que superaram as . ela ficou no sótão depois que Agnès dormiu. antes de colocá-lo ao lado do manequim. Mas a vida superficial das pinturas e dos livros. desenhando pintas em prostitutas e cavalos. passando pelos seios. “Sim. Sua mão parou momentaneamente na primeira presilha da polonesa antes de desabotoar as outras. devido à pressão na virilha. Claude tocara cerca de quinhentas barrigas e o dobro de seios. num gesto que lembrava a remoção do avental justo usado por Catherine em Tournay. de repente. Marguerite concentrou seus esforços em Claude. Marguerite terminou a tarefa. “Como a mulher em sua história”. e o segurou na ponta da língua por um momento. arrancado por uma meretriz num momento de luxúria incontrolável. Teve mais trabalho com os botões. Ela esticou os braços. Removeu o peitilho triangular e as roupas rendadas. cães e rainhas. que ainda vestia suas roupas de passeio: luvas. Em seguida soltou os cordões que controlavam as anquinhas. Marguerite confirmou. em comparação com o que sentia no momento. Ainda usava o espartilho. Ela reagiu. Em seguida tirou a roupa. Em seguida. perguntou Claude. Marguerite sorriu suavemente com esta modéstia tardia e o abraçou. colocando as mãos de Claude em cima da pele marcada. guardara na memória as aventuras picarescas de Peter Pickle e dom Pederast. Caíram as anáguas. Percorrera os órgãos genitais de criadas. os botões eram uma tortura para Claude.

Enquanto Agnès dormia em seu novo barril de vinho — o anterior também se tornara pequeno —. na bancada. . só o manequim testemunhava os movimentos na cama.exclamações convencionais do chapeleiro do andar de baixo. no chão. Apenas uma vez. o casal parou para recuperar as forças. Brindaram os vizinhos com uma seleção de apelidos inéditos e impublicáveis. por um breve momento. e com sons que Claude jamais seria capaz de registrar. voltando logo para as declarações de amor ardente.

não por causa da moda. Eu me recuso a comparecer a uma festa sem trufas. O cocheiro pretendia reproduzir a estampa de banquete com que Claude decorara a vitrine de Livre durante os momentos mais felizes de um aprendizado infeliz. E onde encontrar um bolo no formato do chapéu de hussardo? E os polvorinhos e clarins fora de moda? O cocheiro sugeriu um cardápio alternativo.” Os dois discutiram. a versão sofisticada da desordem. naturalmente mais leves. o Abade. Como sobremesa. Depois. como extravagância. os dois irmãos mais novos de Marguerite. Custaria uma fortuna reproduzir o tal banquete da vitrine. disse madame V. enfiando um dedo e depois o nariz pelo orifício da torneira. claro. tão chocada com a segunda sugestão quanto com a primeira. O banquete foi um espetáculo. frango e costeletas de carneiro ao manjericão. Olhou . Depois a entrada: duas sopas e um belo rosbife no centro da mesa. com os outros assados. ocupando a cabeceira da mesa. convidado de honra. geléia de groselha e pêssego em calda. vestido com simplicidade. o casal propriamente dito. “Os pães e roscas são possíveis. Em seguida. voltam os remanescentes da entrada. nem pensar. Madame V. Cheguei a mencionar os morangos frescos? Não se esqueça deles. claro. os vinhos e destilados — Tokay e brandy combinam perfeitamente. pensava em algo muito diferente. balançando no berço do canto. disse repetidamente. mas o cocheiro sonhava alto demais.” O cocheiro retornou duas semanas depois. embaraçado com os discursos que seus entes queridos se sentiram na obrigação de proferir. feliz em desempenhar o papel de patriarca (“Nada de pão e caldo para mim hoje”. bater de panelas e charivari típicos dos casamentos de Tournay. Para encerrar. Madame V. Quando terminarmos estes pratos. o tipo de solução que elimina criados e reduz custos. aves recheadas de trufas e frutas para pirâmides. algumas saladas para limpar o sistema. divertindo o cocheiro e Plumeaux. castanhas. Seguidos de vinho do Porto.. mas do mêtier. Biscoitos de amêndoas bastam. Um triunfo. Não precisava se incomodar. Por insistência dela. Um cardápio mais modesto. exijo apenas fricassê de rã. Os pais de Marguerite compareceram ao evento. pato. Como tudo o que acontecia atualmente no sótão. e. Agnès. “passe o Tokay”). com um barril de Porto confiscado e preocupações quanto à natureza parcimoniosa de madame V. preparou um ambigu tradicional. que fatiou o porco com sua faca de empalhador. mais do que uma refeição. a família de Marguerite trouxe pães e roscas. Deve ter sido a primeira vez que um cadinho foi usado para servir sopa. cabelos empoados com farinha. Passou a orçar pães e roscas sofisticados. nem motivo para se negar tal requinte. frutas frescas e compota de pêras — o Abade e eu adoramos pêras — antes dos biscoitos. confusão. o banquete nupcial implicou algumas invenções e adaptações. Isso é tudo. Quanto ao resto. Não tinha como saber se as aves eram recheadas com trufas. teremos vitela assada bon-ne femme. Piero. certo?” “Não”. Queria organizar uma comemoração mais frugal. Alguns pães eram tão longos e delicados que foi preciso calcular a melhor maneira de subir as escadas estreitas com eles. “Começaremos com três hors-d'oeuvres extremamente simples.55 O cocheiro c madame V. pensavam diferente quanto à festa de casamento. que atiravam projéteis imaginários com seus garfos-pistolas. “Faça a rota de Lyon e deixe a comida por minha conta. com diversos pratos servidos simultaneamente. fora. O padeiro evitou citar o primeiro e trágico casamento da filha. pois os pais de Marguerite têm uma padaria.

o Abade bebeu e espirrou. “Acho que eles deveriam se comportar melhor”. Arrancou a venda. para dominar as pestes. pode restaurar a pureza para contentar o moralista mais exigente. Nada disso. em momentos diferentes ou não. mas o que se reconhece.longamente para Claude. Jean-Pierre espirrou no lenço. Os convidados sentiram uma certa angústia. os dois adultos riram. na noite de núpcias.” “Mas nós queremos sossego. Plumeaux falou. Depois de um momento de silêncio terrível. serviu. como um comerciante avaliando a mercadoria pela última vez. Claude falou. Piero cravara a faca na parte da mão de Claude onde não havia nada. mais lento por causa da gota. o trabalho de Claude é digno das estrelas. “Philippe! Jean-Pierre!” A esposa do padeiro estava furiosa. Um. ele não conseguiu esconder sua curiosidade. o cocheiro mastigou. para desespero de sua mãe. O amor tem a força necessária para escutar as respostas. Agnès balbuciou. e não incomodam ninguém. Claude fingiu pânico. globo celestial — afinal. Depois de doze compassos. Daí o grito. como os vizinhos podem testemunhar. quando não o ocupamos com nossos discursos. “E. riram. os gêmeos fizeram travessuras. Outro. que fez uma serenata com um instrumento que Claude nunca ouvira antes.” Os gêmeos ficaram quietos. gostaria de brindar ao trabalho que está sendo feito neste quarto. e Philippe disse: “Deixa eu ver”. como todos sabem. enquanto Piero cortava o dedo e o atirava em Philippe. Ele disse: “O amor não é simplesmente o que se diz. “Precisam brincar. Não faltaram nem os gritos. Podem os dois mundos coexistir? Creio que sim. finalmente. Os gêmeos ficaram horrorizados. Não vejo estes choques infelizes entre Marguerite e Claude.” Durante a festa. Plumeaux levantou-se dizendo: “Crescemos com a falsa noção de que os mundos do amor e do trabalho sempre competem e colidem. Só mais tarde os gêmeos revelaram que haviam colocado uma ostra no lenço. e todos. .” “Não estão deixando ninguém comer. enquanto a discussão entre os dois adultos pegava fogo. Os dois pestinhas passaram a usar uma colher para catapultar ervilhas. E não se pode desprezar o fato de sua esposa ter sido casada antes. a esposa do padeiro soluçou. fora um dedo de cera dentro da luva. o Tokay já estava fazendo efeito. madame V. Piero ficou tão furioso que pegou a faca de empalhador que usara no porco e a cravou na mão de Claude. A virgindade antes do casamento pode ser uma faca de dois gumes. Prefiro pensar que tais domínios são dois globos. Depois disse: “Que os dois se encaixem como roscas trançadas”. Os meninos aprontaram uma boa. todos à mesa se assustaram. e Claude conspirou com Piero. Quando o Abade ergueu-se para discursar. temendo que a vulgaridade do Abade se manifestasse com força total. outras coisas — extraordinárias — ganham movimento a cada dia que passa. Ele cobriu os olhos do casal e chamou um músico. globo terrestre — o amor do casal. Os esforços convencionais para acalmá-los foram infrutíferos. Piero disse. A noite terminou com uma extravagância promovida pelo Abade.” “Eles querem se divertir também. Uma bexiga de peixe untada com o humor colérico da ovelha. embora uma casca de pêssego seja uma alternativa menos complicada”. ele considerou o material adequado para o consumo e engoliu a massa mole. Fico satisfeito em saber que. conforme me torno mais e mais inútil. E. Piero encorajou os meninos a prosseguir com as brincadeiras. Claude possui uma audição privilegiada. Depois de uma cuidadosa inspeção. “Ridículo”. Na verdade. tem os pés no chão. aplicada no local adequado. e muito bem”.

vox humana. Ergueu-se.” . propondo também um brinde. o que mais?” Claude olhou em torno da mesa. ao som da voz humana. “Ao som da vox humana. disse o Abade. “Mas também é conhecido por um outro nome”. “Qual nome?” “Ora.“O que é isso?” O músico respondeu: “Um oboé tenor”.

Ou escutava paciente. Era uma confidente fiel. Como os cantos dos pássaros. e pelo tempo gasto penteando os pêlos das axilas. ela acendia uma vela e punha a seu lado papel e lápis. No início. colher de sopa. Claude freqüentemente ligava as marcas de sarampo da esposa. E fazia muito mais que isso. um analista dos temas digestivos. atribuía a semelhança gástrica à devoção de Marguerite pelo feijão. Plumeaux a chamava de cariátide. esperanças. suas idéias clareavam. Claude tinha dúvidas quanto à aparência externa da cabeça falante. os corpos se uniam em uma paixão lânguida tão pungente que explicava o motivo de os franceses usarem uma única palavra — sentir — para os sentidos do tato e do olfato. o casal inventava jogos amorosos debaixo de um cobertor pesado. palavras. esfregavam e alisavam por horas a fio. para que pudesse registrar idéias que de outro modo se perderiam. “E firme. Durante o inverno. e Piero.” Ninguém discutia o apelido. cheirar as meias antes de ir dormir. solidária. mas Marguerite o incentivou. Claude hesitava em pular do sexo para a mecânica. Todos concordavam neste ponto. comida. Com freqüência. e criava constelações com as pintas no estômago e pontos das profundezas mais estimulantes. camisolas. Seu apoio se mostrava em cada pequeno gesto. Marguerite ria do costume de Claude. quando Claude não estava trabalhando nele — o projeto ganhara gênero. Marguerite gostava que Claude esquentasse a cama antes de sua chegada. Nos meses mais quentes.56 Marido e mulher compartilhavam pentes. Marguerite às vezes excitava Claude usando apenas chinelo e um laço de seda em volta do pescoço. falando agitado de alguma imprecisão do projeto. e a crítica mais vigorosa quando a euforia tomava conta do marido. Ela recusava a falsa noção de competição entre duas paixões. E quando Claude acordava subitamente. O Abade foi o primeiro a perceber que Marguerite adotou o sotaque de Tournay. as posições confirmadas apenas pelo inesperado aparecimento de um pé ou mão na beirada da cama. usando as polias e redes espalhadas pelo sótão. medos. eles se acariciavam e tocavam. cheiros. No final da construção. quando o calor descia do teto. Depois de tais exercícios de verão. eles faziam amor atrás da cama. quando ele se debatia nas dúvidas. zombava carinhosamente da investigação facial com um espelho de mão. Claude. estes sons mudavam conforme a estação. Era na cama que os dois amantes compartilhavam os prazeres mais intensos e sintonizados. Nos dias mais frescos. . Cobertos pelas mantas que ocultavam seus movimentos misteriosos. brincadeiras. Outras diferenças eram estimuladas. encorajando sua destreza manual a passar fluentemente da cama para a bancada. e também que se enrodilhasse em seu corpo como um ponto de interrogação. calçadeiras. mas ainda não tinha personalidade —. Marguerite retribuía com explorações da língua que lembravam a primeira noite de mordidas no botão. Tanto estímulo transbordava para o trabalho de Claude. Os meses seguintes ao banquete nupcial ajudaram a ampliar sensivelmente os Ruídos Amorosos no rolo S. sabonetes. As diferenças entre os dois eram resolvidas com um mínimo de queixas. angústias. e ele tomava notas ou esboçava engrenagens antes de o néctar testicular secar no lençol. e que Claude permeava sua fala com gírias parisienses. gestos. depois de fazer amor. O cocheiro acrescentou suas próprias observações quanto à união do casal: “Os dois até peidam igual”. delicada. por sua vez. desejos (principalmente desejos). Nas noites em que acordava devido à agitação do marido — ele freqüentemente rangia os dentes dormindo — costumava acalmá-lo acariciando gentilmente seu maxilar. nas costas. ternura.

não tenho idéia. por razões práticas. tenho certeza. o maior potencial encontra-se nas vestes de um turco.” “Não fez exigências quanto à aparência. por sua vez. “ Marguerite revelou sua preferência pessoal: “Não há nada de errado em combinar elementos simples e complexos. E.” . que. Marguerite perguntou. se eu escolher mesmo o Turco. De todas as possibilidades. Conhece o ditado: “Por fora bela viola. Sua reputação. O mundo que você criou serviria de aperitivo para o Turco Falante. e estava cansada. Era tarde. Você cuidará disso. Ficaria satisfeito com um fazendeiro. Marguerite perguntou esforçando-se para continuar acordada. temos o jogador de xadrez de turbante de Von Kempelen. O Abade quer uma coisa. Agora durma e sonhe com a glória.” “Um Turco Falante. Este compromisso satisfez Claude. E talvez precise de uma boa revisão. “O livro que Plumeaux quer escrever. Além disso. um efeito mais dramático nos “Não sei. E qual é o problema do Turco Falante? Eu poderia costurar uma roupa linda. Uma história da minha invenção. O Abade acha que o sótão diminuirá o mistério do homem artificial. ele é o patrocinador. deseja uma roupa e um nome simples. Deve ser homem. “E agora. por dentro pão bolorento”. Ele diz que todos esperam a mágica do Oriente. que eu escondo as vergonhas debaixo da roupa”. resta o problema do cenário que o rodeia. claro. nunca vai ser pão bolorento. o que o preocupa?”. sabe como é? E. percebo que a estrutura é um pouco forçada. “Plumeaux considera a idéia muito óbvia.” “E quanto ao conde de Corbreuil? Afinal de contas. Quando fala no assunto. O Abade. os outros elementos servirão de distração.“O que acha que pode provocar espectadores?”.” “E o que você acha?” “Creio que não devemos ocultar a engenhosidade do Turco.” “Um detalhe. peruano ou siamês. E. se algo der errado durante a exibição. graças a sua habilidade na agulha.” Marguerite fora encarregada do traje. o cocheiro outra. pretende colocar detalhes anatômicos que poderiam provocar um escândalo incrível. Além disso.” “E o que você quer?” “Não sei bem.” “O que os outros dizem?” “O que eles dizem? Tudo. Plumeaux prefere um chinês. por algum tempo. se quer saber. Tem medo de se associar ao projeto. Os registros mais graves são mais fáceis de reproduzir. Cada um quer projetar nele suas idéias pessoais. Quanto aos detalhes anatômicos — atenda ao pedido do Abade. Plumeaux uma terceira.

Não entende? A linguagem de seu trabalho e do meu convergem no mostruário do relógio. Não se considera este um procedimento correto. que não devemos ser escravos do excesso de engenhosidade. Claude o interrompeu: “Creio que passa tempo demais consultando glossários de relojoeiro. O jornalista se esforçara para parecer tão engenhoso quanto a própria invenção. “Como assim. O Abade me ensinou.. Claude apoiou o aplicador em sua base e disse: “Prossiga.” “Como eu dizia.” Ele mostrou a Claude um esboço da história proposta.. Resumiu rapidamente os capítulos: “Veja bem. “Surgiu durante uma discussão. “O rosto”.” mal alinhavadas em uma estrutura capenga. Embora tanto a narrativa quanto o relógio sejam cronológicos.57 Claude foi complacente ao definir o projeto literário de Plumeaux. e precisava de mais do que uma pequena revisão. “Confundirá Deixe disso. encontrei uma maneira nova de organizar o livro.” Plumeaux esperou que Claude escovasse os cabelos do Turco e colocasse outra folha de ouro no lugar. submetendo-as à fumaça de penas de perdiz queimadas com tintura escarlate. O capítulo III . a estação que marcou o início de seu trabalho em relojoaria. há bastante tempo.” “Por favor. não fale mais nada. claro. Plumeaux respondeu à sua pergunta: “Os números no mostrador do relógio são chamados de capítulos. Nunca se deve menosprezar o poder da simplicidade. O que estávamos discutindo? . disse Plumeaux. é um mostrador de capítulos”. referindo-se tanto às viagens quanto aos movimentos do relógio”. comparar as duas coisas me confunde”. um mistério dos relógios que jamais fui capaz de explicar — será “Movimento”. O brilho não dura muito. Lembra-se de como os relojoeiros chamam os números no mostrador do relógio?” “Como?” Claude estava ocupado demais com o trabalho para se preocupar com isso. Capítulo V. Claude perguntou dando os toques finais nas dragonas do maometano uniformizado. A obra completa terá 360 páginas. novo?”. Isso também não serve para descrever os esforços do escritor? Por que nossos projetos não podem se sobrepor? Afinal de contas. estou ouvindo”. que escorregou pelo ombro do Turco. Ele exibiu o relógio. como você sabe. “Tenho um novo método para organizar a história”. Mas eu quero que o Turco brilhe. O capítulo II leva o nome de “Primavera”.” A grosseria de Claude foi provocada pela aplicação de mais uma folha de ouro. meu caro Claude. invoca o Pequeno Retrato. Capítulo li. há muito tempo. O capítulo mi — mantenho o costume bizarro de usar quatro barras em vez de IV. Depois disse: “Dei um certo brilho às drago-nas. Isto aqui. A estrutura era mais do que um pouco forçada. passando o dedo pelos números.” Plumeaux ignorou as críticas. “O que é um autômato? Algo que reproduz a realidade. o que fechará o círculo. Não passava de um amontoado de meias verdades impublicáveis. Por isso. Capítulo III . O capítulo I se chamará “Mãos” — uma referência a suas mãos e os problemas que teve com elas. dando a cada um o nome de um episódio da vida do inventor. o paralelismo parece meio forçado. nós dois procuramos uma voz. Capítulo mi. eu construí a história do Turco Falante em doze capítulos. “Como disse. “Capítulo i.

porque marca o ano da criação do autômato. “O folheto de divulgação pode sair bem antes. Afinal de contas. Por exemplo. “Um nome adequado. “Eu teria dificuldade em explicar a meus detratores que tal número pudesse ser alcançado. Na verdade. Faz com que eu me lembre do pote de Lucien Livre.” Claude ficou aliviado ao ouvir suas próprias palavras. o Turco promete ser o mestre e senhor dos mistérios. não sei dizer exatamente. “Propõe algum título para nosso espetáculo?” “Andei pensando muito no assunto. que se reduziu a três possibilidades.” Claude não se preocupou em dizer que o jornalista desperdiçava seu tempo também.” Claude olhou para as dragonas reluzentes. “E as outras?” “O Misteriarca.” “E quais são?” “O Microcosmo. começando pela letra M. Vamos rebater todas as críticas. Então diga a seus amigos impressores que preparem as tintas. Lembre-se de que usei o termo na primeira notícia que publiquei sobre seu talento criativo. “Sim.” Vendo que não poderia dissuadir Plumeaux. melhor ainda que a “gruta da mansarda”. Quem não se inspira nos outros?” “Quando o livro estará pronto?” “Dentro de um mês. e não gostaria de dar a eles munição para contestar a autenticidade do Turco.” A imprecisão não parecia perturbar Plumeaux. Os mistérios de Paris. Fiz uma lista. há erros que podem nos causar problemas. Qual seria o terceiro?” “O Miraculatorium. “ “Tirei o termo de Lavater. é preciso mascarar a incompreensão com uma pequena hipérbole”. Mas isso não importa.” “Não se preocupe com seus detratores.” Claude não gostou da escolha. Quantas.” “O número é perfeito.” “Acho que não gosto deste nome também. “Além disso.” “Ótimo.Claro. “O Turco Falante está pronto!” .” “Suspeito que tais requintes serão desperdiçados na leitura. os capítulos de seu livro”.” “Tarde demais. há menos de 1789 partes no mecanismo. cada uma delas. ele defendeu sua escolha: “Sou um jornalista. Por vezes.” Claude gostou. por coincidência. Claude mudou de assunto. Verificou as especificações técnicas.

Como sabem. sieur Granchez. Estas. havia cogumelos. Não! Aqui. Sem o auxílio nem o aval de uma academia. para suportar o desgaste das polias e engrenagens que ocultava. uma”confirmação de que a subida permitiria abandonar um mundo e penetrar em outro. ambos chamando a atenção graças a seu disfarce. entre os presentes encontravam-se o conde de Corbreuil e seu jovem secretário. Piero criara feições exóticas: bigode de fio de seda. Ninguém comprovadamente obteve sucesso. A primeira indicação dos milagres anunciados surgiu quando os visitantes subiram as escadas. dois membros adjuntos da Academia de Ciências. Na base de apoio para o Turco Falante. lábios amendoados de pelica. Em pouco tempo os entusiastas fizeram suas investigações. dramatizando os movimentos. Ou. os três coelhos seguravam tochas. Marguerite fizera mangas ligeiramente mais longas do que o necessário. E.58 Os panfletos anunciando que o Miraculatorium estava pronto ostentavam um título conciso: Une Tête Parlante. Os olhos de vidro do Turco reluziam. pelo marinheiro encarregado de transportá-la. O pátio do prédio na rue St. as pessoas viam um estrangeiro de roupas vistosas. a história nos dá uma série de triunfes sem comprovação. lembranças mnemônicas de Tournay. naquele dia. O rosto brilhava. lesmas e ramos carregados de pêras entalhadas. explicando melhor. quando comparados ao que temos aqui hoje. Em cima. o espaço no Miraculatorium era extremamente limitado. Uma Cabeça Falante. “Senhoras e senhores. para iluminar o destaque. quem sentava na frente do Miraculatorium tinha dificuldade em concentrar a atenção. um preparador de tripas. náutilos. Durante muitos anos. O assoalho do Miraculatorium brilhava. ervas. A roupa era forrada por pano grosso. calçando sapatilhas pontudas. ao centro. O sujeito sentado aqui é produto de mais de quatro dúzias de diferentes ofícios. as mentes mais capacitadas sonharam em tentar recriar a palavra falada por meio da mecânica. Marguerite fechou o painel de controle do Turco com o botão que marcara o primeiro encontro amoroso do casal. . Claude instalou um espelho telescópico. a fonte de intervenção sobrenatural. o senhor Granchez forneceu de graça. três ferreiros das docas. o trabalho “de um aprendiz de livreiro interessado em mecânica” foi desprezado. e os concorrentes furiosos falaram em fraude. O que estão a ponto de apreciar não é um deus ex machina de palco. a substância brilhante não foi identificada). um fabricante de órgãos e três ricos patrocinadores das artes mecânicas. Pois eis aqui a prova de que a voz humana pode ser reproduzida. E o que dizer do jogador de xadrez de Von Kempelen? Não sou o único a suspeitar de fraude. Digo comprovadamente porque é importante distinguir as fantasias otimistas do espetáculo que presenciam hoje. Em volta dos arranjos. tirado do livro inédito. A parte inferior do sujeito sentado traía uma ligeira protuberância. Olhando pelo tubo. os pés do Turco apareciam. ao conseguir isso. além de muito discutido. Além da zeladora. Com todos os mecanismos instalados. não há nada de sobrenatural no Turco Falante. o autômato criado por Descartes? Diz a lenda que foi jogada ao mar. e fora enfeitado com buquês de flores artificiais. Segundo as anotações no caderno. Mesmo que estes mecanismos sejam reais. sugerindo um detalhe anatômico que atendia aos desejos do Abade. Ele contém 2199 partes.-Séverin estava cheio às dez da manhã. O torso do Turco fora coberto por uma camisola criada e costurada por Marguerite. cílios de penas de cisne negro. Fundo e frente disputavam os olhares dos presentes. a máquina é o deus. não passam de esforços medíocres. graças aos cacos de cristal de rocha espalhados (talvez fosse açúcar-cande. Etiennette. Registrando silenciosamente seu vínculo com Claude. derrubamos um dos mais questionáveis conceitos do drama clássico. Alguém confirmou a existência de Francine. Um pouco acima. no Miraculatorium. iluminado por coelhos brancos segurando tochas. Plumeaux deu um passo à frente e começou seu discurso. que ia da porta ao pátio na rua.

o desenhista ultrapassa as margens e o músico toca uma nota errada de vez em quando. Os lábios de prata . depois para o outro. indicando que o ajuste — uma compensação barométrica para a expansão da língua metálica — estava feito. Claude girou uma grande chave.” Plumeaux percebeu o sinal de Claude. Sabem como são os autômatos. Claude saiu de trás do Turco. Uma válvula se abriu. mais do que a palavra. na verdade em direção ao próprio Alá. Claude. o odor de dois queimadores de incenso encheu o ar do sótão. Acreditava-se. anatomia e muito mais. dando-lhe o dom da fala. roscas sem fim e diferenciais movendo-se de diversos modos. que servia apenas para estimular a platéia. mesmo baixinho. fosse humano ou mecânico. os autômatos exigem cuidados diários. Mais uma vez. Primeiro saiu fumaça. Temos aqui um sujeito temperamental. puxando os olhares para cima. deu um passo à frente para distrair a platéia. Pagamos para ouvir um chiado? Fraude! Isso é uma fraude!” O grito veio dos acadêmicos. E interrompeu o discurso improvisado. a teoria da atitude e expressão facial. O Turco começou a se mexer. Depois o ombro dourado se ergueu. Estou terminando uma história do caso. Os professores de teatro se encantavam com a noção retórica clássica de adio. Seu pé bateu no chão. No caso do Turco. discretamente. para convencer ao falar. ele fala! Mas só se eu me calar. seguida de um som débil de engrenagens: biséis. na época em que Claude construiu o Turco. mesmo antes de abrir a boca. excêntricos. pressionando foles na coluna de ar. para compensar as limitações da sala nesse sentido. e a respiração podia ser ouvida. Basta dizer que. Os pássaros cantaram delicadamente. O peito se estufou ligeiramente. pois é o ano de sua manufatura — se movem. neste meio tempo. Trabalhos de precisão necessitam de ajustes constantes. Claude agachou-se atrás do Turco. que o gesto. O ar foi liberado. nenhum som humano havia sido produzido. que torciam para dar tudo errado. Claramente. Com uma das mãos. Não os aborrecerei com os detalhes da construção neste momento. e mesmo assim o famoso escritor comete erros de ortografia. atraindo a atenção de todos. todos ligados num mesmo ponto.das quais 1789 — um total apropriado. regulando ali. Um professor de eloqüência disse a Claude que alguém. o Turco fala. antes que Claude assumisse o controle. Ouçam a voz que ecoa por esta mansarda. A platéia aguardava. por meio da milagrosa conjunção de mecânica. Como crianças pequenas. “Um pouco de paciência. pisou num pedal. Sim. e o ar comprimido chegou ao bocal. o Turco era sedutor. Sua cabeça virou para um lado. consertando aqui. certo? Os assistentes de Jaquet-Droz e Leschot passaram a vida com as ferramentas na mão. as flores se abriram. Nada além de um chiado. para que possam ouvir sons muito mais interessantes do que a minha voz. capazes de atingir locais de outro modo inacessíveis. As sobrancelhas ergueram -se para o alto do sótão. E ficarei calado. coroas. Plumeaux. por favor. precisava seduzir por meio do gesto. Os espectadores. e desabotoou a roupa para fazer os ajustes com um jogo de ferramentas especiais minúsculas. preço e local a ser determinados em futuro próximo. Ele moveu as alavancas. agora testemunhas. enquanto com a outra acionava um painel de alavancas de latão que ativavam o Turco. “Um chiado. Uma voz que ecoará por todo o universo!” Plumeaux agradeceu os aplausos tímidos. era essencial para a comunicação. Mesmo assim. pareciam-se com touros tensos. Forneceu à platéia cometas acústicas. os problemas são ainda mais ardilosos. em breve à venda. ele acionou as alavancas que tornavam seu sonho realidade.

inspirados em Vaucanson abriram-se. Os lábios ligeiramente abertos produziram quatro sons distintos. num ritmo lento desesperador. e depois. bem como seu destino. Claude apertou uma sucessão de pequenas teclas. Com estas palavras. saiu a voz entrecortada. a fama de Claude Page estava garantida. . abafada. mostrando a língua metálica. Veeeeeee — vuuhhh — luhh — Waaaaaahhhhh! Vive le roi.

Homem Artificial. Contudo. e já havia uma multidão esperando pelo das cinco. o que enfureceu o livreiro. e afirmou que. no caso de o Turco Falante estar à venda. Truques? Mais do que provável. conforme as posses dos clientes. um valor que permitia a entrada de até seis pessoas de uma vez na tenda. Claude aumentou as sessões. Uma marquesa pagou vinte luíses de ouro por um encontro com Claude em seu jardim. Sieur Curtius.) Nem bem começava o espetáculo das três horas. “como o açúcar atrai formigas”. escreveu um picareta anônimo. é característico de uma mente alerta. mas um gênio mecânico criativo. não confirmado pelos arquivos reais. como se uma nova voz substituísse a antiga. “famosa em toda Paris. Apenas uma longa investigação poderia revelar os possíveis estratagemas do inventor. “Esta calúnia tem o objetivo de provocar controvérsia. onde o agraciou com o título de Cenógrafo Principal e encomendou uma série de órgãos de água para sua propriedade. A tranqüilidade e o bom humor da boca são excelentes”. Ele se recusou. E até mesmo Livre. Ingressos para os lugares de primeira. propôs um acordo para publicação dos planos do notável mecanismo. numa visita subseqüente. proprietário do museu de cera. descobrimos que o tom de voz mudara significativamente. Não se pode esperar poesia da testa. Boca Milagrosa. os europeus se confundiam com as diversas culturas orientais. Depois começaram os pedidos para demonstrações fechadas. como prometido no prospecto. incansável. fez o que se esperava dela numa demonstração recente. Os magistrados da cidade impressionaram-se tanto com o evento que nem exigiram suborno para que seus nomes fossem citados nos folhetos de propaganda. O picareta . Turco Falante (alguns acertaram) e Persa Mecânico. Houve até um boato. seus bonecos perdiam terreno para as novas maravilhas. uma Alteza Sereníssima. como hoje. Plumeaux fez o máximo para revidar o ataque. se a máquina dissesse seu nome. curioso. o povo de Paris formou filas para ver o objeto chamado pelos diversos jornais de Cabeça Falante. O vizir disse que o filho honrava a memória do pai. Progressos na parte mecânica? Talvez. Fez sucesso suficiente para ser transferido para um local mais espaçoso. “As palavras não bastam para expressar o que estou sentindo. (Na época. trabalhando sempre para atingir suas metas. perto do Louvre. um homem simples. “A Cabeça Falante”. Disse “Viva o rei” com seus lábios de prata. Durante três meses. agradável. inconsciente de sua superioridade. Mas. principalmente. ele percebeu imediatamente que seria silabicamente impossível conciliar o egocentrismo da condessa de Zweibrücken-Birkenfeld. enviaria como pagamento a mercadoria mais preciosa — camelos. Uma condessa palatina prometeu cem libras a Claude.59 O Miraculatorium atraiu gente.” Claude ficou furioso. e conseguiu deduzir o seguinte: “Uma fisionomia original. propôs sociedade total. Não se sinta ameaçado. A cerca da entrada precisou de reforços para conter os mais afoitos. criando “demonstrações visuais” — uma frase que lembrava seu primeiro dia em Paris — por três libras a sessão. cujo comportamento era tudo menos sereno. bem proporcionada. numa tenda. de que o rei pensou em conceder uma pensão a Claude. insistiu para que Claude levasse o Turco para seu quarto. tão refratário no passado. Claude agradeceu e recusou. o nariz. Claude reagiu com repulsa. Tudo ia muito bem. Outra dama da nobreza. capaz. segunda e terceira classe foram vendidos rapidamente.” Lavater enviou um de seus assistentes para capturar a fisionomia de Claude. engolindo o orgulho pela possibilidade de lucro. até que uma pequena nota foi publicada no Journal de Paris. nas palavras do cocheiro. Mas a grande honra aconteceu quando Claude encontrou o vizir turco que conhecera seu pai.

está interessado em sabotar o mecanismo. Precisamos dar um jeito de lucrar com
isso.” Plumeaux compôs uma resposta, valendo-se de Diderot e dos aforismos de
Voltaire. Também anunciou que o mecanismo poderia ser investigado em particular. A
taxa era de oito libras.
Vieram especialistas, acadêmicos e outros gênios sustentados pelo reino, todos
incomodados pelo projeto de Claude. Um relatório elaborado por uma academia
levantava a possibilidade de o Turco Falante ser um ardil. Cansado de se defender e
proteger ao mesmo tempo os segredos de sua invenção, Claude decidiu se livrar dos
céticos que atrapalhavam seu espetáculo. Aceitou uma oferta para levar o Turco em
excursão. O cocheiro recebeu fundos suficientes para encomendar reformas em
Lucille no melhor fabricante de carruagens de Paris, de modo a acomodar seis
passageiros com todo o conforto: Claude, Marguerite, Agnès, Piero, Plumeaux e o
cocheiro. E, claro, o sétimo: o Turco, que viajava nas caixas mais finas, revestidas de
couro, com os olhos de vidro, lábios de prata e caixa de voz protegidos com palha
durante a viagem. Faltava o Abade no grupo. Muito doente para viajar, ele teve de se
contentar com os relatos por cartas, enviadas de terras distantes. A separação foi
dolorosa para Claude, nos primeiros meses, mas o sucesso no estrangeiro diminuiu o
sentimento de culpa.
Ficaram muito tempo em cartaz no Show Mecânico de Gall-mayr, em
Munique, e em uma famosa casa de Viena. O grupo percorreu o continente antes de
passar para a Inglaterra, um país que rapidamente aceitou a novidade para a qual os
franceses começavam a torcer o nariz. Depois de um mês em Londres, Claude e seu
“Cavalheiro Turco Falante” receberam proteção mediante uma carta real de patente
de Sua Majestade. O Turco ficou em exibição no café de Don Saltero, em Chelsea.
Os viajantes instalaram-se num apartamento próximo ao café, e logo
adotaram os padrões domésticos ingleses. Agnès, com inveja do autômato, certa vez
engoliu a língua do Turco, forçando o adiamento de uma demonstração até que sua
digestão se completasse e a peça pudesse ser recuperada. Mas, fora isso, a vida na
Inglaterra era tranqüila, sem os dramáticos acontecimentos históricos em curso na
França. Claude teria renunciado permanentemente a sua cidadania francesa, pela
“pérfida Albion”, não fosse pelo Abade, cuja saúde piorou a ponto de ele não poder
mais cuidar de si sozinho. Claude sabia que precisava retornar. Depois de dez meses
de viagens pelo continente e três anos de felicidade britânica, o grupo seguiu de
coche para a costa e pegou o barco para Calais. Levavam o Turco e muito dinheiro
economizado, em moedas de quatro países. Foi aí que a fama e o destino colidiram.
Um rápido cálculo de datas e períodos, somado a um conhecimento
rudimentar da história francesa, basta para revelar que Claude voltava a uma Paris
diferente* A mudança tornou-se patente nos portões da cidade, onde o cidadão
Page foi preso e acusado de traição contra a República. A denúncia o deixou
perplexo, pois nunca expressara sentimentos traiçoeiros. A política era algo pouco
familiar para ele, e um tanto repugnante. Durante sua ausência, pensara pouco nos
eventos revolucionários noticiados pelos jornais londrinos, e nascera em uma classe
que se considerava pouco interessante para as autoridades. Este conceito se mostrou
equivocado.
Claude foi trancafiado na Conciergerie, a pior prisão parisiense. Não teve
chance de ver o Abade, nem de se despedir da família. Nos dias seguintes, tentou
desviar o pensamento dos sofrimentos do antigo mestre, mas isso o levou a se
preocupar com a filha e a esposa, bem como com a gravidade de sua situação.
Enquanto Plumeaux e o cocheiro tentavam descobrir a origem das acusações e
negociar a soltura de Claude, este apodrecia numa cela pequena, junto com um
alfaiate itinerante, acusado de derrubar uma árvore da liberdade, e um taberneiro
que vendera vinho azedo a patriotas. O alfaiate chorava a noite inteira, enquanto o
taberneiro, mais estóico, porém nervoso, dava migalhas de pão para os ratos. Quando
Plumeaux finalmente abriu caminho a suborno até a prisão, e conseguiu amaciar dois

carcereiros ambiciosos e piedosos, Claude foi transferido para um quarto perto da
torre do relógio da prisão, o mais velho da cidade. Uma fresta da luz do Quai de
l'Horloge iluminava sua nova cela particular. Ele se lembrou da oficina de Breguet,
obrigado a fugir para a Suíça, naquela mesma rua.
Claude estava rico quando deixou a Inglaterra, e seu dinheiro serviu para
afastá-lo dos horrores do cárcere. Plumeaux contrabandeou livros e rolos, ferramentas
de relojoeiro e as notícias que Claude precisava saber, em sua opinião. “Descobri a
origem das acusações. Será julgado por causa da frase dita pelo Turco. Seu acusador,
Defrange, é o autor do ataque anônimo que nos levou a viajar.”
As notícias foram piores na semana seguinte. “O Abade não passa bem”,
Plumeaux disse. “Na verdade, ele vai morrer logo. Mas devemos resistir à tentação de
entrar em contato com ele. Ser padre é crime, e mesmo um padre renegado e
anticlerical como o Abade corre o risco de condenação.”
“Então quer dizer que ficarei aqui, privado do contato com minha família e
meu trabalho?” A voz de Claude traía seu desespero.
“Adiaremos o julgamento o máximo possível. Os tribunais no momento não
favorecem muito os acusados. Seus antigos colegas de cela — o alfaiate e o outro —
foram executados pelo Tribunal Revolucionário.”
Mais dinheiro foi gasto para azeitar a engrenagem corrupta, o suficiente para
permitir que Claude passasse o tempo regulando o mecanismo gigantesco do relógio
da torre. Apenas com estas distrações mecânicas ele conseguia esquecer seu
sofrimento por alguns momentos. Vivia preso a uma prisão da criatividade, tão sinistra
como a imagem que colocara na vitrine da Globo anos atrás.
Durante alguns meses, Plumeaux conseguiu proteger o cidadão Page das
sentenças cada vez mais sanguinárias do Tribunal. Os julgamentos tornaram -se
perigosamente simples: absolvição ou morte. Durante este período, o Abade morreu.
Plumeaux leu o testamento do velho mestre, para Claude, na prisão.
“Seu desejo foi ser deixado numa sepultura, até que apodrecesse, e seus restos
usados numa ampulheta. O caos do momento tornou impossível atender seu pedido.
Além disso, Piero disse que ossos pulverizados são muito irregulares para marcar o
tempo corretamente.”
Em função do tumulto nos cemitérios, Jean-Baptiste-Pierre-Robert Auget,
abade, cavaleiro da Ordem Real dos Elefantes, antigo conde de Tournay, foi
enterrado sem cerimônias em uma cova comum, nos limites da cidade, sem lápide. Só
anos mais tarde um memorial foi erguido em Père-Lachaise, com o epitáfio Ousou
Conhecer. Um náutilo ilustrava a lápide, sob as datas de nascimento e morte.
Claude não aceitou a morte do Abade facilmente. O sofrimento silencioso que
caracterizara a perda da mãe e das irmãs deu lugar a uma dor que o impedia de
dormir e o confundia. Quando foi levado perante o Tribunal, em uma dia quente de
junho, o cidadão Page era incapaz de fazer sua defesa. Estava vacilante e fraco,
consumido pelos demônios da memória e pelos horrores mais recentes da prisão. Tinha
um corte extenso no rosto, feito por ele mesmo quando bateu a cabeça contra as
barras da cela.
Plumeaux tentou ajudá-lo. “O cidadão Page não tem interesse em brincar com
os mecanismos do Estado”, disse no tribunal. “É o estado dos mecanismos que o
interessa.” Mas esta declarada suspensão de atividades cívicas não impressionou o júri.
Plumeaux mudou de tática: “Cidadãos, devem compreender que a noção de
revolução de nosso amigo significa muito mais que a rotação das engrenagens. Ela
representa...”.
Foi interrompido pelo promotor. “As acusações são sérias demais para permitir
jogos de palavras, cidadão Plumeaux. E, como deve saber, eliminamos as instruções

preliminares.” O julgamento seria apenas uma formalidade.
Plumeaux fez mais uma tentativa. “Por que devemos concluir que o rei que o
Turco Falante saúda é Luís?”
O promotor estava preparado. “Pouco importa se o traidor mecânico saúda o
rei da França ou da Espanha, se homenageia Catarina, a Grande, ou Jorge da
Inglaterra. São todos monstros coroados, que conspiram contra a República.” E citou
calmamente Hébert: “ “É dever de todo homem livre matar um rei ou aqueles que se
destinam a ser reis, ou aqueles que participaram dos crim es da realeza” “. Plumeaux
pensou em erguer a mão de Claude e mencionar que decapitara o rei da França
muito antes do Comitê, mas foi aconselhado pelas pessoas que o rodeavam a desistir.
A sentença de morte era inevitável. O promotor citou o caso de Jean Julien,
carroceiro, que, condenado a doze anos de trabalhos forçados, gritou “ Vive le roi”, a
mesma frase dita pelo Turco. O carroceiro foi levado novamente ao Tribunal, inscrito
na Liste Gênérale des Condamnés e executado.
O caso de Claude Page teria um desfecho semelhante. A diferença, para
surpresa geral, é que o júri não considerou o cidadão Page culpado dos crimes contra
a República, e sim a sua invenção. Um pasquim revolucionário, Fere Duchesne,
anunciou com estardalhaço: “A Cabeça Falante não falará mais”.
A ironia do método de execução não passou despercebida para o público. No
final, uma novidade engenhosa matou outra. A moderna máquina de decapitar de
Joseph-Ignace Guillotin silenciou o Turco Falante.
Duas horas depois do anúncio do veredicto, Claude foi forçado a carregar sua
invenção para o patíbulo, onde ela foi arrancada de suas mãos, amarrada numa
tábua larga, e colocada na lunette. Não houve cortejo com fanfarras, nem confessor.
Um capitão solitário da brigada nacional de cavalaria ligeira estava a postos para
supervisionar a execução. Um único capitão e uma multidão.
Claude despediu-se do Turco, enquanto a multidão gritava. A lâmina de oito
libras, cega pelo uso, desceu pelo trilho de madeira com convicção newtoniana.
Acertou o alvo. E parou. Todos ouviram o barulho horrível, um gemido diferente de
tudo o que Claude já ouvira. Foi o último som emitido pelo Turco Falante, e o mundo
ficou mais monótono depois disso. O pescoço do autômato, executado em aço de
primeira, segurara a lâmina. O carrasco, um rapaz chamado Sanson, ergueu a lâmina
pela segunda vez. A nova tentativa teve sucesso. A Cabeça Falante, separada do
torso elegantemente trajado, caiu no saco de estopa — ou na cesta de vime,
depende do relato que se escolha.
Claude tentou ficar com a cabeça, mas um revolucionário radical a levou,
enchendo a boca do Turco de feno antes de jogá-la para o alto. A cabeça subiu e
caiu no meio dos patriotas que gritavam. Subiu e caiu novamente, em outra parte da
praça, subiu e desceu de novo, cada vez mais longe.
Claude voltou sua atenção para o torso, que permanecia no cadafalso. Outro
membro da turba comandou o ataque, com tal fúria que Claude, ao se aproximar,
percebeu que a barra da roupa cheirava a excremento. Ele salvou o que pôde, e
afastou os curiosos que provavelmente um dia haviam pago para ver sua invenção.

X
O COMPARTIMENTO VAZIO
60
Claude retornou para o sótão, onde a esposa e a filha o esperavam
aterrorizadas. A alegria por sua libertação foi empanada pela notícia da destruição
do autômato. O julgamento e a execução silenciaram a família, como fizeram com o
Turco Falante. Marguerite abraçou Claude. Agnès agarrou-se a suas pernas e soluçou
com a convicção comovente de uma criança de oito anos.
“Não temos razões para viver aqui”, Claude disse depois de um momento.
“Precisamos voltar para a Inglaterra agora, antes que as autoridades revoguem nossos
passaportes.” Naquela noite, enquanto a mulher e a filha dormiam, Claude refletiu
amargurado sobre o destino de sua brilhante invenção. Muitas lembranças
retornaram, mas uma aparecia com freqüência e intensidade maior que as outras. Era
a recordação de uma conversa na mansão, quando o Abade descrevera a caixa da
vida vista em Sumiswald. “Um conceito interessante”, dissera o Abade. E, realmente,
era mesmo.
Claude olhou em volta do sótão. Esperava encontrar uma caixa, mas todas
haviam sido jogadas fora na sua ausência. Precisou se conformar com uma caixa com
tampo de vidro, que Piero usava para exibir sua coleção de passarinhos exóticos. Ele
acomodou a caixa num nicho, e começou a andar de um lado para outro, parando
na casinha de bonecas de Agnès. Sua moradia fora concebida com tanta
engenhosidade que até a casinha de bonecas tinha uma casinha de bonecas, na
qual um berço em miniatura de barril balançava. Claude pegou vários itens, e pensou
como cada um deles poderia simbolizar parte de sua vida e da vida de suas
invenções.
Durante a noite, ele conviveu com o mundo inanimado. Manipulou a
disposição dos objetos na caixa, alterando-a centenas de vezes, incapaz de conseguir
a harmonia, o equilíbrio desejado, aquilo que um pintor chamaria da correta
ordonnance.
Quando o sol nasceu por entre as chaminés, a luz banhou as paredes do
sótão. Claude finalmente chegou à ordem desejada. Ele colocou o frasco de vidro
num canto, para marcar a primeira amputação dolorosa. Os locais dos outros objetos
foram encontrados com rapidez e segurança: a concha, os cogumelos em fieira, o
manequim, a pérola, o pintarroxo, o relógio, a sineta, o humilde botão arrancado da
roupa do Turco decapitado.
Um compartimento permanecia vazio. Claude pensou em vários itens. Deu um
passo para trás, e avançou indeciso. Pegou alguns mecanismos salvos do Turco. Não
cabiam. Por mais de uma hora, ele olhou para o compartimento vazio, tentando
preenchê-lo com algo significativo. Não conseguiu. No final, ele decidiu que adicionar
outro objeto arruinaria a integridade, o equilíbrio orgânico do arranjo.
Quando Marguerite perguntou por que ele resolvera deixar um compartimento
vazio, ele disse: “Como posso representar uma vida inteira, se ainda estou vivo?”.

durante a Revolução Francesa — a Crônica foi publicada meses antes da decapitação — as autoridades governamentais. encomendada pela rainha. e remeti meu trabalho para o italiano troncudo que inspirou minha investigação. Daí os dez capítulos para os dez compartimentos. na Crônica. permiti que os fatos me capturassem. as conquistas de Claude foram registradas por Plumeaux. ele se mostrou alternadamente gentil e crítico. Pelo menos em tese. Felizmente. Plumeaux adaptou as metáforas de relógios para a caixa de curiosidades. Mesmo assim. o que fez até morrer. Sua carreira rendeu um obituário de trinta linhas no Times. eu fechei a tampa de vidro e declarei que o caso estava encerrado. É a forma mais honesta de enganar a si mesmo”. Plumeaux manteve as sessenta partes pré-revolucionárias. em vez dos doze que aparecem no mostrador do relógio? Ao que parece. se ele estivesse mesmo interessado. depois que o Turco Falante foi destruído. Na verdade. Em uma longa carta enviada de uma pequena cidade perto de Gênova. contudo. . Plumeaux enviou uma prova da obra para Claude. com desdobramentos que iam além dos elogios: “Ao que parece. A razão para tanto aparecia no prefácio: “Ao invés de capturar os fatos. o sucesso da empresa permitiu que Claude colecionasse relógios originais e dioramas. até. possuir. sua história de uma invenção resultou na invenção de uma história”. Fugiu para Londres com a família. A nova atividade nunca o interessou como as atividades mecânicas da juventude. O italiano encerrou a carta com uma frase que considerei intrigante. embora não se possa dizer o mesmo de sua grande invenção. com cem minutos cada. um aparelho mecânico vitimado pelo Terror francês”. a qual manteve sua estrutura de relógio que Claude não apreciava. Como ato de subversão. embora o jornal reduzisse a história contada aqui a uma única frase incidental: “Ele também obteve uma certa fama no início da carreira. numa tentativa de reescrever a história. preocupado com o alto custo do papel.PÓS-ESCRITO Claude sobreviveu aos excessos da revolução. Concordei em reunir algumas anotações mais tarde. Sua esperança de um livro que se completasse em 360 páginas foi rejeitada pelo impressor na última hora. Todas elas foram rejeitadas pelo autor. que a devolveu com numerosas sugestões e algumas notas corrigindo erros gritantes. por pouco tempo. Conseguiu. Com aquela observação. com um Cavalheiro Turco Falante. Que o comentário de Plumeaux em seu prefácio sirva de coda para meu próprio projeto. o dia francês possuía dez horas. abrindo uma fábrica de relógios simples e baratos. Eu menciono isso porque há alguns meses eu repeti o gesto de Plumeaux. a grande complication de Breguet. Permiti que os fatos me capturassem. mudaram o sistema de registro das horas. a linha de montagem operada a vapor o deixava meio incomodado. Afirmou que gostaria de saber mais coisas sobre a vida de Claude Page e sua família depois da decapitação trágica. Como o autor justificou os dez capítulos.

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